Pierre Bourdieu e a Teoria do Mundo Social [1 ed.] 8522502986, 9788522502981

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Pierre Bourdieu e a Teoria do Mundo Social [1 ed.]
 8522502986, 9788522502981

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EDITORA FGV

ISBN - 85-225-0298-6 Copyright © Editions Albin Michel, 1998 Título do original: Pierre Bourdieu et la théorie du monde social Direitos desta edição reservados à EDITORA FGV Praia de Botafogo, 190 - 1211 andar 22253-900 - Rio de Janeiro - Brasil Tel.: O-xx-21-559-5533 - Fax: O-xx-21-559-5541 e-mail: [email protected] http://www.fgv.br/publicacao Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em pane, constitui violação do copyright (Lei n2 5.988) 11 edição - 2000 EDtTORAÇÃO ELETRÓNICA: Denilza da Silva Oliveira, Jayr Ferreira Vaz e Simone Ranna REVISÃO: Aleidis de Beltran, Fatima Caroni e Sandra Pássaro PRODUÇÃO GRÁFICA: Helio Lourenço Netto CAPA: Alvaro Magalhães ILUSTRAÇÃO DE CAPA: Detalhe de um móbile de Calder.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Marie Henrique Simonsen/FGV Pinto, Louis. Pierre Bourdieu e a teoria do mundo social / Louis Pinto; tradução Luiz Alberto Monjardim. - Rio de Janeir_? : Editora FGV. 2000. 192p. Tradução de : Pierre Bourdieu et la théorie du monde social. Inclui índice. 1. Sociologia. 2. Bourdieu, Pierre, 1930-. l. Fundação Getulio Vargas. II. Título. CDD - 301

Sumário

Introdução 1.

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Um legado intelectual

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Os pólos da produção filosófica

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Filosofia e ciências humanas

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Uma trajetória atípica

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2. Pensar a prática: pressupostos e predisposições

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Dimensões e usos da noção de habitus

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O repúdio das alternativas teóricas

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A auto/imitação do saber científico

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O "duplo eu

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Uma sociologia copernicana: a objetivação do sujeito da objetivação

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A teoria como saber e como poder

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3, A teoria dos campos

Estudo de caso A sociologia da literatura: elaboração de um programa O campo. Alternativas teóricas de um conceito

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As formas de autonomia

75 82

Literatura e sociologia

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4. Uma teoria da teoria

Uma ciência ambiciosa O postulado de inteligibilidade

Mitos e ficções Um realismo re�exivo

s. Uma antropologia explicitada

A descoberta do capital simbólico Paixões e interesses o capital das razões de existir

6. Realismo e utopia

A nova definição do intelectual Razão e história A ordem do mundo Ciência da autoridade, autoridade da ciência A sociologia como modo de visão política Um novo modo de dominação Uma linha política: o realismo utópico Conclusão Índice

91 92 95 107 113 125 126 135 138 143 145 151 156 161 163 168 174 181 187

Introdução

Um livro sobre Pierre Bourdieu encerra um desafio singular: expli­ car uma º?rª. e .º "paradigma" por ela proposto, buscando ser fiel a um de seus pnnc1pa�s. ensinamentos: a primazia do trabalho de pesquisa so­ bre a postura teonca tal como geralmente concebida e celebrada. Pois se essa obra, que se me tornou familiar ao longo dos anos, causou­me ante­ riormente, em suas primeiras fases, tão viva impressão de novidade1 foi porque instigava a romper com uma maneira de ser intelectual caracteri­ zada por programas, proezas "teóricas", "debates", provas iniciáticas cujas alternativas são tão sublimes por sua amplitude filosófica quanto indefini­ das em suas conseqüências empíricas e mesmo teóricas. Como evitar re­ produzir em relação ao autor que me parecera libertador uma atitude exegética de que ele havia contribuído para libertar­me? A confissão de tal embaraço não deve ser tomada como mesura ri­ tualista à guisa de preâmbulo, porquanto, expressamente formulada, vale como compromisso de buscar a fórmula que permita falar tão clara e ri­ gorosamente quanto possível a respeito da teoria sociológica de Pierre Bourdieu, levando em conta o que ele próprio disse a respeito do que vem a ser falar de um autor.2 Essa fórmula, que tem suas próprias dificul­ dades e da qual tentei aproximar­me, consiste em fornecer uma espécie de guia. Não se trata de um retrato por retocar, e sim de uma espécie de sinalética que permita identificar os principais feitos realizados no espaço teórico e no mundo social por esse teórico. Trata­se de mostrar, a partir Prova disso é a resenha que fiz de Esquisse d'une theórie de la praâque (La théorie de la pra­ tique. La Pensée (178):54­76, déc. 1974). O intuito era dar uma justificação, o que é bem inu­ sitado para uma resenha, submetendo as idéias apresentadas "à reflexão crítica dos leitores". 2 Ver especialmente Bourdieu, P. Comment !ire un auteur. ln: Méditaâons pascaliennes. Paris, Seuil, 1997. p. 101 e segs.; e Qu'est­ce que faire parler un auteur? A propos de Michel Fou­ cault. Sociétés et Répresentaâons (3): 13­8, nov. 1996. I

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do horizonte problemático onde foram produzidos e utilizados, os instru­ mentos universalizáveis e transponíveis que a obra oferece, tendo em vis­ ta novos usos que possam também comportar modificações e correções. A norma do gênero é ser conciso e convincente, em vez de exaustivo e sistemático à maneira do comentarista da tradição universitária, encarna­ do pelo historiador da filosofia que procura mostrar a coerência da "dou­ trina" e, às vezes, suas incertezas e lacunas. De certo modo, pode­se di­ zer que o discurso aqui proposto é o de um usuário, mais que o de um intérprete, de um "especialista em Bourdíeu" (assim como existem "espe­ cialistas" em Marx, em Durkheim, em Weber, em Elias etc.). Falar sociologicamente de um autor que é um sociólogo não é "di­ zer tudo", e sim adotar um ponto de vista que seria o desse autor tal como ele se define em relação ao campo das ciências sociais, tal como ele age nesse campo e o transforma. Ao contrário do que propõe uma visão sumária de seu trabalho, Pierre Bourdieu jamais comparou um campo a um jogo de forças cegas. Num campo existem reais possibilidades de trans­ formação, mas que são muito diferentes conforme a posição ocupada. Al­ gumas são propícias a inovações ou mesmo revoluções: as razões disso po­ dem ser analisadas no quadro de uma teoria das subversões intelectuais ou simbólicas, que é certamente uma das perspectivas mais estimulantes suge­ ridas por essa obra. Mas hoje é difícil negar que a maneira de fazer socio­ logia foi sensivelmente influenciada pelo papel considerável de Bourdieu. Quer nos felicitemos por isso, quer o deploremos, certos termos e hábitos intelectuais se impuseram, na França e no exterior, para muito além do cír­ culo dos íntimos e dos alunos. Entre as conquistas mais significativas da disciplina figuram, por exemplo, a representação da prática sociológica como uma indispensável "construção de objeto" e a crítica das prenoções, especificada, por um lado, na desconstrução de categorias (científicas. ad­ ministrativas etc.), e por outro, na historialização dos objetos vista como um meio de lutar contra os efeitos de naturalização. Enfim, alguns sociólo­ gos admitem de maneira mais ou menos conseqüente o princípio de uma análise reflexiva de sua relação com o objeto, a qual tem o mérito de im­ pedir certas formas simplistas de dogmatismo e de cientificismo. Se é natural e desejável que a sociologia de Pierre Bourdieu susci­ te debates e críticas, também é de se esperar que as reações estejam à al­ tura de _s�u alvo. E, sendo assim, é melhor queimar as pestanas: digo­o sem espmto de provocação, mas simplesmente por realismo, bem entendi­ do. Quando um autor explorou tamanha diversidade de domínios, obje­ tos e proble�as, que vão desde a casa cabila até a gênese do Estado, o can:ipo ec?nomico, a "dominação masculina", passando pelo sistema de ensmo, a literatura, a alta costura, a filosofia de Heidegger, os estilos de vi­ da, quando ele tem como pares a maioria dos que se destacaram na França e no exterior no universo das ciências humanas, sociólogos. etnó­

