Mato Grosso do Sul: a construção de um estado: regionalismo e divisionismo no sul de Mato Grosso [1, 1 ed.] 9788576132318

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Mato Grosso do Sul: a construção de um estado: regionalismo e divisionismo no sul de Mato Grosso [1, 1 ed.]
 9788576132318

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TT UNIVERSIDADE FEDERAL vm DE MATO GROSSO DO SUL

Marisa Bittar

Haitora

Cólia Maria da Silva Oliveira

MATO GROSSO DO SUL

Vice-Reitor

a construção de um estado

João Ricardo Filgueitas Tognini Obra aprovada pelo

CONSELHO EDITORIAL DA UFMS

Volume 1

Resolução nº 38/99

Regionalismo e divisionismo no sul de Mato Grosso

CONSELHO EDITORIAL Dereir Pedro de Oliveira (Presidente) Antônio Lino Rodrigues de Sã

Cicero Antonio de Oliveira Tredezini Elcia Esnarriaga de Arruda

Giancarlo Lastoria Jackeline Maria ani Pinto da Silva Oliveira Jéferson Meneguin Ortega Jorge Eremites de Oliveira

Jose Francisço Ferrari José Luiz Fomasiern Jussara Peixoto Ennes Lúcia Regina Vianna Oliveira Maria Adélia Menegazzo Marize Terezinha !:P Peres Môniça Carvalho Magalhães Kassar

a

Silvana de Abreu Tito Carlos Machado de Oliveira

Campo Grande-MS 2009

Dados Intormationais de Catalogação na Publicação [CIP) (Coordenadoria de Biblioteca Central — UFMS, Campo Grande, MS, Brasil)

Bã24m

Bittar, Marisa Mato Grosso do Sul, a construção de um estado, volume | regionsalismo e divisionismo no sul de Mato Grosso / Marisa Bittar. — Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 2009, AN poi;21 em:

ISBN

978-85-7613-231-8

|-Mato Grosso do Sul- História. 2. Mato Grosso — História.

Titulo.

CoD (22) sera |

EDITORA DE a m eniao tea CULTURA

DUNO dE DESINPALHmaTO

Prefácio

osso época vive sob o signo da crise e da mudança aceleENE cada. Tudo parece convulsionado e em efervescência, ainda 8 que muita coisa não mude e que partes enormes da popula“io mundial vegetem em um universo de miséria e horror. As scledades avançam de forma meio “despolitizada”, sem denidade

cívica,

com

muloria

das

pessoas

muita

democracia,

mas

pouco

espírito

wepublicano. O que é afinal o “mundo público” hoje, para à todos podem

e dos

atores

sociais?

Um

local

onde

fazer o que bem entendem, em que tudo per-

vence à todos é a cada um, ou um ambiente de regras “inculatórias claras, que fixam direitos, mas também impõem obrigações e deveres? O futuro parece hoje suspenso no ar, tragado pela diluicão das esperanças e das utopias, pela reiteração incessante das tesigualdades e dos poderes que ferem mesmo quando não onseguem ser produtivos. Na base desse processo, porém, con-

inuam a correr os rios da vida, impondo novidades e desafios em cessar, mantendo ativa a positividade das experiências huPUAINAS.

Nesse contexto, a figura do intelectual ganha peso e rele-

vância estratégica. Como o mundo ficou complicado demais,

8

MALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

MATO GROSSO DO SUL: ACONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

Ela precisa, antes de tudo, atender à expectativa de desbur algo novo, ou seja, alcançar interpretações que modifiim o modo de pensar à respeito de certos fatos e realida-

surpreende e confunde, chega mesmo a atemorizar, ele precisa ser pensado, traduzido, explicado em suas múltiplas determinações

e

em

seus

diferentes

ritmos,

mediante

suas

distintas

racionalidades e sensibilidades, de modo a que seja concebido como um todo, e não apenas como um somatório de fragmentos.

Precisa,

também,

uma

sustentar

boa

dose

de originalida-

É difícil imaginar a construção do futuro sem a dedicação intensi-

demarcar de algum modo uma nova fronteira teórica, redar aspectos € nuances malconhecidos, ou mesmo desco-

va dessa figura qualificada para esclarecer, educar, agitar idéias e

becidos.

valores,

evocatória: um agente de atividades gerais que é portador de conhecimentos específicos, um especialista que também é político e que sabe não só superar a divisão intelectual do trabalho como também reunir em si “o pessimismo da inteligência e o otimismo da vontade”.

O intelectual público somente pode se realizar a partir da perspectiva da política. Mas não da política como sinônimo de poder ou de mundo dos profissionais da política, mas como campo onde se disputam as idéias a respeito do viver coletivo e onde se define a maior ou menor virtuosidade da convivência entre as pessoas e os grupos. Especialmente nos estudos históricos e sociológicos — mas não somente neles —, uma pesquisa científica revela sua grandeza e sua relevância quando consegue preencher alguns requisi-

tos básicos, complexos e desafiadores em si mesmos.

desse

modo,

e revisões.

para avanços

molsa, por fim, but not least, refletir a máxima busca de mor, tanto no que diz respeito à objetividade quanto em

totalizar.

Isto vale especialmente para aquele segmento que podemos chamar de intelectual público, que não deseja dialogar somente com seus pares nem se trancafiar em instituições distanciadas dos tormentos e paixões da vida real, mas que deseja, como falava a poesia de Milton Nascimento e Fernando Brant, “ir aonde o povo está”. Ele se dedica a articular em um único corpo o ideólogo e o especialista, o técnico e o humanista, o teórico dos princípios abstratos e o educador que esclarece. Este é o intelectual que um marxista italiano das primeiras décadas do século XX, Antonio Gramsci, definiu com precisão e força

contribuindo,

mos da adoção de procedimentos metódicos, lógicos e nceituais reconhecidos como válidos pela área de conhecimento em questão. E, claro, fazer isto sem produzir um texto by

vemético

demais,

inacessível

ou

incompreensível.

Sua

força

inbém depende da sua escrita. Deve haver nela um ul c determinação. O me pretende confirmar, e Wim e o distraem. Esbarra “im si mesmo, no mundo Wvestigarã —, que muitas

po

mix bem-sucedido de convicção, oupesquisador trabalha com hipóteses que o desafiam, muitas vezes O iuem valores e convicções cristalizadas que o cerca e no próprio objeto que vezesse manifestam como demônios

O cegam e confundem. Deve, por isso, enfrentar com ousa-

Was

barreiras

que

a ele se antepóeim,

dispor-se

a contestar e

niristar opiniões consolidadas, correr o risco de morrer na puta c pregar no deserto, Sapere aude é o dístico que melhor

Wlorma o pórtico de sua morada. Os dois volumes com que Marisa Bittar mergulha na histó-

pa de Mato Grosso do Sul preenchem com folga e brilhantismo

vs requisitos. São o resultado de uma pesquisa portentosa, Wdicada, minuciosa, à qual a pesquisadora dedicou muitos anos te trabalho - de excitação, dúvidas, revelações e descobertas,

dimento, empenho e prazer -, no correr dos quais tomou convo

soberana e inequivocamente,

PRODOS,

do problema

instigante a que se

o

MATO GROSSO

Atuando

como

competente

DO SUL: A CONSTHUÇÃO

historiadora,

Marisa

DE UM ESTADO!

Bittar defi-

niu com clareza o foco de sua pesquisa. De que maneira as classes dominantes do sul de Mato Grosso sé organizaram para desenhar e construir uma estrutura político-administrativa que rez fletisse seu poder e seus intéresses? Como atuaram políticas mente

as elites dirigentes

sul-mato-grossenses,

ao longo de mais

de um século, para reforçar a condição econômica daquelas classes,

compor

uma

hegemonia

e, por fim,

criar seu próprio

estas

do? A “saga divisionista” foi por ela acompanhada quase passo'a passo, mediante um exaustivo trabalho de manuseio de fontes > jornais, arquivos pessoais, papéis variados, livros, revistas, entrevistas detalhadas. Marisa pôde, assim, colocar às claras O peso específico do regionalismo, os interesses e valores que sustentaram a batalha pela formação do novo estado, os traços de psicologia social que animaram o quadro geral, a contribuição decisiva da geopolítica militar que, no âmbito do sistema derivado da ditadura de 1964, acabou por decidir a favor da criação de Mata Grosso

do Sul em

outubro

de 1977.

Uma de suas conclusões expõe por inteiro investigação: “O sentimento de que o sul deveria restante do então estado de Mato Grosso pareceu tas a solução, mas nunca chegou a se consenso entre à classe social que a engendrou: os grandes da terra”.

o eixo de sua: se separar do ser aos sulisnem mesmo proprietários

À sua foi uma pesquisa de história política, mas em sentido amplo.

Há muita, e

boa, sociologia nela. Há muita, e boa, teoria

política. Há muita elegância estilística e vigor literário nela. Marisa Bittar é historiadora por vocação

e convicção,

não tanto por for=

mação especializada, ainda que tenha muito disto também.

Em decorrência, seu texto tem sabor original, seduz o leitor logo nas primeiras linhas, levando-o pelo cenário quase épico de uma longa construção política e cultural. Ao percorrê-lo, vamos: descobrindo um Mato Grosso e um Mato Grosso do Sul que pare-

DE

1

DIIMALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

“um ocultos pelo silêncio ou pelo desconhecimento, mal concatenados em uma explicação totalizante e reveladora. O percurso que vai “do Sul de Mato Grosso a Mato Grosso do Sul” e se completa no livro 2, com o estudo das elites dirigentes e de suas prúticas políticas, é contagiante e esclarecedor. Com ele, aprende-

mos à conhecer à estrutura desse importante pedaço do Brasil e multa

coisa da própria

história brasileira.

Penso, como Marisa Bittar, que há uma recompensa adiciomal no fato de sua pesquisa ser publicada no momento mesmo

vm que Mato Grosso do Sul completa 30 anos de existência. As vtemóérides cumprem a função de chamar a atenção para os tempos longos — para os processos lentos, tensos € contraditórios de que é feita a História —, como se quisessem nos lembrar de que “coisas não começaram ontem nem caíram do céu, mas têm

pulzes profundas e personagens de carne e osso, que merecem ser rpatadas e precisam ser conhecidas. A publicação deste belo livro, em um momento emblemático

da história do estado, é a melhor forma que a inteligência teórica vo intelectual público encontraram de se fazer presentes nos debates e reflexões que deverão abrir o futuro de Mato Grosso do “ul

Conhecendo e admirando Marisa Bittar há mais de 25 anos, creio poder imaginar como ela se sente: com à consciência de

str

realizando a missão do intelectual (aquele de Gramsci, a cla, como

quem

eu, prestamos

tantos tributos), missão

esta que

e materializa toda vez que se põem ao alcance do público novos “ mais vid

rigorosos

conhecimentos

a respeito

daquilo

que faz a

ser vida.

Marco Aurélio Nogueira Professor de Teoria e Política da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista — UNESP, Campus

de

Araraquara

Introdução

Mestrado nr | história deste livro começou em 1992 durante o meu 3 K ) : : [1 ca

>

em

Educação

na Universidade

Federal

Grosso

de Mato

do Sul. Foi ali, durante uma longa conversa da qual participaram o meu orientador José Luis Sanfelice, o professor Gilberto Luiz Alves

é Amarilio Ferreira Junior, meu

companheiro

e colega de

de turma, que constatamos à ausência, no meu texto que acabara

ser submetido ao exame de qualificação, de uma abordagem so-

do bre a otigem das classes sociais dominantes em Mato Grosso Sul é a sua relação com a estrutura agrária do estado. Tratava-se de um assunto sobre o qual não dispúnhamos de

referências, o que nos levou a considerar a urgência € relevância

aceitei de uma pesquisa que preenchesse tal lacuna. Secretamente a minha & desafio, esbocei os elementos suficientes para concluir etapa uma em zá-lo dissertação e impus a mim a tarefa de concreti

posterior da minha formação de pesquisadora: a chance veio com

de São o meu ingresso no Doutorado em História da Universidade aceita pela Paulo. Cheguei Aquela instituição em 1993, onde fui sou Professora Di Nanci Leonzo, que me orientou e 4 quem além

grata,

pois,

rável

conversa,

do

acolhimento

do

projeto,

ela me

proporcio-

memonou total liberdade no seu tratamento. Em relação àquela acrescentei,

porém,

um

outro

aspecto

que

me

14

MATO GROSSO DO SUL:

interessava dirigentes

de modo

especial: o desempenho

ACONSTAUÇÃO DE UM ESTADO

político das elites

sul-mato-grossenses.

De 1993 a 1997 realizei a minha tese, que foi avaliada pelos professores doutores Brás Araújo (USP); Maria Aparecida Aquino (USP); José Luis Sanfelice (UNICAMP) e César Benevides (UFMSX, além de minha orientadora. Após a defesa, encaminhei o texto à Editora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para apreciação, pois, pelo seu teor e volume, eu acreditava que apenas essa Editora poderia ter interesse na sua publicação, o que se confirmou. Entretanto, apesar da obra ter sido aprovada pelo Conselho Editorial, a falta de recursos financeiros a inviabilizou, o que me mentos ção

de

fez concorrer,

em

janeiro de 2009,

Culturais (FIC/MS).

Tendo

Cultura

a quem

do

estado,

ao Fundo

sido contemplada sou

de Investipela Funda-

profundamente

grata,

6

livro vem a público exatamente na data dos trinta anos de Mato Grosso do Sul.

Quando iniciei meus estudos na USP, o campo historiográfico Vivia um confronto entre tradição e inovação. Nessa disputa epistemológica, o meu tema não se enquadrava na categoria de “objeto novo”, tendência majoritária nas pesquisas da área. Para enfrentar essa questão, dediquei-me 40 exame da historiografia, ocasião em que li, de modo especial, dois autores: Luiz Felipe de Alencastro e Ciro Flamarion Cardoso. O primeiro alertava para a distinção dos estudos históricos na França, que se davam “mum

terreno bem

balizado, com

a retaguarda de uma historiografia

bem estabelecida [...] onde ninguém pensou, como se fez por aqui, que as datas não tinham a menor importância”. Nenhum

1 Universidade de São Paulo (USP), 2 Universidade

Estadual

de Campinas

ues Le Gi, ii dos grandes historiadores franceses, como jasq

insistia Luiz Fe e “ outros, é só especialista em mentalidades,

co e social

dos

de

outras

Brasil.

Além

dessas

em

reflexões,

o

spa

um

“oficinas”,

que

pretendiam

desanuaricar

porque é aa porque é velho e idolatrar o novo ApRIAA mesmo

encontro,

realizado

em

Recife,

em

1958;

pi

a

velho

Fe istoria

ria em fee spa francês François Dosse, autor de Histó e quente ida si ad que a preferência por temas como Rania política, para a qu va provocando uma lacuna na história voltar. ta

a a postura fez-me lembrar do importante atalho E leira, ta Guilherme Mota, Ideologia da cultura brasi

de monografias fue 1977, no qual já criticava a elaboração de prabietene dra mente desimportantes € desarticuladas

assinalando que os problemas

var

e temas anda

s sob uma grande a vam, na melhor das hipóteses, “soterrado r parte por UM empirismo tidade de trabalhos, inspirados na maio sets

re

nai e situada no debate historiográfico, senti-me E e por um tema antigo da gura para ficar com 0 “velho”, isto é, optei

(UNICAMP).

6 MOTA,

Mais!, Po

no

isco ia Einsae «tentífico de historiadores, observei que Franc a end sie História, va à confusão instalada na “oficina de Clio", s abjotos rr causada pelas “novas abordagens” é “novo

Sto Paulo,

Caderno

o

o q para à als com o abandono de temas importantes os sa que sa Brasil, os quais estavam sendo substituíd E fatório pe e e chegado a um nível de conhecimento satis “a linha, preconizava à continuidade de estudos so e rd dos o problema o produção na Colônia, e, de um modo geral,

5 FALCON,

1994,

a sua

expressava

Flamarion,

a Ciro

Quanto

3 Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). 4 ALENCASTRO, Luiz Felipe de, Consenso de bacharéis. Folha de São Paulo. 4 dez.

15

DE MATO GROSSO BEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL

1995.

fe,, ju istóriia. Recife ; nal de Histór Francisco. Palestra. XVII Simpósio Nacio

ea

ES

brasileira. p. 24. Carlos Guilherme. Ideologia da cultura

jul,

MATO GROSSO DO SUL:

A CONSTRUÇÃO-DE

UM ESTADO:

historiataDa, a relação entre classe dominante e poder político po, sm um espaço e em uma realidade histórica que ain não haviam sido investigados, isto é, a história política de Mat Grosso do Sul e a atuação da sua classe dirigente. 4 | Tão logo comecei a pesquisa, fui percebendo que um dos maiores feitos relacionados a essa classe, senão o maior,

consisti

e criação do próprio estado. Desse modo, eu, que a ee ines cogitara estudar a divisão de Mato rasto em ão PR

do Sul decore de um ato unilateral do governo Ermmesto Pe sem qualquer consulta às populações interessadas, decisão sei que se respaldava na geopolítica militar e no oisressa açã de aumentar a base de sustentação política da ditadura Paiá io ep de buscar a vinculação de uma causa pegas! - ê si o Ê gui ce e com a política nacional, ou seja, a geopolítica do

Mato Grosso do Sul nasceu a 11 de outubro de 1977 depois de ana: jornada separatista protagonizada pelos grandes pro ei rios rurais do sul de Mato Grosso uno, a contar do final do tc À XIX. A sede da capital no “norte” gerava inconformismo ;

grupos latifundiários sulistas que, na década de 1930, já cont ão vam: mabesse que existe Mato Grosso pelo talão dá ai Ou então: “O sul possui rudo, menos administração”s o Na prática, o isolamento do sul em relação à sã capital fez com que ele se tornasse um “estado” distinto. Ocorreu e aus a ameaça de não pagar impostos já correspondia à ias ção de sustentar um governo com o produto da riqueza econômi-

ado era 7 Panfleto separatista intitulad

S

o divulgado is ; ulinos!, nagpdécada de 1930 no sul

8 ANDRADE, Arlindo de. Erros da federação, 1934, p. 34.

SUL DE MATO GROSSO IONALISMO E DIVISIONISMO NO

.

