O que é Ideologia [13]

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Mariena Chaul

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Marilena de Souza Chaui

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IDEOLOGIA 1% edicao 1980

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1982 CenNtenario de monteiro lobato

Copyright @ Marilena de Souza Chaui Capa:

Otavio Roth Felipe Doctors

Caricaturas:

Emilio Damiani

Jlustracao: Joji Kussunoki

brasiliense

Revisao: José E. Andrade

editora brasiliense s.a.

01223 — r. general jardim, 160 Sdo paulo — brasil

INDICE — Partindo de alguns exemploS.....

— Histérico do Termo

sis

para Zé Guie para Ci

PARTINDO DE ALGUNS EXEMPLOS Sistematizando o pensamento filos6fico grego, Aristoteles elaborou algo gue, a partir da filosofia medieval, ficou sendo conhecido como a teoria das duatro causas. Como se sabe, uma das maiores preocupacOes dos fil6sofos gregos era a explicacêo do movimento. Por movimento, os gregos entendiam: 1) toda

mudanca aualitativa de um corpo aualguer (por exemplo, uma semente due se torna arvore, um ob-

jeto branco ague amarelece,

um

animal due adoece,

etc.): 2) toda mudanca auantitativa de um corpo gualguer (por exemplo, um corpo aue aumente de

volume ou diminua, um corpo ague se divida em outros menores, etc.); 3) toda mudanca de lugar ou

locomocëo de um corpo agualguer (por exemplo,a trajetoria de uma flecha, o deslocamento de um

barco, a gueda de uma pedra, o levitar de uma plu-

Marilena de Souza Chaui

ma, etc.); 4) toda gerac&o e corrupc&o dos COFDOS, Isto é, o nascimento e perecimento das coisase dos homens. Movimento, portanto, significa para um grego toda e agualguer alterac&o de uma realidade, seja ela gual for. A teoria aristotélica das guatro causas, tal como foi recolhida e conservada pelos pensadores medievals, é uma das explicacêes encontradas pelo filésofo para dar conta do problema do movimento. Haverla, entdo, uma causa material (a matéria de gue Um corpo é constitufdo, como, por exemplo, a ma-

deira, gue seria a causa material da mesa), a causa formal (a forma gue a matéria possui para consti-

tuir um corpo determinado, como,

por exemplo, a

forma da mesa gue seria a causa formal da madeira), a causa motriz ou eficiente (a acfo ou operac#o gue faz com ague uma matéria passe a ter uma determinada forma, como, por exemplo, guando o marceneiro fabrica a mesa) e, por Gltimo, a causa final (o motivo ou a razfo pela gual uma determinada matéria passou a ter uma determinada forma, COMO, por exemplo, a mesa feita para servir como

altar em um templo). Assim, as diferentes relacêes

entre as guatro causas explicam tudo gue existe, o modo como existe e se altera, e o fim ou motivo para o agual existe. Um aspecto fundamental dessa teoria da causalidade consiste no fato de gue as guatro causas nio possuem o mesmo valor, isto é, sio concebidas como hierarguizadas, indo da causa mais inferior a

O gue é Ideologia

causa superior. Nessa hierardguia, a causa menos va-

liosa ou menos importante é a causa eficiente (a

Ooperacao de fazer a causa material

receber a causa

formal, ou seja, o fabricar natural ou humano)

causa

mais

valiosa

ou

mais

importante

ea

é a causa

final (o motivo ou finalidade da existência de alguma coisa).

Cdo

A primeira vista, essa teoria é uma pura concepmetafisica

ague serve

para

explicar

de modo

coerente e objetivo os fenêmenos naturais (fisica) e

os fenêmenos humanos (ética, politica e técnica). Nada parece indicar a menor relac&o entre a expli-

Cacao causal do universo e a realidade social grega.

oabemos,

porém,

ague a sociedade

grega é escrava-

gista e gue a sociedade medieval se baseia na servidao, isto é, sêo sociedades gue distinguem radicalmente os homens em superiores — os homens livres, ague S$do cidadaos, na Grécia, e senhores feudals, na Europa medieval — e inferiores — os eseravos, na Gréêcia, e os servos da gleba, na dade Média. Mas, o ague teria a concepciSo da causalidade a ver com tal divisdo social? Muita coisa. oe tomarmos o cidad#o ou o senhore indagarmos a gual das causas ele corresponde, veremos ague corresponde a causa final, isto é, o fim ou motivo pelo agual alguma coisa existe é o usu4rio dessa coisa, aguele gue ordenou sua fabricac&o (Dor isso,

na teologia cristê, Deus é considerado a causa final

do

universo, gue

existe

“para Sua

maior glOria e

Marilena de Souza Chaui

honra'”).

Em outras palavras, a causa final estê vin-

culada a idéia de uso e este depende da vontade de guem ordena a producao de alguma coisa. Se, por

outro lado, indagarmos a gue causa corresponde o eSCravO OU O Servo, veremos due corresponde a causa motriz ou eficiente, isto ëê, ao trabalho gracas ao agual uma certa matéria receberd uma certa forma para servir ao uso ou ao desejo do senhor. Compreende-se, entdo, por due a metaffsica das guatro cCausas considera a causa final superior a eficiente, gue se encontra inteiramente subordinada a& primeira. Ndo sê no plano da Natureza e do sobrenatural, mas também no plano humano ou social o trabalho aparece como elemento secundario ou inferior, a fabricacdo sendo menos importante do gue seu Tim. A causa eficiente é um simples meio ou instrumento. Temos, portanto, uma teoria geral para a explicCacao da realidade e de suas transformacOes due, na verdade, é a transposicdo involuntdria para o plano das idéias de relacêes sociais muito determinadas.

entemente

slcao, mas

Se

O

ndo

O

teorico

elabora

sua

teoria, evi-.

pensa estar realizando essa trans-

julga

EE

estar

ea

EE

n

produzindo

gue 'nada devem a& existência

idéias verda-

histérica e.

socialdo pensador. Até pelo contrêrio, o pensador Rg ae

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idéias poderd explicar

julga gue com essas

a pré-

pria sociedade em gue viv vive. U tracos funda-mentais da ideologia consis “8, justamenie, em tO-

mar as idéias como independentes dar da realidade hi ar

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1

O gue é Ideologia

torica e social, de modo a fazer com gue tais idéias expliguem. aguela realidade, aguando na verdade éessa realidade due torna compreensiveis as idélias fe elaboradas. Pi

miles

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Prossigamss com nosso exemplo. Vejamos agora o ague sucede com a teoria da causalidade no mundo moderno, a partir da ffsica elaborada nos sêculos XVIll e XVIlll. Com os trabalhos de Galileu, Francis Bacon e Descartes (entre outros), o pensamento moderno reduziu as guatro causas apenas a duas: a eficiente e a final, passando a dar a palavra “causa” o sentido aue hoje lhe damos, isto é, de operacao ou acdo. A fisica moderna considera gue a Natureza age de modo inteiramente mecênico, isto é, Ccomo um F

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12

Marilena de Souza Chaui

sistema necessdrio de relacêes de causa e efeito, tomando a causa sempre e exclusivamente no sentido de causa motriz ou eficiente. Ou seja, no ha4 causas

finais na Natureza.`No plano da metafsica, porém,

além da causa eficiente, é conservada a causa final, Dois esta se refere a toda acdo voluntaria e livre, ou seja, refere-se & acdo de Deus e a dos homens. A vontade (divina e humana) é livre e age tendo em vista fins ou objetivos a serem alcancados. Assim, a Natureza se distingue de Deus e dos homens (en-

guanto espiritos); é aue ela obedece a leis neces-

sarlas e Impessoais — a causa eficiente define o relno da Natureza como reino da necessidade racional —, enguanto Deus e os homens agem por vonta-

de livre — Deus e os homens constituem o reino da finalidade e da liberdade. Costuma-se dizer due o pensamento moderno representa um grande progresso tebrico, polis ao ellminar as causas finais do plano da Natureza eliminou explicacées antropomêrficas gue impediam o desenvolvimento da ciëncia Fisica. Oue significa a separacdo entre a Natureza — reino da pura necessidade mecënica — e o Homem — reino da pura finalidade e liberdade? Oue “progresso tebrico'”” foi este? Um dos resultados da Fisica moderna foi a possibilidade de explicar o corpo humano (anatêmica e fisiologicamente) como um corpo natural, isto é, movido apenas pela acdo da causalidade eficiente, COmo

uma

maêguina

aue

opera

sem

a intervencio

ma

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O gue é Ideologia

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da vontade e da liberdade. Os corpos sêo automatos governados por leis mecênicas. O corpo humano, dirê Descartes, é um “animal madauina”. O homem surge, entio, como um ser muito

peculiar: por seu corpo, é uma madguina natural e impessoal gue obedece & causalidade eficiente; por

sua vontade (ou por seu espfrito, onde a vontade se

aloja), é uma liberdade gue age em vista de fins li-

vremente escolhidos. Pode, entao, fazer com due seu corpo, atuando mecanicamente, sirva aos TiNS

escolhidos por sua vontade.

Assim,

se do lado da

Natureza nio h4 mais hierarguia de seres e de cau-

sas, do lado humano a hierardguia reaparece pordue a causa final ou livre é superior e mais valiosa do gue a eficiente: o espifrito vale mais do gue o corpo e este deve subordinar-se Aguele. O homem livre ê,

portanto, um ser universal (sempre existiu e sempre

existiré) gue se caracteriza pela unido de um cCorpo

mecanico e de uma vontade finalista. Oual serê a manifestacdo por excelência desse homem livre? Aaguela atividade na agual sua vontade subordina seu corpo para obter um certo Tim — Oo trabalho. O trabalho aparece, assim, Como uma das expressOes privilegiadas do homem como ser natural e espiritual. Como foi possfvel passar da desaualificacdo do

trabalho (na teoria das aguatro causas) & sua nova valorizacdo? Ora, estamos agora diante de uma So-

ciedade due eliminou a escraviddo e a servidëo, uma sociedade onde comeca a dominar um tipo de

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Marilena de Souza Chaui

homem due se valoriza a $i mesmo ndo por seu sangue ou familia (como é o caso do senhor feudal gue vale por sua linhagem), mas por ter adauirido poder econbmico e comecar a adduirir poder politico e prestfgio social como recompensa de seu esforco pessoal, de sua capacidade de trabalho e de poupanca. ËEstamos agora diante do burguës. No entanto, a nova sociedade, ague valoriza o trabalho como unidade do corpo (natureza) e do espirito (vontade livre), ndo é constitufda apenas pelo burguës, mas ainda por outro homem livre. Vejamos o perfil desse outro personagem, tal como Marx o apresenta no capftulo “O segredo da acumulacao primitiva”, n'O Capital. Trata-se do moderno trabalhador livre: ““Trabalhadores livres num duplo sentido, pois jê nio aparecem diretamente Ccomo meios de producdo, como o eram o escravoe O servo, e também ja ndo possuem seus prêéprios meios de producdo, como o lavrador ague trabalha

sua propria terra; livres e donos de si mesmos (....) O regime do capital pressupêe a separacëo entre o trabalhador e a propriedade das condicêes de realizacao de seu trabalho (...) Portanto, o pro-

Cesso due engendra o capitalismo sê pode ser um: O processo de separacdo entre o trabalhador e a

propriedade das condicêes de seu trabalho, procesSO gue, por um lado, converte em capital os meios soclais de vida e de producëo, enguante, por

outro

lado

converte

assalariados”.

os

produtores

diretos

em

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O gue é Ideologia

Estamos, pois, diante do gue se convencionou chamar de homem livre moderno. Notamos, porém, ague esse “homem' sdo dois tipos diferentes de homem: hé o burguës, proprietério privado das condiIcoes do trabalho, e h4 o trabalhador, despojado dessas condicêes, “liberado” da servidëo, mas

também

despojado

visto ague o capital

reproduzir

sua

fonte,

sem

dos

nio

meios

pode

a exploracfo

de trabalhar.

acumular-se

do

trabalho,

é preciso distinguir duas

nem

Ora,

se

aue ë

faces do

tra-

balho, embora tidas como igualmente dignas: de um lado, o trabalho como expressio de uma vontade livre e dotada de fins prêéprios, e, de outro lado, o trabalho como relacêo da ma4auina corporal com

as maduinas

sem vida, isto é. com

as coi-

Marilena de Souza Chaui

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sas naturais e fabricadas. Ora, essas duas faces do trabalho também estardo divididas em duas figuras diferentes: o lado livre e espiritual do trabalho é o burguês, gue determina os fins, enguanto o lado mecanico e corpêreo do trabalho é o trabalhador, simples meio para fins ague Ihe sio estranhos. De um lado, a liberdade. De outro, a “'necessidade”, Sto ê, o autêmato. Vemos, novamente, como idéias gue parecem resultar do puro esforco intellectual, de uma elaboracdo tebrica objetiva e neutra, de puros conceitos nascidos da observacêo cientffica e da especulac&o metafisica, sem agualguer laco de dependência com as condicOes sociais e histêricas, so, na verdade, expressOes dessas condicêes reais, porém de modo invertido e dissimulado. Com tais idéias pretende-se explicar a realidade, sem se perceber gue so elas due precisam ser explicadas pela realidade.

O real nao é constitu/do por coisas. Nossa experiëncia direta e imediata da realidade nos leva a

imaginar gue o real é feito de coisas (sejam elas naturais ou humanas), isto é, de objetos ffsicos, psfagulIcos, culturais oferecidos 4 nossa percepcëo e aS NoSSas vivências. Assim, por exemplo, costumamos dizer gue uma montanha

é real porague é uma coisa. No entanto,

O gue é Ideologia

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Oo simples fato de ague essa “'coisa” possua um nome, gue a chamemos “montanha”, indica gue ela é, pelo menos, uma “'coisa-para-n6s'”, isto é, algo ague possui um sentido em nossa experiëncia. SUponhamos due pertencemos a uma Sociedade

ee

eeeg

cuja religido é politefsta e cujos deuses sio imaginados com formas e sentimentos humanos, embora

superiores aos dos homens, e gue nossa sociedade eXprima essa superioridade divina fazendo com gue os deuses sejam habitantes dos altos lugares. A montanha jê no é uma coisa: é amorada dos deuses. Suponhamos, agora, gue somos uma empresa cCapitalista gue pretende explorar minério de ferro e aue descobrimos uma grande jazida numa montanha. Como empresdrios, compramos a montanha. due, portanto, ndo ê uma coisa, mas propriedade privada. Visto aue iremos explord-la para obtencdo de lucros, nio é uma coisa, mas capital. Ora, sendo propriedade privada capitalista, sê existe como tal se. for lugar de trabalho. Assim, a montanha nio é coisa, mas relac&o econêmicae, portanto, relacdo social. A montanha, agora, é matéria prima num conjunto de forcas produtivas, dentre as dguais se destaca o trabalhador, para guem a montanha é lugar de trabalho. SUponhamos, agora, gue somos pintores. Para nés, a montanha é forma, cor, volume,

linhas, profundidade

Um campo de visibilidade.

— n&o é uma CoISa, mas

Nêo se trata de supor gue h4, de um

'coisa'”

fisica

ou

material

e, de outro,

lado, a

a “'coisa”

Marilena de Souza Chaui

como idéia ou significacdo. No hê, de um lado, a coisa em-si, e, de outro lado, a colisa para-noOs, mas entrelacamento do ffsico-material e da significacëo, a unidade de um ser e de seu sentido, fazendo com aue aauilo ague chamamos “coisa” seja sempre um campo significativo. O Monte Olimpo, o Monte Sinai sëo realidades culturais tanto aguanto as Sierras para a histêria da revolucdo cubana ou as montanhas para a resistência espanho-

la e francesa, ou a Montanha Santa Vitêria, pintada por Cézanne. O aue nio impede ao geëlogo de estud4-las de modo diverso, nem ao capitalista de reduzi-las a mercadorias (seja explorando seus recursos de matéria prima, seja transformando-as em objeto de turismo lucrativo). O aue dissemos sobre a montanha, podemos também dizer a respeito de todos os entes realis. So formas de nossas relacêes com a natureza mediadas por nossas relaces sociais, sdo seres culturais, campos de significacio variados no tempo e no espaco, dependentes de nossa sociedade, de nossa social

classe social, do trabalho,

de nossa posicdo dos investimentos

na divisdo simbolicos

gue cada culturd imprime a si mesma atraves das coisas e dos homens. sto, porém, nio implica em afirmar o oposto, isto é, se o real nio é constitufdo de coisas, entêo serê constitufdo por idéias ou por nossas repre-

sentacëes das coisas. Se fizéssemos tal afirmacao, estar/famos

na ideologia em

estado puro, pois para

19

O gue é Ideologia

esta das cCulo O

ultima a realidade é constitufda por idéias, aguais as coisas seriam uma espécie de receptaou de encarnacdo provisoria. empirismo (do grego empeiria, ague significa:

experiëncia dos sentidos) considera gue o real sêo

fatos ou coisas observêveis e gue o conhecimento da realidade se reduz a& experiëncia sensorial ague temos dos objetos cujas sensacêes se associam e formam idéias em nosso cérebro. O idealista, por Sua vez, considera gue o real sdo idélas ou representacOes e due o conhecimento da realidade se reduz ao exame dos dados e das operacêes de nossa conscliência ou do intelecto como atividade produtora de ideias gue dao sentido ao real e o fazem existir para nos. Tanto num caso como no outro, a realidade é considerada como um puro dado imediato: um dado dos sentidos, para o empirista, ou um dado da conscIëncia, para o idealista. Ora, o real nio é um dado sensfvel nem um dado intellectual, mas é um processo, um movimento temporal de constituiCdo dos seres e de suas significaces, e esse processo depende fundamentalmente do modo como os homens se relacionam entre si e com a natureza. Essas relacêes entre os homens e deles com a natureza constituem as relacêes sociais como algo produzido pelos prêéprios homens, ainda aue estes nio tenham consciëncia de serem seus Unicos autores.

É, portanto, das relacëes sociais gue precisamos partir para compreender o gué, como e por gue os -

Pe

Marilena de Souza Chaui

20

homens agem e pensam de maneiras determinadas,

sendo capazes de atribuir sentido a tais relacêes, de conservê-las ou de transforma-las. Porém, novamente, ndo se trata de tomar essas relacOes como um dado ou como um fato observavel, pois neste caso estarfamos em plena ideologia. Trata-se, pelo contrario, de compreender a propria origem das relacoes sociais, de suas diferencas temporais, em uma palavra, de encarê-las como processos histéricos.

Mas, ainda uma vez, no se trata de tomar a historia como sucessdo de acontecimentos factuais, nem como evolucdo temporal das coisas e dos ho-

mens,

nem

como

um

progresso de suas idéias e

realizacêes, nem como formas sucessivas e cada vez melhores das relacêes sociais. A histéria no é sucessdo de Tatos no tempo, no é progresso das idéias, mas o modo como homens determinados em condicoes determinadas criam os meios e as formas de sua existência social, reproduzem ou transformam essa existência social gue é econdmica, politica e cultural. A histêria é praxis (no grego, praxis significa um modo de agir no dual o agente, sua acdo e o produto de sua acdo sdo termos intrinsecamente ligadose dependentes uns dos outros, n4do sendo possivel

separa-los). Nesta perspectiva, a histêria é o real e o real é Oo movimento incessante pelo agual os homens, em condicêes due nem sempre foram escolhidas

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O gue é Ideologia

por eles, instauram um modo de sociabilidade e procuram Tfix4-lo em instituicêes determinadas

(familia, condicêes de trabalho, relacêes politicas, instituicêes religiosas, tipos de educacëo, formas

de arte, transmissio Além

dos costumes,

de procurar fixar seu modo

|fngua, etc.).

de sociabilidade

através de instituicées determinadas, os homens produzem idéias ou representacêes pelas auais procuram explicar e compreender sua propria

vida

individual,

reza e com

social,

suas

o sobrenatural.

relacêes

com

Essas idédias ou

a natu-

repre-

il

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EG. EE PES Bi

ele

sentacOes, no entanto, tenderëo a esconder dos homens o modo real como suas relacêes sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de explo-

racao econbmica e de dominacio polftica. Esse ocultamento da realidade social chama-se ideologia. Por seu intermédio, os homens legitimam as condicOes soclais de exploracëo e de dominac&o, fazendo COm due parecam verdadeiras e justas. Enfim, também é um aspecto fundamental da existência histOrica dos homens a acdo pela gual podem ou reproduzir as relacêes sociais existentes, ou transfor-

ma-las, seja de maneira radical (auando fazem uma revoluc#o), seja de maneira parcial (auando fazem

reformas).

Nossa tarefa serd, pois, a de compreender Dor gue a ideologia é possfvel: gual sua origem, guais seus TINS, guais seus mecanismos e guais seus efeitos historicos, isto é, sociais, econêmicos, Dolfticos

e culturais.

HISTORICO DO TERMO

O termo ideologia aparece pela primeira vez em 1801 no livro de Destutt de Tracy, Eléments d'ldéologie (Elementos de ldeologia). Juntamente com o médico Cabanis, com De Gérando e Volney, Destutt de Tracy pretendia elaborar uma ciëncia da gênese das idéias, tratando-as como fenbmenos naturais gue exprimem a relacao do corpo humano, enguanto organismo vivo, com o meio ambiente. Elabora uma teoria sobre as faculdades sensiveis, responsdveis pela formacdo de todas as nossas idéias: guerer (vontade), julgar (razao), sentir (percepc#o) e recordar (memêria). Os ide6logos franceses eram antiteolbgicos, antiao Pertenciam e antimondrauicos. metaffsicos partido

liberal

e esperavam

due

o

progresso

das

ciëncias experimentais, baseadas exclusivamente na observacëo, na andlise e sintese dos dados obserEE

ee

23

O gue é Ideologia vados,

pudesse

levar

a uma

nova

pedagogia

e a

uma nova moral. Contra a educacdo religiosa e metaf(sica, gue permite assegurar o poder politico de um monarca, De Tracy propëêe o ensino das ciëncias ffsicas e aufmicas para “formar um bom espifrito”, isto é, um espifrito capaz de observar, decompor e recompor os fatos, sem se perder em vazias especulacêes. Cabanis pretende construir ciëncias morais dotadas de tanta certeza duanto as naturais, capazes de trazer a felicidade coletiva e de acabar com os dogmas, desde aue a moralldade ndo seja separada da Tfisiologia do corpo humano. Nos Elementos de ldeologia, na parte dedicada ao estudo da vontade, De Tracy procura analisar OS efeitos de nossas acOes voluntarias e escreve, entio, sobre economia, na medida em aue os efeltos de nossas acBes voluntarias concernem a nossa

aptidio para prover nossas necessidades materials. Procura saber como atuam, sobre o indivfduo e sobre a massa, o trabalho e as diferentes formas da

sociedade,

Suas

isto é, a familia,

consideracêes,

na

a corporacdo,

verdade,

so

alosas

etc.

das

analises do economista frances Say,a respeito da troca, da producëo, do valor, da industria, da

distribuicdo do consumo e das riguezas.