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logos, filósofos, historiadores, lingüistas, quando seus livros são traduzidos e discutidos em vários países, e quando eles inspiram pesquisas originais e rigorosas, a começar pelas de seus "discípulos, então é melhor poupar­se o risco e o ridículo de investidas a esmo e outros desperdícios de ener­ gia, coisas que uma leitura atenta e benevolente (mas nem por isso com­ placente) teria levado a evitar. Por exemplo, antes de declarar o sociólo­ go "inimigo" da filosofia em uníssono de membros de uma corporação na defensiva e de ensaístas que tomam as dores pela virtude, seria bom to­ mar conhecimento de uma opinião como a da filósofa Christiane Chauvi­ ré: "Bourdieu e a filosofia, eis uma história complicada. Consideraremos aqui apenas o aspecto mais positivo: é forçoso constatar que o pensamen­ to de Bourdieu não pára de gerar interlocutores como Searle ou Haber­ mas, Taylor ou Bouveresse ( ... ) cumpre admiti­lo, Bourdieu é cada vez mais lido como filósofo pelos filósofos" .3 Devemos abster­nos das obje­ ções mais elementares, como aquelas diretamente baseadas nas· lutas de fronteiras: censurar Bourdieu por seu "determinismo" não passa, em ge­ ral, de uma maneira um pouco doutrinal de manifestar um velho rancor de filósofo contra as ciências sociais, culpadas de abolir as hierarquias de objetos e de ignorar a liberdade do pensador." Outras objeções se respal­ dam num conhecimento por ouvir dizer e que, mesmo (sobretudo?) en­ tre as pessoas "informadas", leva a se contentar com rótulos vagos, fonte de julgamentos peremptórios repetidos pelo eco incontrolável do rumor "intelectual". A ignorância revelada por muitos críticos é sobretudo aquela resul­ tante da cegueira para um dos maiores ensinamentos da obra. Como teve que se firmar e se construir em duas frentes que ameaçam a autonomia do trabalho científico, quais sejam, o poder acadêmico institucionalmente ga­ rantido e o poder da mídia, ambos dotados de meios específicos para im­ por uma definição das problemáticas legítimas, tal obra transmite a todo leitor pelo menos (e isso é mais do que possa parecer) uma moral da leitu­ ra dos textos sociológicos. O leitor avisado é aquele que sabe aplicar certo número de preceitos, especialmente para a leitura de autores contemporâ­ neos: devo primeiramente perguntar­me até que ponto essa reação espon­ tânea, seja ela favorável ou hostil, não é atribuível antes de tudo às catego­ Chauviré, C. Des philosophes lisent Pierre Bourdieu. Bourdieu/Wittgenstein: la force de l'ha­ bitus. Critique (579­580):548, aoút/déc, 1995. (Numéro spécial: Pierre Bourdieu.) Poderíamos mostrar, no caso de outras disciplinas, que os interlocutores foram personagens como Clau­ de Lévi­Strauss, Michel Foucault, Georges Duby, Enrico Castelnuovo, Aaron Cicourel, Erving Goffman, Albert O. Hirschmann, Eric Hobsbawm, William Labov, Moshe Lewin, Edward P. Thompson etc. 4 Que dizer quando esse tipo de censura parte de um sociólogo? Será realmente o colega que fala ou o filósofo reprimido que ressurge disfarçado? 3

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rias de pensamento que conservo de minha trajetona social e intelectual, ou de minha disciplina, ou ainda de minha condição universitária, ou tal­ vez de tudo isso ao mesmo tempo etc.: perguntar­me, igualmente, até que ponto esse posicionamento aparentemente singular diante de um autor sin­ gular não envolve e não reprime toda uma série de outros posicionamen­ tos tácitos diante do conhecimento científico, do papel dos intelectuais, da ordem social; perguntar­me, ainda, se a linguagem da crítica intelectual não é uma forma eufemística capaz de dar expressão legítima a paixões humanas demasiado humanas, como a inveja e o ressentimento acadêmi­ cos que levam a suspeitar de falsas glórias ("midiáticas"5) por trás de um reconhecimento intelectual julgado excessivo, indecoroso, contrário às vir­ tudes universitárias de discrição e à economia das trocas entre colegas ... Creio que bastaria aplicar explicitamente tais preceitos para deitar por ter­ ra boa parte das questões que, longe de alimentar o debate científico, lhe servem de obstáculo. O problema fundamental suscitado pela possibilidade de um deba­ te sobre uma obra é saber como é possível criticá­la. Lembrar a diferen­ ça entre argumentos aceitáveis e centrais, questões aceitáveis, ainda que secundárias, e polêmicas mesquinhas é simplesmente valer­se de uma éti­ ca da discussão. Esta é indispensável, mas, em geral, os que a invocam se contentam com princípios filosóficos demasiado abstratos sob os auspícios da "democracia", da "razão" e da "troca". Também nesse aspecto a obra de Bourdieu oferece instrumentos utilíssimos, sem dúvida porque conse­ gue reunificar tradições intelectuais até então distintas, quais sejam, a tra­ dição da epistemologia histórica das ciências à francesa e a tradição da sociologia (marxista, weberiana) das relações de força entre grupos com interesses contraditórios, levando­nos assim a dar igual atenção à polêmi­ ca da razão científica e às suas condições sociais de possibilidade e fun­ cionamento. Para ser tão sucinto quanto possível, pode­se dizer que os critérios de avaliação de um trabalho científico remetem àquilo que Bachelard chamava um tanto solenemente de "ato epistemológico". Tal ato, irredutí­ v�l unicamente aos �esu�tados apresentados segundo as formalidades pres­ cnt�s do. trabalho �1ent1fi�o, consiste no conjunto de operações concei­ tuais �u 1�st,rumenta1s reahzadas pelo pesquisador visando a liberar um es­ paço inteligível de qu:stões, de métodos de observação, de decupagem de dados e�c. Operaçoes como a geometrização do movimento por Gali­ le�, ?u no�o:s como a de. meio _interno, de Claude Bernard, geradoras de múltiplas hipóteses e marnpulaçoes experimentais, são exemplos clássicos: 5

Seria preciso . fazer um inventário de termos como "midiãtic • , .. poder" etc., 1 o " , pret­a­penser, . que servem hoje de armas_ para designar não importa qual adversário, independentemente de qualquer real preocupaçao de apresentar provas.

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o que está em causa é algo como uma mecânica geral ou uma ciência dos organismos. À diferença do amador que se interessa quer pelos resultados, por­ que são diretamente monetizáveis e utilizáveis, quer pelas "idéias", por­ que agradam ou surpreendem, o juiz competente e equânime seria aque­ le capaz de fazer justiça ao valor do trabalho realizado. De fato, vale lem­ brar a diferença entre as portas abertas da cientificidade encenada ou fingida e os pensamentos retificados da prática científica. Não há conheci­ mento sem que se questione um fundo preexistente de crenças: ao contrá­ rio das certezas banais sem contraste e sem história, o que um texto rigo­ roso ensina é sobretudo a desconfiança acerca daquilo em que se pôde acreditar. 6 Tanto nas ciências físicas quanto' nas ciências humanas, somos levados, ao menos posteriormente, a nos interrogar sobre a natureza e a intensidade dos obstáculos que cumpria superar e que ­ será preciso dizê­lo? ­ não se confundem necessariamente com o que dizem a seu respeito os relatos legendários. Ora, se nem sempre os obstáculos são cla­ ramente discerníveis e a fortiori codificáveis, existe, pelo menos em socio­ logia, uma experiência relativamente cumulativa graças à qual o pesquisa­ dor aprende, por exemplo, a desconfiar das classificações indígenas, insti­ tucionalmente garantidas ou não, a se interrogar sobre as condições de produção de um discurso, sobre a situação de diálogo. A cientificidade está na invenção de um novo objeto, objeto construído que oferece uma nova maneira de ver e de interrogar um conjunto metodicamente delimi­ tado de fenômenos. Uma forma de romper com o senso comum, particu­ larmente eficaz quando se trata do mundo social, é mostrar toda a distân­ cia entre a percepção científica de um trabalho de pesquisa pelos pares e a percepção leiga pelos ensaístas, os jornalistas intelectuais, os patrocina­ dores da pesquisa: enquanto a primeira se esforça por apreender em sua especificidade o corpo de hipóteses que esse trabalho implica, a segunda pode ver no mesmo apenas um conjunto de "boas idéias", o que o ex­ põe inevitavelmente à decepção, à ironia sobre as presunções da ciência. Ao contrário da "boa idéia", que decifra o real sobrevoando­o de modo às vezes engenhoso, a hipótese, momento do trabalho de generalização teórica, tende a condensar a dialética da teoria e da experiência. Longe 6

Pode­se afirmar que o mérito de uma pesquisa é julgado em função do que nela se presta a um exame em comum mediante princípios de inteligibilidade juridicamente universalizá­ veis, se não universais. Isso nada tem a ver com as competências patrimoniais de "especialis­ ta", cuja única justificativa não raro é a pretensão de legislar sobre um "domínio" tacitamen­ te outorgado pelo poder temporal das diferentes burocracias da pesquisa e cuja única com­ petência, aliás, consiste em detectar os "erros" (números, datas etc.), unicas deficiências que conseguem perceber. Diante de concorrentes mais ou menos próximos, mal e apressadamen­ te lidos, é fácil, conforme o caso, franzir o cenho para resultados tidos como insignificantes e banais, ou então louvar a originalidade das idéias (e vice­versa).