17

do: eis ão por sediar a capital do esta doridade econômica e obsess des causa secular da classe dos gran «ss ingredientes subjacentes à Para sul. próprio para O ários de terra por um destino

propriet

objetivando u no final do século XIX, unto, à sua trajetória começo a, ou

ser governado por si própri | criação de um estado para er econômica, jutou por um pod seja, ciente de sua expressão

político que lhe correspondesse.

fazê-lo. Pesquisar o assunto significava também o sn pecto da ditadura militar, uma vez que a criação de Mato é ;

ca do sul, superior à do norte. Elementos culturais distintos ; =

WE

er-

“elite subordinada” ao gov Inicialmente, uma espécie de 1940, erosa a partir dos anos de no “de Cuiabá” tornou-se pod a, O er Legislativo. Da mesma form conquistando a maioria no Pod sempre de 1946 a 1964, esteve quase poder Executivo, no período o inários do sul. Mas por que m esm conduzido por governadores orig resposstão crucial para à cual dou isto não a satisfez? É uma que : ser elaborei para ela é a seguinte 11 no livro um. À hipótese que

er rcebesse que já dispunha de pod hegemônica ali fez com que pe apatelho de Estado próprio, político capaz de reivindicar um . ra e onde possuía propriedades para si, no território onde habita ria de cer O poder no norte: have Não se tratava, pois, de exer o dos a abordagem do tema, ao long existir um estado no sul. N as unidades

“estado” para designar zação o” para me ré ferir à organi federativas brasileiras € “Estad

dois livros,

utilizei

o temo

sociedade. superestrutural máxima da O o ocorrido pa ra solucionar Quanto 40 processo históric to de ele e xemplifica O concei divisionismo, mostrei que

À esse classe se tornã din gente. hegemonia, isto é , de como uma al a supremacia de um grupo soci respeito, Gramsci escreveu que o “domínio” e como “direção se manifesta de dois modos, com

lemos: moral e intelectual”, tal como

“liquidar” os adversários, que visa a Um grupo social domina os grup grupos afins à força armada, e dirige os ou a submeter inclusive com e já antes gent diri e, aliás, deve ser e aliados, Um grupo social pode condições rnamental (esta é uma das de conguistar O poder gove ndo ext uista do poder); depois, qua principais para própria conq

um

18

MATO GROSSO DO SUL; A CONSTAUÇÃO DE UM ESTADO Ç

e o poder e mesmo E

a

.

a

se o mantém |

4

fortemente nas mãos, e

dominante, mas deve continuar a ser também

Segundo o autor, o poder de uma

E)

torna-se [+

mes

“dirigente”?

classe é exércido de duas

aeape: há distinção entre o momento da força, isto é, do “dom mo”

propriamente

dito, e da “direção”,

ou seja; corganieiaão

do

consenso”. O grupo dominante não se torna dirigente senão quando chega, por meio dos seus intelectuais, a exercer a sua he é sobre a sociedade inteira. É iso Na trajetória da criação de Mato Grosso do Sul, a classe dos

grandes proprietários de terras contou com a elaboração de idéias sobre a necessidade de um novo estado, fazendo com que o di projeto fosse incorporado pela sociedade, tornando-se hisendóniho Ela area seus próprios intelectuais. Esses intelectuais atuaram ja obtenção de convencimento, tanto de forma individual a coletiva, destacando-se a Liga Sul-Mato-Grossense criada em Ou-

tio de 1932. Já o jornal Correio do Estado, desde a sua fundação, se tomou Mato

Grosso

uma espécie de partido ideológico da divisão de e, por

essa

razão,

ele foi incluído

como

uma

das

fontes da pesquisa. Além disso, é o único jornal de abrangência bs que não sofreu interrupção em seu funcionamento desde 1954, data da sua criação, e se caracteriza por ter estado sempre ao lado do poder e dos grupos políticos hegemônicos no sul de Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul. Demarquei o meu estudo considerando que a hegemonia da classe dirigente sul-mato-grossense havia atravessado três periodos distintos até 1998; a) a longa trajetória que culminou na cria-

ção de Mato Grosso do Sul (1892-1977); b) o período compreendi-

do entre a divisão, em 1977, e o restabelecimento das eleições para governadores, em 1982; e) o período de 1982 a 1998, gi

9 GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v, 5. p. 62

19

GROSSO REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO

ram a legitimar do, por meio de eleições, as elites políticas passa no poder: O de se pelo voto, revezando-se dois grupos dirigentes

Martins pedro Pedrossian C(ARENA/PTB)" e o de Wilson Barbosa o a estudar o (MDB/PMDB)!. Após a defesa da tese, continuand

ia política do assunto, acrescentei um quarto período na histór governador, estado: o decorrido de 1998, que elegeu Zeca do PT

esgotamento marcou o fim da polarização anterior e o próprio Mato político da elite vinculada à estrutura agrária que dominava Grosso do Sul. Quais condições possibilitaram a manutenção de tura política calcada na dualidade que marcou o estado no A despeito de pregar a necessidade de alternância os e s época de Mato Grosso uno, de criticar os grupo

uma culaté 1998? poder na “terríveis

por que tipos de políticos plantados no governo de Cuiabá”2,

nado, basiMato Grosso do Sul, desde 1977 até 1998, se viu gover da dualidade e camente, por dois chefes políticos? Qual a origem

políticas que tipo de estado foi construído sob o poder das elites

coerênbeneficiadas pela criação de Mato Grosso do Sul? Houve

e a prática cia entre os princípios pregados pelos divisionistas política no novo estado? ca de pesEssas indagações foram constituindo a problemáti s que temos quisa, considerando que ela é fornecida pelos valore formuladas decorsobre o mundo, de tal modo que as perguntas Ou seja, quanrem dos interesses e pressupostos do pesquisador. , não partido nos debruçamos sobre um tema a ser pesquisado mos

do

nada,

já somos

portadores

de

idéias,

noções

e algum

conhecimento prévio sobre ele. /PUUA Nacional/Partido Trabalhista Brasileiro LARENA do Movimento Democrático: 11 Movimento Democrático Brasileiro/Partido Brasileiro (MDB/PMDB), da classe latifundiária do sul, espu 12 Palavra de ordem teperida pelos intelectuais na década de 1950, In cialmente nas publicações da Liga sulMato-Grossense Martins, Barbosa Oclécio de e e como nas abras de Arlindo de Andrad

10 Aliança

Renovadora

20

MATO GROSSO

DO SUL: A COMETRUÇÃO DE UM ESTADO

No meu caso, as primeiras tentativas de compreende r essa questão nasceram da militância no então Partido Comun ista Brasi-

leiro (PCB) na época da divisão de Mato Grosso. Foi ali, atuando contra a ditadura militar, que pude participar de muitos dos acon-

tecimentos da história recente de Mato Grosso do Sul. Além disso,

quanto ao divisionismo, por eu ter vivido nas duas regiõe s do estado, conhecia um pouco da Psicologia social relativa à identi-

dade das duas cidades rivais: Campo Grande e Cuiabá . Comecei então a refletir e a buscar respostas para esses problemas. Faltava-me, porém, a oportunidade para realizar a pesqui sa, bem como as bases teóricas mais sólidas para problematizar o tema. Com relação a estas, passei a desenvolver estudos de caráter teórico-

metodológico baseados na idéia segundo a qual na existência

social os homens

enfrentam

problemas

que os levam

a refletir,

filosofar. A atitude reflexiva é o enfrentamento, pelo homem, dos

problemas que a realidade apresenta. Contudo, a reflexão filosó-

fica não é qualquer reflexão; ela tem de ser “radical” (procurar as

raízes, as origens

do

problema);

“rigorosa”,

ou

metódica

(seguir

os procedimentos científicos comumente aceitos na área do conhecimento em questão), e “de conjunto” (o objeto não pode ser visto apenas por um ângulo, ou apenas em parte, deve-se buscar

compreendê-lo em relação ao todo).

A ação suseita o problema; aquilo que a princípio não sa-

bemos, ou desconhecemos

superadas. No caso de uma

em parte, e que gera dúvidas a serem

pesquisa, se tais dúvidas não forem

dissipadas, não haverá avanço no estágio de conhe cimento já

existente.

A situação de impasse

criada

pelo não-saber

é que

Provoca a tomada de consciência da necessidade de dar respostas ao problema, o que significa ultrapassar os limites de conheci-

mento que já se tem sobre o assunto. Definida a problemática, o passo seguinte,

que transmite

unidade ao projeto de pesquisa e ordena as suas partes, é a

construção de hipóteses, aqui entendidas como propos tas de ca-

a

E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO HEGIONALISMO

minho possível. Nessa perspectiva, a papo Ê o lançamento e uma suspeita explicativa ou sugestão provisória Ea que ER nada explicação científica poderá dar acid Não é, pois et invenção aleatória e não pode ser algo que “inverta a penhiciae Rr, Ademais, como mencionei,

o pesquisador,

ao se relacionar ia e

seu objeto de estudo, parte de ideias Runa para gi nin hipóveses que sejam capazes de levá-lo à obtenção de io Nesse sentido, a hipótese geral que deu unidade a esta pesquisa pode ser formulada nos seguintes pras no saldo Mato Grosso uno formou-se uma classe de proprietários rurais nd micamente dominante que, após as primeiras décadas do século XX, se sobrepôs

à do norte. Não

se sentindo

culturalmente

per-

encente a essa região, geograficamente isolada no sul e alegando abandono da região pelo governo estadual, copaBiçan A fmenitar

j

o sentimento regionalista cujo desfecho seria apartar-se Rea A cisão lhe proporcionaria

um poder político de que ainda Em

dispunha na totalidade e, além disso, um Apaeiia a ed região territorial pela qual nutria sentimento de perênça. 2 se j

mento de não pertencer “a Cuiabá” aliou-se à força PARES: depois

política, dos fazendeiros

do sul de Mato

ia

SAR,

mejavam criar Mato Grosso do Sul. A sua expressão, contu o, embora forte, não foi suficiente para a concretização de tal pReIe to, levando-me a pensar sobre o porquê de ela não ii dr

do efetivar a divisão do estado antes de 1977. Eu não Huha essa resposta, apenas a suposição de que o regionalismo pa insuficiente para lograr êxito, o que

me deixava mais inclinada Ê

buscar explicações na política nacional. Entretanto, meus iai

me levaram à descoberta de que eu não estava totalmente certa na 13 Florestan

Fernandes,

ao ser questonado

sobre

o e

eg

Es

Eça

para presidente do Brasil se Livesse que optar entre Fernan sa ps Eatiaão E aa so e Bill Clinton, respondeu: “Não se pode usar uma hip mp realidade”. FERNANDES, ra, dez, 1094,

MPT

Florestan.

Entrevista.

= A

Programa

Roda

Viva.

;

22

o

MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

minha suspeita e nem totalmente errada: a divisão só se realizou quando a geopolítica do regime militar (1964-1985) conj sa secular demanda divisionista, no Para demonstrar essa hipótese, estudei a formação da classe dos grandes proprietários rurais sul-mato-grossenses desde o c ! meço do século XIX e a sua relação com a pecuária, princi É atividade econômica da região, buscando cornsendiar pd deu ali a introdução do gado nelore, o melhoramento genético á rebanho e a sua elevação à condição de melhor e maior do 7 ii

aê precisava averiguar esse processo para esclarecer em ra

dida sa era responsável pela superioridade econômica do sul em a ao norte € até que ponto essa atividade tornará expressiva a oligarquia agrária sul-mato-grossense a ponto de ela etica a secessão. Assim, a minha pesquisa sobre Mato Grosso foi sempre focalizada na perspectiva da emergência de um nov: na região sul do seu território. o ndo

| Planejei escrever a tese em duas partes: a primeira, sobre a trajetória empreendida pelos latifundiários do sul de Nite Grosso para

criar Mato

Grosso

do Sul; a segunda,

sobre

o exercíci

político da classe protagonista da divisão à partir de 1977 ponto central dessa última consistiria em averiguar até que a to, uma vez na direção do aparelho de Estado, essa cinisse pise Cetdmia, ou não, o ideário subjacente ao divisionismo e à aa

pria profecia de fazer de Mato Grosso do Sul um “estado is

lo”, Na época, minha orientadora considerou que esse plano resultaria em duas teses, ponderando sobre a ga de a Ss apenas a primeira parte. Aleguei que, de fato, eram dois estudos que poderiam ser independentes um do senão a 5

juntos, formariam

uma

unidade conferindo maior aii

É

temática e era assim que eu idealizava a minha tese. Dessa Ee ma, o texto defendido somava quase 550 páginas divididas conforme eu planejara e que, hoje, se tornam dois livros preservan-

do a mesma estrutura da tese.

.

23

GROSSO REGIONALISMO E DIVISIQMISMO NO SUL DE MATO

a pesquiA resolução de eleger Mato Grosso do Sul para propósito de sa firmou-se em uma motivação política e no

te concontribuir com a historiografia brasileira, principalmen

universitário siderando o fato de que a pesquisa no âmbito campo e de passou a exigir dos alunos a demarcação de um

da produuma região específica para estudo, diferentemente

(Caio Prado ção historiográfica dos “explicadores do Brasil” da) cujo paJúnior, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holan e as conclusões se drão não se limitava a um campo específico Quanto ao meu generalizavam para O Brasil como um todo. inédito, pois, tema, eu tinha um campo aberto e praticamente

os estuna condição de unidade federativa nova, prevaleciam dos

sobre

Mato

Grosso

uno,

o que

deixava

ao pesquisador

ainda não sobre Mato Grosso do Sul o desafio de cobrir temas

to Histórico investigados. Aliás, os estudiosos ligados ao Institu

divisão, e Geográfico de Mato Grosso do Sul, criado após a

então diretor criticavam essa prevalência, como era O caso do Ele lamentava do Correio do Estado José Barbosa Rodrigues. historiográfica que, antes da divisão do estado, a produção que “raramenexistente privilegiava apenas “Cuiabá”, enquanto

te” se publicava “uma coisinha do sul”:

grandes historiadoPorque acontecia o seguinte: Mato Grosso teve de Mendonçal, que res, o Rubens de Mendonça, o pai dele [Estevão

livros todos coisa maravilhosa, o Vitgílio Corrêa Filho L..], mas nesses ha do sul. Quer é só história de Cuiabá. Raramente saí uma coisin

Cuiabá. O dizer, o cuiabano julgava Mato Grosso todo por ele. Só idade: o que é bom Rubens de Mendonça mesmo tinha essa mental

para Cuiabá é bom para o estado todo!t,

sintoDe início, o empenho para realizar este estudo esteve

nizado com uma

exigência legal do doutorado que estabelece

Campo 14 RODRIGUES, José Barbosa. Entrevísia.

Grande, 27 fev.

1996,

24

MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

“para o grau de Doutor o requisito da defesa de tese que represente trabalho de pesquisa importando em real contribuição para

o conhecimento do tema””, Arrisco-me a acreditar que ele re ga senta anna para o conhecimento nessa área por duas en ") ra interpretação sobre o divisionismo; 2) Gaibinalidado, na medida em que se trata do primeiro a abordar o poder olítica Ii classe dirigente sul-mato-grossense. o a

A

quanto ao primeiro item, as minhas contribuições mais sig-

nificativas dizem respeito aos “líderes” e “heróis” relacionados ao processo

divisionista e, também,

aos episódios de 1932 no sul dé

Mato Grosso, que redundaram, segundo trabalhos nnifssido ao Rem;

principalmente

os do

Instituto

Histórico

e Geográfico

de

sd Grosso do Sul, no “primeiro governo autônomo” da região a é, de Mato Grosso “dividido”. Aqui procurei demonstrar us ndo existiram os ditos “heróis divisionistas” e nem ocorreu cao verme autônomo” no sul de Mato Grosso em 1932. Além disso

dispensei especial atenção à questão da geopolítica, uma vez e a governo Geisel, ao dividir Mato Grosso, contou com q aa ção do maior teórico da geopolítica brasileira: o general Golb

25

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

jornalísticas do sul além disso, cotejei os panfletos e matérias norte de Mato Groscom documentos congêneres produzidos no

ias jornalísticas de so. Especialmente interessantes foram as matér porque forneceram O dois períodos distintos: 1932 e 1977. Isto eciam O divisionismo. contraponto aos jornais do sul, que enalt manualmente o que Eissa pesquisa foi ex austiva, pois compilei

de Mato Grosso, em Cuiabá. estava disponível no Arquivo Público atia e compreensão dos seus. Em compensação, contei com a simp

instituição em horários funcionários, que abriram as portas da veitar todas as horas do não previstos para que eu pudesse apro uei, na Escola Superior dia. Ainda no que diz respeito a 1977, busq

estudos geopolíticos de Guerra, todos os documentos referentes à

que tivessem Mato Grosso como objeto. nte € ainda desQuanto ao período pós-1977, por ser rece gentes e O poder polítiprovido de estudos sobre os grupos diri co,

constituiu

o maior

desafio.

Nesse

campo,

eu

não

dispunha

da, por isso, à consulta de uma única obra como ponto de parti como em Cuiaba, proporaos jornais levou muito tempo e, tal mulante, produtiva e incionou-me muitas descobertas. Foi esti

o

ue no principal jordispensável, mas trabalhosa. Primeiro, porq

Para contestar interpretações correntes empreendi minucioso estudo da história buscando fontes primárias que ainda não haviam sido utilizadas, tais como: documentos partidários aa gramas de governo, atas legislativas e de entidades lira Cartas, declarações de imposto de renda, relatos de iiinenifisias:

do seu então diretor, Desse modo, contando com a compreensão

do Couto e Silva.

jornais, depoimentos, entre outras. No que se refere aos aplsias relacionados a 1932, tive o cuidado de buscar no Senado às

a

nunEsamEnos de Vespasiano Barbosa Martins, chefe do Raça instalado em Campo Grande naquele ano em apoio a São Paulo,

15 BRASIL. Conselho Federal de Educação. Parecer n. 977/1965, In: Jornal da ea pasa ade parapar: o Progr Hoje, p.Socied Ciênci essoda Ciência Brasileira. Rio de Janeiro, é fev.a 1996, 23

ado em Campo Grannal pesquisado, o Correio do Estado, sedi edições anteriores a 1982. de, não se pode obter fotocópias das

as inúmeras matérias que obtive autorização para copiar à mão utilização de jornais como me interessavam. Segundo, porque a cuidados, desde atenção fonte de pesquisa exige uma sério de que veicula até a sua posiquanto à veracidade das informações mos, “um jornal (ou um ção político-ideológica, pois, como sabe grupo de revistas) são grupo de jornais), uma revista (ou um ou funções de determitambém “partidos”, frações de partidos

nados

partidos".

1

a

P. 350. 16 GRAMSCI, Antonio. Cadernosdo Cárcere. v. 3.

26

MATO GROSSO

DO SUL:

A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

Não foi outro o papel do jornal que pesquisei, pelo menos no que diz respeito à defesa da divisão de Mato Grosso Causa que não mobilizou nenhum partido político. Rsvónhagi do como “partido” da causa separatista, ele foi homenageado no Congresso Nacional logo após a criação do estado, pelo

' (ARE então deputado Ruben n Figueiró 48i o, Figueiró (ARENA-MS),), que a propósit discursou:

Hago firme, sem vacilações em seus acrisolados propósitos de

informar e, sobretudo, formar a opinião de seus milhares de leitores, empenhou-se

o Correio do Estado em grandes lutas.

entre tódas, destaca-se, pela incoercível

E

fé nos destinos da Kesá

sul do então Mato Grosso, como autêntico porta-voz do supre-

mo desejo dos sul-mato-grossenses — a criação do Estado de Mato Grosso do Sul.”

| Além das consultas a esse jornal, para escrever sobre o período mais recente, eu contava com a minha própria vivência

no que se refere ao processo político do estado,

assinalei,

conforme



|

á

Assim, ao longo desses quinze anos, pesquisei pacienteaspas assunto, pois os dados que me interessavam, do período posterior a 1977, encontravam-se totalmente dispersos e desorgasnes exigindo de mim, em primeiro lugar, a localização das

RE

iai ed

É do

e

rg

dos dados, e, em segundo

rpretação sobre o assunto.

Quanto

ao

período anterior à criação de Mato Grosso do Sul, eu dispunha de sigras escritas tanto por estudiosos do sul quanto do norte, embo-

como verdade essa diligência eu corria o risco de repetir e tomar

o que já havia sido escrito”.

aleContudo, tive e continuo tendo muitas recompensas e lar original grias. Uma delas foi ter recebido de presente um exemp nal Constituinte da Representação dos sulistas ao Congresso Nacio

cual eu (1934). Esse raríssimo documento havia sido o único ao ei a ser não tivera acesso por ocasião do meu doutorado e chegu

dez anos se arguida por tê-lo citado de segunda mão. Quase o dirigente sobre passaram e em 2005, ao realizarmos uma pesquisa

Histórico comunista Euclydes de Oliveira, a convite do Arquivo de Campo

Grande,

inesperadamente,

nos

aspectos

que

me

intéressavam,

pois

ses

I7HIGUEIRO, Ruben. O jubileu de prata do Correio do Estado de Mato Grosso ni

d o

A.

Sul,

Pro nunciament ci to

+

+

Fa

e

O [6])

a. mar.