No texto /nfluëncias do moral sobre o ffsico,

Cabanis procura determinar a influência do cérebro sobre o resto do organismo, no auadro puramente fisiolbgico. O ideélogo francés partilha do otimis-

Marilena de Souza Chaui

mo naturalista e materialista do século XVIII, acreditando gue a Natureza tem, em si, as condicOes necessêrias e suficientes para o progresso e gue SO gracas a ela nossas inclinacêes e nossa inteligéncia adaguirem uma direcëo e um Sentido. Os ideëlogos foram partiddrios de Napoleëo e apolaram o golpe de 18 Brumario, pois o julgavam um liberal continuador dos ideais da Revolucëo Francesa. Enaguanto Cênsul, Napoleëo nomeou varlos dos ideëlogos como senadores ou tribunos. Todavia, logo se decepcionaram com Bonaparte, vendo nele o restaurador do Antigo Regime. Opem-se as leis referentes 4 seguranca'do Estado e Sao por isso exclufdos do Tribunado e sua Academia é fechada. Os decretos napoleënicos para a fundacao da nova Universidade Francesa do plenos poderes aos inimigos dos ideëlogos, ague passam, ent&o, para o partido da oposicfio. O sentido pejorativo dos termos “ideologia” e "ideologos” veio de uma declarac&o de Napoleëo due, num discurso ao Conselho de Estado em 1812, declarou: "Todas as desgracas aue afligem nossa bela Franca devem ser atribufdas ê ideologia, essa tenebrosa metaffsica gue, buscando com sutilezas as causas primeiras, aguer fundar sobre suas bases a legislacëo dos povos, em vez de adaptar as leis ao conhecimento

licOes

da

histêria.”

Com

do coracio

humano

isto, Bonaparte

e as

invertia

a imagem ague os ideëlogos tinham de si mesmos-

eles, gue se consideravam

materialistas, realistas e

O gue é Ideologia

antimetafisicos,

25

foram

chamados

de

“tenebrosos

metaffsicos'”, ignorantes do realismo politico gue adapta as leis ao coracëo humano e as licêes da

historia. O curioso, COomo veremos adiante, é gue se a acusacdo de Bonaparte é infundada com relacio aos ideologos franceses, nio o seria se se dirigisse aos

ideologos

alemaes,

criticados

por

Marx.

Ou

seja,

Marx conservard o significado napoleënico do termo: o ide6logo é aaguele due inverte as relacêes entre as idéias e o real. Assim, a ideologia, aue iniclalmente designava uma ciëncia natural da aguisicao, pelo homem, das idéias calcadas sobre o prêéprio real, passa a designar, daf por diante, um sistema de idéias condenadas a desconhecer sua relaCA0 real com o real.

dy ve

O

termo ideologia voltou a ser empregado em um sentido pr6ximo ao do original por Augusto Comte em seu Cours de Philosophie Positive. O termo, agora, possui dois significados: por um lado, a ideologia continua sendo aaguela atividade filos6fico-cientifica ague estuda a formacio das idéias a partir da observacfo das relacêes entre o cCorpo humano e o meio ambiente, tomando como ponto de partida as sensacêes; por outro lado, ideologia passa a significar também o conjunto de

Marilena de Souza Chaui

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idéias de uma @poca, tanto como ''Opiniëo gera guanto no sentido de elaboracëo te6rica dos pensadores dessa época. Como se sabe, o positivismo de Augusto Comte elabora uma explicacdo da transformacao do espirito humano, considerando essa transformacao um progresso ou uma evolucao na gual o espirito passa por três fases sucessivas: a fase fetichista ou teologica, na .aual os homens explicam a realidade através de acêes divinas; a fase metafisica, na gual os homens explicam a realidade por meio de princlfDios gerais e abstratos;e a fase positiva ou cientl(fica, na agual os homens observam efetivamente a realidade, analisam os fatos, encontram as leis gerais e necessêrias dos fenêmenos naturais e huma;

nos e elaboram uma ciëncia da sociedade, a Tfisica social ou sociologia, aue serve de fundamento posi-

tivo ou

para a acfo

cientffico

individual

(moral)

e para a acio coletiva (politica). E a etapa final

do progresso humano. Assim, cada fase do espirito humano o leva a criar um conjunto de idéias para explicar a totalidade dos fenêAmenos naturais e humanos — essas explicacêes constituem a ideologia de cada fase. Nessa medida, ideologia éê sinênimo de teoria, esta sendo entendida como a organizacio sistemêtica de todos os conhecimentos cientificos, indo

desde a formac#o das idéias mais gerais, na matemêtica, até as menos gerais, na sociologia, e as mais

particulares, na moral. Gomo —-

teoria, a ideologia é

|

|

O gue é Ideologia

produzida

pelos sêbios due recolhem as opiniëes

correntes, organizam e sistematizam tais opiniOes e, sobretudo, as corrigem, eliminando todo elemento religioso ou metaffsico due porventura nelas exista. Sendo o conhecimento da formacdo das idéias, tanto do ponto de vista psicol6gico guanto do ponto de vista social, sendo o conhecimento cientffico das leis necessêrias do real e sendo o corretivo das idéias comuns de uma sociedade, a ideologia, enguanto teoria, passa a ter um papel de comando sobre a pratica dos homens, due devem submeter-se aos critérios e mandamentos do terico antes de agir. O lema positivista por excelência é: “saber para Drever, prever para prover'. Em outras palavras, o conhecimento tebrico tem como finalidade a previsdo cientifica dos acontecimentos para fornecer a pratica um conjunto de regras e de normas, graCas AS duais a acdo possa dominar, manipular e controlar a realidade natural e social. A concepcao positivista da 'ideologia como conjunto de conhecimentos tericos possui três CONSEAUÊNCIas Principais:

1) define a teoria de tal modo aue a reduz ê simples organizacao sistematica e hierêrauica de idéias, sem jamais fazer da teoria a tentativa de explicacdo e de interpretacëo dos fenêAmenos naturais

"

e humanos a partir de sua origem real. Para o positivista, tal indagacêo é tida como metaffsica ou teoal

28

Marilena de Souza Chau

|6gica, contrêria ao espirito positivo ou cientffico: 2) estabelece entre a teoria e a prdtica uma relaCo autoritêria de mando e de obediëncia, isto é, a teorla manda porgue possui as idéias e a prêtica obedece porgue é ignorante. Os tebricos comandam e os demais se submetem: 3) concebe a prêtica como simples instrumento Ou COmo mera técnica gue aplica automaticamente regras, normas e princfpios vindos da teoria. A prêtica ndo é acëo propriamente dita, pois nio inventa, ndo cria, ndo introduz situacëes novas due suscitem o esforco do pensamento para compreendéê-las. Essa concepc&o da prêtica como aplicacëo de idéias ague a comandam de fora leva A SUDOSIC4O de uma harmonia entre teoria e acëo. Assim sendo, guando as acbes humanas — individuais e sociais — contradisserem as idéias, ser3o tidas como desordem, caos, anormalidade e perigo para a sociedade global, pois o grande lema do positivismo é: “Ordem e Progresso”. S6 h4 “progresso”, diz Comte, onde houver “ordem', e sê h4 “ordem"” onde a pratica estiver subordinada & teoria, isto é, ao conhecimento cientffico da realidade. Se examinarmos o significado final dessas conseguências, perceberemos ague nelas se acha implicita a afirmacdo de ague o poder pertence a guem possui o saber. Por este motivo, o positivismo declara ague uma sociedade ordenada e progressista deve ser dirigida pelos aue possuem o esDIrito

i

O aue é Ideologia

29

cientffico, de sorte gue a politica é um direito dos sabios, e sua aplicac&o, uma tarefa de técnicos ou administradores competentes. Em uma palavra, Oo positivismo anuncia, no século XIX, o advento da tecnocracia, gue se efetiva no século XX. VereMOS, COM Oo marxismo, como a concepcio positivista de ideologia é, ela prêpria, ideolêdgica. *

RR

Vamos reencontrar o termo “ideolêgico” no capitulo II do livro de Durkheim, Aegras para o Meêtodo Sociol6gico. CLOmo se sabe, Durkheim tem a intencio de criar a sociologia como ciëncia, isto é, como conhecimento racional, objetivo, observacional e necessdrio da sociedade. Para tanto, diz ele, é preciso tra-

tar o fato social como uma coisa, exatamente como

Oo cientista da Natureza trata os fenêmenos naturais. Isto significa gue a condicëo para uma sociologia cientifica é tomar os fatos sociais Como desprovidos de interioridade, isto é, de subjetividade, de modo a permitir gue o sociélogo encare uma realidade, da agual participa, como se nio fizesse parte dela. Em outras palavras, a regra fundamental da objetividade cientffica sendo a da separacdo entre sujeito do conhecimento e objeto do conhecimento, Separacdo due garante a obijetividade porague

garante a neutralidade do cientista, Durkheim cha-

Marilena de Souza Chau

30

mard de ideologia todo conhecimento da sociedade

gue nio respeite tais critérios. Para o soci6logo cientista, o ideolêbgico é um

resto, uma sobra de idéias antigas, pré-cientfficas. Durkheim as considera como preconceitos e pré-nocOes inteiramente subjetivas, individuais, “nocOes vulgares” ou fantasmas gue o pensador acolhe porague fazem parte de toda a tradic#o social onde esta inserido. Essa atitude é ideolêgica por trêés motivos: em primeiro lugar, porague é subjetiva e tradicional, revelando gue o pensador nio tomou disténcia com

relacëo a& sociedade due lugar, porague, formando prévias do cientista suas tos, a ciëncia acaba indo do deve

vai estudar; em segundo toda a bagagem de idéias pré-nocêes ou pré-conceidas idéias aos fatos, guan-

ir dos fatos as idéias; e, em

terceiro lugar,

pordgue, na falta de conceitos precisos, o cientista usa palavras vazias e as substitui aos verdadeiros fa-

tos due deveria observar. A ciëncia é substitufda pela invencio pessoal e por seus caprichos, ou, como diz Durkheim, a arte ocupa o lugar da ciëncia (entendendo-se por arte a engenhosidade, e ndao, evidentemente, as “'belas-artes””). O grande princfpio metodolégico aue permite tratar o fato social como coisa e liberar o cientista da ideologia é: “'Tomar sempre para objeto da investigacdo um grupo de fenéAmenos previamente isolados e definidos por caracter(sticas exteriOres

gue Ihe sejam comuns e incluir na mesma

investi-

O gue é Ideologia

jl

gacdo todos os gue correspondem a essa definicio”.

Assim,

o Tfato

social, convertido

em

coisa cientf-

fica, nada mais é do gue um dado, previamente iso-

lado, classificado e relacionado com outros Dor meio da semelhanca ou constência das caracterlfsticas externas. Esse objeto imêvel, dado, acabado, é conhecido guando classificado, comparado e submetido a leis de fregtuëncia e de constincia. Veremos adiante gue essa concepcëo imobilizada e exterlorizada do objeto social é um positivismo ideolêgico. |remos ver, a seguir, gue a ideologia nio é sinênimo de subjetividade oposta Aa objetividade, ague ndo ë pré-conceito nem pré-noc3o, mas due é um 'fato'” social justamente porague é Produzida pelas relacbes sociais, possui razêes muito determinadas para surgir e se conservar, nio sendo um amontoado de idéias falsas ague prejudicam a cClência, mas uma certa maneira da producëo das idéias pela sociedade, ou melhor, por formas histêricas determinadas das relacêes sociais.

A CONCEPCAO MARXISTA DE IDEOLOGIA Embora Marx tenha escrito sobre a “ideologia em geral'', o texto onde realiza a caracterizacio da ideologia tem por tftulo: A /deologia Alemê. Isto significa gue a andlise de Marx tem como objeto privilegiado um pensamento historicamente determinado, aual seja, o dos pensadores alemëes posteriores a Hegel. Essa observacio é importante por dois motivos. Em primeiro lugar, porgue, como veremos, Marx nao separa a producdo das idéias e as condicêes so-

clais e histêricas nas guais sio produzidas (tal separacao, aliës, é o gue caracteriza a ideologia). Em se-

gundo lugar, porgue para entendermos as crfticas de Marx precisamos ter presente o tipo de pensa-

mento

determinado

due

ele examina

e gue,

no

caso, pressupoe a filosofia de Hegel. Assim, embora EE

ee

ee

O gue é Ideologia

Marx cologue na categoria de ide6logos os pensadores franceses e ingleses, procura distinguir o tipo

de

ideologia

gue

produzem:

entre

Os franceses,

a

ideologia é sobretudo politica e jurfdica, entre os ingleses é sobretudo econêmica. Os ideëlogos ale-

maes s&o, antes de tudo, filésofos. Se, portanto, podemos falar em ideologia em geral e na ideologia burguesa em geral, no entanto, as formas ou modalidades dessa ideoiogia encontram-se determinadas pelas condicêes sociais particulares em due se encontram os diferentes pensadores burgueses.

sabemos aue Marx dirige duas crfticas principais aos ide6logo maes, (Feuerbach, F. Strauss, Max

Stirner, Bruno

primeira é a de

aue

Bauer entre os principais). A

esses fil6sofos tiveram a

Dre-

tensdo de demolir o sistema hegeliano imaginando gue bastaria criticar apenas um aspecto da filosofia de Hegel, em lIugar de abarcé-la %

ER

me

ur

ar

ma

EE

aal ME

Gom isto, os chamados criticos hegelianos apenas substituiram a dialética hegeliana por uma fraseo-

logia sem sentido e sem consistência (com excecio

de Feuerbach, respeitado por Marx, apesar das cr(-

ticas gue Ihe faz). A

segunda

crftica

defio doe toieu um Epese coNVverte

é a de

ague cada um

de

desses

u esse aspecto numa idéia universal e pas-

ou a deduzir todo o real desse aspecto idealizado.

gue todo ideëlogo faz (isto é, deduzir o real das idéias desse real), ainda imaginaram estar Criticando ee

Marilena de Souza Chai

Hegel e a realidade alema simplesmente por terem escolhido novas idéias aue, como demonstrara Marx, ndo criticam coisa alguma, ignoram a Tilosofia hegeliana e, sobretudo, ignoram a realidade historica alema. No restante da Europa, escreve Marx,-ocorrem verdadeiras revolucëes, mas na Alemanha a Gnica revolucfo gue parece ocorrer é a do pensamento, “uma revoluc&o frente & aual a Revolucëo Francesa ndo Toi sendo um brinauedo de criancas” Marx. afirma gue para compreendermos a pegue-

hezae limitacêo mesauinha da ideologia alema é preciso sair da Alemanha, ou seja, fazer algumas consideracOes gerais-sobre o fenbmeno da ideoloea

om

mg EE

gia. Essas

solo

consideracêes,

a sociedade

embora

capitalista

tenham

européia

do

como

século

X1X, têm como pano de fundo a guestdo do conhecimento histêrico ou a ciëncia da histêria, pois, eSCreve Marx, * conhecemos apenas uma Unica ciëncia, a cl ria, A histéria pode ser examinada SOD dois aspectos: historia da natureza e Nisto-

ml

EL

Mag.

mei.

separêveis;

da natureza

enguanto

exIstirem

homens,

a Kl

e a histêria dos homens

se conNdicio-

nao

mas teremos

naro mutuamente. A histéria da natureza, ou ciën-

cia

natural,

nos

inNteressa

aaui,

gue examinar a histêria dos homens, pois guase toda ideologia se reduz ou a uma concepcêo distorcida desta historia ou a uma abstracëo completa

dela. A propria ideologia ndo é sendo um dos aspeCEE

EE

ee

EN

AI

O aue é Ideologia

|

As

tos desta histéria”.

“—Sabemos gue Marx concebe

conhecimento

a historia como um

dialético e materialista da realidade.

social. Sabemos também gue entre as vdrias fontes dessa concepc#o encontra-se a filosofia hegeliana,

criticada por Marx, mas conservada em aspectos essencialis por ele. Para ague a concepcio marxista de historia, da agual depende sua formulacdo de ideologia, figue um pouco mais clara para nés, vale a pena lembrarmos adui alguns aspectos da concepC40o hegeliana. De maneira esaguematica (e, portanto, muito grosseira), podemos caracterizar a obra hegeliana COMO:

1) um trabalho filoséfico para compreendera Origem e o ent es da realidade como Cultura. A Cultura

reza

ME

so a

F

Es

pelo desejo,

as instituicëes

die

Ee

sociais,

Ee

sr ss

mTFE

Me

er

el

EE,

EE

ETER

homens

EE

mr

com

a Natu-

trabalho e pela ee

o Estado, a religiëo, a arte,

a ciëncia, a filosofia JE ou o real enguanto manifestacëo do Espfrito, Nao se trata, segundo Hegel,

de dizer gue o Espfrito produz a Cultura, mas sim de ague ele é a Cultura, pois ele existe encarnado nela; 2) um trabalho filosêfico ague define o real pela Cultura e esta pelo movimento de exteriorizacio e de interiorizac&o do Espifrito. Ou seja, o Espfrito S&e.manifesta nas na obras gue produz sto sua exTé-

riorizac&o) e guando sabe ou reconhece gueé o produtor delas, interioriza-(compreende) essas obras

36

Marilena de Souza Cha

porgue

sabe

gue

elas sio ele prêprio.

Por

isso o

real é histérico. Ele no tem histêria, nem estd na histêria, mas é histêria: 3) um trabalho filoséfico gue revoluciona o concelto de histria por três motivos:

—.em primeiro lugar, porgue n#o pen as hisa têria

COMO UMa Sucessdo continua de fatos no tem-

DO, Pois o tempo nio é uma sucessio de instantes (antes, agora, depois; passado, presente, futu-

ro), nem é um recipiente vazio onde se alojariam OS acontecimentos, mas é um movimento dotado de forca interna, criador dos acontecimentos. Os

acontecimentos néo estio no tempo,

o tempo;

— em segundo

lugar, porgue

mas sêo

ER

n#o pensa a histêria

COMO Uma sucessdo de causas e de efeitos, mas COMO UM processo dotado de uma forca ou de motor interno gue pProduz os acontecimentos. Esse motor interno é a contradicdo. Em geral, confundimos contradicëo e OpOSic4o, mas am bos

SAO cOnceitos muito diferentes. Na Oposicdo existem dois termos, cada dual dotado de suas DrOprias caracterfsticas e de sua Dropria exi stência, e gue se opêem guando, por algum motivo , se encontram. lIsto significa gue, na OPOSICSO, podemos tomar os dois termos separadamente,

entender

OpOrdO

MOS

guer

cada

um

deles,

se se encontrarem

perceber

haja ou

due

nêo

entender

DOr

ee, sobretudo,

eles existem

ague

se

pode-

e se CONServam,

haja a oposicso. Assim, por

UI

O gue é Ideologia

3]

exemplo,

poder/amos

imaginar

ague

os

termos

'senhor”” e “escravo” $&o opostos, mas isto nio

nos impede de tomar cada um desses conceitos separadamente, verificar suas caracterfsticas e

compreender por ague se opêem. A contradicso, porém, ndao é isto. Na contradicdo sê existe a relacao, isto é, ndo podemos tomar os termos antagOnicos fora dessa relacëo. S#o criados por essa relacao e transformados nela e por ela. Além

disso, a contradic&o opera com uma forma muito determinada de negac&o, a negacio interna. Ou seja, se dissermos “0 caderno nio é o livro”', essa negacdo é externa, pois, além de nio definir gualguer relac&o interna entre os dois termos, gualguer um deles pode aparecer em outras negacOes, visto gue podemos dizer: “'o caderno nio é o livro, n&o é a pedra, nio é a Casa, nao é o homem, etc., etc.”. A negac&o é interna guando Oo gue é negado é a prêépria realidade de um dos termos, por exemplo, dauando dizemos: “A &ë Ndo-A'. $6 h4 contradic&o guando a negacso ë interna e aguando ela for a relacëo Oue define uma realidade ague é em si mesma dividida num P6lo positivo e num pélo negativo, p6lo este due

é o negativo daaguele positivo e de nenhum

tro. Por exemplo, guando

dizemos

ou-

“a canoa éa

ndo-arvore”', definimos a canoa por sua negacao

interna,

ela é a drvore

negada, suprimida como

arvore pelo trabalho do canoeiro. O trabalhn do canoeiro consiste em negar a dvore como uma

38

Marilena de Souza Chau

coisa natural, transformando-a ou cultural, isto é, na canoa.

em coisa humana Numa relacao de

contradicado, portanto, os termos due se negam um ao outro sê existem nessa negacao. Assim, o escravo é o ndo-senhor e o senhor é o nao-eseravo e sê haver4 escravo onde houver senhor e sê haverê senhor onde houver escravo. Podemos dizer ague o escravo nado é a pedra e due o senhor nao Ë o cavalo, mas essas negacOes externas nao nos dizem o gue sdo um senhore um escravo. Somente aguando o senhor afirma ague o escravo

ndo

é

homem,

mas

um

instrumento

de

trabalho, e somente aguando o escravo afirma sua ndo humanidade, dizendo aue sê o senhor é homem, temos contradicdo. Porém, o aspecto mais fundamental da contradicdo é gue ela é um

motor

temporal:

ou

Seja,

as contradicêes

ndo

existem como Tatos dados no mundo, mas sêo produzidas. A producêo e superacëo das contra-

dicêes é o movimento

da histéria. A producdo

e Superacao das contradicêes revela due o real se realiza como luta. Nesta, uma realidade é pro-

duzida ja dividida, ja fraturada num pélo positivo e num polo due nega o primeiro, essa negacéo sendo a luta mortal dos contrarios e gue SO termina auando os dois termos se negam inteiramente um ao outro e engendram uma sfntese. Esta é uma realidade nova, nascida da luta interna da realidade anterior. Mas essa sintese ou realidade nova também surgira fraturada e reabre

s AE ER “MEd n meid Em EE

TEE T

-

39

O gue é Ideologia

a luta dos contraditêrios, de sua negacao reclproca e da criacdo de uma nova sintese; em terceiro lugar, portanto, porgue nao pensaa histéria como sucessdo de fatos dispersos due seriam unificados pela consciëncia do historiador, mas, sim, pensa a histéria como processo contraditério

unificado

em si mesmo

e por $i mesmo,

plenamente compreensfvel e racional. Por isso Hegel afirma gue o real é racional e o racional

é real;

4) um trabalho filos6fico ague concebe a historia como histêria do Espfrito. Este comeca se exterlorizando ou se manifestando na producëo das obras Culturais (sociedade, religido, arte, politica, ciëncia,

filosofia, técnicas, etc.) numa perpétua divis&o con-

$igo mesmo, isto é, a producëo do Espifrito sao contradicées ague vdo sendo superadas por. ele e repostas com novas formas por ele mesmo.