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de existir isoladamente, ela encerra um conjunto de proposiçoes solidá­ rias, verificáveis não num domínio único do real, mas numa mesma famí­ lia de objetos construídos, determináveis por um mesmo conjunto de ca­ racterísticas estruturais. Ao designar os objetos, a ciência fala sempre de outra coisa, fala de relações, induzindo, aliás, a problematizar os limites e as condições de circulação entre domínios do real. As comparações se fa­ zem segundo um método, e o método sempre implica a comparação. A hipótese é uma fase de um processo demonstrativo: como nada garante a homogeneidade do lado teórico e do lado empírico do discurso científi­ co, seu ajustamento é um processo sempre laborioso e inacabado que re­ quer um trabalho crítico sobre a coleta de dados, a construção das variá­ veis, a elaboração dos indicadores, as condições de pesquisa etc. Em suma, pode­se dizer que uma obra científica se caracteriza por alternativas propriamente teóricas, sendo a teoria talvez simplesmente o exercício sistemático da responsabilidade intelectual: trata­se de saber o que se faz efetivamente quando se diz o que se faz. Isso implica não tanto elaborar "sistemas" ou "modelos", e sim dominar, entre outras coisas, a "relação com o objeto", os pressupostos de uma terminologia, de um mé­ todo aplicado em tal contexto, as conseqüências de um modo de cons­ truir o objeto em outros domínios ou para a sociologia em geral. Sendo assim, a teoria nada tem daquilo que se costuma associar a essa palavra, isto é, um conjunto de considerações abstratas, concebíveis fora de todo contexto e de toda utilização, e propícias a "debates" em grande estilo e de pouco proveito. Essa visão dominante da teoria, que satisfaz a quase todo mundo ­ por motivos evidentes ­, embora pouco contribua para o progresso dos conhecimentos, impede de ver que não se julga a teoria por meio de axiomas inaugurais, mas principalmente pondo­a à prova na pró­ · pria prática da pesquisa. Assim, para ser imparcial com um trabalho de pesquisa em ciências sociais, 7 não basta considerar unicamente sua conformidade a regras pres­ critas, isto é, em geral a um conjunto de procedimentos padronizados apli­ cados a objetos padronizados; é preciso sobretudo levar em conta os crité­ rios resultantes do caráter essencialmente teórico de todo conhecimento científico. Critério polêmico: em que medida era difícil conquistar o novo ponto de vista, bastante improvável, que nos é proposto? Critério econô­ mico. em que medida esse ponto de vista tem rendimento elevado, em função das extensões (generalizações, comparações) que ele promove ou das questões que ele suscita? Basta empregar esses critérios (certamente existem outros) para ver que o fato de situar­se num nível propriamente 7

Qu�stão con:i que freqüentemente nos deparamos, Gérard Mauger e eu, nas palestras Lire

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teórico é coisa rara, estando a maioria das discussões e das críticas num nível muito diferente (metodologia, debates científicos etc.). As circunstâncias, por vezes lamentáveis, em que a obra de Pierre Bourdieu foi acolhida na França fortaleceram minha intenção de escrever este livro, sem no entanto me levarem a modificar­lhe a orientação geral. Não se trata de apresentar nem uma defesa nem uma réplica (de clã ou de panelinha''), e sim de convidar a aferir a contribuição dessa grande obra e, portanto, delinear os contornos do que poderia ser uma discus­ são esclarecida a seu respeito. Creio que terei realizado e.sse projeto caso consiga fornecer um guia, ou melhor, uma disposição para utilizar os ins­ trumentos, os esquemas de trabalho que ela oferece.9 É evidente que, uma vez esclarecidas as minhas intenções, não se­ ria o caso de apresentar de forma "escolástica" ou didática uma exposi­ ção completa dos trabalhos de Bourdieu'? e de todos os seus prolonga­ mentos em diferentes domínios. Falar genericamente de uma obra como essa é um desafio dificil porque ao risco de simplificar soma­se outro, me­ nos evidente, que é o de fazê­la existir sob a forma intemporal e irreal de um bem intelectual destinado à contemplação. Ora, menos do que outra disciplina, a sociologia não poderia prestar conta de si mesma, de sua gê­ nese e de seus efeitos, de uma forma intelectualista. Não poderia esque­ cer que seu pertencimento ao mundo social se apresenta como um pro­ blema de conhecimento, jamais totalmente dissociável das práticas e das 8

A obra de Pierre Bourdieu conseguiu reunir pesquisadores que com ela se identificaram, pelo menos num dado momento de sua trajetória. A visão detetivesca ou jornalística de uma "conspiração", sustentada por alguns editorialistas que não gostam de sociologia e por al­ guns repórteres que se esquecem de investigar, não faz justiça à lógica do trabalho científi­ co, baseada ­ em princípio e a despeito de obstáculos de toda sorte ­ na discussão, na crítica e na consideração recíprocas. Os interesses da carreira universitária deveriam ter leva­ do a procurar outras alternativas de conspiração e, em todo caso, a preferir a proteção de quaisquer outros "mandarins". Resta o ponto, em princípio, mais importante: os resultados ci­ entíficos desses laços de afinidade intelectual são públicos, estão publicados, isto é, disponí­ veis para julgamento público. 9 Acrescentei aos textos já publicados, porém refundidos (La théorie en pratique. Critique (579­ 580), aoút/sept, 1995 ­ numéro spécial: Pierre Bourdieu; The theory of fields and the sociolo­ gy of literature: reflections on the work of Pierre Bourdieu. Internatjonal Journal of Contempora­ ry Sociology, 33(2), Oct. 1996 ­ special issue: Pierre Bourdieu'.s thought in contemporary so­ cial sciences; trad. alemã: Feldtheorie und Literatursoziologie. Uberlegungen zu den Arbeiten Pierre Bourdieus. ln: Pinto, L. & Schultheis, F. (eds.). Streifzüge durch das literarische Feldt. Konstanz, Universitãtsverlag Konstanz, 1997). trechos originais ou inéditos que constituem a matéria da maior pane dos capítulos. 1 Por conseguinte, para aliviar as referências, limito­me a citar de forma abreviada porém clara (Distinction, Sens pratique, Choses dites, Homo academicus, Noblesse, Regles, Réponses, Raisons pratiques, Méditations ... ), e sem mencionar o nome do autor, as obras de Pierre Bour­ dieu utilizadas com mais freqüência, que contarão, aliás, com referências bibliográficas com­ pletas.

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tarefas práticas decorrentes desse pertencimento. Eis por que, em vez de abordar muito rapidamente certas questões, preferi escolher certo núme­ ro de pontos a meu ver decisivos: a natureza do conhecimento teórico, suas condições e suas implicações sociais. O capítulo 1 procura situar Pierre Bourdieu no contexto intelectual dos anos 1950 e 60, cujo papel foi fundamental na formação de seu pro­ jeto sociológico: a história deve sobretudo permitir, nesse caso, evitar cer­ tos mal­entendidos, notadamente os que suscitam confrontos imaginários com as tradições escolares e os autores sugeridos pelo clima da época. Se a teoria da prática estava anunciada ou preparada pelas condições do cam­ po filosófico na França, o fato é que o trabalho empírico em etnologia e em sociologia levou Bourdieu a formular os problemas num novo terre­ no. No capítulo 2, levanta­se uma questão "genealógica": o que predispu­ nha esse filósofo reconvertido às ciências sociais a contestar de dentro a razão científica? Os capítulos 3 e 4 apresentam os principais instrumentos teóricos. O primeiro, tomando a literatura como estudo de caso dentro de uma concepção unitária da sociologia, tenta mostrar tais instrumentos através de seu emprego concreto. O segundo propõe uma reflexão sobre a prática do teórico, procurando estabelecer até que ponto e em que sen­ tido se pode dizer que existe teoria num autor tão desconfiado, por sinal, das falsas abstenções teóricas do "empirismo" e do "positivismo". O capí­ tulo 5 é dedicado à antropologia e à mudança de status que ela sofreu, . passando do estado implícito ao estado explícito: era preciso reconhecer, sem ultrapassar necessariamente os limites da razão científica, que a teo­ ria da prática encerrava realmente um discurso mais geral e mais vigoro­ so sobre o homem, do mesmo gênero daquele dos filósofos. Nessa antro­ pologia, a noção de capital simbólico se mostrava central. Por fim, o capí­ tulo 6 aborda a questão "Bourdieu e a política". Mas não se trata nem de arrolar posicionamentos nem de justificar sua legitimidade em cada caso. O propósito é outro: mostrar, no plano dos princípios, a compatibilidade �r:tre a exigência científiÓ pode manifestar­se no tempo, o tempo do envelhe­ cimento social, meio de experimentação imaginária perfeito para revelar aspirações há muito escondidas ou, pelo menos, as preferências resignadas impostas pelo malogro das primeiras esperanças. Se Frédéric se distingue dos demais personagens é sobretudo por sua recusa a definir­se e escolher entre os possíveis finitos oferecidos pelo mundo social, uma vez que ele prefere viver como espectador distante e desiludido, justamente quando os outros se acham instalados nas posições mais ou menos desejadas que, em todo caso, ocupam com seriedade. O escritor Flaubert não descreve sim­ plesmente um "meio", como afirmam os que julgam estar fazendo uma concessão benevolente à pesquisa de "documentos" sociológicos: através de Frédéric, "possibilidade superada e conservada de Custave", ele objeti­ va uma relação específica com o mundo social, "o idealismo do mundo so­ cial", que é típica do artista dedicado à arte pela arte, ou melhor, que é tí­ pica da posição ocupada no campo literário e, para além deste, no cam­ po do poder por todos os que se reconhecem nesse modelo. Sua escrita é uma forma de rejeitar a dupla banalidade do escritor burguês e do escri­ tor a serviço da arte social, assim como a indeterminação de Frédéric é uma dupla rejeição dos compromissos totais oferecidos a um adolescente burguês. Para o sociólogo, basta escutar o que o artista diz à sua maneira para compreender que a arte, assim como a religião, segundo Max Weber, é marcada pela Dieseitigkeit, a relação insuperável com este mundo.

