Sinais dos tempos

"O presente trabalho - afirma o Autor - é fruto de uma pesquisa que exigiu tempo e aplicação. Tem um caráter pronun

361 83 10MB

Portuguese Pages 167 [170] Year 1979

Report DMCA / Copyright

DOWNLOAD FILE

Polecaj historie

Sinais dos tempos

Table of contents :
ÍNDICE
Copyrights
PREFÁCIO
I - ESTUDO BÍBLICO
1 - Preliminares para a exegese de Mt 16,3
2 - Exegese de Mt 16,1-4 e textos paralelos
3 - Problemática que se levanta a partir dos textos estudados
4 - Temática ligada ao estudo presente
II - HISTÓRIA DE "SINAIS DOS TEMPOS" NA"GAUDIUM ET SPES"
1 - Surgimentos e problemas de uma linguagem nova
2 - Esboço 3: um pensamento que toma forma
3 - Debate "in aula": avanços e bloqueios
4 - Esboço 4: "ST" se impõe como método e como expressão
5 - Luzes e sombras de um novo método
IlI - CONTEÚDO DE "SINAIS DOS TEMPOS" NA "GAUDIUM ET SPES"
1 - As referências conciliares a "ST"
2 - Análise da "expositio introductiva": GS, 4-10
3 - Uma questão prévia à hermenêutica dos ST: o dualismo da GS
4 - Os não-cristãos e a GS: as exigências da racionalidade histórica
IV - ANÁLISE DE ESTUDOS ESPECÍFICOS SOBRE SINAIS DOS TEMPOS
Introdução
1 - Estudos principais sobre ST
2 - Estudos secundários sobre ST
3 - Síntes e aprofundamento
CONCLUSÃO GERAL

Citation preview

"SINAIS DOS TEMPOS" PRíNCIPIOS DE LEITURA

COLEÇÃO "FÉ E REALIDADE" - V

Clodovis Boff, O.S.M.

"SINAIS DOS TEMPOS" PRINCÍPIOS DE LEITURA

EDIÇÕES LOYOLA SÃO PAULO

1979

CO'P'Jlright EDIÇÕES WYOLA

CAPA:

G. VALPÉTERIS

COM APROVAÇÃO ECLESIASTICA

Todos os direitos reservados

EDI Ç ÕES LOY OLA Rua 1822 n.º 347 - Caixa Postal, 42.335 - Tel.: 63-9695 - São Paulo IMPRESSO NO BRASIL

PREFACIO

O presente trabalho é fruto de uma pesquisa que exigiu tempo e aplicação. Tem um caráter pronunciadamente analítico. Tivemos de examinar em detalhe as três áreas que tocam a problemática dos "Sinais dos Tempos": a Escritura, o Vaticano li e os estudos teoló­ gicos respectivos. E é nessa ordem que se faz a exposição. Assim, o tema dos "Sinais dos Tempos'' é aqui tratado de modo sistemático. Era nossa intenção primeira fazer inclusive uma investigação sobre como foi explorada na história da teologia a questão subjacente à idéia dos "Sinais dos Tempos". Mas a exten­ são e a originalidade deste tema particular bem como o embaraço em conceituá-lo nos obrigaram a deixá-lo por ora de lado. Cremos, contudo, que o tratamento dado ao nosso objeto teó­ rico não tenha deixado nenhum ponto essencial fora. Procuramos captar sempre a nervura da problemática, localizando os bloqueios, pondo a nu os pressupostos e sugerindo as saídas possíveis. Pelo que nos foi possível pesquisar, lançamos mão de todos os estudos referentes à questão dos "Sinais dos Tempos": o levan­ tamento bibliográfico se quis exaustivo. Fique claro que o objetivo de nosso esforço foi a busca dos princípios de interpretação dos "Sinais dos Tempos". Trata-se, pois, aqui, de um problema essencialmente teórico, ou seja, relativo 5

à metodologia teológica. culdade do mesmo.

