SóPapos 2020 [1a. edição]
 9786588357156

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MD Magno

SóPapos 2 0 2 0

SóPapos

2020

MD Magno Aristides Alonso Nelma Medeiros  Patrícia Netto Coelho

SóPapos 2 0 2 0

é uma editora da Presidente Rosane Araujo Diretor Aristides Alonso Copyright 2022 MD Magno Texto preparado por: Nelma Medeiros Patrícia Netto Alves Coelho Potiguara M Silveira Jr Revisão: Paula Carvalho Editoração eletrônica e produção Gráfica: Wallace Thimoteo Editado por Rosane Araujo Aristides Alonso

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) _______________________________________________________________________ Magno, MD SóPapos 2020 / MD Magno. -- 1. ed. -- Rio de Janeiro : Associação Cultural Univercidade de Deus - UD, 2022. PDF. ISBN 978-65-88357-15-6 1. Psicanálise 2. Psicologia I. Título. 22-136951 CDD-150 _______________________________________________________________________ Índices para catálogo sistemático: 1. Psicologia 150 Aline Graziele Benitez - Bibliotecária - CRB-1/3129 Direitos de edição reservados à: Rua Sericita, 391 – Jacarepaguá 22763-260 Rio de Janeiro – RJ Tel.: (021) 2445-3177 www.novamente.org.br

Para ANNITA IEDDA CARDOSO DIAS: 28/02/1936 - 09/10/2021 Para o amor da minha vida que tanto me deu de alegria e inspiração, agradecido para sempre pela companhia permanente e inseparável de 63 anos de afeição. Do seu Magno

EXERGO Nós, os Pensadores Vira-Latas, que vivemos de fuçar as Latas de Lixo Culturais desse nosso vasto Mundo, embora raramente, mas por vezes, achamos, de sobejo, alguns reais Tesouros nunca dantes e nenhures garimpados. Caso dos Místicos Heréticos lá da Idade Média, assim como quejandos, precursores longínquos do atual progresso da psicanálise, embora soterrados pela vencedora narrativa Cristiana e punidos, se não mesmo assassinados, pela então poderosa Católica Romana. NovaMente lidos, são certamente os mártires pregressos do Inconsciente Freudiano em seu movimento necessário pelos nossos anos.

EXERGO Aquele que cria a obra dá à luz seu próprio pai. KIERKEGAARD

Não sejas curioso do amplo mundo. Ele é menos extenso do que fundo. FERNANDO PESSOA

Ano provável do início do Quarto Império anunciado pelo autor em 08/10/96 em Brasília, no Palácio do Planalto, como parte do workshop da SAE da Presidência da República CENÁRIOS 2020 determinado pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo Astrólogos (que sejam perdoados se estiverem errados), no dia 20/12/2020, Segunda Feira, em havendo conjunção de Júpiter e Saturno: o Planeta do Já e o Planeta do Sempre.

Sumário

1, 23 Só há pulsão de não-Haver e os resultados de sua não realização – Insistência conservadora das formações (conatus) – Tese da impossibilidade da entropia total – Pressão teológica cristã no pensamento ocidental. 2, 26 Tomás de Aquino é ápice da concepção do Terceiro Império – Validade do Creodo Antrópico fora do Ocidente – Sense in Thomas: James Joyce parodia Terceiro e Quarto Impérios – Sentido do Terceiro Império não é redutível à sua configuração cristã – Cristianismo nasceu entre o calvário e o coliseu – Lacan foi fechamento do Terceiro Império. 3, 31 Fenômenos etológicos em humanos – Quanto mais rico o Secundário, melhor a utilização do Originário – Hipótese da correlação entre neotenia da espécie e emergência de Originário – Neo-etologia dificulta situar o que é ou não etológico nesta espécie – Sexualidade humana não tem parâmetros – Primário é atrator da Neo-etologia – Clínica, neo-etologia e disponibilidade. 4, 36 Situação dilacerada do Quarto Império – Tecnologia fez Terceiro Império desmoronar – Movimentos regressivos: fuga do Originário e tentativa de se afirmar no Secundário dado – Extinção e difusão algorítmica da psicanálise 7

no Quarto Império – Revirão tecnológico forçou abandono do lacanismo – Teologia radical / libidinal no lugar do Haver – James Joyce, Tomás de Aquino e a passagem de Terceiro a Quarto Império. 5, 39 Relação entre Princípio de Catoptria e Alei na teoria – Haver não pode ser indiferente ao não-Haver – Perda de parâmetros de organização política na entrada do Quarto Império – Quarto Império produzirá imenso lixo humano – Aristocracia e diferença no Quarto Império – Para esta espécie, natureza é questão de domínio ou escape – Bolsões de paralisia na humanidade e civilização como riqueza – Educação depende de imposição de parâmetros. 6, 45 Dissolução de fronteiras precedida por sua recrudescência no Quarto Império – Abandono de pensamento linear em favor de Revirão – Eixo do século XX é paranoico – Deleuze faz obra paranoica sobre esquizofrenia – Dependemos de um ato político novo – Aceleracionismo de esquerda mantém o pé no freio – Brasil tem jeito de Quarto Império. 7, 51 Tecnologia inicia como extensão, mas pode ficar independente – Qualquer acrescentamento ao Artifício Espontâneo é produção industrial – Reconhecimento de falência de uma formação não é rivalidade – Considerações sobre Tomás de Aquino e a Nova Psicanálise – Paranoia das ciências formais nas primeiras décadas do século XX – Mística é tentativa rigorosa de ultrapassagem – Encontrar momentos fecundos na história da Pessoa – Como se monta um HiperRecalque? – Consideração do nome do pai de Lacan segundo a Tópica do Recalque e insuficiência do conceito – Possibilidade de coincidência entre HiperRecalque e fantasia – Axioma funciona como HiperRecalque para uma teoria – Processo progressivo sedimenta em Neo-etologia.

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8, 59 Originalidade da Tópica do Recalque é inclusão do Revirão – Artifício Industrial depende de emergência de Revirão no Espontâneo – Originário funda espécie enquanto IdioFormação – Criar é fabricar uma contraposição ao dado – Obra de arte é o Ato – Pragmatismo radical de Mangabeira Unger – Descoberta depende de sacose – Distinção entre analógico e simbólico – Emergência de Revirão é o evento para a espécie – Perspectiva, maneirismo, classicismo e cânone. 9, 67 Consideração de Lovecraft: contra o mundo, contra a vida, de Michel Houellebecq – Humanidade vive de denegação e recalque – Espécie produzirá seu substituto – Pensamento paranoico busca salvaguarda para espécie – Protocolos teóricos abertos e fechados – Mangabeira Unger quer instalar vigência do Secundário em movimento. 10, 72 Pressão sintomática sobre Revirão força sequência da imitação à criação – Capitalismo é modo de existência da espécie e do Haver – Civilização é passagem para guerra abstrata – Mulheres são doidas e homens estúpidos – Necessidade de recursos de contenção. 11, 77 Mentalidade portuguesa em Espinosa e Fernando Pessoa – Transcendentalismo radical e pragmático em Portugal – Dissolução de parâmetros afeta Primário e Secundário – Quarto Império não entrará sem cataclismo – Humanidade descobrirá que não funciona sem aristocracia – Percurso d’A Bandeja do Herói (1994) é percurso de análise – Há apenas um passo entre o herói e o babaca.

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12, 83 Comentário sobre a fala de MD Magno no painel Cenários Brasil 2020 (1996) – Explosão biológica acelera entrada do Quarto Império – Vitória da masturbação e da pornografia – Espinosa como cruzamento de formações em Le Clan Spinoza, de Maxime Rovere – Necessária mudança da total formação secundária mundial – Diferocracia valida todas as diferenças e contém sem moralidade – Perda de autoridade dos poderes constituídos. 13, 90 Urgência de visão nova para Quarto Império – Fim da privacidade – Vínculo Absoluto na percepção de que estão todos na mesma merda – Realidade obriga a nova forma de existir – Ainda não há pensamento que descreva nova era – Tradição de hierarquia na China – Pensar em termos de formações. 14, 96 Esta espécie produzirá o pós-homem – Pobreza mental: cerebral ou analítica – Pessoas não são inteiras em seu funcionamento – Quarto Império inclui clareza de que formações são só formações – Perda de valor da verdade exige hierarquia ad hoc dos conhecimentos – Vírus é fator de extremo recalque – Sobre análise on-line. 15, 104 Lélia Gonzalez, Améfrica Ladina e o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro. 16, 107 O Pato Lógico (1979) já apresentava heterodoxia lacaniana – Impregnação cultural do pensamento chinês – Democracia e cristianismo no Ocidente são fake – Abstração é afastamento do anedótico em busca das articulações – Não há sublimação porque não há desvio.

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17, 113 Conceito de analogia (Hofstadter, Sander) se aproxima do conceito de formação – Situação virótica acelera transformação no sentido do Quarto Império – Impérios morrem espontaneamente do seu próprio gozo – Teoria das formações subsume cibernética, teoria da informação e entropia – Emergência de vinculação absoluta e sua decadência – “Só faz psicanálise quem faz a psicanálise” – Necessária travessia para chegar ao desenho da fantasia – Algumas travessias exemplares. 18, 123 Aproximações entre o conceito de analogia em Melandri, Hofstadter e Sander e o conceito de formação – Graus de reificação da analogia (metáfora, hipóstase) estão em função de recalque – Consideração de formações em jogo desconfigura figurações imaginárias – Desrecalque gradativo do polo aumenta complexidade do foco e importância das franjas – Analogia é passagem entre formações mediante similaridade qualquer – Na chave do Revirão, vale qualquer transformação. 19, 129 Heterossexualidade / homossexualidade (banda bilátera), anfissexualidade (banda unilátera) e sexo qualquer (plano projetivo) – Algoritmo da fantasia pode ser instalado em qualquer computação – Gnômica acolhe conhecimento qualquer – Todo pensamento é fagocitado pela mediocridade – Revirão resulta em múltiplas linguagens – Computador quântico quer introduzir Bifididade. 20, 136 Realidade é suposição de formações externas – Eficácia hierarquiza ficções – Pessoas são cacos sem centralidade – Prova de realidade é só-depois e in progress – Conhecimento é jogo sem chão entre formações – Eficácia está em função de desejo – Progressão do conhecimento exige transformação das analogias – Analogias do Inconsciente na história da psicanálise – Esquizousia (NovaMente) ≠ esquizofrenia (Deleuze) – Loucura fundamental é fundada 11

pela Morfose Progressiva – Destacamento do algoritmo da fantasia desconfigura sexualidade da Pessoa. 21, 149 Impregnação cultural na China e o fake do Ocidente – Igreja católica é herdeira do império romano – História ocidental da filosofia é vontade de verdade – Creodo não determina conteúdo da formação que o configura – Depuração de Oriente e Ocidente para instalação do Quarto Império – Oespírito é compatível com Teoria das Formações – Memória como registro de formações e última instância da memória (homogeneidade) – Projeto gnóstico e projeto da psicanálise. 22, 157 Personagens ilustrativos do conceito de IdioFormação – Terceiro Império abominou postura de rebelião – Lacan busca no Segundo Império a garantia da estabilidade psíquica (Nome do Pai) – Abstração da teoria das formações – Revirão é maquininha de moer configurações – Paralisias sintomáticas vazam entre regiões. 23, 161 Fake e o esquema mapa-território – Transcendência e enganação no Ocidente – Suspensão no pensamento oriental – Ficção é artifício provisório para lidar com a suposta realidade – Fake é construção produzida no sentido do engano – Reconhecimento do fake é caso a caso – Não há autor, mas vítima do que ocorre – Analogia ou fake são aplicações distintas da ficção – Intuição é resultante de transas que não acompanhamos – Certeza é “certeza de que gozou”. 24, 171 Imbecilidade e o Revirão da democracia no Brasil – Populismo e distinção entre gentalha e povo (Anísio Teixeira) – Falência do processo democrático 12

– Situação brasileira e a lei na trilogia de Sófocles – Secretar uma realidade adequada à situação – Ato analítico é consequência evidente e imediatamente reconhecida. 25, 175 Física, teoria da informação e Nova Psicanálise – Processo de refinamento das concepções teóricas – Clínica Geral aborda toda e qualquer formação como construto sintomático – Análise da fantasia possibilita variações com seu algoritmo – Dissolver não é eliminar sintoma – Permanência dos Impérios como cristalizações sintomáticas – Vínculo Absoluto como referência das transas no Quarto Império – Ciência do singular não generaliza verdade do caso – Destacamento da fantasia e começo da Análise Efetiva – Pessoas são formações estilhaçadas que não conversam – Um passo a mais na clínica: transferência com a instituição; atendimento por qualquer analista. 26, 186 Considerações sobre pulsão em Freud e na Nova Psicanálise – Generalização do conceito de sintoma – Pulsão é sintoma do Haver – Perplexidade e riso em psicanálise – Primário sob ameaça e Secundário desmoralizado diante do vírus – Realidade é transa de formações entre Haver e psiquismo – Função da psicanálise não é eliminação de hábitos, mas disponibilidade – Soluções para o Quarto Império terão que ser inventadas – Psicanálise é Terceiro entre Prometeu e Epimeteu. 27, 195 Sintoma maníaco-depressivo do Brasil – Mentalidade de facção socialmente disseminada – Postura macunaímica como sintoma Progressivo que escapa à oscilação maníaco-depressiva – Psicanálise favorece a disponibilidade de pensamento diante da inadimplência do Secundário – Convivência simultânea dos Impérios – Tanatocracia tomou o poder através do vírus – O ridículo da espécie: Much ado about nothing. 13

28, 201 Polo de Formações serve para pessoas quebrarem sigilo de suas próprias análises – Um novo formato de clínica e o fim da privacidade – Recrudescência da guerra sintomática na passagem dos Impérios. 29, 203 Procedimento analógico escapa das dicotomias – Por que algumas crianças conseguem saltar fora do recalque imposto? – Fantasia envolve uma solução à transa sexual enquanto resultante numa existência – A inteligência é desobediente à autoridade – Autoridade explícita na Roma imperial e o double bind do Terceiro Império cristão – Epistemologia instala a autoridade no interior da produção do conhecimento. 30, 209 Teoria das Formações tira ao máximo os conteúdos e deixa as articulações – Modo paranoico de transar com as formações em Lacan – Conhecimento é efeito de Quebra de Simetria – Conteúdos são do mundo, não da teoria – Fake é um fato – Temporalidade e atemporalidade no Haver – Escalas micro e macro na física e o Inconsciente. 31, 216 Questão sobre Walt Whitman e a fantasia – Fantasia tem amarração no Primário e no Secundário – Fetiche é singular e expressa a fantasia – Sexo da espécie é qualquer, mas tem fixação para cada um – Maldade fundamental é dispor do outro à sua revelia – Hipótese da psicopatia como defeito nos neurônios-espelho – Progressivo patológico e Progressivo propriamente dito – Abstração visa chegar ao minimalismo radical da articulação – Processo de secularização depende de secundarização – Estragos do sintoma eclesiástico na história da psicanálise.

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32, 224 Religião, ao contrário da Mística, não é transcendental – Institucionalização da psicanálise tem uma história igrejeira e religiosa – Psicanálise não é profissão – Teoria das Formações procura as formações que interessam para o entendimento do Inconsciente. 33, 227 Império é poder de um sintoma imperativo – Creodo antrópico é leitura sintomal – Domínio da informação no Quarto Império – Pragmatismo radicalizado de Mangabeira Unger e pragmatismo místico (1996) na Nova Psicanálise – Possibilidade de instituições em dinamização permanente – Formulações da história da psicanálise podem comparecer como conteúdos em análise – Psicanálise aproveita tendências do pensamento de cada momento – Weltanschauung depende de configuração das formações – Estruturalismo, totalização e furo – Patemática considera gradientes de funcionamento – Poeta denuncia a sintomática de uma língua. 34, 234 Teoria psicanalítica está infectada pela sintomática de quem a produziu – Freud: “tive sucesso onde Fliess fracassou” – Formações do autor determinam percurso abstrativo ou literário – Cientista observa o Espontâneo a partir de sua lente – Abstração se afasta do anedótico em favor das articulações em jogo. 35, 237 Teoria das Formações suspende definições genéricas da cultura – O teatro que está em cena é fake – Descrição da fantasia tem características de verdade – Édipo é um sintoma de Freud – Analista não sabe, tem que perguntar e acolher – No Primeiro Império, Pessoa se define como filho da mãe – Esquizofrenia e paranoia como vetores centrífugo e centrípeto em relação ao HiperRecalque.

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36, 242 Clássico, Barroco e Maneiro são fórmulas mínimas de construção – Estilo Tanático é tentativa de destruir a obra – Nosologia conteudística de Freud é redutível a descrições minimalistas – Expressões da tendência maneirista na cultura brasileira – Os Quatro Estilos são lentes de observação do mundo – Fantasia se expressa em todas as moções da Pessoa no mundo – Relações entre fantasia e estilos – Lei dos homens (Kant) e lei do Haver (Sade) – Revirão é conceito maneirista – Cada artista diz um estilo dentro de sua Morfose – Sintomática brasileira em Sérgio Buarque de Holanda – Posturas distintas em Goedel e Turing. 37, 252 Lacan-Rosa no percurso de MD Magno – Veio heterofágico e macunaímico para além do Brasil do século XX – Dissolução do Terceiro Império e exigência de metamorfose – Movimento surrealista e Semana de 22 como tentativas de dissolução – Quarto Império sob o signo de Tânatos – Brasilidade na literatura e na teoria – Processo de boçalização no mundo – No fim, Lacan dissolveu sua obra – O amor (Terceiro Império) estava segurando contra a morte (Quarto Império) – Morticínio do século XX é resultante de paranoia – Reações paranoico-regressivas contemporâneas são caricaturas do século XX – Esforço modernista brasileiro não colou em nível nacional, mas em várias manifestações individuais – Sobre Glauber Rocha. 38, 263 Comentários sobre Senso Contra Censo (1977) e Rosa Rosae: Leitura das Primeiras Estórias de João Guimarães Rosa (1985) – Anulação das significações n’As Meninas, de Velázquez – Obra de arte e processo de análise como travessia – Todo olhar é projetivo – Pessoas são fracionárias – O olhar indiferente de Cézanne – Aproximações e distinções entre o Zen e a psicanálise – Comentários sobre Cette Étrange Idée du Beau (2010), de François Jullien – “Capitalismo da alma” e produção de uma obra – Localizar a fantasia e fazer dela uma Arte – Senso Contra Censo apresenta núcleo do que seria 16

desenvolvido na Nova Psicanálise – Transmissão do analista é prática de repetição da sua travessia – Redundância e decadência do lacanismo – História da psicanálise sofre de falta de articulação – Noção de técnica em psicanálise. 39, 273 Universalização do anedótico na história da psicanálise – Teoria das Formações permite tomar achados da história da psicanálise como formações sintomáticas repetitivas – Creodo antrópico é sintoma desta IdioFormação – Técnica psicanalítica lança mão do que quer que sirva – Abstração no pensamento visa escapar do anedotário – Vetor da psicanálise é da clínica para a teoria – Morfoses configuram formas de congelamento das formações. 40, 279 Pensadores Estacionários e Progressivos – Psicanálise pensa em Revirão e considera o bífido – Clínica empurra analisando para consideração de seu lugar – Bifididade e estupidez na história da psicanálise – Entropia e neguentropia entre Haver e não-Haver – Ressituação de “magia” e “religião” na Nova Psicanálise – Psicanálise obriga à lógica algorítmica e da transa entre formações. 41, 284 Surgimento de Revirão entre os primatas – Vertente pragmatista está para além do cacoete estruturalista do século XX – Relações de significação não se restringem ao simbólico – Expressões do processo articulatório da IdioFormação para além da fala – Clínica mediante recepção: acolhimento integral do que é exposto – Distinção entre articulação e gramática. 42, 290 Protocolos de Terceiro Império não dão conta de James Joyce – Passado a limpo, pensamento de Tomás de Aquino é compatível com Quarto Império – Finnegans: despertar da língua e despertar da história – Reformatação das 17

línguas no Quarto Império – História é sintoma do Terceiro Império cristão – Teoria psicanalítica é pensada a partir do laboratório clínico. 43, 293 Recepção em psicanálise não se reduz à escuta – A obra de arte total de Wagner e as tecnologias – Atenção flutuante é colher formações sem focar – Intervenção é no sentido de o analisando se dar conta das formações que expõe sem se dar conta – O analista não enfrenta a resistência – Gilles de Rais e Jeanne d’Arc são dois alelos do mesmo Revirão. 44, 297 “Mestre Eckhart é o precursor da teorização sobre o Inconsciente” – Relação transcendência-imanência em Eckhart, Aquino e Espinosa – Valor da noção de Grunt (fundo) em Eckhart e sua similaridade em psicanálise – Pensamento perplexo é “psicologia negativa” – Lacan negativizou sobre a psicanálise: “A psicanálise é a pergunta ‘o que é a psicanálise?’” 45, 302 Apresentação de Nelma Medeiros: Sobre a proposição “O estatuto do Inconsciente é místico” em sua relação com o pensamento de Mestre Eckhart – Místicos: precursores mais recentes do Inconsciente – Obra de Arte Total – Secularização da psicanálise: Secundarização – Análise do sintoma ocidental do Transcendente – Gnoma: lugar de exasperação entre Haver e não-Haver em que colocam uma rolha chamada Deus ou sujeito – É preciso desistir de não-Haver e voltar para a imanência, ainda que com vontade de transcendência – A mística de Eckhart e sua prática. 46, 337 Apresentação de Aristides Alonso: Paraconsistência e resistência – Quarto Império: lógica não-consistente – Processos de articulação são diferentes de “linguagem”. 18

47, 368 Apresentação de Patrícia Netto: Psicanálise & Lógica: “O não-Haver não há” – Artifício Espontâneo e Artifício Industrial – Imanência e transcendência em Espinosa – Para a NovaMente, a imanência sofre desejo de transcendência – Denegar é afirmar – Nada não é não-Haver – Berimbau: homogêneo, indiferente – O Fundo indiferenciado. 48, 388 Comentários de Patrícia Netto sobre o livro Linguagem: a história da maior invenção da humanidade, de Daniel L. Everett – Revirão é condição de emergência de linguagem – Competência de linguagem é eclosão de uma formação de formações 49, 404 Aproximação entre o pensamento zen e Mestre Eckhart, a partir do entendimento da Mística como postura de radical indiferenciação – Mística, como ápice do psiquismo, é denominador comum para instalação de Quarto Império – NovaMente é postura terceira em relação a Deleuze e Lacan – Psicanálise, zen e Eckhart: mística como processo de afastamento e indiferenciação, e analogia como modo de articulação do pensamento – Distinção operativa entre comunicação e informação a partir da analogia – Mística como condição de produção de Império novo. 50, 415 Situação da psicanálise na entrada de Quarto Império – Infância da psicanálise com Freud e os freudianos – Modelo da histeria no século XIX e da paranoia no século XX – Adolescência da psicanálise com Lacan – NovaMente tenta produzir a idade adulta da psicanálise – Procedimento místico tenta ir ao ápice do psiquismo – Tirésias, o trans – Confluência entre as místicas e o caminho da psicanálise no século XXI – Nova Psicanálise é processo de vanguarda.

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51, 423 Indiferenciação: suspensão e absoluta participação – Ordem sintomática nascente será irreconhecível para padrões anteriores – Mentalidade da China se apossará do século XXI – Intervenção em análise é inclusão de fatos compatíveis porque analógicos – Pensamento analógico não é euclidiano – Analista entra e mexe analogicamente na configuração do analisando – Analogia no pensamento oriental – Pensamento paranoico supõe representar fielmente a realidade – Quando o mundo muda, há que buscar outra analogia – Vínculo absoluto e especiação secundária – Diferocracia: respeito absoluto por cada um e reconhecimento das diferenças. 52, 430 William Withering e a Digitalis purpurea – Leitura leiga de conhecimentos mágicos e religiosos – Os místicos pesquisavam posição extrema do psiquismo humano – Estatuto místico da psicanálise é denominador comum do pensamento místico – NovaMente é tentativa de instituir paradigma contemporâneo – Leitura laica faz limpeza de configuração mítica e busca raciocínio – Processo contemporâneo é de desconfiguração e articulação ad hoc – Processo de laicização aumenta disponibilidade em relação às formações – Princípio antrópico, Meister Eckhart e o Haver. 53, 440 Relações entre psicanálise e política – Ideologia é ficção que se apresenta como não-ficção – Fixão é ficção que tem, em seu momento, o máximo de eficácia – Qualquer formação é potencialmente ideológica – Função da psicanálise é suspensão permanente da hipóstase – Três graus de alegoria: Ficção, Fixão e Hipóstase – Ato analítico é ato político – Política compatível com Quarto Império é instrumental – Postura de psicanálise é no sentido de preparar novo caminho – Quinto Império pós-bio com superação da IdioFormação humana – Creodo empurra para assunção da ordem artificiosa de qualquer transa – Psicanálise pratica Polética da Prótese – Revirão é único recurso para neutralizar carga sintomática. 20

54, 451 Derrogar a força de uma ideologia é ato político da psicanálise – Gênero como categoria escalar e não ideológica – Engajamento político do psicanalista é o da psicanálise – Base etossomática do racismo – Diferocracia é política da singularidade – Exemplos da função ficcional em Freud e Lacan. 55, 456 Reconsideração dos sentidos de religare e relegere para a psicanálise como arreligião – Entendimento de religare como impulso místico ou exercício de reconhecimento do Haver como neutro – Processo ideológico, religioso e eclesiástico como vontade de certeza. 56, 461 Freud como decifrador do misticismo – Fascínio e horror da pulsão a partir de comentários sobre Ensaios sobre o numinoso, de Rudolf Otto – “Haver desejo de não-Haver é desejo do Outro absoluto” – Cura é função assintótica no sentido de indiferença e neutralidade radicais – Como ápice do Inconsciente, a Mística é denominador comum entre Ocidente e Oriente e entre as IdioFormações – Big bang como Revirão do Haver: entropia (pulsão de morte) revira em neguentropia (não-Haver não há) – Diferocracia depende de reconhecimento de denominador comum para as diferenças – Resistência como anti-entropia resulta em defesa contra a pulsão – Movimento tanático como excesso de progressividade. 57, 474 Não distinção entre Gnômica, ontologia e teologia a partir da psicanálise – Fé é equivalente ao sentimento d’Alei ‘Haver desejo de não-Haver’ – Religiões e crenças decorrem do reconhecimento Inconsciente d’Alei – Repetição do Revirão na IdioFormação situa salvação e encarnação – Nada, indiferença ou neutralidade absoluta como O LUGAR (no sentido de Mallarmé) – Proposição de temas programáticos para a psicanálise na entrada do Quarto Império – Distinção entre Progressividade da análise e movimento Progressivo da Morfose. 21

58, 484 Reconhecimento de três forças Progressivas na atualidade: capitalismo acelerado, psicanálise e tecnologia – Populismo e Tradicionalismo como forças retrógradas – Paralelismo entre a entrada do Terceiro Império e a do Quarto Império: agonística entre forças Progressivas e Regressivas – Conjeturas sobre instalação do Quarto Império com facies de Terceiro Império – China como exemplo de constituição de poderes de baixo para cima (antipopulismo). Referências, 498 E-mails, 501 Sobre o Autor, 504 Ensino de MD Magno, 505 DATAS Os números abaixo correspondem às seções e datas dos SóPapos 2020, realizados on-line e na UniverCidadeDeDeus, sede da NovaMente: Seções: 1 e 2: 18 janeiro – 3 e 4: 25 janeiro – 5: 01 fevereiro – 6: 08 fevereiro – 7: 15 fevereiro – 8: 29 fevereiro – 9 e 10: 07 março – 11: 14 março – 12: 28 março – 13: 01 abril – 14: 04 abril – 15 e 16: 08 abril – 17: 11 abril – 18 e 19: 15 abril – 20: 18 abril – 21 e 22: 22 abril – 23: 25 abril – 24: 29 abril – 25: 02 maio – 26: 06 maio – 27: 09 maio – 28: 13 maio – 29: 16 maio – 30: 20 maio – 31: 23 maio – 32 e 33: 27 maio – 34 e 35: 30 maio – 36: 03 junho – 37: 06 junho – 38: 13 junho 39 e 40: 04 julho – 41 e 42: 11 julho – 43 e 44: 25 julho – 45: 01 agosto – 46: 08 agosto – 47: 15 ago – 48: 05 setembro – 49: 12 setembro – 50 e 51: 26 setembro – 52: 03 outubro – 53: 10 outubro – 54 e 55: 17 outubro – 56: 07 novembro – 57: 21 novembro – 58: 19 dezembro.

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1 Dada a sintomática geral, prefere-se discutir problemas do que fazer as coisas. O planeta está assim, discutindo – e vai piorar. Nós não precisamos fazer isso por termos referências para não criar grande caso a respeito de alguma pequena diferença. A diferença pode ser incluída, desde que se tenha um mínimo de entendimento claro a respeito do que está sendo tratado. A teoria da NovaMente é minimalista, muito fácil de arrumar. • P – Procede pensar que é mais fácil entender o Revirão pulsão de vida / pulsão de morte do que apenas considerar a pulsão de vida como resistência? A rigor, não existe pulsão de vida. O que digo é, como o não-Haver não é atingível, a coisa retorna em termos de formações. Talvez fosse isso que Freud chamou de pulsão de vida, mas não chamo assim. Só aceito a insistência na pulsão de morte, primeiro, por causa do próprio Freud, segundo, pela intuição de Lacan de que não há pulsão de vida. Pulsão de morte – se quiserem jogar fora o “de morte”, joguem – é Pulsão de não-Haver. A Pulsão é: não haver. O único fenômeno é: se não-Haver não há, a coisa retorna e re-explode em formações, entre as quais, aqui em nosso universo, algumas são vidas, são resultantes da impossibilidade de passar a não-Haver. Usei os termos pulsão de vida e de morte por estarem no glossário da psicanálise, mas o que está escrito n’Alei é: não-Haver. Não tem a palavra morte ou a palavra vida. O que acontece de reformatação do Haver é por quebra de simetria. Como sabem, quebra de simetria quer dizer que não há passagem para não-Haver – o que é, inclusive, cosmológico, faz parte da cosmologia. Um grupo de físicos inventou que o Big Bang veio do nada. É uma imbecilidade, a não ser que nada seja o que defino, ou seja, é a homogeneidade absoluta. Na cabeça deles, há a loucura de achar que, de não-Haver, aparece Haver. Em minha cabeça, isto não existe como possibilidade. Se existe o tal Big Bang, é apenas uma inflação, pois a coisa se condensa no sentido de desaparecer, mas não consegue, então, volta produzindo formações. É o que 23

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Freud achava que era pulsão de vida. Não há pulsão alguma aí, é resultante da não realização da força. Ela não consegue se realizar no sentido que queria, então volta em sentido contrário. Se o universo, esse nosso, tivesse pulsão de vida, tudo estaria habitado. Por que está tudo careca? Por que só encontramos planeta careca por aí no cosmos. Tudo deveria estar cheio de vida, não é? A coincidência de haver vida aqui é uma coisa local. Pode ter em outros lugares, mas é difícil porque não existe pulsão de vida. Se existisse, até nós teríamos mais vida. Temos muito pouco. • P – Mas o mais comum é vermos a presença incessante da luta, da agressividade pela sobrevivência. É claro. Não me canso de citar Espinosa, com seu Conatus. Todas as formações querem se conservar – mas não conseguem porque a Pulsão é mais forte. Uma coisa é um acontecimento resultante de uma impossibilidade – é o que Freud chamava de pulsão de vida, o que é uma bobagem –, outra, é a força do empuxo da Pulsão. Não há escapatória da Pulsão – ou jogamos todo o conhecimento no lixo. Quando alguém insiste em sobreviver, está sendo reacionário. Se fosse mais inteligente, morria logo. É o que dizia Santa Teresa: Morro de não morrer. Ela entendeu completamente o que é a Pulsão. Haja vista a Bernini. • Aristides Alonso – É preciso considerar que, muitas vezes, um pensador está na convergência de duas narrativas que ele não sabe bem juntar e tampouco pode jogar fora uma delas. É o caso de Freud com o evolucionismo darwinista e a termodinâmica da época com o conceito de entropia. Uma parecia contrariar a outra. Se a tendência é aumento constante da entropia, como falar em evolução, em maior organização, em maior complexidade possível? Pulsão de vida é compatível com o conceito darwinista de vida e de evolução. Como re-situar o conceito de entropia? Uma turma de físicos e cosmólogos resolveu achar que, se há entropia, tudo se entropizará, perderá totalmente a temperatura, o universo se resfriará e virará coisa alguma. Não acho que isso exista, esse conceito de entropia está errado. Entropia é: Haver desejo de não-Haver, e impossibilidade de entropia total. Quanto a isso, prefiro Mario Novello. A entropia é fortíssima, até o ponto em que o peso da ignorância de físicos e cosmólogos empurrará tudo de volta. Dito assim, resume-se teoricamente o que está em jogo. Esquecemo-nos de que o conhecimento deles parece 24

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complexo, mas é mínimo. Estão engasgados com a força e a energia escuras. E se forem essas que produzem a elasticidade da coisa, de ida e volta? Também não sei se é, mas como ninguém sabe estou dizendo que pode ser. Não podemos tomar qualquer teoria e escravizar um raciocínio mais amplo a ela. Para mim, o conceito de entropia total é falso. Há um pessoal que pensa que há uma neguentropia de algum tipo de formação. Mesmo que você pense “Haver desejo de não-Haver”, o não-Haver é impossível, há uma energia enorme que bate com a cara na parede e se esfacela em formações – isso é neguentropia. • AA – Ilya Prigogine, mostra que, como o sistema é entrópico, ele entropiza, entropiza e chega a determinado ponto em que, em vez de morrer, se reorganiza. É um equilíbrio precário. Diz ele também que o vivo como nós somos é dessa ordem de equilíbrio precário. Ele chamava de estrutura dissipativa. Somos estruturas dissipativas. Falei sobre isso há décadas. Tomei Prigogine como exemplo. Não acredito em entropia total, não existe essa possibilidade. O não-Haver não há. Notem que o caos não é entropia, é certa desordem barulhenta que, de tanto se chocar, acaba aparecendo algo novo. • AA – A teoria da informação, para poder fazer cálculo de informação, precisa estabelecer um número. Se estou lidando com qualquer entropia que, por princípio, não tem quantificação possível, a teoria da informação lhe dará um número. Ela parte de certo número e calculará dentro daquela razão. Como são números astronômicos, parece que está tomando o processo por inteiro, mas não está. Há um sintoma mais grave, que se chama: Ocidente cristão. Há que perguntar a um cientista chinês sobre isso que você falou aí. A pressão teológica aqui é grande demais. Mesmo se espremermos Lacan, veremos que é católico. Se lhe dissesse isso, ele ficaria puto comigo, mas, observando bem, vemos que ele quis fazer o que fez dentro de uma teologia católica. Ele quis essa limitação. Chegou a ponto de querer falar com o Papa. Por que um pensador como Lacan quereria falar com o Papa? • P – Queria papear. Nem que fosse um papo, ele queria. Para quê? Para salvar o Nome do Pai como conceito instalado numa religião. Isso é um erro? Não, é uma 25

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posição. Temos o mau hábito, sobretudo ocidental, de achar que tudo de que discordamos está errado. Não está errado, é um modo de articular. Como não há catolicismo ou cristianismo em meu pensamento, fica difícil manejar esse modo de articulação.

2 A propósito, reitero que tomem contato com Tomás de Aquino para situá-lo. Ele é um erro? O que há é temporalidade, disponibilidade de referência... Qualquer autor vale – dentro de seu escopo. Como não se sabe lidar com o fato de que agora e aqui há que tomar uma decisão a respeito de certo conhecimento, está-se partindo para a porralouquice. Antes, para a evitar a porralouquice, havia o certo e o errado. Isso, como venho lhes dizendo há algum tempo, acabou! Por que falo em Tomás de Aquino? Porque ele era genial, uma cabeça enorme – que morava na Idade Média, século XIII – a ponto de querer cientificizar a teologia. Ele tinha faro, só que não havia condições. Faço a suposição de que ele seja o ápice da, digamos, vontade de Terceiro Império. Se tomarmos o que é o Terceiro Império enquanto vigente – e não como Império –, encontraremos seu ápice na recuperação de Aristóteles contra Platão. Já mencionei que O Nome da Rosa, de Umberto Eco, é a descrição do ápice do Terceiro Império. Ele entendeu o que aconteceu lá. • Nelma Medeiros – Eu pensava que esse entendimento tinha se dado mais no pacote Renascimento-Iluminismo. O Renascimento é grego, é uma tentativa de retorno. Esse pacote aí já é tentativa de escape do Terceiro Império, sem conseguir. 26

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• Patrícia Netto Coelho – O caminho aí seria de uma racionalidade que é plena e com a universalização de seu exercício. Mas com sabor e garantia de um Terceiro Império tinto de cristianismo. Ou seja, de um Império que não conseguiu emergir fora da sujeira cristã. O cristianismo ocupou o espaço do Terceiro Império. Tomás, um rapaz bem pirado, vindo da nobreza, vai bater num convento de dominicanos e realiza uma tarefa enorme na tentativa de desenhar o Terceiro Império no retorno do pensamento científico (Aristóteles contra Platão é cientista). E faz um pensamento que é um monstro, mas muito bem articulado. Digo agora algo que explicarei melhor adiante: se substituírem o Deus de Tomás de Aquino pelo meu, verão que dá certo. Como sabem, meu Deus se chama: Haver. Como o Deus de Tomás estava configurado cristãmente fica uma coisa esquisita. Acho-o o mais lídimo representante de concepção de Terceiro Império. Há outros, mas parece que ele se dispôs a explicar para as pessoas o que é o Terceiro Império. • P – Ele propunha cinco argumentos, ou vias, para a existência de Deus. Ele tinha que provar. Eu tenho provas radicais e concretas da existência de Deus. Se digo que Deus é Haver, basta olharmos à volta para vê-Lo. Quando um Evangélico me diz compulsivamente “Vai com Deus”, respondo: Ninguém vai sem Ele. • P – Você diz que é difícil pensar fora das referências ocidentais, pois há muita contaminação. Então, apresentar o Creodo Antrópico com os Cinco Impérios não seria algo somente possível no âmbito ocidental? Exijo que o Creodo Antrópico seja pensável fora do Ocidente. Mas há que ir a culturas outras, às orientais, por exemplo, tomar Primário, Secundário e Originário e ver como representaram. Quero supor que funciona igualmente em qualquer lugar. Encontraremos a mesma coisa referida de outra maneira. Isso é cíclico e recursivo. Talvez em um pequeno período da história tenhamos todos os Impérios – e depois aquilo se repetindo. Alguém podia perguntar a François Jullien como teria ocorrido na China. Falei em Tomás de Aquino porque, como já disse, meu interesse é em “Joyce: Sense in Thomas” (Sem Sintomas). Joyce tinha algo a seu favor: ser rejeitado. Isso pode ser bom para a saúde, pois ou perecemos, ou nos tornamos 27

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uma força extrema. Em Dubliners (1904-1914), ele está falando do lixo que é a cidade em que nasceu, daquela gentalha, daquela burguesia nojenta – ele teria que ser expulso, era inassimilável socialmente, não conseguia ser aceito. Daí, escreve sua única peça Exiles (1914) – ele se exilou, caiu fora daquele antro. Não estou interessado na pessoa de Joyce – não sou Lacan –, e sim em sua obra. Ela é de uma genialidade radical, e sempre na base da gozação: ou faz caricatura, ou faz paródia. Joyce produz duas bombas em cima da cultura ocidental. A primeira é Ulysses (1922), que é a caricatura, ou a paródia do Terceiro Império, com referências a Tomás de Aquino e Vico (este, no sentido do retorno, da repetição). Tomando a ideia de epopeia dos gregos, ele vai a Tomás de Aquino e faz uma caricatura para descrever o Terceiro Império. Por isso, colou o Bloomsday. Depois, o que havia mais a fazer? Inventar o Quarto Império com Finnegans Wake (1939). É a paródia do Quarto Império imaginada por Joyce. Leiam para ver se não é o mundo de hoje: uma pulverização dos conteúdos, das formações, das forças, das pressões de sentido, das morais, das línguas. Duchamp é cinco anos mais novo que Joyce, morre em 1968 (Joyce morre em 1941). Joyce é o Duchamp da literatura. Duchamp faz uma obra que dá um salto para o Quarto Império, e deixa os artistas sem pai nem mãe repetindo besteira. Escrevi Sense in Thomas de brincadeira porque Joyce tem uma visão dupla. Primeiro, entende Tomás de Aquino como ápice de Terceiro Império e faz a caricatura da coisa em pleno século XX (Ulysses). Segundo, como não há mais o que fazer aí, traz o anti-Tomás de Aquino (Finnegans Wake, Quarto Império), que também é piada, gozação. “Ridendo Castigat Mores”. Por isso, digo que seu sentido está em Tomás de Aquino. Ele faz uma história do mundo, toda esfacelada, rasurada – e mais, se seu sintoma era o inglês, ele o dissolve em dezoito línguas e as bagunça dentro do inglês. Ou seja, tenta dessintomatizar o inglês dissolvendo-o nas outras línguas, e dessintomatizar as outras línguas por serem fagocitadas pelo inglês. A meta de Joyce é: conseguir dessintomatizar as línguas. Não consegue, é óbvio – ninguém consegue. Joyce deve ter ficado a vida inteira sintomatizado por Tomás de Aquino, que queria o renascimento de Aristóteles. Isso está bem descrito em O Nome da Rosa, de Umberto Eco, que citei há pouco. O Terceiro Império queria se impor com uma 28

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visão de Santo Agostinho e Platão. Ao contrário, Tomás vê o ressurgimento de Aristóteles e o afirma. Isso veio dar chance ao Renascimento pensar que era cientista. Ele trouxe argumentos para o Terceiro Império. Estou fazendo uma leitura sintomática do processo. Se não fosse Tomás de Aquino, onde o Renascimento buscaria inspiração? Os árabes – Averróis, Avicena – eram aristotélicos, mas não tinham o poder da Igreja. • NM – É importante separar dois raciocínios: a posição do Terceiro Império no Creodo e sua configuração cristã. Foi um acidente grave. Digo que o cristianismo é religião SM, sadomasoquista. Os pontos nevrálgicos desse sadomasoquismo podem ser situados em cima do morro do Calvário e na arena do Coliseu. O cristianismo SM foi inventado entre um e outro. Constantino, depois, percebe que a coisa tinha invadido a população e vê que precisa fazer essa gente lutar a favor dele. Ele “vê” uma cruz, a gentalha cristã o ajuda a vencer a guerra e herda o Império Romano. Neste caso nosso, o Terceiro Império é fundado em cima disso. • NM – Crucificação era uma prática do Estado romano, anterior à narrativa do cristianismo. Estou dizendo que o cristianismo nasceu de fato entre o Calvário e o Coliseu, onde os leões comiam os cristãos. Essa é a base factual, da qual os cristãos lançaram mão para fazer sua fundação de direito, que vem com Constantino. E até hoje é a imitação do Império Romano chamada Vaticano, incluindo aí a veadaria toda. • NM – O núcleo do Terceiro Império é pensar a regência do Secundário e o entendimento da transcendência genérica. Donde, é preciso filosofar. • NM – Donde, é preciso jogar com a articulação do Segundo e do Terceiro Impérios no nível do Secundário. Essa vontade de ciência é um modo de articular no Secundário. Há também que pensar essa transa das formações na relação com a transcendência genérica. O Terceiro Império dissolve a configuração específica da transcendência do Segundo Império como pai, como formação de passagem ordenadora, e deixa o próprio Secundário como uma espécie de referente.

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Mas o Secundário, em Tomás de Aquino, se chama: Trindade. Ele tenta demonstrar aristotelicamente que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são aquilo mesmo. O pensamento de Aristóteles, para ele, vira Deus enquanto trindade: “É o ser enquanto tal”. Hoje, é possível tirar o ser e colocar: Há. São muitos séculos desse sintoma cristão. Como escapar? Diz Joyce: “A história é um pesadelo do qual tento despertar” (History, Stephen said, is a nightmare from which I am trying to awake). Estamos tratando do mesmo pesadelo aqui e agora. Primeiro, fez uma narrativa caótica, com vários estilos, que é Ulysses; depois, esculhamba com a narrativa contando a história do mundo em Finnegans. • P – Lacan teria sido uma espécie de anti-Aristóteles? Sobretudo, quanto à lógica. Lacan não escapa do Terceiro Império. Digamos que Lacan tenha sido a generalidade do Terceiro Império. Ele não foi o ápice, e sim seu fechamento. O ápice é Tomás. • P – A reação que vemos hoje ocorrer no Brasil é de inspiração medieval tomista. Aquilo parece dar uma sensação de segurança. E toda reação católica é tomista. Eles ficam com a alma garantida porque ser tomista dá a impressão de que Tomás pensa cientificamente. Isso é importante para entender a situação em que estamos metidos hoje. Por exemplo, a volta de Joana d’Arc travestida de Greta – esta que tome cuidado com a fogueira que lhe estão armando. É a palhaçada universal.

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3 • P – A pergunta é sobre a relação de dependência do conceito de Primário ao de Originário como componentes da Tópica do Recalque. Faz sentido chamar de Primário situações que não têm o Originário? O Originário não apareceu nos animais, que supostamente só têm Primário (Autossoma e Etossoma). E já é muito, pois isso é complexo demais. As psicologias – e mesmo, segundo me parece, a maior parte das teorias psicanalíticas – erram ao esquecerem as funções primárias. Sobretudo, o Etossoma, o qual é demasiado poderoso, reativo e dá muito trabalho à análise. Como sabem, etologia é psicologia animal, e os etólogos, por serem cientistas e quererem ser puristas, são cheios de preconceitos científicos e acham que não conseguem detectar o que seja especificamente do Primário na espécie humana. Mas, se observarmos, veremos que temos muitos cacoetes de nossa formação biológica. • P – Por exemplo? Por exemplo, seu jeito específico de falar “por exemplo”. Isso aí nada tem a ver com o Secundário. É o que chamam temperamento nos animais, que têm variações observáveis de formação etossomática. Nós temos isso, uma porção de cacoetes, que têm um peso enorme – o que atrapalha a análise, repito. Os etólogos são puristas, eu não. No trato da análise, observamos que aquela pessoa é o cachorro tal, aqueloutra o cachorro qual. Vemos com clareza que há um temperamento ali, que é etossomaticamente instalado. E mais, já lhes disse que o Originário é uma instalação, um passo evolutivo, sei lá, do Primário. Só que, por funcionar bifidamente, é aí que todos são iguais – sendo que alguns são mais próximos de seu uso do que outros. Quero mesmo supor que, quanto mais crescimento do Secundário tivermos, melhor nos referiremos, ou utilizaremos, nossa formação originária. Pessoas, no passado e no presente, convivendo em sociedades, em culturas ou subculturas primitivas ou pobres – e pobreza é igual a burrice, coloca as pessoas limitadas como uma estupidez... Tomem, por exemplo, alguém que tenha estudado, viajado pelo mundo, e vejam que, 31

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para ele, o Secundário abre muito e que ele pode perfeitamente lançar mão das formações secundárias para requerer um pensamento bífido. Mas a referência ao Originário em gente mais socialmente primitiva é quase nula. A não ser que seja espontânea lá. Quando são inteligentes, viram músico popular, jogador de futebol ou bandido. • Patrícia Netto Coelho – Antônio Bracinha Vieira documenta bem o conjunto dos comportamentos etológicos humanos (Etologia e Ciências Humanas, 1983). Ele fala em comportamentos fanéricos, de exibição do macho e da fêmea. Vemos isso em pessoas em situação de hostilidade umas para com as outras, os olhares intimidadores, os gestos... Muitos gestos foram postos culturalmente em nós, mas cada um tem seu jeitinho. E quando alguém faz o mesmo gesto que culturalmente o outro faz, um jeito é o seu e outro é o do outro. • PNC – O fato de ser individualmente variado não lhe retira a característica de ser etológico. Há padrões que se repetem e especificidades de cada um. Nos exércitos, por exemplo, você é obrigado a ter posturas de macaco macho. Se não, será repreendido. • P – Num mosteiro, a postura é de submissão. Desde que não se saia na porrada com o padre. Aí, veremos dois macacos, um buscando se impor ao outro. Os etólogos se recusam a denunciar – e vimos isto em Bracinha quando esteve conosco aqui em 2003 – os fenômenos etológicos na espécie humana. Nela, estão misturados ao Secundário, mas são de base etológica, sim. E são muitos. Basta conviver com alguém para saber qual é sua etologia. Na cama, sobretudo, logo saca-se com quem se está transando. • P – O olhar de cada um é uma marca etológica. Um problema do autismo é não haver interação pelo olhar. Já foram descobertas centenas de marcas genéticas no autismo. Já disse que autista não faz análise. É dependente demais da genética. • P – Quanto ao temperamento nos animais, vemos desde o nascimento que um é agitado, outro acomodado, outro meio bobão. Em gente é igual?

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As pessoas são todas um enorme código genético, muito desenhadas. E, frequentemente, consegue-se civilizar alguém contrariando sua espontaneidade etológica. • P – Um bebê desassistido por aí morrerá, mesmo contando com suas marcações genéticas. Esse é o fenômeno de que Lacan se aproveitou para falar do Estádio do Espelho. Trata-se da neotenia de que sofre a espécie, ou seja, nascemos antes de nascer, somos prematuros. Se a espécie fosse completa, a gravidez duraria no mínimo uns quinze meses. Lacan achava isso uma vantagem e que seria preciso o Estádio do Espelho para a pessoa se reconhecer. Suponho que seja uma das vantagens no sentido da incompletude da formação cerebral. Talvez seja um colaborador da emergência do Originário. Seria bom algum cientista pesquisar se a neotenia tem a ver com a emergência do Originário. • P – Se a espécie nascesse completa, não teria o Originário? Seria um cachorro, um gato... • P – Não é uma visão desenvolvimentista dizer que o ser humano nasce precariamente? Segundo a maturação biológica de um feto, para ele ser completo, seriam necessários quinze meses. Ele nasceria e logo sairia andando como acontece com o cavalo. Nosso infans é incompetente para sobreviver. Talvez essa seja a vantagem, não sei. Se as formações não estão completas como a de um animal, aí talvez esteja a chance de permanecer na incompletude, na ambiguidade. Na pré-história, antes da hominização, quanto tempo de prenhez, de gravidez, era necessário? • PNC – A partir de restos encontrados em escavações, dizem que era em torno de quinze a dezesseis meses. O prazo teria diminuído em função do aumento da caixa craniana, da adaptação. O prazo já era de prenhez longa. Hoje, grande quantidade de prematuros é salva, sobrevive. Isso era impossível antes. Há muita gente por aí resultante de gravidez de seis-sete meses. É muito difícil, em nossa espécie, localizar com precisão a fronteira entre o que é e o que não é etológico. Além disso, a espécie tem um segundo sofrimento que é a burrice de transformar o Secundário em Primário. É o que 33

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chamo de Neo-Etologia. O processo de civilização e de educação frequentemente aprisiona em nós formações do Secundário como se fossem do Primário – e ficamos estúpidos. A primeira luta contra nossa estupidez é com esse aprisionamento. Basta olhar à volta para ver que ainda estamos num generalizado Planeta dos Macacos: religiões, crenças... Nas universidades, há aqueles que acreditam que são filósofos, e vivem aquilo como se fosse um time de futebol. Não estão lidando com um saber, são aquilo. Às vezes, são até platônicos, ou seja, são bestas filosóficas com marca registrada. É, repito, o que chamo de Neo-Etologia. Isso diz respeito à especiação secundária, são pessoas que viram uma espécie neo-etológica. Saibam que todos estamos permanentemente diante desse perigo. Se a psicanálise tiver alguma virtude, será a de deixar em aberto. Ela é, pelo menos, o exercício para manter a abertura, para não virarmos o animal tal. Cacoetes todos têm, mas é dificílimo continuar aquela criança que ainda não tem especificação. • P – As formações primárias recalcam o Revirão, mas o peso de recalque maior não estaria nas formações secundárias? Isso aparece com clareza na imbecilidade da cultura, mas o Primário é que é, digamos, o atrator da Neo-Etologia. Basta ver que calar o Primário é a primeira coisa que fazem certas mentalidades que estão no sentido de acrescentar ao máximo a espiritualidade. Os místicos, por exemplo, tentam calar o Primário por este ser o atrator de formações secundárias no sentido da estagnação. • P – As práticas espirituais são práticas sobre o corpo. Práticas como as dos Estilitas são loucuras totais de fuga do Primário. O que também é algo burro, pois é possível transar o Primário com inteligência, e não só com esses sacrifícios. Os exercícios corporais circenses são próximos desse afastamento do Primário. Ou seja, nossa espécie conversa secundariamente com o Primário – ou não. Se não conversar, é a animalização. Basta ver que ainda somos macacos em quase tudo. Hoje, a situação de intelectuais, técnicos, cientistas, filósofos, etc., a respeito das expressões da sexualidade ainda é quase sempre de imbecilidade. Ficam procurando parâmetros, quando a sexualidade – se for humana – não tem parâmetros. Nomeiam pessoas como homo, hetero, trans, binário, não-binário, etc., por estarem, durante milênios, colocando como 34

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parâmetro um negócio chamado heterossexualidade reprodutiva. É pura Neo-Etologia. Que as pessoas sejam o que quiserem, sem classificação. Ao classificar, aprisionamos – e as pessoas passam a acreditar que são aquilo mesmo. (Aliás, basta um puxãozinho na corda certa para virarem outra coisa. Boas cantadas existem). A vantagem da psicanálise é nada ter a ver com esses parâmetros forçados. Ela não endossa esse tipo de coisa (embora haja alguns assinando como psicanalistas livros que reiteram todo esse besteirol). Em qualquer área de expressão e de produção, um elemento desta nossa espécie será tanto mais humano, tanto mais transcendentalmente pós-humano, quanto mais disponibilidade conseguir. Mas somos de uma impressionante burrice, que nos impede de aprender outra língua, por exemplo. Temos sotaques horríveis – e sotaque é Neo-Etologia. Esses raciocínios são compatíveis com nossos conceitos relativos à Clínica. O que é um neurótico? É uma Neo-Etologia bastante forte. O que é um psicótico? É um animal radical. O que é um Morfótico Progressivo? Há nele o perigo de virar um monstro assassino, de virar o que, antigamente, chamavam de perverso. Se ele juntar a Progressão com uma fixação demasiado forte, aí danou-se. A Progressão precisa ser solta, pois junto com uma fixação forte faz um monstrinho. Ou seja, a Progressão vai no sentido da disponibilidade, mas apenas no sentido, há que saber como funciona para cada um. Não há homem livre. A liberdade é um sonho, ela não existe. E tampouco existe o livre arbítrio. Este é o arbítrio preso segundo minha formação. Por pensarmos mal, durante milênios engolimos todo tipo de mosca. As pessoas são presas demais, são quase “si-mesmas”. O fato de podermos reconhecer isso já ajuda bastante o entendimento de nossa situação. Do ponto de vista político, dentro de uma estrutura de poder, ficamos submetidos a uma Neo-Etologia da pior espécie. Colocam um animal para governar, e ele acha que só a espécie dele é que presta.

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4 No mundo atual, vivemos – algo que é de se esperar – a entrada no Quarto Império. Falando em bom português, o Quarto Império é uma merda. Por quê? Por ser, como sabem, do mesmo estilo do Segundo Império: é rachado. Quando vivíamos no Terceiro Império, estávamos num Império unificado, havia certa unicidade de pensamento. Parecia diferente, mas em todo lugar havia o mesmo jeitão. Em função dessa unificação, parecia haver certo e errado. O Quarto Império é dilacerado entre o Secundário e o Originário. Basta ver que as queixas em relação à situação atual são no sentido de uma polarização excessiva. Ou seja: Quarto Império, rachado. Há mais: fragmentação, perda da verdade, fracasso das instituições, buscas identitárias – tudo isso, como digo há décadas, é absolutamente normal. É a travessia a ser feita, pois o Quarto Império começou a se instalar e o Terceiro desmoronou. O que fez o Terceiro Império desmoronar e, além de tornar-se inútil, ficar ridículo? A tecnologia. Ela destruiu as formações por ter aumentado a velocidade da informação. Possibilitou que alguém num país onde há algo tido como feio, proibido, visse em tempo real aquilo ser tido como bonito e liberado em outro país ao lado, com o qual antes não tinha contato ou o contato era escasso. Como não canso de repetir, o que vemos hoje é a maioria das pessoas tidas como responsáveis completamente por fora, não se dando conta de nada e, diante do desmoronamento evidente, o que fazem é correr para trás. Para trás são as virtudes do Terceiro Império, é fugir da tensão para o Quinto Império, é fugir do Originário e tentar se afirmar no Secundário dado. Essa fuga durará muito. Quando fugirem bastante e virem que não dará certo, aí poderá ter início a possibilidade de reinstaurar as instituições para o lado do Quarto Império. Faço a hipótese de que o mesmo tenha ocorrido com o Segundo Império, que também é dilacerado (entre Primário e Secundário, entre Amãe e Opai, no caso). Temos que nos acostumar, pois não há saída, durará talvez séculos até a 36

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implantação do Quarto Império começar efetivamente. Já estamos nos primeiros cinquenta anos de porradaria generalizada. Depois, ainda serão duzentos anos de tentativa de implantação. • Aristides Alonso – E, então, não será o Humano do Terceiro Império, que se fundamentou na afirmação do Secundário contra o Primário – e, ao mesmo tempo, buscou calar certas expressões suas em nome de uma virtude humana que o constituiria como tal. Os chamados Pecados Capitais definiram o humano como amoroso, humilde, perdoador... Não têm o oposto. Têm o oposto na prática porque o Império do amor é o Império do ódio. Recalcou o ódio – justo por isso ele fala forte. • AA – O Quarto Império não será para o humano como conhecemos. A palavra humanismo irá para o lixo. O que haverá é a expressão da Pessoa cada vez mais disponível, com profissões radiadas para vários pontos. • P – O que acontecerá à psicanálise? Ela será extinta. Lacan já dizia que “la psychanalyse [...] c’est une pratique qui durera ce qu’elle durera”. • P – Enquanto houver estupidez, ela não será necessária? No futuro, os estúpidos serão eliminados, não sobrevirão. Quando o Quarto Império se instalar, não haverá discurso mais importante que o da psicanálise – mas ela estará distribuída em nível algorítmico. Será algo com que já se nasce – já se nasce em análise. É para todos, mas todos serão pouca gente, pois há uma gentalha que vai sumir por ser desnecessária. Não dará para sobreviver sendo estúpido. Peter Sloterdijk faz a imaginação de “parques humanos” em que ficarão encurralados. Quem sabe? • AA – Friedrich A. Kittler, um autor notório que estuda a importância da tecnologia na construção do pensamento, diz que, na passagem do pensamento ocidental entre Hegel e Freud, estava James Watt, o criador da máquina a vapor. Aí dentro, temos o pensamento da termodinâmica que desembocará em Freud. Num segundo passo, diz ele que, de Freud a Lacan, há Alan Turing. O Estádio do Espelho, de Lacan, é de 1936, que é o ano em que Turing começa seu trabalho. A emergência de ambos é contemporânea, e Turing vai influenciar direta e indiretamente a teoria do significante de Lacan,

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a qual está referenciada à teoria da informação. Minha questão é um passo adiante: entre Lacan e Magno, o que há? O Revirão. O que emergiu depois de Lacan – que é terminal do século XX – foi a Tecnologia. Por isso, eu tinha que cair fora do lacanismo. O que a tecnologia fez conosco? O que aconteceu é bem visível por sua atual faceta contrária de fuga e de retrocesso – da qual faz parte a vigente intensidade de lacanismo no mundo. • AA – Vejo duas coisas: emergência da computação quântica, e surgimento e ampliação da inteligência artificial. São os marcos do final do século XX. Um sistema como o de Lacan é estagnado demais para nossa época. Por isso, joguei fora sujeito e objeto e apontei para a transa das formações – só há isso, nada mais. Falar em Édipo, então, é pré-histórico. • AA – O surgimento de uma tecnologia como a da máquina a vapor mudou a concepção de mundo e trouxe uma nova questão a ser respondida, o que viabilizou uma analogia com o psiquismo humano. Foi o que Freud fez. Em Lacan, a emergência do computador de Turing – no Seminário II, ele já trata da cibernética – está relacionada ao início de raciocínios calcados na noção de língua, de sujeito barrado... Em Magno, qual é a emergência? A explosão da tecnologia, que destrói o processo anterior. • AA – Lacan tem a noção de Inconsciente freudiano, se apropria da cinta de Moebius – mas a computação de Turing até hoje é binária. O que começa a quebrar isso é a computação quântica e a teoria quântica da informação – que são algo bem parecido com a Nova Psicanálise. O primeiro algoritmo da computação quântica é obtido nos anos 1990. Mas o desejo disso é muito mais antigo. Ele já está sendo requisitado antes de acontecer no mundo. E, ao mesmo tempo que há um passo gigantesco para a frente, com dissolução radical das formações anteriores, até de conhecimento, há algo engraçadíssimo acontecendo. Se dermos um pulo para a Idade Média, tomarmos Tomás de Aquino, tirarmos a estupidez totalitária da igreja católica e substituirmos seus conceitos teológicos (os de Tomás) pelos meus, veremos que está tudo certo. Como sabem, não elimino o título de Deus, não sou ateu. Espinosa tampouco era ateu. O que digo é: Deus é Haver. Aí, segurem 38

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o tchan... Na teologia deles, dizem que Deus é onisciente e onipresente – está correto, pois basta olhar à volta para ver que só há Isso. • P – Em Tomás, Deus não é transcendente? É assim em todo o processo. Então, no sentido deles, Deus seria nãoHaver. Em meu sentido, Deus é imanente. O Haver é transcendental: Ele quer não-Haver, mas não o conseguirá (pois o não-Haver não há). Se situamos uma Teologia Radical – uma Teologia Libidinal, como chamei nos anos 1980 – no lugar do Haver, tudo que dizem a respeito de Deus está certo. Ou seja, Tomás raciocinava perfeitamente, só que com a base errada (medieval). Quando Joyce se preocupa com Tomás de Aquino e com Vico, há que prestar a atenção pois ele não é um qualquer, escreveu Finnegans Wake. Por que ele tomou esses dois? Como já lhes disse, faço a suposição de que Finnegans já seja visão de Quarto Império, e é anti-Tomás. Ulysses ainda é Tomás. Aí ele pôde fazer uma paródia de Tomás mostrando o que é o homem no Terceiro Império. Chama-se: Bloom. Como Joyce continua pensando, explode com tudo, e faz Finnegans. Trata-se de Wake, de despertar (do pesadelo da história). É como, sem ser Francis Fukuyama, dissesse: “Acabou essa história!” Outra coisa virá.

5 • P – Você disse que Alei é decorrente do Princípio de Catoptria. Esse princípio seria, então, um axioma da teoria? O Princípio de Catoptria é: o que quer que haja propõe seu avesso. Isto, no sentido de função de espelho. Não é especular, e sim catóptrico. Se “o que quer que haja propõe seu avesso” for levado às últimas consequências, o que pode o Haver propor? O não-Haver. Podemos começar daí, ou de lá para cá. 39

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Alei é “Haver desejo de não-Haver”, donde o Princípio de Catopria. Não tem primeiro nem segundo, é assim. Não é filosofia, e sim a tentativa de invenção de uma máquina capaz de explicar o funcionamento do que há por aí. É pegar ou largar. Aliás, não há proposta teórica alguma, em qualquer área do saber, que não seja – mera proposta teórica. Minha proposta é essa. É claro que não é de araque, e sim uma tentativa de passar a limpo a história da psicanálise, de ir limpando e ver o que sobra de construção. • P – Por que o Haver não é indiferente ao não-Haver? Se todo o empuxo do Haver é no sentido de não-Haver, como poderia ele ser indiferente ao não-Haver? Você já viu tesão indiferente? Ele pode ser recalcado, mas está lá. O não-Haver é o tesão do Haver. Se a definição d’Alei de funcionamento do Haver é a Pulsão, o que é isso? Não existe Pulsão sem sentido. Ou, se não, jogamos a teoria no lixo – também podemos fazer isso. A Pulsão é definitiva do Haver. Desde Freud, ela é Pulsão de Morte, pulsão de extinção. Como poderia ser indiferente? Se alguém fosse indiferente, seria o não-Haver, o qual sequer tem condição de ser indiferente porque não há. Se fosse possível calar o tesão, a psicanálise seria inútil. E mais, toda merda que fazemos por aí é baseada em quê? No mau investimento do tesão. • P – Qual seria o bom investimento no tesão? Aquele em que gozamos de algum modo. Lacan supunha que havia gozo fálico, gozo do sentido e gozo do Outro. Se ele propõe essas três possibilidades de gozo, elas querem dizer que temos diversas saídas de investimento da pulsão. Isso, até do ponto de vista puramente da sensibilidade, da inteligência... O gozo fálico é apenas o que conhecemos mais de perto. Supomos que ele tem algo de especial, mas não tem. É destino, o destino da pulsão é esse: seu desgaste, sua morte. Ou seja, ao fazermos banalidades na vida, estamos tentando gozar de alguma forma. Nada há a fazer na vida além de gozar, mesmo que seja desse modo masoquista. Na história desta nossa espécie, há barbaridades horríveis. Por exemplo, um paranoico, em certa Alemanha, levanta a voz e o resto vai atrás. Por quê? Onde está o poder para ele fazer isso? Está no gozo das pessoas. Ele ofereceu uma formação altamente gozosa: um tesão e uma punheta infinita. Então, em pleno século XXI, entrada de Quarto Império, regime da pós-verdade, o que 40

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é bom e o que é mau em termos de investimento de gozo? E para quem? Os parâmetros sumiram. Isso que aconteceu na Alemanha pode acontecer por aqui justo porque a espécie não tem parâmetros. Há, portanto, que inventar uma organização política de sobrevivência – para quem, não sei. Para todos, para um grupo? Estamos metidos numa situação insólita e perigosa. Antes, fixavam-se alguns padrões dentro de certas regiões geográficas – sobretudo, pelo fato de a comunicação ser lenta – e aquele grupo acreditava nesses padrões. Fez-se uma inseminação de significação nas pessoas. Atualmente, o que acontece é que tudo está se mexendo em função da disseminação tecnológica. Faz-se o quê? Este é o problema do Quarto Império até ele conseguir se implantar de maneira a inventar o que seja possível de funcionamento e de sobrevivência das pessoas. Que maneira será essa? Ninguém sabe. Dependerá do procedimento e do processo dos acontecimentos. E acho que isso não será para a maioria. Vai-se inventar uma minoria sobrevivente de outra espécie secundária. Não vai sobrar para nós. • P – Já foi para todos em algum momento? Jamais será. O para-não-todos implica a produção de um imenso lixo humano. É bem diferente do que aconteceu até hoje. • P – Já não eram lixo? Antes, o que havia não era lixo. Eram classes e situações hierárquicas. Lixo é lixo, sem futuro, inútil. E não é uma questão quantitativa, e sim de parâmetros. O mesmo parâmetro que dava lugares especiais para certa quantidade de pessoas – nem sei se cabe chamar de nobreza –, de certo modo dava garantias para os outros. A gentalha tinha direitos e significações referidas aos mesmos padrões que colocavam os outros por cima. Na Idade Média, os servos tinham direitos: o Senhor devia os acolher no castelo em caso de ataque... Por outro lado, em seu território, consta que o Senhor tinha o direito à primeira noite com a virgem antes de ela se casar, o jus primae noctis. Já lhes falei do filme O Senhor da Guerra (1965), com Charlton Heston, em que, após exercer seu direito, o Senhor se apaixona pela moça e não quer devolvê-la. Resultado: rebelião total dos servos, pois ele não podia passar por cima da lei. Logo, aí não era lixo. Lixo é quando se trata o outro como ninguém, apenas espera-se que desapareça. É certa gente sobrar e não ser referida a parâmetro algum. Nesse 41

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contexto, notem que um fato atual como a aprovação do chamado Brexit quer dizer que a pulverização já começou. Veremos até quando a União Europeia se aguentará. E podemos já conjeturar, quanto aos Estados norte-americanos, se também não virão a se rebelar contra a exploração por outro Estado. E os Estados brasileiros? Isto já foi tentado aqui, mas não colou. • P – Isso não aponta para o surgimento de uma aristocracia mais solidificada do que as anteriores? Mais violenta? Seja como que for, deve ser uma aristocracia sem ninguém embaixo. Todos serão nobres – e o resto já terá desparecido. • P – Esse não é um desenho de configuração mais fechada, com fronteiras intransponíveis, sem referência à Indiferenciação? Não sei como será a mentalidade dessa gente. O lixo já terá acabado e sobrou aquilo. Como será? Robôs Pessoas? • P – Nada surgirá do lixão? Nenhuma emergência criativa? O lixão está destinado à extinção – se não for a extinção desta nossa espécie ao ser substituída por outra. Basta lembrar que passarinho já foi dinossauro, não há novidade aí. • P – Não haverá diferença? Se tivermos uma inteligência artificial de última instância, de computação radical, a diferença será contada a cada pedacinho. Cada pedacinho interessará enquanto diferença. A sobrevivência dessa gente e o modo de vida dependerão de curtição de muita diferença. Ao tentarem hoje programar esse tipo de possibilidade pensam que será tudo o mesmo robô. Não será. É possível uma infinidade de robôs diferentes, uns aceitando os outros por serem engraçados em seus pedacinhos de diferença. Então, não mais existirá uma série de formações sintomáticas que herdamos dos animais. • P – Como fica então a ideia de que o Inconsciente é capitalista, sempre quer mais? Não seria uma oposição a essa aceitação da diferença? Cada um quererá mais diferença, cada vez mais. Mais possibilidades para cada um. Quando não se inclui a diferença, a monotonia é geral. Pararemos de querer mais? Se quisermos mais, quereremos diferente. Basta ver que todo aparelho ditatorial extremo rompe sozinho, por conta própria. Por quê? Porque é chato. O trunfo que temos é esta espécie não suportar a chatice. Aguenta durante 42

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um tempo, depois explode. Nada melhor para mostrar isso do que o poderoso fenômeno da Moda – em todos os setores por todo lugar. Apesar dos retrocessos, nosso momento é de alta tecnologia e de alta disponibilidade, há que usar. • P – Como incluir nisso a natureza? Se natureza fosse tão importante, por que, desde a pré-história, a espécie humana fica tentando sair dela? Qualquer um de nós, com a civilização que tem, se for metido nela de volta certamente não se sentirá bem. Trata-se, pois, de escape, ou de domínio sobre a natureza. Já notaram o quanto de gente ela está agora afogando no mundo todo com inundações e tempestades? E os mosquitos? E as viroses? • P – Dada nossa base carbono, precisamos dela. Nossa espécie é a que vai perecer. Ela terá que ser substituída – daqui a milênios, suponho. • P – Antes disso há muitas questões a serem resolvidas. A dos índios, por exemplo. Se a espécie é curiosa, desejante, cada vez quer mais, por que há grupos paralisados em registros pelos quais nossos antepassados já passaram? Uma boa antropologia pesquisaria, e não ficaria enaltecendo o atraso em que estão. Há bolsões de paralisia na humanidade. Não há que maltratá-los, exercer sadismos sobre eles, mas é preciso pensar sobre o que terá acontecido ali, se não é da ordem do excesso de recalque. Estão num estágio civilizatório tal em que são extremamente repressores e reprimidos. Sobretudo, das crianças. Excluem as diferenças com rapidez. Verifiquem o que acontece com uma criança inteligente numa tribo. A repressão vem no sentido de que ela deve ser idêntica aos demais. Ou seja, diferença zero. E as diferenças que são incluídas se devem a pressão externa: vestem roupas, etc. Civilização é: riqueza, possibilidades. Se qualquer um aqui tivesse bem mais do que tem, teria uma vida mais variada, com muita escravidão deixada para trás. Riqueza é: disponibilidade. • P – A Diferocracia, então, só incluiria alguns diferentes, outros não? Nela, a diferença está dentro. Não é preciso fazer a ideologia da pobreza como faz certa antropologia. Se alguém quiser ser pobre que o seja por vontade, por escolha, e não por atraso – retardo mesmo – de desenvolvimento. E mais, a

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hierarquia terá importância, pois cada um saberá quando estiver lidando com aqueles dotados de mais recursos. Serão estes os seus orientadores. • P – É possível educar sem reprimir? Já lhes disse que não. Alguma estrutura de significação precisa ser imposta à criança. Ela tem que passar por essa experiência. Depois, mediante análise – ou, simplesmente, por ser inteligente –, perceberá que aquilo é relativo. Aí já é sua vida como adulta. Mas, sem parâmetro para situá-la – ainda que errado –, ela se dá mal, pois não se coloca uma referência para começar. Algum parâmetro de começo é necessário, o qual exige um mínimo de repressão, de recalque. Notem que, no caso, não é o mesmo recalque de que falei quanto a tribos. O que mais vemos hoje são crianças deixadas sem parâmetro, e pais com raiva brigando com elas. Não é disso que estou falando, e sim de uma pressão – exercida mesmo em nível primário – no sentido da educação, e não de acessos de raiva (por parte de pais sem educação, aliás). Hierarquia é importante. Não pode ser truculenta ou arbitrária, há que ser por valores, por posições. • P – Não estaria havendo hoje um retorno à família? Em restaurantes e shopping centers, vemos famílias inteiras reunidas passeando, comendo... O programa parece ser explicitamente o de sair com a família. Primeiro, a família abriu as pernas. Percebeu que, se reprimir demais, os filhos vão embora. Segundo, os filhos perceberam que é melhor explorar os pais do que se arrebentar trabalhando. Terceiro, faz parte da plena ascensão da fuga para trás de que estou falando. E vai aumentar. Como olham para a frente e ficam com medo, correm para trás. Só que para trás o que tem é parede – e darão de cara com ela.

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6 • P – Em continuidade ao que você falou semana passada, a implantação do Quarto Império, que é definido como um momento de dissolução das fronteiras, a rigor não implicaria o estabelecimento de uma fronteira intransponível? O Quarto Império enquanto tal é uma dissolução de fronteiras, com um aumento exponencial de fronteiras. Observando os primeiros sintomas dessa dissolução – Brexit, por exemplo –, já vemos as partições externas, mas como o processo não se aguentará logo veremos a partição por dentro. Justamente a recrudescência das diferenças começa a fazer as pessoas não suportarem o arrolamento das diferenças sob a mesma égide. Os ingleses terem afirmado que são diferentes e não aceitarem a equalização europeia anterior é algo típico da entrada do Quarto Império. As maluquices de Trump – evidentemente, um corretor de imóveis porralouca – são perfeitamente representantes da época. Nada mais parecido com a bagunça da entrada do Quarto Império do que alguém como ele. E mais, não podemos pensar que o Quarto Império entraria de repente e seria uma maravilha. Não será. Como sabem, é um Império dilacerado entre duas posições, e sua primeira metade será da pior espécie. • P – Hungria e Polônia já se alinharam a um autoritarismo violento de extrema direita. O que mais caracteriza a posição deles não é autoritarismo, e sim separatismo, que chamam de nacionalismo. Como não sabem fazer algo parecido com o passado sem copiá-lo, valores como pátria e família se estragarão fácil. De que pátria e de que família estão falando? Daqui a pouco, isso passa, pois não dá – e nem eles querem – para a tecnologia voltar atrás. E a tecnologia é completamente arrasante. Vocês percebem, então, que vamos passar por perrengues horríveis. • Patrícia Netto Coelho – A dissolução radical de fronteiras é o ponto de chegada, e não o ponto de partida do Quarto Império. No ponto de partida, o que temos é a fragmentação e a recrudescência das fronteiras. 45

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Quando isso fica tão pulverizado, cadê a fronteira? Onde fica a fronteira do pó? • PNC – No grão de areia. A fragmentação é tão grande que a fronteira se dissolve. Mas o grão de areia fica lá insistindo. • PNC – E o lixão de que você fala, o que acontece com ele? O lixão desaparecerá, se extinguirá, será pior do que animal em extinção. Terá que sumir, pois não há como sustentar essa existência. Nem economicamente. A tendência do planeta será diminuir muito a população. E, com a graça divina, micróbios e vírus darão um jeitinho nisso. A propósito, leiam um livro antigo, A Próxima Peste (1994), de Laurie Garrett, para lá verem já exposto o processo do lixo. Ela prometia para agora uma peste atrás da outra – tal qual está acontecendo. Há que entender que o contrário do mesmo é o outro. Não dá mais para raciocinar de maneira linear. Às vezes, tenho a impressão de que algumas perguntas que vocês se colocam são de natureza linear. Não dá, por exemplo, para pensar: se a diferença vai surgir, onde estará o limite? A diferença extrema é extremamente divisória, tudo revira. Não canso de dizer que todo modo de pensar vigente até o século XX não serve mais. Para corroborar esta ideia, leiam, por exemplo, um pequeno texto (quatro páginas) de Michel Houellebecq, escrito em 2001, intitulado Sortir du XXème Siècle. Ele é um visionário doido, mas enxerga com clareza o que está acontecendo. Sabem por que há certas pessoas que olham a situação e a enxergam com exatidão? É só não denegar que enxergam. Não se trata de paradoxo, basta tomar um raciocínio e levá-lo até o fim que ele virará ao contrário – a estrutura é em Revirão. Até o século XX, havia uma disposição – e, por pressão dos poderes culturais (da universidade, inclusive), quase que uma obrigação – de vontade de equilíbrio, de distinção, de inserção em disciplinas. Isso não era uma visão da realidade, e sim um sintoma, um cacoete da época. Aqueles que raciocinam para valer hoje sabem, quanto ao pensamento, que se trata apenas de Ficção na tentativa de dar alguma explicação ao que está acontecendo. Ou seja, sabem que é ficcional, sintomático e de época. Por outro lado, atualmente, passamos por uma situação que é mais difícil, pois estamos num fim de era. O que valia antes foi destruído pela velocidade da informação. Já disse – e repetirei – que 46

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o século XX tem a característica da paranoia. Não necessariamente da psicose paranoica, mas os construtos da paranoia são o século XX. Deleuze quis transformá-lo em esquizofrênico, mas não conseguiu. O século XIX era histérico e obsessivo, sabia se comportar neuroticamente bem. Freud era uma histericona. As histéricas acabaram, ficaram técnicas no século XX. Quem são Mao Tsé-Tung, Hitler, Mussolini, Stálin, Lênin, Salazar, Franco, Vargas? Todos do mesmo saco político, comportando-se corretamente para o século paranoico, fingindo uma psicose. E o saco intelectual? Tomemos Lacan, que não percebem que era delirante. Isto, por método e estilo. • P – E Magno? Não é do século XX, já o superou. Lacan dizia: “Moi, je suis psychotique”. Queria demonstrar que a psicose paranoica era o eixo de algum tipo de modalidade de ação e de pensamento, o que é o substrato de sua tese de doutorado e o interesse por Dalí, seu amigo (um xingando o outro). Aí está a paranoia. Isso não é destratar Lacan, pois ele próprio dizia que seu brilho era por ser psicótico. Daí começa-lhe a aparecer psicótico de todos os lados. Joyce é um deles. A cabeça de Joyce só é século XX até Ulysses, o qual pode ser um surto de paranoia, mas Finnegans não o é. • Aristides Alonso – A ideia que pensadores do século XX tinham sobre a psicose sofre de lhes faltar um conceito melhor que aclarasse certos efeitos que eram verificados no dito discurso psicótico. Por exemplo, a tendência a um esfacelamento de significação, de sentido. O sonho de Lacan era tentar reduzir a uma pura estrutura sintática em que o significado fosse fragmentado a ponto de se situar numa pura corrente significante. Dá para entender que ele visse nesses discursos de dissolução – em Joyce, por exemplo – como que um reflexo máximo do modelo de psicose com o qual operava. Comparado com o conceito de HiperRecalque – que você apresenta na Tópica do Recalque (1992) –, isso não se sustenta mais. O que ele chama de psicose, você chamaria de Morfose Progressiva. Isso quanto à psicose que Lacan diz que é a de Joyce, mas não quanto à que diz que é da Aimée. O interessante a ser enfatizado é que o eixo do século XX é paranoico. Tomem também Deleuze, que fez uma obra paranoica sobre a possibilidade da esquizofrenia. Seu comportamento de promoção da 47

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esquizofrenia como movimento único da espécie é paranoico. Deleuze escrevendo sobre esquizofrenia é paranoico. Ou seja, ao invés de manter uma pluralidade sem nome, reduzir o mundo à esquizofrenia é coisa de maluco paranoico. (Ainda falo em histérico, obsessivo, neurótico, por cacoete, mas minha tentativa é acabar com esses nomes – eles são falsos – e ver como a formação funciona, se mais para cá ou para lá). As pessoas se confundem por Deleuze promover o pensamento esquizofrênico, sobretudo tomando Artaud, e isso dar a impressão de que ele está falando do Quarto Império. Não está. Ele fala em multiplicidade, mas é preciso perguntar de que púlpito isso se diz. De que lugar, de que ponto de vista isso que parece explosivo é dito? • AA – A paranoia aí é no sentido de ser o avesso de um pensamento dominante, da ideia de Um, de unidade, de Todo, de Universal. E é paranoico por estar em relação rivalitária com outro pensamento, o de Lacan, cuja ênfase estava na psicose paranoica. É importante saber que os modelos de pensamento se constroem a partir da guerra que tal autor está travando com outros pensamentos. E o modelo também fica contaminado por aquilo que combate. Mas mesmo Deleuze reconhece isso, que a filosofia é um combate. Está lá em seu Qu’est-ce que la Philosophie? (1991). Como um autor pode combater a unidade a favor da pluralidade se a unidade não puder ser incluída? Já falei que o casamento perfeito é o de Heráclito e Parmênides. É igual a casamento de histérica com obsessivo – os dois juntos dão filhote. Se entendermos isso, entenderemos que a paranoia acaba aí. A posição paranoica que Deleuze dá a impressão de estar combatendo – acho que não está – é aquela mesma que arranja um discurso que é a verdade e, por vias de poder ou de convencimento, tenta estabelecê-lo, mais do que como dominante, como discurso único. Muitos aqui presentes, que têm trato com paranoicos em consultórios, hospitais e ambulatórios, sabem o que é isso. • P – No livro que você citou, Deleuze busca definir a filosofia como “atividade que cria os conceitos”. A paranoia está, por exemplo, em afirmar que só a filosofia cria conceitos. Conceito é conseguir “apanhar alguma coisa”. Há mil maneiras de fazer isso. É, aliás, o que fazem a literatura, a pintura, a ciência... Conversem com Cézanne, com Duchamp e verão que não se trata apenas de perceptos ali. As 48

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tentativas de tornar rigorosa a diferença entre isto e aquilo estão borradas no Quarto Império. O mesmo valendo para a ideia de verdade. Por isso, em pleno vigor da pós-verdade, alguns dominadores atualmente estão à vontade para impor alguns procedimentos chamados de direita. Se as possibilidades de crítica se borram, por que estariam errados? E o único discurso de que dispõem aqueles que se contrapõem a essa relativização tem sido o da democracia. Mas o que é mesmo a democracia senão uma situação em que um monte de miseráveis vota em pessoas as mais incapazes e incompetentes? É mediante ela que fascistas chegam ao poder. Por isso, digo que não dá para combater certos dominadores atuais com um discurso supostamente oposto, mas que é da mesma natureza do deles. A pergunta precisa é: o que é possível criar para sair disso? Estamos dependendo de uma criação política, de um ato político novo. • P – O que vimos nos Estados Unidos, ao fim do processo de pedido de impeachment de Donald Trump, foi a presidente da Câmara rasgar o discurso dele, que permaneceu impassível. Isso é grave e perigoso. Cadê a democracia americana? Ela rasgou tudo ali, e não apenas Trump. Ela estava – teatral e serenamente – dizendo diante do Planeta inteiro que mais nenhum documento era confiável. Nunca mais o Congresso será o mesmo. Alguns anos atrás, presidente algum da Câmara ousaria rasgar o discurso do Presidente da União, pois as consequências seriam enormes. Esse é mais um dos acontecimentos prévios à entrada do Quarto Império. Há muitos outros. O Terceiro Império é católico, isto é, universal. Sua vocação é planetária. Nos anos 1960, havia pensadores planetários que diziam que o mundo se unificaria e até teria um governo único. Isso acabou. É também o pensamento da Igreja católica que, durante séculos, conseguiu se impor como a referência política e religiosa. • P – O comunismo também tentou fazer essa universalização. Falou em “trabalhadores do mundo”. Marx corrobora perfeitamente o Terceiro Império com desenhos paranoicos. • P – Mas coisas como catolicismo e ONU não seriam tentativas de sair das fronteiras?

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Tentativas de fazer isso matando os infiéis, queimando Giordano Bruno, as bruxas... Todas as diferenças caberiam dentro de uma unidade que não abole as diferenças – mas se torna a única referência dos diferentes. Entretanto, se for diferente demais e escapar do cinturão, fogueira nele. Se não olharmos para o século XX com perspectiva, continuaremos com o pensamento sujo. É preciso surgir um gênio que possa repensar a estrutura política de maneira nova. Terá que surgir, pois quando é necessário sempre surge. No século XX não surgiu um bando de gênios necessários (do século XX)? Cabe a nós pensar isso em nosso campo. Quem foi Freud? E aquela gentalha em volta? Eram configurados, e não podiam não ser. É assim mesmo. O problema maior hoje é andar para a frente, pois não estamos sabendo o que fazer. Minha tentativa foi passar a psicanálise a limpo e reformatá-la com um mínimo de conteúdo: articular umas formações mínimas para ver se fica parecido com o que vem. Não é só uma questão de terapia, e sim que a psicanálise pode ser o pensamento fundamental do futuro – e este pode deixar de ser filosofia, de ser Deleuze. Estou lendo o livro Accélération! (PUF, 2016), organizado por Laurent de Sutter, uma coletânea de textos de autores do aceleracionismo. São meio chatos – e são de esquerda (que nem carro acelera, a direita menos ainda). É visível demais como não sabem saltar fora e apenas ser aceleracionistas. Ou seja, mantêm o pé no freio. Isto, apesar de o ‘Manifesto Aceleracionista’ (2013), incluído no livro, ser muito interessante. Nele se critica justamente a esquerda por não ter ido até onde devia. E querem que ela vá – ela não irá, é paralítica. Quanto ao Brasil nesse momento de entrada de Quarto Império de que falo, talvez ele tenha jeito de ser a capitania impulsionadora por já sermos essa esculhambação, esse pós-verdade, esse ad hoc, não é preciso inventar. O Brasil é fake de nascença. • P – Falando em Brasil, o que é mais visível numa cidade como o Rio de Janeiro é o aumento de favelas e de moradores de rua. A médio prazo, se acrescentarmos a proliferação das milícias, as consequências podem ser sem ponto de retorno. E o que mais há é denegação da situação. Por parte dos políticos principalmente. Denegam por não saberem o que fazer – e talvez não haja solução. Talvez essa multidão seja o começo do Lixo, que já está se acumulando. Segundo 50

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Hegel, a fronteira do Estado é a polícia. E o que fazer hoje com ela quando negociatas com milícias nem se escondem mais, se fazem às claras? Como veem, estamos na rota do Quarto Império.

7 Vocês estão aí falando sobre a ideia de Artifício Industrial e do que chamo de Prótese. Percebam que a tecnologia pode ficar independente, difundir-se num mundo próprio criado por ela, mas teve início como extensão, conforme diz McLuhan. Esta nossa espécie, ou qualquer outra nomeável como IdioFormação – isto é, qualquer espécie com a competência de Revirão –, extrapolará necessariamente, no tempo que der, sua constituição programática. Isto é importante nos raciocínios de McLuhan. O próprio corpo, ao invés de se manter nessa programação, irá se estender. A noção de artifício generalizado, Espontâneo ou Industrial, é para mostrar que se trata de composição de formações. São formações espontâneas, que aconteceram. E, dentro desse mesmo acontecimento, dito natural, ocorreu uma sobrecarga chamada Revirão, o que fez com que a coisa virasse pelo avesso: ao invés de a evolução continuar biológica, virou para o lado de fora. Esse virar para fora é que chamo de indústria: o artifício deixa de aparecer espontaneamente e passa a aparecer produzido pelas IdioFormações, as quais só querem cada vez ser maiores. Por isso, é extensão – ficamos cada vez maiores. É um acrescentamento da própria IdioFormação. A gente não cabe nesse corpo em que estamos presos e a massa de possibilidades inventadas por esta espécie está do lado de fora. Nosso corpo é a roda do carro, por exemplo. E a coisa vai num crescendo em que o Artifício Industrial passa a tomar os espaços do 51

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Artifício Espontâneo. Isto, a tal ponto que uma pessoa, no sentido humano, se for retirada completamente da ordem da indústria, morrerá. Qualquer acrescentamento ao Espontâneo – jogar uma pedra no outro, coisa que cachorro não faz – é tecnologia e produção industrial. Retomando o que falava da vez anterior sobre o século XX e sua paranoia, notem que, ao contrário, reconhecer que determinada formação deixou de funcionar para certos processos posteriores não é rivalidade, e sim reconhecimento. Aliás, rivalidade sempre é burrice, pois basta ter claro que algo anterior deixou de funcionar. Não podemos viver a época de hoje com a física de Newton. Ele foi alguém enorme em seu momento, e sua física ainda é válida para partes do funcionamento. Costumo usar uma palavra que parece capitalista – porque o é – ao dizer que nada é melhor do que a riqueza. Vejam também que não cabe aí qualquer ideia de erro da parte dos pensadores. Erro é apenas uma falta de competência, é, depois de algum tempo, percebermos que fizemos besteira para trás, mas que o fizemos por não sabermos. A propósito, leiam Sobre a Verdade e a Mentira em um Sentido Não-Moral (1873), de Nietzsche, que nessa data estava pensando com a cabeça de hoje – e mesmo de amanhã. Na época dele, não dava para entender um texto como esse. • P – Naquele momento, havia Hegel, o positivismo... Era uma pressão enorme, e ele pouco se lixando. • P – Voltando a outro tema tratado semana passada, você disse que poderia substituir o Deus de São Tomás pelo Haver. Para São Tomás, Deus era imóvel. O Haver também é imóvel. Não é, para nós, o caso de repetir ipsis litteris o que Tomás de Aquino disse, e sim de entender a conjetura geral que propôs. Se a passarmos a limpo, veremos que ele está correto – não em certos detalhes. Do ponto de vista de poder, aliás, ele era bem escroto. Em sua obra, está escrito que se alguém não estiver dentro dos princípios da religião há que tentar convencê-lo, chamá-lo à ordem, à verdade, mas, se não aceitar, há que matá-lo. É o princípio de poder da Igreja da época. Isso não me interessa. O que me interessa é que, passados a limpo, seus conceitos de base são válidos desde que substituídos por conceitos de hoje. Por exemplo, sua ideia da dogmática da Igreja e do cristianismo. Para ele, há dois dogmas insubstituíveis: a 52

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Trindade e a Encarnação. Estão corretas. Trindade é: Primário, Secundário e Originário. Encarnação é: IdioFormação. Tomás sabia pensar, o que não tinha era conteúdo adequado, seu conteúdo era de época, está datado. • Patrícia Netto Coelho – No pensamento aristotélico, a imobilidade é o grau alto da perfeição. O movimento é um signo de imperfeição. Deus é imóvel por ser o mais perfeito. O conceito de Sujeito herdou esse raciocínio quanto a uma Identidade que ele precisa ter. E ele não pode se mexer, se não a perspectiva muda. Se o ponto de vista da perspectiva exata do Renascimento for substituído pelo Sujeito, tudo dá certo. Mas se mexer de um olho para outro, acabou. Como a perfeição precisa da paralisia, é possível dizer que Deus é tão perfeito que vive correndo e não sai do lugar. Ele não sai de Haver. Não se trata, pois, de uma questão de movimento. • P – Segundo o Pleroma, que você trouxe em 1986, o movimento é no sentido de chegar a não-Haver? Note que o Pleroma não é o Haver, é um caso do Haver. O movimento é nesse sentido, mas como não há o não-Haver, o Haver está sempre parado. Quanto mais corre, mais não sai do lugar. • PNC – No nível em que você está pensando, fica indiferenciado. Não há como dizer se está parado ou em movimento. Pode-se dizer as duas coisas. O pensamento – mesmo o aristotélico, aquele que Tomás de Aquino tomou – é linear. Em nosso pensamento, não há linearidade. O excesso de movimento é absoluta paralisia, o excesso de paralisia é absoluto movimento. Do ponto de vista da articulação mental, o que interessa não são as oposições, que são casuísticas, e sim a Bifididade. • PNC – A ideia de Morfose Estacionária se aplicaria a esse raciocínio? Ela é uma situação de paralisia com enorme esforço para mantê-la paralisada. No caso, a paralisia não é porque está parada, e sim porque há uma força não deixando mexer. O pensamento contemporâneo que está um pouquinho perto da psicanálise é a física quântica, na qual as coisas variam com maior frequência. Ela nasceu junto com a psicanálise – ambas são malparidas, diga-se. Freud é genial, mas, como sempre digo, não pode sair de sua época por não ter recursos. Todo caso é resultante de recalque. Se não houver recalque, não há caso, há passagens. Uma leitura interessante quanto à mobilidade do pensamento 53

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é Wittgenstein, sobre quem falo com frequência. Ele teve a pachorra de produzir o Tractatus Logico-Philosophicus numa trincheira durante a Primeira Guerra. As bombas explodindo ao lado e ele escrevendo a caretice radical que é esse texto – mas acabou sendo uma pessoa saudável: passou adiante e fez outra coisa. O restante de sua obra é que importa. • Aristides Alonso – Ele é importante para a noção de Ficção ao colocar que sempre nos deparamos com jogos de linguagem. No Tractatus tentou sistematizar um jogo de linguagem que pudesse escapar do jogo de linguagem. Ele queria a formação absoluta. Depois, ficou mais velho e começou a pensar. Bertrand Russell, após conversar com ele, abandonou a via rigorizante que, junto com Whitehead, tinha apresentado nos Principia Mathematica. • PNC – A paranoia do século XX parece ter chegado mais cedo nas ciências formais, e também saiu mais cedo. As duas primeiras décadas encareceram esforços como os deles, de Hilbert, de Gödel... O que nos interessa mais é eles serem a prova concreta do desejo de paranoia absoluta, de saberem definitivamente. Mas se lermos a obra seguinte de Russell, veremos que ele desmunheca geral. Mesmo Lacan começa fingindo ser matemático, coloca o apelido de matema e, no fim, após construir quinhentos mil nós, diz que “le truc analytique ne sera pas mathématique”. Na companhia de Dalí a coisa chegou a se chamar “conhecimento paranoico”, e Lacan aceitou. Estavam todos certos – se o século era paranoico, fariam o quê? É o “método” deles, como diziam. • P – Bertrand Russell publicou vários ensaios com o título de Misticismo e Lógica (1910). Para mim, a lógica do misticismo nada tem a ver com o folclore sobre o misticismo, é apenas a tentativa rigorosa de ultrapassagem. Toda tentativa rigorosa de ultrapassagem é mística. Entretanto, no que aplicam essa tentativa a um discurso configurado, a mística decai em cristianismo, catolicismo... Menos com Mestre Eckhart, que, apesar de tudo, o tempo todo escapa dessa decadência. • PNC – Conhecimento é isso, essa tentativa de ultrapassagem. Sim. Por isso, eu disse que o Estatuto da psicanálise é místico. Se não o for, será o quê? Epistemológico? Epistemologia é algo que não cabe no século XXI. 54

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• P – Freud também não está metido na paranoia do século XX? A tentativa de Freud de qualificar rigorosamente o Édipo, de falar em interpretação, é pura paranoia. Deleuze tem razão em denunciar isso. Mesmo a referência freudiana ao Inconsciente – portanto, anti-paranoia – fica comprometida com essa tentativa de rigorizar, pois se enche de historinhas, de narrativas pequenas. Por isso, eu disse: “Só há fatos, não há interpretações”. Nietzsche tem razão ao dizer “só há interpretações, não há fatos”, pois isto significa que tudo é conversa e que ninguém segura o fato. Mas digo o contrário com referência à dita “interpretação” psicanalítica, na qual o que o analisando traz é um fato novo, e não podemos ficar “interpretando”. Na melhor das hipóteses, quando alguém conta um sonho tão evidente, o analista nada precisa dizer, o próprio analisando dirá, basta aguardar. O sonho é dele, que faça o que quiser. Freud achava que podia ir na mosca. Se a pessoa disse isto, portanto aquilo. Primeiro, é uma asneira, pois nunca isto é aquilo. “Uma rosa é uma rosa, é uma rosa...”, já dizia Gertrude Stein. A cada vez, a rosa é outra. A proliferação de sentidos é algo banal. Não é interpretação, é apenas proliferar. Na história de alguém, podemos – e devemos – encontrar momentos fecundos, o que é diferente de interpretar. Em certo momento, a pessoa passou por certa coisa que, para ela, teve uma enorme força de significação. É o caso da Fantasia, cuja montagem é, musicalmente falando, um staccato. São momentos graves na vida das pessoas. Como venho dizendo desde o ano passado pelo menos, elas têm grande dificuldade de se aproximar de sua fantasia, mesmo em análise. Isto porque o momento fecundo foi um evento que marcou posições, mas não foi grave a ponto de a pessoa se lembrar dele e saber dizer, contar o que se passou como trauma naquele momento. ‘Grave’ significa de alta significação, de alto tesão, no caso da fantasia. E a criança se lembra. • P – Momento fecundo também diz respeito ao HiperRecalque? O que acontece no caso do HiperRecalque pode ser da mesma ordem. Pode ser algo hiper-recalcante que não foi tão marcado historicamente a ponto de a pessoa se lembrar daquele momento. Aquilo passou, funcionou e, digamos, não doeu tanto na hora, só marcou. Mas como se monta um HiperRecalque? Seria importante saber acompanhar essa montagem, o como e quando ele se terá estabelecido. 55

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• P – Há algum exemplo dessa montagem? Vejam o caso relatado por um analista. A criança com um ano, um ano e meio de idade tem uma mãe histérica que sabe tudo. (As histéricas sempre sabem tudo, os obsessivos têm dúvidas irresolúveis). Essa mãe se parece bastante com a mãe, que era pedagoga, do pai de Schreber (pai este, aliás, que também sabia tudo). A criança, então, faz algo que, na linguagem da mãe histérica, seria uma “malcriação”. Como alguém com um ano e meio pode fazer má-criação? Bem, a tal mãe, então, coloca a criança de castigo em cima do baú que havia num canto da casa. Era para ela “tomar vergonha, não ficar sem-educação”. A criança olha ao redor, não tem coragem de descer, vê um abismo e entra em total derrelição. Berra, chora desesperadamente, e a mãe não se move. É a chamada filha-da-puta que acha que, mediante o desespero, a criança aprenderá. A criança chora até se esgotar e pegar no sono. Ao acordar, estava psicótica. Notem que isso é o que estou dizendo a respeito do que aconteceu: a partir desse momento, toda a estrutura da vida dessa criança é psicótica. É assim sem surto aparente, mas fazendo merda o tempo todo na vida. Anos depois, surtará completamente. Aquele foi o momento fecundo. Hiper-recalcou o quê? Aquilo que estava demonstrando como desejo – e que foi massacrado até a derrelição total. Não tinha saída: fisicamente tolhida a ponto de não poder se mexer. Jogamos a criança num abismo e a deixamos desesperar-se. Acabou-se com a criança para sempre. É a barbaridade do furor pedagógico dessa mãe louca: em poucas horas, destruiu uma criança. Lacan, para quem o Nome do Pai funciona na intervenção paterna, diria que faltou o pai para intervir nessa mãe – mas o que aconteceu, segundo meus termos, foi HiperRecalque. • P – O Nome do Pai diz respeito à contenção do excesso do desejo da mãe, que é psicotizante. Ele interfere e separa. Acho menos teatral falar em HiperRecalque do que em coisas tipo Nome do Pai. Mesmo porque, para mim, se aboli o sujeito, fica sem sentido manter o Pai. O raciocínio de Lacan é que, como ele diz, mãe é jacaré – que cria os filhos dentro da boca –, mãe é psicotizante e é preciso uma intervenção paterna para separá-la do filho. Por que isso? Porque: mãe é da ordem do Primário, e pai da ordem do Secundário. Ele mesmo dizia que todo pai é adotivo, o que é algo evidente. É como se estivesse dizendo que, em caso de psicose, faltou 56

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uma intervenção da ordem do Secundário. Não posso pensar assim porque, no caso, a tara da mãe foi corroborada secundariamente. Ninguém é pedagogo no Primário. Leiam os livros sobre educação do pai de Schreber, que apresentavam técnicas para conter qualquer atitude “suspeita” por parte dos jovens. Eram os adultos que ficavam o tempo todo pensando nas sacanagens das crianças. O JiJi Rousseau também fazia isso, perdia o sono pensando se o Emílio, no quarto ao lado, estava ou não se masturbando. Quem está gozando com o quê? • P – Nessa montagem de HiperRecalque que você citou, a pessoa contou para o analista? Ela já era grande, não se lembrava, foi-lhe contado que aquilo acontecera. Com orgulho pedagógico lhe contaram que ela era muito mal-educada e a mãe fizera aquilo para corrigi-la. • PNC – Pode coincidir uma situação de HiperRecalque e de fantasia? Acho que sim. Já pensaram que horror deve ser. Falarei maluquices agora: é possível supor que isso tenha se constituído assim, no mesmo lugar, para um Gilles de Rais, para um serial killer... Não estou dizendo que tenha efetivamente sido isso, mas seria da ordem desse tipo de monstrengo. A pessoa tem que cumprir aquilo de qualquer maneira. • P – Ela é mandada por aquilo. Sim, mas note que todos somos mandados. Somos dirigidos. Já disse que somos marionetes. • P – Você também usa a ideia de HiperRecalque em relação à montagem de uma teoria. Quando se inventa ou escolhe um axioma para suportar toda uma teoria, ele acaba funcionando como HiperRecalque e, por isso, aprisiona a teoria. E, também por isso, alguém tem que fazer outra teoria. Um axioma segura todo o processo de produção de uma teoria – se não segurar, a teoria ficará frouxa. E, por isso também, do ponto de vista histórico, toda teoria é fake, ela precisa de outra. • P – O fascismo teria uma forma axiomática extrema? O fascismo é absolutamente paranoico, dogmático e axiomático. O dogma é um ponto de HiperRecalque. Por outro lado, é possível sacanear o

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dogma, como fiz com o dogma de Tomás de Aquino. Substituo, e ele se ferra: é trindade e é encarnação, sim, com outro aparato. • AA – Em termos de Creodo, o movimento de entrada num novo Império é Progressivo. Quando o Império se torna dominante, aquilo fica Estacionário, e vai indo até fundar o HiperRecalque, isto é, até ficar Regressivo. Parece que os Impérios só se assentariam ao terem HiperRecalques constituídos de modo muito pesado. Ou seja, quando viram religião. Daí Lacan dizer que a religião sempre vence. Ele quer dizer que, dado o tempo, a invenção e o processo progressivo se tornam – do mesmo modo que ocorre na vida de uma pessoa – uma Neo-Etologia. A cultura também fica Neo-Etológica, instala o dispositivo do recalque e, portanto, da paralisia. No que isso vira dogma, mesmo político – e, quanto a isso, basta olhar para a política atual no mundo –, esse renascimento dogmático é pensamento psicótico. A dinâmica é essa, não há como escapar. Escapar seria tentar libertar-se ao máximo e ir para a frente. • P – O que vemos é uma adesão – prazerosa, mesmo – cada vez maior a essa tendência psicótica. É o que, como sabem, chamo de fuga para trás. O pessoal está apavorado, olha para a frente, não vê alguma construção que dê resposta, então corre para trás. O que é tendencial em nossa situação atual é que o Terceiro Império morreu e, em vez de fazer o luto, o pessoal age como se ele estivesse vivo.

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8 • P – Poderíamos dizer que, na Tópica do Recalque, diferente das tópicas de Freud e de Lacan, haveria uma ênfase na Criação? Isto, por ela incluir o Originário. Está explicitado nas tópicas de Freud e Lacan o deslizamento do Inconsciente e, portanto, lá está a abertura para a Criação, para a Invenção. Real, Simbólico e Imaginário, de Lacan, por exemplo, são suficientemente abertos e deslizantes. Não há falta alguma de possibilidade poética nessas tópicas, mesmo que o Originário não tenha sido nomeado diretamente. O que não têm é o conceito de Revirão que é a resultante de cem anos de psicanálise já terem decorrido. Para entender, podemos lembrar de Lévi-Strauss, que fez um grande esforço, quase que inútil, de tentar indicar onde estaria a passagem de Natureza a Cultura. Produziu grossos volumes para mostrar as relações de parentesco e a interdição do incesto. Lacan compra essa ideia e a apresenta de modo pessoal, desenvolvendo-a como Simbólico em contraposição a certo Imaginário, e com um Real que não sabe muito bem onde enfiar. Já o golpe da Nova Psicanálise é pensar que, se há passagem de Espontâneo para Industrial, de Natureza para Cultura, essa passagem está no Espontâneo. • Patrícia Netto Coelho – Se o princípio aí é analógico, não é exatamente uma passagem. Você tem razão. Trata-se de uma instalação. Eles tentaram resolver por via do Simbólico. Por esta via, fica apenas conjetural simbolicamente. A diferença – e não a passagem – é que, por algum acidente nesta espécie, terá surgido nela – e poderia ter surgido em outro lugar – o Revirão (e ele carrega todos os defeitos do Espontâneo, do macaco). Do ponto de vista do Espontâneo – ou seja, a natureza ofereceu acidentalmente –, foi um evento que produziu o Revirão. Produzido o Revirão, é ele que produz a espécie humana (que não é o macaco). Por isso, chamo de Originário. Nossa origem enquanto IdioFormação não está no macaco, e sim no Revirão. Então, se isso aconteceu, acabou o 59

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macaco. Nem mesmo do ponto de vista do Primário somos irmãos dos macacos. As ciências biológicas dizem que eles são primatas, mas o acidente que lhes aconteceu foi tão grave que o Primário agora é radicalmente diferente do dos outros: reconstrução cerebral. • P – A segunda das três feridas narcísicas mencionadas por Freud foi, com Darwin, entender nossa descendência vinda dos macacos. Você está dizendo que nem mesmo no Primário somos irmãos deles... Do ponto de vista da espécie, o Revirão é uma ferida narcísica. Infelizmente, o Primário faz uma pressão enorme sobre o Revirão. O Primário ajuda demais a estupidez, a paralisia, o recalcamento do Revirão a ponto de virarmos uma espécie neo-etológica. Todas as pessoas, em algum lugar, são neo-etológicas, são estúpidas, são o animal de alguma espécie mais ou menos secundária. Se houver luta, será com isso. • P – Em 1981, você falou que somos da espécie do “macaco maluco”. Somos a espécie do Secundário? Acontece que a maluquice também é primária. Não se pode dizer que o Revirão seja do Secundário. Se pensarmos como Lévi-Strauss, o Revirão é o ponto de passagem – mas também é possível pensá-lo como fluxo contínuo com um acontecimento radical. Quero dizer que é possível traduzir a passagem de Natureza a Cultura, de Lévi-Strauss, por emergência do Revirão, que, este, é simplesmente uma maquininha cerebral sem conteúdo algum. Repetindo, o evento por excelência que originou esta espécie foi o Revirão. A espécie começou a poder negar o que estava diante dela, ou o que estava inscrito em sua programação. Podia dizer o contrário do que dizia a programação, do que o Espontâneo apontava. É a isso que chamo de Revirão. Não é mera negação, e sim um reviramento: se isso está dado, penso o contrário. Por exemplo, ao inventar um aparelho de refrigeração do ar não se está apenas dizendo não ao calor, e sim dizendo frio ao calor. Não é apenas uma negação, e sim uma contraposição. Está-se fabricando uma contraposição: não quero isso, quero o contrário disso. E mais, se porto o Revirão, o contrário se oferece para mim. O que tenho é, portanto, a condição de acolher o contrário, coisa que o animal não tem.

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A técnica tanto de Lacan quanto de Freud trabalhou como negação. Freud se aproveitou dela para fazer seu conceito de denegação. Os textos de Freud que tratam do não são muito importantes: A Denegação (1925), O Sentido Antitético das Palavras Primitivas (1910), Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901). Ele trabalhou sobre a negação, percebeu que ela qualifica a espécie. Inventou o conceito de Retorno do Recalcado, e não percebeu que era Revirão. Ou seja, Revirão é conceituar por que há o sentido antitético das palavras primitivas. Esse texto, aliás, me fez muito inventar o Revirão. E o ato mais importante desta espécie, no nível de sua transa com o Espontâneo, é o Ato Tecnológico. Trata-se, nele, de investir para mudar a situação. Mudar não é apenas dizer não, é, sim, querer o contrário do que é apresentado. Criar é fabricar a contraposição, é não estar submetido nem às imposições da natureza nem às da cultura. O ato tecnológico é dizer não a isto, e sim ao oposto. Por isso, coloquei o conceito de Revirão em vez de Simbólico. O simbólico é muito fraco, não existe sem conteúdo. Tem que tomar conteúdo emprestado do Primário. Sumballó, dos gregos, não é pensável sem, primeiro, ‘juntar duas partes’ (de moeda, no caso deles), e, segundo, sem algum conteúdo – nem que seja a moeda – não é operativo. O Revirão não tem conteúdo, não é do século XX, é do Quarto Império: só mexe, só revira. Então, tomando a história da humanidade, dado que o Revirão não tem conteúdo, podemos perguntar: como o pessoal lá dos inícios inventou e pôs em exercício o Secundário? Imitando o Primário e Revirando. O simbólico nasce do reviramento do Primário. Basta ver como ainda permanece na humanidade o peso das crendices ligadas ao Primário: religiões, ideologias – tudo coisa de macaco transformada, mediante Revirão, em Secundário. • Lia Guarino – Isso que você disse me faz entender melhor Marcel Duchamp. À medida que ele valoriza o Ato e não o produto, está valorizando o Revirão, e não o simbólico. A obra de arte é o Ato, o exercício do Revirão – o que sobra é da ordem do Secundário. Que eu saiba, nunca antes dele foi dito que a obra de arte é o ato. Diziam que era o fazer, a técnica, junto com talento, com os deuses... Duchamp simplesmente fez o ato de colocar o mictório sobre a mesa, assinar com pseudônimo e dizer que era uma obra de arte. Para sempre, desde então, os 61

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artistas estão desmoralizados. Aliás, o que sinto falta nos supostos pensadores contemporâneos é não entenderem isso, e restarem menores do que Duchamp. Eles trabalham com designações no âmbito do simbólico, e não com o ato. Mencionei o livro de Mangabeira Unger, O Homem Despertado, que, mesmo não tendo as nossas ferramentas, está chamando atenção para o ato. Tenta ensinar como se vive segundo um Pragmatismo Radical. Tenho também uma vertente pragmatista que vem de meu mestre Anisio Teixeira referido a John Dewey, e Mangabeira tem razão ao criticar o que chama de um “pragmatismo encolhido” por ser naturalismo demais. É verdade, pois o pragmatismo de Mangabeira é o do Revirão. Acho que o Brasil só tem dois pensadores: Mangabeira Unger e MD Magno. • PNC – Mangabeira fala em imaginação e esperança. O problema é ele falar com palavras velhas, mas está dizendo que o pragmatismo está no reviramento. Chamo de ad hoc, expressão que ele também usa para falar de seu “pragmatismo radicalizado”. • Aristides Alonso – Em 1985, você disse que o trabalho da psicanálise era transformar o sonhador em artista, em ART, art-iculação. Você fala dessa sonhação, do devaneio, do delírio e da alucinação, e de quanto há de reviramento nesses processos mentais. Mas há um segundo momento que podemos ver na história das tecnologias e que é útil para o entendimento do funcionamento psíquico. Tenho pensado especificamente no domínio do fogo, em que surge o Revirão... Acho que não é o Revirão que surge, e sim uma necessidade. A espécie consegue revirar diante da necessidade. Isso é que é o movimento ad hoc. • AA – O que me interessou foi o fato de o pessoal ficar num fascínio diante do fogo e inventar uma estratégia para transportá-lo. Durante muito tempo, culturas inteiras ficavam na dependência do transportador, que era alguém especializado. O que acontece nesse desejo de transporte que envolve até a magia e, de repente, passa-se a entender a técnica de produção do fogo? Tiremos o desejo imediato (só para implicar com Lacan). O que aconteceu foi o cara ter ficado de saco cheio de transportar o fogo com aqueles cuidados todos. Aí, matuta sobre o que fazer para não precisar ficar carregando

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aquilo. Acho que é mais por aí. Nossa criação, mais do que do desejo, depende de desabafarmos: “Que merda ficar carregando isso!” • AA – Houve um passo, uma art-iculação, para chegarem ao entendimento de que fogo resulta de atrito. Há uma analogia aí. É uma descoberta no Haver. Perceberam que o vento bate no mato seco, os galhos se roçam e o fogo começa. Um animal vê isso inúmeras vezes e nada lhe acontece por nele faltar o Revirão. Falta-lhe o: “Que merda!” Autores até o século XX ficavam deslumbrados com a inteligência, a perspicácia e a inventividade do humano, mas noventa por cento do que ocorre é analogia. O simbolismo quebrou a cara por ter colocado tudo na conta da inteligência e do talento humanos. O novo macaco é um imbecil, mas, no começo, revira. Então, presta atenção e percebe como o fogo se faz. E, de tanto fazer abstração, há momento em que abstração também roça com abstração, também faz fogo. • AA – Na emergência das tecnologias, nota-se que entre o ato por analogia – que não deixa de ocorrer, ainda que por mera criatividade – e o que vai surgindo nas sociedades é algo marcante do ponto de vista da constituição, a seguir, da Neo-Etologia. Por exemplo, do fogo vem a religião do fogo, a sacerdotisa do fogo, a mitologia do fogo... Isto, até alguém inventar o palito de fósforo, o isqueiro – coisas que já sumiram do uso cotidiano nas cidades. A tecnologia vai-se decantando a ponto de parecer ter desaparecido dentro do tecido social. Ela se torna o ambiente. Sim. • P – Para os antropólogos, a nobreza da espécie parece que está em nossa cabeça, a qual teria a necessidade de classificar. E com que materialidade fazemos isso? Quem tem a classificação? O Espontâneo. Chama-se: diferença de emergências – aí começamos a perceber e arrumar. Se olharmos para o que um homem primitivo classificou, veremos que é uma loucura. Ele pegou o que tinha à mão. Então, cadê a classificação? Não se pode dizer que a via do simbólico não tenha ajudado, efetivamente ajudou, mas chegou ao fim como única referência. A diferença que há entre o estruturalismo e o que estou dizendo é radical. Os estruturalistas acreditavam que o simbólico fosse uma grandeza do homem e funcionava por conta própria. Aliás, falando em sucesso do simbólico no século XX, o que isso tem a ver 63

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com a paranoia? É a paranoia de supor que a grandeza do homem é anterior à sua produção e à sua analogia, e não um resto dos acontecimentos a partir das analogias que fez. • PNC – Você pode definir melhor a necessidade mencionada há pouco? Fico pensando se não se trataria de uma situação de sensibilidade ao recalque que a pessoa está sofrendo naquele momento. Necessidade é sempre sintomática. No exemplo, era o saco cheio de carregar o fogo. E é também necessidade de ficar livre do recalque. O termo técnico para isso que acontece é: uma sacose. A maioria dos discursos do saber vive de exclusões. • P – O Revirão é um evento, no sentido singular que você dá a esse termo? Para nossa espécie, o Revirão é o evento. Alain Badiou fez um enorme esforço para, do ponto de vista matemático, segurar a ideia de evento. No final dos anos 1980 e inícios dos anos 1990, tentei durante algum tempo utilizar sua ideia, mas acho que só seja possível capturar um evento de trás para a frente. Por exemplo, talvez se descubra um dia como se deu a emergência do Revirão no cérebro. Suponho que tenha ocorrido alguma coisa da ordem da complexificação radical do funcionamento cerebral que fez com que perdesse as estribeiras, enlouquecesse. • P – Quanto a isso, Freud falava em acaso e necessidade que movem a criação humana. Justamente Jacques Monod, que escreveu O Acaso e a Necessidade (1970), e François Jacob, que escreveu La Logique du Vivant: une histoire de l’hérédité (1970), são autores que têm certa divergência com o simbólico. • AA – Jacques Monod já estava trabalhando com a teoria da informação. Haver é informação. • AA – E o Revirão é o princípio de produção da informação. Produção da informação até no Haver. • AA – O Revirão é uma concepção plerômica da teoria da informação. Sim. E não sei como pari isso.