O campo. Alternativas teóricas de um conceito Antes de apresentar mais detalhadamente os métodos da sociolo­ gia da literatura, é preciso tentar compreender por que os problemas por

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ela suscitados são de ordem muito mais genérica. Para tanto, basta ler O capítulo "O ponto de vista do autor", do livro Les rêgies de l'art (As re­ gras da arte), cujo subtítulo é precisamente "Algumas propriedades ge­ rais dos campos de produção cultural" (p. 298). Nesse trecho, toda vez que se trate de literatura, empregam­se diversos expedientes, em particu­ lar os parênteses, para lembrar que o que está dito vale também para outros campos de produção cultural, incluindo os campos religiosos e políticos (o que, evidentemente, não descarta a existência de diferenças importantes entre esses campos). A noção de campo, que não foi concebida num céu de idéias pu­ ras, serviu para pôr fim a um dilema teórico. Até então, para explicar os produtos culturais ­ arte, literatura, mito, religião, ideologia ­, parece que era preciso escolher entre duas vias exclusivas. De fato, numa con­ juntura intelectual dominada, na França, pelo confronto entre duas tradi­ ções cujos emblemas são o estruturalismo e o marxismo, era­se levado quer a privilegiar os produtos dotados de coerência interna subtraindo­os aos determinismos externos, quer a caracterizar tais produtos pelas fun­ ções sociais que eles exercem, notadamente as funções ideológicas de jus­ tificação dos interesses das classes dominantes. Mas as vantagens teóricas obtidas por um lado se fazem acompanhar de prejuízos, por outro: de tanto insistir nos interesses sociais, corre­se o risco de prejudicar a com­ preensão dos produtos. Em outras palavras, dando­se atenção à lógica imanente aos bens culturais, é impossível escapar da visão idealista apon­ tada pelos adversários materialistas, mais propensos a uma leitura política dos produtos culturais e, logo, relativamente desarmados nessa tarefa. En­ fim, que vitória ou que derrota é preferível? É próprio, talvez, de uma alternativa teórica promover o acordo dos adversários nos próprios termos da oposição. Na verdade, é como se os rivais "idealistas" e "materialistas" partilhassem até certo ponto uma mesma estrutura cognitiva caracterizada pela exclusão mútua da su­ perestrutura e da infra­estrutura, do cultural e do social, do simbólico e do econômico. E, na obrigação de escolher, cada qual parece decidir­se sobretudo em função de seus recursos: uns, valendo­se da cumplicidade dos habitus eruditos propensos a uma visão intelectualista do mundo, preferem ficar do lado do sentido, do conhecimento, da mensagem ou do texto, enquanto outros, valendo­se ao menos de uma visão realista do mundo, preferem ficar do lado das noções de poder, classe e rela­ ções entre classes. Os primeiros podem ser melhores na análise e des­ construção internas de bens geralmente nobre e prestigiosos, e os últi­ mos, na desmistificação desses bens. Para sermos mais explícitos, de um lado estariam a antropologia estrutural lévi­straussiana e também a ar­

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queologia de Michel Foucault, que tem por objeto as epistémes caracte­ rísticas das diferentes épocas do saber; de outro, a tradição de Lukács, a escola de Frankfurt, a história da arte de inspiração marxista (Friedrich Antal, Arnold Hauser). Para aliar o rigor e a fecundidade da visão idealista encarnada pelo estruturalismo às exigências de uma visão realista das diferenças sociais, seria pois necessário escapar ao jugo das alternativas concei­ tuais. Entender que, na análise, não se pode estabelecer separação entre O poder e a violência, o conhecimento e a política: eis o princípio des­ sa ciência do simbólico sugerida por Pierre Bourdieu. A terminologia exprime o desafio que aí se encerra: o simbólico se exprime pelo seu "contrário" aparente, o poder e a violência etc. Que se deve entender por isso? O espaço das posições teóricas foi apresentado sob a forma de um diagrama onde são classificadas as diferentes concepções dos instrumen­ tos simbólicos (língua, mito, arte, religião etc.).121 Uma primeira tradição, dita "neokantiana" (Humboldr­Cassírer ou Whorf­Sapir), considera esses instrumentos, essas formas simbólicas, como "estruturas estruturantes" (ou "subjetivas"), atribuindo­lhes papel ativo: a construção de um mundo ob­ jetivo. A segunda tradição, a do estruturalismo (Saussure, Lévi­Strauss), que enfatiza os produtos em vez do ato de produção, o opus operatum em vez do modus operandi, considera os instrumentos simbólicos como "estruturas estruturadas", "estruturas objetivas", .dotadas de uma coerên­ cia interna, uma inteligibilidade imanente e, de algum modo, auto­sufici­ ente. Essas duas tradições, vizinhas e por vezes até reunidas num mesmo autor (Durkheim), têm em comum pressupostos intelectualistas: dá­se prio­ ridade ao conhecimento e à comunicação, que subentendem ou promo­ vem o acordo dos sujeitos. Ao contrário, a terceira tradição, marxista (em que Weber vai ter com Marx). "privilegia as funções políticas dos 'siste­ mas simbólicos' em detrimento de sua lógica e sua função gnoseoló­ gica": 122 os "instrumentos simbólicos" são vistos, nessa perspectiva, como "instrumentos de dominação" caracterizados pelo efeito ideológico de universalização dos interesses particulares. Fazer a síntese desses pontos de vista é passar a considerar que os termos tidos como opostos trazem uma contribuição específica para uma mesma totalidade complexa: a ordem do simbólico. Essa coopera­ ção paradoxal transforma forças contrárias em aliados que agem graças 121 122

Bourdieu, P. Sur le pouvoir symbolique. Annales (3). mai/juin 1977. Ibid. p. 408.

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ao seu embate, e não apesar dele. Abstendo­nos de qualquer formula­ ção que pareça justificar alguma forma de finalismo, podemos mesmo afirmar que a dominação é ainda mais eficaz porque se realiza por meio de instrumentos simbólicos aparentemente destinados apenas às funções de conhecimento e comunicação. O mito, a religião, a arte etc. cumprem sua função política, ao mesmo tempo que parecem obedecer somente a uma lógica imanente. Mas tal afirmação presume duas coi­ sas complementares para o trabalho de análise: por um lado, é preciso que as formas simbólicas funcionem segundo uma lógica autônoma e que a função social de dominação só se exerça "adicionalmente" (para usar um termo caro a Bourdieu); por outro, é preciso que a domina­ ção consiga "exprimir­se" (segundo a terminologia leibniziana) dentro do próprio processo obedecendo a uma lógica autônoma. Faz­se pois ne­ cessária uma operação de tradução ou retradução. Mas esta não pode ser "termo por termo"; só pode ser estrutural. Assim, a correspondên­ cia entre uma posição social externa e um elemento interno de. um sis­ tema simbólico só pode dar­se mediante um código capaz de retraduzir o conjunto de posições da mesma família segundo os princípios de per­ tinência imanentes evidenciados pela análise estrutural e em conformi­ dade com a máxima: "num sistema, os termos valem somente por dife­ rença". Por exemplo, é preciso deixar de procurar a que grupo social real se devem relacionar termos como "filósofo", "geógrafo"·, "kantia­ no", "marxista", "surrealista"; deixar igualmente de caracterizar as obras artísticas ou filosóficas e os discursos religiosos diretamente por traços sociais unívocos. Em compensação, o que se acha conservado num sis­ tema simbólico, em virtude de um isomorfismo estrutural, são as rela­ ções entre as posições externas. E quando a oposição social entre domi­ nantes (nobre, burguês, patrão etc.) e dominados (operário, povo etc.) chega a ser percebida é somente sob a forma específica imposta pelo fun­ cionamento do universo considerado ­ artístico, literário, filosófico etc. Assim, no sistema relativamente autônomo das disciplinas, no pólo supe­ rior se encontram os filósofos, e, na disciplina filosófica, os kantianos; ao passo que no pólo inferior se encontram os geógrafos, e, na disciplina filosófica, os marxistas. A classificação dada às obras e aos agentes cum­ pre funções não apenas cognitivas, mas também econômicas e políti­ cas: há vantagens diferenciais em ocupar esta ou aquela posição num espaço hierarquizado, mesmo que este goze de certa autonomia. É pró­ prio do poder simbólico o fato de que os interesses particulares ­ no caso, dos dominantes ­ só possam ser atendidos indiretamente graças a esse distanciamento imposto pelo exercício das funções de conhecimen­ to e comunicação.