Esse trabalho

espiritual prossegue produzindo novas sinteses (novas culturas), até aue se produza a sintese final.

Esta é produzida no momento em aue o Espifrito termina seu trabalho, compreende due o realizZou, gue a Cultura é sua obra, e se reconcilia consigo mesmo. A hist6ria é o movimento pelo dual o ague Oo Esoirito é em si (as obras culturais) se torna o

ague o Espfrito é para si (compreensdo de sua obra como realizac&o sua). Esse momento final cChama-se

filosofia. A filosofia é a Memêria da histêria do Es-

Dfrito, e por isso Hegel diz gue ela comeca apenas aguando o trabalho histérico terminou. Ela é como

40

Marilena de Souza Chaui

o pêssaro de Minerva (a deusa da sabedoria), gue

SO abre asas na hora do creptsculo:

5) um trabalho filoséfico aue pensa a histêria como reflexao. Reflex4o significa: volta sobre si mesmo. Em geral, considera-se gue somente a consciëncia é capaz dessa volta sobre si, isto é, de conhecer-se a si mesma como consciëncia. S6 a conscIëncla seria capaz de reflexfo. Para Hegel, essa reflexao da consciëncia é apenas uma forma menor da verdadeira reflexëo, gue é a do Espirito. Este se exterioriza em obras, mas é Capaz de reconhecer-se como produtor delas, é Capaz de compreender-se ou de. interiorizar sua criacëo. O EsSpIrito ''sai para fora de si”, criandoa Cultura, e ““volta para dentro de si”, reconhecendo sua producdo, fazendo com due o gue ela é, em si, seja também para si. Nesta medida, a histêria é reflex3o. E o Espirito é o Sujeito da histéria, DOIS SOmente um SuJeito é capaz de reflexëo: 6) um trabalho filos6fico gue procura dar conta do fenêmeno da alienacëo. Em geral, considera-se due Oo exterior (as coisas naturais, os produtos do trabalho, a sociedade, etc.) é algo positivo em sie gue se distingue do interior (a consciëncia, o sujeito). Hegel mostra gue o exterior e o interior sio as duas faces do Esplirito, s&o dois momentos da vida e do trabalho do Espfrito. Essas duas faces aparecem como separadas, mas essa separacëo foi produzida pelo préprio Espifrito, ao se exXteriorizar nas obras e ao se interiorizar COmpreendendo

O gue é Ideologia

Al

sua producëo. Ora, guando a interiorizacio nio ocorre, Isto ê, guando o Sujeito nio se reconhece cCOmo produtor das obras e como sujeito da his-

tOria,

mas

toma

as obras e a histéria como

forcas

estranhas, exteriores, alheias a ele e gue o dominam

e perseguem,

temos o gue Hegel designa como al/ie-

nacao. Esta é a impossibilidade do suijeito histêrico identificar-se com sua obra, tomando-a como um poder separado dele, ameacador e estranho: 7) um trabalho filoséfico gue diferencia imediato e mediato, abstrato e concreto, aparência e ser.

Ra RR

ERA

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—E

|mediato,

abstrato

e aparência

sio SiNÊNIMOS:

NO

significam irrealidade e falsidade, mas sim o modo pelo gual uma realidade se oferece como algo dado. cCOmo um Tato positivo dotado de caracteristicas proprias e ja prontas, ordenadas, classificadas e relacionadas por nosso entendimento. Mediato, concreto e ser sdo sInOnimos: referem-se ao processo de constituicêo de uma realidade através de mediacOes contraditêrias. O conhecimento da realidade exige ague diferenciemos o modo como uima realidade aparece e o modo como é concretamente produzida. Vlmediato, abstrato e aparência $Ho momentos do trabalho histêrico negados pela mediaCdo, pelo concreto e pelo ser. Isto significa aue esses termos sdo contraditêrios e reais. Sua sfntese é efetuada pelo espfrito. Essa sintese é o gue Hegel denomina: conceito. Esses vêrios aspectos do pensamento hegeliano

(aagui grosseiramente

resumidos) constituem a dia-

Marilena de Souza Chaui

d2

lética, ou seja, a histéria como processo temporal movido internamente pelas divisêes ou negacOes

(contradic&o)

e cujo Sujeito é o Espfrito como

reflexdo. Essa dialética é idealista porague seu sujelto é o Esplfrito, e seu objeto também é o Esplirito. Em Gltima instência, portanto, a histêria é o movi-: mento de posicdo, negacio e conservacëo das ldéias — unidade do sujeito e do objeto da historia,

gue é Espifrito. Vejamos como opera a dialêtica hegeliana tomando um exemplo da Filosofia do Direito, guando Hegel expêe o movimento de constituicdo da sociedade civil e do Estado. O Espifrito comeca em seu momento natural, isto é, como algo dado ou imediatamente existente: trata-se da existência dos indivfduos como vontades livres ague se reconhecem como tais pelo poder aue têm de se apropriar das coisas naturais através (pela mediacdo) do trabalho. Assim, no primeiro

momento,

existem

os individuos

definidos

COmo proprietêrios de seu corpo e das coisas de gue se apropriam. A regulacao das relacêes entre OS proprietêrios conduz ao aparecimento do Direito, no agual o proprietario é definido como pessoa livre. A pessoa é, portanto, o individuo natural gue é livre porgue sua vontade o faz ser proprietdrio. As pessoas entram em relacdo por meio dos contratos (relacdo entre propriet4rios) e pelo crime (guebra do contrato). No

entanto,

esses indivfduos naturais livres n&o

4 gue é Ideologia

$4o apenas proprietdrios. Isto #, sua vontade livre nAao se relaciona apenas com as coisas exteriores

(propriedade)

e com outros indivfduos exteriores

(os propriet4rios é consciente de si relacione coOnSIgo consciëncia. Esse

contratantes). Sua vontade livre e faz com due cada individuo se mesmo, com sua interioridade ou indivfduo livre interior chama-se

Sujeito. As relacêes entre os sujeitos constituem a Moral. Ora, o Direito e a Moral estio em conflito. Ou seja, OS interesses do proprietêrio estio em conflito com os deveres do sujeito moral, polis o proprietêrio tem interesse em ampliar sua propriedade espoliando e desapropriando outros proprietdrios, tratando-os como se fossem coisas suas e nao homens livres e independentes. E o sujeito moral deve tratar os demais como homens livres e independentes. Ha, pois, uma contradicdo no interior de cada

indivfduo entre sua face-pessoa (proprietdrio) e sua face-sujeito (moral). Isto é, como proprietdrio

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ele se torna nado moral e Como nAao proprietario.

sujeito ele se torna

A resolucao dessa contradicdo se faz em dois mOomentos: no primeiro,surge a famlflia e, no segundo, surge a sociedade civil. As individualidades naturais imediatas $&0 inte-

gradas

numa

realidade

nova

ague faz a mediac&o

entre o indivfduo como pessoa e o individuo como

sujeito. E a familia, gue concilia os interesses dos proprietêrios

e os deveres

dos sujeitos

fazendo-os

Marilena de Souza Chau

EE

interesses coletivos da familia e deveres comuns dos membros da familia (deveres paternos, maternos, fraternos e filiais). Surge uma vida comunitdria e Hegel a denomina: unidade do Espfrito Subjetivo. No entanto, a existência de mualtiplas familias reabre a contradicfo. Esta, agora, se estabelece entre o membro da familia e o nio membro da familia. A luta entre as familias constitui o primelirO momento da sociedade civil.

A sociedade civil resolve as lutas familiares crian-

do a diferenca entre os interesses piblicos e os Drivados, e regulando as relacêes entre eles através do Direito (publico e privado). A sociedade civil é a negacao da familia. Isto nio significa ague a familia deixou de existir, mas significa apenas due a realidade da familia n4o depende dela propria, mas é determinada pelas relacêes da sociedade civil. lsto significa gue o indivfduo social nio se define como membro da familia (como pai, mêe, filho, irmao), mas se define por algo due desestrutura a familia: as classes sociais.

A sociedade civil é constitufda por três classes, a primeira das guais se encontra ainda amarrada ê familia, enguanto a terceira jê nio possui dgualguer relacdo com a vida familiar, mas é inteiramente definida pela vida social. A primeira é aristocracia Ou

nobreza,

proprietêria da terra e due se conser-

va justamente pelos lacos de sangue e pela linhagem (por isso ainda est4 pr6xima da familia). A terceira, ague Hegel denomina de classe universa l,

O gue é Ideologia

45

é a classe média constitufda pelos funciondrios do Estado (governantes, dirigentes, magistrados, professores, Tfunciond4rios publicos em geral). Entre essas duas classes, existe uma, intermediëria, e gue é Oo coracdo da sociedade civil: a classe formal, isto @ê, os indivfduos aue vivem da induistria e do coméêrcio, do trabalho prêéprio ou do trabalho

alheio.

Formam

as corporacêes (sindicatos) e seus

interesses definem toda a esfera da vida civil. Atra-

vés (pela mediac&o) das classes sociais, a sociedade civil nega o indivfduo isolado (pessoa e sujeito)e o

indivfduo

como

membro

da

familia,

fazendo-o

aparecer como (individuo membro da sociedade e pertencente a uma classe social. A unidade ou sfntese do proprietêrio, do suieito e do membro da familia chama-se, agora, o cidad&o. Ora, entre os cidadaos (ou seja, entre as classes sociais) existem conflitos e se reabre a contradic#o. Agora, a contradicao se estabelece entre os interesses de cada classe social e os das outras, e entre Os interesses

dos

seja,

proprios

ressurge,

membros de

modo

de

uma

classe

social.

Ou

novo, a contradic&o entre

Oo privado (cada classe) e o publico (todas as classes). A resoluc&o dessa contradicëo é feita pelo

Estado. O Estado constitui a unidade final. Ele sintetiza numa realidade coletiva a totalidade dos interesses individuais, familiares, sociais, privados e puiblicos. Somente nele o cidadëo se torna verdadeiramente real e somente nele se define a existência social e N

Marilena de Souza Chau

46

moral dos homens. O Estado é o Espfrito Objetivo. O Estado é uma comunidade. Mas difere da comunidade familiar e da comunidade das classes sociais (suas corporaces), poraue no possui nenhum interesse particular, mas apenas os interesses

comuns e gerais de todos. Ê uma comunidade uni-

versal (isto é, seus interesses nio sendo particulares, desta ou daguela familia, deste ou daauele individuo, desta ou daaguela classe, $do interesses universais). O Estado n#o é, pois, um dado imediato da vida social, mas um produto da sociedade enguan-

to Espifrito Subjetivo gue busca tornar-se Espirito Objetivo. O Estado é a /ddia politica por excelência, uma das mais altas sfnteses do Espfrito. Nele se harmonizam os interesses da pessoa (proprietdrio), do sujeito (moral) e do cidadao (sociedade e pol(ftica). Ora, enauanto os ideëlogos alemdes se contentam em ridicularizar o sistema hegeliano, permanecendo presos a ele sem o saber, Marx critica radicalmente o idealismo hegeliano e por isso pode conservar sem risco muitas das contribuicêes do pensamento de Hegel. Vejamos como se passa da dialética idealista para a materialista. Da concepcao hegeliana, Marx conserva

o con-

ceito de dialética como movimento interno de producao da realidade cujo motor é a contradicso.

Porém Marx demonstra due a contradicëo no é a do Espfrito consigo mesmo, entre sua face subje-

tiva e sua

objetiva, entre sua exteriorizacio

face

Ramme E

47

O gue é Ideologia

em obras e sua interiorizacao em idéias: a contradicëo se estabelece entre homens reais em condicêes histêricas e sociais reais e se chama /uta de classes. A histéria nao é, portanto, o processo pelo gual o Espirito toma posse de si mesmo, ndo é histéria das realizacdes do Espirito. A histêria ë histéria do modo real como os homens realis Dro-

duzem

Suas condicêes reais de existência. E hist6é-

ria do modo como se reproduzem a Si mesmos (pelo consumo direto ou imediato dos bens natu-

rais e pela procriacdo), como produzem e reproduzem suas relacêes com a natureza (pelo trabaho), do modo como produzem e reproduzem suas relacêes sociais (pela divisdo social do trabalho e pela forma da propriedade, aue constituem

as for-

mas das relacêes de producfo). E também histêria

do modo como os homens interpretam todas essas relacêes, seja numa interpretacdo imaginaria, como na ideologia, seja numa interpretacdo real, pelo conhecimento da histêria ague produziu ou produz tais relacêes. Da concepcio hegeliana, Marx também conser-

va as diferencas entre abstrato/concreto, imediato/ /mediato, aparecer/ser. Tanto assim ague define o concreto como “unidade do diverso, sfntese de muitas determinacêes'”, devendo-se entender o conceito de determinacdo no como sinênimo de con-

junto

COmO

de

propriedades

ou

de caracterfsticas, mas

os resultados gue constituem uma realidade

oi

d8

Marilena de Souza Chau;

no processo pelo agual ela é produzida. Ou seja, enguanto o conceito de “'propriedades” ou de “'caracterfsticas” pressupêe um objeto como dado e acabado, o conceito de '“determinac&o” pressupêe uma realidade como um processo temporal. Na Contribuicëo 4 Crftica da Economia Politica

en O

Capital, Marx afirma gue o método histêrico-

-dialêtico deve partir do ague # mais abstrato ou mais; simples ou mais imediato (o ague se oferece a observac4o), percorrer o processo contraditério

de sua constituic&o reale atingir o concreto como

um sistema de mediacêes e de relacêes. cada vez mals nais complexas e due nunca estdo dadas a observacao. Trata-se sempre de comecar pelo aparecer social e chegar, pelas mediacêes reais, ao ser SOclal. Trata-se também de mostrar como o ser do soclal determina o modo como este aparece aos homens. Assim, por exemplo, a mercadoria serd considerada a forma mais simples e mais abstrata do modo de producéo capitalista, o agual aparece imediatamente para nOS como uma imensa producëo, acumulacdo,

distribuicdo

e consumo

AA analise da mercadoria

de mercadorias.

revelard, por exemplo.

gue hê mais mercadorias do gue supinhamos meira modo

a pri-

vista, pois um elemento fundamental do de produc5o capitalista, o trabalhador, gue

aparece como um ser humano, é, na verdade, uma

mercadoria -trabalho.

— ele vende

no mercado sua forca- de-

O gue é Ideologia

Por outro lado, guando compreendemos agualéêa gênese ou origem da mercadoria (as mediacOes gue a constituem), compreendemos due ndo se trata de

uma coisa tdo simples como aparecia, pois ela ê, ao mesmo tempo, valor de uso e valor de troca. Ela no é uma “'coisa'”, mas um valor. Como valor de uso, parece valer por sua utilidade, e, como valor de troca, Darece valer por $eu preco no mercado.

Ora, as andlises de Marx revelam ague o valor de

uso é inteiramente determinado pelas condicêes do mercado, de sorte due o valor de troca comanda o valor de uso. Ora, o valor de troca ndo é determinado pelo preco como parece & primeira vista. Isto ë, Oo valor da mercadoria nao surge no momento em gue ela comeca a circular no mercado e a ser consumida. Seu valor é produzido num outro lugar: ele é determinado pela guantidade de tempo de trabaho necessdrio para produzi-la. Esse tempo inclui No sê o tempo gasto diretamente na fabricacdo dessa mercadoria, mas inclui o tempo de trabalho neces$êrio para produzir as maduinas, o tempo para exXtraire para transportar a matéria prima, etc. E o gue $ao todos esses ““tempos”? Sao tempos de trabalho da sociedade. Também entra no preco da mercadoria, como parte do chamado custo de producao, o saldrio pago pelo tempo de trabalho do trabalhador gue fabrica essa mercadoria, pagamento gue é feito para ague ele se alimente, se aloje, se vista, se trans-

porte e se reproduza procriando filhos para o mesmo trabalho de produzir mercadorias.

49

50

Marilena de Souza Chaui

Vemos, assim, due o valor de troca da mercadoria, o seu preco, envolve todos os outros tempos anteriores e posteriores ao tempo necessêrio para produzi-la e distribuf-la. No preco da mercadoria estê inclufdo o gasto (f(sico, psiguico e econêmico) para produzi-la. Ela nio é uma coisa, mas trabalho social concentrado. Como estabelecer o valor de troca entre um metro de linho e um duilo de ferro? Ser ““valor” é "valer por algo”, é ser eguivalente. Como estabelecer a eguivalência entre o metro de linho e o guilo de ferro? Por sua realidade material so heterogêneos, por seu valor de uso também sdo heterogêneos. Onde encontrar uma medida comum para dizermos ague um metro de linho eduivale a um duilo de ferro? A edguivalência val ser estabelecida medindo o tempo de trabalho socialmente necessêrio para produzi-los. Ou seja, o tempo de trabalho due envolve toda a sociedade fundarê o valor de

troca.

Vemos,

portanto,

due

o preco

da

ferro,

OS

mercadoria no comêrcio é uma aparência, pois a determinacado do valor dessa mercadoria depende do tempo de trabalho de sua producio e esse tempo envolve o dos demais trabalhos gue tornaram possfvel a fabricacdo dessa mercadoria. Ora, sabemos due o produtor da mercadoria recebe um salêrio, due é o preco de seu tempo de trabalho, pois este também & uma mercadoria. Suponhamos, entdo, due, para fabricar um metro

de

linho

e

para

extrair

um

guilo

de

51

O gue é Ideologia

trabalhadores precisem de 8 horas de trabalho. Suponhamos due o preco desses produtos no mer-

cado seja de Cr$ 16,00. Diremos, entdo, gue cada hora de trabalho eguivale a Cr$ 2,00. Porém, guando vamos verificar gual é o saldrio desses trabalha-

dores, descobrimos aue nio recebem Cr$ 16,00, mas sim Cr$ 8,00. Ha, portanto, 4 horas de traba-

ho aue nio foram pagas, apesar de estarem inclufdas no preco final da mercadoria. Essas 4 horas de trabalho n&o pago constituem a mais-valia, o lucro do proprietêrio da mina de ferro ou do proprietdrio da fêbrica de linho. Formam seu capital.

do .A origem

é o trabalho nao. capital, portanto,

pago. Gracas & mais-valia, a mercadoria nao é um valor de uso e um valor de troca guaiaguer, mas um valor capitalista. Vemos, pois, gue a mercadoria nêo é uma colsa (como aparece), mas trabalho social, tempo de trabalho. E aue nio é agualauer tempo de trabalho,

oo, portantoa mercahpag nao rabal tde mas tempo

doria ocultao fato de aue h4 exploracêo economica. Estamos longe, agora, do aparecer soclal — estamos diante do modo de constituicio real do siste-

ma capitalista. Passamos de algo abstrato e imediato a algo concreto e mediato: passamos da mercadoria como coisa & mercadoria como valor de

uso e de troca, destes & mercadoria como tempo de

trabalho social, deste 4 mercadoria como trabalho n4o pago e, portanto, & forma de relacdo social entre o proprietario privado dos meios de producdo

Marilena de Souza Chaui

e otrabalhador por ele explorado. Da concepcio hegeliana, Marx também conserva

a afirmacao de gue a realidade é histêrica e gue por isso é reflexionante, ou seja, realiza a reflexdo. Em

outras palavras, a realidade é um movimento de contradicbes gue produzem e reproduzem o modo de existência social dos homens, e due, realizando uma volta completa sobre si mesma, pode conduzir a transformacio desse modo de existência social. Ora, aagui surge um problema. Em He Ao havia a menor dificuldade CONSI Oo real cComo.

capaz de reflexdo, pois o real era o Esplirito, o. Espirito era suje e todo it sujeit o o é sujeito porgue

capaz de reflexao. Mas a dialética marxista nioé.

espiritualista ou idealista,e sim materialista. Ora, a matéria, como provam as ciëncias naturais, é algo inerte, constitufdo por relacêes mecënicas de causa e efeito, de partes exteriores umas as outras, sendo inconceblivel supor gue haja interioridade naaguilo gue é material. E reflex&o supêe

uma

interiorizacêo, uma volta sobre si e para den-

tro de si. Como colocar reflex&o na matéria? E gue a matéria

de aue

fala Marx

ndo é a matéria f/sica

ou dufmica, a coisa inerte gue nio possui atividade interna. A matéria de gue fala Marx é a maté-

ria social, isto é, as relacêes sociais entendidas como relacbes de producao, ou seja, como o modo pelo agual os homens produzem e reproduzem suas condicêes materials de existênciae o modo como

pensam e interpretam essas relacëes. A matéria do

od

O gue é Ideologia

materialismo histêrico-dialético so os homens pro-

em condicêes determinadas, seu modo de. duzindo, se reproduzirem como homens e de organizarem suas vidas como homens. Assim sendo, a reflexao nio é impossfvel. Basta gue percebamos due o Sujeito da histêria, seu agente, embora nêo seja o Esma

é sujeito:

sdo

as classes

sociais

em

luta.

As classes sociais nio so coisas nem idéias, mas so relacbes sociais determinadas pelo modo como os homens, na produc4o de suas condicêes materiais de existência, se dividem no trabalho, instauram formas determinadas da propriedade, reproduzem e legitimam aduela divisdo e aguelas formas por meio das instituicêes sociais e polfticas, representam para Si mesmos o significado dessas instituicêes através de sistemas determinados de idéias due exprimem e escondem o significado real de suas relacoes. As classes sociais so o fazer-se classe dos indivfduos em suas atividades econmicas, politicase culturais. a é materialista poraue-seu-motor nao A dié

4” Habeosee Espirito, mas o trabalho material. propriamente dito: o trabalho como relacao dos

homens com a Natureza, para negar as coisas naturals enguanto naturais, transformando-as em Coisas humanizadas ou culturais, produtos do trabalho. Mas o aue interessa realmente a dialética materialista nao ê a simples relacdo dos homens com a

Natureza através

(pela mediacëo)

do trabalho. O

gue interessa é a divisdo social do trabalho e, por-

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Dirito,

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4

Marilena de Souza Chaui

tanto, a relacdo entre os préprios homens através do trabalho dividido. Essa divisdo comeca no trabalho sexual de procriacëo, prossegue na divisZo de tarefas no interior da familia, continua como divisdo entre pastoreio e agricultura e entre estese o coméêrcio, caminha separando proprietdrios das

condicOes do trabalho e trabalhadores, avanca COMO separacdo entre cidade e campo e entre trabalho manual e trabalho intelectual. Essas formas da divisao social do trabalho, ao mesmo tempo em due determinam a divisdo entre proprietêrios e nao proprietarios, entre trabalhadores e pensadores, determinam a formacao das classes socials e, finalmente, a separacdo entre sociedade e politica, Isto @é, entre instituices sociais e Estado. O motor da dialética materialista é a forma determinada das condicêes de trabalho, isto é, das condicêes de producao e reproducao da existência social dos homens, forma aue é sempre determinada por uma contradicdo interna, isto é, pela luta de classes ou pelo antagonismo entre proprietdrios das condicêes de trabalho e nio proprietdrios (servoS, escravos, trabalhadores assalariados). Enfim, da concepcao heaeliana Marx também coNSserva o conceito de alienacio, tendo como refe-

rência as analises de Feuerbach sobre a alienacio

religiosa. Para Feuerbach, a religido é a forma suprema da alienacdo humana, na medida em gue ela é a projecdo da essência humana num Ser superior, estranho e separado dos homens, um poder gue os

mm mm EE

O gue é Ideologia

domina e governa porague ndo reconhecem aue foi criado por eles proprios. Todavia, Marx imprimirê grandes modificacOes nesse conceito. Contra Hegel, dirê gue a alienacao no é do Espirito, mas dos homens reais em condi-

ces

reais.