Donde a importância e também a difi­

Os resultados a que a investigação nos autorizou a chegar podem talvez surpreender por seu aspecto terminante, mas nada melhor para o avanço do conhecimento, sobretudo para a t9ologia de hoje, do que o jogo limpo. Seja também dito que este trabalho foi desenvolvido nos qua­ dros de pesquisa do "Centro João XXII/ de Investigação e Ação Social" (CIAS) do Rio de Janeiro, de quem agradecemos a colabo­ ração. Rio de Janeiro, julho de 1978

6

SEÇÃO 1

ESTUDO BíBLICO

Capítulo 1

PRELIMINARES PARA A EXEGESE DE MT 16,3

1.

Primeiro acesso

a Mt 16,3

A expressão "ST" tem seu lugar próprio nos Evangelhos. É, pois, aí que o conteúdo da mesma deve ser buscado antes de tudo. Para tanto, impõe-se um trabalho hermenêutico. Este se desdobr3 em vários momentos. O primeiro desses momentos é sem dúvida a análise exegética da noção em causa. É por ela que vamos começar. Os outros momentos impor-se-ão em função da signifi­ cação apreendida a partir da exegese. O único texto bíblico em que esta expressão ocorre é Mt 16,3: "... o aspecto {1tpooW1tov) do céu sabeis interpretá-lo (ytvwo-x$·ts Õtcc-xptvEtv), mas os ST (O'YJ!1Eta ,wv xcctpwv), não o podeis (ou õuvcco­ &e)!" Para podermos avaliar a idéia de "ST" em seu teor exegético exato temos de notar imediatamente que o termo "ST" faz parte de uma perícopa que não se encontra em vários códigos impor­ tantes. Trata-se da perícopa Mt 16, 2a-3: "Quando vem a tarde dizeis: 'Bom tempo! pois o céu está avermelhado'; e ao amanhecer: 'Hoje, tempestade, pois o céu está avermelhado e sombrio'. O as­ pecto . . . etc." Ora, esse pequeno trecho não se encontra nos códigos seguin­ tes: 1) Sinaítícus (=S, do séc. IV); 2) Vaticanus (=B, do séc IV encontrado no Egito); 3) o grupo de códigos em letra minúscula (copiados na Calábria); 4) as versões siríacas sycs (do séc. IV, encon9

tradas no Egito); 5) a versão copta sahídica (do Alto-Egito, também do séc. IV); 6) e outros ainda. tiva.

Mt 16, 2b-3 seria provavelmente uma inserção na trama primi­ Há para essa hipótese duas razões de peso: 1

1. Fala-se aqui de "Sinais dos Tempos", quando o contexto é "sinal do céu" (cr1J1iEtov EX 'tou oupavou); 2. Emprega-se a 2.ª pessoa: "dizeis", "sabeis", "não podeis", quando o verbo do trecho está na 3.ª pessoa: "ela procura um sinal", "não lhe ser dado outro sinal". Se Mt 16, 2a-3 pertencesse ao texto original seria realmente estranha essa troca de pessoa de "vós" para "ela". Quem teria operado essa inserção? Talvez o próprio redator de Mt. Ele teria sido induzido a isso pelas palavras-grampo "sinal" e "céu". Neste caso, como se explica que Mt 16, 2b-3 não se encontre nos importantes manuscritos acima indicados? Seria pe!o fato da diferença de condições atmosféricas do Egito em compa­ ração com as da Palestina. Com efeito, deve-se notar que a maioria dos manuscritos acima provém do Egito. É possível, também, que a inserção em causa tenha sido obra de um copista pós-mateano. Nesse caso, ela seria inautêntica. 2 Essas considerações levam a não supervalorizar a expressão "ST". Se for uma interpolação, como é o caso mais provável, não seria então originária no sentido de remontar a Jesus. Deve-se, então, colocar de lado a expressão "ST"? De modo algum. Com efeito, há antes de tudo o fato de que a perícopa em que "ST" se encontra é canônica, independentemente da ques­ tão literária de seu estatuto exegético. Ela se impõe, portanto, à consideração teológica pelo fato de pertencer à Positividade da fé cristã. Mas, ficando ainda no campo da semântica, convém dizer que é questionável uma exegese que se fixa no nível das palavras, privilegiando o corpo literário das idéias sobre as próprias idéias. Tal exegese não deixa de ser superficial, pois não consegue 1. Cf. DEISS, L., Synopse, t. 1: Notes, Paris 1964, p. 102 (§ 142). 2. Cf. DEISS, L., Op. cit., ib.. P. Bonnard, Evangi/e sefon saint Mat­ thleu, Delachaux et Nlestlé, Neuchâtel 1963, p. 237, acha que é obra de um copista.