I 9 Fá 9,

In: H

FI G

EI RÓ,

R . Por

Mato

Er Posso

do

Amarilio

Ferreira Júnior

e

os, um eu recebemos de seu filho Ovídio de Oliveira, pelos Correi

Foi indescritível exemplar dessa Petição que pertencera à seu pai. de herança a nossa emoção, pois jamais esperamos ser depositários esclarecer tão especial. O manuseio desse texto pessibilitou-me contrariando aspectos importantíssimos sobre os seus signatários,

fazer na tese e o versões correntes, o que, infelizmente, não pude

que torna evidente que ela estava vulnerável nesse ponto.

s Quanto às entrevistas, para realizá-las, incontáveis viagen ente duforam empreendidas a Mato Grosso do Sul, principalm

lecionando na rante os anos de 1995 e 1996, quando eu já estava o, tendo deixaUniversidade Federal de São Carlos. Nesse períod

s, € do de viver em Mato Grosso do Sul por razões profissionai

uar falando a durante o qual só não me senti no exílio por contin

mil quilómesma língua, comecei a redigir a minha tese há quase

mas, paradoxalmetros de distância do meu objeto de pesquisa,

E não especificamente sobre o men tema. Cotejei ambas é obras sistematicamente

27

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

18 Inspirava-me

a advertência

de Engels criticando Os jovens alemães que se

ser reduzido a Frases”, apegavam a frases suas e de Marx: “Tudo pode, afinal, ada, as condições de e depois completava: “Toda a história precisa ser reestud

ser examinadas em detaexistência das diversas formações sociais precisam ções políticas, jurídicas, concep tes ponden corres as delas lhe, antes de induzir até hoje, pois poucos fez se estéticas, filosóficas, religiosas ete. Nisso, pouco Schimidt (5/8/1890) €. a Carta h. Friedric , se dedicaram seriamente”. ENGELS

In: FERNANDES, Florestan (Org)

Marx & Engels:

História, p. 4553-456.

28

MATO GROSSO DO SUL: À CONSTALÇÃO DE UM ESTADO

BEHONALIIMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

29

mente, foi ele que me aproximou ainda mais do estado, especial-

do

mente

passei q ter presença mais constante em palestras e entrevistas, nos debates acadêmicos

dois

e políticos, e publicando artigos em jornais, Enfrentando a estrada, colhi os depoimentos de Paulo Coelho Machado, considerado pela elite agrária sul-mato-grossense como

recebida por todos a quem procurei, obtendo mais do que esperava. Por isso, Sou muito grata a essas pessoas, mesmo divergindo delas em

autor intelectual da divisão de Mato Grosso; do ex-governador José

Fragelli, em cujo governo (1971-1975) foi decidida a cisão do estado;

Dentre os meus entrevistados, três faleceram alguns anos depois: Plínio Barbosa Martins (1998), Paulo Coelho Machado (1999)

oriundo de família vinculada à causa separatista; de parlamentares

“ José Barbosa Rodrigues (2003). O primeiro, talvez a figura mais emblemática da oposição democrática, contribuiu para esclarecer

depois

de defendida

a tese, quando

do então governador de Mato Grosso do Sul Wilson Barbosa Martins, dos dois estados; de ex-secretários de Estado: do então diretor do

imediatamente posterior à criação de Mato Grosso do Sul, quando

governadores foram destitúídos. Apesar da incerteza inicial quan-

to à possibilidade de consegui-las, exceto nos dois casos citados, fui

pontos essenciais, conforme mostra o meu texto.

Correio do Estado José Barbosa Rodrigues; do então senador Lúdio

um dos episódios mais marcantes da vida política sul-mato-grossense « sobre o qual recai uma versão não verdadeira: a razão de não ter

Martins Coelho; do ex-deputado federal Plínio Barbosa Martins, entre outros, As tentativas de entrevistar os ex-governadores Pedro Pedrossian

sido ele é sim o seu irmão Wilson Barbosa Martins o candidato a povernador em 1982, fato que redefiniu as perspectivas políticas do

e Marcelo Miranda Soares foram frustradas na época em que realizei

estado. Foi no seu escritório de advocacia, em Campo

o doutorado”. Mas, em 2005, ao realizar a pesquisa sobre Euclydes

de Oliveira, fui recebida pelo primeiro que, então, espontaneamente abordou aspectos da sua vida política permitindo a gravação? Não tenho dúvida de que o recurso às entrevistas enriqueceu fo) texto; além de expressar o pensamento da elite dirigente, são depoimentos inéditos sobre episódios fundamentais da história de Mato

Grosso e de Mato Grosso do Sul. Por meio delas consegui elucidar pontos obscuros da política sul-mato-grossense relacionados ao perío-

19 Por mais de dois anos busquei, em vão, contatos com pessoas próximas a

Pedrossian, incluindo os ex-deputados Manitedo Corrêa e Ruben Figueiró Dos quarro governadores que o estado teve até 1998, abtive apenas o depoimento de Wilson Barbosa Martins, uma vez que o contato com Marcelo Miranda

Soares também não se realizou. Na época, seu secretário particular informou

que ele se recusava a falar sobre política e cuidava apenas das suas fazendas

Grande, que

conheci, emoldurando uma parede, a condecoração recebida por seu pai pela participação no movimento armado de 1932. O segundo me recebeu inúmeras vezes para, pacientemente, explicar-me

um assunto espinhoso que eu desconhecia: a introdução do gado nelore no sul de Mato Grosso, Além de termos mantido longas Grosso, assunto que dominava, tiu conhecer e frequentar o seu como ex-secretário de Estado, governador Harry Amorim

tema sobre o qual era especialista, conversas sobre o passado de Mato Paulo Coelho Machado me permiprecioso arquivo de documentos, e, deu a sua versão sobre a queda do

Costa. Já o terceiro, relatou a participa-

ção do seu jornal na trajetória divisionista, propiciando-me acesso ao acervo particular, inclusive de fotografias. Tanto Paulo Coelho Machado quanto José Barbosa Rodrigues, como membros do Insti-

tuto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, deixaram obras

uma em Mato Grosso, outra em Mato Grosso do Sul. Quanto a Harry Amorim Costa, o primeiro que governou Mato Grosso do Sul, já havia falecido quando

escritas que me foram úteis e com as quais estabeleci o contraponto sobre a versão heróica do divisionismo.

20 Pesquisa em parceria com Amarílio Ferreira J£., que também participou da

Esclareço, porém, que o uso de entrevistas esteve condício-

da realização da pesquisa. entrevista.

nado ao entendimento de que os relatos não são tomados como

30

MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

verdade

em

si, mas

sujeitos

ao

mesmo

rigor crítico

das

outras

fontes que os historiadores costumam consultar? Assim, foram sempre confrontados com documentos escritos ou, na ausência destes, com jornais ou mesmo com outros depoimentos. Ademais é necessário distinguir a “memória social” de uma prática mais específica, a “reconstituição histórica”. Os historiadores devem extrair do testemunho informação que este não contém explicita-

-—



o

e

em

mente, ou que contradiz as próprias afirmações manifestas, como

salienta Connerton: “Os historiadores são capazes de rejeitar algo:

SUMÁRIO

que lhes é dito explicitamente nos seus testemunhos e substituí-lo pela sua própria interpretação dos acontecimentos"?

Sabendo que “em qualquer ciência, todo começo ci”,

iniciei esta pesquisa

com

a pretensão

é difi-

de produzir uma

história política de boa qualidade, mas, ao esbarrar na dificuldade de abordar a “história em processo”, o seu desenrolar em um “presente vivido"*, tive receio de não estar à altura do desafio. Hoje, ao torná-la pública, penso que a única saída para esse impasse é aceitar os limites do texto, dispondo-me ao debate e à crítica, sempre necessários pata o avanço do conhecimento. Por essa razão, desejo expressar meu profundo agradecimento à Marília

PREFÁCIO,

.....

. . . INTRODUÇÃO

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7

a; 18 scene

E ADE SE

Mato Grosso uno: um estado, duas histórias O povoamento branco do sul de Mato Grosso; E EE um ML De e a E das banda CS POMIDAS escreves cc A guerra mudou à fistoromiz do sul de Mato Grosso . .

Es EE css

Leite, da Editora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, pois todo este trabalho não teria resultado em livro não fosse a sua iniciativa e disposição para publicá-lo e, mais ainda, para conceber a sua arte gráfica, dando-lhe editoração especial para

marcar os trinta anos de história de Mato Grosso do Sul.

Ocupação, monopólio e gênese do divisionismo no sul de Mato Grosso cs. TÁ coiso Coronelismo e luta armada no início da República . : Poder político, coronelismo e qt pus cce . Grosso Mato em famílias de domínio

21 Estudo de Levi Giovanni mostra a preocupação de Pierre Bourdieu sobre o

uso de biografias. Segundo ele, Bourdieu chamava esse tecurso, quando usado sem critérios, de “ilusão biográfica”, considerando indispensável recons-

tuir o contexto, a “superfície social” em que age à indivíduo, numa pluralidade de campos. LEVI, Giovanni. Usos da biografia, p. 169. 22 CONNERTON,

Paul. Como as sociedades recordam, p. 16.

23 MARX, Karl. O capital, v. 1, po 4, 24 FERNANDES, Florestan. Marx & Engels: História, p. 9111.

| O separatismo nos tempos do bacamarte: Muzzi, Teixeira João Mascarenhas, João de as pelejas Bento Xavier e João Barros Cassal João Mascarenhas combate a formação do “Estado Livre de Mato Grosso” em 1892.

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Muzzi é derrotado por Mascarenhas em 1896 .

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À

32

MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO |

Fax”

Mascarenhas apoia o divisionismo de João Barros Cassal em 1901. à «sc

ciccsis

O “experimentado caudilho” Bento Xavier e o “causídico” Barros Cassal: intenções separatistas em

- 104

1907- Sit,

O divisionismo do início do século XX na historiografia mato-grossense e sulmato-grossense ,

,

«dl

Capítulo 8 Mato Grosso do Sul: uma nova estrela na federação =

“do de Mato Grosso do Sul:

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Bem

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,vuricensisodnntnaço

Por Mato Grosso, Goiás, Paraná, Minas Gerais, = pose São Paulo Parazaal ESBONÃo «pu

O sul de Mato Grosso de 1920 a 1932: tenentismo e separatismo para o “limbo do território nacional”, à ce O sul de Mato Grosso apoia São Paulo contra aigáseem 1939 E 7 jaog

TAZ DSO

CADERNO

DE

IMAGENS.

E BIBLIOGRAFIA FONTES

Campo Grande, “uma praça revolucionária” em 1032 , 2... O governo de Vespasiano Barbosa Martins (1932) . «cc... Para Cuiabá, uma “rebeldia sulina” nBaraga ms Campo Grande: de “vila pobre e caipira” a espia; Ega

161 165 ARA TAM

INDICE ONOMÁSTICO

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TEMPO - Volume 2 , LINHA.DO

Capítulo5 Campo Grande e a nova elite política do sul de Mato Grosso

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A contepção: de “estadosmodelo?.

A Revolução de 1930 desloca Bertoldo SA

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que Mato Grosso do SUB.

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33

DE GIDNALISMO E DIVISIDNISMO NO SUL DE MATO GROSSO

401

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Capitulo & Mapas, tabelas e-figura.

Da Liga Sul-Mato-Grossense ao Território Federal de Ponta Porã “Caravana separatista e ideias subversivas” no sul de Mato Grosso em 1934. RES A Constituinte de 1934 não acolhe a petição separatista O sul de Mato Grosso após

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cisco.

249

Capitulo 7

3— Área da

Companhia

divisionista

entre duas ditaduras: de Vargas a Geisel. Os grandes proprietários rurais

sul-mato-grossenses e o divisionismo ,

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Figura 1 — Cartaz separatista do final da década de 1950 Tabela 4 - Deputados federais da Mato Grosso (1977) Mapa 7 — Mato Grosso dividido . . ...

,

de Mato Grosso (1947-1962)

mae à

do Rio Pardo — PropostaS. Viana - Teixeira desda Mapa6 Território

5 — População da região quese tornou Mato Grosso do Sul (1950-1960) Tabela

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248

Mapa 4— Estado de Maracaju — Proposta da Liga Sul Matogrossense (1932) 5 — Território Federal de Ponta Porã. Mapa

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E

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Tabela 3- Governadoresde Mato Grosso (1947-1965)

Geopolítica e separatismo

so em

da

Rg

Mate Laranjeira no final do século XIX

Tabela 1— População dos municípios ervateiros (1950)

2— Representação Tabela

A Geopolítica da Escola Superior de Guerra... E e pos O regime militar, à geopolítica e a divisão de Mato Grosso de erre agido

35

cc

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Mapa 2 — Primeiros núcleos de povoamento no sulde Mato Grosso . . «css Mapa

E mms a 0 Bro eo o E

1934:

a criação do Território Federal de Ponta Porã.

O movimento

.

Mapa 1 — Mato Grosso na lederação (1870),

A Liga Sul-Muto-Grossense ea rejeição à “dominação cuiabana”,

Asa .

6 — População economicamente ativa de Mato Grosso do Sul (1970-1980) . Tabela

.

o

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Capítulo 1

Mato Grosso uno: um estado, duas histórias use

14

“BS

bordar à história de Mato Grosso do Sul implica, de pronto, um olhar de alcance mais largo que deve ir “as frontei-

ras onde o Brasil foí Paraguai”, mas impõe também estender a vista até Mato Grosso, que abrigou, desde a Colônia, as terras e

os povos hoje divididos em duas unidades federativas distintas. Passado ambíguo: ao mesmo tempo em que fomentou o regionalismo, que acabou resultando no seu desmembramento do estado que lhe deu origem, ao separar-se do norte, em 1977, o sul reivindicou sua parte comum no tronco da história para prosseguir sendo Mato Grosso. Por isso, a recusa ao nome inicial “Estado de Campo Grande”, mesmo tendo sido essa cidade a antagonista do norte, prevalecendo a denominação Mato Grosso

do Sul, que simboliza um passado revelador de duas realidades diferenciadas, aninhadas no antigo estado uno. As regiões norte e sul do antigo Mato Grosso nunca chegaram a constituir exatamente

formação

1 Verso da Almir Sáter.

a mesma

geográfica acentuadamente

canção

Sonhos guaranis,

de

história; estado de con-

no sentido lon-

alongada

autoria

de

Paulo

Simões

«

36

gitudinal gerou,

ao longo

VATO GROSSO UNO:UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS

do tempo,

para Os Era tão difícil a comunicação entre norte e sul, que, cava a divisionistas da década de 1930, esse fato, por si só, justifi

duas formações

históricas

distintas de modo a justificar o uso dos termos norte e sul, mais salientes do que em qualquer outra unidade federativa brasileira, [A Ra

37

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Por causa de uma geografia peculiar que, na verdade, comportava três porções distintas, norte, centro e sul, e também

de extre-

mas dificuldades de comunicação, elas acabaram vivendo separadas. No período compreendido pelo nosso estudo, porém, a polarização ocorreu entre o sul e o centro, uma vez que era nele que se situava a capital, Cuiabá. Simplificado pela rivalidade, o centro passou a ser simplesmente chamado de “norte”, portanto, é o termo que usarei ao longo dos capítulos. Observando o mapa do antigo estado é possível compreender que o emprego dos dois termos não era ditado pela ficção.

ua

lamentavam,

conforme

pois Cuiabá,

causa,

de Cam-

distava

daquela po Grande 1.000 quilômetros em linha reta, enquanto que Paraguai, a intiga sede à Ponta Porã, no sul, na fronteira com o orte em transp distância era de 1.300 quilômetros. Os meios de Mato

muito

durante

Grosso,

fluvial. Durante

resumiram-se

tempo,

à navegação

as primeiras décadas do século XX, no que diz

as “pica-

respeito aos caminhos de terra, ainda predominavam

das”, basta lembrarmos

da Costa

de Manuel

do feito memorável

boiadeira Lima que, em 1900, deu início à abertura de uma estrada BR-163. e carreteira ligando Campo Grande a Porto Xv, hoje Assim,

para

se ir do

Rio de Janeiro

a Cuiabá,

no século XIX,

o

do rio da mais cômodo era tomar um navio partindo em demanda Prata,

escalas

com

Paraguai,

em

Montevidéu

com escala em Assunção,

Aires,

e Buenos

chegar

subir

a Corumbá

o rio

e, final-

dias. À mente a Cuiabá, após um percurso de cerca de trinta propósito, em 1907, a viagem de Arlindo de Andrade, que deixara

Recife

com

destino

a Mato

Grosso,

onde

seria

o primeiro

livro: juiz de direito de Campo Grande, foi assim relatada em passou alguns Do Rio de Janeiro embarcou para Montevidéu, onde da Prata e dias à espera do pequeno navio que, subindo os rios

á. Aí transParaguai, passando por Assunção, O conduziu até Corumb na Capital feriu-se para embarcação de menor calado, que o deixou à partir do dia em de Mato Grosso, após viagem superior a um mês,

que saiu do Rio de Janeiro”. acesso Os caminhos que existiam por terra não permitiam o lombo de anide automóveis, e somente eram percorridos em

mais. Fotografias da época dão uma

Rio Grandeão Sul

idéia clara do volume do

no atual Mato tráfego fluvial na época. O porto de Corumbá, o de embar Grosso do Sul, por exemplo, aparece congestionad

República Federativa do Brasil (1970). Fonte: IBGE.

2 MACHADO,

Paulo Coelho.

Arlindo de Andrade,

p. 20-21.

38

REGIONALISMO E DIVISIQNISMO NO SUL DE MATO GROSSO

cações de passageiros e de cargas. No começo do século XX é que começaram a ser abertas as primeiras estradas trafegáveis por automóveis e na década de 1910, o grande marco: a inauguração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil ligando São Paulo ao sul de Mato Grosso. Claude Lévi-Strauss, que, na segunda metade da década de 1930, realizou uma expedição de estudos no estado, partindo de São

Paulo, relatou

que,

em

três dias,

um

trem puxado

por uma

locomotiva aquecida à lenha levava ao término da linha junto ao rio Paraguai. Prosseguindo do sul de Mato Grosso para alcançar as tribos Bororo, na região de Cuiabá, a comitiva de cientistas demorou

quase um mês, conforme

as anotações:

Para chegar aos Bororo, era preciso primeiro, no término da estrada de ferro, chegar por via fluvial a Corumbá,

na fronteira boliviana. Lá,

tomava-se um pequeno barco com rodas hidráulicas que subia o rio até Cuiabá, em uma a três semanas, conforme a estação.

As cenas da viagem, fotografadas pelo próprio Lévi-Strauss, mostram as poucas tribos indígenas sobreviventes da colonização

VATO

39

GNOSSO UNO: UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS

mais de uma vez por raros veículos serviam de estradas. Todo dia, e

a, cobria-se dia. o caminhão corria o risco de tombar; ou então patinav

um obstáculo que de lá; imobilizava-se num atoleiro ou diante de âneas. À lentidão era amo vencer mediante várias manobras simuli clas operações obrigava a acampar no mato”.