Contra

Feuerbach

dir4, em

primeiro

lugar, due nio h4 uma “essência humana”, pois o homem é um ser hist6rico ague se faz diferentemente em condicOes historicas diferentes; e, em segundo lugar, due a alienacao religiosa ndo é a forma fundamental da alienacdo, mas apenas um efeito de uma outra alienacdo real, gue é a aliena-

CBo do trabalho.

O trabalho alienado é aguele no.

pode reconhecer-se no produ-tor gual o produnao

to de seu trabalho, porague ascondicêes desse tra-. balho, suas finalidades reais e seu valor nao depen-



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sa

dem do prêprio. trabalhador, mas do proprietrio

do trabalho. Como se n&o bastasse, das condicêes

Oo fato de ague o produtor nao se reconheca no seu Droprio produto, nao o veja como resultado de seu trabalho, faz com due o produto surja como um poder separado do produtor e como um poder ague Oo domina e ameaca. A elaboracio propriamente materialista da alienacdo no modo de produco capitalista é feita por Marx em O Capital. Trata-se do fetichismo da mer#.#. cadoria,,

PBue MK BEFOASTIa? Trabalho humano concen-

da proformaer nd depeda pago, Por do e n4o tra M.

le

ee

priedade privada capitali guesta, separa

o trabalha-

56

Marilena de Souza Chaui

dor dos meios, instrumentos e condices da produ-

Co, a mercadoriaé uma realidade social. No entanme

to,

NN

ai pe

EES EN

Oo trabalhador

e os demais

membros

da socie-

dade capitalista ndo percebem gue a mercadoria, Dor ser produto do trabalho, exprime relacêes $ociais determinadas. Percebem a mercadoria como

uma coisa dotada de valor de uso (utilidade) e de valor de troca (preco). Ela é percebida e consumida cOmo uma simples coisa.

Assim, em lugar da mercadoria aparecer como resultado de relacêes sociais enaguanto relacOes de producëo, ela aparece como um bem due Se cComDra e se consome. Aparece como valendo por si mesma e em si mesma, como se fosse um dom natural das proéprias coisas. Basta entrarmos num Supermercado nos sêbados a tarde para vermos o espetêculo de pessoas tirando de prateleiras mercadorias como se estivessem apanhando frutas numa arvore, para entendermos como a mercadoria desapareceu enduanto trabalho concentrado e nio pago. E como.o dinheiro também ë mercadoria (ague-

la mercadoria ague serve para estabelecer um edui-

valente social geral para todas as outras mercadorias), tem infcio uma relacêo fantdstica das merca-

dorias umas com as outras (a mercadoria Cr$ 18,00 se

relaciona com

a mercadoria

sabonete

Gessy, a

mercadoria Cr$ 5.000,00 se relaciona com a mer-

cadoria menino-aue-faz-pacotes, etc. etc.). As coiDoIS, a Se relacionar sas-mercadorias comecam,

EE SE EE

57

O gue é Ideologia umas com

dotados

as outras como se fossem sujeitos sociais

de vida prépria

(um

apartamento

estilo

“mediterraneo” vale um '“modo de viver”, um cigarro vale um estilo de vida”, um automOvel zero km.

vale “um

jeito de viver”, uma bebida vale “a

alegria de viver”, uma calca vale “uma vida jovem”

etc., etc.). E os homens-mercadorias aparecem COmOo coisas (um nordestino vale Cr$ 20,00 & hora, na construcdo civil, um médico vale Cr$ 2.000,00 a hora, no seu consultêrio, etc., etc.). A mercadoria passa a ter vida prêpria indo da fébrica & loja, da loja & casa, como se caminhasse sobre seus proéprios DES.

O primeiro momento do fetichismo é este: a mercadoria é um fetiche (no sentido religioso da palavra), uma coisa gue existe em si e por si.

Osegundo, momento do fetichismo, mais impor-

tante, é o seguinte: assim como o Tetiche religioso (deuses, objetos, simbolos, gestos) tem poder sobre

E

ER

EE

GE

N

ees EE

ee

d

Seus

Crentes

ou

adoradores,

os domina

Como

as

sociais

uma

forca estranha, assim também a mercadoria. O mundo se transforma numa imensa fantasmagoria. Como,

trabalho? humanos

entdo,

Como

aparecem

e como

relacêes

relacdes

relacêes

materials

entre

soclais entre

de

sujeitos

coisas. E

ecem tais es is apar cê relasocia Marx afirma gue as

como efetivamente sdo. Oue significa dizer gue a aparência social é a propria realidade social? Sig-

aa aa

nifica mostrar lista os

homens

gue no modo de realmente

producëo capita-

sao transformadosDS. em

Marilena de Souza Chaui

EE

N——EE EE EE

Ee er ee

He

mm

mm

“gente, Com efeito, o trabalhador passa a ser uma colsa denominada forca de trabalho aue recebe uma

coisa chamada salêrio. O produto trabalho

outra

gue pospassa a ser uma colIsa chamada mercadoria

sui uma outra coisa, isto é, um rio das condic6es

d e trabalho

preco. 0proprietd-

e dos produtos do.

trabalho passa a ser uma coisa chamada capital, gue pOSSui uma outra coisa, a capacidade de ter lucros. Desapareceram os seres humanos,

ou melhor, eles

existem sob a forma de coisas (donde otermo usado por Lucaks: reificac&o; do latim: res, gue significa coisa).

Em contrapartida, as coisas produzidas e as rela-

cêes entre elas (producëo, distribuicêo, circulacdo, consumo) se humanizam e passam a ter relaces

sociais. Produzir, distribuir, comerciar, acumular, consumir, investir, poupar, trabalhar, todas essas atividades econêmicas comecam a funcionar e a

operar gue

Sozinhas,

por

si mesmas,

com

uma

|ogica

delas proprias, independentemente

emana

dos

homens gue as realizam. Os homens se tornam os. s, —instrumentos delas. suportes dessas operacoeos, sl

EE

Alienacëo, reificacao, fetichismo: é esse processo fantéstico no agual as atividades humanas come-

cam a se realizar como se fossem autênomas ou in-

dependentes

dos

homens

e passam

a dirigir e co-

mandar a vida dos homens, sem due estes possam controld-las. Sdo ameacados e perseguidos por elas.

39

O gue é Ideologia

Tornam-se objetos delas. Basta pensar no trabalhador submetido as 'vontades” da maauina regulada por um ''cérebro eletrênico”, ou no indivfduo due, jogando na bolsa de valores de Séo Paulo, tem sua vida determinada pela falênciade um banco numa cidade do interior da Europa, de gue nunca ouviu falar. Ouando Marx afirma ague as relacbes sociais capitalistas aparecem tais como So, gue o aparecer eo. ser da sociedade

Capitalista se identificaram, ele o.

diz porg ue houve uma gigantesca inversio na. agual o social vira Coisa e a coisa vira social. Ë isto a Re

ME

ma

realidade capitalista. Uma pergunta nos me

aw ER ae EE

EEN

vem

agora:

por due os

homens conservam essa realidade? Como se explica gue ndo percebam a reificacdo? Como entender

due o-trabalhador nêo se revolte contra uma situa-

c40 na gual nio sê Ihe foi roubada a condic3o humana, mas ainda é explorado

naauilo gue faz, pois

seu1 trabalho no pago (a mais-valia) é o gue mantém a existência do capitale do capitalista? Como EE

Fa

eie

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se

EE

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explicar gue essa realidade nos apareca como natu-

i

ral, normal,

N EER

De onde vem

O Obs-

curecimento da existência das contradicêes e dos antagonismos sociais? De onde vem a nao percepRe

EN

racional, aceitvel?

Eg

So dé da existência

das classes sociais, uma das guais ai o——e

vive da exploracSo e dominacio didas outras? A resFo a essas guestes nos conduz diretamente a[Te 6meno da ideologia. kn ag. EE

*

MA

Marilena de Souza Chaui

60

Nas consideracêes sobre ''a ideologia em geral””,

Marx e Engels determinam o momento de surgimento das ideologias no instante em aue a divisdo

social do trabalho separa trabalho material ou manual e trabalho intelectual. Para compreendermos

por ague esta separacio aparecera como independéncia das idéias com relacao ao real e, posteriormente, como privilégio destas sobre aaduele, precisamos acompanhar em linhas gerais o processo da divisdo social do trabalho, tal como Marx e Engels o expêem na /deologia Alema.

Os homens, escrevem

guem

dos

animais

nao

Engels e Marx, se distin-

porague

tenham

consciën-

cia (como dizem os ideëlogos burgueses), mas porgue produzem as condicles de sua prépria existência material e espiritual. So o gue produzem e s&o COmOo produzem.

Essa producëo das condicêes de existência depende de condicêes naturais (as do meio ambiente e as biofisiolêgicas do organismo humano) e do aumento

da

populacao

pela

procriacdo.

Esta,

além de ser natural, ja é também social, pois determina a forma de intercêambio e de cooperac&o entre os homens, forma esta gue, por sua vez, determina a forma da producio na divisdo do trabalho. A producëo e reproducëo das condicëes de exis-

O gue é Ideologia

Go]|

téncia através do trabalho (relacio com a natureza), da divisdo do trabalho (relacio de intercimbio e de

cooperacdo entre os homens), da procriacio (sexualidade e familia), constituem em cada época o

conjunto das forcas produtivas gue determiname so determinadas pela divisao social do trabalho. Essa divisdo, aue jê se inicia na prêépria familia, conduz a separacdo entre pastoreio e agricultura, entre ambos e a industria e entre os três e o coméêr-

cio. Estas separacëes conduzem

A& separac&o entre

cidade e campo, ao mesmo tempo em aue, no inte-

rior de cada esfera de atividade, novas formas de

divisdo do trabalho se desenvolvem. A divisdo social do trabalho nio é uma simples divisdo de tarefas, mas a manifestacdo de algo fundamental na existência histérica: a existência de diferentes formas da propriedade, isto é, a divisdo entre as condicêes e instrumentos ou meios do trabalho e o prêprio trabalho, incidindo, por sua vez, na desigual distribuicao do produto do trabalho.

Numa

palavra: a divisao social do trabalho engen-

dra e é engendrada pela desigualdade social ou pela forma da propriedade. A propriedade comeca como propriedade tribal e a estrutura social é a de uma familia ampliada e hierardguizada por tarefas, funces, poderes e con-

sumo. A segunda forma da propriedade é a comunal ou estatal, Isto é, propriedade privada coletiva dos cidadêos ativos do Estado (Grécia, Roma, por

exemplo), e a estrutura da sociedade é constitui-

Marilena de Souza Chaui

62

da pela divis#o entre senhores (cidadêos) e escravos. Esta separacao permite aos senhores se distanciarem da terra e dos offcios, due ficam a cargo dos escravos — esta separacio leva os senhores a viverem nas cidades e a partir daf se estabelece a separacdo entre a cidade e o campo, de onde resultardo lutas sociais e polfticas. A terceira forma da propriedade é a feudal ou estamental e gue se apresenta como propriedade privada territorial trabalhada Dor servos da gleba, e como propriedade dos instrumentos de trabalho pelos artesaos livres ou ofi-

ciais das corporacêes gue vivem nos burgos (cidades medievais). A estrutura da sociedade cria os proprietarios como nobreza feudal e como oficiais livres dos burgos, e os trabalhadores como servos da terra enfeudada e como aprendizes nas corporaCées dos burgos. Junto a eles, h4 uma figura social intermediëria: o comerciante. As transformacêes dessa estrutura social, ou seja, da forma da propriedade e da divisdo do trabalho, dé origem a& forma

da propriedade gue conhecemos: a propriedade pri-

vada

capitalista.

alcanca

seu

Adui

apice:

de um

privados do capital

e instrumentos

sdo também

a divisdo social do trabalho

lado, os proprietêrios

(portanto dos meios, condicêes

da producëo e da distribuic#o), due

os propriet4rios do produto do traba-

Iho, e, de outro lado, a massa dos assalariados ou dos trabalhadores despossuidos, aue dispêem

exclusivamente de sua forca de trabalho, gue vendem como mercadoria ao propriet4rio do capital. OT hee

63

O gue é Ideologia

Na /deologia Alemé, Marx expêe de modo mui-

to breve a passagem dessas formas da propriedade ou da divisdo social do trabalho, cujas transforma-

cêes constituem

o solo real da histêria real. Nos

Fundamentos para Economia Poliftica, maneira

a Contribuicëo a Critica da Marx retoma a exposicêao de

extremamente

minuciosa,

corrige

vêrias

das afirmacOes feitas na /deologia AlemS. introduz novas determinacêes na forma da propriedade e, sobretudo, define a relac&o de producaëo a partir do processo de constituic&o das forcas produtivas na divisdo

social

do

trabalho,

introduzindo

o concel-

to, inexistente no texto da /deologia Alema, de modo de producëo0. Este ndo é um dado, mas uma forma social criada pelas acêes econêmicas e poli-

ticas dos agentes sociais (independentemente de sua vontade e de sua consciëncia). E o sistema das

relacêes de produc#o e de suas representacOes por meio de categorias jurfdicas, pol iticas, culturais, etc. A consciëncia, prossegue o texto de A /deologia Alemê, estard indissoluvelmente ligada as condides. forCOes materiais de producao da existência Goes mae ees mas

de intercimbio

e de

cooperacdo, e

ms nascem da atividade material. Isto ndo porém, due os homens representem nessas idéias a realidade de suas condicêes materials, mas, ao

contraêrio, representam o modo como essa realidade

Ihes aparece na experiëncia imediata. Por esse motivo, as idéias tendem a ser uma representacao invertida do processo real, colocando como origem

Marilena de Souza Chaui

OU COMO

Causa

cia, e vice-versa.

aguilo ague é efeito ou [email protected]ën-

Assim, por exemplo, a Natureza, tal como se exprime nas idéias da religido natural, nio surge como

relacao dos homens com um meio trabalhado por eles, mas é representada como um poder separado,

estranho,

insondd4vel

acoes humanas.

e ague comanda

de fora

as

Também as relacêes sociais s&o representadas imediatamente pelas idéias de maneira invertida. Com efeito, & medida gue uma forma determinada

da divisao social do trabalho se estabiliza, se fixae se repete, cada indivfduo passa a ter uma atividade determinada e exclusiva ague Ihe é atribufda pelo conjunto das relacêes sociais, pelo estdgio das forcas produtivas e, evidentemente, pela forma da

propriedade. Cada um n&o pode escapar da atividade aue Ihe é socialmente imposta. A partir desse momento, todo o conjunto das relacêes sociais aparece nas idéias como se fossem coisas em si, existentes por si mesmas e no como consegiiëncla das acbes humanas. Pelo contrério, as [email protected]

humanas

Sao

representadas

como

decorrentes

da

socledade, due é vista como existindo por si mesma e dominando os homens. Se a Natureza, pelas

idéias religiosas, se “'humaniza” ao ser divinizada, em contrapartida a Sociedade se “'naturaliza”. isto

é, aparece como um dado natural, necessdrio e eter-

no, e ndo como resultado da praxis humana. “Esta fixacao da atividade social — esta cConsolidacio de Me

mr EE

O gaue é Ideologia

65

NOSSO proprio produto num poder objetivo superior a nos, gue escapa de nosso controle, gue con-

traria

nossas

expectativas

e reduz

a nada

nossos

célculos — ë& um dos momentos fundamentais do desenvolvimento histérico due até agui tivemos”. A Torma inicial da consciëncia é, portanto, a alienacao. E porgue a alienac#o é a manifestacio inicial da consciëncia, a ideologia serd possfvel: as idélas serdo tomadas como anteriores & praxis, COMO superlores e exteriores a ela, como um poder espiritual autênomo due comanda a ac&o materia! dos homens. A divisdo soclai do trabalho torna-se completa guando o trabalho material e o espiritual se separam. oomente com essa divisdo 'a consciëncia pode realmente imaginar ser diferente da consciëncia da praxis existente, representar rea/lmente algo, sem representar aigo real. Desde esse instante, a consciëncia estê em condicêes de emancipar-se do mundo e entregar-se a construcëo da teoria, da teologia, da filosofia, da moral, etc., 'puras'.” Nasce agora a ideologia propriamente dita, isto

ë, Oo sistema ordenado de idéias ou representacêes

e das normas

e regras como algo separado e inde-

pendente das condicbes materiais, visto ague seus produtores — os tericos, os ideélogos, os intelec-

tuais — nao estdo diretamente vinculados & produ-

Co materlal das condicêes de existência. E, sem perceber, exprimem essa desvinculac#o ou separacao ad

através

de

suas

idéias.

Ou

seja:

as idéias

66

Marilena de Souza Chaui

aparecem como produzidas somente pelo pensamento, pordgue os seus pensadores estdo distan-

ciados da producdo material. Assim, em lugar de aparecer due os pensadores estao distanciados do mundo material e por isso suas idéias revelam tal separacao, o gue aparece é due as idéias é gue estdo separadas do mundo e o explicam. As idéias nao aparecem como produtos do pensamento de homens determinados — aagueles due estao fora da producao material direta — mas como entidades auténomas descobertas por tais homens. As idéias podem parecer estar em contradicêo COm as relacOes socials existentes, com o mundo material dado, porém essa contradicao ndo se estabelece realmente entre as idéias e o mundo, mas é uma conseguëncia do fato de gue o mundo social é contraditêrio. Porém, como as contradicêes

reais permanecem

ocultas (s&o as contradicêes en-

tre as relacoes de producao ou as forcas produtivas

e as relacbes sociais), parece gue a contradic&o real

é acguela entre as idéias e o mundo. Assim, por exemplo, faz parte da ideologia burguesa afirmar ague a educacao é um direito de todos os homens. Ora, na realidade sabemos due isto no ocorre. Nossa tendência, entdo, ser a de dizer gue hê uma

contradicao

entre

a idéia de educacëo

e a reali-

dade. Na verdade, porém, essa contradicio existe porague simplesmente exprime, sem saber, uma outra: a contradicdo entre os gue produzem a ri-

agueza material e cultural com seu trabalhoe adgue-

mad FT

O gue é Ideologia

67

les gue usufruem dessas riguezas, excluindo delas os produtores. Porague estes se encontram exclulf-

dos do direito de usufruir dos bens gue produzem, estao exclufdos da educacao, ague é um desses

T rr

bens.

Em

geral, o pedreiro gue faz a escola, o mar-

ceneiro due faz as carteiras, mesas e lousas, so analfabetos e nao têm condices de enviar seus filhos para a escola due Toi por eles produzida. Essa ê a contradicao real, da agual a contradicdo entre a idéia de `'direito de todos 4 educacio” e uma sociedade de maioria analfabeta é apenas o efeito ou a [email protected]ëncia. Em suma, Engels e Marx consideram gue os três aspectos gue sdo condices para gue haja histéria — forca de producio, relacêes sociais e consciëncia — podem entrar e efetivamente entram em contradicdo como resultado da diviso social do trabalho material e intelectual porague, agora, o trabalho ea fruicêo, a producëo e o consumo aparecem cComo realmente sêo, isto 'é, cabendo a individuos diferentes. Instalou-se para a prépria consciëncia imediata dos homens a percepc&o da desigualdade soclal: uns pensam, outros trabalham;: uns Consomem, outros produzem e io podem consumir os produtos de seu trabalho. Outra contradicëo mais aguda surge ainda: a contradicao entre os interesses de um indivfduo ou de uma familia particular e os interesses coletivos. No entanto, diferentemente de Hegel; Marx e En-

gels demonstram —

gue tais interesses nio sio real-

Marilena de Souza Chaui

68

mente

social

coletivos

de

ou comuns,

dependência

mas apenas o sistema

reciproca

dos

individuos

entre os guais o trabalho, os meios e condicêes do

trabalho e os produtos do trabalho estio desigualmente distribufdos. Existem conflitos entre os proprietdrios e existem contradicOes entre os proprietêrios e os nao proprietêrios. Hê oposicdo entre os interesses dos proprietêrios e ha contradic&o entre os interesses de todos os propriet4rios e os de todos os nio pro-

prietêrios. Os conflitos (entre proprietêrios) e a contradicëo (entre proprietdrios e ndo proprietêrios) aparecem para a consciëncia dos Su-

jeitos sociais como se fossem conflitos entre Oo interesse particular e o interesse comum ou geral. Na realidade, porém, h4 antagonismos entre classes sociais particulares, Dois onde houver propriedade privada nio pode haver interesse soclal comum.