10

penetrar para além da superfície da letra em direção da profun­ deza do sentido. 2.

Crítica ao método corrente de exegese

É necessário a essa altura estabelecer o modo que vamos seguir tanto na leitura dos textos bíblicos referentes ao nosso tema quanto no aproveitamento dos diferentes estudos feitos sobre estes mesmos textos. Referimo-nos aqui muito brevemente à crítica feita por J. Barr 8 de encontro ao "método semântico-lexical", usado pela maioria dos exegetas e teólogos bíblicos. Esse método se centra na palavra. Sua filosofia da linguagem é a-crítica, e mesmo empirista. Para ele a palavra (visível) equivale à idéia (invisível) e leva assim direta e imediatamente à coisa. Ora, esse "paralelismo lógico-lingüístico" não é centífico. Com efeito, não há homologia entre estudos teológicos e estudos lin­ güísticos. Em resumo: o "método semântico-lexical" elude a me­ diação do conceito, pretendendo passar diretamente da palavra à coisa. Ora, quando se privilegia a palavra, o que adquire importância no texto são os aspectos etimológicos (raiz) e lexicográficos (inven­ tário). O contexto lingüístico (frase) e histórico-social (cultura) não apresenta maior significação. Vamos resumir a crítica de Barr num esquema em que colo­ caremos em paralelo o método criticado e o método proposto: Método S:Jm§ntico-lexical - Sede do sentido: Palavra

Método sem§ntico-sintático Sede do sentido: Frase (con­ texto da Palavra ou seu uso)

Lexicografia: inventário

- Contexto cultural (histórico-so·­ cial)

- Método de associação

- Método sistemático (universo simbólico)

3.

Sémant/que du langage biblique, DDB... , Paris 1971.

11

- Etimologia:

raiz

- História do uso

- Palavra (= Conceito) ➔ Coisa

- Palavra ➔ Conceito ➔ Coisa

- Estruturas lingüísticas (= estruturas teológicas) ➔ Eventos históricos

- Estruturas lingüísticas ➔ Estruturas teológicas ➔ Eventos históricos

Bíblia

=

totalidade simples

- Bíblia

=

totalidade complexg

Façamos dois reparos ao esquema esboçado. Antes de tudo, atente-se ao esquematismo deste quadro: nele, as posições opostas são extremadas a fim de se fazer ressaltar diferenças das suas posições metodológicas. Em segundo lugar, digamos que o segun­ do método, para poder ser mais adequado, deve poder assimilar o que há de positivo no primeiro. A relação não é, pois, de oposi­ ção (certo x errado) mas de grau (menos rico x mais rico; restrito x amplo; menos adequado x mais adequado). Tirando as conseqüências dessa crítica para nosso estudo, faremos aqui algumas observações de caráter metodológico: Em primeiro lugar, privilegiaremos não a palavra (que de "ST" oferece tão-somente um unicatum), mas a idéia. Para tanto, estuda­ remos, antes de tudo, os paralelos mais próximos do texto em questão; em seguida, analisaremos o campo semântico em que a expressão "ST" se coloca. Será, pois, uma interpretação mais conceituai que lexical. Não que esta deva ser abandonada, mas deve ser tomada tão-somente como suporte material da anterior. Por isso, também devemos ficar atentos ao fato seguinte: os diferentes autores que utilizaremos e que trataram dos vários termos do campo semântico relativo a "ST" vêm marcados pelas limitações e deficiências do método acima criticado. Essas deficiências ficam aqui apenas assinaladas. Só podem ser adequadamente retificadas mediante um estudo sistemático a partir de novas bases. Somos, entretanto, obrigados a utilizar as diferentes fontes tais como se apresentam, tentando superar, na medida do possível, suas limitações.

12

Capítulo li

EXEGESE DE MT 16, 1-4 E TEXTOS PARALELOS

1.