INSTRUM� SIMBóLicos•

como

como

esrruturas esrruturantes

estruturas estruturadas

Instrumentos de conhecimento e de construção do mundo objetivo

Meios de comunicação (língua ou cultura uersus discurso ou comportamento)

Fonnas simbólicas

Objetos simbólicos estruturas objetivas (opus operatum) Hegel­Saussure

estruturas subjetivas (modus operandi) Kant­Cassirer

Durkheim­Mauss Formas sociais de classificação

Sapir­Whorf culturalismo

Significação: objetividade como acordo entre sujeitos · (consenso)

instrumentos

de dominação

Lévi­Strauss (semiologia)

Significação: sentido objetivo como produto da comunicação que é condição da comunicação

Sociologia das formas simbólicas: contribuição do poder simbólico à ordem gnosiológica. Sentido = consenso, isto é, d6xa

Poder ideológico como contribuição específica da violência simbólica (ortodoxia) à violência política (dominação) Diuisão do trabalho de dominação • Bourdieu, P. Sur le pouvoir symbolique. Annales, art. cit .. p. 406.

Poder Divisão do trabalho (classes sociais) Divisão do trabalho ideológica (manual/ intelectual) Função de dominação

Ideologias (uersus mitos, línguas) Marx Weber

Grupo de especialistas em disputa pelo monopólio da produção cultural legítima

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Autonomia (de um sistema), homologia (de estrutura): eis os indis­ pensáveis princípios de inteligibilidade requeridos pela análise dos siste­ mas simbólicos. Pode­se atender às exigências de urna análise estrutural que respeite a lógica imanente a esses sistemas procurando ao mesmo tempo esclarecer as relações que eles mantêm com o mundo social, com os agentes, com o espaço das classes sociais, A sociologia pode assim con­ tar reconciliar os saberes de tradições intelectuais tidas (por elas mesmas) corno opostas e inventar um materialismo conseqüente que disponha de outras armas, diante do simbólico, que não a redução brutal ou a desmis­ tificação verbal das "superestruturas", Resta adotar um procedimento suplementar que traz a marca de Max Weber. Se cumpre reservar um lugar para os agentes na compreen­ são dos sistemas simbólicos, não há de ser apelando de maneira global e indeterminada para as classes sociais. A autonomia conferida aos produ­ tos simbólicos resulta do fato de que, dentro do espaço soda! como espa­ ço diferenciado, grupos de agentes (clérigos, letrados etc.) conquistam urna posição na divisão do trabalho que os habilita à manipulação legíti­ ma de determinados produtos simbólicos (bens de salvação, bens cultu­ rais etc.). Assim, um campo de produção simbólica (religioso, cultural etc.) não pode ser visto nem à maneira do estruturalismo, como universo sub­ metido a urna lógica imanente ao conhecimento e à comunicação, nem à maneira do marxismo, como instrumento ·a serviço da dominação de clas­ ses: os interesses que estão em jogo são interesses específicos, sobretudo os dos especialistas que se enfrentam para impor uma definição dos bens, dos problemas doutrinais, da excelência humana etc. ajustada à sua posi­ ção e à visão do campo daí decorrente. A estrutura do campo coincide com a das posições características que se definem sempre relacionalmen­ te. Eis como, segundo Bourdieu, se devem compreender as figuras típico­ ideais descritas por Max Weber: o feiticeiro e o profeta têm em comum o fato de possuir um carisma, poder ligado à sua pessoa, ao contrário do sa­ cerdote, mandatário de uma burocracia; o feiticeiro e o sacerdote têm em comum o fato de enfrentarem situações ordinárias da existência, ao con­ trário do profeta, homem das situações extraordinárias; o sacerdote e o profeta têm em comum o fato de serem portadores de um discurso relati­ vamente sistemático, de uma "doutrina" que oferece uma visão do mun­ do e da salvação, à diferença do feiticeiro, cuja atividade tem finalidade meramente prática (cura, boa colheita, prejuízos para um inimigo e assim por diante). Às diferentes posições no espaço religioso correspondem posi­ cionamentos (perante o sentido da existência, a natureza, as modalidades da salvação etc.) cuja coerência não se deve senão à necessidade, para cada posição, de definir­se em função das demais posições. O grau em que uma instituição (Igreja) consegue impor seu monopólio sobre a mani­ pulação dos bens de salvação permite explicar em grande parte a distri­



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bwçao dos recursos propriamente religiosos em determinada conjuntura. Um agente só pode existir como agente religioso se agir com as armas que O campo lhe fornece, renunciando àquelas que poderia obter em univer­ sos baseados em outros princípios de hierarquização (políticos, econômi­ cos, culturais etc.). Eis por que o poder simbólico, poder específico de consagrar ou desqualificar, é uma arma e um jogo. O poder simbólico de­ tido no campo em questão consiste na autoridade, condição legítima que permite agir legitimamente nesse campo, campo onde as relações de for­ ça entre os agentes só se apresentam sob a forma transfigurada e eufemi­ zada de relações de sentido. Por exemplo, um agente pode tentar (em fun­ ção de seu capital religioso) sugerir uma interpretação de textos sagrados que, embora subversiva, respeite suficientemente as modalidades legítimas de expressão para poder ser identificada como discurso religioso, e não como proclamação política, panfleto contra a burocracia eclesiástica etc.

É possível coadunar as relações de dominação e as relações de sen­ tido, na medida em que o método sociológico proposto consiste em cru­ zar as respectivas exigências de tradições intelectuais que dão ênfase quer ao poder, quer ao conhecimento: pode­se sustentar ao mesmo tempo que a função cognitiva e a coerência objetiva dos produtos simbólicos podem ser consideradas um dos efeitos notáveis das relações de competição e de conflito entre agentes, e que as relações entre os agentes devem ser expli­ cadas pela lógica imanente ao campo. A noção de campo propicia outras vantagens explanativas. Em pri­ meiro lugar, impede de ficar preso ao dilema que obriga a escolher entre explicar ou os posicionamentos singulares de agentes singulares ou o em­ basamento comum aos diferentes posicionamentos de "contemporâneos" (como no caso da epistéme foucaultiana): a estrutura do campo permite explicar simultaneamente os princípios de divisão internos em função dos quais se organizam os conflitos, as controvérsias, as competições, e os limi­ tes historicamente determinados que o funcionamento do campo impõe ao tomar impensáveis ou indignos (ultrapassados, não pertinentes etc.) os possíveis que não correspondam a alguma posição atualmente ocupada. Em segundo lugar, a noção de campo permite compreender as relações entre o que lhe é interno e o que lhe é externo, sem que seja preciso ab­ solutizar ou reduzir nenhum dos termos. Um campo de produção cumpre funções sociais externas, especialmente de legitimação de· uma ordem so­ cial, pelo simples fato de obedecer a uma lógica própria. Os dominantes não têm necessidade de intervir expressa e continuamente para modificar a seu favor o funcionamento do campo, uma vez que, pela simples virtu­ de imanente a esse funcionamento, as divisões externas do mundo social (dominantes/dominados) se acham reconhecidas e ignoradas: a autono­ mia do campo é a própria condição de sua eficácia simbólica. Por últi­ mo, a teoria dos campos não faz supor uma espécie de harmonia preesta­

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belecida entre universos diferentes. A lógica imanente a um campo, em­ bora contribua globalmente para reproduzir as divisões do mundo social pode também entrar em conflito, pelo menos até certo ponto, com as for� ças baseadas em outros princípios de legitimidade. Basta ver as relações entre o poder temporal (Estado, administração etc.) e o poder espiritual (Igreja, artistas etc.) para compreender que a autonomia não é uma situa­ ção para sempre garantida juridicamente, 123 e sim o resultado de lutas que se inserem na história.