“E justamente desta contradic&o entre o interesse particular e o suposto interesse coletivo gue

este uitimo toma, na gualidade de Estado, uma forma autonoma, separada dos reais interesses parti-

culares e gerais e, ao mesmo tempo, na aualidade

de comunidade real

dos

lacos

ilusêria, mas sempre

existentes

em

cada

sobre a base

conglomerado

familiar ou tribal — tais como lacos de sangue, linguagem, divisdo do trabalho em maior escala e outros interesses — e sobretudo, como desenvolveremos

adiante, baseada ag

nas classes sociais jê condi-

Ga

dd mid

O gaue é ldeologia

cionadas pela divisdo social do trabalho, gue se isolam em Cada um desses conglomerados humanos e entre as duais h4 uma ague domina sobre as outras

todas (...) O poder social, isto é, a forca produtiva

unificada multiplicada, gue nasce da cooperacëo de varios indivfduos exigida pela divisdo do trabano, aparece para esses individuos ndo como seu

pr6prio poder unificado, mas como uma forca es-

tranha situada fora deles, cuja origem e cujo destino ignoram e due, pelo contrêrio, percorre agora uma sêrie particular de fases e de estêgios de desenvolvimento, independente do dguerer e do agir dos homens e due, na verdade, dirige esse auerer e esse agir.”” Assim como da divisdo entre trabalho material e intelectual nasce a suposic&o de uma autonomia das idéias, como se fossem ou como se tivessem uma realidade prépria independente dos homens, assim também, da separacdo entre os homens em classes sociais particulares com interesses particulares contraditêrios, nasce a idéia de um interesse geral ou comum due se encarna numa instituicdo

determinada: o Estado. O Estado aparece como a realizacdo do interesse geral (por isso Hegel dizia gue o Estado era a uni-

versalidade da vida social), mas, na realidade, ele é a forma pela agual os interesses da parte mais forte e poderosa da sociedade (a classe dos proprietdrios) ganham a aparência de interesses de toda a

sociedade.

69

70

Marilena de Souza Chaui

O Estado nao é um poder distinto da sociedade, dgue a ordena e regula para o interesse geral defiNido por ele prêprio enduanto poder separado e acima das particularidades dos interesses de classe. Ele é a preservacfo dos interesses particulares da classe ague domina a sociedade. Ele exprime na esfera da polftica as relacêes de explorac3o gue exis-

tem na esfera econbmica.

-

O Estado é uma comunidade ilusêria. |sto no guer dizer gue seja falso, mas sim gue ele aparece COMO comunidade porgue é assim percebido pelos sujeitos sociais. Estes precisam dessa figura unificada e unificadora para conseguirem tolerar a existéncia das divisêes sociais, escondendo gue tais divisoes permanecem através do Estado. O Estado é a exXpressdo politica da sociedade civil enguanto dividida em classes. N#o é, como imaginava Hegel, a Superacao das contradicêes, mas a vitêria de uma parte da sociedade sobre as outras. Como, porém, o Estado nio poderia realizar sua

funcéo apaziguadora e reguladora da sociedade (em beneficio de uma classe) se aparecesse como realizZacao de interesses particulares, ele precisa aparecer

como uma forma muito especial de dominacëo: uma dominacdo impessoal e anênima, a dominacëo exercida através de um mecanismo impessoal due sdo as leis ou o Direito Civil. Gracas as leis, o Esta-

do aparece como um poder gue ndo pertence a nin-

guém.

Por isso, diz Marx, em lugar do Estado apa-

recer como

poder

social

unificado,

aparece

como

71

O aue é Ideologia

um

poder desligado dos homens.

Por isso tambeêm,

em l|ugar de ser dirigido pelos homens, aparece como um poder cuja origem e finalidade permanecem Secretos e aue dirigem os homens. Enfim, como o Estado ganhou autonomia, ele parecer ter sua prépria histéria, suas fases e estagios proprios, da histêria social dependência nenhuma sem efetiva. Estê aberto o caminho para a ideologia politica gue explicaré a sociedade através das formas dos

regimes polifticos (aristocracia, monardguia, democracia, ditadura, anarguia) e gue explicarê a historia pelas transformacêes do Estado (passagem de um regime polftico para outro).

A divisio social, gue separa proprietdrios e destlitu/dos, exploradores e explorados, gue separa intelectuais e trabalhadores, sociedade civil e Estado, interesse privado e interesse geral, é uma situacdo ague nio ser superada por meio de teorlas, nem por

uma transformacio da consciëncia, visto ague tais separacêes nio foram produzidas pela teoria nem

pela consciëncia, mas pelas relacoes soclais de produc&o e suas representacOes pensadas. Assim, a transformacao historica capaz de ultrapassar essas divisêes e as contradicOes gue as sus-

tentam depende de pressupostos (condicêes ou pré-

-condices)

mr

T

postos

ou

prdticos

e ndo tebricos.

pré-condicêes

praticos

Esses pressu-

sdo:

1) surgi-

mento da massa da humanidade como massa inteiramente destitufda de propriedade e em contradi-

12

Marilena de Souza Chaui

CAO com um mundo da cultura e da rigueza produzZido por essa massa due se encontra exclufda da abundancia por ela produzida: é fundamental, diz

Marx, due haja total desenvolvimento das forcas produtivas (capitalistas), isto é, gue tenha sido pro-

duzido um mundo cultural e material abundante, pois, sem isto, a massa revoluciondria teria gue reCOmecar o processo histérico partindo da carência e da escassez, da luta pela sobrevivência material imediata, e seria obrigada a repor as divisêes e con-

tradicoes

aue pretendia superar; 2) gue a divisZo

entre os propriet4rios privados das condicêes de producdo e a massa destitufda seja um fenêmeno universal, de modo ague guando a massa destitufda de um palfs iniciar sua revolucëo seja acompanhada pela revolucdo de todas as massas do planeta: em outras palavras, ê preciso gue o modo de producio capitalista tenha se tornado um processo histérico mundial ou universal para gue uma revolucio plena possa efetuar-se. O capitalismo como mercado mundial é, portanto, o pressuposto pratico do coMUNISMO como sociedade na gual os indivfduos

exercerdo o controle consciente dos poderes gue parecem domin4-los de fora (Natureza, Mercado, Estado). A massa dos explorados enfim compreenderd gue esses poderes foram produzidos pela praxis social e gue, por serem produtos da atividade historica dos homens em condicêes determinadsas, também podem ser destrufdos pela prêtica social

73

O gue é Ideologia

dos homens em condicoes determinadas. Até agora os homens fizeram a histêria, mas sem saber gue a faziam, polis, ao fazé-la em condicOes determinadas gue no foram escolhidas por eles, tomavam tais condicêes como poderes exteriores e dominadores

gue os compeliam

a agir. Com a revolucêo comu-

nista, os homens saberdo ague fazem a historia, mesmo aue ndo tenham escolhido as condices

em due a fazem. Sem as condicêes materiais da revolucao, é inutil a idéia de revolucao, “ja proclamada centenas de vezes'”. Mas sem a compreensdo intelectual dessas condicOes materiais, a revolucao permanece como um horizonte desejado, sem encontrar pratli-

cas gue a efetivem. A histéria ndo é o desenvolvimento das idéias, mas o das forcas produtivas. Nao é a acdo dos Estados e dos governantes, mas a luta das classes. No é histêria das mudancas de regimes politicos, mas a das relacêes de producao due determinam as

forcas polifticas da dominacdo. Assim sendo, agual é o palco onde se desenvolve a historia? A sociedade civil. A sociedade civil ndo é o aglomerado

te de familias e de corporacêes

conflitan-

(sindicatos, trus-

tes, cartéis, holdings, oligopolios) gue serdo reconciliados gracas & acao reguladora e ordenadora do Estado enguanto expressdo do interesse geral. A

sociedade civil é o sistema de relacêes sociais gue

se organizam

na producao econêdmica, nas institui-

74

Marilena de Souza Chaui

COes sociais e politicas e gue so representadas ou interpretadas por um conjunto sistemdtico de idéias jurfdicas, religiosas, politicas, morais, pedagOgicas, cientificas, artfsticas, filos6ficas. A sociedade civil é o processo de constituicëo e de reposicêo das condicêes materiais de existência, Isto éê, da producëo (trabalho, divisfo do trabalho, processo de trabalho, forma de distribuicdo e de CONSUMO, circulacdo, acumulacëo e concentracio

da rigueza), por meio das aguais s#o engendradas as classes sociais (exploradores e explorados, isto éë, a contradic&o entre proprietdrios e nio proprie-

têrios). A relac&o entre as classes é contraditéria porgue a condicio ciente para ague haja proprietdrios tência dos nêo propriet4rios. Ou

da

classe

dos

assim produzidas necessêria e sufiprivados é a exisseja, a existência

propriet4rios

depende

uma

no caso da sociedade

inteiramente

da existência da classe dos n#o proprietêrios e esta ultima nasce do processo pelo agual alguns proprietêrios conseguem expropriar todos os Outros e conseguem reduzir todo o restante da sOciedade (escravos, servos, artesios) & condicio de as-

salariados.

Em

palavra,

civil capitalista, afimar ague a existência dos pro-

prietêrios (da classe capitalista) depende da exploracdo

dos

ndo propriet4rios

(trabalhadores

assa-

lariados) significa simplesmente o seguinte: o capi-

tal é o trabalho néo pago (a mais-valia). Temos uma

contradicao na medida em ague a realidade do capi-

tal é a negacdo do trabalho.

0 gue é Ideologia

75

A sociedade civil se realiza através de um conjunto de instituicOes sociais encarregadas de permitir a reproducao ou a reposicao das relacêes sociais — familia, escola, igrejas, polfcia, partidos politicos, imprensa, meios de informacëo, magistraturas, Estado, etc. Ela é também o lugar onde essas instituicOes e o conjunto das relacêes sociais s&0o pensadas ou interpretadas por meio das idéias — jurfdicas, pedag6gicas, morais, religiosas, cientfficas, filosOficas, artfsticas, polfticas, etc. Produzida pela divisdo social do trabalho gue a cinde em classes contraditêrias, a sociedade civil se realiza como luta de classes. A luta de classes ndo ê apenas o confronto armado das classes, mas esta presente em todos os procedimentos instituclonais, polfticos, policiais, legais, ilegais de gue a classe dominante lanca mao para manter sua dominacao, indo desde o modo de organizar o processo

de trabalho (separando os trabalhadores uns dos outros e separando a esfera de decisdo e de contro-

le do trabalho da esfera de execucdo, deixando esta

Gltima para os trabalhadores) e o modo de se apropriar dos produtos (pela explorac&o da mais-valia

e pela exclusdo dos trabalhadores do usufruto dos

bens ague produziram), até as normas do Direito e

o funcionamento do Estado. Ela estd presente também

em todas as acbes dos trabalhadores da cidade

e do campo para diminuir a dominacio e a exploracio, indo desde a luta pela diminuic#o da jornada

de trabalho, me

EER,

o aumento

de

saldrios,

as greves, a

76

Marilena de Souza Chaui

criacdo de sindicatos livres até a formacëo de movi-

mentos polfticos para derrubar a classe dominante. A luta de classes é o auotidiano da sociedade civil. Fstê na polftica salarial, sanitêria e educacional, esta na propaganda e no consumo, est4 nas greves e nas eleicêes, esta nas relacbes entre pais e filhos, professores e estudantes, policiais e DOVO, juizes e rêus, patroes e empregados. Se a histéria é histéria da luta de classes, entfoa sociedade civil ndo é A Sociedade, isto é, uma espécie de grande individuo coletivo, um organismo feito de partes ou de rgëos funcionais due ora estdo em harmonia e ora estdo em conflito, ora estao bem regulados, ora estio em crise. A sociedade civil concebida como um indivfduo coletivo é uma das grandes iddias da ideologia burguesa para ocultar gue a sociedade civil é a producëo e reproducao da divisdo em classes e é luta das classes. |sto significa gue a sociedade no pode ser o sujeito da historia, criando-se e recriando-se a si mesma por passes de magica. A histéria so “os individuos

fazendo-se uns aos outros, tanto ffsica guanto espiritualmente'”. Este '“fazer-se-uns-aos-Outros” é a praxis social e significa: 1) gue as classes sociais n&o estdo feitas e acabadas pela sociedade, mas due estêo se fazendo umas as outras por sua acëo e gue esta acao produz o movimento da sociedade civil: 2) gue o conjunto das prêticas sociais, tanto mate-

riais guanto espirituais, fazendo os indivfduos existirem como seres contraditêrios, os faz membros

O gue é Ideologia

71

de uma classe social, isto é, participantes de formas diferenciadas de existência social, determinadas pelas relac6es econdmicas de producëo, pelas insti-

tuicbes sOcio-politicas e pelas idéias ou representacbes. O sujeito da histéria, portanto, $Zo as classes sociais. Ora, Marx e Engels mostram due as relacêes dos individuos com sua classe é uma relacëo alienada.

Ou seja, assim como a Natureza, a Sociedade e o Estado aparecem para a consciëncia imediata dos indivfduos com os poderes separados e estranhos due os dominam e governam, assim também a relacao dos indivfduos com a classe Ihes aparece imediatamente como uma relacio com algo j4 dado e

due os determina a ser, agir e pensar de uma forma fixa e determinada. A classe ganha autonomia com

relacao aos indivfduos, de modo due, em lugar de aparecer como resultante da acao deles, aparece de maneira invertida, isto é, como causando as acêes deles. 'A classe se autonomiza em face dos indivfduos, de sorte ague estes ultimos encontram suas condicêes de vida preestabelecidas e tém, assim, sua po-

sic4o na vida e o seu desenvolvimento pessoal de-

terminado

pela

classe.

Tornam-se

subsumidos

a

ela. Trata-se do mesmo fenêmeno aue o da subsun-

cio dos indivfduos isolados & divis&o do trabalho e

tal fenêmeno nao pode ser suprimido se nio se supera a propriedade privada e o préprio trabalho.

Indicamos vêrias vezes gue essa subsuncio dos indi-

76

Marilena de Souza Chaui

vfduos a classe determina e se transforma, ao mesmo tempo, em sua subsuncao a todo tipo de representacdes.” Esta uitima frase de Marx e de Engels é fundamental para compreendermos a relacdo entre alienacao e ideologia. A ideologia ndo é um processo subjetivo consciente, mas um fenêmeno objetivo e subjetivo involuntêrio produzido pelas condicOes objetivas da exIstência social dos indivfduos. Ora, a partir do momento em aue a relacao do indivfduo com sua classe é a da submissdo a condicêes de vida e de trabalho pré-fixadas, essa submissdo faz com due cada indivfduo no possa reconhecer-se como fazedor de sua propria classe. Ou seja, os individuos nao podem perceber ague a realidade da classe decorre da atividade de seus membros. Pelo contrdrio, a classe aparece COmo uma coisa em si e por si e da agual o indivfduo se converte numa parte, duer

gueira, guer no.

E uma fatalidade do destino. A

classe comeca, entdo, a ser representada pelos indivfduos como algo natural (e no histérico), como um fato bruto due os domina, como uma “'coisa”

onde vivem.

A ideologia burguesa, através de uma

ciëncia chamada Sociologia, transforma em idéia cientifica ou em objeto cientffico essa “coisa” denominada ''classe social”, estudando-a como um fato e nao como resultado da acdo dos homens.

A ideologia burguesa, através de seus intelectuais, irê produzir idéias gue confirmem essa alie-

O gue é Ideologia

79

nacao, Tazendo, por exemplo, com gue os homens crelam gue sdo desiguais por natureza e por talentos, ou due sao desiguais por desejo préprio, isto ê, os due honestamente trabalham enriguecem e Os preguicosos, empobrecem. Ou, entao, faz com gue crelam due sdo desiguais por natureza, mas gue a

vida social, permitindo a todos o direito de trabaIhar, Ihes dé iguais chances de melhorar — ocultando, assim, due os ague trabalham nio s&o senhores

de seu trabalho e ague, portanto, suas “chances de melhorar” néo dependem deles, mas de duem poSSui OS meios e condicêes do trabalho. Ou, ainda, faz com aue os homens creiam due sdo desiguais por natureza e pelas condicêes sociais, mas gue sio iguais perante a lei e perante o Estado, escondendo ague a lei foi feita pelos dominantese due o Estado ë instrumento dos dominantes. Marx e Engels insistem em ague n&o devemos tomar o problema da alienac&o como ponto de partida necessêrio para a transformacëo histérica. Ou seja, nêo devemos esperar gue através da simples crftica da alienac&o haja uma modificaco na cons-

ciëncia

dos

homens

e gue, gracas a essa modifica-

cConsciëncia. A alienacdo é um

processo ou o Processo social

Cdo, gue é uma mudanca subjetiva, haveré uma mudanca objetiva. Insistem em ague a alienacëo é um fenêmeno objetivo (algo produzido pelas condicêes reais de existência dos homens) e nio um simples fenêmeno subjetivo, isto é, um engano de nossa

—mEe

Marilena de Souza Chaui

80

como um todo. No é produzida por um erro da consciëncia ague se desvia da verdade, mas ë resultado da propria acëo social dos homens, da propria atividade material auando esta se separa deles, guando ndo podem controla-la e sdo ameacados e governados por ela. A transformacao deve ser simultaneamente subjetiva e objetiva: a pratica dos homens precisa ser diferente para due suas idéias sejam diferentes. '“Todas as formas e todos os produtos da conscIêncla N4do podem ser dissolvidos por forca da crftica espiritual (como pretendiam os ide6logos alemaes), pela dissolucdo dos fantasmas por acdo da “autoconsciëncia” ou pela transformacdo dos

“fantasmas”', dos “espectros'”", das “'visêes'” (maneira pela dual os ide6logos alemdes descreviam a

alienacëo).



podem

ser dissolvidos

pela

derro-

cada pratica das relacOes reais de onde emanam essas tapeacles idealistas. No é a critica, mas a revolucëo, a forca motriz da histêria.”

Com isto, Marx e Engels dao & teoria um sentido inteiramente novo enduanto critica revoluciondria: a teoria ndo est4 encarregada de ''conscientizar”” Os indivfduos, ndo esta encarregada de criar a consciëncia verdadeira para opê-la & consciëncia falsa,

e com

gada

isto mudar o mundo. A teoria estê encarre-

de desvendar os processos reais e hist6ricos

enguanto resultados e enguanto condicêes da prêtica humana em situacbes determinadas, pratica

gue da origem a existência e & conservac&o da do-

O gue é Ideologia

81

minacao de uns poucos sobre todos os outros. A teorla estê encarregada de apontar os processos objetivos gue conduzem 4 exploracëo e & domina-

CAo

e agueles

dgue podem

conduzir

a& liberdade.

Percebemos, entdo, ague a teoria — ao contr4rio da ideologia — no est4 encarregada de tomar o lugar da pratica, fazendo a realidade depender das idélas. Tambêém ndo est4 encarregada de guiar a pratica, fazendo com due a atividade hist6rica de-

penda da consciëncia 'verdadeira”. E também nio

esta encarregada de se inutilizar enaguanto teoria para valorizar apenas a prêtica, visto ague a alienacdo pratica reproduz a prêtica alienada. A relacëo entre teoria e pratica é revoluciondria porague ë dialêtica. Vimos gue a dialética é o movimento das contradicêes e gue a contradicëo é a existência de uma relac&o de negacio interna entre termos gue SO existem gracas a essa negacio. Oue significa dizer gue a relac3o entre teoriae Dra-

tica é dialêtica e no ideol6gica (como aguela relacêo aue mostramos ser feita pelos positivistas)?

A relacê&o entre teoria e prêtica é uma relacëo simultênea e recfproca por meio da agual a teoria

nega a pratica enguanto prêtica imediata, isto é, nega a pratica como um fato dado para reveld-la em suas mediacOes e como praxis social, ou seja, como atividade socialmente produzida e produtora da existência social. A teoria nega a prêtica

como

comportamento

e

acdo

dados,

mostrando

gue se trata de processos histéricos determinados

82

Marilena de Souza Chau

pela acao dos homens gue, depolis, passam a determinar suas acOes. Revela o modo pelo aual criam suas condicêes de vida e sdo, depois, submetidos Dor essas proprias condicOes. A pratica, por $ua vez, nega a teorla como um saber separado e autbnomo, Como puro movimen-

to de idéias se produzindo umas as outras na cabeca dos tebricos. Nega a teoria como um saber acabado due guiaria e comandaria de fora a acao dos homens. E negando a teoria enguanto saber separado do real ague pretende governar esse real, a Dratica faz com due a teoria se descubra como conhecimento das condices realis da pratica existente, de sua alienacdo e de sua transformacëo. Por isso Marx e Engels afirmam due conhecem um Unico tipo de saber: a ciëncia da historia. "Toda concepcao histêrica, até o momento, ou tem omitido completamente a base real da histOria (forcas de producio, capitais, divisfo social do trabalho, propriedade, formas sociais de intercAmbio ague cada geracao encontra como produto da geracdo precedente e due a atual reproduz e

transforma, alterando a forma da luta de classes),

ou a tem considerado como algo secundd4rio, sem gualguer conexdo com o curso da histêria. |sto faz com

due a historia deva sempre ser escrita de acor-

do com um critério situado fora dela. A produc&o

da vida real aparece como algo separado da vida co-

mum,

como algo extra e supraterrestre. Com isto,

a relac&o

dos

homens

com

a Natureza é exclufda

O gue é Ideologia

83

da Historia, o gue engendra a oposicéo entre Natureza e Historia. Conseguentemente, tal concepcio apenas vé na Histêria as acëes politicas dos Principes e do Estado, as lutas religiosas e as lutas teëricas em geral, e vê-se obrigada a compartilhar, em cada @poca, a ilusêo dessa dpoca. Por exemplo, se uma época imagina ser determinada por motivos puramente 'polfticos” ou “religiosos”, embora a “polftica'” e a “"religido”” sejam apenas formas aparentes de seus motivos reais, entio o historiador dessa @poca considerada aceita essa opiniëo. A 'imaginacdo', a “representac#o” aue homens historicamente determinados fizeram de sua praxis real transforma-se, na cabeca do historiador, na Uni-

ca forca determinante e ativa gue domina e deter-

mina a praxis desses homens. Ouando a forma sob a agual se apresenta a divis&o do trabalho entre os hindus e entre os egfpcios suscita nesses povos um regime de castas préprio de seu Estado e de sua religido, o historiador cré gue o regime de castas é a Torca due engendrou essa forma social. Enauanto os franceses e os ingleses se atém a ilusfo poli-

tica (isto é, tomam as formas e forcas politicas como determinantes do processo histérico), o gue est4 certamente mais proximo da realidade, os ale-

maes se movem na esfera do "'espirito puro” e fazem da ilusdo religiosa a forca motriz da histéria.” Uma vez postas como forcas histêricas motri-

zes aguelas

forcas

(politicas,

religiosas, culturais,

etc.) gue, na verdade, sio determinadas pelas fOrcas

Marilena de Souza Chaui

reais, todo o processo historico fica invertido ou de ponta-cabeca. Assim, acontecimentos histéricos

posteriores sio convertidos na “'finalidade” da his-

toria anterior. E o gue ocorre guando se explica a

descoberta

da

América

como

um

acontecimento

gue teve por finalidade auxiliar o surgimento da

Revolucdo Francesa. Ou aguando se explica o epis6dio da Inconfidência Mineira como tendo a finalidade de preparar o da Independência. Na medida em due as forcas reais, gue explicam O processo de surgimento de um acontecimento, permanecem ignoradas ou escondidas, o historiador-ideëlogo inventa causas e finalidades gue acabam convertendo a histéria numa entidade autênoma dgue possui seu prêprio sentido e caminha por Sua propria conta, usando os homens como seus Instrumentos

ocasionais.