Os textos

Vamos agora analisar Mt 16, 1-4 e seus diferentes paralelos. Estes são os seguintes: 1 - Me 8, 11-13

(/ / Mt 16, 2a-4)

2 - Lc 12, 54-56

(/ / Mt 16, 2b-3)

3 - Mt 12, 38-40

(/ / Lc 11, 16. 29-30)

4 - Jo 2, 18-19 e 6,30. Eis como se apresentam sinopticamente os 7 textos que aca­ bamos de referir: 4

4. Cf. ALAND, Kurt, Synopsis Quattuor Evange/ium, Württember­ gische Bibelanstalt, Stuttgart 1967, pp. 17-171 (= n.0 119) e 225-226 (= n.0 154).

13

Mt 12,38-40

Mt 16,1-4

Me 8,11-12

38. Nisso perguntaram­ -lhe alguns Escribas e Fariseus dizendo:

1 . E tendo-se aproximado os Fariseus e os Saduceus para pô-lo à prova pediram-lhe que lhes mostrasse um sinal (vindo) do céu.

11. E saindo os Fariseus, começaram a discutir com ele; para pô-lo à prova, exigiam dele um sinal (vindo) do céu.

2 . Ele, respondendo, disse-lhes:

12. E suspirando em seu espírito, ele disse:

Mestre, queremos de ti ver um sinal.

39. Ele, respondendo, disse-lhes:

[Ao entardecer, dizeis: (Vai fazer) tempo bom, porque o céu está avermelhado. 3. E pela manhã: Hoje (teremos) tempestade porque o céu está de um vermelho sombrio. Na verdade, o aspecto do céu sabeis interpretar, mas os SINAIS DOS TEMPOS não podeis!] Uma geração má e adúltera exige um sinal,

4. Uma geração má e adúltera exige um sinal,

Por que esta geração procura um sinal?

mas nenhum sinal lhe será dado a não ser o sinal de Jonas, o profeta.

mas nenhum sinal lhe será dado a não ser o sinal de Jonas. E deixando-os, foi-se embora.

Em verdade vos digo: nenhum sinal será dado a esta geração

40. Pois como Jonas esteve no ventre do monstro marinho três dias e três noites, assim também ficará o Filho do Homem três dias e três noites no coração da terra.

14

13. E deixando-os, tornou a embarcar l foi para a outra rr.argem,

l.C 11,16. 29-30

L.c 12,54-56

16. Outros para pô-lo à prova exigiam dele um sinal do céu. 29. Como afluíssem as multidões, começou a dizer:

54 . Disse ainda às multidões: Quando vedes levantar-se uma nuvem do poente, logo dizeis: Vem chuva, e assim acontece.

Jo 2,18-19

Jo 6,30

18. Então os Judeus o interpelaram e lhe disseram: Que sinal nos mostras para agires assim?

30. Então, (os Judeus} perguntaram-lhe: Que sinal realizas para que vejamos e creiamos em ti?

19. Respondeu­ -lhes Jesus:

55. E quando sopra o vento do sul, dizeis: Vai fazer calor e assim sucede. 56. Hipócritas. o aspecto da terra e do céu sabeis discernir, e o TEMPO PRESENTE como não discernis? Esta geração é uma geração má. Procura um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado a não ser o sinal de Jonas. 30. Pois como Jonas foi sinal Para os Ninivitas, assim será também 0 Filho do Homem Para esta Qeração.

Destruí este templo

e em três dias eu o levantarei.

15

Notemos que a inserção Mt 16, 2b-3 tem seu paralelo em Lc 12, 54-56. Mas as diferenças são tantas que é pouco provável que Lc dependa aqui de Mt. Talvez se deva admitir duas fontes distintas para explicar as diferentes versões sinópticas do "Signo de Jonas": uma, fornecida pelo Documento Q e que corresponde a Mt 12, 38-40 / / Lc 11, 16, 29-30, e outra, pelo Documento B e que corresponde, por sua vez, a Lc 12, 54-56 / / Mt 16, 2b-3. 5 É nesse último que se encontraria o texto de Mateus em que foi inserido o pequeno trecho relativo aos "ST". Este segundo texto de Mt é mais curto que o da Q (Mt 12, 38-40), como acontece ordinariamente para os duplos mateanos, apesar da diferença das fontes. 6

João 2, 18-19 e 6, 30 refletiria uma versão literariamente inde­ pendente feita em torno de um tema comum - a procura de sinais. Digamos, porém, que a questão literária é aqui secundária. Pouco afeta a determinação semântica dos textos em causa. Passemos agora ao estudo dos diferentes elementos desse conjunto. Fixemo-nos não tanto na comparação literária, mas antes na intenção semântica dos diferentes textos. Por outras: apreen­ damos as variações e não a variedad3 (G. Bachelard). Assim, evi­ tamos o atomismo do método lexical em favor do modo de articula­ ção do método sintático.