Mato GrosDe forma mais sistemática, a rodovia alcançaria stas E menti o na década de 1950, época das políticas desenvolvi a de Juscelide interiorização do Brasil, acentuadas na presidênci diretrizes, Camno Kubitschek (1956-1961). Decorrente dessas ada, ao findar po Grande foi ligada a São Paulo por rodovia asfalt capital, só foi à década dé 1960, ao passo que, com Cuiabá, sua seguinte. Antes interligar-se por asfalto na metade da década eopReçaram a disso, as duas principais cidades de Mato Grosso 1930, fora, de ligar-se por estrada de terra na década de O dani forma bastante precária. Compreende-se, assim, que questão fictito de uma região em relação à outra não era uma

desde os cia. Pelas dificuldades de comunicação e de transporte, tempos da colonização portuguesa,

O sul de Mato Grosso ça Paulo e Minas

Gerais do

em seu singelo cotidiano. Também foi captado pela sua câmara o

mais em

porto de Cuiabá, isolado no Brasil Central, repleto de barcos. De Cuiabá para atingir pontos mais ao norte do estado, onde se localizavam as tribos Nhambikwara, as fotografias exibem a expedição

que com Cuiabá. Mas quanto ao povoamento

frequentemente caminhando a pé, a cavalo, ou tentando atravessar

O sul esteve, verificar nas teses divisionistas segundo as quais norte. Ocorre que desde sempre, esquecido pelos governos do que brasileiro, como o sul de Mato Grosso era mais paraguaio do

o caminhão carregado de víveres e material etnológico em alguma ponte improvisada, balsa, ou caminho, até alcançar o Rio Papagaio, cujas águas se juntam às do Amazonas e onde, finalmente,

defrontaram-se com “os alegres Nhambilewaras”. Sobre a longa maratona, ele relembrou na década de 1990: Há uns sessenta anos, a parte mais perigosa de uma expedição no ER ÇA PAR : s interior do Brasil era certamente a que se tentava fazer de carro ou

contacto

com

o Paraguai,

São

= | EmA que é que não índio, O

devemos no sul e que deveria ser vinculado ao norte? E o que

: assinalou Darcy Ribeiro, ao estudar os índios da região

irritados. IRAM, Os jesuítas foram expulsos em 1760 e eles ficaram que não era brasileira saíram da área paraguaia para a área brasileira, todo ele ocupado pelos coisa nenhuma, era o sul de Mato Grosso,

espanhóis, pelas missões jesuíticas espanholas colocadas alP,

caminhão. Pistas sumariamente abertas ou traçadas pelas rodas de

4 LÉVI-STRAUSS, Claude. Saudades do Brasil, p. O, 3 LÉVI-STRAUSS, Claude, Saudades do Brasil, p. 81,

5 RIBEIRO, Darcy. Mestiço é que é bom,

TÇÃÃNR

p. 54.

40

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

MATO

GROSSO UNO: UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS

José Barbosa Rodrigues sustenta a tese sobre a precocidade histórica do sul em relação ao norte. Inclusive o faz pelo fato de ali haver passado, em 1524, a expedição de Aleixo Garcia, que a partir daquela arrancada, tornou o território mais espanhol do que português. Entretanto, é sabido que, apesar dessa e de outras incursões que buscavam metais preciosos ou mão de obra indígena, a região permaneceu por longo tempo despovoada de popu-

Oeste”,

lação não indígena. É o próprio autor, aliás, quem admite em sua

numento

História de Mato Grosso do Sul “o vazio populacional” dominante até a primeira década do século XX:

Quando os trilhos da ferrovia atingiram a barranca do rio Paraná, do lado paulista, Mato Grosso do Sul estava praticamente dasabitado, existindo apenas pequenos aglomerados demográficos, remanescen-

tes alguns do período anterior à Guerra do Paraguai e outros haviam surgido no período que lhe sucedera, qual seja o da exploração da erva-mate",

Com efeito, éa unânime entre os estudiosos do assunto, a tese de que o povoamento branco do sul não se efetivou igualmente ao do norte. Na obra Canaã do oeste, de Melo é Silva, lê-se: “Durante o espaço de três séculos foi o sul de Mato Grosso ape nas um deserto”,

Obviamente,

por “deserto”,

o autor compreen-

dia a ausência de outras populações que não as indígenas. Igualmente afirma Arlindo de Andrade: Até 1800, quase se pode considerar o chamado Sul de Mato Grosso,

como um desconhecido. A atividade do govermo contra a expansão espanhóla cifra-se ao rio Paraguai, onde levantamos o forte de Coimbra, e fundamos Corumbá.

41

nho, “na última etapa do ciclo de “criação de gado”, talvez na ultima fase do êxodo que se iniciou nos campos do médio São Francisco,

em

das campinas

busca

dos

Gerais

e, depois,

das de

Ao contrário, a região onde se localiza Cuiabá foi povoada por brancos desde o início do século XVIII. Como se sabe, a lógica do

expansionismo e escravização

territorial pormguês,

aliada ao

de índios por bandeirantes,

aprísio-

ocasionou

a

descoberta do ouro às margens do rio Coxipó e, em 8 de abril de 719,

a fundação

Demósthenes

de

Cuiabá.

Essas

minas,

conforme

escreveu

Martins:

Foram o ímã, o pólo de atração de milhares de criaturas que, rom-

pendo todas as dificuldades e sacrifícios, povoaram aquelas distantes paragens do Oeste. Firmou-se, por força desse evento, o povoamento dessas longínquas terras, o que determinou o governo da

métropole a promulgar a Alvará de 9 de maio de 1748, criando a Capitania de Mato Grosso, desligada sua área da de São Paulo”, De fato, Cuiabá passou a constituir um dos polos da exploração aurífera e, por essa razão, centro político decisório da região.

Sua importância estratégica evidenciou-se no fato de o governo português haver criado a Capitania de Mato Grosso, desmembrandoa das terras paulistas (Carta Régia de 1748). Documento da época atesta a necessidade de novos governos nas minas goianas e matogrossenses, de muito maior importância do que as de Minas Gerais e de São Paulo, principalmente no distrito de Cuiabá. Pela Carta Régia, o rei de Portugal determinava: “Faço saber à vós [...] que por resolutos se criem de novo dois governos, um nas Minas de Goiás,

outro nas de Cuiabá [...]'.

Até então, segundo José de Melo e Silva, o povoamento ficou a cargo do pastor nômade, que acompanhou o seu reba9 SILVA, José de Melo.

Canad do veste, p. 51,

6 RODRIGUES, José Barbosa, História de Mato Gresso do Sul, p. 129, 7? SILVA, José de Melo. Canaã do veste, p. 39.

11 PORTUGAL.

8 ANDRADE, Arlindo de. Erros da federação, p. 48.

grossenses. v 1, p, 224-225,

10 MARTINS, Demósthenes. História de Mato Grosso, p. 152. Carta Régia de 1748. In: MENDONÇA,

Estevão de. Datas mato:

42

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSU

Grande leva migratória já havia saído do povoado de São Paulo, logo após a chegada do emissário de Pascoal

Moreira Cabral com a notícia da descoberta, o que produziu a mais viva sensação nos seus habitantes. Isso ocasion ou: rápido povoamento das minas que, em 1721, já possuía até

uma

VSTO

43

GROSSO UND: UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS

em minerador,

trunsmudado

na ocasião em que o capitão-gene-

cul de São Paulo, Rodrigo César de Menezes, lá permaneceu por [8 meses,

conquistou,

em

1727, o título de Vila Real do Senhor

quecimento rápido. Apenas embicavam as canoas no Porto Geral, à

om Jesus de Cuiabá, onde constituiu a Câmara local. A organigáção política resultante dessa viagem de inspeção pesduron, com leves alterações, por longo prazo e foi um fator essencial que favoreceu o centro de Mato Grosso. A existência do apa lho político foi um dos fatores dinamizadores e, mesmo ne Con de passada a febre do ouro, esse aspecto GsnaaNA agindo positivamente para Cuiabá, embora, a partir de determinado momento do século XIX, o sul passasse a contribuir mais para O desenvolvimento econômico do estado, como se verá adiante. Resultante do fim da mineração, Cuiabá passou a viver o isola-

margem esquerda do Cuiabá, saltavam os passageiros, ansiosos de

mento típico do esgotamento

capela. Virgílio Corrêa Filho, enaltecendo os feitos dos

bandeirantes, to, assim

de quem

diz ser o cuiabano

descendente

dire-

narrou;

Chegavam os adventícios e maravilhavam-se com a opulência, decididos também a mudar subitamente de vida (...). Amiudavam-se as monções de Povoado (São Paulo), que transportavam negocian tes,

mineradores e quantos se deixavam seduzir pela miragem do enri-

fever ou conhecer as minas de fama estonteante (...). Todos forcejavam por avizinhar-se quanto possível do chão opulento, em que

Esgotadas as minas de ouro, ilhada nas lonjuras mpenipada ns

isolamento, tonando-se,

reino português. Especialmente para arrochar o controle fiscal é

começaram

a se fazer presentes

com

as medidas

destinadas à

aparelhar administrativamente Cuiabá, sujeitando os que ali che-

gavam à hierarquia portuguesa. Assim, O primitivo mado pela bandeira de Pascoal Moreira Cabral,

12 CORRÊA,

Virgílio Filho,

História de Maito Grosso,

p, 199-207.

arraial foro preador

uma

praticamente,

ausente da comunhão

brasileira”,

Grosso da Capitania

tivos da lei, acrescenta Virgílio Corrêa Filho. Tais imperativos

ao

Brasil Central, na dependência exclusiva das comunicações fluviais, passou a Capitania de Mato Grosso a sofrer todas as vicissitudes do

Os movimentos monçoeiros, as notícias, muitas vezes mais fantasiosas do que reais, despertaram o ímpeto central izador do

de São Paulo. Sozinha, acreditavam os administradores da Coroa, à região aurifera seria mais facilmente inspecionada, O aumento do núcleo sertanejo, pela junção de várias bandeir as, exigiu a sua organização em bases que o afeiçoasse aos impera-

Martins:

Demásthenes

Primeiro luziu o metal cobiçado"?

que este achou por bem desmembrar Mato

de um ciclo, conforme constata

A partir do final do século proporcionou

XIX, o ciclo da borracha

certo alento à economia.

sivo da Amazônia,

porém,

não

integrou

Como

produto

o sul de Mato

excluGrosso,

circunscrevendo-se ao norte do estado, enquanto a atividade mineradora havia feito a opulência momentânea apenas da porção circunscrita a Cuiabá. Desse modo, percebemos que, até então, nenhuma atividade ou ciclo econômico, fora capaz de

integrar

parte

as

sul alheia

regiões

tanto

de

Mato

Grosso,

à mineração

permanecendo 2

sua

à exploração

da

quanto

borracha.

13 MARTINS, Demósthenes. História de Mato Grosso, p. 152.

44

agi Embora muito pobre, a cultura pastoril propiciou ao segundo Nelson Werneck Sodré, seu grande Rapaenio no a Os do da ocupação e da dispersão humana. Por isso mesmo, primeiros grupos humanos que para ali E deslocaram, ii

O povoamento branco do sul de Mato Grosso: das bandeiras às boiadas Pode-se dizer que em fins do século XVIII ocorreram as primeiras penetrações do gado em terras do oeste. Favorec idas pelo São Francisco, batizado por algum tempo de “rio dos currais”,

representaram

o contato

entre

vaqueiros

45

MATO GROSSO UNQ: UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS

RECIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

nova

fase,

eram

originários

partido os rebanhos.

de

Minas

Demósthenes

Gerais,

Martins,

de

Mepeinta

ande

de

em sua PRÓ

Mato Grosso, também atribui aos mineiros essa façanha, sd

e bandeirantes:

Uns iam em busca do ouro, no sentido norte. Outros vinham em Procura de pastagens, no sentido sul. Minas Gerais, desde sempre vinculada à história de Mato Grosso, já erigida em Capitan ia, desvinculada de São Paulo, seria q grande centro distribuidor.

à rando o povoamento na região setentrional de Mato ra mineração e na região meridional, aos criadores as gado Ennio,

Segundo Nelson Werneck Sodré, as condições geográficas favoreceram a passagem, das terras de Minas Gerais para veste, para os chapadões goianos e para o território de Mato Grosso dos rebanhos que aumentavam progressivamente e que marchavam sem termo". Com a entrada desses rebanhos estava iniciada

o lo Mineiro, com a travessia do rio Paranaíba. Daí fora dilatand cm as suas ocupações, distanciando-se, sempre na aação dos a no s pos apropriados ao criatório, até atingirem as campina

onde implantaram a atividade pastoril. A penetração dos e ros, conduzindo

ria. onde

Sociais para o sul de Mato Grosso. Conforme assevera Demóst henes foram

mais

para

o norte,

antiga Vacaria, no sul matogrossense"''.

deve-se

a ocupação

caste

o

” Re

corrente migratória ”,

se Mas como registrou Arlindo de Andrade, até 1800, quase Rae pode considerar o sul de Mato Grosso como desconhecido. ai mente, o termo “desconhecido” só pode ser tomado cano ci a deiro do ponto de vista da povoação Rana, pa VEZ pia região foi historicamente habitada por povos indígenas. O) Re cio “vazio” começou a mudar com a fundação de presidlica

buidora dos rebanhos advindos do centro-sul do país, das Minas

1977, p. 40,

pReRRIÇA

dasafogadas dos campos da região sulina, imantou-se uma volumosa

mi

Gerais, onde haviam penetrado por meio do vale do São Francisco, após terem conquistado terras do Nordeste.

nov,

da

do-se se iam apropriando, como exteriorização de domínio, espraran o po É por áreas desmensuradas. Destarte, no rumo das terras

De fato, os chapadões da Vacaria iriam transformar-se em centro de condensação de rebanhos. Ali surgiram as primeiras fazendas, os primeiros pousos, os focos iniciais da expansão, Esses campos, outrora percorridos pelos bandeirantes, em ciclo das penetrações paulistas, agora deviam tomar-se região distri-

14 SODRÉ, Nelson Werneck. Oeste, p: 55-75. 15 MARTINS, Demósthenes. Campo Grande: cidade moderna. Revista Interior,

vestígios

imperial, estimulava criadores a fixarem os nto PRE

da

ã

ainda,

o Ademais, a regulamentação da posse das terras através da legislaçã

Martins: “Às investidas dos sertanistas, nas pegadas das bandeiras que

encontraram,

afirma ele, denise

terras das reduções jesuíticas. Sobre a forma de apropriação das assim escreveu Martins:

à conquista pastoril que definiria novos contornos econômicos é

paulistas

seus rebanhos,

aa

pelo REA

res. Surgiram Nova Coimbra (1775), Miranda (1797) e, mais es

em

1859, Albuquerque.

Havia, anteriormente, apenas

16 MARTINS, Demosthenes. História de Mato Grosso, p. 164.

Camapua,

46

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHOSSO

maes os irmãos Leme, “gabados por uns e temidos por outros” espa fundado uma fazenda em “sítio aprazível e arena k facilitar a pasmem das monções da bacia paranaense ' cio pp e que permaneceu, desde pelo menos 1727, como ns + : passagem e descanso dos monçoeiros que se dirigiam a Virgílio Corrêa Filho destaca que a decisão governativa estabelecer colônias

militares

ali, como

a dé

Dourados

de

Cissa

a de iai (1860), apenas endossava o arrojo age e que já se espraiavam pelas campinas do sul e visava usei Ê pegar os moradores estabelecidos nessa parte do território imperial. Segundo ele, duas correntes povoadoras principais sobressaíam nessa investida: uma originava-se da capital, enquant a outra derivava de Minas e São Paulo. nua a primeira corrente, advinda de Cuiabá, centralizou-se no pit de Miranda e moveu-se mais lentamente. A segund. oriunda da fronteira de Franca (SP) com Minas Gerais e oii |

mosa, tinha por desbravador Joaquim Francisco topa e a

sm Santana do Paranaíba, onde se tornou companheiro dos Garcia já ali Siibelicidoa, Logo em seguida, por intermédio de LGas, arms de Franca os Barbosa. No dizer de Virgílio Corrêa Filho, todos se “afazendaram” na região, cujo povoamento inenpiii cou-se entre 1830 e 1840. lomelio da arrancada mineira para o sul de Mato Grosso Rn Francisco Lopes empreendeu as suas primeiras eeiagaE nos sertões do oeste em 1829, quando se estabeleceu na região de “atrai

do Paranaíba. Por sugestão sua, vieram, logo dies

seus

mas Snliriel Francisco Lopes e José Francisco Lopes. Esse último sete mais tarde, no decorrer da Guerra da Tríplice E (18641870), O legendário Guia Lopes da Laguna, que morreria na sottáda

47

UATO GROSSO UNO: UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS da

fazen

Em Maito da do presidente Solano Lopez (1867). No livro

o que “comia vadido, Taunay assim se referia a ele dizend conjecturando sobre conosco e dormia em nosso rancho de palha”, sul de Mato Grosso à 15 razões que o teriam impelido à viver no ”. Além disso, uma distância enorme de sua “villa natal de Piumhy entos e calamidana epopéia pela qual passaram “ndizíveis sofrim Pantanal”, chegou a des impostas às tropas na terrível travessia do “Não há mais razão da anotar, entre os poucas ocasiões de fartura: s rezes trazidas pelo falta de gado, pois ahi vem entrando muita orm ente, “um rebanho Lopes”, pois, realmente, como narrara anteri do Jardim e tangeque o infatig ável Lopes juntara nos seus campos samente, responden"a para o acampamento, alli entrava tumultuo vaque iros e peões"*. do os mugidos dos animaes aos clamores dos Barbosa, os SouAlém dos irmãos Lopes, vieram ainda os região sul de Mato za e os Garcia, prolíferos povoadores da aram até a Vacaria, Grosso. Por volta de 1836, eles se along Orrosso in

fundando as primeiras posses e aí se fixando.

bem a vocação desA denominação Vacaria parece revelar à ocupação definitiva se núcleo povoador que, enfim, efetivou nada nos an tigos do sul de Mato Grosso, região muito rica, desig causa do gado vacum, roteiros sertanistas com esse nome por de salojaram os moraque ali ficara disperso quando os paulistas ica às margens do rio dores de Santiago de Xerêz, redução jesuít

ndo Campestrini Miranda, e das cinco aldeias circunvizinhas. Segu e Guimarães:

ncia, na Vacaria, de gado Os relatos monçoeiros referem-se à existê grandes manadas, deixados selvagem, conhecido por alçado, em

lves Barbosa, segundo possivelmente pelos jesuítas, Antonio Gonça ar sua criação”, a tradição, capturou 60 dessas reses para começ

do, p. 51-56. 18 TAUNAY, Visconde de. Em Matto Grosso invadi 17 CORRÊA

FILHO, Virgílio. Fristória de Mato Grosso, p. 217.

19 CAMPESTRINI,

Hildebrando.

do Sul, p. 161.

TB

GUIMARÃES,

A, Vaz. História de Mato Grosso

48

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Um descendente dos Barbosa menciona o estab elecimento é

contesta a “vida nômade do pastoreio" como

atribuída:

atividade a eles

Saíram os Barbosas de Franca, onde forum criado s na agricultura e aqui criaram gado, foi por achá-lo fácil como presen te da natureza

(..). Não vieram eles para a vida nômade do pastoreio, conforme

alguns escritores quizeram provar, vieram para se radicar atrás de

terra boa. Longe da civilização venceram e, tranquilos com o futuro,

já advinhavam o que isto iria se tornar”. Foi de Santana

do Paranaíba,

conhecida

como

“sertão dos

Garcias”, ponto de partida para a exploração do sul, segundo antigos narradores, que algumas famílias se arriscaram para outros sertões, entre elas, a de Antonio Gonça lves Barbosa, que rumou para os excelentes campos e águas da Vacaria, L á se embrenhou com seus escravos é o ne cessário para enfrentar terras

desconhecidas.

sa, vindo

também

Um seu irmão, Ignácio Gonçalves Barbode Franca do Imperador, em 1840, com mais

50 pessoas, seguiu as pegadas dos Garcia. Pode-se afirmar que, ao lado destes, que fundaram Santana do Paranaíba , os Barbosa constituíram outro grande núcleo de povoamento do sul de Mato

ca de posses novas, já desbravadas e sensdtuitas, com o ppa Es constante aumento. A expansão dos focos mineiros de ig ocorreu em fins do século XVII, intensificando-se na pnEeãa metade do século XIX, enquanto que a entrada dos Fio-geAnanSEs do sul se avolumou a partir do início da era republicana. A sa última, segundo Paulo Coelho Machado, deve-se a modernização ' ] da agricultura no sul de Mato Grosso, os As famílias entrelaçavam-se e havia também os casament Fes ii consanguíneos, contam os descendentes”. Além E eu ud tos, havia ainda o costume de pessoas da mesma a narem todas o mesmo Martins,

20 BARBOSA, Emílio Garcia. Os Barbosas em Mato Grosso, p. 20-21. Emílio Garcia. Os Barbosas em Mato Grosso, p. 12.

CC

TT:

O

pai,

que

uma

Souza,

parte dos irsredpe Fast defina

de

se

ago o Es elas

Esse pessoal veio todo de Minas. Garcia, Medeiros, Pereira, pi

É

tudo junto porque foram casando entre ais sabe? Uns ip a um nome, outros..., o papai, por exemplo, é Coelho, mas a pio a

dele ficou quase toda Souza. Então é Souza e egito, A unia ço

ai ; de boi, que é 4 marca mais conhecida do mundo é LS: ad Coelho. Mas ele largou o Souza. Diz ele que naquela época se FERA ficaram ricos é como ele era pobre, ele resolveu id Ê peso e

ao conhecimento dos historiadores?!