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• AA – De trás para a frente. Dado o binário, você conjeturou sobre o que teria que haver para aquilo ter sido gerado. Pode ser, não me lembro. • AA – Para entender o que você falou sobre a negação é preciso considerar que, uma vez que há o reviramento, ele comparece como uma negação, mas sua efetivação é uma positividade. Diferentemente do que está na lógica hegeliana como afirmação da negação, é uma afirmação da afirmação. Por isso mesmo, ou perto disso, é que suspeito do conceito de Foraclusão do Nome do Pai, de Lacan. • AA – Negação é princípio de rebelião, mas, a seguir, é fabricação de Neo-Etologia. Acontece assim: Primeiro, sou contra isso. Pergunto-me, então: “Por que sou contra?” Por querer o contrário. Não existe meio termo, só existe o contrário. • AA – Um interruptor é um bom exemplo de reviramento. Sim. Notem que foi preciso chegar ao final do século XX para o conceito de Revirão surgir – mas não há que se vangloriar, pois ele lá já estava latente aí muito antes, faltando apenas dar-lhe um nome. Foi preciso entender que não há dualidade – mente / corpo, por exemplo – para ver que o Revirão é do corpo. E, mesmo não conhecendo as várias línguas, fico procurando no mundo alguém que já esteja organizando o pensamento dessa maneira. Encontro autores chegando perto, mas não pela via de jogar fora e pegar o contrário. Primeiro, tem o ato de: “Lixo!” – e, depois, perguntar: “O que fazer agora?” Como sabem, levei décadas para jogar o sujeito fora. Foi difícil, foi uma cirurgia. • P – Ele é compatível com o tempo de Descartes. Já lhes disse que a ideia de sujeito, em Descartes, decorre da perspectiva linear, a qual é completamente, euclidianamente, determinada a partir de um ponto chamado: ponto de vista. Ponto de vista este que é o sujeito. Faz-se, então, uma máquina fotográfica que é cega de um olho. Acostumamo-nos a ver fotografia, cinema, televisão, com um olho só. Inventaram a terceira dimensão no sentido de incluir o funcionamento dos dois olhos – que, aliás, é como vemos –, mas é pouco utilizada. • P – Por que, na China, não se recorreu à perspectiva linear? 65

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Eles não precisaram. Lá a perspectiva é cavaleira, que é paralela, e não cônica. Nem se sabe com quantos olhos se faz essa perspectiva deles. Já a perspectiva medieval era inteiramente afetiva com Jesus enorme e os demais bem menores. Giotto, nos séculos XIII e XIV, foi o primeiro a arrumar a cena dentro da proporção. Na continuidade, vêm Brunelleschi e Piero della Francesca que aperfeiçoam. • P – O Maneirismo vai brincar com as várias perspectivas? O Maneirismo, em contraposição ao Classicismo, foi uma tentativa de inventar o Revirão. O grande maneirista é Michelangelo. Ele é discreto, diferente dos maneiristas exagerados. Acho mesmo que a Catedral de São Pedro, no Vaticano, não é clássica, e sim maneirista. O maneirismo é uma espécie de resposta intelectual ao classicismo. É como se dissesse que o mundo não era do modo que o classicismo enxergava. Aquilo era uma forçação de barra – e era mesmo, como a fotografia o é. Notem que o clássico da Grécia apenas dá o nome ao que acontece no Renascimento. O clássico de lá é a Canônica, que é algo parecido com o que acontece na música. Na música ocidental, sobretudo em seu ápice com Johann Sebastian Bach, tomou-se o cravo, um instrumento em que se beliscam as cordas. Nele, quando o som sobe, desce diferente, não é o mesmo som. Então, se temos dó, dó sustenido, ré, ao voltar, temos o mesmo som. Na Grécia, o ré-bemol era diferente do dó sustenido. Bach, então temperou o cravo para ficar tudo igual. Ele afinou de maneira tal que o sustenido tem o mesmo som do bemol, só não tem a mesma lógica. A lógica de subida é diferente da de descida. Escreveu O Cravo Bem Temperado, livro que coleciona peças em todas as tonalidades para demonstrar o que era uma tonalidade. O Ocidente comprou a ideia e os instrumentos musicais, inclusive os de sopro, foram construídos dentro da tonalidade de Bach. Para acompanhar a escala do piano, os instrumentos de sopro, que são transpositivos, tocam cada um num tom diferente, mas fica igual. De Bach até Debussy, foi assim no Ocidente. Debussy, de saco cheio daquilo – com a sacose de que falei –, tomou a escala de sete sons e tirou os meios-tons. As escalas dele têm cinco tons inteiros – dó, ré, mi, fá sustenido, sol sustenido e lá sustenido – e, ao ouvirmos, achamos esquisito. Daí o pessoal aproveitou e começou a esculhambar. Stravinsky, por exemplo, inventa o politonalismo 66

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(várias tonalidades, uma sobre a outra e junto). Villa-Lobos é um que tomou o politonalismo de Stravinsky, e abrasileirou. Falei tudo isso sobre a canônica grega para mostrar que ela é uma escala como na música. Vejam também o Partenon, que é uma construção que tem como escala o diâmetro inferior da coluna dórica. Nele, tudo é proporcional a esse diâmetro. O Clássico grego é isso, tem uma canônica, que é a medida de todas a coisas, o metro, e tudo será proporcional a ela. Eles achavam que, se tudo estivesse proporcional, a vista iria achar agradável, mas, como eram inteligentes, ao construírem as primeiras colunas perceberam que pareciam tortas. Aí, inventaram um cálculo chamado Êntase para acertar uma curvatura nas colunas e, ao olharmos, achamos que são retas. O classicismo renascentista não é isso. É assim chamado pela forma. Coisa que é visível na música. Uma sonata e uma sinfonia – Beethoven é típico – têm uma sequência regrada: exposição, desenvolvimento e re-exposição. • AA – Quanto a essa regragem toda, Aristóteles destaca a lei das três unidades na tragédia: tempo, ação e espaço. Eram as condições que ele tinha. Temos, assim, uma situação concreta que dá a possibilidade de exercer no espaço do teatro o que é possível ser exercido daquela forma. O número três é terrível. É a trindade divina, a trindade de Freud, a de Lacan e a minha.

9 Da vez anterior, conversava com vocês sobre o Cânone buscando fazer entender como era na música ocidental. Trouxe hoje um teclado para exemplificar sonoramente as diferenças de que falei. A música ocidental só usa dois modos: 67

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modo maior e modo menor. Os dois podem percorrer todas as tonalidades. Não tenho ideia do porquê, mas virou consenso que o modo maior é alegre e militar, e o menor é triste. Ouçam um trecho da Ode à Alegria, de Beethoven, que é o hino da Europa e é o consenso da alegria. E agora um trecho de As Rosas não Falam, de Cartola, que é o modo menor, o da tristeza. Falei também de Debussy. Ouçam um trecho de suas escalas, que têm cinco tons inteiros. Em cima da escala tonal, é possível fazer qualquer modo. No modo maior, que é copiado do dórico grego, as distâncias são diferentes das do modo menor. Já o Oriente tem modalidades loucas que nem sei seguir. E assim por diante... Isso, para complementar o que dizia da outra vez. O que vocês estão estudando aí? • Aristides Alonso – O ensaio de Michel Houellebecq, Lovecraft: contra o mundo, contra a vida (originalmente publicado em 1991), acaba de ser lançado no Brasil. Lovecraft é interessante por ser um grande exemplo literário do mal-estar. O tema de suas obras é o mal, o inominável, o inferno da existência. Houellebecq ressalta o primeiro parágrafo de seu conto O Chamado de Cthulhu (1926): “A coisa mais gratificante do mundo, creio, é a incapacidade da mente humana de correlacionar todos os seus conteúdos”... Chama-se: recalque. • AA – ...“Vivemos em uma plácida ilha de ignorância em meio aos mares negros do infinito, e não fomos feitos para viajar muito longe. As ciências, cada uma se empenhando em sua própria direção, até hoje têm nos prejudicado pouco; mas algum dia o quebra-cabeça do conhecimento dissociado ficará completo e revelará terríveis visões da realidade e de nossa pavorosa posição nela contida, e haveremos de enlouquecer da revelação ou fugir da luz mortal em direção à paz e à segurança de uma nova idade das trevas”. Isso que ele está dizendo não acontecerá. • AA – O interessante nos textos dele é a constatação de que, a cada instante, estamos a um passo do horror. E, diante disso, o que fazemos é denegar ou recalcar. • P – O que você quer dizer com “não acontecerá”? Esta espécie é denegatória e recalcante. É mais fácil a espécie acabar do que acontecer o que ele está dizendo. Aliás, estamos fazendo um treinamento 68

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para a eliminação da espécie. Está aí o Coronavírus que veio para ajudar a fazer uma limpa. Quanto a isso, da antepenúltima vez, mencionei aqui o livro A Próxima Peste (1994), de Laurie Garrett. E Albert Camus já tinha escrito A Peste em 1947. O que Lovecraft escreve nesse texto não acontecerá, repito. É uma tentativa de nos fazer visualizar o quadro. A dissolução é antes disso. • AA – Interessante em Lovecraft é o horror que ele tem à humanidade. Também tenho. Freud pensava exatamente isso. • AA – Ele vivia com um comprimido de cianeto de potássio... Onde tem? Também quero. • AA – Houellebecq comenta que cada dia para ele era uma decisão entre viver ou suicidar-se. Ele teria adiado sua decisão por causa da poesia, da literatura. É o que a humanidade faz o tempo todo. Augusto dos Anjos já dizia: “Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa, / Abranda as rochas rígidas, torna água / Todo o fogo telúrico profundo / E reduz, sem que, entanto, a desintegre, / À condição de uma planície alegre, / A aspereza orográfica do mundo!” Vivemos distraídos pela ficção e pelo brinquedo de produzir formações. Se pararmos de fazer isso e pensarmos a sério, preferiremos KCN, a fórmula do cianeto de potássio. • P – Na última linha citada de Lovecraft temos que: “...haveremos de enlouquecer da revelação ou fugir da luz mortal em direção à paz e à segurança de uma nova idade das trevas”. Você estaria dizendo que nem trevas teremos? Repito, isso não acontecerá, acaba antes. A humanidade é covarde. Passa pelas piores coisas e finge que não viu. Que eu me lembre, a primeira pessoa que chamou o alerta foi Freud. Ele está mostrando que a espécie é isso: vive de denegação, de recalque... E se alguém chama a atenção para esse tipo de coisa, o mundo dirá que o monstro é ele. Isto, por causa da resistência do Primário. Mas, apesar de tudo, a espécie tem competência para criar seu substituto. Certamente o fará. Agora é tarde, não dá mais para impedir essa criação. Esse substituto, tendo um Primário que não é de base carbono, carne, terá outras características. Faço a suposição ficcional de que estamos aqui justamente para criar essa espécie. A atual foi um acidente do percurso do macaco. No entanto, é o que temos. Repito, somos a consciência do Haver. O Haver tem consciência 69

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de si. Onde? Aqui! Por isso, ele pode ser superado pelos próprios mecanismos de sua consciência. O nome disso é: ferida narcísica – somos só isso. • P – Haveria uma paranoia em achar-se mais do que isso? O recurso da paranoia é uma salvaguarda da desgraça. O pensamento paranoico é o recurso que temos e cada um fica “se” achando, acha que faz e acontece. • AA – Você diz que somos a consciência do Haver. Também fala da paranoia como salvaguarda de nossa desgraceira e como anteparo ao entendimento dessa desgraceira. Durante certo tempo, havia a ideia sobre áreas em que o conhecimento poderia ser praticado e áreas em que era impraticável. Nas áreas do sagrado e do mistério, por exemplo, era impraticável. Para nossa época, por força mesmo de um movimento gnóstico, por informação e conhecimento, cada vez se entende que é possível a invasão progressiva do conhecimento sobre o que quer que seja. O sagrado e o misterioso viraram: ignorância. • AA – Essa é uma mudança de postura fundamental e mais próxima do modelo psicanalítico do que de outras formas de conhecimento, mesmo as filosóficas. Elas têm protocolos viciosos demais. A história da filosofia é cheia de protocolos fechados. Pensem em Hegel, Kant, Marx... Heidegger, apesar de nazista, se livra bem por ser poeta. Descartes é menos fechado, só tinha medo da Igreja. • Nelma Medeiros – Entendo protocolo como conjunto de ferramentas conceituais autorreferentes. Elas acabam conversando entre si, e quem não conhece um pouco não sabe o que estão falando: essência, substância, atributo... Note que toda teoria tem o perigo de cair nisso. Quanto a mim, vocês viram que tentei ser lacaniano, mas aquilo começou a falhar, a não mais dar conta do que acontecia. Começou a falhar no mundo, não aqui no Brasil. Foi uma dificuldade jogar aquele protocolo no lixo: sujeito, objeto, significante... • AA – Leibniz tem um sistema um pouco mais aberto, talvez até por ser de vertente informacional.

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Sim. E temos, sobretudo, meu querido Espinosa. Como, para ele é Deus sive Natura, seu protocolo se abre. • AA – Pode-se, então, dizer que a vertente, hoje, de tecnologia por entendimento do modo de funcionamento da informação, é basicamente gnóstica? A saída é pelo conhecimento e pela informação. Sim. A propósito, Harold Bloom, morto há pouco, fez um esforço para enfatizar essa base gnóstica. • NM – Ele reivindicava uma descendência que é comum a MD Magno e Mangabeira Unger, que você diz serem os dois únicos pensadores do Brasil no momento. É a tradição que é, primeiro, transcendentalista, depois pragmatista que vai dar em Anisio Teixeira, no Brasil, e em Richard Rorty, nos Estados Unidos. Mangabeira, com razão, critica o pragmatismo – que também é minha origem – como tentativa de naturalismo. Ele quer instaurar um pragmatismo radical. Como não tem os termos que tenho, não sabe o que quer instalar é a vigência do Secundário, que, este, é móvel, está o tempo todo ad hoc funcionando. Em termos de mundo, apesar de John Dewey, William James, C. S. Peirce, o pragmatismo se tornou conservador. E o que Mangabeira chama de imaginação é soltar a franga e deixar o Secundário se organizar. Trata-se de parar de ficar fixado em respostas dadas e partir para inventar outras. É o Secundário em movimento. Ele critica em Rorty o fato de ter ficado preso a fórmulas, em vez de inventar formulações. O que critico em Mangabeira é que, apesar de seu brilhantismo de pensamento, não ter rompido com certa terminologia como tento fazer: jogar fora termos velhos e propor outros – para ficar parecendo que são novos. Como ele é filósofo, professor e intelectual, fica impossível entender o que diz. Aliás, seu sotaque norte-americano é um impedimento para a transmissão do que apresenta, mas o que ele pensa é o melhor que há no planeta. • P – Ele diz que fala com sotaque americano, mas pensa como brasileiro. É o caso de Espinosa, que pensava em Português na Holanda. A língua de sua família era o Português.

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• P – Mangabeira diz que o problema no Brasil não é o desequilíbrio econômico, e sim o atraso mental. Isso é claro. A multidão brasileira é imbecil e ignorante.

10 • AA – Em seu pensamento, são fundamentais a capacidade de Revirão e de emergência do Novo. Você distingue Criação e Criatividade, o que é uma operação entre emergências novas e emergências rearticuladas. Em dois outros aparelhos, você fala sobre a decantação do novo em graus de reificação (analogia, metáfora e hipóstase) e também fala em quatro INVs (investigação, invenção, invocação e investimento). Então, o aparelho da NovaMente tem a Criação, a qual, por efeito de Revirão, é a emergência de uma formação nova no Haver – ela não estava disponível e compareceu –; e a criatividade, que já é um assentamento dessa emergência no mundo. Quando mencionei aqui de outras vezes o que me parecia da ordem de uma invenção radical – do fogo, por exemplo – dada a situação em que o homem historicamente estava, você levou mais para a ideia de imitação do que para Revirão e criação. Para alguém como Gabriel Tarde, não há criação, só imitação. Aí temos a tradição filosófica da mimesis e da poiesis. Minha pergunta, então, é: é possível para este bicho que somos nós, que não está na ordem do espontâneo, domesticar o fogo sem ter havido Revirão? Não é possível. • AA – Então, não é só imitação? Uma tomada de decisão de aproveitar o fogo existente para torná-lo algo que podemos reproduzir – que foi o que aconteceu – não é possível sem 72

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Revirão. O Revirão está instalado como Primário. Está instalado num Primário que enlouqueceu, que começou a virar sozinho sem ser virado de fora. O que digo é que é extrema a pressão do Primário e das formações espontâneas do Haver. Por isso, pelo menos lá no começo – e hoje também –, fazer funcionar o Revirão na Criação é algo muito raro e difícil. E isso começou pela ideia, dependente do Revirão, de imitar. Já viram cachorro imitando? Eles não têm Revirão. O que faz a imitação é alguém ter a capacidade de ter a ideia de imitar. • AA – O que já é artifício. Mas o artifício está na ideia de imitar. Então, aquele lá vê pegar fogo, não faz a menor ideia – pode ser um raio que caiu, ou a mata pegou fogo sozinha –, fica uns trinta anos olhando aquilo acontecer muitas vezes até perceber que os galhos estão se roçando e resultam em fogo. Aí começa a copiar essa operação. Quero dizer que uma enorme sequência de invenções é por imitação. Depois, o que acontece com a imitação? O Secundário começa a imitar o Secundário. É o que se chama: Criação. No início, imita o Primário e o Espontâneo. Isto, no sentido de repetir um acontecimento e ver se o domina, se faz com que seja portátil. E aí entra o capitalismo essencial da espécie. Aquele que fez a descoberta, vai fazer negócio à beça com ela. Segundo os autores, o capitalismo teria sido inventado na idade moderna, mas aí foi apenas sua sofisticação. O capitalismo está na pré-história, e jamais será eliminado. O que é possível é fazê-lo variar. A espécie é assim, capitalista. Nem mesmo sei se o Inconsciente também é assim. O Inconsciente é apropriador. Autores de mais diversas linhas têm sugerido que a Zorra contemporânea é resultado do capitalismo. É um raciocínio errado, pois é gente que promove a zorra, e não o capitalismo. Gente é capitalista por natureza, mesmo na ex-União Soviética. • Patrícia Netto Coelho – Se o capitalismo é o modo de esta espécie estar no mundo... Não é só da espécie. É do Haver. O que passar perto de um buraco negro será comido, ele não deixará nada para ninguém. • PNC – Mas não é possível correlacionar o que acontece no mundo hoje com essa forma capitalista que está instalada? Não. É pouco. Essa correlação pode, talvez, ser um ingrediente. O que está acontecendo não é resultado imediato do capitalismo, e sim resultado 73

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das extremas velocidade e violência da tecnologia, a qual arrebentou com os parâmetros usuais. • PNC – Você disse que há formas variadas de capitalismo desde a pré-história. Formas que podem ser pensadas vetorialmente: uma forma Estacionária, outra Regressiva, e outra Progressiva... Sim. • PNC – Não é possível, então, dizer que a atual forma do capitalismo seja por demais Estacionária, ou quase Regressiva? Esta forma não seria, por exemplo, o sentido da crítica feita por um aceleracionista ao exigir o movimento Progressivo? Os aceleracionistas estão criticando a esquerda enquanto paralítica. • PNC – Mas também estão dizendo que o modo capitalista hoje em vigor é paralítico por embargar uma série de progressos. Eles têm razão, mas não é só o modo capitalista. Todas as modalidades contemporâneas ante a pressão da tecnologia são paralíticas. Repetindo, o capitalismo é um dos ingredientes fortes da situação atual, mas não se trata de indicar o capitalismo como sua causa. Aliás, quem seria o maior culpado pelo próprio desenvolvimento da tecnologia? O próprio capitalismo. Mas ele não está sozinho nisso. Esses autores, a meu ver, têm o pensamento errado de dizer que o capitalismo é o causador e que podem acabar com o capitalismo. Não podem, isso jamais acontecerá, pois é estrutural do Haver. Por exemplo, por que a evolução das formações dentro do Haver acaba produzindo o planeta Terra? No qual aparece um negócio chamado vida? Acho que o pessoal não consegue explicar o que ela é por não entender como um Stephen Wolfram que disse que a repetição do orgânico acabou virando vida. Notem que vida é algo de um capitalismo violentíssimo, uma ameba querendo comer a outra para ter o lucro da sobrevivência. Isso é algo que está no bicho. Por que existe animal carnívoro, para que serve? Aquele bando de gazelas lá comendo sua graminha e vem o leão para destroçar, fazer aquela sangueira. Por quê? O que, na evolução, significa um animal carnívoro ter que matar os outros para viver? Não poderia ter sido outra evolução? Nós somos animais semelhantes a eles: vivemos destruindo tudo para sobreviver. • AA – Até para nascermos há uma guerra de espermatozoides. 74

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Ali é uma maratona. O que chega primeiro mata milhões. Fora a punheta que, esta, mata todos. Aí é “genocídio”... • PNC – No sentido em que você está colocando, o que seria o fundamental no capitalismo? É ter “vantagem em tudo”. Aquele ex-jogador falou isto na televisão e só faltou que o linchassem. • P – Uma coisa é a sobrevivência, outra é faturar. Você está vivo como? • P – Por quê? Estou faturando? Não é claro que está? O que você está chamando de sobrevivência é faturação de vida. O mesmo processo que está no vivo – e, pior, está nas estrelas –, uma vez inscrito no Secundário, vira Banco. • P – Essa agonística de forças não requer uma negociação? Depende da força. Aquele que tem força não negocia, pega, mata e come. Ele negocia apenas quando há poderes para contestá-lo. É a agonística entre formações de todos os tipos e maneiras. • P – Mas, na civilização, não se trata de abstrair, de sair dessa guerra animal? ...e passar para uma guerra abstrata e secundária. Ninguém vive fora da guerra. A paz é uma tentativa inútil. Basta lembrar de Breno, o gaulês que atacou Roma e pediu um resgate em certo peso de ouro. Quando o ouro foi levado para ser pesado, ele colocou sua espada do outro lado da balança e pediu mais. Diante dos protestos, disse: Vae victis! Ou seja, danem-se os vencidos. Este é o espírito do capitalismo – que não precisa ser selvagem, basta ser capitalismo. Vejam, quanto a isso, o que dizem atualmente sobre o feminicídio, que é preciso de leis mais duras. Se perguntássemos a Freud em vez de aos juristas, veríamos que há uma guerra de incompatibilidade radical entre homens e mulheres. Esta é uma agonística que existe e será interminável enquanto houver homem e mulher. É sabido de longa data que as mulheres são doidas e os homens estúpidos. Como fazer a relação amigável entre um estúpido e uma doida? Isso é mera descrição, mas os estúpidos se veem irritados de tal maneira pelas doidas que não é de estranhar os crimes cometidos. Não se faz um programa de elucidação para ambos de exercício de compatibilidade, de um aturar o outro... O que vemos 75

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é clamarem: Justiça! Isso não adianta, vai continuar igual. Há que pensar em possibilidades educativas de treinamento psíquico para inventarem o saco de filó e o cala boca para uns e outras. Parece que, para umas, não há filtro entre o que passa na cabeça e o que passa na boca. Já, para outros, há um maquiavelismo de pensar e não dizer. Então, se é espontâneo, há que criar um processo de contenção psíquica para os dois. O que vemos, na melhor das hipóteses, é pessoas terem sido educadas na base da repressão, não se deixarem ser levados totalmente e essa pressão antagônica baixar setenta por cento. • P – Freud falava de falta de superego em relação às mulheres. Freud, como Lacan, referem isso à castração. O modelo da castração feminina não funcionaria, segundo eles. Já critiquei aqui o uso do termo castração, não se trata disso. Provavelmente, e não são todas e todos, os machos e fêmeas da espécie têm funcionalidades, hormonais ou outras, que faz com que as mulheres sejam mais difíceis de aceitarem controles. Isso acontece constitucionalmente no Primário, por causa das formações que elas portam. É fraca a indicação de Freud quanto à diferença de castração. Os homens seriam castrados e morreriam de medo da castração. Para as mulheres, já castradas, não seria nada disso, então que se dane tudo. Como são coisas que não são pensáveis fora da ordem psíquica, o foco é em geral na resultante que é, por exemplo, o feminicídio. Pensar isso compete à psicanálise, e não à polícia ou à ordem jurídica. O que fazer para amenizar os dois, dar recursos de contenção. Na baixaria mais distribuída em que se passa a vida da maioria das pessoas, como não há contenção, ultrapassam-se os limites, e o letal comparece. As mulheres parecem preferir ficar xingando ou corneando do que ter vontade de matar como acontece aos homens. É preciso entender que há formações, sobretudo primárias, que recalcam certos movimentos. O fato de as mulheres precisarem falar tanto deve ser devido a algum motivo prático lá da pré-história e isso se fixou assim. Os homens saindo para caçar e guerrear, e as mulheres em casa batendo boca com os filhos? Não sei o que é, mas isso virou epigenético. • P – Pierre Bourdieu, em A Dominação Masculina (1998), se indagava sobre a transmissão do machismo, uma vez que as crianças passam a maior parte do tempo da infância com as mulheres. Na cultura ocidental, as mulheres são machistas. 76

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• AA – Mesmo Freud tendo importado o termo castração dos deuses gregos, lembro de minha infância no interior do Mato Grosso onde era frequente e concreta a ameaça de cortar os paus dos meninos. Não adianta ameaçar tirar os ovários.

11 Por causa dessa barbárie nova, viral, não atenderei durante um tempo no consultório do Leblon. Veremos o que vai acontecer. • P – Retomo algo que você falou de passagem na última vez, e que já tinha falado outras vezes: a presença de uma sintomática portuguesa em Espinosa. Seu manejo da língua portuguesa se expressaria em seu modo de pensar. Qual é a categorização que você dá a essa sintomática portuguesa? Qual é a importância dela na Nova Psicanálise? Tenho a suspeição – mais do que suspeição, tenho mesmo a impressão – de que a mentalidade portuguesa e de língua portuguesa influenciou demais o modo de pensar de Espinosa. Não fica muito claro porque ele escreveu em latim, mas os estudiosos de sua obra chegam a dizer que, naquela época, havia uma nação portuguesa dentro da nação holandesa. Era tão forte que os portugueses, judeus expulsos de Portugal, viviam à parte, sua vidinha era portuguesa. Suponho que isso, sobretudo a língua, tenha influenciado a cabeça de Espinosa. Eu não saberia explicar por que – precisaria pesquisar mais –, mas acho a cabeça dele, a mentalidade, parecida com a de Fernando Pessoa. É o mesmo modo de perceber e sentir a vida. Em ambos há algo de português que não deu certo. Português que dá certo tem um botequim, uma padaria... No discurso deles está 77

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a melancolia portuguesa. Desde que comecei a ler Espinosa, coisa tardia em minha vida, senti esse estado de espírito. É o que teria a dizer por enquanto. • P – E quanto ao que você fala sobre o Quinto Império? O Quinto Império de que falam Fernando Pessoa e outros é bem diferente do que falo. Mas é, em todos, uma vontade de Quinto Império. Ao resolver tomar a ideia de Cinco Impérios e defini-los, saí de suas origens, coloquei-os em outra história. Fiz uma homenagem à figura – e dei outros sentidos aos nomes. E não faço a menor ideia do que possa ser o Quinto Império que aponto. O Quarto já é difícil demais de entender. Reforço que tem, sim, uma linhagem tipicamente portuguesa. Como sabem, sou português, tenho cidadania portuguesa. Meu modo não é muito brasileiro. Não podemos nos esquecer de que Portugal foi um império valioso, uma potência enorme. Depois, entrou em decadência. Por que conseguiram fazer tanto saindo dali, daquele tiquinho de terra? Do ponto de vista sintomático – e não histórico –, acho que se deve à Ordem de Cristo, que foi o refúgio dos Templários que fugiram da “Europa”. A cabeça do português da época os acolheu com muita seriedade – e utilizou. Não são templários importados, mas aqueles que lá foram bem recebidos pela cabeça portuguesa, pelo rei, pelo infante Dom Henrique e se adaptaram. E mais, a cabeça de Fernando Pessoa é de templário. Antes de serem destruídos pelo rei da França, tiveram dominação total na Europa: uma vontade de poder, de construção, de lucro (um capitalismo competente)... Sem eles, os portugueses não teriam chegado aqui. É como se disséssemos, usando palavras de Fernando Pessoa, que a alma portuguesa tivesse tanto a ver com eles que viraram locais. Depois da decadência, quase não se reconhece aquele Portugal antigo. A cabeça portuguesa é inteiramente maneirista. Lá criaram o estilo manuelino que é só deles. Quem já visitou o Mosteiro dos Jerônimos sabe do que estou falando. Somos herdeiros desse tipo de cabeça misturada ao que ocorreu aqui. • P – Perguntei sobre o Quinto Império levando em conta o Creodo Antrópico em que você o coloca. Interessa-me seu Projeto Pró-Moderno, que seria uma aceleração no percurso do Creodo. Associado a isso, certos autores – Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo – dizem que os portugueses adiantam uma mentalidade moderna mediante um realismo e uma plasticidade que lhes são típicos. 78

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O fato de Portugal ter entrado em decadência e ficado estagnado é outra história. • P – Parafraseando Fernando Pessoa, diríamos que português “não tem metafísica”. O dono da Tabacaria é o português típico. É o Esteves sem metafísica. Isso quer dizer que há uma racionalidade inteiramente pragmática em Portugal. • Aristides Alonso – Os autores falam em realismo, mas, ao mesmo tempo, é uma imensa fantasia delirante e um grande artificialismo na produção de próteses para realizar essa fantasia. O que Portugal tem de melhor é a engenharia. Trata-se, lá, de um transcendentalismo radical e pragmático. Já, do ponto de vista popular, os portugueses têm o defeito de serem chorões. É só ouvir um fado para perceber isso. • P – Nesta semana, a situação aqui no Brasil começou a ficar mais complicada do que já é. A economia comprometida, cinemas fechados, corridas aos supermercados, o pessoal em pânico... E vai piorar. Não tem jeito e não vamos segurar os acontecimentos. O que é importante para nós é saber que o efeito do vírus e das atitudes políticas desvairadas que estamos vendo é o mesmo efeito da dissolução dos parâmetros. A aceleração da tecnologia dissolveu parâmetros e distribuiu bactérias e vírus. Como é o vírus que vem pela internet. Vai piorar. Quanto mais acelerar a tecnologia, o resto todo acelera junto. Ninguém sabe o que fazer com o vírus da atual pandemia, ele é mais assustador pela ignorância do que por seus efeitos. Repito, é o mesmo que acontece com a situação de quebra dos parâmetros. Não se sabe o que fazer com ela. Temos, então, a mesma situação no nível do Primário e no nível do Secundário. Por que acontece assim? Porque estão olhando para trás, procurando respostas lá. Não tem resposta lá, há que procurar para a frente. Por isso, digo que vai piorar. Até o pessoal acordar e começar a pensar, muita coisa de ruim acontecerá. • AA – Podiam aproveitar para entender o que são entropia e recalque. O sistema começa a se dissolver e vai correndo solto para todos os lados. O Ministro da Saúde falou claramente que não temos mais fronteiras. Então, como segurar um vírus que vaza do mesmo modo que a informação computacional?

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O que vemos, em vez de buscarem entender, é a corrida para o nacionalismo na tentativa de fechar fronteiras para o vírus não entrar. Ele vai entrar. O vírus é inconsciente. Enquanto não se derem conta de que a psicanálise é o pensamento do futuro – não estou falando dessa que rola por aí com cara de psicologia –, não pensarão direito. Por enquanto, o que de melhor estão aprendendo é a lavar as mãos, coisa que achavam que sabiam fazer. • P – No Mal-estar na Cultura, Freud menciona o sabão como um fator civilizatório. É importantíssimo. • P – Aliás, o Brasil tem uma relação muito esquisita com os banheiros. Parece que há grande prazer, um prazer sexual mesmo, em destruí-los, lambuzá-los. Banheiros públicos aqui são uma calamidade. O que há é ressentimento geral. No mais, a situação atual está promovendo uma dissolução do sistema. Mas a resistência dele é enorme, não será dissolvido tão cedo. O planeta não entrará no Quarto Império sem esse cataclismo. Esta espécie não aprende sem tomar porrada. Às vezes, nem assim. É a mesma dificuldade que há na análise: as coisas serem pontuadas durante anos e os analisandos não escutarem. De vez em quando, até escutam. Aí, é uma maravilha. Isto acontece porque a espécie é estúpida. O fato de nossa origem ter sido via macaco é muito pesado, muito reativo. A situação nova já está funcionando há bastante tempo, o difícil é fazerem uma concepção qualquer sobre o que seja adequado ao acontecimento. Vejam o Brexit, a dissolução da Europa que já começou. Já falam em Frexit, que será a saída da França... Aos poucos, a humanidade descobrirá que não funciona sem aristocracia. Os modelos de aristocracia é que têm que variar. Podemos falar mal da Igreja Católica, pois ela merece, mas, no planeta, é o melhor governo que existe. A ideia de constituição do Estado que rege a Igreja, o Vaticano, é de uma aristocracia por mérito. É claro que aquilo é uma zona, mas a ideia é importante. Estou falando de seu modelo aristocrático de governança, e não de como está sendo aplicado. Por outro lado, já se percebeu que a chamada democracia é um ouroboros, come o próprio rabo. Evidentemente, o que vemos acontecer hoje no Brasil foi produzido pela própria democracia, que sempre tem forte tendência a transformar-se em ditadura da maioria. Os 80

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Estados Unidos inventaram uma pseudo-democracia. Apesar de terem eleito um Trump, lá é um pouco mais equilibrado, não se ganha apenas por ter obtido mais votos, há o peso dos delegados e isso segura mais a situação. Veremos o que acontece nas próximas eleições. • AA – Somos uma espécie narrativa. Temos cinco elementos estruturais nas narrativas: narrador, personagem, enredo, tempo e espaço. Joseph Campbell, por volta dos anos 1940, começa a estabelecer o que ficou conhecido como A Jornada do Herói, em que apresenta uma curva que todos os heróis das culturas antiga e moderna parecem percorrer. Destaca três atos: (1) chamado à aventura, encontro com o mentor e travessia do primeiro limiar; (2) provas, aliados e inimigos, aproximação da caverna secreta ou ventre da baleia; e (3) aprovação, recompensa e volta para a situação comum, quase como um ressurrecto, mas portando um poder que não tinha anteriormente. Esta seria a curva repetitiva nas narrativas. Lembrei-me, então, de que há uma Teoria do Herói na NovaMente. Em Velut Luna (1994) – ano, aliás, em que é introduzida sua concepção dos Cinco Impérios –, você apresenta a seção A Bandeja do Herói, na qual há quatro elementos em conjunção para esse percurso e há também uma jornada do herói. O percurso implicaria: – uma Ética (“Age como quem lembra da viagem que fez ao Cais Absoluto, onde, sem Morte, achaste entanto o Norte de qualquer viagem. Se a isto nada obriga, seja qual for contudo tua rota, somente assim será original e singular a tua Sorte [apesar das afeições dessa lua volúvel]”); – a definição de Herói (“É qualquer Hum de todo aquele, que nos dá, de bandeja, em oferenda, o que s’obra de sua agonística com o fado irreversível, seja fasto ou nefasto o resultado”); – o Trágico com o qual ele se defronta (“É o embate do herói com o Fado irreversível, quer ele consiga ou não alguma reversão na sua saga”); – e a Polética, que é a resultante protética do percurso. Há três Poléticas indicadas: (1) retorno do recalcado; (2) indiferenciação; e (3) heurística permanente. Posto isso, quais seriam as próteses para lidarmos com esse momento de desorganização dos sistemas que conhecíamos?

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Isso que você retomou e trouxe para as questões de agora, em última instância, seria o percurso da análise. • AA – Fiquei me perguntando sobre o que diferiria seu desenho do herói dos desenhos de Campbell e de outros. Me pareceu que esses heróis, segundo as narrativas, enfrentam momentos de reviramento e avessamento que vão se produzindo em suas sagas. Mas eles estão desenhados demais pela própria ideologia narrativa em que estão inseridos. Defrontar-se com o Cais Absoluto seria a possibilidade de emergência de uma narrativa nova, ou seja, chance de desfazimento de uma ordenação narrativa na qual o herói estava preso. Donde o percurso da própria psicanálise. • AA – Na sequência, você fala de Galileu Galilei, na malandragem dele para não ir para a fogueira. Ele, em prisão domiciliar, continua produzindo e oferece sua obra de bandeja a quem quiser se servir. Sempre notem que entre o herói e o babaca há apenas um passo. Justamente babaca é aquele que pretendeu ser herói. É ele insistir em que o outro tome de sua bandeja o que ofereceu. Marx, por exemplo, é a face babaca do herói, aquele que, quase que à força, quer implantar os doces que colocou na bandeja. Ao invés de contar com a metamorfose na pessoa, conta com uma subsunção da pessoa à ideia apresentada. Isso, mesmo durante décadas parecendo dar certo, jamais dá certo. O império marxista durou setenta anos, mas já desmoronou. • P – O império cristão dura há dois mil anos. A Igreja, hoje, pode fechar, não faz falta. Ela está sendo destituída por seus hábitos romanos que estão sendo abominados e criticados. O que lá temos é o Império Romano fantasiado de cristianismo. Então, não é o modelo aristocrático que está em jogo, e sim os hábitos do Império Romano (com, por exemplo, pederastia e pedofilia).

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12 • Potiguara M Silveira Jr – Esta é a primeira vez que fazemos uma reunião com você on-line (estamos todos isolados em nossas casas por causa da disseminação do Covid-19). Quando Nelma Medeiros falou com você, que não é afeito a esse tipo de encontro on-line, sobre nos reunirmos, seu comentário teria sido: “Quero ficar quieto, não falar com ninguém”. Menciono isto por ter pensado o mesmo há catorze dias atrás quando ficou claro que seria necessário o confinamento para evitar uma contaminação maior. Vi que precisava me organizar nessa espera forçada sem poder contar com uma base que me parecia permanente, garantia meus comportamentos, ações e pensamentos até agora. A situação é inédita e drástica – mas é surpreendente só mais ou menos, pois o que nossa convivência psicanalítica tem ensinado é que sempre é preciso contar com a possibilidade de acontecimentos desse tipo. Disse aquilo por nada de mais. Como nunca tive essa folga, achei muito bom ficar quieto. Finalmente, me aposentei. • Nelma Medeiros – Pesquisando nos arquivos da instituição, encontrei uma transcrição do que você falou, em oito de outubro de 1996, num painel organizado por Ronaldo Sardenberg na Secretaria de Assuntos Estratégicos em Brasília. O título do painel era: Cenários Brasil 2020. O pessoal da organização transcreveu as falas dos participantes – José Miguel Wisnik, Renato Janine Ribeiro, Luis Sergio Coelho de Sampaio, Gilberto de Mello, Angela Maria Dias – e temos lá a transcrição da sua. Você abre mencionando a dificuldade que há em ficcionar cenários a partir dos elementos rarefeitos (componentes econômicos, científicos, sociais) que constituem a cultura. Em seguida, você fala sobre a situação da crise de fundamentos em que, então, já estávamos, com fronteiras borradas entre os conhecimentos. Você parte da questão pulsional, fala dos Estilos (Os Quatro Sexos), da HiperDeterminação (suspensão das determinações), do Vínculo Absoluto, do estrato Recalque, e da síndrome cultural do Brasil (entre a heterofagia, o macunaísmo e o mazombismo)... 83

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Me lembro de lá ter apresentado o Creodo Antrópico. As ideias de Revirão e dos Cinco Impérios foram as que mais interessaram o pessoal. • NM – Recentemente, por e-mail, você comentou que não esperava que a situação instalada agora em 2020 acontecesse tão rapidamente. O texto do e-mail, enviado no último dia 22 é: “Estamos na 3a. Guerra Mundial, agora Mundial total. Todos os países do Planeta em guerra contra um Alienígena poderoso e invisível. Nada parecido com a 3a. que se esperava, sem bomba atômica e sem exércitos explicitados. Evidentemente resultado de aceleração tecnológica e informacional, sem a contrapartida do preparo psicanalítico e educacional. Agora é deixar rolar e combater sem certeza de consecução. Ou tudo se acaba, ou se começa (prematuramente) a instalar o 4o. Império, antes ainda do momento que supus em previsão”. Desde o final do século XX, você falava em cinquenta anos de conflito para a instalação e, depois, em duzentos anos para a constituição do Quarto Império. O que me pareceu abrupto, repentino, foi que o processo se deslanchou por motivos biológicos. Eu não esperava por uma guerra biológica. Se não houvesse esse vírus, o conflito seria bem mais lento. Agora, só resta esperar para ver no que dará, pois, como disse no e-mail, ele também acelera a entrada do Quarto Império. • Aristides Alonso – Há pouco foi publicado um texto intitulado Riscos Supremos em que eram listadas várias possibilidades de catástrofe. A primeira, era de um risco exterior, de algum asteroide colidir com a Terra, por exemplo. A segunda, era a potência disruptiva da Inteligência Artificial. A terceira, a destruição no próprio planeta, um terremoto, uma erupção, um tsunami... Uma dessas era a viral, esta que justamente acabou acontecendo agora. Não era a mais provável, mas sua potência destruidora parece maior mesmo que as das outras possibilidades. Isto, por ter consequências que interferem em todos os aspectos da vida: biológicos, econômicos, morais, sociais, sexuais... E mais, o fato de esta catástrofe ter ocorrido não elimina a possibilidade de as outras também ocorrerem. Essa explosão biológica não é independente da tecnologia e da velocidade que veio junto. Estão misturadas. Se algum ET passar por aqui vai se infectar... 84

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• AA – E uma vez passada essa situação, se é que passará, como as formações foram todas invadidas por ela, jamais o planeta será o mesmo. O que me pareceu abrupto foi essa invasão. A resultante será uma aceleração da necessidade de instalar o Quarto Império. Ele parecerá necessário, coisa que ainda não apareceu assim. Todos estão atônitos. E mais, essa moda da distância física, que chamaram de distância social, vai pegar. Muita coisa acabará e a desconfiança em relação às atividades realizadas em público, em aglomerações, ficará para sempre. • Rosane Araujo – O inimigo passou a ser qualquer um. Um filho, por exemplo, pode ser aquele que contagiará os pais. No futuro, isso deixará de ser a concepção de inimigo e passará a ser a concepção radical da Diferença de cada um. Ninguém é de ninguém, todos são sozinhos. • AA – Os comentários sobre a sexualidade atualmente têm tido um tom bem diferente do que tinham, digamos, há dois meses. Só os malucos estão transando? • RA – Há alguns dias, a cidade de Nova York divulgou a cartilha Sex and corona virus disease 2019 sobre hábitos saudáveis para se prevenir do vírus. De saída, pede-se que evitem as orgias e pratiquem a masturbação (“Você é seu mais seguro parceiro sexual”). Mas a masturbação não funciona muito bem sem pornografia. A moralidade do planeta se danou. Quando li isso, enviei a vocês [dia 23] o seguinte e-mail: “Yes, Doktor FREUD: o evidente mal-estar no Haver e a retumbante vitória da masturbação e da pornografia. Quem diria!...” Isso que já foi pecado, agora é virtude. É virtude porque salva da morte. Nessa virada, o que vemos é o funcionamento do Revirão. Quanto a isso, aliás, lá nos anos 1980, Bussunda publicou o livro Manual do Sexo Manual. • RA – Está escrito também na cartilha que “Você deve evitar contato físico – incluindo sexo – com alguém fora de seu ambiente doméstico”. Ou seja, está instituído o incesto. Vejam o Revirão aí de novo. • RA – O que percebo, em termos psíquicos, é que atualmente não há lavagem de mão suficiente para evitar a disseminação da paranoia.

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Há grande quantidade de gente surtando. Aliás, onde quer que a psicanálise tenha funcionado direito, salvou as pessoas de se deixarem levar por essa loucura que se instalou. Nós aqui ficamos assustados também, mas não piramos desse modo. • RA – Temos recursos mentais, e temos que recorrer a eles. Temos recursos para morrer com dignidade. • AA – Por outro lado, há toda uma ordem de conflito que ficou sem esteio. Por exemplo, as formas dos vícios, daqueles drogados disso ou daquilo. Como a distribuição de drogas será necessariamente afetada pela nova situação, falhará a sustentação que fornecia às pessoas. A piração também deve ser considerada nessa área. Como sabem, o vírus já chegou às favelas. Há que esperar as consequências mortais. • NM – Esse acontecimento novo mostrou que, diante da necessidade compulsória do ensino a distância, a ead, acabaram de vez as ciências humanas como existência presencial universitária. O evento está mostrando que são dispensáveis. Médicos é que importam. Professores de filosofia que se virem na internet... A situação saltou de escala. Recomendo-lhes a leitura do romance Le Clan Spinoza, de Maxime Rovere, que acabei de ler ontem (dele, que atualmente é professor da PUC/ RJ, já há em português O Que Fazer com os Babacas: e como deixar de ser um deles). O importante do livro é ele traçar a emergência de Espinosa como cruzamento de formações. Ele não tem esse conceito, mas trata essa emergência assim, e não como genialidade de uma pessoa. É um bom coadjuvante da Teoria das Formações. Já lhes disse que o que acontece ao tipo de gente como Espinosa é ser uma antena dos acontecimentos ao redor. • PNC – Você também nos enviou um e-mail [dia 14] em que comentava um texto O coronavírus de hoje e o mundo de amanhã, segundo o filósofo Byung-Chul Han [publicado em El País, 22 março 2020]: “Muito boa intervenção do filósofo. Entretanto ele não sabe que ‘capitalismo destrutivo’ é apenas uma das muitas faces do Terceiro Império. Nesta passagem ao Quarto, qualquer ‘Revolução’ só terá êxito se considerar a necessidade de METAMORFOSE radical da TOTAL formação secundária mundial”. Neste momento, 86

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essa expressão “formação secundária mundial”, escrita assim no singular, estaria se consolidando mais do que antes? Antes, você falava em fraturas, fronteiras, falações, mas o que se configura agora é uma rede que talvez não tivesse existido antes nessa unicidade? Não é questão de unidade, e sim de considerar o somatório das formações secundárias do planeta, em sua história e em seu momento, como uma grande formação. Essa configuração tem que mudar. Ela já foi mudada no tapa – resta agora mudá-la na reflexão. Não vai dar mais para acreditar no (ou sustentar o) mundo anterior. Não acontecerá de a atual crise passar e voltarmos ao estado de antes. A besteira do texto desse filósofo está em brigar com o capitalismo. Se temos um capitalismo violento, a violência não é do capitalismo, e sim da situação de Terceiro Império. Ele é que é violento. Como é o império do amor, seu outro lado é o ódio. A questão não é de mercado, é de entendimento. E só agora o pessoal está mudando o entendimento, e de modo brutal. • PNC – Num de seus últimos SóPapos, você falava de um desenho que viria de, ao mesmo tempo, muita fragmentação e superação de fronteiras. Essa concomitância é o que se reforçará ao final, se final houver, da atual situação? Resta saber qual será o índice da unificação geral. O nome que, previamente, dei a isso foi: Vínculo Absoluto. Diante de toda a fragmentação, ele é a única referência capaz de unificar. • AA – O pessoal da Singularity tem reforçado a ideia de que nunca o planeta todo esteve envolvido num único processo ao mesmo tempo. Vários países simultaneamente pesquisando sobre o mesmo problema. Dizem que, daí, surgirão outras formas de conhecimento que não aquelas utilizadas até agora. Na última Guerra Mundial, antes desta em que estamos vivendo, havia apenas dois ou três países procurando a bomba atômica. Agora, todos a estão procurando. • NM – Você está chamando a atenção para um aspecto bífido aí envolvido? Ao mesmo tempo, procura-se a cura e seu avesso? Sim. • RA – Há também o desenvolvimento e a aplicação cada vez maior das tecnologias de reconhecimento e monitoramento do percurso das pessoas. A privacidade efetivamente está acabando. 87

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Em compensação, a moralidade e a vergonha desparecerão. A regulação será por questões de obediência, e não de moralidade. Ou seja, a Diferença começa a se impor como tal sem juízo, o que é um passo para a Diferocracia. No caso de certas diferenças serem agressivas demais, deverão ser simplesmente contidas em prol da sobrevivência, sem moralidade. Ninguém estará errado por seu comportamento, a não ser que afete a sobrevivência. Dizer assim não se parece com Espinosa? • PMSJr – Isso também teria a ver com o Pragmatismo Radical de que Mangabeira Unger trata em seu livro O Homem Despertado, cuja leitura você nos recomendou? Trata-se do que chamo de Diferocracia e governo ad hoc. Mangabeira não tem esses termos, mas pensa parecido. O mais interessante é que o resultado não será causado por revolução alguma – os acontecimentos levarão para lá. Não há ideologia aí, só acontecimento. Todas as ideologias, assim como as moralidades, ficarão evidentemente ridículas diante dos acontecimentos. Não há motivo para criticar, e muito menos julgar, qualquer tipo de existência. Todas são válidas enquanto tais. Na convivência, algumas terão que ser contidas por poderem ser prejudiciais à sobrevivência. A contenção será delicada, pois não há motivo algum para julgar qualquer pessoa como fora do sistema – ela faz parte dele. • PMSJr – Taí um bom conceito: contenção delicada. • NM – No Brasil, dada a vigente situação política de bate-boca e de ordem e contraordem, é muito fácil perder o foco de análise e a visão da escalaridade dos acontecimentos. Mas o que acontece de fato é a perda generalizada de valoração da situação. Você fala de um conflito político interno que está vigorando, sim, mas atualmente estamos sem autoridade alguma para sustentar o que quer que seja no planeta. A situação não permite que os poderes constituídos mantenham a força que tinham anteriormente. Todos estão percebendo que têm que maneirar. No caso do Brasil, a presidência está desmoralizada, fechada em si mesma, cada vez mais só. Mesmo muitos que a apoiaram estão caindo fora não por causa de ideologia, que, aliás não se sustenta. O vírus a come.

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• RA – Há também caminhoneiros ameaçando parar por não terem condições de alimentação em suas viagens. Os restaurantes fecharam. Se pararem, o desabastecimento toma conta do país. Onde está o poder? Está no caminhão. Como, lá para adiante – daqui a uns cem anos –, vai-se equacionar isso tudo numa forma de articulação dos poderes? Poder central? Este servirá para reunir dados, e mais nada. • PNC – Você já teve que antecipar suas previsões, então talvez ocorra antes. Eu esperava morrer antes de uma situação como esta que vivemos acontecesse. Me dei mal, o vírus vai me matar. O fato de ter acontecido antes do que pensei é muito ruim, pois o pessoal não teve tempo de preparo e nem de entendimento. Basta ver que intelectuais, filósofos, continuam falando o mesmo papo velho. Não tiveram tempo de perceber que a mudança será radical. Vocês sabem que há bastante tempo venho dizendo: Acabou! Os Impérios anteriores demoravam muito tempo para passar ao Império seguinte. A passagem do Primeiro para o Segundo Império deve ter durado milênios. A do Segundo para o Terceiro, muitos séculos. Já a do Terceiro para o Quarto chegou de repente porque a aceleração é violenta. É preciso, então, agora, saber que tudo do Império anterior não serve para nada. São mitologias, mas as pessoas continuam na inércia funcionando como antigamente. É apenas inércia, pois aquilo não está funcionando mais. Não vai dar para ninguém. Chinês, americano, europeu... Os teatrinhos todos ruíram. • PNC – Fizemos hoje um teste de falar com você on-line com um pequeno grupo. Podemos continuar a fazer seus SóPapos a partir de agora com todos os demais participantes da NovaMente? Sim. Até a próxima vez.

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13 • Aristides Alonso – A situação de mão-dupla que estamos vivendo nos coloca, por um lado, enfrentando um efeito que poderíamos chamar de entropia de altíssimo grau que generalizadamente tomou conta do sistema. Sendo entropia, não fazemos ideia dos desdobramentos e da extensão que terá sobre todos nós. Note-se que a instância para cada um da possibilidade de desaparecimento, mesmo súbito, está posta de saída. Por outro lado, para a psicanálise, e em particular a Teoria das Formações, esse é justamente o vetor pulsional. Ele vai em sentido contrário ao de rearrumar o sistema, de reorganizar esse movimento. Parece ter ocorrido um ato analítico no planeta, que colocou todas as formações em suspensão, em crise, em derrelição, algumas em catástrofe. Quais entendimentos são possíveis, um de resistência e outro de foda-se? Essa é a situação de todos. Não temos ideia do que virá enquanto evento. Certamente, a ordem sistêmica do planeta foi afetada. Aquele momento de mudança que seria bem mais tarde, e por motivos outros, está chegando abruptamente. Aquele momento de ter que abandonar todo o passado e construir a visão nova de Quarto Império. Isso está agora impreterível e urgente. As pessoas terão competência para essa construção? Terá que surgir um discurso radicalmente novo capaz de produzir a nova sistemática comum, pois a velha acabou muito depressa. Teremos que lidar com o cenário de destruição que veio por causa diferente da esperada. A ebulição tecnológica faz parte disso. Não há o que fazer a não ser pensar em termos de pós-ebulição e esperar que as pessoas tenham prazo para produzir e começar a surgir uma nova situação. Entretanto, as pessoas quanto mais mortais mais correm para trás. Dado que líderes mundiais têm se esmerado em dizer sandices sobre a situação atual – eles não sabem –, onde estarão aqueles que construirão uma sistemática nova que nada tem a ver com a sistemática anterior ou com os fundamentos anteriores? Não é fim da história, é outra história. Teremos que suportar certa situação, 90

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morrer nela ou sobreviver e fazer parte da difícil reconstrução por causa da lerdeza e da incompetência das pessoas. Quem foi preparado para isso? A psicanálise, por exemplo, só tem pouco mais de cem anos e nem os analistas conseguiu preparar bem. Imaginem o resto. • AA – Em outro momento, você descreveu três cenários para esse tipo de evento. As pessoas toparem com: algo da ordem de um trauma em sua vida e terem que se virar; induzidos pela análise, ficarem perplexos (aí já de modo acompanhado) diante de alguma situação lá suscitada; ou uma catástrofe advinda da própria situação sistêmica do mundo obrigando a tudo mudar. Parece que a que aconteceu agora foi o terceiro cenário que tem um efeito devastador de deslocação de sistemas. O vírus é um produtor eficaz de entropia. • AA – As ordens vinculares amorosas, sexuais, sociais, religiosas, foram todas abaladas. A virgem já não é mais aquela. Todos viram as imagens do Chicão isolado lá na praça São Pedro do Vaticano. É uma boa percepção do final abrupto do Terceiro Império. Quanto a nós, temos disponíveis alguns expedientes para entender de algum modo a situação e, se não morrermos antes, poder suportar a possibilidade da virada, a emergência do novo. Será difícil, pois as pessoas em geral não têm estofo para inventar a situação nova ou para se adaptar a ela. Portanto, o processo será muito doloroso. • P – Professores que estão sendo obrigados a dar aulas on-line têm reclamado da falta de privacidade, pois os pais participam diretamente do que estão ensinando. Surgiu uma paranoia nova nesse ambiente de vigilância que se instaurou. Já lhes disse que acabou a privacidade. Está todo mundo pelado. Estão com vergonha do quê? Qual é a parana? • P – A parana diz respeito a espaços que eram delimitados, à intimidade dos professores com seus alunos. Mesmo aqui agora, nós que nos encontrávamos regularmente sem frequentar as casas uns dos outros, estamos vendo na tela imagens das casas de cada um. Demora um pouco nos acostumar a isso.

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Mas teremos que nos acostumar. Vocês estão assustados? Muita gente vai surtar, já está surtando. Seja ataque histérico ou psicótico. O caminho é esse, dado que a maioria não tem estofo para segurar a situação. • Rosane Araujo – Comentávamos sábado passado que o planeta que conhecíamos não está mais aí. Cada dia traz um novo acontecimento e não sabemos aonde isso vai dar... Aonde vai dar pode ser acompanhado pelo sentido do caminho necessário que descrevi como Creodo Antrópico. • Patrícia Netto Coelho – A expectativa geral é muito curta. As pessoas acham que, ao sair do confinamento, a situação retornará ao modelo anterior. Mas reuniões sociais, modos de educação, dispositivos econômicos, etc., todos me parecem que terão passado de alguma maneira por aqueles tempos que você descreveu para a Morfose Regressiva em 2004: Composição, Estatuação, Catástrofe e Ruína. Há bolhas de diversos tipos passando por vários estados. O momento é de espera, pois não há como segurar a situação em sua exatidão. Aqueles que sobreviverem terão coisas muito interessantes do outro lado. • Gisêlda Santos – Isso se aproximaria do que você falou em 1994 sobre “positivar o pânico”? As pessoas se desvinculam nos níveis primário e secundário e se percebem vinculadas a todos, percebem que são vinculares. Em geral, sob pressão, primeiro, as pessoas costumam funcionar na ordem da rivalidade. Entretanto, num momento como o de agora, aproximam-se do que chamo Vínculo Absoluto. Falam em solidariedade, mas é a percepção de que estão todos na mesma merda. Isso dá a impressão de unificação, nem que seja momentânea, mas essa unificação puramente psíquica será necessária para a construção do novo sistema. Se não for uma construção por interesse intelectual, afetivo ou qualquer que seja, será na base da pressão. As pessoas serão pressionadas a ter que montar um outro sistema. É, aliás, o que sempre acontece com esta espécie nossa, que não costuma andar por bons conselhos, e sim debaixo de pressão. Como não têm mais saída, terão que montar um novo sistema. • GS – Foi também nesse sentido que você falou em uma “nova era axial”? 92

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Sim, será preciso. Ela será tão diferente da outra que há que ter talento e reconhecimento do momento para poder produzi-la. É nova no sentido da axiologia, da construção de um novo feixe de referência para todas as situações. Quem suportará isso? • P – O que há a fazer neste momento de quarentena não é as pessoas aprenderem novas formas de viver e de conviver, de respeitar as distâncias entre elas? Ninguém conseguirá aprender uma nova forma de convívio sem ter antes aprendido a nova forma de existir, o que é bem mais difícil. É daí que será possível construir uma nova convivência. O que está em jogo são os modos de existência. Todos fracassaram por vários motivos. Por perda dos parâmetros e, agora, pela radical dissolução dos parâmetros. Há pouco, falávamos em falta de privacidade entre professor e aluno. Esse modo de existência fracional em regiões de privacidade acabou, e precisa acabar até para poder sobreviver. Todos terão que aprender a viver com esse modo de existir para, depois, inventarem novos modos de convivência. • P – É difícil aprender isso sem análise. Às vezes, a própria realidade obriga a análise. • AA – Você mencionava uma vez que a situação parecia muito configurada e valorada segundo certa perspectiva, mas que bastaria que alguma coisa mudasse de figura para que coisas aparentemente muito fixadas começassem a ruir por inteiro. Assim, por questões de sobrevivência, aqueles configurados segundo a cabeça anterior se veem abruptamente obrigados a lidar com a nova situação. Por exemplo, o que foi mencionado sobre professores habituados a aulas presenciais terem que se adaptar ao modo digital. Em questão de duas semanas, quem passou a comandar os processos de ensino numa universidade, por exemplo, é o especialista em tecnologia digital, e não mais os professores. Os valores atrelados a certas formações foram subitamente passados a outras. Isso distorce a economia e os entendimentos de todos. É uma situação de guerra total. O pior é não haver pessoas preparadas para lidar com a nova situação. Temos que urgentemente encontrar aqueles preparados, que não são esses que atualmente estão à frente das instituições decisórias no país e no mundo. 93

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• AA – Segundo a teoria da NovaMente, todas as formações poderiam ser desconfiguradas, perder seus valores, menos uma, a Formação Originária, que é aquela que transita e pode mesmo auxiliar na lida com as demais. Ou seja, há uma formação que não é afetável por essas transformações. Mas é preciso colocá-la em exercício. Sob muito recalque, ela não funcionará. Ela só funciona se entrar em plena disponibilidade. É isso que estamos vendo ao redor? O que vemos é pânico, burrice, retrocesso e, na melhor das hipóteses, a competência de lidar com o fenômeno. Por exemplo, nosso atual Ministro da Saúde demonstra saber lidar bem com isso. Não sei se sabe lidar com o resto. O Presidente, este, não sabe lidar com situação alguma. • P – Em seu Seminário de 2007, A Rebelião do Anjos, diz você que “o Mundo Novo tem que nascer. Não podemos trazê-lo pronto, desenhado como ficção e querer colocá-lo no nível de uma realidade, que é outro lugar de registro. Se há um objetivo, já caímos em outra prisão. Então, é hora de outra rebelião. Trata-se, portanto, permanentemente, de invocar a HiperDeterminação”. Não se trata aí de revolução, pois esta é mera troca de sintomas. A NovaMente não funciona com esse tipo de ideia, e sim mediante a exemplaridade. Você vê no mundo atual outras exemplaridades para um encaminhamento produtivo da situação? Como construção do sintoma propriamente dito, não vejo. Vejo, sim, gente pensando na tentativa de reorganizar os fatos, os acontecimentos. Já lhes falei de Mangabeira Unger, que me parece alguém que está tentando desse modo, mas ele não pensa em termos de reconstruir a, digamos, estrutura do processo. Pensa mais em termos de funcionamentos, de funcionalidades, introduções... Se há outros, não os conheço. Tenho lido muitos autores, mas, a meu ver, são regressivos, estão falando para trás. Por favor, me indiquem outros urgente. O momento não é de pensar em resolver problemas, e sim de repensar a construção, a estrutura da formação geral. Resolver problemas é algo que acabará daqui a pouco, é curto demais. Mas aparecerão essas pessoas, pois a situação força o surgimento de pensamento. Só vai demorar. Algumas pessoas, jovens hoje, pressionadas pela situação irão na direção de um pensamento próprio. Ninguém pensa sozinho. Na situação, os cruzamentos de pensamentos e de acontecimentos produzem o outro pensamento. O pensamento é uma 94

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resultante. Temos o hábito, talvez errado, de chamar de gênio aquele que foi sede dos cruzamentos dos pensamentos. Ele foi só o lugar em que os pensamentos se cruzaram e brotaram. Por acaso, ele era uma formação suscetível a esses cruzamentos. Esse é o raciocínio compatível com a Teoria das Formações. As formações estão em jogo e em transa e, de repente, algumas pessoas são formações mais disponíveis para captar a situação. Elas não têm culpa nem mérito. O pensamento futuro será como acabei de falar, muito mais liso, mais clean, sem mitologia, sem pessoas. Vamos nos dar conta de que são acontecimentos e emergências, só isso. Esse teatro grego que vigorou até agora acabou! • AA – O pessoal que instalou as próteses dominantes agora – refiro-me à computação em rede e às tecnologias posteriores (robótica, biotecnologia, etc.) –, não estaria mais antenado, pensando a realidade mais próximo do que você está chamando de Quarto Império? Pelo que conheço desses autores, acho que estão entendendo na operacionalidade dos processos, e não no pensamento da situação. Entender na operacionalidade do processo por vir é diferente de pensar essa operacionalidade. Não vemos, por trás do que apresentam, o pensamento que têm sobre a situação. Ficam chutando que será assim ou assado, mas sem um pensamento que, por exemplo, descreva a estrutura da Nova Era. É o que faz a NovaMente ao tentar descrever o Quarto Império enquanto tal, em que tudo isso está arrolado. Eles apenas descrevem as coisas que acontecem, mas não buscam mostrar onde estamos entrando, em qual tipo de Era, por quê... • PNC – Quanto a isso, seria bom se pudéssemos ler autores chineses. Pode ser que lá haja gente pensando assim. Vejam que a expansão do Coronavírus começa lá, mata muita gente, faz um escarcéu – mas já estão controlando. Aqui no Ocidente está pior, sem controle. • PNC – Há aqui certa prepotência ligada à ideia de um sujeito controlador. A China tem uma tradição milenar de hierarquia. O Brasil não tem a menor noção do que seja hierarquia de valores. Qualquer jogador de futebol vale mais do que um cientista. A única noção que temos é a hierarquia militar, que é caretíssima. A China é uma ditadura radical, mas não é de um indivíduo ou de uma pessoa. Aquele que lá está no lugar de poder central é totalmente 95

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permeável a toda a situação. Ele não age como indivíduo ou como sujeito: é obediente a um sistema inteiro, dirigido por um colegiado gigantesco. Não é mais momento de pensarmos em sujeito ou em indivíduo. Por isso, tentei dissolver tudo em Formações: formações, formações, formações – são as formações funcionando. Interessa a transa das formações. E a Pessoa é um aglomerado de formações – frequentemente díspares dentro da pessoa, sem a menor unidade. São raras as pessoas que conseguiram melhormente organizar o conjunto de suas formações como um todo mais ou menos coerente – elas são cacos de formações. Isto porque elas não são tratadas como formações. Tomem a própria ideia de sujeito em Lacan como intervalo entre significantes e vejam que não distinguiremos formações. Se qualquer significante pode pular para outro significante, dá na mesma. Só se distingue aí o percurso de um tal sujeito para outro. Repito, hoje não interessa pensar em pessoa ou sujeito, e sim, diante de um fenômeno, considerar as formações que estão jogando. Não interessa se são suas ou do outro. Isso é disruptivo – e é por aí que se pode pensar a Nova Era, o novo momento. • P – Você falou em “concerto de formações”, que acho uma ideia revolucionária. Não gosto da ideia de revolução, pois revolução nunca deu em nada que preste. É preciso pensar em transações, transubstanciações, metamorfoses.

14 • Potiguara M Silveira Jr – Você, isolado aí, está conseguindo levar a vida sem ir ao Shopping? Você era assíduo lá... 96

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Estou aposentado do Shopping também. Nunca passei tão bem. Sempre trabalhei demais. Agora, estou de férias totais. Não sabia que era tão bom ser vagabundo. • Aristides Alonso – Há algum tempo, diferentemente do conceito freudiano de culpa, você destacou a ideia de inadimplência mental, de inadimplência psíquica. Pierre Janet tem essa ideia de que há pessoas ricas e pobres psiquicamente. Parece que, neste momento em que estamos vivendo, o que aconteceu tornou todos, ricos e pobres, inadimplentes. Essa inadimplência tem nome: Covid-19. No restante, as pessoas são diferentes. • AA – Por outro lado, nossa situação evoca a ideia das ficções de que o humano é um momento. Em seus termos, é um momento da IdioFormação, a qual tomará novas formas. Estamos num momento intermediário. Nietzsche já tinha avisado que “o homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem”. Para mim, aliás, trata-se do Pós-homem, outra espécie com ou sem o mesmo material. • PMSJr – Esse conceito de Janet, fraqueza mental [faiblesse mentale], me parece importante, pois a força psíquica disponível, maior ou menor, é qualitativamente decisiva para cada um no modo como vai atravessar a situação atual. Existem diversos tipos de pobreza mental. Nem todas são analíticas. A psicanálise só enriquece à medida que disponibiliza. Ela só pode aumentar a disponibilidade da mente no sentido de abrir para o que pode comparecer. Ela não enriquece nada. Quem enriquece é aquele que se disponibilizou. E há também um negócio chamado burrice, que nada tem a ver com a psicanálise. Antigamente, chamavam de oligofrenia, isto é, a pessoa parecia ter poucos recursos cerebrais – o que é problema da neurociência. Toda vez que se relativiza ou suspende um recalque, aumenta-se a disponibilidade, o que propicia aumento de volume de conhecimento e de inteligência, mas há coisas que não nos são específicas. Por exemplo, inteligência é pura velocidade. Burrice é alguém devagar, sua velocidade é quase parando, como se diz. O que será isso? Pode acontecer por motivos cerebrais? Sim, aí não é problema nosso. Pode acontecer por motivos de recalque? Sim. O excesso de formações recalcantes e, 97

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portanto, de formações recalcadas, emburrece a pessoa, ela perde a velocidade, não tem disponibilidade para mover o pensamento. Desse ponto de vista, a psicanálise, sim, elimina a burrice. É visível alguém chegar ao consultório todo amarrado, com uma lerdeza mental, a velocidade ir aumentando e os recalques vão caindo. Há, então, duas vias: a cerebral e a analítica, que, esta, é a via das pressões recalcantes sobre o Secundário que podem ser suspensas em análise. • P – Pode acontecer de a pessoa ter velocidade numa região e lentidão em outra? É frequente haver pessoas muito inteligentes em sua profissão e estúpidas na vida. As formações não são todas do mesmo volume ou do mesmo nível de funcionamento. As pessoas não são “inteiras”. Antigamente, falava-se sobre “homens íntegros”. Era a suposição sobre aqueles que podiam organizar todas as suas formações do mesmo modo, mas era algo raro. O que mais vemos são pessoas geniais num campo e estúpidas num outro. Na clínica, é dificílimo fazer mover a estupidez do lado estúpido. Justo porque, na maioria das vezes, esse lado é rentável para a pessoa. • PMSJr – A inteligência não conversa com a estupidez? O melhor seria que cada pessoa tivesse acesso e operacionalidade em todas as formações disponíveis para ela. Mas é raro acontecer. Na história do pensamento, da arte, da música, há gênios maravilhosos em seu campo e imbecis ou idiotas em outro. Para lidar com isso, é melhor a Teoria das Formações que não considera pessoa, indivíduo ou sujeito, e sim as formações lá em jogo. É possível, então, ler quais formações funcionam e quais não, independentemente de estarem centradas em alguém. Este é o truque da NovaMente. • P – É possível, num gênio em alguma área, seu lado estúpido também o atrapalhar no outro lado em que ele é gênio? É possível, mas não necessário. O importante de se desrecalcar em todas as formações é uma começar a atrapalhar a outra. • Nelma Medeiros – Visualizo, quanto a isso, um arlequim todo desconjuntado em que as formações começam a ser liberadas. Desconjuntam-se até encontrar alguma regência organizadora. Talvez a alegoria do arlequim seja essa mesmo. Por isso, sua roupa é cheia de cacos. Ele não é “inteiro”. 98

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• P – Você disse que o que a psicanálise pode fazer é propiciar o aumento de disponibilidade, de recursos e de inteligência. Disse também que inteligência é pura velocidade. Penso no caso de um analisanda que teve problemas neurológicos na infância e, depois, foi diagnosticada como bipolar, mas, na verdade, é portadora da síndrome de Asperger, de autismo de alto funcionamento. Ou seja, é alguém muito inteligente por um lado e um fracasso no trato social. Você está falando de alguém que teve o cérebro prejudicado por falta de oxigênio. É um defeito dela, mas falta de oxigênio é o quê em cada caso? Não se analisa neurônio queimado. A pessoa tem formações que estão funcionando bem e outras que jamais funcionarão por falta de recursos neurológicos. • NM – Há pouco você falou em “outra espécie com o mesmo material”. A própria base carbono pode sofrer mutação e já será outro tipo de IdioFormação com outra realidade? Há várias tentativas da biotecnologia nesse sentido, a robótica de um lado e a engenharia genética de outro, tentando mexer aí. Não sabemos se as duas funcionarão juntas ou se uma sobrepujará a outra. • Patrícia Netto Coelho – A atual pandemia não redefinirá e reorientará de certa forma o processo de replicação da espécie com outra base? Talvez, até agora, os investimentos estivessem voltados para uma base material diferente dessa que temos. Mas a fragilidade de nosso Primário, tal como se mostra agora, talvez faça com que se invista mais numa solução “híbrida”. Estão procurando todo tipo de solução. Mas, por enquanto, nossos analisandos são macacos, primatas. Como está bem longe ainda a disponibilização dessa outra espécie, essas questões são futurologia. Com o quê a psicanálise está lidando agora, neste momento? Sobre isto é que temos que nos perguntar. • AA – Retomando a questão do transeunte, do intermediário neste nosso momento de passagem, você disse ano passado que estaríamos vivendo o que foi chamado de Pós-verdade e que teríamos não que atacá-la, mas produzir dentro dela. Lidamos com narrativas, com ficções, e é com isso que temos que lidar. Você disse também que procurar pela identidade é barbárie. Nosso momento, hoje, coloca essas questões sob nova ótica. Por exemplo, com as pessoas isoladas socialmente, com suas atividades on-line, o passar do tempo 99

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tem outro andamento e as pessoas ainda se preocupam se tal ou qual dia será feriado ou não. A ficção do calendário gregoriano continua entranhada em nossas cabeças. O importante é a questão da verdade. Esse calendário é de verdade? Se as pessoas estão impregnadas de certas narrativas, o conceito de verdade até o final do século XX estava adscrito à imposição de certas formações de pensamento. O que acontece no século XXI e na entrada do Quarto Império é estarmos cada vez mais informados e com a clareza de que as formações são só formações, de que as ideologias e as filosofias são só ficções. Podem chegar muito perto dos interesses de efetivação do processo de vida, mas são ficções. Do ponto de vista da cosmologia, por exemplo, Einstein já demonstrou que duas pessoas em velocidades diferentes têm pontos de vista diferentes. Isto, quanto à velocidade na física. Imaginem, então, quanto à velocidade e o patrimônio do psíquico. Portanto, qual é a verdade? A verdade virou um assunto de patota. • P – Segundo o que você disse, no vigor da Pós-verdade, não teríamos a legitimidade de certo conhecimento ou pensamento para estabelecer o que seria a verdade. Entendeu-se que tudo é ficção. Mas não haveria ficções com aderências maiores e menores? É como se não fosse possível uma relativização completa em que todo tipo de conhecimento, de afirmação, se colocasse no mesmo nível. Você já disse que “o que quer que se diga é da ordem do conhecimento” e, pensando na atual pandemia de modo geral, vemos cientistas dizendo que o isolamento social é a forma mais adequada de lidarmos com ela. Por outro lado, há políticos colocando outro conhecimento ao dizerem que isso é mentira, que se trata de uma gripezinha. Então, são duas ordens de conhecimento. Poderíamos ainda falar em certa correspondência com a realidade, com o Primário? Não há ainda uma hierarquia das formações, dos conhecimentos? Portanto, não estaríamos de volta às epistemologias que você critica? Quando digo que tudo é ficcional, estou dizendo que é preciso conseguir outro parâmetro de mensuração dentro desse ficcional que não seja mero conceito de verdade imposto por determinado discurso. É o conceito de verdade que está em crise. A realidade impõe certas formações e é preciso saber quais formações ficcionais do conhecimento estão mais adequadas funcionalmente para cada caso, ad hoc. Você se referiu há pouco a falas do Ministro da Saúde 100

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e do Presidente. O primeiro é sensato – o segundo não – e, num de seus últimos pronunciamentos, disse o que achava que deveria ser feito tecnicamente para o melhor controle da pandemia. Mas disse mais, que o Presidente tinha outra posição, que poderia até estar certa, mas não era aquela que ele estava defendendo. É uma mostra de inteligência, sagacidade e perspicácia no sentido contemporâneo, século XXI, dizer que o que estava dizendo era uma posição e a outra, da qual discordava, outra posição. Vejam que não se trata de verdade, e sim de qual ficção está mais compatível com a funcionalidade para a solução de certo problema. Por que fiquei inventando, para mim e para quem quiser usar, a tal Nova Psicanálise? Porque me pareceu que o que estava para trás era compatível com seu tempo, mas não mais com o nosso. Em regime mais complexo, é o que está no raciocínio de Einstein, que mencionei. Se alguém estiver numa velocidade e outro em outra, o mesmo fenômeno será anterior ou posterior para cada um – e ambos estão certos. Essa relatividade – que é o nome na teoria de Einstein – abrange, hoje, todos os processos mentais. Antigamente, havia donos do saber – um Kant, por exemplo –, mas isso acabou. É muita gente batendo boca ao mesmo tempo, é muita situação diferente. Há, pois, que inventar dispositivos, ferramentas, etc., que possam dar conta ad hoc dos problemas. Às vezes, há duas ou três ferramentas e caminhos diferentes. Como é a escolha? Este é o problema, pois a escolha pode ser errada. A Pós-verdade é isso. Então, há hierarquia, sim, caso a caso, mas como arrumá-la? Quais são os processos de escolha dentro da hierarquia hoje? Quando duas ficções são muito próximas, têm o mesmo valor, a escolha se dará por que e como? • AA – Você já disse que uma das coisas que determinaria a escolha seria a eficácia, e não a verdade. É a funcionalidade local. Acho, então, que a atitude principal diante de qualquer escolha é não denegar a situação. É nesse sentido que a palavra verdade perdeu o valor. O que antigamente era verdade era, geralmente, denegação de alguma outra coisa. • AA – Então, mediante o aparelho psicanalítico de consideração que permite um aprendizado progressivo de indiferenciação, cabe recorrer à produção de próteses?

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É o problema que estamos tendo nesta Terceira Guerra Mundial atual. Qual prótese permitirá acabar com a pandemia? Aquela que daria conta diretamente é demorada, chama-se: vacina. Outra seria conseguir remédios adequados, o que ainda está difícil. Então, as pessoas vão inventando não próteses, mas expedientes – que podemos dizer que são protéticos – tanto de isolamento, que é menos violento, quanto de continuidade das rotinas anteriores, que, este, parece mais oneroso. Além disso, dá-se trela a atitudes religiosas medievais de resolução que são apenas resultantes de intoxicação mental por via de recalque. Apelam para Aquele que seria capaz de curar, sem considerar que, se fosse ele poderoso assim, antes não teria deixado que o vírus chegasse até nós. • PNC – Quanto à hierarquia na produção dos conhecimentos, ela é só situacional, ad hoc. A tela mediante a qual estamos conversando aqui é uma boa metáfora. O que vemos é cada num quadradinho que fica mudando de lugar à medida que alguém fala ou entra na reunião. Parece que o conhecimento se organizará de alguma forma como este painel com alguns predominando, outros ficando em segundo plano, e com uma dinâmica de movimento constante. Sim – do mesmo modo que várias abordagens estão sendo tentadas no mundo para entender o funcionamento do vírus. Então, quanto à hierarquia dos conhecimentos, atualmente a hierarquia é científica. Os valores milagreiros, religiosos, mesmo continuando a ser acionados em lugares atrasados, ficam em segundo plano. A hierarquia foi imposta ad hoc. A imagem do papa solitário na praça de São Pedro, no Vaticano, é exemplar. A própria Igreja Católica sabe bem dessa hierarquia. • AA – Se não soubesse, quando o papa João Paulo II levou dois tiros em 1981, teria sido levado a uma reza com água benta em vez de a um hospital para ser tratado por médicos. É isso que é o ad hoc. • P – Lembrei-me de uma situação do Renascimento, em que houve momentos de pânico por conta da invasão francesa que ameaçava intervir em Florença em 1494. Surge, então, Savonarola com profecias e exortando as pessoas a rezar, confessar seus pecados, desfazerem-se de suas vaidades (obras de arte e literárias confiscadas e queimadas). O pior é, no momento 102

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atual, ainda nos depararmos com emergências adaptadas do mesmo teor. Por exemplo, amanhã em várias cidades está convocado um jejum religioso para combater a pandemia... Como não têm comida mesmo, o jejum passa a ser obrigatório. • NM – Quanto à questão da hierarquia dos conhecimentos, fica parecendo que o embate diante da ameaça ao Primário de soçobrar com a pandemia montaria uma hierarquia de saber adequada à situação. O Primário seria uma espécie de indício forte de acompanhamento tanto da loucura de narrativas terraplanistas, negacionistas e mesmo as ditas científicas em sentido positivista, quanto da melhor adequação dos recursos protéticos? Não só o Primário como todas as Formações Espontâneas. • AA – Em 1995, você falou da psicanálise como “aparelho de simulação da suspensão dos recalques”. Há dois tempos. Um, é a possibilidade de ir acompanhando o processo na análise de tal modo que, quando a coisa acontecesse, pudesse ser manejada com certa proximidade. Outro, diz respeito a situações que acontecem subitamente ou em catástrofe genérica (como é o caso atual de uma catástrofe planetária). É como se o acontecimento dissoluto do segundo tempo sobrepujasse o próprio modelo de acompanhamento e manejo proposto pela psicanálise. O que temos é uma emergência de retorno de recalcado com tal potência que não há situação analítica para segurar isso. Você tem também a ideia de forçação. Ou seja, a simulação seria a forçação. Mas um acontecimento como este nosso, que é uma forçação geral, impõe uma nova situação que obriga à produção de próteses mais adequadas para lidar com ela. Assim como no pós-guerra quando surgiram muitas invenções forçadas. Por outro lado, o aparecimento de um vírus dessa natureza é um fator de extremo recalque. É o que nos cabe pensar. As pessoas estão recalcadas para além do que estavam acostumadas a suportar como recalque. Antes, estavam inteiramente recalcadas, neurotizadas, mas pensavam ter disponibilidades do tipo sair para a rua, etc. Algumas disponibilidades sumiram. É um fator de violento recalque das disponibilidades. Estamos em prisão domiciliar. O funcionamento das pessoas está recalcado – é como uma neurose, a pessoa não pode se mover, está paralítica, está “histérico-objetiva”. • P – Você sempre diz que vai piorar. 103

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Há tempo, em análise, uso uma intervenção quanto à qual não sei até onde vai seu efeito. Depois de ouvir lamúrias, digo aos analisandos: “Não se preocupe, porque vai piorar”. Parece que estava só preconizando que iria piorar, mas a intenção é que se perceba que ainda está tudo muito bom, e que o pior ainda está por vir. • P – Dada a situação atual que obriga os contatos a se realizarem on-line, o que pensar da prática de atendimento analítico? As operações de indiferenciação, de suspensão, de anamnese se manteriam ainda, mesmo com perda de uma série de formações que só são percebidas presencialmente? Acho possível o funcionamento da análise mediante n tipos de mídias. O que está em jogo aí é uma questão de gosto. Eu não gosto de estar falando agora com vocês deste modo. Como sabem, Freud colocava a pessoa deitada no divã de costas para ele por puro gosto, mas nada na psicanálise obriga que seja assim. On-line, perde-se alguma coisa, mas dá para funcionar.

15 • Aristides Alonso – Quero comentar que esta situação de contatos on-line em que fomos compulsoriamente lançados tem se mostrado muito mais atarefada do que se imaginava. Trabalhar de casa parecia ser um bom sonho para muitas pessoas, mas o que estamos vendo são solicitações bem maiores e mais invasivas em nossa rotina. É como se estivéssemos sem tempo, sem reação, sem separação, tudo aqui e agora. Está cada vez mais parecido com o Inconsciente. • P – A sociedade disciplinar de que falava Foucault, com tudo separado e compartimentado, com horários cronometrados, foi para o brejo. 104

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Parece que sim. • AA – Foi publicada no último número da revista Cult (ano 23, março 2020, edição 255) uma seção especial com Lélia Gonzalez (1935-1994), cuja foto está na capa juntamente com o texto: “Pioneira na crítica ao racismo estrutural e sua articulação com o sexismo na sociedade brasileira”. Um dos artigos, de autoria de Carla Rodrigues, menciona o comentário de Angela Davis em sua última vinda ao Brasil em outubro de 2019: “Leiam Lélia Gonzalez (...) Vocês não precisam de mim, vocês têm Lélia”. Em outro artigo, temos a informação de que, entre 2014 e 2016, movimentos feministas e antirracistas levaram a várias partes do Brasil a exposição fotográfica e documental do projeto “Lélia Gonzalez: o feminismo negro no palco da história”. Em 2018, a União dos Coletivos Pan-africanistas organizou em ordem cronológica a maioria da produção de Lélia sob o título “Primavera para as Rosas Negras”. Em 2020, quando ela completaria 85 anos, o Google a homenageou grafando em seu logotipo a imagem estilizada de Lélia. Neste mesmo ano, a Associação dos Estudos Latino-americanos (Lasa) nomeou o maior encontro acadêmico do mundo sobre a produção científica da América Latina de Améfrica Ladina, “termo que Lélia Gonzalez usava para se referir à formação do continente, marcando suas influências indígenas e africanas, além de ibérica”. A seguir, são elencados vários momentos de sua trajetória intelectual e política. Voltando ao artigo de Carla Rodrigues, lemos: “Lélia Gonzalez propõe o conceito de amefricanidade, elaborado a partir de uma proposição do psicanalista lacaniano MD Magno, que, por sua vez está dando continuidade à formulação de outra psicanalista, Betty Milan” (p. 16). Ela se utiliza de outros termos como ladino e pretuguês, que são decorrentes de sua ligação com a psicanálise lacaniana. O artigo continua: “Sua ligação som a psicanálise foi formalizada em 1975, quando participou da fundação do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, e está presente, por exemplo, no uso que ela faz da categoria do infante, que se constitui a partir da análise da formação psíquica da criança. (...) propôs uma analogia entre a condição de infante e a condição das mulheres e das pessoas não brancas, que são faladas por um sistema de dominação que infantiliza, retira a humanidade e aniquila a condição de sujeito. Podemos localizar aí o hoje disputado conceito de ‘lugar de fala’...” (p. 17). 105

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Trouxe tudo isso para resgatar o ambiente dos raciocínios que, nessa época, consideravam a sintomática brasileira, a vocação para a Heterofagia, a exemplaridade de Macunaíma. Foi aí que surgiu o termo Améfrica Ladina (título de uma seção de seu Seminário de 1980, Acesso à Lida de Fi-Menina) para dar conta de nossa sintomática denegada de América Africana. E é em 1985 (Grande Ser Tão Veredas) que você propõe a recomposição dos Estilos com destaque, ao lado do Clássico e do Barroco, para o Maneiro como sendo a característica do Brasil. Maneiro este que tem como avesso o Mazombo, que costuma atrapalhar os bons encaminhamentos dos processos no Brasil. Ressalto, então, que você pensa o Brasil a partir de sua base ibérica e africana, donde o termo Améfrica Ladina. Naquele momento, você retomava os autores que trataram do tema como Gilberto Freyre, Vianna Moog, Sergio Buarque de Holanda, etc. Também artistas e escritores como Mario e Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Aleijadinho... Quis trazer essas informações e retomadas para registrar esse percurso – há muito mais coisa – de mais de quarenta anos tratando do Brasil via Nova Psicanálise. Posso contar uma coisa para vocês. Já que Lélia morreu, posso falar. Eu a conheci como professora de filosofia da Faculdade Estácio de Sá, no tempo em que eu lá estava. Nessa época, ela andava fantasiada de branco. Usava tailleur e cabelo espichado. Em seguida, veio fazer análise comigo – e acho que funcionou, pois, daí, ela virou isso que virou segundo a revista que você mencionou. Foi esse o acontecimento. Cito isto para que vejam que a análise funciona. • Potiguara M Silveira Jr – Quero também registrar que, em 1976, ano do registro oficial da fundação do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, sob sua indicação, Aristides e eu [mais Aluísio Menezes, morto recentemente, que se separou do grupo nos anos 1990] fazíamos uma reunião de estudos das obras de Freud e Lacan com Lélia. Era na casa dela no Cosme Velho aos sábados à tarde. Depois, íamos os quatro à sua casa no Leblon para um “cartel” (atividade analítica, em que os quatro traziam suas questões pessoais e intelectuais para você). Era o cartel inaugural do Colégio Freudiano. Em setembro de 1975, você tinha ido a Paris, falou com Lacan, conheceu Betty Milan e ambos decidiram, lá, fundar o Colégio Freudiano do Rio de Janeiro. 106

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Se bem me lembro, esta atividade durou pelo menos todo o ano. Depois, Lélia se distancia dessas atividades e ficamos sem contato direto com ela. Me lembro de vê-la na TV Educativa como apresentadora. Quando a conheci, ela já tinha cabelo afro. Nossa convivência foi proveitosa e prazerosa [ela deu festas animadas em sua casa].

16 • Nelma Medeiros – Em nossas atividades institucionais de Tutoria, estávamos até ontem lendo as cinco primeiras seções de seu Seminário de 1979, O Pato Lógico. Na quinta seção, você explicita alguns elementos mínimos do pensamento de Lacan: significante Nome do Pai, significante Falo, suas relações com a alteridade radical, o Outro enquanto barrado... Ao falar do Nome do Pai, você comenta que ele nomeou esse significante com elementos culturais de longuíssima duração. Esse comentário, na verdade, viria a ser sua crítica a Lacan por alçar à condição de significante um elemento demasiado sintomático. E mais, enquanto Creodo, lastreado em outras formações sintomáticas da espécie: o Primário e sua passagem para o Secundário como formação hegemônica. É só nos anos 1990 que você apresenta a ferramenta teórica do Creodo Antrópico. Então, ao mesmo tempo que ia apresentando um Lacan com muita propriedade e apropriação do ponto de vista conceitual e clínico, você misturava sacações como essa que me pareceu quase que heterodoxa. Passou também por aí você apresentar de modo jocoso a nomeação dos Cinco Impérios mediante essa série tão forte: Amãe, Opai, Ofilho, Oespírito e Amém... O Pato Lógico é uma espécie de semente. Foi por aí o caminho. 107

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• NM – Você também já está se referindo, ao longo do texto, à diferença sexual como Indiferença. O mais importante foi colocar, em oposição à repetição excessiva sobre a diferença sexual, a Indiferença Sexual. • Patrícia Netto Coelho – Há também que considerar, nesse percurso sobre a obra de Lacan, sua leitura anterior, desde a adolescência, da obra de Freud. E antes de conhecer Lacan, eu também já tinha passeado pelos freudianos e pós-freudianos como Melaine Klein e outros. A coisa já estava mais ou menos mapeada quando me aparece o Doutor Lacan. • P – Alguns comentadores sobre a atual pandemia têm considerado que as medidas por parte da China, Japão e Coreia na condução da situação tiveram maior eficácia. Apontam a influência confucionista em seus modos de operação. Isto se contrapondo ao relativo fracasso do Ocidente em lidar com a situação, que se deveria aos limites do sintoma individual, liberal e democrático. É eficaz pensar por essa via? Suponho que não se trate apenas de uma posição confuciana. O pensamento oriental, sobretudo de origem chinesa, tem dois parâmetros que se estabeleceram e funcionam paralelamente na cultura durante muito tempo: Confúcio e Lao-Tze. Já lemos aqui vários textos de François Jullien sobre isso. Eles lá têm um domínio da estrutura social muito mais importante do que o arremedo de democracia em que vivemos aqui. É um arremedo inteiramente fake. Lá, ao contrário, esses dois parâmetros estão inteiramente entranhados na cultura com composições muito definidas. Às vezes, Confúcio e Lao-Tze parecem opostos, mas eles se complementam. Aqui, a coisa é caótica. Democracia no Ocidente nunca foi um acontecimento social. É algo quase que implantado de cima para baixo e que jamais funciona, resvala a todo momento por não estar entranhado na cultura. Não é um sintoma da cultura. • NM – Essa, aliás, foi uma tentativa dos pragmatistas. Aqui no Brasil ressoa no sonho de Anísio Teixeira de que a educação pudesse instalar socialmente um modo de funcionamento. E agora temos Mangabeira Unger batendo na mesma tecla. Notem que as culturas ocidentais não têm impregnação cultural. Desde a Grécia, a 108

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democracia é uma definição, e não uma prática imbuída nas pessoas. Os funcionamentos sociais são frequentemente fake. Na China, com uma população imensa e com todos imbuídos de determinado desenho cultural, a situação fica bem melhor de ser conduzida, manejada, numa hora dessas. As pessoas não ficaram na rua ou frequentaram cultos durante a quarentena. Aqui, o pessoal sai para passear porque as coisas se dizem, mas não são. Isto é um desarranjo cultural. Lá, eles têm a produção da autoridade com alta qualificação, e fica bem mais difícil algum imbecil chegar ao poder pelo voto como ocorre por aqui. • PMSJr – Quanto a essa impregnação na cultura oriental e o mesmo não ocorrendo na cultura ocidental, há aí duas formas de pensar, como já vimos. Então, produzir pensamento é propor articulações impregnadas, e não impor definições de cima para baixo. A crítica que se faz à ineficácia da maioria dos pensamentos até hoje, ineficácia evidente sobretudo após a pandemia, implica a busca de produzir pensamentos que efetivamente se lastreiem em articulações impregnadas na situação inteira. Acho que a crítica que você vem fazendo ao Simbólico vai por aí. É por esse motivo que apareceu a Nova Psicanálise, a NovaMente. Ela tem raízes sintomáticas daqui, nossas, não é francesa, alemã ou norte-americana. Veja que mesmo a tradução de seus termos para outras línguas fica difícil. Basta ver o “Améfrica Ladina”. • PMSJr – Em continuidade ao que você disse sobre a não impregnação social da cultura ocidental, me ocorre pensar, por outro lado, no judaísmo. Não seria um sintoma por demais impregnado a ponto mesmo de ser quase que inanalisável em seu âmago? Em 2004, você comentou o livro de Jean-Claude Milner, Les Penchants Criminels de l’Europe Démocratique, em que ele propõe – em ‘quadriplicité’ – uma base material e persistente do “nome judeu”: masculino / feminino / pais / criança. Há, sim, certa impregnação bíblica. Mas é, digamos, mais folclórica do que uma impregnação do sentido da coisa. Repetem-se as falas, as festas, as comemorações, mas não é uma impregnação do pensamento de lá. Nem mesmo o cristianismo é impregnado. Trata-se de um grande folclore, não se transforma num comportamento. O comportamento chinês é chinês. Nosso comportamento é o quê? 109

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• NM – Há uma fratura interna entre o que seria o mito de fundação do cristianismo primitivo autêntico e o que ele veio a ser no Império Romano fantasiado de Igreja. O Inconsciente, mesmo das pessoas mais ignorantes, se dá conta da palhaçada que aconteceu de fingir-se religião da pobreza junto com a exibição ostentatória imperial. É fake, repito. O próprio budismo pensante fantasiado de budismo religioso é mais autêntico. • PMSJr – Esse fator de impregnação cultural de que você fala coloca em questão três mil anos de história do Ocidente, o qual teria vivido desse e nesse verdadeiro folclore. A barra é muito pesada. É muita doença mental. • PMSJr – Nossa posição agora, o que quer que venhamos tomar como estudo, como acompanhamento de pensamento, é de produzir instrumentos capazes de impregnação cultural. Este é o ponto delicado e necessário na produção das abordagens do que está por vir (e que, catastroficamente, já veio bastante). Nossos autores, aqueles que tentam entender a Situação-Brasil ficam procurando essa impregnação, pois ela não está nisso que dizem. Mario, ao inventar Macunaíma, tenta mostrar uma impregnação cultural, procura uma sintomática de verdade para além do folclore que está em uso. Oswald, idem. Não os interessam o fake da religião, do Estado, etc. Buscam descobrir o que verdadeiramente está impregnado. • P – Você diz que a impregnação cultural resulta em comportamento... O comportamento espontâneo das pessoas exprime essa impregnação. No Brasil, não há isso. Só há mais ou menos no carnaval e em alguns outros poucos momentos. • P – A impregnação tem a ver com a fixação sintomática, como você coloca? O que estou denunciando é que, em termos de construção de Estado, de legiferação, não há referência a essa impregnação, a essa ficção. • P – O uso do termo abstração é elogiado por você no percurso de Lacan e também em seu próprio processo de construção da NovaMente. Como você definiria esse termo? 110

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Todo progresso de pensamento se afasta das configurações, do anedótico, e, pura e simplesmente, busca perceber as articulações que estão por baixo. Da pré-história até hoje, o progresso havido foi mediante abstração. Por exemplo, ao pensar aritmeticamente sobre algo que estamos contando. A conteudização sempre pesa demais e paralisa o processo. Quanto mais abstrato, mais manejo e disponibilidade temos. O exemplo princeps é a matemática. • NM – O exercício da analogia é fundamental aí. Ela pode tanto proliferar mais conteúdo, quanto, por dentro dele, encaminhar abstrações. Para encaminhar abstrações, a analogia depende de uma postura abstraente, pois ela própria, na história da humanidade, já foi usada por razões conteudísticas. No que se vai acrescentando o processo de abstração das analogias, ele está na possibilidade progressiva. Por exemplo, na ignorância sobre a sexualidade humana, as pessoas ficam sem saber abstrair a sexualidade. Daí a guerra contemporânea quanto ao gênero, etc. Pensam que a sexualidade é configurada, conteudística. Se ela não for abstraída, virará coisa de macaco. Abstrair é no sentido de afastar-se das configurações do Primário e aproximar-se das formações. A leitura das formações é abstraente. Não se está falando com sujeito ou indivíduo, e buscando entender quais formações estão em jogo na situação. Não temos o analisando fulano de tal, temos simplesmente é que seguir uma maçaroca de formações que é preciso entender e devolver. • PNC – A abstração é a própria razão do conhecimento. É uma razão mística, pois, no extremo, trata-se de afastamento do mundo. Basta observar na história da psicanálise, mesmo sendo curta, como ela foi sendo abstraída em seu desenrolar. Freud tinha histéricas dando ataque, tinha pessoas... Lacan já tem outra escuta. Mesmo não pensando em termos de formações como penso, ele pensava estar diante de uma pessoa cujo sujeito é representado disso para aquilo, o que, em relação a Freud, é uma abstração enorme – embora seja pesado demais justo por causa do sujeito. • PNC – Há modos e modos de abstração. Talvez pudéssemos falar do modo do Oriente, que privilegia o processo, a transformação, e certo modo do Ocidente, que toma um conteúdo e o transforma em alguma regra que ordenará os demais conteúdos.

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É o caso do Édipo, na psicanálise. As pessoas ficam perdidas dentro de uma fixação teatral. • PNC – Em certo sentido, o processo de abstração da NovaMente estaria mais próximo do Oriente? Ela parte de um conhecimento da catoptria, e não de qualquer conteúdo. Isso não é necessariamente oriental, pois está impregnado no que podemos chamar de more geometrico. • PNC – Mas, para muitos, Espinosa não era considerado um ocidental. Boa parte da filosofia o estranhava. Ele simplesmente abstrai na analogia com a geometria, isso não tem lugar definitivo. • AA – Outro exemplo de abstração na NovaMente seria ela ter saído do falante, do parlêtre, de Lacan, ter saído da ênfase da fala sobre a língua, e ter ido para o Revirão. Aí, o que quer que resulte é bendito, é diferença a ser afirmada. Seja de que sintoma ou de que cultura for. Resta ver a agonística das transas quanto ao lugar que se pode ter aqui ou acolá. Sim. • P – Outro conceito da psicanálise em que o percurso abstrativo pode ser observado é o de sublimação. Para Freud, seria um desvio da libido do físico para o espiritual. Já, no percurso abstrativo da NovaMente, a sexualidade não tem desvio, ela segue a única direção apontada pelo vetor pulsional. Ela pode ser investida de todas as maneiras. Não se trata de desvio algum quando, por razões de excessividade, e não de falta, alguém continua trepando, fazendo uma obra, etc. O próprio Lacan, em seu Seminário, disse “no momento, não estou trepando, estou falando, ou seja, estou trepando”. Eis um pedaço de raciocínio não entendido por Freud. Não há sublimação alguma, o que há é excesso: a pessoa não para de gozar. • P – O texto de Freud sobre Leonardo da Vinci coloca seu processo criativo como desvio da sexualidade. Sua afirmação da arte como cosa mentale pareceria corroborar essa ideia de desvio. • AA – A sexualidade é cosa mentale. O pessoal acha que ela é pura função primária.

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É o contrário. É a cosa mentale que se exprime no Primário. É preciso entender que só se tem tesão na cabeça. Muitas vezes, as pessoas sofrem, procuram análise, justo porque o tesão não chega ao corpo, fica só na cabeça.

17 Estou retomando a leitura do livro de Douglas Hofstadter e de Emmanuel Sander, Analogy as the Core of Cognition (2013), e vejo que eles, mesmo não tendo ideia do conceito de Revirão, têm boa noção do conceito de Formação. Se prestarmos a atenção, veremos que esse livro é uma teoria das formações. Não chamam de formação, e sim de categoria. É importante notar que existe gente considerando o mundo estritamente como formações. O que chamam de categorização, eu traduziria por composição de formação. É o que temos falado quanto ao pensamento se fazer sempre por analogia. • Patrícia Netto Coelho – Hofstadter pode não conhecer o Revirão, mas tem um trabalho interessante, bem anterior a esse que você está citando, sobre a lógica de reversão: Gödel, Escher, Bach: um entrelaçamento de Gênios Brilhantes (1979). É um livro muito importante. Eu o li na época em que foi publicado. Tem, sem o conceito, muita semelhança com o pensamento de reviramento. Ele o encontra no Caranguejo, em que Bach caminha com a melodia num sentido e, depois, retorna em sentido contrário. Encontra também nos percursos de Escher e Gödel. Boa lembrança, vou retomá-lo. • P – Há outro livro em que Hofstadter mostra o Revirão, I Am a Strange Loop (2007), em que ele busca explicar o que teria ficado vago no livro sobre Escher. 113

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Este não conheço, mas reforça que ele se deu conta de que há algo parecido com o Revirão e foi encontrar expresso em obras de pessoas importantes. • P – A situação que estamos vivendo, uma vez ultrapassada, pode propiciar uma melhora geral no modo de consideração das ações políticas, sociais e mentais? As pessoas são devagar, lentas demais. A pressão da situação atual de pandemia será muito grande, mas elas demorarão a entender. Só se entende sob pressão, por força da realidade, e não pelo entendimento. Este é para pouca gente. A pressão, na verdade, já está sendo grande. É uma catástrofe que se impõe a todos. • P – Mas, para os psicanalistas, não seria uma oportunidade de ampliar sua compreensão e corrigir muitos raciocínios e procedimentos? O fato de pessoas se intitularem psicanalistas não quer dizer nada. O dispositivo que têm na mão para fazer funcionar – e sequer este sabem fazer funcionar – já é ultrapassado, não serve mais. Há que esperar para ver. Nos anos 1980, eu disse que o vírus da Aids era um exemplo de dissolução e que a psicanálise pretendia fazer o mesmo, mas não tinha a mesma eficiência dissolutiva. O que tenho a dizer hoje é que a situação virótica está produzindo uma forçação que aponta para a necessidade de radical transformação no sentido do Quarto Império. É uma forçação catastrófica que caiu sobre nós. O que estava em processo vagaroso de aproximação das formações que serão necessárias no Quarto Império foi forçado a uma súbita aceleração. • Nelma Medeiros – Da vez anterior, falamos aqui sobre a abstração e sobre a polaridade Ocidente / Oriente. Em termos dos Cinco Impérios, o processo de abstração em cada um dos dois que são bipolares – o Segundo e o Quarto – tem certas peculiaridades. No Segundo, foi o sentido de configurar uma transcendência com rosto paterno. Já no Quarto, trata-se de desconfigurar a transcendência. Este seria o sentido da ideia de Arreligião que você desenvolveu em 2002. Então, voltando ao que você dizia sobre a impregnação social do pensamento chinês como radical imanência, é possível pensar que, no Quarto Império, teríamos uma transcendência em vazio? Ou seja, que a exemplaridade da China nos serviria para pensar as formações necessárias ao Quarto Império? 114

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A própria situação e o confronto de posições, sobretudo críticas, vão dissolvendo os processos de passagem dos Impérios. Alguns raciocínios religiosos estão evidentemente ficando ridículos diante do que está ocorrendo hoje. Os raciocínios começam a se fazer inconscientemente de modo geral porque a velocidade da informação é muito grande. Conscientemente, as pessoas podem aceitar certos credos, mas o Inconsciente não nega fogo. A situação é dissolvente e, queiram ou não, a dissolução vai fazendo sentido e sendo assimilada por formações inconscientes. Portanto, está fazendo uma grande bagunça na cabeça das pessoas. Temos, aliás, que contar com a bagunça. • P – Por outro lado, vêm à tona muitos raciocínios que têm a mesma lógica dos credos religiosos. O terraplanismo, por exemplo. Esse pessoal é minoria. O que dizem não está colando, pois os meios de informação estão disseminados. (Mas a terra é plana mesmo: é uma platitude inesgotável). Isso, aliás, não tem muita importância. Mais importância têm as crenças que são capazes de produzir recalques fortes. E são justamente elas que estão ficando ridículas, mesmo que, conscientemente, as pessoas insistam em repeti-las. O Inconsciente está dando voltas. Veremos onde chegará. • P – Por que há agora certo ódio em relação à China? Acham que ela destruirá o Ocidente? Aqueles que expressam esse ódio não têm a menor ideia do que seja a China, e supõem que ela vai destruir o Ocidente. É uma suposição idiota. O Ocidente já destruiu a China muitas vezes. Guerra é guerra. O Ocidente está com medo é da potência de transformação que a China pode ser para ele. É medo da dissolução. E mais, ninguém tem força para segurar os eventos – e eles virão. • Potiguara M Silveira Jr – De outra vez, você falou que a crítica atual é direcionada ao modo de existir, e não ao modo de convivência. Quando, em relação ao século XX, você diz “Acabou!” está se referindo a um modo de existir, este que acabou. Então, pensar um novo modo de existir é a tarefa para agora? Quando comportamentos mudam, por alguma pressão da realidade, caem muitas articulações a esses comportamentos. O infectologista da Casa Branca, que lá está há décadas, passou por vários presidentes, disse esta semana: “Nunca mais ninguém dê a mão a ninguém”. Já pensaram nessa mudança de 115

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comportamento. O que ele está dizendo é que outras pandemias virão, então é melhor suspender esse hábito. Há culturas em que não se dá a mão ao cumprimentar o outro: Japão, Índia... Imaginem se o Ocidente suspende esse hábito, muita coisa vai embora junto. Inclusive o beijinho, beijinho, tchau, tchau. Teremos transformações culturais. Se as pessoas não aprendem por estudo, por análise, de repente, têm que aprender com a realidade. Aprendem debaixo de tapa, de porrada. Aliás, sempre foi mais assim. • PNC – Quanto a essa exigência atual de uma transformação no nível dos modos de existência, lembro de sua definição: cultura é o modo de existência da espécie. Então, junto com a existência, a transformação é cultural. E quando uma psicanálise tem algum pouco sucesso, o que acontece é uma transformação da existência da pessoa. Ela passa a ser um ser cultural diferente do que era antes. • PNC – Essa mudança quanto ao aperto de mãos que você mencionou resultará em muitos desdobramentos. A ideia de hospitalidade, a noção de Oikos... Quem quererá receber alguém em sua casa? Em que condições? O hóspede é mortal. Ideia que já está no filme de Pasolini, Teorema (1968). O hóspede destrói a família toda, além de gozar com ela. • PNC – Isso está bem consoante com o Corona, que está comendo todo mundo. O filme de Pasolini é absolutamente matemático, um filme lógico. • Aristides Alonso – A passagem de Terceiro para Quarto Império está se mostrando turbulenta e está também destroçando a crença de que o Terceiro seria um Império terminal. As ideias de fim de mundo, de juízo final e de muitas ficções científicas é de que o término seria no Terceiro Império. Em 2001, você disse que o século XXI começava efetivamente ali, com a queda das torres gêmeas em Nova Iorque. Por outro lado, no processo de cura proposto pela NovaMente, trata-se de devolver à mente o que ela já tem como possibilidade de ser compossível com o Haver. Não há, portanto, que pensar em Império terminal ou ficar sustentando um Terceiro e mesmo um Quarto Império, pois o encaminhamento é para o Quinto Império, que seria o lugar dessa homologia entre as IdioFormações e o Haver. É claro que as IdioFormações sempre

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serão menores, mais limitadas que o Haver. Daí a crença em ideologias e na terminalidade de um Império. Mas há sempre que lembrar que os Impérios morrem espontaneamente. Ninguém destruiu o Segundo ou o Terceiro Império. Eles morrem por estarem em exercício. Vão funcionando e desarticulando suas formações. Isto, como qualquer ser vivo. Quanto mais crescem, ou seja, quanto mais gozam de sua situação, mais se dispõe lá o finalzinho: a Pulsão de Morte, quietinha, esperando. Alei ‘Haver desejo de não-Haver’ não para de funcionar. Portanto, tudo é mortal, será dissolvido. O Terceiro Império chegou em seu momento, está em processo de dissolução cadavérica. Os Impérios também são assim. Quanto mais gozam sua própria existência, mais morrem. É espontâneo, quase. Alei é espontânea, não foi criada por nós. Alei é do Haver. A grande descoberta da psicanálise – de todas – é o conceito de Pulsão de Morte. Enquanto isso, a gente vai lidando com as formações. • AA – Quanto à questão da Alei, citei Kittler de outra vez que diz que, entre Hegel e Freud, há a máquina a vapor. Dela é que começou a investigação que resulta no conceito de Entropia, suas derivações e generalizações. Eles perceberam que o vapor era entrópico, o que bagunçou com as categorias nocionais que usavam até então. • AA – Noto que nesse momento de Freud e daqueles influenciados por isso há uma espécie de ruptura entre certa vertente filosófica de conhecimento que dava na noção de sujeito e de objeto e outra vertente que vai surgindo com as ideias de sistema e de informação. Na psicanálise, começa já aí a se constituir o que, na sequência, com a NovaMente, veio a ser a Homogeneidade do Haver e a Teoria das Formações. Está claro lá que não é preciso de categorias como sujeito e objeto, as quais não existem na termodinâmica, na teoria dos sistemas ou na teoria da informação. E todos têm em comum esse solo de pensar os processos como dissolutos e organizados. Quanto a isso, o problema de Lacan era ser francês. É espantoso ele ter insistido nas categorias de sujeito e de objeto naquele momento. É um sintoma francês, cartesiano no campo do conhecimento, da filosofia, que dura até hoje. • AA – Ele se deparou bem cedo em sua obra com o conceito de entropia, mas não o encareceu. Minha questão está ligada à noção de informação que 117

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você também usa em seu aparelho. Passamos pela noção de redução da incerteza, com Shannon, que estava preocupado com a decisão: a moeda girando é entrópica, ao cair (cara ou coroa), temos a informação sobre a entropia. Na sequência, Wiener traz uma noção de organização sistêmica: a entropia reina, mas há ilhas de organização. Não se trata tanto de uma luta com a decisão, mas de organizar o entrópico, é a ordem na desordem. A tese de Wiener só é possível como resultante da tese de Shannon. O que se passa na mente como jogo de moeda rodando para acabar numa configuração? Wiener não anotou esse pedaço. • AA – Sim. Para poder fazer a operação de organização sistêmica que ele quer que seja como feed-back, é preciso já ter calculado a informação, já ter rodado várias moedas. O terceiro passo é o de Prigogine, mais ou menos sobre os dois anteriores. Para ele, o processo é uma estrutura dissipativa. No entanto, a dissipação não segue uma linha reta para a destruição. No meio do caminho, ela produz reordenações longe do equilíbrio. Mesmo a vida ele considera como uma organização longe do equilíbrio. Ela esbarra em alguma coisa. • AA – E, quarto, a Teoria das Formações, de Magno, que parece incorporar esses passos anteriores. Nela, ao falar do pacote de informação – polo, foco e franja –, isso pode ser calculável e abordável por vários caminhos, de Shannon, de Wiener, de Prigogine e de outros. Quanto a uma formação, as aparências não enganam, trata-se das faltas que fazem. Você acaba de dizer que minha posição subsume as outras. • NM – Nessa série – decisão, ordem na desordem e estrutura dissipativa – não seria mais cabível colocar Bifididade em vez de Teoria das Formações? Está certo também. • AA – Não são a mesma leitura da informação. Para eles, a sexualidade não entra em jogo como na psicanálise. Você diz que o Haver é feito de informação, que o Haver é informação, que o Haver é conhecimento, e que há um Conhecimento Absoluto para a IdioFormação. Então, ao falar em Conhecimento – que, efetivamente, é sexual –, a informação é menor ou equivalente à noção de conhecimento na NovaMente? Ou seja, quanto a Experiência de 118

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Haver, que é sexual e de último grau, ao usar a ideia de informação, você está usando a mesma equivalência ou há uma superioridade na noção de conhecimento, na qual a informação seria um modo de lidar com ele? O último grau é sexual, não há saída. É difícil recortar porque as duas soluções estão valendo, elas reviram. Não sei sair dessa. • AA – De fato, o Revirão comparece. Se tomarmos o teorema do Revirão como a lógica de funcionamento do Haver, quando ele funciona, o que resulta são formações que são conhecimento, isto é, resulta na operação da informação. Interessante é que um dos sentidos da informação não é o que comparece como organizado, mas o que produz a organização. Nesse sentido, o Revirão seria esse processo de movimento da força motriz, da quebra de simetria, e produção de formações. Visto dessa maneira, a informação quase que precederia o conhecimento. O conhecimento seria uma consequência da quebra de simetria. Por outro lado, o efeito do Tesão é conhecimento e a informação viria como substrato dele. Por isso, disse que não dá para distinguir aí. • AA – Uma boa sacada de Mandelbrot sobre os fractais foi dizer que, em dado momento, parou de se impressionar pela resultante toda e foi buscar o que a causava. Ele se deparou com operações matemáticas bem simples e todas cortadas, sempre com um elemento de corte do processo, que infinitiza. Ele foi buscar a geratriz do processo. Isso se parece um pouco com Stephen Wolfram e sua ideia de autômato celular. • P – Uma vez você disse, e já repetiu, que a análise não funcionava porque não se podia prender o analisando numa jaula e deixá-lo a pão e água pensando sobre seus processos e procedimentos. Lacan tentava isso de diversas maneiras, inclusive dando tapa na cara do analisando. Acho interessante, mas não conseguia muito. • P – O que vemos agora é, de repente, uma parcela significativa da humanidade forçada a ficar em jaulas, ainda que superconectadas. Ou seja, estão todos muito conectados secundariamente, e muito limitados primariamente. A limitação é no Primário. A Neo-Etologia está se dando mal. 119

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• P – A situação deixa claro que somos redes. Nós e o ambiente somos um monte de vírus. Bons tempos aqueles em que a preocupação era usar ou não a camisinha. Qual é a camisinha de hoje? • P – É meio consenso que, pós-pandemia, haverá uma modificação na situação do planeta, nas relações pessoais, políticas... Falam em solidariedade, em acabar com desigualdade social, com destruição da natureza... Se você continuar a falar essas coisas, dormirei aqui. Por não terem formação ou conceito para o que está aparecendo, têm dificuldade em entender que não se trata de solidariedade alguma, e sim de que há um Vínculo Absoluto. O que fazer com ele? Estamos todos na mesma merda, sem diferença. Como não têm dispositivos para encarar o fenômeno, as pessoas o encaram mediante dispositivos velhos, que nada explicam e redundam em folclore solto de Terceiro Império. • AA – Hoje de manhã, em nossa Oficina Clínica, surgiu uma questão que eu gostaria de retomar. Diz você, em Clavis Universalis (2005), p. 96: “Tiramos disso tudo uma lição fundamental para a psicanálise: só faz psicanálise quem faz a psicanálise. Se não produzirmos a psicanálise enquanto tal, se não formos pelo menos um colaborador nessa produção, não estaremos fazendo análise”. O que me ocorreu, estendendo esse raciocínio, é que só faz física quem faz a física. O mesmo para quem faz música, etc. É o analisando que faz análise, como se costuma dizer, e não o analista. E se faz análise, alguma resultante haverá de acrescentamento à própria psicanálise. Está aí um protótipo: se fez, aparece. • AA – Você já mencionou que fazia faxina na psicanálise e em sua própria psicanálise... Me dei conta de que a psicanálise lacaniana estava fora de época. Não dava conta dos aparelhos que apareciam diante dela. Notem que não é preciso ser teórico. A pura e simples contribuição de fazer de sua análise um protótipo da análise, se for possível ser transmitido, já é muita coisa. • NM – Isso também vai no sentido da ideia de pensar a Pessoa como obra de arte.

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Por isso, chamei a antiga neurose de Morfose Estacionária: a pessoa não se mexe, não tem work in progress. • P – Qual a relação disso com o objetivo de uma análise ser chegar ao desenho de sua fantasia? Você disse que as pessoas falam pouco de sua fantasia. Ninguém pode falar pouco de sua fantasia. As pessoas falam pouco das resultantes de sua fantasia. Para alguém falar de sua fantasia, já tem que conhecê-la, saber como funciona. As pessoas, todas, em análise, têm séria dificuldade de expor as resultantes de sua fantasia em sua vida. Sobretudo, no que diz respeito à sexualidade. São inibidas nesse ponto. Talvez seja um fenômeno preponderante do Ocidente. Resultantes são as sacanagens das pessoas. Não há a liberdade de falar à vontade sobre seu tesão. • P – É isso a travessia da fantasia? Sem essa travessia, não se chega ao desenho da fantasia. Quando um Guimarães Rosa escreve as Primeiras Estórias, já tinha sacado a travessia no Grande Sertão. Primeiras Estórias é uma repetição – repetida – do entendimento. Em Joyce, temos o mesmo. Não é possível escrever Finnegans sem ter atravessado Ulysses. Em Finnegans, ele já soltou a franga. Saiu da língua materna, perdeu a mãe – e o pai. E mais, perdeu também a Igreja. Já Lautréamont entendeu os dois alelos, mas não deu conta da travessia em sua obra. Ele escreveu dois livros, Cantos de Maldoror e Poesias. Um é o oposto do outro. • PNC – Estou lendo Ulysses e percebo que Joyce tem a capacidade de percorrer tudo. Essa situação bem plerômica de revisitar o tempo, as formas de conhecimento, etc., é a fantasia dele ou diz respeito à fantasia de modo geral? As duas coisas, embora não seja qualquer um que monta um aparelho tão grande quanto o dele. Depende do repertório, da potência e do tesão de cada um. E notem que, no modo de montagem das formações, há um algoritmo que representa tudo. • AA – No caso de narrativas que são quase que expressão de arquétipos de constituição, macronarrativas, elas dão sequência a fantasias que lá se engataram. Temos a Odisseia, de Homero, Moby Dick, de Melville, Ulysses, de Joyce, e também O Velho e o Mar (1952), de Hemingway. Neste último, o velho tem a fantasia com o peixe e me parece o relato de uma fantasia elevada

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à enésima potência. A última frase do texto é: “...dormiu e agora estava a sonhar com os leões”. É um texto curto e preciso. Chamemos o Mar de Inconsciente. E o que é esse peixe que ele vai buscar de qualquer maneira? O velho era Hemingway. O que ele vivia caçando na África? • AA – Se pensarmos que Hemingway, em seus percursos marítimos, teria ouvido histórias que o levaram a escrever O Velho e o Mar, o que podemos pensar que Rosa, em suas incursões a cavalo pelo sertão, teria ouvido como história que resultou no Grande Sertão? Eram histórias que já estavam ali. Como sabem, Rosa anotava tudo que aquela gente lhe dizia. Já era material para o Grande Sertão. • NM – Em “Psychopathia Sexualis” (1996), você propõe a ascese ao Cais Absoluto pela via mística e pela via libertina. Você fala também que há um Revirão entre as duas. Ao mesmo tempo, no entendimento do lugar da psicanálise, você diz que o paradigma sexual deriva do estatuto místico. O paradigma, sobretudo, resulta diretamente d’Alei. Isto, por causa da quebra de simetria. É sexual por ser secante. • NM – Estou pensando na prosa e na poesia de Hilda Hilst dos anos 1970 em diante. Parece que ela precisou explicitar o radical afastamento das formações para, depois, produzir sua chamada pornografia. A arrumação que ela faz de Deus vai num crescendo até chegar a A Obscena Sra. D (1982) e como que, ali, fechar um raciocínio. Na sequência, o que vem é O Caderno Rosa de Lori Lamby (1990), Cartas de um Sedutor (1991), etc. Ela entendeu por onde goza – obscenamente, de pernas abertas. É um percurso excelente. Seu entendimento de Deus está em Espinosa, na NovaMente, em Santa Teresa, São João da Cruz, Mestre Eckhart, Silesius, e mesmo em Santo Antão, aquele maluquete... Sade também entraria na lista. • AA – E talvez Lacan, ao colocar-se no lado das Mulheres, também fosse incluído aí. Essas Mulheres estão todas no livro de Philippe Sollers, Femmes, que recomendei que lessem: Lacan, Foucault...