2.

O contexto

O quadro comum a todos os textos é que os interlocutores de Jesus lhe pedem um "sinal" e que Jesus recusa o sinal que pedem. O contexto histórico parece ser dado por um "milagre" ("sinal") realizado pouco antes. Em Mt 12, 38-40 e em seu paralelo Lucas 11, 29-30 (os dois da Q) trata-se da cura de um endemoninhado mudo (inclusive cego, para Mt). Ora, este "sinal" é mal interpretado: ele é colocado na conta de Beelzebul. 5. BENOIT, P. e BOISMARD, M.E. Synopse des quatre evangi/es en trançais, Cf. Paris 1972, t. li, pp. 174-176 (§ 120). 6. Cf. DEISS, L. Synopses DDB, Paris 1964, t. 1, pp. 92 ( § 109) e 28 (§11).

16

Em Me 8, 11-12 e seu paralelo Mt 16, 1-4 (fonte B), assim como em Jo 6,30, o contexto é o milagre da multiplicação dos pães. É mais provável que tenham sido estas as circunstâncias que pro­ vocaram a disputa em torno do "Sinal do Céu". Mas seja num caso como no outro, os "sinais" de Jesus não são apreendidos em sua verdadeira "freqüência": ou são mal inter­ pretados (é o primeiro caso) ou não "assinalam" suficientemente (é o segundo caso). João evidencia bem este aspecto, mostrando como as multidões reagem ao milagre da multiplicação dos pães: vêem em Jesus o profeta messiânico e vão buscá-lo para aclamá-lo rei (6, 14-15). O discurso de Jesus que se segue (6, 25) reflete um esforço pedagógico (catequético) no sentido de elevar a com­ preensão do povo à verdadeira dimensão do "sinal". Por isso, também, se entende por que os Fariseus acham os sinais de Jesus com pouca força de significação ("significância"). E pedem então um "sinal do céu", isto é, um sinal "para valer", irretorquível, irresistível. Tal é o contexto, o Sitz im Leben, do fato em estudo. Vamos, em seguida, examinar as diferenças entre as várias recensões em função dos vários elementos que o relato coloca em jogo. Tenta­ remos, depois, uma retranscrição do fato em sua transcorrênci3 possível. Nos capítulos posteriores aprofundaremos a significação bíblica de "ST", recorrendo às noções-chaves que tal noção implica. 3.

Os interlocutores Consideremos em primeiro lugar os interlocutores de Jesus.

Para Mt 12, 38-42 são "alguns Escribas e Fariseus" e no seu duplo correspondente (Mt 16, 1-4) são "os Fariseus e Saduceus". Pode tratar-se aqui de introduções redacionais de Mt. 7 Em Me, temos somente "os Fariseus". Lc se refere às "multidões"; e João, aos "Judeus" (2, 18) e às "multidões" (6, 30). É claro que Lc e sobretudo Jo próprias, os destinatários reais. O tamento em questão só podia se Escribas e os Fariseus. Contudo, 7.

ampliam, por razões teológicas certo é que o gênero de afron­ dar com os dirigentes - os embora tenham sido esses os

Cf. DEISS, L. Op. cit., p. 92 (§ 109).

17

reais interlocutores de Jesus (Me e Mt), a polêmica não se limita a eles, mas envolve os coletâneas de Jesus (Lc e Jo) - a "gera­ ção má".

4.