21 BARBOSA,

enquanto

era

Ha

relatou Lúdio k

explicou Lúdio Martins Coelho, descendente da leva mineira:

ção foi a dos Barbosas, nas fronteiras com o Paraguai, a qual escapou

E)

conforme

sobrenome, ficando conhecido apenas como Laucídio rag tituíram, portanto, nesse período, alguns dos galhos o povoamento branco do sul de Mato Grosso: as famílias ii Garcia, Souza, Barbosa. Sobre a origem e O a

Aos Garcias se deve o povoamento daquelas águas do caudaloso Paraná, os quais chegaram a explorar até Camapu ã. A outra penetra-

bus-

sobrenome,

Coelho. Na sua família, por exemplo,

Grosso. São de um descendente as palavras:

Após 1840 começaram a chegar também as comiti vas gaúchas, que se fixaram na região de Ponta Porã, até então território de jurisdição incerta, mais paraguaio do que brasil eiro. Essa corrente, ao contrário da mineira paulista, não se fez acompanhada de rebanhos. Foi uma marcha exclusivamente human a, em

49

MATO GROSSO UNO: UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS

ficar com Coelho. Por exemplo, meus

irmãos; eu sou Lúdio Era

Coelho, mas eu tenho uns quantos lirmãos] que são só Coelho*.

Lopes, [ por a ancisco irads abri 22 Entre os matrimônios famosos, sabe-se 5 que Gabriel ad,à, e DBarbosa, es I Goncalves tonio An É de filha , ilh: l com Senhorinha 7 -se E E oeste, do quis pd conquista a para para Mes a Franca deixou i que Barbosa amília Bar ema imei família o rimeiro da

Cuando Gabriel morreu. Senhorinha casou-se com à irmão Sae J ad co Lopes, : que seria, mais tarde, o “Guia Lopes da Laguna”, acompanho: durante a Guerra do Paraguai. Campo ] 7 23 COFLHO, Lúdio Martins. Entrevista.

er

Taunay

Grande, 15

fevEV.

».

50

REGIQMAUISHO

Quando apr bico N

;

s

eclodiu odiu ia

eÍ ic

ermtonio

«à Guerra 2 r

da

E DIVISIOMISHO NO SUL DE MATO GROSSO

í Tríplice

E 5 se dispersaram, morreram,

ficou,

;

entãentão,

maisÍ atraente

povoadores após 1870, PP Pela

o ê

forma

c como

Aliança,

porém

aci ou perderam

pa

;

as d

E ocorreram

essas

migrações

ã E :.osu a de Mato Grosso tornou-se,

ão de pecuária, pecuária, cujos cujos primórdios primórdi se devem

com

e ocupações

o tempo, a uma

| | pastoril ao regime

A naE aprimeirs ne metade do século a XX, a pecuária constituía 5 j Já caia as atividades ades dominantes « in em todo o estado de| Mato Grosso; e.no al, pib Nos pipa € Fine ( da Vacariaia (estendidos entre Campo “al Gran idea É va Porã e ns 3 campos cerrados do Planalto. Na década am Ea iam 15 milhões de cabeças de gado no sul de Mat o enquanto no centro-norte, de 2 a 5 milhões” j Vê-se, , assim assim, que Ê enquanto o ouro fez Cuiabá, as pegadas do boi configur: guraram oê sul. Um século, porém, é o tempo que separa os dois eventos.

Primeiros núcicos de povoamento no sul. t- Fazenda Camapuã (1719):

2-Forte de Coimbra (1771 y 3 - Albuquerque (778)

4 Presídio de Miranda ( 797); - Piquiri (pós-1B00]; 6- Sertão pilas (1 so

UV

1870, era da Tríplice Aliança, em até q término da Guerra Mato Grosso do ulação branca O atual bastante escassa de pop ulação, em 1845, i e Guimarães, à pop tin pes Cam o und Seg Sul. apuã, Vacaria € abarcava Miranda, Cam no Baixo Paraguai, que Quanto a estes, ncos e 3.834 Adios”. bra 664 de era uí, anhand violência da oeutra que, submetidos à Cláudio Vasconcelos mos todo o estado de cessaria, somavam em não que nca bra ão paç ígena do estado, mapa da população ind Mato Grosso, segundo o 21.723 indivíduos? atizando a a para Mato Grosso, enf Quanto à porta de entrad afirma que Paulo Coelho Machado ai, agu Par rio do ia importânc Fluvial, Tnas 408 até mais

ou

menos

1820,

eta Corumbá,

owá os Terena, Kadiwéu e Kai inteiramente povoado pel dos paraguaios, direitos dos índios ou sem entrar no mérito dos gado € ão pelos criadores de paç ocu a ma íti leg ndo considera O sul, ele sustenta do governo para com constatando a omissão donos: que as terras não tinham

rra do Paraguai, es, muito contribuiu a Gue para a expansão das poss não deixavam nine mesmo os paraguaios, pois até então OS índios mais desocupada, veio

essa região ficou guém entrar. Com à Guetra, formar-se as grandes estados e começaram 4 mais gente de outros

7 - Vacaria (1839):

+ MARÃES, 25 CAMPESTRINI, H.; GUI

10-Vals do and (Bo

11 -Agua Fria (1844); 12- Vale do Apa (1844);

13-Rracinho (1848);

14 - Desbarrancado e outros (1848). Fonte: CAMPESTRINI, 1591:47.

RASIL. Ministério 24 BRAS inistéri do Interior. Revista InteriorOr, nov. : 1977 1 Po. 47

por via

dos, via a Ser também pelos fun sou pas a rad ent a ess , poucos nto da guerra Foi depois do encerrame terrestre, por Paranaíba. a ocupação reu mais intensamente sof sso Gro o Mat de sul que o território era quase o, pois, até então, O pelos criadores de gad / Guarani”.

8 - Tabaco (18404,

E Forquilha do inaque (1840):

51

HISTÓRIAS GROSSO UNO: UM ESTADO. DUAS

udio 26 VASCONCELOS, Clá 0. 67-8 p. so, Gros de Mato

Grosse do Sul, p. 35. A. Vaz. História de Maio

Alves

na Província de. À questão indígena

no cenário destacam-se indígenas cinco povos 05 Radiwéu, na, Atualmente, Tere 27 os ni, do Sul: Os Kaiowá/Guara sso Gro o Mat de l tivamente, pec tura multicul Os maiores, COM, res Os dois primeiros são das mais duas s, os Gualó e os oOfaiet. tivo quantita é constituem, em termos vimen vol sen DPe 25 mil e 20 mil pessoas nio. Antô ND, BRA

indígenas do país. do Sul: à construção de importantes populações indígenas no Mato Grosso es dad uni to local em com M.2, pao. alternativas. Interações, vd,

52

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

A guerra mudou a fisionomia do sul de Mato Grosso

fazendas, depois divididas. Na verdade, estas terras não tinham dos

nos, exatamente porque Cuiabá não dava atenção ao Sul, nem mesmo para cobrar impostos, pois além de difícil não rendia quase nada, Foi a partir da exploração da erva-mate que o interesse do governo estadual por essa região começou

à aumentar. A erva-mate era tão

rentável que a Companhia chegou a fazer empréstimos ao Estado"? Por isso, o encerramento da guerra é tido como marco para

o impulso populacional, como afirma, por exemplo, José Barbosa Rodrigues, para quem ela foi um benefício na medida em que despertara no governo a atenção sobre a necessidade inadiável da imediata integração do território. A definição e demarcação das fronteiras ensejaram o aparecimento da indústria extrativa da erva-mate e melhor conhecimento do próprio território que passou a atrair “o pastor de Minas Gerais, o refugiado gaúcho fugitivo das revoluções rio-grandenses, e a construção da Estrada de Ferro Itapura-Corumbá, mais tarde denominada Noroeste do Braee, Constatamos, assim, que o início do “processo civilizatório”

em Mato Grosso se deu às custas do extermínio dos povos indígenas, pois estes se submetiam ou morriam. Conforme analisou Cláudio Alves de Vasconcelos, aqueles que não se “civilizassem” eram vam

considerados

violentos pelos brancos que, então, se achano direito de usar contra eles mais violência. Entretanto, a

maior parte das obras, que aqui utilizei como referência, tratam a questão da posse das terras pelos povoadores brancos como legr tima e natural. Esse ponto de vista é significativo porque retrata exatamente o pensamento daqueles contingentes que chegaram para ficar, introduziram a pecuária e se tornaram a classe economicamente dominante em Mato Grosso, objeto do meu estudo neste livro. 28 MACHADO,

Paulo Coelho. A participação da classe rural na luta pela divi-

são, Revista Grifo, p. 24, 29 RODRIGUES, José

Barbosa.

pstada A fisionomia do sul de Mato Grosso foi bastante E a A após a Guerra da Tríplice Aliança Cio 18/.

ambiguidade que predominava até então na a»

Grosso do Sul, p, 88-89,

Sonhos

a canção

Brasil e o Paraguai,

Guaranis,

e

Alem

e

Sáter E

Grosso espera, paulo Simões, consagrou o seguinte verso: “Mato a guerra, quem esquecer quisera, o som dos fuzis. Se não fosse

hoje era um outro país"*.

abe ii

NGS fato, após a invasão paraguaia no sul a Mato

A

mar a (1864), à primeira fase da guerra transcorrena ali, É pa aenpa que Corumbá, Miranda, Nioaque e Coxim foram Alianç: ce tretanto, logo depois da invasão, O tratado dia Trípli (Brasil, Uruguai, Argentina) reverteu a alinação, a nara a a Ee ra uma sequência de atrocidades de pisRORaS asi

aja aniguilou o país guarani. Taunay, O nes mais Espe au Comissão de Engenheiros” que compôs a Força

em operação no sul de Mato Grosso, Alnsopegei ipa “indizível

sofrimento”,

os “momentos

de

desânimo”,

E

É

de

A

s e ic mal concebidos" e até mesmo “o regimen de abuso

nomeia, Pa dades” a que estavam submetidos. Em Eis estúpida, e Bro “Como a guerra é terrível! Como a guerra é iennyeiotes a todos os sentimentos equitativos, razoáveis

na ao expediinteresses justos € recíprocos dos homens!"*. Eos

até Ri, a º ção, enviada por terra pelo governo Imperial cel guia do ni +) objetivo de invadir o Paraguai, que qua

Ê cisco Lopes até a retirada dos expedicionários da inpene

E

dO evidente a na, acossados pelas forças paraguaias. Ae ente Solano Lopez dessa invasão temerária na fazenda do presid 30 SÁTER, Campo

História de Mato

53

UATO GROSSO UNO: UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS

Almir;

SIMÕES,

Grande: UFMS,

31 TAUNAY,

1979.

Paulo.

Sonhos

guaranis. o

Visconde de. Em Maito Grosso invadido, p. 54.

"RBS

Prata da Casa

5d

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

em busca de rebanhos que servissem de alimentação para a tropa

debilitada, o Coronel Camisão ordenou o retrocesso (1867), Dos

1.680

homens,

Nioaque,

apenas

vitimados

700

pela

sobreviveram.

cólera,

Antes

morreram

de chegarem

o Coronel,

a com o padrão anterior de ocupação. Além disso, analisando instauração da República no estado, conclui que:

presidente Frederico Carneiro de Campos a Cuiabá, em novem bro de 1864, quando, depois de passar as águas de Assunção, foi apre-

sado por ordem

do presidente

Lopez.

Uma

guerra,

enfim,

cuja

coronelismo, que se caracterizou pelo surgimento be

pela Cia. Matte Laranjeira, também vinculada a mercados e capitais AS estrangeiros”.

Dessa forma, vinculadas aos efeitos da guerra, as AnmidanEA

da Companhia Mate Laranjeira e, posteriormente, à ferrovia Noroeste do Brasil também contribuíram para o povoamento si da região sul-mato-grossense. Essa última especialmente, a

contada de forma épica.

a guerra,

embora

com

participação

se-

“um

divisor de águas”* no processo de ocupação das terras na faixa de fronteira, estabelecendo-se, a partir de então, uma ruptura

32 SATER, Almir; SIMÕES, Grande: UFMS, 1979, 33 CORRÊA,

Valmir.

Paulo.

Sonhos

guaranis,

Prata da Casa.

Coronéis e bandidos eni Maio Grosso,

de coroneis

no sentido clássico da política nacional, como de coronéis ENREROlIÇE: lu E Além da expansão da pecuária, essa fase também ps polarização da atividade comercial no porto de Corumbá [...]. ASA mente, esse complexo quadro econômico se completou com a s plantação (pela conivência de políticos mato-grossenses ; da Su prio governo federal), do monopólio de exploração da Ce

nenhum dos países que compuseram a T ríplice Aliança, princip almente o reinado de D. Pedro Il e, que, portanto, não pode ser

cundária de Mato Grosso, resultou em profunda mudança,

E]

o

devastação e número de mortos no Paraguai não pode edifica r

Para Valmir Corrêa,

E

5 Paraguai, foi um dos fatores de maior tensão e PAIS ia id a república. Tendo como atividade principal a pecuaria Rent “s portanto, predominando o latifúndio como fonte de press ted co e político, manifestou-se uma dualidade no fenômeno je

se sabe, o

seu estopim foi o aprisionamento do navio Marquês de Olinda que subia O tio rumo à Província de Mato Grosso. Ele levava o futuro

ei

Quanto ao sul, a luta pela posse da terra, no período pós-guerra com

Brasil foi Paraguai” foram demarcadas. Compreendida a guerra no seu significado mais amplo, qual seja, “O jogo de interesses da burguesia portenha e da burguesia mercantil brasileira, tendo ambas como parceiro o capital inglês”, constatamos que, no contexto econômico é político, cujo predomínio foi o liberalismo, terminava o período de soberania e estabil idade econômica paraguaias. Uma guerra trágica que começa ra por razões ligadas à navegação do rio Paraguai, pois, como

E

a

o “Guia

as fronteiras “onde

F

e

Lopes” e seu filho. Corumbá, Miranda, Nioaque e Coxim foram retomadas. Com o cerco e morte de Solano Lopez, a Tríplice

Aliança vitoriosa é o país guarani arrasado,

55

MATO GRÓSSO UNO: UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS

Campo

sua função estratégica descrita por Fernando de mi

trem corre para o veste, constituiu um fator de desemrolmintento;

acentuando as possibilidades econômicas do sul em relação ao centro-norte do estado. As lições da guerra deviam estar presentes nos empreendedores que projetaram as estradas de ferro, dd

deiros “caminhos políticos”, conforme escreveu O autor, pois, no decênio

que

se

seguiu

à guerra,

objetivavam alcançar Mato Grosso.

todos

os

traçados

o

35 CORRÊA,

NS

pensados

A

A eficiência da estrada na sua função política ia na medida em que se levava -em conta a defesa Gas fronteiras E dois países vizinhos, Paraguai e Bolívia. Por isso, era avaliada

p. 44.

34 CORRÊA, Valmir. Corongis e banidos em Mato Grosso, p. 43,

m

Valmir. Coronéis e bandidos em Mato Grosso, P. Pele

58

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

por Azevedo

como

“um

dos laços mais fortes que prendem

o

Estado ao território”, Sobre o incremento populacional, observa que foi mais considerável nas vilas, que se criaram ao longo da linha, nos nós principais das vias férreas e nas bifurcações, como em Araçatuba, no estado de São Paulo, ou em Campo

Grande, em

Mato Grosso. De fato, se houve algo marcante no início da história de “ampo Grande foi a Noroeste do Brasil. Mas, além dela, outros povoados surgiram ou foram incrementados, de tal forma que a chegada dos trilhos no Centro-Oeste é tida como alavanca propulsora do seu povoamento, conforme afirmou Fernando de Azevedo:

Que

à Noroeste foi o mais importante fator de desbravamento

e

colonização dos sermões de Bauru e do território de Muto Grosso,

como do desenvolvimento da riqueza do país, bastariam, para proválo, os progressos extraordinários que tiveram antigos arraiais sonolentos que despertaram e entraram em progressão ativa, ou vilarejos inquietos fundados ao longo dos trilhos. [...] Em terras de Mato Grosso deram um salto, sobrepairando, pelo seu alcance a tôdas as outras, Três Lagoas, que brotou, às margens das lagoas, de um acampamento de engenheiros e trabalhadores da Estrada [...]; Campo Grande, 14

que, em 1905, quando ali chegaram

os trilhos da Noroeste, não pas-

sava de uma povoação sertaneja, com 1800 habitantes, e é hoje a capital comercial do Estado de Mato Grosso e a sede da região militar

do setor oeste de nossas fronteiras, além de Aquidauana é Miranda, aquela, fundada em 1893, e esta, cujas origens remontam aos tem-

pos coloniais (1707) e que são dois outros centros magníficos de pecuária, com várias centenas de milhares de suas imensas fazendas de criação”.

Entretanto,

grossense,

não

para

exerceu

Paulo

Cimó,

o mesmo

a estrada,

papel

cabeças de gado, em

no

trecho

mato-

propulsor de povoa-

MATO GROSSO

57

5 AS UNG: UM ESTADO, DUAS HISTORI

pais para mento como no trecho paulista, e um dos fatores princi isso foi à extensão do território cortado por latifúndios. Quanto

a Campo

Grande,

é consenso

entre

os Aa

em Mato aa que, dentre as povoações atin gidas pela Noroeste see: ela acambarcou de Corumbá a liderança das atividades não cas E tornou-se, no dizer de Azevedo, a “capital comercial” prepondesó da região sul do estado como de todo ele. A sua diante se estancia assinalaria também a rivalidade que daí em a causa heleceria entre Cuiabá e Campo Grande, que empalmou no separatista e se tornou aspirante à capital.

Em parte isso ocorreu por causa da relativização dos cami-

no caso de Campo nhos da água comparados aos da terra, pois

composta de duas ou Yrande, até então, não passava de uma vila

enças axe três ruas, nas quais se resolviam, a tiros, às desav sua ii da Ee chefes políticos. Paulo Coelho Machado, córrego Ria, ria, é quem relata: “A vila era situada nas ribas do va à Aiscena (aa quando só existia a rua 26 de Agosto e se inicia da primeira”. rua 7 de setembro, então quintal dos moradores fama de Ainda de acordo com o autor, desde o início, a granem vam que gozava começara à atrair forasteiros que chega inauguração do des levas e a vila, em 1911, pouco antes da a com ano de trecho ferroviário que a contemplou, já contav de 1914, que assina300 casas e 1.500 habitantes. Por isso, O ano

Campo Eae lou a chegada da via férrea, foi importante para

É

foi recebido, pela população,

o

vas ao para todo o sul de Mato Grosso. As festas comemorati evento dão uma idéia de como silvo da primeira locomotiva.

p. ZA, O autor ij e ps 38 MACHADO, Paulo Coelho. Arlindo de Andrade, , chegaram o E mi Pereira o primeiros habitantes, liderados por José Antoni 7 es aguas legal cia existen sem am necer junho de 1872, mas perma o. Somente completamente ignorados pelo poder públic

na em

36 AZEVEDO,

Fernando de. Um trem corre para o veste, p. 98.

o distrito bro de 1889 foi publicada a Lei nº 792, que criou

37 AZEVEDO,

Fernando de, Um trem corre para o oeste, p. 93-94,

Grande.