As formas de autonomia Quando se considera um campo determinado como o campo literá­ rio, pode­se pensar, à primeira vista, que o procedimento até então adota­ do apresenta certa circularidade: o conhecimento das características for­ mais da obra não pode estar separado do conhecimento das proprieda­ des associadas à posição dos produtores, a qual pode ser determinada a partir das disposições. Trata­se, por exemplo, de relacionar as aspirações, as competências socialmente condicionadas de um indivíduo (grande bur­ guês parisiense etc.) com seu status reivindicado e/ou atribuído (poeta de vanguarda etc.), status que comanda um conjunto de escolhas diversas nas situações renovadas que se lhe apresentam (engajamento, estetismo etc.). Mas os três termos ­ posições, disposições, posicionamentos ­ só têm sentido se considerados diferencialmente: um poeta de· vanguarda (perten­ cente às classes superiores parisienses) é aquele que não é um romancista regionalista (de origem pequeno­burguesa e provinciana); analogamente, suas aspirações e seus gostos se definem por oposição. Assim, o sentido de uma obra, caracterizável sempre duplamente ­ social e intelectual­ mente ­, não pode ser compreendido (a não ser excepcionalmente) por dedução direta a partir das características sociais do autor, mas somente de modo indireto, em função do universo de possíveis onde ela se insere. A relação que essa análise estabelece é mais precisamente entre três siste­ mas de relações, três "espaços" que apresentam homologias a serem in­ vestigadas metodicamente e que são até certo ponto isoláveis. Cada espa­ ço tem uma lógica própria que admite certa mobilidade: uma escola lite­ rária que se define sobretudo por oposição às rivais pode, até certo 123

A história das disciplinas escolares e científicas presta­se a uma série de mal­entendidos e confusões quando se contenta em tomar como critérios de autonomização de uma discipli­ na aspectos meramente institucionais, como título, recrutamento de pessoal próprio etc. Essa visão, freqüentemente sustentada por "historiadores" indígenas pouco interessados em ques­ tionar a via mestra em que se acham, se esquece simplesmente de descrever as lutas inter­ nas e as forças sociais que agem no sentido oposto ao da autonomia e da heteronomia.

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ponto, atrair indivíduos dotados de atributos difer . entes, do mesmo modo, como mostra um estudo sobre rece _ 124 um. a�tor freqüentemente está sujeito a transformações que afet pçao, obra.ªm ª composiçao de seu público e, lo­ go, a imagem pública de sua A sociologia da literatura assim ent did . en 1 a não ignora · t tos, mas conviid a a considerá­los de outra forma _ • P�ls, �s­ e�­ tas (opus operatum), obras a serem decifradas , nao como c01s�s. ja fei­ em sua verdade última, e írn como indícios obj etivados d SI e atos (modus operandi) ­ · que sao re 1 ativa­ nte distintos daqueles e que ­ me . . · nao sendo transparentes, devem ser reati­ m. 10 vados por � de um co�1.unto sistemático de interrogações e hipóteses Embora · id a d e · · por causa de uma ex t enon . . frequentemente _ cnucado • . que 1m­ a . compreensao autentica, pode­se dizer que tal meêt o d o, ao con­ pedma , . trano,· deixa ver o · autor se fazendo, fazendo a obra·, em gran d e parte, .. d consiste em et�rrmna: a� probabilidades condicionais que só depois pare­ cem . obscuras, indefiníveis e sobretudo não essenciais. As intenções ex­ pressivas de um autor resultam de um processo dialético: 0 que ele é le­ vado a fazer depende da relação entre a percepção (socialmente condi­ cionada) que ele tem do estado dos possíveis literários, a percepção (socialmente condicionada) que ele tem de seu lugar e de seus recursos, e sua posição objetivamente determinável por uma infinidade de sinais, nem sempre unívocos, de favor ou desfavor. A identidade literária se reve­ la através dos textos e também por outros meios (posicionamentos políti­ cos, conversão religiosa e assim por diante) graças aos quais se opera um trabalho de classificação e reclassificação mais ou menos bem­sucedido e duradouro. A ambição de um método como esse é colocar­se "no ponto de vis­ ta do autor". Mas sem apelar para a empatia, pois a experiência do agen­ te é sempre resultado de uma construção: o modo de pensamento rela­ cional obriga a explorar as possibilidades analíticas oferecidas pelas oposi­ ções num dos três espaços considerados e pelas homologias entre esses espaços. Estes. porém, não poderiam ser colocados no mesmo plano. O espaço das posições é o único que pode ter prioridade analítica, visto que está do lado das estruturas objetivas e que, logicamente, a noção de posi­ ção envolve os outros dois: disposições e posicionamentos (e não o inver­ so). Em outras palavras, os agentes que almejam ser reconhecidos como escritores devem contar com a estrutura desse espaço que, dotado de propriedades tais como solidez, opacidade e duração, existe à feição das coisas, na "realidade", "fora da consciência", se preferirem. A ordem das posições (a hierarquia dos gêneros e, dentro de cada gênero, a hierar­

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Ver o caso de Nietzsche, por mim estudado em Les neueux de Zarachouscra. La récepcion

de Nietzsche en France. Paris, Seuil, 1995.

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quia das formas e dos temas) tem uma lógica interna que não pode ser reduzida a nenhuma outra: ela é que comanda as condições e as modali­ dades de seleção tanto dos agentes (disposições) quanto das opções legíti­ mas (posicionamentos). Esse espaço, unidade de análise cujas fronteiras exprimem sua especificidade, vem a ser o campo. Tomada em si mesma, a noção de campo contém nada mais que uma recomendação formal para tratar relacionalmente os indivíduos consi­ derados, ou seja, como posições redutíveis a seus traços distintivos, mas isso só vale para o conhecimento concreto de casos singulares se for com­ plementado pela análise do modo específico de autonomia próprio do campo em questão. A autonomia não deve ser concebida segundo um modelo jurídico de status garantido, visto que um campo, estando permea­ do de conflitos sobre a definição das alternativas que lhe são próprias, e estando pois constantemente sujeito à ação de forças contrárias, reflete em seu bojo uma diversidade de pontos de vista, a qual por sua vez reflete a diversidade de graus de autonomia. Contudo, o efeito de campo se evi­ dencia ao menos no fato de que este impede de ignorar a lei quase funda­ dora da autonomia, obrigando todo agente a valer­se de hierarquias pro­ priamente literárias e a buscar o reconhecimento dos pares. Um meio de situar o campo literário no espaço dos campos seria mostrar o que o va­ lor propriamente literário deve à negação de outros tipos de valor, notada­ mente o valor econômico. Ser escritor é apresentar um produto cujo va­ lor não se pode estimar nem pelos lucros nem pelas tiragens: ambos po­ dem até servir a certos autores como indícios (o público está comigo), mas jamais serem tomados como critério supremo. O repúdio do econômico é talvez a marca distintiva desse universo votado ao desprendimento. As implicações da noção de campo ganharam lugar central nas pes­

quisas sobre o campo literário. Tratava­se em parte de enriquecer as des­ crições históricas do processo de autonomização, como no capítulo de Rêgles de Yart dedicado à "Conquista da autonomia", que focaliza o papel de Flaubert, Baudelaire e outros autores naquilo que poderia ser definido como uma história estrutural. Tais autores contribuíram para a invenção do modelo do escritor artista mediante um duplo repúdio pelas figuras so­ ciais simétricas do escritor burguês e do escritor popular. A teoria da arte pela arte constituiu uma formalização dessa autonomia do campo: o artis­ ta deve estar a serviço unicamente de sua arte, ignorando as obrigações e as pressões externas, sejam elas comerciais, morais, religiosas, políticas etc. Os defensores dessa teoria, em vez de imporem sua definição da ativida­ de literária, devem contar com indivíduos que estejam menos interessa­ dos do que eles em afrouxar os vínculos com os valores e as idéias de um público do qual dependem seu status e seus meios de subsistência. Dividi­ do entre autores puros e autores "comerciais", o campo que se diferencia nesse período tem uma estrutura dualista que opõe o setor de produção

restrita (destinada aos pares) ao setor d leigos). Momento privilegiado: foi entã e grande produção (destinada aos continua sendo a lei imanente ao campoo.que se elaborou uma fórmula que Juntamente com esses desenvolvim . dentes, havia que propor um mo­ delo teórico da estrutura e da dinâmica campo .. � valor heurístico des­ se modelo repousa sobre a generalid d mesmi t!m e prop�st�oes em princípio _apli­ cáveis a qualquer campo e ao passiveis :Ie �erem espe�tfi�a­ das para explicar múltiplas configurações. campo nao e uma coexisten­ ia de indivíduos ou posições mas e , um 1 ugar de forças 1 d flito. Sua autonomia é o desafio supremo e é quant e umdugafir e con­ . ­ ' o a esse esa o que os d· ·d age�tes se !Vl em: ª. opostçao entre o artista e o burguês, a arte e o di­ nheiro, ten d e a repetir­se no campo literário Esses gru · · . , . · pos nva1s querem b h · ambos o ter recon ec1ment_o hterano, mas nem por isso diferem menos ra­ dicalmente �uanto a su�s hierarquias: quem pretende destacar­se como ar­ tista puro so pode _faze­lo em detrimento do sucesso comercial; inversa­ mente: � busca da riqueza e da _fama pressupõe e induz a renúncia à pure­ za estettca (o mesmo se pode dizer com relação a outros espaços, como o espaço das grandes escolas). E preciso escolher: não se pode acumular todo tipo de lucro.125

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Assim, a estrutura em quiasma que caracteriza o campo do poder se deixa identificar no próprio âmago do campo literário sob a forma de oposição entre figuras (o artista puro e o escritor burguês), entre instân­ cias de difusão e consagração. Isso significa que, embora pareça lícito re­ lacionar certos bens à demanda de um público definido, ou seja, o públi­ co burguês com poder para impor no campo suas opiniões e seus gostos, nem por isso o artista aparentemente mais heteronômico deixa de estar suficientemente sujeito à lei do campo ­ o imperativo categórico da au­ tonomia ­ para poder evitar definir­se em oposição aos artistas mais au­ tônomos e, logo, definir­se paradoxalmente como autônomo, obrigando por sua vez os criadores autênticos a continuarem repudiando as conces­ sões à ortodoxia e à convenção do momento. Ora, essa fidelidade às exi­ gências internas do campo, seu verdadeiro "ponto de honra", ninguém parece guardá­la mais que os membros da última vanguarda. Se, afinal, a oposição entre esses dois modelos de escritor (ou de intelectual) constitui um dos principais invariantes estruturais do campo é porque as relações de inclusão entre campos são tais que, num campo subordinado, o "exte­ rior" de que ele depende se apresenta no "interior" enquanto posição (até certo ponto) legítima: "A oposição principal ­ entre. a produção pura, destinada a um mercado restrito aos produtores, e a grande produção, vi­ 125

O que não impede que haja estratégias de jogo duplo, deslocamentos no campo literá­ rio, que podem aliar­se aos efeitos do reconhecimento e do envelhecimento.