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18 Venho retomando a leitura de alguns livros para repensar certas relações com a NovaMente. São autores que não dizem a mesma coisa que ela, mas têm forte tendência a pensar parecido. Sobretudo, por terem abandonado os dois movimentos do estruturalismo – metáfora e metonímia – para substituir pela pura e simples Analogia. Isto, apesar de ainda estarem referidos a conceitos como sujeito e objeto, subjetividade e objetividade, o que prejudica o desenvolvimento da teoria que pretendem desenvolver. De qualquer forma, dá para aprender alguma coisa aproximável da Teoria das Formações. O mais antigo deles é Enzo Melandri, filósofo italiano de quem já lhes falei e cujos livros ainda não estão traduzidos por aqui. Os outros, a que me referi da vez anterior, são Douglas Hofstadter e Emmanuel Sander que, como disse, sem usar o termo, apresentam uma boa noção do conceito de Formação. • Potiguara M Silveira Jr – O que também é interessante no livro de Douglas Hofstadter e de Emmanuel Sander, L’Analogie: Coeur de la Pensée (2013), é os autores estarem preocupados com o que seja o pensamento. Essa preocupação me parece dizer respeito ao que possa ser colocado como modo de análise da situação em que estamos hoje. Dada a reconhecida ineficácia dos pensamentos produzidos até agora, se não houver clareza da máquina que produz e das adequações que um pensamento propõe, não se produzirá esse novo e necessário modo de análise. No prólogo do livro, temos que: “...sem conceitos, não há pensamento – e sem analogia, não há conceitos (...) todo conceito que está presente em nosso espírito deve sua existência a uma série imensa de analogias elaboradas inconscientemente no decorrer do tempo, engendrando-o e continuando a enriquecê-lo durante toda nossa vida”. O conceito fundamental deles é o de categoria que, como lhes disse da outra vez, por ser parecido, substituo por Formação. Já Melandri relativiza o conceito de semelhança, no sentido mais geral, ao mostrar que a analogia pode ter muitos tipos diferentes de forma. Repetindo, em nosso caso, o que interessa 123

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é que, há bastante tempo, substituímos as ideias de metáfora e metonímia por analogia. E também constituímos uma Teoria das Formações em que não entra o conceito de sujeito ou o de objeto. Eles ainda estão adscritos a esses conceitos. Isto, a meu ver, atrapalha a aproximação mais direta que poderiam ter com a teoria das formações. De qualquer forma, aprendemos muito com a leitura deles sobre o campo genérico que chamamos de teoria das formações. • PMSJr – As pessoas se aproximam de sujeito e objeto, assumem em sua formação teórica e não ousam abandoná-los? O conceito de categoria deles, por exemplo, seria suficiente para abandoná-los. Mas como são sintomas da cultura, é difícil para aqueles autores e pensadores que estavam referidos a sujeito e objeto abandoná-los completamente. • PMSJr – Tinha, então, que ser alguém aqui do Brasil para fazer isso? Tinha que ser um caipira. • Patrícia Netto Coelho – Categoria é um termo antigo, muito usado nas ciências cognitivas de modo geral. Reconhecem na categoria uma unidade básica do pensamento. O que esses autores que você citou estão buscando mostrar é que a categoria não é um sistema de classificação rígido, em que o pensamento colocaria as coisas em determinados escaninhos. Há um fluxo permanente e dinâmico de formações que ficam conversando entre si, é ad hoc. E em nosso caso, ao situar as formações como polos, ainda temos o foco e franja, que, esta, vai muito longe. • PNC – Há também o Recalque, que não é tematizado. Para eles, é como se o pensamento funcionasse sem recalque. Do ponto de vista do Inconsciente, mesmo quando há recalque, há alguma forçação de retorno do recalcado. É algo que está na sobra do recalque, ou para além dele na franja da formação. • PNC – Nessa dinâmica, não cabe a escrita. Ela não é computável, não é considerada nos estudos relativos à mente. Melandri leva isso em consideração. Seu conceito de analogia é elástico, não é muito fixo. • Aristides Alonso – A crítica à metáfora e a ênfase na analogia são antigas em sua obra. Depois, você desdobra a ideia de graus de reificação. Então, referindo-se ao momento de instalação do recalque sobre o processo 124

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analógico, você chamou de metafórico, e ao momento de instalação do HiperRecalque sobre o processo metafórico, chamou de hipóstase. E no que você está trazendo agora, qual seria o grau de decadência do processo analógico? Para mim, continua a mesma coisa. Esses graus estão em função de recalque. • AA – Em sua noção de analogia, o que está sendo trazido é: há formações. O que é possível fazer é uma por outra, outra por outra. Isso não passa pela ideia de significado ou de significação que herdamos da linguística e da retórica. Na melhor das hipóteses, significado e significação são efeitos das transas das formações. O que mais nos importa é, repito, parar de pensar em termos de sujeito, de objeto, de indivíduo e, diante de qualquer fenômeno, pensar em qual transa lá está e que formações lá estão em transa. E essas formações são compostas de quais formações? Assim, desconfiguramos essa força do imaginário de que há alguém falando. Não há ninguém falando, o que há são formações se exprimindo. Tanto é que outras formações, supostamente da mesma sede, da mesma pessoa, às vezes, estão em total incongruência com as formações em jogo em outras relações suas. Frequentemente, as pessoas não são inteiras porque suas formações não conversam umas com as outras. Então, faz parte de um processo de Cura alguém conseguir o máximo de transa entre todas as formações de sua composição para que tenham certas configurações mínimas e ele não seja um monte de cacos. • Nelma Medeiros – Você disse que mesmo a operação de recalque precisa levar em conta o foco e a franja porque, do ponto de vista franjal, não há como saber se ele está ou não funcionando? Mesmo quando parece que o recalque está impedindo certas formações franjais, ou mesmo certas formações focais, temos a questão do retorno abrupto do recalcado – que é coadjuvante da análise. Quanto mais se consegue desrecalcar, mais aparece a complexidade de seu foco e a importância das franjas. Começa-se a ir longe. Isso é algo que me parece bastante evidente em Finnegans, de Joyce. A coisa vai se espatifando, saindo de foco e abrangendo outras regiões, que são franjais.

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• NM – Em Lacan, ao pensar a barra (S/s) e dizer que o que há é o significante porque o significado não pespega, desliza, a barra seria um modo de apontar o efeito de recalque? Parece que ele estava operando indistintamente com foco e franja. Se desliza, não há como saber se está mais fraco como franja ou se estamos em foco? Como você sabe, são aparelhos distintos, os raciocínios não correspondem. E Lacan se deu conta, muito tarde, de que nunca é um significante, trata-se de um enxame de significantes. Ou seja, ele estava quase perto de foco e franja. • NM – S1 é, para ele, enxame de significantes. S1, essaim, como se pronuncia em francês, é: enxame. Então, cadê a situação? A coisa não está situada, está em movimento sempre. É claro que fazemos um recorte e usamos aqui e agora um pedaço da coisa. O mais importante em meu projeto é abandonar toda ideia de sujeito e objeto e, junto, as configurações imaginárias. Quando falamos com uma pessoa, temos a impressão de estar falando com aquela configuração. Não estamos. Nem em análise estamos escutando aquela pessoa ali diante de nós. É preciso nos abstrairmos dessa configuração para nos darmos conta das formações que a pessoa pôs em jogo. Ou melhor: das formações que põem a pessoa em jogo. E também das formações que constituem essas formações – isso é infinito. Ao considerar essas formações, temos um melhor manejo delas. Só se mexerá nas formações, o resto não interessa, é figuração, é também aquilo que Lacan chama de imaginário. • P – Tomando a palavra analogia em sua origem grega, temos nela o logos, a racionalidade. Que racionalidade se monta aí? A ideia original mais próxima da utilização grega é de proporcionalidade. Depois, isso vai variando com a ideia de alguma semelhança. A própria ideia de semelhança na geometria euclidiana é muito amarrada, é uma diferença de tamanho com a mesma forma. É isso que, para Euclides, é analógico. Não é do que estamos falando. Trata-se, para nós, de toda e qualquer proposta de semelhança, na qual pelo menos um elemento da formação que está em jogo possa ser tomado e mostrar-se semelhante a um elemento já conhecido. Ele tem alguma semelhança, alguma parecença. É bem mais abrangente. Lacan tentou cair fora da ideia de semelhança em Euclides pela topologia, uma vez que esta

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não permite muito que, pela forma, a semelhança seja encontrada. Tem que ser pelo raciocínio. • AA – No regime da articulação secundária, o analógico é praticamente uma pulverização de possibilidades. Só não o é quando é garantido pelos recalques expostos ideologicamente numa língua, numa cultura. Efetivamente, qualquer coisa pode valer qualquer coisa. Entretanto, se não houver certo recalque, não há analogia. Ela resvala o tempo todo. É preciso de certo recorte para se dizer que, enquanto recorte, isso parece com aquilo. • AA – É Guimarães Rosa dizendo que “nada mais parecido com um ovo do que um espeto”. Sim. Porque são dois alelos do mesmo halo. • AA – Marshall McLuhan foi um dos primeiros a ter um entendimento cibernético das transas das formações. Ele dizia que, na comunicação, o significado de um meio é outro meio. Daí, ele também dizer que o meio (medium) é a mensagem. Kittler desdobra o raciocínio dizendo que há aliança mediática. Ou seja, ao distinguir-se um meio, verifica-se que ele já é formado de outros meios. É o que está na Teoria das Formações. São formações, compostas de formações, de formações, que estão transando com formações. Focar isso, é um ato de recalque. • AA – E você vai atacar a ideia de consistência. As formações não são consistentes. Só há consistência no Haver por operação de alguma ordem recalcante. As formações do Haver, espontâneas, são coalescências, parecem estar fechadas. Quanto mais a ciência tenta penetrar nas formações, mais encontra sub-elementos das formações das formações. Haja vista a teoria das cordas, na física atual, que trabalha com o conceito de branas. Ela lida com vibrações, é como se fosse música tocando. É apenas do ponto de vista auditivo, pois sua materialidade é pura vibração. É uma nota musical escutada. Se forem procurar a materialidade dessa nota, encontrarão uma vibração. A coisa foi bastante longe no sentido de que há formações, que são compostas de formações, que são compostas de formações, que são compostas, em última instância, de quase nada.

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• PNC – A situação de atendimento exclusivamente on-line a que nos vimos levados atualmente tem se mostrado muito cansativa. Talvez se deva a uma questão de foco. Ficamos nos vendo em janelinhas que excluem um enxame de formações que temos na situação presencial. Minha questão quanto à análise on-line é justamente essa. Apesar de certa funcionalidade, o quadro fica reduzido. • P – O planeta inteiro está obrigado ao contato on-line. O planeta está debaixo de um recalque violento. Recalcamento, sobretudo, das leis. As leis estão sob recalque. E as pessoas bem que podiam aprender com essa lição. Por que não fazer o mesmo com os outros recalques, dar a volta neles? Por que não generalizar esse dar a volta de algum modo? • PNC – Voltando à analogia, vejo que você fala em semelhança. Sempre entendi que a analogia estaria baseada nos denominadores comuns entre as formações. Já a ideia de semelhança me parece mais precária. Denominador comum me parece melhor. Pode ser uma semelhança meramente regional. Mas eu digo semelhança no sentido geométrico da palavra. • PNC – Ela remete ao sujeito. É este que decidiria sobre a semelhança. Quem decide sobre a semelhança é outra formação que está em jogo. Chamei atenção para o conceito de analogia de Melandri porque é esgarçado. Para ele, trata-se de qualquer parecença. Temos um conjunto enorme de formações e descobrimos aí no meio um sub-conjunto que, por semelhança, dá para fazer passagem para outra formação. Isso não é um denominador comum. Pode ser um fragmento comum. Por exemplo, na música, temos o fenômeno de composição que é estar compondo uma peça em certa tonalidade, mas há uma nota que faz parte desse tom e também de outro. Assim, mediante essa nota – chamada nota comum –, muda-se de tom. Isso é uma forma de analogia. • PNC – Minha dificuldade é com a ideia de semelhança, e não de analogia. Então, digamos que é uma forma de similaridade. A formação parece ter a mesma composição que a outra. Denominador comum é aritmético demais, é pobre. • PNC – Espinosa falava em noções comuns. 128

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É um caso de similaridade. Uma coisa nos lembra outra, aí arrasta com ela a formação da qual faz parte. Faz uma passagem de semelhança para outra formação. É tudo muito sensível, mas, no caso da escala musical, é muito preciso. Está dentro do campo da ordem tonal. Vimos compondo numa tonalidade mediante uma nota que pertence a esta tonalidade quanto a outra. Isto é semelhança. A coisa passa macio, pois parece não ter salto. É parecido e proporcional. • AA – Esses raciocínios da nota comum e da similaridade são compreensíveis dentro da tonalidade. Mas quando se passa para uma música dodecafônica ou para uma música atonal, muda a sistêmica de analogia? Se a tonalidade é sempre composta por doze sons, qualquer nota é comum. A harmonia de Schoenberg não pode ser a de Bach. • AA – O que Joyce faz em Finnegans é uma dissolução de tornar tudo comum. Lembra mais a música dodecafônica do que a tonal. É também o que faz Marcel Duchamp. São todos do mesmo naipe. • P – E sua chave do Revirão é da ordem dessa equivalência do-que-quer-quê com... ...o-que-quer-que seja. Note que é mais do que mero dodecafônico. Vale qualquer transformação. Metamorfose não tem sempre a mesma regra. Pergunte ao Escher.

19 Já lhes disse que o Inconsciente funciona em Revirão. Revirão é unilateralidade. Quais são seus antecessores? Esses antecessores estão embutidos 129

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no Revirão como possibilidade. Digamos que o desenho abaixo possa ser a representação do Plano Projetivo:

Ele não tem bordas, não tem margem, não tem dentro ou fora, e nenhum tipo de distinção entre um ponto e outro. Já a banda de Moebius é produzida de um buraco feito no Plano Projetivo:

Ou seja, ela já é unilátera e serve para fazer a representação da Bifididade dos pontos do sistema opositivo de toda e qualquer afirmação. E se fizermos mais um furo no Plano Projetivo, saímos da contrabanda e entramos na Bandacontra. Ou seja, com dois furos sobre o Plano Projetivo temos uma banda bilátera:

Posso usar qualquer dessas formações como representação dos movimentos do psiquismo. Se temos a banda bilátera, estamos no campo do recalque, da eliminação de um dos alelos para considerar apenas um alelo. Se eliminamos um furo, voltamos para a banda de Moebius, unilátera. E se também eliminamos o outro furo, voltamos para o Plano Projetivo. Então, ao dizer 130

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que o funcionamento é bilátero e cortar a banda de Moebius para representar, isso é porque ela dá certa arrumação à ordem da nossa construção mental – e, portanto, até linguageira. Qual Sexualidade está em jogo aí? Não estou falando de gênero, este não me interessa. Se estivermos considerando os dois furos, estaremos numa banda bilátera, e teremos uma oposição (não entre masculino e feminino, mas) entre heterossexualidade e homossexualidade. Ou seja, se estivermos nos dois furos, estaremos aprisionados na homossexualidade ou na heterossexualidade. • NM – Mesmo você já tendo dito que só há heterossexualidade porque o sexo é sempre outro? Estou agora falando em termos de relação de corpos. Se você cair nos dois furos, que é o que o campo do recalque faz – e o campo da cultura costuma (não sempre) fazer –, você é carimbado, é heterossexual ou homossexual. Mas se eliminar um dos furos, você passará para a unilateralidade, que é a bissexualidade de que Freud falava. Ele supunha que, no Inconsciente, todos são bissexuais – são anfissexuais, diremos hoje. E se eliminarmos os dois furos, que sexo será esse? Qual é a sexualidade daquele que ultrapassa a bissexualidade? Qual é a sexualidade daquele que elimina os dois furos? Ele passa imediatamente ao campo do Místico. Com o quê João da Cruz e Teresa estavam gozando? • NM – Uau! Você acabou de fazer um raciocínio em abismo. Pois é. Qual é a sexualidade do Plano Projetivo? É uma sexualidade qualquer – no sentido do termo “qualquer” em geometria. É uma sexualidade em que se pode gozar com Deus, por exemplo. Com o puro e simples Haver. • NM – E esse aí nem é o regime lógico da anfissexualidade. A anfissexualidade é barata. O Sexo do Plano Projetivo é muito mais avançado. E o psiquismo que está sendo expresso pela Bifididade do Ponto Bífido passa a deixar esse ponto ser qualquer. O que é um ponto qualquer? O que é uma sexualidade qualquer? O que estou dizendo não é mera especulação geométrica, pois é encontrável nas respostas que o mundo já deu sobre o exercício da libido. • P – Seria aquele que goza com qualquer formação?

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Ou, se não, escolhe uma formação qualquer e goza com ela. E não tem bissexualidade, pois esta é como coisa de animal, está-se contando com a diferença sexual reconhecida. O que fazer com a diferença sexual qualquer? Aí, entendemos bem o que é uma formação. Com que formação essa pessoa está gozando? Não é com formação anatômica de gente. • PMSJr – Em 2005 – Clavis Universalis, item 13 –, você propôs a seguinte Hierarquia Sexual: “- O grau zero, o grau supremo na hierarquia sexual, é a castidade absoluta. O sexo em estado originário é igual ALEI, AÃ. Não há nada mais tesudo ou valorizável para a psicanálise do que a castidade. Fazer sexo em estado originário é ser casto, ou seja, só se faz sexo e mais nada: Haver quer não-Haver. Sobretudo ali, no terror de fazer o sexo com não-Haver. / - O primeiro grau, o grau maior, é a castidade relativa: a automasturbação, com ou sem próteses externas (filmes, consolos, gadgets). O sexo está aí em estado primário e secundário, mas sem presença efetiva de outrem e sem possível reprodução imediata. É o sexo completamente desinteressado de reprodução. / - O grau médio é a transa homossexual: o sexo em estado primário e secundário com presença efetiva de outrem, mas sem possível reprodução imediata (pois com jeitinho, mediante alguma coisa, hoje já se consegue fazer a reprodução). / - O grau menor é o sexo em estado primário e secundário com presença efetiva de outrem e com possibilidade de reprodução imediata. É o mais primário, pois quanto menor o grau, maior o primarismo da operação. Este grau menor é a chamada heterossexualidade”. Quando, para uma pessoa, seu gozo maior é a castidade, isso é o Sexo Qualquer. É uma de suas expressões. Isso é importante porque, na história – até mesmo da psicanálise –, as pessoas encontravam uma sexualidade qualquer e pensavam que tinham que curá-la, pois achavam que fazia parte de alguma neurose ou psicose. Tomem o poema de Olavo Bilac e, em vez do “Ora (direis) ouvir estrelas”, digam “Ora (direis) foder estrelas”. Ou vocês acham que não há gente que goza com as estrelas? Há que pensar, repito, em termos de formações, e não de configurações. Mesmo o significante, no que está apegado ao sintoma chamado língua, é muito mais configurado do que uma formação qualquer. • NM – Aí, voltamos ao regime da analogia de que falávamos antes.

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Para segurar bem uma analogia, é preciso colocá-la em decadência como se fosse, por exemplo, um significante de uma língua. • P – O que foi dito parece ter a ver com o traço, de que falava Freud. Apaixona-se por alguém portador de sobrancelha de tal formato que lembra a da mãe, por exemplo. Isso é fazer analogia mediante uma formação pertinente a outra grande formação. • P – Se a fantasia, como você diz, é um limitante, como acontece essa sexualidade qualquer? Quando alguém tem certa noção de sua fantasia, pode tomá-la e enfiar em qualquer buraco. Já disse que é um algoritmo, e não uma configuração. Se a pessoa chegar cada vez mais próximo dele, esse algoritmo poderá ser instalado em qualquer computação. • P – Perguntei a você ano passado como gozaria uma IdioFormação com um tipo de base não carbono como a nossa. Acho que, hoje, entendi sua resposta: gozará de qualquer jeito. E sempre haverá algo que desenha o gozo. Lembra do caso da analisanda que relatou que transava com as árvores? Há algo que está em Lacan e é maltratado pelos leitores: o gozo fálico, o gozo do sentido e o gozo do Outro. Pergunte à Teresa que diabo é esse tal gozo do Outro. Ela dizia “morro de não morrer”. Como se morre de não morrer? O gozo sexual propriamente dito, em francês, é chamado de “pétite mort”. Ou seja, mesmo o gozo fálico, de Lacan, é uma mortinha. Não esquecer que a Pulsão é de Morte, tenta o tempo todo visitar a Morte: a Morte (que não há) é um tesão. • NM – Você falou em Plano Projetivo, unilateralidade e bilateralidade. Nessa última temos a situação binária hetero / homo. Há um efeito de recalque empurrando para um ou para outro. O Dr. Freud toma isso e diz – não assim tão direto por ser alguém do século XIX – que, uma vez retirado o recalque, é-se bissexual. Ou seja, passa-se para a unilateralidade. • NM – Na unilateralidade, no Bífido – que é o Terceiro anterior à oposição –, se é bi, como diz Freud, ou anfi, como você já colocou. Então, exasperando isso, caímos no qualquer? 133

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Você não é anfissexual, heterossexual ou homossexual. Você é qualquersexual. Ou seja, você é: sexual. • NM – Topologicamente, tem a ver com o que você quis marcar com a função Gnoma. Em termos cognitivos, seria a analogia? É a possibilidade da Gnômica. Uma Gnômica não pode ficar paralisada na dualidade ou na unariedade. Ela tem que ter conhecimento qualquer. A história do conhecimento foi de extrema binarização durante milênios. De repente, ele começou a ficar bissexual, bífido – haja vista a física. Como levar isso até o conhecimento da Teoria de Tudo? O que seria uma teoria de tudo senão uma Teoria Qualquer? Os físicos estão correndo atrás dela, mas sequer estão conseguindo ficar livres da bissexualidade do Haver. • NM – Você tentou falar disso na arte a partir de Duchamp: a Arte Total. Em última instância, é o que está na cabeça de Duchamp, de Joyce (pelo menos, no Finnegans), de Schoenberg, de Alban Berg... É a tentativa de escapar geral. • NM – Nos anos 1990, você perguntou por que a ideia de ready-made, de Duchamp, não vazou para a ordem política, social. Ainda está tudo tão compartimentado que parece inviabilizar esse vazamento. Como diria Lacan, estamos vivendo num ambiente de governo absolutamente homossexual. • P – O Budismo seria uma prática referida à unilateralidade? O pensamento de Buda, de Sidarta Gautama, nasceu como um pensamento oriental. E mesmo que tenha organizado sua instituição, nada tinha a ver com religião, era um pensamento em exercício. Como todo pensamento é fagocitado pela mediocridade, acabou virando religião com toda a palhaçada que a religião do budismo tem. Aliás, todas as religiões são grandes palhaçadas. Basta olhar uma missa no Vaticano para ver o espetáculo circense que é. Tomemos algo lateral que nada tem a ver com Buda, mas nasceu naquele espírito do Oriente que é o Zen. É um pensamento de Lao-Tze, que induz certo comportamento. Ele pode viger em qualquer situação de mundo, oriental ou ocidental. Então, fica esquisito ver, como vi outro dia na televisão uma monja zen-budista que tinha todo o sotaque de uma freira católica, cheia de amor 134

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para dar. Zen não tem amor para dar, não transa por aí. Aliás, esse amor todo é simplesmente para recalcar a Morte. Menciono isto para acompanharmos a decadência de um pensamento sóbrio, sério, que se fantasia de japonês para ser tido como zen. Por que fantasiar-se de japonês se o Zen é um pensamento, e não um teatro? O mesmo aconteceu com a psicanálise. Basta observarmos as instituições psicanalíticas para ver o ridículo de seus procedimentos. • AA – A psicanálise surge metida com a questão da fala. No século XX, ela foi tida como constitutiva da essência do falante. É o parlêtre, como chamava Lacan. O pessoal da linguística trouxe o conhecimento de poder abordar a língua com uma ferramenta digital, e Lacan veio com o significante tentando freudianizá-lo o mais possível. Já a Teoria das Formações veio colocar a língua como apenas mais uma formação. O que disponibiliza pensarmos que a espécie venha comunicar-se mediante outros vetores que não o linguístico. A espécie já faz isso há tempo. Lacan fazia a suposição, a meu ver errada, de que todas as falas da espécie necessariamente passariam pela língua. Einstein disse que não precisava de língua alguma para articular seus raciocínios. Outro exemplo, uma invenção arquitetônica – da qual se pode falar muito durante a composição –, que linguagem é a de um arquiteto organizando formas sobre a prancheta? Não passa necessariamente pela língua. Entretanto, Lacan foi esperto, saiu-se bem ao dizer que “o Inconsciente é estruturado como uma linguagem”. Não é língua ou fala. Ele disse que a língua é estruturada como um sintoma. Se, então, o Inconsciente é assim estruturado, como uma linguagem, qualquer tipo de expressão serve para se colocar nesse lugar. Brincando em francês, eu disse mais abrangentemente: l’Inconscient est structuré comme on l’engage – como a gente o engaja em qualquer lugar. Ele se estrutura na relação com aquela formação, como está no dito de Einstein mencionado há pouco. Não há especificamente um ser falante. Este já é consequência da estrutura do Inconsciente como Revirão. Por isso, esse mesmo Revirão é capaz de resultar em tantas linguagens: corporais, arquitetônicas, musicais... Ao compor uma peça estritamente musical, precisa-se da língua para quê? As articulações são estritamente musicais. E é, sim, uma linguagem. Quem faz isso? Quem revira.

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• AA – Mesmo porque, hoje, vivemos uma comunicação binária, 0/1, e quase não percebemos que ela é o substrato do processo comunicativo eletrônico. Isso não é língua, é código. E esse raciocínio ainda não é quântico. • AA – É possível que se venha a criar comunicação interpessoal mediada por uma linguagem inteiramente digitalizada, computacional. Para poder funcionar, terá que ser quântico, terá que entrar o Bífido. O computador quântico quer introduzir a Bifididade. • AA – Freud, ao falar de formações do Inconsciente, não está falando o mesmo que a Teoria das Formações. Ele verificava que aquilo comparecia na língua, mas não estava tomando a língua como formação do Inconsciente. Estava preocupado com o chiste, o ato falho, os lapsos. Lacan alarga isso, mas, segundo a NovaMente, entender a própria língua como uma das formações e aquelas formações (chiste, ato falho) como um aspecto dela traz um outro entendimento do que seja formação do Inconsciente, que será chamado: formação do Haver. Por que um botânico pode classificar vegetais? Porque cada vegetal comparece com suas figurações, como certa formação. Ao descrever uma formação, vê-se que é diferente de outra. Descrevendo essas formações, surge uma ciência chamada Botânica. E assim por diante.

20 • P – Retomo a questão da realidade, sobre a qual conversávamos outro dia. Se partimos de que “tudo que se coloca é da ordem do conhecimento”, como 136

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você diz, me pareceu – quanto à situação da atual pandemia – que havia certas informações mais adequadas do que outras. Você falou em certa hierarquia das formações e mencionou o Primário como índice de referência para ela no sentido de pensar o ad hoc, a adequação. O assunto era o vírus e a disputa, no Governo do país, quanto à narrativa da realidade sobre ele. Numa outra vez, falando da mecânica quântica, você mencionou que ela não iria descrever uma realidade física... Indo ao ponto que me interessa hoje: o que a NovaMente chamaria de realidade? Como a NovaMente trata da realidade? Trata como formação que hierarquizaria outras formações de formações? Um pouco confusa sua intervenção, acho que já falei sobre isso outras vezes, mas tentarei de novo. Em primeiro lugar, uma brincadeira. Para mim, a melhor definição de realidade foi dada por John Lennon ao falar sobre a vida: é o que acontece enquanto estamos planejando outra coisa (Life is what happens to you while you’re busy making other plans). Aliás, é algo, que cabe perfeitamente pelo menos com a morte dele. Agora, em termos da NovaMente, realidade é a suposição que fazemos de que algumas formações são externas às nossas formações. Mas essas formações não são, para nós, uma completa realidade. Diante de qualquer suposição de realidade no mundo, estamos apenas coletando algumas formações que estão transando com muitas formações do lado de cá. Então, o que existe é uma transa de formações supostamente incluídas aqui e formações supostamente incluídas lá. Tudo isso se dá no nível das transas de nossas próprias formações. Por isso, a pessoa até delira, tem alucinações. Depende de que formações estão transando com supostas formações externas. Daí que, a cada momento, escolhemos um sistema hierárquico de valores para nos orientar. Hierarquizamos ad hoc nossas transas entre formações. Não temos sujeitos e objetos, e sim formações transando com formações. São formações transando com formações internamente, digamos, e formações transando com formações supostamente externas. Elas serão alucinatórias ou não. A única prova que poderemos conseguir é quando aplicarmos alguma técnica, ou seja, um conjunto de formações pragmáticas, no sentido de abordar aquilo que estamos supondo ser realidade. Quando funciona – e funciona sempre parcialmente –, temos certa prova de realidade, prova de que aquilo lá fora estava lá mesmo e que transa com as formações de cá. É só o que se tem. A história 137

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da ciência é um conjunto de suposições descritas, às vezes matematizadas, sobre transas de formações do lado do cientista com formações que ele supõe estarem do lado de fora. Tanto é que a história da ciência vai variando. Se a realidade se apresentasse estritamente, digamos, como ela é, baseado em que a ciência teria progresso? Então, o que quer que possamos chamar de progresso da ciência é progresso da ficção que vai se aproximando da possibilidade de se intervir na relação de nossos atos com o que estamos supondo que seja a realidade. Isso faz certa hierarquia. Se funcionou, deve ser melhor do que o que não funcionou. Qualquer suposição de realidade é mera suposição. Há que fazer o teste a cada vez. • P – Supor que haja formações externas e formações internas não seria outro modo de apresentar o problema do objeto e do sujeito? Não. Sujeito é um conceito estrito, decidido em certo momento, variável segundo a história. Ao falar em transa de formações, não se está falando em centralidade alguma. A suposição de centralidade está no sujeito, no indivíduo. Na Teoria das Formações não há essa suposição de centralidade. Já lhes disse que as pessoas não são inteiras, não são um conjunto de formações coerente, uma em conversa com as outras. Elas são um monte de cacos. Às vezes, trabalhamos lentamente toda uma vida para tentar ajuntar os cacos que compõem nossa formação. A psicanálise tenta um pouco isso. Quando estamos em certo modo de operação, estamos colocando algumas formações em transa com outras formações, mas quantas ficam de fora? Não há centralidade alguma, repito. A ideia de centralidade é puro delírio. A, digamos, constância de uma pessoa é apenas a repetição sintomática de sua situação no mundo. Quando alguém passa por uma situação drástica ou extremamente variada, começa a estranhar sua própria pessoa. Nossa constância depende da repetição de algumas formações, que são as mais utilizadas, e da repetição das formações primárias que fazem lastro e que, às vezes, não nos deixam movimentar mentalmente como gostaríamos. • P – Poderíamos nomear o que seriam as formações externas? São mera suposição por repetição. Estamos tendo alucinações ou realmente esbarramos em algo? Estamos andando, tropeçamos – no quê? – e caímos. Aí fazemos a suposição de que havia algo do lado de fora que nos fez tropeçar. Vamos lá verificar e encontramos algo em que devemos ter esbarrado. São 138

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transas entre formações. Tomem o caso comum de alguém que, de repente, perdeu as estribeiras – ou seja, a repetição de suas formações falhou –, que tropeçou em nada e caiu. Ele alucinou algo em que esbarrou mesmo e caiu. O que fazer com isso? O difícil de aceitarmos para sobreviver e conviver é que estamos permanentemente dentro de um mundo de ficções. Tomem, por exemplo, a física de Newton que é um belíssimo conjunto de suposições que funcionou bem em relação a supostos elementos externos ao Sr. Newton naquele momento e daquela forma. Já veio outra ficção, a de Einstein, que diz que não é bem assim, que a gravidade não é questão de força de atração, e sim de geometria do espaço. Isso é uma reaproximação de algo que supostamente está lá. Ao descrever esse algo, e a descrição parecer funcionar no papel e nos atos de lidar com essa suposta realidade, começa-se a ter elementos de afirmação da realidade dessa suposição. Realidade é só-depois. Esbarramos em algo que não sabemos o que é. É como está no ‘readymade assistido’ de Marcel Duchamp intitulado À bruit secret, de que já me utilizei [em 2013] para ilustrar a diferença entre Haver e Ser: ouvimos o barulho, há algo, mas não sabemos o que é. Se fizermos um esforço de transa de formações, com várias operações, poderemos achar que descobrimos as formações que lá estão. Aí as nomeamos, escrevemos. Estaremos, então, passando de Haver a Ser. O que é aquilo que havia. Qualquer pensamento, por mais refinado que seja, é igual a isso. Esbarramos com algo que parece que nunca vimos, não sabemos nomear e começamos a fazer transas de formações ao redor, procurar aproximações e, um dia, descrevemos, medimos, calculamos e fazemos uma ficção sobre aquilo que haveria lá. Aí, dizemos: Isso é assim-assim – por enquanto. • Aristides Alonso – Suponho que, no que você está dizendo, há uma teoria da ficção em que a analogia é um componente forte. O primeiro passo dela seria a distinção entre Haver e Ser. A ficção se coloca no âmbito do embate entre os dois, o que a desloca das ordens simbólica, representativa e linguageira, que são as usuais das teorias literárias da ficção. Sua teoria implica o Primário, a HiperDeterminação, o Secundário e as afetações sobre o Primário. Um segundo passo seria o que você traz como Ficção / Fixão: uma prótese e sua decantação como graus de reificação: de analogia para metáfora, e desta para hipóstase. Outro passo estaria no que, em 2014, você chamou de Quatro 139

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INVs: Invocação, Invenção, Investigação e Investimento. Então, me parece que essa máquina assim construída se junta com a ideia de Artificialismo do Haver. Entra aí um conceito de Mimese que, para você, diz respeito à imitação do Haver e à imitação das produções do Haver (incluindo aí a distinção que você faz entre Criação e criatividade). E a analogia seria o modo de operação da mimese assim definida. Portanto, quanto à questão da realidade, mantém-se na NovaMente o que em Freud era tratado como Princípio de Realidade e Teste de Realidade – só que in progress. Nessa série deve também ser articulada sua formulação “o mundo sou eu”, pois ela se configura tanto na ficção quanto no que se entende por realidade. Há também três outras articulações suas a entrarem aí, que são os regimes do era uma vez, do faz de conta e do é assim, que estão no âmbito de uma ficcionalidade genérica. Todos esses pontos estão envolvidos no que foi dito acima sobre a realidade. • P – Então, a hierarquia das formações de que você falou se organiza no sentido de operacionalizar a eficácia das ficções? Quanto mais abstração houver, mais concretude teremos? As operações de ficção da física são os melhores exemplos para vermos as ficções ficarem mais rarefeitas, mais abstratas. A pessoa olhava para o céu por um telescópio primitivo e via bolinhas girando em volta do sol e, ao ficcionar, achou que era isso. Sabemos, segundo as novas ficções, que não há bolinha alguma girando em volta do centro. Por isso, temos sempre que estar no regime do ad hoc, do que é possível articular ficcionalmente e com eficácia hoje. As pessoas ficam muito preocupadas, pois o chão delas é tirado a cada nova ficção. Mas onde está o chão, em cima ou embaixo? • P – Estou lendo A Fé e a Razão: história de um mal-entendido (edição francesa de 1996), de Nayla Farouki, que você indicou na época. A autora coloca a ideia de realidade como aproximação do mundo empírico. Diz que o progresso da ciência se dá principalmente mediante a produção de objetos que empenham os nossos sentidos. O que existe é a aproximação de algumas formações supostamente situadas aqui com formações supostamente situadas lá. Daí resulta uma ficção que pretende dizer o que aquilo que está havendo lá é. E a ficção pode ser posta 140

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em prática para verificação. Quanto mais eficaz for, mais parecida a ficção será com alguma suposta realidade. Ainda está um pouco longe, mas os pequenos vírus irão ensinar que caminhamos para uma época em que entenderemos que somos nefelibatos, que andamos sobre nuvens. O termo está bem coerente com a teoria da comunicação de hoje, uma nuvem em que se guardam as informações – as nuvens são deslocáveis. O difícil é aprender a viver em cima dessa falta de chão, simplesmente jogando com as formações. As pessoas ficam procurando âncoras definitivas ou, pelo menos, com aparência de absoluta segurança – elas não existem. • Patrícia Netto Coelho – Para pensar sobre a desconsideração da realidade, lembro-me de que, quando a epidemia chegou à Itália, Giorgio Agamben escreveu um artigo bastante crítico às medidas de isolamento fazendo afirmações do tipo “a epidemia é uma invenção para justificar a instalação do estado de exceção”, que se tratava de uma retórica ideológica... Essa atitude é bem paradigmática da ideia de que a realidade é uma invenção do sujeito, uma invenção humana, que podemos dizer qualquer coisa... Mas podemos tentar procurar eficácia, procurar formações que venham a comprovar a eficácia da própria ficção. • PNC – Mas, no caso de Agamben, não faltou teste de realidade, como diria Freud? Ele supôs que havia. Ou seja, estava com pobreza de formações para considerar. Ou fez exclusão de formações importantes... • P – Você mencionou o caso de tropeço em algo e, depois, buscar-se saber o que era. Isso só será possível mediante a produção de próteses, que sempre será capenga e provisória. Trata-se sempre de criar o que dê mais clareza e eficácia em relação às formações que consideramos. Não há como sair do fato de que a produção será capenga e provisória. Por outro lado, existe a hipótese da constituição do conhecimento pela crença. E aquele que acredita é capaz de fazer as maiores barbáries em função da crença que ele tem de que aquilo é. Já aqueles que conseguem pensar não acreditam que nada é nada. Diante de coisas que estão aí, de situações de haver, sabem que tudo que se pode dizer que é é precário e provisório. Resta sempre saber se funciona. A teoria de Newton sobre a realidade 141

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funciona dentro de um campinho restrito, dentro do conjunto de formações que ele conseguiu manipular. Ele conseguiu produzir uma prótese e verificar que aquilo funcionava com aquela aparência. Mas só nesse limite. Saiu dele, não funciona mais. Portanto, o que há por trás da teoria de Newton não foi tocado. Um Einstein vem e acha que há mais coisa lá além do que Newton disse que é. Tentará, então, dizer o que é que há atrás da teoria de Newton. E dirá tudo? Não. Só dirá Einstein. • P – Freud, quanto ao recalque, está falando da realidade psíquica, e não dos Artifícios Espontâneos ou Industriais do Haver. Ele está falando da realidade do Inconsciente, do pensamento... ...que também são artifícios. • P – Ficamos preocupados com o que Freud chamava de realidade externa, com a fatualidade. Para a NovaMente, são resultantes das transas entre as formações. São supostas realidades. Aí, veremos se dá para funcionar com a suposição que temos. Só isso. Se funciona, tivemos sucesso em relação à eficácia de nossa operação. • P – Não há uma realidade política a ser considerada em todas as transas, mesmo nas científicas? Sim. Bruno Latour já tratou bastante disso. Por que a igreja católica pôde colocar Giordano Bruno na fogueira? Fazer Galileu calar a boca? Porque, na ocasião, a realidade política se impunha como poder mais que a científica. Hoje, nós é que podemos colocar o papa na fogueira. Aliás, ele está sozinho lá naquela praça enorme, vazia, tadinho. Será que o vírus superou Jesus Cristo? • AA – Estamos falando sobre duas palavras que estão conectadas: real e realidade. No âmbito da NovaMente, a realidade pode ser pensada como a pletora de aparências primárias e secundárias, enquanto o real fica adscrito à potência do Haver enquanto tal. Outra coisa envolvida aí é a oposição entre teoria e prática. Dizia-se que a prática era o mais importante, mas o que vemos é a necessidade de uma prática eficaz na situação atual e não se tem uma boa teoria para essa tal prática. E a teoria é uma prática adequada à situação. É uma prática de outro nível. Há vários níveis de articulação sobre o que quer que seja. Da outra vez, 142

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desenhei como a sexualidade pode funcionar como algo de ambos os lados ou em salto radical, e alguém mencionou que eu, há tempo, havia dito que a homossexualidade não existia. São dois níveis diferentes de abordagem. As duas concepções estão certas. Quando falo sobre homossexualidade e bissexualidade, estou dizendo que as configurações dependem do imaginário das escolhas, que é um tipo de abordagem entre formações. Mas, se considero o que está se passando ali do ponto de vista do psiquismo, digo que a suposição de homossexualidade é meramente optativa, não existe do ponto de vista da estrutura da sexualidade. São dois níveis. Mesmo na história do conhecimento, as pessoas se esquecem de deixar clara a formação contextual dentro da qual estão pensando. Mudou a formação contextual, muda tudo. A Teoria das Formações precisa o tempo todo lidar com esses níveis porque ela é necessariamente assim. • PNC – Sobre a eficácia... ...a eficácia depende de seu desejo. • PNC – Também ficcionamos isso. Seu desejo foi satisfeito? Se foi, foi eficaz. É claro que seu desejo está referido a certas formações em jogo. Então, elas também entram em consideração quanto à eficácia, mas você perseguiu determinado caminho só porque quis. Naquele momento, seu tesão foi esse. Quanto à noção de história, por que os acontecimentos vão determinar as formações do mundo, da política, da geopolítica, etc.? O que aconteceu? Qual caminho foi seguido? De quem era? De que formações? Não poderia ter sido outra coisa? Como sabem, sempre reclamo de o Terceiro Império não ter sido fundado por Júlio Cesar, ter ido parar na mão de Constantino e acabar sendo cristão. Ele não tem que ser cristão, é simplesmente o Império d’Ofilho. Por que acabou sendo cristão? Por causa das ficções do momento. E quando o Quarto Império se instalar, qual será sua configuração? Pode ser uma bela de uma porcaria. • P – Retomando a questão do conhecimento, do Artificio Espontâneo, muitos discursos vivem de uma seleção das ficções. O que se consegue com isso? Consegue-se algum resultado que dará aval à suposição de que aquilo é verdadeiro.

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• P – Depois, quanto ao progresso do conhecimento, você falou do progresso das ficções no sentido de adquirirem maior poder de intervenção. E quanto à ideia de analogia como base do conhecimento, é possível pensar uma boa ficção como sendo o destacamento de uma boa analogia no sentido de mapear de forma satisfatória o que se supõe como realidade? Haveria um critério analógico na seleção das ficções, da ficção que servirá aqui e agora? Se tivermos a paciência de pesquisar, acabaremos verificando que todo passo adiante no sentido de acrescentamento do conhecimento, consequentemente do acrescentamento da produção de próteses, é uma mudança de analogia. Sempre que a espécie humana, mediante alguns inventores, tentou construir algo novo, ela, primeiro, fez uma analogia de má qualidade. Os primeiros carros pareciam locomotivas, não conseguiam uma analogia melhor. Basta olhar para a evolução do design dos automóveis para ver isso. Ela foi se afastando de formas conhecidas e se fazendo análoga a outras formas. À do avião, por exemplo. O átomo é também um exemplo de analogia ruim de começo. Na história da psicanálise, com o tempo, as analogias que Freud buscou para explicar o Inconsciente foram evidentemente ficando grosseiras demais. Lançando mão de outros surgimentos ao redor, nas mãos de Lacan a analogia mudou e a psicanálise passou a ser análoga a outra coisa que a explicava com mais refinamento e abstração. Entretanto, isso também chegou ao fim e foi preciso uma analogia com a contemporaneidade e a dispersividade das formações. As analogias têm que ser transformadas, se não, ficam caducas. Em Freud, a analogia da psicanálise é o Inconsciente ser estruturado como uma mitologia. Lacan discorda, volta a Freud e traz outra dica, a de que o Inconsciente é estruturado como uma linguagem. Agora, brincando com a frase de Lacan, digo eu que l’Inconscient est structuré comme on l’engage. Ou seja, ele se estrutura no que se engaja em uma formação qualquer. A estruturação é ad hoc. Então, ao tomar um psiquismo mais ou menos paralisado, isso que chamamos de Morfose Estacionária, vemos que o Inconsciente está totalmente engajado em formações estacionárias. Mudei a definição. Lacan também mudou, só que ficava dizendo que era aquilo que estava em Freud. Também digo que o que digo é o que estava em Freud. O Inconsciente é ad hoc. Ele se engaja ad hoc nas formações em que se engaja. Se essas formações mudam, pode-se 144

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ultrapassar uma Morfose Estacionária, por exemplo. Ao acompanhar durante muito tempo, na posição de analista, uma análise que funciona, ou seja, em que as formações são deslocadas, vê-se nitidamente o engajamento anterior daquele Inconsciente em formações paralisantes que foram sumindo e o engajamento agora em outras formações. • P – Na análise, as formações se engajam no sentido de maior abstração? Nem é preciso falar em abstração aí, pois é no sentido do deslocamento de formações paralisadas, de acrescentamento de transas entre formações. Vão se deslocando os engajamentos paralisados. Se alguém com uma forte crença – religiosa, por exemplo – governando sua mente conseguir em análise fazer um deslocamento disso, toda sua configuração se modificará. Eliminada uma crença, aquilo vira apenas mais uma ficção. Uma pessoa cada vez mais analisada está caminhando na direção de não ter crença alguma, e sim apenas apostas – e apostas ad hoc. • P – Essa formação religiosa sendo hegemônica, no momento em que a hegemonia acaba, acabaria a crença generalizada em qualquer coisa? Quem dera! É preciso o tempo todo, na análise, ser vigilante para derrubar as crenças. É frequente vermos um cientista ateu, que acredita na ciência. Ciência não é para alguém acreditar nela, e sim para ser operada e vermos qual é sua eficácia aqui e agora. • P – Um crente é movido por apegos inconscientes. Como os desconhece, ele é impermeável a qualquer crítica à sua crença. Ele sequer as ouve. Freud, aliás, dizia que o apego religioso tem a ver com a relação com o pai. Lacan adorou isso e inventou o Nome do Pai. • P – A formação hegemônica passa necessariamente pela crença? Passa quando alguém acredita nela, mas ela pode ter tanto poder que quando esse alguém não entra na dela ela o destrói. • P – O vírus pode ser chamado de uma formação hegemônica neste nosso momento? Sim. E do maior poder. Se o desrespeitarmos, ele nos matará. • P – O pessoal está orando para se proteger dele. Eles acreditam nisso. 145

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• PNC – Qual seria o avesso de analogia? É outra analogia. A analogia é uma configuração. Não existe analogia em branco. O avesso dessa configuração será a configuração oposta, o alelo oposto. • AA – Não poderíamos pensar que o avesso de uma analogia seria a hipóstase? É quando uma analogia se co-naturaliza e fica parecendo uma formação primária A hipóstase é (não o avesso, mas) uma coagulação da analogia. • P – Octavio Paz tem um ensaio sobre analogia e ironia. Diz que a ironia é o que desfaz a série analógica. Ironia é uma sacanagem que fazemos com a analogia. Ao construirmos uma ironia bem-feita, repetimos a mesma coisa no sentido de ridicularizar a analogia feita. • P – Simone Weil diz que o método de trabalho fundamentado na analogia permite que se possa repensar tudo. É o que eu dizia sobre a psicanálise, que nasceu como analogia mitológica. Segundo a cabeça de Lévi-Strauss, as mitologias são riquíssimas de significação. Nas mãos de Lacan, como a moda era linguagem, comunicação e articulação, ele fez a analogia: o Inconsciente é análogo a uma linguagem. Isto é diferente de Freud que dissera que o Inconsciente é análogo a um mito, tanto é que falou do mito individual do neurótico. Ele concebia uma Morfose Estacionária como um mito construído. A analogia foi boa, mas como aquela época acabou, e a do linguisticismo também, foi preciso fazer outra coisa. A nossa é a época da explosão das configurações, da explosão das formações. Portanto, retirem-se as configurações e coloquem-se apenas as formações. Esta é a analogia de nosso momento. O chato é só poucas pessoas saberem disso. • P – Quanto a isso, é importante o conceito de Esquizousia que você trouxe nos anos 1970. Mantém a pluralidade, a dispersividade, a não-centralidade, um pouco como Deleuze tratava. Esquizousia é diferente de Esquizofrenia. Deleuze tomou a esquizofrenia como tal enquanto análoga de seu pensamento. Não posso concordar com isso. Em última instância, o modelo dele é Artaud. A esquizofrenia é um processo de reificação como qualquer psicose. Então, a coisa explode dentro 146

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de uma configuração psicótica. Já Esquizousia é ‘οὐσία’, em grego, a ‘maneira de ser’, o ‘modo de estar’ em partição, em explosão, em pulverização, em dispersão, e juntarmos os cacos da maneira que quisermos – que é o acontece em nossa época com os mecanismos de comunicação e significação. Termos chegado na nuvem e informação ser o que lá está não é esquizofrenia, neurose ou psicose. Trata-se de, com os elementos da informação, montarmos a ficção que quisermos. É o que aconteceu com a história da arte. Depois que Duchamp esfacelou com ela, a arte é qualquer coisa como articulação. Depende de o mercado querer ou não aquilo. Didi-Huberman faz esforço para situar critérios para a arte hoje. Conseguirá? Quem decide é o mercado ou o gosto das pessoas, e não mais algum conceito artístico. Hoje, arte é o radical ART, que serve para qualquer articulação. Em Deleuze, mesmo ele querendo dizer dessa dispersividade, em última instância, a coisa está amarrada. • AA – Há tempo, você fez a distinção entre Loucura Fundamental e esquizofrenia. Esta é referida a uma Morfose Regressiva. A outra é de nossa espécie, é fundada pelo funcionamento do Revirão. A Loucura Fundamental é, inclusive, fundada pela Morfose Progressiva. Tomar Artaud como modelo, que é o caso de Deleuze, é tomar alguém que evidentemente era esquizofrênico. Se considerarmos do ponto de vista psíquico, isto é, se deixarmos de lado a esquizofrenia ser uma doença neurológica, veremos que ela é uma Morfose Regressiva. No que ela funciona, temos aquela loucura toda. Parece que Artaud está solto quando ele está é esperneando com um prego no pé. • P – Lembro-me de uma entrevista de Arthur Bispo do Rosário, quando sua obra já era bastante conhecida e difundida. Respondendo a uma pergunta, diz: “Você acha que eu faria isso tudo se não fosse obrigado?” Ele estava escravo daquilo. E mais, a obra dele é interessante, mas é rebarbativa, é uma repetição só, sempre a mesma coisa. • P – Se, quanto à esquizofrenia, pensarmos na obra de Fernando Pessoa, nos diversos heterônimos... É outra história. Aí, é a exposição de uma Esquizousia: “Quero ser livre insincero / Sem crença, dever ou posto. / Prisões, nem de amor as quero.

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/ Não me amem, porque não gosto”. Ou seja, não me prendam em figuração alguma, pois não sou isso. • P – Você tem falado sobre, na análise, chegar-se ao desenho da fantasia. Chegar a esse desenho implica entender o engajamento das formações que teria havido na infância? Implica principalmente o deslocamento das formações. Ao dizer que cada pessoa, no sentido da IdioFormação que somos, em última instância, montou um algoritmo que governa sua fantasia, à medida que ela vai abandonando as configurações, as anedotas que a fantasia produziu em sua vida e vai chegando perto desse algoritmo, ele fica tão neutro, quase tão matemático, que ela o aplicará onde quiser. Ele desconfigura a sexualidade da pessoa, ela não tem mais figura. Notem que, a partir do algoritmo que fundamos como fantasia, passamos a vida apegados a algumas anedotas que escolhemos baseados nessa fantasia. Ficaremos repetindo as mesmas anedotas, ou seja, não sabemos brincar. Isso fica monótono, e é horrível na cama. • P – Mudando um pouco de assunto, estou pensando em algo simples: a máscara. A situação atual dividiu as pessoas entre aquelas com máscara e aquelas sem máscara... Não existem pessoas sem máscara... • P – Parece complexa a decisão de as pessoas usarem máscara como defesa mínima do vírus. Não deveria ser. Usar é assumir certa decisão quanto à existência do vírus. E antes de assumir que estamos com máscara, estávamos com máscara e não assumíamos. Pensamos que somos verdadeiros?

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21 • Potiguara M Silveira Jr – Há dois encontros, você tratava da China e do Ocidente. Quanto a isso, quero então acrescentar o que diz Michel Foucault numa entrevista que deu no Japão (1978: A Filosofia analítica da Política, p. 41): “...não houve no Ocidente, pelo menos durante muito tempo, filosofia capaz de se incorporar a uma prática política, a uma prática moral de uma sociedade inteira. O Ocidente jamais experimentou o equivalente do confucionismo, ou seja, uma forma de pensamento que, refletindo a ordem do mundo ou estabelecendo-a, prescrevesse ao mesmo tempo a estrutura do Estado, a forma das relações sociais, as condutas individuais, e as prescrevesse efetivamente na própria realidade da história. (...) No Ocidente, não existiu um Estado filosófico”. No encaminhamento dessa observação para o que acontece hoje, o colunista d’O Globo, Guga Chacra, escreve: “A rivalidade, que era clara na questão do 5G, transformou agora os rivais” – China e Estados Unidos – “em adversários e estamos diante do risco de passarem a ser inimigos. Caso este cenário se configure nos próximos meses ou anos, a instabilidade geopolítica global, que já é enorme, pode atingir níveis quase insustentáveis” (16 abril). Você mencionou da outra vez que, no Ocidente, não houve essa impregnação na sociedade que houve na China. Nem mesmo o cristianismo serviu para fazer essa impregnação. • PMSJr – E se seguirmos o Creodo Antrópico, a hipótese é que justamente o Terceiro Império com seu rosto cristão entrou em derrocada. Muito da situação de horror em que vivemos, sobretudo no Ocidente, decorre de o pessoal não estar disposto a assumir que o cristianismo não está mais em condições de garantir a vigência de fundamento para a sociedade. É por aí que os acontecimentos se encaminham. • Patrícia Netto Coelho – Penso em certa promessa de secularização que aconteceu na modernidade, e que seria um fator que impediu, no Ocidente, a impregnação de um pensamento na ordem do mundo... 149

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O que me parece é que, como disse da outra vez, o cristianismo é fake. Já o funcionamento dos pensamentos orientais, sobretudo Confúcio e Lao-tze, decorreu de terem entrado na cultura. O cristianismo é um conjunto de rituais e de textos sagrados, etc., totalmente fake – que nem mesmo combina com o comportamento do pessoal da Igreja. O comportamento vai para um lado e o texto vai para outro. Ou seja, não vira cultura. É uma grande farsa. • PNC – E no que entra no Estado, este também fica permeável ao modo fake. No Oriente, os pensamentos são coerentes com os comportamentos, com a articulação do Estado, e bem menos teatrais. Já o cristianismo em suas resultantes eclesiásticas se tornou um discurso no qual se diz uma coisa e faz outra. O sexo, por exemplo, é abominado, mas o Vaticano é a gaiola das loucas. Isto, fora as outras coisas que estão vindo à tona. Só por aí entendemos a diferença para com o Oriente. • PMSJr – Você já disse que a psicanálise de Freud era de cepa judaica, a de Lacan católica, e que o seu era um projeto de secularização da psicanálise. Isto se mantém? Sim. • Aristides Alonso – A Igreja, sobretudo no momento de sua fundação, teve algumas exemplaridades de levar o pensamento e a crença às últimas consequências. Frequentemente, aquilo dava em martírio e coisas do tipo. Posteriormente, esses mártires foram canonizados – e abandonados. De certa maneira, a Igreja sempre tentou evitar que as pessoas entrassem nessas experiências extremas. É uma referência, mas, na prática, são jogadas para baixo. Houve um momento fecundo da melhor espécie, mas é quando o cristianismo se vende ao Império Romano. Foi um bom negócio. Só isso. Constantino comprou o cristianismo e o transformou em Império Romano. Está lá até hoje. • AA – Por baixo dessa palhaçada cristã, desse teatro que está ficando mais do que ridículo, o comportamento que vigora ainda é romano? É herança do Império Romano. A única coisa que a Igreja inventou, que tem a ver com a ordem política de Roma, mas um pouco modificada, é a forma de governo que, a meu ver, já lhes disse, foi a mais bem bolada até hoje. É uma aristocracia supostamente de mérito que decide qual é seu rei, e 150

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a ordem política vem de cima para baixo. Não há populismo possível aí. Toda vez que, até dentro da Igreja, há movimento para o populismo, é embargado. Trata-se de uma sustentação da aristocracia (supostamente de mérito, e não de sangue). Isso tem raiz no Império Romano, em que a filiação dos imperadores podia ser por adoção. • PMSJr – Foucault, no texto que citei, diz que a filosofia, desde o início, se colocou como contrapoder, ou moderador do poder. Mas, quando ocorre de algum filósofo assumir o poder, “mais ainda do que o apoio dogmático das religiões, a filosofia autentica poderes sem freio. (...) É o Estado filosófico tornado literalmente inconsciente na forma de Estado puro”. Parece, então, que a vertente ocidental, que é de cepa filosófica, ao desenvolver-se, vai em linha contínua para o populismo, no qual o fake tem hegemonia. É isso. • PMSJr – Ele diz mais, que “quando verificamos a maneira pela qual, historicamente, o filósofo desempenhou, ou quis desempenhar, o seu papel de moderador do poder, somos levados a uma conclusão um pouco amarga. Na Antiguidade, houve filósofos legisladores; houve filósofos conselheiros do príncipe; contudo, jamais houve, por exemplo, uma cidade platônica. (...) E se é verdade que, no Império Romano, o estoicismo influenciou o pensamento do mundo inteiro, ou pelo menos de sua elite, não deixa de ser verdade que o Império Romano não era estoico. Para Marco Aurélio, o estoicismo era uma maneira de ser imperador; não uma arte nem uma técnica para governar o império”. A nomeação da filosofia também é fake. A palavra significa ‘amigo da sabedoria’, mas, na verdade, cada filosofia é vontade de verdade, vontade de impor uma verdade. Ao invés de considerar que há pensadores com perspectivas próprias, o que me parece que acontece durante toda a história da filosofia é cada um querer dizer qual é A verdade. E todos quebram a cara. A psicanálise não tem interesse algum em dizer A verdade. Pode ter interesse em escutar a verdade do analisando. Ou seja, ela tem interesse de considerar as formações do Inconsciente e seus resultados. A vontade de verdade é a história ocidental da filosofia.

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• PMSJr – Você está tocando num ponto importante para Foucault. Pergunta ele: “De que modo essas ligações entre a filosofia e o poder puderam se estabelecer no momento mesmo em que a filosofia assumia como princípio, senão o do contrapoder, pelo menos o de moderação do poder, no momento em que a filosofia deveria dizer ao poder: detenha-se aqui; você não irá adiante? Trata-se de uma traição da filosofia? Ou será porque a filosofia sempre foi secretamente, seja lá o que ela tenha dito, uma certa filosofia do poder? Será que, afinal. Dizer ao poder: detenha-se aqui, não é tomar precisamente, virtualmente, secretamente também, o lugar do poder, fazer-se a lei da lei e, consequentemente, realizar-se como lei?”. Platão não queria o filósofo no poder? Já imaginaram uma república platônica? É, aliás, mais ou menos o que tem por aí hoje em dia. • PNC – Ou um Estado hegeliano. O que é mais engraçado ainda. • P – Se o cristianismo é fake, mas foi como o Terceiro Império acabou se instalando no Ocidente, podemos pensar que os momentos do Creodo Antrópico, suas configurações, podem ou não ter impregnação na cultura. Não me canso de repetir que a história do Ocidente deu o azar de o Terceiro Império ser constituído de maneira cristã, sobretudo católica. Suponho que, se aqueles três patetas não o tivessem matado, Júlio Cesar teria encaminhado para a implantação de um Terceiro Império sem cristianismo. • P – Em que medida, então, é possível falar numa instalação capenga e como isso afeta o processamento subsequente do Creodo? O Creodo não determina necessariamente o conteúdo da formação que o caracteriza. Por exemplo, estamos num momento de revirada radical para o Quarto Império. Será um Quarto Império fake outra vez? Não sabemos. O fato de, em nossa história, o Terceiro Império ter sido cristão não deixa de ser Terceiro Império. O que acontece é que sua narrativa é fake. Poderia ter sido algo mais leve e mais limpo. É o mesmo, com licença da veemência da crítica, que a psicanálise ter começado com o Édipo. É uma historinha barata demais, mas foi assim que começou. E há uma tentativa de limpeza desse caso com Lacan e comigo. A cada vez, abstrai-se mais.

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• PNC – Então, se o Quarto Império realmente se instalar de forma não fake, os recursos para essa instalação não terão vindo do Ocidente, e sim do Oriente, onde uma instalação efetiva se deu? Acho que não. Suponho que haverá grande conflito entre as narrativas até sobrar, na peneira, alguma outra coisa. Não se trata de termos que ficar com nostalgias orientais, e sim de uma passagem a limpo, mediante conflito de todas as narrativas, para chegar à narrativa que sobrar. Ela, aliás, já está esboçada na Gnose, no conhecimento d’Oespírito, ou seja, da tecnologia e da informação. É puro Espírito, não tem carne, está tudo na nuvem. Suponho que, se prestarem atenção à obra de François Jullien, verão que, há tempo, ele vem fazendo a tentativa de diálogo entre essas duas culturas como uma espécie de legado para a reflexão futura sobre a instalação do Quarto Império. • P – Se o Terceiro Império não tivesse se instalado com a viscosidade do cristianismo, ele, por sua referência direta ao Secundário, não ficaria bem próximo do Quarto Império? É outra coisa. Chamei o Terceiro Império de Ofilho – que se cristalizou na figura de Jesus Cristo –, mas, se tirarmos essa figura e voltarmos a Júlio César, o que poderia ser a partir daí? Ponham a imaginação para funcionar. • AA – Um ponto forte que havia e foi faturado pelo cristianismo é a ideia de Júlio César de uma romanização do mundo. Uma incorporação dos bárbaros ao Império Romano. Uma romanização muito especial, a dele Júlio César. Há lá uma ideia de inclusão de diferenças e de todas as filiações. Isto, sob a égide do Império Romano, o qual teria uma cara nova: Irmandade Total. • AA – Como eram politeístas, não havia essa relação com a transcendência que ocorreu no Ocidente. O imperador era o Deus: “Deus sou eu”. Não ficava nessa diatribe com a transcendência que temos no cristianismo. No cristianismo, não temos o Cristo Rei? É muito diferente? No tempo em que a Igreja mandou no Ocidente, o Papa era o representante direto d’Ele. É o império do Filho. A figura do Papa era repetição da figura do imperador romano. Quem mandou começar com Constantino? Deu nisso. E se os gnósticos, enquanto hereges daquele cristianismo, tivessem tomado o poder? Foram massacrados porque, se tomassem o poder, o Terceiro Império seria outro. 153

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Mesmo depois de instalado um cristianismo na base do Constantino, houve um forte movimento de recomposição do Ocidente cristão através das heresias, sobretudo com os gnósticos, que foram massacrados. • AA – Eu diria que hoje há uma vertente gnóstica não com esse nome no pessoal da alta tecnologia, da inteligência artificial. Há o entendimento de uma Imitatio Dei, a incorporação dessa competência como o específico de nosso cérebro. É o que chamo de Oespírito. O Império d’Oespírito está começando ali. A vertente gnóstica é muito poderosa no sentido de que está pervadindo o planeta e desmoronando as ordens anteriores. • AA – É forte essa vertente junto ao pessoal da informática, da cibernética e da robótica. Acham que, lá no vale do silício, irão replicar a competência mental. O que você está explicando é o motivo pelo qual falo em vertente gnóstica da psicanálise. Falei há pouco que Oespírito é sem carne, está tudo na nuvem, o que é compatível com a Teoria das Formações. Só interessam as formações. As configurações nos enganam. Mesmo as simbólicas. Lacan lá estava para derrubar as configurações imaginárias, e digo que mesmo as simbólicas têm que ser dissolvidas, pois que acabam se tornando neo-etológicas. A emergência do Quarto Império é dissolvente – e já está dissolvendo. Os elementos do simbólico de Lacan são formações secundárias, impregnadas e pregnantes. Não quero saber delas, e sim de sua composição. O mesmo acontece com a física contemporânea, à qual não interessam os átomos, mas o que está lá dentro. E agora, então, isso nem precisa ser demonstrado, pois já chegou na carne, está aí na rua. Não há que demonstrar que será assim, o que o tal vírus mostra é que já está sendo. • AA – Como seria o estatuto da memória no escopo da NovaMente? Há dois aspectos. Num, a vertente que é da análise, da anamnese da experiência de Haver. Trata-se aí de fazer lembrar essa memória que é a mais recalcada. Noutro, há uma panaceia de memórias organizadas como algoritmos de formações primárias e secundárias. A memória é puro e simples registro de formações em qualquer nível. Por isso, a biologia de hoje está (não apenas considerando, mas) conseguindo 154

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começar a produzir o-que-quer-que a partir de células-tronco. E mais, quando entenderem bem, irão produzir a célula-tronco. Isso significa: pura informação. Ou seja, a célula é o Espírito. É o “espiritismo” radical. Já imaginou quando for possível clonar um defunto? • AA – E há também a memória de último grau? Essa memória, frequentemente recalcada, de Haver. Qual é a última instância dessa memória? O encaminhamento do Quarto Império é no sentido de tentar destacar, descobrir e manipular a última instância da memória. Quando o pessoal da biologia diz que pode produzir uma célula-tronco é uma aproximação disso. Os físicos estão tentando aproximar a última instância da formação da physis enquanto vibração. A memória de última instância desmoraliza as configurações, pois estas são apenas resultantes de organizações de elementos de última instância. Ou seja, quando aproximaremos a homogeneidade do Haver? Entendam que o encaminhamento é para Lá. • AA – Da outra vez, você falou sobre como Freud concebeu o Inconsciente mediante a ideia de formações do Inconsciente, que foram assim nomeadas por Lacan. Lacan, então, dirá que o Inconsciente se estrutura como uma linguagem. Diz você que Lacan não definiu qual linguagem. Já você disse que a definiu ao falar basicamente da bifididade do Haver e da estrutura desse Haver como máquina de repetição. Daí sua afirmação de que “o Inconsciente se estrutura como se o engaja”. Dito isso, é possível dizer que o Inconsciente se estrutura como informação, como puro algoritmo? Quanto mais considerarmos o Haver, ou seja, o Inconsciente, como organizado em última instância enquanto um campo homogêneo que vai se diferenciando e toda vez que desse campo descrevermos alguma formação, conseguirmos desenhá-la, estaremos o engajando. Só que não sabemos direito ainda como fazer. Os físicos buscam a Teoria de Tudo, que seria conseguirem entender a homogeneidade do Haver, como ele se diferencia e vai constituindo formações. É isso que quer dizer ele ser engajado em formações. Ele se estrutura virando formações. E se quiser chamar de informação, então é isso. • AA – Em último grau, informação não tem significado, é apenas um algoritmo, uma sequência que gera formações.

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O que está por trás dessa sequência? Para poder pensar o Haver como homogêneo, trata-se de algo anterior a isso. E ainda estamos longe demais de achar nas ciências. Mas tem que achar, pois, seja qual for a concepção de Big Bang, seja de um zero ou de um mínimo de informação como processo de inflação, lá atrás há seu momento de homogeneidade. O que é isso? • PNC – Em 2006, você chamou essa informação de Res Gaudens. Como não sou físico, disse isso. • AA – Esse estado indiferenciado do Haver não é pacífico. É, o tempo todo, uma comoção. Ele fica na diatribe, na agonística entre Haver e não-Haver. Esse é o esqueminha ficcional que montei. Como não pode passar a não-Haver, a comoção retorna, explode. • AA – É a esse movimento, a essa sintaxe, que me refiro como informação. Então, é isso. O defeito que acho na teoria do Big Bang como explosão a partir do nada é a essa falta de agonística. Prefiro a vertente que pensa que pode ter o Big Bang, mas há também o Big Crunch. É Big Bang / Big Crunch – isso nunca acaba, e nunca começou. • PNC – Voltando à minha questão anterior, é como se você estivesse dizendo que não há instalação do Quarto Império a partir de nada. Há um mínimo de trama na base. Uma agonística, inclusive. Chamei Amãe, Opai, Ofilho, Oespírito e Amém porque é a montagem da história desta nossa espécie. Por isso, trata-se do Creodo Antrópico. Se há IdioFormação – que não precisa ser apenas desta espécie –, se há o processo de reprodução desse modo, o Creodo é esse, d’Amãe ao Amém. Estamos presos nele. Não sei como será em outras formações. Qual será o Primário deles? Como se reproduzem? Têm pai, mãe? Têm o quê? • AA – Voltando à questão da Gnose, há um termo que você usou para se referir à psicanálise e à análise, que é: Autonomia. No fundo, o movimento gnóstico seria visar a essa autonomia? É parecido com o projeto da psicanálise. • AA – Trata-se aí de um conhecimento cada vez maior, cada vez mais realista, sobre a realidade psíquica, o que implica: um vasto levantamento das formações pessoais; a análise progressiva de cada uma delas e de suas 156

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composições; uma maior lucidez sobre a fantasia de cada um, isto é, sobre sua sexualidade; um entendimento e uma aplicação do funcionamento dessa máquina algorítmica no mundo; a desvinculação do modo em que se está organizado; e a possibilidade de maior conversa das formações entre si – a transa de formações – para tentar uma operação a menos divorciada possível. São raciocínios muito bons e pertinentes. • AA – Ou seja, a progressão na análise é o encaminhamento para uma analogia com o Haver: a Autonomia do Haver. Foi aí que os gnósticos lá do início começaram a se dar conta de que aquele Deus que era apresentado pela religião não podia ser algo que prestasse. Caso contrário, não teria feito a porcaria que fez no mundo. Deveria ser apenas um demiurgo capaz de fazer isso. Como estavam procurando o ápice das formações, esse Deus aí é incongruente e estúpido. O que estavam dizendo é que essas formações são meras formações muito decadentes. Se um Deus fez isso aí, é um idiota.

22 • AA – Podemos dizer que, praticamente, só há narrativas. Então, de que maneira essas ideias perpassam ordens narrativas, mas ficam pespegadas ao Império em que emergiram? Surge uma ideia e o anedotário acaba predominando sobre seu ponto principal. Por exemplo, sua ideia, seu conceito de IdioFormação, que é a competência máxima da mente, ou seja, ela é a replicação da performance do próprio Haver. Antes, você pensara o conceito de Falanjo, que ainda estava conectado ao pensamento da psicanálise lacaniana, embora com um avanço sobre ela: o Terceiro Sexo. Essas duas personagens 157

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estão decompondo, desorganizando, esvaziando, narrativas anteriores que foram muito poderosas. No Terceiro Império, tivemos a narrativa de Frankenstein, em que a personagem aparece suja de culpa, de deformidade. O artista ali é visto como uma figura monstruosa. Antes, já havia Fausto, que era passagem do Medieval para o Moderno todo sujo de cristianismo medieval. E, antes dele, já havia Prometeu e Lúcifer, que são de Segundo Império. É a mesma questão que vai se limpando à medida que as novas narrativas se produzem. Minha pergunta, então, é: a literatura produziu um personagem conceitual que fosse uma boa dica para sua construção narrativa do Falanjo e da IdioFormação? Existe um texto que é muito figurado, figurativo, mas que, suponho, está pensando nisso: Orlando (1928), de Virginia Woolf. É essa figura que não tem composição certa. Afinal de contas, quem é Orlando? Há também outra personagem: Rrose Sélavy (1920-1), de Marcel Duchamp. Aproveitei para lembrar o que está por trás dela: Aimée Sélamor (1990). Sem esquecer do nosso Macunaíma, do Mario de Andrade. • AA – Um Império, ao colocar seu ápice em certa formação, as restantes ficam contaminadas por ela. Por exemplo, como no Terceiro Império a virtude máxima da espécie é o amor e a submissão às leis de Deus, as coisas que não coubessem nessa narrativa foram relegadas ao abominável: as criações artísticas, científica, matemática, tecnológica... Os grandes místicos foram abominados. Queriam saltar para fora do Terceiro Império, mas não tinham como fazer, pois estavam cercados. • AA – A NovaMente, ao colocar o ápice no movimento de Revirão e de HiperDeterminação, faz o foco se deslocar das formações instaladas para uma Postura de Rebelião e Criação. Justo o que é abominado pelo Terceiro Império. Se prestarem atenção na leitura, verão com clareza o que já disse sobre Lacan ser alguém de Terceiro Império e mesmo de vocação católica. A pergunta é: o que em Freud e Lacan sustentava suas composições? É tudo composição, vai-se fazendo composições e criando grandes formações. Freud era alguém de século XIX. Ainda que grande parte de sua obra tenha sido escrita durante a primeira parte do século XX, inicialmente era um rapaz de século XIX, determinado pela ciência e pela Sagrada Família do século XIX. A explicação 158

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da construção psíquica pelo Édipo é compatível com a Sagrada Família. Ele abstraiu o quanto pôde, mas dentro do escopo do Terceiro Império. Mesmo não sendo cristão, a pressão do judaísmo e do cristianismo estava em cima dele. Não se consegue facilmente sair disso. • AA – E Lacan com seu teorema da lógica do significante não escapa. Mesmo na abstração de S1, S2, $, a, sua ideia de movimento da ordem metonímica tinha, em último grau, o significante fálico como suposição daquilo que organizaria o enunciado de uma pessoa. E tem a sustentação do psiquismo da espécie que ele está analisando ancorada no Segundo Império com o Nome do Pai. Como o Segundo Império foi aquele que saiu do Primário e instalou veementemente o Secundário mediante a noção de Pai, ele foi lá buscar a garantia da estabilidade psíquica. Ele tomou de lá e instalou no Terceiro Império. O próprio catolicismo já o tinha instalado. Ele é a religião do Filho, mas lá está o Pai o garantindo. Pai este, aliás, que o manda fazer aquilo tudo que fez e, na hora final, cai fora e o abandona. “Oh!, Pai. Por que me abandonaste?” • P – Da outra vez, você falou em Freud aproximado da mitologia, Lacan da linguagem, e você da Teoria das Formações. Penso em Jung como sendo o menos abstraente aí, pois seu Inconsciente é o mais configurado. Ele fica preso às expressões imediatas do Inconsciente. A tentativa que faz de abstração é imaginar que existam arquétipos em algum lugar do Inconsciente. Eles existem, são configurações estagnadas. Ele lida com os efeitos do Inconsciente. Não à toa chamou aquilo de Psicologia. Lidar com os efeitos não deixa de ser uma maneira de abordar o Inconsciente, mas Freud não gostou da ideia por ter mais abstração do que ele. • P – A Teoria das Formações desfaz as configurações? Tudo se configura de algum modo, são formações. São formações compostas de formações, compostas de formações... Onde termina isso? É a mesma pergunta que fazem os físicos, os biólogos. • P – Em algum nível deve não existir configuração? Em última instância, deve haver algum elemento informacional muito abstrato. Ninguém achou isso. A corrida das ciências duras é no sentido de achar esse lugar. Está longe de acontecer. As aplicações das ciências ainda 159

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são configuradas demais. Tomem a medicina, por exemplo, que lança mão de várias descobertas e do conhecimento das ciências para aplicar com muita configuração sobre determinados objetos da estrutura corporal humana. Agora correm atrás de entender a configuração do vírus da Covid-19 para fazer vacina. É muito configurado, tem cara. • P – Qual seria a diferença entre Revirão e Formação? Revirão é a possibilidade de desarticular e articular de novo. Formação é uma coisa configurada. Por mais abstrata que seja, tem rosto. • PNC – Revirão é o princípio de formação mais a transformação das formações. Revirão é a maquininha de moer configurações. Não existe pensamento em branco. Se tomarmos a própria suposta estrutura do Haver, digamos deste nosso universo, veremos que imediatamente após a explosão as configurações já apareceram. Notem que o homogêneo, antes disso tudo configurado, é: Haver enquanto tal com a mesma “configuração”. E isso vai se configurando, apresentando rostos. Nossa disponibilidade psíquica é infinita, mas está tudo amarrado por recalques primários e secundários. O que é uma burrice? Uma paralisia sobre algumas formações. Então, por trás disso, se a burrice diminui, as possibilidades são infinitas. Na história do conhecimento, toda vez que há chance de alguém se livrar de uma configuração recalcante, ele percebe ou inventa uma nova. Isto porque tirou o recalque em vigor. Esta espécie é amarrada demais por ter certas formações recalcantes muito fortes em alguma região, as quais não prejudicam apenas essa região. Como tem uma franja muito grande, vai prejudicar a região lateral. Então, um cientista, por exemplo, deixará de descobrir uma nova configuração na física por ser sexualmente inibido. Outro caso, não temos acesso à análise de Rachmaninoff, mas ele compõe seu primeiro concerto, fica paralisado, procura o analista e, então, consegue compor seu segundo concerto. Em que o analista mexeu? Não foi na música. O que o impedia de continuar? Em alguns outros casos, a coisa é bem visível na análise.

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23 • P – Diante de alguns apontamentos recentes seus, fiquei tentando precisar o que seria o fake. Disse você que o que há para esta espécie é suposição de realidade. São produzidas e mobilizadas ficções na tentativa de abordar os comparecimentos do Haver, sempre como simulação e aposta. Essas ficções arranjam analogias que são, a cada caso, mais ou menos eficazes, e o que se pode ter como ‘prova de realidade’ é o teste gozoso pragmático: funcionou ou não, deu para gozar ou não. Ou seja, lendo isso num esquema mapa-território, o mapa é bom aquiagora quando permite intervenção e navegação no território. Posto isso, arrisquei situar o fake como uma ficção que, em vez de investir nas possibilidades de navegação no Haver, recalca aquilo que comparece em favor da própria ficção. É o mapa que denega o território e que, portanto, inibe a capacidade de intervenção. É como optar por superinvestir aquilo que se diz que é em detrimento daquilo que há. No limite, é tentar fazer, violentamente, o território caber naquilo que o mapa propõe. Minha questão é: esse raciocínio é compatível com o que você põe? E outra: isso não seria o que faz, em maior ou menor grau, toda ficção? Tudo está correto, desde que esteja valendo a analogia, aliás antiga, do mapa e do território. Mesmo porque o próprio território é pura suposição. • Nelma Medeiros – Retomando alguns pontos tratados da outra vez – os raciocínios de Foucault sobre a filosofia como vontade de poder, o fake do cristianismo, os elementos fake em grande escala da cultura ocidental em oposição à impregnação invasiva do modo de funcionar da cultura oriental –, quero retomar uma indicação de base de François Jullien sobre como a cultura oriental pensa mediante alternância entre polos, e o modo de oposição e exclusão sendo mais característico do funcionamento do Ocidente. Outra indicação de Jullien é a marca de imanência no Oriente, e o Ocidente, via religião e filosofia, sendo mais fortemente marcado não só pela transcendência, mas sobretudo pela rapidez de sua configuração. Minha pergunta, então, 161

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é sobre o papel que a característica ocidental de transcendência configurada desempenharia nesse aspecto fake. Acho que não há nada mais fake do que a suposição de um transcendente. Está na raiz do dado de realidade, é a denegação primeira, é escapar do que há. Você está dizendo que o lema do Ocidente é: “Me engana que eu gosto”. A maior parte do investimento que as pessoas fazem no Ocidente é na enganação. Mesmo os filósofos frequentemente caem nessa. Por outro lado, a disposição de cuidado com a denegação, com o engano, é da psicanálise. Ela aprendeu isso com Freud e, na cultura ocidental, só ela apresentou essa desconfiança. Ou há filósofos que também a apresentam? • NM – Curiosamente, aqueles mais perto da imanência são mais desconfiados: Nietzsche, Espinosa... Todos mais ou menos contra o “me engana que eu gosto”. Mas a maioria, no Ocidente, principalmente as religiões e as concepções de governo, é constituída nessa base. Da outra vez, eu disse que, nele, o que se diz nada tem a ver com o que se faz. Isso é enganação, e as pessoas ficam felizes quando a enganação funciona, ou seja, quando ficam apaziguadas por estarem sendo bem enganadas. Basta ir a uma missa, por exemplo, para ver isso. E por que as pessoas só podem ficar pseudo-apaziguadas, pseudo-serenas, com enganação? A meta seria ficarmos serenos diante da absoluta ignorância de nossas relações. É o que prega o pensamento zen – e a psicanálise tem a tendência de levar a esta serenidade, mas sua história é muito curta e conturbada. Não sei como funciona a enganação no Oriente. Uma coisa são os pensadores, outra os usuários. O que se pode dizer quanto ao pensamento de Buda, Sidarta Gautama, de Lao-tze, é que não é enganoso, mas nada tem a ver com os aparelhos religiosos que apareceram no Oriente, que, estes, são tão enganosos quanto os do Ocidente. No Oriente, aliás, é um pensamento desconfiado de tudo, principalmente da realidade. Basta lembrar do sonho que se atribui a Lao-tze ou a Chuang Tzu: “Sonhei que era uma borboleta e quando acordei vi que era um homem. Agora não sei se sou um homem que sonhou ser borboleta, ou se sou uma borboleta que sonha ser um homem”. Isso deixa em suspenso os enganos. Não é para decidir sobre isso, e sim para manter a suspensão.

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• P – A psicanálise ao encarecer um faz-de-conta também não estaria na ordem do engano? Faz-de-conta não é “me engana que eu gosto”. Pode ser colocado na conta até das mais sérias teorias científicas. Há aí uma ficção. Quando se trabalha com uma ficção lembrando que é ficção não há enganação, há experimentação. Está-se lidando seriamente com o artifício e apostando, quem sabe?, que ele dará alguma referência de articulação. Mas, se acreditarmos na ficção que estamos usando e a tomarmos como se fosse a verdade, aí estaremos no “me engana que eu gosto”, também. • P – Para a maioria, fora do recalque, a situação parece ser penosa demais? Parece ser impossível sustentar a suspensão. Parece-lhes penoso conviver (não com a realidade, mas) com o não-saber da realidade. • P – É penoso não saber se é Lao-tze ou borboleta? Trata-se de deixar para lá – veremos. Mesmo os pensamentos mais sérios são uma espécie de rolha provisória, um modo de fazer de conta que se entendeu a realidade. Isto, mantendo a suspensão, sabendo que é apenas um artifício que está sendo utilizado para lidar com a suposta realidade. Se agimos assim, não somos idiotas completos. Somos só meio-idiotas. Freud disse uma vez, acho que sobre as histéricas, que elas não ficarão curadas de nada, mas poderão ficar mais à vontade diante de sua situação. Ou seja, terão a infelicidade comum. Ou alguém pensa que Freud era feliz? • Aristides Alonso – Você disse que fazemos análise para lembrar que havemos. O âmbito do Mundo, do Ser, de fato, não é eu. A dimensão do Ser é do âmbito da ficção. Este âmbito tem o expediente básico da analogia. Portanto, quanto à definição de fake, surgida com mais veemência ultimamente, não teríamos que proceder no sentido de sua generalização? Como no campo da comunicação, de jornalistas e professores, acha-se que há o fake e o não-fake, suponho que o alelo recalcado aí seja o true. Para eles, haveria fake news e true news, mas, para nós, o âmbito do fake seria generalizável para o que há? O fato de ser – e lá vem o verbo junto – simplesmente alguma construção que pretende dizer a suposta realidade não é fake, e sim ficcional. Isto, desde que nos comportemos com esse dizer enquanto ficcional. Aí, não estaremos em 163

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estado de falsidade. Estaremos num estado de tentativa de produzir uma ficção que nos ajude a lidar com o Haver e suas consequências. O fake é uma construção produzida no sentido do engano. Engano, nesse caso, não é erro de composição de uma ficção. É, sim, a causa do processo da ficção: já se produz no sentido do engano, da dominação. Outra coisa, é produzir no sentido do entendimento sabendo que é precário, que é uma tentativa de ficção para dar conta de nossa angústia com a realidade. A ficção é provisória, mas não é fake. • AA – Mas o fake não deixa de ser também uma ficção? Sim, mas não é tentativa de abordagem. É o caso do que Freud denunciou nas religiões, que são produzidas para enganar e acrescentar o poder de quem engana. • AA – Então, como estabelecer uma fronteira entre um e outro? Não há essa fronteira. A fronteira está lá na franja. É preciso procurar o foco que importa na opção que se faz no sentido da abordagem da suposta realidade, e aquela que se faz no sentido da dominação e do engano. Se uma teoria científica, no âmbito acadêmico, por exemplo, virar uma imposição sobre outros pensamentos, funcionará igual a qualquer fake. Ou seja, quando uma teoria quer ser hegemônica e coibir a continuação do pensamento, ela funciona igual a uma construção fake. Repito: o que não é fake é o movimento de reflexão e de produção de ficção no sentido de dar conta de nossa angústia da realidade suposta. Já inventar um sistema de dominação pela enganação é da ordem do fake. E mais, o fake não está necessariamente na construção da ficção, pode estar em seu uso em relação a outro tipo de formação (política, religiosa...). Tomem o surgimento da ideia de psicanálise, que Freud atribui a Breuer e depois organiza numa ficção bastante coerente. Quando essa ficção toma o poder, sobretudo na chamada IPA (International Psychoanalytic Association), qualquer desvio dessa ficção, por menor que seja, passa a ser perseguido. Então, essa IPA, quando não deixa o pensamento rolar, é uma formação eclesiástica. Lacan, no começo, sofreu essa perseguição, era considerado um herege por aquela igreja. Imaginem, então, o que a lacanagem geral pode pensar a meu respeito quando jogo no lixo sujeito, objeto et caterva. Nada tenho contra o Dr. Lacan, que tem uma obra maravilhosa, mas dispensei justamente as bases de seu pensamento. Procurei outros elementos como alicerce. Acho que já lhes 164

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contei que, um dia, estava na livraria e vi duas moças com cara de participantes de instituições psicanalíticas. Uma delas pegou um livro meu e perguntou para a outra se conhecia aquele autor. A resposta foi: “Maluco, maluco, maluco...” Questionada pela outra se já tinha lido algo dele, respondeu: “Ouvi o professor mencionar algumas coisas dele e dizer que era maluco”. Então, é isso: o cara é maluco. Estou em boa companhia. Lacan foi chamado de maluco durante anos. Deviam também chamar Freud de maluco – aliás, chamam-no até hoje. • Patrícia Netto Coelho – Em meu tempo de faculdade, você era chamado de perverso. Eu sei. Toda e qualquer posição de progressividade é, de cara, considerada o que antigamente chamavam de “perverso”. Como sabem, há Progressivo, em meus termos, para todo tipo de coisa. Não é só para o bem, pode ser para o mal. É para além de mal e bem. • AA – Quais seriam os elementos de verificação da, digamos, veridicidade de algumas agonísticas com relação à angústia e tentativa de resolver quanto ao fake e à ficção? O fake já é produzido no sentido do engano, no sentido de dar alguma explicação fantasiosa que permita dominar, e não de entender. Vejam, no Ocidente, a chamada Bíblia. Em ambos os Testamentos, Novo e Velho, é uma série de narrativas que visam dominar social e politicamente as pessoas pertencentes àquele grupo. É um catálogo de comportamentos, e não só uma tentativa de explicação. Isso é o fake, sobretudo por jamais confessar sua intencionalidade. O que dizem é que aquilo foi recebido de Deus, etc. Por outro lado, ao pensar cientificamente, está-se confessando que a tentativa é entender o que acontece, entender as formações do Haver que se supõe existir. • PNC – Talvez não se apliquem as categorias de recalque e denegação ao que você está caracterizando como fake. Elas não são suficientes. Primariamente, não seria mais uma questão de autarcia, de maldade? Você está destacando uma situação contemporânea e chamando atenção para o fato de que é preciso arrolar mais ferramentas teóricas para entendermos a situação do fake? Recalque e denegação são utilizados pela produção do fake. Há todo um processo absolutamente consciente de dominação. Aí, não é recalque ou 165

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denegação. Antigamente, os reis eram designados por quem? Por Deus. Há coisa mais fake? O imperador em Roma era mais deslavado, ele era Deus. Ali, valia já que os deuses não eram do partido monoteísta, faziam parte da suruba do Olimpo. Então, mais um ou menos um, era tudo o mesmo. • P – Dado que o que há é IdioFormação – com polo, foco e franja –, de onde vem uma tomada de decisão? É da resultante da transa das formações? Qual seria o papel da consciência aí? Nessa construção consciente do fake? As decisões são muito menos decisórias do que pensamos. A própria agonística das formações – internas e externas, internas com externas – acaba conduzindo o pensamento a uma solução. É aí que está a crítica da ideia de autoria de que Foucault falava. Como alguém dormindo, sonha e produz o que apresentará como raciocínio no dia seguinte? Já lhes contei que é algo que frequentemente acontecia comigo. Quem tomou essa decisão? Eu me levantava para anotar logo, se não, perdia o contato com “o cara” que me ensinou aquilo. O Ocidente é pretensioso demais quanto à autoria dos atos. • Potiguara M Silveira Jr – Quanto à ficção e o fake, quero registrar que, em 1998 [Introdução à Transformática, p. 94-6], você falou em quatro modos de apresentação do pensamento que estavam em vigor naquele momento: “Primeiro, alguns [autores] estão honestamente convencidos daquilo com que pretendem convencer os outros. Têm uma estupidez como base do que pensam ser o pensamento. (...) Segundo, alguns sabem que estão propondo uma fixão – escrita com x, de ficcional e da tentativa de fixar algo –, mas que não é apresentada como tal, é uma fixão a convencer de maneira retórica. Se sei que estou propondo uma fixão, mas não a apresento como tal, estou diante de uma posição que é simplesmente manipulatória e cínica. (...) Terceiro, existem outros que, mesmo não convencidos, querem estar solidários e do mesmo lado que os con-vaincus, os babacas vencidos. Não estão convencidos, mas querem construir um discurso que pareça que acharam alguma proposição que lhes permite ombrear com seus babacas retoricamente convencidos. (...) A esta posição chamo de envergonhada ou denegatória. (...) A quarta posição pode ser a daqueles que estão propondo uma fixão, com x também, a qual apresentam como mera ferramenta de uso, de disponibilidade. É a posição que eu chamaria de propositiva, que mantém a suspeição e a suspensão, que 166

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sabe que as melhores soluções serão sempre ad hoc, e que exige a frequente denúncia de si mesma. Sem o lembrete e a denúncia constantes de que se está numa posição propositiva, mesmo tentando retoricamente demonstrar que sua proposição é a melhor possível dada a situação, esta posição não diferirá da posição denegatória anterior, ou seja, também passará a denegar”. E, quanto ao que você falou sobre o sonho como modo de conceber, produzir, pensar, isso é contar com o Inconsciente. Aí, o que ocorreu no sono, não importa de quem seja, precisa ser arrumado. É claro que, digamos, isso ocorre no interior das formações de certa pessoa, contando com as formações dessa pessoa. E todas as outras que lá estão e não são dela? Tomem Freud, em cuja cabeça brotou algo que veio a ser chamado de psicanálise. Ele assume a autoria, fatura, mas, como dizia Foucault, não é dele – é nele, aconteceu nele. Há sempre que lembrar que a pessoa é vítima daquilo. Só chamamos de autor porque as formações específicas da pessoa na qual aquilo ocorreu são formações dela. Aquela antena é que foi capaz de capturar. Dizemos que foi ela que fez quando, na verdade, foi a coisa que fez ela. • P – A ideia de fundamento seria um artifício para esconder o caráter ficcional de uma ficção? Façamos uma analogia. Você deseja uma casa própria, arruma o dinheiro e busca a casa para comprar. Você gosta de uma, compra e vai morar nela. Mas a casa foi feita por alguém, que teve que fazer uma ficção, desenhar a casa, fazer as fundações... É igual a produzir qualquer pensamento. Ou você compra a casa feita, coisa que a maioria faz, pois nem todos são arquitetos, ou você é o arquiteto da casa que terá que fazer das fundações até o telhado. Trata-se, pois, de uma ficção que se compra pronta ou se faz. • P – De outra vez, foi feita uma pergunta sobre o avesso da analogia. Diante do que está sendo dito hoje sobre ficção e fake, pergunto se esse avesso não seria uma suposição de identidade, de não considerar analogicamente, e sim supor que algo que está sendo dito realmente descreva, contemple, alguma realidade efetiva. Mesmo a realidade que alguém suponha ser, antes foi alguma analogia produzida. Uma coisa é produzir e utilizar a analogia, outra, tomar analogia que foi congelada e considerá-la uma significação absoluta. Tudo foi produzido 167

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analogicamente. Essa suposição de identidade e essa consideração de analogia são atos de aplicação do processo. Ou seja, a aplicação pode ser feita analógica ou identitariamente. • PNC – Essa era a discussão dos medievais entre a identidade e a equivocidade. Sim. E o que fazer com isso? • PNC – Nada. • P – Qual seria a diferença entre analogia, revelação e intuição. Quanto à intuição, penso na filosofia, em Bergson... Bergson não fazia ideia do que fosse o Inconsciente. As coisas se articulam por si mesmas. As formações se articulam à nossa revelia – e isso parece uma revelação. Ou, se não, é mesmo uma revelação. Revelação são coisas que se articulam entre formações à nossa revelia. Quando percebemos, aquilo já se compôs em nossa cabeça. É assim: ou por transas de formações que já estão em nossa mente, ou por transas de formações com formações supostamente externas. Como isto se dá inconscientemente, o pessoal chama de epifania, de intuição – mas é uma transa inconsciente entre formações em que nos damos conta da resultante dessa transa sem saber de onde veio. Principalmente, quando depende de HiperDeterminação. • PNC – Em Espinosa, a intuição é a forma mais sofisticada de conhecimento. Isto porque ela é espontânea e à nossa revelia. O que se revela exatamente para nós numa intuição? A resultante de uma transa cuja produção não acompanhamos. Ela foi espontânea. Em seguida, trata-se de investir a intuição em outras formações. Se não pensarmos assim, pensaremos em espiritismo, ou em algum deus do qual baixou uma revelação. • PNC – Isso é importante para a matemática, na qual se pode chegar a determinada formulação válida sem ter acompanhado seus processos de prova. • AA – É o caso de Ramanujan, matemático indiano do início do século XX. Ele chegava a seus teoremas e não via razão para demonstrar os passos que o levaram lá. Ou seja, a matemática se faz por si mesma. E mais, os matemáticos que não passam por isso nada inventam, só sabem fazer conta. 168

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• Susanne Bial – Estou encucada com uma palavra alemã, Eingebung, que é mais que uma intuição, é uma inspiração. É mais próxima do que você diz sobre aquilo cair na cabeça da pessoa, é algo dado. Geben é: dar. Me parece que esta palavra alemã explica melhor do que os termos em português. Como você traduziria? • SB – Foi-me dado. Não se sabe de quem recebeu. É o que está em Mallarmé. É o Cudedado, como traduzo. Nem sei se tem quem aí. As formações se arrumam e jogam uma coisa na cabeça da pessoa. Cai do céu. • P – Não cabe também pensar que quanto mais forem as formações, quanto mais ricas, maior será a chance de essas intuições acontecerem? Parece que existiria nas pessoas a quem a intuição acontece alguma intencionalidade no alimentar-se de boas formações. O nome disso é: Tesão. • P – E não se escolhe a dosagem de tesão. Muitas vezes, é uma maldição para a pessoa. A pessoa tem essa comichão por dentro, e aí começa a mexer com alguma coisa. Ou seja, algumas formações nela não se conformam, não ficam paradas. • P – A pessoa está lá debaixo da árvore esperando a maçã cair. Newton estava perseguido por um monte de formações e sua mente pedindo soluções. Basta imaginar Arquimedes saindo pelado da banheira gritando: Eureca! Deve ter sido maravilhoso alguém entrar na banheira e descobrir uma lei. Que preocupação tinha ele para tomar aquele banho e surgir-lhe uma lei da física? • P – Há o aspecto de a pessoa provocar aquela coceira? Não sei se ela provoca a coceira ou se é a coceira que provoca a pessoa. • P – É esse movimento de conexão e ampliação das transas que pode ser chamado de Progressivo? É, sim, progressividade. A coisa vai se desenvolvendo. Não há paralisia, estacionamento, aí. • P – Quando isso acontece, não é uma certeza que a pessoa tem?

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Há gozo aí, que Lacan chamava de Gozo do Sentido. A coisa se encaminha, a pessoa está envolvida com ela e, de repente, tem um orgasmo psíquico. A pessoa tem certeza de que gozou. No caso de um maluco completo, ele também tem certeza, só que está tudo estropiado. Ele está delirando, mas gozou do mesmo jeito. Ou seja, tem absoluta certeza de que é aquilo que ele está pensando. Como sair dessa? Certeza é gozo – em geral, completamente infundado. A certeza do delírio é gozosa demais. • P – A certeza é que goza? É o contrário. O gozo é que faz ter “certeza”. • Rosane Araujo – Parece-me que, diante desta nossa situação de pandemia, a grande dificuldade é assimilarmos o “não sei” se ou quando vai acabar, o não sei sobre qual será a configuração do mundo depois, o não sei se eu ou qualquer outra pessoa sobreviverá ao acontecimento... Toda e qualquer criação, em qualquer área, de pensamento, de arte, etc., partiu do “não sei”. É a partir desse estado de “não sei” que é possível criar algo. • P – O difícil deste nosso momento é justo não termos certeza de nada. Chama-se: angústia. • P – A angústia é o avesso do gozo? Para entendermos a correlação entre angústia e gozo, um dos métodos é a masturbação. A pessoa entra em outra trip à procura de um gozo. • P – O gozo é um índice de verdade para a pessoa? Ninguém goza de mentira. Não confundir isto com o fato de as mulheres terem a capacidade anatômica e fisiológica de fingir estar gozando. Lembrem-se de que todos gozam sozinhos, seja qual tipo de gozo for. Mesmo no sentido dos gozos de Lacan (falo, do Outro, do sentido). Tudo isso é solitário. Em última instância, o resultado é masturbatório.

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24 Da vez anterior, Susanne Bial mencionou o substantivo Eingebung. Pesquisei e achei Eingeben, que é o verbo. Diz respeito a dádiva, a inspiração. Justo sobre o que estávamos falando. • Aristides Alonso – Quero registrar que a situação de pandemia e isolamento que estamos vivendo me fez constatar a desimportância de tanta coisa que, durante longo tempo, fazia parte da rotina. É que começamos a perceber o bobajal do planeta que pode ser jogado fora. O essencial é bem pequeno. • AA – Tudo isso acrescido do fato de o Brasil se caracterizar por uma denegação violenta da realidade, por uma recusa em considerar minimamente a situação. O registro genérico se chama: imbecilidade. O país curte uma grande imbecilidade. É analfabeto e imbecil. Mas, para aqueles que não se definem por isso, talvez haja o que fazer. Na psicanálise, há cem anos já temos a ideia de denegação, que você citou e que nos serve de ferramenta de entendimento da situação não só daqui como do mundo. O mais preocupante na situação brasileira atual é o Revirão da democracia, o limite da democracia e o populismo. Não há esse limite. E, como sabemos, a ausência de limite é imediatamente produtora de Revirão. Há Revirão para bom e para ruim. O que estamos vendo é uma denúncia executada na prática contra certos aspectos da democracia. E ela pode fazer isso que está fazendo. A crítica, repito, é: Qual é o limite da democracia? Em seu próprio movimento exacerbado, essa democracia é capaz de colocar a imbecilidade no poder. A crítica é justamente à entrada, e não ao Revirão depois que a imbecilidade entrou. Aqui no Brasil, já há bastante tempo temos colocado imbecis no poder. O que os cientistas políticos chamam de populismo? É quando se tem uma maioria de gentalha capaz de fazer a escolha mais imbecil dentro de um processo democrático. Essa gentalha – sem formação, sem educação – é 171

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facilmente manobrável dentro do processo democrático. O fato de ser maioria não implica ser necessariamente gentalha, pois, se a própria democracia promove o crescimento do povo, este não precisa ser gentalha. Meu mestre Anísio Teixeira, que morreu disso, passou a vida querendo demonstrar que o processo educativo faz um Povo, e não uma gentalha. O povo tem condições de reconhecimento de valores. Anísio se referia à produção do povo de um Brasil todo, e não apenas de intelectuais – e jamais conseguiu, pois ameaçava (e foi perseguido por ela) a Igreja Católica, por exemplo (que sabe muito bem que a inteligência pode mandá-la às favas). Sempre que fazia um movimento no sentido de acréscimo, de acrescentamento do povo, era barrado – e acabou sendo brutalmente assassinado. Não é possível haver democracia com animais. O Neo-etológico tem que ser muito mais leve para poder ser democrático. E mais, a democracia está em seus últimos estertores – o futuro não é democrático. Já lhes disse que, diante do Quarto Império, a ideia de democracia faliu. Ao Quarto Império cabe inventar outra coisa. Faço a suposição de que o que está acontecendo não seja mero erro dentro do processo democrático, e sim sua falência diante do mundo recente, do mundo que entrou e não desaparecerá tão cedo. A democracia não dá mais conta dele. O caos que está se aproximando forçará a invenção de outro processo – e nada do que antes serviu como invenção servirá para a frente. Suponho que o encaminhamento seja para o que chamo Diferocracia, desde 1980, mas nada sei sobre a forma que tomará. • AA – Perdeu-se aqui a dimensão do ex-ducare, que é “conduzir para fora”. Para fora do primeiro círculo em que se convive, a família; do segundo círculo, que é o lastro escolar; em direção ao terceiro círculo, a sociedade, o mundo, etc. Justo esse terceiro passo é combatido no Brasil: acha-se que a educação tem que ser familiar, caseira, que não se pode ensinar demais... Ou seja, a formação do boçal já vem da família, da escola, da cabeça dos professores... Anísio Teixeira, quando era Secretário da Educação, fundou em 1950, em Salvador, a Escola Parque. O objetivo era tomar a educação como abertura para o mundo. • Potiguara M Silveira Jr – Quanto a esse aspecto de ensinar demais, ou aprender demais, mencionado por Aristides, mesmo no campo psi temos manifestações equivalentes. Corre pelas redes sociais uma citação atribuída 172

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a Nise da Silveira que vai nessa direção. Talvez querendo enaltecê-la, divulgam que ela teria dito: “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas. É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade...” É difícil entender, na citação, o que ser “curado demais” tem a ver com impossibilidade de mudar a realidade. Existiria isso, não curar-se demais? Ela tinha muita boa vontade, mas com o limite da cabeça de comunista. Isto, além de viver no âmbito dos fait-divers de Jung. O que Freud mais deplorava no pensamento dele é não existir transcendentação no sentido do saber. É uma grande cozinha, cheio de comidas maravilhosas – e só. Não se ultrapassa o limite que é o tal saber demais ou ficar curado demais. • AA – Em 2007, A Rebelião dos Anjos, você usou as três peças de Sófocles, Édipo Rei, Édipo em Colona e Antígona para pensar as três posições da Pessoa em relação à Vocação da Lei. A Lei como você coloca é: Há Alei, de última instância, que se decanta e se organiza como leis sociais e leis do Estado. Édipo Rei está no campo da Invocação e consistência da Lei, centrado em formações do consciente e no tempo forte do binário. Parece muito o ambiente atual sobre o qual estamos conversando: o tempo forte do binário com formações cerradas. Em Édipo em Colona destaca-se a Equi-Vocação e a inconsistência da Lei. Aí é um estado de ambivalência, anfibologia, sobreposição, que você diz ser um ponto descentrado, inconsciente, em que entramos num processo de espiralação das formações, de tempo fraco do binário. E Antígona é o momento da Re-Vocação da Lei, em que se destaca o Ponto Bífido resistente e o tempo forte do ternário. Parece-me, então, que alguém em processo de análise, de transcendentação, ao se deparar com esses processos terá que tomar decisões ad hoc sobre as formações. Assim, ao não dispormos de algum tipo minimamente avançado de educação, estaremos sujeitos a restar numa binariedade extrema do já construído, sem chance de nos defrontar com esse estado de exceção ou estado fraco das formações. E muito menos de entrar em estado de Juízo Foraclusivo, a partir do qual podemos decidir pela maior

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adequação à resolução de qualquer situação paralisada. Mencionei tudo isso para dizer que a situação brasileira me parece ser Édipo Rei. Talvez seja pior do que isso. Talvez seja pré-edipiano. O Édipo ainda está comendo a mãe, ainda nem se deu conta. Portanto, trata-se de aguardar um acontecimento que recorte o problema. Ainda estamos na era de chefes de Estado bundões. • Patrícia Netto Coelho – Faço uma pergunta que acho que eu devia saber responder, mas ela tem retornado. Por que é tão difícil reconhecer a realidade? Parece que tudo isso sobre o que conversávamos está ligado a uma situação de reconhecimento. Realidade é algo que produzimos. As pessoas são incapazes de secretar uma realidade adequada a seu momento, à sua situação. É uma inadimplência. E quando é que se consegue dar um passo radical em relação a todas as formações em exercício, em relação a todo o saber anterior? Em termos de luta, de batalha instituidora de soberania processando historicamente, costumo citar dois exemplos. Alexandre cortando o nó górdio, decidindo sobre a situação e promovendo uma nova situação, e Júlio Cesar atravessando o Rubicão. Quem pode fazer esses atos? Isso não é ato volitivo de algum presidente de republiqueta, e sim uma consequência evidente que é imediatamente reconhecida pela pessoa. Portanto, é um acontecimento. Em análise, é fundamental esse tipo de golpe por parte do analista. É quando pode intervir de maneira secante. Ele não faz isto porque lhe deu na telha ou achou bonito, e sim porque foi consequente para ele assim como foi para aqueles generais. Notem que a soberania aí em questão não é do analista, e sim da psicanálise, o ato analítico.

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25 • Aristides Alonso – Percebo nos macrossistemas de pensamento, principalmente do final do século XIX e do século XX, duas grandes tendências. Primeira, a daqueles que supõem um sistema como se fosse fechado – Galileu, Newton, Kant, Hegel –, sobre o qual os processos ocorreriam. Tecnologias como a do relógio e a metáfora do relógio para pensar o mundo são a concepção de um sistema que funciona, mas não se desgasta. A outra tendência surge com a termodinâmica e seu conceito de entropia, que passa a invadir as ordenações do sistema anterior. Daí, temos as máquinas de Turing, a teoria da informação, a teoria dos sistemas – e dentro dela a cibernética –, que passam a modelar uma abordagem de mundo completamente diferente da que ocorria até inícios do século XX. E a psicanálise, sobretudo com seu conceito de Pulsão de Morte, vem a se enquadrar nessa segunda tendência. Na sequência, na NovaMente, o conceito de Haver é pensável como a formação da entropia absoluta, e o processo que decorre da Quebra de Simetria originária produz formações que se organizam como informação. Ilya Prigogine falou em duas físicas, que seriam dois grandes modelos de articulação: uma física da fixação, a newtoniana, e uma física da termodinâmica, da entropia. A situação de pandemia em que entramos é descritível segundo essas duas ordens. O vírus atua como entropizante da ordem estabelecida, mas o interessante aí é o fato de essa entropia ser informação, ainda que não saibamos qual. É o mesmo que está na NovaMente ao afirmar que toda formação é conhecimento, restando saber qual. Ficamos, pois, nesse jogo entre entropia, informação e conhecimento – e esse processo pode ser chamado de teoria da informação, que, como entendo, é compatível com a Teoria das Formações. O que me leva a pensar o Haver como estado incalculável. Do ponto de vista da operatividade da psicanálise, o que fazer com isso? • AA – Ano passado, você dizia que o sintoma é um algoritmo, uma máquina de repetição. Pensar assim é esclarecedor das transas das formações 175

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por nos possibilitar considerar seus constituintes sistêmicos em operação arrumada e nos retirar de raciocínios conteudísticos. Se observarmos a psicanálise – mesmo depois de Lacan – e seus antecedentes na psiquiatria dinâmica, veremos que, dado que o assunto de estudo era complexo e tinha sido pouco trabalhado até então, é uma história cheia de concepções grosseiras que vão se limpando, se refinando paulatinamente. A tentativa de hoje tem que ser no sentido de continuar a faxina. Trata-se de eliminar um conjunto enorme de supostos conceitos que são opiniões às vezes mal formuladas sobre coisas que ou são díspares e estão postas no mesmo saco, ou são do mesmo saco e estão espalhadas fora de sentido. O termo sintoma, por exemplo, foi trabalhado na psicanálise como relativo a algum distúrbio, a alguma nosologia: sintomas histéricos, obsessivos... Para nós, hoje, sintoma é toda e qualquer formação. Toda formação é necessariamente sintomática, não importando se é agradável ou desagradável, se pareça doentia ou não, se seja faturável, aproveitável. Então, toda cristalização em uma formação é sintomática. Se esta cristalização supostamente está fazendo algum mal a alguém, parece que nesses casos é que há procura de tratamento. Mas por que não fazer o tratamento de toda e qualquer formação na tentativa de dissolver seus componentes para entender como é sua composição sintomática? Isto até chegar à franja mais distante possível de sua organização. Aí sim poderemos chamar a psicanálise de Clínica Geral, que aborda toda e qualquer formação como um construto sintomático. • P – Se a fantasia também é um algoritmo, como você disse, como distinguir a fantasia do sintoma? E se o sintoma pode se dissolver mediante análise, como pensar a fantasia como algo impossível de ser dissolvido? Estamos falando do processo cada vez maior de abstração necessário à psicanálise. Se a fantasia de uma pessoa determina seus procedimentos de gozo, se está como que colada na pele, se de certo modo não desaparece, isto não significa que não possa ser entendida em seus componentes, e que não fique claro que toda formação (sintomática, portanto) possa ser trabalhada analiticamente de maneira que se consiga entender quais são seus componentes, como é sua composição – e isso é infinito dado que, se tem uma região franjal enorme, não se conseguirá conectar todas as possibilidades de seu núcleo sintomático. Não 176

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se elimina um sintoma, mas é possível compreendê-lo e fazer variações com ele. Imaginem uma pequena melodia, na música: “Tchan-tchan-tchan-Tchâân”, de Beethoven. É um algoritmo – e vejam o que ele fez com este algoritmo. A Quinta Sinfonia é baseada na variação extrema desse algoritmo. Imaginem agora a diferença entre um neurótico musical e um criador musical. O neurótico passará o resto da vida falando “Tchan-tchan-tchan-Tchâân”. Já aquele que for mais musical do que neurótico não abandonará o algoritmo que lhe foi favorável ou que nele se instalou, mas fará uma sinfonia maravilhosa com ele. Ou seja, com a mesma fantasia, pode-se gozar de milhares de maneiras. Trata-se, pois, de entender na história da psicanálise que a distinção de certos conceitos me parece pobre. Sintoma é isso, fantasia aquilo... Todas as formações são sintomáticas, repito. E só chamamos de fantasia aquela formação, digamos, algorítmica, instalada no modelo de gozo de alguém. Como ele goza? Aí, é outra história. Beethoven gozava muito com seu algoritmo melódico. Outros ficam só repetindo. Dissolver um sintoma não é acabar com ele. É, sim, entender seus componentes, suas transações, as transações desses componentes com outras transações de maneira que, ao mesmo tempo ele parece fixo e não é, tem uma aplicabilidade infinita. É fixo quando se paralisa numa aplicação. Por isso, chamei de Morfose Estacionária, que é o caso daquele que fica repetindo o passarinho: “tchan-tchan-tchan-tchân” – e morrerá pastando. É bem diferente de Beethoven que disso fez um imenso panorama de gozo musical. Uma pessoa é configurada, tanto é que passamos por ela e a reconhecemos. Isto jamais será dissolvido. Se for, ela não existe. Ela só existe sintomaticamente. Só que, do ponto de vista da movimentação psíquica, podemos fazer o que quisermos dessa sintomática, da melhor ou da pior espécie. • AA – No jazz, atua-se desse modo. Dá-se um incisivo musical – que é um pequeno algoritmo – e todos os participantes da jam session têm que se virar com ele. Aí, surgem sonoridades incríveis. A diferença entre um jazzista capaz e um Estacionário é que este só fica repetindo o algoritmo, e não faz daquilo uma grande sacanagem musical. Justo o que fazia Villa-Lobos: ia na tribo dos índios, tomava um pequeno

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incisivo e fazia uma peça maravilhosa. Ninguém ficará “curado” de sua sintomática. Se acabar com ela, morreu. • Patrícia Netto Coelho – A fantasia pode ter uma escala maior do que aquela da situação de uma pessoa? No Creodo Antrópico, é possível, pensar uma articulação da ordem da fantasia constituinte de cada um dos Cinco Impérios? Cada Império tem uma articulação sintomática. Segundo minha perspectiva, a fantasia é uma organização sintomática, e não o contrário. A fantasia é uma composição sintomática que se instalou para uma pessoa como algoritmo de seu gozo. Se tomarmos o Creodo enquanto tal, veremos que são formações claramente sintomáticas. O Creodo Antrópico, como o nome diz, só vale para esta nossa espécie que, de nascença, tem as doencinhas de Amãe, Opai, Ofilho... Em outra espécie, há que buscar como seu Creodo se dá. Ora, à medida que se possa gozar com isso, pode ser tomado como sendo uma fantasia. Então, como gozar com isso? • PNC – Você diz que uma análise também se desenvolve segundo um Creodo. Podemos supor que a fantasia passa por um processo de decantação nesse Creodo pessoal? A ordem sintomática de uma pessoa não pode estar liberada de seu processo antrópico. Na análise de uma pessoa, percebem-se os resquícios que carrega de cada um dos Impérios. Aquilo foi funcional em sua história. Então, como cada um operará sua análise para ficar independente dessas obrigações sintomáticas? Não que não as usará, e sim que, ao máximo, poderá percorrê-las, digamos, à vontade? Ou seja, as obrigações sintomáticas não estão fixadas. Nem mesmo fixadas à contemporaneidade. Jung, por exemplo, produziu uma teoria referida a cristalizações sintomáticas dentro de um repertório imenso dessas cristalizações. Ele ficava apenas compreendendo as cristalizações. (Era, aliás, o que Freud, que procurava abstrações cada vez maiores, não suportava nele). No entanto, ele tinha razão ao pensar que o arcaico está em nós. Não se abandona o Creodo ou qualquer dos Impérios. Eles estão aí de algum modo. Não se consegue nascer no Império novo. Acho eu que os arquétipos de Jung eram a intuição de que a espécie, no que passou por esse histórico, carrega a sintomática de todos os Impérios. Aliás, isto não é incompatível com Freud. 178

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• PNC – Esse seria um dos sentidos do que você coloca sobre nossa condição de marionetes? E, uma vez ou outra, acontece uma HiperDeterminação. • PNC – A impressão que tenho de nosso momento atual é termos saído de um setting de filmagem e passado para outro. As exigências, inclusive de gozo, são bem diferentes das do outro setting. Estamos no setting sem que nos tenham entregado o roteiro. Qual é o roteiro do Quarto Império? Ainda não nasceu. Há mais de dois mil anos estávamos acostumados a um roteiro tal que parecia ser a obrigação daquele filme lá. O filme queimou, e o pior é o pessoal estar procurando o roteiro para trás, estar procurando consertar o roteiro. Não tem conserto! Acabou! Ele nasceu com propriedade de Terceiro Império, por necessidade de Creodo, de “caminho obrigatório” de saída. Então, como nascerá o roteiro do Quarto Império? E ainda agora que levamos esse susto que, de certo modo, é recalcante demais. Ou não, pois pode ser motivo de criação para alguns, um motivo de acontecimento, de HiperDeterminação. • P – Será bem interessante esse roteiro do Quarto Império. Se eu conseguir realizá-lo de algum modo, farei chegarem a você os direitos autorais. Faça isso. • P – Em 1999 (A Psicanálise, Novamente), você apresenta os Cinco Impérios e faz uma série de alinhamentos para cada um deles:

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Creodo Antrópico: os Cinco Impérios do périplo cultural 1AR

2AR

Or

1º AMÃE

2º OPAI

3º OFILHO

4º OESPÍRITO

5º AMÉM

Afeto

Lei

Amor

Consideração

Valetudo

Sentimento

Tabu

Ideologia

Indiferença

“Horda”

Judeu

Cristão

NovaMente

Saúde

Mater

Pater

Frater

Gaia/

DeusPai

NomDuPère

Nominação

Anonimato

/Urano

Saturno

Júpiter

Métis

Hybris

Positividade

Na sequência sequência Mater – Pater – Frater, há umahá lacuna Na Mater – Pater – Frater, umareferente lacunaaos referente

Quarto e Quinto Impérios. Neste nosso momento de pandemia, é como se esti-

aos Quarto e Quinto Impérios. Neste nosso momento de pandemia, véssemos vivendo uma exasperação da ideia de família. Segundo o que lemos

jornais,se a violência doméstica cresceu, éuma como exasperação se a casa tivesse da caído. énoscomo estivéssemos vivendo ideia de Dado que não se pode fazer porcaria na esquina, faz-se em casa e todos veem.

família. Segundo o que lemos nos jornais, a violência doméstica Então, dessa casinha de papai, mamãe e filho, parece que a janela vaza para o Espírito em Império. cresceu, é direção como ao seQuarto a casa tivesse caído. Dado que não se pode O Espírito não tem outra referência senão aos próprios elementos da

fazer porcaria na esquina, faz-se em casa e todos veem. Então, comunicação. (Lacan chamaria de significantes). São todos os elementos da possibilidade de significação. A referência é essa. dessa casinha de papai, mamãe agora e filho, parece que a janela vaza • P – Depois do Frater viria o Sócio, o parceiro na roubada?

para oOsEspírito em direção ao Quarto Império. sociólogos gostam de usar Socius, em latim.