E [e apl

de paz

aum

5B

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

A construção da ferrovia, por outro lado, ao não contemplar a capital, pois malograra o projeto inicial de atingir as duas capitais do Centro-Oeste, Goiânia e Cuiabá, despertou nessa última manifestações de ressentimento e complexo de inferioridade, Paulo Cimó reproduz no seu livro Uma ferrovia entre dois mundos excerto de um pronunciamento do presidente Aníbal de Toledo, em 1930, renunciando à navegação fluvial de Corumbá e Cuiabá como “caminho único para o progresso que tem de nos vir do Sul” e propondo “melhorar e povoar” o caminho de Campo Grande “mais curto, de construção mais fácil e econômica do que qualquer outro, atravessando terras férteis e, portanto, povoáveis por colônias agrícolas”, ao contrário da longa faixa pantaneira, “imprópria” para elas. Da

mesma

forma,

jornais

do

começo

do

século

expressavam

maus presságios sobre o futuro de Cuiabá e até mesmo a possível perda da condição de capital fazia parte das preocupações pessimistas veiculadas nas matérias. No texto q seguir notamos a decepção e, de certo modo, a impotência vivida pelos cuiabanos quando se viram excluídos do traçado da ferrovia.

A “bancarrota [...] Este mal

que

será fatal”, lamentavam: se nos avizinha

temível

|..] é a decadência

de

nossa Cuiabá [...] o simples movimento nosso é insuficiente para sustentar a nossa hegemonia. O ser capital somente não impedir-

nos-á a decadência que em breve estará entrando pelo mesmo

porto por onde saíram o nosso progresso e à nossa vida. A bancarrota será fatal [...]. Eis-nos então, reduzidos a simples espectadores de uma cena triste, acabrunhadora [..]. É mister que nos empenhemos contra essa idéia. Não resta dúvida alguma que o sul que também é nosso, progredirá imensamente. Mas de que serve Isso se

tem de despir-se um santo para cobrir outro? Nada mais é que suma injustiça, quanto mais sendo o sul uma zona que independe 59 TOLEDO,

Aníbal.

Pronunciamento

apud QUEIROZ,

Paulo

Roberto

Cimó.

59

GROSSO UNO: UM ESTADO, DUAS HISTÓRIAS

de qualquer auxílio Cpelas suas riquezas naturais e maior proximidade com São Paulo) tem-se mantido e adiantado bastante, e não assim a zona norte [...)º,

As previsões derrotistas não eram tão irreais, embora não se

tenham confirmado no que diz respeito à perda da condição de capital. Contudo, o ponto não tocado, isto é, o lesar

as

do território “do sul que também é nosso”, hipótese subestimada início de século, viria a se concretizar antes que ele se

naquele findasse.

No final do século XIX, anteriormente à inauguração da ferrovia portanto, já se pode notar um tom de discórdia nas relacões norte-sul, notadamente

de sulistas insatisfeitos com o gover-

no estadual. Mas isso se aprofundou com a construção da Sonar este do Brasil. No tocante à política de povoamento do sul é possível perceber elementos de crítica à ação ou apps governamental, demonstrando que os sulistas se sentiam preteridos. Na

perspectiva de Cuiabá, porém, o sul não precisava da atenção do voverno

por sua

proximidade

com

São Paulo,

“mas

não assim

a

zona norte”. Um aspecto que chama a atenção é a forma de designação, por parte destes, do governo estadual, RE nominado como “governo de Cuiabá”, revelando que ele não era aceito como representativo de todo o território e da totalidade da sua população, mas de uma parte apenas. Erros da federação, obra de Arlindo de Andrade, ppiiEa em 1934, que trata, entre outros aspectos, dos problemas Ene micos

Grosso,

de Mato

ilustra bem

a questão

ao exaltar

o feito

pioneiro de paulistas, mineiros e gaúchos que, principalmente após a Guerra do Paraguai e o início das atividades de exato da erva-mate,

intensificaram o povoamento

do sul “sem auxílio e

sem conhecimento do governo plantado nas alturas de Cuiabá”: 40 Jornal O Cruzeiro. Cuiabá, 16 abr. 1908, p. 01, Apud: GALETTI, Lylia da Silva Guedes.

e

Uma ferrovia entre dois mundos, p, 375.

ATO

o TS

O estigma

da bárbarie. ANPUH,

Recife, jul. 1995.

60

REGIONAL E DIVISIONIS ISMO MO NO SUL DE MATO GROSSO

Quem tez o sul foi exclusivamente o filho de outro Estado é alguns estrangeiros. Ele rompeu os sertões do Paraná,

de São Paulo,

de

Minas, Goiás; ou veio do Rio Grande, através de terras estran has, é não somente veio sem auxílio mas sem conhecimento do governo

plantado nas alturas de Cuiabá; lutador invencível, fez este pedaço do Brasil, Hoje o mato-grossense sulista, a sua forte mocidade. é filha do brasileiro de outro Estado”. Após a guerra foi criada, no sul de Mato Grosso, a Compa-

nhia Mate Laranjeira, que, além da sua importância econômica, vincula-se às primeiras manifestações divisionistas, assunto que

Ocupação,

será tratado no próximo capítulo. Desse modo, constatamos que O final dessa trágica guerra, além de ter resolvido problemas de fronteira

favoravelmente

ari y rocessos E que asa '

ao

sul

de Mato

E

do

suscitou

dois

:

e gênese

rea Di eterminantes

determinantes para o recrudescimento

o regionalismo sul-matro-gros

Implantação

Grosso,

monopólio

do divisionismo no sul de Mato Grosso socioeconômicos e políticos distintos; ; : 14 distanciamento do sul em relação à capital do estado; falta io dé aà do estado, bem entre as duas regiões eficiente de comunicação

truÇã

Á

uismato-grossense: a construção da ferrovia e a

da economia ervatei ateira.

a:

:

como o sentimento de não pertencer “a Cuiabá”, além do controle da burocracia pelo norte, foram fatores que propiciaram o nascimento

de idéias divisionistas

sul. Na verdade,

no

tão logo

se consolidou o povoamento branco na região, teve início o regionalismo, de tal forma que as raízes históricas da divisão de

s t

Mato

Grosso A

aí se encontram.

região

sul

de

Mato

Grosso

vinha

existindo

até

então

quase que independentemente e com ritmo próprio. A configuração geográfica e o isolamento em relação ao centro político decisório, acrescidos das peculiaridades históricas mencionadas,

]

faziam com que, na verdade, existissem dois polos não integrados em um mesmo estado. Alguns autores, como Maria Manuela Novis Neves, chegam a afirmar que as diferenciações intrarregionais acabaram por produzir uma separação de fato, antes mesmo de se efetivar a cisão de Mato Grosso!. Por sua vez, «

41 ANDRADE,

| NOVIS NEVES, M. Manuela Renha de. Elites políticas: competição e dinâmica

Arlindo de. Erros da federação, p. 64.

partidário-eleitoral (caso de Mato Grosso), p. 65-75.

=

E

or

aa

G2

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Oclécio Barbosa Martins, em obra de 1944 sobre q geopolítica do estado, declarava que o “sul possue tudo, menos administração”, As diferenças intrarregionais existentes em Mato Grosso

foram acentuadas concomitantemente

à ocupação efetiva do

sul. Assim, a ocupação gerava cada vez mais diferenciação e, por conseguinte, regionalismo. Três episódios marcaram esse

processo no final do século XIX: a) a Guerra da Tríplice Aliança (1865-1870); b) as atividades da Companhia Mate Laranjeira;

c) a Ferrovia

Noroeste

do

Brasil,

Os

dois

últimos

decorrentes:

do primeiro. Aq final do litígio contra o Paraguai, por exemplo, muitos gaúchos permaneceram em solo mato-grossense, facilitando a acomodação posterior de novos adventícios, pois “a região fronteiriça era como

que um

prolongamento

dos pampas”

*. Por

sua vez, a Comissão de Limites, criada pelo governo imperial brasileiro e enviada à fronteira meridional, iniciava seus trabalhos e as “explorações pela faixa raiana, resultaram melhor co-

DHIPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIDNISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Findos os trabalhos de demarcação, ele trouxe do Rio Grande do Sul gente especializada no preparo da erva-mate, cujo conumo já era tradição entre os gaúchos. A exploração das matas Lurangeira empreendeu com o recurso à mão de obra paraguaia, ubmetida a regime semiescravo de trabalho*. Legalmente, a atividade respaldava-se em decreto imperi| de 1882 que concedia a particulares a colheita em terras devolutas e desocupadas, pertencentes ao domínio do Estado. À Companhia, nascida com a cooperação de Antônio Maria Coelho, que se tornaria o primeiro presidente” de Mato Grosso (18891891), conseguiu, graças a sua interveniência, ampliar a área arrendada, desde o rio Ivinhema ao Iguatemi, de tal forma que, segundo Arlindo de Andrade, “no governo Maria Coelho tudo se

tez em benefício de Tomás Larangeira”*,

nhecimento de suas peculiaridades, que lhe incentivaria O povoamento”. Além

dos técnicos,

tomavam

capitão Antônio Maria Coelho,

parte

comandante

das

peregrinações

do destacamento

53

Mato Grosso do Sul

o mi-

Área da Companhia

litar, e Tomás Larangeira, fornecedor de víveres à expedição. Ultimada a campanha demarcadora em 1874 é praticando a indústria ervateira no Paraguai, ocorreu que Tomás Larangeira cuidou de apossar-se das melhores glebas que atravessara nas localidades de Ponta Porã, Bela Vista, Paranhos e outras, “onde se afazendou”,

conforme escreveu Virgílio Corrêa Filho.

;

Mate Laranjeira - nofinaldo século AJX.

drea da

ES

ocamência dos Ervais

Fonte: PIBEIPO, Lélia Pita E. de Figueiredo, p.139.

O Os galhos da erva-mate, depois de cortados, eram amarrados em feixes, com peso variável de 150 a 250kg cada, que eram transportados nas Costas, por longas distâncias, pelos ervateiros. CAMPESTRINI, Hildebrando; GUIMARÃES,

A. Vaz, História de Mato Grosso do Sul, p. 94.

2 MARTINS,

Oclécio

territorial do Brasil,

Barbosa.

Pela defesa nacional: estudo sobre redivisão

p. Bá,

à RODRIGUES, José Barbosa.

7 Na primeira presidente,

Histórica de Mato Grosso do Sul, p. 137.

4 CORREA FILHO, Virgílio, História de Mato Grosso, p. 551.

5 Além de Virgílio Corrêa Filho, outros autores abordam o fato de que, na verdade, a empresa nasceu no Paraguai durante essa expedição demarcado ra,

República (1889-1930),

ficava o título dado em outros,

constitucionalmente, cada estado especi-

ao chefe do Executivo: em alguns eram de governador.

Outra

peculiaridade do

chamados

de

período é que

em certos estados havia um vice-governador ou vice-presidente, em outros, três: em alguns, nenhum. Em Mato Grosso, o chefe do Executivo portava à

título de presidente e contava com três vice-presidentes. primeira república - evolução política, p. 19-20. 8 ANDRADE,

Arlindo de.

Erros da federação, p. 50.

CARONE,

Edgard.

4

84

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

O domínio da Companhia expandiria ainda mais quando, em 1892, Tomás Larangeira associou-se aos irmãos Murtinho, de grande

expressão política no estado

é proprietários

do Banco

Rio-Mato Grosso, Por meio do qual se dera a transação. Para se

ter uma idéia da utilização do poder público para fins particula-

res, quando Manuel Murtinho foi presidente do estado, a Compa-

nhia obteve a Prorrogação do monopólio por mais 16 anos. Quando

o

referido Banco foi liquidado e tendo à posse de 14.500 ações

de um

total de

15.000, a concessão

de exploração

dos etvais,

que perduraria até 1916, passou para a firma Laranjeira, Mendes e Companhia,

com sede

em

Buenos

gerntina do que brasileira.

Aires,

tornando-se

mais ar-

Por causa do seu poderio econômico, a Companhia comesou à pretender o controle sobre o poder político de Mato Grosso,

conforme interpretou Virgílio Corrêa Filho:

De tal maneira imedrou e floresceu a indústria ervateira, que sobrePujou qualquer outra no Estado. Opulenta, dispunha de recursos com que pudesse interferir na política estadual às claras, ou veladumente:.

DP PAÇÃO,

budo”,

MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Entre as razões que se opunham

à empresa

55

monopolista,

irrola

du) ter ela maiores capitais argentinos e canalizar para Buenos Aires, a

maior renda; b) tem sido dirigida por estrangeiros sendo a quase totalidade de seus funcionários argentinos e paraguaios; €) trabalharem com milhares de operários paraguaios e argentinos, recusando sempre o operário nacional; d) estar localizada numa fronteira importantíssima, dominando caminhos € rios navegáveis e tendo a estrada de ferro de Guaira, regiões de graves interesses militares, assim aberta ao conhecimento do estrangeiro; e) ter dificultado o povoamento da fronteira, como arrendatária da zona dos ervais, provocando por isto lutas constantes, com os brasileiros que se localizavam em Ponta Pora”,

Decorrente

das hostilidades provocadas por uma empresa que, no dizer do autor, “mandava e não pedia”, a Assembléia Legislativa rejeitou, em 1907, petição tendente à prorrogação do

monopólio por mais 14 anos na qual reivindicava também, para

Foi a sua prática de intervir na política estadual que resultou

sua garantia, uma força militarmente organizada, paga e dirigida por ela. A Assembléia, ao assim proceder, alegava que seria

que desfrutava, isto é, os seus partidários de um lado e os inimi-

se, portanto, contrária ao estabelecimento de latifândios domina-

na formação de dois grupos antagônicos quanto ao monopólio de

gos de outro. No sul do estado, particularmente, gozava de má reputação pelo fato de dificultar o seu povoamento. Em primeiro

lugar, pelo fato de dispor do monopólio, em segundo, porque o governo, seu aliado, sempre aumentava o preço das terras devoluta s

= região dos ervais de forma a impedir a sua compra pelos

interessados. Com isso, na prática, o govemo estadual proibia o

Povoamento do extremo sul até 1915. Segundo Arlindo de Andrade,

os “vultos da história política e administrativa de Mato Grosso”

concorreram para que a Companhia se transformasse em um “Es-

alinal “a formação de um Estado dentro do Estado"! Posicionavados por estrangeiros. Na

época,

FILHO,

Virgílio. dlistória de Mato

Grosso, p. 603.

mais

poderosos

do estado,

Generoso

Ponce e Manuel

Murtinho, divergiram quanto ao pedido. O primais emblemáticos do começo da era políticos meiro, um dos republicana em Mato Grosso, nutria velho plano de lotear a zona

ervateira em glebas de 450 hectares para arrendá-los em hasta pública. O

segundo,

ex-presidente

de Mato

Grosso,

pretendia

“abrangê-las em desmedido latifúndio, cujo dono teria a faculda-

10 ANDRADE, 9 CORREA

os chefes

Arlindo de. Erros da federação,

p. 67-68.

tt ANDRADE, Arlindo de, Erros da federação, p. 53-54.

66

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

imigratória rio-grandense, que teriam de respeitar a posse mantida por uma companhia estrangeira poderosa que, no caso de conflito, lá Forte «mira 7 ' E i federal”. a intervenção poderia provocar por via1 diplomática,

de de organizar a sua própria polícia privativa, que lhe vigiasse

as terras sem fim"! Ciente da obstrução dos deputados, não titubéou Manuel Murtinho em escrever ameaçadora carta ao presidente do estado Generoso Ponce, em 1907, expressando contrariedade aos objetivos deste e de seu aliado Pedro Celestino Corrêa da Costa de facilitar a posse de terras na região monopolizada pela Mate. Manuel

Murtinho,

desejoso

de

manter

privilégios,

refere-se

A mesma

plo típico” dessa associação a Mate Laranjeira. Escreveu o autor:

a

A Mate Laranjeira, da qual os Murtinhos são sócios, monopoliza O mate nativo em Mato Grosso. Seu imenso latifúndio, que possui exército, campo de concentração, escravos e moeda própria, vê em 1907 aproximar-se o fim de seu contrato com o Estado. A Assembléia

lugar desses brasileiros, “essa colônia que acabaria por constituir-se em Estado no Estado”, preferia ver a região ocupada por empresas estrangeiras, tal como registra:

estadual, liderada pela oposição, tenta impedir a prorrogação: mas esta é concedida até 1912, caindo finalmente em 1916. Diante desta situação e do perigo da invasão das terras devolutas por riograndenses,

..Ja proposta submetida pela referida empresa à deliberação da Assembléia, além de consultar altos interesses do Estado, tanto no

os Murtinhos sugerem que estas, ricas em mate nativo, sejam entre-

gues aos ingleses. Assim não haveria problemas e estes representariam estabilidade e segurança mútua”,

presente, como no futuro, conforme se demonstrou a meu ver ca-

do Estado, onde os adventícios tratam logo de ocupar terrenos

Em

querer gerar suspeita,

o estabelecimento

de

riam exploradas por uma companhia sucessora, organizada com capitais ingleses, pois as terras devolutas cedidas por compra ou arrendamento passariam a ser ocupadas pelo pessoal da sociedade anônima assim não estaria à mercê dos primeiros ocupantes na corrente

Mas vale lembrar que, mesmo antes da resolução legal do problema, os imigrantes do sul, contrariando o pensamento dos

|3 MURTINHO, nota

Manuel.

In:

ANDRADE,

Arlindo

de.

Erros de federação,

2, p.52;

|4 CARONE,

FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso, p, 603.

à penetração

junho de 1916, a preferência para aquisição de uma área nunca superior a 2 lotes de 3600 hectares cada um”,



12 CORRÊA

permeabilizando-a

abrindo

das dentro da área compreendida no contrato do arrendamento em vigor, será garantida dentro do prazo de 2 anos, a partir de 27 de

no Estado [...]. Daí a palpável conveniência de certos centros de resistência aquela perigosa expansão, o que proporcionaria muito empresas que se proponham fundar a Companhia Laranjeira, e se-

o governo garantiu o fim do monopólio,

A cada um dos ocupantes de terras de pastagens e de lavoura situa-

e extensão, toda aquela região, constituindo por assim dizer Estado

e sem

1915,

nova era à região dos ervais, dos pequenos proprietários:

devolutos pela facilidade que encontram o que faz parecer que, dentro de mais alguns anos essa colônia dominará, pelo seu numero

naturalmente

carta foi integralmente transcrita por Edgard

Carone, que analisou o vínculo entre classes dirigentes e capitalismo estrangeiro na Primeira República, realçando como “exem-

“um temeroso problema” que não poderia deixar de preocupar “a alta administração do Estado”: a imigração rio-grandense. Em

balmente, na exposição de motivos, que acompanhou, ainda viria facilitar a solução de um temeroso problema, que não pode deixar de preocupar a alta administração do Estado. Aludo à imigração tiograndense que, de dia a dia, vai se avolumando estendendo pelo Sul

57

OCUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIDNISMO NO SUL DE MATO GROSSO

15 CORRÊA

Edgard. A primeira República (1889-1930), p. 177. FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso, p. 605.

TD CC

68

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

políticos protetores da Companhia, iam firmando-se em um regime de ocupação à força, conforme demonstra Arlindo de Andrade. O certo, todavia, é que a não renovação de 1912, quando Manuel

Murtinho já era falecido, anulou, segundo o autor, a impertinência dos exploradores da erva-mate, redundando em conquista daqueles que se opuseram permanentemente

A propósito, Pedro ocupação do sul de Mato Laranjeira o retardamento

ao monopólio.