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sanda a satisfazer as expectativas do grande público ­ reproduz a ruptu­ ra fundadora com a ordem económica que está na origem do campo de produção restrita; ela é confirmada por uma oposição secundária que se estabelece, no subcampo de produção pura, entre a vanguarda e a van­ guarda consagrada" .126 O campo se estrutura em tomo de dois ou três pólos que, mediante a refração de sua lógica própria, denotam uma rela­ ção com o campo e uma relação com aquilo em que ele se inclui: a "grande produção" e a produção restrita, decomposta em vanguarda e vanguarda consagrada. A tais posições correspondem, solidárias ou homó­ logas, escolas, revistas, editoras, intituições etc. E bem pode ser que, pela renovação dos argumentos e das formas, não haja debate mais importan­ te no campo literário que aquele concernente à sua problemática autono­ mia.127 De um lado, as lutas internas têm a virtude de contribuir para re­ forçar as reivindicações de autonomia contidas, pelo menos tacitamente, na definição oficial do campo; de outro, porém, estas últimas sempre hão de se deparar com um limite estrutural contido no funcionamento do . campo: os agentes só podem contestar a dominação temporal dos domi­ nantes com as armas simbólicas da neutralização do real e da negação propriamente "estética", que consagram tanto quanto contestam, que con­ sagram aquilo que contestam. Por implicar a pretensão de definir a excelência literária e, por isso mesmo, o reconhecimento dos desafios específicos ao campo, toda posi­ ção está fadada à rivalidade e representa um posicionamento com rela­ ção à legitimidade das inovações internas. Quer dizer, os princípios que definem a estrutura do campo são também os que permitem explicar suas transformações. O campo literário se caracteriza por uma forma particu­ lar de temporalidade que, longe de ser dimensão acessória ou proprieda­ de adventícia, reflete sua lógica profunda: não é o observador que vem trazer suas classificações, e sim os próprios agentes que se consideram "ao mesmo tempo contemporâneos e temporalmente discordantes" .128 Na verdade, existe uma tensão entre os que pretendem ocupar uma posição no campo e os que nele já têm uma posição. Essa tensão é ainda mais forte quando os pretendentes alegam novidade não apenas em sua pes­ soa (esse pode ser seu único argumento, pelo que são acusados de cinis­ 126 127

Regles. p.

175.

No fundo, o conceito de autonomia deve ser posto à prova pelo menos duas vezes: por um lado, a propósito dos artistas puros, na medida em que tendem a explorar as possibilida­ des imanentes ao campo; por outro, a propósito dos artistas burgueses, na medida em que comprovam a fortiori a força do campo (no conservadorismo dos intelectuais burgueses há como que um reconhecimento das regras do jogo imposto pelos intelectuais de vanguarda, iconoclastas: ver Effets de champ et formes de conservatisme. ln: Reg!es. p. 385 e segs.). 128 Rêgles. p. 224.

mo). mas também em sua obra. O artista de van , . d?uard man � e o que ta. através da o�o�ição estrutural novo/antigo a �fes­ · • nnensao da temporalida­ d e 1·nscrita na lógica do campo · Assim como O prof t · utoridade apenas de si mesm . . dif e a, e 1 e parece tirar a sua o. in 1ierente aos lu · · cros :natena1s, ao sucesso imediato e estrondoso, e livre porém . • num outro sentido em rela­ · ­· d ção aos mo d e 1 os. 1 ega d os pela história · ele subverte a d e fi mçao d mas o uso os mstrumentos e, de modo geral tud , _ os te­ . ' • · · , o que ate entao servia 1 de referencia aos eitores, Ora, esse mesmo artista nã e . · ­ idê . ao 1az mais d o que Ocupar uma posiçao i entica ou muito semelhante a que ' 1 a ocupa d a antes elos dele � m�mbro� de um_a vanguarda agora reconhecida e consagrada. O efeito de singularidade, forte num campo como esse, resulta do' fato ?e, de que, a partir posiçoes relativamente invariantes, se possam adotar medito posicio�amento: �, gr�ças. especialmente à renovação dos recursos expressivos e as combmaçoes inesperadas promovidas pelos criadores 29 mais inovadore�· 1 A posição inovadora se caracteriza por uma dupla oposição: repudia, por um lado, as facilidades, os truques e as receitas da arte burguesa; por outro, a submissão às formas anteriores da arte pela ar­ te. Ela condena ao envelhecimento todas as posições estabelecidas, po­ rém de modo bem diferente: enquanto os escritores do pólo mundano pa­ recem fadados a um esquecimento que contrasta com seu sucesso imedia­ to, os escritores pertencentes às vanguardas de gerações anteriores podem desfrutar, pela ação dos pares e da instituição escolar, de um reconheci­ mento duradouro capaz de elevá­los à categoria de clássico. A dualidade constitutiva do campo, a "oposição principal" mencionada anteriormente, determina "dois ciclos de vida da empresa de produção cultural, dois mo­ dos de envelhecimento das empresas e produtos que se excluem total­ mente": no como o "ciclo de produção longo" da vanguarda se opõe ao "ciclo de produção curto" dos best­sellers, então as clivagens entre posi­ ções no campo tornam contemporâneos agentes que não vivem no mes­ mo tempo, uns tendo "público apenas no futuro", e outros, "apenas no passado".131 Em vez de um conjunto de interações instantâneas, o campo literá­ rio tem uma forma de inércia e tende a escapar ao domínio de agentes singulares. É preciso uma competência relativamente alta para ter acesso ao mesmo e aí orientar­se, improvisar estratégias. Uma das condições do êxito é, de fato, um saber indígena do qual depende a possibilidade de decifrar as posições dos outros e o significado que cumpre atribuir aos

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129 Tal proposição, que não é em absoluto uma negação desiludida das inovações, simples­ mente reflete a intenção metódica de tomá­las inteligíveis em relação a um modelo construi­

do. 130 131

Regles. p. 208. lbid 1 • p. 225.

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seus posicionamentos. Em seu trabalh� d� avalia�ão,_ os agentes têm que acionar um complexo sistema de referencias, de sma1s'. o qual lhes Perrni­ ta estabelecer aproximações e ºr?.sições:. bem com� .?IScemir.. O que é Ori­ gina) e O que é déjà­vu, 0 que e _nobre e o que _e co�um., etc. Mas os equívocos são possíveis (com o nsco �� desconsíderaçêc). ja co�sidera­ ram Proust um romancista mundano, Cehne, um roma�c1sta popuhsta etc. Além disso. os sistemas de classificação. mudam. �spec1almente após urna revolução simbólica no campo, e os objetos class1fi�a�os mudam de Posi­ ção, depois das lutas de classificação em que p�rucipam concorrentes e intérpretes qualificados. Nenhum agente pode ignorar esses efeitos de campo, entre os quais a necessidade de contar com _as outras posições e com os saberes que circulam no campo. A autonomia do campo pressu­ põe uma forma específica de competência, e esta �e�ende de classifica­ ções mais ou menos objetivadas. Eis outra caractertsnca fundamental do campo literário: a existência de juízes e instâncias de avaliação e consa­ gração. A outorga do valor literário se baseia num conjunto de posições hierarquizadas: a instituição escolar, as academias, as revistas, a imprensa, as personalidades etc. dispõem, de modo desigual, de uma autoridade que garante a legitimidade dos julgamentos. Seu poder de consagração afeta simultaneamente os indivíduos a serem classificados e os critérios de classificação.

Literatura e sociologia Cabe talvez perguntar se, como dizem alguns, a sociologia não lida melhor com os produtores do que com os produtos, os quais constituem, em princípio, a parte principal daquilo que uma ciência da literatura deve ser capaz de estudar. Nesse ponto, percebe­se certa evolução no modo de abordar o problema da forma e do trabalho de formalização. Na primei­ ra versão de sua análise de A educação sentimental, Bourdieu relegara o exame desse problema a um post­scriptum, contentando­se em aludir à de­ pendência de todo escritor em relação às normas e aos valores de sua época. Sem dúvida, ele estava então empenhado sobretudo em estabele­ cer o princípio geral de suas análises, a relação entre campo literário e campo do poder, e a contrapartida desse ato de ruptura (visando a uma "reviravolta")132 era o risco de uma visão um pouco brutal que recondu­ zisse o escritor à sua verdade objetiva. Na última versão apresentada como "introdução" a Les rêgles de I'art, Bourdieu, baseando­se no que ele entende serem conhecimentos ad­ 132

Regles. p. 260.