Estamos,

aagui,

longe

da

realidade histêrica e diante da idéia da histêria. E assim, por exemplo, aue a ideologia burguesa

tende a explicar a histêria através da idéia de progresso. Como a burguesia se vé a si mesma cComo uma forca progressista, poraue usa as técnicas e as Ciëncias para um aumento total do controle sobre a Natureza e a sociedade, considera gue todo o real se explica em termos de progresso. O historiador-ideologo constroi a idéia de progresso histérico

concebendo-o como a realizacêo, no tempo, de algo ague ja existia antes de forma embrionêria e gue se desenvolve até alcancar seu ponto final necessêrio. Visto ague a finalidade do processo jé

O gue é Ideologia

85

esta dada (isto é, j4 se sabe de antemio gual vai ser o futuro), e visto gue o progresso é uma “lei”

da historia, esta ird alcancar necessariamente o fim conhecido. Com isto, os homens se tornam instrumentos ou meios para a “'histêria” realizar seus fins

proprios

e sêo justificadas

todas as acêes due se

realizZam “em nome do progresso”'. Dessa maneira, nio sê os acontecimentos

histê-

ricos sdo explicados de modo invertido (o fim ex-

plica o comeco),

mas tal “explicaco”

ainda per-

mite dgue a classe dominante justifigue suas acêes, fazendo-as aparecer como as “'razêes da histéria”. Atribui-se a histéria uma racionalidade due é apenas a legitimacëo dos dominantes. oe a histéria é o processo pratico pelo agual homens determinados em condicêes determinadas es-

tabelecem

relacêes sociais por meio das aguais trans-

formam a Natureza (pelo trabalho)., se dividem em classes (pela divisëo social do trabalho aue deter-

mina a existência de proprietêrios e de nio proprie-

têrios), organizam essas relacëes através das instituicêes e representam suas vidas através das idéias, e se a historia é da luta de classes, luta gue fica dis-

simulada pelas idéias gue representam os interesses contraditêrios como se fossem interesses cCOmuns

de toda a sociedade (através da ideologia e do Estado), entêo a histêria é também o processo de dominacao de uma parte da sociedade sobre todas as outras. |sto

significa

ague,

em

termos

do

materialismo

Marilena de Souza Chaui

histérico

e dialético, é impossfvel

compreender

a

origem e a func&o da ideologia sem compreender a

luta de classes, pois a ideologia é um dos instrumentos da dominac&o de classe e uma das formas da luta de classes. A ideologia é um dos meios usados pelos dominantes para exercer a dominacao, fazendo com due esta n#o seja percebida como tal pelosdominados. A peculiaridade da ideologia e gue a transforma -

"

numa forca guase impossfvel de remover decorre EE

mm EE

aa

AA EE

OE

dos seguintes aspectos: ad

: 1)o ague torna a ideologia possfvel, isto ê, a su-

Dosico de ague as idéias existem em si e por si mesmas desde toda a eternidade, é a separacdo entre trabalho material e trabalho intelectual, ou seja, a separac&o entre trabalhadores e pensadores. Portanto, enguanto esses dois trabalhos estiverem separados, enaguanto o trabalhador for aguele ague “nio pensa” ou due ''ndo sabe pensar”, e o pensador for aaguele aue ndo trabalha, a ideologia nao

4

perderê sua existência nem sua funcd4o;

2)o aue torna objetivamente possfvel a ideologia é o fenêmeno da alienacdo, isto é, o Tato de gue, no plano da experiëncia vivida e imediata, as condicêes reais de existência social dos homens nio

Ihes aparecam

contrêrio,

eles

como 'produzidas por eles, mas, ao se

percebem

condicêes

e atribuem

pendentes

(deuses, Natureza,

produzidos

a origem

da vida

por

tais

social

a

forcas ignoradas, alheias as suas, superiores e inde-

Raz&o, Estado, des-

O gue é Ideologia

87

tino, etc.), de sorte gue as idéias guotidianas dos homens

representam

e sêo conservadas

a realidade de modo invertido

nessa inversio, vindo a consti-

tuir os pilares para a construcio da ideologia. Portanto, endguanto ndo houver um conhecimento da historia real, enguanto a teoria nio mostrar o significado da prêtica imediata dos homens, endguanto a experiëncia comum de vida for mantida sem crf-

tica e sem pensamento, a ideologia se manter&: Yv3)o gue torna possivel a ideologia é a luta de

classes, a dominacdo de uma classe sobre as outras. Porém, o gue faz da ideologia uma forca guase impossivel de ser destrufda é o fato de gue a dominaC4o real é justamente aguilo gue a ideologia tem por finalidade ocultar. Em outras palavras, a ideologia nasce para fazer com aue os homens creiam due suas vidas sdo o due sio em decorrência da acdo de certas entidades (a Natureza, os deuses ou

Deus, a Razë&o ou a Ciëncia, a Sociedade, o Estado) due existem em si e por si e as guais é legftimo e legal due se submetam. Ora, como a experiëncia vivida imediata e a alienacëo confirmam tais idéias, a ideologia simplesmente cristaliza em '“verdades” a visdo invertida do real. Seu papel é fazer com gue no lugar dos dominantes aparecam idéias “verdadeiras'. Seu papel também é o de fazer com gue os homens

creiam ague tais idéias representam efetiva-

mente a realidade.

fazer com

E, enfim, também

dgue os homens

creiam

é seu papel

gue essas idéias

séo autOnomas (nêo dependem de ninguém) e gue

Marilena de Souza Chaui

68

representam realidades autênomas (ndo foram fejtas por ninguém). Assim, por exemplo, na ideologia burguesa, a familia ndo é entendida como uma relacëo social gue

assume formas, funcdes e sentidos diferentes tanto em decorrência das condicêes histêricas guanto em decorrência da situacdo de cada classe social na sociedade.

Pelo contrêrio, a familia é representada

cCoOmo sendo sempre a mesma (no tempo e para todas as classes) e, portanto, como uma realidade natural (biolêbgica), sagrada (desejada e abencoada por Deus), eterna (sempre existiu e sempre existirê), moral (a vida boa, pura, normal, respeitada) e pedag6gica (nela se aprendem as regras da verdadeira convivência entre os homens, com o amor dos

palis pelos filhos, com o respeito e temor dos fiIhos pelos pais, com o amor fraterno). Estamos, pois, diante da idéia da familia e nio diante da realidade historico-social da familia. Ou, entdo, guando se diz gue o trabalho dignifica o homem e no se analisam as condicêes reais de trabalho, ague brutalizam, entorpecem, exploram

certos homens em beneffcios de uns mos diante da idé/a de trabalho e nio lidade histOrico-social do trabalho. Ou, ent4o, guando se diz gue os vres por natureza e due exprimem

poucos. Estadiante da rea-

homens s&o liessa liberdade pela capacidade de escolher entre coisas ou entre situacbes dadas, sem aue se analise guais coOisase guais situacëes sêo dadas para due os homens es-

O gue é Ideologia

Ag. Keystone

89

colham.

Ouem

d4

as condicêes

para a escolha?

O PR

EER,

Ee

—E

EER

RE

PEER

Todos podem realmente escolher o gue desejarem? O nordestino, vftima da seca e do propriet4rio das terras, realmente “'escolhe” vir para o sul do pafs? Escolhe viver na favela? O peëo metaltirgico “escolheu'” livremente fazer horas-extras depois de 12 horas de trabalho? A menina grêvida gue teme as

sancoes da familia e da sociedade “escolhe” fazer um aborto? A definicëo da liberdade como igual direito a escolha é a idéia burguesa da liberdade e ndo a realidade histêrico-social da liberdade. Dissemos due a ideologia é resultado da luta de classes € due tem por func#o esconder a existênc -

dessa

luta.

Podemos

acrescentar

s—

Mate EE em

ER eed N ENE

ge eg

ME ad GEE ML

me Eie aap

due o poder ou a.

EP

eficêcia da ideologia aumentam guanto maior for

Mg

Marilena de Souza Chaui

90

sua

social

capacidade

para ocultar

a origem

da divisdo-—

em classes e a luta de classes,

Vejamos com detalhe esse processo.

A divisio social

do trabalho, ao separar os ho-

mens em proprietêrios e ndo proprietêrios, da aos primeiros poder sobre os segundos. Estes sdo explorados economicamente e dominados politicamente. Estamos diante de classes sociais e da dominacao de uma classe por outra. Ora, a classe gue explora economicamente sê podera manter seus privilêgios

se dominar politicamente de instrumentos para essa mentos sdo dois: o Estado Através do Estado, a

e, portanto, se dispuser dominacaêo. Esses instrue a ideologia. classe dominante monta

um aparelho de coercio e de repressdo social gue he permite exercer o poder sobre toda a sociedade, fazendo-a submeter-se as regras politicas. O grande instrumento do Estado é o Direito, isto é, o estabelecimento das leis gue regulam as relacêes sociais

em proveito dos dominantes. Através do Direito, o Estado aparece como legal, ou seja, como ““Estado

de direito””. O papel do Direito ou das leisé o de fazer com aue a dominacéo nio seja tida como uma violência, mas como legal, e por ser legal e no violenta deve ser aceita. A lei é direito para o dominante e dever para o dominado. Ora, se o Estado e

91

rg

O gaue é Ideologia o Direito fossem percebidos nessa sua realidade real, isto é, como instrumentos para Oo exercicio consentido da violência, evidentemente ambos ndo seriam respeitados e os dominados se revoltariam. A funcdo da ideologia consiste em impedir essa revolta fazendo com due o /egal apareca para OS

homens como legftimo, isto é, como justo e bom. Assim, a ideologia substitui a realidade do Estado pela

idéia

do

ËEstado

— ou

seja, a dominacdo

de

uma classe é substitufida pela idédia de interesse geral encarnado pelo Estado. E substitui a realidade do Direito pela idédia do Direito — ou seja, a domi-

er

nacdo de uma classe por meio das leis é substitufda pela representacdo ou idéias dessas leis como iegitimas, justas, boas e validas para todos.

92

Marilena de Souza Chaui

Nao se trata de supor ague os dominantes se ret-

nam e decidam fazer uma ideologia, pois esta seria, entdo, uma pura madguinacdo diabélica dos poderosOS. E, se assim fosse, seria muito fêcil acabar com uma ideologia. A ideologia resulta da pratica social, nasce da atividade social dos homens no momento em ague estes representam para si mesmos essa atividade, e vimoS ague essa representacio é sempre necessariamente invertida. O gue ocorre, porém, é o seguinte processo: as diferentes classes sociais representam para si mesmas o seu modo de existência tal como é vivido diretamente por elas, de sorte gue as representacOes ou idéias (todas elas invertidas) diferem segundo as classes e segundo as experiëncias due cada uma delas tem de sua existência nas relaGOes de produc#o. No entanto, as idéias dominantes em uma sociedade numa época determinada ndo sao todas as idéias existentes nessa sociedade, mas

serdo

apenas

as

idéias

da

classe

dominante

dessa sociedade nessa época. Ou seja, a maneira pela gual a classe dominante representa a si mesma (sua idéia a respeito de si mesma), representa sua relacdo com a Natureza, com os demais homens, com a sobrenatureza (deuses), com o Estado, etc.

tornar-se-& a maneira pela agual £odos os membros dessa sociedade irao pensar. A ideologla é o processo pelo agual as idéias da classe dominante se tornam idéias de todas as clas-

ses

sociais,

se tornam

idéias dominantes.

Ë esse

O gue é Ideologia

93

processo dgue nos interessa agora.

Na /deologia Alemé, lemos: “As idédias da classe dominante so, em cada época, as idéias dominantes, isto é, a classe gue é a forca material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua forca espiritual. A classe gue tem & sua disposic#o os meios de producdo material dispêe, ao mesmo tempo, dos meios de producëo espiritual, o gue faz com gue a

ela sejam submetidas, ao mesmo tempo e em mé-

dia, as idéias daagueles aos guais faltam os meios de producao espiritual. As idéias dominantes nada mais sao do ague a express&o ideal das relacêes materiais dominantes, as relacêes materiais dominantes concebidas como idéias; portanto, a expressio das relaCOes gue tornam uma classe a classe dominante: DOrtanto, as idéias de sua dominaca&o. Os indivfduos gue constituem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também consciëncia e, por isso, pensam. Na medida em gue dominam como classee determinam todo o dmbito de uma época histêrica, é evidente ague o facam em toda a sua extensfo e,

conseguentemente,

também

como

jdéias: gue

entre

outras

pensadores,

regulem

como

a producëoe

coisas,

dominem

produtores

de

distribuic3o das

idéias de seu tempo e gue suas idéias sejam, por isso

mesmo, as idéias dominantes da época.” A

ideologia

consiste

precisamente

na transfor-

macdo das idéias da classe dominante em idéias dominantes para a sociedade como um todo, de modo

ague a classe gue

domina

no plano material

Marilena de Souza Chaui

94

(econêmico, social e polftico) no plano espiritual (das idéias).

também

domina

sto significa due: 1) embora a sociedade esteja dividida em classes e cada aual devesse ter suas proprias idélas, a dominacio de uma classe sobre as outras faz com ague sé sejam consideradas vêlidas, verdadeiras e racionais as idéias da classe dominante;

2) para ague isto ocorra, ê preciso due os membros da sociedade n#o se percebam como estando divididos em classes, mas se vejam como tendo certas caracterfsticas

humanas

comuns

a todos e due

tornam as diferencas sociais algo derivado ou de menor importancia; 3) para ague todos os membros da sociedade se essas caracterfsticas Supostaidentifiguem com mente comuns a todos, é preciso ague elas sejam convertidas em iddias comuns a todos. Para aue isto ocorra é preciso gue a classe dominante, alêém de produzir suas prêéprias idéias, também possa distribui-las, o aue é feito, por exemplo, através da educacëo,

da

religiëo, dos costumes, dos meios de

COmunicacao dispon!fveis; A) como tais idéias nado exprimem a realidade real, mas representam a aparência social, as ima-

gens das coisas e dos homens, é possivel passar a considerê-las como independentes da realidade e, mais do ague isto, inverter a relacêo fazendo com ague

a realidade concreta dessas idélas.

seja

tida

como

a realizacdo

95

O gue é ldeologia ,

Todos esses procedimentos consistem naduilo gue é a operacdo intelectual por excelência da ideologia: a criacdo de universais abstratos, isto é, a

mr,

transformacao

das

idéias particulares da classe do-

minante em idéias universais de todos e para todos

os membros da sociedade. Essa'universalidade das idéias é abstrata porague ndo corresponde a nada real e concreto, visto gue no real existem concretamente classes particulares e ndo a universalidade

humana. As idéias da ideologia sio, pois, universals abstratos. Os ide6logos sdo aagueles membros da classe dominante ou da classe média (aliada natural da'classe dominante) due, em decorrência da divisëo social do trabalho em trabalho material e espiritual, constituem a camada dos pensadores ou dos intelectuais. Estdo encarregados, por meio da sistematizacao das idéias, de transformar as ilusêes da classe dominante (isto é, a visSo gue a classe domi-

nante tem de si mesma e da sociedade) em representacëes coletivas ou universais. Assim, a classe dominante (e sua aliada, a classe média) se divide em pensadores e& no pensadores, ou em produto-

res ativos de idéias e consumidores passivos de idéias. Muitas vezes, no interior da classe dominante e de sua aliada, a divisdo entre pensadores e nio

pensadores pode

assumir a forma de conflitos —

por exemplo, entre nobres e sacerdotes, entre bur-

guesia conservadora

e intelectuais progressistas —

Marilena de Souza Chaui

96

mas tal conflito nio é uma contradicëo, ndo exprime a existência de duas classes sociais contra-

ditérias, mas apenas oposicêes no interior da mesma classe. A prova disso, escrevem Marx e Engels, é aue basta haver uma ameaca real para a dominac3o da classe dominante para due os conflitos sejam esauecidos e todos fiduem do mesmo lado da barricada. Nessas ocasiëes, 'desaparece a ilusdo de aue as idéias dominantes nao sao as idéias da classe dominante e due teriam um poder diferente do poder dessa classe”.

Assim,

minadas

por exemplo, é possivel due, em deter-

circunstências

historicas,

os

intelectuais

se coloadguem contra a burguesia e se facam aliados dos trabalhadores. Se os trabalhadores, compreendendo a origem da exploracdo econémica e da dominacao politica, decidirem destruir o poder dessa burguesia, é possivel aue os intelectuais progressistas, sem o saber, passem para o lado da bur-

guesia. E o gue ocorre, por exemplo, guando, dian-

te do

agucamento

da

luta de classes num

pas, OS

intelectuais demonstram aos trabalhadores gue, naaguela fase hist6rica, o verdadeiro inimigo ndo éa burguesia nacional, mas a burguesia internacional imperialista, e due se deve lutar primeiro contra ela. A ideologia da unidade nacional, gue os intelectuais progressistas, de boa-fé, imaginam servir

aos trabalhadores, dominante.

na

verdade

serve

a&

classe

Por ague isto ocorre? Do lado dos intelectuais,

O gue é ldeologia

97

isto decorre do fato de ague interiorizaram de tal modo as idéias dominantes ague nio percebem o

gue estdo pensando. Do lado dos trabalhadores, se

aceitam

tal ideologia

nacionalista,

isto decorre da

divisao social do trabalho ague foi interiorizada por eles, fazendo-os crer gue ndo sabem pensar e gue

devem coniiar em guem pensa. Com isto, também eles sdo vitimas do poder das idéias dominantes. Esse fenêmeno de manutencio das idéias domi-

nantes mesmo guando se estê lutando contra a clas-

se dominante é o aspecto fundamental daguilo aue Gramsci denomina de hegemonia, ou o poder espiritual da classe dominante. Por isso ele dizia gue,

se num determinado momento, os trabalhadores de um palfs precisam lutar usando a bandeira do nacionalismo, a primeira coisa a fazer é redefinir todaa idéla de nacëo, desfazer-se da idéia burguesa de nacionalidade e elaborar uma idéia do nacional ague seja idêntica 4 de popular. Precisam, portanto, contrapor, a idéia dominante de nac#o, uma Outra, DOpular, gue negue a primeira. Uma historia concreta nio perde de vista a ori-

gem de classe das idéias de uma época, nem perde

de vista gue a ideologia nasce para servir aos interesses de uma classe e gue sê pode fazé-lo transformando as idéias dessa classe particular em idéias

universais. No perde de vista, também, ague a producëoe distribuicao dessas idéias ficam sob controle da classe dominante, ague usa as INstituicêes sociais

Marilena de Souza Chaui

98

para

sua

implantacdo



familia,

escola,

igrejas,

partidos polfticos, magistraturas, melos de comunicac#o da cultura, permanecem atrelados a conservacio do poder dos dominantes. “Se, ao concebermos o decurso da histêria, separarmos as idéias da classe dominante e a propria classe dominante e se as concebermos como independentes, se nos limitarmos a dizer gue numa época estas ou aaguelas idéias dominaram, Sem nos preocuparmos com as condicêes de producdo e com os produtores destas idélas; se, portanto,

ignorarmos os indivfduos e as circunstências mundiais gue sêo a base destas idélas, entdo podemos

afirmar, por exemplo, due, na época em due a aris-

tocracia dominava, os conceitos de honra, de fidelidade dominaram, ao passo gue na época da domlnac&o: burguesa dominam os conceitos de igualda-

de, de liberdade, etc. E, em média, o gue a classe

dominante, em geral, imagina.” Se fizermos esse tipo de interpretacdo, nao compreenderemos, por exemplo, ague a forma da dominacdo feudal impêe uma divisao social por estamentos fechados gue se subordinam uns aos outros

segundo uma hierarguia imovel due culmina na figura do papa e deste alcanca a de Deus, entendi-

do como fonte de poder e gue, por uma graca ou

por um favor, concede poder a alguns homens determinados e due, portanto, as relacêes de honra e de fidelidade simplesmente exprimem o modo pelo gual os lacos de poder sdo conservados no interior

O gue é Ideologia

99

da nobreza contra do capitalista, as determinadas pela balho no mercado,

(proprietdrios

balho.

Ora,

o

os servos. Ao contrario, no munrelacêes entre os indivfduos sio compra e venda da forca-de-traestabelecendo-se entre as partes

e assalariados) pressuposto

um contrato de tra-

jurfdico

da

idéia

de

contrato é gue as partes sejam iguais e livres, de sorte gue nao apareca o fato de gue uma das partes Ndo é igual 4 outra, nem é livre. A realizacao de relacbes econêmicas, sociaise polfticas baseadas na idéia de contrato levaê universalizacéo abstrata das idéias de igualdade e de liberdade. O processo histérico real, escrevem Marx e Engels, ndo é o do predomfnio de certas idéias em certas épocas, mas um outro e gue é o seguinte: cada nova classe em ascens&o aue COmeca a se desenvolver dentro de um modo de producao aue sera destruido aguando essa nova classe dominar,

cada

classe emergente,

diz/iamos,

precisa formular

seus interesses de modo sistemdatico e, para ganhar Oo apolio do restante da sociedade contra a classe dominante existente, precisa fazer com due tais

interesses aparecam como interesses de toda a sociedade. Assim, por exemplo, a burguesia, ao elaborar as idéias de igualdade e de liberdade COMO essência do homem faz com ague se cologuem de seu lado como aliados todos os membros da sOciedade feudal submetidos ao poder da nobreza, gue encarnava o princfpio da desigualdade e da serviddo. Para poder ser o representante de toda a Soci e-

100

Marilena de Souza Chaui

dade contra uma classe particular due est4 no poder, a nova classe emergente precisa dar as suas idéias a maior universalidade possivel, fazendo com due aparecam como verdadeiras e justas para o malior nimero possivel de membros da sociedade. Precisa apresentar tais idéias como as UGnicas racionais e as Unicas vélidas para todos. Ou seja, a classe ascendente n4o pode aparecer como uma classe particular contra outra classe particular, mas precisa aparecer como representante de toda a socledade, dos interesses de todos contra os interesses da classe particular dominante. E consegue aparecer assim universalizada gracas as idéias gue de-

fende como universais.