Ângelo da Rosa,

em

estudo

sobre a Grosso, computa à Companhia Mate do desenvolvimento da região, afir-

mando que: A sua zona de arrendamento, ultrapassava de muito a área que devia ocupar; constituía naqueles tempos um vasto monopólio, abrangendo os limites do atual município de Ponta Porã, até as margens do rio

Paraná. Sua longa ocupação muito entravou o povoamento do sul de

Mato Grosso!”.

O povoamento, mou

ainda que cerceado pela arrendatária, to-

impulso, como se pode observar pelos dados apresentados

por Virgílio Corrêa Filho. Segundo ele, em 1900, a população de Mato

Grosso

se 522.044,

era de

118.025

habitantes. Já em

contingente,

Desse

a população

1950,

contavam-

dos municípios

ervateiros era de 84.400, como observamos:

contribuiu para esse povoamento, ou “perigosa exsegundo Murtinho, foram os gaúchos, que passaram a

Quem punsão”,

ocupar a região ao tempo em que findara a guerra e se instalar: » “Império” de Laranjeira, Em crônica de 1935, o escritor gaúcho Mario Beck assim se referiu às levas de conterrâneos que iam se ando no sul de Mato Grosso, realçando o hábito comum entre eles é os da fronteira sul-mato-grossense de utilizar a erva-mate como

bebida:

climas, meios Ali encontraram os nossos coestaduanos, topografias,

largos enfim, análogos aos de sua terra natal, Os mesmos horizontes

das imensas campinas! A mesma sinuosa cadeia de coxilhas! Largas pastagens à criação do gado! E o chimarrão? Sem ele o gaúcho não se

aclimataria. Mas ali existem enormes ervais... E também a cuia espuao mando num amargo, foi mais um atilho que prendeu à guasca

chão da Nova Querência”, Quanto ao aspecto econômico, Paulo Cimó mostra que, mais apesar da maior difusão da pecuária bovina, à atividade produtiva

da NOB, era a rentável no sul de Mato Grosso, na época da construção

exploraçãoda erva-mate (...). De fato, dentre tados as produtos expor

a ervatados pelo Estado de Mato Grosso entre os anos de 1901 a 1911,

mate representou 9 de maior valor até o final de 1906 [...]'º. Hostilizados

como

intrusos, enfrentando

uma

política

favo-

O rável à Companhia, na medida em que o governo aumentava s raias preço das terras devolutas, muitos dos moradores daquela Compacolocaram-se abertamente contra o governo e contra a nhia. A sua forma de exploração monopolista e as suas ligações

MUNICÍPIOS

HABITANTES

Amambal

16.088

Beia Vista

16.643

com o governo estadual consistiram em fatores desestabilizadores

Dourados

22.894

Ponta Porã

19.997

no sul de Mato Grosso, intenções divisionistas.

Rio Brilhante

sea

FONTE: CORRÊA FILHO, Virgilio. História de Mato Grosso, p.552,

=

69

DE MATO GROSSO PUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIDNISMO NO SUL

E

|

16 ROSA, Pedro Ângelo da. Resenha histórica de Mato Grosso (fronteira com o Paraguai), p. 26-27.

gerando

as primeiras manifestações



emigrações rio-grandenses 17 BECK, Mario Lima. Nova Querência: crônica das História de Mato Grosso s. Rodrigue para Mato Grosso. Apud: BARBOSA, José

do Sul, p. 135-136. t8 QUEIROZ,

Paulo

Robero

Cimó.

Uma ferrovia entre dois putndos,

p.

415

70

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Todavia, apenas a Revolução de 1930 tomou as medidas cabais que provocaram a paulatina liquidação das suas propriedades, uma vez que Vargas desapropriou as insta lações de Guaíra e todo o serviço de navegação que a Mate Laran jeira mantinha no alto Paraná, acabando com o monopólio que subsistira durante décadas. Mas a Mate não se deu por vencida, No Rio de Janeiro,

em

1931, em

um

momento

em

que

emergia

mais uma

vez uma

atmosfera de prevenções contra o “Estado dentr o do Estado”, emitia o seguinte panfleto tentando explicar sua ação em Mato Gros-

so € insistindo na hostilidade contra os imigr antes na região que considerava exclusivamente sua:

Aliados a estrangeiros que, por lesarem os seus interesses, a Companhia se viu forçada a despedir elementos iocais que as ambições políticas, ou a cobiça dos ervais predispõem à todas as alianças, conceberem aqueles agitadores um plano audac ioso de assalto a esse patrimônio do Estado, confiado à nossa guard a; e para isso se constituíram em comitê organizando o Programa cuja execução se desen-

OCUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

71

plano audacioso de assalto a esse patrimônio do Estado” constituindo, para tal, em “comitê”? É desses supostos “agitadores” e de seus movimentos que “ necessário tratar, uma vez que neles residem os primeiros indícios, talvez a gênese da divisão de Mato Grosso. O Instituto

Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul já os consagrou como

heróis: João

Muzzi,

Bento Xavier e João

nas lutas armadas desmembramento ução

conjunta

Ferreira

Mascarenhas, João

Teixeira

Barros Cassal, Entretanto, envolvidos

entre coronéis, nem do sul do estado.

para colocar em

sempre se bateram

pelo

existiu, tampouco,

uma

Não

prática os ideais separatistas que

emergiam

de combates maiores, estaduais, der político. É comum também vê-los, ora primindo as manifestações divisionistas. atuação desses homens não chegou, em priorizar a divisão

Caetano

do estado

como

causa

pela disputa do podefendendo, ora reAlém de ambígua, a momento superior

algum, a às pelejas

volve, através de panfletos e avulsos injuri osos, tanto à Companhia,

armadas nas quais se envolviam,

so. É confortador, entretanto, verificar que, excetuados algumas se-

coronel do norte. O traço que historicamente os identifica é a luta pela posse das terras no sul de Mato Grosso, no início do século XX,

como contra vultos da história política é admin istrativa de Mato Grosnhoras e talvez menos de meia dúzia de matogrossenses, estes panfletos estão subscritos por filhos de outros estad os e até por estran-

geiros, faltando-lhes assim autoridade necessária para falar em nome de interesses fundamentais de Mato Grosso é tamb ém para increpar

à Companhia a participação de Capitais argentinos na propriedade de suas ações”,

Ora, a empresa, mais argentina do que brasileira, ousava acusar “os filhos de outros estados” que, por assim serem, não tinham “autoridade necessária para falar em nome de interesses fundamentais de Mato Grosso”! Mas quem seriam “aqueles agita-

dores” denunciados pela Companhia? Teriam eles realmente “um 1]

19 ANDRADE,

Arlindo de, Erros da federação,

p. 63-64.

defendendo esse ou aquele

De fato, tal disposição de ocupar terras devolutas, isto é, pertencentes

ao

Estado,

esbarrou

em

um

forte

obstáculo

e, por

isso, transformou-se, em muitos casos, em confronto declarado contra aquela que detinha o maior monopólio da região sul do estado. Especialmente a partir do momento em que a família Murtinho, poderosa oligarquia mato-grossense da época, se tornou sócia da empresa, colocando seus interesses particulares aci-

ma de tudo, as disputas entre proprietários do sul e a Companhia Mate Laranjeira passaram a ter a conotação de confrontos políticos. O documento que melhor ilustra o antagonismo de interesses ea proteção da Mate pelo governo estadual é a citada carta de Manuel Murtinho.



REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

x OCUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

para trabalhar e criar os filhos. Mas a Mate Laranjeira não quer pe

A indignação dirigida à “corrente imigratória rio-grandense” que, de fato, vinha ocupando a parte meridional de Mato Grosso, além da posse de terras, visava a combater um aspecto político. É que entre “os intrusos” se destacavam líderes políticos gaúchos que haviam se refugiado em terras mato-grossenses: Bento Xavier e João Barros Cassal, vistos pelo governo estadual da época como “agitadores”. Todavia, eles não iniciaram suas atividades políticas em Mato Grosso como separatistas, mas como pessoas que lutavam por terra. Decorrentes das dificuldades em obtê-la e dos conflitos com a Mate Laranjeira, surgiram as ideias de separar a parte sul de Mato Grosso. De fato, todas as obras que se referem a essa ocupação atribuem

ao

monopólio

as primeiras

desavenças

que

der, não

tos ocorridos no sul e a rejeição governamental aos rio-grandenses ao poderio econômico e político da empresa Mate Laranjeira. Os que ali chegavam “à procura de um cantinho para trabalhar é criar os filhos” eram rechaçados pelo monopólio, tal como desCreveu:

[..Ja Companhia Mate Laranjeira [...] havia caído nas mãos de Francisco Murtinho que se aliou a capitais argentinos, tornando-se dona

da metade do território devoluto do Sul do Estado, que abrangia diversos posseiros. Expulsou-os, cometendo violências e arbitrariedades [...]. Tomás Laranjeira, que antes conquistara com serviços a graça imperial, aliou-se aos políticos, aproximou-se dos Murtinho. [...] Eleito pela Constituinte assumiu o governo do Estado o Dr. Manoel José Murtinho. A presidência da Companhia passou então para Francisco Murtinho. Em três anos apenas, entregou o Dr. Manoel a seu irmão Francisco por arrendamento, mais de mil léguas. |...)

só os seus ervaiís, mas também

os campos,

os verdes e

macios campos de Dourados do Santa Maria e do Brilhante, Era preciso conter aqueles que, não mais eram paraguaios, mas brasi-

leiros [...]. Era preciso contê-los. Surgiu a necessidade de estender o arrendamento |...) cortando assim aos caravaneiros rio-grandenses à posse [...]. Graças a Francisco Murtinho, aqueles políticos não que-

riam, é não viam com bons olhos a prosperidade do sul de Mato Grosso [...]. Preferia o grande Ministro de Campos Sales, ver o sul de

Mato Grosso cheio de paraguaios é bolivianos a vê-los com sulriograndenses. [..] A Empresa impunha tudo ao Estado, inclusive à esbulho de antigas posses, a anulação de títulos de venda [...). Enxotar o posseiro, queimar-lhe o rancho, perseguí-lo, atemorizá-lo, matá-lo no caso de resistência, a êle é aos seus, anular títulos de

redunda-

ram em divisionismo. É o caso de Emílio Garcia Barbosa, cujo livro Os Barbosas em Mato Grosso relaciona diretamente os confli-

29 ré!

fe 5 e [...].Bo aa fazer se obrigou venda, eis o que o Estado

Insuflados, ora pela Companhia, ora pelas oligarquias do norte, os chefes políticos do sul não se uniram para deflagrar um movimento em favor da divisão do estado. Por isso, as acusações

da Mate Laranjeira são exageradas no que se refere à formação de “comitê”, Aqueles que poderiam vir a ser os líderes do separatismo andavam sempre às turras uns contra os outros, a favor dessa ou daquela agremiação em disputa na capital, Por essa razão, Hildebrando Campestrini em A saga da divisão assim se pronuncia a respeito do vínculo entre divisionismo e práticas pofíticas dominantes: “Instala-se, vagoroso e irreversível, o espírito

divisionista, estimulado pelo latifúndio, pelo coronelismo, pelas nascentes oligarquias”? Q divisionismo foi gerado no ambiente político instável da primeira República (1889-1930) marcado pelas práticas coronelistas. Por isso, convém relacioná-lo ao fenômeno geral

Veio a lei de 17 de novembro de 1892 impedindo veladamente

da época.

que o colono ali se estabelecesse. Com à Revolução no Rio Grande do Sul, engrossa à caudal imigratório, que atravessa a Argentina, o Paraguai e brota, faminta de brasilidade, à procura de um cantinho

20 BARBOSA, 21

Emílio G. Os Barbosas em Mato Grosso, p. 52-54,

CAMPESTRINI,

Hildebrando.

A saga da

divisão,

p.

10.

REGIONALISMO E DIVISIDNISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Coronelismo e luta armada no início da República

blica,

demonstrando

que,

embora

a

sujeita ao mando

patente

de

coronel

correspondesse a um comando municipal ou regional outorgada pela Guarda Nacional, criada em 1831 para substituir as milícias e ordenanças do período colonial, a prática política conhecida como coronelismo foi uma característica do primeiro período republicano e não do Império. Maria Isaura Pereira de Queiroz, em importante análise sociológica, também faz notar a surpresa dos republicanos históricos, quase imediatamente à proclamação da República, com a persistência desse sistema, que julgavam ter anulado com a modificação do processo eleitoral. A Constituição de 1891, ao conceder o direito de voto à todo cidadão brasileiro, desde que alfabetizado, restringira as barreiras econômicas e políticas que impediam o referido direito, embora

excluísse grandes

contingentes

ao vincular tal di-

reito à escolaridade, que era baixíssima na época. Representou avanço,

portanto,

se compararmos

mostra, ainda, que além de ter aumentado

autora

No clássico Coronelismo, enxada e voto, Victor Nunes Leal busca as origens das relações predominantes na primeira Repú-

essa Carta com

a primeira, a

de 1824, que vinculava o direito de voto a uma determinada posse de bens, além de já estar excluída desse direito a populacão escrava, uma vez que a independência política ocorreu sem que esse traço estrutural da nossa formação histórica fosse rom-

pido.

Entretanto, ao aumentar a base eleitoral sem alterar as condições materiais de vida das populações rurais, deixou-as à mercê do mandonismo dos chefes locais que, além disso, passaram a dispor de maior número de eleitores para lhes obedecer, A manutenção da mesma estrutura econômica do Império é a razão que explica a persistência das práticas políticas coronelistas, com o advento da República, em maior escala que antes. A

15

OCUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Para

dos coronéis,

a base eleitoral

ela lhes era totalmente

demonstrar sua tese, Maria Isaura

Pereira

fiel,

de Queiroz

afirma que, à época, a pergunta “quem é você” recebia invariavelmente a resposta “sou gente do coronel Fulano"2, Para ela, O termo “gente” indicava três situações. Em primeiro lugar, que não

se tratava de pessoa do mesmo nível do coronel ou de sua família: tratava-se de indivíduo de nível inferior. Em segundo lugar, a ligação “com o coronel Fulano”

revelava logo a posição deste, se

de apoio ou de oposição ao poder local ou regional, isto é, a atitude dos coronéis era sempre explícita, Em terceiro lugar, as pessoas que eram apaniguadas de um determinado coronel também esposavam suas alianças e inimizades, colocando-se, portanto, Como aliados ou opositores de outros coronéis. Concordando com Victor Nunes Leal, a autora afirma que:

Integrante de uma elite controladora do poder econômico, político e social no país, - integrante portanto de uma oligarquia para utilizar o

termo apropriado, - tem sido o “coronel” definido principalmente pelas suas características políticas?

Adverte, contudo, que reduzir o fenômeno à sua dimensão exclusivamente política seria mutilar um conjunto complexo de fatores.

De

fato,

deve-se

atentar

também

para

as suas

bases

econômicas. Em uma estrutura social profundamente hierarquizada como era a sociedade escravista, as patentes traduziam o prestigio real dos grandes proprietários de terra, uma vez que raramente o ltulo era concedido a alguém que não pertencesse a essa classe, a detentora dos privilégios econômicos e sociais. 22 QUEIROZ,

M. Isaura Pereira de. O coronelismo numa interpretação sociolo da Civilização Brasileira. Tomo

1

23 QUEIROZ, M. Isaura Pereira de. O coronelismo numa interpretação soci giea. In: FAUSTO, Boris. (org). História Geral da Civilização Brasileira, tomo O Brasil Republicano, p. 157,

ló HH

gicu. In: FAUSTO,

Boris.Corg) História Geral

O Brasil Republicano,

p.156.

r6

REGIDNALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO.

Inicialmente, a patente coincidia com um comando efetivo

neconhecida pela Regência (1831-1840) para a defesa das inétita ções. Mas, pouco a pouco, passaram a ter um valor em ig Foncedidas a quem pagasse o preço estipulado pelo poder público. Assim,

desde

logo,

o tratamento

de

coronel

começou

a sa

empregado pelos sertanejos a todo e qualquer chefe político. A esse respeito, Maria Isaura Pereira de Queiroz afirma que, de de proclamada a República, a denominação de coronel dio e era outorgada espontaneamente pela população àqueles o areciam deter em suas mãos grandes parcelas do poder econô A e político, Ni Igualmente, Victor Nunes Leal chama a atenção para o fato de que ao interior do Brasil, até pelo menos a década de 1940

quem ão

fosse diplomado por alguma escola superior de ande

conquistasse

o título de “doutor”

gozaria,

fatalmente,

no julga-

mento popular, das honras de “coronel”. O costume vinha de longe. No fim do século XVIII, até mesmo intelectuais acetato o tratamento, como se lê: Uia das mais indeléveis figuras da nossa história e das nossas letras nas de Alvarenga Peixoto, tornou-se mais conhecido eli sm to miliciano que aceitara do que pelo tratamento oriundo do seu grau acadêmico passando a ser simplesmente “o coronel Alvarenga”?

Uma vez instituída a Guarda Nacional, em 1831, o posto de coronel passou a ser concedido ao chefe político da comuna

Durante quase um século usufruíram eles das prerrogativas do cargo, por exemplo, não serem presos em cárceres comuns, caso Pandenanes, Com o traje militar de que dispunham, asteri as insígnias do posto para o qual eram designados e a mar-

in tanto para as ações bélicas como para as solenidades religiosas e profanas de sua terra natal. Segundo Nunes Leal, eram sempre os mais opulentos fazendeiros ou Os psertánios e in-

NO SUL DE MATO GROSSO DOUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIONISMO

em cada município, “O dustriais mais abastados os que exerciam,

nal, ao mesmo tempo em comando-em-chefe da Guarda Nacio , senão patriarcal, que lhes que a direção política, quase ditatorial confiava o govemo provincial” e

na história do Brasil Aliás, à existência de forte poder local

sua Cultura e opulência do Brajá cra registrada por Antonil em

or de engenho é título a que sil, quando afirmou que “o ser senh o ser servido, obedecido e muitos aspiram, porque traz consigo ha] respeitado de muitos eis à tríade que “Ser servido, obedecido e respeitado”: nos primórdios da Repúpoderia definir o P restígio dos coronéis ão para quem estuda a blica. O fenômeno de imediata observaç

vida política no interior do Brasil,

Victor Nunes,

Corqnelismo,

enxada e voto, p. 20,

insiste Victor Nunes

Leal, é O

a para o fato de não constituir malsinado coron elismo. Mas alert mentação referente a um fenômeno simples. No es tudo dé docu entretanto, a algumas concluregiões diversas do país, chegou, primeiro lugar, mostra que O sões que se aplic am ao conjunto. Em de formas desenvolvidas do regime coronelismo é a superposição da. estrutura econômica é social inadequa

representativo a uma poder privado típico da Em vez da simples sobrevivência do colônia:

do poder privado, ou É antes uma forma peculiar de manifestação o resíduos do nosso antig seja, uma adaptação em virtude da qual os

eguido coexistir com UM regie exorbitante poder privado têm cons

. me político de extensa base representativa” privado, a tendência, Apesar dessa manifestação de poder fortalecimento do poder pújá na República, foi o progressivo — ww smo, enxada e voto, p. 21. 25 LEAL, Victor Nunes. Coroneli

Regi opulência do Brasil, In: TUCA, Tania 26 ANTONIL, André João. Cultura e , ntel Colo l Brasi do os na

de;

p. 82-83. 24 LEAL,

77

INÁCIO,

Inês

da

Conceição.