O espírito dos interlocutores de Jesus

Eles estão imbuídos de evidente má fé, o Documento B usa o termo 1t1:.rp1XÇov-c1:.;: colocando-o à prova, tentando-o. Os interlo­ cutores "se aproximam" (Mt 16, 1 ), "vieram" (Me 8, 11) com uma intenção determinada - a de desacreditar publicamente Jesus, e suas pretensões. O Documento Q é mais frio, embora Lc traga um versículo que nos paralelos parece deslocado: "Outros, para tentá-lo, reclamavam um sinal do céu" (11, 16). Há aqui uma intimação dirigida a Jesus para que apresente os títulos de sua pretensão divina. Satanás, no deserto, também pede "sinais" (Mt 4, 1-11 e par). Os judeus são ávidos de "sinais" - polemiza Paulo (1 Cor 1, 22 s). 8 Este espírito (envenenado) se deixa perceber, também, pela reação de Jesus. Ele "geme em seu espírito" (Me 8,12), chama-os de "hipócritas" (Lc 12, 56) e res­ ponde com uma apóstrofe veemente: "Geração má (e adúltera)", recusando toda e qualquer resposta. Ruptura irredutível. 9

5.

Objeto da discussão:

o "sinal"

Toda a discussão gira em torno do "sinal" (doe. Q) e de um "sinal (vindo) do céu" (doe. B). Esta categoria é muito importante. Ela nos remete a três con­ textos distintos: em primeiro lugar, ao contexto apocalíptico e inclusive messiânico; aos contexto dos prodígios celestes sucedidos a Elias; e ao contexto dos "sinais" do deserto. 1 . "Sinal" era, de fato, uma "noção catalogada pela tradi­ ção judia. ( ... ) o Messias deveria se fazer reconhecer por certos sinais bem precisos, variáveis, de resto, de acordo com as esco­ las". 10 "Sinal" era, pois, uma noção apocalíptico-messiânica. 8. tamento. 9. 10.

18

Cf. TRILLING, W., O Evangelho segundo Mateus, Col. Novo Tes­ Comentário e Mensagem, 1/1, Vozes, Petrópolis 1966, pp. 294-295. Cf. TRILLING, W., Op. cit., n.o s 1/2, 1968, pp. 84-85. BONARD, P., Evangile selon saint Matthieu, op. cit., p. 184.

A literatura a·pocaliptica lançava suas raízes na grande tra­ dição profética, mas teve sua idade de ouro no século que ante­ cedeu e no que se seguiu ao nascimento de Jesus. Ela veiculava, portanto, a mentalidade reinante, não única, no tempo de Jesus. Tal corrente estava muito preocupada com determinar as circunstân­ cias do fim, da vinda do aion futuro, do "dia do Senhor". 11 Tais circunstâncias envolviam as determinações de tempo, lugar, moda­ lidade etc. Tudo isso seria indicado por "sinais" - os sinais anun­ ciadores da chegada do grande dia, da iminência dos "tempos escatológicos". 12 Tais sinais têm por cenário a vasta amplidão do firmamento: eles se fazem "no céu" ou "a partir do céu". São os "sinais" des­ critos pelo discurso apocalíptico dos sinópticos (Me 13, 1-32 e par.). Assim, em Lc 21 encontramos as seguintes referências: "qual será o sinal" do começo do fim? (v. 7); "haverá grandes sinais no céu" (v. 11); "haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas" (v. 24). Mt 24, 30 se refere ao "sinal do Filho do Homem brilhando no céu". O livro do Apocalipse é outro documento que nos descreve esses sinais espantosos do fim. Eles desenham de modo impres­ sionante o modo como todo o arcabouço do universo entra em convulsão e range fragorosamente, envolvido em cataclismas cós­ micos e acompanhado pelo aparecimento de monstros fantásticos que invadem os espaços siderais e fazem guerra às potênci3s celestes. Poderíamos, ainda, citar o Apocalipse de Esdras ou IV Esdras, obra do gênero apocalíptico, escrita ainda no I século da nossa 11 . O "dia de Javé" é o dia do julgamento e, por isso, 'Jbjeto de pavor ou de esperança, isso depende. Esse dia se acompanha de sinais cósmicos. A descrição do desmantelamento do mundo através de um cata­ clisma universal tornou-se um lugar-comum na literatura profética, sobre­ tudo apocalíptica. Cf. Am 5, 18; 8,9; Mt 24, 3; Apc 6,14. (Ver os comen­ tários respectivos na Bíblia de Jerusalém). 12. Explicando Sir 42, 18 c-d: "pois o Altíssimo possui toda ciência, ele considerou os sinais dos tempos", a Bíblia de Jerusalém diz: "Os astros são 'sinais dos tempos', não somente porque eles dividem regularmente o tempo, 43, 6; Gên 1, 14-18, mas também porque, segundo a concepção muito espalhada, o futuro estava já inscrito no céu, Jer 1O, 2. Ê preciso, talvez, pensar aqui, particularmente, nos sinais extraordinários que devem anunciar a vinda do Messias, Mt 24, 29-31". "ST" tem, por conseqüência, três níveis de significação: metereológico, astrológico e messiânico-esca­ tológico. A fusão desses três níveis se mostra claramente no caso do "astro do rei dos judeus" de Mt 2, 1-12.