. . uiridos, parece mais disponível para dar aten ão , qbalhO literário, o que era tanto mais indispe�s, ª1 espec1fic1dade do tra­ ave porquanto tendo 1· á ' ., ostrado to d as as seme lh anças entre a postura de Fl b lo cabia­lhe mostrar igualmente qual era a dif au ert e do socio­ o go , . ,erença, sendo a resposta . strutiva tanto para o escntor quanto para O soe· , 1 . 1n · 10 ogo. 0 epois de afir­ d mar, c�mo prova e respe1t�, que a obra literária às vezes pode até di­ ­ . r mais sobre o mundo social do que muitos escrito ze •• 133 ­ s com pretensoes ci­ d' entíficas .' Bour ieu opoe . as d�as posturas em função de sua capacida­ . de reflexiva; enqu�nto a so�1o_log1a visa a controlar os pressupostos de sua relação com O obJe;º· condição de um conhecimento explícito e sistemáti­ co, a literatura esta condenada a permanecer sob O domínio d _ · o e h ar 'fi d me". efeito especmco essa compreensão denegante", desse desvenda­ mento a1;1�íguo do real que_ ela ali:1:enta. Pode­se reconhecer nas opera­ ções arnsncas de construça�, estilização e expressão o indício desse distanciamento do mundo social e suas vicissitudes, o qual é uma caracte­ rística do trabalho de formalização e, por isso mesmo, o correlato e a condição da autonomia do campo. Desde seus primeiros textos, Bourdieu insistiu em mostrar a importância das relações do artista com o burguês, na medida em que essas relações marcadas pelo ressentimento, a contes­ tação e a distância neutralizante pareciam­lhe constitutivas do campo lite­ rário. A negação do mundo pelo artista continua sendo de ordem simbóli­ ca, mas essa limitação é também uma força. Se existe a proposta de uma análise objetificante da ilusão própria a esse campo, também é fato que a autonomia pode ser considerada uma conquista"134 e que a sociologia compensa os "desencantas" da ciência pela enorme vantagem de instruir­ se descobrindo nas obras não apenas hipóteses sobre o mundo social, mas também uma experiência sobre os próprios modos de objetivação, uma experiência apropriada para favorecer essa conversão do olhar que nos permita ver a realidade de outro modo, como 0 referente reconheci­ do de uma ilusão (quase) universalmente partilhada" .135

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Regles. p. 60. . . 1usao, ­ e m post·scriptum de Les regles de I'ort, de um texto deliberada­ eorno mostra a me · 1 mente "normativo" ("Pour un corporatisme de l'univer�el"), que apresenta o campo mte ec­ tual como uma conquista precária e digna de ser defendida. 135 lbid. p. 62. 134

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Uma teoria da teoria

A teoria é hoje rótulo que costuma servir como espécie de título de nobreza cultu�al, d_enot�ndo _acesso aos graus supremos da realização cul­ tural. E� sociologia, ha revistas especializadas em questões de "teoria". apela­se as vezes para a urgência de uma teoria olhando com cândida in­ veja para os filósofos, e os pesquisadores são instigados a arranjar um lu­ gar propício em seus artigos ou livros para as visões elevadas. Diante da superabundância contemporânea da produção teórica, costuma­se reagir, conforme o temperamento (isto é, conforme a trajetória), com admiração ou ceticismo. O cético, julgando pouco provável que a toda reivindica­ ção de "teoria" corresponda uma contribuição efetiva, trataria de fazer um inventário e não ficaria muito surpreso com as diferentes acepções do ter­ mo, que vão desde o conjunto de "idéias" atribuível a um autor determi­ nado até uma axiomática rigorosa, passando por "teses" mais ou menos formalizadas, "visões" de mundo e explicações "regionais" de uma classe de fenômenos. Assim é que, dentro de uma escala, poderíamos classificar as teorias do "pós­moderno", das "novas classes", das tendências "pesa­ das" da sociedade, as. teorias da empresa, da família, da escola etc. Mas um inventário, mesmo generoso e valendo­se de critérios amplos, prova­ velmente acabaria por eliminar boa parte dessas candidatas a teoria cuja contribuição para a prática do trabalho empírico não. se pode realmente precisar, se é que não passam de uma nova maneira complicada de des­ crever fatos já conhecidos ou mesmo de produzi­los sob medida. Em se tratando da "teoria" sociológica de Pierre Bourdieu, deparamo­ nos, aliás, com outro tipo de obstáculo. Se por um lado somos convidados a atentar para os pressupostos ditos teóricos d� uma pr.?p?sição ou d? em­ prego de um método ­ convidados, se prefenrem, a nao ignorar as dimE:n­ sões teóricas do trabalho de pesquisa ­, por outro lado talvez pareça difí­ cil determinar e exprimir sob a forma de umas poucas teses a teoria que deveria dar sustentação a todos esses convites. Esse contraste en�re a pos�­ ra teórica e a teoria, longe de ser insignificante, revela uma teona da teona

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te°'. val_or na que bem poderíamos chamar de "pragmatista". A teori_a medida em que funcione, que suscite hipóteses, transposiçoes r�c1ona1s, um programa de pesquisas, questões; justamente porque a teona existe antes de tudo "em ato", uma formulação explícita não é nem urgente nem absoluta­ mente indispensável, comportando talvez um risco de deformação. Seria exagero dizer que Bourdieu não se permite o registro teórico das "teses", mas vale notar que o uso que ele faz do mesmo é afinal bastante modera­ do, como ele próprio reconhece.136 A existência de interesses teóricos é mais facilmente percebida numa maneira de pensar e escrever na qual se afirma um alto grau de controle do discurso: antes de arriscar afirmações sobre o real, é preciso ter certeza daquilo que se pode razoavelmente que­ rer afitmar levando em consideração o espaço de possíveis teóricos.

Uma ciência ambiciosa Assim, a principal função da atividade teonca bem poderia ser a função negativa, o que levaria, por exemplo, a questionar a ideologia esco­ lar do "dom": quando não se leva em conta a dimensão propriamente cul­ tural existente nos mecanismos de reprodução escolar das desigualdades sociais, torna­se forçoso admitir toda uma série de pressupostos inaceitá­ veis de tipo naturalista, dos quais uma forma extrema é o "racismo da inte­ ligência" .137 Foi o repúdio dessa ideologia que levou a explorar outras vias conceituais e a elaborar um conjunto de noções ­ particularmente a de "violência simbólica" ­ que permitisse conceber de modo relativamente autônomo os fatores não­econômicos da excelência escolar, o que pressu­ punha, entre outras coisas, relacionar as propriedades do trabalho escolar com as disposições socialmente condicionadas dos alunos e explicar a rela­ ção com a linguagem, a cultura e a escola para entender as formas dife­ renciais de posse e privação cultural. Para explicar as desigualdades obser­ vadas em matéria escolar sem aludir exclusivamente ao capital econômi­ co,. era preciso imaginar uma forma original de "capital" requerida pela lógica da reprodução propriamente cultural das diferenças sociais com rela­ ç_ã� à esc�la: o "capital ��ltural" é precisamente esse conjunto de predispo­ siçoes socialmente condicionadas que permite tomar inteligíveis os efeitos diferenciais da ação homogênea e homogeneizante da escola. A !1,1nção .negativa da teoria, que consiste mais em atos do que em d_eclaraçoes,. esta longe de ser uma precondição que se possa satisfazer fa­ cilmente. Sei� porque es�e momento �ecisivo desempenha papel ativo no trabalho _empmco_ ao del�ne�r as condições de pertinência de uma futura construçao de objeto, seja simplesmente porque não se pode ter certeza 136 137

Réponses. p. 69 e 134. L e racisme . d e 1··inte 11·igence, 1978. ln: Questions de sociologie. Paris, Minuit, 198o.

. de que os obstáculos evidenciados for arn irreversivelmente vencidos e ul­ trapassados. J á a função positiva da teoria pod . r p stabelec1da. ambiciosa da e a partir da con­ sociologia proposta �� � cepção cusa a formular teses fundamentais e defip. . rerre Bourdteu. Se ele 'se re­ tra que a teoria sociológica só é possível mm�as, todo o seu t�abalho mos­ s� um� forma radical e rigoro­ sa: a sociologia, . é legitimamente uma ciê nc1a, , . . assim como a físi . . , . ica, e isso porque, refratana as 1mpos1ções factuais (eco • . etc.). em beneficio de uma definição autôno;��icas, Jund1�as, esc.olares mentos, ela só pode existir como ciência unitári e dseus