O que podenão vir, então, é necessariamente solidariedade, O• P –Espírito tem não outra referênciauma senão aos próprios

e sim uma postura desse socius diante do reconhecimento da dissolução?

elementos da comunicação. (Lacan chamaria de significantes). São todos os elementos da possibilidade de significação. A referência agora é essa.

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O que seria uma lembrança do Vínculo Absoluto para sustentar algum tipo de transa. • P – E, no nível da narrativa comum nos roteiros, escreve-se o quê? O que vemos escreverem até agora é papai-mamãe-filhinho. Não há mais o que fazer com isso. • Rosane Araujo – Você falou da fantasia enquanto formação instalada como modelo de gozo de uma pessoa. Em 2003 (Ars Gaudendi: a ordem do gozo), você apresentou os Patemas da psicanálise, as formações patemáticas como formas de gozo. Podemos fazer aproximação entre as fundações mórficas de uma pessoa e a fantasia? Não. Talvez a fantasia possa ser considerada uma das fundações mórficas. Estas são várias e modelos de outros tipos de gozo. A fantasia está adscrita diretamente ao gozo sexual da pessoa. Ao sexual, digamos, grosseiramente, corporalmente. Só que a fantasia se espalha por várias possibilidades. Qualquer formação que, para uma pessoa, se torne uma fundação qualquer tem base primária, secundária e originária. Ao fazer a leitura dessa formação, é melhor prestar atenção às suas bases primárias e secundárias. Isto significa que toda e qualquer formação que sofra uma fixão em relação a uma pessoa é histórica. Foi no percurso de vida da pessoa dentro de sua situação histórica que, junto com Primário, Secundário, etc., “ela montou” aquele aparelho seu. Por isso, cada um tem a historinha que tem. Não há duas pessoas com a mesma história. O cenário pode ser o mesmo – família burguesa de tal tipo, de tal época, etc. –, mas a historinha de cada um é singular. Por isso, a fantasia é singular, e a sintomática também. Por mais que se possa criar uma generalidade – uma Morfose Estacionária, etc. –, cada uma é uma. Lacan disse algo importante: a psicanálise é a ciência do singular. É difícil isto entrar na cabeça de outros cientistas: como fazer a ciência do singular se o pensamento da ciência é tentativa de universal? Daí acharem a psicanálise tão estranha. Daí, como lhes mostrei várias vezes, Popper nada ter entendido sobre ela. Quis comparar um comportamento como o da psicanálise, que busca fazer a ciência de uma singularidade, com o de uma ciência que busca produzir um universal. Não há termos de comparação. Não cabem na mesma epistemologia. A física toma um elemento singular e, de algum modo, consegue 181

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produzir algum discurso explicativo e funcional sobre ele. Depois, aquilo pode ser generalizado para todos os elementos que sejam da mesma ordem. Não dá para fazer isso em psicanálise. É possível generalizar conceitos abrangentes, mas, no caso de cada pessoa, não há como universalizar ou mesmo generalizar o que foi destacado como verdade desse caso. Não há outro caso igual. Há alguns elementos de semelhança – uma anatomia descritível mais ou menos igual à de muitos outros, etc. –, mas não é o que acontece no psiquismo. Ele toma todas as formações e submete a um denominador comum que é único, daquela história, daquela pessoa. Observem algo que provoca os cientistas das ciências duras, da física, das cosmologias: a ideia de universos paralelos. Segundo eles, no outro universo, você estaria com uma história completamente diferente desta sua aqui. O que é isso? É uma ideia louca, mas é interessante pensarmos em qual seria o você de lá? Quais são suas bases sintomáticas lá? Não importa que isso não seja possível, e sim que a deliração é interessante: mostra que mesmo você em outros universos já não é mais você. E se há outros universos, cadê a universalidade da física? • P – Na obra de Lacan, a fantasia tem um papel destacado e importante. Ele usa a travessia da fantasia como marca de final de análise. Você fala da fantasia como algoritmo, mas agora você falou das fundações mórficas como fora da fantasia e apontou para o sentido sexual restrito... A fantasia de que Lacan fala é inteiramente localizada. É no sentido direto do gozo. Isso não impede que a pessoa tenha outras fundações que serão operadas em consonância com essa fantasia. São várias as formações que lá também estão em transa com sua fantasia. Talvez até tenham participado da cristalização dessa fantasia. Mas se alguém constituiu historicamente uma fantasia, um algoritmo de seu gozo, esse algoritmo passa a transparecer em todos os seus atos. É difícil entender isso, sobretudo se a pessoa não passou pela experiência própria de destacar essa fantasia e se observar no mundo segundo essa fantasia. Por isso, Lacan acha tão difícil esse destacamento a ponto de ter feito a suposição de que atravessar a fantasia seria fim de análise, seria o último degrau. Como sabem, para mim não há fim de análise, não levo isso em consideração. Agora, direi algo que me parece assustador, mas, ao contrário, desenhar a fantasia é o começo da análise. Daquela que chamo de Análise 182

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Efetiva, para depois da Análise Propedêutica. O início da Análise Propedêutica se chama: transferência. Alguém em Análise Efetiva não mais precisa da transferência. Pode até querer usar o analista, mas está em Autonomia, Solidão e Disponibilidade em relação às formações. Nunca terá disponibilidade total, pois tem âncoras. Por exemplo: fantasia, formações básicas... • P – Quanto à disponibilidade, percebo que, em nossa situação atual de confinamento, fica evidente que, além das quatro paredes, há muitas formações que nos confinam. Se alguém ampliar bastante sua possibilidade de disponibilidade, não existe confinamento. • PNC – Entendo que essa afirmação “o destacamento da fantasia dá início à Análise Efetiva” não seja algo da ordem declarativa. Há uma questão performática aí. Há que aparecer uma efetividade. Por outro lado, quanto ao dispositivo lacaniano do Passe, podemos pensar que, no fundo, se tratava de uma falação entre amigos. É como se, em nosso caso, disséssemos: “Mostra aí sua fantasia!” Olhamos para a pessoa e a vemos em todos os seus funcionamentos. • P – Existe dissolução de fantasia? Dissolução não quer dizer eliminação, e sim reconhecimento dos elementos constitutivos desse algoritmo. Dissolve-se o algoritmo para ver suas partes. Quais são as formações que compõem tal fantasia? • P – Eu entendia a travessia da fantasia como passar a não recorrer à pregnância na constelação das formações. A fantasia deve ter o máximo de pregnância, de regência. Isto, enquanto analisada. Analisar significa distinguir sua composição. Tome o Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, que é simulação de um percurso de análise. Ao final, ele diz o quê?: Travessia. Vejam o esforço que Rosa faz para atravessar a fantasia de Riobaldo. • P – Há o avesso da fantasia? A fantasia como algoritmo não tem lado. É um algoritmo bífido que funciona para qualquer lado. Esses lados é que têm avesso e direito. O algoritmo é um Ponto Bífido unário em cima de uma banda de Moebius. Pode-se fazê-lo funcionar para lá ou para cá “à vontade”. 183

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• AA – Ao trazer a Transformática e colocar a psicanálise como a teoria da comunicação, você está encarecendo a transa das formações, a conversa das formações entre si... ...e também o instransitivo entre as formações. O que acontece com a maioria das pessoas é elas não fazerem um processo de integração de suas formações mediante a transa de cada uma de suas formações com “todas” as suas formações. A pessoas são completamente estilhaçadas, partidas em formações incompatíveis umas com as outras. Elas são dissociadas. A dissociação entre as formações diz respeito ao fato de as pessoas estarem fracionadas. O caso da chamada múltipla personalidade, ou dupla personalidade, é um bom exemplo disso. Trata-se aí de um conjunto de formações que realmente não conversa com outro conjunto de formações. Cabe à psicanálise levar as pessoas a fazer suas formações conversarem entre si. Em análise, tomem o caso de uma pessoa de alto nível científico que, nesse nível, está no ápice de liberdade de transação com sua ciência. Em outro, vemos que é uma pessoa grossa, estúpida. Freud era alguém assim. Vejam lá o começo de sua história: alguém intelectual e analiticamente produzindo uma libertação sexual, mas um caretão dentro de sua família. Quanto tempo levou para tentar associar de novo sua dissociação? Se alguém sofre um embargo, isto é, um recalque, numa região, essa região pode ficar desconectada de outra em que ele não está com embargo algum. Já lhes disse de outra vez que suponho que a região que tem embargo acaba prejudicando a outra que não tem. Como a coisa pode se encaminhar fracionariamente – algo visível na história das pessoas –, o que temos é isso: pessoas geniais num campo e estúpidas em outro. • P – Gregory Bateson fala em duplo vínculo e mensagem contraditória. É algo frequente em família de esquizofrênico. Mas ele acha que isso é o que faz a esquizofrenia, que a psicose é resultado de double bind. É barato demais como conceito. Para mim, o double bind é consequência da psicose. • P – Você falou sobre a dissociação das formações numa pessoa e sobre o processo de análise buscar permitir que as formações conversem entre si. A HiperDeterminação é que seria a referência para permitir essa conversa entre as formações? Ou seria uma acumulação de partes? 184

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Não se trata de HiperDeterminação aí, pois esta é um acontecimento que salta fora das formações dadas. Tampouco se trata de acumulação. É uma questão de suspensão de recalques, de permissão de que uma formação transe com outras com que não está transando. Qualquer um, em análise, deve ter a experiência de, de repente, sacar algo que não era compreendido antes. Isto significa que uma formação estava bloqueada e não falava com as outras. Uma vez que saca isso, a pessoa amplia seu escopo de transações. • PNC – Há uns dois anos, quando pensávamos um projeto de Clínica dentro da instituição, você falou sobre uma dinâmica de alguém lá procurar análise e poder ser atendido por qualquer um, sem uma relação fixa analisando-analista. Pergunto se esse desenho não seria até mais compatível com o que enfrentamos na situação atual e com o que enfrentaremos adiante ao sair da quarentena. Aprontou-se certa disponibilidade para testar coisas, para tomar decisões sobre práticas que não eram obrigatórias ou mesmo visíveis antes. Será isso exemplar de uma disponibilidade futura para estarmos em rodízio, percorrendo mais cenas, buscando mais recursos, mais ferramentas? Poderá, sim, ser por aí. Em última instância, a questão é: como se faz transferência com uma instituição clínica, e não com uma pessoa? • P – Françoise Dolto falava em transferência com o lugar – da psicanálise, segundo ela –, e não com a pessoa. É o lugar de psicanálise. Se isso acontecesse, seria um passo a mais a ser dado na Clínica em psicanálise. Nunca foi dado. E também dependerá da construção da instituição. • P – Como juntar com isso o que você falou sobre a psicanálise ser a ciência do singular? Pensamos usualmente a figura do analista como depositário único de nossas histórias e questões. Foram colocados quatro dispositivos para a instituição (Clavis Universalis, 2005): Polo de Formação, Análise Pessoal, Oficina Clínica e Polo de Estudos. A Oficina Clínica – que acho não ter ainda sido bem entendida – é o lugar onde todas essas transações circulariam, uns podendo ter a ajuda dos outros em termos de entendimento. • P – Acho mesmo que, nesta instituição, isso também acontece de algum modo. Os pares, na frequentação dos quatro dispositivos, têm tido trocas 185

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e intervenções analíticas entre si independentemente de quem seja o analista de cada um. Isso não é a experiência de constituição daquele lugar de análise de que estamos falando. No modelo que estamos apontando, é a Oficina Clínica que constitui o lugar de transferência: o cruzamento entre as formações ouvidas pelos analistas é tão intenso que qualquer um escuta qualquer analisando. Sei que é uma experiência dificílima. Não se trata de rodízio, e sim de a pessoa chegar e falar com quem lá estiver. A ideia de Françoise Dolto é bem abstrata: existiria uma situação institucional de formação tão boa que a pessoa iria lá e falaria com qualquer um. Aquilo estaria entrosado com todo o sistema por causa da Oficina Clínica.

26 • P – Em várias análises de jornalistas e intelectuais, lemos que estaríamos vivendo um momento existencial, pessoal e político de vigor de “pulsão de morte”. É como se, para eles, a pulsão de morte se restringisse a práticas violentas, assassinas, destruidoras. A dualidade pulsão de vida / pulsão de morte ainda é forte no entendimento geral do que Freud apresentou. Há que explicar-lhes que o que estão vendo é só uma porção de mortes. • Aristides Alonso – Esse entendimento comum está lastreado em autores supostamente ligados ao campo psicanalítico. Por exemplo, Herbert Marcuse com seu Eros e Civilização (1955), em que há essa visão de que a pulsão de vida é positiva e a pulsão de morte é negativa. É a ideia comprada pela turma que vem da sociologia, do marxismo... 186

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O próprio Freud, de início, se enganou. Depois, corrigiu, mas o pessoal não notou. • AA – O que não é palatável para essa turma é o conceito de Pulsão tal qual trabalhado pela NovaMente. Freud corrigiu. Lacan insistiu em que toda pulsão é de morte. Esse pessoal ouviu falar, e não faz ideia do que se trata. É folclore, neles e nos jornais. • Potiguara M Silveira Jr – Acompanhamos que, nesse saber mediano, midiático, o entendimento sobre a pulsão de morte seja folclórico. Por outro lado, lembrei-me de que Eva Jablonka (especialista em epigenética, hereditariedade e evolução, professora em Londres e Tel Aviv), quando esteve aqui no IPUB/UFRJ em 2013, ao responder a uma pergunta sobre a pulsão de morte disse que não considerava a possibilidade de sua existência, pois com o que ela se deparava era a vida. Era uma noção extemporânea ao aparelho dela. Minha observação vai no sentido de acompanhar os passos de Freud, Lacan e da NovaMente. Esta é bem mais incisiva ao afirmar que o que há é pulsional. Está aí mesmo certa dificuldade de as pessoas entenderem o arcabouço teórico proposto a partir dessa afirmação. E é este ponto que faz a diferença para com os demais aparelhos teóricos. Isso é algo que está resolvido há bastante tempo antes da NovaMente. Ela não está inventando nada. É aceleração da Entropia. • PMSJr – Mas qual outro discurso, hoje, colocaria uma ênfase tão radical no aspecto pulsional? O Coronavírus. • PMSJr – Aí, vamos para o Real. A Pulsão de Morte está concretamente presente para todos verem. • AA – O que a termodinâmica, a teoria da informação, a teoria dos sistemas e as psicanálises anteriores não têm é o ponto de reviramento claro, trazido para o coração da teoria. O conceito de Pulsão coloca um Impossível Absoluto que não há nessas teorias. A NovaMente faz um uso máximo e generalizado do conceito de entropia. O conceito de pulsão de vida, que corresponderia ao conceito de neguentropia, é uma maneira errada de dizer, pois o nome é: resistência das formações. É o que Espinosa chamava de Conatus. É a insistência da formação 187

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em sua subsistência e em sua permanência. Não é, portanto, necessário haver pulsão de vida. Nem para Freud, pois ele já sabia da resistência. Entretanto, dada a proliferação de conceitos em sua obra, é natural que Freud colocasse do modo que colocou. Como estava tentando arrumar o lixo que encontrou, foi proliferando conceitos para dar conta do que via. O que vamos fazendo, é passar a limpo, jogar fora o que é redundante. Desde antes de a psicanálise surgir como tal – já lhes recomendei o livro de Henri Ellenberger sobre o descobrimento do Inconsciente quanto a isso –, ela é redundante demais, repete conceitos que podem ser bem reduzidos depois. Lacan tentou fazer uma limpeza mais de índole linguística, até mesmo filosófica, se não for até religiosa, e quanto mais pudermos passar a peneira, melhor. Na história da psicanálise, há várias distinções inúteis. Há uma proliferação de nosologemas inteiramente desnecessária. Mas é preciso passar o tempo para percebermos isso. E é preciso reformar o paradigma e o protocolo de enunciação desse paradigma. Caso contrário, ficaremos presos nos anteriores. Vejam como arrolei uma quantidade de conceitos sob a égide do conceito de Sintoma. Seguindo o que está no texto de Freud, Inibição, Sintoma e Angústia (1926), Lacan tenta localizar geometricamente no nó borromeano esses três como cruzamentos de Real, Simbólico e Imaginário. Hoje, podemos ver que isso é uma inutilidade, pois qualquer formação, de qualquer tipo, é sintomática. Ela é um sintoma. Agora, como ela funciona em relação a outras formações, é outra história. Repito, todas as formações, só por serem formações, são sintomáticas. Então, ao invés de perguntarmos qual é a diferença entre inibição, sintoma e angústia, é melhor perguntar: que sintoma é uma inibição, que sintoma é uma angústia? No protocolo de Lacan não é possível fazer essas perguntas, pois está gerido pelo nó borromeano e pelas nomeações que faz a partir dos conceitos de Sujeito e de objeto (a, no caso dele). Ele tem que distribuir pelas nodulações, mas, uma vez eliminados sujeito e objeto, as formações ficam em carne viva: são formações, ponto! E elas transam. Na cultura ocidental, o conceito de sujeito deu muito prejuízo para o pensamento. Sobretudo, a partir do reforço vindo de René Descartes. • Nelma Medeiros – Quanto à questão “que sintoma é a angústia?”, me ocorreu pensar se a angústia não era um dado para qualquer ordem 188

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sintomática. Então, ao contrário, a pergunta seria: o que, na ordem sintomática, faz aparecer a angústia? É a mesma coisa. No protocolo que anoto, qualquer formação é sintomática. Ou seja, produz resultantes. Como nos protocolos de Freud e de Lacan não há Primário, Secundário e Originário, tentam trazer o Primário para dentro como algo postiço, e não como um conceito fundamental que arruma toda a ordem de pensamento. O que a angústia tem com o Primário? • P – O que não é formação, o que não é sintoma? A Pulsão é sintoma? Por que a Pulsão fica se repetindo? Ela é o sintoma do Haver. É como o Haver se manifesta sintomaticamente. Mas, por trás, ou antes ainda disso, qual é o sintoma típico do Haver que o faz exprimir-se de maneira pulsional? É a Morte. O sintoma do Haver é: Pulsão de Morte. Como toda pulsão é de morte, o destino fundamental da pulsão é: desejo de aniquilação. Aliás, impossível, pois nada será realmente aniquilado. • PNC – O sentido freudiano de sintoma é: uma formação substitutiva. Então, se a requisição é sempre de algo que não há – como está na Lei pulsional –, o que não seria uma formação substitutiva? Substitutiva do quê? De um desejo não realizado. • AA – O tema Pulsão de Morte é oportuno na situação atual. Para a psicanálise, ele é habitual. Você já trouxe que, na análise, um dos últimos sintomas a ser batido é o reconhecimento de que “a Morte não há”, de que houve a morte da morte. Trouxe também a questão de “desistir de desistir”. Em 2004 (Economia Fundamental), diz você (p. 139): “Não acredito que alguém tenha medo da morte, pois ninguém sabe o que é. Devem ter medo de doer ou de outras coisas. Como se pode ter medo de algo que não se conhece? Minha questão é se, na análise, devo insistir em suspender a certeza de morte. Segundo a Nova Psicanálise – tenho que zombar dela também, já que ninguém faz... –, suponhamos que o Haver se neutralize por inteiro. Todas as formações somem, portanto, nada subsiste em sua forma, só o Haver como neutralidade absoluta. Refiro-me à morte no sentido de estrago, sumiço, perecimento reconhecível. A experiência de morte não há, mas a pessoa, mesmo supondo que nunca terá experiência de morte, pode dar ‘graçasadeus!’ que essa droga acaba. Ela não terá a maravilhosa experiência de: ‘Ah! Acabou!’ Assim, haveria um 189

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limite, pois tipo algum de sofrimento seria para sempre. Mas é claro que será para sempre. Minha questão é o que a psicanálise faz com isto”. Parece que a questão é topar em última instância com esse fato, com esse conhecimento. Atualmente, a notícia de mortes, de contagem de mortes, é constante e pode parecer que é diferente do que se dava antes. Não é, essa situação só está mais presentificada. Qual é o exercício a fazer? Freud já disse que não há inscrição de morte no Inconsciente. Isto quer dizer que é uma experiência que ninguém tem e nem tem como ter. Temos experiência de perda, quando outros morrem. Fala-se de “experiência de quase morte”, mas como alguém saberia que era quase morte se não morreu? • P – Em O Mal-estar na Cultura, Freud chama a ciência de construção auxiliar para enfrentar o mal-estar, um poderoso divertimento. Você diria que o riso é um bom índice da postura analítica frente ao conhecimento, seja de que tipo for? A postura analítica diante do conhecimento é de Perplexidade. O riso é um nervoso que dá na gente por não conseguirmos o que queremos. Um chiste, por exemplo, é uma prova de incompetência. Como não conseguimos ser competentes, fazemos uma piada. É a gozação do Inconsciente. • P – No texto sobre O Humor (1927), entendo que Freud aponta o riso como possibilidade de revirar. Você tira da reta rindo. Freud nunca deixou de ser inteiramente pessimista. Sempre achou que “vai dar merda”. Quanto a mim, sempre digo: “Vai piorar”. • PNC – Mas você disse que seria daqui a duzentos anos. Eu disse que duzentos anos seria para a implantação de alguma coisa nova. O conflito é de cinquenta anos. Pelo comportamento geral do planeta, as pessoas sequer estão começando a visualizar a possibilidade nova. Todas as construções de saber realizadas por esta espécie estão em periclitância. • AA – Essa periclitância diz respeito a observarmos em escala mais focada ou mais aberta. A cada vez que a escala aumenta, temos a possibilidade de transações cuja computação era inimaginada antes. Penso em Big Data, no que chamam complexidade, composição caótica, que nos possibilitam cálculos, desvios e bifurcações que não tínhamos possibilidade de pensar. De fato, a 190

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precariedade do conhecimento aumentou. Havia uma arrogância em relação ao nosso saber. Nossa atual situação de Covid-19 é exemplar da surra que a humanidade está levando em todas as áreas de conhecimento. Repito: “O pior ainda está por vir”. Esse acontecimento parabiológico pôs em xeque o Primário. No que fez isto, o Secundário ficou desmoralizado sem saber o que fazer. Os sabichões do planeta estão com a bunda de fora, na janela. A crise que poderia ter sido só do Secundário, mais lenta, surgiu radicalmente. O Primário está o tempo todo sob ameaça e o Secundário fica correndo atrás sem conseguir acompanhar. Um médico e matemático da USP, a partir de modelos matemáticos, já indicou que a atual crise é apenas um ensaio. A crise verdadeira ainda virá. Nesta, segundo ele, morreria um bilhão de pessoas. • P – Você disse que há pessoas que têm uma incapacidade de secretar uma realidade condizente, compatível com seu momento, com sua situação. Leio essa compatibilidade pela chave da eficácia, da capacidade de navegação e intervenção. O que pensar sobre a situação que de certo modo se impõe e a realidade secretada de certo modo em resposta? Em que medida uma e outra são ou não suposição? A analogia aí é entre mapa e território? A pessoa secreta realidades. O que chamamos realidade é uma transa entre formações supostamente disponíveis dentro do Haver e formações articulatórias dentro do que chamamos psiquismo. É uma transa, logo é simplesmente uma suposição que frequentemente se encaixa. Comparece quase como uma relação em sentido matemático, ponto a ponto, mas não cabe de modo algum sonhar que seja cem por cento. Se fosse cem por cento, já teríamos resolvido tudo. Quanto a essa analogia que fizeram, principalmente na linguística, entre o mapa e o território, pode-se ir aumentando o tamanho do mapa até coincidir com o território. E quando o próprio território é o mapa, estamos no máximo de realidade possível – conjetural, contudo. O mais interessante atualmente talvez seja a pessoas estarem com síndrome de ignorância. É mais uma ferida narcísica radical: todos correndo atrás sem conseguir achar o mapa do vírus. • PMSJr – Você recomendou, por e-mail, a leitura do final – “O Imperativo Absoluto” – do livro Você Deve Mudar sua Vida (2009), de Peter Sloterdijk, 191

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dizendo que “me parece a sugestão do autor para possíveis soluções para o Quarto Império”. Essa recomendação foi feita em função de uma entrevista recente dele ao jornal El País. Ao falar da atual situação de pandemia, ele resgata o conceito de co-imunidade apresentado nesse livro. Conceito este que “implica aspectos de solidariedade biológica e coerência social e legal. Essa crise revela a necessidade de uma prática mais profunda de mutualismo: precisamos de proteção mútua generalizada”. No início do último capítulo (12), em que está a parte final cuja leitura você recomendou, Sloterdijk menciona uma mudança radical em relação a hábitos enraizados, já que “as pessoas não habitam territórios, mas hábitos”. Estaria aí uma indicação para o que deve ocorrer como prática constante no Quarto Império? Segundo nosso ponto de vista, que aposta no Revirão e na Bifididade do Inconsciente, de que hábitos devemos nos livrar? De todos? Não. Se alguém suspender todos os hábitos, morre. E tampouco há que eliminar hábitos. Não é pensamento nem função da psicanálise a eliminação de coisa alguma. Trata-se simplesmente da disponibilidade de qualquer coisa, de ter a disponibilidade de utilizar ou não um hábito. O hábito pode ser nossa salvação em algumas situações. Há que construir analiticamente uma disponibilidade para percorrer as formações. É difícil, mas o analítico é a disponibilidade, e não a repetição pura e simples ou a eliminação de hábitos. • PMSJr – A propósito do pessimismo de Freud a que você aludiu, Michel Houellebecq publicou há dois dias atrás uma carta – intitulada En Un Peu Pire (cuja sonoridade acho interessante, pois, de modo meio gago, lembra Um Imp-pério) – em que dizia que, após o confinamento, não acordaremos em um novo mundo, será o mesmo, mas numa situação um pouco pior (Nous ne nous réveillerons pas, après le confinement, dans un nouveau monde; ce sera le même, en un peu pire). Esta nossa espécie é estúpida demais, mas uma coisa acontecerá: o panorama vai mudar radicalmente e as pessoas terão que se adaptar a ele. Será, suponho, um panorama de Quarto Império, que poderá ser bonito ou feio. Não sei. Se, com suspensão analítica, prestarmos atenção à história, veremos que o Terceiro Império foi uma bela porcaria. Conseguimos produzir coisas incríveis, mas, enquanto solução imperial, solução do Império, veio com toda a estupidez 192

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religiosa da Idade Média e culminou com um século XX caracterizado pela paranoia radical. • PMSJr – Na sequência dos Impérios, sabemos que o Terceiro é aquele cuja referência é diretamente ao Secundário. É justo o movimento de passagem para a referência ao Secundário que o caracteriza. E o movimento para referir-se ao Espírito é o apontamento do Quarto. Entretanto, os modos, os costumes que se instalam na implantação dos Impérios é que podem ser bonitos ou feios como você disse? O tendencial é a instalação se dar mediante baixaria? Sim ou não. Pelo fato de estarmos diante de um Quarto Império dilacerado entre as referências ao Secundário e ao Originário, desta vez a crise em que entramos é, com ou sem vírus, violenta demais. Não é como as anteriores, que tinham âncoras. Esta de agora está sem. O questionamento e a suspeição a respeito de todas as formações será radical. Aonde vai parar? Quem, ou quens?, montará um entendimento adequado para a situação? As cabeças afetadas pelo Império têm que aparecer, são elas que vão propor configurações. E, pior, não pode ser nenhuma das utilizadas até hoje. Nenhuma filosofia, teoria política, nada feito até o Terceiro Império presta para o Quarto Império. O problema, como lhes digo, é as pessoas estarem procurando lá atrás soluções para a crise atual. Não há solução lá, ela terá que ser inventada. Nem mesmo a velha psicanálise serve mais. O estofo do pensamento de Lacan é de Terceiro Império, é católico, de século XX – portanto, tem uma estrutura paranoide. Basta só lembrar que o Terceiro Império é o império do amor. Fui abominado quando, em 1982, escrevi um soneto (um someto de omor) intitulado: CHEGA DE AMOR – que os ódios mais fecundos nascem, crescem, florescem, frutificam é à sombra dele mesmo – e se trumbicam as intenções mais lindas deste mundo: aquelas que só levam para o inferno aonde o amor espera, pelo avesso, as ganas paranoides do começo, pra repeti-las em retorno eterno. Nossa hora é de Lei, de afastamento, de corte sem costura, de respeito, mais pra mesura que pra sentimento.

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Possa o amor impossível – só depois – pra além da Lei, ganhar um novo jeito: de dois não fazer um – mas fazer dois.

É o Império do ódio, fantasiado de amor. Freud foi alguém que sacou isso. Ele teve que atravessar duas guerras mundiais sofrendo ameaças pessoais. Coloquei duzentos anos para a instalação do Quarto Império sobretudo porque ninguém de agora ou das próximas gerações lá estará presente. Serão outras afetações sintomáticas a decidir sobre isso. É preciso lembrar que, dado certo tempo, o Inconsciente chacoalha. As novas gerações são parecidas conosco, mas não são como fomos. Por isso, estão apavoradas com a falta de possibilidade de visão para viver. Mas elas também morrerão. O que imagino é que o catalisador para a reflexão sobre o Quarto Império será um pensamento semelhante à psicanálise da qual estou falando. A situação presente é compatível com a postura da psicanálise, é de pura perplexidade. Vejam que a postura de pensamento ocidental é prometeica: tentou proteger a humanidade contra a voracidade de Zeus, colocá-la para a frente mediante construção de saberes, de produções e, depois, aplicá-las. O que Prometeu entrega à humanidade é o fogo do saber e do desejo. Mas ele é apenas metade da história, seu outro alelo é Epimeteu, que parece sempre se dar mal, mas ele não sabe antes, só sabe depois. É a postura do analista: Nachträglichkeit, só-depois, como disse Freud. Ele não tem projetos, tem reconhecimentos. A escuta do analista não pode ser prometeica. Esta é a escuta do psicólogo, do filósofo. Temos, então, uma postura sapiente do Ocidente e uma postura a saber de Epimeteu. A psicanálise é o Terceiro, o Ponto Bífido que tem as duas faces: Prometeu e Epimeteu. Isto porque, enquanto analista, há que ser epimeteico, só saber depois – escuta-se para vir a saber depois –, mas após escutar bastante, ao tentar arrumar aquilo numa solução teórica, há que ser prometeico. A teoria psicanalítica, desde Freud, é prometeica, mas o Ato psicanalítico não pode sê-lo. O analista é uma figura ambígua entre os dois. Epimeteu, aliás, se casou com Pandora, a da boceta. O feminino da psicanálise coloca tudo para fora, no ventilador. Daí certas pessoas terem receio de lidar com ela.

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27 • P – Você já disse que o Sintoma do Brasil era ser maníaco-depressivo. Em linguagem de hoje é: bipolar. A polarização, sobretudo na política, em vigor atualmente seria referente a essa bipolaridade? A polarização que vemos ocorrer hoje não é necessariamente maníaco-depressiva. Ela está em todo lugar, e não apenas aqui. Há que esperar para ver onde dará. O sintoma do Brasil varia do carnaval à maldição. A oscilação é constante: todos felizes / todos infelizes. Não gosto do conceito de bipolar, pois todos somos bipolares. Dizer que é maníaco-depressivo é outro uso da bipolaridade – e não estou me referindo à antiga psicose maníaco-depressiva, PMD. • P – O país não parece surtado, perturbado? Todo o planeta está em crise, mas o Brasil é mal-educado e mal informado. Daí as pessoas ficarem mais, digamos, dispersivas. Basta ver o enorme percentual de gente desprovida de saneamento básico que temos aqui. Isso diz muito sobre não sermos civilizados. Há arremedos de civilização em algumas poucas cidades, mas o brasileiro não é civilizado. É, sim, de uma grosseria radical, de uma boçalidade impressionante. E não estou falando do povo ignorante, mas da dita classe A. Há meia dúzia de pensadores, de intelectuais e artistas que dão uma impressão melhor, mas o geral é de gente incivilizada, cuja mentalidade se espalha por toda a sociedade – inclusive por chamados intelectuais, psicanalistas... O resultado são milícias, violência recíproca, exclusão radical. Em certa ocasião, numa banca de Doutorado de um psicanalista famoso, li em sua tese a afirmação de que Jung era fascista. Perguntei-lhe por que ele seria fascista. Jung é uma espécie de rivalitário em relação a Freud, podemos achar que deu um pouco para trás, mas por que seria fascista? Fiquei sem resposta. É como se alguém que não fosse de meu campo não merecesse reconhecimento de valor. Aliás, a psicanálise no Brasil está completamente ultrapassada e não se renova por não se reconhecer nada que se faça por aqui. Se não veio de fora, como encontrar um valor? Vejam, então, que não se trata de mera polaridade, 195

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e sim de uma violência de patota. No campo da filosofia, das faculdades de filosofia, esse tipo de coisa também acontece com força. • P – São verdadeiras facções. Temos nietzscheanos linha Heidegger, linha Deleuze... Não é preciso anatemizar o outro por discordarmos dele. Mesmo porque qual certeza temos de que nosso lado é o certo? Alguns professores de filosofia no Brasil tentaram não ser só professores, tentaram fazer filosofia. Seria bom uma pesquisa sobre isso, pois o reconhecimento é zero. • P – Qual é o nexo entre os dois sintomas do Brasil, o da dinâmica maníaco-depressivo e o do sem-caráter, da Heterofagia? Faz parte da bipolaridade do Brasil. Vivemos dentro dessa bipolaridade. Tudo depende de qual sintoma escolhemos, de qual lado preferimos. São polaridades concomitantes. A cultura tem essas várias polaridades de maneira ostensiva e intensiva. Não vemos isso com tanta clareza em outras culturas. Ou é mania de carnaval ou é pressão de ditadura, ou é um grande talento heterofágico ou é a baixaria que se vê por aí todo dia. O interessante é isso, às vezes, exprimir-se com data. A letra da música A Felicidade, de Jobim e Vinícius, diz bem: “Tristeza não tem fim / Felicidade sim / (...) A gente trabalha o ano inteiro / Por um momento de sonho / Pra fazer a fantasia / De rei ou de pirata ou jardineira / Pra tudo se acabar na quarta feira (...)”. As pessoas só falam a verdade no carnaval, quando todos se vestem do que são. • P – Então, é o contrário: durante o ano, o pessoal usa máscara e tira no carnaval. Também tem isso. Pode ser lido assim. É como diz Fernando Pessoa: “Quando quis tirar a máscara / Estava pegada à cara”. • Nelma Medeiros – Não é possível ver essa postura macunaímica no Brasil, sobretudo no século XX, como um terceiro lugar em relação à posição maníaco-depressiva? É um sintoma produtivo, progressivo, propositivo que vai para a frente e escapa dessa polaridade. E, pelo menos na literatura, temos alguns exemplos para trás: Sousândrade, Qorpo Santo... • Aristides Alonso – ...Gregório de Matos, José de Alencar (um maneirista disfarçado de romântico: O Guarani é um grande carro alegórico), Tomás 196

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Antônio Gonzaga (escreveu Marilia de Dirceu, que influenciou bastante seus pares), Castro Alves (com seu Navio Negreiro), Machado de Assis (em sua segunda fase, finge seriedade, mas é um sacana), Bernardo Guimarães (escrevia romances românticos e, ao mesmo tempo, publicava poesia de sacanagem), Pedro Kilkerry... Veja que, de vez em quando o Brasil fala. Marília de Dirceu teve uma frequência enorme em minha adolescência. Também sabia de cor o Navio Negreiro, ficava declamando para as pessoas. • NM – Há também Augusto dos Anjos. Augusto não tem o outro lado. Ele não é Lautréamont sobre quem falei de outra vez. Pelo menos que a gente conheça, só tem o lado depressivo, nunca fica maníaco. Eu também sabia de cor todo seu livro Eu e Outras Poesias. Notem que há vários comportamentos brasileiros que escapam da polaridade, que não ficam disfarçando sua verdade, seu desenho, não são fake. O funcionamento Terceiro para o qual chamo atenção há décadas é o núcleo da vontade sintomática brasileira. Aí temos o que é produtivo e progressivo aqui. A Nova Psicanálise vem nesse sentido terceiro. Foi, aliás, sua grande vantagem. • NM – Mario de Andrade escreve num texto sobre Macunaíma, que algo que nos caracterizaria, diferentemente de outros povos, é, ao nos aproximarmos de um grupo de brasileiros, vermos que estão conversando sobre putaria. O Terceiro, em nosso caso, seria, então, produzir só de sacanagem. É um modo de correr por fora de várias presenças impositivas que estão nesse lado doente do brasileiro, de suas forças recalcantes por via religiosa, da violência generalizada. Quando há produção aqui, vemos que, ao invés de ficar na luta consagrada contra essas forças, o brasileiro sai disso e busca fazer “só de sacanagem”. Se não for de sacanagem, não funciona. • P – De outra vez, você disse que, como atualmente o Primário estava sob forte ameaça, o Secundário ficaria desmoralizado. Disse também que a psicanálise seria uma via para entender como atravessar a situação. Diante do Primário sob pressão, de modo geral o Secundário fica abalado em dois sentidos. Primeiro, são as formações secundárias repetitivas e sintomáticas que ficam desmoralizadas por não darem conta da situação 197

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pela qual o Primário está passando. Segundo, se não houver disponibilidade para navegar dentro do Secundário, as pessoas entram em pânico. Ou seja, as formações secundárias que viraram sintoma não dão conta, e as pessoas não sabendo pensar para a frente ficam em pânico. Existe uma grande quantidade de determinações secundárias na cultura e, diante da situação, ficam realmente desmoralizadas, não funcionam, sobretudo em termos de comportamento. Praticamente, não servem mais para nada. Então, ou você tem formação suficiente para buscar outras articulações secundárias para conviver com o acontecido, ou fica paralisado. Ou fica querendo correr para trás, mas não tem atrás, acabou. A função da psicanálise é uma disponibilidade para lidarmos com o acontecimento. Este nosso agora, nunca ninguém atualmente vivo passou por algo assim – aí vai a seu repertório de regras e não encontra regra alguma que sirva para enfrentar a situação. Portanto, ou temos disponibilidade para continuar pensando, ou estamos ferrados. • P – Penso que mesmo a arte fica evidentemente desmoralizada. Já lhes falei sobre Stockhausen que, na ocasião da derrubada das torres gêmeas em Nova York, disse que aquilo era uma obra de arte. Ele ficou perseguido por ter dito isso, mas que obra de arte é hoje? • AA – Retomando as quatro vias régias de aproximação do Cais Absoluto que você apresentou 1996 – o erotismo do espírito; a mística do sexo corporal; o eroto-misticismo da impartição da morte; e o eroto-místico-morticínio da criação do conhecimento –, a situação atual de isolamento sugere o afastamento do místico, afastamento inclusive corporal. É como se a prática religiosa, católica, do noli me tangere tivesse retornado. Mas há outra via que, esta sim, está se distribuindo de maneira atroz, com bastante gente se aproveitando dela, que é a do eroto-misticismo da impartição da morte. É notável o atual tesão de ver morrer, de ver matar, de contar as mortes... Isto, particularmente vindo de autoridades governantes. Você lembra que há também um limite aí, que isso levado muito adiante faz comparecer Revirão. Freud sempre falou nesse Tesão que é da espécie. • AA – Esta situação de vírus também nos defrontou com uma importante questão gnômica: o fracasso do conhecimento até agora produzido. Caiu por terra a pretensão moderna, iluminista, de que a razão nos levaria a 198

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um maior esclarecimento. O entrópico é bem mais violento e potente do que imaginávamos. Como sabem, para nós a Lei dominante é: Haver desejo de não-Haver. Freud ainda ficou na suposição de que havia um contrabalanço da pulsão de morte, que chamou de pulsão de vida. Não existe pulsão de vida, o que existe é: Resistência. Quanto a isso, quem tinha razão era Espinosa com seu Conatus. • P – Como analisar o fato de que, atualmente, há no governo uma formação cuja convivência é dificílima, dada a boçalidade que faz questão de se expressar a cada momento? Essa personagem não é analisável. (Freud, mais do que outros seguidores, fez uma lista enorme de tipos não analisáveis). Quem sabe sobre esse aí é Ramachandran: deficiência de neurônios-espelho. E o nome cabível é: psicopatia – isso não tem cura. • P – Trata-se então de desistir do que constituiu nossas vidas até agora e inventar bases novas? É o primeiro passo para andar para a frente. • P – Como é possível avançar a partir da desistência? Embora não saibamos apontar com clareza, existe pelo planeta uma boa quantidade de pessoas que já desistiu há muito tempo. Estão, portanto, razoavelmente preparadas para dar alguns passos. Elas existem sem vez de falar, agora começa a chegar a vez delas. São elas que indicarão um caminho para a saída que chamo de Quarto Império. • P – Parece que passaremos a conviver com pessoas de diversas eras. Já é assim há bastante tempo. Temos simultaneamente ao nosso lado pessoas de Primeiro, de Segundo, e sobretudo de Terceiro Império. Há uns poucos, mas em bom número, que estão se encaminhando para o Quarto Império. Isso não acaba. O próprio processo de uma vida individual não pode não passar por essas fases. Elas se repetem a cada vida humana. • P – Parece que a partir de agora, teremos que conviver com isso nas ações miúdas, nos modos de abrir a porta, de cumprimentar o outro, de não soprar bolo de aniversário... Os protocolos terão que ser outros, e aqueles que não os aceitarem serão excluídos. Essa situação vai se exacerbar terrivelmente. 199

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• Patrícia Netto Coelho – Antes da pandemia, víamos manifestações de grupos em confronto com certos projetos de governo e havia mesmo a sensação de que alguma guerra de proporções mundiais pudesse se desencadear. Parecia ter surgido e se instalado uma espécie de Tanatocracia, que, mais do que uma necropolítica, vemos agora em todo seu vigor como projeto de governo brasileiro. Tornou-se uma grande oportunidade. A tanatocracia tomou o poder através do vírus. O vírus aqui não está sozinho, tem parceiros. Durante a história, já houve vários aliados da pulsão de morte em exercício. • P – Foucault falava em biopolítica. Uma biopolítica levada muito longe é uma necropolítica. Uma biopolítica levada ao extremo terá que conversar com o coronavírus. Não há saída, tudo revira. • PNC – Michel Foucault, quanto ao biopoder, traz o lema moderno: fazer viver e deixar morrer. Anteriormente, o direito do soberano era: fazer morrer e deixar viver. Pois é, há isso também. O Quarto Império morrerá de rir dos Impérios anteriores. A situação intrínseca da humanidade enquanto ridícula recomeçará a ser pensada com a nova situação do planeta. A humanidade tem sido ridícula demais com as confusões que apronta, inclusive com as confusões pensantes. Mesmo no caso da psicanálise, se relembramos, repensamos, revemos, relemos, reestudamos sua história fica evidente o quanto foi ridícula. Basta ver a quantidade de interpretações delirantes do Dr. Freud – o que importa é o que sobrou ser importante. O rapaz não passava bem, era demasiado neurótico, ao mesmo tempo que era genial. Depois, vem o Dr. Lacan e aquela porção de freudianos, cada um com sua sintomática criando caso. Como sobrou coisa importante, é preciso fazer uma enorme faxina para guardar o que sobra. E será que nós aqui e agora escapamos do ridículo? Não sei. Lacan dizia que a espécie humana não era trágica, e sim cômica. Acho que é mais do que cômica, é ridícula. A expressão correta é de Shakespeare: Much ado about nothing.

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28 • Gisêlda Santos – Diante da situação de pandemia que atravessamos, retomei a questão do Sigilo. Diz você que o sigilo se quebra sozinho, basta as pessoas soltarem a franga, falarem. Um dos quatro dispositivos de nossa Formação é o Polo de Formações, em que, semanalmente, mediante sorteio, quatro pessoas se reúnem, falam, falam e se mostram. Em algum momento da falação, o sigilo cai. Esse dispositivo serve para as pessoas quebrarem seus sigilos falando de suas análises. Serve, portanto, para o analista da pessoa não ter que quebrar o sigilo. Ela mesma quebra. Cada pessoa que apresente o segredo, ou seja, sua secreção. Aliás, a título de curiosidade, lembrei-me de que Freud ficava mandando cartas para seus colegas psicanalistas falando de um para o outro. Descobriram um monte de cartas em que ele conversa com um a respeito da análise do outro. • GS – E, dentro desses Quatro Dispositivos de Formação, você indicou um formato de Clínica. Outro dia, você falou em transferência para com a instituição. Vocês bem que podiam começar a produzir essa experiência. Para produzi-la, é preciso que haja um lugar estabelecido para que as pessoas que aí vierem se tratar façam transferência com esse lugar. Esse lugar deve ter um trabalho permanente de Oficina Clínica – outro dos Quatro Dispositivos da Formação – de modo que qualquer um dos que lá atendem saiba de todos os outros casos atendidos. Isso exige um bom período de experiência de treinamento. • GS – A questão do sigilo sempre causa problemas nas instituições. Seria uma manipulação de poder... Já lhes disse que, em nosso momento, a privacidade vai sumir. Já está bastante afetada, e do jeito em que as coisas estão se encaminhando será impossível alguém manter a privacidade. Só os psicanalistas ficarão em sigilo? A própria tecnologia, com a aceleração das transas secundárias, está forçando uma 201

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situação muito diferente do que aconteceu até o final do Terceiro Império. Lá tínhamos a privacidade bem preservada, mas logo-logo as pessoas perderão a vergonha, por não terem motivo para sentir vergonha. Cada um é cada um, e dane-se o resto. Quando acabar a vergonha, o sigilo pode sumir. Como todos têm o rabo preso, só resta respeitar o rabo dos outros. • Nelma Medeiros – A dificuldade que há no meio do caminho é o crescimento que vemos da situação de recrudescência sintomática, de guerra. Para acontecer o que você diz a curva da recrudescência terá que baixar muito. Em nosso momento, ela está subindo. Estamos ainda naqueles cinquenta anos de porradaria de que falo. Comecei a contar desde 1980, quando o século XX acabou. Portanto, ainda teremos dez anos de recrudescência. À medida que for possível instalar uma Diferocracia – e ainda falta muito tempo para isso –, a própria ideia de Diferocracia já significa que uma coexistência respeitosa estará quase cem por cento em vigor. Os acontecimentos, sobretudo esses últimos que são muito radicais, mudarão os comportamentos e os entendimentos. A própria estrutura do Império faz a cabeça das pessoas. Como fomos produzidos no Terceiro Império, temos todos os seus defeitos – que sumirão, pois os defeitos serão outros. • Aristides Alonso – Quanto ao sigilo, há certos momentos em que temos regimes de contenção que criam áreas mais fechadas. Em nosso momento, isso foi explodido. Tudo pode ser gravado, acessado, e não há como deletar uma informação uma vez que esteja na internet. Quando você colocou a questão do sigilo entre pares em 1991, foi algo explosivo. Chegaram a dizer que você estava fazendo questão de que ficasse uma “coisa terrorífica”. Mas os tempos eram outros, diferentes de hoje, quando tudo é passível de ser acessado por todos. A invasão pessoal ainda não chegou no extremo – mas vai chegar. [Esta seção foi interrompida por queda da conexão]

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29 • Nelma Medeiros – A implementação que você faz do uso da analogia no sentido da expressão da tecnologia, que me parece ser um dos caminhos do Quarto Império, implica certa ideia de farsa quanto ao hábito ocidental dos princípios de não contradição e de terceiro excluído. Teríamos neles uma hemiplegia, da qual haveria a possibilidade de saltar fora mediante a criação de outra situação como recurso. É quando não se aceita de saída a hemiplegia como se fosse um princípio, mas, ao contrário, lida-se com ela acessando recursos disponíveis. Há sempre que considerar o Revirão. • NM – O procedimento analógico conta com a possibilidade de avessamento, conta com a possibilidade de aparecimento mediante invocação do que está excluído. A propósito, conversávamos de manhã em nossa Oficina Clínica sobre a situação do tal infans, daquele de Mata-se uma Criança, de Serge Leclaire, daquele de uma indicação sua sobre o povo ser a infância da humanidade... Me parece que, se a criança tem a sorte de sacar minimamente a situação em que foi colocada, ela pode escapar pelo procedimento analógico. Diante das situações que lhe são mostradas como “não pode”, como proibição, como impossível, ela começa a proliferar substituições, a fazer analogias e entender que o que estão lhe dizendo é jogo. Já outras crianças caem na paralisia metafórica, caem na ficção, ficam fixadas e começam a perder o recurso à analogia, começam a sintomatizar. Acho importante acompanhar essa situação psíquica no jogo da pessoa, no como isso foi se montando para ela. Cabe, então, pensar uma Pedagogia que leve isso em conta? Você menciona, em termos literários brasileiros, a Emília, de Monteiro Lobato, que ficava forjando procedimentos analógicos. Ela dizia que a vaca tinha que ter mais rabos no corpo para poder espantar as moscas com melhor eficiência. Anísio Teixeira, em carta a Lobato, escreve que, onde a Igreja católica estava colocando, ele estava tirando os fantasmas das cabeças das crianças. 203

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A questão é descobrir exatamente o que se passa nesse momento da infância quando alguns poucos rejeitam a dicotomia mesmo que tenham forçado que aceitassem. Quem são as Emílias entre as crianças? E saber como funciona para que seja possível fazer disso um processo pedagógico de caráter psicanalítico. Tenho a impressão de que, salvo engano, Melanie Klein e Anna Freud, que ficaram obcecadas por esse tema, não se deram conta do que acontece ali. Ou, se perceberam, podem ter colocado na conta errada. Algum de vocês pode falar sobre isso. • P – Parece-me que Melanie Klein só trabalhou com o desenvolvimento da criança até um ano e tanto. Não se preocupou com analogia ou metáfora. Sei que não há isso em sua obra. O que quero saber é se ela se deu conta de que algumas crianças escapam do jogo e por quê. • P – Anna Freud se preocupava com mecanismos de defesa. Esse escape pode ser um mecanismo de defesa. Na cabeça de Anna Freud os mecanismos de defesa são previamente desenhados de acordo com a situação – aliás, não analógica – do pensamento dela. Estou ampliando a situação de mecanismo de defesa para situações de ambos os lados. Há crianças que, sabe-se lá por que, percebem a estupidez e se defendem da burrice questionando a obrigação que lhe ofereceram. E não adianta chamá-las de perversas, pois não é o caso. Trata-se de Progressividade. Já mencionei a situação de Santos Dumont na escola primária respondendo à professora que, como os pássaros, o homem também voava. Ela o corrigiu – depois, ele provou que efetivamente voava. Qual é o dispositivo que arma isso? Qual é, no desenvolvimento da criança, o acontecimento que permite essa instalação? Ou que não permite certas instalações? É o que tem que ser pesquisado. Mesmo que não haja anedotário para isso, quero supor que, se não todas, a maioria das pessoas que deu saltos criativos tem uma infância de questionamento de supostas verdades que lhes enfiaram. Não é necessariamente uma questão de opositividade, de síndrome de transtorno desafiador opositivo, e sim de questionamento. Costumo analogicamente dizer que é uma cabeça científica que está sempre questionando a suposta realidade. Como isso se funda ou permanece apesar do recalcamento externo? Se fosse possível saber o que acontece nesse momento, faríamos outra pedagogia – uma Pedagogia Freudiana. 204

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• P – Você está igualando essa cabeça científica da criança à ideia de Progressividade? Não estou igualando, mas é preciso uma posição Progressiva para que ela tenha essa cabeça. Não é possível ter uma cabeça científica no regime do já sabido. Gaston Bachelard foi um que descreveu essa mente científica, em A Formação do Espírito Científico (1938). • P – Vemos comumente na política, as pessoas falarem uma coisa e fazerem outra. Como isto também acontece com os pais, muitas vezes a criança saca e questiona. Esse momento seria um ponto de partida do questionamento da criança ou o que você está falando é anterior a isso? É anterior, pois, ao sacar isso, a criança já está com a possibilidade de questionar. Tomemos o seio bom / seio mau de Melanie Klein, se a criança de algum modo se dá conta disso, trata-se de uma situação em que fica difícil instalar uma clivagem que a torne uma criança sem oposição. Seio bom / seio mau tem que comparecer para a criança como tal, se não, ela aceita imediatamente a clivagem. Por que algumas não aceitam e continuam questionando? Se a criança for suficientemente inteligente, ou não recalcar, ela percebe que os pais dizem uma coisa e fazem outra, o que é raro, pois elas mais facilmente engolem a falação dos pais. Gregory Bateson denunciou isso chamando de double bind, só que, para ele, esse duplo vínculo funcionaria como fundador da psicose. Não acho que seja isso, mas é verdade que a maioria das crianças fica perdida dentro do double bind sem saber denunciar, sem saber dar conta. Algumas poucas inteligentes percebem – e aí começa a inteligência questionante. • P – Melanie Klein facilitava que a criança voltasse para uma posição antes do Édipo. É o que ela pretendia contra os estritamente freudianos. • Patrícia Netto Coelho – A adoção do Édipo como uma espécie de marco e de referência de organização do psiquismo atrapalha a investigação clínica que você está pedindo. E ler como pré-edípico continua a ser uma leitura a partir do Édipo, o que amarra as implicações clínicas. Édipo foi algo que prejudicou bastante Freud. • PNC – Ele era cético quanto à análise de crianças. Há mesmo o caso esquisito de ter aceitado analisar o Hans, o Joãozinho, por correspondência. 205

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Foi, aliás, precursor da análise on-line. A leitura edipiana desconsidera um fato importante daqueles inícios da criança que é a possibilidade de acesso às fantasias e à brincadeira, que são o grande jogo analógico da situação. Como poderíamos entender melhor essa brincadeira (não como esquizo-paranoide, mas) como gradientes de metanoia e paranoia? Aí, já em termos da NovaMente. Freud já tinha visto o que acontecia com o Fort-Da. Quais crianças têm a sorte de fazer o Fort-Da com o seio enquanto outras ficam satisfeitas? Para estas, o seio sempre é bom. Quando é assim a criança fica burra. • NM – Você até já disse que a criança não entende matemática por causa da mãe. Se conseguimos eliminar essa transa materna, a criança fica inteligente na hora. Quando dava aula de matemática, vi isso acontecer algumas vezes. • PNC – A fantasia, nos termos que você coloca, estaria mais explícita nesse momento inicial da infância, ficaria mais fácil de ser acessada? Não. Fica faltando história. Acho difícil uma fantasia se escrever antes dos cinco anos. Tem que entrar fabulação, encontro erótico... • NM – O angustiante, antes dos cinco anos, é a criança sofrer o assédio das formações em que está metida. Algo ali comove e ela não tem recursos para equacionar a situação. Não é da ordem da fantasia isso que está comovendo até que venha a se montar? A composição se fecha não antes de quatro-cinco anos. Freud exigia o que chamava de cena primitiva como componente estrito da composição da fantasia. Cena primitiva é: papai e mamãe estão fodendo – esteja a criança vendo ou imaginando, ou porque lhe contaram. A fantasia precisa de um ingrediente de transa sexual. Faz parte da fantasia dar uma solução à transa que, segundo Freud, é o que originou a pessoa: a trepada dos pais. Nem é preciso colocar papai e mamãe aí, é a transa sexual enquanto resultante numa existência. • P – Melanie Klein relaciona a mãe à cloaca. É algo muito presente na imaginação das crianças. Pensam que as mães são galinhas, que têm uma cloaca. • P – Muitas pessoas assistiram realmente os pais transando. Os indiozinhos, por exemplo, estão cansados de assistir. Isso é bem frequente e faz parte de grande quantidade de pessoas em seu processo de 206

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construção da fantasia. Cada um dá sua solução, sua interpretação, para esse teatro. • P – Parece que adultos, pais, pensam que crianças não veem e não ouvem. É recalque? Sim. Quando Freud disse que as crianças estavam vendo tudo, acharam que ele fosse tarado. E se a criança for bem inteligente, acabará indo pesquisar fora do ambiente familiar. • Gisêlda Santos – Crianças tidas como Asperger são assim, questionam, têm que saber, dizem absurdos. Elas estão observando formações que outras crianças não percebem. Mas como têm dificuldade de relação, de entrar em transa com os outros, ficam muito diferentes, mesmo tendo uma cabeça científica. Têm uma cabeça articulatória. O Asperger tem uma forte articulação, mas a empatia é mínima. E há uma questão que não sei resolver: quem sabe se não é a falta de empatia que facilita sua articulação? Ela fica desvairadamente articulando tudo que vê. A empatia pode ser paralisante. Há aí uma questão importante a ser pensada: a crença. Por que algumas crianças são ensinadas e não acreditam na lorota que lhes contaram? Preferem verificar por conta própria. Guimarães Rosa já dizia: “Eu quase que nada sei. Mas desconfio de muita coisa”. Quanto a mim, sei que o mecanismo é esse: a crença não cola. Quando cola – e suponho que seja o caso da maioria –, aí vira obediência, religião... É preciso sempre lembrar de que a inteligência é desobediente. Ela questiona, quer saber por que. A obediência é burra. Essa é a diferença entre a produção do saber e a referência a uma autoridade. Freud ficou danado da vida ao perceber que a psicanálise escapava de suas mãos, ele queria ser autoridade em psicanálise. Deu-se mal, basta ver onde ela chegou. Não se pode construir uma obra e achar que funcionará como tal. Ela vai cair no mundo, não se sabe o que acontecerá. Depois que fizeram todo tipo de bagunça, vem Lacan e prega uma enorme mentirinha dizendo que o que estava fazendo era Freud. Ele se safou dizendo: “Sou freudiano, o que faço é o retorno a Freud”. Não é. É, sim, a sua leitura de Freud. • GS – As famílias em geral acham um saco a fase, antes de quatro anos, em que as crianças ficam perguntando por que em relação a tudo. 207

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A criança está precisando de uma resposta que a faça articular alguma razão, algum motivo. Quando eu dava aula para alunos de onze anos, havia alguns que, ainda nessa idade, queriam contestar. Me perguntavam: por que tenho que estudar isso? A resposta era: porque eu estou mandando, e quem manda aqui sou eu. Eles entendiam a diferença entre uma razão, digamos, científica, e uma de autoridade. Eles paravam de perguntar porque tiveram resposta, que era a autoridade. A criança precisa entender que existem infinidades de respostas ao “por quê?” – e uma das respostas é a pura e simples autoridade. Por exemplo: por que não se pode sair matando as pessoas na rua? Porque está escrito na lei que quem matar vai preso. É o limite para além do conhecimento. • P – Qual é a diferença disso para com o fato de, apesar de proibido, a criança quebrar um brinquedo para ver o que está lá dentro? Essa não é uma cabeça científica? Ela não pode quebrar, pois não ganhará outro brinquedo – embora a curiosidade seja um sinal de inteligência. Nem todo “por quê?” tem explicação racional. Alguns “por quês” têm explicação legal. O limite da ignorância é o poder, a autoridade. Como, então, estabelecer a fronteira entre o conhecimento e a autoridade? Notem, por exemplo, que é abusivo Galileu estar em prisão domiciliar proibido de pensar o que estava pensando, mas ele bota o galho dentro e deixa rolar. Já Giordano Bruno não faz isso e é queimado na fogueira, pois a Igreja tinha poderes para condená-lo. Como lidar com o intervalo entre a vontade de conhecimento e a vontade de autoridade – ainda mais nos dias de hoje? É uma dinâmica quase que de guerra. Em nosso momento, quem está perdendo é a autoridade. Quem tem autoridade para dizer que não posso falar o que falo sobre a psicanálise? Ninguém, nem dentro nem fora da psicanálise. • Nelma Medeiros – Quanto à equação conhecimento / autoridade ligada aos Cinco Impérios, vemos na Roma imperial de Júlio Cesar um tipo de sociedade, de modo de existência, que se dava mediante a via do conhecimento e de um exercício de autoridade muito explícito no sentido de que “é assim porque estou mandando”. A instalação do Terceiro Império por via religiosa cristã faz um double bind sobre isso ao fingir que a autoridade é divina, e passa a manejar a situação numa ordem denegatória, no mínimo, se não for psicótica. Vence, então, um princípio de autoridade em nome de um lugar que ninguém 208

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sabe onde está e, por conta disso, são barradas as moções de conhecimento. Suponho que, nesse caso, a autoridade subordina e coloniza o conhecimento. E mais, para escapar da autoridade religiosa ou do Estado, tentou-se instalar a autoridade dentro da produção do conhecimento. É a chamada epistemologia, que quer fingir que a autoridade não é de fora, e sim de dentro mesmo da ciência e do pensamento – o que é uma deslavada mentira. A equação é, sim, esta que você descreveu: o conhecimento está subordinado à autoridade. Basta pensar que, na Idade Média, se um Paul Feyerabend fizesse o que fez hoje, iria para a fogueira. Não era possível contestar a autoridade de dentro da suposta ciência, do suposto conhecimento, dizer que ela é falsa. Basta lembrar também que, nas Cruzadas, a luta era em função do amor à verdade – a verdade é algo que faz muito mal à gente. • P – Segundo Freud, a criança abandona o pensamento mágico quando, por volta dos quatro-cinco anos, começa a investigar a sexualidade e vê que há muita coisa que é lhe é mal contada. Essa experiência via sexualidade é o que desmistificaria a autoridade em prol do conhecimento? O fato é que a maioria das crianças sucumbe nessa pesquisa.

30 É sempre importante lembrar que a NovaMente jogou no lixo sujeito e objeto. Se tomarmos o aparelho que Freud construiu para a psicanálise, veremos que é localizado e datado. Se tomarmos o aparelho lacaniano, veremos também que é localizado e datado. Não há, pois, uma razão necessária para os manter. Por isso, abandonei os dois e fiz um aparelho psicanalítico que me parece mais de acordo com nosso momento – e que tem a sintomática de nossa língua, 209

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de nosso país... Como, aliás, Freud e Lacan fizeram com seus aparelhos. Os demais psicanalistas são figuração. • Aristides Alonso – Esse modo de montagem tem implicação na proposta de Clínica para a NovaMente. Tenho, por acaso, diante de mim uma frase de Lacan: “O homem não se adapta à realidade, ele adapta a realidade a si. O ego cria a nova adaptação à realidade e procuramos manter a coerência com esse duplo”. Notem que esse é o protocolo dele. Em meu projeto, não há ego ou coisas do tipo. O que há são Formações transando entre si, cuja resultante pode ser qualquer, a se verificar. E essas formações que estão em transa podem ser qualquer uma. Podem mesmo ser uma dessas formações freudianas ou lacanianas por questões de vício de linguagem, de hábito. O mais importante no aparelho que chamo Teoria das Formações é não ter um quadro definitivo de conteúdos. Os conteúdos estão nas formações que comparecem, e não na teoria. Se a formação comparecer com cara freudiana será essa. Se comparecer com cara lacaniana, será essa. Diante de uma formação que, sabe-se lá por que, se configurou edipianamente, essa é a formação dada. Ela não é um elemento de um sistema fixo como está em Freud. Topamos com aquela formação, podemos não topar com ela. Não é universal, é aquela formação. E, tampouco, nos adaptamos à realidade ou adaptamos a realidade a nós. O que há são transas de formações de um lado e transas de formações de outro. Portanto, a resultante é sempre precária (como, aliás, já dizia Lacan). A realidade que resulta dessa transa é precária, foi a realidade conseguida nessa transa. Faço questão de ressaltar que a Teoria das Formações é abstrata, não oferece conteúdos e, sim, transa com os conteúdos. Nela não se apresentam conteúdos definitivos como significante, etc. Trata-se de tirar ao máximo os conteúdos e apenas deixar as articulações. Isso é parecido com o pensamento matemático. More geometrico, dizia Espinosa. Repetindo, é como se fosse uma estrutura abstrata que se depara com conteúdos sem universalizá-los. É na transa que se discernem os conteúdos que entrarão em jogo, ou seja, as formações das formações que estarão em jogo. Seja qual for a formação abordada em psicanálise, em sua história, toda vez que se conteudiza, está-se fazendo algum erro mais ou menos grave. Quanto mais abstrato o recurso para explicar 210

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o comparecimento de algum tipo de formação – nosológica, digamos – melhor será. Tomem o conceito de psicose, de preferência a psicose paranoica. O que é a paranoia em Freud? Como constrói ele a ideia de paranoia numa pessoa? É algo demasiado anedótico. Ele até associa imediatamente à homossexualidade. Lacan tentou ficar livre desse tipo de construção, mas fez uma anedota mais abstrata. Diz ele que é a foraclusão do Nome do Pai. Por que psicótico tem que ter pai? Pai já é conteúdo demais. Substituí por HiperRecalque, um recalque poderosíssimo. Foi o mais abstrato que pude construir. • P – É cabível a ideia de Melanie Klein de que a mente funciona inicialmente de maneira paranoica? Pode ser que seja isso. Salvador Dalí e Lacan disseram o mesmo sobre o conhecimento paranoico. Lacan não está falando de psicose, e sim em modo paranoico de transar com as formações. Na transa entre as formações, o construto é paranoico. É um tipo de transa entre formações que se comporta assim, pois há formações que empurram para esse lado. Basta ver que o pensamento mágico é paranoide: há um Deus que lá estaria estragando nossa vida. Há isso até hoje, com missas e cultos para Deus acabar com a Covid-19. Se Ele já não impediu que chegasse, teria competência para eliminá-la? • P – O pessoal não faz isso por ser mais fácil nomear um inimigo externo em vez de encarar a angústia da condenação ao Haver? E por que, em vez de angústia, não pode ser serenidade diante da situação que é assim? Essa paranoia é produzida pela cultura, pela religião, etc. Têm que inventar algo para colocar no lugar da ignorância. Não podem simplesmente assumir que não se sabe. • P – Lacan se referia à douta ignorância, de Nicolau de Cusa. É o princípio da Gnose. Sou ignorante, mas o saber me interessa. Vou operar com as ferramentas, os dispositivos que tenho, e não com minha ignorância. • Nelma Medeiros – Mesmo porque a perplexidade advinda da Impossibilidade Absoluta suscita produção. O conhecimento é produção por efeito de Quebra de Simetria.

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E assim vai-se em frente. A única ideia válida de progresso é a de acúmulo de riqueza, de conhecimento. Acúmulo de riqueza é progresso. Os niilistas do século XX queriam acabar com a ideia de progresso, mas não conseguiram. • P – A minimalidade abstrativa da teoria não implica sua aplicação a conteúdos? Ao se fazer uma teoria, se efetivamente for uma teoria, ela será aplicável a alguma coisa no mundo. Temos pensamento mágico quando, ao invés de aplicar uma formação, digamos, formal a acontecimentos do mundo, já aplicamos conteúdos como se fossem uma resultante. É também o caso, temos que dizer, da história da psicanálise que, gradativamente, está se depurando. Veremos onde chegará. Há que extrapolar os conteúdos e entender, por exemplo, que 2 + 2 não são necessariamente 4, como coloca uma matemática primitiva. A tentativa de Lacan, na última fase de sua obra, foi eliminar uma enorme quantidade de conteúdos para conseguir uma simples topologia da psicanálise. Não conseguiu. • AA – O que entra pesado no paradigma de ciência do século XX são os conceitos de entropia e de complexidade, que, este, vem com o pessoal que aborda o caos. Ilya Prigogine é bem exemplar disso. Na transa de formações – transa inclusive de atratores – que resulta em outras formações, qual processo entrópico está aí vigorando? É o que resulta na Quebra de Simetria, a qual é o modo psicanalítico de anotar o processo de entropia em transa permanente. Esse raciocínio pode servir. A história da psicanálise não é paralela à história da filosofia ou de outros saberes. Embora haja os precursores, ela começa de fato com Freud. E como é recentíssima, com pouco mais de cem anos, é mal desenvolvida. O que Freud pôde fazer foi tomar alguns pontos encontrados em análise – dele mesmo e de outros – e produzir uma teoria com elementos conteudísticos, que eram parecidos com sua época. É o caso do Édipo. Lacan deu um salto, mas também fez a mesmíssima coisa. Ou seja, a história da psicanálise é ainda suja demais, suja de conteúdos. À medida que vai para a frente – e é o que pretendo ter feito –, ela vai se abstraindo. Trata-se de produzir um teorema abstrato que considera que os conteúdos são encontrados no mundo, não são conteúdos da teoria. Não há em meu teorema um construto como o Édipo. Não é uma historinha que está em todo mundo. Ela pode ser encontrada, mas, repito, é encontro, e não um elemento da teoria como está em 212

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Freud. Mesmo ao descrever o Creodo Antrópico, não se trata de um universal da psicanálise, e sim de algo encontrado nos comportamentos do mundo. Se mudarmos de mundo, diante de outras IdioFormações, essa descrição não estará valendo. Ele vale para esta espécie que tem se comportado assim. Não é um construto da teoria, mas um construto encontrado no mundo pela teoria. • AA – Suponho que o conceito de Haver esteja em posição de maior generalização. Penso que herdamos, sobretudo da Grécia, a suposição de que havia um mundo ordenado e que a desordenação era acidental e local. Recentemente, percebeu-se, ao contrário, que o caos é que é geral e que desse entendimento conseguimos produzir informações. São certas estagnações que comparecem. São algo parecido com a Morfose Estacionária. Há estagnações fortíssimas. Qualquer crença, por exemplo, que se repita como modelo, é estagnação, seja no físico, no psíquico ou no social. • AA – Seu conceito de Haver supõe que a simplicidade seja a geradora do processo. É a simplicidade que também está na cabeça de Stephen Wolfram, que sempre cito. A coisa é simples, mas no processo de aplicação fica complexa. A psicanálise não tinha visto isso ainda e permanecia referida a paradigmas conteudísticos como o Édipo, as ideias de ego, id, superego, significante, sexuação... • AA – É o caso da Covid-19. Um vírus simples, localizado, com disseminação exponencial a partir de certo ponto. Uma maquininha formal da teoria, ao ser aplicada, é infinitamente grande. Esta é a diferença total entre o meu e os dois aparelhos teóricos anteriores da psicanálise. Tanto Freud quanto Lacan, por mais abstrações que tenham feito, partem de ordenações dadas, construídas. A Teoria das Formações não tem isso. Ela vai considerar quais formações estão comparecendo. Isto muda a Clínica. Não se aplicará formação alguma sobre a pessoa, mas, ao contrário, se perguntará qual formação lá está. Tentaremos escutar as formações que se apresentam. Dentro de uma cultura, há certa redundância, mas ela não é necessária ou obrigatória.

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• P – Como juntar a Teoria das Formações, na qual os conteúdos não são da teoria, e sim encontrados, com o lema “só há fatos, não há interpretações”? “Só há fatos, não há interpretações” é correspondente à Teoria das Formações. Se pensamos em termos de formações transando com formações, cada transa é um fato. Não importa se é fake, é um fato. Não se está interpretando, e sim produzindo um fato novo. Fazer a diferença entre acontecimento e interpretação também é algo paranoide. Não se está interpretando nada, aconteceu uma transa que resultou nisso que chamam de interpretação. É um outro fato. Não é um fato da mesma natureza daquilo que se está considerando, mas é um fato de consideração. • P – É difícil entender que o fake seja um fato. É um fato tão forte que é capaz de interferir na política e ocasionar desgraças. O fake tem eficácia. Por isso, falamos hoje em Pós-verdade. O conceito de verdade que tínhamos dependia de um poder de declaração da verdade. Retirado esse poder, onde colocar a verdade? Talvez numa eficácia. Lacan disse que a análise procura destacar a verdade do analisando – justo para ela parar de ser verdade. • P – E como pensar a repetição na Teoria das Formações? Está no começo da concepção, que é nada mais nada menos do que uma ficção: Haver desejo de não-Haver; não-Haver não há; a coisa explode; e retorna. Então, repete: Haver desejo de não-Haver; não-Haver não há... Todas as repetições são repetições dessa repetição. • P – Qual a diferença para com o Eterno Retorno, de Nietzsche? Em Nietzsche, é uma concepção de repetição do mesmo conteúdo. Há que imaginar que sofreremos a mesma coisa eternamente – é, aliás, uma maneira de inventar o inferno. Nietzsche reformula enormemente para trás. Estamos em outra era, e é preciso conseguir colocar nossas formações para transar com as novas formações. • P – A Pulsão não é sempre progressiva? Sim, mas não importa se para frente ou para trás. Alguém em análise não tenta andar para trás? Soube que um grupo de cosmólogos descobriu um universo paralelo em que o tempo anda para trás. Isso pode ser um erro, mas 214

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supondo-se que estejam certos, podemos imaginar que um universo como o nosso, ao chegar em certo momento, começa a andar para trás. Seria possível passar o filme ao contrário. • AA – Prigogine diz que, em certas situações, não há como saber se estamos indo para a frente ou para trás. É sempre preciso de um referencial para identificar a temporalidade. O interessante é nos darmos conta de que há um universo ao lado em que a flecha terá se invertido. • P – Em havendo universos paralelos, lá estaria em vigor Alei Haver desejo de não-Haver? Pode-se querer não-Haver para a frente ou para trás, para qualquer lado. Qual é a flecha do Inconsciente? Ela coincide com a flecha da materialidade do universo? Não necessariamente. • AA – No Inconsciente, não há recalque posto. Seu Haver só tem o Recalque Originário, os outros são agonísticas internas. Sim. • P – Freud falava em retorno ao inorgânico. Não-Haver não é retorno a inorgânico algum. O que há de pior na história da psicanálise é fazerem um monumento de cada momento de pensamento – e, de cada momento das instituições, fazerem uma igreja. Isso é algo que estraga o percurso da psicanálise. • P – Se tomarmos a Pessoa como rede de formações, poderemos dizer que um foco importante é a ideia de presente? Inventamos futuro, passado... Mas o que é presente mesmo? Não sei. Ele acabou de passar aqui... • P – Se o Inconsciente é atemporal essa hipótese dos cosmólogos que você mencionou é cabível. Sim. Resta saber se está funcionando no nível da materialidade, se encontraram mesmo esse universo. • AA – Os físicos chamam esse tipo de teoria de universos em looping. Universos em Revirão. Looping quer dizer virada. • Patrícia Netto Coelho – Essa reformulação sobre verdade, fatos e Pós-verdade é próxima de como a física quântica faz suas descrições.

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A física quântica descreve isso no mundo micro. O mundo macro é bem mais sintomático. O Inconsciente é mais parecido com o mundo micro do que com o macro. Quando entramos em processo de paralisação, de estagnação, fica parecendo com o mundo macro. É aí que digo que existe uma Neo-etologia. Tomem a Morfose Estacionária, que é alguém se parecer com o animal que passou por ali diante dele. Ele não desliza e, sobretudo, não transa. Não há disponibilidade ali, ele está engessado por algumas formações que estão contra o movimento das outras formações. O recalque é só isso: uma série de formações inibindo o movimento de outras formações.

31 • Potiguara M Silveira Jr – O tema da Fantasia tem sido bem presente nos SóPapos desde o ano passado, quando você reforçou a definição: algoritmo de base do funcionamento de cada um no mundo. Disse que o objetivo da análise seria chegar ao desenho da fantasia, que é único para cada pessoa. Por outro lado, chegar a esse desenho é algo raro, as análises pouco vão lá. As pessoas parecem ter vergonha de falar dela, ou suas componentes dificilmente se mostram com clareza para elas – mas “só [se] goza se a fantasia estiver em exercício”. Disse também que ela é uma estupidez, pois não pode ser trocada (pode-se travesti-la). Quanto à indicação de ela ser um algoritmo, “quase uma equação”, quero trazer o trecho de um texto de Walt Whitman que faz parte de anotações que ele publica no final da vida (Dias Exemplares [Specimen Days], 1882). Cito a tradução de Bruno Gambarotto (São Paulo: Carambaia, 2019, p. 1667): “Ainda menino, tive a fantasia” – estou ciente de que ele não está falando 216

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no sentido em que estamos tomando o termo –, “o desejo, de escrever um poema, sobre a praia – aquela linha divisória, contato, junção, o sólido que se casa com o líquido – aquela coisa curiosa, furtiva (...) – misturando o real e o ideal, e cada um fazendo parte do outro”. Mais adiante, escreve: “Há um sonho, uma imagem, que por anos, de tempos em tempos (às vezes intervalos bem longos, mas certamente aparece de novo, a tempo), surge silenciosamente diante de mim, e realmente acredito, ainda que ficção, que entrou em minha vida prática – e, sem dúvida em meus escritos, modelando-os e colorindo-os. (...) Essa cena, essa imagem, repito, surgiu diante de mim de tempos em tempos por anos. Às vezes, acordo à noite e posso ouvi-la e vê-la claramente”. Como você também diz que “a fantasia é o estilo da pessoa”, fiquei pensando se o que Whitman escreve não indicaria componentes de sua fantasia. Leitores dele reconhecem essas indicações em seus textos, sobretudo o que me pareceu um modo formular de descrição: “aquela linha divisória, contato, junção, o sólido que se casa com o líquido”. Para mim, não tem a ver com fantasia. Não fui analista de Whitman. Digo isto por faltar um pedaço aí para me garantir. No sentido de uma análise, o que chamamos de fantasia – e nem gosto desse termo porque se mistura a muita coisa – como reconhecível enquanto um algoritmo instalado no Inconsciente não existe se não estiver amarrada no Secundário e no Primário. Então, é preciso perceber que, de algum modo, há a presença do Primário amarrada na fantasia. Sendo claro e explícito, a presença do Primário se chama: gozo sexual. Se não estiver amarrada entre essas funções do Primário e do Secundário não é fantasia. Fantasia dá tesão, promete gozo e está amarrada no corpo. Nesse texto, não me parece haver a indicação disso. Até seria bacana se Whitman mostrasse sua fantasia. Deveria ser maravilhosa. • PMSJr – Trouxe sobretudo esse trecho – “aquela linha divisória, contato, junção” – por me parecer que, em sua obra, é recorrente a busca da liga movente entre, nos termos dele, o viril e as mulheres. Esse trecho pode ter a ver, mas acho pouco explícito. Em outras partes de sua obra é bem mais explícito. • PMSJr – Ele escreve “a woman waits for me” e também “we two boys together clinging”, por exemplo. 217

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E ele não é alguém envergonhado ou mentiroso. Ele diz. • Patrícia Netto Coelho – Você estaria dizendo que a poética de um autor deriva de sua fantasia, mas não é o mesmo que a fantasia? Esse trecho de Whitman não me parece explícito a ponto de garantir que tenha a ver com a fantasia. Posso até, como foi feito na pergunta, depreender que ele esteja, mediante uma analogia muito abstrata, falando de sua fantasia. Ainda mais ele que foi completamente explícito. • P – A fantasia se inaugura na infância ligada ao prazer sexual? Segundo Freud, ela se instala pelos cinco anos e se afirma na adolescência. Parece que Melanie Klein achava que era mais precoce. Não sei, prefiro ficar com Freud. Repito, se não goza sexualmente não presta para a fantasia. E isso se dá aos cinco anos, já ouvi muitas histórias de que foi por essa época. A referência é ao que Freud chamava de cena originária, em que o que está em jogo é: foder. • P – Freud também refere o fetichismo a essa cena. Como sabem, tenho certo problema com o conceito de fetichista. Para se nomear um fetiche do modo que Freud faz, é preciso supor uma normalidade pré-estabelecida. Como não suponho – a questão é estritamente dinâmica –, por que outras partes consideradas não-fetiche não seriam fetiches? Por que uma fixação no pé seria fetiche e a fixação na cópula não? Onde está o desenho necessário? De novo, por que há o deslocamento num fetiche como o do pé, do cabelo, etc., e o que é considerado normal não é um fetiche? É preciso determinar uma normalidade para chamar assim. Não há normalidade na sexualidade humana. A reprodução não é normalidade para ela. E Freud, ao nomear de fetiche, está evidentemente normalizando a cópula reprodutiva. Há décadas, eu já disse isso numa palestra sobre o fetiche [em 1999, no Centro Cultural Banco do Brasil, cf. O Feitiço Encontra o Feiticeiro, texto disponível em: novamente.org.br]. É preciso, portanto, partir de uma normalidade, que é a cópula de macho com fêmea no sentido da reprodução, para poder chamar de fetiche qualquer deslocamento disso. Também a cópula de macho com fêmea para a reprodução é um fetiche como outro qualquer. Não está escrito que alguém deva só gozar por aí. O Inconsciente não tem esse texto. Temos que entender

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que não há propriamente erro em Freud, pois a história foi essa, foi como pôde ser articulada naquele momento. Lacan já deixa a situação bem mais equívoca. • P – Todos têm seus fetiches e é importante mapeá-los para funcionar na vida. Fetiche nunca é no plural, é singular. Na ocasião em que participei do evento sobre o fetiche, fui parar no programa de Jô Soares e lá disse que fetiche é uma coisa genérica, cada um tem o seu. Mesmo aqueles que parecem com a normalidade no sentido freudiano não são normalidade alguma. • P – O fetiche está atrelado à fantasia? De certa forma, definiria a fantasia? Está inteiramente atrelado à fantasia, mas não a define. O fetiche é uma consequência, uma expressão, da fantasia. • PMSJr – Há três encontros, você falou sobre o Sexo Qualquer. Se assim é, o fetiche é também qualquer? Aliás, lembro que, lá em 1999, você disse que o fetiche “devia ir para algum código: o direito ao fetiche”. Sim. É o direito ao seu fetiche. • P – Juntando o que foi dito sobre a fantasia em Whitman, articulada sobre o mar na areia da praia, e a ideia de Sexo Qualquer, não seria compatível descolar a fantasia da carne? Se alguém cismar de transar com o poste, com a nuvem... A fantasia não se descola da carne nem com areia. Está correta a suposição de que, no trecho citado de Whitman, possa estar uma descrição da fantasia, mas, para mim, está pouco explícita. E note que o Sexo Qualquer não é qualquer para cada um. Esse Qualquer tem fixação em cada um. Não é que uma pessoa tenha um sexo qualquer, e sim que o sexo, sendo Qualquer, pode se instalar de qualquer maneira em alguém. Repetindo, o fato de o sexo ser Qualquer, ele não é necessariamente qualquer para cada um, para todo mundo. Ele é Qualquer, mas as pessoas encontram seu nicho ali dentro. Ele precisa ser pensado como Qualquer para não fazermos juízos de valor. Então, não é que alguém possa ter uma posição qualquer no sexo, e sim que, dentro do Qualquer do sexo, tem suas posições. Ninguém é tão genial assim. • P – Cada um tem suas limitações. Cada um tem suas configurações. 219

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• P – Configurações que podem ser chamadas de fantasia e também de sintoma? Sintoma também configura. A fantasia frequentemente faz aliança com o sintoma. • PNC – Não estenderíamos esse mesmo questionamento da normalidade, em Freud, ao conceito de sublimação? Como o raciocínio da NovaMente se baseia no fato de os processos articulatórios sempre serem analógicos, não é possível identificar, distinguir, algo que não seja analógico. Não há o próprio, e sim analogia da analogia, da analogia... Assim como, em Lacan, teríamos a metáfora da metáfora, da metáfora, ou metonímias... Freud, consentaneamente com a ciência de seu tempo, que ele praticou em laboratório de outra área, tende a fazer recortes. Isto é fantasia, aquilo não é, isto é fetiche, aquilo não é... Já em nosso caso, cabe perguntar sobre o grau de sublimação de qualquer comportamento. É uma questão de grau. Alguém, ao cometer uma cópula suposta normal, comportada, de casal macho / fêmea, está fazendo o quê? • P – Está seguindo o figurino. Ninguém obedece ao figurino. Freud chegou a dizer que há quatro pessoas na cópula de um casal. E notem que Freud era um pouco recatado, mencionou só quatro. Qual é o limite? • P – Se há gradientes, como você diz, os quais também se aplicariam ao caso da sublimação, seria possível pensar em graus máximo e mínimo de sublimação? Não sei pensar isso. Essa pergunta faz um problema. Se, de algum modo, determinarmos os graus mínimo e máximo de sublimação, estaremos criando uma normalidade. Por isso, repito, não sei. Qual é o tamanho de uma franja? • P – Pode-se dizer que a fantasia está atrelada ao orgasmo sexual? Ao gozo. Orgasmo é algo orgânico, gozo abrange muita coisa. • P – Você já disse que o objetivo da psicanálise seria chegar à fantasia... Disse que uma psicanálise não está completa se não atravessar a fantasia. O objetivo da psicanálise é a morte: aprender a morrer. 220

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• P – Penso num grupo contemporâneo que se reivindica “assexuado”. Nada mais sexual, mais gozante, do que essa posição de verdadeira virgindade erótica. É um enorme tesão. Só que, quando se pratica isso intensamente, acaba-se gozando no corpo. Por exemplo, confessadamente, São João da Cruz, Santa Teresa. • P – Ao falar em perversão, Freud também supunha uma normalidade. Freud estava pressionado pelo conceito policial de perversão de seu momento. Não existe perversão. Sempre cito, a esse respeito, o livro Lecture des Perversions (1979), de Georges Lanteri-Laura em que isso é demonstrado. Se, para Freud, a criança é um perverso polimorfo, toda perversão é regressão a esse momento. Foi a saída que achou dentro de seu protocolo. Hoje, não precisamos desse raciocínio. • P – Mas a pulsão não é perversa? É, sim. E se partirmos desse raciocínio, só existe perversão. Essa ideia não cabe em meu protocolo. Ou não existe, ou só tem isso. Por isso, reclamei o conceito de perversidade social. É outra hipótese, é alguém querer impor ao outro a sua forma de gozo. Isso não faz parte de uma fantasia, é outro departamento. • P – É o caso de alguém como Hitler e de alguns líderes atuais? Isso que vemos hoje nem perversidade é. Nem sei se Hitler gozava. É, sim, paranoia radical. Trata-se do estatuto paranoico do processo. • P – A pulsão é polimorfa? Não precisa ser polimorfa, ela passa por qualquer lugar, tem trânsito livre. • P – Qual é a relação disso com o aspecto Progressivo, como você coloca? O Progressivo não sofre Estacionamento nem retroversão. E não se é Progressivo em tudo. Freud era bem Progressivo em certo pensamento, em outras partes, não. • P – Ao falar em Maldade, você disse que ela é comum a todas as Morfoses. Todos têm todas as possibilidades, com várias intensidades. Falaram em Hitler há pouco, vocês acham que ele fez aquilo sozinho? Ou invocou a 221

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maldade que já estava em todos? Ele soube colocar a maldade das pessoas em funcionamento. • P – E o que é maldade? Essa é uma pergunta dificílima. Falo de maldade fundamental, de perversidade, no sentido de alguém querer dispor a seu bel prazer do outro, à revelia dele. Passar por cima do desejo do outro, obrigando-o a se submeter ao meu desejo. • AA – Ocorre-me a ideia de Marcuse, mais-repressão, de que você já tratou há tempo. Você chamava de mais-recalque. É um piorar sobre a piora da situação do outro por simples prazer de dispor dele. É um acréscimo, uma vontade de mais-maldade. O Brasil, neste momento, está passando por esse tipo de situação. • P – Não está em jogo aí um enorme ego? Ego é um termo que não cabe em meu teorema. Há uma formação que é inatingível pela psicanálise: o conceito de psicopatia, que é aquele que segura a ideia de maldade. A questão é: até que ponto cada um de nós é um pouco psicopata? Para mim, o psicopata propriamente dito, este, não cabe na psicanálise. Não há maneira de estabelecer relação à psicopatia explícita. Já lhes disse que concordo com Ramachandran: psicopatia é defeito em neurônios-espelho. Ou seja, empatia zero – e isso não é analisável. Não é possível a psicanálise funcionar – com ou sem tratamento – fora da ideia de transferência, e o psicopata não transfere em hipótese alguma. Em cada um de nós pode ter um pequeno resquício de, digamos, recalcar o funcionamento da empatia, mas qualquer pessoa comum sem defeito nos neurônios-espelho, diante de uma situação de sensibilidade extrema do outro, sente o que está acontecendo. O psicopata não sente, ele tortura o outro com frieza. A psicanálise não tem acesso ao psiquismo de um psicopata. E pior, as pessoas invejam o psicopata por ele ter uma aparência de força, de coragem. A psicanálise pode atingir a babaquice que fica em volta do psicopata, mas não o psicopata diretamente. Ele não transfere, mas suscita transferência. Há um fascínio em torno da impressão de onipotência. • P – Ramachandran fala de neurônios-espelho quebrados no autista. Ele não fala sobre o psicopata.

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Adicionei o psicopata. Não sei qual é o tipo de disfunção, mas suponho que há dois tipos de mal funcionamento de neurônios-espelho: autismo e psicopatia. O psicopata não é autista, e sim auto-referente. • Nelma Medeiros – O que você está dizendo inclui a hipótese, no Progressivo, do Revirão da perversidade para a fobia? Quando coloquei isso eu estava falando de patologias. Não estava falando do Progressivo enquanto tal, e sim de formações no sentido patológico. Ser Progressivo, digamos, de maneira pato-lógica é diferente do Progressivo propriamente dito. • AA – Você encarece a ideia de abstração. Abstrair tem graus. Segundo Bachelard, por exemplo, o conhecimento parte de um infantil, passa por um intermediário, e chega ao grau abstrativo, que seria o conhecimento científico. Em seu sentido, trata-se de levar ao máximo a capacidade articulatória. Atrás de todo e qualquer funcionamento, comportamental ou outro, nada mais há do que uma maquininha articulatória. Quanto mais chegarmos perto dessa maquininha, mais abstratos seremos. Lacan tentou abstrair mediante a ideia de significante, fez uma maquininha: S1, S2, a, $. Depois de Freud, o passo que ele dá é enorme, quer produzir máquinas de funcionamento. Por isso, também fala em fórmulas quânticas da sexuação (usou de propósito o termo quântico). Suas maquininhas são compatíveis com seu momento linguístico, estrutural, só que lá estão sujeito e objeto, que, para mim e para nosso momento, são configurados demais. Já recomendei que lessem Alain de Libera que belamente analisa e dissolve o conceito de sujeito em seus cursos no Collège de France. Como sabem, eu joguei o sujeito no lixo – e se ele para lá foi, o objeto o acompanhou. Faço, então, a suposição de que o que meu protocolo, que reclama a Transa entre meras Formações, e mais nada, tem de mais figurativo seja a ideia de formações. Isso derroga uma pilha enorme de textos anteriores. A Teoria da Formações é mais abstrata que as maquininhas de Lacan. • AA – Dentro de seu protocolo básico, que tem o conceito fundamental de Haver, a Alei Haver desejo de não-Haver seria a articulação, a abstração, máxima, da qual os outros conceitos são decorrência. É a articulação mínima. A abstração visa chegar ao minimalismo radical. Se tomarmos a física, que é uma ciência dura, não teremos que sua 223

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história é buscar a última instância da articulação? Já se acreditou em átomos, já se foi para as partículas subatômicas – e está-se indo para a mera musicalidade das branas. É o mesmo percurso que a psicanálise tem que fazer.

32 • Nelma Medeiros – Em nosso Polo de Estudos, estávamos lendo Mal-Estar na Cultura (1930) e nos pareceu que Freud voltou mais atual que nunca. Podemos falar em uma analogia entre a situação do entre guerras da primeira metade do século XX e a situação de hoje. Como naquela época e em sua sequência, vemos que a democracia, ao revirar, resulta em totalitarismo. E parece que, agora, estamos em meio a esse esgarçamento entre uma e outro. Sobretudo porque, como sabem, o Quarto Império é bipolar, partido entre o Secundário e o Originário. É uma bipolaridade esquisita, pois o Originário já é bífido. Então, se ele toma caminho, vai para o lado do Revirão. E se não tomar? • NM – Nessa linha, em que termos é possível entender a secularização, pelo menos aquela proposta pela Nova Psicanálise? Nos termos anteriores, secularização se opunha a religião. É o sentido que Freud deu no Futuro de uma Ilusão. Para nós, a secularização depende de secundarização, de um Secundário levado à máxima abstração. Isso implica lidar com a Hipótese Deus, como você chamou em 1996, que é coextensiva à posição de Arreligião. Esse movimento transcendental é intrínseco ao psiquismo. Não é possível secularizar negando a religião em sentido recalcante como fez o Iluminismo.

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Religião não é transcendental, é estagnação. A suposição de transcendentalismo a ela atribuída é falsa. Isto, diferentemente do que acontece aos místicos. • NM – Talvez Freud não pudesse fazer essa equação, dada sua definição de religião como desamparo, como submissão à autoridade do pai. É assim segundo a paradigmática de Freud. O estranho é que a psicanálise, em sua institucionalização, tem tido uma história parecida com religião e igreja. O freudismo criou uma igreja chamada IPA, e o lacanismo criou outra igreja cujo nome sei lá. Não só as formações têm tendência a se estabilizar – o que chamo de neo-etologia –, como também a tomar o poder com características eclesiásticas. Desde Freud, não foi montado um aparelho que evitasse isso. Ao contrário, Freud era o papa da coisa, quis funcionar como um verdadeiro papado. Lacan não ficou atrás. A tendência é a estagnação neurotizante. Como evitar isso? De um tempo para cá, as ciências têm evitado isso muito bem por saberem que estão em movimento de produção e são provisórias. A psicanálise parece que não ter aprendido ainda. • NM – Mesmo a ciência só se deu conta disso no final do século XX. Até então ela prometia saídas garantidas e apostava, como autoridade, que sabia o que estava fazendo. Mas não havia na ciência essa produção de igreja. Com Freud, é evidentemente uma capelinha, e quando se cristaliza na IPA vira um Vaticano, com intenções de determinar no mundo o que é o certo e o errado. Ao produzir um pensamento ou alguma teoria científica, é possível pessoas ao redor estudarem aquilo, mas põe-se no mundo. Não cabe produzir uma instituição que queira que esse pensamento domine no mundo inteiro. Tem que estar no mundo – usa quem quer. Quanto a mim, aqui no Brasil, lembro-me de que fui chamado a Recife nos anos 1970 para uma reunião em que buscavam fazer uma instituição para dominar a psicanálise no Brasil. Recusei, é claro. Disse que morava no Rio de Janeiro, que só tinha um grupo ao meu redor e que o resto não me interessava. Já estavam preparando uma igrejinha nova. Nem a patota de Lacan aceitei como religião. Trata-se, aqui, de um pensamento e da produção de uma teoria – que está no mundo. Esta instituição em que estamos está aí para entender o que foi feito, e não para dominar coisa alguma. Essa coisa igrejeira e papal 225

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causou grande estrago à psicanálise. E mais, psicanálise não é profissão, e sim um tipo de pensamento, um modo de pensar. Profissão é clínica, terapêutica, psicológica, médica. Também já me chamaram para conversar sobre como estabelecer a profissão de psicanalista. Recusei, pois seria uma estupidez fazer isso. Existe a profissão de marxista, de cartesiano? Aliás, sempre que querem apontar a não-cientificidade da psicanálise, como foi o caso de Popper, logo associam com o marxismo. • NM – O marxismo, entre as ideologias, foi aquele que claramente manifestou um formato religioso. Por que um Popper, por exemplo, para mostrar que a psicanálise não é científica logo a associa ao marxismo? Porque ela tentou fazer uma religião internacional como o marxismo tentou, e até conseguiu mais do que a psicanálise. Não se pode pretender que um pensamento seja considerado científico quando ele faz moções religiosas. Uma das importâncias da Teoria das Formações é ela, sem ecletismo algum – apenas com escolhas de formações –, procurar as formações que interessarem em qualquer tentativa de entendimento do Inconsciente. Não se pode, como Otto Rank, achar que tudo se resume ao trauma do nascimento. Entretanto, do ponto de vista que é o nosso, de colher formações, é uma das hipóteses possíveis. Isso não é ecletismo, não é entrar no pensamento de Rank, e sim entender que, em algumas circunstâncias, esse caso pode comparecer. O mesmo vale para Adler com seu complexo de inferioridade. É uma estupidez reduzir tudo a isso, mas existe complexo de inferioridade – onde o encontrarmos. Jung reduzindo tudo a arquétipos é também uma estupidez, mas existem, sim, arquétipos encontráveis aqui e ali. Édipo não é universal, mas podemos encontrá-lo. A NovaMente, que pensa em transa entre formações no funcionamento do Inconsciente, está livre de ficar atrelada a conteúdos definitivos – este é o novo passo que suponho que vocês tenham entendido. É preciso, sim, arrumar algumas estruturas para podermos pensar, mas com o mínimo de conteúdo. • NM – Eu diria, então, que é esse o processo de secularização sobre o qual comecei a falar. Sim.

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33 • P – Por que você traz a ideia de Impérios em seu Creodo Antrópico? Império supõe uma dominação, um poder... É o que quero dizer: um poder. O Creodo Antrópico é a percepção, nesta nossa espécie aqui, de uma sintomática que caminha segundo um sentido necessário. Falei em Império por ser um sintoma imperativo. A organização política, ideológica, de crenças, etc., de nossa espécie é inteiramente sintomática, imperial. • P – Aí não se dá a dominância de um conteúdo? O Quarto Império não é justamente solto dos conteúdos? Ao descrevermos supostos sintomas descobertos nos processos da humanidade, estamos percebendo aqui e agora no percurso feito. Então, se supusermos que, ultrapassado o Quarto Império, e mesmo ultrapassado o Quinto Império – sobre o qual não fazemos ideia –, como será o retorno do Primeiro Império? Deverá ser uma configuração radicalmente diferente do Império d’Amãe. É preciso lembrar de que o Creodo Antrópico é uma leitura de sintoma. É uma leitura sintomal de um processo que é suposto funcionar assim. E a suposição é: se o movimento continua, e se o discurso psicanalítico consegue intervir nessa história, é possível que esse Creodo desapareça lá adiante. Mas acho inegável que, pelo menos em sua configuração ocidental, a história da humanidade tenha sido isso: a mãe, o pai, o filho... O Creodo Antrópico não é um universal. É o sintoma no qual vivemos. Haver a dominação do Espírito no Quarto Império significa simplesmente: informação. A loucura que vemos acontecer por aí no mundo hoje é a informação dissolvendo tudo. Notem, então, que estamos muito antes de se estabelecer uma configuração para o Quarto Império. Por isso, dá a impressão de que o que vivemos não é resultante dessa dissolução. Daí, as pessoas correrem para trás, mas esta é uma corrida circunstancial e sintoma do medo. E pior, como não há mais nada lá atrás, nada acharão e terão que correr para cá. (Além disso, aqueles vivos neste momento não serão 227

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capazes de produzir o Quarto Império, há que esperar outras gerações, cujo vetor sintomático vá em direção ao Originário, e não para trás. O Secundário indo no sentido do Revirão, seu outro lado lastreado no Terceiro Império ficará apagado. A referência deixa de ser ao sintoma e passa a ser à Diferença. E mais, se não se indiferencia, não se nota a diferença, fica-se achando que o outro tem caber em nosso projeto). • P – No Quarto Império, os saberes estariam em movimento: os conteúdos não se sustentam, a ideia de verdade se perde? Não apenas isso, pois o Quarto Império, como repeti no início, é dilacerado entre o Secundário e o Originário. • P – Por isso, ele é movente? Não por isso, pois o Império pode se mover sem estar dilacerado. Conforme o que consegui pensar, o Segundo Império também é dilacerado, entre Primário e Secundário, e deve ter sido um horror para sair dele. No que o Quarto Império está siderado pelo Originário, ele tem futuro aí, mas no que está siderado pelo Secundário tem forte tendência à estagnação de formações do Secundário. Basta ver o que acontece na política hoje, com muitas formações secundárias paradas: igrejas, estados, ideologias. No Brasil, é uma evidência: um enorme grupo correndo para trás, com estagnações ideológicas que são produtos do Secundário que foram estagnados, que funcionam como uma neurose (se não for como uma psicose). Há outro lado, uma minoria, que quer andar para a frente, mas é preciso a derrocada do processo que puxa para trás para que a maioria possa andar para a frente. • P – Então, como pensar a possibilidade de uma instituição em movimento? A suposição dos pragmatistas norte americanos é de que a democracia é dinâmica. Não acho que seja tão dinâmica assim. Mangabeira Unger quer um pragmatismo radicalizado, livre da sintomática dos pragmatistas anteriores. Ele não tem o mesmo vocabulário, o mesmo jargão ou a conceituação que tenho, mas sua descrição é de um Quarto Império virado para o Revirão, para a dinamização permanente. Ele usa uma terminologia meio antiga, mas está dizendo isso, quer uma democracia experimentalista.

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• P – Em 1996, no Seminário “Psychopathia Sexualis” (Santa Maria: UFSM, 2000), a partir da p. 141, você desenvolve o raciocínio de que, se o eixo da Nova Psicanálise é indiferenciante, sua prática se traduz numa “pragmática radical”, expressão repetida várias vezes. “Não se faz clínica geral apenas com o eixo indiferenciante. Aliás, não se faz nada apenas nesta referência, tem-se que pôr a mão na massa, pois o eixo indiferenciante é apenas o norte. Há o caminho de ida e o caminho de volta. E no caminho de volta, de retorno, trata-se de uma pragmática” (p. 152). Você fala também de um “pragmatismo místico” (p. 182). Vejam que é uma ideia que já estava na Nova Psicanálise. • P – Essa democracia experimentalista não significa que a constituição estaria constantemente mudando as leis? Significa que é preciso escrever uma constituição que seja dinâmica, parecida com a NovaMente. Trataria de transas de formações, e não de conteúdos. Como legislar assim? É possível, basta pensar – ainda que toda regragem seja, em última instância, neo-etologia. Por outro lado, já notaram como o funcionamento de nossa instituição, a UniverCidadeDeDeus, corre solto? É meio sem determinação. Se algo se repete, é só por ser o sintoma que está em jogo. Por isso, é preciso a análise permanente da instituição. Temos como paradigma de pensamento menos possibilidade de cair em igreja – isto, desde que funcione o paradigma. No início dos anos 1980, tentei fundar uma instituição congressual chamada A Causa Freudiana do Brasil. Ela tinha uma legislação fracionada, com independência total de cada instituição participante e soltura total entre elas, mas nem assim aquela constituição proposta colou. Era diferente de qualquer dos congressos que Freud ou Lacan promoveram em seus momentos. Como não gosto de ver coisas ficarem podres, ao perceber que o projeto estava estragado, dissolvi-o. Não se deixa defunto cheirar mal, enterramos. • Patrícia Netto Coelho – Você fala da Teoria das Formações com o mínimo de conteúdos. Isto, no nível da formulação do entendimento das coisas, mas, no nível da possibilidade de leitura, teríamos o máximo das formações: arquétipos, Édipo, trauma do nascimento...? Note que, para os autores que colocaram essas ideias, elas eram um imperativo teórico. Achavam mesmo que eram paradigmas. O que é uma 229

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bobagem, referir tudo a um único sintoma. Entretanto, o que apontaram existe e podemos topar com aquilo como conteúdo numa análise. • PNC – Você incluiria nisso algumas ideias de Lacan? Uma situação significante? Isso pode se apresentar numa análise, ou em certas passagens dela. Vemos a pessoa enrascada na linguagem, mas não cabe fazer disso um genérico. Aliás, quanto a isso, tomem a ideia de “ordem e progresso”, de Augusto Comte, e vejam como é parecida com metáfora e metonímia de Lacan • PNC – Ao falar de um retorno do Primeiro Império, na sequência do Creodo... Se a coisa for cíclica, talvez retorne. Qual será o referencial, então? Amãe não será. Será a fábrica de robôs? • PNC – Será retorno de conteúdo? Será retorno de uma situação primária. Qual será o Primário de um robô definitivo? Note, aliás, que as considerações que se fazem sobre um robô têm sido, por enquanto, inteiramente “primárias”, no sentido de sua composição, da produção da maquininha. • P – Você está fazendo uma analogia entre a forma como está entendendo a história da psicanálise. A partir da Teoria das Formações, o que se passou para trás é lido como conteúdo, e o que retorna no Creodo, quando retornar, retornará como conteúdo, certamente que transformado. As formações concretas são limitadas. Todas são, mesmo uma estrela, por exemplo. São o desenho de um animal. Aproveito para repetir que as pessoas que estão vivas, por mais brilhantes e pensantes que sejam, são demasiado cheias de sintomas, estão na moda de hoje. Qual era a moda no tempo de Freud, de Lacan? Ambos estavam na moda de seu tempo. Freud era o modelo da psicanálise. Lacan, outro top model, com os comportamentos maluquetes de seu momento – e ainda cria um negócio que é o retrato da moda. Não cabe, portanto, ficar fixado ali, pois foi a moda do século XX. A moda hoje é outra. A moda é uma composição de formações que fica em vigor durante um momento. O pessoal fashion fala em tendência. Qual é a tendência do pensamento no século XXI? Não é ser freudiano ou lacaniano. Tudo bem aproveitarmos as formações que produziram, mas ficarmos fixados nelas é estupidez. 230

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• PNC – Mesmo sendo algo velho, a família não está na moda? Ela está saindo de moda. O que vemos como discurso de reforço da família é sintoma de regressão momentâneo. Ela não tem mais onde se agarrar. Agora, então, tem que fingir bem, pois todos estão presos dentro de casa. Apenas, estão brigando uns com os outros. Prestem atenção que verão que o que acontece nas casas fechadas é a exibição plena de que não há família lá dentro. • P – Como você diz, as aparências não enganam. Nós só enxergamos mediante nossas formações. Se as formações de alguém são tais, ele só verá o que cabe em sua configuração. Felizmente, como há o tal do Revirão, algumas pessoas, de repente, extrapolam a configuração. Você só enxerga com os olhos que você tem. É o que Lacan chamava de olhar. Qual é seu olhar? Em filosofia, os alemães chamam isso de Weltanschauung. Freud e Lacan tiveram a pachorra de dizer que a psicanálise não era uma Weltanschauung. É, sim. No tempo de Freud, quando um cientista, ou um suposto tal, construía uma teoria ficava pensando que era universal e para sempre. Isso faz parte da moda daquele tempo. • PNC – José Guilherme Merquior datou o surgimento do estruturalismo no início do século XX, com o Círculo Linguístico de Praga. O próprio Lévi-Strauss, no início, se achava um estruturalista caipira por não estar entendendo bem o que vinha da linguística de Praga. • PNC – Merquior faz uma ligação entre esse conceito nascente de estrutura com a ideia de totalidade, que é iluminista e, sobretudo, romântica no século XIX. Lacan eliminou essa ideia. E Lévi-Strauss falou sobre uma falta constitucional das formações: há um buraco. • PNC – Acho importante notar a conexão entre certo pensamento de totalidade, ou tentativa de totalização, no projeto do estruturalismo. Acho que não há essa conexão lá. Está, sim, presente em Freud, no século XIX. O que o estruturalismo tem de coagulado é a própria noção de estrutura. Quero dizer com isso que, desde Freud, que não era estruturalista, as estruturas patológicas são consideradas desenhos estanques: histeria, obsessão... Lacan deu continuidade a isso. O estruturalismo continuou vendo cada uma

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dessas formações com estrutura fixa. Sendo que, como há uma abertura em algum lugar, dá para mexer nessa estrutura fixa. • PNC – Isso não seria uma tentativa de totalizar? Não, justamente por contarem com um buraco no sistema, o que dá possibilidade de movimento. O próprio Lévi-Strauss, mesmo fazendo uma descrição, digamos, nítida das culturas que examina supõe essa possibilidade. É claro que ele é mais estruturalista do que o estruturalismo... Quero enfatizar que não foi produzida, se não agora pela Nova Psicanálise, a ideia de que temos gradientes. Por isso, eliminei os nomes de histeria, etc., que estão demasiado infectados. Pensando em termos da Patemática, alguém afetado por determinado tipo de formação supostamente patológica tem gradientes de vários níveis. Se escutarmos direito o analisando, por mais histérico que seja, encontraremos suas obsessões, suas paralisias quase psicóticas... São gradientes. Acho um erro grave não haver a ideia de gradiente em Freud ou em Lacan. Não se pode pespegar numa pessoa a estrutura histérica, ou obsessiva. São gradientes de funcionamento dentro das possibilidades de configuração das formações. Cada pessoa tem vários gradientes. Por isso, acabei com a estrutura da psicose e falei em HiperRecalque. É uma Morfose que depende puramente de Recalque, de um recalque extremamente poderoso. Lacan fez uma estrutura para o psicótico, o qual nunca sairá dali por ter foraclusão do Nome do Pai. Essa época passou. Há grande diferença entre o que proponho como gradientes e Freud, Lacan, inclusive os intermediários, Melanie Klein... Todos têm a vocação de designar uma formação fechada. A pessoa é isso assim-assim. Não é, a pessoa está. E mais, há situações que pressionam para algum tipo dessas formações. Alguém colocado em determinada situação, pode ser histericizado. Pode ser forçado a qualquer tipo de resposta por alguma situação extrema. A coisa é dinâmica, sempre. Há em Lacan a ideia de que, para a análise funcionar, o analisando deve ser histericizado. Como histericizar um obsessivo? É possível? Sim, pois ele não é apenas obsessivo. Ele está obsessivo. • Aristides Alonso – Há uma junção que ocorreu para que surgisse um trabalho como o de Lévi-Strauss que ratificou a noção de estrutura. Na fonologia – criada por Trubetzkoy e, depois, por Jakobson –, há a ideia de operação 232

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binária, na qual se destaca a pura diferença na ordem do fonema, que é a base da língua. Nesse jogo da binariedade da estrutura do fonema, Jakobson encontra, quando está nos EUA, uma correlação com a teoria da informação, de Shannon, que também é binária. Então, nessa conjunção de entender que a informação funciona binariamente e a estrutura do fonema também, fundou-se a noção de sistema binário, que Lévi-Strauss, ao levar para a França, chamou de estrutura, e não de sistema. Acho que a noção de estrutura é mais fechada, mais dependente da ordenação binária que a de sistema. Há sistemas abertos, isolados, conjuntos, subsistemas... O estruturalismo é mais fechado que a ideia de sistema na teoria da informação. E há algo no estruturalismo que não tem o menor comparecimento na teoria dos sistemas: Hegel. É uma vontade de totalização com um miligrama de movimentação, que se chama: furo. O furo não é de Hegel, vem de outro lugar. • AA – E há também nesses estruturalistas o sonho de terem cientificizado seus processos. Supõem terem achado o modo como as línguas se estruturam. Há uma vontade de matematização sobre as construções do conhecimento. Isso não diz respeito à ciência, e sim à epistemologia do século XX, que queria ser a dona da verdade sobre o conhecimento. Os cientistas podem até dizer que estão fazendo assim, mas estão pensando outra coisa. Estão mexendo e procurando. Lacan chegou a falar em matemas, mas depois, no Seminário 20, disse que le truc analytique ne sera pas mathématique – o que, aliás, não sei se não será. De que matemática estamos falando? • AA – Há nisso tudo algo interessante, que é pensar que uma língua funciona computacionalmente. Trata-se de transformar o aparelho fonador humano, primário, num sistema da ordem do computacional: contínuo / interrompido, vocálico / consonantal. Assim produzindo a ordem silábica das emissões controlada por determinado sistema. Estavam pensando em termos de língua. Lacan disse que uma língua é um sintoma. É um sintomão. Quem denuncia a sintomática de uma língua? O poeta. Ele quer dizer e a língua não diz. Então, fica se virando para ela dizer o que ele quer e não está no sintoma da língua. Pensem no sofrimento de Joyce, de Lewis Carroll, e de todos os poetas que o são. Tomem a frase que invadiu a 233

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história da psicanálise, de Rimbaud: Je est un autre. É uma frase errada segundo a língua francesa. Teria que ser: Je suis. Ele teve que torcer a língua para poder escapar do si-mesmo da frase.

34 Há que entender, na história da psicanálise, algo difícil de as pessoas perceberem e mesmo de aceitarem. Toda produção de uma teoria psicanalítica está necessariamente infectada pela sintomática de quem a produziu. Se conhecemos o Dr. Lacan, vemos que a teoria que produziu é sua cara. Não conheci Freud, mas tenho a impressão de que a teoria é a cara dele. Não é possível alguém pensar sem colocar suas formações em jogo. Por mais que faça abstração, suas formações sempre estão comprometidas com a produção. E mais, toda produção teórica tenta reduzir os casos à sua própria configuração. Faz o diabo para demonstrar um caso segundo seus termos. • P – Para Lacan, a psicose, por exemplo, resultaria da não entrada do Nome do Pai. Como sabem, acho que Lacan forçou a barra para colocar a psicose num regime de estruturalismo, de uma estrutura diferente, e dentro da ordem significante. • P – Freud também fala da paranoia segundo os termos da teoria dele. Freud, ao dizer “tive sucesso onde o paranoico fracassou”, tirou essa frase do comportamento de Fliess. Era clara a transa homossexual entre Freud e Fliess, mesmo sem o “lado físico”. Freud acha que superou isso à medida que Fliess pira, fica paranoico depois de Freud ter rompido com ele. A frase quer dizer: tive sucesso onde Fliess fracassou. Ou seja, a homossexualidade 234

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foi incluída no processo de análise de Freud, e não na de Fliess. Para Freud, diferentemente de Lacan, a paranoia é descendente da homossexualidade. • Aristides Alonso – O movimento de abstração máxima que ocorre num pensamento, chegando a formações hiper-finas, como equações matemáticas, também vem desse processo sintomático do autor a que você está se referindo? Diante do produtor de uma teoria matemática abstrata e refinada, podemos perguntar: por que ele fez aquilo? Sua sintomática já está envolvida aí pelo simples fato de ter ido por aquele caminho. Mesmo o resultado sendo abstrato, foi aquela pessoa que, mediante sua sintomática, fez aquele percurso. Por que outro não fez? E quando é conteudizada demais, aí é que fica bem claro que há muito do sintoma da pessoa. Vê-se bastante isso na literatura, não há um texto literário puro, as formações do autor lá estão. Por isso, os autores têm estilo. • AA – As considerações de base filosófica, diferentemente da Teoria das Formações, falarão da ciência como se fosse uma linguagem externa à pessoa. Mesmo na própria ciência dita moderna, em que se passa pelo crivo da razão, há a suposição de que haja uma linguagem escrita por Deus na natureza, a qual o cientista estaria traduzindo. O cientista está observando o Espontâneo a partir de sua lente (dele, cientista). Ele não observa sem sua lente, nem pensa com a cabeça de outros. Do que você disse é que vem o pior de tudo: o endeusamento do teórico. Hoje, é ridículo falar em linguagem da natureza e não saber que a pessoa simplesmente considerou um conjunto às vezes enorme de formações na transa com um conjunto enorme de formações que ela trouxe, cuja resultante foi a abstração produzida. Ou seja, às vezes vem muito a calhar, mas é resultante de uma transa complexa de formações dos dois lados. Quando Einstein cria sua teoria da realidade, não há outra pessoa para criá-la. Não é qualquer um que põe uma teoria. Se não fosse assim, seria fácil e não precisaríamos de Newton ou Einstein. Eles são importantes por causa da sintomática que portam, a qual foi adequada a certa situação e produziu um processo de entendimento funcional. Só isso. Sempre repito que Einstein dizia que pensava imediatamente articulações matemáticas, e não mediante a linguagem. Aliás, pensar mediante a linguagem faz parte da sintomática da segunda metade do século XX, em que Lacan estava mergulhado. Mas, apesar disso, ou mesmo com isso, Lacan 235

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também conseguiu fazer uma teoria bastante interessante. Não há universalidade alguma em afirmar que o Inconsciente é estruturado como uma linguagem. Em seu momento, com todos infectados de linguística, de teoria da linguagem, valia a pena afirmar isso – e parecia que, no Ocidente, o mundo se exprimia através desse imperativo da linguagem. • AA – Vários matemáticos disseram que suas ideias surgem em sonhos: Ramanujan, Mandelbrot... Já lhes disse que meus Seminários mais articulados surgiram em sonhos. E acordava para anotar. É para isso que serve o Inconsciente: colocar o consciente para dormir e ir trabalhar. Freud chama mesmo de trabalho do sonho, Traumarbeit. • P – Você falou da abstração como afastamento das formações primárias no sentido da secundarização. E mesmo dentro das formações secundárias afastar-se o mais possível do anedótico. O anedótico também é secundário, mas é figurativo demais. Se tomarmos, a título de exemplo, a história da pintura no Ocidente da Idade Média para cá, veremos que são figuras, cada uma organizada segundo um valor. Lá não existia a Perspectiva, a imagem maior era a imagem do personagem maior. Jesus sempre era enorme e o resto pequeno. O Renascimento resolve cientifizar a imagem e produz a perspectiva exata, embora ela seja caolha. O Tratado da Pintura, de Leonardo, fala da perspectiva aérea que depende da própria tessitura da tinta, etc. O que acontece mais tarde com a chamada Arte Abstrata? Ela joga fora as figuras, passa a considerar um quadro, mesmo de Leonardo, como relações de manchas de tinta, de espaço, etc. Isso se chama abstração: apresenta-se só a pintura, sem historinha ou figura. Ou seja, jogam-se fora as anedotas e figuras para fazer apenas pintura. O pensamento abstrato é parecido com isso, está interessado nas articulações em jogo e não em anedotas. Então, mesmo diante de teorias complicadas, trata-se para os pensadores de passá-las a limpo, eliminar ao máximo suas anedotas. Antigamente, eram os anjos que moviam os planetas... Cada época tem a teoria que merece. • P – A abstração levada muito longe não correria o risco de perder contato com a vida?