No infcio do processo de ascensio é verdade gue a nova classe representa um interesse coletivo: o interesse de todas as classes ndo dominantes. Porém, uma vez alcancada a vitéria e a classe ascendente tornando-se classe dominante, seus interesses passam a ser particulares, isto é, io apenas seus interesses de classe. No entanto, agora, tais interesses precisam ser mantidos com a aparência de universals, porague precisam legitimar o dominio gue

exerce sobre o restante da sociedade. Em uma pa-

lavra: as idéias universais da ideologia n&o sio uma invencdo arbitrêria ou diab6lica, mas sZo a

conservacdo de uma universalidade gue j4 foi real num certo momento (guando a classe ascendente realmente

representava

ndo dominantes),

os

interesses

de

todos

Os

mas gue agora é uma universali-

101

ay

O gue é Ideologia

dade iluséria (pois a classe dominante tornou-se re-

presentante apenas de seus interesses particulares).

“Cada nova classe estabelece sua dominacëo sempre sobre uma base mais extensa do gue a classe ague até entao dominava, ao passo gue, mais tarde, a oposicao entre a nova classe dominante ea nao dominante

mais.”

Isto

se

significa

agrava

due

e

cada

se

aprofunda

nova

ainda

classe domi-

nante, enaguanto estava em ascensao, apontava para a possibilidade de um maior nimero de indivfduos exercerem a dominacdo e, por isso, guando toma o poder, usa de procedimentos mais radicais do ague OS ja existentes para afastar as possibilidades de exercfcio do poder por parte dos dominados. Por isso a distência entre dominantes e dominados aumenta ainda mais e os dominados, afinal, ter&o gue lutar pelo término de toda e gualguer forma de dominacao.

Estamos agora em condicêes de compreender as

determinacêes gerais da ideologia (recordando gue

determinacao significa: caracter(sticas intrinsecas a uma realidade e aue foram sendo produzidas

pelo processo ague deu origem a essa realidade). Podemos agora compreender o gue é a ideolodia porgue acompanhamos o processo ague a produz concretamente.

As principais determinacêes ague constituem o fenbmeno da ideologia so: 1) a ideologia é resultado da divisZo social do

trabalho e, em particular, da separacio entre tra-

102

Marilena de Souza Chaui

balho

material/manual

telectual;

e

trabalho

espiritual/in-

2) essa separacdo dos trabalhos estabelece a aparente autonomia do trabalho intelectual face ao trabalho material: 3) essa autonomia aparente do trabalho intelectual aparece como autonomia dos produtores desse trabalho, isto é, dos pensadores; 4) essa autonomia dos produtores do trabalho intelectual aparece como autonomia dos produtos desse trabalho, isto é, das idéias: 5) essas idéias autonomizadas sio as idéias da classe dominante de uma época e tal autonomia é produzida no momento em due se faz uma separaCAo entre os indivfduos gue dominam e as idéias ague dominam, de tal modo ague a dominacëo de homens sobre homens nio seja percebida porague aparece como dominacdo das idéias sobre todos os homens;

6) a ideologia é, pois, um instrumento de dominacdo de classe e, como tal, sua origem é a existência da divisdo da sociedade em classes contradit6rias e em luta; 7) a divisdo da sociedade em classes se realiza cCOmo separacdo entre propriet4rios e nio proprie-

tarios das condicbes e dos produtos do trabalho, como divisdo entre exploradores e explorados, dominantes e dominados e, portanto, se realiza

como luta de classes. Esta nio deve ser entendida apenas cCOmOo os momentos de confronto armado

103

O gue é Ideologia

entre

as classes,

mas

como

o conjunto

de

proce-

dimentos institucionais, jurfdicos, polifticos, pollciais, pedagégicos, morais, psicol6gicos, culturais,

religiosos, artfsticos, usados pela classe dominante para manter a dominacdo. E como todos os pro-

cedimentos dos dominados para diminuir ou destruir essa dominacao. A ideologia é um instrumento de dominacao de classe; 8) se a dominacdo e a exploracao de uma classe for perceptfvel como violência, isto ê, como poder injusto e ilegftimo, os explorados e dominados se sentem no justo e legitimo direito de recusa-la, revoltando-se. Por este motivo, o papel especffico da ideologia como instrumento da luta de classes é iImpedir ague a dominacdo e a exploracao sejam percebidos em sua realidade concreta. Para tanto, é funcao da ideologia dissimular e ocultar a existência das divisoes soclais como divisOes de classes, escondendo, assim, $ua prépria origem. Ou seja, a ideologia esconde aue nasceu da luta de classes para servir a uma classe na dominacdo:

9) por ser o instrumento encarregado de ocultar as divisOes sociais, a ideologia deve transformar

as idéias particulares da classe dominante em idéias universais, vêlidas igualmente para toda asociedade:

10) a universalidade dessas no concreto existem idéias classe. Por ser uma abstracëo, uma rede imagindria de idéias

suem

idéias é abstrata, pois particulares de cada a ideologia constréi e de valores gue pos-

base real (a diviso social), mas de tal modo

104

Marilena de Souza Chaui

gue essa base seja reconstrufida de modo invertido

e iImaginario;

11) a ideologia é uma ilusdo, necessdria & dominacao de classe. Por ilusdo ndo devemos entender “ficcao', 'fantasia”, “"invencdo gratuita e arbitrdria”, “erro'””, “falsidade”', pois com isto suporiamos gue ha ideologias falsas ou erradas e outras gue seriam verdadeiras e corretas. Por ilusio devemos entender: abstracdo e inversdo. Abstrac&o (como vimos anteriormente) é o conhecimento de uma realidade tal como se oferece & nossa experiëncia imediata, como algo dado, feito e acabado gue apenas classificamos, ordenamos e sistematizamos, sem nunca indagar como tal realidade foi concretamente

produzida. Uma realidade é concreta porgue mediata, Isto ê, porague produzida por um sistema determinado de condicêes aue se articulam internamente de maneira necessêria. |Inversdo (como também vimos anteriormente) é tomar o resultado de um proCEsso cOMO se fosse seu cComeco, tomar os efeitos pelas causas, as conseguëncias pelas premissas, o determinado pelo determinante. Assim, por exemplo, guando os homens admitem gue sio desiguais

porague

Deus ou a Natureza os fez desiguais, estAo

tomando a desigualdade como causa de sua situaCéo soclal e ndo como tendo sido produzida pelas relacoes soclais e, portanto, por eles prêéprios, sem gue o desejassem e sem due o soubessem:

12) porague a ideologia é ilusêo, isto é, abstrac3o e inversdo da realidade, ela permanece sempre no pla-

105

O gue é Ideologia

no imediato do aparecer social. Ora, como vimos, ao Tfalarmos do fetichismo da mercadoria, o aparecer social êé o modo de ser do social de ponta-cabe-

ca. A aparênclia social ndo é algo falso e errado, mas é o modo

consciëncla

como

direta

o processo

social

dos homens.

aparece

para a

Isto significa gue

uma ideologia sempre possui uma base real, sê gue essa base esta de ponta-cabeca, é a aparência social. Assim, por exemplo, a sociedade burguesa aparece em nossa experiëncia imediata como estando forma-

da por três tipos diferentes de propriet4rios: o capi-

talista, proprietêrio do capital; o dono da terra, proprietario da renda da terra;e o trabalhador, proprietêrio do salêrio. Se todos sdo proprietarios, embora de coisas diferentes, entdo todos os homens dessa socledade sdo iguais e possuem iguais direitos. Enguanto ndo ultrapassarmos essa aparência e procurarmos o modo como realmente e concretamente SAO produzidos esses propriet4rios pelo sistema capitalista, ndo poderemos compreender ague o saldrio ndo ê a propriedade do trabalhador, mas é.o

trabalho ndo pago

pelo capitalista, gue a renda nio

vem da terra, mas de sua transformac&o em capital pelo trabalho

nao pago do camponés ou dos minei-

ros, e gue, finalmente, sê o capital é efetivamente

propriedade. Enguanto n#o tivermos essa cCoOmpreensêo histêrica.- do processo real, a idéia de

jgualdade

nêo



parecerë

verdadeira,

mas

ainda

possuird base real, ou seja, a maneira pela gual os homens aparecem no modo de producfo capita-

106

Marilena de Souza Chaui

lista. E neste sentido gue se deve entender a ideologia como ilusdo, abstracdo e inversêo;

13) a ideologia nao é um "“reflexo” do real na cabeca dos homens, mas o modo ilusêrio (isto é, abstrato e invertido) pelo dual representam o apa-

recer social como se tal aparecer fosse a realidade

social. Se a ideologia fosse um simples “'reflexo invertido” da realidade na consciëncia dos homens, a relacdo entre o mundo e a consciëncia nao seria dialética (isto é, contraditéria ou de negacdo in-

terna), mas seria mecênica ou de causa e efeito. Se a ideologia fosse o espelho “ruim” da realidade, ela serla O efeito mecanico da acdo dos objetos exteriores Sobre nossa consciëncia, como a acBo da luz sobre nossa retina. Neste caso, no poder/iamos compreender a célebre afirmac&o de Marx (nas chamadas Onze Teses Sobre Feuerbach) de ague o engano dos materialistas tinha sido o de considerar a relacdo da consciëncia com os objetos como uma experiëncia sensivel e no como uma praxis social, isto é, como uma atividade social gue produz os objetos e o sentido dos objetos. A ideologia é uma das formas da praxis social: aguela gue, partindo da experiëncia imediata dos dados da vida social, constréi abstratamente um sistema de idéias ou representacdes sobre a realidade. Para percebermos gue a ideologia nio é o mero 'reflexo'” invertido da realidade na consciëncia dos

homens, basta nos lembrarmos Marx define a religiao.

do

modo

como

107

O gue é Ideologia

Em geral, todos conhecem a famosa formula segundo a gual “a religiëo é o épio do povo”, isto ê, um mecanismo para fazer com due o povo acelte a miséria e o sofrimento sem se revoltar porague acredita ague serd recompensado na vida Tutura

(cristianismo) uma punicio rior (religiëes Aceitando a

ou pordgue acredita gue tais dores sdo por erros cometidos numa vida antebaseadas na idéia de reencarnacao). injustica social com a esperanca da

recompensa ou com a resignacao do pecador, o homem religioso fica anestesiado como o fumador de Opio, alheio a realidade. No entanto, costuma-se esduecer gue, antes de fazer tal afirmacdo, Marx define a religiëo como 'a criacdo de um espirito num mundo sem esplirito”, como ''enciclopédia e |Ogica popular” e “consolacao num mundo sem consolo''. Se a religido, gue é uma forma de ideologia, fosse um ''reflexo'', ela teria ague espelhar de maneira invertida o mundo real. Ora, segundo Marx, a inversdo religiosa nao “'reflete” coisa alguma — sendo criacêo do espfrito em um mundo sem espirito, a religiëo é producëo imagindria de algo ague ndo existe. A inversdo consiste em atribuir a essa criacdo do espirito a origem da realidade, em

lugar de compreender gue é a miséria real gue estd

produzindo a crenca no esplirito, numa divindade poderosa gue pune e recompensa as acêes humanas. A religido, como toda ideologia, é uma atividade da consciëncia social. A religiosidade consiste em

substituir o mundo

real

(o mundo sem espirito)

108

Marilena de Souza Chaui

por um mundo imagindrio (o mundo com espfrito). Essa substituicdo do real pelo imaginêrio é a grande tarefa da ideologia e por isso ela anestesia como o ODIO;

14) a ideologia é produzida em três momentos fundamentais: a) ela se inicia como um coniunto sistematico de idélas gue os pensadores de uma classe em ascensêo produzem para gue essa nova classe apareca cComo representante dos interesses de toda a sociedade,

representando os interesses de todos os ndo dominantes. Nesse primeiro momento, a ideologia se encarrega de produzir uma universalidade com base real para legitimar a luta da nova classe pelo poder;

b) ela prossegue tornando-se aguilo gue Gramsci

denomina de senso comum, isto é, ela se populariza, torna-se um conjunto de idéias e de valores concatenados e coerentes, aceitos por todos os

due sdo contrdrios a dominacio existente e gue imaginam uma nova sociedade aue realize essas idéias e esses valores (por exemplo, aguando os

servos, aprendizes, peaguenos artesios e peaguenos comerciantes no final da ldade Média e no infcio do mercantilismo aceitam e incorporam as idéias de

liberdade e de igualdade, defendidas pela burguesia em ascensêo). Ou seja, o momento essencial de consolidacdo social da ideologia ocorre guando as

idéias e valores da classe emergente $Zo interioriZados pela consciëncia de todos os membros nio

dominantes da sociedade:

O gue d Ideologia

109

cC) uma vez sedimentada e interiorizada como senso comum, a ideologia se mantém, mesmo apês a vitêria da classe emergente, gue se torna, entio, classe dominante. Isto significa ague, mesmo guando OS Interesses anteriores, gue eram interesses de todos os nao dominantes, sio negados pela reali-

dade da nova dominacao — isto é, a nova dominaCAo converte os interesses da classe emergente em

interesses particulares da classe dominante e, portanto, nega a possibilidade de gue se realizem Como interesses de toda a sociedade —, tal negacio nio Impede due as idédias e valores anteriores & domiNacao permanecam como algo verdadeiro para Os dominados. Ou seja, mesmo due a classe dominante seja percebida como tal pelos dominados, mesmo aue estes percebam due tal classe defende interesses gue sdo exclusivamente dela, essa percepCdo nao afeta a aceitaco das idéias e valores dos

dominantes, pois a tarefa da ideologia consiste Justamente em separar os individuos dominantes e as

idéias

dominantes,

fazendo

com

cOomo independentes uns dos outros.

gue

aparecam

E assim, por exemplo, aue os trabalhadores contemporaneos podem perceber gue a organizac&o do

processo

de

trabalho

pelo

estilo taylorista

(aue

consiste em separar todas as fases de producëo e em separar os ague dirigem e controlam tal produ-

Co e os due a executam) é um interesse da classe

dominante, sem due isto os impeca de crer due a organizacêo racional do trabalho exXija racionalmm

110

Marilena de Souza Chaui

mente a divisdo entre os gue possuem conhecimen-

to tecnol6gico (cientistas, técnicos, administradores e gerentes) e os gue possuem apenas a agualificacêo para executar as tarefas do trabalho (trabaIhadores). Ou seja, percebem, de um lado, ague o taylorismo é uma forma de dominacio burguesa, mas conservam a idéia (subjacente ao taylorismo)

de

ague

é

racional

separar

saber

tecnolêgico

e

execuc4o pratica do trabalho (sem se dar conta de ague tal separacio é o gue permite a dominacëo burguesa, polis tal organizacdo Ihes aparece como racional por causa do avanco tecnolêgico gue impossibilita a cada trabalhador e ao conjunto dos trabalha-

dores controlar o saber gue governa seus trabalhos).

Este fenOmeno da conservacëo da validade das idéias e valores dos dominantes, mesmo aguando se percebe a dominacio e mesmo aguando se luta contra

a classe dominante mantendo sua ideologia, é gue Gramsci

denomina

de hegemonia.

Uma classe é he-

gemonica nao sê poraue detém a propriedade dos melos de producëo e o poder do Estado (isto é, o controle jurfdico, politico e policial da sociedade), mas ela é hegemênica sobretudo porgue suas idéias e

valores sêo dominantes, e mantidos pelos dominados até mesmo aguando lutam contra essa dominacao.

Em geral, fala-se muito em ''crise de hegemonia” (conceito gramsciano) para Caracterizar momentos de crise econêmica e poliftica nos guais a classe dirigente (aguela fracao da classe dominante gue dirige a sociedade) é forcada a repensar sua acio eco-

|

O gue é Ideologia

HI

nêmica e poliftica se guiser consevar o poder dirigente. Ora, crise de hegemonia nio é isto. A crise de hegemonia sê ocorre guando, além da crise econêmica e polftica gue afeta os dirigentes, h4 uma crise das idéias e dos valores dominantes, fazendo com due toda a sociedade, na gualidade de nio dirigente, recuse a totalidade da forma de dominaCdo existente. Assim é ague Gramsci pode caracteriZzar o surgimento do fascismo na |t4lia a partir de uma crise de hegemonia. Mas guando hoje, no Brasil, se consideram as dificuldades dos atuaie dirigentes em manter o controle econêmico e DOlitico como uma “crise de hegemonia', emprega“Se erroneamente o conceito gramsciano. Vejamos um exemplo de cConservacao da hegemonia burguesa. Muitos movimentos feministas lutam contra o poder burguës porague ele é fundamentalmente um poder masculino gue discrimina social, econémica,

politica e culturalmente as mulheres. É considera-

do

um

poder patriarcal, isto é, fundado

na autori-

dade do Pai (chefe de familia, chefe de seccdo, che-

fe de escola, chefe de hospital. chefe de Estado,

etc.). E um poder gue legitima a submiss&o das mulheres aos homens tanto pela afirmacëo da inferioridade

guanto

vidades

feminina

(fragueza

f(sica

(feminilidade

como

colocacëo,

muitos

e intelectual)

pela divisêo de papéis sociais a partir de ati-

sexuais

maternidade e domesticidade). Partindo

dessa

siNÊNIMO

de

MOVvimentos

112

Marilena de Souza Chaui

feministas

vêo

defender

duas

idéias

principais:

1)a de gue as mulheres néo devem se sujeitar ê ideologia da inferioridade nem a& ideologia dos papeis sociais, mas devem lutar por igual direito

ao trabalho:

2) a de gue as mulheres nio devem continuar se submetendo ao poderio masculino e devem defender a liberdade do uso de seu corpo, porague este é propriedade delas e n#o dos homens (maridos, filhos, chefes, etc.). Aparentemente, tais movimentos parecem estar

lutando contra o poder burguës, pelo menos no seu aspecto discriminatêrio. Porém, se analisarmos as duas idéias defendidas, o gue veremos? Defender a

Igualdade no mercado de trabalho nio é criticar a exploracëo capitalista do trabalho, mas é mantê-la, fazendo com ague as mulheres tenham igual direito de serem exploradas e de realizarem trabalhos alienados. oeria preciso due as mulheres, como movimento social, pudessem levar a cabo a crftica do proprio trabalho no modo de producëo Capitalista, em vez de desejarem virar forca-de-trabalho. Por outro lado, defender a liberdade de usar o corpo pordgue este é propriedade privada da prépria muIher e afirmar ague tal direito define a mulher COMO pessoa autênoma, é esduecer de gue um dos pilares da ideologia burguesa, na sua forma liberal,

é justamente

algo chamado

a definic&o

dos seres humanos

por

de “'direito natural e due seria o di-

reito a posse e ao uso do préprio corpo, posse gue

O gue é Ideologia

113

nos torna livres, liberdade gue é necessdria para formular a idéia burguesa de contrato (como vimos

acima).

Ora,

vimos

como

Marx descreve o surgi-

DO, gue estando despojado

(“liberado') dos meios

mento do trabalhador “livre” necessêrio ao capital: o homem aue tendo apenas a posse de seu cCore instrumentos do trabalho, tem o “livre” direito ao USO de seu corpo, vendendo-o no mercado da compra e venda da forca-de-trabalho. E vimos, com Hegel, como a definicdo burguesa de pessoa é sinênIimo ou a versdo juridica do proprietério privado. Assim, a luta feminista pode realizar-se sem DOT em duestdo a hegemonia burguesa.

Isto nao signitfica ague os movimentos feministas sdo falsos ou inuteis, nem ague todos eles defendam dessa maneira tais idéias. Significa apenas

ague é possfvel, de fato, movimentos de libertacdo das mulheres gue reafirmam a ideologia dominante:

16) a ideologia é um conjunto |6gico, sistemêtico e coerente de representacëes (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta) gue indicame

prescrevem aos membros da sociedade o gue devem pensar e como devem pensar, o gue devem valorizZar e como devem valorizar, o gue devem sentir e como devem sentir, o ague devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo

(representacêes) e prdtico (normas, regras, precei-

tos)

de

carater

prescritivo,

normativo,

regulador,

cuja funcdo é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicacio racional para

114

Marilena de Souza Chaui

as

diferencas

sociais,

politicas

e

culturais,

sem

jamais atribuir tais diferencas 4 divisdo da sociedade em classes, a partir das divisbes na esfera da pro-

ducëo. Pelo contrêrio, a funcdo da ideologia é a de apagar as diferencas como de classes e de fornecer aos membros da sociedade o sentimento da identidade social, encontrando certos referenciais identificadores de todos e para todos, como, por

exemplo, a Humanidade, a Nacëo, ou o Estado. sto significa aue:

a) na

aualidade

de

a Liberdade, a lgualdade,

explicacio

te6rica do

real

(através das ciëncias, sobretudo hoje em dia, ou das filosofias ou das religiëes), a ideologia nunca pode explicitar sua prêpria origem, pois, se o fizesse, faria vir a tona a divisdo social em classes e perderia, assim, Sua razao de ser due é a de dar explica-

cCOes racionals e universalis due devem esconder as diferencas e particularidades reais. Ou seja, nascida Dor causa da luta de classes e nascida da luta de classes, a ideologia é um corpo teërico (religioso,

filos6fico ou cientffico) due ndo pode pensar real-

mente a luta de classes gue Ihe deu origem: b) na agualidade de corpo terico e de conjunto de regras prêticas, a ideologia possui uma coerência

racional pela gual precisa pagar um preco. Esse preCO é a existência de “'brancos”, de “lacunas” ou de '“silêncios” aue nunca poderao ser preenchidos sob pena de destruir a coerência ideolêgica. O discurso ideolêgico é coerente e racional porgue entre suas

115

O gue é Ideologia

“partes” ou entre suas “frases” ha4 “'brancos” ou “Vvazios”” responsaveis pela coerência. Assim, ela é

coerente nao apesar das lacunas, mas Dor causa ou

gracas como

as lacunas. Ela é coerente como ciëncia, moral, como tecnologia, como Tilosofia,

como COMO

religido, como pedagogia, como explicacao e acéo apenas pordue nao diz tudo e nêo pode

dizer

tudo.

rentro.