19

era, logo após a destruição de Jerusalém. Esse escrito traz des­ crições de um surrealismo delirante sobre os "sinais" precursores do "fim". 13 "Sinal do céu" implica, na linguagem da apocalíptica, um sinal provindo do alto, pelo qual Deus intervém de modo retum­ bante, espetacular, e que, por isso, não deixa mais lugar a dúvidas. Ê esse gênero de prova, absolutamente imponente, que os interlo­ cutores intimam Jesus a dar. De resto, o Filho do Homem, que viria no "fim" como juiz e instaurador da "nova era", iria mostrar os sinais de sua presença. Daí porque a noção apocalíptica de sinais tem também um con­ teúdo messiânico. Por isso, também, todo o pretendente ao título de "messias" estava obrigado a comprovar sua pretensão com sinais. Assim, por ex., 14 ao "messias" Bar-Kochbas, líder da li Guerra romano-judaica (132-135), os rabinos pediram que julgasse a partir de um instinto interior infalível. Igualmente, o revolucionário Teudas 15 tinha-se comprometido a refazer o gesto de Josué (Jos 3, 14-17): fender as águas do Jordão, como "sinal do ajuntamento de seus partidários ... e da deflagração da revolta messiânica". 16 Na verdade, o gênero de disputa que estamos estudando entre Jesus e os chefes do povo era comum na época, sobretudo nos momentos de maior conturbação social. 17 2. Além do contexto apocalíptico, essa intimação de um "sinal do céu" pode se ligar aos sinais que deu o profeta Elias, 1 8 fazendo descer fogo do céu por duas vezes: a primeira, quando da disputa com os 400 sacerdotes de Baal, no monte Carmelo: "Então 13. Cf. 4 Esdr 4, 52; 5,13; 6, 20.24; 7, 26; 8, 63; 9, 1-6 etc. Um ex.: "Correrá sangue das árvores e as pedras soltarão gritos. . . O mar sodo­ mítico (Mar Morto) rejeitará os peixes e de noite clamará ... Animais sel­ vagens transmigrarão e mulheres menstruadas parirão monstros" (5, 5. 7-8). 14. Os dois exemplos reportados são de LAGRANGE, M.-J., Evangi/e se/on saint Marc, Gabalda, Paris 1920 3 p. 196, n.0 11. 15. Cf. JOSEFO, FI. Ant., 20, 5, 1. Tratar-se-ia do mesmo Teudas que o de At 5, 36-39? 16. GOGUEL, M., Vie de Jésus, Paris 1932, pp. 35ss. 17 . Cf. Me 13, 22 e par. "Fanfarrões e charlatães, com o pretexto de inspiração divina, aproveitam das revoluções e das mudanças, persuadam as multidões a abandonar-se a um sagrado entusiasmo e as conduzem ao deserto como se Deus devesse dar ai sinais de libertação": JOSEFO, F., Bel. Jud., li, 13, 4, cit. por LAGRANGE, M.-J., Le Messianisme chez /es Juifs, Paris 1909, p. 21. 18. Cf. LAGRANGE, M.-J., Evangi/e selon saint Marc, op. cit., p. 196.