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Aí, não se trata de abstração, é bagunça. A abstração lá está para dar conta da situação. Se perder a conexão, não é coisa alguma. • P – Deleuze em seu texto sobre Francis Bacon traz o conceito de figural, nem figura, nem abstração. Ele não preza Pollock, por exemplo, e gosta de Bacon... ...por ter anedota e figura. O que há em Bacon é um movimento de estilização, seu estilo de entender as imagens – bem de acordo com as drogas. Gosto muito de seu trabalho, mas é um trabalho anedótico e figurativo – e com estilística própria.

35 • P – Em 1994, você apresentou o Creodo Antrópico – com os Impérios d’Amãe, d’Opai, d’Ofilho, d’Oespírito e do Amém –, e disse ter tirado esse percurso da história da cultura, dos pensamentos e das religiões. Minha questão é sobre quando, na clínica, a pessoa tem uma vinculação tal com a Mãe e isso se manifesta na transferência como colamento. Fico na dúvida se aquilo se deve a um excesso de neo-etologia. O Secundário se mostra demasiado impregnado de historietas que fica muito parecido com o Primário. Ou se, por outro lado, seria algo da ordem do HiperRecalque no sentido de um predomínio do Primeiro Império que se recusaria a passar ao Segundo Império? Cada caso é um caso, não há regra universal aí. Há que verificar no caso o que está acontecendo. Por isso, insisto na Teoria das Formações: é preciso escutar as pessoas e achar as formações lá em jogo, que tipo de configuração estão apresentando. 237

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• P – Falou-se muito em nossa Oficina Clínica de hoje de manhã sobre mãe, família... Fica me parecendo que é impossível alguém ter existência sem ter tido uma mãe. Isso, não sei. Artaud diz ter nascido pelo cu. • P – A formação mãe – e consequentemente a família – é o primeiro vínculo. É onde Primário e Secundário se entrecruzam... O importante quanto à Teoria das Formações é não termos definições genéricas, é escaparmos de pseudo-definições por razões figurativas. Não sei o que é família. De quem? Como? Onde? Certas formações secundárias querem definir do modo que você está dizendo, mas não conseguem. Mesmo Lacan caiu nessa história de família. O que existe é algo que, no status quo dentro de uma cultura, está sendo chamado de família. E daí? A psicanálise, em sua prática, principalmente não sabe de antemão. Se você já sabe o que é uma família, você é psicólogo. • P – Mas, no início, não há uma imposição pedagógica de acolhimento que recai sobre a família? O discurso da Pedagogia supõe que suas moções e definições funcionam, mas é falso. O teatro que está em cena é o teatro de fato? O teatro de fato está no Inconsciente – é outra a história. O roteiro nada tem a ver com a cena que vemos, é tudo fake. Não se põe em cena o que está no roteiro. O roteiro que as pessoas dizem que está em cena é mentira. Eis algo que se vê imediatamente na análise de qualquer pessoa. Vê-se que a historinha com a qual chega não é nada daquilo que ela dizendo. Basta lembrar da frase típica cristã de mãe do Ocidente: “Amo igualmente todos os meus filhos”. Todos sabem que é mentira. É um falso roteiro. • P – Mesmo que Coelho Neto tenha dito que “ser mãe é padecer no paraíso”? Na transa de hipnose recíproca entre mãe e filho não há uma experiência de paraíso? Há experiência de alguns prazeres, e não de paraíso algum. A ideia de Paraíso é de permanência. • P – A frase “adoráveis tormentos” me parece refletir bem a experiência da maternidade. A sua, não é? Pergunte a outras mães para ver o que acham. 238

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• P – Ouvi outro dia de minha mãe (sobre mim): “Não sei como posso ter criado um monstro”. Em geral, as mães só criam monstros. • P – Ao falar em monstro, você diz que ele não vai nem para bem nem para mal. A monstruosidade estaria na Indiferença. Lacan já disse que palavra monstro se refere àquilo que se mostra com evidência. Quando alguém evidencia algo, o mais comum é os outros se assustarem. • P – Outra coisa que surgiu em nossa Oficina Clínica foi a ideia de verdade. Então, quanto a algo se mostrar com evidência, não cabe aí a palavra verdade? A não ser que ela signifique que alguém conseguiu dizer exatamente a formação que o compõe. Aí, estará próximo de alguma verdade em análise. • P – Isso teria a ver com a fantasia? Poderíamos falar em verdade da fantasia? Sim, porque a fantasia é inteiramente delimitada e descritível. Portanto, se alguém encontra uma espécie de descrição bem precisa da fantasia, ela tem características de verdadeira. Isto porque ela funciona e é aquilo mesmo. É aquele algoritmo, e não outro. Então, se quiser, pode chamar de verdade. Não interessa que seja verdade, ela é. • P – Quanto à consideração da Mãe, Freud enfatizou a relação com o menino no Édipo. Já a relação com a menina é menos trabalhada. É, mais ou menos, uma relação de rivalidade e imitação. • P – Na verdade, Freud “viaja” bastante tanto em relação ao menino quanto à menina. É viagem mesmo. Ele fica enrascado porque seu modelo se chama: o Sr. Freud. Depois, teve que arrumar outro jeito para generalizar o que queria dizer. Está na cara que é um modelo pessoal. Pode ser de outras pessoas também, mas Édipo é evidentemente um sintoma de Freud. Na história dele, o sintoma foi assim. A historinha de que a criança quer ficar com a mãe e eliminar o pai não é universal. Há várias arrumações desse triângulo, depende de cada pessoa. E isto consta da Fantasia.

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• P – Poderíamos dizer que o desejo de simetria é universal? Trata-se de eliminar a diferença, não sendo necessariamente o pai aquele que faz obstáculo ao desejo de completude da criança. É preciso cuidado ao teorizar para não trancarmos o processo. O laboratório é a efetividade da análise. Não há que projetar nas pessoas o que supomos que elas sejam. Temos que perguntar, e acolher. Em análise, o ignorante é o analista. Quem sabe é o analisando. Esse é o grande engodo da transferência. O analisando procura o analista na suposição de que este sabe dele, mas o analista não sabe. Entretanto, como sabe acolher, acaba entendendo com quem está falando. • P – Na NovaMente, ao pensarmos a trajetória de uma pessoa, localizamos o vínculo primário no Império d’Amãe. Mãe, nesse caso, é absolutamente da ordem do Primário: aquela pessoa do sexo fêmeo que bota outra pessoa para fora de dentro de sua barriga. A mãe, no Primeiro Império, está referida ao que uma pessoa lá acha que ela, essa pessoa, é. Qual é a referência de sua estada no mundo? É a mãe. Por quê? Vem o Secundário e diz que todos viram que a pessoa saiu dali de dentro. Portanto, você é aquele que saiu dali. É um cruzamento do Primário com o Secundário. É apenas nesse sentido: mãe é aquela que te pariu – e que todos supõem ser testemunhas de que você veio dali. Portanto, o que você é? O filho da mãe! Esse é o sintoma do Primeiro Império. Nem há noção de Paternidade no sentido físico, biológico. Várias situações de grupos primitivos foram encontradas em que não fazem ideia da participação do macho na produção da criança. • P – Alguém edipianizado, apegado demais à mãe, tem o sintoma do Primeiro Império? Nem em Sófocles, nem em Freud, Édipo é isso. Não é porque está apegado à mãe. O que Freud relata é uma disputa com o pai – e isso mesmo na menina. Depois, ela teria um segundo tempo. É como se o pai fosse o empata-foda, o estraga-prazeres. É esse jogo que Freud chama de Édipo, e não a referência pessoal que suponho ocorrer no Primeiro Império. Aí, não estou falando de Édipo, e sim que, na existência do grupo social, inclusive com formações secundárias em jogo, a pessoa se define como o filho da mãe. Não há pai aí. Daí vários antropólogos terem feito a suposição de que teria havido 240

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um matriarcado. Não houve, é o Império d’Amãe. Minha identidade é ser filho da mãe, sem pai no jogo. É preciso haver um golpe de acrescentamento de formações secundárias para nascer um Segundo Império no qual o pai passa a ser reconhecido. Ele começa a se dar conta de que é mais ou menos dono do filho. Agora, então, ele é filho do pai. Aí, nesse momento do Segundo Império, é que está o Nome do Pai, de Lacan. Ele é inventado aí. Aliás, não sei por que cargas d’água Lacan resolveu que esse acontecimento, o surgimento da ideia de paternidade (e, portanto, do pátrio poder, da circunscrição das mulheres num campo fechado para não pularem a cerca e, assim, garantir que a filiação é do pai), é referência ao Nome do Pai. É apenas o momento da paternidade, inclusive com reconhecimento da função reprodutiva do macho. Eles devem ter entendido isso observando o comportamento dos animais quando pararam de caçar e começaram a organizar rebanhos. Perceberam que era preciso da fêmea e do macho para nascer o filhote. Antes, supunham que filhos eram das mulheres com os deuses. Pais e mães estavam lá transando só de sacanagem. • AA – Nas narrativas das passagens de um Império a outro, há incorporações de narrativas de Impérios anteriores, que ficam recalcados. Por exemplo, a incorporação da Virgem Maria, no século XIII é uma retomada do Primeiro Império, da gravidez divina da Ísis egípcia. A oração Pai Nosso é também egípcia, do Segundo Império de Akhenaton. Lá não era o Pai, era o Sol. São ecos, ressonâncias na cultura, que permanecem como memes, como fractal, como efeito borboleta, como fórmulas hollywoodianas. E se o público for ao cinema e já não conhecer a história, nada entenderá. • P – Mudando um pouco o assunto, tenho uma dúvida sobre a Morfose Regressiva. Em 1992 – Pedagogia Freudiana, em que é apresentada a Tópica do Recalque –, você levanta duas hipóteses para ela: um HiperRecalque e uma equivocação exagerada do que teria sido o momento da instauração do faz-de-conta que faria com que o Revirão continuasse sem um ponto de arremate e teríamos uma insistência infinita. Apesar de uma diferença estrutural entre essas duas hipóteses, a manifestação da Morfose Regressiva seria a mesma? Você parece, na sequência, encarecer a hipótese do HiperRecalque e deixar a outra de lado.

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Não estou me lembrando desse texto, mas talvez esteja aí o que se possa pensar quanto ao que está na diferença entre paranoia e esquizofrenia. Acho que traduzi as duas hipóteses na de HiperRecalque com esses dois movimentos, paranoia e esquizofrenia – mas cabe lembrar que, ainda hoje, ninguém tem uma visão mais ou menos precisa da Esquizofrenia. Ela é mesmo atribuída à ordem Primária, a defeito de fábrica como é, por exemplo, o autismo. Embora o HiperRecalque seja algo bem claro, no momento não posso senão fazer conjeturas. Forçando a barra teoricamente, pode haver a suposição de juntar os dois sistemas. O HiperRecalque está presente nos dois e oferece duas saídas: ou a pessoa fica com um ponto fixada e, por isso, não consegue se movimentar fora da mesma configuração; ou justo por causa desse ponto preso, ela começa a se espalhar no sentido de cair fora dessa prisão. Na época, falei da esquizofrenia como vetor centrífugo, e da paranoia como vetor centrípeto em luta com as formações. Trata-se da tendência esquizofrênica de fugir do HiperRecalque, e da tendência paranoica de ficar se referindo a ele. Nenhum dos dois consegue, mas têm resultados diferentes.

36 • P – Você fala em Três Estilos, – e mais um quarto, que seria o Tanático –, atrelados a três modos de gozo: Clássico, Barroco e Maneiro. Entretanto, o Romantismo e o Gótico não seriam estilos também? Há muitos acontecimentos na história da literatura, das artes plásticas, etc., com diversos nomes, mas, se olharmos bem, veremos como cabem em algum desses três estilos. São três posições mentais expressas em várias produções artísticas. As posições mais representativas são essas que citei. São 242

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três exemplos muito claros no Renascimento, mas, na sequência, suponho eu, é possível ver uma dessas três mentalidades em qualquer produção artística. São três posições geométricas, no caso mais para topológico. Já o romantismo é maneirista, e o gótico é uma espécie meio entre Barroco e Maneiro com certa vocação mística (mas isto é seu conteúdo, e não sua estrutura mínima). O que nos interessa é a mentalidade estilística que vai na produção. Mesmo na arte abstrata é possível ver isso: Mondrian é uma cabeça clássica, Pollock é barroco... Foi a partir dessas três descobertas surgidas no Renascimento, que tentei distinguir, para meu uso, três mentalidades que orientam os estilos. É apenas uma hipótese, minha visão da história da arte. • P – Para historiadores da arte, romantismo e gótico são estilos específicos. Não estão fazendo a leitura de uma mentalidade, e sim de um fato artístico. Ao verem diferenças, vão descrevendo. Além disso, historiadores cometem erros demais. A maioria das produções que chamo de maneirista, chamam de barroco. E já há vários autores que também acham errado os historiadores chamarem assim. Produções maneiristas não são barrocas, são outra coisa. Eles ficam lendo as construções relativas à história, às disponibilidades conteudísticas e formais de determinado momento, e não fazem uma peneiragem para destacar a mentalidade que construiu aquilo. Que psiquismo é aquele? • P – Na música, o romantismo não seria um período específico? Romantismo é uma posição de opinião sobre o modo de sentir e apresentar, mas o que é sua construção? Beethoven é romântico? Sim, é do período romântico, mas é inteiramente clássico. Basta ver como é geômetra o tempo todo na construção regrada de suas sonatas e sinfonias. Parece uma construção grega. O modo de os historiadores da arte abordarem essas obras está muito perto do conteúdo, mas, à medida que vamos enxugando, o que interessa é saber qual é o esqueleto. O que fiz, copiando o more gemetrico, de Espinosa, foi distinguir três esqueletos que nomeei mediante aquele momento chamado renascentista, no qual esses três elementos aparecem com evidência: uma vontade Clássica e uma vontade Maneirista renascentistas, e depois surge o Barroco. • P – Esqueleto quer dizer: maneiras de gozar?

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Podemos dizer assim, se quisermos. Posso errar, mas o que procuro com essa conceituação é a fórmula mínima de uma construção. Não importa se é modernista, romântica ou outra. Trata-se, sim, de buscar saber como o autor constrói sua mente como produção. Há, além desses três, o estilo Tanático, que tem a tentativa e a tentação de destruir a obra. Rothko, por exemplo. Esses Quatro Estilos que distingui são, primordialmente, estilos de mentalidade, estilos que a mente aplica sobre o mundo. Os conteúdos, as razões históricas, as disponibilidades técnicas, são outra coisa. São quatro maneiras de mentalizar o mundo ao nosso redor. Isso, na produção, vira determinado estilo. Frequentemente, cheio de conteúdos e mesmo misturado com outros acontecimentos, mas o importante é destacar o estilo mental, a maneira de pensar dominante. Suponho mesmo que esses quatro modos de pensar podem ser destacados na história da filosofia. • P – Você já disse que Descartes é clássico, que o Espinosa dos escólios é maneiro, e Leibniz, barroco (por razões diferentes do que Deleuze entende por barroco). Espinosa vai amaneirando o processo, não deixando ficar clássico. Ao lermos, tudo parece estar enquadrado, mas ele logo dá uma puxadinha para o lado e revira um pouco. É também o caso de Michelangelo, que, em suas obras, dá a impressão de que está tudo clássico, mas ele dá uma torcida para o espectador não ficar quadrado. É diferente da maioria dos trabalhos de Rafael, que é clássica – apenas seus últimos trabalhos são maneiristas. Fiz um Seminário [Rafael-la dos Santos: a Trans-figuração dos Falanjo (1985)] sobre os quadros em que Rafael pinta de modo maneirista. Aquele momento histórico da Itália é importante por causa do diálogo e da rivalidade que forçou o surgimento dessas três mentalidades que suponho serem encontráveis em qualquer lugar, no Oriente inclusive. • P – O que importa é a estrutura mínima, então? A descrição conteudística é parecida com o procedimento de Freud ao observar as construções de seus analisandos. Ele começa apresentando um monte de patologias, mas é tudo redutível a um raciocínio mais abstraído, a um caso que poderíamos chamar simplesmente de Morfose Estacionária, por exemplo. Quantos tipos ela tem? Quantos acharmos, cada um com sua organização de 244

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conteúdo, com sua historinha. Às vezes, como o analisando apresenta formações misturadas, é difícil distinguir. Estacionário é uma formação pressionada por um conjunto de formações recalcantes que paralisam o movimento daquele psiquismo, o que é possível acontecer de inúmeras maneiras. E mais, a maioria das pessoas e a maioria das formações da cultura são Estacionárias a maioria do tempo. A descrição é minimalista mas o funcionamento é dinâmico. Ou seja, quando se consegue um passo a mais no campo da arte, de uma teoria, não se é Estacionário – entretanto, logo em seguida, essa formação começa a ficar Estacionária na cultura. Um conhecimento numa área qualquer, depois que se estabelece contra críticas e diatribes, frequentemente passa a ficar Estacionário. É preciso outro movimento, agora Progressivo, para deslocar de novo as formações. • Aristides Alonso – A positivação do Maneirismo na Estética ocorre apenas no início do século XX, o que traz prejuízo às denominações nos manuais. Chamar de barroco mineiro aquele maneirismo que lá aconteceu é um exemplo para o qual alguns historiadores já chamaram a atenção. Fica difícil mudar essas denominações agora. Quanto aos Estilos basais da mente, há três autores que servem de boa referência. O primeiro é Nietzsche, com sua distinção entre apolíneo e dionisíaco na movimentação da cultura ocidental. Ele não detecta o maneirismo aí. Lacan, em seguida, já contaminado pelas matemáticas, falará de Consistência e Inconsistência como modelos de expressão gozosa. Magno é quem, na sequência, por afirmação do vetor pulsional, destaca a insistência de um elemento terceiro – o Maneiro – que decai em dois modos, barroco e clássico. Traz ainda a quarta possibilidade, extrema, da produção se voltando contra o próprio produto numa vertente destrutiva, de extinção, que é o Tanático. Isso é encontrável em vários lugares, na literatura, na pintura... E há algo que é sintoma nosso: a península ibérica tem forte tendência maneirista. • AA – Cabe também reconhecer na literatura brasileira, por baixo das etiquetas e designações, o modo maneirista de expressão. Em José de Alencar, por exemplo, esse modo lá está na adoção da língua brasileira. Mesmo em romances aparentemente românticos, caretões, como Senhora (1875), são usados expedientes análogos ao Dom Quixote (1605), de Cervantes. 245

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Para mim, Alencar é cinematográfico. O roteiro do filme já está no romance. • AA – O Guarani (1857) também é maneirista. E fica mais maneirista ao ser apresentado pela primeira vez como ópera de Carlos Gomes em Milão com um tenor branco, gordo e com barba. • Nelma Medeiros – Glauco Mattoso lembra que Alencar escreveu o primeiro romance fetichista brasileiro: A Pata da Gazela (1870). O próprio Glauco fez uma paródia com o título A Planta da Donzela (2005). Acho que li esse texto de Glauco. • AA – E mais, nossa literatura prévia também se enquadra aí. O chamado Arcadismo brasileiro é uma transposição canhestra do arcadismo italiano e português. Por exemplo, faz acontecer em Minas Gerais uma vida bucólica, romana, com pastores, ovelhas, ninfas nos regatos... Mas são transposições que produzem um texto de grande impacto afetivo como Marília de Dirceu (1792), de Tomás Antônio Gonzaga, que foi muito lido. O Brasil pode ter mil manifestações, mas, no fundo, é maneirista. A ambiência brasileira como cultura é maneirista. • AA – Você fez o processo de abstração de tomar o estilo em sua minimalidade... ...em sua mentalidade. Interessa o tipo de mente que está trabalhando para a produção da obra. É essa mente que informa o estilo. É claro que se mistura a questões históricas, de época... • AA – Como o gozo é expressão, são as expressões gozosas daquela mente. Deve, portanto, haver uma grande conexão entre a fantasia e o estilo de cada um na busca dessa expressão. É bem possível. Espero que você faça o trabalho de mostrar essa conexão. Tenho a impressão de que os estilos são as quatro lentes mediante as quais as pessoas conseguem observar o mundo. Qual lente lá está em jogo? Qual é a construção do olhar da pessoa sobre o mundo? • P – Alguém passar de um estilo a outro tem a ver com a fantasia? Seriam experimentações ligadas à travessia da fantasia?

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Nada a ver. É pura escolha de olhar. Ou a pessoa tem aquele olhar espontaneamente por ser seu sintoma, ou pode mudar de óculos, procurar outro olhar. Isso não é necessariamente expressão da fantasia. • P – A fantasia se expressa na obra? Ela se expressa em todas as moções da pessoa no mundo, no modo de ela estar lá. Tanto é que cada um pode procurar por sua fantasia observando seus movimentos no mundo. Ela pode lá estar representada. O mais frequente é a pessoa primeiro exprimir e só depois entender. • Nelma Medeiros – Podemos pensar os quatro estilos segundo a vertente que consiste, que é uma perspectiva que fecha – o Clássico –, e a que faz o movimento de abrir, que fica inconsistindo – o Barroco. Ao passo que o Maneirismo buscaria expressar a Bifididade anterior aos dois outros movimentos. Já o estilo Tanático buscaria expressar a extinção, o movimento da morte. O Tanático é absolutamente observador d’Alei, da Pulsão. Em Kant avec Sade (1963), o que Lacan está fazendo? É um texto meio confuso, mas ele toma Antígona, etc., para mostrar que existem duas maneiras de lidar com a Lei, a de Kant e a de Sade. A maneira de Kant é o imperativo da Lei dos homens, da Lei enquanto constituição secundária. O imperativo de Sade é a Lei do Haver: Foda-se! Ele é um cientista à procura de quais são as formações, os comportamentos, que levam diretamente à destruição. É outro modo de ser Rothko na pintura. Um trabalha com tinta e outro com o sexo diretamente. Sade é um cientista d’Alei, da imposição da Lei do Haver. Já Kant quer colocar ordem no galinheiro fazendo a imposição da lei formal como salvação da espécie. São, portanto, dois imperativos: o categórico, que chamo de kant-egoico, e o imperativo sádico. O Haver é sádico, vai nos destruir e, às vezes, gozamos com isso. Donde a expressão do sadomasoquismo de nossa existência. • NM – Lacan retoma um trecho de Sade e arranca um imperativo: “Tenho o direito de gozar de teu corpo, pode me dizer qualquer um, e tal direito exercerei sem que limite algum me detenha no capricho das exações que me agradem satisfazer com isso”. Não é esse o imperativo. O imperativo é: “Tenho o direito e a obrigação de gozar” – ou seja, de morrer. E na tragédia grega, qual é o problema de Antígona? É ela dizer a Creonte: “A Lei do Haver está acima de sua lei”. Ela 247

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é uma espécie de Sade masoquista: “Morro disso, dane-se!” E no que morre disso, mata o filho de Creonte e o desmoraliza. Obedecemos necessariamente à Lei do Haver. À outra, às vezes obedecemos, às vezes não. Lacan não tinha o conceito “Haver desejo de não-Haver”, mas explica direitinho o processo (direitinho é modo de dizer, pois o texto é bem confuso). Sua sacação é primorosa, pois ninguém tinha feito a relação dos dois antes. E também vai buscar na tragédia grega o dilema entre a Lei do Haver e a Lei do social. Édipo está enrascado na Lei dos homens e, ao perceber isso, some na fumaça. Antígona se refere a uma Lei superior à de Creonte, com a qual vai vencê-lo por aceitar a morte. Depois, Creonte teve que aceitar a morte – dos outros. Quem vê com clareza no início de Édipo Rei é Tirésias. Por quê? Porque é maneirista, transa para todos os lados, já foi mulher, já foi homem. Ele enxerga as coisas, Édipo está muito limitado. • NM – Nas três tragédias de Sófocles há a presença de um Terceiro lugar. Em Édipo Rei, Tirésias, em Édipo em Colona, o rei que o acolhe e, em Antígona, a posição de Antígona. Por isso, é importante entender os Estilos. O Maneirismo é esse terceiro lugar que transa para os dois lados, que revira. É neste sentido que falo de estilos, e não das leituras localizadas das obras. • NM – Aliás, Lacan poderia ter explorado uma das personagens da Filosofia na Alcova (1795), Madame Saint-Ange que, no início, faz uma declaração de disponibilidade: “Sou um animal anfíbio”... Declaração de polivalência erótica. O pessoal pensa que Sade está de sacanagem. Ele não está, está botando para quebrar mesmo. Kant, este sim, está de sacanagem com a gente. • P – Quanto aos Quatro Estilos, retomo o que você dizia da outra vez, que não pensamos necessariamente com a língua... Ao pensar esses Quatro Estilos, eles são movimentos e posições. Não há língua aí. São construções dentro do espaço: movimento circular, em espiral, em oito interior – e o movimento de anulação. • P – Pensar o Revirão foi, para você, fora da língua? A inspiração do Revirão resultou de uma transa com a geometria unilátera. No caso, representada pela banda de Moebius. O Revirão é um conceito 248

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maneirista, de terceiro incluído. Sobre isso, sempre cito o livro O Terceiro-Instruído (1991), de Michel Serres, que é esclarecedor da ideia de Revirão. Ele fez o conceito de terceiro instruído, mas não de Revirão, como fiz. Está lá. • P – No movimento da análise de uma pessoa, é possível detectar esses Quatro Estilos? Pode-se detectar qual é o estilo dominante, pelo menos, da pessoa. Não que ela não possa passar pelos outros estilos. Meu estilo dominante é maneirista. Aliás, musicalmente falando, sou uma pessoa em dó menor, mesmo minha fala é em dó menor. • P – Uma coisa são os movimentos do gozo, outra os movimentos das patologias. Nos estilos, as coisas se expressam bem, o sintoma é dito, mas nas patologias, não. São formas de convivência com os recalques. Eles estão sempre presentes, não vão embora. Cada artista diz um estilo dentro de sua estrutura de Morfose. Ele pode dizer um estilo mesmo sendo um Estacionário. O exemplo claro e típico na história da arte é o chamado Academicismo francês, importado pelo Brasil na missão artística de 1816. Fundou a Escola Nacional de Belas Artes, que virou aquela neura artística estacionária e com vontade de classicismo. Ainda bem que, ao chegar ao Brasil, tudo se esculhamba. A pintura histórica brasileira tem de tudo, basta ver o quadro sobre a independência com movimentos de Delacroix. • P – Temos tendência ao pastiche? Mesmo na política atual vê-se um pastiche de nazismo... O Brasil só tem duas saídas: ou copia, ou cria. Há poucos criadores, e muita cópia. Em vez de o pessoal seguir nossos maneiristas do interior como Aleijadinho e a arquitetura de Minas Gerais, ou mesmo criar outro procedimento, foram buscar o lixo academicista da Europa, que lá já estava ridicularizado. • P – Além de criar ou copiar não há possibilidade de desenvolver algo criado? Sim. A obra inteira de Villa-Lobos, que é magistral, nitidamente brasileira e original, é desenvolvimento do politonalismo inventado por Stravinsky. (Aliás, Villa-Lobos vivia num país idiotizado pelas escolas de música, um país 249

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academicizado sobre a tonalidade, etc. Ele, então, escuta outro som no Brasil e toma a teoria de Stravinsky que acha capaz de exprimir o que estava ouvindo – e faz uma obra enorme que muda a sonoridade do país). Outros grandes músicos, europeus, fizeram o mesmo em relação à teoria de Johann Sebastian Bach. Portanto, ou se cria uma teoria nova, ou se desenvolve a que já se tem. E há muitas maneiras de desenvolver. • P – Você também falou sobre “a música da pessoa”. Hermeto Pascoal já mostrou isso muito bem. • P – Dentro da questão da sintomática brasileira, em Raízes do Brasil (1936), Sérgio Buarque de Holanda, ao destacar a questão da cordialidade, parece mostrar dois alelos. A dificuldade de instalarmos aqui os valores impessoais da civilização moderna, democrática, liberal, da arrumação do individualismo, se deveria, por um lado, à dominância do modelo familiar que serve para as relações sociais. Por outro lado, a cordialidade seria uma espécie de afetividade que transborda os modelos institucionais. Ele toma Antígona para ilustrar o que quer dizer. Nela, diferentemente do embate que você coloca entre Lei do Haver e Lei do Social, o conflito estaria entre lei impessoal do Estado e lei tradicional da família. Foi o que ele pôde fazer. Costumo brincar com o título do livro, mudando-o para Varizes do Brasil. Aquilo tem grandes dificuldades para andar. • P – Minha tentativa é situar essa cordialidade em termos do Creodo Antrópico. Parece que essa impessoalidade, essa institucionalização do Estado moderno, tem a ver com um modo de funcionamento próprio do Terceiro Império e com a dificuldade de instalação desse modo no Brasil. Então, a cordialidade parece ser avessa à impessoalidade ora para trás por estar vinculada a um modo de relação familiar, e ora para a frente por ter a ver com disponibilidade, transbordamento e mesmo com o movimento progressivo. É o que Sérgio estava querendo dizer, mas os que tinha eram aqueles conceitos. O cordial dele é do coração, de impulsos do sentimento. O que tinha era ou a família burguesa, ou a criação poética. • P – No final do capítulo 5, “O homem cordial”, ele parece remeter-se ao que você chama de Heterofagia: “A vida íntima do brasileiro nem é bastante coesa, nem bastante disciplinada, para envolver e dominar toda a sua 250

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personalidade, integrando-a, como peça consciente, no ambiente social. Ele é livre, pois, para se abandonar a todo o repertório de ideias, gestos e formas que encontre em seu caminho, assimilando-os frequentemente sem maiores dificuldades”. Ele era muito inteligente. Eu o li há décadas, mas acho que o grande livro dele é Visão do Paraíso (1959). • Patrícia Netto Coelho – Como poderíamos ler a história das teorias do conhecimento em relação aos estilos? É fácil ler em relação aos conceitos de Metanoia e Paranoia, que você produziu em 2009, mas é possível relacionar o estilo Tanático ao movimento de Wittgenstein, no Tractatus, no sentido de esgotar todas as possibilidades de tradução da linguagem pela lógica? Ele chega ao Silêncio. Ele chega à Desistência, mas não para de falar. Diz que, se não pode falar, você mostra. Ele tem uma obra enorme. Ele continuou a produzir um bate-boca infinito. • PNC – Mas sua primeira ideia é: sobre o que não se pode dizer, deve-se se calar. A saída dele não é a mesma de Goedel que chega ao impasse de dizer que a lógica, na verdade, é inconsistente, pois jamais se conseguirá seu fechamento. O protocolo de um não é o do outro. Wittgenstein queria saber o que podemos dizer no âmbito das línguas de maneira inequívoca, e chega à conclusão – correta – de que não é possível. Se alguém tiver que dar uma banana para o outro, dará uma banana, mostra-se para ele. • P – Quem mais poderia ser incluído no estilo Tanático? Nietzsche é exemplar. • P – Penso em John Cage e sua busca do silêncio absoluto. Ele jamais conseguiu chegar lá, pois descobriu que, quando o silêncio é pleno, começa-se a escutar. Ele tentou fazer a música anti-som. O mesmo ocorre com Rothko, que, por não conseguir calar a pintura, se mata. Notem que o Tanático é no sentido da Pulsão, d’Alei. • P – Podemos, então, dizer que nem todo suicida é tanático? Há gente que está delirando, que se joga da janela por achar que é passarinho. 251

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• AA – A questão de Goedel era sobre a proposição de Hilbert quanto à consistência ou não da matemática, se era possível fechar a matemática. Goedel trabalhou sobre a aritmética e viu que, se por ali já não dava para ir adiante, o resto ficava comprometido. Em Goedel, há certo silêncio. Ele ficou em Princeton com a sensação de não ter nada mais a fazer, e mesmo não querendo falar com ninguém. Para ele, colocou-se uma questão terminal. Entretanto, para Turing que tinha a questão da computabilidade e da incomputabilidade, a via de solução foi pragmática. Digo isso pelo fato de a mesma questão depender do modo como se engaja nela. Daí minha definição: L’Inconscient est structuré comme on l’engage. Por que Goedel não construiu uma engenhoca como Turing fez? • AA – Coloquei esses pontos por estar pensando sobre o que você disse sobre Lacan ter parado de falar. Por que parou? Pergunto porque o fato de se deparar com o limite intransponível não significa desistência, no sentido do melancólico ou outro. Lacan poderia ter feito poesia pelo resto da vida. A poesia pode ser uma forma de mostração. Mas ele estava ficando gagá, estava em processo de demência, não dava mais para ir adiante.

37 • Nelma Medeiros – Você nos enviou por e-mail, quinta-feira passada, o texto: LE(R)DO ENGANO / O Lacan meu Analista, / assim como o Lacan meu Mestre, / foi o Último Lacan. / (Graças, Adeus!) / Que o leiam e releiam. / Quase todos os que, por aí, / se dizem lacanianos, / eles leram, quando leram, / o Lacan de trás-pra-frente, / quer dizer: do começo para o fim. / Não eu, / 252

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que o li de frente-para-trás, / talmente como foi por ele / recomendado. / Eles não são lacanianos: / são millerianos – e não sabem. / O LACANIANO, sou eu. / Então, NovaMente. A partir daí, retomo o e-mail que enviei no mesmo dia: “Caro Magno. Me permita um registro histórico, se não mesmo arquivístico, e uma pequena consideração. Sua reflexão chegou, por coincidência, na mesma manhã em que tive acesso, por pesquisa que pedi que um amigo fizesse on-line, à matéria da revista Manchete que registra o resultado do concurso de contos de que você participou1 (edição 0903). Nela, Raimundo Magalhães Jr. faz o comentário sobre como um dos “autores”, Diadorim (a inscrição tinha que ser feita com pseudônimo), merecia prêmio de pasticho pela imitação de Guimarães Rosa2. Há registro, em Falatórios seus, de sua memória sobre o fato. Mas ler a matéria, “no original”, produziu suas impressões, à luz do que você acaba de nos enviar. O Magno pastichador, que concluía o Aboque/Abaque nos idos de 196869 (a matéria é de agosto de 1969), deve ter feito um switch, ao ler, na mesma época, Jacques Lacan. Ainda não tenho clareza para ficcionar melhor essa virada, mas intuo que o contato/contágio com aquele Lacan “resolveu” uma linha de ana-lysis de que aqueles contos-pastiche eram uma certa resultante. É só ler. O pastiche é um recurso interessante e pode servir a muita coisa. Pode ser um voto na fecundação de uma possibilidade de expressão; pode ser uma experimentação literária, com seus efeitos estilísticos e estéticos; pode ser uma maiêutica contra a pressão pregnante de “ser” alguma coisa. E o Lacan que você leu dos Écrits disse “sim” à sua questa na primeira linha: “Le style est l’homme même”. Equivocando, como não poderia deixar de ser, uma situação que já estava propiciatoriamente cambiante. O resto deve ter sido uma overdose de possibilidades de existir, que você agarrou com todos os seus recursos. Não consigo ver como você leria Lacan de trás para a frente. Você se recusou a fazer isso com o Rosa, por que faria com Lacan? O curioso é que o alelo pastiche teve como sua correspondência, ao avesso, uma rigorosa construção conceitual no campo freudiano. E o Lacan que você começou a transmitir já era, de saída, Lacan-Rosa. Lacanrose. Laconrose. 1 http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=004120&PagFis=21954 2 MDM [2020]: Não foi por imitação de Rosa, mas de quatro ou cinco autores diferentes.

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Laocoonte. Uma bela agonística da morte. Do século, da era, do Império, de Lacan e sua, àquela altura. Millerianos me fazem pensar, de cara, em millenistas, milenaristas, aqueles que continuam acreditando na segunda vinda da mesma coisa. Não conseguiram ver que acabou. Foi-se o último Lacan, aquele que você devorou. Acho que você é lacaniano pelo voto nessa morte, novamente. Para que haja renovação. Metamorfose. Gosto de seu modo de se despedir em seus e-mails: Graças, assim intransitivo. Então, graças e um grande abraço, Nelma”. Quero acrescentar agora que, se houve um processo de maiêutica na produção de sua obra, uma parte de sua equação foi Lacan, e outra foi o Brasil. Acontece que também morreu certo desenho do Brasil que formou você e colaborou na forja desse pensamento. É o Brasil do século XX que você conheceu, seja pela frequência de lugares institucionais que você frequentou, que mal ou bem funcionavam, e mesmo deram visibilidade (muitos aqui presentes conheceram você na universidade pública)... E os caminhos que chegaram a você trazendo esse veio heterofágico, macunaímico, talvez também sejam datados, precisam ser reinventados. Nem sei se como país, se como Brasil no sentido que o século passado leu. Talvez nem haja Brasil daqui a um tempo, pois está tudo em suspenso. Esse sintoma migraria por ter rosto de Quarto Império. É uma transformação em termos institucionais, no que a psicanálise é fundamental já que a questão de sua existência institucional é crucial para ela. Também é uma transformação em termos pessoais já que as pessoas podem ser expressantes desse veio macunaímico. Foi essa a consideração que quis trazer agora. É tudo verdade. E aí, o que fazer com isso? • NM – Joga-se para a frente – para termos condição de, quanto ao Brasil, “fracassar melhor”? Recentemente, essa frase de Samuel Beckett foi lembrada, em Nova York, por um pastor negro que, sobre os recentes levantes no país, disse que os EUA fracassaram como projeto de nação – e o que deveria ser feito era fracassar melhor. O que fracassou não foram os EUA como nação, ou mesmo o Brasil, e sim o Terceiro Império. Não se percebeu – ainda – que não é um fracasso, e sim uma exigência de metamorfose. Chama-se de fracasso por perceberem que esse Império acabou e não entenderem que é um término de orientação dentro 254

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do que chamo de Creodo Antrópico. No entanto, por mais que haja dissolução – que é um nome melhor do que fracasso –, muitos sintomas ou permanecem ou foram importantes para a continuação do pensamento. Se, por exemplo, dermos passos para trás, veremos que Lacan não seria Lacan sem ter participado do movimento surrealista. Esse movimento deu uma bagunçada em sua cabeça, e ele conseguiu largar o século XIX e passar para o XX. Freud tentou, mas não conseguiu. Basta ver sua obra, que tem todos os cheiros do século XIX. Então, quem sacolejou Lacan foi o surrealismo – e quem me sacolejou aqui? Há uma analogia entre o surrealismo lá e a Semana de 1922 que sacolejou a mentalidade aqui. Oswald, sobretudo. Mario, etc. Era um movimento de, praticamente, dissolução dos processos anteriores. Até cometeram erros, mas o acontecimento foi necessário. Entretanto, parece que, como índice de cultura, na França ou aqui, não conseguiram ser uma transformação radical da cultura. Foi a transformação de algumas pessoas, de alguns pensamentos. E essas pessoas que estão se manifestando hoje, a meu ver, não estão entendendo que, primeiro, não há fracasso algum, e, segundo, que há, sim, transformação. No que há transformação, o que ficou para trás acabou. É preciso também entender que essa transformação derrogou o passado da história da psicanálise, a qual não ultrapassou o Terceiro Império – não é bem um fracasso, e sim uma necessidade de transformação. Foi, aliás, o que tentei fazer para sobreviver. Já lhes disse que minha presença em Paris, com Lacan, sua Escola, a Universidade, deixou claro para mim que era o fim. Ao voltar, peguei o mesmo rabo de foguete de lá e continuei para ver aonde podia dar. Há dois livros que deixam isso claríssimo: as biografias de Freud e de Lacan, escritas por Élisabeth Roudinesco. Ela descreve muito bem a dissolução do processo. Eu, estou depois disso. • NM – Essa passagem de Terceiro para Quarto Império tem um elemento que não era tão evidente quanto agora: uma renovação sob o signo de Tânatos. A face nekrós é a que está se mostrando primeiro, mas seria apenas porta de entrada do tanático. O Terceiro Império é Eros. • Aristides Alonso – Você destaca que, quando somos produtivos no Brasil, a expressão é maneirista. Entretanto, a chamada “elite do atraso” 255

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– lastreada na permanência do coronelismo, do patrimonialismo, das milícias, da mentalidade colonialista, do mazombismo – vai ao contrário da afirmação da brasilidade, que foi justamente o que a Semana de 22 tentou destacar. Tratava-se, por exemplo, de escrever em brasileiro. Segundo alguns autores português e brasileiro são línguas diferentes. • AA – Quero destacar que o início de sua obra tem um cruzamento nesse sentido da brasilidade, da língua brasileira. Você começa seus textos teóricos com Senso Contra Censo (1972-76) e Rosa Rosae (1977), depois entra na fase com transcrições de fala pública, mas há uma conexão entre esses textos e Aboque / Abaque (1964-70), que é uma escrita literária. Ou seja, a operação que vinha fazendo pela vertente da língua e da literatura também comparecia no modo em que você se expressava na teoria. Na teoria foi mais difícil engatar. Tive que passar um longo período entre os dois. Meus primeiros Seminários são chatos, um pouco franceses. • AA – A situação em que vivemos atualmente no país é explicitamente a de um projeto de destruição dessa perspectiva de brasilidade. Há um ataque frontal a nossas figuras literárias e artísticas. Mesmo Machado de Assis entrou em certa lista de proibição. Não estou vendo ataque, e sim uma esculhambação. Isso dá e passa. Em tempos anteriores também havia listas de proibição. Basta lembrar daquele pessoal do verde e amarelo, das antas... Não há como destruir, a obra está aí e acaba percorrendo, acaba fazendo caminho. Há um processo de boçalização pelo mundo hoje, uma espécie de emergência da expressão do baixo nível. A baixaria está sobrenadando, aproveitando o fato de estar fácil a utilização dos meios de comunicação. A maioria se vê em condições de expressão, mas, como é de esperar, só aproveita para continua a falar besteira. Estou me referindo à maioria dos supostos intelectuais. Entrem em qualquer livraria e verão o monte de porcaria que lá está exposta – às vezes, ao lado de obras da maior importância. Acho que faz parte da dissolução de que falava há pouco. Isso só será retomado muito lá adiante. O importante é pensarmos que não se trata de algum fracasso, e sim que estamos na muda. O difícil será atravessar essa fase – que é longa demais – mantendo um processo mental capaz de vir a resultar no próximo passo. Acontece que o pessoal está com medo e correndo para trás 256

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– mas temos que esperar, pois lá atrás, como lhes digo a toda hora, o que há é só uma parede, sem passagem. Vamos, então, esperar voltar ao “pós-normal”. Quanto a isso, é preciso saber que Lacan, ele próprio, se encarregou de dissolver tudo que fez. Jacques-Alain Miller tomou o Lacan da aparência de ordem instituída, quis fazer uma igreja compacta – da qual gostaria de ser papa – e uma indústria supostamente de análise que até pôde dar algum dinheiro, mas está ficando desmoralizada. O trecho que lhes enviei, mencionado no início de nosso papo de hoje, é um aviso (não de que li Lacan nessa ordem, e sim) de que minha leitura pessoal tomou do fim para o começo. No fim, Lacan fez a melhor coisa de sua vida: dissolveu sua obra. Daí que parti para me encaminhar para o que chamo de Processo de Indiferenciação. É outra posição de escuta, outra posição de teoria – depois de Lacan ter dissolvido aquilo tudo. O pessoal supostamente lacaniano – que, na verdade, é milleriano – está até hoje batendo boca sobre aquelas construções que o próprio Lacan abandonou. Ele partiu correndo atrás de algo que não conseguiu. • AA – Em A Obra Clara (1995), Jean-Claude Milner aponta, depois de seus dois classicismos, esse terceiro movimento de Lacan, que ficou em suspenso. É dali que temos que começar, e não ficar olhando para trás na obra dele. Ficou em suspenso antes de ele morrer porque, infelizmente, depois de 1978 – e, felizmente, depois que voltei de lá –, Lacan começa a ficar demente, talvez por causa de pequenos AVCs no cérebro. • AA – Começar daí, em seu caso, foi a generalização do conceito de Inconsciente para Haver, a proposição do conceito de IdioFormação no caso específico de Pessoa – o que liquida o entendimento valorativo dos humanismos pregressos –, e o conceito de Formação. É um aparelho mínimo com inúmeros desdobramentos. Junto com isso o abandono de sujeito e de objeto. • Patrícia Netto Coelho – Lembro-me de que Lacan tem um texto intitulado Estou falando com as paredes (1971-2). Lacan sempre achou que estava falando com as paredes. Comentava com as pessoas mais próximas que não sabia o que aquela gente toda estava fazendo em seu seminário com cara de não estar entendendo nada. Eram mil 257

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pessoas naquele anfiteatro da Faculdade de Direito, ao lado do Panthéon. Após a terceira vez que fui a seu Seminário, cheguei na sessão dizendo que estava com vontade de vomitar por não aguentar ver aquele bando de macacos lá. Ele disse: “C’est ça!” • P – Acompanho certos grupos de lacanianos que afirmam que o que se dissolve na fase final de Lacan, no processo de demência que você mencionou, são ideias não correlatas à sua hipótese fundamental de que o sujeito da psicanálise só pode ser o sujeito da ciência. É seu processo de matematização que abstrai e dá uma sensação de dissolução, mas o que ocorre é uma radicalização da própria obra, da ideia de matema como possibilidade de transmissão da psicanálise... Mas isso é Jacques-Alain Miller, e não Lacan. E não há demência aí. A demência dele foi em 1978. Ele estava bastante lúcido quando começa a comentar o Tractatus, de Wittgenstein, e chega à conclusão de que o que não se pode dizer, só mostrando. Por isso, fica enrascado naqueles nós. O que ele queria, no final, ao enrascar-se com o nó borromeano? Simplesmente, mostrar o que acontece, sem falação. Por isso, digo que começou a dissolver para trás, toda aquela lorota linguística e mesmo, às vezes com lógica. Ele quebra a cara, e não consegue algo importante com sua topologia que ficou complicada e com ele perdido naqueles nós. O que nos interessa é ele ter olhado para trás e visto que Wittgenstein tinha razão: o essencial não se pode dizer, só se pode mostrar. • P – O surrealismo impulsionou Lacan, o movimento modernista sacolejou o Magno aqui, mas não seriam muito específicos do século XX? Eles só sacudiram o sistema, quem vai é a gente. Não deram um grande passo como Lacan deu. • P – Enquanto mantivermos a ideia de que é fracasso, ficamos para trás no sentido de entender o para a frente? É nostalgia. Ficamos procurando onde houve o fracasso. Tudo tem fim. Acabou – só que o pessoal está perdido. • PNC – Falar em fracasso supõe alguma referência de sucesso, de êxito. É ficar lamentando a perda do sucesso. No fundo, essa postura é uma não aceitação, ou não conhecimento, ou rejeição, da Pulsão de Morte. Acabou 258

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o Império do amor, estamos no Império da Morte. E isso nada tem de ruim. É a direção da Pulsão. O Quarto Império terá que entender para onde leva a Pulsão. Essa será a referência. O amor estava segurando contra a Pulsão. Quando a Pulsão aparece, dizem que é fracasso. O que acabou foi o amorzinho. Amor e ódio estão ficando parecidos. Já mencionei aqui [item 26, acima] o reconhecimento disso que, há muito tempo [em 1982], entreguei em forma de soneto: Chega de Amor. • PNC – Há outro livro de Jean-Claude Milner que você trabalhou, Les Penchants Criminels de l’Europe Démocratique (2004), em que ele analisa Segunda Guerra e reconhece que o projeto democrático que lá havia matou milhões de pessoas. Tudo em nome do amor. • NM – Você estaria também dizendo que o próprio Lacan – esse que você conheceu e tomou para a frente aproveitando a dica da dissolução –, por mais que tenha sido uma expressão do século XX paranoico, também reconheceu o Tanático? A propósito, a título de ilustração, lembro-me de uma conferência de Leonard Bernstein em que diz que, para ele, a Sinfonia no 9 (1908-9), de Mahler, é uma espécie de epígrafe do século XX e está na vertente da morte, da destruição. Isto, embora Bernstein module dizendo que Mahler precisa ser colocado lado a lado com Stravinsky e Schoenberg porque não viu certas coisas. Mahler é o músico preferido de Lacan. • NM – Em 1999, você falou sobre a ressonância da música de Wagner na obra de Lévi-Strauss, da música de Mahler na obra de Lacan, e a de Webern na sua. Sim. Para mim, não há vetor tanático no caso a que você está se referindo. O morticínio do século XX é, sim, resultante de paranoia pura, paranoia de todos os lados. Mesmo a obra de Lacan só consegue ter início na paranoia, começa tratando do caso Aimée, que deu uma facada na outra. É igual à Primeira e à Segunda Guerra. O vetor tanático, este, é de nossa época. Ele frequentemente não mata, só nos faz considerar a morte. Quem mata é o imbecil do paranoico. • PNC – Essa é a confusão que fazem com a Pulsão de Morte. Acham que se trata de mortandade. 259

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É uma paranoia lutando com a outra para ver qual fica mais paranoica e vencedora. Isso é o que resulta em morticínio. Ou seja, se o vetor que carrega o movimento não se lembra da morte, mesmo matando, a paranoia, esta, geralmente é meio assassina. • PNC – Como, nesse cenário paranoico do século XX, Marcel Duchamp fez um salto? Em todas as épocas, há algumas pessoas saudáveis, que entendem o que está acontecendo e tiram da reta. Duchamp – há outros – até faz uma grande gozação da situação. Não estava só questionando o conceito de arte, estava mostrando a porcaria que estava em volta – e ele escapando pelas tangentes. O mictório que expôs foi feito por alguém, tem uma articulação – é ART. • P – O Brasil, atualmente, com a rivalidade entre grupos políticos – se odiando / amando –, não seria um revival da paranoia do século XX? Não são movimentos coerentes como os do século XX. São movimentos de pânico diante do movimento do Império, dando para trás à procura de soluções. Cada solução briga com a outra, mas sem a autenticidade do movimento do século XX. É cópia, no sentido de retrocesso. É processo de fuga. São movimentos que podem ser chamados de paranoicos, mas não são o movimento da época. São reações regressivas, acham que perderam o caminho e têm que voltar para o que era, que era o bom. É imitação de fascismo no sentido da fuga. O fascismo é um movimento que nasceu no século XX, tentou se impor, venceu durante um tempo por ser compatível com a paranoia do século. O que vemos agora é um pessoal fake, uma imitação, sem emergência alguma. É a mesma situação de professor universitário, que só lê para trás. Querem até ressuscitar Lacan, ao invés de aprenderem com ele a andar para a frente. É uma caricatura vagabunda, frágil. Na Itália de Mussolini, o fascismo era um movimento para a frente, criativo (de porcaria, é claro), com uma razão louca. O mesmo quanto a Hitler, o povo achava que ele estava indo para a frente, para o futuro. O filme Cabaret (1972), representou isso com o refrão cantado por um jovem nazista: “Tomorrow belongs to me” – o amanhã pertence a mim. Hitler não precisaria negociar com Centrão algum, tinha relação direta com o povo. Populismo antigo. Hoje renovado

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• P – Você já disse que o século XIX se caracterizou pela neurose, pela histeria, e o XX, pela paranoia. O XXI se caracteriza pelo quê? Pelo Progressivo. • P – Retomando o tema da influência do Movimento de 22 em sua obra, penso que parte importante do projeto deles, daquela turma dos Andrades, era habilitar a sintomática brasileira para uso, para produção. (Daí aquele papo dos “desterrados na própria terra” e dos modelos importados, e a ideia de que esses modelos aqui eram fake). Como dito hoje, apesar de essa tentativa dos modernistas ter rolado em nível local, em vários experimentos, isso nunca foi instalado num nível abrangente, como modo de organização e de produção geral. (Nesse sentido, parafraseando Bruno Latour, dá para brincar: “Jamais fomos brasileiros”). Acontece que essa sintomática parece bater em sua Diferocracia, na qual acaba coincidindo com uma lógica de organização consentânea com o vetor do Projeto Pró-Moderno que você coloca desde 1995. Está certo o que você disse. A única coisa que não me parece certa é a coisa não ter colado, digamos, diretamente em nível nacional. Colou, sim, em várias manifestações individuais de produção em diversas áreas. Existem no Brasil indivíduos criadores, que podem ter passado por outros países, mas que retornaram com uma posição muito nossa, e são perfeitamente originais. Só não colam genericamente. Mas, mesmo quando querem copiar, felizmente, cola genericamente o sintoma brasileiro da esculhambação. Copiam errado – então, é outra coisa. Por exemplo, o que é surrealista no Brasil? Temos mesmo coisas melhores. • NM – A Vaca de Nariz Sutil (1961), de Campos de Carvalho, por exemplo. Outro dia comprei de novo esse livro numa edição que incluía o seu A Lua Vem da Ásia (1956). E Sousândrade e Qorpo Santo, que escreveram no final do século XIX? Augusto dos Anjos, no início do século XX... Mesmo Jorge Amado, incensado pelos comunistas, tem uma obra que é pura esculhambação baiana... • AA – No Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), Glauber coloca juntos todos os elementos brasileiros: o coronel, o empresário

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trazendo o modelo norte-americano, o cangaceiro, o messias, o professor... No final, há ainda uma relação com o western espaguete italiano. Glauber tinha uma visão lúcida. Só era doido. Em um de seus últimos livros escreve que éramos o Estado-Maior da psicanálise do Brasil: Chaim Katz, Eduardo Mascarenhas e eu... Aliás, depois que Glauber morreu, o psiquismo ao redor dele ficou sem eixo e foi parar em meu consultório. Eram personagens em perda de um autor, uma doideira engraçada, foram sumindo aos poucos. • Potiguara M Silveira Jr – Muitos deles estavam culpados por o terem abandonado em função de ele elogiar o General Figueiredo – “Sou figueiredista” –, que dava início à abertura política. Ele dizia coisas do tipo: “A esquerda brasileira está toda trabalhando na Globo”. Quando Ronald Reagan assumiu a Presidência dos EUA, disse: “É o cinema chegando ao poder” (cito de memória o que li nos jornais da época)... Ele estava dando força à mudança política. Figueiredo estava em Lisboa, viu Glauber na rua e mandou chamá-lo para entrar em seu carro. Não sei se ele lá estava aplaudindo ou xingando... Já lhes contei que estávamos numa sauna, Glauber, eu e uma porção de homens pelados – aquele ambiente meio homossexual no ar. Ele se levanta, começa a fazer discurso e diz: “A relação anal destrói o ego!” Falei: “Pô, Glauber, você acabou com a psicanálise. Não é mais preciso dela para destruir o ego, basta tomar no cu!” • PNC – Fico me perguntando sobre o que destruiria o superego. Se destruirmos o ego, o superego fica desmoralizado.

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38 • Lia Guarino – Retomei seu primeiro livro teórico, Senso Contra Censo, que inclui sua dissertação de Mestrado (1972) e outros textos escritos entre 1972 e 1975... Acho que os artigos são mais importantes que o texto da dissertação (Da Obra-de-Arte). • LG – O tema do livro é: o que é o ato poético? Entendo essa pergunta como análoga ao ato clínico. Também coloca o específico da arte como: exigir um ato poético. Senso é o sentido, ele “insiste, mas não consiste na cadeia significante” (p. 34)... O Senso nada tem a ver com a significação. É o movimento de utilizar o pensamento. Podemos, hoje – pois, na época, eu não falava assim –, dizer que se trata do vetor em direção ao Impossível. • LG – ...contra o Censo, que é... ... do mundo, do social. É coagulação de significações, de ideias. O Ato Poético, capaz de produzir Obra de Arte, só vai no Senso, do qual brota muita coisa, que subverte o Censo. Não me lembro muito desse texto, mas lá fiz uma distinção entre obra de arte e objeto artístico. Muitos fazem objetos, mas o que se pode chamar de obra de arte extrapola até a computação da obra. Nem tudo que chamam de arte é uma obra de arte. É esse o sentido do que disse. A consequência do texto foi a tese de Doutorado, que é sobre Guimarães Rosa. Quando entreguei a dissertação de Mestrado ao meu orientador, ele a rasgou ao meio. Lá já estava a parte sobre Guimarães Rosa. Disse ele que a primeira metade já era a Dissertação, uma introdução ao texto que eu deveria deixar para o Doutorado. Foi, então, apresentado, em 1977-78, como Seminário no Depto. de Psicanálise, de Vincennes (Paris VIII), e como Tese de Doutorado em 1979. Depois, foi publicado em livro com o título Rosa Rosae: Leitura das Primeiras Estórias de João Guimarães Rosa (1985). Aliás, nesse texto,

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inspirado em Duchamp, brinco com a língua e faço distinção entre Obradarte e objedarte (p. 205s). • LG – Em Senso Contra Censo, você diz que “o trabalho da arte é mostração (e não demonstração) do sintoma (bem como mostração do sonho) e não de um sintoma” (p. 51). E você já falava de Joyce, o qual “fez perder-se o sentido. Joyce traz o sintoma, e não um sintoma” (p. 53). E mais, a obra de arte “não protege um desejo, pessoal ou social, mas expõe o desejo, seu sintoma aliás” (p. 63). Qual é o desejo? O desejo de não-Haver. Nessa época, ainda não estava escrito assim, mas estava implícito. Qual é o sintoma? É a tentativa de exprimir isso. Daí que esse livro deve ser entendido junto com aquele sobre Rosa. Guimarães Rosa foi elaborando uma série de coisas que vão perdendo as significações, restando só um movimento, o qual tentei mostrar como inscrito numa banda de Moebius. • LG – É a mostração da Travessia. Você diz também que “a obra é uma prova de cura: de sua possibilidade. Não de cura do artista – que não é o que interessa neste caso –, mas da cura: travessia, que na obra se declara” (p. 92). Eu estava sugerindo que o autor pode ser neurótico à vontade, mas, se tem a inspiração poética da produção da obra, a obra consegue mostrar essa travessia. Consegue mostrar a direção do desejo, consegue mostrar o sintoma, digamos, em estado puro – se não tivesse sintoma, ninguém escreveria a obra –, o sintoma de exprimir esse movimento de algum modo. Suponho que tenho dois casos, que me deram muito trabalho, para dizer isso antes dos conceitos que depois produzi. O primeiro foi o estudo sobre Guimarães Rosa e o segundo foi a análise do quadro de Velázquez, As Meninas, publicada em 1981, na qual tentei mostrar que tem o mesmo movimento de anulação das significações e o sintoma de mostrar essa anulação. O quadro é cheio de significações, mas o modo como Velázquez o opera enquanto espelho, com sua estrutura geométrica de composição, anula os sentidos. Antes de mostrar As Meninas, que é onde se mostra a travessia de Velázquez, há vários outros trabalhos dele em que se articula sua transa com o espelho para entender o processo que se realiza n’As Meninas. • LG – Mas o artista é alguém com seus sintomas. 264

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E a obra é a travessia que ele consegue fazer apesar do Censo. O que sobra é apenas a travessia, o resto é anedota. Por isso, alguns artistas recentes tentaram escapar da anedota. Os surrealistas começaram fazendo isso (daí Lacan ter ficado impressionado a ponto de ficar amigo deles e fingir ser surrealista). E temos também outros artistas nas artes plásticas, na música, na literatura, que buscaram abandonar o mais possível o anedótico, apesar de apresentarem material de significação. • LG – Guimarães Rosa, em seu percurso, vai ultrapassando a mineirice, o sertão... O Sertão é o mundo, ou é o Haver. As obras anteriores de Rosa são como ensaios, com um forte anedótico. Nelas não há a travessia feita com o Grande Sertão: Veredas (1956). Depois, em Primeiras Estórias (1962), mostra-se como a coisa funciona. Estou falando sobre algo que tem que sobrar para além de qualquer época, de qualquer moda, de qualquer conteúdo. Dizer o sintoma, o desejo, se refere ao modo de funcionamento do Inconsciente, que tem que comparecer. Se alguém faz sua travessia, através de sua análise ou de uma obra, etc., esse modo de funcionamento comparece – que é o modo de funcionamento do Haver: Haver desejo de não-Haver. Fazer análise é fazer essa travessia – quantos conseguem? O que mais há são pessoas ficarem falando de suas anedotas, até conseguindo dissolver um pouco, mas a Grande Travessia não é frequente. É como se fosse uma indiferenciação radical. Por isso, mais tarde, vim a chamar de Processo de Indiferenciação. Se ficamos distantes do que quer que haja, então podemos considerar o que quer que haja. Não temos mais uma lente, qualquer lente serve. Se não tratarmos todas as diferenças com Indiferença, ficaremos apostando em certas diferenças – e o nome disso é: moralismo. As ideologias e os moralismos escolhem um pedaço de algumas diferenças para aplicar como se fosse a totalidade do mundo. Isso é que é ser totalitário. O trabalho do analista nesse ponto, como resultado, parece (não é o mesmo) com o trabalho do Zen: “Nada tenho a ver com isso – como enxergo isso?” Você para de olhar, então vê. Todo olhar é projetivo. Lacan já definiu bem o olhar – ele está desenhado, só vemos o que essa lente vê. Só se consegue ver quando se é indiferente. Então, vê-se – o que está na cara! Aí, não se escolheu uma lente, uma perspectiva, deixa-se chegar. Sem essa posição, o analista é 265

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fraco – aliás, nem sei se é analista. Repito que a história da psicanálise é suja, tem que fazer muita faxina ainda. Tomem o próprio Freud, com intenção fortíssima de chegar a essa abstração, e vejam como é anedótico demais. Édipo é uma anedota, que até pode ser encontrada por aí, mas não é uma estrutura. Na época dele, devia ter muito Édipo por lá. Hoje, já tem menos. • P – Dizer que todo olhar é projetivo significa que é preciso uma formação aqui para ver a outra formação ali? É o princípio do Tesão. Em O Pato Lógico (1979), coloquei como acontece: ex-citação (citar de fora), in-citação (citar de dentro) e re-citação. Não olhamos com tesão para qualquer coisa, já projetamos o que queremos. Se não passar na frente o que nossas formações querem, não existe – ou é feio. • P – Então, qual formação é preciso haver aqui para se fazer a diferença entre Obra de Arte e objeto de arte? É preciso certa experiência de sua própria capacidade de Revirão. Aí, você entende, vê a diferença entre seu olhar e seu ver. Tome o exemplo de alguém andando na rua e lhe aparecer uma figura exótica. Ele dirá: Que coisa esquisita! Ou seja, não está vendo, e sim olhando, projetando o que quer ver e discordando. Se parar de olhar, deixar ver, enxergará o que está acontecendo. • P – Ao falar da “Obra de Arte como analista” no Senso Contra Censo, você acha possível alguém que nunca fez análise deparar-se com uma obra e ocorrer o processo de análise? É difícil distinguir isso, pois o processo não é a análise da pessoa dele. Ela passou por um conjunto de experiências e por certos caminhos que a levaram a conceber a produção daquilo assim como aquilo está dizendo. A pessoa pode pessoalmente ser um neurótico e, no entanto, operar algumas de suas formações na produção de uma obra no mesmo sentido que seria numa análise. Pensou-se antigamente ser possível distinguir a obra de arte pela análise da vida do autor. Está errado porque o autor não é necessariamente homogêneo em suas formações. Raramente, aliás, vê-se uma pessoa homogênea em suas formações. Já lhes falei de gênios pensantes em determinada ordem e idiotas em outras. Algo que a psicanálise poderia tentar é fazer com que a pessoa seja mais homogênea. As pessoas são fracionárias quanto a suas formações. É um trabalho intenso alguém conseguir organizar suas formações no mesmo 266

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sentido. O Doutor Lacan, por exemplo, dizia coisas importantíssimas relativas à psicanálise – e, em sua pessoa, praticava ao contrário: era um maluquete. Para ver isto, basta ler com atenção as biografias dele que já foram publicadas. • P – No texto O Triunfo do Olhar, incluído no Senso Contra Censo, você fala da neutralização, do esvaziamento do olhar em Cézanne: “Se o olhar triunfa sobre o olho, é para se depor no quadro”. Ele terá no espectador um efeito de pacificação: “aquele que vê está desarmado” (p. 223). Eu falava sobre o método de Cézanne de conseguir o mesmo que Velázquez conseguiu. O método de Velázquez é geométrico e racional, o de Cézanne é sensitivo. Ele olha através, deixa o olhar atravessar: o olhar se perde. Quantas vezes pintou a montanha Santa Vitória? • P – Mais de sessenta vezes. Quanto a isso, nesse texto você menciona que “uma anedota Zen finge explicar o acordar do Tao: – Você está vendo aquela montanha? Pois é assim. Antes, a gente olha para a montanha e vê a montanha. Então, a gente olha para a montanha e não vê mais a montanha. Depois, a gente olha para a montanha e pode ver a montanha” (p. 233). A travessia de Cézanne é perfeita. Mais interessante ainda que a Santa Vitória, é sua série de quadros sobre as Baigneuses, as banhistas. Aquilo é uma grande suruba, que parece ser nada. E não dá para fazer afetações, pois os quadros não deixam. É um olhar indiferente. Quem consegue isso, olhar a suruba numa transa indiferente? • LG – Você fala em “neutralidade (como no Zen) de um ‘não-agir positivo’, [...] experiência do “não-senso do sentido” até sua reversão no ‘sentido do não-senso’ [...], o não-senso irredutível a que se chega, na experiência analítica” (p. 79). Trata-se de um despertar. Despertar é ficar livre do sonho, é um modo de operação mental. Os mestres Zen procuram a mesma coisa, mas evitam a obra. Querem permanecer nesse estado, não fazem obra de arte: a obra de arte são eles. Não confundir o mestre Zen com o pintor, o arquiteto, o cozinheiro Zen, que são efeitos do Zen. São aplicações culturais descendentes dessa descoberta do pensamento Zen. O mestre Zen praticamente nada faz, deixa acontecer. Em psicanálise, Lacan inventou uma maneira de expressar esse acontecer ao dizer ao final das sessões, por pior que fosse o caso: C’est ça – é isso! Sem essa aceitação indiferente, 267

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não há caminho para sair. Antes de mais nada, é isso! O quadro de Cézanne também diz: “É isso!” É como se, na obra de arte tal qual defino, a frase final fosse essa – o resto é o que dizia Shakespeare: much ado about nothing. Uma coisa é viver embrulhado na confusão das significações, outra, se conseguimos atravessar, vir de retorno: lidar de novo com as mesmas coisas – mas desembrulhado delas. Já notaram como a neurose é cheia de significações definitivas? É impressionante como o neurótico sabe coisas. (Aliás, vê-se demais isso na universidade). A psicanálise, em sua prática, pretende ser o caminho – ‘ódos’ – para a Indiferenciação. A diferença para com o Zen é a produção do caminho. Pode-se, no caso dela, chamar de meta-ódos, se quisermos – é uma diferença de método. Há também certa escuta no Zen, que, de saída, propõe derrubar o sentido que lhe é apresentado, mas não está interessado, como é o caso da psicanálise, em entender como se montou tal formação para tal pessoa. O Zen derruba qualquer configuração que seja mostrada. • Potiguara M Silveira Jr – François Jullien escreveu Cette Étrange Idée du Beau (2010), em que ressalta que a ideia de Belo é ocidental: “O que acontece quando se vai (...) do adjetivo ao substantivo: de belo a o belo?” (p. 11). Ele comenta Shitao (1642-1707), monge pintor chinês que escreveu um tratado sobre pintura (p. 127): “no estado originário da ‘receptividade’, aquele da equivalência mar-montanha” – temas de suas pinturas –, “evoluímos ao nível do que ainda não tem forma tangível”. Entenderam o que é o Revirão e o Ponto Bífido? Equivalência mar-montanha são dois alelos da mesma coisa • PMSJr – Continua ele: “em seguida, quando temos que gerir o que ganha forma sob o pincel, é preciso que seja ‘sem traços’. Não há mais resistência ou obstrução; a espontaneidade do gesto que engendra o traçado se reúne àquela do processo do mundo”. Ou seja, agora, depois da travessia feita até Lá em cima, voltamos, vamos fazer a obra. • PMSJr – E Jullien termina o parágrafo com uma citação do capítulo 16 do Tratado de Shitao: “a tinta evolui como se já estivesse pronta, e manejamos o pincel sem agir”.

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O sem agir quer dizer que não há afetação. Ele não está dirigindo. É a coisa que o dirige. • PMSJr – A obra se faz ali, no pintor. Por isso, não há a ideia do Belo, de o pintor dirigir-se a ele para produzir a obra. O Belo pode até ser consequência. • PMSJr – Jullien dissera antes: “Pois a arte do pintor é, sim, uma arte da figuração, mas ele não deve se enterrar na figuração; ele produz, sim, formas visíveis, as quais apenas valem como conformações de energia invisível” (p. 126). O texto descreve o Revirão, os alelos com seu Ponto Bífido que está completamente fora, e, depois, o retorno para você, escravizado, obediente a isso, deixar produzir-se a obra. Vejam que é simples. • PMSJr – Depois que acontece, é simples... Claro! Só o que acontece é simples. O neurótico não é simples, é complicado, não deixa acontecer. Você quer dirigir o mundo? O mundo rirá na sua cara. • Rosane Araujo – Em 2019, falando sobre a autoria, você diz que uma obra tem dono, mas o dono não é o autor, e sim sua fantasia. A obra se fez no autor. Fernando Pessoa mostrou isso muito melhor em versos que já citei várias vezes: “Não meu é o quanto escrevo, / A quem o devo? / De quem sou o arauto nado? / Porque, enganado, / Julguei ser meu o que era meu? / Que outro mo deu?” Sempre tem alguém que fatura. Escravos plantam cana, e o dono da usina é quem ganha. É o capitalismo da alma. Os donos não fazem obra, quem faz obra é o escravo. A dialética de Hegel é um pouco furada. Ninguém faz uma obra, o escravo da obra é quem a deixa aparecer, produzir. Se o autor fosse dono da obra, faria um monte de porcaria. É porque sabe deixar o escravo funcionar sob extrema pressão que a obra surge. O capitalismo jamais deixou de existir, é um movimento interno, e não apenas externo. • P – No percurso da análise, vamos produzindo sentidos, significados para coisas que vivemos em nossa história. Servem para dar uma arrumação, mas não necessariamente os fatos ocorreram como imaginamos. Vamos rememorando e criando coisas novas, há uma solução criativa nesse percurso. 269

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E depois, desarrumamos tudo. • P – No destacamento da fantasia há também esse aspecto de ser uma solução criativa? Ou ela está ali e a pessoa apenas localiza? Ela está ali, a pessoa localiza, e depois tenta fazer dela uma Arte. Aí, ela precisa ter imaginação para dizer exatamente como ela não é. • P – É preciso, então, que a pessoa tenha atingido um nível de abstração para separar o conteúdo, dizer e ter criatividade a seguir. A criação está no depois. Em como a pessoa diz isso. • P – Você já disse que o conceito de Revirão “caiu” em seu colo. Não fui eu que o inventei, o Revirão me inventou. E já que chegou para mim, é meu, comecei a usar e a faturar. • Aristides Alonso – Senso Contra Censo é seminal em sua trajetória. Nele está o núcleo do que se desenvolverá a seguir: a questão da obra de arte, do ato poético, da criação e da HiperDeterminação. O termo Revirão já aparece; a lógica da banda de Moebius é bem desenvolvida; a base do que será nomeado Est’Ética (em Rosa Rosae) é apresentada e é o que se desdobrará na Teoria das Formações (que, esta, dará as bases para a Gnômica, como teoria do conhecimento, e para a Transformática, como teoria da comunicação). Isso é inédito em relação à psicanálise, pois Freud e Lacan ficaram meio perdidos no paradigma da ciência, e o tomaram como baliza de seus pensamentos. A base da Nova Psicanálise é poética. No início, hoje, fiz a diferença entre o texto da dissertação de Mestrado (Da Obra-de-Arte) e os demais incluídos no Senso Contra Censo por estes serem operativos. Gerúndio (p. 189-218), por exemplo, determina todo o processo posterior de produção. É uma espécie de roteiro de pontos a serem desenvolvidos, a questão da Entropia é um deles. N’O Hífen na Barra (p. 117130), naquele momento – e não notaram, ainda bem! –, eu estava contradizendo Lacan: há hífen na barra. • P – Seu percurso foi da Arte para a psicanálise? Não. Desde adolescente, escrevia poesia, fazia música, pintura, mas, como já contei, minha primeira leitura de assentamento de estudo foi, aos

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dezessete anos, Freud. Minha leitura da arte já foi permeada pelo paradigma freudiano. • P – Diferentemente do artista, o psicanalista, após a travessia, estaria capaz de promover uma pedagogia em seus analisandos? É uma Transmissão. O artista apresenta a obra, e o espectador que se vire com ela. Ele não exerce uma prática de repetição de sua travessia como faz o analista. • AA – A articulação é base do conceito de Secundário, em sua Tópica do Recalque. Isto, embora as construções articuladas sofram decadência. Há uma tendência para baixo – você já disse que a gravidade do problema é o problema da gravidade –, que para a NovaMente, está atrelada aos conceitos de resistência, de narcisismo e ao conatus, de Espinosa. Na Teoria da Informação, a entropia seria o estado de perda de sentido [no sentido de Senso, de que estamos tratando hoje], e a informação seria a extração de um caminho por dentro do entrópico. Mas há a redundância, que toma a informação como zona de conforto, de aparente estabilidade ou mesmo de paralisia. Então, parece que justo o refinamento do articulatório é o que vai mais rápido para o brejo. É preciso de certa redundância no mundo para controlá-lo. Há fases longas de redundância nesse controle, mas eis que o mundo muda sozinho e ficamos com a redundância nas mãos sem saber o que fazer com ela. Quanto a esse aspecto, digo agora com todas as letras algo que não disse assim antes: o lacanismo é completamente decadente. Perdeu os estribos, a época é outra. A época começou a se mostrar exigindo cair fora da redundância e dizer outra coisa. Assim como a redundância do freudismo da IPA foi para Lacan. Isso nada tem a ver com quem está vivo. Tem a ver com as múmias. • AA – Há aí uma conexão com o princípio de prazer. Parece que a redundância dá certo conforto pelo automatismo com que a mente se organiza a partir da repetição das mesmas informações. O Primário fica muito satisfeito, não precisa se cansar. São os hábitos. Só que, de repente, um acontecimento puxa a cadeira e a zona de conforto dá com a bunda no chão. É o que está acontecendo hoje, foi direto no Primário que a atual pandemia pegou. • P – Em seu pensamento, a articulação máxima é o Revirão? 271

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Sim. Apela-se para o Revirão, e começamos tudo de novo. Um sintoma grave da história da psicanálise é: falta de articulação. Isto faz com que as instituições comecem parecendo pensantes – e virem igrejas, tudo se torna eclesiástico. • Patrícia Netto Coelho – Seria possível, na psicanálise, acompanhar historicamente a tentativa de mostrar um sentido quase vetorial em relação ao que se entende por Técnica. Parece haver um movimento de desconteudização em Freud, em Ferenczi – que falou em elasticidade técnica, em abreviar a análise (o que não deu certo) –, em Lacan... Em Freud, tampouco a técnica deu certo. • PNC – Mas Ferenczi permaneceu insistindo em seus procedimentos de abreviar a análise... Há uma ambivalência em Freud ao dizer que haveria uma regra fundamental, mas que é solta. Ao mesmo tempo, não haveria regra, o máximo a fazer são recomendações segundo o gosto de cada um. Isso é conteudístico. Lacan, ao tratar dos artigos sobre a técnica, de Freud, faz referência ao mestre Zen. Mas Lacan não faz a prática do Zen. • PNC – Era uma maneira de sair um pouco daquela psicanálise da IPA. Você parece ter uma posição bastante minimalista em relação à técnica. Há uma referência de base, mas ela permite apropriar-se de qualquer técnica. Todos da história da psicanálise, Freud inclusive, supõem que a técnica tem que ser compatível com seu sintoma. Não tem. Técnica é de qualquer um. Se deu certo, é minha. Uma das sujeiras da psicanálise é a pessoa tomar seu sintoma, ler tudo através dele e produzir uma técnica também através dele. Está apenas fazendo transferência de sintoma. O mais escancarado é Adler, que via tudo e todos através do complexo de inferioridade. Mesmo os grandes paranoicos, que são deuses, estariam sob esse complexo. Fica esquisito. • P – Hoje, é comum desqualificar a obra de um artista em função de uma conduta avaliada incorreta em algum momento de sua vida. É imbecilidade de Terceiro Império, sobretudo imbecilidade cristã. A pessoa é pecadora, logo não pode ter obra. A obra do Marquês de Sade é maravilhosa, referida à Lei mais importante, a Lei do Haver (aliás, em breve, isso será entendido na raça). 272

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• P – Há o caso de, numa seleção internacional, solicitarem que fosse selecionado um bom fim de filme. Alguém selecionou o final de Melancolia (2011), de Lars Von Trier, que é bem original. Mas veio a saber que era uma obra “cancelada”, pois o diretor, no festival de Cannes, dissera algo que soou nazista. E mais, aconselharam que fosse escolhido um filme de alguém negro, mulher e brasileira... Por enquanto, a moda é essa. Há que esperar passar.

39 Para evitar dispersão, a partir de hoje farei uma apresentação e nossa conversa será em torno do que for colocado a cada vez. O que trago agora é importante para o entendimento de nossa posição quanto à Clínica. Como deve ser o modo de funcionamento da Clínica que se orienta pela Nova Psicanálise? Farei considerações sobre o que chamo de história anedótica da psicanálise. De saída, sugiro que deem uma lida na história da psicanálise. Élisabeth Roudinesco publicou uma biografia de Lacan e outra de Freud, já traduzidas aqui em 1994 e em 2016 respectivamente, nas quais temos uma visão razoável dessa história. Indico também Les Étapes de la Pensée Psychanalytique, de David Muhlmann (2007), livro que suponho não tenha sido traduzido. Ele mostra a composição dos temas psicanalíticos desde Freud até Lacan e faz o rol daquelas figuras proeminentes, sejam elas adequadas ou por fora do que estava acontecendo na psicanálise nesse período. Vocês verão por que chamei de anedótica essa história. Com pouco mais de cem anos de história, o acervo dito teórico da psicanálise não foi peneirado de modo a separar precisamente o que é essencialmente 273

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psicanalítico e o que é certa confusão no campo. Psicanalistas em geral parecem não ter se dado conta de que, desde Freud, e mesmo bem antes dele, achados casuísticos das análises foram confundidos com conceitos que possam ser, digamos, universalizáveis para a teoria. É algo que acontece desde a psiquiatria dinâmica, atravessa em boa parte a obra de Freud – e, depois, fica pior ainda. Cada analista que topava com uma formação sintomática específica, desconhecida ou não relatada até então – certamente muito pessoal (nos dois sentidos do termo) –, tomava essa formação e a elevava à categoria de conceito clínico universalizável. Freud cometeu alguns enganos desse tipo, não por falta de competência teórica ou por causa da teoria que trouxe, mas por certas confusões no momento da criação da psicanálise. Como certas formações sintomáticas eram muito repetidas na cultura, ele acabou pensando que eram formações clínicas universalizáveis. O caso do Édipo é exemplar, pois que não é necessariamente encontrável em todas as análises. Entretanto, o momento de Freud é o momento e o lugar nos quais a frequência da anedota edipiana parecia ser grande. O mesmo ocorre com Lacan, que se empenhou em fazer maior abstração mediante noções primeiro cartesianas – que é o sintomão do pensamento francês – e, depois, mediante sua entrada na moda da linguística de sua época. Depois ainda, tentou as formações matêmicas; em seguida, as formações topológicas. No entanto, ainda se manteve mais ou menos adscrito ao anedotário, pelo menos ao da filosofia, ainda que criticasse e chamasse seu trabalho de anti-filosofia. O que a NovaMente veio tentar, mediante a Teoria das Formações, foi um aparelho teórico abstrato que reduzisse os primeiros achados dos analistas da história a momentos clínicos específicos, os quais podem hoje ser, aqui e ali, reencontrados em outras análises sem, por isso, serem modelos universais. São achados clínicos, de caso: é uma casuística. Então, ao aplicar a Teoria das Formações, poderemos, quando os encontrarmos, utilizar esses achados clínicos de nossa história. Para isso, a Formação dos Analistas deve acolher todos os autores anteriores da psicanálise de modo a ser possível passar uma peneira que faça a distinção sobre quando tal autor, mesmo parecendo estar no interior da psicanálise nomeada e indicada por Freud, esteja falando apenas de um encontro sintomático, nele ou em algum analisando, que elevou à categoria 274

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de sistema analítico. E há também aqueles autores que verificaremos terem escapado de toda e qualquer concepção de psicanálise enquanto tal. Ao sugerir que conheçamos a história da psicanálise, sobretudo quanto às concepções analíticas expostas por diversos autores no percurso – coisa que ainda acontece –, não se trata de algum ecletismo. Não se está aplicando teorias diversas ao nosso trabalho – a teoria é única –, e, sim, aplicando uma teoria nova, mais abstrata, à casuística encontrada, que, eventualmente já tenha sido estudada em suas formações comparecentes por autores anteriores – Freud, inclusive. Repetindo, a tentativa da Nova Psicanálise é uma teoria tão abstrata – chamada Teoria das Formações – que possa considerar todo e qualquer tipo de formação, mas que não se tome uma formação sintomática para elevá-la à categoria de universal. Não confundir isso com aspectos da própria teoria da NovaMente, que estão, sim, considerando formações sintomáticas repetitivas. É o caso da proposição do Creodo Antrópico, o qual não é universalizado, e sim pensado para descrever o que supostamente acontece com esta nossa espécie aqui neste planeta. É um sintoma do herdeiro da espécie que veio como mutação da ordem dos primatas. Portanto, em sua história, a espécie está demasiado sintomatizada pelo que podemos compreender mediante o que chamei Creodo Antrópico. É uma grande formação sintomática, não universalizável. O que é universalizado é a ideia de sequência de referência: Primário  Secundário  Originário. Isso, em qualquer lugar onde surja uma IdioFormação. É uma Tópica a ser considerada universal por ser como que um axioma da teoria. E onde surgir terá uma sintomática específica, pois não se sabe qual é a formação viva, ou não viva, que lá estará em jogo. Trata-se, portanto, de não elevar uma formação sintomática de base que encontramos em nós mesmos, como é o caso em vários autores na psicanálise, e transformar em uma teoria psicanalítica. Ou mesmo tomar um sintoma encontrado num analisando e o supor capaz de ser universalizado. Não é, é apenas exemplar. • P – O Creodo Antrópico pode ser aplicado à cultura oriental? Sim. O Creodo é da espécie. No Oriente, as pessoas têm pai, mãe, filho... Como tivemos mais ou menos a mesma pré-história, o Creodo funciona lá também, ainda que a cultura não o tenha apresentado com a evidência da cultura ocidental. 275

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• Patrícia Netto Coelho – Ao fazer uma redução dos argumentos clínicos e escapar da casuística, você deu a chave da peneiragem necessária para sairmos do anedotário da história... A propósito, um livro como O Anti-Édipo (1972), de Deleuze-Guattari, em que tentam radicalmente desfazer a ideia de Édipo chamando-a de formação paranoica, etc., tampouco está certo, pois, como disse, dependendo da situação cultural, encontramos, sim, formações edipianas bem fortes. Por outro lado, aqueles que têm bastante experiência de clínica sabem que não encontraram sempre formação edipiana em análises. Encontraram, sim, outras coisas que, às vezes, em autores antigos, são reduzidas de maneira forçada à ideia de Édipo. • PNC – Outra chave que você deu foi referir-se a autores que falaram em fase pré-edípica, Melanie Klein... ...que não é estúpida (como são muitos outros depois dela). Está certo chamar a atenção para formações pré-edipianas. • P – Para considerar esses autores, você convoca a Tópica do Recalque. O Primário... Note que a Teoria das Formações, mesmo na prática analítica, exige que não deixar de considerar as eventuais emergências de formações do Primário, pois elas conseguem se imiscuir nas formações Secundárias e comparecer em análise numa mistura difícil de distinguir. Como fazemos considerações – e não interpretações – para tentar deslocar o aprisionamento em formações, não há problema algum em considerar eventualmente formações do Primário nas análises. As pessoas têm sintomas primários, cacoetes que não são apenas do Secundário, e é preciso saber que essas formações podem estar intervindo em suas formações em geral. Tomemos algo bem óbvio: do ponto de vista da pele, a pessoa é preta ou branca? Eis uma formação que invade de modo forte o Secundário, e numa complicada mistura com o Primário. Tomemos também a sexualidade de uma pessoa. Como já disse, as formações que dizem respeito ao Primário são consideradas de dois modos, são autossomáticas ou etossomáticas. E não há obrigação genética, epigenética ou qualquer outra de as formações autossomáticas serem congruentes com as etossomáticas. Não são. O que isso tem a ver com o Secundário? Emerge no Secundário, como vemos politicamente no mundo todo quanto à questão de Gênero, quanto à questão do comportamento 276

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sexual. A pessoa não poderá, do ponto de vista secundário, ser analisada quanto à sua escolha erótica porque a formação de base é etossomática. O possível é levar em consideração o questionamento dessa pessoa com essas formações. É bem mais complicado do que se supôs no decorrer da história da psicanálise. • PNC – O que você diz é importante para as discussões sobre racismo, negritude. A quantidade de negros na história da psicanálise é quase inexistente. Por quê? Já lhes disse que fiz essa pergunta a Muniz Sodré, meu colega na Eco/ UFRJ. Disse-me que é porque têm o Candomblé. Pode ser. Há uma espécie de barreira, embora haja negros importantes. Havia na Escola Freudiana de Paris, Solange Faladé, princesa africana... No Brasil, são quantos (atuando ou fazendo análise)? É um sintoma esquisito. A psicanálise não é racista, portanto não embarga a entrada dessas pessoas. Vejam aí a invasão de uma formação primária no sentido da própria história da psicanálise. • PNC – Em dois Falatórios seus, AmaZonas (2006) e Clavis Universalis (2005), você fala da psicanálise como campo de recepção plerômica e que as Técnicas Clínicas podem ser reduzidas à Técnica, pois todas são passíveis de utilização. Na consideração das formações, trata-se de lançar mão do que quer que possa funcionar nessa consideração. • PNC – Mas há uma operação de esvaziamento dessas técnicas, que, se não ocorrer, compramos o pacote anedótico em que foram concebidas. Há que peneirar o tempo todo. • P – De onde vem a indicação de maior abstração que a Nova Psicanálise toma como base para seus processos? Qualquer pensamento na história da humanidade que pretendeu produzir conhecimento sobre algum campo foi necessariamente encaminhado na direção de maior abstração para justamente não se confundir com a casuística que há em todas as áreas de pensamento. A evolução da própria física – supostamente a ciência mais dura de todas – vem de um anedotário configurado e se encaminha no sentido de últimos elementos encontráveis na matéria de modo a entender quais são os modelos de produção das matérias mais grosseiras. Não se fará uma história da física acumulando materiais. Ainda que seja a escala 277

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estequiogenética, isso não faz o pensamento da física, é apenas uma coletânea de formações encontradas. A tendência a abstrair é para não se cair no engodo do anedótico e das configurações. Em nosso caso, o abstrato não é a transa das formações, e sim a consideração de formações sejam quais forem. A prática clínica da psicanálise precisa, a todo custo, evitar entrar com as formações dos analistas e mesmo com as formações de seu conhecimento. Digo “evitar” porque analistas são pessoas cheias de sintomas e dificilmente continuam suas análises no sentido de sua suspensão (sintoma não vai embora, mas é possível suspendê-los em sua transa). Na escuta dos analisandos, a teoria não interessa – a teoria vem depois da escuta. Então, o que se aplica ao analisando é a escuta das formações que estão se apresentando ao analista, e consideração, junto com o analisando, dessas formações. A teoria é para a gente se educar e entender, e não para escutar. • Aristides Alonso – Ao falar da Teoria das Formações hoje, você voltou a usar o termo universal, cuja crítica é feita em muitos momentos de seu trabalho. Do mesmo modo que você já criticara o termo Todo, que foi substituído por qualquer, e encareceu a noção de generalização. Em que sentido está sendo usado agora? Ao considerar realmente um universal, estamos fechando. A física contemporânea já não exige a universalização das leis da física. Em outro universo, tal lei pode não valer. • AA – Você também falou sobre tomar como conceito uma sintomática pessoal. Ao contrário, o que é a ser feito é considerar qualquer emergência como formação, seja ela conceito, teoria, suposição de clínica... Trata-se de considerar os modos de composição em transa das formações. São formações em consideração recíproca. • AA – Uma vez, você chamou Freud de engenheiro do Inconsciente. Uma analogia com a engenharia da mente, no sentido da Teoria das Formações... ...no sentido da produção da teoria psicanalítica. Freud estava montando um edifício. Trata-se sempre de saber que a teoria é uma tentativa de entendimento, e mesmo de produção de conhecimento, sobre seu laboratório que é a clínica. A clínica não funciona como projeção da teoria. É o contrário: 278

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o vetor é da clínica para a teoria. Vamos ao laboratório, observamos, intervimos, consideramos, e daí voltamos para tentar organizar e não nos perdermos. Ao teorizar, sempre uma parte se perde. Estamos dando uma arrumada que certamente deixa algum pedaço de fora. • P – A história da psicanálise produziu as tais estruturas clínicas, que são caricatas e frequentemente descrições ruins e limitantes. As psicomorfoses – Regressivas, Estacionárias e Progressivas – teorizadas pela Nova Psicanálise em 2003 têm intenção de ser universalizantes? Observe que essa nomenclatura é rarefeita, abstrata. Ela só configura três movimentos, e não, como na história do Édipo, um teatro. Não há teatro de Morfose Regressiva, Estacionária ou Progressiva. Ela configura formas de congelamento das formações sintomáticas. Foi o melhor que pude fazer.

40 Darei agora um salto sintomático. Na história da filosofia, apesar de haver uma guerra generalizada entre cada um e todos os filósofos, cada um com sua escola de samba – marxista, heideggeriana... Ou melhor, na história do pensamento, se fizermos uma distribuição mais ressecada, encontraremos dois tipos que vivem em guerra. Vou configurá-los mediante uma produção de Lacan, que fez a suposição de ter escrito as fórmulas da sexuação: Homem e Mulher. Dar esses dois nomes já é uma coisa grosseira. Entretanto, essas duas fórmulas podem servir para designar dois tipos preferenciais de pensadores (sem nada terem a ver com homem/mulher): os Fechados e os Abertos. Assim situando, fica mais simples: os pensadores fechados, ou melhor, os Completos, e os pensadores abertos, ou os Incompletos. Ou ainda, os pensadores que 279

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prendem, que amarram o conhecimento, e os que deixam rolar. Baseado nisso, também é possível dizer que há dois tipos de pensadores: Estacionários e Progressivos. (Dos Estacionários também fazem parte os Hiper-Estacionários, parecidos com grandes filosofemas paranoicos, psicóticos: Augusto Comte, por exemplo). Estacionários são: Platão, Descartes, Kant... Progressivos, temos: Espinosa, Nietzsche, Gabriel Tarde... Engano pensar que estão mais certos os primeiros que os segundos, ou vice-versa. A besteira da história do pensamento é a guerra entre essas duas formações pensantes, e as pessoas acharem que uns e não outros estão certos. Os dois estão certos – dizendo as besteiras que dizem, é claro. Ambos são necessários ao pensamento – o que importa é o Revirão entre eles. Trago isso para abordarmos essa sintomática verificável em todos os lugares da história do pensamento. As grandes bases do pensamento chinês, por exemplo, são o Estacionário Confúcio e o Progressivo Lao-Tze. Os Estacionários nos servem para considerar com clareza os momentos, os acontecimentos ou as formações em geral em sua coagulação momentânea. Temos aí, então, uma informação importante. Os Progressivos podem nos servir para considerarmos, em larga escala, o fluir das formações em suas metamorfoses. Os pensadores Estacionários se orientam pelas leis dos homens. Confúcio é alguém que quer estabelecer uma ordenação de pensamento segundo as leis dos homens. Platão e Kant, também. Progressivos são aqueles que se orientam pela Lei do Haver, pela Lei de Deus. Eles vivem do lado de Antígona, de Sade... Não importa se o pensamento é santo ou desvairado. É a diferença feita por Lacan entre Kant e Sade. Entre Creonte e Antígona... Portanto, repito, não tem valor algum qualquer “crítica” de um pensamento pelo outro, pois pertencem a cepas radicalmente diferentes e opostas – mas ambas são formas de produção legítima da espécie. A psicanálise não está na disposição de fazer esse tipo de crítica, embora em seu seio tenha frequentemente aparecido a estupidez da disputa entre nomeações mediante a indicação de um sintoma. A psicanálise pensa em Revirão. A posição da psicanálise é Terceira, é Bífida: ela escuta os dois lados. Ela tem escuta suficiente para ambos os lados de pensamento. E pior, a psicanálise tem que funcionar dos dois modos. Em processo de Clínica, de Escuta, ela é Progressiva. Em processo de Teoria, frequentemente tem que recair no processo 280

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de configuração. Por mais que essa configuração seja com tendência de ser em aberto, acaba sendo configurado. Há que entender que essa teoria é essa teoria, e não outra. Isso é para reforçar a posição clínica do analista: ele só escuta. Não se pode fazer a crítica de posição alguma de analisando. O acolhimento é radical para entendimento da coisa e para que o analisando descubra onde ele está, onde ele mora. • P – Não haveria, na clínica, além de o analisando descobrir onde mora, uma tendência a empurrá-lo para a Progressividade? Há a tendência a empurrar o analisando para a consideração de seu lugar. Se for estúpido, jamais sairá de sua paralisia. Se não for, tem cura. Infelizmente, há pessoas não analisáveis em hipótese alguma. • AA – Você reconhece em qualquer campo do pensamento alguma outra teoria que opere em termos de Revirão como faz a Nova Psicanálise? Essa é a pergunta. Não vi ainda. • AA – Você falou em Estacionários e Progressivos. Quais seriam, então, os pensadores da Resistência, do Bífido? Há pensadores, às vezes, suponho eu, não sistemáticos, mas que passam pela consideração da Bifididade. Freud é um que tem forte tendência a querer fechar o sistema, mas frequentemente escorrega para lá e para cá. • PNC – O que você disse sobre pensadores que se aproximam mais ou menos da situação da Bifididade se aplica também à história da psicanálise? Tirando os estúpidos, desde o começo a psicanálise tenta pensar bifidamente. Como disse, em todo texto de Freud, mesmo buscando amarrar, há um resvalo – e alguns são absolutamente resvalantes. Na literatura, nas artes, há várias posturas bífidas. Caso do Maneirismo, por exemplo. Já na produção de pensamento, sobretudo como conhecimento, é algo que parece estar começando agora. As próprias ciências duras têm “desmunhecado” bastante. • PNC – Você fala em “estúpidos” na psicanálise... Estúpido total é um Wilhem Steckel, cuja obra li inteira. Freud dizia que ele era um porco. Queria ganhar dinheiro com uma produção enorme de livros que hoje chamaríamos de auto-ajuda. Adler era outro por querer reduzir a psicanálise a seu sintoma de inferioridade. A estupidez de Jung é diferente por ser muito rica. Saltou fora da, digamos, essência da psicanálise e passou a 281

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tratar profusamente da multifariedade dos efeitos do Inconsciente. Ele não tem, como Freud, a normatividade de entender uma estrutura de funcionamento do Inconsciente. Mas há certas coisas que achou que são efetivas. Por exemplo, a ideia de existirem arquétipos no pensamento. Ferenczi, outro, é um pouco mais leve e, mesmo tentando fechar, tem uma coisa mais simpática. • AA – Uma área que, por pressão dos acontecimentos, está pensando em Revirão é a Teoria da Informação quântica na construção do computador quântico e da matemática algorítmica da informação para cumprir os programas de qubits. Estou esperando que funcionem, pois são bífidos. Será, digamos, uma tecnologia compatível com o Inconsciente. • AA – É interessante pesquisar se o processo entrópico funciona em nível quântico. E mais, se o processo entrópico vira ao contrário como neguentropia. Há muita coisa a ser feita, a ignorância é imensa. No esquema ficcional que montei para re-encaixar a psicanálise na estrutura do Haver – é uma das coisas que tento fazer –, o funcionamento do Haver no estado atual é entrópico. Mas se chegar muito perto do não-Haver, começa a aparecer a neguentropia. Ela explode – ou seja, Big Bang é neguentropia. A propósito, para encerrar hoje, tomo uma anotação que fiz. Qual é a lógica que a psicanálise nos obriga a considerar? A tal lógica do significante, de Lacan, depende de sujeito e subsequentemente de objeto. A Nova Psicanálise não mais utiliza essas categorias. No livro de Élisabeth Roudinesco, Histoire de la Psychanalyse en France.2 (1986), diz ela (p. 413): “A psicanálise tem como objeto o sujeito da ciência, ele próprio efeito do significante” – como sabem, estou fora dessa, pois não tenho significante nesse sentido. “Quanto a isso, ela recusa a magia por um lado, e a religião por outro. A primeira por incluir o sujeito na ordem natural do mundo excluindo-o da ciência, e a segunda por obrigá-lo a remeter a Deus a causa de seu desejo. Uma e outra conduzindo ao obscurantismo”. Isso é besteira. Foi justo o que fiz de volta ao jogar fora o significante junto com o sujeito e com o objeto. A Nova Psicanálise traz de volta a psicanálise para o necessário seio do Haver. Portanto, reinclui o Inconsciente na ordem natural do mundo, isto é, fazendo parte dele como toda e qualquer 282

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formação do Haver. Isso derroga o que diz Roudinesco sobre a magia – e não estou incluindo sujeito algum na natureza porque não tenho sujeito, tenho a psicanálise. Continuando, como a definição de Deus da Nova Psicanálise acrescenta à de Espinosa (Deus sive Natura) Deus sive Habere –, ela repõe a referência a Deus à Causa de seu desejo igual a: Haver desejo de não-Haver. É o contrário do que ela está dizendo. Ou seja, a Nova Psicanálise não pertence ao século XX. Lembrem-se de que fui até Tomás de Aquino e disse que se, em sua teologia, ele trocar a definição de Deus para Haver, estará certo. Mas estará certo para o século XXI. Naquele momento, como não sabia que o século XXI chegaria, ele pensava com as categorias da arquitetura medieval, com o Gótico. • NM – Erwin Panofsky tem um belo livro, Arquitetura Gótica e Escolástica: sobre a analogia entre arte, filosofia e teologia na Idade Média (São Paulo: Martins Fontes, 2012), que é bastante esclarecedor do que acontece naquele momento. Não sabia que esse livro existia. Eu que juntei coisa com coisa aqui. • AA – Magia e religião foram duas coisas que sempre incomodaram o pessoal da psicanálise. É uma denegação, pois são integrantes do movimento psíquico em suas derivadas de formações. A Nova Psicanálise reconhece que o movimento do desejo na sua exigência de princípio de prazer aqui e agora é da ordem de movimento mágico, que só é realizável através de seus processos protéticos. Ou pelo processo natural que se chama: masturbação. Continuando – sobre a pergunta: “a que lógica a psicanálise nos obriga?” –, já reinseri a psicanálise na natureza e em Deus. Se alçarmos à abstração o engano da magia e reconhecendo o responsável por sua Arreligião. Então, a lógica da psicanálise é a lógica do algoritmo e da transa entre formações. É a essa lógica que ela nos obriga. Ambas têm que ser reconhecidas numa análise tanto na constituição de uma fantasia quanto na coleta ad hoc das formações em jogo num caso clínico. O logicismo positivista (positivista é genérico: toda e qualquer transa de conhecimento no regime do fechamento das formações, ao contrário do outro lado que é progressivo) – e agora faço uma crítica à psicanálise que está no poder – a que Jacques-Alain Miller reduziu 283

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o aparelho, em aberto, da psicanálise de Lacan, o fez dizer, na tentativa de destituir meu trabalho, que Magno fazia: Magie noir – tomou meu nome para fazer uma brincadeira lacaniana. Chamo a atenção para que não é magia as ciências integrarem seu estatuto na consideração na dita ordem natural. Isso não é magia, e sim ciência. E a NovaMente não tem sujeito algum que possa naturalizar como, na verdade, foi o que fizeram.

41 Continuo retomando alguns pontos para esclarecer diferenças de paradigma, de protocolo, em nosso comportamento, inclusive na Clínica. Antropólogos físicos, aqueles que tentam entender o surgimento de nossa espécie através dos momentos sequenciais de existência de primatas, etc., discutem sobre dois pontos. Um grupo considera que a mutação que fez aparecer a espécie humana deve ter ocorrido provavelmente no regime do homo sapiens mediante uma mutação genética. Seria, então, um brusco aparecimento da espécie. Outro grupo discorda e diz que o surgimento da espécie dependeria de um acontecimento bem mais antigo, que é o homo erectus. Lá nele já aparece o funcionamento de linguagem sem gramática. De nosso ponto de vista, pouco importa porque ambas as correntes antropológicas se referem a certa lacuna que há no acompanhamento da sequenciação das espécies para chegar à nossa. Uma lacuna que não sabem onde colocar: de repente, aparece a linguagem em sua compleição. Essa lacuna é o que suponho reconhecer pelo entendimento da mente, sobretudo mediante os achados da psicanálise, como: surgimento do Revirão. Pouco importa que tenha ocorrido por mutação genética ou por lenta complexificação do cérebro que, em certo nível, aparece com a 284

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possibilidade de reviramento, com a possibilidade de exigir o contrário do que quer que lhe seja posto. Contrário este que pode ser simplesmente dizer: não. E mais, nosso paradigma, nosso protocolo, não funciona sem estar baseado no conceito de Revirão. Uma boa maneira de entender isso é nos afastarmos dos vícios do século XX que, sobretudo com o surgimento do Estruturalismo – com sua forte implicação da história da linguística –, fez com que se pensasse que o que chamam de linguagem (em sentido completo, com gramática, com tudo, como está em Saussure, Chomsky, etc.) seja o fenômeno diretor de toda e qualquer ação humana. Lacan chegava a afirmar que o que quer que façamos passa pela linguagem. Eis aí um cacoete do século XX estruturalista e linguístico. Não é o caso, por exemplo, da vertente pragmatista que é funcional e parece mais adequada ao nosso momento. Ela busca uma articulação, e não uma regra. Se não fosse assim, a arte estaria hoje no mesmo lugar. Tomem Charles Sanders Peirce, que, em linhas gerais, reconhece no processo semiótico, no processo de entendimento das significações, a existência de sinais, ícones e símbolos. O vício do século XX foi pensar que tudo era simbólico. Não é. Existem relações de significação como simples sinais. Por exemplo, pegadas na mata são sinais de que um animal passou por ali. Há também os ícones, em que temos a pura semelhança de uma coisa com outra. Semelhança de qualquer nível, visual, acústica, etc. Não são símbolos. Só é simbólico quando a substituição é arbitrária, e aí entramos no campo específico da linguagem humana. O fato de a significação ser arbitrária não exige de começo uma gramática. Há várias línguas em funcionamento hoje que não têm gramática – e, no entanto, são línguas porque o elemento de significação é arbitrário como em qualquer outra língua. Suponho mesmo que o aproveitamento que o século XX estruturalista fez dessa vontade de linguagem, de escuta pura e simples da linguagem, e de articulação linguageira como articuladora de todas as outras formações e composições, de certo modo, tem origem no comportamento sintomático do Dr. Freud. Está declarado em algumas cartas suas que ele não suportava pessoas ficarem, durante muitas horas, olhando para sua cara. Incomodava-lhe atender gente olhando para ele. É um dos motivos de ter inventado o divã – parecido com a atitude médica de ter o cliente deitado na cama do hospital, por exemplo 285

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– e sentar-se atrás do cliente para não ser encarado. Isso não é necessário, e tampouco o divã é uma obrigação analítica. Nem mesmo o afastamento físico ou o fechamento num consultório é uma necessidade da análise. Se quisermos ser aristotélicos, podemos inventar a psicanálise peripatética. A situação chegou, então, ao ponto de Lacan definir a estruturação do Inconsciente como uma linguagem. Linguagem em seu (dele, Lacan) sentido pleno do século XX (com gramática, inclusive com deslizamento de significantes). Seu dito é: o Inconsciente é estruturado como uma linguagem, l’Inconscient est structurée comme un langage. Como sabem, fiz uma brincadeira (séria) com ele ao dizer em francês: l’Inconscient est structurée comme on l’engage – ou seja, o Inconsciente é estruturado nisso que a gente o engaja. Quer isso dizer que nossa leitura do Inconsciente não é estritamente linguística ou linguageira. É preciso – e todos que têm a prática do Inconsciente percebem isso – entender de maneira flutuante, como Freud chamava, o que o analisando está falando, mas há muitos sinais e ícones em seu comportamento que podem ser colhidos como interessantes no entendimento de sua movimentação inconsciente. A diferença entre tomar Saussure ou Peirce é muito grande. Lacan, então, partindo de sua ideia do Inconsciente estruturado como uma linguagem, chamava o ser humano, do ponto de vista da psicanálise, de: le parlêtre. Ao chamar a espécie de ser falante, esquecemos que há todas as outras formações em jogo, e não apenas a fala verbal da pessoa. Por isso, disse que o Inconsciente se estrutura no que (em que tipo de expressão) a gente o engaja. Temos depoimentos de artistas – da música, das artes plásticas – e de pensadores e cientistas das ciências duras que garantem, como é o caso de Einstein que sempre cito, que suas articulações teóricas nada têm a ver com linguagem no sentido das línguas. O mesmo ocorrendo com os artistas, que pensam musical e plasticamente, e não com a falação que o lacanismo quis impor. Uma vez que não digo que o ser humano é um ser falante e digo que é uma IdioFormação com exorbitante quantidade de formações funcionando, inclusive as línguas, digo também que o ser humano é muito mais representado não como falante, e sim como artista. Não existe artista na natureza, fora da espécie das IdioFormações. Chamo de artista por já ter dito que o que interessa é o processo articulatório.

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Faço o jogo de Articulação com Arte. É a arte de articular, seja em qualquer tipo de expressão. Não tem que ser pela fala. O artista, o ser humano, articula o tempo todo três formações: Primário, Secundário e Originário. Ele articula sinais, ícones e símbolos. Ele articula plasticamente, matematicamente, linguisticamente, musicalmente, sexualmente, etc. Assim, a leitura não é a pura e simples escuta dos movimentos, deslizes, atos falhos, que existem na fala. É mais do que mera escuta, é preciso um acolhimento integral do que é exposto pelo analisando. Observem que se trata de uma mudança de paradigma e de protocolo. Às vezes, mesmo não sabendo disso, ao nos preparar para o lugar do analista, é interessante sermos polivalentes. Quanto a mim, prezo muito minha experiência plástica, que foi grande; minha experiência musical, que foi grande; minha experiência matemática, que foi grande; minha experiência literária, que foi grande; minha experiência teatral, que foi grande; minha experiência militar, que foi grande; minha experiência sexual, que foi grande; minha experiência, enfim, psicanalítica que tem sido muito, muito grande, etc. Todas são formações que entram em nossa Formação. Quanto mais tivermos alcances, melhor receberemos o que é trazido pelo analisando. Não é bem a estética da recepção como em Wolfgang Iser, mas é a Clínica Mediante Recepção. Coloco a palavra recepção no lugar de escuta. Escuta é vício do século XX. • Potiguara M Silveira Jr – Quanto à psicanálise peripatética mencionada há pouco me lembrei de que, no final dos anos 1970, você comentava fazendo uma dramatização: o analista iria à praia, encontrava um analisando, andava com ele até certo ponto, encontrava outro, e assim continuava... Ficaria fazendo exercício... Temos o hábito ocidental mais recente de ambientes fechados. Quando era jovem professor de geometria descritiva no segundo grau do Colégio de Aplicação da UFRJ, às vezes atravessava a rua e ia dar aula na Lagoa Rodrigo de Freitas. Havia uma extensão de areia em que nos sentávamos e eu fazia os desenhos na areia conversando com os alunos. Acho sala de aula algo muito viciado. • PMSJr – Talvez agora com a Pandemia essa prática passe a ser mais frequente. Veremos. 287

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• P – Nietzsche, em suas meditações, sempre exercitava o corpo, andava horas com seu caderninho. Ele criticava os pensadores de gabinete tipo Kant. Kant pensa com a bunda. Lacan dizia que pensava com os pés, fazia seus seminários de pé. Pessoalmente, tenho duas maneiras: andando e dormindo. Já acordei muitas vezes com o seminário do dia pronto, bastava anotar. • Aristides Alonso – Você está dando destaque à operação analítica no consultório. Quanto às articulações que não se restringem à linguagem linguageira, elas se articulam de algum modo e há línguas sem gramática. Essas formações poderão ser pensadas como algoritmos construtíveis como operações computacionais. O pessoal da computação usa o termo gramática em sentido quase que homólogo a algoritmo. Tomaram o termo da linguística e incorporaram. Existe, por exemplo, a gramática de Poch, que é uma articulação matemática em que se pensam certas formações compatíveis com a ideia de algoritmo. Qual sentido você está dando ao gramatical? Estou falando em gramática no sentido linguístico, pois há línguas que comprovadamente não têm gramática. São articuladas de algum modo. O que importa é o artista, aquele que articula. Não há articulação autônoma para aquém das IdioFormações. O que temos são animais de qualquer espécie que simplesmente cumprem, com certa elasticidade, os programas que têm. Uma pesquisadora fez o papagaio decorar milhares de palavras, mas não se trata de articulação aí. • AA – Para a Teoria das Formações, é importante clarear o sentido do termo articulação. É possível pensar em formas de gramática do Haver? Não é bom chamar o computacional de gramática. Vamos falar em gramática da matemática? Quando estritamente metidos na articulação matemática, não precisamos de frase alguma: vai-se articulando. É como fazer tricô: não sabemos que estamos fazendo e as mãos estão trabalhando. Enquanto analogia, a gramática tem servido para bastante coisa. Fala-se em gramática na costura, por exemplo. Mas o artista plástico, principalmente o pintor (que, mais do que outros, modernamente, está liberto da figuração), fica articulando visualmente as formações, não está fazendo frase alguma. Por isso, mencionei as experiências que tenho a sorte de ter tido: sei que, nelas, não estava articulando mediante a língua. Estava fazendo pintura, matemática, música. Fiz frases quando fiz 288

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literatura, mas fiz questão, certamente na linhagem de Joyce e de outros, de fazer deformações na língua. Em Aboque / Abaque, isso não está apenas num conto em que finjo que é uma língua que soa português. Em outro conto, fiquei socando a máquina de escrever, dedilhando-a de olhos fechados. Lá está o conto. Há que entender o movimento de significação dos dedos. • Patrícia Netto Coelho – A Gramática Gerativa, de Chomsky, é uma concepção de gramática, não é a única possível. Ela se funda numa distinção entre sintagma nominal e sintagma verbal, ou seja, sujeito e objeto. Mas não é possível uma gramática não vinculada a sujeito e objeto, e ainda assim sendo uma gramática? É uma articulação linguageira, mas será uma gramática sem sujeito e objeto? As línguas sem gramática estudadas pelos antropólogos se compõem de repetições habituais que têm sentidos diversos. No livro que estou lendo, Linguagem: a história da maior invenção da humanidade (original de 2017, publicado aqui em 2019), de Daniel L. Everett, há a demonstração de que existem línguas sem gramática. Ele e outros autores do mesmo naipe, ao se remeterem ao homo erectus como iniciante (e não ao homo sapiens), dizem que é porque tinham língua e sem qualquer tipo de gramática. • PNC – Também estou lendo o livro. Acho que ele quer atacar Chomsky e, para isso, tem que jogar fora a ideia de gramática. Há outros autores que não querem atacar Chomsky, e sim tomar a origem da espécie antes do sapiens. Aliás, acho a gramática de Chomsky uma forçação de barra. • AA – Chomsky transferiu para as línguas o modelo que verificou na composição computacional dos algoritmos. Ele fala em sentences, e não separadamente em substantivo, adjetivo, porque a língua não existe assim, ela existe em frases. Ele se esqueceu de que existe Inconsciente. Embora a gramática da língua dele e das línguas vigentes insinue a gramática, ela não é insinuável em todas as línguas. Quero ver ele enfrentar o chinês. E o modelo computacional que tomou é apenas certo modelo computacional. • AA – ...que é o binário, algorítmico e Turinguiano. Nos anos 1970, disseram que um ato falho desorganizaria o modelo de Chomsky. 289

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É um modelo muito situado. Podemos supor um Chomsky teimoso que dissesse que, mesmo no ato falho, há uma frase, mas o que fazer com as línguas que não têm gramática? Chomsky é datado. Peirce não é, dá para usarmos. • PMSJr – Peirce chamava o que fazia de Pragmaticismo para não confundir com outros pragmatismos. Resolvi chamar o que faço de Praticalismo. • P – É difícil acompanhar a ideia de língua sem gramática. As línguas sem gramática têm posições de significação. Há língua, mas não gramática. Qual é a gramática de um quadro abstrato? É uma articulação de cores, espaços, manchas. No Ocidente, a música tem uma composição fixada mesmo quando é contrária a ela. A música dodecafônica, por exemplo, trabalha com doze sons ocidentais. Então, na música ocidental, dá a impressão de certa gramática. Não sei se certas músicas orientais são gramaticais ou sensíveis. Qual é a gramática de uma série em matemática? Qual é a gramática de um pensamento serial? Talvez possamos até achar uma gramática na geometria euclidiana por ela ser trancada num modelo fixado. Mas nem toda a matemática é assim. Mas não sou gramático, não estou tão interessado nisso. Estou falando de articulações, de qualquer tipo, que possam ser consideradas articulações passíveis de ter recepção por parte de um analista.