Se

dissesse

tudo,

se

auebraria

por

Por este motivo cometemos um engano auando iImagdinamos ser possivel supDstituir uma ideologia

| | |

||

|

'“'falsa”” (aue nio diz tudo) por uma ideologia ''verdadeira” (gue diz tudo). Ou duando imaginamos aue a ideologia “falsa'” é a dos dominantes, enauanto a ideologia “verdadeira” é a dos dominados. Por ague nos enganamos nessas duas afirmacOes? Em primeiro lugar, pordgue uma ideologia gue fosse plena ou due ndo tivesse ''Vazios” e “'branCOS”, isto ê, due dissesse tudo, j4 nao seria ideologia. Em segundo lugar, porague falar em ideologia dos dominados é um contra-senso, visto gue a ideologia ê um instrumento da dominacëo. Esses enganos nos fazem sair da concepcao marxista de ideologia para cairmos na concepcdo positivista

de ideologia (due vimos no infcio deste livro). Po-

demos, Isto sim, contrapor ideologia e critica da ideologia, e podemos contrapor a ideologia ao saber real due muitos dominados tém acerca da rea-

lidade

social

da

em

exploracëo,

classes e da

da dominacëo,

repressio

da divisdo

a ague este saber

116

Marilena de Souza Chaui

est4 submetido pelas forcas repressivas dos dominantes (forcas repressivas due nao precisam ser apenas as da polfcia ou as do [email protected]êrcito, mas due podem ser, sutilmente, a prépria ideologia difundida e conservada pela escola e pelas ciëncias ou Tilosofias dos dominantes). Vejamos o aue significa a afirmacao de gue a ideologia nio pode dizer tudo pordgue se o dissesse

se destruiria por dentro. Seja, por exemplo, a idéia de familia. Se a ideologia mostrasse gue h4, no sistema capitalista, três tipos diferentes de familia (diferentes tanto por sua finalidade como por seu modo de organizacao), a burguesa, a proletêria e a pegueno-burguesa, ja nao poderia falar: a Familia. Por outro lado, se pudesse mostrar gue a famllia burguesa é um contrato econêmico entre duas outras familias para conservar e transmitir o capital sOob a forma de patrimênio familiar e de heranca (mantendo a classe), teria ague mostrar gue é por isso ague, nessa familia, o adultêrio feminino é uma falta grave, pois faz surgirem herdeiros ilegitimos gue dispersariam o capital familiar, e gue, por este motivo, o adultdrio feminino é convertido, para a sociedade inteira, numa falta moral e num crime penal. Se, por exemplo, pudesse mostrar aue a familia prolet4ria tem por funcdo exclusiva reproduzir a forca-de-trabalho procriando filhos, teria gue mostrar gue é por isso (e nao por razêes religiosas e morais, gue justamente sio ideolêgicas) gue a mu-

117

O gue é Ideologia Iher proletêria nio tem direito ao aborto decente e nem o direito ao anticoncepcional, a ndo ser guando, em virtude da modificacêo tecnolêgica gue leva 3 automac3o do trabalho, interessa aos dominantes diminuir a guantidade de oferta de mao-de-obra no mercado de trabalho. Nesta hora, os dominantes, através do Estado, inventam o chamado Planejamento Familiar, gue pretende, pela diminuicao numêrica dos trabalhadores, resolver o problema real da miséria e da desigualdade social. Ou, enfim, se mostrasse ague a familia pedgueno-burguesa tem a finalidade de reproduzir os ideais e valores Durgueses para toda a sociedade e aue, por isto, é nela gue a idéia de familia é mais forte do due nas outras classes, teria ague mostrar aue a familia pegueno-burguesa est4 encarregada de oferecer ao pai uma autoridade substitutiva gue o compense de sua real falta de poder na sociedade, e due, por isto, ele aparece como devendo encarnar para toda a Sociedade o ideal do Pai. Oue esta familia também est4 encarregada de dar &4 mde um lugar honroso aue a retenha fora do mercado de trabalho para nio competir com o pai e ndo Ihe roubar a autoridade

ilusoria, e aue,

por

isto, a mulher

desta

familia est4 destinada a encarnar para toda a sociedade o ideal de Me. Oue, finalmente, esta familia

pegueno-burguesa est4 encarregada de conservar a autoridade paterna e a domesticidade materna

como Tforcas para reter por mais tempo fora do mercado de trabalho os jovens, para usd-los apenas

118

Marilena de Souza Chaui

guando se tornam arrimos econêmicos de garantia de unidade familiar, e ague, por este motivo, retarda Oo maior tempo possivel a constituicao de novas familias, e aue é este o motivo da defesa do ideal da virgindade para as meninas e da recusa do homossexualismo feminino e masculino (pois no homossexualismo nao hé reproducdo e vinculo

familiar).

Se a ideologia mostrasse todos os aspectos ague constituem a realidade das familias no sistema capitalista, se mostrasse como a repressao da sexua-

lidade est4 ligada a essas estruturas familiares (condenacdo do adultério, do homossexualismo, do

aborto, defesa da virgindade e do heterossexualismo, diminuicdo do prazer sexual para o trabalha-

dor pordue dutividade

o sexo diminui

do trabalho

a rentabilidade e pro-

alienado),

como,

ent#o,

a

ideologia manteria a idéia e o ideal da Familia? Como Tfaria, por exemplo, para justificar uma sexualidade aue no estivesse legitimada pela proCriacëo, pelo Pai e pela Mêe? N4o pode fazer isto. No pode dizer isto;

16) a ideologia nao tem histêria, afirmam Engels

e Marx.

sto nao aguer dizer due houve, hê e haverd

sempre uma sê e mesma ideologia. Tanto assim gue a prépria ideologia burguesa, aue é uma das formas

histéricas da ideologia, também

ndo é sempre

a

mesma. No perfodo da livre concorrência, gue definia as relacêes econbmicas e sociais pelas relacêes de contrato no mercado e pela liberdade de empre-

119

O gue é Ideologia

sa, a ideologia burguesa assumira a forma do liberalismo, enaguanto atualmente, com o fim da livre do capitalismo o advento com concorrência, monopolista de Estado ou dos oligopolios, a ideologia burguesa assume a forma da ideologia da Organizaco, do Planejamento e da Administracao; Dizer ague a ideologia ndo tem histêria significa gue:

a) a transformacio das idéias nio mesmas, de alguma forca interna due na histéria do Espfrito hegeliano, ou pas do Espirito humano de Augusto

depende delas teriam (como como nas etaComte), mas

depende da transformacao das relacOes sociais e, portanto, das relacêes econêmicas e politicas. Com isto, podemos perceber gue ha entre a ideologia ea estrutura de uma Sociedade adguilo aue Louis Althusser chama de ''contemporaneidade” ou de correspondência temporal entre a estrutura social e. as idéias (ideolêgicas. Compreendemos tambeém

COmo as idéias nio ideolbgicas (aaguelas ague estio empenhadas em compreender a génese ou histêria real) s$&o capazes de ultrapassar o tempo em gue sio pensadas. E isto em duas direcêes: com relacdo ao passado, de modo a nao “'explic4-lo” com as idéias do presente, mas reencontrando as préprias

determinacOes

diferenciadoras

ague fazem do pas-

sado, passado; com relacdo ao futuro, na medida em due ndo projeta para o due ainda est4 por vir aguilo

due

ja existe,

mas

procura,

nas

linhas

de

forca do presente, adguilo gue anuncia a possibilida-

120

Marilena de Souza Chaui

de futura. Enguanto a ideologia explica o presente cComo efeito do passado, o passado pelo presente e

o futuro

pelo jê existente,

fazendo

com

aue este

Gltimo deixe de ser o possfvel (aaguilo aue os homens poderêo realizar) para se tornar o previsfvel (aguilo aue os homens deverëo realizar), o saber

histêrico mantém as diferencas intrfnsecas:

diferencas

temporais

como

b) a ideologia fabrica uma histéria imagindria (aguela gue reduz o passado e o futuro as coordenadas do presente), na medida em ague atribui o movimento da histéria a agentes ou sujeitos ague ndo podem realizé-lo. Assim, por exemplo, a ideologia nacionalista faz da Nac#o o sujeito da hist6éria, ocultando ague a Nacao é uma unidade imaginaria, pois é constitufda efetivamente por classes soclais em luta. A ideologia estatista faz do Estado ou da acdo dos governantes ou das mudancas de regimes polfticos o sujeito da histéria, ocultando gue

Oo Estado

mento

nëo

é um sujeito autênomo,

de dominacdo

de uma

mas instru-

classe social e aue,

portanto, o sujeito dessa histêria estatista imagind-

ria é, afinal, apenas a classe dominante. A ideologia

racionalista

(e, atualmente,

a ideologia cientificis-

ta) faz da Razêo (e, hoje em dia, da Ciëncia) o sujei-

to

da

historia,

esguecendo-se

de

due

a idéia

da

Razëo (e de Ciëncia) é determinada por aguilo gue

numa sociedade é entendido como racional e como irracional, e gue a idéia de racionalidade é deter-

minada

pela

forma

das relacêes sociais. Assim, é

121

O gue é Ideologia

perfeitamente

racional

aue

Homero

expligue

a

guerra de Tréia como punicéo dos deuses pelo cri-

me cometido por um chefe aagueu, Tiesto. Também é perfeitamente racional ague os hebreus expliguem a histéria de seus multiplos cativeiros, sua dispers#o e seu retorno ê Terra Prometida como realiza-

cC30o das profecias sobre os crimes do povo eleito

contra as leis de Jeov4. E é perfeitamente racional gue expliguemos a guerra de Tréia e as desventu-

ras do povo hebraico através de uma outra histéria,

o gue mostra simplesmente gue nossa racionalidade é diferente da dos gregos homéricos e dos hebreus profêticos. Encontrar a causa dessa diferenca é tarefa de um pensamento ndo ideolêgico.

Ë de grande importência a afirmac#o de Marx e

de Engels acerca da ideologia como algo ague no tem historia. Por guê? Porgue a ideologia burguesa tem Oo culto da histéria entendida como progresso. Para a ideologia burguesa, toda a histéria é o progresso das nacOes, dos estados, das ciëncias, das

artes,

das técnicas.

E ague o historiador burguéës

aceita a Imagem progressista due a burguesia de si mesma, na medida em aue a burguesia sidera um progresso seu modo de dominar a tureza e de dominar os outros homens. Com

tem conNaesse

culto do progresso, a burguesia e seus ide6logos justificam o direito do capitalismo de colonizar os

povos ditos “primitivos” ou “atrasados” para gue se beneficiem dos “progressos da civilizac3o". Assim,

auando

a

antropologia

social

explica

122

Marilena de Souza Chaui

'clentificamente'” as sociedades ditas “'selvagens””, passa a descrevê-las como sendo pré-lêdicas, como fez Lévy-Bruhl. Ou entao, guando os antrop6logos percebem due tal caracterizacio é colonialista e passam a descrever os ''selvagens”” de modo a revelar gue sdo diferentes e nio atrasados, ainda assim permanecem sob a hegemonia da ideologia burguesa. Por aguë? Porague agora mostram due as sociedades primitivas so diferentes da nossa por serem socledades sem escrita, sem mercado, sem Estado e sem historia. Como bem mostrou o antropélogo Pierre Clastres, em seu livro A Sociedade contra o Estado, explicar as $sociedades primitivas dizendo o gue /hes falta (o sem”) é manter, implicitamente, como modelo explicativo a nossa sociedade, e COmo sociedade plena — isto é, com escrita, com mercado, com Estado e com histéria. sto nao significa due os antropélogos gueiram defender o colonialismo (em geral defendem os in-

teresses das sociedades “'primitivas”), mas sim ague

Sua ciëncia permanece presa a uma racionalidade ee a uma clentificidade gue conserva, silenciosamente, a idéia burguesa de progresso.

Porgue a ideologia nêo tem histéria, mas fabrica historias imagindrias gue nada mais sfo do gue uma

forma

te,

de legitimar a dominacdo da classe dominan-

compreende-se

por

aue

a histêria

ideol6gica

(aguela gue aprendemos na escola e nos livros) seja

sempre uma histêria narrada do ponto de vista do vencedor ou dos poderosos. N4o possuimos a his-

A historia dos vencedores: um carro alegdrico de “grandes homens”.

O gue é Ideologia 123

124

Marilena de Souza Chaui

toria dos escravos, nem a dos servos, nem a dos trabalhadores vencidos — nio sê suas acêes nio so

registradas pelo historiador, mas os dominantes também ndo permitem gue restem vestigios (docu-

mentos,

monumentos)

dessa

histéria. Por isso os

dominados aparecem nos textos dos historiadores sempre a partir do modo como eram vistos e Compreendidos pelos préprios vencedores. O vencedor ou poderoso é transformado em (nico sujeito da histéria nio sê porgue impediu ague

houvesse a histéria dos vencidos (ao serem derrotados, os vencidos perderam o ““direito” a histêria), mas simplesmente porgue sua ac#o histêrica consiste em eliminar fisicamente os vencidos Ou, entao, se precisa do trabalho deles, elimina sua memoria, fazendo com ague se lembrem apenas dos feitos dos vencedores. Nao é, assim, por exemplo, gue os estudantes negros ficam sabendo gue a Abolicio foi um feito da Princesa Isabel? As lutas dos escravos estdo sem registro e tudo ague delas sabemos est4 registrado pelos senhores brancos. N&o h4 direito

a memboria para o negro. Nem para o fndio. Nem para os camponeses. Nem para os operdrios. Histéria dos “grandes homens”, dos 'grandes feitos”, das "“grandes descobertas”, dos “grandes

progressos', a ideologia nunca nos diz o gue s&o

esses

'“grandes”.

Grandes

em

auê?

Grandes

Dor

guê? Grandes em relac&o a auê? No entanto, o saber historico nos diré aue esses "grandes””.

agentes da histêria e do progresso, $#o os “grandes

BERL mm

Eg EE Eg

“n

rg EA

O gue é Ideologia .

e poderosos”, isto é, os dominantes, cuja `grandeza'” depende sempre da exploracdo e dominacao dos “peaguenos'”. Aliës, a propria idéia de ague os outros sdo os “'peaguenos” ja é um pacto ague fazemos com a ideologia dominante. Gracas a esse tipo de histêria, a ideologia burguesa pode manter sua hegemonia mesmo sobre os vencidos, pois estes interiorizam a suposicdo de due nao sao sujeitos da histêria, mas apenas seus pacientes.

125

Biografia

Marilena Chaui é professora de Histêria da Filosofia e de Filosofia Polftica da Universidade de SZo Paulo.

E vice-presidente do Centro de Estudos Contemporaneos

(CEDEC) e da Sociedade de Estudose Atividades Filos6ficas. Realizou trabalhos sobre as idéias de Merleau-Ponty, Spinosa, sobre o integralismo e tem alguns livros no prelo: O Discurso Competente e outras Falas. O Pensamento Pol-

tico de Spinosa e Nervura do Real. Prepara mais um livro para a Colecdo Primeiros Passos: O gue é Repressao Sexual.

Caro leitor: ve VOCË tiver alguma sugest&o de novos Htulos DArOA as NOSSOS COIecoeEs, Dor fAVor Nos envie. Novas idéias sao sempre bem recebidas. Ee

ee

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Em mm

COLECAO PRIMEIROS PASSOS 1 . Socialismo Arnaldo Spindel 2 . Comunismo Arnaldo Spindel 3 . Sindicalismo Ricardo C. Antunes 4 - Capitalismo A. Mendes Catani 5 - Anarguismo Caio Talio Costa 6 - Liberdade Caio Prado Jr. 7 - Racismo J. Rufino dos Santos 8 - Industria Cultural Teixeira Coelho 9 .- Cinema J. Claude Bernardet 10 - Teatro Fernando Peixoto 11 - Energia Nuclear J. Goldemberg 12 - Utopia Teixeira Coelho 13 - Ideologia Marilena Chaiui 14 - Subdesenvolvimento H. Gonzalez 15 - Jornalismo Cl6vis Rossi 16 - Araguitetura Carlos A. C. Lemcs 17 . Histéria Vavy Pacheco Borges 18 - Ouestio Agraria José G. da Silva 19 Comunidade Ec. de Base Frei Betto 20 - Educacao Carlos R. Branddo 21 - Burocracia F. C. Prestes Motta 22 - Ditaduras

Arnaldo

Spindel

23 -. Dialética

Leandro

Konder

24

- Poder

Gé-

rard Lebrun 25 - Revolucao Florestan Fernandes 26 - Multinacionais Bernardo Kucinski 27 Marketing Raimar Richers 28 Empregos e Saldrios P. R. de Souza 29 - Intelectuais Hordcio Gonzaêlez 30 . Recessao Paulo

Sandroni 31 - Religiio Rubem Alves 32 - lgreja P. Evaristo, Cardeal Arns 33 - Reforma Agraria J. Eli Veiga 34 - Stalinismo J. Paulo Netto 35 .-. Imperialismo A. Mendes Catani 36 - Cultura Popular A. Augusto Arantes 37 Filosofia Caio Prado Jr. 38 - Método Paulo Freire C. R. Brandio 39 - Psicologia Soclal $S. T. N aurer Lane 40 - Trotskismo J. Roberto Campos 41 - Islamismo Jamil A. Haddad 42 - Violência Urbana Regis de Morais 43 . Poesia Marginal Glauco Mattoso 44 Feminismo B. M. Alves/J. Pitan-

guy 45 - Astronomia Rodolpho Canlato 46 - Arte Jorge Coli 47 -

Comissies

de

Fabrica

R. Antu-

nues/A. Nogueira 48 - Geografia Ruy

Moreira

49

.-.

Direitos

da

Pessoa Dalmo de Abreu Dallari 50 - Familia Danda Prado 51 - Patrimênio Histérico Carlos A. C. Lemos 52 -. Psiguiatria Alternativa Alan Indio Serrano 53 - Literatura Marisa Lajolo 54 - Politica Wolfgang Leo Maar 55 . Espliri-

tismo

Rogue

Jacintho

56 - Po-

der Legislativo Nelson Saldanha. 57 - Sociologia Carlos B. Martins 58 - Direito Internacional J. Monserrat

Filho 58 - Teoria Ota-

viano Pereira 60 - Folclore los Rodrigues Brandio 61 tenclalismo Joëo da Penha Direito Roberto Lyra Filho Poesia Fernando Paixao.

CarExis62 63 -

A SAIR: Alfabetizacao

Ana

Maria

Poppo-

vic Amamentacio Rubens Garcla Rico Amor Betty Milan Argueologia Uipiano B. Menezes Astrologla Claudia Hollander Autonomismo Mauricio Tragtenberg Autoritarismo Carlos Estevan Martins Banditismo José Ricardo Ramalho Biologla Warnick Kerr Candomblé Leni Myra Siversteln

Capital

Ladislau Dowbor

Capital

Financeiro M. C. Tavares Capital Monopolista de Estado J. M. Cardoso de Mello Carnaval Roberto da Matta Cidade Jaime Lerner Ciëncla Rubem Alves Classes Soclais José A. Moyses Comunicacao J. Diaz Bordenave GConscientizac&o Miguel Darcy de Ollveira Contabilidade Roague Jacintho Contracultura Carlos A. Pereira (Corpo Ana Verbnica Mautner Crianca Excepclonal Rosa M. Scichitano Cultura Carlos R. Brandao Curandelrismo Zella Selblitz Democracla Maria Sylvia C. Franco Desejo Yvone Vieira Industrial Alessandro Desenho Ventura Deseaullibrio Reglonal Wilson Cano Desobediëncla Cl.

vil Evaldo Vlelra Ecologla José Lutzemberg Economla Politica L. G. de Mello Belluzzo Educagêo Amblental José M. Almeida Jr.

Educacêo Fisica Vitor Oliveira Educacao Indigena Araci L. Silva Educador Rubem Alves Estados Unidos Paulo Francis Estética Paulo Estudar Curvelo Marlo Frelre Exillo Angel Nufies Fisica Ernest Hamburger Fome Ricardo Abramovay Fotografia Claudio A. Kubrusly Geopolitica Ruy Mareira Greves Ricardo Maranhêo Homossexualismo Peter Fry/Edward MacRae Inflacêo |J. B. Amaral Filho Judaismo Anita Novinsky Leitura Maria Helena Martins Linguagem Carlos Vogt Loucura Joëio A. Frayze Pereira Maconaria Arnaldo Mindlin Mais Valia Paulo Sandroni Matematlca Artibano Micali Metafisica Gerd A. Bornhein Modelo de Desenvolvimento Ladislau Dowbor Moradia

Luiz

C.

O.

Ribeiro/Ro-

bert M. Pechman Museu Marlene Suano Musica J. Jota de Morais Mutacionismo Alvara de Faria Naclonalismo Toledo Machado Orcamento Federal Herbert Souza Ordem Econêmlica Internacional Ladislau Dowbor Oraguestra J. Jota de Morais Par. lamentarismo Rubem Kelnert Par: tidos Politicos Francisco Weffort

Papel Ot4vio Joëo Batista

Roth Pastoral Pe. Libanio Pedagogla

Lauro O.Lima Planejamento Econêmico Jorge Mialioli Planejamento Empresarial Rogérlo Machado Planejamento Familiar R. Darcy de Ollvelra Planejamento Urbano Candido M. Campos Politica Nuclear Ricardo Arndt Prevldência Social Moyses Ouadros Propaganda Nelson J. Garcja Psicologla Arno Engelman Psicomotricidade Eduardo Ravagni Ouestaa lIndigena Carlos A, Ricardo Recursos Humanos Flêvio Toledo Religiëo Popular Rubem C. Fernandes Repressao Sexual Marilena Chaui Retêrica José A. Pessanha Rock Paulo Chacon Saide Publica Silvio Botcmé Saldrio Minimo Herbert Souza Slilêncio André Galarsa SIistema Rogério Machado Sociedade Civil M. Sylvia C. Franco Socloblologia José M. Almelda Jr. Solo Urbano Sérgio Souza Lima Televisado Walter Salles Jr. Teologia Rubem Alves Terrorismo José Manoel Barros TrabaIho Ernildo Staine Transporte Urbano Sérgio Souza Lima Umbanda Patricia Birman Universldade .Luiz Wanderley Vinho Abelardo Blanco Vlolência Nilo Odélia.

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'A Filosofia e a Visao Comum do Mundo Bento Prado Jr./Oswaldo Porchaf Pereira/lercio Sam dio Ferraz

A Filosofia e

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Ë na divergência aue o lIvro enconta

sua mais funda unidade: a auesi&o sempre repostia, em crise crescente, da nalureza da filosofia.

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O cienltista virou um mito. E todo milo é perigoso, poraue ele induz o Ccomporliamento e inibe o pensamento. Existe umo Classe especlalizada em DEnsar de maneia cor eta: os cientistas, Antes de moais nada, ê preciso acabar com esse mito aue confere A 'OziAo €

Aa verdade a esses INAIVIdUoS.

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Conhera Htambém a colerfio FHudo é historia ULTIMOS TITULOS LANCADOS OPULÊNCIA E MISERIA NAS MINAS GERAIS Laura Farguere A BURGUESIA BRASILEIRA Jacoë Gorender O GOVERNO JANIO OUADROS Maria Vict6ria Benevides REVOLUCAO E GUERRA CIVIL ESPANHOLA Angela M. Afmeiga A LEGISLACAO TRABALHISTA NO BRASIL Kazuzmi Munakata

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Huëno Franco fr.

FORMACAO DO 3? MUNDO Ladislau Doiwbor O EGITO ANTIGO Caro Hamarion Cardoso REVOLUCAO CUBANA DE JOSE MARTI A FIDEL CASTRO (1868-1951) Abelardo Blanco/ Carlos A. Dora O MIGRANTE

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