20

baixou o fogo do Senhor, que consumiu o holocausto e a lenha e secou a água do rego" (1R 18, 38); a segunda vez, quando um "fogo do céu" desceu e devorou um batalhão de 50 soldados man­ dados pelo rei Ocozias para prender o profeta (2R 1, 9 ss); sem falar ainda, no arrebatamento de Elias ao céu, dentro de um tur­ bilhão, num "carro de fogo puxado por cavalos também de fogo'' (2R 2, 1 ss). 3. É possível, também, que a intimação de um "sinal do céu" se vincule aos "sinais" acontecidos no deserto, como sugere o texto paralelo de Jo 6, 30-31: "Que sinal fazes para que vejamos e creia­ mos em ti? Que realizas? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer um pão que veio do céu". • Temos, pois, aqui, de fato, um "sinal (vindo) do céu". Seja como for, o contexto apocalíptico-messiânico é evidente. Os interlocutores de Jesus pedem um sinal no "sentido judeu ofi­ cial de uma atestação messiânica objetiva e necessitante". 19 Os fariseus esperam, pois, que Jesus justifique sua pretensão de ser o messias apocalíptico ou escatológico respondendo às suas expec­ tativas de grandiosidade e imponência. Na verdade, os "sinais" que Jesus realizava, tais os que aca­ bara de fazer (multiplicação dos pães ou então cura do endemo­ ninhado) não pareciam aos judeus estar em grau de provar as pretensões daquele "Mestre" (cf. Mt 12, 38). Os fariseus tinham por certo caído na ilusão da leitura ana­ crônica: eles menosprezavam o presente, seja em favor do passado (sinais maravilhosos de Elias ou do deserto), seja em favor do futuro (sinais extraordinários dos tempos derradeiros). Convém assinalar, ainda, que a pergunta é feita em tom de provocação e de desafio, como o deixa ver o relato de Marcos, que deve ser o mais primitivo. A coisa se passa numa atmosfera pas­ sional. Trata-se de uma polêmica violenta entre Jesus e os Fari­ seus, estes procurando acuá-lo e reclamando uma prova irrefutável para desmoralizar o pretenso profeta messiânico. Essa intimação insistente de sinais se revela até debaixo da cruz (Me 15, 29-32 e par.). Tudo indica que a intenção real desses espíritos enfure­ cid os não era certamente obter uma abstração de Jesus para po­ derem crer, mas era a de refutar Jesus, que punha em questão 19.

BONNARD, P., Op. cit., p. 238.

21

ser falsa "justiça". Nessas condições, não há sinal que possa convencer, por imponente que seja. É só lembrar os do Apocalipse e a reação que provocam: o endurecimento, à semelhança aliás dos sinais no Egito. 6.

Reação de Jesus

Me 8, 12 anota: "suspirando do fundo do peito" ou "gemendo do fundo de seu espírito". Mt refere a apóstrofe violenta de Jesus: "geração má e adúltera". É uma fórmula tirada da linguagem dos profetas, indicando a infidelidade à Aliança. Talvez Jesus se refira aqui à "geração" do Êxodo, a qual não acreditou nos "sinais e prodígios" do deserto - como o testemu­ nham: Dt 32,5 e SI 95 (94), 10. 20 Por causa de suas conotações tipicamente bíblicas, Me e Lc, que escrevem para leitores não-judeus, evitam essa formulação. Mt, que escreve para os judeus, é o único que a mantém, e nas duas recensões. Note-se que nas quatro recensões (fora a inserção referida excessão já explicada), Jesus fala na 3.ª pessoa. Parece não se dirigir aos ouvintes em presença. Ele pronuncia o julgamento acer­ ca do povo judeu como um todo. Num desenvolvimento posterior, Mt 12, 41-42 abre uma perspec­ tiva nada alentadora para os judeus, dentro do quadro típico da inversão escatológica: os pagãos se levantarão no grande dia do julgamento definitivo para depor contra "a geração presente". Os pagãos tomarão o lugar que tinha sido reservado aos "filhos do Reino" (Mt 8, 12-12; cf. Mt 22, 1-10 e par.). Para Me, Jesus se recusa a todo e qualquer sinal. Ele não alude aí a Jonas. É que os leitores de Me não tenham entendido tal alusão. 21 Jesus liquida o assunto com uma imprecação: Et õoirioE't