42 Algumas coisas iniciadas no passado estão passando a ter mais precisão do que a mentalidade calculista do século XX. O que interessa é a funcionalidade e a efetividade do processo. Como, de outras vezes, eu falava sobre algumas formações pretéritas que, lidas de outro modo, são compatíveis não 290

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apenas com o século XXI, mas também com a entrada do Quarto Império, quero lembrar-lhes de que, ano passado, escrevi: Joyce: Sense in Thomas. Em português, lemos: sem sintomas. Lacan chamou Joyce de Le Sinthome, o santo homem, no nível da concepção do sintoma. Faço a suposição de que Lacan não teria condição de efetivamente dar conta de Joyce uma vez que o modelo com que o trata é de Terceiro Império. Ao passo que Joyce é um precursor de Quarto Império. O que ele faz não cabe em leituras típicas de Terceiro Império. É preciso outro protocolo para lidar com ele. Digo Joyce: Sense in Thomas porque é evidente a relação de Joyce com Tomás de Aquino. Inúmeros autores já escreveram sobre isso, mas acho que não acertam bem o golpe. Dado o tipo de formação de Joyce, religiosa, teológica, etc., temos a impressão de que ele tomou Tomás de Aquino e o tornou leigo. Ao tirar suas concepções religiosas, de época, e ler a construção de seu pensamento sem esses conteúdos de Terceiro Império, Tomás de Aquino fica parecido com o Quarto Império entrante. Os elementos fundamentais de seu pensamento – as ideias de Deus e de Trindade – são iguais aos meus: Deus é: Haver, e a Trindade é: Primário, Secundário e Originário. Notem que Lacan toma a trindade de Tomás de Aquino e a constitui no nível do Terceiro Império, inclusive do catolicismo: real, simbólico e imaginário – e mais, com Nome do Pai. Em nosso caso, ao substituir a divindade por Haver e a trindade por Primário, Secundário e Originário, fazemos algo parecido com o que fez Joyce com Tomás de Aquino. Mantivemos apenas seu pensamento e o tornamos leigo, o qual, uma vez limpo dessas configurações católicas, é compatível com o Quarto Império. Joyce disse que “a história é um pesadelo do qual tento despertar” (History, Stephen said, is a nightmare from which I am trying to awake). Se substituirmos história por língua, teremos: a língua é um pesadelo do qual tento despertar. Foi o que fez em Finnegans, a tentativa de dissolver o sintoma de sua língua, o inglês, numa pletora de outras línguas. É o Despertar de Finnegans, em cujo conteúdo embrulhado ele tenta dissolver a história da qual sentiu o pesadelo. Há, portanto, dois movimentos no Finnegans: despertar da língua e despertar da história. Ele começa em Adão e Eva, vai em frente tomando a história do Ocidente e a língua inglesa, que era o sintoma grave de sua vida, e tenta saltar fora. 291

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• AA – Por isso, a entrada no Quarto Império passará por uma necessária reformatação das línguas. Elas terão que passar por torções internas para serem mais ou menos articuláveis. Em sua composição tradicional, a língua ficou meio gagá. Ela precisa de novas formações para expressar o que está acontecendo. Percebemos que isso já começou em nível do português. A gramática está sendo assassinada mesmo em documentos oficiais. Então, Tomás de Aquino, querendo ser aristotélico e jogando para cima do Terceiro Império, fez aquela coisa louca que é o Tomismo. Passado a limpo, quem sabe, pode ser transferido para o Quarto Império. Falo sobre isso por ser importante na recepção do analisando hoje. As coisas estão ficando misturadas. • Nelma Medeiros – História não apenas é um sintoma ocidental, mas um sintoma particularmente cristão. Ela é marcada por um início, um fim, uma escatologia, uma teodiceia. Ou seja, é um sintoma que faz parte do Terceiro Império em dissolução. E faz parte do esforço de Joyce em dissolvê-lo. Ulysses é uma crítica do tomismo dentro do Terceiro Império. Finnegans salta fora dele. Toda época tem precursores. Eles começam a já articular do modo futuro. • NM – A Gnose também salta fora da ideia de história. E salta radicalmente fora. A Mística – a correta, segundo meu ponto de vista – também. No Ocidente, Mestre Eckhart é o grande exemplo. Aliás, ficamos sem saber se ele é ocidental ou oriental. Não por menos, foi quase que excomungado da igreja católica. Morreu a tempo... • AA – Interessante pensar que daqui a um tempo, se o planeta sobreviver, estaremos falando algo parecido com o joycês, do Finnegans. Certamente já repararam a quantidade de invasões do inglês na língua portuguesa. Elas se tornaram corriqueiras. Em meus tempos de criança até os anos 1960, ela era invadida pelo francês, que, hoje, está fora de moda. • NM – O que você colocou sobre a recepção do que vem do analisando e sobre o quão ela é importante para pensar a Clínica diz respeito também às escalas enunciadas teoricamente de maior abrangência e abstração para a prática clínica concreta.

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É preciso ficar claro que o que foi enunciado teoricamente foi pensado a partir do laboratório clínico. Então, mais que aplicar a teoria à clínica, trata-se de aplicar a clínica à teoria. Não se tira uma teoria da cartola, e sim da experiência. • P – Bachelard dizia que há um vai e vem entre prática e teoria. É um vai e vem, sim, mas não há emergência de teoria sem a experiência de alguém se deparar com algo, constatar que não cabe no que foi dito sobre aquilo, e, então, ver-se articulando outra teoria. Depois, a teoria retorna. Aliás, aí, é preciso cuidado para a aplicação não virar ideologia que, em seguida, logo vira religião que, em seguida, logo funda uma igreja.

43 Continuando o papo sobre a Clínica, disse-lhes que prefiro substituir escuta por recepção, que é muito mais ampla do que mera atenção ao que diz a fala. Há um mau hábito na história da psicanálise iniciado com a atitude de Freud de se manter às costas do analisando, apenas escutando o que dizia. Freud é alguém do século XIX, sem rádio... • P – Tinha telégrafo... ...ele não podia ficar passando telegrama aos analisandos. Mas a mentalidade da escuta é a do rádio, que é uma baixa tecnologia, muito pobre. Interessante é Freud ser contemporâneo de Wagner. Ele tinha 27 anos quando Wagner morreu. A obra de Wagner não é estritamente musical, auditiva. Ele inventou um modo de composição com constante deslizamento das tonalidades. A fixação da tonalidade é deslocada. É algo que nos faz reconhecer imediatamente sua música. Naquele momento do século XIX, ele queria criar a Obra de Arte Total. A música que faz é para a ópera. Opera é mais ou menos o plural 293

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de Opus, ‘obra’. Ou seja, é uma obra no plural. Não havia cinema então. Se houvesse, é certamente o que ele faria. A ópera inclui todas as artes que queria que estivessem em sua totalidade dentro de uma obra. Ele era escritor, inclusive ensaísta; era músico; cenógrafo; figurinista; iluminador. Freud não apreendeu a tempo o século XIX que Wagner trazia. Digamos, Wagner era precursor do cinema. O cinema tenta ser uma obra de arte total. Infelizmente, não tem presença, cheiro e outras coisas que a ópera tem. O teatro cheira dentro da ópera. Wagner se aproveitou da maluquice de Ludwig, da Baviera, para realizar suas caríssimas óperas num teatro construído exclusivamente para ele em Bayreuth, que lá está até hoje. Coloquei tudo isso para perguntar: o analista deve escutar rádio ou assistir televisão? De lá para cá, a tecnologia desenvolveu a Obra de Arte Total. Ao fazer a diferença entre escuta e recepção, refiro-me ao fato de estarmos num momento da história da performance, com toda a tecnologia, em que damos atenção à totalidade dos sinais, dos ícones e dos símbolos. Temos uma experiência de atenção bem mais ampliada do que a do século XIX. Wagner estava apenas começando. É bom lembrar que ele não tem culpa de o paranoico do Hitler ter cooptado sua obra para o nazismo. Sua grande presença foi ter sido precursor da Obra Total que o cinema encampou. Qualquer dia, teremos um cinema em holograma em que a presença será quase que total. Digamos que a escuta que a psicanálise tem apresentado é o modelo do rádio. Talvez o analisando não precisasse ir ao consultório, poderia falar pelo microfone e o analista ouviria o rádio. Hoje, mesmo a pessoa não estando presente, temos um modelo bem mais radical que é o da internet, com imagem, som, etc. É a ideia de televisão que aparece na internet. Com a pessoa presente, acrescenta-se ainda mais a recepção. Freud encareceu que o analista, em seu trabalho, prestasse uma atenção flutuante ao que o analisando apresenta. É preciso que o analista não fique focando o que o analisando apresenta. Há sempre o perigo de ele ficar seduzido por uma narrativa. O analista não está lendo um romance; assistindo um filme ou um programa de televisão; escutando uma sinfonia, quando fica tomado pela expressão da obra. Não é assim a recepção do analista. Freud chamou de flutuante porque a atenção está nas formações que o analisando apresenta. É uma espécie de colheita, de coleta de suas formações. Só assim será 294

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possível alguma leitura das formações em jogo no psiquismo do analisando. O analista colhe as formações, não tem que ser seduzido pela narrativa ou tentar acompanhar como narrativa. Acompanha-a como exposição de formações. Perguntaram-me por que, da outra vez, falei da recepção, e não falei da intervenção. A intervenção do analista, em função da recepção, vai no sentido de tentar fazer o analisando se dar conta das formações que expõe sem se dar conta. Formações de todos os tipos – sonhos, atos falhos, etc. – e também fenômenos de defesa como denegação, resistência às próprias fala e intervenção do analista. Entretanto, Lacan costumava dizer que a resistência está sempre do lado do analista. É óbvio que quem tipicamente resiste é o analisando, quem denega, mente, mas se o analista apertar demais o botão da intervenção, só fará aumentar a resistência. Então, o analista deve, ao máximo, evitar acusar o golpe. Lacan até usava a comparação com o judô. Ou seja, o analista não enfrenta a resistência, a denegação, mas espera o momento de poder apresentar a denegação fora de sua exposição. Se o fizer durante a exposição, o analisando se rebelará. É preciso sempre lembrar que o analisando lá está na defesa inexpugnável de sua neurose. Ele pede para fazer análise para não fazer análise – está sempre defendendo a neura – ele inventou a neura para se safar da situação concreta do mundo. Então, toda vez que parece que diretamente vai-se deslocar a estrutura estacionária em que vive, ele se rebela por ter medo de largar o porto seguro de sua neurose. Ou seja, não há que bater de frente imediatamente com o sintoma exposto. Dá-se a volta e espera-se outra ocasião. Ou mesmo faz-se uma intervenção lateral. Por isso, a análise demora tanto. A intervenção do analista depende do que colhe do analisando. É como que uma devolução para o analisando do que ele próprio expôs. É claro que há uma leitura que o analisando não está conseguindo fazer e que, muito frequentemente, é bem clara. O analisando é que não vê a clareza. Do ponto de vista do entendimento das intervenções, as obras de Freud, de Lacan e de outros estão cheias de exemplos. Nelas, podemos colher a multifariedade dos processos de entendimento da exposição do analisando e de devolução para ele. O analisando lá está apenas para saber quem ele é. Ele não sabe. • Aristides Alonso – Quanto ao tema da escuta e da recepção, você já falava, em AmaZonas (2006), de um acolhimento amplo, de A a Z. O 295

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desenvolvimento das tecnologias possibilitou o entendimento de certas áreas e proporcionou a produção de certas analogias que não estavam disponíveis antes. É o caso do gramofone e do telefone. Kittler ressalta o impacto do gramofone ao possibilitar o registro da voz, coisa impossível até então, e menciona que alguém na época disse: “A partir de agora, falaremos com os mortos”... ...a gente não fala com, a gente ouve os mortos. • AA – Freud era atento ao gramofone e ao telefone, mas não ia ao cinema... ...se estivesse interessado em Wagner, talvez mudasse de ideia. • AA – Talvez a transa sexual seja a ocasião em que recepção e presença são as mais amplas possível. Pena que se fala muito pouco nessa hora. Se falássemos, talvez até disséssemos nossa fantasia. Há duas coisas importantes – o tato e o olfato – que dificilmente se traduzem em tecnologia. Muitos psiquiatras reconhecem psicóticos pelo cheiro. Psicóticos têm cheiro específico. • AA – Por outro lado, nossa cultura praticamente se tornou audiovisual. Artistas plásticos já introduziram o tato e o cheiro. É uma arte presencial, temos que lá estar. Caso de Lygia Clark, que buscava incluir todos os sentidos em suas obras. • AA – Você já comentou o livro O Perfume, de Patrick Süskind (1985), em que o personagem recebia o mundo pelo olfato. Ele faz algo maravilhoso: o perfume da mulher amada. A propósito, qual é o limite entre a atrocidade e o bem-fazer? Élisabeth Roudineso escreveu um livrinho A Parte Obscura de Nós Mesmos: uma história dos perversos (2008). Falar em perversão é imbecilidade, mas trata-se – o que, aliás, é preciso incluir em minha Patemática – das duas vertentes da Progressão: de um lado, os criadores, os místicos; de outro, a mesma coisa no negativo. Para mim, como sabem, Gilles de Rais e Jeanne d’Arc são o casal perfeito. Aliás, andavam juntos, cada um fazendo sua maluquice para um lado: a santa e o facínora. Os dois lutando na mesma guerra, pelo mesmo motivo, sabe-se lá qual. Para ela, a coisa se inverte e é queimada na fogueira como bruxa. Gilles de Rais não virou santo, ficava um pouco difícil. A não ser que haja alguma religião negativa demais, 296

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em que Deus seja Lúcifer. Eis algo mais evidente do que em Dom Quixote e Sancho Pança. Essas duplas são os dois alelos do mesmo Revirão. Ambos lutavam por que coisa? Talvez pela Acoisa, o que Lacan chama la Chose (e aí não se trata de objeto a, que, este, é uma coisinha), que pode ser A Causa. Em última instância, a Coisa é: Haver.

44 A postura mais importante é o que Freud chama de Neutralidade do analista. O que é, no processo de análise, o analista estar neutro? Esta parte me parece ser a mais difícil. Mais difícil mesmo de entender. Para ressaltar a neutralidade do analista, há tempo eu disse: o estatuto do Inconsciente é místico. Como entendem o místico folcloricamente (crendices, apegos religiosos...), pode parecer absurdo o que eu disse. Mas, se passarmos a peneira nas exposições de pensamento místico, em qualquer área da história em que apareça uma função mística, veremos o denominador comum de todo misticismo que valha a pena, que seja realmente místico. Meu maior apoio para dizer o que disse é no sentido do que Freud chamou de neutralidade do analista. O melhor exemplo para mim é um místico intelectualizado e teórico: Mestre Eckhart. Digo isto por supor que Eckhart é o precursor da teorização sobre o Inconsciente. Não desenvolverei hoje os motivos pelos quais ele pode ser assim considerado, mas recomendo-lhes a leitura de The Mystical Thought of Meister Eckhart: The Man from Whom God Hid Nothing (2003), de Bernard McGinn. Se soubermos colher o que está aí plantado, veremos – mediante sua teologia negativa (operar sempre negando o que ele mesmo coloca: uma espécie de Revirão, de oximoro – ele é quase um Fernando Pessoa da teologia) –, tanto 297

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do ponto de vista teológico, que expôs em latim, quanto de sua pregação em alemão, que ele tenta implantar o que, depois, veio a ser chamado de misticismo do Grunt, do campo, do terreno, do fundo. Ele usa os truques do Inconsciente para operar na leitura dos textos bíblicos e, por isso mesmo, no confronto com a dogmática da Igreja, acaba sendo acusado de herege. A Igreja é dogmática, não é mística. Ele trata os textos, digamos, sagrados como um analista, do ponto de vista do Inconsciente. É algo insuportável por fazer deslizar o poder da Igreja. Chega a declarar – usando a palavra Grunt, mas usarei: Inconsciente – que “o Inconsciente de Deus e o meu Inconsciente são o mesmo Inconsciente”. A Igreja não pode suportar algo assim. Em última instância, ele está dizendo que o Inconsciente – o Grunt, o campo a que ele se refere – é o Haver. E que o Haver em Deus e o Haver e mim são a mesma coisa. Então, leiam o livro de McGinn para podermos conversar sobre essa emergência de uma teoria do Inconsciente na Idade Média, produzida por Mestre Eckhart. E mais, produzida por ele como discípulo de Tomás de Aquino, no sentido em que este diz que Deus é o verbo esse, ‘ser’. Na época, não havia o costume de se falar do Haver como introduzi. Deus é o puro Ser – é o que chamo de Haver. Ele está dizendo que estamos todos metidos no campo do Inconsciente, do Haver, e que, quanto mais nos aproximarmos indiferenciando do simples Haver, estaremos nos aproximando do que Freud chamava de neutralidade da percepção, da recepção. Como escutar num campo neutro de modo que todas as formações compareçam simplesmente como tais, como formações? Sem neutralidade, acabamos por atribuir sentidos pessoais às formações que o analisando apresenta. Quanto mais neutralidade, indiferenciação, aproximação do simples Haver, mais o analisando ficará transparente. Às vezes, recebemos as formações que ele apresenta e é tudo de uma clareza excepcional. Só não dá para logo mostrar para ele. Há que esperar – anos, frequentemente –, pois ele recusará a intervenção feita. Isso é que é evitar a resistência. As formações têm que ser deslocadas e desmanchadas passo a passo para ele conseguir suportar a intervenção. A intervenção, se for imediata, direta, é insuportável por estar acabando com as defesas do analisando. Assim, tanto Tomás de Aquino como Eckhart estavam simplesmente dizendo que Deus é Haver. É um pouco mais dilatado na definição do que a de 298

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Espinosa que O define como a própria natureza. Chamo atenção para o fato de pensadores da Idade Média terem conseguido pensar com grande clareza sobre a constituição do Inconsciente. Mas como estavam atrelados à canônica e à dogmática da Igreja foram obrigados a, ao mesmo tempo que pensavam, reduzir seu pensamento a elas. Se retirassem o cristianismo de suas pautas, poderiam ser pessoas do Quarto Império. Eles sabiam pensar, mas sofriam as pressões significativas do Terceiro Império. Se pensarmos assim, o que fica antigo é o século XVII, menos Espinosa. Outro grande da Idade Média é Maimônides, que tinha a mesma concepção que apresento, dita de outro modo, é claro. • P – Li recentemente um autor brasileiro que diz que Eckhart foi principalmente acusado por ter proposto o conceito de desprendimento, de desapego, como maior do que a caridade, a esperança e a misericórdia. Diz também que ele é o autor mais intelectual que conhece. Também escreve sobre suas relações com as beguinas. Eckhart é, sobretudo, teórico. Ele prestava bastante atenção aos arroubos místicos das beguinas, maluquetes que, aliás, também foram condenadas por heresia. E elas o escutavam. • Nelma Medeiros – Você falou em Eckhart como precursor do Inconsciente, havendo mesmo nele uma indicação do Haver, e falou que era mais abrangente que Espinosa. Isto se deve a haver nele a explicitação de um empuxo de transcendência que não aparece tanto em Espinosa? Em Espinosa, a imanência tem quatro patas, e o bichinho não levanta nas patas traseiras como obrigação de transcendência, sem encontrá-la. Segundo minha leitura, Eckhart diz mais ou menos isso: uma transcendência para dentro – você se encontra com Deus. Talvez Espinosa tivesse medo de colocar um miligrama de transcendência e pensarem que ele era tomista. A propósito, lembro-me de que Lacan faz algo de que não gosto, colocar Angelus Silesius do lado da perversão. Silesius simplesmente não tem a vontade de Indiferenciação que tem Eckhart. Ou seja, o que Silesius me parece é ser mais Progressivo, e Eckhart mais místico, preciso e contundente que Silesius. Há que perceber que, em qualquer situação primitiva, antiga, atual, não religiosa, que possa ser chamada de mística, trata-se dos movimentos do Inconsciente. Basta ver como funciona um xamã, por exemplo. Nele, temos um apelo direto 299

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aos movimentos do Inconsciente, ainda que recorrendo a alguma droga para se retirar da consciência imediata. É o que quero dizer com “o estatuto da psicanálise é místico”. Sabemos que “o paradigma da psicanálise é sexual”, não pode deixar de ser porque é um místico no movimento da transcendência sem transcendência – aí está o Sexo: uma ruptura, um corte. Os transcendentalistas acham que passarão para o Outro lado, morrerão e irão para o Céu. Mas não tem o Outro lado – não ter o Outro lado chama-se: Sexo. • AA – Você indicou a leitura do livro Para Além das Colunas de Hércules: uma História da Paraconsistência de Heráclito a Newton da Costa (2017), de Evandro Luiz Gomes e Itala M. Loffredo d’Ottaviano. Os autores demonstram que a ideia de não-contradição, de Aristóteles, era questionada já desde Heráclito. Digo isto porque vemos atualmente certo retorno forte, em nível político, a Aristóteles e à Idade Média. Em meados dos anos 1980, convidei Newton da Costa a vir ao Rio dar um curso em nossa instituição. Eu já havia colocado o Revirão (1982) e os raciocínios da Paraconsistência eram importantes para entendê-lo. Lacan tentou formular Consistência e Inconsistência. Não há, nele, Paraconsistência. Quero supor que incluí a Paraconsistência em suas fórmulas, mas Newton é quem poderia dizer se é isso mesmo. Ao invadir as fórmulas de Lacan, acho que lá acabei criando um lugar de Paraconsistência, talvez mesmo influenciado por Newton. • Patricia Netto Coelho – A questão em Lacan é mais relativa ao Universal – de Aristóteles, inclusive –, e não à não-contradição. A Inconsistência, em Lacan, o não-Todo, é uma operação sobre o Universal. Mas acaba introduzindo Consistência e Inconsistência, masculino e feminino. Notem que Tomás de Aquino supõe ser aristotélico, mas tanto ele quanto Eckhart têm funções místicas que Aristóteles não tem. Então, a lógica binária se relativiza obviamente em Eckhart. Em Tomás, só é óbvio quando ele leva seu Deus à última instância, que, como mencionei, chama de Esse. • PNC – Em Tomás, o princípio da identidade é teológico. Em Aristóteles, é físico. O que nos interessa é como o Inconsciente acossava essa gente, que tentava dizer dentro da caixa – e escapava da caixa. Eckhart jamais se reconheceu 300

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herege. Ele lutava denodadamente com os teólogos do Vaticano para demonstrar que estava sendo ortodoxo, dentro da canônica. Só que não era – ou, se não, é a ortodoxia que deveria mudar. • P – Isso lembra Lacan, que, na IPA, ante a ameaça de expulsão, dizia que estava sendo freudiano. E era freudiano, estava na mesma intenção, só que estava atualizando para o século XX. É o mesmo que ocorria com Eckhart, a mesma intenção. Aliás, não sei por que Freud, alemão que era, não leu Eckhart. • P – Heidegger gostava de Eckhart. E também de Silesius, mas por causa do tal do Ser. O Ser, de Heidegger, não é o Haver, de Eckhart, que falava, não em Ser, mas em Grunt, ‘fundo’, ‘causa’... • PNC – Ao falar em polo / foco / franja, você diz que há um fundo aí. É a homogeneidade do Haver. Polo, com seus focos e suas franjas, ainda é da ordem do Ser. Por isso, disse que havia um fundo. • P – Espinosa tem o projeto de chegar ao Terceiro Conhecimento, que, ao final, é confundir-se com Deus. Se tirarmos natura e colocarmos Haver, será o mesmo. • P – A postura do analista seria, então, próxima dessa perspectiva de não foco, de não ele, analista, e sim do Todo, do Divino? Por isso, eu disse que o estatuto da psicanálise é místico. Trata-se de ampliar a percepção, levá-la ao mais longe possível. É diferente de qualquer ato intelectual, tipo psicologia. • P – Retomando o que você disse sobre os sentidos, à medida que um sentido é valorizado, os demais são recalcados. Nietzsche dizia que a filosofia privilegiou o olhar, a visão. Ele que valorizava o faro, o cheiro. Cego não faz filosofia? Tirésias? Faro é algo fundamental. • P – E a psicanálise privilegiou a escuta, o ouvir. O século XX, com essa história de linguística positiva, fez recair o privilégio sobre a escuta. Mas a psicanálise é negativa, como a teologia de Eckhart. Digamos que a psicanálise seja a psicologia negativa. Por isso, chamo-a de Pensamento Perplexo.

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• P – A teologia negativa está em, diante de qualquer definição de Deus, dizer que não é aquilo. Daí o Grunt, o fundo. Toda vez que se define, cai-se no Ser. Em nosso caso, o que é o Inconsciente? Lacan tentou negativizar, mas, ao invés de fazê-lo sobre o Inconsciente, fez sobre a psicanálise: O que é a psicanálise? “A psicanálise é a pergunta ‘o que é a psicanálise?’” É como a definição de Deus. Deus é a pergunta “o que é Deus?” Há! Lacan poderia ter dito que “o Inconsciente é a pergunta ‘o que é o Inconsciente?’” A respeito do que há, apenas dizemos, mas não dizemos o que há. Qual é a definição do Tao? O taoísmo também é negativo, diz sempre o que o Tao não é. • P – Mas, para o analisando, não se trata de bem-dizer seu sintoma? Ele chegará ao Silêncio: “Nada tenho a ver com isso”. O que tenho a ver com meu sintoma? Zero! Ele que se vire, que se exprima. • NM – Quanto a Eckhart, Alain de Libera, em seu livro sobre a arqueologia do sujeito moderno, diz que há uma tradição do sujeito que diz respeito aos submetidos, ao subjectum, e que a mística salta fora dessa submissão. É justo o que dizem de um místico, que ele não é um sujeito. Daí, frequentemente, o condenarem à fogueira.

45 Tenho aqui comigo o importante livro The Discovery of the Unconscious: the history and the evolution of dynamic psychiatry (1970), de Henri Ellenberger. Embora se apresente como história do Inconsciente, e não da psicoterapia, já intitula o primeiro capítulo: “Os ancestrais longínquos da psicoterapia dinâmica”. É interessante, entre esses ancestrais, ele tratar: da psicoterapia 302

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primitiva; da perda da reintegração da alma; da possessão e o exorcismo; da cura pela confissão, da cura cerimonial, da cura pela incubação, pela hipnose, pela magia... Então, segundo o título do livro, dá a impressão de que o trabalho está incompleto à medida que parece se interessar mais pela história da psicoterapia, e não da descoberta do Inconsciente. E ele faz uma lacuna para trás deixando de incluir os precursores mais antigos do Inconsciente. Como não chamavam de terapia, ele não incluiu a vontade de terapia que havia no começo do cristianismo e entre os padres medievais mediante confissão, etc. Mas, para ser descoberto, o Inconsciente não precisa ser enunciado claramente, basta apresentar-se de algum modo que já estará em seu processo de descobrimento. Faço essa crítica no sentido do que é importante para nossa posição: o reconhecimento – por onde possa aparecer como verdadeira – da emergência do Inconsciente claramente distinguível. Nesse sentido é que digo que o estatuto da psicanálise é místico. Tomando os místicos mais importantes – não necessariamente aqueles da Igreja, subditos demais à canônica e às determinações ortodoxas –, aqueles autonomamente místicos mesmo contra as operações da Igreja católica, considero-os os precursores mais recentes do Inconsciente. Digo recentes por serem, de modo geral, medievais. Alguns podem ser mesmo chamados de mártires do Inconsciente à medida que deram depoimentos sobre a existência do Inconsciente e foram assassinados em fogueiras. É o caso de Marguerite Porete (1296-1305), uma beguina que influenciou bastante o pensamento de Mestre Eckhart. Este não foi queimado por ter morrido a tempo: seu processo de queimação já estava tramitando. Mais para trás, como sempre aponto, temos como testemunhos do Inconsciente os Gnósticos, que, no que consideravam o movimento do Inconsciente, não podiam aceitar a definição de Deus apresentada pela Igreja Católica. Por isso, foram banidos e mesmo trucidados. Considero, então, essa gente precursora do reconhecimento do Inconsciente. Alguns filósofos se inspiram em místicos, mas esta inspiração não é necessariamente reconhecimento da postura mística, e sim uma tentativa de redução do pensamento místico ao filosófico. Digo isso para não nos enganarmos com gente como Heidegger, que se interessa por Eckhart, Silesius e, de modo geral, pelo que acha que é o pensamento místico, mas no sentido de entendimento da mística pela filosofia, 303

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e não no sentido do processamento místico do Inconsciente. E temos nosso caro Wittgenstein, que, este, não estava pensando em místico algum, mas pôde reconhecer que, para além do Ser, no sentido que coloco das possibilidades de nomeação e criação de fenômenos do mundo, existe um lugar absolutamente neutro, para lá disso tudo, que ele chama de lugar místico. Ou seja, aquele lugar que chamo de Haver, que não tem descrição ou configuração possível. É místico no sentido de que extrapola o Ser. Tenho ultimamente em nossos papos a suposição de estar me repetindo – e estou mesmo – para deixar mais claro, mais desenvolvido, o entendimento do estatuto e do paradigma da psicanálise diferentemente de como foram historicizados até agora. Recomendo-lhes, então, a (re)leitura de A Hipótese Deus e a Dedução Científica da Psicanálise, texto de Nelma Medeiros publicado como anexo do Falatório Revirão 2000/2001 (pág. 613s). É uma relembrança do que será tratado hoje aqui a seguir pela própria Nelma. *** Sobre a proposição “O estatuto do Inconsciente é místico” em sua relação com o pensamento de Mestre Eckhart Nelma Medeiros 1. Mística como experiência que interessa à psicanálise – Pulsão: Haver desejo de não-Haver – Haver e Ser – Mística: afastamento do mundo, tesão pelo i-mundo. 2. Eckhart: mestre de ensino, mestre de vida. 3. O circuito de acontecimentos nas cidades Erfurt, Paris, Estrasburgo, Colônia e Avinhão (séculos XIII-XIV). 4. Tomás de Aquino e Aristóteles – Discreção entre o desconhecido e o relacional – Dados biográficos. 5. Questões mais candentes do pensamento eckhartiano – Método apofático e método aferético – Trabalho inconsciente como exercício de separação e solidão, considerado seu estatuto místico. 6. Intelecção, em Eckhart: deixar chegar por entrega e disponibilidade (contemplação) e forçação do entendimento, mediante articulações – Eckhart curto-circuita a distinção filosófica e religiosa entre transcendência e imanência. 7. Eckhart: tanatologia mística. 8. A riqueza metafórica do Grunt (fundo) no pensamento eckhartiano. 9. Estatuto místico destitui

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subjetividade – Mística como elemento comum entre Ocidente e Oriente.

1. Retomando a contribuição do estudo de Henri Ellenberger sobre a história da descoberta do Inconsciente, MD Magno indicou a necessidade de incluir a contribuição da Mística, tanto oriental quanto ocidental, como parte integrante desse percurso. Isto, à medida que os místicos teriam apontado para o ápice do funcionamento do psiquismo. Em que consistiria, portanto, essa abordagem radical da mística como experiência psíquica que interessa à psicanálise? Magno tem insistido na proposição segundo a qual o estatuto da psicanálise é místico, senão mesmo o estatuto do Inconsciente é místico. O que há de “místico” no Inconsciente que o trabalho analítico busca alcançar e exercitar? Mas também que princípio teórico em psicanálise tornou possível acolher a experiência mística como testemunho do funcionamento do psiquismo em sua radicalidade, a ponto de conferir-lhe valor e função de estatuto? Quais seriam as implicações contemporâneas dessa imbricação? Para considerar essas questões, vamos acompanhar o pensamento do místico medieval conhecido como Mestre Eckhart e tentar, a partir daí, mostrar o lugar e o sentido que a Nova Psicanálise atribui à experiência mística. Para isso, chamamos a atenção para um deslocamento, entre muitos, que Magno operou no campo freudiano, que está no cerne da possibilidade de propor o estatuto da psicanálise como místico: a proposição da Pulsão freudiana como único conceito fundamental da psicanálise, da qual todas as demais articulações teóricas derivam. Essa simplificação conceitual se apresenta na formulação da pulsão como Haver desejo de não-Haver, que se estenografa AÃ. Trata-se de uma operação de abstração, a ser entendida de modo axiomático, um ponto de partida simples e único a partir do qual se remaneja e organiza o entendimento do campo psicanalítico. Do ponto de vista do que interessa aqui, é importante considerar que, nesse axioma, está anotado o princípio de que o Tesão – como Magno traduz a noção freudiana de Trieb – insiste, buscando um simétrico que não há (simetria aqui entendida como enantiomorfia). Haver tesão significa simplesmente que o tesão busca sua desaparição, como consecução de uma simetria que, 305

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se alcançada, realizaria a enantiomorfia ou avessamento definitivos: Haver alcançaria não-Haver, e isso é impossível. Esse é o coração da ideia freudiana da pulsão de morte, se tomarmos o complemento de morte como analogia da ignorância radical que nos afeta, como seres que estão vivos, sobre o conhecimento, para cada um, de seu começo e seu término. Esse é o “umbigo” do Inconsciente, onde a suposta diferença entre angústia e desejo colapsa: desejo de sumiço e angústia diante disso, no mesmo lugar. Pois o tesão de morte não traz a marca da experiência de atingir o desejado, ou seja, o Inconsciente não tem marca de morte como experiência própria para cada um. O que nos atinge é o impacto dessa ignorância. Por isso, o Tesão está condenado a retornar, em motu perpetuo, repetindo a força pulsional que é o próprio Tesão, que excede as realidades que comparecem e as explicações que provemos para elas. Essa é a nossa condição originária, onde se renova o fato de haver Sexo, isto é, secção, antes ainda de alguma relação, onde experimentamos separação e solidão. Estamos condenados a repetir esse empuxo, “dar de cara na parede” e retornar, na busca desse gozo impossível, faturando gozos “menores”, sentindo na carne o afeto da angústia, em nossas perdas e danos, sem saber muito bem como nem por que, condenados a Haver sem escapatória possível. Haver é, portanto, antes de mais nada, uma experiência pessoal, dada para cada um, que se pode buscar como exercício ou que pode acossar alguém à revelia. Essa condição de Haver, à beira do Impossível, é a base para a psicanálise conceber a ordem do místico como experiência de afastamento do mundo, de recolhimento à solidão no desejo de impossível. Como afirma Magno, “em qualquer situação que se procure encostar Lá e se dê de cara com o absoluto, com a neutralidade, com a indiferença, estaremos tomando uma posição mística”. Nesse sentido, não sendo uma mística nem dependendo da enunciação mística, a psicanálise “apenas reconhece essa experiência, pois é um processo, um modo técnico, ou seja, artístico, de funcionar (também no mundo) na lembrança dessa experiência” (Magno, 2009, p. 17-8). Vê-se que o que a psicanálise entende como místico não se confunde com o que as tradições religiosas e filosóficas, mormente no Ocidente, costumam entender como mística. Comprometidas com alguma transcendência configurada e seus mistérios, ou com a co-extensividade do Logos e do Ser 306

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em relação a seus regimes discursivos, religiões e filosofias atribuem a alguma relação com “Deus”, com a Essência, com o Ser Supremo, o ápice a que poderia chegar a fé religiosa ou a abstração intelectual, nem sempre tomando distância dos conteúdos narrativos sobre a relação do Criador com a criatura, do ente com o Ser. Uma tradição ocidental que remonta a e descende do neoplatonismo cristão chegou a conceber uma distinção entre o Deus apofático e catafático, isto é, a condição de negação, que é intrínseca ao princípio divino, cuja nomeação é imediatamente um decaimento da própria divindade, em sua diferença para com a identidade não problemática entre o nome de Deus e a natureza por ele designada. Voltaremos a essa questão mais adiante, pois interessa à compreensão do pensamento de Mestre Eckhart. No momento, importa destacar que a psicanálise, ainda que reconheça a lógica mais abstrata do procedimento apofático, lança a questão um pouco mais à beira do abismo. “Deus”, “Essência”, “Ser”, são sim designações relativas. Mas não porque há um Absoluto transcendente cujo alcance, para a criatura assujeitada, seja impossível compreender ou nomear. É que simplesmente não há transcendente. Há só o tesão, que deseja trans-cender, “atravessar”, em seu consumo definitivo, e encontrar a paz que, enfim, silenciaria todo o desejo. Não havendo transcendente, podemos dizer que o tesão é transcendental. Ou seja, vai se cumprindo, de transa em transa, obedecendo ao excessivo que o comanda, pois aspira ao impossível. Essa é a nossa condição: o tesão pelo impossível absoluto (não-Haver). Levar a questão um pouco mais à beira do abismo, portanto, é acolher analiticamente a insistência humana em configurar transcendentes em razão do próprio movimento pulsional no sentido de não-Haver. Para usar uma articulação apresentada por Magno, em seu Seminário “Psychopathia sexualis”, trata-se, para a psicanálise, de considerar a “hipótese Deus” como inarredável para o psiquismo. Ou seja, a experiência de exasperação do desejo de Impossível e da ignorância que isso acarreta – que está dada para cada um, ainda que a massa recalcante distancie a pessoa dessa situação e a coloque em condições aparentes de fortaleza e segurança – leva às nomeações as mais variadas, da entronização divina do comportamento atmosférico às elocubrações teológicas das religiões e filosofias, passando por todo tipo de deísmo, teísmo e ateísmo. É a exasperação entre Haver e não-Haver que conduz à suposição de ter “alguém”, sagrado ou 307

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profano, divino ou humano, Deus(es) ou Sujeito, em ação, conduzindo nossas moções, sejam elas artísticas, eróticas, filosóficas, religiosas, místicas, míticas, afetivas, ideológicas, discursivas, comportamentais ou quaisquer outras, que dariam a resposta sobre como e onde situar essa agência. Com frequência, quanto mais conteudizada e rude for a formulação e a crença nela, mais essa agência está do lado “de fora”, como transcendente absoluto. É como se a experiência de Haver – só e sem álibi, sem origem e destino, esse trauma opaco para todos os saberes que tentam abordá-lo, que nos lança em estados terríveis de solidão, derrelição e mal-estar – fosse projetada como causada por “algo” ou “alguém” que a determinaria exteriormente. Momento primeiro, se não mesmo primitivo e infantil, da denegação psíquica diante do insuportável de Haver. Essa denegação pode ser traduzida em vários raciocínios, como, por exemplo: não é o fato de Haver, em solidão e derrelição, que me acossa, e sim que há Deus e seus avatares religiosos e culturais (Mãe, Pai, Filho), mono ou poli(teístas), cujo mistério não alcanço, mas a cuja força recalcante me alieno. Não é o desejar não ter nascido, no seio mesmo da irreversibilidade disso já ter acontecido, e sim o drama da criação, da expiação, punição e redenção que me oprime e que requisito. Não é o factual do tesão, que faz o gozo mais abstrato encostar na carne ou virar obra de arte, e sim as tapeações sobre sua proibição, restrição e normalidade a que me acomodo. Sobre essa denegação primeira se erguem os edifícios recalcantes da cultura e que se enraízam na vida psíquica das pessoas. Daí as mais variadas maneiras disso comparecer como sintoma, que são a massa da análise nossa de cada dia, que precisamos processar, arrumar expedientes para digerir, mesmo quando parece difícil, doído, dramático ou simplesmente factual. Por outro lado, quanto mais avançada e abstrata é a postura, esse “algo” ou “alguém” é internalizado. É assumido como imanente, “o mais íntimo de nós mesmos”, simultaneamente lugar de fragilidade e de intocabilidade. Essa condição originária incita à ascese voltada à sustentação de um Vazio ou Nada. Motiva a reflexão teórica sobre a (in)comensurabilidade do(s) universo(s) ou os modos de composição das realidades, à maneira de algumas filosofias. Está na base do movimento progressivo dos conhecimentos, ao chancelar a angústia pela condição menor dos saberes tidos e o lançar-se ao desconhecido de novas 308

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investigações. É razão de invocação poética e artística, bem como da audácia lúdica de se inventar coisas novas. É, enfim, lastro gratuito de nossos arranjos e contas de investimento de tesão (Magno, 2019, pp. 110-20). Na história da chamada humanidade, apareceram, aqui e ali, pessoas mais disponíveis que propuseram exercícios os mais diversos para a retomada dessa postura. Segundo Magno, a psicanálise é o lugar, a forma e o exercício modernos, que vêm substituir os modos anteriores de aproximação. “Trata-se de como, a partir da narrativa da estória de cada um, mostrar que esse um é simplesmente uma massa de formações recalcantes da possibilidade de ele escapar, de indiferenciar” (Magno, 2000, p. 194, grifo do autor). É na condição de lugar moderno dessa postura que a psicanálise reivindica seu estatuto como místico. Ele é “o código de funcionamento da análise, diz como a análise tem de funcionar (...), no sentido de indiferenciação ao máximo diante de não-Haver, que é Lá longe” (Magno, 2021, p. 217). Ou também: como processo de Cura, a psicanálise se oferece como uma anacorese pessoal, no sentido de partida, afastamento do mundo, distanciamento – anti-social – dos homens, busca de solidão, procura de identidade na singularidade; um exercício “apotáctico” (Magno, 2000, p. 21). Vê-se, portanto, a função e o valor do que há de místico no estatuto da psicanálise. Seu estatuto é místico por tratar-se da arte de produzir o abandono do aprisionamento sintomático, em processo infinito de análise, à procura de transcender mundo como formação sintomática, incluindo a tentativa de escapulir dos arranjos de conhecimento já dados e por se produzir. Nesse sentido, como campo teórico, os teoremas e proposições conceituais da psicanálise também dependem desse exercício de transcendentação, afastamento e indiferenciação que sustenta a postura analítica. É desse exercício ou trabalho mental perene que decorre, para cada um, a (re)descoberta de um lugar de intocabilidade onde “mim” há. O empuxo transcendental da pulsão ou ascese mística, em exercício de suspensão e suspeição, pode levar a esse “lugar absoluto onde se vai sozinho e que empresta (necessariamente) soberania a quem o visita. Pouco importa quais são os poderes de destruição que outrem detenha, nos níveis mais baixos, de fazer qualquer mal a esse peregrino, pois sua soberania será garantida pela frequente viagem àquele lugar que o marca com a soberania” (idem, p. 94). 309

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A psicanálise encarece o reconhecimento de que podemos e, de fato, somos eventualmente levados a experimentar estados radicais de separação em relação ao que é mundano, desde onde pouco importa se o mundo é hostil ou atraente, se nele encontramos opressão ou aceitação, se os valores são afirmados ou negados. O trabalho de recepção plena da função analista se realiza à luz dessa referência, sem juízo sobre o que lhe é apresentado. Apenas entendimento dos modos pelos quais as formações sintomáticas se articulam segundo a particularidade irredutível de uma pessoa. A psicanálise situa-se, portanto, em um lugar terceiro relativamente às oposições, polarizações, partições, diferenças, alternativas e alternâncias sintomáticas, que constituem mundo para cada um. Por isso, a distinção operativa e lógica entre Haver e Ser, proposta por Magno. A experiência de Haver excede as partições sintomáticas, que são e nomeiam os modos de Ser das coisas e suas propriedades, sobre as quais discorremos, acrescentando sentidos, infinitizáveis como processos de abordagem. Ser e Ter correspondem ao “mundo das chicanas, das possibilidades de oposição, de agonística, com seus dois alelos, sendo que pode acontecer, e acontece frequentemente, que haja um recalque e só um alelo esteja funcionando. Ao funcionar em termos de mundo, de Ser, como sendo alguma coisa, podemos raciocinar, calcular e articular. Os saberes, os conhecimentos aí em jogo têm regime próprio” (Magno, 2014, p. 27). Isso constitui mundo, em regime de sobredeterminação. Ao contrário, i-mundo é o lugar de exasperação de Haver, posição desde onde se considera o que quer que pertença ao mundo, em regime de HiperDeterminação. Portanto, em regime de acolhimento de qualquer valência, qualquer sentido, qualquer possibilidade ou probabilidade, sem se fixar em nenhuma, pois qualquer medida resta relativa face ao impossível não-Haver. A obra eckhartiana nos ensina, a seu modo, a discreção entre Haver e Ser. Manejando conceitos escolásticos e analogias bíblicas, que foram seus recursos no momento, salta aos olhos o esforço no sentido de suspensão das determinações, na ascese de afastamento em relação ao mundo, de reconhecimento da precariedade do dizer as coisas, insuficiente e inadequado para expressar impossivelmente a Experiência de Haver sem consequência, discreta, interrompida a cada momento desse estar, ser e ter. Em Eckhart, na falta de 310

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algo parecido com o Inconsciente, Isso que Há, a pesquisa e a reflexão ficam sondando uma transcendência, que, a cada vez, fracassa em sua intenção teológica, digamos assim, e se mostra como experiência interior, anfi-situada, antes ainda de qualquer partição, sem que saber algum dê conta disso. Vejamos como. 2. Os comentadores contemporâneos da obra de Mestre Eckhart são unânimes em indicar a excelência de sua presença pela dupla condição que o místico alemão exerceu de lesemeister (mestre de ensino) e lebemeister (mestre de vida). Herdeira imediata da síntese tomista, a obra de Eckhart a ultrapassou, abrindo uma fratura nos modos de articular ocidentais, e cujos efeitos, repetindo-se subterraneamente em algumas correntes místicas e gnósticas posteriores, somente agora, avançando no século XXI, temos condições de açambarcar, pela via psicanalítica3. Acionando recursos eruditos da conceituação filosófica, utilizando tradições teológicas oriundas do agostinianismo, do neoplatonismo e do tomismo, ou lançando mão de uma rica rede analógica de imagens, expressões, ditos espirituosos, provérbios e passagens bíblicas, essa obra esgarçou as vias religiosas e filosóficas da transcendência, ao revirar seus valores assentados e mostrar a identidade radical entre “deus” e “eu”, seja em compleição experiencial, seja em esboço cosmológico. Em que sentido? 3 Chamamos a atenção para o SóPapos 2019, de MD Magno, em que James Joyce é retomado à luz do lugar que a psicanálise pode atribuir ao tomismo, questão que retorna nas sessões iniciais do livro que o leitor tem em mãos. Do mesmo modo que a cosmologia tomista é um processo abstrativo de desfazimento em direção à concepção de Deus como puro Esse, a literatura de Joyce, profundo conhecedor de Tomás de Aquino, é uma tentativa de dissolução do sintoma ocidental chamado “história” e da sintomática das línguas, a começar por sua língua “materna”, o inglês (empreendimento do Finnegans Wake). Magno sugere todo um programam de pesquisa em 2019, incrementado por suas observações de 2020: “Por que Joyce tinha que se meter com Tomás de Aquino? Como estão todos indo para trás atualmente, também resolvi ir, fui para a Idade Média. Quero mostrar que o pessoal lá não é nada disso que estão dizendo por aí. Estão brandindo esses autores e esses pensamentos como garantia da imbecilidade que é deles, e não dos autores. Com o olhar de hoje, sobretudo com o olhar psicanalítico, ao voltar lá vemos que são geniais – amarrados dentro de uma camisa de força chamada cristianismo ou, se não mesmo, igreja católica. Se lhes dermos um banho de água sanitária, veremos que ficam limpinhos e até bem contemporâneos. E há os árabes e os judeus também pensando lá. Quem estava mais ou menos pendurado em Platão nesse período da Idade Média tomou um choque de Aristóteles que mudou tudo” (SóPapos 2019, p. 291). O leitor deve ter em mente essa articulação, ao considerar a mística eckhartiana, que dá um passo progressivo, depois de Aquino, podendo ser considerada como precursora do Quarto Império. A explicitação dessas relações, a partir da teoria dos Cinco Impérios, é uma tarefa que extrapola os objetivos deste texto, a ser tratada em trabalho posterior. Para uma abordagem substancial sobre Joyce e o tomismo, ver o ensaio de Umberto Eco (1989).

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Vejamos algumas referências históricas mais amplas, para melhor situar o lugar do pensamento eckhartiano, sobretudo no rico e conturbado momento medieval no qual emergiu. 3. Vamos tomar as cidades Erfurt – Paris – Estrasburgo – Colônia – Avinhão como se fossem pontos de luz que, uma vez ligados, iluminam um circuito: temos aí uma imagem do percurso da atividade e do trabalho de Eckhart (±1260-1328). Mas, se as tomássemos como nós e os conectássemos, formar-se-ia uma rede que também serve de metáfora geopolítica e cultural de questões candentes daquele momento. Comecemos pelo desenho dos poderes instituídos em nível estatal4. Diversas querelas ideológicas em torno da primazia do poder temporal sobre o espiritual (ou vice-versa) opunham o papado e as dinastias reinantes na Alemanha e na França, e que gerariam as defesas filosóficas de Marsílio de Pádua e Guilherme de Ockham em favor do poder temporal. Em outra frente de conflito, a ordem templária sofria o golpe decisivo de sua dissolução pelo papa Clemente V em 1312, depois de décadas de eficaz campanha de difamação e perseguição. Eckhart encontrava-se em Paris nesse ano e, em 1314, pouco depois de deixar a cidade, dois templários seriam executados na fogueira. Um outro símbolo expressivo do tensionamento político mais geral era a própria situação inédita em se encontrava o papado, “obrigado” a mudar a sede papal, de Roma para Avinhão, no sul da França, como efeito da queda de braço com os reis franceses. Em uma época de juízos exacerbados, censura e condenações, que vinham de todos os lados, era comum difamar, exilar, afogar e queimar pessoas, destruindo os livros que escreviam ou defendiam. A beguina Marguerite Porete, por exemplo, havia sido condenada à fogueira, junto com seu Espelho das almas simples e aniquiladas, em Paris, em 1310, um ano antes de Eckhart chegar à cidade e dividir alojamento com o inquisidor responsável por seu processo. Mas as aparentes oficialidades também não garantiam muita coisa: a 4 Usamos “estatal” no sentido histórico conceitual do Estado como figura política historicizável da época moderna por oposicão aos estados feudais medievais, mas não dispensamos a noção psicanalítica de estado no sentido das relações já instituídas, burocratizadas, em que as transas sociais e suas redes transferenciais estão sobrepujadas pelo arranjo institucional, que as acolhe e as domestica, sem necessariamente obrigação de compromisso com elas (Magno, 2015).

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tese franciscana da pobreza de Cristo como base da doutrina católica, defendida quase às raias do cisma pelos frades da ordem, fora condenada como herética pelo papa João XXII em 1323. Na mesma época, Eckhart chegava ao ápice de sua atividade de lebemeister, discorrendo sobre a pobreza de espírito em seus sermões. E veremos a distância de postura entre uma e outra “pobreza”. Como se não bastasse, a sombra da cruzada albigense contra os cátaros, no início do século XIII, ainda pairava sobre as comunidades religiosas, da Bélgica à Lombardia, e um de seus inquisidores mais ferozes, o dominicano Bernard Gui, lançaria a última perseguição, no Languedoc, a partir de 1303, no mesmo momento em que o então frei Eckhart, da ordem dominicana, tornava-se Mestre Eckhart de Hochheim na Universidade de Paris. Por fim, em torno de 1324-28, um pensador da estatura de Guilherme de Ockham, na mira dos bispos ingleses, fora chamado à corte papal em Avinhão para se explicar, tendo sido defendido por seu superior, o geral da ordem franciscana Michele de Cesena. Mas foi Cesena o responsável, na mesma ocasião, pela acusação formal de heresia contra Eckhart, na sede papal, para onde o mestre alemão tinha se dirigido, no intuito de se defender. Ockham teria chamado Eckhart de “louco”, mas foi esperto o bastante para conseguir a proteção do imperador alemão, em Munique, face à ira do papa diante de suas próprias posições filosóficas. Morreu em 1347, provavelmente de peste, doença que dizimaria milhões de pessoas nas décadas seguintes. Não deve ter sido fácil atravessar aquele momento. Como último exemplo – e talvez o mais significativo pela proximidade com a obra eckhartiana –, é preciso lembrar da própria ambiência religiosa característica das comunidades conventuais e das ordens terceiras, sobretudo nos espaços urbanos, onde atuavam as ordens mendicantes, e à qual estavam ligadas inextricavelmente as andanças, atitudes e prédicas de beguinas e begardos, vistos pelos inquisidores como formando uma espécie de “Seita do Livre Espírito”. Eram comunidades extra-canônicas, onde facilmente erguiam-se vozes com entendimentos e orientações próprios sobre a “verdadeira” vida cristã, que elencavam meios de ascese específicos e testemunhavam “visões” beatíficas da divindade que claramente ameaçavam a hierarquia eclesiástica e seu monopólio da verdade. Dentre as beguinas conhecidas e cujas obras circulavam em vernáculo, estavam 313

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Marguerite Porete, Hadewijch de Antuérpia, que escreveu entre 1230 e 1250 aproximadamente, e Mechthild de Magdeburg, também do século XIII. 4. E Eckhart nisso tudo? Nascido provavelmente por volta de 1260, na Turíngia (um dos estados federais da Alemanha contemporânea), na região central alemã, e oriundo de família da pequena aristocracia, Eckhart de Hochheim deve ter ingressado na ordem dominicana por volta de 18 anos de idade. Especula-se que fez seus primeiros estudos de filosofia e teologia em Colônia, antes da morte de Alberto, o Grande, em 1280. Mais tarde, foi enviado a Paris para seguir os estudos superiores de teologia e, na sequência, foi promovido a bacharel, no outono de 1293. A primeira estada parisiense de Eckhart aconteceu no auge da controvérsia sobre o aristotelismo. As diversas leituras que a obra aristotélica recebera, pela via cristã e islâmica, entrara em rota de colisão, em função da pressão ortodoxa da Igreja católica. Assim, por exemplo, as teses averroístas haviam sido condenadas pelo bispo de Paris, Étienne Tampier, em 1277, levando o risco de heresia para as vizinhanças conceituais do tomismo. Além da controvérsia em torno do Aristóteles árabe ou cristão, também crescia a rivalidade entre dominicanos e franciscanos. Os primeiros advogavam a não contradição entre teologia e filosofia, sendo a última um instrumento útil à primeira, ao passo que os segundos se insurgiam cada vez mais contra a filosofia aristotélica e a resultante teórica e cosmológica dela extraída, com forte acento naturalista. Sobrepondo-se à essa rivalidade, ainda havia outra, a que opunha a filosofia, ensinada como uma das artes liberais, e aquela dos teólogos. De um lado, o partido “filosofante”, dos “mestres de arte” do trivium e do quadrivium, que abraçava o Aristóteles da Ética a Nicômaco, fonte da visão de beatitude ou eudaimonia, entendida como desenvoltura e domínio intelectuais. Para esses profissionais do pensamento, a “felicidade mental” seria o caminho para um “amor intelectual de Deus” entendido como conexão entre a inteligência humana e o pensamento divino. De outro lado, estava o partido teológico, dos professores de cátedra, oriundos das fileiras eclesiásticas, conservadores em relação a um aristotelismo restrito, que chancelasse a “beatitude celeste”, em 314

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detrimento da ascese mundana ou secular. Eckhart encontrava-se nessa encruzilhada, mantendo distância em relação a ambos. Indiferente a essa disputa, o mestre alemão levaria as teses tomistas às últimas consequências, com um arranjo conceitual que apontava a discreção entre o desconhecido, o ignorado, o não-mundano – ora, abordado como Logos, Verbo ou Intelecto, ora abordado como Ser separado e não causal –, e o relacional, o ser das coisas e suas propriedades. Essa discreção, por sua vez, ao invés de repetir o esquema apofático tradicional do neoplatonismo cristão, avançava audazmente em direção a uma analogia do “fundo” (Grunt) comum a Deus e ao homem. Consentâneo com tal pensamento, uma postura insistente de despojamento, serenidade, abandono, esvaziamento, como exercício e experiência pessoais. A partir de 1294, Eckhart tornou-se prior de seu convento turíngio em Erfurt, o que implicava ter a seu encargo a formação de jovens estudantes e noviços. Na sequência, foi nomeado vigário da Turíngia, passando a responder como representante local da autoridade dominicana. Data dessa época a primeira obra vernacular, Conversações espirituais5, redigida provavelmente entre 1295-98. Eckhart retornou à Universidade de Paris, em 1302, onde obteve a mestria em teologia, tornando-se titular da cadeira de teologia reservada aos dominicanos estrangeiros. As breves Questões Parisienses que nos chegaram dessa época (1302-1303) demonstram que sua reflexão sobre o Intelecto divino e humano já o havia levado a se posicionar para além de Tomás de Aquino, Alberto, o Grande e Dietrich de Freiburg, a trinca dominicana da leitura abstraente de Aristóteles (McGinn, 2017, p. 24). Como afirmou, então, “no momento, parece-me não que Deus conheça porque ele existe, mas, ao contrário, que ele existe porque conhece” (idem), apresentando uma noção não-substancial e não-relacional de Deus. A mesma linha de abordagem está presente em outra obra que data dessa época, os Sermões e comentários sobre o livro do Eclesiástico. De volta à Alemanha, um ano depois, foi escolhido para a chefia da recém-criada província dominicana da Saxônia, com sede em Erfurt. Estavam 5 A tradução brasileira preferiu o título Conselhos espirituais, mas optamos pela versão de Alain de Libera, traduzindo Entretiens spirituels por Conversações espirituais.

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sob sua responsabilidade quarenta e sete conventos, distribuídos na Alemanha oriental e setentrional, além dos Países Baixos. Os oito anos seguintes representaram, portanto, um período de muito trabalho e viagens, ao longo do qual floresceu a predicação eckhartiana em alemão. Os sermões tocavam questões do magistério parisiense, apresentadas a um auditório letrado, mas não universitário. Um dos temas era a diferença para com a posição franciscana de Deus como ipsum esse, isto é, o próprio ser, enquanto Eckhart elaborava a concepção de Deus como intelligere, isto é, intelecção, logos, verbo, condição hierarquicamente anterior e superior a Ser. Entre 1311 e 1313, o mestre alemão retornou a Paris para uma segunda docência universitária, prestígio até então exclusivo de Tomás de Aquino. Na sequência, deslocou-se para Estrasburgo, em função de sua nova atribuição como vigário geral, incumbindo-se da tarefa da curia monialum, isto é, da direção espiritual dos ingressos na ordem dominicana. Como se tratava de uma ordem mendicante, reunida em convento, mas voltada para a vida urbana e o contato com a população em geral na tarefa de pregação, proliferavam comunidades de leigos devotos, as chamadas ordens terceiras. A tarefa de Eckhart o colocou em contato direto com essas comunidades religiosas e leigas, por entre as quais vicejava o movimento de beguinas e begardos. A multiplicidade de conventos femininos e atividades de beguinas no vale do Reno transformara essa região em verdadeiro laboratório de ideias, e Eckhart sairia de lá transformado (Libera, 1999, p. 10). Esses anos de direção espiritual consagraram a vida de lebemeister. Eckhart, ao mesmo tempo que hauriu inspiração nesses movimentos, os guiou através da intensa atividade de sermões em vernacular. Por outro lado, seu pensamento era muito mais elaborado conceitualmente e mantinha distância das analogias recorrentes da “experiência de visão” da prática das beguinas, à maneira de Porete e Mechthilde de Magdebourg. Data desse período o Livro da Consolação Divina e vários sermões em alemão. As atividades de orientação de Eckhart o levaram à Colônia, por volta de 1323-4, outra cidade ligada à prédica de beguinas, movimento, a essa altura, condenado formalmente pela igreja católica. A perseguição da autoridade eclesiástica sobre seu trabalho se acirrou, com denúncias em nível episcopal e 316

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suspeitas levantadas entre as próprias fileiras dominicanas, levando Eckhart a apelar ao Papa, em Avinhão, em 1327. A atmosfera tornara-se mais pesada, pois, pouco antes, a denúncia e o zelo ortodoxos haviam levado à condenação ao afogamento e à fogueira beguinas e begardos de algumas comunidades renanas. Eckhart morreu em 1328, sem conhecer a sanção final da igreja, que, um ano depois, na bula In agro dominico [No campo do senhor], condenava 17 proposições de seu ensino como erradas ou heréticas e mais 11 artigos como suspeitos, a serem retificados em sentido católico. 5. Em texto esclarecedor, Pierre Hadot apresentou uma série de considerações sobre mística, teologia negativa e apofatismo. Vamos relembrá-las, pois nos servirão de prólogo orientador quanto às questões mais candentes do pensamento eckhartiano. Para abrir o problema, Hadot retoma a ideia de apofatismo (do grego apophasis, “negação”) em sua proximidade ao método aferético (do grego aphairesis, “abstração”), em detrimento da ideia de teologia negativa. Isto, porque, em seu entender, esta última guardaria o risco de uma contradição em termos, pois proporia conceber Deus pela via da negação de seus predicados, o que culminaria na negação da própria divindade, sendo, ainda assim, uma teologia, isto é, um discurso sobre Deus. A vantagem do termo apofatismo é que designaria apenas o sentido geral de um caminho de transcendência, através de proposições negativas. A trajetória do apofatismo, em germe já em Platão, foi sistematizada no platonismo e na teologia cristã, através do neoplatonismo, chegando a correntes modernas do pensamento, como a lógica de Wittgenstein, indicando, nessa última, os limites insuperáveis da linguagem humana, que não pode expressar pela linguagem o que se pode exprimir na linguagem. Em termos da filosofia que se estende até o século IV d.C., seria mais preciso, continua Hadot, falar de método aferético, e não apofático. Designa-se por aphairesis uma operação intelectual de abstração, na qual a noesis, isto é, a intuição da essência, se dá pela separação e a supressão do que não é essencial, sendo próprio do pensamento efetuar essa abstração. Em perspectiva lógica, tal operação de supressão pode ser tomada como uma operação de negação. Assim, a atribuição de predicados a uma instância é uma operação de 317

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adição e negar tais predicados é uma operação de supressão. A aphairesis, como método de abstração em direção à simplicidade, é, em suma, um processo de negação. “Essa abstração é um verdadeiro modo de conhecimento”, continua Hadot, pois “suprime-se e nega-se um ‘mais’ que foi acrescido a um elemento simples” (2014, p. 219). Nessa análise, ascende-se das realidades visíveis aos incorporais e aos inteligíveis, realidades puramente pensadas tomadas como princípios, agora abstraídos de suas adições materializantes. Por essa via, vê-se como o complexo provém do simples. A ascese ou ascensão aferética tem um duplo aspecto: negativo, na subtração das adições, e positivo, na intuição das realidades simples. Nem por isso, esse método negativo conduz necessariamente ao reconhecimento de um Incognoscível absoluto, menos ainda à identificação desse incognoscível a alguma divindade inefável e misteriosa. A aphairesis é um exercício intelectivo de abstração no sentido do (re)conhecimento intuitivo do simples como passo intrínseco à afirmação da plenitude, da qual decorre a complexidade. Encontramos seu eco na fórmula de Espinosa: toda determinação é uma negação. Pois, de acordo com o pensamento espinosista, do ponto de vista da substância como causa sui, eterna e absolutamente infinita, suas progressivas determinações modais seriam adições, na mão contrária da negação através da qual se chega à simplicidade do princípio. Dito de outro modo, para chegar ao conhecimento intuitivo da essência, é preciso passar pelas determinações como ascese aferética do “não” em direção à simplicidade abstrativa. Mas, para avaliar o alcance do passo a mais de Eckhart, que, não abandonando o sentido abstrativo da aphairesis, é também transintelectivo, é preciso combinar a via filosófica com a via religiosa do Deus transcendente, que a teologia cristã neoplatonizante descreveu pelo recurso da henologia (do grego henós, “uno”). Para isso, essa tradição teológica recorreu a Plotino (século III d. C.), cuja filosofia oferecia um modo particular de considerar a transcendência, postulando o Um como princípio absolutamente simples e superior a todo ser e pensar. Parmênides e Aristóteles – para os quais o ápice da ascese é sempre ser e pensar – forneciam subsídios para pensar o Ser e as realidades, mas não o Um absolutamente primeiro e transcendente, que passava a presidir a hierarquia do seres sem se confundir com eles. Segundo Plotino, “antes de 318

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todas as coisas, tem de existir o Simples, diferente de tudo que dele advém, auto-existente, e, no entanto, capaz de estar presente nessas outras ordens. Ele tem de ser uma autêntica unidade: não apenas algo elaborado em uma unidade, e que seria uma falsificação da unidade. Não é possível conhecê-lo ou falar a respeito dele. Ele é descrito como ‘além do Ser’ ou ‘Sobre-Ser’” (Plotino, 2000, p. 55, grifo nosso). Além disso, o Um plotiniano ganha uma natureza transcendente e numinosa, que “culmina em uma concepção na qual a theoria [contemplação em sentido platônico] assume o sentido de êxtase e assimilação com o divino (henosis) (Bezerra, 2006, p. 56). Em Plotino, método aferético e apofático se encontram: qualquer coisa que se acrescente ao Princípio o diminui com essa adição, “pois ele não tem necessidade de nada” (apud Hadot, op. cit., p. 222), de modo que, em relação à positividade transcendente, toda determinação é uma negação. Por outro lado, só podemos enunciar discursivamente o Princípio, mas não podemos pensá-lo, porque ele não é da ordem do Pensamento ou do Ser. No máximo, “podemos postular uma apreensão não intelectual, digamos de uma experiência mística do princípio” (idem, ibidem). Ora, a teologia cristã, sobretudo a tradição que desemboca em obras como A teologia mística e Os nomes divinos, atribuídas ao Dionísio Pseudo Areopagita, autor cristão grego da virada do século V para o século VI e cuja identidade permanece desconhecida, faz o método apofático suplantar o aferético, resultando em uma teologia negativa, pela introdução da Criação e da Encarnação do Verbo. Temos, doravante, um Deus absolutamente transcendente e incognoscível por sua própria natureza – postulado que abre um abismo intransponível entre o criador e a criatura –, que se revela pela mediação do Verbo divino. Seguimos Pierre Hadot: “É possível, com efeito, após uma longa elaboração mais que milenar, conceber uma teologia desse gênero na qual o abismo entre Criador e criatura invoca ao mesmo tempo uma teologia apofática, que defende a absoluta transcendência de Deus, e uma teologia da Encarnação, que afirma que Deus só pode ser conhecido pela mediação do Verbo encarnado. Mas, historicamente, esse sistema não parece ter sido elaborado de uma maneira consciente” (idem, p. 224).

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Muito provavelmente não o foi. Esse percurso também faz parte da história da descoberta do inconsciente, à maneira de Ellenberger, com mais esse capítulo a ser acrescido: o processo de sacação, elaboração e explicitação do trabalho inconsciente como exercício de separação e solidão, considerado seu estatuto místico, e não apenas as práticas e sensibilidades terapêuticas, com suas elaborações teóricas, nas mais diversas culturas e experiências humanas. Não à toa, Hadot conclui seu comentário sobre apofatismo e teologia negativa com o Wittgenstein do Tractatus Logico-Philosophicus, passo secularizante fundamental no processo inconsciente de explicitação da condição originária que o terá hiperdeterminado. Não se trata mais da aporia entre princípio e todo, Um e Pensamento, mas da ordem mística de algo inexprimível que se mostra: “O místico não é: como é o mundo; mas: o fato de que ele seja”. Com o convite ao silêncio: “Sobre o que não se pode falar, é preciso se calar” (apud Hadot, op. cit., p. 226). Ou, à maneira de Magno: o místico não é o mundo e suas formações sintomáticas modais, mas depende do fato bruto e experiencial, para cada um, de que Há por impossibilidade de não-Haver, em discreção radical em relação aos modos de Ser. A partir da estória de cada um, trata-se de sacar que somos marionetes movidas por formações sintomáticas que recalcam a possibilidade de indiferenciação progressiva, e, na referência a essa condição de nada, fazer mundo, em regime de puro dispêndio. Ora, no percurso dessa história do inconsciente, aquele apofatismo, baseado nas argumentações e no vocabulário neoplatônicos, fez parte importante do pensamento de Eckhart, que conhecia tais fontes filosóficas e patrísticas, incluindo o Pseudo Areopagita. Àquela altura, contudo, o mestre alemão também estava treinado na cosmologia abstraente do tomismo, sem desconhecer igualmente o Aristóteles árabe (Avicena e Averrois), que transacionava com a escolástica, tampouco dando as costas à espiritualidade beguina e gnóstica de sua época. Manejando esses recursos, a obra eckhatiana operou um salto, ousando formular, por dentro do apofatismo e da intelecção, a tese radical da identidade entre “deus” e “eu” como resultante da transcendentação, isto é, da ascese de afastamento em relação ao mundo, sem nada querer, nada saber, nada ter6. 6 Fórmula do Sermão 52: “Um homem pobre é aquele que nada quer, nada sabe e nada tem”

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Na sequência, destacaremos algumas articulações do pensamento de Eckhart, que são eloquentes de tal postura. 6. Vejamos os fragmentos a seguir, extraídos, respectivamente, das Questões Parisienses, do Sermão 69, das Conversações Espirituais e do poema O grão de mostarda: 1. “Não mais me parece que Deus conhece porque é, mas, antes, que ele é porque conhece; então Deus é intelecto [intellectio] e ato de intelecção [intelligere], e o ato de intelecção é o fundamento de seu ser” (apud Caputo, 1975, p. 89). 2. “O intelecto [nesse caso, como força da alma] mira para dentro a espreitar o interior e irrompe, de vinco a vinco, e penetra em todos os recantos da deidade e toma o Filho no coração do Pai e no fundo divino e coloca-o em seu fundo. O intelecto penetra no interior; a ele não basta bondade nem sabedoria nem verdade nem mesmo Deus. Sim, por boa verdade: tão pouco como uma pedra ou uma árvore, Deus não o satisfaz. Ele jamais repousa; ele irrompe no fundo (...), em um fundo muito mais elevado do que onde são bondade e sabedoria. (...) o intelecto rompe tudo isso e penetra no interior, irrompendo para dentro das raízes, donde transborda o Filho e onde floresce o Espírito Santo” (Eckhart, 2006, v. II, p. 58-9). 3. “Essa verdadeira possessão de Deus tem sua fonte no espírito que se volta para Deus intelectualmente e interiormente e a Ele se dirige. Não se trata de pensar n’Ele de modo constante e igual; para nossa natureza, seria uma tarefa impossível ou muito difícil, não sendo a melhor solução. O homem não deve se contentar com um Deus pensado, pois, quando o pensamento desaparece, Deus desaparece igualmente. É necessário possuir um Deus essencial, que esteja acima do pensamento do homem e de todas as criaturas. (...). Quem possui Deus assim (...), Deus nele [no homem] se mostra: há nele um afastamento no qual ele abandona tudo e a imagem de seu Deus nele se imprime no presente. (...) Esse saber, o homem não adquire pela fuga, correndo das coisas para se refugiar na solidão; é preciso, ao contrário, que ele faça o aprendizado de uma (Eckhart, 2006, v. 1, p. 287).

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solidão interior, onde quer que esteja e na companhia de quem quer que seja” (Eckhart, 1995, p. 84-5). 4. “III. Do Três o laço / é profundo e terrível, / tal contorno o sentido jamais apreenderá: / lá reina um fundo sem fundo. / Fracasso e fim [échec et mat: no xadrez: xeque-mate] / tempo, formas e lugar! / O anel maravilhoso / é jorro, / seu ponto é imóvel. IV. Esse ponto é a montanha / a ascender sem agir / Inteligência! / O caminho te leva / ao deserto maravilhoso / ao largo, ao longe, / sem limite ele se estende. / O deserto não tem / nem lugar nem tempo, / tem seu próprio jeito” (Eckhart, 1996, p. 19, p. 20). Há um elemento comum a esses quatro textos, diferentes na locução e produzidos em circunstâncias distintas: a intelecção. Em Eckhart, esse intelligere significa um deixar chegar por entrega e disponibilidade (contemplação), mas também forçação do entendimento, mediante articulações, para que algo se mostre e ganhe (nova) articulação (não necessariamente intelectiva, no sentido restrito filosófico)7. A entrega e o abandono, marcas características desse intelligere, são temas recorrentes na obra de Eckhart, desde os primeiros textos, como é o caso das Conversações espirituais, dirigidas a jovens estudantes e noviços, em Erfurt. O exercício espiritual é apresentado de modo renovado, com a orientação de se abster das práticas exteriores tradicionais de ascese (jejum e penitência), em prol da prática interior do afastamento ou despojamento voluntário de todas as coisas. Esse seria o sentido da obediência, tema que abre esse texto do jovem frei Eckhart. A “verdadeira obediência” era tema recorrente da prédica cristã, mas Eckhart a desconecta da função tutelar de reforço à hierarquia que lhe é intrínseca. Alain de Libera chega a propor uma “topologia do abandono e da obediência”, pois deixar a vontade própria é deixar Deus querer nesse lugar, e, para isso, o homem deve deixar se fazer lugar de Deus, ao sair de si mesmo, vazio de que Deus não pode se desembaraçar, inclinando-se ao homem. Temos aí três ideias expressivas do pensamento eckhartiano: os verbos “deixar” [lassen], “sair” (frequentemente em paralelo com “entrar”) e o substantivo “vazio” ou “livre”, no sentido de lugar desocupado, todos apontando, em última instância, para o apagamento ou aniquilação. Do lassen aparecerá o Gelassenheit, 7 Devemos a MD Magno essa observação.

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abandono, no sentido de deixar ir, deixar partir, deixar ser. Daí a relação com o vazio, a prática do lassen ligada à obediência, à humildade, à nobreza, ao afastamento (Eckhart, 1995, notas, p. 185-9). Por sua vez, a primazia do intelligere sobre o esse em Deus, no texto latino das Questões Parisienses, é uma estratégia, de um jeito muito próprio a Eckhart, por dentro do repertório conceitual vigente, de arrancar o Nada ou fundo, a que a deidade é conduzida, de suas descrições e determinações categoriais. Concebê-la como separada, à luz de sua condição não substancial, facilitava mostrar sua discreção relativamente à ordem das coisas “criadas” no espaço e no tempo, sem prejuízo para a “força” do intelecto humano. Pois seria tarefa do intelecto não apenas elaborar sua condição de coisa relacional como também criar expedientes para alçar-se dela. Ora, exercitar-se para sair da condição de coisa criada é deixar advir a contemplação no fundo sem fundo que une a alma a Deus. Eckhart curto-circuita a distinção filosófica e religiosa entre transcendência e imanência. 7. Vejamos mais três fragmentos, desta vez respectivamente extraídos do Sermão 4, do Sermão 29 e do Comentário ao Evangelho de São João. 1. “O que quer que com Deus procures é nada, seja o que for, utilidade, recompensa ou interioridade etc. Tu procuras um nada, por isso encontras também um nada. A única causa por que encontras um nada é por procurares um nada. Puro nada são todas as criaturas. Não estou a dizer delas que sejam de pouco valor ou simplesmente um algo qualquer. Elas são puro nada. O que não tem ser é nada” (Eckhart, 2006, v. 1, p. 59). 2. “Tudo que é criado é nada; [para Deus], porém, todo ser criado e ser criável é distante e estranho. É um Um em si mesmo, nada acolhendo fora de si mesmo” (Eckhart, 2006, v. 1, p. 189). 3. “É preciso que se saiba que não há nada mais dissimilar do que Deus e qualquer criatura. Em segundo lugar, não há nada mais similar do que Deus e qualquer criatura. Finalmente, não há nada simultaneamente mais dissimilar e similar entre si como o são Deus e qualquer outra criatura” (apud Wackernagel, 1993, p. 81).

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Eckhart inverteu os termos, lançando mão do princípio divino como Esse (ser), reduzindo os seres (criaturas) a nada, maneira reversa de marcar a discreção entre os níveis de articulação ou de superpor raciocínios, suspendendo a decisão a seu respeito. Agora, a criação é situada do lado da negatividade, como que acentuando sua dependência em relação ao Um. Ignorando o princípio aristotélico da não contradição, ao afirmar, lado a lado, tese e anti-tese, Eckhart assinala a distância entre um polo (Deus) e outro (criatura), marcando sua dissimetria, digamos assim, e mostrando, ao mesmo tempo, a dependência ou relatividade da segunda em relação ao primeiro. Ao fazê-lo, abre o caminho para a ascese de transformação de um “nada” relativo e distante para um “nada” que aspira ao Absoluto, dele se aproximando assintoticamente. Joseph Quint, o grande organizador da obra do mestre alemão na primeira metade do século XX, recuperou o verso goetheano “Morra e se torne” [Stirb und werde] como maneira de aquilatar a ascese eckhartiana (Vannier, 1993, p. 52). Herdeiro antagonista da via mística, o iluminismo cunhou o mote “Torne-se o que você é”. Reconciliando as polaridades, mas com a lógica terceira – porque bífida – do Inconsciente, Freud indicou: Wo Es war, soll Ich werden, que Magno recentemente verteu como “Onde era, eu chegarei”, “Onde é Haver, é aonde devo chegar”, “Onde há, eu hei” (Magno, 2021, p. 284). Em Eckhart, o processo culminaria em uma “tanatologia mística” (Vannier, op. cit., p. 52), que, atualizada pela psicanálise, pode bem ser entendida como “síndrome de aproximação radical da vontade de inexistência” (Magno, 2021, p. 158), que costumamos chamar de morte. 8. A obra de Eckhart é extremamente rica e variada (infelizmente com partes consideráveis ainda não disponíveis em português). Comentadores de várias linhagens teóricas são, contudo, unânimes em destacar, como já indicamos, a originalidade da analogia do fundo (Grunt) para firmar o horizonte da univocidade, comunidade ou identidade da alma e de Deus. Essa analogia encontra-se nos escritos de beguinas como Mechthilde de Magdebourg ou Hadewijch da Antuérpia, no século XIII, reúne sentidos fragmentários que remontam à tradição agostiniana da “mística da introversão” (McGinn, 2017, p. 96) e se prolonga na herança eckhartiana presente em seus discípulos Henri 324

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Suso e Jean Tauler, bem como na mística ibérica, com Teresa D’Ávila e João da Cruz, no século XVII. Grunt, no alto alemão medieval, é empregado nos sentidos de solo (terra), base, profundeza, fundamento, fundo, e está ligado etimologicamente a abgrunt, que, nos textos latinos, em sentido abstrato, é traduzido por abyssus (abismo), origo (origem), causa, principium (começo), ratio (razão), argumentum (prova), mas também empregado no sentido de intimum, abditum, proprium, isto é, do que é o mais íntimo, escondido, próprio ao ser ou à essência (idem, p. 93). Antes de Eckhart, a analogia do Grunt aparece na beguina holandesa Hadewijch, através dos termos gront e afgront (abismo), usados para apresentar a interpenetração mútua de Deus e do homem na união amorosa. Para ela, fundo, abismo e profundidade são termos aplicáveis tanto à natureza divina incognoscível, quanto à alma humana, no sentido da relação mútua do “fundo sem fundo” da alma”, onde Deus “basta a si mesmo” (idem, p. 94) Como teólogo, Eckhart utiliza seu patrimônio erudito para fazê-lo “explodir” pela regência do pensamento místico, onde a analogia do Grunt, de maneira inovadora, assume posição central (idem, p. 96). Assim, termos oriundos da tradição agostiniana, em torno da imago Dei, como fundus animae (fundo da alma), scintilla animae (centelha da alma), apex mentis (vértice da mente), abditum animae/mentis/cordis (alma/mente/coração escondido), supremum animae (alma suprema), semen divinum (semente divina), ratio superior (razão superior), synderesis (discernimento) são explorados nos sermões latinos, embora seja nos sermões em alemão que o princípio do fundo da alma (grunt der sêle) assume toda a importância, ultrapassando a visada antropológica do agostinianismo, fundamentada no sentido hierárquico criacionista da relação entre a alma e Deus (idem, p. 96-7). Os sermões 5b e 15 são exemplares, com passagens conhecidas: “Aqui o fundo de Deus é meu fundo e o meu fundo é o fundo de Deus” ou “no fundo da alma, onde o fundo de Deus e o fundo da alma são um fundo” (Eckhart, 2006, v. 1, p. 67 e p. 119, respectivamente). Ou, ainda, no também conhecido tratado Do homem nobre, que conclui O livro da consolação divina: “É de lá [Deus] que ela [alma] tira tudo o que ela é, no fundo mesmo de Deus, e ela 325

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nada sabe do saber nem do amor, nem absolutamente nada de nada”. (Eckhart, 1995, p. 180). A ascese do nada é designada tanto como “nobreza” quanto como “pobreza”, maneira de expressar a conjunção entre o alto e o baixo: “no mais alto e no mais fundo da minha alma”, que, nos textos latinos, é expressa na equivalência entre apex mentis e abditum mentis, que também é razão: “lá onde o supremo da alma, lá onde o vértice da alma se une à luz do Anjo”; “No supremo da alma, que é a razão superior” (apud Libera in Eckhart, 1995, nota 281, p. 212). Vemos como apofatismo e método aferético convergem em Eckhart, subvertendo a teologia da época e elevando o aristotelismo a um grau de abstração superior. Em ambos os casos, parece-nos que os expedientes “topológicos”, diríamos hoje, de reviramento e terceiro incluído utilizados são elementos importantes no refinamento da mística eckhartiana. Não à toa, a proposição da coincidentia oppositorum bem como da docta ignorantia, em Nicolau de Cusa, são suas herdeiras diretas, abrindo o campo para as reviravoltas culturais do Renascimento (Undusk, 2014). 9. Concluiremos esses apontamentos retomando nossa argumentação inicial, mas por outro caminho. A proposição do estatuto místico da psicanálise foi apresentada por Magno em seu Seminário Pedagogia freudiana, em 1992. Ao mesmo tempo um ponto de partida para uma série de questões inovadoras que o autor traria nas décadas seguintes, essa proposição também foi um ponto de chegada. Estavam ali, neste Seminário, uma nova Tópica do Recalque, uma exposição compreensiva da Pulsão como único conceito fundamental axiomaticamente concebida como Haver desejo de não-Haver, a revisão e ampliação das fórmulas da sexuação, e outras contribuições que mostravam ter sido a teoria lacaniana minuciosamente interrogada ao longo dos anos de sua transmissão por intermédio do trabalho teórico e analítico daquele brasileiro. A terminalidade do pensamento de Lacan, apontada cinco anos antes (Magno, 1987), estava fartamente indiciada. Restava um aspecto que continuaria merecendo reflexão e engenharia conceitual, para o que a concepção do estatuto místico da psicanálise foi decisiva: a dispensa da figura da subjetividade. Não que essa “carta de demissão” 326

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não estivesse à mão desde há muito. Na verdade, o sujeito lacaniano entrou na obra de Magno sob o signo da “denúncia”8, para ser tratado progressivamente como empecilho à análise, de que testemunham as expressões “sujeito da renúncia”, “sujeito em abismo”, “dissolução do sujeito”, “réquiem do sujeito”, que encontramos na obra de Magno até o início dos anos 2000 e que desaparecem, na esteira dos desdobramentos teóricos da Nova Psicanálise. À medida que a noção de sujeito era desfigurada e esvaziada à exaustão, entravam em cena questões como neutralidade, lugar terceiro de In-diferença, posição plerômica, mística como exasperação do desejo de não-Haver, regime de sujeito com’Um, entre outros. Quando acompanhamos as aulas de Alain de Libera no Collège de France, nos anos 2013-2014, publicadas com o título L’invention du sujet moderne, é possível ligar os pontos e avaliar, em perspectiva, a pertinência da crítica de Magno. Não que os argumentos de Libera apoiem o percurso deste último. Ao contrário, o autor francês, com sua prolífica erudição somada a grande capacidade de síntese, parece mostrar as razões de o sujeito continuar em uso, depois de hermeneuticamente esclarecido. Contudo, o tiro também sai pela culatra, pois, ao passar pela mística renana e o cenário herético que a cercou, fornece todo um filão de investigação que encontra em Magno sua direção e sentido mais acertados. Segundo Libera, a rejeição de toda mediação é central na teologia do que se convencionou chamar de “mística renana” e nas diversas práticas de beguinagem. Por outro lado, a chave conceitual do universo dionisiano, que informou a organização da igreja, a partir do século VI, é a hierarquia (celeste e humana), garantindo a grande distância entre Deus e o crente, tornado sub-jectus, o subditus, o sujeito, que está submetido, “colocado sob”, subordinado. Ora, Mestre Eckhart sustenta que a verdadeira humildade consiste em rejeitar todo intermediário. Humilhar-se não é se colocar no nível mais baixo; é se colocar no mais alto, numa espécie de contemptus mundi filosófico e teológico: a pessoa se eleva acima do mundo, acima de todas as criaturas, para ser subordinada apenas a Deus, ou seja, entrar em uma relação direta e imediata com 8 Cf. o artigo “O shifter e o dichter”, escrito em 1973 e publicado em Senso contra censo: da obra de arte, etc., em 1977.

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Deus. Esse Deus, por sua vez, está no mesmo lugar e tem idêntica função de não saber, sendo descrito como “obrigado” a se declinar como fato experiencial de radical ignorância, que se constata a cada vez que se aspira à transcendência. Como afirma Eckhart no Sermão 15: “o homem humilde não precisa pedir a Deus, mas pode muito bem lhe ordenar, pois a altura da deidade só tem olhos para a profundidade da humildade; pois o homem humilde e Deus são Um (...). Ele [Deus] deve necessariamente fazer isso; seria obrigado a dever fazer isso; pois ali esse homem é o ser divino e o ser divino é esse homem” (Eckhart, 2006, v. 1, p. 117). Utilizando a metáfora da “centelha da alma”, Eckhart declara, no Sermão 48, não lhe ser suficiente “nem o Pai, nem o Filho, nem o Espírito Santo, nem as três pessoas juntas”. Tal centelha “não se satisfaz com o ser divino simples e parado, que nem dá nem recebe. Ela antes quer saber de onde vem esse ser, quer adentrar o fundo simples, o deserto silente, lá onde nenhuma diferenciação jamais penetrou, nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo. No mais íntimo, onde ninguém está em casa, somente então lá satisfaz aquela luz e ali dentro ela é mais íntima do que é em si mesma. Esse fundo é uma serenidade do silêncio simples, imóvel em si mesma” (Eckhart, idem, p. 270). A psicanálise, com MD Magno, quer acelerar a secularização, partindo de uma visão leiga da Mística como seu estatuto. Esse é o ponto a que queremos chegar. É preciso desfazer-se da armadura religiosa dos temas da encarnação, nascimento, imago Dei, salvação, e trazê-los a seu entendimento pleno, imanente e secundarizante. Desde o lugar experiencial do neutro e da indiferenciação, situar, como declinação sintomática, as narrativas pregressas sobre o liame entre o homem e o cosmos, seja ele de reflexão, repetição, imitação, criação, derivação, origem, descendência, filiação, encarnação e demais figuras filosóficas e religiosas. Qualquer futuro enriquecedor e próspero depende da assunção desse neutro e indiferente, regência de terceiro lugar que orienta a função analista. A mística eckhartiana, nesse sentido, faz parte da história da descoberta do Inconsciente. Por sua vez, a conteudização e figuração dessa experiência psíquica limite, ápice do Inconsciente, está na base do discurso humanista e antropológico desde o Renascimento até Kant. Recalcado o legado místico medieval, o desenvolvimento da ciência galileana, em sua versão restrita e, no século XX, 328

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estendida, com o estruturalismo (Milner, 1995), trouxe consigo a suposição de centralidade do humano, em uma maneira de exorcizar os séculos de domínio religioso e eclesiástico do catolicismo. Consolida-se, na filosofia, a temática do sujeito, que, de subordinado e súdito das autoridades estatais (civis e religiosas), se vê alçado à condição de certeza do conhecimento e segurança de existência. Em meio à reconfiguração planetária das forças políticas e culturais do planeta, a aproximação entre Ocidente e Oriente poderia fazer uso de um caminho comum: a Mística. Seria ela a passagem em continuidade entre tradições tão diversas? A partir do distanciamento e da indiferenciação, do Nada, do Vazio, haveria possibilidade de um novo concerto mundial, agonístico, claro, mas não tão destruidor das riquezas disponíveis? A psicanálise pode ser esse catalisador de postura de secularização e de Terceiro Lugar entre Ocidente e Oriente, articulando de outro lugar, a partir da emergência bífida do Inconsciente. Referências BEZERRA, Cícero Cunha. Compreender Plotino e Proclo. Petrópolis/RJ: Vozes, 2006. BRUNNER, Fernand. “Mysticism et rationalité chez maître Eckhart”. In: Dialectica, v. 45, n. 2-3, 1991, pp. 99-115. CAPUTO, John D. “The nothingness of the intellect in Meister Eckhart’s ‘Parisian Questions’”. In: The Thomist: A Speculative Quarterly Review, v. 39, no 1, 1975, pp. 85-115. ______. “Fundamental themes in Meister Eckhart’s mysticism”. In: The Thomist: A Speculative Quarterly Review, v. 42, n. 2, April 1978, pp. 197-225. COUNET, Jean-Michel. “Ontologie et itinéraire spirituel chez maître Eckhart”. In: Revue Philosophique de Louvain, t. 96, n°2, 1998, pp. 254-280. DIERKENS, Alain and RYKE, Benoit Beyer de (ed.). Maître Eckhart and Jan van Ruusbroec: études sur la mystique “rhéno-flaminde” (XIII-XIV siècles). Bruxelles: Éditions de l’Université de Bruxelles, 2004. ECKHART, Meister. The complete mystical works of Meister Eckhart. Transl. and ed. M. O’C. Walshe. New York: A Herder & Herder Book, 2009. ______. Traités et sermons. Trad. et prés. Alain de Libera. 3ème éd. Paris: Flammarion, 1995. ______. Le grain de sénevé. Trad. Alain de Libera. Paris: Arfuyen, 1996. ______. Sur l’humilité. Trad. Alain de Libera. Paris: Arfuyen, 1998.

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*** • MD – Alain de Libera toma nos textos de Eckhart os temas da obediência e do abandono para mostrar a topologia no sentido de acompanhar as passagens, as reviravoltas e o Terceiro Incluído com que ele opera em seus raciocínios. • Aristides Alonso – No livro Para Além das Colunas de Hércules: uma História da Paraconsistência de Heráclito a Newton da Costa, indicado por Magno em nosso encontro anterior – e que será apresentado aqui da próxima 332

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vez –, os autores ressaltam a questão da insistência da Paraconsistência muito além de ela ter sido assim nomeada. O sucesso da Consistência foi muito forte, principalmente de Aristóteles até a modernidade, mas a insistência da Paraconsistência nunca deixou de estar presente no próprio estatuto da lógica. Aí temos a continuação das questões trazidas por Nelma hoje. • P – A relação da ideia de secularização com a psicanálise já tinha sido feita antes? Falei várias vezes que, para mais que o judaísmo de Freud, do catolicismo de Lacan e do islamismo de Derrida, o projeto da NovaMente é de secularização. • NM – Uma via de entendimento da secularização é, em nossos termos, a ideia de Secundarização. É preciso acelerar a produção do Secundário para torná-lo mais disponível, mais rico, polivalente, no sentido de ajudar a produzir mais Indiferenciação, mais passagens. É por aí que se consegue ir fazendo a análise do sintoma ocidental pesado do Transcendente, de um terceiro que manda, orienta, dá o valor. Quanto mais se secundariza, mais se dessacraliza – pois o Sagrado não há. Abaixo de não-Haver, não há sacralidade. Há, sim, jogo, situações diversas. A secularização é para cuidar do sintoma religioso. E a mística, sobretudo nas mãos de Eckhart, é uma ferramenta sofisticada por derrubar esse sintoma religioso. Ela derruba o transcendente, a hierarquia, o valor entronizado, o intermediário. Ela nos coloca sozinhos. Vejam que o papa tinha razão em querer Eckhart na fogueira. • AA – Se um pensamento como o de Eckhart fosse divulgado naquela época teria praticamente um efeito de demolição do modelo cristão, católico lá instalado. Seria a cura do Terceiro Império. • AA – Como, diante desse Deus, justificar a ideia de inferno? O Deus que manda para o inferno é um Pai, é o Deus juiz, do sim e do não, do é ou não é, do está certo e está errado. É o Deus que está abolido em Eckhart. O que é pecado para Eckhart? Com isso, todo o resto do edifício se desorganiza. A Igreja abomina qualquer discurso questionador. Ela abomina qualquer discurso de poder que seja diferente do seu. Assassina aqueles que ameacem suas bases. O Chicão, que nem é tão radical, 333

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não dorme no Vaticano, pois sabe que pode “acordar” morto, como já ocorreu a papas que propuseram mudanças. • P – No volume I dos Sermões Alemães, publicados aqui pela editora Vozes, Eckhart toma a passagem de Jesus que manda expulsar mercadores do templo para esvaziá-lo. Diz ele que a alma também tem que ser esvaziada, desapegada. A alma, para ele, é um nada. No fundo, a alma cheia é a ideia de Ego. É preciso retirar os mercadores de dentro da alma. O Ego é o mercador da mente. Só sabe fazer negócio. • P – Na seção “A Hipótese Deus”, publicada no Seminário “Psychopathia Sexualis” (1996), você fala do lugar do Gnoma, esse lugar de exasperação no Cais Absoluto diante do não-Haver. Diz você que, nesse lugar, há a suposição de um Há-gente, de um alguém. Em outras teorias e leituras, é nesse lugar que colocam Deus e Sujeito. Minha questão é sobre aparecer a suposição de alguém, de agência, nesse lugar neutro, de Indiferenciação. A agência não supõe as ideias de centralidade e de comando? Não necessariamente. Agente é uma Pessoa, com Primário, Secundário e Originário. Sujeito é coisa de outros discursos. Nada temos a ver com eles. Como Nelma explicou há pouco, o que é agente são as formações em jogo. As formações estão em jogo, isso é que é um agente. Então, é no lugar do Gnoma que as pessoas fazem a suposição de que lá tem alguém, um sujeito, Deus. Nesse lugar de exasperação entre Haver e não-Haver, ao invés de remeterem para dentro, para a Indiferenciação no seio mesmo do Haver – que seria a imanentização da vontade de transcendência –, colocam uma rolha lá fora. Uma rolha chamada: Deus, sujeito, essas bobagens. Nada precisamos colocar lá, podemos só ficar exasperados, e saber que estamos num jogo de pressão entre Haver e não-Haver (este, como sabem, não há). Temos que desistir do não-Haver, e voltar para a imanência mesmo que com a vontade de transcendência. O Tesão não acaba, o que acaba é acharmos que conseguiremos transar com o não-Haver. Não conseguiremos, vamos gozar antes. Mas, no geral, o pessoal acha que lá do outro lado tem uma pessoa que os levará para o céu. • PNC – Primeiro, há que considerar que isso é uma miragem, uma suposição. Segundo, a ideia de Sujeito se forma e se sustenta a partir de um destacamento, ele está fora. E o Gnoma é a exasperação que é afastamento. 334

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Se for conteudizado, virará Sujeito, pois o Sujeito não faz parte do jogo das formações do mundo, está fora. Se existisse, ele exerceria sua operação de conhecimento justo por estar fora do mundo. Então, onde se projetará esse Sujeito? Num ponto de exasperação, e não na maranha das formações. A exasperação é tão grande que só temos uma saída: voltar para dentro do Haver. Se insistirmos em cair fora, teremos que colocar uma rolha para não sairmos pelo buraco do Haver. A rolha se chama: Sujeito, Deus, vida após a morte... Digo que “A morte não há”, pois, antes de morrer, já tínhamos acabado. Não temos experiência de morte, de outro lado. Só temos Tesão no Outro lado – mas o Outro lado goza sozinho porque não existe. Desde Freud e Lacan isso está bem claro no lugar mais importante de analogia desse acontecimento que é a transa sexual. Não importa quem esteja do outro lado – homo, hetero, etc. –, não se vai conseguir gozar por inteiro. Dá-se apenas uma gozadinha, e tchau! Não se vai conseguir, de dois, fazer um. Se conseguir de dois fazer Dois, já se pode dar graças a-Deus. Deus é Aquele, o Haver. O grande engodo das pessoas é, por deficiência mental, sofrerem demais com essa exasperação e, ao invés de voltarem para dentro e fazer algo que preste, ficam rezando para o outro lado e inventando rolhas para tapar aquele buraco. A história é cheia disso. Uma analogia interessante quanto a isso é a história da produção da “filosofia” de Wittgenstein. O primeiro Wittgenstein corre, corre, chega no fim, vê que não há como passar, então diz que isso aí é místico. Mas, depois de levar algumas porradas na vida, percebe que só há jogo do lado de cá. São os dois Wittgensteins, antes e depois de sua análise, que foi feita no tapa, tomando porrada. Mas ele não era burro, não colocou rolha alguma do lado de lá, jogou para a Mística. • PNC – A ideia de Sujeito não é acidental. É um equívoco gerado pelo próprio movimento de exasperação? Ele comparece de várias maneiras. A magia, por exemplo, é a suposição de que podemos transar com o outro lado. Repito, não tem o outro lado – mas é o que a gente quer. • NM – Podemos mesmo dizer que a resposta denegatória que a filosofia deu à mística foi a invenção do sujeito.

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Foi, sobretudo, essa a “inteligência” de Descartes: tomar o sujeito e fazer dele uma escultura. “Penso, logo sou” – que besteira! Se não tivesse inventado a geometria analítica, não se teria respeito algum por ele. • P – Quanto a isso, a transmissão de Sidarta também era no sentido de abdicar da morte. O pessoal o procurava no sentido de sacrificar-se em relação às coisas que mantinham a vida. Ele indicou o caminho do meio, o que é bem mais sofisticado do que o cristianismo. É claro que o budismo, depois, vira uma religião idiota como qualquer outra. Sidarta não tem culpa disso. Dado o que ele disse sobre a reencarnação, por exemplo, as pessoas acham que vão reencarnar mesmo, mas ele estava falando sobre o que Nietzsche chama de Eterno Retorno do mesmo. Cada um tem que viver como se fosse voltar eternamente – aí verá o tamanho da trolha. A ideia de “como se” virou religião. Ficam procurando a reencarnação do Dalai Lama – e o pior é que acham. Têm métodos de sugestão tão sutis que o garoto escolhido cai lá. Não entenderam a piada de Sidarta. • P – Você tem falado da análise como destacamento da fantasia, que seria uma marca da pessoa. Lacan falava dela como relação do sujeito com o objeto a. A fantasia é uma formação específica de alguém em relação a seu gozo. É algo histórico, pessoal, e sem sujeito ou objeto algum. O que há aí é transa de formações e uma constituição que podem ser anotadas como um algoritmo: se isso, então aquilo. • P – Então, a pessoa não chega a não-Haver, mas cada um tem seu jeitinho próprio de não chegar? Sim. Cada um goza por onde pode. Cada um não chega do seu jeito. • P – Tanto no Oriente quanto na psicanálise há práticas para rememorar a experiência de indiferenciação, para chegar, passar ou referenciar-se a esse lugar neutro. Mestre Eckhart também apontava práticas para a mística cristã que estava apresentando? • NM – Por dentro das metáforas daquele momento medieval, por dentro do que tinha que fazer nos conventos, cuidar de noviços, falar com pessoas, parece haver um exercício de constante análise, de postura ante as falsas oposições no sentido de desbancar as sacralidades, as hierarquias e os 336

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binarismos. Ele acolhia e devolvia apontando o outro lado e buscando trazer seus interlocutores para raciocínios do Bífido, como chamamos. Havia farto uso de analogias. Isso é um Ato Analítico. • NM – A via de Eckhart não é de ordem monástica. Ele não está no deserto, não se trata de solidão ou religiosidade boba, e sim de uma atitude refinada de, com quem quer que esteja conversando, acolher o binário e proliferar analogias sem respeito ao que pode ou não. Ele mexe com tudo que for possibilidade de fazer suas analogias sempre para colapsar a oposição. Isso é analítico. Como tomou a Bíblia e a leu psicanaliticamente, disse que estava tudo certo. É o C’est ça!, de Lacan. Ele lia a Bíblia, dizia que era aquilo mesmo – e explicava de outro modo. Por isso, se recusava a ser chamado de herege: “Digo exatamente o que está na Bíblia”. Então, quem foi mesmo que inventou a psicanálise?

46 Teremos hoje Aristides Alonso apresentando o pensamento da Lógica da Paraconsistência, que é importante para nosso trabalho e tem no Brasil um de seus expoentes: Newton da Costa (em 1985, deu um curso em nossa instituição). Sobre essa lógica foi publicado o livro Para Além das Colunas de Hércules: uma História da Paraconsistência de Heráclito a Newton da Costa (2017), de Evandro Luiz Gomes e Itala M. Loffredo d’Ottaviano. Passo a palavra ao Aristides: 337

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*** Paraconsistência e Resistência Aristides Alonso | A9-Cyber 1. Lógica clássica: recusa da contradição – Contradição conduz à trivialização. 2. Lógica paraconsistente – Newton da Costa – Aristóteles, Heráclito e Parmênides. 3. Lógica medieval supera limites do aristotelismo – Lógicas: dos tópicos, das consequências, e das obrigações – Abelardo e Ockham. 4. Teóricos do período moderno pouco contribuem para o desenvolvimento da lógica – Leibniz e Hegel. 5. Paraconsistência: a lógica deve se manter não-trivial – Lukasiewicz – Vasiliev: Lógica imaginária. 6. Wittgenstein – Lógicas não-clássicas. 7. Newton da Costa – Lógica paraconsistente: utilizada em campos que tratam do conhecimento incerto – Paraconsistência e Inteligência Artificial. 8. Diálogos entre NovaMente e Paraconsistência – Revirão e Princípio de Catoptria – Recalque e Ponto Bífido – Princípio de Catoptria: não há paradoxo ou contradição, há avessamento entre termos em oposição. 9. O Inconsciente processa em q-bits e opera no mundo macro/bio em bits. 10. Lógica Resistente, terceira e superior às Lógicas Consistente e Inconsistente – Lacan: fórmulas quânticas da sexuação – As Quatro Lógicas Basais (NovaMente): Resistência, Consistência, Inconsistência e Desistência. 11. Conclusão.

1. Nossa exposição começa com o que Evandro Luís Gomes e Itala M. Loffredo D’Ottaviano, autores do livro Para além das colunas de Hércules, uma História da Paraconsistência: de Heráclito a Newton da Costa (2017)9, apresentam como uma importante corrente de pensadores que vai até Heráclito. Corrente esta que, desde a antiguidade, sustenta a natureza contraditória do mundo, ou do pensamento. Ela tem formas específicas de expressão, mas a vertente lógica que se impôs de maneira dominante, hoje chamada de clássica, foi a da recusa da contradição pelas impossibilidades que acarretaria, ou mesmo pelas dificuldades em manejá-la logicamente. Como se sabe, a Lógica Clássica, postulada por Aristóteles, está baseada em quatro princípios: 9 Cf. Referências, no final da exposição.

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1. Princípio de identidade: A é A 2. Princípio do terceiro excluído: não existe um terceiro termo T (que é ao mesmo tempo A e não-A) 3. O princípio de não-contradição: A não é não-A 4. O princípio de identidade proposicional: se uma proposição é verdadeira, então ela é verdadeira. (Segundo Bertrand Russell: “Once true, always true; once false, always false”).

Do axioma de não-contradição resulta o ex falso (em latim: ex falso quodlibet ou ex contradictione sequitur quodlibet, “a partir de uma contradição, qualquer coisa segue”), uma lei da lógica clássica e de alguns outros sistemas (a lógica intuicionista, por exemplo). Isto é, se uma contradição foi afirmada, qualquer proposição (ou seu inverso) pode ser dela inferida. Também conhecido como princípio de explosão pode ser assim expresso: se algo é verdadeiro e não-verdadeiro ao mesmo tempo, é possível derivar qualquer conclusão desse enunciado. {\displaystyle \{\phi ,\lnot \phi \}\vdash \psi .}O princípio da explosão também é conhecido como ex contradictione [sequitur] quodlibet e ex falso / contradictione [sequitur]. Todas são variações da versão em latim que significa: “da falsidade / contradição obtém-se o que se queira”. Tomem como exemplo a demonstração de Bertrand Russell apresentada em uma de suas conferências para leigos. Ele afirmara que, se um conjunto de axiomas for inconsistente, então qualquer afirmação será demonstrável a partir deles. Na realidade, Russell enunciou esse fato em sua versão semântica, e foi desafiado pela audiência a demonstrar que Smith (um dos espectadores) era Papa, partindo da premissa falsa de que 1 = 0. Para fazer a demonstração, raciocinou da seguinte forma: se 1 = 0, então, somando 1 a ambos os membros, deduzimos que 2 = 1. Pensemos agora no conjunto formado por Smith e pelo Papa. Se esse conjunto tem dois membros, mas como 2 = 1, então podemos dizer que o conjunto tem apenas um membro. Isto é, Smith e o Papa são uma e mesma pessoa. A recusa a esse princípio da lógica clássica – de uma contradição, deduz-se qualquer proposição – é exaustivamente analisada em Para além das Colunas de Hércules. Ela é o gérmen da abordagem paraconsistente 339

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segundo a qual: se uma teoria é portadora de contradição (= inconsistência), nem por isso ela é trivial (necessariamente falsa). Isto, diferentemente do que sucede às teorias clássicas, em que a presença de contradições as conduz inevitavelmente ao colapso, ou, dizendo tecnicamente, à trivialização. 2. A Lógica Paraconsistente nasce da pesquisa em áreas do conhecimento que parecem intrinsecamente envolvidas em trivialidades e paradoxos. Por serem inconsistentes permitem a manipulação lógico-formal de sistemas de proposições que podem encerrar contradições (inconsistências), sem o perigo permanente de trivialização (de tudo ser demonstrável a partir dela). O livro conta essa história desde os primórdios do pensamento ocidental até o pleno estabelecimento da paraconsistência com as decisivas contribuições teóricas de Newton da Costa e sua Escola. Na primeira parte, em dois capítulos, são identificados, reconstituídos e analisados os principais argumentos de personagens cruciais para o período que os autores denominam “Pré-história da paraconsistência”. Aí estão as digressões de pensadores da antiguidade grega (Heráclito de Éfeso, Aristóteles, os estoicos...) e do período medieval (Pedro Abelardo, Pedro Hispano, Guilherme de Ockham...). Na segunda parte, também em dois capítulos, são reconstituídas e analisadas as ideias de Descartes, Kant, Hegel, Leibniz, Vasiliev, Łukasiewicz e demais precursores da paraconsistência nas primeiras décadas do século XX. O ponto alto desse desenvolvimento ocorrerá com as contribuições de Stanisław Jaśkowski e Newton da Costa, que estabeleceram definitivamente o paradigma paraconsistente no contexto da lógica contemporânea. A paraconsistência – hoje estudada em todo o mundo – foi criada e cultivada até seu pleno desenvolvimento teórico por um grupo de pesquisadores de lógica, brasileiros e estrangeiros. O livro documenta os principais episódios desse importante e bem-sucedido capítulo da história da filosofia e da ciência no Brasil, em que alguns acontecimentos memoráveis, como a introdução do adjetivo “paraconsistente” para nominar tais lógicas, tiveram lugar na própria Unicamp, em 1976. Nesta data, o filósofo peruano Francisco Miró Quesada o apresenta no III Simpósio Latino-Americano de Lógica Matemática (SLALM).

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A analogia que aparece no título do livro advém da metáfora, evocada por Miró Quesada – a transposição das Colunas de Hércules da Lógica –, que a creditou a Newton da Costa, em carta enviada a ele, Miró. Assim, ao criar a lógica paraconsistente, ampliam-se os limites conhecidos da logicidade. Com efeito, as Colunas de Hércules, cada uma às margens do estreito de Gibaltrar, foram consideradas por séculos os limites extremos à navegação dos povos marítimos do mundo mediterrâneo. Analogamente, Newton da Costa, tal qual os navegadores modernos, ultrapassa as colunas de Hércules: estes, rumo a novas terras; da Costa, rumo a novas perspectivas da logicidade. No Capítulo 1, “A Pré-história da lógica paraconsistente”, as noções de consistência e inconsistência são tematizadas desde os primórdios do pensamento filosófico ocidental. Aqueles que abordaram a questão delinearam soluções tanto no paradigma lógico-filosófico, quanto no lógico-paraconsistente lato sensu. Heráclito de Éfeso, um dos primeiros a abordar abertamente o problema, concluiu que as contradições expressam de modo nítido e não trivial o verdadeiro estofo dos fenômenos no cerne da realidade. Suas teses constituem um dos primeiros exemplos de pensamento paraconsistente ocidental, cuja lógica subjacente é inconsistente e não trivial. Embora outras soluções tenham sido adotadas na fase antiga da lógica ocidental, pode-se afirmar que a ideia que predominou foi a que mencionamos acima: a contradição é nociva ao pensamento correto. A consistência lógica é, então, tomada como importante característica das teorias racionais verdadeiras em oposição às teorias falsas e triviais. Nesse contexto, a ideia de consistência é importante para a definição correta do Ser e das maneiras de dizê-lo. Firma-se, daí, progressivamente, desde Parmênides até os estoicos, com a contribuição de Platão e Aristóteles, uma abordagem teórico-racional de caráter lógico-clássico, na qual se estabelece pouco a pouco a estratégia de refutação das hipóteses que conduziam à contradição. Já Aristóteles vai além. Em seu sistema dedutivo, estuda os silogismos a partir de premissas opostas (contrárias e contraditórias), os quais admitem conclusões negativas. De acordo com os autores do livro, esse tipo de silogismo aristotélico assegura a essas demonstrações o status de teoria paraconsistente lato sensu. Nos Primeiros analíticos, há elementos em que ele desaprova regras lógicas como o ex falso quando, de um antecedente constituído por afirmações 341

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contraditórias, podem derivar quaisquer outras proposições. Isso também seria um resultado paraconsistente na consideração dos fundamentos da consistência. Os lógicos estoicos foram também decisivos, mas há poucas fontes textuais e testemunhos disponíveis. O que se verifica é sua perplexidade diante da derivação de qualquer consequente a partir de antecedentes falsos. Esses pensadores cultivaram o estudo de paradoxos e deixaram o legado de uma lógica proposicional assentada em conceitos-chave da teoria das consequências – que tratará do ex falso no período subsequente – que não se ajustam bem ao legado de Aristóteles. Sexto Empírico pode ter colaborado nessa empreitada de recusar o ex falso justamente porque um B não está incluso em A nem em não-A. Essa leitura já é paraconsistente lato sensu. Em Heráclito de Éfeso, destaca-se sumariamente que: 1. A harmonia dos opostos apresenta três aspectos principais (GUTHRIE apud GOMES e D’OTTAVIANO, p. 54): a) tudo é feito de opostos e, portanto, sujeito a tensão interna; b) os opostos são idênticos; c) o conflito é o estado próprio e correto das coisas, força criativa que as governa. 2. A doutrina da harmonia dos opostos tem suscitado múltiplas leituras; 3. Heráclito admite a unidade do que está contraposto, dos contrários, como o verdadeiro e absoluto substrato das coisas.

Há farta discussão sobre a vigência do princípio da não contradição em Heráclito por parte daqueles que consideram Hegel o filósofo que retoma e considera as teses heracliteanas sobre a harmonia dos opostos e sua lógica. Aristóteles acusou Heráclito de ter violado o princípio da não contradição: se estamos e não estamos, se somos e não somos, se as coisas são e não são, há afirmação de uma inconsistência, o que viola o princípio da não contradição. O fragmento que Aristóteles tinha em mente era: “Nós pisamos e não pisamos no mesmo rio; nós estamos e não estamos”. Para Heráclito, os opostos são idênticos mediante a teoria do fluxo (panta rei): “É como uma mesma coisa, 342

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existem em nós a vida e a morte, a vigília e o sono, a juventude e a velhice; pois estas coisas, quando mudam são aquelas e aquelas, quando mudam, são estas” ou “O caminho a subir e a descer é um e o mesmo”, ou em espanhol, “el caminho hacia arriba es el caminho hacia abajo” (p. 60). Conforme os autores: “Ele não tinha o olhar estrito de Aristóteles para a lei da [não] contradição, e pronunciou seus paradoxos com satisfação” (id.). Assim, se as teses de Heráclito fossem formalmente descritas e logicamente estruturadas, pode-se dizer que se constituem como uma teoria contraditória, mas não trivial, isto é: uma lógica paraconsistente (˧P Ax ˄ -Ax). Por outro lado, Parmênides de Eléia identifica o contraditório ao falso: “aquilo que é e que é impossível não ser” (p. 65). Então, a contradição acarretaria a initeligibilidade. Ele diferencia a afirmação e a negação como polos opostos de enunciação e de pensamento racional. Se negar e afirmar são opostos, sua conjunção é impossível: “Um, [aquilo] que é que [lhe] é impossível não ser”. As teses de Parmênides são fundamentadas nos três protopincípios básicos do pensamento dedutivo. Ao contrário de Heráclito, ele defendeu que o contraditório, o falso e a descrição racional e verdadeira do ser são incompatíveis. 3. No Capítulo 2, “Elementos lógico-paraconsistentes em autores medievais”, acompanhamos a descrição das questões relativas ao ex falso na lógica medieval. “Vocatus atque non vocatus Deus aderit” (Erasmo de Roterdam): “Invocado ou não invocado, Deus estará presente”. Os pensadores medievais recuperaram, conservaram, modificaram e combinaram o legado lógico antigo de acordo com suas próprias ótica e interesse. A época foi marcada por forte sincretismo, fusão de elementos teóricos das tradições peripatéticas (Aristóteles) e megárico-estóica, e forte pressão teológica também. Aristóteles, quando procurou tratar do sentido da proposição hipotética, demonstrou claramente uma necessidade como nessa regra acerca da proposição hipotética, que apresentou deste modo: ‘o mesmo, quando é e não é, necessariamente não é o mesmo’, como se dissesse que diante da afirmação e da negação do mesmo não se segue o mesmo consequente (p. 145).

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Três teorias lógicas medievais – dos tópicos, das consequências, e das obrigações – permitiram estudar como alguns autores conceberam o ex falso e como lidaram com a ocorrência da contradição no dito discurso racional (p. 147). Duas grandes linhagens: a “logica vetus”, a lógica velha, centrada no estudo dos termos, da predicação e da relação entre as oposições, com proximidade com a lógica, a gramática e a metafísica. E, do outro lado, os moderni, dedicados à lógica nova, centrada nos Analíticos e atribuindo ao silogismo a primazia sobre as demais doutrinas lógicas conhecidas. A lógica especificamente medieval superará amplamente os limites do aristotelismo. Diversos autores reforçam a tese de que aspectos da lógica paraconsistente já estão presentes nos pensadores medievais principalmente em Pedro Abelardo, Roberto de Melun (e sua escola), João de Salisbury, Pedro Hispano, Henrique de Ghent e Guilherme de Ockham. A teoria das consequências (=consequentiae) desses autores geralmente tinha o objetivo de resolver problemas filosóficos e teológicos. Destaque-se o poder dissuasor do ex falso, que conduzia a consequências inconvenientes em filosofia e em teologia. Isto, quando não fazia sentido admitir o impossível ou o contraditório à ortodoxia doutrinária que seria referendada por essa regra. Assim, a solução encontrada foi interditar o ex falso como regra lógica lícita para que a teoria das consequências remanescente fosse consistente com os pressupostos filosóficos e teológicos de cada autor. Tal solução é paraconsistente lato sensu, ao menos formal e sintaticamente. Constata-se, então, nesses pensadores, forte tensão teórica quanto às questões da consistência e da inconsistência de contextos racionais, como de contextos filosóficos e teológicos. Tal tensão girou em torno do aceite ou da recusa à regra lógica do ex falso sequitur quodlibet. À medida que a regra do ex falso era aceita, constituíam-se também soluções lógico-clássicas do debate sobre a validade lógica das formulações advindas da contradição. Assim, ao recusar o ex falso e as soluções lógico-clássicas à questão da contradição, vários autores delinearam uma abordagem alternativa que continha elementos pertencentes ao paradigma paraconsistente. Tal recusa produziu ao mesmo tempo uma depuração, uma revisão do panorama lógico-clássico e de suas soluções típicas. Destacam-se nesse trabalho os discípulos de Adão de Balsham, mas principalmente Pseudo-Scotus. Essas questões formuladas pelos 344

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pensadores medievais serão de suma importância para aqueles denominados Modernos. Para os autores, parece temerário associar o ex falso a qualquer atribuição eponímica da qual decorre uma revisão desse método. A negação da regra, non ex falso, pode ser chamada de “Lei de Abelardo”, um dos primeiros a recusar abertamente o ex falso. As abordagens lógicas de Boécio sobre o ex falso levaram outros autores a uma postura paraconsistente, como a posição de Pedro Abelardo, um dos lógicos mais importantes de Idade Média. Para ele, a verdade do antecedente é inseparável do consequente, a condição de inseparabilidade. Mantinha um posicionamento contrário ao ex falso e talvez não pudesse admitir essa possibilidade por razões doutrinárias religiosas que levariam a conclusões altamente indesejáveis. Esperava com essa condição afastar as conclusões inconvenientes. Vejamos um argumento de Abelardo para demonstrar a inconveniência do ex falso: 1. Se Sócrates é homem, não é pedra. 2. Se Sócrates é pedra, não é homem. 3. Portanto, se Sócrates é homem e pedra, não é homem e pedra.

O argumento conclui por um absurdo que afronta os princípios implicativos ao derivar um condicional em que o consequente se segue de sua própria negação. Nesse caso, ser homem e ser pedra são opostos e o que é predicado de homem é instantaneamente suprimido de “pedra”. Se é pedra, não é homem. Tal conclusão não seria absurda se Abelardo aceitasse o ex falso sequitur quodlibet, princípio que ele recusa implicitamente. Vemos em Pedro Damião (sec. XI) que, ao dissertar sobre a onipotência divina, admite que Deus poderia violar o princípio de não contradição, criando pedras tão pesadas que ninguém poderia levantá-las e atando nós que não poderiam ser desfeitos, mas Ele [Deus] poderia fazer, já que, por sua natureza divina, perfeita e onipotente não se sujeita às contingências que constrangem a criação. Deus pode passar sem o princípio da não contradição, o gênero humano não. Mas também reconhece a luta política de Aristóteles em defesa desse princípio em favor de uma ciência nascente com tanta gente contra ele. 345

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Outros adversários medievais do ex falso indicados pelos autores são Roberto Bacon, Pedro Hispano, Roberto de Melun e Henrique de Ghent. Guilherme de Ockham, na Summa Totius Logicae, assume um resultado que inscreve sua teoria lógica sob a égide da paraconsistência. Ele exclui o ex falso do rol das consequências formais válidas, relegando-o ao domínio circunstancial das consequências materiais. Isto se deve à pouca utilidade que via nessa regra. Para ele, as consequentiae são concebidas como maior generalidade do que os silogismos (p. 194). Para isso, estabeleceu as oito regas gerais da teoria das consequências que eram mais amplas do que o silogismo clássico (p. 194-5). A pedra angular da paraconsistência em Guilherme de Ockham aparece no enunciado: Outras regras são referidas, de que ‘do impossível segue-se qualquer coisa’ e que ‘o necessário segue-se perante qualquer coisa’; por esta razão segue-se que ‘tu és asno, portanto tu és Deus’, além disso, segue-se ‘tu és branco, portanto Deus é trino e uno’. Tais consequências, porém, não são formais, por isso estas regras não são muito utilizadas (p. 197).

Para vários autores, a teoria das consequentiae de Ockham é formalmente paraconsistente lato sensu, uma vez que o ex falso não é formalmente válido, estando restrito ao contexto das consequentiae não formais (p. 198). 4. Segundo os autores, toda a complexidade sintático-semântica da lógica medieval seria relegada a segundo plano ou ao esquecimento, já que apenas pequena parte daquele legado correspondia efetivamente aos interesses epistêmico-metodológicos que caracterizaram as discussões teóricas da modernidade. No contexto moderno, recai sobre a lógica a árdua tarefa, própria do Iluminismo, de dar ao homem o pleno uso de sua razão através da manipulação correta das operações do entendimento e do método racional e científico. Nesse momento, há mesmo certo afastamento da formalização lógica, até certa hostilidade à lógica, como na lógica de Port-Royal, que é avessa inclusive ao formalismo e sempre se afasta de fórmulas esquemáticas na busca de exemplos concretos do contexto em que emergem. A lógica de Port-Royal foi

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considerada uma “lógica informal”, inovadora, voltada para a argumentação em âmbito interdisciplinar e nos discursos que estavam sendo considerados. Ao contrário do que se pensa, para os autores modernos, a lógica consiste basicamente em rejeitar a lógica elaborada por Aristóteles e os escolásticos e enxertar numeroso material psicológico. Buscava-se a produção de princípios para o correto emprego de todas as operações da mente, as quais contribuem para a cognição. Os teóricos do período pouco contribuíram para o desenvolvimento da lógica formal propriamente dita. Neles, temos a vigência de uma postura lógico-clássica típica. A exceção é Leibniz, cuja posição se destaca e inspira inúmeros autores na tentativa de construir o cálculo lógico. Já o sistema de Hegel descreve o real-racional (sic) em sua filosofia e culmina em uma abordagem paraconsistente. Sua influência não pode ser desprezada. Teóricos como Lukasiewicz e Vasiliev fizeram com que figurasse como um dos precursores das lógicas paraconsistentes por restaurar a importância da contradição em seu sistema de pensamento. Sua concepção de verdade requisita a negatividade, a insconsistência e a contradição como constituintes essenciais do real e da razão modo lato. A lógica de Hegel não busca apenas isolar e cristalizar a contradição. Ao contrário, sem descartá-la e a admitindo, busca superá-la na passagem final da tríade dialética (tese, antítese, síntese). Esse procedimento não visa apenas à redução ao absurdo. O objetivo não reside na tentativa de manter a negatividade e a contradição, mas suprassumi-la (Aufhebung). Assim, Hegel antecipa a substituição do princípio de não contradição pelo princípio de não trivialização proposto por Newton da Costa como o verdadeiro fundamento da logicidade. Seu todo lógico-real não existiria sem a antítese e encontra seu cume na síntese: o momento lógico quando a contradição é superada. Hegel sempre advogou que tudo é produto do contraditório. Essa concepção não é precisamente a mesma que vigora na paraconsistência, pois ele não reduz à mera conjunção de duas proposições ou sentenças contraditórias, nem argumenta que uma proposição dessa ordem seja verdadeira. Mas ela certamente é não clássica. A lógica é, então, retomada apenas no início do século XX. Isto, devido à necessidade de esclarecer a noção de número e as novas entidades matemáticas

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que surgiram no século XIX com o advento das geometrias não euclidianas, das estruturas algébricas e da teoria dos conjuntos. 5. Nas veredas da lógica contemporânea já nos deparamos com autores que afirmam a paraconsistência, tais como Vasiliev e Jan Lukasiewicz. E, para a paraconsitência, importa à lógica manter-se não trivial, como se fosse um vale-tudo sem sistema de operação. Diz Vasiliev: A geometria não euclidiana é a geometria sem o quinto postulado de Euclides, sem o assim chamado axioma das paralelas. A lógica não Aristotélica é a lógica sem a lei da [não] contradição. Aqui não é demais complementar que principalmente a geometria não euclidiana nos serviu como modelo para a construção da lógica não aristotélica (p. 299).

Lukasiewicz, por sua vez, mostra no projeto de lógica não-aristotélica como a noção de consequência silogística se mantém mesmo sem o recurso ao princípio da não contradição. Ele especifica pela primeira vez os diferentes significados do princípio de não contradição e faz críticas a esse princípio, o que abre para lógicas não aristotélicas. E também demonstra, de modo direto, o princípio de não contradição em abordagem distinta da empregada por Aristóteles. Sua resposta é negativa quanto à necessidade deste princípio para a lógica. Para ele, não deve haver princípios intocáveis, principalmente quando são infundados como o axioma das paralelas na geometria, e o princípio da não contradição em lógica. Esse princípio é dispensável e não faz falta à lógica. Além disso, as razões para a aceitação desse princípio são mais antropológicas do que lógicas. Já Nicolai Alexandrovich Vasiliev elabora um plano das lógicas não aristotélicas: a lógica imaginária referida a mundos imaginários, diferente do mundo em questão na lógica clássica. Trata-se de “mostrar a possibilidade de existência de outra operação lógica diferente daquelas que usamos; e mostrar que a lógica aristotélica é somente um dos muitos sistemas lógicos possíveis” (p. 327). A lógica imaginária de Vasiliev é a lógica despojada da lei da não contradição: 348

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Pode parecer absurda a própria ideia de outra lógica diferente da nossa, absurda porque estamos acostumados com a ideia de uma que não pode ser contraditória. Contudo, isso é apenas uma explicação psicológica da nossa certeza quanto à unicidade da lógica; todavia, ninguém ainda demonstrou tal unicidade (p. 326-7).

Há autores que consideram Vasiliev precursor da lógica paraconsistente, e outros, da lógica polivalente. Ele propôs também a metalógica: A metalógica relaciona-se com a lógica empírica como o concreto com o abstrato, como o pobre com o rico, como o mínimo como máximo. Metalógica é aquilo que é comum a todas as lógicas e, por isso, ela é mais pobre em conteúdo que as demais lógicas. Nela entra somente a forma, não o conteúdo, e por isso é mais pobre em conteúdo (p. 332).

Vasiliev afirma que a metalógica é a lógica do conhecimento perfeito, a lógica sem juízos negativos. Parece apontar para o mesmo apreço que Leibniz tinha pelo princípio de identidade. Mas, segundo os autores, Vasiliev não construiu a formalização dessa lógica, apenas apontou para ela, destacou sua possibilidade. 6. Como vimos, a história da paraconsistência e da criação da lógica paraconsistente perpassa toda a tradição ocidental, dos primórdios da filosofia grega a nossos dias. O estudo da negação, da contradição, o tema da inconsistência e a trivialização e modos de lidar com elas agitam os pensadores desde o início de nossa civilização. A solução paraconsistente permite uma nova compreensão do conhecimento humano nos mais diversos níveis. Stanislau Jaskowski e Newton da Costa foram os que formularam a paraconsistência stricto sensu. Mas, de fato, da Costa é considerado o criador ou formulador da lógica paraconsistente em sua versão mais bem-acabada. Essa lógica é empregada hoje no mundo todo nos mais diversos campos do conhecimento e da tecnologia, em particular na robótica e na Inteligência Artificial (IA). O ex falso no Principia Mathemática, de Bertand Russel e Alfred North Whitehead, também foi amplamente considerado. A ideia de que uma proposição falsa implicaria qualquer proposição, uma lógica tolerante à contradição, 349

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não fazia parte do horizonte teórico desse projeto matemático, embora Bertrand Russell declare em Introdução à filosofia da matemática que o princípio de não contradição “não é o mais importante de todos os axiomas” (p. 341). Apesar disso, predomina a ideia de que toda contradição e inconsistência deve ser evitada e banida do século XX: “Arautos da consistência, a posição por eles mantida, tremendamente clássica, faria escola” (id.). Willard von Orman Quine, amigo de da Costa, também mostrava menosprezo pela paraconsistência. Para ele, é impossível admitir qualquer traço de inconsistência sem trivialidade já que com o aparato clássico é impossível neutralizar o ex falso. Ludwig Wittgenstein mostrou muitos pontos de vista que se coadunam com a lógica paraconsistente. Inicialmente, estava comprometido com uma visão clássica – como no Tratactus logico-philosophicus –, que excluía inteiramente abordagens paraconsistentes e foi um crítico dos Principia Mathematica, do que ele chamava de “Russell’s calculus”. No período transicional de seu pensamento, começa a fazer concessões à admissão de contradições e reconhece seu papel na edificação de teorias, embora ainda acredite que os paradoxos e as antinomias devam ser resolvidos removendo-se as ambiguidades e os equívocos (p. 347). Wittgenstein considerava inócuo o programa finitista de Hilbert e sua premência por provas de consistência para restaurar a solidez e a confiabilidade na matemática. Ele admitiu certa tolerância para com a contradição, especialmente no último estádio de seu pensamento, bem como a viabilidade de teorias e cálculos lógicos contendo contradições. Mas ele mesmo não concretizou projeto algum nesse sentido. Seus discípulos e seguidores foram mais rápidos em aceitar novos sistemas lógicos, como os de Post, Lukasiewicz e Heyting. Entre eles, estava Rudolf Carnap, que fez o célebre manifesto de amoralidade em lógica, que inspirou da Costa a formular seu princípio de tolerância em matemática, e que iria subsidiar seu empreendimento em lógica paraconsistente. Assim, apenas com o surgimento das lógicas de Lukasiewicz em 1920 e com Post no ano seguinte emergiria o que pode ser considerado um sistema lógico de fato heterodoxo. Essas lógicas não eram consideradas como não clássicas, mas como não aristotélicas. De fato, então, antes da lógica paraconsistente de da Costa, que deu a essa lógica um estatuto definitivo, há os 350

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trabalhos fundamentais de Jaskowski e Vasiliev que fundamentaram as bases da paraconsistência. Stanislaw Jaskowski manteve correspondência com da Costa e morreu jovem. Uma das principais motivações que levaram Jaskowski a elaborar uma lógica tolerante para com a contradição foi a constatação da presença de enunciados contraditórios na linguagem cotidiana e na ocorrência de hipóteses contraditórias na explicação dos enunciados em ciência teórica. Newton da Costa faz uma série de apontamentos juntamente com Lukasiewicz sobre o princípio da não contradição em Aristóteles e enumera Hegel e Marx como importantes defensores de que a coexistência de enunciados contraditórios é possível. Os autores do livro que estamos expondo consideram Jaskowski e da Costa os que primeiro descortinaram a paraconsistência stricto sensu, particularmente o último que inaugura a paraconsistência contemporânea. 7. Newton da Costa é o protagonista atual na história da lógica paraconsistente. Abriu seu caminho a partir de pesquisas e intuições independentemente dos trabalhos de Jaskowski e de outros pensadores da paraconsitência. Feito notável dado o fato de, no Brasil, a lógica ainda estar no estágio moderno-neoescolástico-positivista. Ele manteve contato com os maiores expoentes da lógica do século XX, além de estar familiarizado com as grandes questões matemáticas e lógicas de seu tempo: o programa e o pensamento de Wittgenstein, o programa de Hilbert, o projeto de Russell e Whitehead, bem como as contribuições decisivas de Gödel, Alonso Church e Turing. Seu trabalho se desenvolve primeiramente na Escola de Curitiba, fruto do empenho de diversos matemáticos que lá atuaram nos anos de 1940 e 1950 e que perdurou até 2000. A segunda iniciativa ficou conhecida como Grupo de São Paulo em lógica. Newton da Costa parece sugerir que, ao invés de excluir as contradições, seria apropriado modificar os sistemas dedutivos para torná-los aptos a lidar com elas. Essa hipótese é bastante original, pois, à época em que a propôs, ele desconhecia as ideias de Vasiliev, Lukasiewicz e Jaskowski, pensadores fundamentais no surgimento e na construção das lógicas paraconsistentes. Na sequência, da Costa propõe sistemas cada vez mais abertos: “... nada impede que estudemos sistemas de qualquer natureza. Todo sistema matemático 351

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é lícito desse prisma, desde que não seja trivial, pois, então, seria destituído de interesse para o investigador (p. 417). Para propor essa abordagem ele já vislumbrava o quão independentes podem ser as noções de consistência e não trivialidade. Assim, na lógica Cn, os sistemas paraconsistentes Cn facultam atingir aquele estádio em que se pode declarar inaugurada a era da lógica paraconsistente. Sobre razão e trivialização, da Costa afirma: “De um modo impreciso, poderíamos afirmar que a razão humana parece atingir o ápice de sua potência quanto mais se aproxima do perigo da trivialização” (p. 453). A lógica paraconsistente faz parte das lógicas não clássicas, pois contém disposições contrárias a alguns dos princípios básicos da lógica aristotélica, como o princípio da não-contradição. Segundo ela, uma sentença e sua negação podem ser ambas verdadeiras e apresentam alternativas a proposições, cuja conclusão pode ter valores além de verdadeiro e falso – tais como indeterminado e inconsistente. No estudo da semântica, ela se aplica especialmente aos paradoxos. Por exemplo, considere a afirmação “o homem é cego, mas vê”. Segundo a lógica clássica, o indivíduo que vê, um “não-cego”, não pode ser cego; já na lógica paraconsistente, ele pode ser cego para ver algumas coisas, e não-cego para ver outras coisas. Newton da Costa provou que é possível criar sistemas lógicos que admitem a contradição, sem que esta seja expulsa ou imploda o sistema (advertência sempre trazida por Karl Popper, defensor ferrenho do princípio da não contradição). Lógicas paraconsistentes são propositalmente mais fracas que a lógica clássica: elas resolvem poucas inferências proposicionais válidas. O ponto é que uma lógica paraconsistente nunca pode ser uma extensão proposicional da lógica clássica. Ou seja, validar proposicionalmente tudo que a lógica clássica valida. Em certo sentido, então, a lógica paraconsistente é mais conservadora ou mais cautelosa que a lógica clássica. Na realidade cotidiana, as inconsistências são importantes e não podem ser desprezadas porque são as informações contraditórias que trazem fatos relevantes, às vezes modificando completamente o resultado da análise. A existência da inconsistência é que induz ao sistema promover buscas. Ela procura novas e esclarecedoras informações com consultas a outros informantes para obter uma conclusão mais real e confiável.

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Seja uma proposição que contenha a premissa: “Esta maçã é vermelha”. Sob a perspectiva de lógicas clássicas só poderemos afirmar que ela é vermelha (verdadeiro) ou não é vermelha (falso). Entretanto, sabemos que a maçã pode possuir diversas tonalidades, variando do verde ao vermelho. A representação de tal proposição em computação binária se torna impossível, já que o modelo binário tem grandes dificuldades de tratar inconsistências, ambiguidades, paradoxos e incertezas que ocorrem com frequência na chamada “realidade”. A lógica paraconsistente pode, portanto, ser utilizada em diversos campos em que é necessário o tratamento do conhecimento incerto. Ela se destina a tratar situações como essa, capazes de construir raciocínios a partir de informações provindas de observações divergentes, sem informação sobre os observadores que as fizeram. Mediante essas premissas, podemos não só inferir novas conclusões, mas também introduzir novas premissas para obter nova gama de conhecimentos. Outras definições importantes que completam o entendimento da lógica paraconsistente: 1. Uma lógica L chama-se paraconsistente se puder servir de base para teorias inconsistentes, mas não-triviais. 2. Uma lógica L é chamada de paracompleta se puder ser a lógica subjacente a teorias nas quais se infringe a lei do terceiro excluído na seguinte forma: de duas proposições contraditórias, uma delas é verdadeira. 3. Uma lógica se diz paracompleta se nela existirem teorias não-triviais maximais às quais não pertencem dada fórmula e sua negação. 4. Uma lógica L é denominada não-alética se L for paraconsistente e paracompleta. Uma das áreas em que a lógica clássica se mostrou ineficiente foi a da inteligência artificial, proposta em sistemas especialistas, em que incertezas, ambiguidades e contradições são constantes. Nosso cérebro (nossa mente) trabalha bem com contradições, pois estamos constantemente sujeitos a esse tipo de informação. A lógica paraconsistente pode modelar o comportamento humano e assim ser aplicada em sistemas de controle por se apresentar mais completa e adequada para tratar situações reais, com possibilidades de, além de tratar inconsistências, também contemplar a indefinição. Desenvolvimentos atuais da lógica paraconsistente abrangem: a) caracterização, decidibilidade e semântica; b) métodos dedutivos; c) paraconsistência 353

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e lógicas polivalentes; d) paraconsistência e lógicas anotadas; e) a teoria da quase verdade; f) teoria de quase-conjuntos; g) cálculo diferencial paraconsistente e outros mais, com empregos nos mais diversos âmbitos: psicanálise, psicologia, medicina, robótica, IA – Inteligência Artificial, cervejaria, etc. 8. Apresentamos agora um possível diálogo entre articulações produzidas pela NovaMente e questões apontadas pelas pesquisas sobre a paraconsistência. Retomando, temos que, para a lógica clássica, a contradição, o falso (ex falso), o paradoxo, a violação do princípio de não contradição aristotélico significa formalmente um impasse e indício de erro grave. Um paradoxo é uma declaração aparentemente verdadeira que leva à contradição em termos ou à situação que contradiz o senso comum. De modo simples, um paradoxo é “o oposto do que alguém pensa ser a verdade”. A identificação de um paradoxo baseado em conceitos aparentemente simples e racionais tem, por vezes, auxiliado significativamente o progresso da ciência, filosofia e matemática. A etimologia da palavra vem de textos do início do Renascimento, 1500, período de acelerado pensamento científico na Europa e na Ásia. A base está na palavra latina paradoxum, mas também no termo grego paradoxon. O prefixo para- significa “além de”, “contrário a”, “alterado” ou “oposto de”, e o sufixo nominal doxa significa “opinião”. Muitos paradoxos dependem da suposição de que a linguagem (falada, visual ou matemática) modela de forma acurada a realidade que descreve. Em física quântica, muitos “comportamentos paradoxais” podem ser observados (o princípio de incerteza de Heisenberg, por exemplo) e alguns já foram atribuídos ocasionalmente a limitações inerentes da linguagem e dos modelos científicos que os formalizam. Alfred Korzybski resume o conceito declarando que “o mapa não é o território”. Outro problema comum de limitação da linguagem é o verbo ser. Estudos sobre ontologia – o Ser enquanto Ser – não constituem campo consistente e assim qualquer declaração que inclua o ser como elemento essencial pode estar sujeita a paradoxos. Um dos exemplos mais conhecidos de paradoxo semântico é “O mentiroso”, “Epimênides” ou “O cretense”: “Epimênides é cretense e afirma que todos os cretenses mentem”. Então Epimênides

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mente se e somente se não mente. Ou então, Epimênides não mente se e somente se mente. Há vários outros tipos de paradoxo: de confirmação, existenciais... Vamos, então, às articulações da NovaMente, aparelho teórico-clínico apresentado por MD Magno nos anos 1980 na esteira de Freud e Lacan (este, na década de 1970, já formulara as Fórmulas Quânticas da Sexuação, com as lógicas do Todo e do Não-Todo, que interessaram bastante a da Costa). Segundo Magno, algo que sempre chamou a atenção no pensamento é o fato de, ao que quer que seja colocado para nossa mente, o contrário também ser pensável ou requisitável. Mesmo que pareçamos constantes, o que se passa em nossas mentes é um vale-tudo radical, pois, ao que quer que se diga, com um pouco de esforço, é possível virar pelo avesso ([1999]: p. 29)10. Muitos pesquisadores já se depararam com essa qualidade basal da mente, a qual, só está aparentemente fixada, configurada mediante aparelhos de recalques, limitações e travamentos de quaisquer ordens. A essa competência da mente e suas possibilidades, a Nova Psicanálise ou NovaMente chama de Revirão, fundamentado no Princípio de Catoptria (do gr. katóptron = espelho). Este é um princípio de base psicanalítica que afirma: o que quer que haja evoca seu avesso ou enantiomorfo. Enantiomorfismo, no caso, entendido como a operação de avessamento de quaisquer formações que a mente seja capaz de sonhar, pensar ou imaginar. Isto, por sua competência fundamental ser a habilidade de propor uma formação em avesso apta a abolir qualquer princípio de contradição. Esta competência mental é dada, disponível a qualquer pessoa. Mais ainda, o Princípio de Catoptria aponta para um desejo de simetria absoluta pensado como princípio organizador de tudo que há em qualquer tempo e/ou lugar. Esta simetria acontecer ou não não é a questão principal, pois é dependente das condições de resistência, de recalques, das formações em jogo aqui e agora. O que se demonstra com esse princípio é a simetria como possibilidade constante e sempre em busca de sua realização ([1990]: p. 117). O funcionamento do princípio de catoptria é conjeturado para o Haver (o que quer que haja), donde sua aplicação aberta e genérica: o que quer que haja, em qualquer ordem de havência, tem a propriedade de ser uma forma simetrizável 10 Os textos de MD Magno são referidos por seu [ano] de apresentação pública. Ver Referências, no final da apresentação.

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ou reversível em seu avesso, contrário ou oposto. Trata-se de catoptria radical, pois ao que quer que se coloque, tem-se o avesso em todos os sentidos: enantiomorfia total (id.). Assim, esse princípio de puro espelho estabelece o modelo de operação lógica de avessamento que estrutura os movimentos da mente e do Haver, ponto fundamental da obra de Magno. E, diante dele, não há possibilidade de haver paradoxo, já que o paradoxo resulta de uma semântica opositiva binária que polariza as significações de maneira excludente. Reconhecer que o homem é um ser artificialista, tecnológico, um “deus de prótese”, como disse Freud ([1930]), tornou-se senso comum em nosso tempo. Ele é o criador de mundos mediante artifícios e artefatos, mediante operações de transformação ou metamorfose de tudo que o cerca, pois tem competência mental para isso. Nesse sentido, verifica-se que não há barreira radical ou heterogeneidade entre o que ele constrói artificialmente e o mundo natural e físico em que vive. Não há, portanto, contradição ou exclusão definitiva entre as formações disponíveis, pois as fronteiras são contingentes e passíveis de serem desfeitas ou ultrapassadas. Então, se a mente funciona segundo o princípio de catoptria, o qual a capacita a operar metamorfoses no mundo, deve haver compatibilidade entre o sistema que nos constitui e aquele que podemos transformar mediante novos artifícios. Quaisquer limitações ou recalques com que nos deparamos diariamente – naturais ou culturais –, quaisquer oposições, paradoxos ou contradições são efeitos de limitações ou fronteiras que, de algum modo, produzem a separação das coisas entre si, gerando a relação “sim / não”, “dentro / fora”, “eu / outro”, “inclusão / exclusão”, etc. Por outro lado, quaisquer artifícios que fabricamos são possibilidades de dissolução de tais limites e fronteiras, embora também eles possam se tornar novas formas de prisão e limitação posteriormente por declinação e reificação. Não há a prótese definitiva que possa resolver tudo de uma vez por todas, assim como não há um princípio de exclusão que sustente o processo em definitivo, a não ser mediante fortes aparelhos de recalque e de exclusão, que podem ser ultrapassados e reconfigurados ao longo do tempo. A mente é, pois, concebida como máquina que espelha ou revira o que quer que se lhe apresente, produzindo o arquivo infinito de artifícios (a cultura) com que a humanidade convive há milhares de anos. Esse modelo destaca a 356

abstrato, como o pobre com o rico, como o mínimo como máximo. Metalógica é aquilo que é comum a todas as lógicas e, por isso, ela é mais pobre em conteúdo MD Magno

que as demais lógicas. Nela entra somente a forma, não o conteúdo, e por isso é

função de avessamento ou Revirão de que o cérebro é capaz como sendo a função originária que teria tornado possível o surgimento da linguagem, da arte, da técnica, da ordem simbólica, das lógicas (com suas transcrições ou traduções culturais e comportamentais). > p. 352: Retirar negrito da vírgula: consistente. Sobre razão e trivialização, da Costa Dadas essas articulações, no modelo do Revirão proposto pela Novaafirma: “De um modo impreciso, afirmarpois ela se orienta pelo Princípio Mente não há paradoxopoderíamos nem contradição,

mais pobre em conteúdo (p. 332).

de Retirar Catoptria.sinal: Há, sim, do recorteedo discurso que terização, decidibilidade semântica; b|) esbarra métodosemdedutivos; > p. 354: | :reconhecimento

uma incompetência ou inadimplência linguística formal ou gramatical de deterc) paraconsistência minado enunciado dependente da configuração de dada língua e sua formação Vamos, lógico-matemático então, às articulações da NovaMente, aparelho teórico> p. 355:histórica Retirar negrito: (Everett). O modelo empregado para a descrição dessa operação mental é a cinta de Moebius. Descrita de maneira analógica, a clí estrutura de última instância do psiquismo funciona como uma cinta de Moe> p. 358: Incluir desenho do Revirão: bius, que Magno chama de contrabanda. A figura que se desenha do percurso 1) longitudinal sobre sobre essa contrabanda é uma curva que que a matemática designa como oitolongitudinal essa contrabanda é uma curva a matemática designa

interior: como oito-interior:

Revirão é, portanto, o nome dado ao percurso do oito-interior na cinta Revirão é, portanto, o nome dado ao percurso do oito-interior na cinta 2) Retirar negrito das vírgulas: Bifididade é, pois, a principal característica do de Moebius. Essa superfície assim constituída opera como uma máquina lógica Inconsciente, de dos movimentos da mente. Por ter só um lado e uma face, podemos conjeturar nela – ao um contrário da o superfície euclidiana em quee vemos um e outro > p. 359:que, Diminuir pouco desenho do Revirão centralizar lado e só passamos de um para outro mediante agressão, um furo –, por con1. Lógicaoutro. do Sexo Resistente > p. 362:tinuidade, Colocarpassamos o número 1 em negrito: de qualquer ponto a qualquer E se desenharmos > p. 363:um ponto orientado para a direita (+), quando, após a passagem, ele chegar ao outro ponto, estará para a esquerda (–). Então, virou ao contrário e podemos 10 considerar a primeira passagem, direita, e a segunda, esquerda, como opostas. O lugar onde há Revirão é o ponto neutro, ponto não-orientável dos matemáticos, que Magno chama de Ponto Bífido: passagem de positivo a negativo e/ou 357

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vice-versa. A Bifididade é, pois, a principal característica do Inconsciente, embargam sua manifestação. É possível construir fronteiras ou não de nosso funcionamento mental. querer considerar ladosespírito, da questão, comopode costumamos Dizemos, então, queum algodos em nosso em nossa mente, fazer percurso complexo de modo a intervir ordem do mundo e reverter fazer. Podemos colocar linha na divisória no meio da banda e as formações já dadas, o que resulta em alguma forma de conhecimento. O

estabelecer que disponível “é proibido passar” umcomparece lado para outro, como avesso, que está sempre em algum lugar,de só não porque há recalques poderosos que embargam suapois manifestação. É possível construire obrigar a muros impedem a passagem, têm poder de limitar fronteiras ou não querer considerar um dos lados da questão, como costumamos considerar só linha um divisória lado da questão mas, sequenão houver fazer. Podemos colocar no meio da banda–e estabelecer “é proibido passar” de umserá lado para outro, como muros impedem a passagem,de pois impedimento, possível passar em continuidade um a outro têm poder de limitar e obrigar a considerar só um lado da questão – mas, se não lado. O desenho Revirão operações oito interior houver impedimento, serádo possível passareemsuas continuidade de umsobre a outro olado. O desenho do Revirão e suas operações sobre o oito interior é: é: + (Barreira - Recalque) – Ponto Bífido

Mediante esses raciocínios, entende-se por que não há paradoxo para a lógica do Revirão. Só há contradição ou paradoxo se consideramos apenas umpara lado, sea nosso pontodo de vista for o de Só um dos amputando-se lógica Revirão. hápolos, contradição ouo resto paradoxo se das formações em jogo. Contradição é uma operação encarecida na lógica consideramos apenas um lado, se nosso ponto de vista for o de um clássica, no modelo clássico de pensamento filosófico ou geométrico. Magno pergunta responde): dos (epolos, amputando-se o resto das formações em jogo.

Mediante esses raciocínios, entende-se por que não há paradoxo

Se aplico o Revirão, não há. na O que digo aqui e Contradição Háé paradoxo? uma operação encarecida lógica clássica, no agora, levado em conta que o halo significante a cada momento

do dizer mas foi recalcado, recortado, quando determodelo clássico deé completo pensamento filosófico ou geométrico. Magno minado discurso esbarra numa frase paradoxal ele simplesmente esbarrou em sua incompetência ou temporal, de nível de tempo, pergunta (e responde): ou gramatical, de algum nível em que dentro daquele enunciado a paradoxalidade parece à tona. Mas, paraHá paradoxo? Se aplico o vir Revirão, nãoconsiderada há. O queessa digo aqui doxalidade no nível de que o que quer que haja há em avesso

e agora,

levado em conta que o halo significante a cada momento do dizer é

completo mas foi recalcado, recortado, quando determinado discurso 358

esbarra numa frase paradoxal ele simplesmente esbarrou em sua

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aqui e agora, pelo menos do lado transcritivo, não há paradoxo algum ([1989]: p. 18).

Não há necessidade de considerar qualquer tipo de paradoxo, e sim todas as possibilidades de expressão que ficaram estagnadas ou reificadas em apenas uma das possibilidades de sua expressão. Abre-se, então, caminho para um longo trabalho teórico-conceitual a partir da afirmação de que, diante do Princípio de Catoptria, não há paradoxo ou contradição, pois há o avessamento em vigor entre os termos supostamente em oposição. 9. Vejamos agora sucintamente como Magno toma a frase de John Wheeler – it from bit – para apresentar o Princípio de Catoptria por via da Bifididade ([2010]). O que dizer sobre o it do bit? Todo it, isto é, toda coisa, toda partícula, todo campo de força, todo o campo do Inconsciente e das formações básicas do Inconsciente, e mesmo o próprio continuum espaço-tempo, deriva sua função, seu significado, sua própria existência, inteiramente – ainda que, em certos contextos, de forma indireta – das respostas extraídas pelos instrumentos e perguntas sim/não escolhidas binariamente como bits. Afirma-se assim que o it da coisa, o Es freudiano, o Id, o Isso, é essencialmente pré-clivado e que todas as abordagens reduzem a bits (0/1), à oposição (+/–): It (ICS) from Bit (Cs). Há pensamentos contemporâneos que caminham para essa confluência. A diferença entre a posição da Nova Psicanálise e a do físico é que este supõe o tal limbo e que a realidade seja criada com a observação. A chamada realidade é uma leitura em oposição (+/–), ao passo que o Real mesmo, aquele de cada partícula, de cada significante, é um havente em (±). Não é que a observação crie a realidade, e sim que o Real é assim, e a abordagem decai e reduz, pois a aparelhagem funcional macro, bio e linguageira é opositiva, pobre. O planeta, os sólidos do universo, etc., são constituídos por decadência, por Quebra de Simetria. Nas teorias da computação e da informação, em função da ideia cada vez mais frequente de computação quântica, cresce a necessidade de consideração da paraconsistência. Um computador que calcule ao mesmo tempo 359

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com 0 e 1 terá tanto a possibilidade de aumentar a chance criativa de seus resultados, como de processar para um lado ou para o outro. É, então, a partir do que disseram a psicanálise, os escritores, os pensadores, os místicos, etc., que Magno afirma que o cérebro humano – de maneira generalizada, o Inconsciente – arquiva informações, quaisquer, em q-bits, e não pode operar nos mundos macro e/ou bio senão em bits. Mas a memória é em q-bits. 10. Na história do pensamento ocidental, pelo menos, tem sido comum considerar as formações mentais que governam os modos de articulação como ligados à Lógica. São modos de articulação importantes, mas podem produzir processos opressivos no próprio campo do pensamento. Ideias da lógica clássica como princípio de não contradição, ex falso, princípio de explosão e outras são expressões modais de apenas uma das lógicas: a consistência. Mas há também, como dissemos, a inconsistência (paraconsistência), considerada ora positiva ora negativamente pela lógica ao longo do tempo, a qual já havia sido acolhida formalmente pela psicanálise desde Lacan e, de forma implícita, desde Freud. Lacan ([1972-73]), para pensar a sexualidade humana e sua expressão segundo o paradigma freudiano do Inconsciente e da Pulsão, propôs as fórmulas quânticas da sexuação com o intuito de estabelecer as lógicas em jogo na expressão do que chamou de Homem e Mulher, nomeações dependentes da noção de falo. Magno faz a crítica dessa dependência ([1999]: p. 103-120) e as desdobra em quatro formulações não mais presas a essa noção, e sim derivadas de um axioma básico inspirado no conceito freudiano de Pulsão, Trieb ([1999]: p. 147-150 e [2000/2001]: p. 145-162). As duas formulações lacanianas são agora tratadas como Consistência e Inconsistência e são duas expressões possíveis de uma terceira lógica, anterior e hierarquicamente superior: a Lógica Resistente. A quarta é a Lógica Desistente: uma expressão limite, pura negação de qualquer possível, de qualquer existência, e escreve uma impossibilidade absoluta de expressão. As quatro lógicas são, então, denominadas: Consistente e Inconsistente, as duas decorrentes da lógica Resistente, e a lógica Desistente. As lógicas construídas por Lacan (Homem e Mulher) são reposicionadas e se tornam possibilidades de expressão de uma lógica hierarquicamente anterior. 360

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A lógica da Resistência é uma lógica da pura afirmação, sem negação ou contradição de qualquer espécie, inspirada, como dissemos nas ideias freudianas de Inconsciente e Pulsão, Trieb. São quatro formulações denominadas lógicas basais. Decorrem da hipótese da Pulsão e dos conceitos de denegação (Freud [1925]: Die Verneinung) e recalque, que operam sobre o movimento pulsional mediante alguma limitação, e não mediante suposição de negação, pois esta, por não ser pensável sem um Sim prévio, é da ordem do impossível absoluto para a psicanálise. Ou seja, segundo este pensamento, não pode haver negação absoluta, já que o não-Haver não há. Isto, segundo o axioma de base proposto como Alei: Haver desejo de não-Haver (A  Ã), modo de formular a ideia princeps da psicanálise, a Pulsão de Morte pensada por Freud ([1920)]. Qualquer não, para ser proferido, diz respeito a algo que, antes, há, tem existência para depois ser negado: há que antes entrar na conta para depois ser excluído. Então, Não, antes de ser não, é Sim, para depois ser “não” através da denegação. A Pulsão, com sua eterna vocação para extinção absoluta, pode ser parcial e temporariamente recalcada, denegada, mas jamais negada por inteiro, pois esta operação é impossível. Existe, portanto, o princípio de denegação que é coadjuvante do Revirão e do Princípio de Catoptria, como vimos antes. Isto é, tudo se afirma, nada pode ser destruído, mas o que se afirma (o que há) pode ser negado segundo o princípio de denegação, mas não por inteiro. A partir daí, operamos com afirmação ou denegação, mas a denegação será de algo que há, e que está sendo limitado, recalcado. O princípio de afirmação é então: só há o Haver, e o não-Haver não há. Pode-se modalizar ou modular o movimento da Pulsão pela denegação e/ou pelo recalque, que cuida para que o denegado não retorne como retorno do recalcado. Assim, no que se segue, quando se fala em negação, devemos entender que se trata tão somente das possibilidades de denegação. Na sequência das fórmulas quânticas da sexuação, de Lacan, são quatro as lógicas pensáveis pela NovaMente segundo as hipóteses freudianas de Inconsciente e de Pulsão na consideração dos sexos possíveis e seus modos de expressão. Nelas, a Consistência é tão somente uma possibilidade, e não a única como na lógica clássica aristotélica. A sexualidade (e seus expedientes de gozo) ganha assim seu modelo lógico: primeiramente, a Lógica do Sexo 361

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Resistente, que pode ser expressa em Lógica do Sexo Consistente e em Lógica do Sexo Inconsistente; e, por último, a Lógica do Sexo Desistente. 1. Lógica do Sexo Resistente ($xFx.~∀x~Fx) O sexo que há é primeiramente o Resistente e decorre da pura afirmação da Alei: Haver desejo de não-Haver. Em sua formalização, considera que o excessivo resultante da insistência da Pulsão nem por isso pode negar Fx (pulsão/tesão) sem enunciar, desse mesmo lugar, o próprio excesso. Assim, não há em lugar algum denegação universal dessa função. O Sexo Resistente é, então, a afirmação da Pulsão em sua existência ($x), sem recair na Consistência, na tendência a formar Todo ou Universal, ou tampouco na Inconsistência, na abertura ilimitada ao Não-Todo que, enquanto tal, ficaria sem possibilidade de arrolamento, segundo o teorema de Lacan. É a vigência do princípio de afirmação antes mencionado. Esse modelo evidencia o lugar e o sentido da sexualidade para a Pessoa, e abandona de vez as categorias do binarismo explícito da tradição freudiana e implícito nas elaborações formalizadoras do pensamento lacaniano (“Homem” / “Mulher”). A Resistência tanto mais se evidencia quanto mais expõe o regime da Alei e a impossibilidade de atingimento da simetria absoluta proposta pelo movimento pulsional. Está assim formulado o sentido do Sexo como Sexão/Secção em sua plenitude. Se existe pelo menos um x que é função Pulsão ($xFx), e se essa função pode ser denegada em seu universal, mas não denegada por inteiro (~∀x~Fx), então é o regime da pura existência ($x) que é afirmado: há pelo menos Um, independentemente de consistência ou da inconsistência. Ou seja, há algo que resiste, como pura “havência” libidinal ou pulsional que atravessa tanto o regime da Consistência quanto da Inconsistência e de suas particularidades. Trata-se de resistência irredutível do que Há, que fica esquecida ou recalcada nas fórmulas lacanianas. Essa função, que existe e não pode ser negada por inteiro ($xFx.~∀x~Fx), é o movimento pulsional no empuxo de gozo impossível – Morte, Nirvana, Extinção Absoluta –, que nunca acontecerá, pois seria a cessação absoluta da função Pulsão mediante negação universal (~$xFx.∀x~Fx) (cf. abaixo). Porque isso não é possível, embora seja o único sentido da Pulsão, Freud destacou primeiramente a Pulsão de Morte, que, entretanto, só se dá como Resistência, pois a Morte não há para a psicanálise. 362

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No teorema do Revirão, isso tem o estatuto de Lei Fundamental, a Alei: a existência ou “havência”, pura resistência, em movimento de Desistência (cf. abaixo), mas que se depara com a impossibilidade de fato, com o limite absoluto, a partir do qual tudo revira e retorna ao mesmo campo do Haver, pois não há outro. 2. Lógica do Sexo Consistente ($x~Fx.∀xFx) Existe pelo menos um que diz não à função Pulsão ($x~Fx) para formar Todo ou universal (∀xFx). Se existe pelo menos um excedente, pode-se constituir conjunto fechado, com fronteiras e limites, pois do lado de fora coloca-se pelo menos um que suspende a série, que faz exceção. Por exemplo, só posso dizer que “tudo é azul” se existe pelo menos um que não é, para que tudo seja. 3. Lógica do Sexo Inconsistente (~$x~Fx.~∀xFx) Se não existe nenhum que diga não (~$x~Fx), há apenas o não-Todo (~∀xFx), isto é, se não existe limite, o conjunto não se fecha e se infinitiza. Assim, a lógica da Resistência frequentemente se expressa como Consistência, mediante exclusão que fecha o conjunto, ou como Inconsistência, sem exclusão, e então fica-se sem saber onde começa e onde termina o processo. Daí o sexo basal da Pessoa ser o Sexo Resistente (também chamado de “Sexo dos Anjos”), que se manifesta como consistente ou inconsistente segundo as definições acima. 4. Lógica do Sexo Desistente (~$xFx.∀x~Fx) Se houvesse essa possibilidade de expressão, seria a negação por inteiro da função Pulsão ou Tesão (Fx)11: (∀x~Fx). Para que isto fosse possível seria necessário que sua afirmação não tivesse qualquer existência (~$xFx) e seria o fim de Fx: extinção, morte. Porém, dado que a função Fx, em suas vicissitudes, é eterna, o Sexo Desistente bate na impossibilidade de existência por simplesmente não haver. As lógicas Consistente e Inconsistente ganham, portanto, sentido diferente de “Homem” e “Mulher”. A lógica Consistente não é mais o modelo universal que distingue o verdadeiro do falso e evita a contradição e o paradoxo. 11 Lacan designava a função fálica como Fx. Para Magno, após criticar o conceito de Falo na psicanálise, Fx significa a função Tesão, tradução do termo freudiano para Pulsão (Trieb) ([2000/2001]: p. 135).

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Passa a ser uma expressão possível de uma lógica anterior e hierarquicamente superior, a lógica Resistente, e se constitui mediante uma operação violenta de exclusão e denegação que produz a possibilidade do princípio de explosão e a consideração do ex falso como um raciocínio válido. Pode ser muito útil e às vezes necessária, mas deixa de ocupar o lugar que lhe dava a lógica clássica desde Aristóteles. A lógica Inconsistente também ganha seu lugar de direito como outro expediente de expressão da lógica Resistente. Nela, o processo se abre à multiplicidade e à infinitização sem necessidade do princípio de não contradição. Essas Quatro Lógicas Basais são concebíveis por não haver negação no Inconsciente freudiano. Nele, não há NÃO, não há FALSO (ex falso): Ex falso quodlibet (Do falso tudo é permitido). O Inconsciente é o lugar de todas as possibilidades, é o lugar da pura disponibilidade. Destacam-se, então, dois pontos importantes: (1) A estrutura do Inconsciente não é igual à das linguagens conhecidas. (2) Pode-se continuar dizendo, como Lacan, que o Inconsciente “é estruturado como uma linguagem”, pois o “como” é metafórico e vale para qualquer coisa, mas o Inconsciente não é estruturado como linguagem alguma possível de ser falada. Há uma queda de nível na expressão linguística, e não é possível tratar o Inconsciente como se fosse estruturado como uma língua, por exemplo. Não o é, pois sofre redução, decadência, ao se exprimir. 11. Ao longo desta exposição, vimos a importância da Lógica Paraconsistente no âmbito do conhecimento atual e a longa tradição de suas questões e princípios. Desde antes de Aristóteles, a questão da negação e da exclusão era objeto de reflexão e articulação. Haja vista, por exemplo, o embate de Aristóteles com Heráclito e sua ferrenha defesa do princípio da não-contradição, princípio que também embasa o que ficou conhecido como lógica clássica ou aristotélica. A problematização do princípio da não-contradição atravessa a história da lógica até se afirmar como uma forma de lógica mais ampla e mais forte do que a lógica clássica tradicional. O que está em jogo nessa disputa é a forte defesa da ideia de Consistência como aquela capaz de estabelecer, com segurança, uma distinção entre verdadeiro e falso. Decorre daí o princípio de explosão, o ex falso e a 364

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trivialidade que comentamos. A Lógica Paraconsistente dá lugar merecido a essa parte excluída pela lógica da Consistência e mostra que ela também pertence ao campo da lógica, não pode ser excluída e tem competência para contemplar proposições que, de outra maneira, seriam relegadas à Inconsistência e desprezadas como trivialidade pura e simples. Quanto ao que interessa à psicanálise – e à Nova Psicanálise em particular –, buscamos mostrar que essas questões também já estavam em Freud com seu modelo de Inconsciente: aquilo que não tem negação, tempo ou destruição possíveis (morte). Lacan apresentou as fórmulas quânticas da sexuação e mostrou o lugar lógico da Inconsistência (Paraconsistência) ao lado da lógica da Consistência. Deu à Inconsistência um estatuto de lógica também ao reformular os três princípios aristotélicos que fundavam a lógica clássica e seu primado de exclusão com o princípio de explosão (o que é, é / o que não é, não é) e de ex falso. Magno aproveita o passo de Lacan e afirma o primado de uma lógica hierarquicamente superior e anterior, a lógica da Resistência. E traz também uma quarta lógica, da Desistência, que bate em ponto morto, pois escreve a lógica da morte absoluta. Ela expressa precisamente o que a psicanálise reconhece como impossível absoluto desde as formulações freudianas de Inconsciente e de Pulsão de morte. Embora alguns lógicos (Luiz Sergio Coelho de Sampaio, René Guitart, p. ex.) já tenham considerado e desenvolvido articulações pertinentes à logica tal qual trazida pela psicanálise, o campo carece de maior interlocução com os pesquisadores de Paraconsistência. Isto seria muito benéfico neste momento em que se buscam novas soluções lógicas e matemáticas para a computação e a informação em crescimento disruptivo no atual cenário mundial. Referências EVERETT, Daniel L. Linguagem: a história da maior invenção da humanidade. São Paulo: Contexto, 2019. D’OTTAVIANO, M. Loffredo; GOMES, Evandro Luís. Para além das colunas de Hércules, uma História da Paraconsistência: de Heráclito a Newton da Costa. Campinas: Unicamp, 2017.

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FREUD, Sigmund. [1930] O Mal-Estar na Civilização. In: Obras completas, volume 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. ______. [1925] A negação. In: Obras completas, volume 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. ______. [1920] Além do Princípio do Prazer. In: Obras completas, volume 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. LACAN, Jacques. [1972-73] Mais, ainda. Seminário 20. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. Versão brasileira: MD Magno. MAGNO, MD. [2010] O Halo Bífido do Inconsciente. In: TRANZ. http:// www.tranz.org.br/5_edicao/TranZ10-Magno.pdf. ______. [2000/2001] Revirão 2000/2001. Rio de Janeiro: NovaMente, 2003. ______. [1999] A psicanálise, novamente. 2ed. Rio de Janeiro: NovaMente, 2008. ______. [1990] Arte&Fato: A Nova Psicanálise: Da arte total à Clínica Geral. 2ed. Rio de Janeiro: NovaMente, 2018. ______. [1989] Est’Ética da psicanálise: Introdução. Rio de Janeiro: Imago, 1992. *** • MD – O Quarto Império está começando a entrar à revelia das pessoas com uma lógica não consistente. Ele está entrando com as quatro patas. • P – Separa-se a lógica de seu conteúdo? Das formações às quais ela está sendo aplicada? Ou seja, há engrazamento entre o que está sendo articulado logicamente e alguma realidade? • AA – A lógica trata de articulações, as quais podem levar a modos de funcionamento. Vasiliev até chamará de lógica imaginária. É possível fazer suposições e conjeturas em campos os mais diversos. Em Alice no país das maravilhas, por exemplo. Faz-se uma narrativa, um construto. Dentro das possibilidades do que for considerado, “se isso, então aquilo”. Fazer assim é possível, e é depois que se verão suas aplicações. A matemática foi feita desse modo. A lógica booleana só veio a ter funcionalidade fora da matemática com

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a computação e a teoria da informação. Não se sabe até hoje para que serve o teorema de Fermat, formulado no século XVII... E há outro detalhe. Apesar de se chamar lógica, não é necessariamente linguagem. Por isso, Einstein dizia não pensar em termos de linguagem: a língua não entrava em seus raciocínios. A língua é sintomática demais. Se raciocinarmos só com ela, ficaremos amarrados a seu sintoma. Um lógico não faz isso, articula de outro modo. Aí é que vai minha crítica ao “Inconsciente estruturado como uma linguagem”, de Lacan. Temos o defeito histórico do uso do termo. Fala-se em linguagem da computação, mas não é linguagem, e sim uma articulação que extrapola qualquer semântica. • AA – Há língua e linguagem, e você está colocando articulação como mais ampla que ambas. É um cacoete chamar tudo de linguagem. Por analogia, começaram a chamar qualquer tipo de articulação de linguagem. São articulações – é o que chamo ART. É da ordem da Arte. Entre outras coisas, as línguas são modos de articulação sintomática. Meu radical ART está acima de linguagem. Ele suporta o que diz Einstein, suporta a cabeça do matemático, do lógico. Poderíamos perguntar a Newton da Costa se ele pensa e fica falando com as formulações. Me parece claro que não. • P – Joyce, então, para você, é mais um articulador do que um literato? Que ART está lá em jogo? Pegou essa mania ruim de chamar de linguagem grandes processos de articulação. É mera analogia, mas confunde demais. Joyce não se reportou à língua para fazer a loucura que fez. Sua referência para fazer o que fez foi quase matemática. • Patricia Netto Coelho – A lógica não nasceu com o grau de abstração que tem hoje. Há uma dependência dela em relação à língua grega. Donde Heidegger estar errado ao supor que só se pode fazer filosofia em grego e em alemão. Ou seja, só há dois sintomas válidos. Os demais não servem para nada. • PNC – O que é a proposição “o não-Haver não há” que você coloca? É o que você nos explicará em nosso próximo encontro.

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• AA – Minha próxima questão seria justamente essa. Trata-se de consistência aí? Saiam dessa.

47 Teremos hoje Patrícia Netto Coelho apresentando para nós uma questão importante. Depois de sua apresentação, pretendo conversar com vocês a partir dos pontos que ela colocar. *** Psicanálise & Lógica: ‘O não-Haver não há’ Patrícia Netto Coelho 1. Lógica / lógicas – Incidência da Lógica na psicanálise. 2. A contradição – A teoria da predicação e o conceito filosófico de Ser – O conceito de Universal – O impossível modal – O ‘católico’. 3. Ideia de sujeito resulta de uma história de equívocos – A imputação – Ideia de conhecimento tributária da língua grega. 4. Fórmulas da sexuação, de Lacan – “Não há relação sexual” – Não existe o universal – Os quantificadores e a Denegação (Freud) – Sexo Desistente, Sexo Resistente. 5. ‘Não haver o não-Haver’ não é da ordem da predicação: não há cópula lógica – Haver e Ser.

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1. A questão surgiu sábado passado após a apresentação de Aristides Alonso aqui nos SóPapos 2020, de MD Magno, sobre a história e os princípios da Lógica Paraconsistente. Ao final, coloquei a pergunta: “Como ler a anotação mínima a partir da qual Magno refaz o campo da psicanálise: ‘O não-Haver não há’?” Como ler esta anotação do ponto de vista da lógica? É possível fazer uma leitura da lógica que a situe nas lógicas existentes? Ou há que fazer algum tipo de esclarecimento e reconfiguração da própria ideia de lógica? Pensei, então, alguns caminhos para, minimamente, situar o problema – porque é um problema –, já que a pergunta não é facilmente definível, respondível. Além disso, há nesse contexto algumas questões que devem ser melhor colocadas ou abordadas pela psicanálise. Por exemplo, deveríamos entender, do ponto de vista da psicanálise, o que é essa ferramenta que estamos chamando de lógica, que tem longa história e grande diversidade de expressões. Hoje, não falamos A Lógica, e sim em muitas lógicas. Isso tem incidência no campo da psicanálise sobretudo a partir de Lacan, que, explicitamente, conversou com a lógica de Aristóteles e propôs uma mudança em seus princípios. Mas essa incidência, implicitamente, já comparecia em Freud que tem formulações ainda não completamente esgotadas. Seu texto A Denegação (1925) é rico e importante – inclusive, quanto a pensar o que é lógica – tanto para o entendimento das operações mentais possíveis segundo a psicanálise, quanto para o reconhecimento de que há Inconsciente. Há também outras formulações suas mais pontuais em relação à ausência de contradição no Inconsciente, ausência de negação, de morte, de tempo. São categorias marcadoras do pensamento ocidental que, em Freud, estão inteiramente suspensas. É igualmente importante entender as consequências disso, pois uma série de conceitos foi produzida a partir da lógica aristotélica, que dura muitos séculos com seus princípios de não-contradição, de identidade e de terceiro excluído. Ela só foi efetivamente revista, ultrapassada, modificada, já quase na virada do século XIX para o XX. Durante esse tempo, ela não ficou com aquela forma aristotélica dos silogismos, ganhou outras expressões, mas sempre baseada nesses três princípios.

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2. A ideia da Lógica Paraconsistente é tão somente pensar a questão da contradição e considerar outros usos para ela distintos da lógica aristotélica. O conceito de sujeito, por exemplo, é resultado quase que imediato dessa lógica aristotélica. A ideia de universalidade e certa ideia de conhecimento também se estruturam em função de seus princípios. Então, a lógica aristotélica não é um tipo de ferramenta que faz série com outras, ela tem lugar destacado. Isso não quer dizer que seja consonante com o que estamos pensando, mas seu destaque é grande. Tratarei rapidamente de um princípio bem básico presente na lógica aristotélica. Farei isso pensando em Lacan e também na ideia de mais duas fórmulas lógicas que Magno supôs necessário acrescentar às duas de Lacan. O que Aristóteles está pensando sobre lógica se baseia em uma teoria da predicação. Teoria esta baseada no conceito filosófico de Ser, que está se formando naquele momento da Grécia. Conceito este, por sua vez, derivado de uma categoria da língua grega: o verbo ser. Então, a teoria da predicação tem uma espécie de unidade básica, que é o que Aristóteles chama de enunciado, de proposição. Se quisermos um modo mais contemporâneo, a forma básica desse enunciado será: S é P. Temos aí S, que chamaremos de sujeito, mas é um conjunto de fatos do mundo sobre os quais quer-se registrar, constatar e estabelecer algum tipo de conhecimento. Há, portanto, certa ambição de estabelecer que este enunciado, sob a forma S é P – S: sujeito; P: predicado; e é: o verbo falando da relação entre os dois termos –, produza algum enunciado verdadeiro. Essa forma lógica básica da predicação não é simplesmente descritiva, ela tem ambição de pretensão de verdade. Daí vir a questão do princípio de não-contradição, pois algum tipo de princípio normativo tem que incidir sobre essa forma lógica – e a verdade só se pode dizer no sentido da não-contradição. Já nasce então certa concepção de verdade: um princípio ordenador e normativo das coisas, do que podemos enunciar e pensar sobre o mundo. Ou seja, muitas coisas já se decidem aí nesse momento. Assim, temos os três elementos: sujeito, predicado e o que, mais próximo de nós, chamam de operador copulativo. Sujeito: pensado como “o assunto sobre o que se pretende falar”. O que tem a ver com um ato também de linguagem, o Predicado: aquilo que se propõe, que se afirma ou nega, que 370

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se atribui ou não sobre esse assunto. O operador copulativo pode assumir duas formas: afirmativo e negativo. São as formas fundamentais: ou se afirma, ou se nega nesse jogo, nessa situação de regras mínimas. Se afirmar, você estará colocando em relação o predicado e o sujeito. Se negar, estará produzindo uma separação, uma disjunção entre esses dois termos. E há ainda, na teoria da predicação de Aristóteles, a função dos quantificadores, que foi importante para Lacan. A ideia de não-todo (pas-tout), ele a cria sobre a função do quantificador. Quantificador é a possibilidade de estabelecer a quantidade. É uma questão quantitativa em relação ao termo sujeito: todo, algum, nenhum – isto é o que estão chamando de quantificador. Há também os operadores modais: é possível, necessariamente. Aristóteles já reconhecia essas possibilidades de modalização. É, aliás, interessante um esclarecimento quanto ao fato de Magno criticar o conceito de universal e, ao mesmo tempo, estabelecer enunciados universais. A expressão mais usada por ele é da ordem de um operador modal, e não de um quantificador. Quando diz, por exemplo, o que quer que se diga é da ordem do conhecimento, isto não é um enunciado de universalização, e sim de modalização. Ou seja, não é uma questão quantitativa, e sim uma forma abrangente – genérica, mesmo – de situar o conhecimento e suas articulações, sua legitimidade, sua validação. Isso é importante, porque não é universal. Vejo também outro problema. Não pesquisei a fundo, mas acho um problema por não conseguir achar uma expressão lógica para a ideia de um impossível modal trazida por Magno. Que expressão lógica poderíamos pensar nas lógicas para ela? Não vi nenhum sistema lógico, do ponto de vista dos operadores modais, que estabeleça a impossibilidade no nível modal. Acho importante buscar essa expressão lógica, pois há certa novidade na ideia de impossível modal, que não está em Lacan e tampouco nas lógicas clássicas, pelo menos. E há o conceito de Haver, que também não é quantitativo, não está quantificando a ordem de todas as coisas que existem. Não é um conceito que está falando sobre a existência de tudo, e sim um regime de existência. É mesmo difícil situá-lo entre as características comuns da lógica, pois é um conceito complexo, não redutível ao que já se produziu em termos de categorias lógicas. Como adendo, em relação à questão do universal, tomo uma dica de Jean-Claude Milner sobre a transformação do todo aristotélico. Na passagem 371

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do termo grego para o latim – obviamente, a língua já cristianizada –, o todo aristotélico sofre uma modificação enorme. Diz ele que não há a ideia de universal nos gregos. Há, sim, a ideia de todo, a qual, ao se traduzir e se substantivar – em grego, é uma expressão adverbial, não é substantiva –, ganha o sentido e a consistência que o conceito de universal tem. De certo modo, o universal é uma invenção dessa confluência da língua latina com o cristianismo. O termo católico – ‘universal’ – é uma derivação do termo grego katholikós que é simplesmente: afirmar, enunciar algo do ponto de vista do todo. Não é uma operação de universalização. Esta é tardia em relação aos termos gregos usados por Aristóteles para montar a sua lógica. 3. Retomo agora a questão do Sujeito, que é bem trabalhada por Alain de Libera em seus cursos no Collège de France. Entre outros pontos, mostra ele como a ideia de sujeito resulta de longa história de equívocos, de sobreposições, deslizamentos de significados e termos. Por exemplo, considerar que um sujeito do ponto de vista do processo físico é da mesma ordem de um sujeito do ponto de vista de eventos mentais. Para ele, isso é da ordem de um equívoco. Entendemos isso, pois a crítica do sujeito já é bem estabelecida aqui entre nós. E a Teoria das Formações ajuda ainda mais a entender isso, pois não é possível tratar a afirmação há flores no vaso como da mesma ordem da frase ocorreram dois fatos mentais aqui. Atos mentais não são como flores, que podem ser contidas num vaso. Sujeito não é um continente, um lugar, um espaço, mas simplesmente uma função gramatical e, no pior dos casos, uma função lógica. Então, quando essa função gramatical é transposta para outro regime de existência que não é só Secundário – e estamos falando de processos secundários: a lógica é uma ferramenta produzida a partir de certo entendimento de regras que se dão no Secundário –, extrapolamos esse tipo de delimitação de um processo, de uma operação, e passamos a supor que tenha existência, materialidade, que seja causa. Não se diz que o vaso é a causa das flores, mas se diz que um sujeito é causa de seus atos mentais – o que é absurdo. Magno diz que há sedes de processos, que não se pode confundir a sede com uma causa, um agente. Daí deriva uma série de mal-entendidos graves. Por exemplo, 372

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o problema da imputação. Não se imputa ao vaso a existência de flores, mas se imputa a alguém a existência de ações que se deram naquela pessoa. Isto porque, se é causa, ela será responsável por aquelas ações. Aí, tem-se uma bola de neve que só vai crescendo e gerando quimeras jurídicas, epistemológicas, sociais, econômicas... Cria-se, então, um modo de entendimento do mundo bastante comprometido por deixar de apreender efetivamente o processo de conhecimento. A própria concepção de conhecimento já é, de saída, partida. Necessariamente, é preciso identificar dois termos que são dissimétricos, hierárquicos em relação um ao outro sujeito. Os gregos não falam em objeto, mas têm o predicado ali. Decorre disso existir, por exemplo, toda uma ordem estúpida de exigências epistemológicas à psicanálise no século XX. Dizem que não se pode observar o Inconsciente, que não se pode ver onde ele está. Mas isso é algo que não se aplica a processo algum de estudo efetivo. Estudar alguma coisa, entender alguma coisa, explicar alguma coisa, não é localizar. A localização é resultante de um processo de conhecimento e, às vezes, é dispensável. Na física quântica, ao se estudarem eventos quânticos, não há possibilidade de os localizar. No entanto, produz-se um conhecimento extremamente complexo sobre eles. Então, são coisas atrasadas, anacrônicas, que ainda se sustentam em relação à ordem do conhecimento, à ordem jurídica, e a outras que estão baseadas nesse tipo de suposição, de reificação, de hipóstase de conceitos mal pensados, de sintomas de língua, etc. Os autores do livro Para Além das Colunas de Hércules: uma História da Paraconsistência de Heráclito a Newton da Costa (2017), Evandro Luiz Gomes e Itala M. Loffredo d’Ottaviano, apresentado por Aristides da outra vez, logo no início colocam que toda a formulação lógica inicial na Grécia é tributária da língua grega, que tem algumas características que são limitadoras por terem pouca abstração, pouco trabalho abstrativo. É óbvio que uma língua tem uma história, na qual vai ganhando recursos, e talvez naquele momento ela estivesse pobre de recursos abstrativos – e nem por isso ela deixa de ser sintoma [como Magno está dizendo aqui agora]. Os autores apontam, por exemplo, para uma – eles chamam assim – indiferenciação entre um objeto qualificado e a qualidade que se atribuiu a ele. Usa-se o mesmo termo para falar das duas coisas. 373

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Há também certo cruzamento entre uma linguagem concreta e uma linguagem abstrata; o próprio verbo ser é constituído segundo uma quase conaturalidade com movimentos do corpo, da respiração, da digestão; é um processo mimético mesmo, constituindo os termos a partir de ações – e de sintomas [como Magno também está dizendo agora]. O sintoma, por exemplo, da separação, que acho que está ali presente. A ideia de destacamento, a necessidade de disjunção, é visível no tratamento que dão à questão da contradição: é impensável algo que possa coexistir em regime de contradição, tem que ser excluído. O princípio do terceiro excluído é o princípio de exclusão. E há outros sintomas que podemos identificar: os problemas que têm com as ideias de infinito e de ilimitado. São conceitos problemáticos que não conseguem situar e pensar. Isso tem a ver com uma ordem sintomática que certamente é impeditiva de se aproximar deste tipo de experiência. 4. Lacan, no texto L’Étourdit (1972), apresenta de modo bem sistemático as Lógicas da Sexuação (que também são trabalhadas no Seminário 20 [19712]). É sua conversa permanente com Aristóteles: ele tenta abordar a questão da predicação pela via que acha mais adequada em relação à psicanálise. Parece-me que a questão para ele não é exatamente uma forma lógica da mulher e uma forma lógica do homem. Não chama de consistente e inconsistente, pois não está com a questão da contradição na cabeça. Ao introduzir a ideia de não-todo (pas-tout), está com a questão do universal. A intervenção que faz em relação ao edifício de Aristóteles – que ele supõe ter moldado o Ocidente, como declara várias vezes – é quanto à questão da universalização. Ele acha que ela não se coloca, que é algo que precisa ser desmontado, pois o universal enquanto tal não existe. Então, em seu diálogo com Aristóteles, o que faz é modalizar a questão do quantificador. Repetindo, não é a questão da contradição que está sendo considerada: o princípio da não-contradição é deslocado, revisto, como consequência de sua reflexão sobre os operadores e os quantificadores da lógica, sobretudo a questão dos quantificadores. Tentarei traduzir um pouco a situação lógica tratada por Lacan. Afirmação e negação, em que condições essas operações acontecem? Qual é a incidência das possibilidades de afirmação e negação em relação ao existente, 374

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ao quantificador, ao todo? É uma tentativa de furar, e mesmo de avessar um pouco, a lógica do universal, já que ele acha que a sexualidade faz essa operação. É também a forma como ele está lendo Freud e como está lendo o texto A Denegação (1925) – que não é a forma como Magno lê e apresenta a questão da afirmação e da negação e sob que condições elas se dão. Então, a questão da predicação em Lacan é mais importante que a da contradição. E o que coloca como impossível está no lema: não há relação sexual. É isso que é o fundamental das lógicas que ele está montando, e essas lógicas estão montadas a partir do reconhecimento deste princípio. Não há relação sexual é uma forma de entender algum nível de impossibilidade que se coloca na predicação: a predicação é atravessada por uma impossibilidade. Talvez eu esteja simplificando, mas, resumindo: Lacan pensou a questão da predicação, tentou situá-la em um nível que Aristóteles não teria avançado, e chegou a essa condição de uma impossibilidade de predicação. Não que seja impossível predicar, e sim que – agora usando os nossos termos – há uma inconsistência ali que não é redutível, não é eliminável. Não há lógica possível, não há sistema possível, que seja capaz de eliminar essa inconsistência e por isso fica alguma coisa em aberto. [Magno está dizendo que até a teoria dos conjuntos ajuda a compreender isso]. Mas, insisto, não resolve. Há dois textos de Magno que são importantes para essa discussão lógica. Primeiro, a seção 6 – Lógicas – do Falatório de 2000 publicado no volume duplo intitulado Revirão 2000/2001, em que apresenta o percurso das duas formas lógicas de Lacan, que, ao invés de homem e mulher, serão chamadas de Consistente e Inconsistente. (Luiz Sergio Coelho de Sampaio, cujas lógicas também são comentadas por Magno, estava presente a essa seção do Falatório). Elas são renomeadas porque a questão de Magno é outra, não é com a impossibilidade de predicação. A pergunta que faz é a mesma de Lacan, mas avança (ou recua, fica ambíguo): Qual é condição do arranjo lógico feito por Lacan? Qual é a condição de haver a negação do quantificador? Qual é a condição da negação? A questão fundamental é: Qual é o estatuto da negação na psicanálise, no Inconsciente? Em última instância, não pode ser o que Lacan colocou, pois o não-todo não é a expressão fundamental da negação no Inconsciente. Isso justifica que Magno acrescente outras duas fórmulas, 375

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hierarquicamente condicionantes em relação às de Lacan, e que uma delas seja a fórmula da Morte, do Sexo Desistente, o qual não é consecutível. Pensei em dizer que esta fórmula não é efetiva, mas ela o é por ter a função reguladora de indicar justamente a impossibilidade. Ela não é exequível [como Magno está dizendo agora]. E é aí que o texto de Freud ganha novo sentido, novo valor, pois, no nível dessas duas formas lógicas principais – a Lógica Desistente e a Lógica Resistente –, há uma reflexão importante que chega à seguinte conclusão: O que há é a afirmação, a qual pode se dar, se exercer, de forma absoluta. E, em termos de negação, não há simetria com a afirmação. Ou seja, não há a afirmação absoluta e a negação absoluta – o que há é um Princípio de Denegação. Isso não está em Lacan, ele não dá esse tratamento. Então, o que surge dessas duas novas formas lógicas – Resistente e Desistente – é situar a operação de Denegação como Princípio – catóptrico, inclusive – porque ela não se dá sem a relação com a afirmação. Ali está a própria operação da catoptria, mas é, sobretudo, colocar a Denegação como princípio. Isso é importante, pois o que mais se fez fora da psicanálise lacaniana – inclusive, nas filosofias no século XX –, foi dar um estatuto equivocado à ideia da negação e da negatividade em Freud. Caso dos hegelianos, dos neo-hegelianos, da Escola de Frankfurt, de Zizek, que leem as operações que Freud foi classificando, reconhecendo, como negatividades puras, como se existissem em estado puro. Quem pode gostar dessa leitura é Jacques-Alain Miller [Magno está dizendo aqui]. São leituras divergentes de Freud, e acho que até do próprio Lacan. O segundo texto de Magno importante para questão das formulações lógicas foi publicado quatro anos depois no Falatório Economia Fundamental (2004), seções 4 e 5 (itens 16 a 25). Ele faz uma retomada das lógicas a propósito do livro de Jean-Claude Milner, Les Penchants Criminels de l’Europe Démocratique, em que trata da relação com os judeus e da ideia de uma Unidade Europeia articuladas às lógicas de Lacan. Magno dirá que, em termos operativos, um ponto importante na ferramenta lógica que produziu é entender o funcionamento do capitalismo, por exemplo. Ele mostra que não se entenderá o capitalismo se não for pela via da afirmatividade absoluta, da qual ele é expressão, e fala do capitalismo Resistente – e de outras duas formas menores: 376

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uma forma de capitalismo Consistente e Inconsistente. É interessante Magno ter abordado, via Milner, essa situação de final do século XX, início do século XXI e afirmado que o capitalismo, como movimento análogo ao movimento pulsional e da mente, é puramente afirmativo. Ou seja, não é possível pensá-lo, operá-lo, em regime de oposição, pois oposição alguma funciona aí. Deleuze e Guattari, de outra forma, também reconhecem isso em O Anti-Édipo (1972) ao mostrarem que o que quer que se coloque como extrínseco ao capitalismo é fagocitado. Dizem que é um movimento de axiomatização permanente que o capitalismo faz em relação à toda e qualquer oposição. [Magno está dizendo agora que só se pode negar o capitalismo depois que ele afirma]. 5. Chego, então, a “não haver o não-Haver”. Se Haver quer não-Haver, e não-Haver não há, isto não é da ordem de uma predicação propriamente dita. Não há aí uma cópula lógica já que um dos termos (não-Haver) não comparece, ele sequer é qualificável. Quanto a isso, é preciso nos reportar à denegação [Magno está dizendo], mas, ao mesmo tempo, é uma indicação do movimento de requisição de cópula.  MD Magno – Requisição de uma cópula impossível. Não sei dizer de outro modo. Podemos perguntar ao Newton da Costa se ele teria uma maneira de falar isso. Mas Newton da Costa produz um sistema lógico que é isso. Seu embate é com a contradição, com a recusa ou a exclusão da contradição. Isso é pouco, pois não é a partir da contradição que Magno situa a impossibilidade de negação. O raciocínio de Freud é superior. Ao dizer, em A Denegação, “não é a minha mãe”, isso não é nem algo que fere o princípio de não-contradição, tampouco é a aceitação de contradição, está aquém disso.  MDM – É o mesmo que dizer “não-Haver não há”. Qual é a diferença? Acho que fica mais clara a ancoragem de Lacan com essa sintomática da língua. Em L’Étourdit, as formas que ele acha apontáveis como capazes de deslocar a questão de Aristóteles são casos da língua, são as homonímias, a questão da lógica. Não é só a lógica que aparece, a questão do não-todo, há também a questão da sintaxe. Ele recorre aos desarranjos e inconsistências, 377

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poderíamos dizer, da linguagem, mas da linguagem enquanto língua mesmo. São casos que, para ele, são paradigmáticos da língua, que impedem que ela se consista, se totalize em um sistema fechado. A ideia de equivocidade é pensada nesses casos de homonímia...  MDM – Mas a língua dele não é a dos gramáticos, é a língua de Mallarmé. É uma língua deslizante.  MDM – É um sintoma fugidio. Por isso, é tão difícil fazer análise. Há outra via para pensar essa irredutibilidade da proposição do não-Haver, um arranjo lógico qualquer menor, que coloque afirmação e negação no mesmo pé. Magno cria uma distinção entre duas categorias: Haver e Ser – o Haver é pensado como distinto do Ser. E temos aí uma questão fundamental, pois cria-se um regime de última instância para pensar a lógica, a questão do sexo e as demais articulações. Isso – pensar a partir desse nível de última instância – afeta, tem efeitos sobre tudo que se articula na ordem do Ser. Então, não é mais possível retornar aos estudos sobre lógica, conhecimento, a língua, ou mesmo a economia, a política, o que quer que seja, sem a marca do regime de funcionamento de última instância.  MDM – É da mesma ordem do Fundo, do Grunt, de Meister Eckhart, de que falávamos da outra vez. Pode parecer que estamos fazendo um tipo de investigação ou estudo específico, mas, na verdade, é a condição de qualquer tipo de investigação sobre os processos articulatórios do Haver. Termino aqui minha apresentação – por enquanto. ***  MDM – Se não for assim como Patrícia colocou, não teremos como dar conta do Inconsciente. Com outros tipos de proposição lógica, damos conta de formações corriqueiras, mas como dar conta do Inconsciente enquanto tal sem a posição de última instância?  PNC – Será que essas outras proposições dão conta mesmo das formações corriqueiras (que não são do Inconsciente, digamos)? 378

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Não, mas dá para levar. Constroem-se máquina com elas: automóvel, avião... Por isso, têm sobrevivido, muda de registro. E é bem precário, pois avião cai, carro bate...  PNC – Estamos na questão dos processos de inteligência artificial e do impacto que isso terá sobre a tecnologia e o conhecimento. Vai-se gerar um nível de processamento que não considerávamos existir na mente humana e também um tipo de conhecimento que não será acessível a “humanos”. Ou seja, vai-se produzir uma inteligência artificial antes de entendermos o que seja “inteligência”. Esse é o drama. É a nova teoria da evolução: a coisa acontece à revelia – e ficamos crentes de que nós é que estamos fazendo. É mais uma ferida narcísica. Então, a partir do que disse Patrícia, quero fazer algumas considerações sobre certo modo “aristotélico” – maneira de dizer – de usar a Nova Psicanálise, no qual não podemos cair, pois nada tem a ver conosco. É preciso fazer essa limpeza de cérebros, escovar os cérebros, para poder entrar no novo regime – se não, fica incompreensível. Às vezes, me fazem perguntas incabíveis. Por exemplo: “O que, na Nova Psicanálise, corresponderia ao objeto a, de Lacan?” É preciso entender que a construção paradigmática de Freud é uma e a de Lacan – que diz estar lendo Freud (e está, claro!, por isso, apresenta a leitura dele, com outra construção paradigmática) – é outra. Não dá para juntar real, simbólico e imaginário com consciente, pré-consciente e inconsciente, pois são tópicas diferentes do ponto de vista dos conceitos. Do mesmo modo, não dá para transpor Lacan para a Nova Psicanálise. Esta é outra tentativa de entendimento. E como, no percurso, consegui abolir sujeito e objeto, estamos em outra região. Não se pode ter objeto a se não se tem objeto. Outro ponto em que vejo confusão frequente é quanto à diferença de nível entre as noções de Artifício Espontâneo e Artifício Industrial. Entendam que o Artifício Espontâneo foi capaz de produzir as IdioFormações, mas as IdioFormações são capazes de produzir o Artifício Industrial. São níveis diferentes. Como coloquei, as IdioFormações são repetição da estrutura em Revirão do próprio Haver, que é onde está incluído o Artifício Espontâneo. Chamo de Espontâneo por ter sido o que encontramos por aí. Há alguns cientistas malucos 379

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– ou sábios demais, não sei – que fazem a hipótese de que, em outro universo (para eles, a quantidade de universos pode ser maior que a de galáxias ou de estrelas que possamos imaginar), existe uma IdioFormação com desenvolvimento de milênios à nossa frente, a qual IdioFormação foi capaz de produzir industrialmente o que chamamos de Artifício Espontâneo. Ou seja, segundo eles, somos elementos de um joguinho que se chama “este universo aqui” – e estamos dentro dele. Então, só chamo de Espontâneo porque esta espécie de IdioFormação encontrou assim e, quando ela produz, ela é industrial. Mas se o Espontâneo for a indústria de outra região? Não sei se saberemos isso algum dia, mas a hipótese está no ar, a de que eles produziram um joguinho.  Aristides Alonso – Hipótese que se coloca para as possíveis IdioFormações a serem produzidas industrialmente aqui entre nós, que terão como Artifícios Industriais as bases de seus Artifícios Espontâneos para a operação posterior. A coisa está ficando recursiva, mas, por enquanto, nada tenho a ver com isso, estou aqui localizado demais para me meter nesse assunto. Então, ao falar em Primário, Secundário e Originário, estou falando de Creodo Antrópico. Ánthropos, em grego, é ‘humano’. Estou, portanto, falando do creodo, do ‘caminho necessário’, na espécie de IdioFormação que somos nós. Não dá para misturar aí e perguntar: Qual é o Primário do Haver? Não há a noção de Primário do Haver. O Haver é um Artifício Espontâneo, com todas as formações que pode apresentar.  P – Dizer que o Creodo Antrópico é Ánthropos, desta espécie, significa que não é uma ferramenta generalizável? Podemos supor que em outros universos, ou mesmo aqui, existam IdioFormações compostas de outra maneira, com um Primário e um Secundário diferentes do nosso. Mas, aqui, só temos esse bicho meio macaco que tem Primário, dentro do qual surgiu o Originário como repetição do Revirão do Haver – e aí ele começou a inventar o Secundário. Estou chamando de IdioFormação para não chamar de “humano” as espécies que possam existir em nosso universo, ou fora dele, que repetiram, num processo de evolução qualquer, o Revirão do Haver. Por acidente, não sei o motivo, talvez só para encher nosso saco. Então, quando falo de Creodo Antrópico, falo que esta espécie, dado o 380

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modo como foi criada, supostamente dentro de macaquinhos, de primatas, ficou subdita a esta ordem de progressão. E posso, no nível Secundário, propor a frase que deixou Patrícia intrigada – o não-Haver não há –, pois, dentro do regime que ela apresentou, mesmo que seja denegatória, esta frase é dizível. Faço agora com vocês uma observação que chamo: um deslocamento intrigante dentro de minha obra, que aconteceu num intervalo de anos. Apareceu primeiro, se não me engano, em “Psychopathia Sexualis” (1996), e depois, recentemente, fico repetindo algo que parece ser um radical deslocamento do que disse lá. Tomem a página 191 da edição impressa de “Psychopathia Sexualis”, no capítulo intitulado “A Hipótese Deus”: “...não há menor possibilidade de reduzir este esquema ao de Espinosa. Não estou dizendo que Deus é o Haver, e sim que a postulação de direito do não-Haver como causa dos movimentos no seio do Pleroma não pode não fazer emergir um, suposto também, lugar intermediário entre o Real neutro do Revirão e o não-Haver, onde, em não atingimento de coisa alguma, se exaspera isso que chamei de Gnoma. Disse então que não se trata de Deus sive Natura e que o melhor que poderíamos dizer seria Deus vel Natura. Mas trata-se da interseção do que aí? Teríamos, de um lado, o Haver − ou Physis, ou Natura, se quiserem chamar assim −, e, de outro, Deus. Mas este lado é aberto e Deus aí é Gnoma em projeto para o não-Haver. O nome certo em nosso esquema não é Deus, e sim Gnoma. Assim, teríamos: Gnoma vel Haver. No vel, na interseção, isso vibra, isso se exaspera em absoluta vinculação”.

Reconheço que religiões e posturas filosóficas que invectivaram o nome de Deus o fizeram no sentido de arrolhar a exasperação entre Haver e não-Haver. Isto porque essa exasperação existe. Se Alei é Haver desejo de não-Haver, não-Haver não acontece, então é uma exasperação do processo. Por que, naquela ocasião, disse que não pode ser o Deus, o esquema, de Espinosa? Porque Espinosa é absolutamente com as quatro patas no chão, como dizia 381

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Guimarães Rosa – ele pisa o chão com pés e patas. Não há, nele, possibilidade alguma de transcendência, nem sonhada.  PNC – É como se pudéssemos dizer que a imanência de Espinosa, a forma como ele a pensa, é a resultante da Quebra de Simetria. Sim. Já eu, estou um pouco mais para trás.  PNC – É difícil saber. Ele é resultante. Ele está um pouco mais para a frente. E pensando tudo corretamente, mas com uma imanência radical, sem a segunda lei da termodinâmica, sem a lei da entropia, sem a lei do Haver, sem a lei do Tesão... Ele precisava agir assim, teve que romper para valer, pois a concorrência era de uma violência total, era de uma transcendentalidade violenta. Freud não precisou fazer essa ruptura toda com a ideia de Pulsão.  Nelma Medeiros – Por outro lado, ao considerarmos do ponto de vista do reconhecimento, ou da colocação da hipótese pulsional, como se dá com os pensamentos que propõem algum tipo de ascese? A ascese não é um movimento de transcendentação? É um exercício de Indiferenciação. É o máximo que se consegue.  NM – Não há uma transcendentação nesse processo? Há o Tesão da transcendência, que se chama: Pulsão. Mas o máximo que se consegue é um exercício de neutralidade, indiferenciação, de nada – um exercício de nada.  NM – Mas mesmo os pensamentos da suposta imanência, ao colocarem a transcendentação, propõem uma ascese, um exercício, a realização de algo que, do ponto de vista do enunciado teórico, não é incluído. Espinosa, por exemplo, tem ascese, tem processo de superação. Superação até onde, até quando?  NM – Até o amor intelectual de Deus, o Amor Intellectualis Dei.  Ou seja, ele tem um pezinho no Terceiro Império. Ele é maravilhoso, mas a guerra é tão violenta que teve que ficar por aí. É Amor Intellectualis Naturae, ou seja, pensamento científico. Então, como não há possibilidade de inclusão de transcendência no pensamento de Espinosa, fiz essa diferença naquele momento. Na estrutura que apresento, a imanência sofre de desejo de transcendência, na dele não sofre, 382

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seria uma espécie de imbecilidade da espécie ficar pensando em transcendência. Ao contrário, para nós, se a espécie sempre dá a impressão de estar inventando um motivo qualquer para requerer certa transcendência, é porque não existe transcendência alguma. Existe, sim, desejo de transcendência, desejo de escapar da imanência – da qual ninguém escapa, aliás. O desejo, ou seja, a Pulsão, é o movimento – completamente fracassado – de vontade de transcendência. Naquele momento, eu estava tentando fazer diferença entre Espinosa e a Nova Psicanálise. Hoje, vocês já me viram dizer várias vezes: Deus é Haver, Deus sive Habere. Isto porque, então, eu tentava uma distinção radical. Depois, me dei conta de que, se Alei é Haver desejo de não-Haver, não preciso fazer esta diferença, já que está lá o Gnoma, aporrinhando a vida de todos, e todos inventando religiões e filosofias para tapar esse buraco. O simples fato de Alei da Pulsão – a segunda lei da termodinâmica, a própria lei da entropia, que não é diferente da lei da Pulsão – ser desejosa de não-Haver (e desejo é qualquer manifestação do radical movimento do Haver como desejo de não-Haver), se Alei for esta, ao invés de afirmar que não estou dizendo como Espinosa, posso afirmar que estou dizendo, sim, como ele. Só que a base de entendimento do processo é diferente da dele. Não é imanência radical, e sim imanência com desejo de transcendência. Por isso, na história da humanidade, sempre aparece uma invenção de transcendência idiota. Isto porque não existe o transcendente, só existe o Tesão – de ir para onde? Para onde não há lugar. Aí é que entra o raciocínio que Patrícia acabou de nos mostrar: não adianta denegar, pois denegar é afirmar, a negação não comparece. O que afirmo ao dizer Haver desejo de não-Haver? Afirmo a Pulsão – só isso. É pura afirmação do movimento pulsional, de querer desaparecer – sem conseguir. Ou seja, denegação é: afirmação. Freud já havia descoberto isso melhor que todos os lógicos do planeta: quando você denega, está afirmando. O Haver também. A entropia é mentira, pois ela chega ao limite em que não vai passar a zero. Alguns físicos estudiosos do universo repetem que “o Big Bang foi uma explosão que fundou o universo, produziu, o universo” – mas explosão do quê? “De nada”, respondem. O que que querem dizer com isso? Estão é destruindo o Princípio de Denegação que há no universo. O nada que está na cabeça deles é o quê? Por isso mesmo, fiz uma distinção ao dizer que “Nada é indiferença”. 383

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Nada é “haver indiferentemente”, pois o não-Haver, mais adiante, nem nada é. É não-Haver, que não há. Ou seja, só poderíamos supor com eles que o tal universo foi criado do nada se nada fosse a redução de algum universo à sua formulação absolutamente homogênea – coisa perfeitamente possível de pensar com a física contemporânea. Qual é a última partícula? Até agora, conseguiram, sem comprovação, chegar à ideia de branas, ou seja, de elementos tão radicalmente de última instância que são pura vibração, pura vibração musical. Mas, para haver vibração musical, é preciso que haja diferença, mesmo na cabeça dos físicos atuais. Lá na última instância, nessas pequenas vibrações que formam as branas, existe pelo menos certo número delas ou, pelo menos, certo número de dimensões. O que estou dizendo é que isso ainda não é homogêneo. A redução dessas últimas vibrações musicais a uma absoluta indiferença de vibração, que, explodindo, resulta nessas primeiras vibrações é que posso pensar como nada. E não é não-Haver – é simplesmente não podermos distinguir diferenças dentro de uma coisa que há. Vejam que, quanto a mim, estou procurando por trás da última instância, até agora sonhada pelos físicos – que são essas vibrações –, alguma coisa que seja A vibração. Os hindus há tempo dizem que o universo é feito de Om, um único e absoluto som – sabe-se lá se é verdade. O que quero é que entendam o raciocínio: nada não é não-Haver, nada é “haver indiferentemente”. E essa é a meta – que tampouco será conseguida – do analista. Como posso ser indiferente a esse ponto? Não posso, mas tento. Então, fazendo diferença para com o que os físicos já encontraram entre diversas partículas vibratórias, estou dizendo que, para além disso que afirmam, deve haver uma única partícula vibratória, que é capaz de gerar as outras. É a esta partícula que chamo de Haver em estado puro, pois, quando temos várias cordas diferentes – eles chamam essas partículas vibratórias de cordas –, já entramos no regime do Ser. O Haver, este, é absolutamente neutro. Se os físicos estiverem razoáveis em seu pensamento, existe uma quantidade de cordas iniciais que entram em vibração e resultam nas partículas, na matéria, em tudo que existe no universo: é uma musiquinha feita com umas cordinhas, enetos de cordas. Às vezes, no sentido da música ocidental, até fazem a analogia com um quarteto de cordas, que é capaz de fazer zilhões de músicas, milhões 384

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de sons, só com aqueles quatro. Assim, as cordas lá deles, que nada mais são que vibrações – sua materialidade é apenas uma vibração –, têm que ter um mínimo de quantidade, todas diferentes, para fazer a música que resultou nesse universo. Mas elas vêm de onde? Vêm de nada, como dizem. Nada é quando elas são uma só, é homogêneo. Se é homogêneo, não tenho como estabelecer diferença dentro delas. Mas isso não é o não-Haver. O não-Haver é impossível. Nada é o máximo que se consegue. Mas Nada não se reparte em partes iguais, mas em partes diferentes. Isto já é suficiente para constituir seres, diferentes.  AA – Desde que pesquiso sobre o Maneirismo, tive que trabalhar muito com as lógicas. A partir do que Patrícia apresentou hoje e do que você comentou, parece que há em suas lógicas algo sobre o que não se pode passar batido: são dois regimes. Ao falar da lógica como conhecemos, com os termos da lógica, das lógicas da predicação, ela é a lógica do Ser. Estamos aí no âmbito dos discursos, e mesmo no âmbito linguístico. Por outro lado, ao formular a Lógica da Resistência, não se trata do âmbito do Ser, e sim do âmbito do Haver, é um salto. Então, você inclui na lógica algo não é operado em lógica alguma que eu conheça. É preciso, portanto, no sentido de acompanharmos o raciocínio, chamar atenção para o fato de que há uma hierarquia em jogo nessa equação. Você diz que as duas lógicas – a Consistente e a Inconsistente – são decadências da Lógica da Resistência. Resistência quer dizer: o Haver há – e não tem como não haver. Ele é pura resistência. Resistência esta que vai se modalizar nas resistências da análise.  AA – Minha segunda questão se refere a você ter dito en passant que o conceito de Haver derrogava o paradoxo de Russell pela inclusão do reviramento no processo. A pergunta, então, é: ao dizer “o Haver há” e “o não-Haver não há”, não se pode dizer que esse modo de postular – que se parece com “o Ser é” e “o não-Ser não é” – seja da ordem da consistência? Mas não há outra maneira de dizer, o Secundário não ajuda. Se você disser que “o não-Haver não há” é denegação, é denegação do quê? Denegação dentro de uma frase? Então, não importa que fique ambíguo, porque dá para raciocinarmos. Não posso dizer isso diretamente – a não ser que possa, mas não sei como –, só posso dizer como uma formulação inteiramente Secundária e 385

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parecida com matemática. Coloca-se a letra A e uma negação em cima: Ã – não tenho mais o que fazer com isso. Os físicos acham que têm. Se comprovarem a Teoria M, que é a Teoria de Tudo – que unifica as cinco Teorias das Cordas –, quebrarão a cara, terão que achar uma corda, um berimbau: o Haver é um berimbau. Violino não serve, tem cinco cordas. Se conseguimos fazer uma musiquinha com uma corda, por que não o Haver?  AA – É bom esse resgate do berimbau... O universo é o universo berimbau. Alguém precisa mostrar isso ao mundo: a psicanálise vira-lata e o universo berimbau.  AA – Eu estava pensando que, se sua proposição coubesse na Lógica da resistência, faria mais armação lógica, mas o frasal puxa para o outro lado. Ao falarem em teoria das cordas, é maneira de falar. Eles não estão considerando alguma materialidade das cordas, mas apenas uma vibração. Como se, analogicamente, fosse a vibração da corda de um instrumento de som. Estou substituindo as cordas do Quarteto de Cordas deles pelo berimbau: uma corda só faz muita música. Pode-se mesmo dividir em várias vibrações. É o que chamo de homogêneo, de indiferente – é o berimbau.  P – Por que essas cordinhas não podem parar de vibrar? Pergunte aos físicos, não sei. Elas são compulsivas, não param de vibrar.  P – Quanto à diferença entre Haver e Ser, como ficaria o berimbau? Uma corda só vibrando alucinadamente e produzindo sons, que são as outras cordas – que são alguma coisa.  P – É um fundo indiferenciado? Um fundo indiferenciado só de vibração, sou eu que estou dizendo. Como somos brasileiros, e fazemos a psicanálise vira-lata, podemos dizer isso. Os físicos não sabem do berimbau, sabem apenas do quarteto de cordas, não sabem que se faz música com uma corda só.  P – No entanto, essa corda só produz muitas diferenças, muitas formações. Produz as cordas deles, as quais começam a vibrar e a produzir partículas as mais mínimas. Não é a minha teoria, mas acho bem bolada a teoria deles.

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 P – É possível, então, dizer que o Haver é esse fundo indiferenciado, e que as formações que vão surgindo, se diferenciando, isso tudo é o Haver? O Haver não é só indiferenciação. Isso tudo é o Haver, mas são formações do Haver. O Haver é um fundo indiferenciado e resulta nas formações as mais diversas, até em gente, essa coisa idiota que nós somos.  P – E o Ser seria o quê? O Ser é isso: são as formações. Quem é você? Uma multidão de formações, uma coisa complicada. Por isso, joguei fora o sujeito. Quando formações transam com formações, resulta em: formações. Aí, não há sujeito algum, é uma ilusão. Nietzsche dizia que sujeito é uma superstição. Digo que é também um cacoete francês.  P – Ao considerarmos as formações sem a referência ao fundo indiferenciado... O fundo é o tempo todo. Fazendo uma analogia: é a matéria dessas formações.  AA – E se nos esquecemos desse fundo? Quando nos esquecemos dele, viramos uns idiotas, um filósofo grego, um católico... O grande trabalho de Meister Eckhart foi lembrar que é preciso levar em consideração a última instância. O pessoal da época não gostou, pois estragava a brincadeira deles. O poder deles dependia da diferença anotada.  P – A lógica do Ser – a lógica de Aristóteles, por exemplo, é uma lógica do Ser –, esqueceu do Haver? Parafraseando Heidegger, houve um esquecimento do Haver? Mais tarde, Heidegger fala no Ser enquanto tal. O que é o Ser enquanto tal? Ao falar do Ser, dá para trás. Ele incorpora demais o Ser.  P – Embora diga que o Ser não é o Ente. Mesmo porque o Ser do-ente é Heidegger. Ele pesa demais. Quando é poeta – às vezes, faz uns poemas muito bonitos –, aí fica melhor. Mas como não distingue o Ser do Haver, aí pesa. Ele queria falar de Ser em estado puro, mas isto não existe. É-se alguma coisa, não se pode simplesmente Ser. Embora fosse uma ideia de Tomás de Aquino: Deus é esse – é Ser.

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 P – Ou seja, em termos da NovaMente, ficamos presos demais aos sintomas. Ao sintoma da filosofia.  P – Justo por isso a Teoria das Formações jamais pode esquecer o fundo indiferenciante. Se nos prendermos às formações, cairemos no Ser. Por isso, digo que a psicanálise lida com o Ser – ou seja, considera as formações. Mas o analista faz o esforço de se referir ao fundo como indiferenciação. E o que é referir-se ao fundo como indiferente numa análise? Este é o trabalho do analista: tentar levar o analisando para lá. O que é isso? É considerar tudo o mesmo, é indiferente. Para poder estabelecer o valor da diferença, há que olhar com indiferença. Se não, já se olha com certo olhar qualificado, projetando um ser sobre outro.  P – Usando a metáfora do berimbau, seria uma corda só que, vibrando, iria produzindo múltiplos sons? Músicas inteiras.  P – O comum é ficarmos dizendo que tal música é boa, superior, tal outra inferior, mas a corda é uma só. Aí está o problema dos cientistas europeus e americanos. Por não terem berimbau, e não serem vira-lata, não aproveitam o lixo, não sabem fuçar o lixo da cultura, e saber que A Corda é Uma Só.

48 Pedi à Patrícia Netto Coelho que comentasse hoje alguns pontos tratados por Daniel L. Everett em seu livro Linguagem: a história da maior invenção 388

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da humanidade, cuja leitura integral recomendei e continuo encarecendo a todos. O importante do livro para nós é ser uma resposta veemente do século XXI à paranoia da linguística do século XX. Dá até para aproveitar alguma coisa dessa linguística, mas o que é consentâneo com nosso trabalho e nossas articulações é o modo século XXI de Everett abordar a linguagem. Veremos na leitura do livro e na exposição de Patrícia várias coincidências com o pensamento NovaMente. Como muita coisa é do mesmo naipe, considero – seja com esse autor, seja com outros – que esse tipo de linguística que ele apresenta é a linguística do século XXI e da entrada no Quarto Império. *** Linguagem: uma invenção – segundo Daniel L. Everett – Patrícia Netto Coelho (comentários) 1. Quatro teses sobre a linguagem: (a) é uma invenção; (b) situada no tempo; (c) um processo evolutivo; e (d) não resulta de programa genético. 2. Redefinição da ideia de cultura – Revisão dos estudos sobre a hominização – Teoria semiótica de Peirce – Índice, ícone e símbolo – Linearidade, hierarquia e recursividade. 3. Processo de hominização – Homo erectus: linguagem – Cultura: conhecimento tácito e prática de papéis sociais.

Comentarei, em função dos interesses da Nova Psicanálise, alguns pontos apresentados no livro de Daniel L. Everett Linguagem: a história da maior invenção da humanidade (SP: Contexto, 2019 [ed. orig.: 2017]). Evidentemente que, para o bom entendimento do que se trata, é necessária a leitura completa do livro. Everett não é um autor com obra extensa sobre o tema da linguagem. Ele tem uma formação em linguística e fez, durante bom tempo, estudos aqui no Brasil com um grupo de nativos na Amazônia, a tribo Pirahã. Teve a oportunidade de estudá-los e, sobretudo, de estudar sua língua, que tem algumas peculiaridades que lhe interessaram e que será tomada como caso exemplar de sua tese sobre a invenção da linguagem. 389

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1. A tese geral: a linguagem, enquanto performance desta espécie, a linguagem humana, é a resultante de uma invenção bem mais antiga do que as datações convencionais da antropologia e da paleoantropologia. Linguagem é uma invenção que envolve (não exclusivamente, mas) fundamentalmente formações da cultura. Everett não se coloca sob o jugo de abordá-la ou por via biológica e evolucionista, ou por via culturalista, mas dá importância considerável ao fator cultural, à cultura. Interessa também seu trabalho de redefinir os próprios conceitos de linguagem e de cultura. Complementando, sua tese geral é: a linguagem é uma invenção, e não, ou não apenas, o processo resultante de uma situação genética específica da espécie humana. Decorrente dessa formulação geral, temos a segunda tese: a invenção da linguagem precisa ser situada no tempo. Como ele é um cientista, tem ferramentas de conhecimento para fazer uma hipótese sobre a data de sua emergência. Situa, então, seu surgimento como invenção de cultura e de outros fatores a partir do homo erectus [há 1,8 milhões de anos]. Antes, segundo a teoria padrão, a posição standard, da linguística, a linguagem era considerada uma função – uma competência, se quisermos usar os termos do Chomsky – exclusiva (só compareceria nesta espécie e, em particular, no homo sapiens [há 350 mil anos]) e específica (ela qualificaria e diferenciaria o humano) da espécie. Ele acrescenta, portanto, mais de um milhão de anos para trás no tempo em que a linguagem já pode ser rastreada. E mesmo na história evolutiva do homo sapiens, a linguagem não teria surgido no início, e sim em torno de cinquenta mil anos atrás. Vejam que retroceder mais de um milhão de anos é um giro significativo. Se essa nova datação resultar em outras pesquisas, muita coisa se modificará quanto ao que convencionalmente sabemos. Suponho mesmo que mude o paradigma. A terceira tese: a linguagem é um processo evolutivo. Everett faz uma reconstrução dentro da teoria da evolução, do que ela estabeleceu sobre o processo de hominização. Para ele, o surgimento se deu de forma gradual, e não súbita. É um posicionamento polêmico, pois não há consenso sobre se as principais modificações, ferramentas e funções sofisticadas e complexas da espécie surgiram via mutação – o que, em geral, é a explicação de muitos biólogos evolucionistas –, ou de forma gradual. O grande debate é, pois, entre 390

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os adeptos de uma teoria, digamos, continuísta e gradualista em que as modificações se dão no decorrer do tempo sem grandes saltos ou descontinuidades, da qual Everett é adepto – a linguagem se desenvolveu e se organizou ao longo de um processo cultural que foi carreando e enriquecendo sua produção –, e aqueles, como Chomsky na linguística, que falam em mutação. Aliás, me parece que o alvo dele é mais Chomsky do que os biólogos adeptos da ideia de saltos evolutivos. Caso de Stephen Jay Gould, por exemplo, biólogo e geneticista que tem uma obra importante e com muita informação. O modelo dos saltos, na verdade, é dele. A quarta tese, um pouco mais específica, diz respeito à relação da linguagem com o cérebro. Chomsky cria um modelo no qual a linguagem é um órgão. Com isto, quer dizer que, no cérebro, haveria regiões especializadas no processamento da linguagem que teriam se formado a partir de comandos, de regras e combinatórias genéticas. Ou seja, o programa genético conteria informações e alterações que estruturariam nosso modo de falar e a linguagem falada, e que isso seria resultante do processo de formação do cérebro, do processo embriológico, de embriogênese. Assim, nosso programa genético formaria um cérebro capaz de ser uma sede da competência da linguagem. E mais, esse programa genético estruturaria a forma como a linguagem é adquirida enquanto língua específica. Ele ordenaria a velocidade com que aprendemos a falar e estabeleceria a sequência das fases da aquisição da linguagem. Chomsky dá um valor quase que absoluto à base genética, pois ela não só forma o cérebro como o órgão da linguagem, constitui uma região especializada, específica para a realização dessa função, como, ainda por cima, instruções em nosso programa genético regulariam o modo de completarmos o processo de aquisição e uso da linguagem. Everett recusa essa posição e a ideia de termos módulos específicos para o processamento da linguagem dentro do cérebro. Não há essa especialização cerebral tão grande quanto Chomsky teria suposto. Então, a linguagem não pode ser reduzida a um órgão. Ela é muito mais ampla, é um tipo de performance que envolve uma série de processos muito diversificados, proveniente de muitas fontes, e que não se reduz à configuração cerebral.

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2. Para defender essas teses, Everett cria algumas ferramentas em termos conceituais, ou toma emprestadas de outros autores. A primeira é: redefinir a ideia de cultura. A ideia filosófica, ou mesmo culturalista, de cultura não funciona, é incipiente demais para dar suporte à sua posição. A segunda é: fazer vasta revisão sobre os estudos paleoantropológicos relacionados aos processos de hominização, de surgimento da linguagem, de produção e uso de ferramentas – o que tira a linguagem de uma bolha intelectual e a coloca como uma coisa que começa a se exercer nas ações e na produção de utensílios. É uma tese bastante próxima da de André Leroi-Gourhan, que é bem anterior. Ele não o cita na bibliografia, mas há afinidades. Para Leroi-Gourhan, a linguagem resulta de um processo de evolução técnica que envolve não só a produção e o uso de ferramentas, mas a arte pré-histórica e uma série de outros processos tecnológicos que se deram naquele momento, sem o que a linguagem não teria aparecido. É, pois, um processo motor que vai se refinando tanto do ponto de vista de sua execução material, quanto dos processos abstrativos que envolve, que arrola. É, aliás, uma tese de Marcel Mauss, professor de Leroi-Gourhan. Everett, então, faz uma revisão do que se sabe sobre hominização, surgimento da linguagem, uso de ferramentas e complexidade social dos primeiros hominídeos. Isto porque, se falarmos em cultura, teremos que analisar a complexidade maior ou menor das relações dos vínculos que esses grupos iniciais puderam estabelecer, o que é uma espécie de testemunho de certa complexidade que a linguagem já poderia ter apresentado. É uma revisão sobre a própria evolução e o desenvolvimento do cérebro. Não tal qual ele é considerado atualmente em sua morfologia, mas da forma como o cérebro do homo erectus se desenvolveu ao longo de milhares de anos e resulta em outras formas, outras espécies, e dá no homo sapiens. A evolução da morfologia e da fisiologia do cérebro é importante para corroborar a necessidade de recuar no tempo, pois o cérebro do homo erectus não era o de um esquilo, já era um cérebro com alguma complexidade morfológica e fisiológica que poderia ser suficiente para sediar a emergência da função da linguagem. A terceira ferramenta de que ele vai lançar mão – esta, ele não produziu – é a teoria semiótica de Peirce, que considera a mais completa, e que dá fundamentação à noção de linguagem que quer propor. Ele toma o pensamento 392

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de Peirce em suas duas frentes: no que constituiu uma teoria estendida da linguagem, a semiótica, e em sua filosofia pragmatista. Em particular, recorre ao esquema peirciano chamado de progressão semiótica. É uma descrição que começa de um estágio mais elementar da linguagem, que Everett, modificando a ordem de Peirce, reconhece como sendo o índice (em Peirce, o ícone é primeiro). É a forma mais simples de estruturação da linguagem, forma esta encontrada nas outras espécies animais. Em etologia, a ocorrência do índice é notória em seus estímulos-chave que, estes, funcionam como índice para o organismo em vias de desencadear comportamentos. O salmão, por exemplo, percebe – é um estímulo visual – uma coloração diferente na barriga da fêmea que indica que ela está no período reprodutivo. Esta percepção é um índice: indica um estado hormonal favorável à reprodução de modo que dois eventos – coloração da barriga e situação hormonal – estão presentes ao mesmo tempo no mesmo espaço. O índice indica, portanto, algo que está presente. Esta relação não tem a arbitrariedade da linguagem humana – para Everett, não envolve intencionalidade –, mas é uma conexão presente em várias situações etológicas e é uma forma bastante elementar de comunicação entre as outras espécies animais. O esquema peirciano supõe uma espécie de progresso, de evolução: ganha-se algo ao passar do índice para o ícone. Ganha-se, basicamente, a intencionalidade. O ícone é mais complexo, não só indica algo, como também supõe que essa indicação foi decidida. Estou chamando de decisão, mas podemos dizer que é motivada, como diria Saussure. Isto não se deu de maneira estritamente primária, no sentido de uma determinação genética anterior, mas, no jogo dos eventos, ocorreu de acordo com alguma direção, o que terá uma função, um direcionamento. Como intencional aí não é estritamente humano, estou tentando descrever fora de um vocabulário voluntarista ou consciencialista. É um tipo de organização mais estruturada, mais organizada, e previamente direcionada. Já o último elemento da linguagem, e que dá à linguagem uma complexidade apenas verificada na espécie humana, é: o símbolo (que, nos termos de outras teorias linguísticas, é designado como ‘signo’). A intencionalidade, a arbitrariedade, dessa organização em torno do símbolo traz as características que definem a complexidade da linguagem humana: a dupla 393

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articulação (algo, aliás, bastante estudado por Benveniste) e ao que Everett se refere como composicionalidade. Isso não está restrito à linguagem verbal, pois é um esquema semiótico (e não estritamente linguístico) com, na sequência: linearidade, hierarquia e recursividade. A contribuição de Everett é dizer que há três níveis de gramática (p. 121), e não um só. Há uma gramática mais simples, em que a língua moderna é alcançada e que possibilita a linearidade (chamada de G1); uma gramática hierárquica (G2); e uma gramática que vai possibilitar a recursividade (G3). A linearidade é um tipo de concatenação: um termo depois do outro, depois do outro... Se vem antes ou depois, faz diferença, é um conjunto de regras que organizam a sequência dos termos de maneira linear. Já a gramática G2 apronta uma situação mais complexa, em que se monta uma hierarquia: uma coisa subsume a outra, ou está subsumida por outra. Notem que aí é um esquema não linear, mas que estabelece alguma verticalidade em relação à linguagem. E o terceiro nível, mais complexo, (G3), é o que possibilita a recursividade. Para Everett, é o grau máximo de estruturação, de organização gramatical. A possibilidade de recursividade é talvez a mais importante característica para os linguistas – Chomsky, inclusive –, que define, especifica a linguagem humana. Exemplo: “O gato mordeu o rabo do rato, que comeu o queijo do menininho, que deixou na geladeira”. São formas de composição de frases que não são lineares, mas que fazem com que, como no modelo da boneca russa, seja possível criar situações em que uma frase inclui outra, inclui outra, e isso é infinito. É uma situação em que se criam mini-sistemas de referência dentro de uma frase: uma frase maior, que engloba uma frase menor, que se adequa à outra frase e que, por fim, pode até retornar à frase anterior que contém todas as outras. Chomsky estuda bastante isso, e acho algo fundamental na língua. Nesse sentido, ambos estão aqui com certo consenso: o ponto de chegada de uma língua complexa é a recursividade. Só que, para um, é um caminho e, para outro, outro. Uma diferença importante são essas gramáticas graduais, esses níveis de gramática, na análise, por exemplo, da performance do homo erectus em comparação com a performance linguística e semiótica do homo sapiens. Essas ferramentas são chaves de análise, de descrição dessas performances, o que permite a Everett fazer afirmações do tipo daquela que Magno 394

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comentou há algum tempo sobre a possibilidade de haver linguagem sem gramática. “Sem gramática” é o grau mínimo de organização gramatical, apenas uma sucessão linear de palavras sem a complexidade da hierarquia, e muito menos da recursividade. É, aliás, interessante pensar em gradientes de gramática como a Nova Psicanálise pensa em gradientes de conhecimento – metanoia e paranoia –, ou em gradientes de recalque, por exemplo. O raciocínio dos gradientes é fértil para considerar o que quer que estudemos, os processos das formações, com uma cabeça não mais comprometida com estruturalismo, culturalismo, com entendimentos e teorias redutoras, que sempre tentam encontrar a fonte ou a referência e eleger como o único e exclusivo princípio explicador. Ao trabalhar com o raciocínio dos gradientes, temos a possibilidade de rastrear um processo, e mesmo uma franja de processos, que não estava sendo incluído. O que se dá entre um gradiente e outro e o que se faz com que se passe de um para outro também precisam ser estudados e rastreados, pois podem ser processos não estritamente linguísticos, ou não estritamente biológicos. 3. A primeira parte do livro é uma apresentação do processo de hominização, já incluindo dúvidas e questionamentos quanto ao que se sabe. Certos dados são problemáticos, não são suficientes, e os pesquisadores frequentemente extrapolam com conjeturas que são mais vieses do que hipóteses. Assim, dentro do processo de hominização, Everett tenta localizar como aconteceu a evolução linguística do homo erectus e a evolução para outras espécies, até chegar ao homo sapiens. Como se chegou ao homo sapiens, de onde se partiu, quais foram os momentos mais importantes? Para responder, ele recorre a um clado da humanidade (p. 37). “Clado” é um termo técnico para o rastreamento das várias espécies que vieram de um ponto comum, exclusivo. Não se trata de árvore, que tem muitas ramificações, muitos pontos de partida. Por exemplo, a árvore filogenética dos primatas vem de muitos lugares. É um longo caminho, o homo erectus se origina do homo habilis e, segundo descobertas do fim do século XX, tem dois tipos: homo erectus stricto sensu e homo erectus ergaster. (Lembro-me de que, no final de 2003, quando António Bracinha Vieira, o etólogo português, esteve aqui no Rio de Janeiro, fez uma palestra no IPUB/UFRJ em que apresentou o processo evolutivo de hominização 395

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e priorizou a ocorrência da linguagem aí. Depois, ao vir falar conosco na sede da NovaMente, acrescentou informações a essa saga que veio dar no homo sapiens). Continuando, no homo habilis, que é o anterior do homo erectus, já se considera algum tipo de protolinguagem, uma linguagem incipiente. Seria um regime de comunicação que envolve a Gramática 1, a linearidade no uso dos símbolos: já se tem símbolo como ferramenta de comunicação, só que em nível bem inicial de configuração gramatical. O homo sapiens, vindo do homo erectus ergaster, é o que prevalece. Nele, a linguagem assumiu sua forma mais complexa. Em seguida, na segunda parte do livro – “Adaptações biológicas humanas para a linguagem” –, Everett analisa as adaptações biológicas que surgiram para que a linguagem pudesse funcionar no grau máximo de complexidade, a Gramática 3, com a recursividade. Acompanhamos como saiu da linearidade, passou pela hierarquia, chegou à recursividade, e o que esse percurso envolveu em termos de adaptações biológicas. Aqui, aparecem de forma mais explícita suas discordâncias para com Chomsky, cujas teses sobre as bases biológicas da linguagem são revistas. Everett cria uma explicação mais complexa, que inclui processos biológicos, cerebrais, genéticos, mas também de cultura. A cultura aparece, então, como um fator, um vetor importante na formação da linguagem. Na terceira parte – “A evolução da forma linguística” –, reaparece Chomsky, cuja teoria é universalista por supor que exista uma estrutura inata, geneticamente inscrita, que regula o modo como as línguas se estruturam gramaticalmente, sintaticamente. Ou seja, por mais diversidade que se encontre em relação às línguas humanas, elas terão uma estrutura subjacente que é comum a todas as línguas, chamada de gramática profunda, uma estrutura profunda que é predicativa e organiza a linguagem em unidades de sintagmas verbais e nominais. Aliás, a ideia de gramática universal não é de Chomsky, remonta à Escola de Port-Royal (1660). Então, Chomsky resgata essa ideia e, num contexto científico bastante diferente, com estudos de genética, faz a hipótese, não confirmada, de uma gramática universal. Nunca se achou o suposto gene, ou sequência de genes, que estaria ligado à existência dessa gramática profunda, inata, que se colocaria de forma necessária no estudo de

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qualquer língua. Portanto, todas as línguas poderiam ser consideradas funcionando segundo o princípio da predicação. Sabemos hoje que há exceções, que nem todas as línguas predicam da mesma forma. Mas há um componente inato que interessou à psicologia e à psicolinguística, que é a suposição de haver um Dispositivo de Aquisição da Linguagem, cuja sigla é DAL, o qual explicaria uma homogeneidade, uma padronização no planeta inteiro em relação à forma como as crianças aprendem a falar. Chomsky faz essa suposição num livro de 1957, intitulado Estruturas Sintáticas. Nesse mesmo ano, B. F. Skinner publica um tijolaço, Comportamento Verbal, que é a versão, digamos, behaviorista de como se aprende a falar. Na época, o behaviorismo ainda estava presente e com poder nas universidades americanas. O livro de Chomsky bate forte na tese de Skinner de que se aprende a falar a partir do que o ambiente providencia em termos de conexões, as quais vão sendo reforçadas, podendo até se generalizar. Sua explicação não é uma coisa idiota, mas é restrita e limitada. Então, se Skinner aposta suas fichas no ambiente, e num ambiente bem simplificado, Chomsky coloca as suas no inatismo, ganha o debate e passa a ser reconhecido no campo nascente das ciências cognitivas nos Estados Unidos. Para a cabeça americana universalista de Chomsky, se reconhecemos padronização na performance dos falantes, ou seja, que todos começam balbuciando e terminam formulando discursos, que há uma mesma velocidade de aprendizagem, de aquisição de fala, que há os mesmos fenômenos, inclusive de erros cometidos pelas crianças, isso só pode significar que é inato. A frequência, a regularidade e a existência de padrões, de constantes, nesse processo linguístico são reconhecíveis apesar das diferenças culturais e sociais. Eis, então, algo que só pode ser explicado pela existência de uma estrutura biológica segundo a qual temos um patrimônio comum: o patrimônio genético. Se assistirmos o vídeo da conversa de Chomsky com Foucault (década de 1960) na TV americana, veremos que um dos pontos de discordância é esse. Foucault, em linhas gerais, diz que o fato de observarmos uma frequência alta não necessariamente leva a afirmar um inatismo. Chomsky, aliás, também discutiu sobre isso com Piaget, mas manteve sua posição, que talvez decorra de um sintoma protestante, americano, religioso.

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Já Everett, mais flexível e soft, diz que não há essa universalidade, e sim processos culturais pregnantes, frequentes. Isto porque, para ele, cultura é equivalente a situações de compartilhamento: qualquer processo de compartilhar é um processo cultural. É óbvio, pois, que alguém num processo de compartilhamento encontre coisas repetidas. Se não encontrasse, não estaria numa situação de cultura. Entretanto, isso não quer dizer que se tenha que adotar uma explicação inatista, sair do campo da cultura e ir direto no campo da genética.  MD Magno – Acrescente-se a circunstância de que todos vivem no mesmo planeta, sob as mesmas circunstâncias ambientais: o sol nasce todo dia, anda de lá para cá. Chomsky não tem essa paisagem. Na quarta e última parte – “Evolução cultural da linguagem” –, Everett tenta entender como a diferenciação cultural aconteceu no processo evolutivo. Para tanto, tem que conectar uma história evolutiva biológica com várias ocorrências, vários acontecimentos, com uma história da cultura que participou, guiou, orientou e vetorizou a essa evolução linguística da espécie. Tem também que considerar certas definições de cultura. Numa delas, apresentada na primeira parte, faz referência a um antropólogo, Augustin Fuentes (p. 99), que fala da necessidade de, quanto às pesquisas sobre linguagem, produzirmos conceitos mais abrangentes, de imaginarmos mesmo uma “síntese evolutiva estendida”. Para nós, isto não é novidade, pois uma das operações da Nova Psicanálise em relação tanto à psicanálise lacaniana quanto à freudiana foi justamente alargar, estender, e mesmo generalizar os conceitos. É óbvio que esse alargamento responde a alguma necessidade, a algum problema, que se impõe e pede um deslocamento no modo de entender as coisas. E mais, o que esses autores estão considerando ainda é muito limitado se comparado com nossa escala, mas é um movimento interessante que vemos em outros campos de conhecimento também, o que pode ser uma marca, uma característica, deste nosso século. Everett fala de perspectiva holística. Sua definição mais curta e mais geral de cultura é (p. 363): “o conhecimento tácito” – e, para ele, a ideia de haver conhecimento tácito é fundamental – “e a prática visível de papéis sociais, valores e formas de ser compartilhadas por uma comunidade”. Ou seja, grande parte da cultura é implícita. Três elementos importantes a definem: valores, 398

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conhecimento e papéis sociais. O principal são esses constituintes de cultura, e o que ele chama de conhecimento são muitos tipos: os formais e os tácitos, que são conhecimentos implícitos, intuições, saberes...  MD – Saberes inconscientes. Eu não queria chamar assim, mas são as franjas das coisas. E, num livro anterior – Dark Matter of the Mind: The culturally articulated unconscious –, Everett intitula a cultura de matéria escura, fazendo uma analogia com a cosmologia.  MD – Gostei da analogia. A definição mais extensa de cultura (p. 100) – que ele retoma de seu livro acima citado – é: “uma rede abstrata, moldando e conectando papéis sociais, domínios de conhecimento hierarquicamente estruturados, e valores ranqueados. A cultura é dinâmica, mutável, reinterpretada momento a momento. Os papéis, os conhecimentos e os valores da cultura são somente encontrados nos corpos (o cérebro é parte do corpo) e nos comportamentos de seus membros”. Acho que aí não se apresenta a ideia de um simbólico, a cultura necessariamente tem existência incorporada, e não abstrata, formal ou vazia, está sempre referida a corpos. (Cabe lembrar que a definição de cultura da Nova Psicanálise – “o modo de existência da espécie” [segundo a referência do Creodo Antrópico] – é também uma definição estendida, só que bem mais estendida por não enumerar e fechar suas formações componentes). Para Everett, a linguagem surge da (p. 147): “interação entre significado (semântica), condições sobre como ela é usada (pragmática), propriedades físicas do inventário de sons (fonética), gramática, fonologia (estrutura de sons), morfologia (maneira como a língua cria palavras, usando prefixos e sufixos ou mesmo sem usar nenhum elemento) e organização de suas histórias e conversas. (...) A linguagem como um todo é maior do que a soma de suas partes”. Destaco esta definição porque, ao acompanhar as teorias linguísticas por algum caminho, sempre encontramos uma escolha. Saussure trabalhou, analisou e estudou a língua do ponto de vista do signo como unidade, é dele que parte sua descrição da língua; Benveniste parte do discurso; Chomsky parte das frases, da sintaxe, da composição das frases, de suas regras de composição; Bloomfield, linguista americano, parte do uso... Interessante na definição de Everett é não haver escolha, a linguagem é tudo isso. Se 399

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fizer escolhas, a descrição da linguagem será incompleta, hemiplégica, porque esses níveis existem em interação, em rede. Terminando, então, estes comentários, registro que fiquei um pouco na dúvida sobre a questão de haver ou não língua sem gramática, pois vi certa oscilação nas afirmações de Everett. Na parte final, ele analisa a língua dos Pirahã, e cita uma língua na Indonésia, que não analisa, talvez por desconhecê-la, em que há inexistência de gramática, ou de gramática de tipo G1. Acho que ele oscila entre dizer que não há gramática ou apenas dizer que é uma língua que só tem linearidade, e não recursividade. E isso se perde um pouco, parece não ter tanto sentido, pois o deslocamento que ele faz é tão grande em relação às teorias anteriores que talvez essa questão sequer seja tão relevante.  MD – Não é fundamental. Acho que tanto faz. *** E nós, o que temos a ver com isso? Em primeiro lugar, é bem mais próximo do pensamento em geral do século XXI do que a linguística do século XX. Em segundo, é mais próximo de nosso tipo de articulação do que da psicanálise anterior. Em terceiro, o problema é podermos dizer, contra Chomsky e a favor de Everett, que não há efetivamente formação genética que apresente a competência de linguagem. Entretanto, há algo que não está em seu texto que é: a linguagem humana tem uma origem, segundo nossa perspectiva, que se chama: a emergência de Revirão. Não é que o Revirão apresente o direcionamento da linguagem, mas é condição sine qua non de aparecer a linguagem no sentido humano, no sentido da terceira instância de Everett, a Gramática 3. E mais, pouco importa tomar partido de saber se a emergência da linguagem foi gradual ou súbita. Para mim, é gradual, gradualizada, sendo que a condição sine qua non é emergência do Revirão, por complexidade cerebral ou outra qualquer. Uma complexidade e, dentro da complexidade, emergiu o Revirão – aliás, como repetição do próprio Haver. Sem isso, não existe linguagem. Esse modo de pensar não está em Everett, que parte do princípio de que a linguagem já estava existindo para o erectus. Nosso problema é: quem vai 400

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acabar definindo ou descobrindo onde está a emergência do Revirão? Gostei da tese dele por levar o Revirão para o homo erectus, ou seja, é algo antiquíssimo, que demandou milênios para vir a produzir uma linguagem registrada. Pelo movimento frequente de reviramento, frequente e distanciado, que demorou séculos, de vez em quando – porque a massa recalcante é demasiado grande –, o Revirão vinha. Repito, gostei da ideia de colocar o Revirão no erectus, e não no sapiens, por ser bem mais antigo. O erectus demorou muito mais para se locomover dentro da espécie. Não é o Revirão que é gradual. Para mim, foi uma emergência repentina. De repente, emergiu em algumas regiões, não apareceu para todo mundo. Aliás, Everett deixa isto claro. O Revirão emergiu e, como emergência, é repetitivo do Haver em algum lugar. Ele aparece, então, necessariamente dentro de determinado Creodo, que só não sei qual é. Ele surge, é raro, mas tem que surgir em algum lugar, e leva um tempo enorme para fazer frente a todo processo recalcante da chamada natureza, do animal, dos recalques do entorno, mas já é linguagem. É quanto a isso que acho que Everett tem razão ao ver na produção do homo erectus que aquilo é linguagem, é da ordem do simbólico, é arbitrário. É pequenininho, mas é arbitrário e dependeu de que o Revirão emergisse.  Nelma Medeiros – Então, no meio da transa de formações, aqui e ali, em períodos longuíssimos, emergia um efeito catóptrico qualquer, de modo a relançar e trazer uma criação, um deslocamento? E isso não tem que ser genético, pode ser epigenético – coisa que, aliás, não é da minha conta. O que acho é que, em algum momento, a formação da espécie funcionou em Revirão e, a partir daí, vem o resto todo. Para trás disso, é mero animal. Daí para a frente, é IdioFormação. Observem que há nesse percurso uma pressão recalcante da própria natureza. O bicho precisava sobreviver, não podia ficar revirando. Se o fizesse, morria. Só podia revirar um pouquinho. Nós podemos revirar bastante porque a civilização é complexa, eles não. Deve ter levado pelo menos um milênio para dar uma reviradinha boa. Mas acho que é mais provável, mais interessante e atual a tese de que o Revirão tenha surgido no erectus. As teorias, científicas ou não, têm tendência a começar segurando, organizando demais para não se perderem. Como a coisa é mais complexa, com o desenvolvimento, a teoria vai ficando mais ampla. Há 401

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enorme diferença entre Lacan e Freud, mas Lacan é situado demais no século XX. Dá para ampliar bem mais.  PNC – À guisa de conclusão, poderíamos dizer então que, se revirou, ficou em pé. Também é ambíguo, pois não sabemos se, ficou em pé, então revirou.  Aristides Alonso – Há um ponto que fica em suspenso na crítica que Everett faz a Chomsky. É um ponto forte da teoria de Chomsky e também entre os linguistas, que é parte final da apresentação de Patrícia: a aquisição da linguagem. Algo interessante na briga com Skinner é Chomsky dizer que a coisa não se dava progressivamente, não se dava nem por reforço, e sim que, em dado momento, subitamente a criança virava um falante, começava a falar... O que aconteceu antes desse súbito? Foi um conjunto enorme de experiências que foram se organizando. Esse súbito é verdade, pois, de repente, fechamos um entendimento. É como fazemos com qualquer coisa: começamos a estudar uma ciência nova e, de repente, sacamos o que ela está querendo dizer. O mesmo acontece com a criança, mas ela não nasceu e, de repente, saiu falando. O súbito é um pouco complicado porque, de repente, ela começa a falar: todas as experiências que ela passou antes foram se organizando de modo a tomar essa complexidade e virar fala. Então, não é súbito e nem não é súbito. É uma formação de formações que, de repente, eclode.  AA – Para que isso aconteça, já há ali uma disponibilidade de qualquer maneira, de n formações, talvez mesmo de configuração genética e epigenética, que pode ter resultado desses milhões de anos de evolução. De tudo que a criança vive. Ela está viva, tem um mundo em volta funcionando. Ela está olhando: as pessoas mexem em seu corpo, ela faz cocô, alguém limpa. O passarinho faz cocô e ninguém limpa. Isso tudo é interação que vai articulando, articulando e, em dado momento, ela percebe que o barulho que as pessoas fazem com a boca é aquilo.  AA – De qualquer maneira, ela porta essa disponibilidade. A um chimpanzé, isso não acontece. É com os humanos que acontece, até onde sabemos. Entre nós, só com os humanos. Aí pelo universo, não sabemos quantas IdioFormações estão fazendo teoria agora. 402

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 PNC – Há o caso das chamadas crianças selvagens, daquelas que, por algum acaso, foram muito cedo afastadas do convívio com humanos. Se sobrevivem e são resgatadas, não conseguem engrenar, a linguagem fica bastante prejudicada. Há também aí um componente da transa entre formações. Imitaram tanto algum tipo de animal, mediante o qual sobreviveram, que, nelas, o neo-etológico é rigoroso, ninguém mexe mais. Se já é difícil mexer no neo-etológico de nossos vizinhos, imaginem no dessas crianças.  AA – Um bebê, seja em qual parte do mundo for colocado, se tiver um aparelho razoavelmente constituído, irá falar tal língua e, se for colocado convivendo com três, quatro línguas ao mesmo tempo, falará as três, quatro sem misturar. Chomsky tem razão ao fazer a suposição de que há uma estrutura profunda para todas as línguas. Só que não é uma estrutura profunda linguística, e sim uma estrutura profunda do Haver. Tudo que a pessoa vive neste planeta a está orientando para certo modo de articulação. Tanto é que para fazer poesia ou conseguir produzir uma ciência radicalmente nova, é preciso um afastamento radical do que supomos entender olhando a tal natureza, a paisagem. Isto porque a tendência é repetir as articulações que estão aí. Pensamos que o planeta não fala? Ele não tem uma linguagem, mas tem um campo de signos e de símbolos que nos empurram para uma situação. Quem nascer num planeta distante, com uma configuração radicalmente diferente, verá que as línguas de lá estarão dentro daquele processo. Entretanto, ninguém será Albert Einstein dentro do procedimento linguístico da estrutura profunda. Como sempre cito, Einstein é claro ao dizer que sua concepção não passa pela língua. Passa por um salto de articulação, é resultante do Revirão. Mas foi para outro modo de articulação: matemática, física, ciência... a coisa ficou complexa demais. Tanto é que não entenderemos a física contemporânea com blablablá de leitura literária. O nível de articulação, de composição, das formações é outro, pois ultrapassou o mito da linguagem comum. Então, percebemos que todos têm razão em quase tudo. Chomsky – por ter articulado mal, ou sei lá por que –, pensava que, se a aparência é igual em todo lugar, tinha que ser genético. É o caso de perguntar se ele nunca olhou a paisagem: o rio corre sempre para baixo, o sol nasce e vira para cá. É também a crítica de Freud a Jung. Arquétipos existem, são eles que 403

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formam a gramática profunda. Ou seja, a especulação obriga a certas repetições de que só temos saída por abstração.  AA – Quanto ao que você tem falado sobre linguagem, sobre articulação – e mesmo colocando a questão da articulação hierarquicamente acima –, mantém-se o aforisma de que o Haver se estrutura como linguagem? Sim. O que estou dizendo é que A linguagem é o Revirão. Se quisermos dar uma definição para A linguagem, é: Revirão. É sua condição sine qua non. Claro que forcei a barra um pouco, mas tudo bem.  AA – Em algum momento, você afirmou que talvez não fosse necessário dizer que “o Haver se estrutura como linguagem”, pois “o Haver se estrutura”. Podemos trocar o verbo: o Haver se organiza, se compõe. Disse daquele modo por vícios da época, que são horríveis.  MD – (comentário muito posterior). O Haver se desenha pelo REVIRÃO. É o assim chamado Desenho Inteligente: O DESIGN.

49 Leiam o livro de D. T. Suzuki, Mística: Cristã e Budista (1957). Minha edição é inglesa (há tradução brasileira): Mysticism: Christian and Buddhist: The Eastern and Western Way (A study of the qualities Meister Eckhart shares with Zen and Shin Buddhism). Já li muitos livros dele, mas este interessa agora por abordar a relação entre cristianismo e budismo mediante o pensamento de Meister Eckhart. Ele chama o pensamento oriental de budista, mas não gosto deste termo por budismo ser uma filosofia oriental que resultou em religião e organizações eclesiásticas. Já o Zen é um pensamento que não é 404

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necessariamente budista, mesmo Suzuki o chamando de zen budismo em suas obras. Interessa-me o Pensamento Zen, que, a meu ver e de vários autores, é um pensamento místico. E o pensamento de Meister Eckhart é uma espécie de ápice, de ponto máximo do pensamento místico ocidental, sobretudo cristão. Se tomarmos vários assim chamados místicos do cristianismo, veremos que aqueles mais avançados – mais potentes, digamos – apontam para o mesmo lugar. Alguns com veemência, outros com certo disfarce (por causa da pressão da Igreja): gente como Santa Teresa, São João da Cruz, as beguinas (que Eckhart frequentou), e outros. Como Eckhart, ao apontar para esse mesmo lugar, é extremamente rigoroso e radical, e aponta de certo modo que faz uma crítica que pode atingir a canônica católica, sobretudo sobre a Bíblia, ele foi, assim como outros místicos importantes, considerado herético. Isto, quando estes outros dizem o mesmo que aqueles que foram até canonizados e nomeados Doutores da Igreja. Eram disfarçados, diziam o mesmo segurando o texto para ficar o mais dentro possível da canônica. Eckhart não fez desse modo. Por isso, é simbólico da mística cristã ocidental. É o místico de ponta. Então, Suzuki, ao comparar a mística oriental com a ocidental – que, no sentido dele é cristã –, toma o Zen e Eckhart. Devemos fazer o mesmo. Por isso, peço que leiam o livro dele, que é importante para minha definição do Estatuto da psicanálise como místico. É no sentido de que o mesmo exercício mental que a psicanálise faz de seu modo, o Zen e Eckhart como cristão também o fazem, cada um de seu modo: todos apontam para uma região de absoluta indiferenciação. Eckhart chama de Fundo e o Zen aponta igualmente para lá. Com isso, quero dizer que, em nosso mundo contemporâneo, podemos compreender e afirmar a confluência dos pensamentos místicos importantes: a confluência do Zen com a mística, herética ou não, do cristianismo em geral, assim como com a mística da psicanálise. É um movimento no sentido do ápice do psiquismo, o ponto máximo de seu atingimento. Lerei um trecho de Eckhart: “Agora saibam que toda nossa perfeição e nossa santidade” – termo usado por Lacan – “está no seguinte: uma pessoa deve penetrar e transcender tudo que é criado e temporal e todo ser, e ir até o fundo que não tem fundo”. Ou seja, segundo minha perspectiva, ele está mostrando a diferença entre Ser e Haver. Não atingimos a indiferença do Haver se não nos 405

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afastamos da ordem do Ser. É ao que Freud se referia como: neutralidade da escuta do analista. Só se atinge neutralidade mediante esse tipo de exercício mental. Continua ele: “Rogamos ao nosso caro Senhor Deus que possamos nos tornar Um e unificados, e possa Deus nos socorrer no mesmo fundo”. “Senhor Deus” não é senão: o Haver. É importante esse passo que a psicanálise possa dar de entrar no Quarto Império. O reconhecimento dessa Indiferença nos três pensamentos – Ocidente, Oriente e Psicanálise (que está do lado do Ocidente, mas não é impossível no Oriente) – é importante como talvez a via de possibilidade de entrada, digamos, correta na ordem do Quarto Império para todo o planeta, para todo o processo global. Se pensarmos na última instância, os três têm a mesma indicação. Está no fundo da cultura do Oriente, mesmo que abarrotada de recalques e de formações culturais, a razão de Indiferenciação proposta, por exemplo, pelo Zen. Não falemos em Confúcio, que é um burocrata, mas, atravessando até os chamados budismo, cristianismo, etc., está essa razão de última instância que a psicanálise pode tomar para si como fundamento. No processo de instalação do Quarto Império não será possível chegar a um denominador comum se não houver um pensamento comum. E suponho que ele esteja lá no ápice que chamo de: Zen; pensamento de Eckhart; e pensamento Psicanalítico. Além disso, precisamos, sobretudo aqueles mais jovens, nos precaver porque o momento atual não é do Ocidente. Efetivamente, o momento é da China. Os jovens que aprendam mandarim, pois a situação vai virar. Em breve – dentro de dez ou vinte anos –, haverá um Revirão Ocidente / Oriente. Se prestarmos atenção com mentalidade psicanalítica, indiferenciante, veremos dois personagens contemporâneos – Putin e Xi Jinping – para além da impressão que temos de ambos serem ditadores. Ditador é Putin, mediante manobras policiais, eleitoreiras e numa posição de mando pessoal. O que importa é sua determinação pessoal na política da Rússia. Xi Jinping, por outro lado, é da ordem da emergência. Ele lá está na China – certamente mandando em tudo – com pleno assentimento de sua cultura, da qual é uma emergência e um lídimo representante. Putin, ao contrário, é apenas russo. A cultura chinesa é atravessada pelo entendimento Zen, diferentemente da ocidental que não optou pela cultura mística, e sim pela cultura eclesiástica e religiosa.

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Digo que o estatuto da psicanálise é místico porque, se lermos Eckhart e se passarmos a limpo sua visão mística para um aparelho conceitual, estaremos no cerne da Nova Psicanálise. E se tomarmos a definição de Deus de Tomás de Aquino – que era absolutamente canônico – como o verbo esse, que é ser, veremos que ele não disse que Deus é ser, e sim que Deus é O Ser, como faz a filosofia ocidental ao falar n’O Ser (Heidegger, por exemplo). Ou seja, O Ser é Haver não é da ordem do ser. Por outro lado, então, o que sustenta nossa posição de modo de operação analítica, ao contrário e superando a visão de século XX do conceito de metáfora, é a vontade de analogia, a qual caracteriza nosso momento. É um conceito bem mais amplo, menos definido e demasiado abrangente. (Notem que, em Lacan, metáfora não é muito o mesmo que é na ordem linguística, é sim uma operação lógica que ele faz como se fosse uma terceira proporcional). Quanto a isso, leiam o livro de Douglas Hofstadter e de Emmanuel Sander, Analogy as the Core of Cognition (2013), que já recomendei [cf. itens 17 e 18 acima]. Leiam também, de Enzo Melandri [cf. item 18 acima], filósofo italiano que ficou meio obscurecido e está sendo retomado com vigor, La Linea e il Circolo: Studio logico-filosofico sull’analogia (1968), um estudo lógico-filosófico sobre a analogia, que tem 880 páginas. Ele sempre faz algum diálogo com Lacan, e está bem mais próximo de nossa visão atual em contraposição a certas posições de Lacan. Outro livro dele é Contro il Simbolico (1993), com dez lições de filosofia. Este é menorzinho, só tem trezentas e dez páginas. Ele tem ainda outro, este bem mais fino, umas cem páginas, intitulado L’Inconscio e la Dialettica (1983), que é especificamente importante para nós por querer considerar o Inconsciente de seu ponto de vista, de uma arqueologia que, digamos, é sobrinha de Michel Foucault. Leio para vocês a última frase do posfácio, de autoria de Felice Cimatti, que busca fazer um resumo do livro: “A psicanálise não dá a palavra ao inconsciente” – como foi o vício de pensar até o final do século XX –, “ao contrário, produz inconsciente novo e, assim fazendo, inevitavelmente o revoluciona” – há certo cheiro marxista aí [La psicoanalisi non dà la parola all’inconscio, al contrario, produce nuovo inconscio, e così facendo inevitabilmente lo rivoluziona (grifo do autor)]. Não é preciso revolucionar, basta revirar. Isso é interessante por Melandri considerar, como também diz 407

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Cimatti, que a psicanálise é o pensamento analógico por excelência. Concordo com ele: a psicanálise é a evidência do pensamento analógico. Daí Freud até achar que ele fosse ilógico. Não é que o seja, e sim que tem sua lógica própria que é da ordem de todo tipo de deslizamento da analogia. Por que gostei dessa frase – “A psicanálise não dá a palavra ao inconsciente, ao contrário, produz inconsciente novo e, assim fazendo, inevitavelmente o revoluciona” – que resume o pensamento de Melandri? Há algum tempo, tomei a definição de Nietzsche – “Não há fatos, só há interpretações” – e disse que, de nosso ponto de vista, é o contrário: Só há fatos, não há interpretações. A vontade de interpretação, em vigor na psicanálise até o final do século XX, é a tentativa de, metalinguisticamente, explicar o que disse o Inconsciente, explicar o que propôs o Inconsciente do analisando. Se penso que estou fazendo uma interpretação, estou trazendo à luz a verdade do que o analisando disse. Não se trata disto. A psicanálise não deixa o Inconsciente falar para interpretar, ela intervém na fala e no comportamento do analisando no sentido de produzir fato de maneira a deslocar o fato anterior suposto em sua mente. Então, ao dizer algo ao analisando, o analista não estará interpretando, e sim mexendo no que ele disse e colocando um fato novo. O fato novo desloca a articulação e, portanto, desloca o sintoma do analisando. No que este aceita e inclui o fato novo colocado pelo analista, a articulação do Inconsciente se modifica. Daí ele fazer deslizamentos capazes de suspender o sintoma. Aproveito a noção de intervenção do analista como produção de fato novo para repetir que, revirando o lema de Nietzsche, podemos fazer o concerto da mística ocidental, representada em seu ápice pelo pensamento de Meister Eckhart (que é seu mais claro representante); do Zen, enquanto a mística oriental; e da psicanálise, tal qual a considero NovaMente, com seu estatuto místico. É, pois, o concerto desses três momentos de pensamento no mundo. Segundo Melandri, a psicanálise é o saber analógico por excelência e não deixa falar o Inconsciente, mas produz novo Inconsciente. Então, mediante uma produção analógica adequada ao material trazido pelo analisando, ela não oferece interpretação, mas apresenta a analogia produzida como fato novo do analisando, o que necessariamente revira o Inconsciente do analisando em negação da formação anterior. E, no que desliza, deixa de ser Estacionário. 408

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Para tanto, é necessário que o psicanalista pratique a Indiferenciação, a qual o levará a acolher e revirar o que lhe foi trazido. Ou seja, a referência é mística, é à Indiferenciação que está no ápice do processo assim como no Zen e na mística ocidental. Esta prática de última instância é que caracteriza o mesmo nível e âmbito tanto o Zen quanto a mística cristã e a psicanálise. É o recurso à Indiferença da última instância – que Eckhart chama de fundo sem fundo e que chamo de Haver – que permite, cada uma a seu modo, que essas práticas funcionem dentro da mesma operatividade, embora sejam de cepas, de modos de operação diferentes. Portanto, a plena aceitação da Diferença, ou das diferenças, pela psicanálise não depende do tratamento das diferenças. Depende, sim, do tratamento da Indiferença. É por um processo de Indiferenciação – como dizia Freud: de neutralidade diante do que quer que seja posto – que é possível aceitar plenamente a existência das diferenças. Se quisermos fazer contraponto, podemos tomar um pensamento como o de Deleuze para reafirmar – já falei sobre isso outras vezes – que é o oposto do fundamento místico da psicanálise. Deleuze não pretende ativar um processo de Indiferenciação para considerar a diferença. Para ele, basta considerar as diferenças, o que é infinito e não leva a processo algum de unificação do entendimento. Para a psicanálise, ao contrário, é a postura mística do Indiferenciante que é capaz de acolher e gerir o entendimento das diferenças. Reforço isso para ficar claro que a psicanálise não é uma filosofia da diferença.  Lia Guarino – Deleuze considera a multiplicidade, a qual, para ele, também tem um fundo, que é uma diferença em si. Digamos que o fundo de tudo seria um puro diferir de si mesmo. É a noção dele de esquizofrenia. O êmulo de Deleuze / Guattari é Lacan com aquele pensamento molar do século XX e na tentativa de tudo unificar num processo que podemos dizer que é de índole paranoica. Lacan não está falando de Indiferenciação, e sim de uma revisão de conjunto da psicanálise, com vocação científica no começo e, depois, de unificação. Deleuze / Guattari se contrapuseram a isso e elegeram o que chamaram de esquizofrenia – que, aliás, acho absurdo, pois nem uma esquizousia é – como modelo. É o modelo molecular contra o modelo molar de Lacan, como disseram. Então, por mais 409

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que falassem – e tinham que falar, pois não são bobos – que há um fundo em que há indiferença, só operaram no regime da diferença, da multiplicidade, dos rizomas, das redes. O que estou dizendo é que a operação filosófica deles nada tem a ver com a operação psicanalítica, que, esta, parte de uma Indiferença radical para acolher o que apareça de diferença. A postura é oposta. Não é de considerar a diferença em seus processos de diferenciação, e sim de pensar de maneira indiferente, indiferenciante, para ter a condição de acolher neutramente todas as diferenças, sejam quais forem. A postura que tento é terceira em relação a Deleuze e Lacan. É a postura que considero necessária desde Freud. Freud trata pouco da definição neutra do analista, mas é algo fundamental em sua postura de escuta. Então, o que é uma neutralidade? Só a temos considerada, ou mesmo intuída, nos místicos – no Zen, na mística ocidental e, digo eu, na psicanálise vista NovaMente. A postura do analista, na consideração do analisando – seja ele uma pessoa ou o mundo –, é a postura da Indiferenciação. Não digo “da indiferença” porque esta é impossível. O Zen sonha que seja possível chegar a uma absoluta ausência de desejo, a uma absoluta indiferença – foi um sonho do Zen, não é possível. O que temos é o exercício, a ascese – em grego: ‘áskesis’, exercício –, permanente de indiferenciar, de frequentar a posição de acolhida radical sem juízo sobre as diferenças. Só assim elas comparecerão e será possível considerá-las e intervir (não interpretando, mas) tentando produzir fato novo para deslocar o fato velho. Ou seja, para mexer com o sintoma velho, entrega-se uma formação nova que, por mais sintomática que seja, é nova e mexe com as formações estacionadas no analisando. O Zen faria isso simplesmente dando um empurrão na pessoa, ou um tabefe – é como ele traz a realidade de volta, i.e., como produz o fato novo. Faz um gesto qualquer que, a partir de uma indiferença, desloca a pessoa. Temos, então, a mística como processo de afastamento e indiferenciação e a analogia como modo de articulação do pensamento. A analogia nos interessa hoje contra a metáfora do século XX, que é linguageira. A analogia não é necessariamente linguageira, é muito mais abrangente. A psicanálise, então, não está fazendo um trabalho intelectual, e muito menos filosófico, na consideração das diferenças. Uma vez as diferenças consideradas com indiferença, sem juízo que iniba seu aparecimento, elas, as 410

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diferenças, se mostram. Por isso, Lacan diz que a resistência sempre está do lado do analista. Digo eu: se o analista não consegue neutralidade, indiferença, diante do que o analisando traz, produz resistência no ato. Acontece a todo analista, de vez em quando, perder a neutralidade – e tem que regressar a ela correndo. A psicanálise trabalha na operação de Indiferenciação para que a diferença de cada um compareça. Aqueles referidos à filosofia não acolhem diferença alguma, mas operam a partir de sua busca da diferença e ficam intelectualmente procurando diferença. A postura filosófica é diretamente intervencionista, antes de ser indiferente. Isso não interessa à psicanálise, não a ajuda a escutar o outro. Se considerarmos, como devemos, que cada analisando é singular em sua diferença – não existe análise genérica, cada caso é único –, como nos preparar para acolher um caso novo se partimos de uma postura intelectual ou já organizada? Há que passar por uma Postura Perplexa de nada entender e de acolher o de que se trata. Isto é singular  Aristides Alonso – Sobre a analogia como modo de produção articulatória de nossa mente... Os autores que citei dizem que a analogia é “o coração do pensamento”. Ela tem muitas faces.  AA – Ao falarmos agora em analogia, estamos com o império do digital. O digital, para você, é um aspecto da analogia? Apenas um deles – que precisa ser superado pela computação quântica.  AA – Quanto à Gnômica da psicanálise, ao tratar do conhecimento, você diz que é operação e efeito da HiperDeterminação – portanto resultando em conhecimento novo. Mas, no geral, vivemos num império do conhecimento velho, que já foi novo. Podemos, então, falar em conhecimento tanto relativo ao velho, frequentemente transformado em neo-etologia, quanto ao novo? Conhecimento velho pode se transformar em arquivo, em patrimônio, em enciclopédia, por exemplo. Pode até ser a enciclopédia de Borges, na qual cabe de tudo – é, aliás, a enciclopédia da analogia por excelência. O conhecimento novo, dependente de ato de suspenção, de criação, precisa suspender a enciclopédia para comparecer como novo. O mesmo ato de suspensão é um ato de indiferenciação, de neutralização, de terceiro incluído – Ponto Bífido. Eckhart, aliás, chega a falar que há um pontinho que faz a coisa virar. 411

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 AA – Mas o sentido velho, esse arquivão, também tem uma praticidade nas operações mais cotidianas. É útil quando não resolvemos, burramente, que ele serve para tudo. A imbecilidade não está no conhecimento velho, e sim na suposição de que tudo resolva. Isto não é pensar. É o que Lacan criticava no que chamou discurso universitário, aquele que fica ruminando o arquivo. É o já deglutido que volta para a boca sem novo algum – pura combinação: conhecimento vacum.  AA – Retomo a ideia de informação. Para Shannon, ela é a informação nova. Entretanto, a informação velha, a redundância, é a que praticamente governa as transas cotidianas. Shannon tem razão, pois a definição de informação não inclui o informado. In-formar quer dizer ‘dar forma’. Então, se estamos dando forma, não estamos formados. Informação velha é: comunicação. Não nos comunicamos pela novidade. A novidade suspende a comunicação – até ela poder ser incluída e ser possível conversar a respeito dela. E mais, quando o aparelho é excessivamente Estacionário, quer matar o novo, pois mexe com seu estacionamento. É frequentemente o caso da Igreja católica.  Patrícia Netto Coelho – O uso do conceito de analogia é bem antigo em sua obra... Mas não tive a pachorra, a força ou a disponibilidade de fazer um trabalho sobre esse conceito do tamanho do que esses autores fizeram, que é excelente.  PNC – Você disse que o modo de produção, de existência, da psicanálise é o modo de produção do Inconsciente, a qual produção é possibilitada pela analogia. Não podemos esquecer que a intervenção do analista é analógica. Daí, às vezes, parecer sem pé nem cabeça.  PNC – Poderíamos também pensar que o modo de produção do que quer que seja é analógico? É o mesmo. Há pouco, falávamos da informação. Se não se produz in-formação, o Inconsciente não se mexe. Informação é: fato novo – conhecimento novo, coisa nova. Comunicação é coisa comum, como diz o nome: já se sabe, e se repete. O analista, mutatis mutandis, produz informação para o 412

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analisando. O analisando estava comunicativo – falando a mesma merda a vida inteira –, mas mal informado...  PNC – Quanto à aproximação do pensamento místico, você fala em pontos em comum com o Oriente, o Ocidente e a psicanálise. A ascese nos três é também o modo de produção analógico? Se perguntássemos a Einstein como inventa as coisas, ouviríamos ele falar de um ato místico. A pessoa tem que abandonar tudo que sabe, ficar perplexo e, então, deixar o novo cair-lhe na cabeça. Este é o denominador comum dos atos de criação. Não cabe pensar que aqui está o místico, ali o analista e lá o cientista. É tudo a mesma coisa. Todos que vão Lá conseguem o quê? Criar informação.  PNC – A ideia de que há um denominador comum é uma postura da psicanálise. É ela que reconhece isso. Agora, ela está reconhecendo isso. Não é comum na sua história vermos esse reconhecimento.  PNC – Freud estava na tendência de reconhecer. Sim. Acho que foi com ele que aprendi. A entrada do Quarto Império precisa de uma faxina no acervo e da busca de denominadores comuns para equacionar certos processos, que são a mesma coisa, a mesma ordem, mas que estavam situados em configurações diferentes. Se há algum projeto civilizacional de futuro para a espécie é esse. Ele é que acabará com a porradaria. Antes de ele chegar, a porradaria aumentará demais.  P – Podemos articular a citação que “a psicanálise não dá a palavra ao inconsciente, ao contrário, produz inconsciente novo” com o fato de não se tratar de linguagem nesse processo? Como sabem, digo, brincando com a frase de Lacan, que “o Inconsciente se estrutura [não como linguagem, mas] como o engajamos”. A metáfora, em Lacan, depende do Simbólico, depende da linguagem. A analogia não depende dela. Por exemplo, um processo no âmbito das artes plásticas é analógico, não passa necessariamente por língua alguma, por linguagem alguma. Em quê, então, o artista está engajando, investindo, o Inconsciente? Picasso, por exemplo, não discursou o cubismo, ele viu assim. Ele não fazia arte conceitual.

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Até dá para considerar que Duchamp possa ter pensado uma articulação para fazer seu trabalho, mas Picasso não é conceitual.  P – Em algum lugar, você diz que a HiperDeterminação é a interseção entre todos os Revirões possíveis. É o lugar onde todos os Revirões possíveis podem acontecer. Temos o conceito de lugar geométrico, em Euclides, e o conceito de lugar em Mallarmé – “Rien n’aura eu lieu que le lieu” –, que duvido que alguém diga qual é exatamente. É desse lugar que estou falando.  P – O fundo, de que fala Eckhart, é substantivo? É prisão demais. O fundo é: o fundo. Como poderia ser substantivo se é sem fundo. É neutro. Sequer é adjetivo – é muito estacionamento.  Potiguara M Silveira Jr – Você falou do reconhecimento da mística como “passo que a psicanálise possa dar de entrar no Quarto Império”. Em 2004 – Economia Fudamental –, você disse que “O Império tem um modo de produção – que pode instalá-lo ou não – e um modo de instalação. Ambos são do regime da economia de uma sociedade, mas um não é necessariamente o mesmo que o outro. O modo de produção é empresarial, no sentido mais abstrato da época moderna, envolvendo empreendimentos políticos, militares, etc.; e o modo de instalação é sempre religioso” (p. 30-1). O modo de fazer não pode ser outro senão com rosto empresarial e religioso, mas a condição para chegar lá é mística. A operação para chegar lá é ir para o denominador comum que indico.  PMSJr – Minha dúvida estava em pensar que o denominador comum dissesse respeito a uma necessária instalação religiosa em seu sentido máximo de Arreligião. Vejo agora que o que você disse em 2004 se refere à instalação em sentido menor de religião configurada. A instalação é religiosa porque, em última instância, as pessoas tomam as formações e transformam em grandes religiões. Sempre há essa neura de não deixar um pensamento fluir. Basta ver o lacanismo, que já virou religião. Espero que meu trabalho tão cedo não vire.  AA – Você coloca agora um ponto a mais em relação à produção e à instalação, que o modo de criação de um Império é necessariamente místico. Tem que passar por Lá. 414

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 AA – Os modos de produção e de instalação são praticamente a descrição de modelo de funcionamento do mercado. Na publicidade, além da produção, o que temos é a instalação da mercadoria por conversão. O que interessa é transformar o consumidor em adepto, crente naquele produto. Fidelizar o consumidor. Não se pode produzir mundo sem decadência. É igual à análise: a intervenção produz Inconsciente novo, produz informação, que será decantada em produções congeladas. O movimento é entre uma produção e outra. Sempre foi assim, sempre será. Só que será um fato novo chamado Quarto Império. A instalação não apenas vira religião como acaba virando igreja. Isso é evidente quanto ao que aconteceu com o pobrezinho do Lacan. Esse lacanismo espalhado pelo planeta é competidor com o Vaticano. Antes, foi a IPA – quase colocou Lacan na fogueira como herege –, que ficou desmoralizada, mas foi até bom para ela: virou uma multiplicidade (que já é melhor do que uma igreja unitária). É a decadência da religião, torna-se um politeísmo, se não for um panteísmo. É preciso diferenciar as posturas mentais. Há a postura de crença e outra que é de aposta. Pascal, aliás, tentou substituir o valor de crença pelo valor de aposta. Ele dizia ter fé porque era uma aposta. Ou seja, fé depende de uma aposta. Uma coisa é apostar, jogar, outra, acreditar, ou seja, ser estúpido.

50 Farei alguns comentários sobre a situação da psicanálise nas entradas de século XX e de Quarto Império, em que tivemos a gestação da psicanálise. O livro de Henri Ellenberger, A Descoberta do Inconsciente, que já recomendei 415

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que lessem, descreve, após o surgimento da psicanálise com Freud e seus seguimentos, o longo período da psiquiatria dinâmica e de outras transas psíquicas que podemos considerar como uma espécie de gestação da psicanálise. Ela nasce, em seguida, com sua especificidade, nas mãos de Freud, que consegue se afastar do processo de gestação e conceber uma teoria do psiquismo diferente tanto da psiquiatria dinâmica quanto das psicologias anteriores. Com isso, a psicanálise é nova e diferente. E vai mesmo na contramão dos discursos anteriores. No entanto, a psicanálise nasce dentro do final do século XIX com muitos problemas. Ela tem certos sintomas de parto. Freud fez o que pôde na tentativa de entendimento do psiquismo de modo novo e produziu uma obra volumosa que, na verdade, é um grande projeto de introdução ao pensamento psicanalítico. É importantíssimo, mas é ainda a fase de introdução à psicanálise. Costumo dizer para mim que Freud e seus seguidores, e seguintes logo depois dele, são da ordem do nascimento e da infância da psicanálise. É preciso entender isso, pois eles tinham o direito de começar com as ferramentas, os propósitos e as consecuções que foram possíveis. Digamos que seu nascimento seja no final do século XIX e, em 1900, ela é parida realmente com a publicação d’A Interpretação dos Sonhos e, depois, com toda a obra de Freud. Na sequência, também com alguns seguidores e com aqueles seguintes que supunham não mais estar sendo seguidores, estarem fazendo outra coisa. Visto à distância, hoje, qual é o sintoma mais evidente desse nascimento e dessa infância da psicanálise? É que as teorias foram se formando a partir da análise pessoal de cada autor. A chave mestra de cada teoria psicanalítica forjada no fim do século XIX e começo do século XX é: são teorias que partem da formação sintomática de cada autor, a de Freud inclusive. Édipo é uma história pessoal, que Freud tentou generalizar e aplicar à interpretação – como ele chamava – de seus analisandos. Como era genial, não ficou apegado apenas ao Édipo e produziu vários artefatos teóricos da maior importância – mas, continuo a insistir, aquele momento era o da infância da psicanálise, e ela estava demasiado conteudizada. Alguns de seus alunos, é o caso de dizer, que se rebelaram contra a posição Freud ou que quiseram emular com ele, ou por inveja dele, produziram teorias supostamente novas – caso de Adler, Ferenczi e Jung. Ao olhar para a 416

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obra deles hoje, verificamos ser repetição do mesmo sintoma. Cada um queria tomar sua própria análise, a descoberta de sua formação sintomática, e fazer disso uma teoria da psicanálise. Como não tinham o talento ou a grandeza de Freud – que, mesmo partindo de seu sintoma, foi capaz de acrescentar enormemente o processo –, trouxeram teorias pobres por serem teorias de caso. Não que não sejam possíveis, mas são apenas casos capazes de se repetir em histórias das pessoas, e não teorias abrangentes. Teoria do complexo de inferioridade, caso de Adler, é uma bobagem que, mesmo encontrável nas análises, não faz uma teoria da psicanálise. Traumas de nascimento, caso de Otto Rank, também são encontráveis, mas tampouco fazem uma teoria da psicanálise, fazem um caso. Jung, este, talvez por não ter entendido o processo cada vez mais abstraente do projeto de Freud, deu para trás. Fez, então, uma psicologia de fatos psíquicos. Aquilo não é psicanálise e, sim, como chamou, uma psicologia analítica. Sua obra é importante, tudo de que trata existe, mas é uma psicologia de fenômenos psíquicos que acontecem às pessoas. Não há nela um processo de abstração como há em Freud. Isso tudo, então, durou, com seguidores que, dentro do processo freudiano, levantaram certas construções sintomáticas importantes – caso de Melanie Klein e outros –, mas que não merecem ser base de teoria. De repente, chega um cavalheiro chamado Jacques Lacan, psiquiatra jovem, que está metido num processo diferente do processo freudiano. Freud fazia a suposição de estar começando uma ciência nova e estava imbuído de mentalidade, digamos, científica – sabe-se lá o que seria isso em sua cabeça naquela época. Lacan nasce em 1901, um momento novo no século XX. A Interpretação dos Sonhos já tinha sido publicada e a psicanálise estava andando com velocidade. Quando adolescente e jovem, Lacan convive com vigorosos movimentos emergentes de cultura. O surrealismo, que frequenta de perto e mexe demais com sua cabeça. (Freud, aliás – por algum defeito seu –, não conseguiu entender o surrealismo, com exceção do grande paranoico, Salvador Dalí, o qual entendeu mais ou menos). O surrealismo era bastante poderoso na tentativa de compreender o psiquismo humano e suas formações. Lacan se mete naquele meio, o que é algo importante na formação de sua cabeça. Em seguida, com sua pequena experiência psiquiátrica no Hospital Saint-Anne como aluno de Clérambault, o psiquiatra mais importante da França, ele, para 417

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além do surrealismo, se depara com o nascimento do estruturalismo, que é algo revolucionário em meados do século XX: Lévi-Strauss, a linguística com teorias poderosas, Saussure, Jakobson... O que acontece com o século XX? Digamos que o século XIX tinha forte tendência histérica, tanto é que Freud situou a psicanálise no modelo da histeria. Mas, por volta das duas primeiras décadas, o século XX adota a paranoia como modelo. Então, se o modelo do século XIX era histérico, o modelo reinante no século XX é paranoico, um modelo com configuração psicótica. O próprio Dalí chamava sua produção e sua intelecção da arte de paranoia crítica. Até hoje, aliás, não se sabe se esse nome para a postura da época foi dado por ele ou por Lacan. Paranoia crítica quer dizer: o processo é paranoico, mas não é preciso ser psicótico para entrar nele – é uma escolha de modelo. Não é, portanto, uma paranoia psicótica, e sim a paranoia como modelo de pensamento. Lembrem-se de que, depois de instalado o século XX, tivemos duas guerras mundiais, governos, posições políticas e posturas intelectuais inteiramente paranoicas: Rússia, China, pensamento de Marx... Lacan não podia fugir desse modelo, que estava à disposição. O modelo do estruturalismo, então, é de configuração paranoica, coisa que Deleuze percebeu. Isto, no sentido de que – assim como eu disse que Freud e seguimentos é a infância da psicanálise –, com essa era do século XX, aparece a adolescência da psicanálise (junto com o pensamento adolescente de paranoia que invadiu todo o século XX): arrogância, tentativa de auto definição, de contraste com o resto do conhecimento (cada ciência querendo se definir com toda clareza, em distinção das outras), de modelo rigoroso de pensamento... “Rigoroso” quer dizer: paranoico. A psicanálise não fica atrás. Lacan entra nesse mesmo modelo e quer produzir uma psicanálise adolescente com os trejeitos dos adolescentes: fazendo birra, fazendo uma teoria rigorosa, precisa, ultracientífica... Para isso, envolve-se imediatamente com o estruturalismo, com a linguística, e cria uma psicanálise inteligentíssima e complexa a partir desse modelo. Rendeu muitos frutos e, como Lacan não é estúpido, há em sua perspectiva uma crítica permanente a esse modelo. E ele fica em idas e vindas para dar conta dessa postura de vocação paranoica. Tanto é que seu grande feito é supor ter descoberto a estrutura da psicose paranoica no processo que frequentava, ao qual dá o nome 418

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de foraclusão de certo significante que chama de Nome do Pai. Ele desenvolve isso até as últimas consequências. Como isso fracassa em suas próprias mãos, ele passa para outras construções, adota a topologia, enrasca-se de todos os modos em nós borromeanos e consequentes... E faz sua obra monumental, que é inteiramente de acordo com a mentalidade adolescente e paranoica do século XX. É o que pôde ser feito. Terminada essa fase, o que temos hoje é a esteira de seus restos na história do conhecimento, nos movimentos políticos, nos movimentos da psicanálise... Mas chegou a hora de acabar com essa adolescência e essa paranoia. Nesse entendimento, tentei outra coisa que me pareceu mais compatível com a situação hoje. Era preciso entrar na idade adulta da psicanálise – ou seja, que ela fosse a mais abstrata possível e tivesse condições de entrar no Quarto Império, que chamo Oespírito por ser o Império da informação, dos algoritmos... É o entendimento de que o processo é mais abstrato do que se supunha. Falar em sujeito é conteúdo demais, falar em objeto é anedótico demais, falar em interpretação – termo que não sei se vem de Freud – também é anedótico e é um erro. Psicanálise jamais fez interpretação, isto não existe. Hoje, as ciências do cérebro descobrem que, nos processos ditos terapêuticos do psiquismo, inclusive na psicanálise, a intervenção do chamado terapeuta é simplesmente enfiar um processo novo na mente daquele que o procurou – ele não interpreta o que lá está. Isso parece comparecer mesmo em exames clínicos cerebrais de alta tecnologia. Minha tentativa, então, depois de longamente lutar com esses procedimentos do século XX, foi procurar uma teoria e uma prática contemporâneas, compatíveis com nossa época. Para isso, foi preciso abandonar o anedótico do passado e tomar as ferramentas do momento – não importa se são erradas, no sentido que foram as outras: um erro que acertou – como condição de conhecimento e de praticidade de agora. É o que chamo Nova Psicanálise, na qual passei a adotar outros instrumentos, outros tipos de raciocínio e de articulação no intuito de maior abstração no entendimento do funcionamento do psiquismo. É o que está apresentado a vocês como teoria que evita os procedimentos paranoicos do século XX tanto na psicanálise, quanto na teoria do conhecimento, na concepção das ciências e da política. Repetindo, como as teorias e práticas políticas herdadas do século XX são paranoicas, temos que 419

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forjar as nossas. E faço a suposição de que não há discurso mais competente para forjar a nova posição política do que o discurso da psicanálise tal qual se apresenta hoje. No que faço a operação – que me foi custosa e trabalhosa – de tentar abandonar a parafernália tanto da infância quanto da adolescência da psicanálise, deparo-me com algo muito curioso. Em todas as pesquisas que fiz dentro da cultura do mundo, começo a perceber que, na história da humanidade, mais do que qualquer tentativa de ciência do psiquismo, mais do que psiquiatria, do que a psicanálise dos séculos XIX e XX, do que as psicologias que se forjaram – com vários acertos, etc. –, pensamento algum foi mais longe na tentativa da abordagem do funcionamento do psiquismo do que aqueles a quem chamo: os Místicos. Por que isso não foi percebido há mais tempo? Porque esses místicos são de eras de dominação religiosa fortíssima, tanto no Oriente, quanto no Ocidente. Então, seu nascimento se deu numa mistura bastante conspurcada por mistificações religiosas. No entanto, o pensamento místico está lá independentemente do discurso religioso. Já chamei atenção para o fato de que isso ocorre tanto no Oriente como no Ocidente. Não estou falando dos discursos das religiões, e sim que, no seio desses movimentos, sempre apareceu o procedimento místico, que, dentro dos recursos de cada um em seu tempo e espaço geográfico, é uma tentativa de ir ao ápice do funcionamento do psiquismo. E foram mais longe do que todos os dispositivos anteriores. Mais até, depois, do que a própria psicanálise. No Ocidente, misturado com o horror do cristianismo, sobretudo da Igreja católica, há enorme quantidade de operações de pensamento místicos de algum modo – mesmo que aprisionados à obrigação da Igreja Católica Apostólica Romana – que aponta para o mesmo lugar. Alguns com eficiência e precisão superiores aos outros. Caso de: Meister Eckhart, de quem vimos tratando em nossos últimos encontros, e seus seguidores mais próximos ali na chamada Mística Renana. Então, procurando por essas tentativas de exposição do psiquismo, mesmo indo ao pensamento grego – no qual supostamente nasceu a filosofia –, Lacan tenta discernir no pensamento de Sócrates a posição do analista. É o que lemos em seu Seminário que trata d’O Banquete, de Platão. Sócrates, segundo ele, aí comparece como verdadeiro analista das formações idiossincrásicas dos 420

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tesões de Alcebíades. Mas, ao pensar nas formações que conheço da Grécia antiga, identifico um personagem apresentado no texto de Sófocles sobre a mitologia de Édipo que, este sim, é a configuração do analista: Tirésias. Vemos, portanto, que há não apenas a confluência da mística oriental, o Zen – não estou me referindo a zen budismo, e sim ao Zen que compareceu independentemente primeiro –, com a autêntica e verdadeiramente explícita mística cristã, e igualmente com a psicanálise, aquela de hoje, quero dizer. Há também confluência com a mística grega, por detrás e acima de sua parafernália desejante, na figura de Tirésias – que eu chamaria: o Trans. Ele, abandonando o olhar por causa da cegueira de seus olhos, conseguiu ver para além das negações e das oposições. Temos em Tirésias a mitologia do Revirão e a consequente clarividência do poeta em relação à sua Indiferenciação na consideração do mundo. Por isso, ele é o único a perceber o que acontecia à volta de Édipo. Digo que era um ser Trans porque, segundo a mitologia, ele era homem, virou mulher e voltou a ser homem. E na própria Roma, com toda sua caretice, temos Ovídio que, na consideração da história da humanidade, concebe-a como Metamorfoses (ano 8 E.C.), como Trans-Formações. Ou seja, isso estava aí à disposição e não foi tomado do modo que apresento, pelo menos não pela psicanálise disponível até então. Recupero essas experiências psíquicas – gregas, romanas, medievais, orientais – que têm comparecido na literatura do mundo para concebê-las com as experiências que foram mais longe no trato do psiquismo humano. Se as separarmos do contexto religioso em que foram produzidas, entenderemos o caminho da psicanálise no século XXI. Temos que ir ao mundo e procurar as experiências mais radicais com o psiquismo por terem sido mais radicais que as experiências das psicologias, assim como da psicanálise do século XX, que estavam assujeitadas, poderíamos dizer, aos modelos religiosos que as subjugavam. Justo por isso, aquelas experiências foram perseguidas pelas religiões oficiais. De certo modo, dissolviam o próprio poder dessas religiões. O exemplo mais claro é a Igreja católica assassinando qualquer pensamento místico efetivo. Caso de Eckhart, que felizmente morre antes de ser levado à fogueira que já lhe tinham preparado. A fase adulta da psicanálise fica um ponto acima das oposições: a neutralidade e a Indiferenciação, a Bifididade e a Transa de 421

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Formações. Esta é a abstração que se pode fazer da consideração desses pensadores do passado que foram ao ápice da experiência psíquica. Isso vai intervir no futuro – o momento presente ainda é Estacionário nas formações do século XX, está compromissado demais com aquele bobajal paranoico, e está dando para trás (até bater com a cara na parede e voltar a andar para a frente). É uma pena não termos um processo rápido desse entendimento para a produção de conhecimento novo, de política nova, de consideração da espécie de maneira nova, etc. Estamos apenas, suponho, tentando produzir a idade adulta da psicanálise. Ainda faltam duas para vir: a idade madura da psicanálise e a idade vetusta da psicanálise. A psicanálise só será sábia quando ficar velha – ela precisa ainda crescer bastante durante alguns séculos. Mostro esse caminho no sentido de que estamos no processo da vanguarda. E não adianta teóricos da história ou da comunicação dizerem que as vanguardas acabaram. Vanguarda jamais acaba, é um termo militar para: aqueles que vão na frente. A todo momento surgirá algum pequeno ajuntamento de pessoas que está adiantado. O resto precisa vir atrás para ver se vence toda a batalha. Em tudo isso, o que mais me importa é como fazer a transmissão, sobretudo para os jovens, do falecimento radical do processo antigo e da necessidade de estarmos entre os que tentam produzir o novo em todas as áreas. Repetir movimentos do passado é: fracasso – todos fracassarão. O momento exige inventar a partir de uma postura nova todos os procedimentos daqui para a frente. Procedimentos: de conhecimento, de comportamento, de política, de processos de vida, de modos de habitação... Tudo tem que ser revisto sem olhar para trás e ficar comprando bugigangas do século XX.  P – Há outro modo que não o sintomático de forjar teorias? Não haverá sempre um elemento sintomático, pelo menos, em jogo? Sim, pois cada um, no máximo, só pode ser contemporâneo de si mesmo. A maioria é contemporânea do passado. E no que se é contemporâneo de si mesmo, cada um entra com seus próprios recursos sintomáticos – de preferência, já analisados para se abstraírem em mais alto grau – e com os recursos sintomáticos de sua época. Ninguém funciona fora disso.  P – Nesse sentido, uma vantagem sua foi já ter havido Freud – coitado dele, cujo analista foi Fliess –, já ter havido Lacan, com o qual você teve a 422

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oportunidade de se encontrar pessoalmente. Em termos de história da psicanálise, você teve a chance de encontrar uma base já feita, o que lhe permitiu ir para adiante. Lacan foi um encontro muito importante. Pude sentir a decadência do século XX de pertinho.

51  Nelma Medeiros – A escala imperial, do Creodo Antrópico, é um bom exercício para pensar o lugar do ápice do funcionamento psíquico como a experiência radical de distanciamento do mundo. Temos um painel nos mostrando que, civilizacionalmente, é como se o modo de lidar com a dissolução na qual estamos entrando devesse ser a partir de um lugar que consegue não se contaminar, ao mesmo tempo que é capaz de mergulhar e se apropriar de qualquer coisa. É um exercício psíquico que consegue fazer esse pêndulo. Para reinventar nossa história para a frente, para o futuro, o pensamento mais importante é o da psicanálise. Isto porque pode ensinar as pessoas a suspender ou, pelo menos, neutralizar sua sintomática e pensar para além de todas as sintomáticas de até o final do século XX. É isso o procedimento de Indiferenciação. Tolice é pensar que se trata de ficar indiferente, no sentido de desinteressado. Ao contrário, é: absoluta participação com tudo que há até se descobrirem os funcionamentos para produzir movimentos novos.  NM – De modo um pouco marqueteiro, já se fala hoje em curadoria: de conteúdos, etc. Você está apontando para um trabalho de curadoria. É um trabalho que há tempo chamo de: funcionamento ad hoc. Se pudermos transmitir algo para aqueles que estão em sua segunda década de 423

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idade será: é preciso correr, abandonar o século XX e ir para a frente. Se assim não fizerem, darão com a cara na parede, fracassarão. Com o procedimento tecnológico de disseminação dos funcionamentos abstratos da comunicação e da significação de hoje, aqueles que estão nascendo agora, daqui a vinte anos, serão em muito – se não, em tudo – diferentes daqueles que atualmente têm vinte anos: serão irreconhecíveis se comparados com nossos padrões. Ou seja, se os jovens de agora não correrem atrás, serão múmias diante dessa garotada nova. A ordem sintomática nascente nada tem a ver com a anterior (a nossa) que está em francas decadência e falência. Europa e Estados Unidos foram os grandes vencedores do século XX, mas estão decaindo a olhos vistos. Já o lado oriental, sobretudo comandado pela China, está em amplo processo de tomada de posse da situação. A mentalidade – e não o comportamento – deles é outra e se apossará do século XXI, e talvez de todo o Quarto Império. Do fundo do Inconsciente dessa gente oriental, apesar das confusões políticas – lidas como ditadura –, o que importa é o germe lá estar, que proliferará e tomará conta da situação. Já nossa universidade – europeia, norte americana, brasileira – está fazendo um horror nas cabeças dos jovens, formando-os para começo do século XX.  Aristides Alonso – Desde seu advento, nos anos 1940-50, o modelo computacional-informacional cibernético foi se instalando até ser hegemônico hoje. E, antes mesmo de alguns pensadores, o que matou as ideias de interpretação, de sujeito e de objeto foi, sobretudo, esse modelo. A computação não tem essas ideias, o que ela tem é: modelagem. Como se lembram, inverti a frase de Nietzsche e disse: só há fatos, não há interpretações. É o que diz nossa época. Ao fazer sua intervenção, um analista não está interpretando, mas simplesmente conseguindo entrar no processo do analisando de maneira analógica – entrar analogicamente no caso e na mente do analisando – para meter um fato novo. O fato é compatível por ser analógico. Interpretação é paranoia do século XX, é alguém achar que entendeu e vai explicar o que é – é, sim, uma idiotice, uma incompetência do passado.  AA – Também o desaparecimento da verdade – e mesmo o surgimento da ideia de pós-verdade, ou quase-verdade – é o entendimento de que é possível a construção de bons modelos que funcionem razoavelmente aqui e agora. Por 424

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exemplo, atualmente há mais de cem modelos de vacina sendo pesquisados para que algumas se mostrem eficazes – e não apenas uma triunfará na cura do Covid-19. E veremos ad hoc qual terá a melhor funcionalidade. O mesmo é o que é para ocorrer com a política no mundo. A política velha está gagá e fracassará.  Lia Guarino – A intervenção analógica na mente do analisando é, portanto, a mais condizente com a psicanálise atual? Trata-se do pensamento analógico, aquele pensamento que está em vigor como pensamento de nossa época. No tempo de Lacan, era o pensamento metafórico-metonímico. Por isso, em nosso encontro passado, pedi que estudassem aqueles livros sobre analogia. Estudem o conceito de analogia, pois é de uma amplitude gigantesca. Tomem, por exemplo, os versos de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”. Aí está o cerne da analogia. Tomem também o início da história do cinema e comparem com o cinema de hoje. Ele vai passando por formações analógicas cada vez mais refinadas. É um percurso sofisticado, mas é analógico, pois o que vemos na tela nada tem a ver com a realidade.  LG – Michel Foucault, n’As Palavras e as Coisas (1966), classifica três epistemes no Ocidente: renascentista, clássica e moderna. Ao falar do renascimento, aproxima de um pensamento que trabalha com similitudes. Foucault está falando de algo óbvio no pensamento renascentista em imitação de certos momentos da geometria grega. Ou seja, trata-se do conceito de semelhança, que é regrável pelo pensamento de Euclides: uma estruturação de forma independente do tamanho. Dois triângulos podem ser semelhantes com tamanhos diversos. Duas figuras geométricas quaisquer podem ser semelhantes em conformidade com sua construção, mas não idênticas por serem de tamanhos diferentes. É disso que Foucault está falando, de o pensamento renascentista ser baseado na geometria euclidiana, na invenção da continuação de Euclides com o nome de perspectiva exata, e mesmo com o nascimento da geometria projetiva. Tudo isso é euclidiano. Analogia é bem mais, ela sequer depende de semelhança.

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 Patrícia Netto Coelho – Contemporaneamente, tivemos um exemplo de analogia (não por semelhança, não proporcional) que é a analogia por transformações em Escher. São as Metamorfoses que citei há pouco. Escher é inteiramente analógico, não é euclidiano. O Renascimento de que Foucault está falando é euclidiano, taxionômico – e caolho: a perspectiva renascentista tem apenas um olho.  PNC – É literalmente semi-ótica. É o caso de dizer.  NM – Daí Foucault achar que o casal real é o centro do quando As Meninas, de Velázquez. Vocês já viram como isso foi questionado na análise que fiz do quadro [em 1981].  LG – Podemos, então, dizer que o que ocorreu no renascimento foi um tipo de analogia? O conceito euclidiano de semelhança é uma das formas de analogia.  LG – A analogia suporia uma semelhança e uma diferença? Na topologia, tomamos uma superfície elástica, de borracha, e desenhamos algo sobre ela. Depois, a enrolamos e embolamos de todos os modos. Sempre haverá analogia, sem semelhança alguma. Ao puxar a superfície, temos uma analogia do desenho anterior. Em termos de topologia, não houve ruptura. Portanto, seja qual for a forma que tome, ainda é a mesma correspondência.  LG – A intervenção analógica na clínica implica entrar na configuração do analisando? Lá entramos e ficamos disponíveis, o mais neutro possível. Ou seja, ficamos o mais indiferente possível para colher a formação dele. Entra-se nela analogicamente por então ser compatível e passível de modificação. Se não entrarmos na configuração, a intervenção será de araque, sem validade. Tomem um exemplo comum em análise: a pessoa o tempo todo fala dela, de suas emoções, de suas histórias. Entramos nesse mundo e damos um jeito de mexer nele. Outro exemplo: uma pessoa que não sabe ou tem dificuldade de fazer isso e fica tratando a análise intelectualmente. Não tem importância, pois entramos por ali mesmo e lá mexemos. Ou seja, só entramos por onde o analisando abre.

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 PMSJr – Se não for pensado assim, fica parecendo que há lugares previamente definidos para a entrada. Trata-se de entrar em qualquer lugar que se apresente, há que encontrar onde está a porta.  PNC – Analogia é o nome genérico para: relação. Sim. É o nome mais genérico para: Transa. Trata-se de transa entre formações.  PNC – O conceito de analogia se aproxima do de simetria em matemática? Uma analogia pode romper a simetria. É um caso de analogia.  PNC – A análise dos sonhos, em Freud, é a mostração de um trabalho de analogia lá ocorrendo. Estou me referindo aos capítulos VI e VII d’A Interpretação dos Sonhos. É a leitura que podemos fazer hoje.  NM – Textos da sabedoria chinesa, aqueles explorados por François Jullien, são ótimos exercícios de analogia. É um tipo de raciocinação em aberto, cai-se para muitos lugares. O Tao Te King, por exemplo. Em minha edição em espanhol, leio: “Trinta raios se unem em um eixo / Precisamente onde não há nada / Achamos a utilidade da roda”. Muitos povos não inventaram a roda por não terem entendido isso.  NM – São deslocamentos fáceis para quase lugar algum. Por isso mesmo, encontra-se algo. As possibilidades se multiplicam e se dispõem. São usos ad hoc.  PMSJr – Quanto à política, temos no item 3 de minha edição do Dao De Jing: “Atuando o não-atuar então não há desgoverno”. A maioria dos governos estraga tudo em que põe a mão.  PMSJr – Já no item 42, temos tudo colocado: “O curso [o Dao] gera o um / o um gera o dois /o dois gera o três / o três gera as dez mil coisas”. É isso. Parece uma banalidade, mas é um raciocínio profundo. Repetirei para você o Dao De Jing: “O Haver gera o Ser / o Ser gera outro ser, outro ser.../ até a infinidade de todos os seres”. Basta traduzirmos para nosso tempo

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 AA – Recentemente, compartilharam nas redes sociais uma notícia sobre como a arquitetura inca se utiliza do modelo da organização dos grãos do milho na espiga para a construção arquitetônica dos muros. Segundo as fotos da espiga e do muro, vemos que se trata de uma analogia por configuração: usa-se a figura para produzir outra por simples analogia. Se o milho se deu bem assim, por que não o muro? Temos, por exemplo, as lutas paranoides do século XX ainda funcionando hoje de maneira imbecil, contra a ideia do milho. Por que ainda há feminismo? Para que serve? Para a paranoia crescer – e dará com a cara na parede, pois nada vai conseguir. Ao invés de partir para nossa época e ver que tudo é igual, ainda fazem-se diferenças de estrutura em luta com a outra. Não é mais assim que funciona. O movimento Trans, na sexualidade, é mais eficaz do que o feminismo.  NM – Esse modo paranoico imediatamente congela a analogia e lhe dá um sentido, diz o que é por distinção para com o que não é? Pior do que isso, diz que ela representa fielmente a realidade. Haja guerra.  P – Há outro modo de pensar que não o analógico? Aí fica complicado dizer.  AA – A oposição que se fazia para com o analógico dizia respeito a entender o digital. Entretanto, de outra vez, você elencou o digital como mais uma expressão do analógico. Essa foi uma distinção puramente prática. Produz-se uma analogia com pontinhos, como artistas plásticos já cansaram de mostrar. Outro dia, vi uma fotografia de alguém feita com inúmeras fotografias de outras coisas. Que digitalização é essa? Lacan chamou atenção para o quadro Os Embaixadores, de Holbein, que é uma analogia por metamorfose (anamorfose é uma metamorfose geométrica).  AA – Ao falarmos em Transa de Formações, estamos falando de analogia dentro dela. A paranoia do século XX chamou os elementos de significantes. O que é isso? Não quer dizer nada, não tem configuração alguma. Significante é: o-que-quer-que. O que não é significante?

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 AA – Não nos damos conta de que, por terem se tornado poderosas numa época, certas formações protéticas inventadas produziram um sistema analógico que repetimos sem pensar. É como se fossem o real total. É um processo de hipostasiar uma formação como se fosse parte concreta de uma realidade. Quando ficamos fixados num processo analógico e o mundo muda – e muda sozinho, não pede permissão –, permanecemos aplicando a mesma analogia idiota numa configuração que é completamente outra. Ao contrário, há que buscar outra analogia. Aliás, quanto a isso, suponho que, no século XX, não haja pensamento mais idiota – no sentido preciso da palavra – do que o de Marx. Não leva em consideração, como Freud criticou, a existência de algo chamado gente. Aquilo só daria certo com robôs preparados para fazer o que ele apresenta. Muitas lutas contemporâneas, herdadas do século XX, são inteiramente desnecessárias, inúteis e fracassadas por não terem os conceitos certos. A espécie humana é uma só, todos nascem com certa competência que é de qualquer um. Podemos, assim, nos referir a ela mediante o conceito de Vínculo Absoluto, como chamei [1994]. Qualquer pessoa merece o respeito simplesmente por ser pessoa. Isso é a espécie comparada com outras. Entretanto, dentro da espécie, quantas espécies há em termos neo-etológicos? Um pensamento social ou político que não leve em consideração o fato de estar falando – pelo menos, do ponto de vista secundário – com espécies diferentes não proporá ordem alguma que dê certo. Como classificar essas espécies? Sobretudo, perdendo o preconceito de achar que está fazendo discriminações. Não se faz descriminação quando se respeita o Vínculo Absoluto, mas o vínculo social não é absoluto, é relativo. É preciso ter claro que lidamos com espécies diferentes o tempo todo. São espécies diferentes do ponto de vista do humano, das interferências do Secundário. Certo pensamento religioso, como certo político – do Ocidente, pelo menos –, quer fingir que não existe essa especiação secundária. Relativamente à constituição do aparelho psíquico e do aparelho secundário, não se trata da mesma espécie. Não é possível um comunismo de espécies diferentes. O possível é uma Diferocracia, como chamo, organizada com respeito por cada um.  PNC – Qual seria o direito fundamental – se há algum – a ser reivindicado numa Diferocracia? 429

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Legítimo é o Vínculo Absoluto. Não se pode passar por cima da especiação de ninguém. Não se pode, politicamente, permitir que uma pessoa da sua mesma espécie enquanto IdioFormação seja tratada como um animal. Então, Lei Fundamental: existe um Vínculo Absoluto. Ou seja, respeito absoluto por cada um, mas há que reconhecer a diferença especifíca.  PNC – Penso que falar em animal não é um bom parâmetro. Os animais passaram a ter certos direitos. Mas são direitos de animal, e não das IdioFormações. Um animal, por sê-lo, jamais terá condição de Revirão. Podemos querer tratá-los bem, até fazer leis para que não sejam maltratados, mas eles são estritamente animais. As IdioFormações podem ser apenas um pouco animais.

52 Digitalis é uma planta: Digitalis purpurea. Uma flor bonita, que se apresenta roxa, amarela ou branca. Como tem forma de dedal foi chamada assim. Ela tem características curativas – e assassinas. É o pharmakon, de Platão: entre o remédio e o veneno, a questão é só de dosagem. Hoje, ela faz parte da fórmula de muitos remédios para afecções cardíacas. No entanto, se tomada em dose superior à curativa, é um veneno – bastante usado para suicídio (o que não é uma boa porque a pessoa passa muito mal). Interessante é a história dessa planta na medicina. No século XVIII, William Withering, médico escocês, tinha um paciente passando mal do coração. Disseram-lhe que havia uma curandeira, uma feiticeira, algo assim, que fazia uma poção de ervas curativa de males cardíacos e de outras doenças. Lá foi ele falar com ela para saber o que era a tal poção. Pediu a receita – complicadíssima 430

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– dos ingredientes e foi pesquisar folha por folha, erva por erva. Descobre, então, que, com exceção da digitalis, as demais folhas e ervas de nada valiam para a efetividade da cura. Vejam o que é alguém realmente procurar conhecimento de alguma situação. Além disso, teve a vantagem de publicar um artigo sobre sua descoberta e passar a vender o remédio feito a partir da planta, tornando-se o médico mais rico da Inglaterra. Para nós, a lição trazida por esse médico que procurou saber é: se, de maneira leiga, com mentalidade de tentativa de conhecimento, reconsiderarmos o que parece ser da ordem da magia, da crendice, ou mesmo de aspectos religiosos, poderemos descobrir coisas importantes para a sobrevivência da espécie. Depois de ultrapassada a Tebaida [séculos IV a VI], com aqueles religiosos fanáticos, com fervor ascético, inclusive com destruição do Primário para encontrar o Espírito e a Divindade; depois da febre de fundação de mosteiros, iniciada com Pacômio; depois desses arroubos de ascetismo, de organização religiosa, veio, no Ocidente, uma Era do Intelecto na própria religião. No Oriente, a coisa é mais antiga. Temos a história de Sidarta Gautama, chamado Buda [ano 400 AEC], que inventou exercícios espirituais – ou seja, exercícios mentais – para a pacificação das afecções psíquicas da espécie. Há também por volta da mesma época o Zen, fundado por Lao-tze – que me parece mais refinado do que o trabalho específico de Buda –, que teve grande desenvolvimento, a ponto de se misturar com religião. O importante para nós é a base de pesquisa mental existente em ambos. No Ocidente, então, na Idade Média – idade do clímax da violência dogmática da Igreja chamada Católica Apostólica Romana –, há um surto intelectual a partir da redescoberta de Aristóteles. Em O Nome da Rosa (1980), livro de Umberto Eco, esse momento é descrito com bastante precisão. Ocorre aí um estudo intelectualmente dirigido sobre o Espírito, sobre a relação do homem com Deus. Alberto Magno inicia um grande projeto, que é seguido e levado a um extremo de intelectualidade por Meister Eckhart. Tomás de Aquino, seu aluno, também tentou por via estritamente filosófica, com base em Aristóteles, pensar o funcionamento do espírito humano em relação a Deus. Então, depois do que me pareceu ser a falência e a decadência dos pensamentos até o final do século XX, sobretudo dos grandes projetos teórico-clínicos da psicanálise – todos corretos e de grande valor dentro da perspectiva 431

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da época e segundo o conhecimento disponível –, ficou claro para mim que a psicanálise, do ponto de vista de sua contemporaneidade, tinha se encaminhado decisiva e definitivamente para o brejo com sua última e genial formulação com Lacan. Daí, procurei qual tipo de abordagem do psiquismo seria possível no sentido de ir bem mais além do que a mera psicanálise supostamente científica de Freud, de cepa de século XIX, configurada em torno do conceito de histeria, e da psicanálise de Lacan, com estrutura complexa urdida sobre o conceito de psicose paranoica e segundo os saberes de seu momento linguístico, estrutural, antropológico. Fiz uma vasta leitura daqueles que me pareciam ter ido mais longe na tentativa de abordar seu próprio psiquismo e o psiquismo humano. Há milhares de pessoas envolvidas nessa tentativa, e há uma quantidade menor de figuras mais valiosas em suas contribuições, sobretudo intelectuais, que são: Os Místicos. Podemos, pois, tomar contato com os místicos ocidentais, digamos cristãos, e com os místicos orientais, tanto budistas quanto zen, e, sabendo fazer uma leitura sintomal, isto é, considerando a configuração sintomática dessas pessoas, conseguirmos ver que estavam querendo decidir sobre a posição extrema do psiquismo humano, até onde ele vai. Talvez com vigor maior do que o que foi feito antes mesmo pela psicanálise, pelas psicologias, pelas filosofias, etc. O problema é que esses exercícios espirituais – como, aliás, é o título do livro de Inácio de Loyola (1548), fundador da Companhia de Jesus [que resultou na PUC e no Chicão] –, essa askesis, essa ascese, quanto à possibilidade de última instância de encaminhamento do psiquismo humano, seria, para os religiosos: Deus – o qual vai se resolver num Nada radical no pensamento dos místicos mais avançados. Assim, na consideração desses pensadores chamados Místicos, cheguei à conclusão de que, para ultrapassar os dois grandes momentos da história da psicanálise – Freud e Lacan –, talvez devêssemos, sem vocação religiosa, sem pensamento mágico, sem pensamento de crença ou de salvação, tentar entender qual é o fio vermelho que passa por dentro de todos esses místicos. Qual é o denominador comum do pensamento místico quanto à constituição e o desempenho de última instância do psiquismo humano? Foi aí que encontrei o que vim a chamar de Estatuto Místico da Psicanálise. Lacan achava que o estatuto da psicanálise fosse ético, coisa que faliu. Não há possibilidade de 432

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estabelecer uma ética a não ser, tal qual ele dizia, como dever de ir aonde Isso estava – é o wo Es war, soll Ich werden, de Freud. Não sei se há algum dever aí. É o caminho do entendimento, mas não sei se é conciliável com dever. Prefiro supor que é uma indicação técnica. Prefiro conciliar com Estatuto Místico, ou seja, só é possível chegar a um ponto máximo da distinção e da construção do funcionamento do psiquismo humano à medida que nos afastamos de todas as formações. Isto, para chegar a uma posição de Indiferenciação capaz de nos fazer ter possibilidade de leitura isenta das formações. Na história, temos sequencialmente, e talvez para sempre, dois atos de produção de configurações capazes de gerar conhecimentos: instituir e destituir um paradigma. O que se institui como destituição de paradigma depende de duas operações. Não são ambas necessárias, é ou uma ou outra. Primeiro, pode-se conseguir o re-conhecimento, isto é, conhecimento novo, de uma instituição paradigmática nova que derroga total ou parcialmente uma instituição paradigmática anterior, algo bem frequente na história das ciências. Por exemplo, Einstein, ao constituir sua teoria da relatividade, destitui a teoria gravitacional de Newton. Segundo, por mutação da situação do mundo somos obrigados a repensar a ordem paradigmática e inventar outra ordem mais adequada à nova situação. Às vezes, ocorre um processo de transformação tão grande no mundo que é preciso derrogar, destituir, os paradigmas anteriores e procurar construir outro compatível com o momento. Aliás, é o que acontece hoje: o mundo passa por uma metamorfose jamais vista desse modo e, suponho, é preciso que seja possível constituir em todas as áreas de conhecimento paradigmas capazes de destituir os paradigmas anteriores para atingir um novo momento, um novo modo de conhecimento. Daí que o chamo NovaMente é a tentativa de ser contemporânea do mundo que ora se apresenta. Faço isto do mesmo modo que fez William Withering quanto à digitalis, realizando uma releitura leiga (não mágica, não em termos de crença, de crendices, de achados religiosos anteriores, mas) de achados fundamentais da mística ocidental e oriental no sentido de, NovaMente, poder descrever o funcionamento do psiquismo humano – e, portanto, a possibilidade de análise e tratamento das pessoas afetadas negativamente pelo Inconsciente. Tudo que trouxe hoje é para mostrar um percurso direcionado a suspender 433

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crenças, atitudes mágicas, curandeirísticas, etc., mas sobretudo para pesquisar o que há lá dentro. Durante séculos, se não milênios, aquilo funcionou pelo menos indicando, em campos supostamente religiosos, caminhos de articulação e apaziguamento das mentes humanas. Ali tem – então, procuremos ali! E achamos o que estou chamando de NovaMente.  P – O que é ser afetado negativamente pelo Inconsciente? O que chamamos de Morfose Estacionária, por exemplo. Do ponto de vista do Ocidente, é impressionante o enorme fenômeno, ocorrido sobretudo na Idade Média, de pessoas estarem pensando num grau extremo de elevação mental, mas acorrentadas por uma dogmática religiosa. Retirada a dogmática, essa sintomática de poder, percebemos que estavam eventualmente pensando melhor do que veio a ser pensado depois. Não adiantava muito porque o discurso deles estava engessado pela religião, e quando algum pensador que chamam de místico deixava mais claro seu raciocínio a Igreja providenciava uma fogueira para evitar que ele estragasse sua brincadeira, seu poderio. No Oriente, do ponto de vista de poder, de governança, a vitória era de Confúcio e do confucionismo. Os demais pensamentos eram marginais. E eram pensamentos – o budismo não nasceu como religião. Era o pensamento de alguém procurando uma cura, um tratamento da mente para aliviar o sofrimento dos homens. Como quase tudo, virou religião depois. O mesmo com o Zen. Os místicos também queriam fazer isso. Ou seja, queriam curar o psiquismo das pessoas. Segundo me parece, o Ocidente é mais sujo, anedótico e ligado a poderes religiosos do que o Oriente em seu momento de nascimento.  Aristides Alonso – Como podemos entender o que você está chamando de leitura leiga do ponto de vista do crivo da Teoria das Formações? Qual sentido está sendo dado para leigo hoje? Laico aí é não estar comprometido com os valores e as significações no pensamento mágico, cristão... É parecido com o que aconteceu com a digitalis. O médico não se preocupou com a crendice e a curanderia da feiticeira. Ao contrário, foi verificar o que havia lá. Se tomarmos os textos e falas dos místicos com sua baboseira de crendice, aquilo parecerá loucura. Se for feita uma limpeza, retirada a configuração mítica, será possível buscar pelo raciocínio que ali está se dando. Será possível descobrir um raciocínio igual ao que chamei de 434

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NovaMente. Alei, Haver desejo de não-Haver lá está, eles a disseram. Tomem a religião cristã em suas diversas configurações ocidentais e orientais – caso da ortodoxa, da grega – e vejam que há determinados enunciados comuns e garantidores da fé que pregam. O mistério da encarnação, por exemplo. Para eles, Deus encarnou entre os homens na forma de Jesus Cristo, o que mostrou, segundo os místicos, que todos os homens são uma encarnação de Deus. Se tirarmos a anedota, o que está sendo dito é que, no seio desta espécie, surgiu uma construção que chamo de Revirão compatível com o que há na construção do Haver. Ou seja, não há mistério algum de encarnação, é um conceito. Repito, se fazemos a limpeza, percebemos que pensavam certo com os “conceitos” errados. Freud, por sua vez, usava a palavra leigo, falava em psicanálise laica, para dizer que não era médica. Isto porque o pensamento dominante de sua época era o médico. Portanto, a psicanálise leiga é aquela constituída sem levar em consideração o pensamento médico. Uma coisa é considerar o Primário como faço, outra é o pensamento médico. A psicanálise não precisa da medicina. Estou falando em laico no sentido de que, se não levarmos em consideração os arquivos que constituíram anedoticamente as bases dos pensamentos místicos, em quase todos veremos o mesmo raciocínio permanente, o mesmo vetor de endereçamento do psiquismo. Tomem, por exemplo, textos de Marguerite Porete, a mística beguina, que parecem ser de uma bobice insana, mas ela está dizendo muita coisa que Meister Eckhart diz por ser um intelectual, um teórico. Então, repito, um modo de passar tudo isso a limpo se chama: NovaMente – que, no mais, é um salto radical em relação ao século XX.  P – Quanto ao que você diz de o Ocidente ser mais anedótico, sujo, configurado, e que hoje viveríamos um período de dissolução, pergunto se estamos passando para o outro alelo ou ainda estamos presos à configuração anterior? Pela primeira vez, o mundo de nossa espécie parece estar sendo desconfigurado radical e paulatinamente. Não necessariamente para ser configurado de outro modo, e sim para permanecer num processo de desconfiguração e articulação ad hoc – mas há que esperar bastante para chegar lá. Não temos mais condição de crença em configuração alguma. É até possível fazer configurações provisórias – uma teoria como a NovaMente, por exemplo, que, por 435

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mais abstrata que seja, em última instância tem alguma configuração, mas é apenas um instrumento de abordagem. Aliás, espero que, no futuro, apareça coisa melhor, mais abstraída ainda. Repetindo, o que está na ponta da história contemporânea é um processo de desconfiguração e de articulação caso a caso. Por isso, falei em Teoria das Formações. As configurações apresentadas pela história da psicanálise são anedóticas demais: histeria, neurose obsessiva... O que temos são formações e, ao considerar uma pessoa em análise, procura-se entender quais formações estão em jogo. Não há que projetar configuração alguma lá. Por isso mesmo, não se interpreta nada. Faz-se uma intervenção e, de maneira analógica ao que é apresentado, uma tentativa de produção de algum aspecto novo dentro daquela formação.  Patrícia Netto Coelho – Você está falando de uma postura gnômica – ir às coisas: ad rem –, ao invés de restar referido ao conhecimento já tido. Além do pensamento místico – que é o mais importante –, você já deu outras indicações dessa postura em situações, eventos e entendimentos. Por exemplo, indicou um livro publicado no Brasil em 2013, intitulado Variedades da Experiência Anômala, organizado por Stanley Krippner, Steven Jay Lynn e Etzel Cardena, sobre estados alterados de consciência: transe, experiência de quase-morte, telepatia... Além de as classificações nosológicas serem demasiado configuradas – psicose, neurose, perversão –, elas são estreitas, excluem muita coisa... Freud apresenta, com muita coragem até, cinco psicanálises – todas erradas. Seu aparelho era configurado demais e não o deixava olhar para as formações tais como apareciam. Daí ele ficar aplicando teoria aos casos. Com isso, entendeu muita coisa, mas as análises deram errado.  PNC – Outra indicação sua foi Henri Ellenberger, que, no início de seu livro sobre o Inconsciente, faz longo recenseamento sobre fenômenos de possessão, etc. É interessante ele ter falado dos xamãs e esquecido dos místicos.  PNC – Há tempo indiquei a você um livro, Pensando com os Demônios: a ideia de Bruxaria no Princípio da Europa Moderna (2006), de Stuart Clark, em que há muita digitalis em jogo. O livro ressitua vários pontos da história da ciência.

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Nesse aí estão até os místicos. Afinal de contas, o que é a Igreja Católica? Uma bruxaria. Se lermos direito, veremos duas coisas: uma teoria do poder, herdada de Roma, e uma teoria mística mais ou menos embrulhada com o resto.  Lia Guarino – O esforço de pensar o religioso sem o aspecto de crendices tem a ver com o que Lévi-Strauss fez quanto à eficácia simbólica? É o percurso de saber por que aquilo que o xamã fazia funcionava apesar de ser coisa alguma. Eficácia simbólica é algo como o processo de sugestão pertinente ao quadro que se apresentava. Lévi-Strauss fala do parto, por exemplo, em que, acompanhando o que acontecia, o xamã fazia um processo de sugestão de analogia na cabeça da mulher para facilitar o funcionamento. Ele, aliás, reconhece que o que descobre como eficácia simbólica naquele momento nada tem a ver com a psicanálise. A moda era falar do simbólico. O trabalho é importante por destrinchar uma porção de processos mágicos, de formação de coagulação cultural, e mostrar sua composição. É, aliás, o mesmo que estou fazendo com a mística.  PNC – Há também um trabalho que foi referência para Lévi-Strauss: Esboço de uma Teoria Geral da Magia (1904), de Marcel Mauss. É importante para essa tentativa de laicidade de que você está falando. Todos tentavam um aparelho laico para estudar esses fenômenos. O aparelho que Lévi-Strauss teve naquele momento foi esse, sobretudo o que tomou emprestado da linguística de Jakobson e Troubetzkoy. Lacan tem um aparelho que deve ao estruturalismo de Lévi-Strauss e que, de início, fica misturado com o Hegel de Kojève. Depois, lentamente, vai abandonando o aparelho linguístico e procura outra coisa.  Nelma Medeiros – É possível, então, pensar que um processo de laicização é tanto o de permanente análise para mostrar não apenas as analogias outrora utilizadas, assentadas, que estavam em processo de hipóstase, como o de promover novas analogias que deixem disponível o entendimento? É um processo que aumente a disponibilidade em relação às configurações. Nada impede que, por exemplo, no trabalho que faço, muita configuração seja encontrada no futuro – o que será ótimo, aliás.  NM – McLuhan ao dizer que “o meio é a mensagem”, diz algo análogo a esse entendimento. É um modo de laicizar. Para ele, a massa 437

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informacional comunicacional com seu efeito dissolvente faria o Inconsciente vir à consciência. No processo de conhecimento, a tendência é acontecer mais abstração, mais independência das configurações anteriores. Até chegar a quê? À pura Arte, pura ART-iculação. O exemplo melhor é a física de hoje.  AA – McLuhan está na série da computação – junto com Shannon, o Eniac, Wiener, Von Neumann – e o que traz com sua formulação “o meio é a mensagem” mata noções milenares de sujeito, de ideia autônoma, independentes do meio pelo qual circulam. Isso foi algo catastrófico para a época, meados do século XX. É, aliás, um aspecto gnóstico de McLuhan. Lacan não fala em McLuhan.  NM – E mais, em termos computacionais, o Princípio Antrópico é a laicização da ideia do mistério da encarnação que você mencionou há pouco. No Princípio Antrópico, o Haver roda um programa de conhecimento do que ele, Haver, é capaz. Aí aparece a IdioFormação, que é o programa que o Haver é regionalmente. É isso que está na base de minha teoria. O que se repete na IdioFormação é o mesmo processo do Haver. E não se repete em outras formações. Por isso, somos doidos varridos. O programa está rodando e as pessoas não estão vendo. Meister Eckhart entendeu isso bem: Deus é Haver; o Haver está instalado em cada um de seu mesmo modo; Deus está aqui; logo, sou Deus. A Igreja não podia suportar isso. Afinal de contas, o que, na história, foi narrado de modo religioso são descobertas que é preciso retomar. São pessoas que pensaram com ferramentas pobres de seu momento. A laicização é necessária para entrarmos no Quarto Império. Há que tomar todo esse conhecimento anterior, mesmo apresentado de modo obscuro, e buscar seu substrato. É o que estou fazendo, e acho que há bastante gente tentando esse encaminhamento.  PNC – Encaminhamento necessário também em relação à própria história da psicanálise. A história da psicanálise está, digamos, anedotizada demais em função de seus momentos. Como nosso momento é anti-anedótico, talvez consigamos uma psicanálise mais abstrata – e mais eficaz, mesmo politicamente. Ao contrário, basta lembrar do marxismo, produto do Terceiro Império. Aquilo jamais 438

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funcionará. No fundo, Marx é caritativo, o que é o mesmo que analista querer “curar” analisando – isso acaba com a análise.  LG – Você se referiu à mística cristã, ao zen, ao budismo, mas há outros. No Brasil, temos o candomblé... É na África que temos o candomblé. Aqui é uma filial.  LG – Há uma mística ali? Eles têm vários procedimentos de ascese, que são configurados demais. Mais até do que o cristianismo, por exemplo. É prato feito para Lévi-Strauss.  PNC – Um bom critério, num procedimento ascético, seria verificar se as pessoas o praticam para se afetarem ou para se desafetarem. Sim.  LG – Penso também na Yoga. Yoga é um tratamento místico do corpo. O alvo é certa dominação do Primário, bem diferente, aliás, do pessoal da Tebaida de que falei no início. Os estilitas, por exemplo, queriam apagar o corpo. Já a Yoga é superior, quer fazer do corpo, de seus movimentos, de suas transas, uma obra de arte.  AA – Você fala em quatro procedimentos conhecimento, em Quatro INVs: Invocação, Invenção, Investigação e Investimento. Em contraposição, o tema da magia, a vontade mágica, parece estar na cabeça de todos nós. Queremos resolver as situações mediante desejo, e o aprendizado é verificar que isso passará por processos de negociação com o restante das formações para se transformar em tecnologia, em prótese. O que todos queriam é uma varinha de condão. E há aqueles que acreditam que ela existe mesmo.  NM – Em termos históricos, o aparecimento do vigor da mística na Idade Média foi seguido pela vertente científica do Renascimento. E o patrão continuava sendo a Madre Igreja. Como era quem financiava, tomou tudo e empacotou. Os poderes são espertos. Atualmente, estão tentando comprar a Internet, do mesmo modo que a Igreja comprou o Renascimento. E não comprarão com dinheiro, e sim com canetada.

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53 Temos que começar a conversar mais frequentemente sobre as relações da psicanálise com a política. É um tema que parece causar problemas e dúvidas junto àqueles interessados em nosso trabalho. Desde que Lacan desenhou seus Quatro Discursos, dentre os quais o Discurso da Psicanálise, já dava para notar a psicanálise como contramão dos demais discursos, o que é uma evidência desde Freud. Está na contramão porque a psicanálise difere de qualquer dos outros discursos (do Mestre, da Universidade, da Histérica). Ao considerar as posições discursivas sobre política até o final do século XX, sobretudo as que vigoraram no século XX, tal qual descritas em tratados de teoria política, etc., vemos que são um fracasso. E não podemos confundir a psicanálise com a baderna discursiva que está acontecendo neste nosso começo de século, com a falta de parâmetros adequados e com a tentativa mais geral de retrocesso em relação às possibilidades do século e do Império novo que tem que ser parido de algum modo. A psicanálise tem uma posição que me parece dianteira, sobretudo em relação à futura, pois ainda não é presente, instituição do que se possa chamar de Quarto Império. O Terceiro Império morreu, morreram as formações ideológicas do século XX, mas o cadáver não foi enterrado. Está apodrecendo aí sem ser posto no lugar definitivo de seu desaparecimento. O conceito de Ideologia teve utilização geral, e mesmo hegemônica, nas considerações políticas do século XX. Do ponto de vista da chamada Esquerda, foi brandido com frequência para mostrar a diferença suposta por ela para com a filosofia realista. Caso, por exemplo, do marxismo. Entretanto, ultimamente, mesmo pensadores de esquerda têm denunciado que esse conceito não serve para nada, é ultrapassado. A consideração aprofundada, crítica, dos discursos sobre ideologia, em sua suposta contraposição aos não-ideológicos, acaba mostrando que estes são mais ideológicos do que aqueles. Parece, pois, que é um conceito que não se quer mais usar, pois, segundo esses pensadores, não há 440

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não-ideologia. A título de exemplo, temos um autor atualmente famoso, meio radical de esquerda, Slavoj Zizek, que consegue – não sei como – misturar marxismo com psicanálise. Seu livro, Um Mapa da Ideologia (1994), arrola boa quantidade de pessoas do século XX – Adorno, Althusser, Rorty, Bourdieu, Jameson... – que analisaram a questão da ideologia. Até Lacan foi incluído. É um elenco importante no que tange à concepção do conceito de ideologia. O próprio Zizek – repetitivo e grafomaníaco como sempre – faz um trabalho para mostrar que, segundo ele, não cabe mais o conceito de ideologia. Sua tese – aliás, a princípio correta – é que os discursos que pretenderam ser não ideológicos, uma vez devidamente analisados, são fortemente ideológicos. Eis algo óbvio que não foi visto durante décadas. A pergunta agora é: Joga-se fora o conceito de ideologia já que não há possibilidade discursiva sem fundamento ideológico? Acho que não. Prefiro retomar o termo com uma significação mais abrangente, em função do pensamento da Nova Psicanálise. Uma significação nova que distingue, ainda, o que é e o que não é ideologia. A meu ver, estão errados os autores que fazem a suposição de que todo discurso é inarredavelmente ideológico. Parto do conceito que, segundo a NovaMente, posso indicar para o termo ideologia: Ideologia é toda e qualquer ficção, enquanto fixão, que intente se apresentar como não-ficção. Repetindo: Toda e qualquer ficção, enquanto fixão, que intente se apresentar como não-ficção é uma formulação de hipóstase. A diferença que faço entre ficção e fixão está em que, em qualquer âmbito de pensamento, de conhecimento, não existe possibilidade discursiva que não possa ser considerada como uma ficção. Não importa se os ingredientes são mais ou menos aproximados de alguma possibilidade de conceito de realidade. Mesmo a física também é ficção. Logo ela que, do século XX até recentemente, pelo menos, se apresentou como a ciência mais exata e mais capaz de resistir a críticas epistemológicas. Como qualquer discurso, ela não fala diretamente de alguma realidade. Ela aborda alguma realidade e produz uma ficção que, de certo modo, pode ser aproximada das formações que se apresentam no Haver. Isto, mediante uma transa entre as formações do Haver e o discurso que produz. E mais, se houvesse um conhecimento capaz de descrever precisamente as formações do

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Haver, não haveria possibilidade de evolução da ciência, ou desse movimento – a ciência já teria tudo dito. Existem, portanto, formações de conhecimento que se aproximam demais de algumas formações do Haver de tal modo que há uma eficácia em sua utilização para a manipulação das formações do Haver. O que comanda tudo é a eficácia. Chamo de Fixão quando uma ficção de conhecimento consegue organizar uma formação de conhecimento que, em seu momento, pelo menos, tem o máximo de eficácia no tratamento das formações do Haver. Fixa-se, então, uma ficção para a utilização na transa do conhecimento com as formações do Haver. Enquanto ficção é como outra qualquer, na literatura, etc., mas é uma fixão que pôde fixar determinada grande formação de abordagem de certas formações do Haver em função de sua cada vez maior eficácia no manejo dessas formações. Então, o que acontece com certas ficções para que possamos chamá-las de ideologia, de ficções ideológicas? É o caso de quando essas ficções, nas transas do mundo, querem se apresentar como não-ficção. Sempre que uma constituição fixional queira se apresentar como não-ficção está tentando ludibriar o pensamento para buscar garantir que ela corresponde plenamente às formações do Haver que está considerando. É a isso que continuo chamando de ideologia. Mas quando chamo uma formação de conhecimento também de ficção e digo que ela não precisa ser ideológica, estou dizendo que depende da postura do pensamento em relação a essa ficção. A psicanálise já tentou construir várias ficções: a ficção freudiana, a lacaniana... Agora, tento produzir a minha ficção. É uma ficção, sim, e, se foi bem constituída como aparelho teórico, é uma fixão. Uma fixão em termos de conhecimento é: um instrumento – nada mais que isso. Se quiserem, podem se referir à ideia de instrumentalismo, herdeira do pragmatismo. Utilizar uma fixão como instrumento (i. e., conjunto de formações) para considerar ou lidar com outras formações que se apresentam no Haver no sentido de produzir conhecimento, isto não é ideologia. É instrumentalismo. O problema se agrava e se torna político quando um instrumento, uma ficção instrumental, se apresenta como não-ficção. E quando entra no mundo e passa a ser tomada como não-ficção, como algo que corresponde “verdadeiramente”

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às formações do Haver que estão sendo consideradas, estamos diante de uma ideologia. Isso é danoso para o pensamento e para a vida política. Marx fez uma tentativa vigorosa de tentar distinguir seu pensamento de ideologia. Não conseguiu, pois o que fez é uma ideologia, se não for uma religião poderosa. Marx, ao dar um exemplo de ideologia, citava as religiões – com razão, pois não há ficção que mais queira se apresentar como não-ficção do que as ficções religiosas. Elas querem se apresentar como correspondentes à realidade das formações do Haver. Insisto em manter o termo ideologia e fazer distinção entre um projeto ideológico e um projeto instrumental. Depende da postura de cada um diante da ficção. A Nova Psicanálise não é uma ideologia, pois é mero instrumento contemporâneo. Portanto, tem passos de produtividade para pensar formações que se apresentam dentro dos sentidos viáveis de nossa época. Em algum momento, eu disse que qualquer formação seria ideológica pelo simples fato de ser uma formação. Corrijo agora dizendo que qualquer formação é potencialmente ideológica. Ou seja, por mais que se apresente como instrumento, como, na mente das pessoas, pode parar de se exercer enquanto função instrumental e passar a querer convencer não ficcionalmente como formação correspondente a formações do Haver, então, toda formação é potencialmente ideológica – mas não é imediatamente ideológica. Em termos de história, mesmo as religiões foram tentativas de produção de conhecimento, de explicação da realidade. Foram tentativas ficcionais, literárias, etc., na intenção de ser um instrumento de consideração da realidade como tal. Entretanto, atingimos um estágio de conhecimento e consideração das formações do Haver que derroga as posições religiosas, e mostra que são ideológicas por não quererem reconhecer que possam ser apenas mero instrumento. Elas são uma promessa de salvação em relação à própria realidade do Haver. São, portanto, ideológicas como Marx denunciou. A saída de Zizek, que considero errônea, é dizer que, como todo esforço é no fundo ideológico, trata-se de manter a crítica permanente da ideologia. Bobagem, pois o que há a fazer é permanentemente manter – o que é a função da psicanálise, sobretudo ao lidar com o analisando – a crítica da hipóstase, e não a crítica da ideologia. Não adianta criticar ideologias, pois só o são por serem ficções se fingindo de não-ficções. Isso é da mesma cepa, da mesma 443

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constituição, de uma Morfose Estacionária, por exemplo. Analista não faz crítica da Morfose. Faz, sim, a tentativa de suspender a crença na realidade de uma formação estacionária, a qual é apenas uma formação de formações da história geral e genérica de tal pessoa. Isso modifica a postura diante de uma formação de conhecimento e, sobretudo, modifica a postura diante da teoria política e das políticas em prática no planeta. A psicanálise não pode se comprometer com formação política alguma disponível no planeta, pois são ideologizadas e não se apesentam como mero instrumento político. O vício que existe na cabeça das pessoas em relação às políticas é o esquecimento de que são ficções tão ficções quanto as ficções que combatem. Ao insistir em combater uma ideologia com outra, não se vai a lugar algum, pois, no que vence a ideologia que está combatendo, ela vence como ideologia. Ou seja, um ideologema tomado para lutar contra supostos ideologemas das políticas contemporâneas não é mais que a substituição de uma ideologia por outra. Assim fazendo, não se apresenta um instrumento de permanente suspensão dos aparelhos ideológicos. A psicanálise, desde Freud, é a tentativa de desideologizar a história da pessoa para que ela, instrumentalmente, possa considerar a via de acontecimentos em sua história. Prefiro tomar um termo, que parece configurado, para dizer que existem três graus de alegoria. Digo isto considerando a alegoria uma grande confluência de analogias, i. e., uma formação ficcional que faz confluir certa configuração para as analogias. Não existe teoria que não seja configuração. O termo alegoria me parece correto se tomado fora dos usos contemporâneos na linguística, na semiologia, etc. Alegoria (do grego αλλος, allos, ‘outro’, e αγορευειν, agoreuein, ‘falar em público’, pelo latim allegoria) é o ato de ‘falar sobre outra coisa’, e digo que são três os seus graus. Primeiro, as ficções. A única maneira de esta nossa espécie abordar o Haver é ficcionando, produzindo ficções. Lacan chegava a dizer que a verdade tem a estrutura da ficção. Ou seja, não é preciso falar essa bobagem, pois: a verdade é uma ficção. Pode até ser instrumental, mas é uma ficção, não corresponde a realidade alguma enquanto formações do Haver. O primeiro grau, então, é o da Ficção que é o modo de produzir ficções capazes de abordar as formações. O segundo, é a Fixão, que é quando se organiza coerentemente a constituição de uma ficção para torná-la o que chamamos de uma teoria, coerente para se ocupar das formações – mas 444

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que é uma ficção, tem contemporaneidade, não vale para sempre e nem para tudo. O terceiro grau é a hipóstase: fingir que não é uma ficção, fingir que é uma construção que corresponde mesmo à realidade – e isto é que é uma ideologia. Quero, portanto, com alguma frequência, a partir dos raciocínios que apresentei, começar a considerar as relações da psicanálise com a política, sobretudo no sentido de mostrar que o ato analítico é um ato político, onde quer que compareça, mas não um ato político da mesma natureza que os ideologemas políticos em vigor querem supor que são. Não é, pois, do procedimento do analista querer funcionar politicamente mediante construções ideológicas de outras concepções políticas. Ao analista compete funcionar politicamente segundo sua ficção enquanto instrumento político. No social, não existe função que não seja política. Nesse sentido, todo comportamento social é necessariamente político, e a psicanálise tem sua política específica. Hoje, sobretudo, na desconsideração, na destituição de pensamentos de alternância política e na constituição de pensamento do que há de político na futura entrada do Quarto Império. O Terceiro Império morreu e, junto com ele, as formações ficcionais que vigoraram até o final do século XX e que agora se mostram como mera ideologia. Repito, o cadáver está no meio da rua apodrecendo, e demorará tempo até acabar de apodrecer e ser enterrado. Nossa função não é lutar politicamente com os ideologemas em vigor, e sim continuar com a luta política de índole psicanalítica. Luta esta correspondente à Clínica – é o que chamo de Clínica Geral. A Clínica Geral é política no sentido de, ao máximo, destituir as formações em vigor durante o Terceiro Império para propiciar a aproximação do Quarto Império. Não há a saída de correr para trás, pois daremos com os burros n’água. Pena que, como sabem, o Quarto Império seja bipolar, não fixado numa das formações do Creodo, ele é entre formações. O Terceiro é inteiramente do Secundário, mas o Quarto foi forçado pelo próprio movimento da humanidade, sobretudo por suas próprias produções, a comparecer como bipolarizado entre o Secundário e o Originário. A constituição do Quarto Império é, sobretudo, no encaminhamento de afastar-se das formações do Secundário e aproximar-se do Originário enquanto possibilidade de reviramento de toda e qualquer circunstância. Nossa política é o encaminhamento para essa região. Existem formações vigorosas que já estão francamente caminhando nesse sentido. Sobretudo, na 445

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área de tecnologia de qualquer tipo ou natureza. As tecnologias estão forçando a entrada do Quarto Império à revelia das formações do Terceiro. Portanto, é necessário que haja uma instituição, uma instalação, de formações como a nossa, de psicanálise, no sentido de agilizar o encaminhamento para o Quarto Império. Demorará, repito, mas está claro que as políticas em vigor estão fracassadas.  Aristides Alonso – Você faz hoje uma nova distinção. Quando você lançou o conceito de ficção, parecia que toda ficção seria fixão, que ela se fixaria. Agora, você traz os três graus da alegoria. Isto é algo encontrado mesmo na literatura. Quantas ficções literárias se tornaram exemplares, quase como uma teoria? É a isso que chamo de fixão. Um conto como O Alienista (1882), de Machado de Assis, é quase uma formação teórica – e não é necessário fazer disso uma ideologia, fingir que não é ficção.  AA – ...que é o que acontece no terceiro caso, da hipóstase. Aí temos a crença: uma ficção colada ponto a ponto à realidade. Nesse momento é que uma ficção ideologizada passa a funcionar como religião. Uma forte crença de que aquilo resolverá a realidade do Haver. (Hoje, por exemplo, é dia de Nossa Senhora Desaparecida, com poderes descritivos capazes de ser tomados como poderes construtivos, curativos...) A partir das configurações atuais, temos que contar muitas coisas politicamente pela frente. O que dou, como fiz hoje, é a indicação: a Clínica Geral é ato político. Aliás, a ideia de Clínica Geral não faz sentido fora dessa perspectiva.  Patrícia Netto Coelho – A propósito da Clínica Geral, o Geral pode ganhar um sentido meio raso de ser qualquer clínica exercida para além do consultório. Não é. É o exercício clínico da Indiferenciação de forma incondicional, seja onde for. Corretíssimo! Observem que, às vezes, o didatismo prejudica as definições.  AA – Há tempo, você descreveu os três graus da reificação: analogia, metáfora e hipóstase. São formações ficcionais que podem se organizar tão bem a ponto de parecerem um instrumento adequado a algumas aplicações. Quando deixam de ser tomados como meros instrumentos, são ideologizadas e passam a ter crédito e crença como se fossem correspondentes exatas às formações do 446

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Haver, capazes de as descrever realmente e movimentar adequadamente. Isso não existe. O que é possível, compatível com o Quarto Império, é uma política instrumental. Por isso, digo que ela é de soluções ad hoc. Se pensamos numa política instrumental, vemos que fracassaram as soluções ideologicamente postas: democracia, comunismo, fascismo, nazismo...  AA – Qual é a abrangência que você dá à noção de ficção? Se não está restrita a línguas, à linguagem tal qual conhecemos, ela é da ordem de toda e qualquer possível articulação? Sim. Sendo que, se os autores que venho citando tiverem razão, suponho que o processo seja analógico em qualquer área. Analógico no sentido de que é: transa entre formações. Este é, para mim, o sentido genérico de analogia: uma formação transando com outra formação, a resultante será analógica.  PNC – Em 2006 [AmaZonas], você deu uma definição para ideologia: “Formação de formações secundárias (conjunto de ideias), ou seja, pressupostos e crenças, que tem o poder de determinar para uma Pessoa – no sentido que dou ao termo – sua tomada parcial de posição (sua tese) referente a qualquer tema considerado. Trata-se, portanto, de uma formação sintomática que exerce dominação sobre a suposta escolha desta Pessoa” (p. 19). Na sequência, diz você: “A única coisa não-ideológica que se pode ter é uma postura. A de Nietzsche, por exemplo, de se referir ao que fica para além de mal e bem. Existe algo não ideológico? Discursivamente, não. Posturalmente, sim. A cada vez que abordamos, que acolhemos, há que fazer o exercício da indiferença, ou pelo menos o processo permanente de indiferenciação do que quer que se escute. Qualquer valor aplicado será posterior ao movimento de indiferenciação” (p. 19-20). Está correto: a postura diante uma formação a desideologiza. A postura faz a ficção tornar-se instrumento. Entretanto, a definição que trouxe hoje me parece mais amarrada, mais limpa, refinada. Na definição de 2006, há algo que generaliza demais, fica parecido com os demais autores que consideram tudo ideologia. Não é. Ideologia é hipóstase. Ao lidar com uma formação ficcional como instrumento, não estaremos fazendo ideologia. Trata-se de instrumentalidade, sem crença. Tomem a ideia de instrumento musical, por exemplo. Alguém tocando violino – que é inteiramente configurado: sua sonoridade, 447

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seu timbre, etc. – é capaz de fazer coisas incríveis, mas não passa de ser um instrumento. Ele não fará certas outras coisas, não é um piano, por exemplo.  PNC – Hoje, sua definição de ideologia deu mais uma volta no parafuso. Pelo menos. É importante irmos adiante, pois não cabe, por exemplo, alguém se dizer psicanalista católico, comunista. Desde Freud, não cabe. Alguém é psicanalista ou não é. Está lidando com a psicanálise, e não com outra coisa. Nem democrata, psicanalista é. Já vimos aonde deu a democracia levada muito longe, ela vira pelo avesso – como, aliás, está bem visível atualmente deste lado do Atlântico.  P – Dado o que você falou, como pensar a psicanálise no campo político, no âmbito de uma governabilidade que envolva grandes coletivos? A psicanálise está pensando a governabilidade em termos do planeta. As dificuldades e questões sociológicas conhecidas e referidas em geral não são do interesse direto da psicanálise, que pensa em termos de formações estacionárias, regressivas e progressivas, e de consideração de toda e qualquer formação como produção ficcional para o mundo, i. e., como instrumento – é um instrumento. Se é um instrumento, é ad hoc, tem a duração de sua eficácia. Acabou a eficácia, acabou o instrumento. Não é o que acontece com as ideologias políticas, para as quais o que dizem é como se fosse verdade para sempre. Falo, portanto, sobre a visão e a postura psicanalíticas como possibilidades de vir a constituir o novo político. E mais, que a situação para esse novo modelo será imposta à revelia da humanidade contemporânea. Os processos tecnológicos de significação e de comunicação que se desenvolvem neste momento no planeta estão dissolvendo as formações sociológicas. A função e a postura da psicanálise são no sentido de iniciar o preparo desse novo caminho e saltar fora das formações que vigoraram antes. Quando temos noção de determinadas novas formações, não fica nada bem permanecer utilizando formações velhas. É melhor já ir na direção do processo novo. Como será essa nova governabilidade? Veremos. Quando o Quarto Império estiver instalado, ela surgirá. Repetindo, nossa obrigação no momento é encaminhar a instalação do Quarto Império, e sair do defunctório do século XX e do Terceiro Império. Aí não há caminho. Não podemos compactuar com isso. Se não, nos tornaremos católicos de vez. 448

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 P – Para a psicanálise, trata-se da Arreligião? Aí o sentido religioso da palavra é que não é religião, mesmo que pareça uma quando ela se instala. Não é religião por não ser uma crença, e sim um instrumento também. E depois desse instrumento, sabe-se lá onde isso vai dar. Temos que ter a paciência de esperar mais alguns séculos. A situação terrível é: o Terceiro Império acabou, o século XX virou um bobajal, há que fazer alguma coisa, mas a extensa maioria ainda está correndo para trás. Isso vai acabar, essa gente vai morrer, e quem começará a governar o Quarto Império serão as crianças que estão nascendo hoje. Elas serão de uma geração mais disponível do que a daqueles que estão na faixa dos vinte anos hoje. Por exemplo, aqueles que estão na universidade agora já estão ultrapassados. A universidade não os deixa sair do século XX. O que tem lá é só ideologia. E mais, até quando durará o bio? Sempre me perguntam como será o Quinto Império e digo que não faço ideia, pois nem o Quarto consigo entender. Hoje, já acho que o Quinto Império tem um cheiro de que será pós-bio. Muitos acham isso um terror. Stephen Hawking, antes de morrer, disse para tomarmos cuidado, pois a tecnologia iria acabar com a espécie humana. Vai mesmo, digo eu – mas a IdioFormação não deixará de existir. Esta nossa IdioFormação é que ficará superada. Ainda estamos no Planeta dos Macacos.  Nelma Medeiros – Em termos de Creodo Antrópico, ao rastrear momentos, articulações, presenças, testemunhos de indicação da última instância – que é o estatuto místico do Inconsciente –, poderíamos dizer que até o Terceiro Império a força recalcante das referências de hegemonia tem nome. É a passagem do Primário ao Secundário, com o Terceiro Império instalado com referência ao Secundário. É o Creodo empurrando para que o processo de Indiferenciação seja a própria referência de organização de algum tipo de modo vincular. Então, faz sentido apontar para a vontade de hipóstase dos modos ideológicos ainda sobreviventes que permanecem achando que um pode revelar a falcatrua do outro em nome da clareza que finalmente acontecerá uma vez revelada a falcatrua. Ou assumimos de vez a ordem articulatória, protética e artificiosa de qualquer transa para podermos operar a ficção nos dois primeiros graus da alegoria, ou não entenderemos o que acontece atualmente, ficaremos de fora. 449

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E a pressão é cada vez maior por causa dos achados tecnológicos.  NM – Você já disse que a tecnologia empurra e vai dissolvendo, mas não arruma explicações para as pessoas sobre o que está sendo feito. Quem arruma somos nós. Ela só põe. É a galinha dos ovos de ouro. A tecnologia não faz ficção. Sua ficção se materializa em produtos.  NM – E o pessoal insiste em ficar arrumando com referência à xepa do século XX. É uma xepa da feira das ilusões.  AA – O apontamento que você faz sobre a decadência de uma formação emergente ao decantar-se em reificação, o que parece ser uma tendência geral das formações do Haver, coloca a psicanálise no exercício contrário, aquele de tentar levar de volta o movimento para sua configuração inicial. Em 1993, você trouxe as Poléticas da Psicanálise [retomadas em 1994], que têm a ver com o que está sendo falado sobre a política hoje aqui: A primeira, a “volta ao retorno do recalcado, ou seja, a polética do Revirão”; a segunda, a da Indiferenciação; e a terceira, a da Prótese (1994, p. 262). Temos aí a contramão da psicanálise em relação aos demais discursos. Por isso, não há interpretação. Trata-se da Polética da Prótese. Vai-se colocar uma prótese psíquica no analisando – de acordo com “dentes” dele, aliás. Psicanalista não é psicólogo, não toma o molde de seus próprios dentes para colocar nos outros...  P – Você disse que a função política da psicanálise seria a de começar a preparar o caminho da instalação do Quarto Império. Suponho que você esteja falando da Diferocracia. Em 2011, diz você que a instituição psicanalítica seria o lugar da Diferocracia. Penso que, para isso, você aponta dois caminhos. Um, elaborar e disponibilizar um pensamento para quem quiser tomá-lo. Outro, a ideia da exemplaridade de modo de operar no mundo a partir da postura desse pensamento. É por aí que você está pensando o caminho? É por aí, mas é muito difícil porque esta nossa espécie – que é a única disponível para tentar criar esse caminho, as outras IdioFormações ainda não chegaram – é herdeira de um macaco com um Primário composto de um autossoma boçal que qualquer vírus destrói e de um etossoma compromissado com comportamentos os mais idiotas de funcionalidade no mundo. Depois, ainda 450

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recebe uma carga sintomática do Secundário, neo-etológica. Então, veja que é preciso muita análise para tentar a preparação do caminho, para poder neutralizar o macaco, o viciado e o estúpido que ela carrega. Haja Revirão, pois só se tem ele para lidar com tudo isso. É dificílimo – mas esse é o projeto.

54 Da vez anterior, dei uma definição para Ideologia: toda e qualquer ficção que, enquanto fixão, intente se apresentar como não-ficção. Ou seja, é o caso de algum tipo de hipóstase. Em vários dicionários de teoria política e semelhantes, vemos a dificuldade dos autores em dar uma definição geral para ideologia. Quase sempre as definições estão ligadas à ideia de partido político, o que é uma grande limitação. O mesmo acontece com autores de ciência e teoria políticas – frequentemente levam para o pensamento partidário. As definições ficam limitadas, pois nem toda ideologia é diretamente política – embora eu queira supor que toda ideologia seja, pelo menos, indiretamente política. Como ampliei para todos os casos a noção de ideologia, o trabalho da psicanálise é, na verdade, um trabalho de denúncia e tentativa de redução das ideologias tanto de uma pessoa quanto de um coletivo. Por isso, falo em Clínica Geral. E sempre que se tenta derrogar a força de uma ideologia, como faz a psicanálise em todos os casos de suas intervenções, está-se fazendo um ato político. Está-se tentando retirar uma pessoa ou um conjunto social do aprisionamento a um pensamento ideológico. Ou seja, a intervenção psicanalítica não pode não ser de algum modo uma intervenção política – sempre é. Portanto, não é preciso recorrer a outras formulações 451

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de intervenção política para participar politicamente do mundo. Participar psicanaliticamente já é participar politicamente de seu modo. Todo discurso tem uma ameaça, se não uma vocação, de ideologia, de esquecer que é mero instrumento. Seja o discurso da física sobre o buraco negro ou outro qualquer... Cito agora um tipo de ideologia que está sendo veementemente criticado nos tempos contemporâneos, a chamada ideologia de gênero. Observem que, nas línguas ocidentais, a distinção masculino / feminino tem sido adscrita à distinção sexual macho / fêmea do ponto de vista anatômico. Isto é uma ideologia fortíssima. É supor que o funcionamento de gênero de uma pessoa esteja adscrito a seu modo de construção anatômica macho ou fêmea. Ou seja, reduziu-se a ideia de gênero a masculino e feminino. Na carteira de identidade das pessoas, gênero sempre correspondeu a macho e fêmea. Isso é hipóstase, ideologia radical a ser denunciada e receber intervenção da psicanálise – e, ao fazer isso, estaremos fazendo um ato político. Uma ideologia não precisa ser necessariamente coletiva, pode ser individual. Por exemplo, o que Lacan chamou de “mito individual do neurótico”. Há que separar o comportamento de gênero da construção anatômica genérica. Digo genérica, pois nem toda construção anatômica é macho ou fêmea: existem nascimentos com deslizes ou modificações da construção anatômica do sexo. Portanto, não existe o Todo em relação a macho e fêmea: se existe pelo menos um que não é nem macho nem fêmea, a composição anatômica sexual não é universal. Mesmo que fosse, distinguir comportamento individual ou coletivo como masculino ou feminino reportado a macho e fêmea é imbecilidade – ou seja, ideologia da pior espécie. O que acontece hoje com certas revoltas dentro do social é: a exigência de que Gênero seja uma categoria capaz de ser escalar. Não existem dois gêneros, masculino e feminino. Existem, sim, muitos gêneros que nada têm a ver com a anatomia das pessoas. Se ela achar que tem a ver, pode fazer a confusão dos transexuais, por exemplo, que pensam que, para serem femininos, têm que ser fêmeos. Também não é proibido, podem querer assim – mas é ideológico. Repito, pois, que o ato analítico não pode não ser um ato político. Se sua intervenção funciona, ela suspende uma vontade de ideologia. Ela até a modifica para outro tipo de vontade, ou, pelo menos, faz reconhecer

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que uma ideologia não é simplesmente um instrumento. Se assim fizer, a psicanálise estará exercendo seu ato político. Estou, portanto, na luta contra a suposição de que o psicanalista deva ter algum engajamento político fora de seu próprio engajamento político, que, este, é o da psicanálise. A suposição de engajamento político fora do engajamento político da psicanálise é de alienação. Vejamos outro ponto. Hoje, por uma questão de igualdade, de equidade, sei lá do quê, devemos ser contra o massacre machista das mulheres. Esse massacre tem história e justificativa histórica. Já lhes disse que, durante milênios, elas viveram grávidas desde o momento que menstruavam. O pessoal lá dos inícios da história sequer sabia que a cópula sexual é que produzia filhos, atribuíam aos deuses, ou coisa assim. Portanto, elas estavam a maior parte de suas vidas fisicamente limitadas e recebiam as tarefas menores e mais fixas. Sua situação era de dependência física. Os homens saíam para caçar e guerrear. Isso deve ter ajudado a nascer a ideia de machismo e de dominação das mulheres. Foi justamente o que acabou há bastante tempo e, no entanto, permaneceu a ideologia e a religião – mesmo na Católica – de colocar os homens em situação de superioridade, por exemplo. Eis, então, algo que, por estar errado, por não corresponder ao funcionamento do psiquismo humano, a psicanálise deve combater politicamente – ou seja, analiticamente. O que não implica ela embarcar em qualquer tese feminista, pois as teses feministas são ideológicas também. Não se trata de jogar uma ideologia contra outra, e sim de jogar a análise contra as ideologias. A análise da ideologia é considerá-la como ideologia e responder a ela não-ideologicamente com algum instrumento que possa derrogá-la. Pode-se, portanto, hoje, tomar partido de todas as lutas políticas que estão no mundo, mas não embarcar nas ideologias que as governam do lado de fora. O argumento dessas ideologias é de luta contra uma opressão – mas, imediatamente, recaem numa ideia nitidamente partidária e, portanto, também opressiva. Ou seja, não se está contra uma ideologia, mas funda-se outra ideologia contra essa opressão. Isso é prejudicial: vira apenas luta de uma ideologia contra outra. Para a psicanálise, trata-se de denunciar o ideológico e o religioso da questão. Trata-se, então, de denunciar (não o machismo ou o feminismo, e sim) entre, denunciar o movimento falso de significação de domínio que existe 453

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na situação. Para isso, não é preciso partido, basta a psicanálise. O mesmo se aplica ao racismo. Somos contra os movimentos de dominação em nome de alguma raça – que, aliás, é algo que não existe –, mas não há que embarcar em movimento negro, por exemplo. Em geral, movimento negro é apenas movimento negro, e não movimento anti-racista. Então, tomar PARTIDO do discriminado, ou do oprimido, ou do dominado, etc., etc., não é tomar PARTIDO do PARTIDO dele – o que seria embarcar numa Ideologia. A intervenção é, caso a caso, Psicanalítica: o modo de intervenção Política da Psicanálise. O mesmo vale para movimento gay. Cada pessoa tem o direito de exercer sua sexualidade que é única – o que não significa entrar em algum partido LGBT+, que é pura ideologia. É mais fácil derrubar a luta política quando ela está ideologizada, basta a outra ideologia ter mais poder. Outra coisa, é dissolver por dentro. Justo o que a psicanálise tenta fazer.  Lia Guarino – A propósito, lembro-me de Ney Matogrosso, que, ao ser cobrado por não levantar a bandeira gay, disse: “Eu não sou gay, eu sou Ney”. Aí está um bom exemplo de atitude compatível com a psicanalítica. Trata-se aí da Política do Singular, ou seja, de Diferocracia. O