Document

enxada e voto, p. 20, 27 LEAL, Victor Nunes, Coronetismo,

78

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

blico enquanto que a influência social dos chefes locais aa dos proprietários de terras, diminui. O titan então, é fenômeno que não se dissocia da estrutura agrária HE fornece a base de sustentação das manifestações de dr na vado; Não podendo prescindir do eleitorado rural, em di regime representativo, o próprio poder público, eniretanto alimenta esses resíduos de privatismo & & desse rip Overno-poder privado) que resultam, segundo Victor Nunes e as

características

secundárias

do

coronelismo,

entre

outras

5

mandonismo, o filhotismo, o falseamento do voto. à d ani zação dos serviços públicos locais. CEM a ascendência dos coronéis resultava da sua qualidade de

proprietário rural. Uma vez que os trabalhadores de suas fazendas viviam em estado de extrema pobreza, ignorância e aliando

no, O eironel geralmente era visto como um benfeitor e é Et casa razão que, nas pelejas políticas, sempre exacerbadas em

época de eleição, eles lutavam com o coronel e pelo e Os votos de cabresto resultavam, em parte, dessa copia

21 ; |

rural. O grau de dependência daí oriundo deve ser baço do evameli-ãe em conta que, para manter a sua liderança, o cor !

nel tinha necessidade de se apresentar como campeão da rislho

amentos locais, senão para contentar os amigos sl RE e para silenciar os adversários. Ele se tornava uma o de e vogado de interesses locais"*. Para entender is ps ato tos armados que eclodem em tempos de eleição é sara dei mente que para o coronel, em política, “só há uma versrgonha: it À |

O paternalismo, por sua vez, manifestava-se com a sua reciproca: negar pão e água ao adversário. A convocação de 28 SOBRINHO,

Barbosa

enxada e voto, p. XV.

20 LRAL, cia

Vietor

Nune

Lima. Prefácio. In: LEAL.

lismnta,

a

Victor Nunes.

Coronclismo, r

ag Nunes. Chporte erxecd evoio p. 39. Para ilustra à tese à (tesead e a,re nã “só há umastra eir l, em polític r. - se Segundo à qualjp;para O corone

ISMO NO SUL DE MATO GROSSO OCUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISION

rg

dinheiro, agregados para a arena política local e à utilização de rais bens e serviços do governo municipaí nas batalhas eleito

cuja face mais constituía o que o autor chama de filhotismo, na perseguição conhecida é o mandonismo. Este se expressava para Os inimigos sistemática aos opositores: “Para os amigos pão,

justiça, aos pau”, ou, como também se dizia, “aos amigos se faz inimigos se aplica a lei”. o da Além dessas características, chama a atenção o aspect

Isaura P. de origem da estrutura coronelística explicado por Maria

um chefe de Queiroz. Ela sustenta que um coronel era também extensa parentela.

O termo ultrapassa O de “família grande”

e,

a sua embora menos utilizado no Brasil, é o que melhor reflete realidade: de parentesco de Entendemos por 'parentela' brasileira um grupo s famílias gransangue formado por várias famílias nucleares e alguma ), vivendo cada des (isto é, que ultrapassam, o grupo pai-mãe-filhos independentes; ente qual em sua moradia, regra geral economicam

distâncias umas as famílias podem se encontrar dispersas à grandes ade dos das outras; o afastamento geográfico não quebra à vitalid laços, ou das obrigações recíprocas”.

a autora, Além de grupo econômico, a parentela, segundo

em Mato Grosso, era um grupo político. O fenômeno acontecia por muito tempo O onde grupos assim constituídos dominaram = ade por meio de uma perder”, é curioso notar os resquícios dessa mentalid s da Silva (TB), Rodrigue Orensy a-SP, matéria tratando do prefeito de Andradin nas político, último colocado fazendeiro, que 4pós a derrota de seu afilhado do prazo legal por se conantes cargo eleições municipais de 1996, deixou o

e fumando charuto, típica siderar humilhado. A fotografia mostra-o de chapéu eleitoral faz prefeito re imagem dos coronéis do passado. Conferir: Derrota 3. p: €, nunciat. O Estado de São Paulo, caderno 30 LEAL, Victor Nunes,

Coronelismo, enxada e voto, p. 39.

smo numa interpretação sociolo 31 QUEIROZ, M. Isaura Pereira de. O coroneli Civilização Brasileira. tomo TH da Boris(org.) História Geral

gica. In: FAUSTO,

O Brasil Republicano, p. 165.

80

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

poder político no estado. Quando não contavam com extensa base de parentesco não conseguiam conquistar hegemonia. Não é por acaso que a autora reproduz o seguinte depoimento do coronel Antonio

Francisco Azeredo”,

senador,

e um

dos

chefes

políticos mais importantes de Mato Grosso da Primeira República,

que

estado:

assim “Fizeste

dissera muito

a Euclides bem,

Malta,

Euclides,

chefe só

político

elegendo

os

de

outro

teus.

Eu

como não tenho parentes, cada um que mando para o nao de Mato Grosso é um traidor"?. | Foi com a Revolução de 1930 que o sistéma coronelista começou a ser desarticulado, pois um de seus objetivos era exatamente desmontar a máquina política da Primeira República Ena

a

raízes estavam

entrelaçadas nas situações municipais. Toda-

GROSSO OCUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIONISMO NO SUL DE MATO

Foi elemento crescia pela falta de união dos outros, e à lei era o 44. o pior tempo da fronteira guarani de após-guerra”.

A expressão “a lei era o 44” confirma-se num contexto em e que, de fato, as divergências políticas, as disputas pela terra tos pelo poder estadual resolviam-se, muitas vezes, nos confron

armados, na destruição das propriedades dos adversários e no extermínio físico de líderes das facções opostas. Uma outra face do fenômeno é relatada por Paulo Coelho Machado

a emergência do bandoleirismo e, em contrapartida, do dado à coronelismo, dos caudilhos inconformados com o tratamento stas autonomi lutas as isso Por região por alguns governantes cuiabanos. os de e que se travaram em vários períodos e a necessidade constant es políticos se escudarem em homens de confiança para as frequent pela Grosso, Mato pelejas. Assim nasceu o coronelismo no sul de Daí

em algumas regiões mais que em outras.

De qualquer forma, o panorama histórico no qual transcorreram os confrontos armados e as primeiras manifestações pela divisão de Mato Grosso foi o do coronelismo na medida em que tais lutas se situaram cronologicamente entre o fim do século XIX e a década de 1910. Não é, pois, de estranhar que o autor mato-

grossense Emílio Garcia Barbosa tenha concluído que durante esse período “a lei era o 44”. Assim escreveu ele sobre a violência que marcava a época: As famílias fronteiriças continuaram divididas, a solidariedade desejada não existia, sofriam assim todos os prejuízos da fraqueza. O mau 32 Antonio Francisco Azeredo, nascido em Cuiabá em 1861 e falecido no Ri de Janeiro em 1936, Foi senador por mais de 40 anos: empossado resitle E do Senado em 1915, posto que exerceu durante 15 anos é nado 4 dá

colher a Revolução de 1930 que, dissolvendo o Congresso e tou di

no e Br dl 1 sil

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ditatorial”. “ |

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GaleEra

dos

tar Des

em A rua velha, referindo-se ao coronelismo no sul do

estado como fenômeno engendrado em consequência da omissão do poder estadual, especialmente em relação aos problemas de segurança, conforme escreveu:

isso não se deu de forma regular. Permaneceram seus resqui-

cios e métodos,

insensível ação estadual ou nacional sobre a região?.

Dessa forma, o processo político em Mato Grosso, no início

da Primeira República (1889-1930), não difere muito do que acon-

tece nos demais estados da federação. Especialista no tema, Edgard levou Carone chamou a atenção para a dispersão geográfica que

ao nascimento de poderes locais na formação histórica brasileira. No

começo

da era republicana,

os poderes

locais parecem

33 QUEIROZ, M. Isaura Pereira de. O coronelismo numa interpretação socioló-

ter

atingido seu ponto alto, como demonstra à hegemonia de certos grupos em diferentes estados. Segundo ele, o povoamento despermitiu centralizado, aliado à formação da grande propriedade,

o fortalecimento de um sistema baseado nos domínios familiares

ilusASÍres S cdi E

gica, In: FAUSTO, Boris (org.) História Geral da Civilização Brasileira. tomo II O Brasil Republicano, p. 167, E

81

34 BARBOSA, Emílio G. Os Barbosas em Mato Grosso, p. 56. 35 MACHADO, Paulo Coelho. A rua velha, p. 168,

82

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Sds sist a

Ea ua que substitu i parcialmente O vácuo dei xado pela ação

Assim, coronelismo € oligar quias são fenômenos típi cos desse período histórico. A inexistência de condições déii cenáid!

cas em uma república baseada no voto aberto faz o publ

ue a

k

ica, coisa pública, transform e-se facilmente em es: € ai da, ou melhor, na apropriaç ão do público por interesses e, dos. Desse modo, a fragilidade dos poderes centrais — am federal — permite à formação de lideranças que, na verdad e pd presente a continuidade de um “exorbitante poder prad o ny dizer ae Victor Nunes Leal %, Assim, predominam at E hegemônicos, que se alojam no poder, de maneira PE cl violenta

. Coronelismo e oligarquia são os traços gerais do j Ê entre realidade e sistema jurídico, formas pragmátic as e as cons

titucional. Essa dicotomia, segundo Carone, foi A pela Constituição de 1891, que não passou de cópia de mod elos estrangeiros, sem refletir a noss a problemática. Quando a real idade se imp

ôs, Campos Sales (1898-1902) não titubéou

em oficializar a Piada política dos gov ernadores. Sobre esse aspect o que e O fnício da história republica na, escreveu Vietor Nunes A dualidade é norma fundamental da sociedade brasileira, pois, num país onde imperam

descentralização geográfica e ile

ms fode iii impossível o funcionam ento de formas representativas Gia dernas. Daí o uso da força, o domí nio do mais forte apesar do siste

ma eleitoral e jurídico”, O

cas

at aso de E Mato sbec i ti especialmente quando

interior, em

a

RE

Grosso enquadra-se io

na análise do autor

se observa que a ação dos coro | néis no

virtude do isolamento

geográfico,

1

revelava -Lel interes q-

OCUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

ses restritos à classe latifundiária, já que a maior parte da populacão vivia à margem da vida política. Aliás, para Carone, a histó-

ria política desse período é a representação do domínio

daCARONE, 57

o d. Edgar

epuública A Repiib lica

Velha. V,

p:8

11 evolução d

política

(1889-1930),

das

classes agrárias, expressa por meio de lideranças restritas. Em um contexto em que o domínio político agrário se sobrepõe ao fenômeno urbano, as divergências são entre os próprios agrários e não entre estes € as representações urbanas.

O que se percebe é que as dissensões refletem lutas pelo poder e não posições

antagônicas

entre

as facções

atritos entre as lideranças territoriais levavam, confronto armado.

Em Mato

Grosso,

oligárquicas.

Os

muitas

ao

geralmente,

vezes,

os chefes des-

sas pelejas, em nome de uma causa restrita, mobilizavam forças em todo o estado com o intuito de derrubar o grupo dirigente, desencadeando imediata reação de forças contrárias em defesa do poder estabelecido. Foi assim em diversos movimentos denominados pelos seus próprios líderes de “revoluções”, que não passaram de choques armados entre grupos rivais pelo domínio

do poder estadual. O caso imais emblemático talvez tenha sido o confronto, em 1906, entre forças armadas de Generoso Ponce e Antonio Paes de Barros, mais conhecido por Totó Paes, dois legendários coronéis mato-grossenses. Na série de “revoluções” ocorridas desde o final do século XIX, esta foi a primeira vez em que o governo federal interveio, apoiando o presidente do estado, Totó Paes. Entretanto, iniciada em Corumbá, onde Ponce possuía casa comercial, a luta colocou Totó Paes em situação desvantajosa,

obrigando-o a abandonar Cuiabá. Cercado, foi assassinado nas cercanias da capital, mais precisamente em Coxipó do Ouro. A criação de forças armadas e as consequentes lutas entre si ou contra

36 LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voo

Ba

os governos

constituídos

são fenômenos

constantes

e

representativos do coronelismo. De norte a sul do país, do início ao fim desse período, os coronéis mantêm tropas para combates

e afirmação de seu poderio. Em quase todos os casos, as lutas,

84

REGIONALISMO

deposições e até extermínio

E DIVISIONISMO

NO

físico dos adversários

SUL DE

MATO

GROSSO

ocorrem

à re-

OCUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Poder político, coronelismo

velia do governo federal, como foi o verifi cado em Mato Grosso Mesmo nesse enfrentamento, o mais dramát ico da Época, (6) ae

vemo central não foi capaz de impedir a morte do presidente

Totó Paes. O episódio não passou despercebido por Carone:

ai ações armadas se fazem com a simpatia OU oposição do governo federal, mas o que as caracteriza é a afirmação do direito de rebeldia e o reconhecimento dos rebeldes como entidade jurídica autônoma Quando vitoriosos, os movimentos são logo recon hecidos como Fã tos concretos, e o governo federal sanciona é recon hece o novo 8rupo no poder: quando o General Dantas Barret o chega a Cuiabá

em

1906, Totó Paes

tinha

sido assassinado,

e o novo governo

formado pela oposição vitoriosa ; Rodrigues Alves nada pôde fazer, nem mesmo impor outro governo ou castigar os rebeldes”.

Além da vitória sobre Totó Paes, Generoso Ponce também protagonizou lutas contra os Murtinho. Inicialmen te seu aliado na chamada “revolução de 1892”, Ponce abriu dissidência nas

eleições de 1899, impondo candidato com O qual não concorda-

vam os Murtinho. Do confronto, venceram esses últimos. O ciclo das lutas armadas, extermínio físico de oponentes € aniquilamento de suas propriedades, termina em Mato

Grosso, na década seguinte, após uma

série de embates,

co-

nhecidos por cacianada, que destituíram o presidente do estã

do, general Caetano Manoel Albuquerque. Duran te o conflito

a Assembléia Legislativa passou à funcionar em Corn e condeneu o presidente Caetano à perda do cargo. Para pie fim à luta, o presidente da República Wence slau Bráz impôs um

acordo

por meio

Grosso,

em

do qual

nomeava

outro presidente

para Mato

1917.

é

85

e domínio de famílias em Mato Grosso Nas obras do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Gros-

so é fácil perceber que determinadas famílias dominaram o cenário político estadual, confirmando a interpretação já citada sobre o fortalecimento de um sistema baseado nos domínios familiares.

A propósito, é oportuno observar a afirmação de Rubens de Mendonça sobre à eleição estadual de 1891 e o “governo de então, que se empenhou de uma família”:

em submeter Mato Grosso ao domínio

Dessa pretensa eleição nasceu o novo Congresso que a 15 de agos-

to elegeu para o cargo de presidente do Estado o bacharel Manoel José Murtinho e este, graças ao governo de então, que se empe-

nhou por submeter Mato Grosso ao domínio de uma família, recebeu no dia seguinte das mãos do ex-governador Coronel Mallet as rédeas da suprema administração desta remota parte do território

nacional”.

Apesar de Mato Grosso ter sido submetido ao “domínio de uma família”, que para defender o monopólio da Mate Laranjeira provocou

uma

série de conflitos no sul do estado, o historiador

Estevão de Mendonça em Datas mato-grossenses aplaude a sua ação à frente dos negócios públicos: Na suprema direção do Estado, como seu primeiro presidente constitucional, a sua ação foi ditada pelo saber, prudência, moderação e exata distribuição da justiça, criando a atmosfera de paz, sossego e prosperidade a cuja sombra se contam os dias mais felizes de Mato

Grosso, depois de instituído o regime republicano".

Provavelmente, os “dias mais felizes de Mato Grosso” não incluíam os acontecimentos relativos à ocupação do sul do esta

do, tema, aliás, ausente da obra. Mas não é unânime o julgamen 38 CARONE,

Edgard.

(1889-1930), p. 257.

A República

Velha - | instituições e classes sociais

39 MENDONÇA, 40 MENDONÇA,

Rubens de. História das revoluções em Mato Grosso, p. b4 Estevão de, Datas mato-grossenses. v 1. p. 197.

86

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

to positivo sobre o poder da família Murtinho. Rubens de Mendonça, após analisar as “revoluções” da época, atribui a ela à responsabilidade pelos desmandos em Mato Grosso e pelas mortes de “milhares de pessoas”, Dos episódios de 1892 ao assa de Totó Paes em 1906, concluiu que “nasceram da desmedida ambição de mando dos Murtinhos”, conforme leram: Todas essas revoluções havidas em Mato Grosso nasceram da desmedida ambição de mando dos Murtinhos. Joaqu im Murtinho o quem tenho grande admiração, o grande Ministro da Fazenda Rodo dor pas nossas finanças foi inegavelmente um grande inssileiro mas ui pesos mato-grossense. À Ele e à sua família se devem as re luções em Mato Grosso, onde morreram inutilmente milhares de pessoas”,

|

E surpreendente a distinção que o autor estabelece entre o ande brasileiro” e o “péssimo mato-grossense” que foi Joauia Murtinho. Prosseguindo seu exame, diverge da maioria dos historiadores, para quem essa família foi a grande benfentór dé

Mato

Grosso,

enquanto

Totó Paes, um

tirano, déspota é incapaz

de exercer o poder. Mendonça pondera para o exagero das imputações, considerando que ele não era “santi nho” porém

não

era também

“um

Nero,

um

ganda", O cenário, portanto, era Os combates, cercos às forças de chefes políticos evidenciam passou a expressar o governo

monstro”,

como

quer “a|

ação de uma oligarquia - que pode ser familiar ou identificada com uma pessoa que não governa, mas que a regula” *. Relacionando os estados dessa “geografia oligárquica”, o autor ressalta o predomínio,

em Mato Grosso,

dos Murtinho e de

Ponce, mas tem o cuidado de mapear os condomínios territoriais dos diversos coronéis que, segundo

ele, assim se dividiam:

[...] os Paes de Barros dominam Itaici; os Borges, Rosário; os Mendes, Diamantino; os Caldas, Chapada; os Machados, Brotas; os Souzas, São Luís de Cáceres: Antônio Joaquim Malheiro, a maior fortuna do Estado,

Corumbá;

os

Ribeiros,

Poconé;

os Castros,

Santana

do

Paranaíba; os Almeidas, Barra dos Bugres; os Mascarenhas, o Sul do Estado etc .*. Notamos,

assim,

a referência

aos

Souzas,

antepassados

de

Lúdio Martins Coelho, que dominavam São Luís de Cáceres, bem como aos Mascarenhas como famílias hegemônicas no “Sul do Estado”, evidenciando que os anseios separatistas nasceram no seio da classe latifundiária. Dela provinha João Mascarenhas, considerado um dos “heróis” da divisão. Aliado de Generoso Ponce no sul do estado, chegou a ser vice-presidente de Mato Grosso. Combateu

ao lado de Ponce em todos os movimentos armados entre chefes -

Ê

marcado inimigas, que no baseado

B7

OCUPAÇÃO, MONOPÓLIO E GÊNESE DO DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

a pelo som do bacamarte deposições e assassinatos Brasil o termo eira na estrutura familiar patri-

arcal, conforme estudou Carone. Para ele, na “geogr afia das oliennquias” na qual em alguns estados relacionavam-se “fenômeno

oligárquico e sistema partidário”, Mato Grosso se snicáista melhor na “maioria dos casos em que O poder se manif esta através da

políticos da época.

Mas também Muzzi, outro “divisionista”, mato-

grossense e morador da Vacaria, segundo relata Paulo Coelho Machado, era um dos dois maiores proprietários de terras em Nioaque:

o outro era o avô materno do próprio autor”. Nos capítulos posteriores teremos oportunidade de relacionar um pouco mais a proeminência de algumas famílias com a

causa divisionista até a década de 1970,

43 CARONE, Edgard. A República velha. 1 instituições e classes sociais, p. 277. 44 CARONE, Edgard, A República velha. 1 instituições e classes sociais,

p 265-266.

41 MENDONÇA, ga 42 MENDONÇA,

DO

Rubens de. História deis revoluções em Mato Grosso aup. 111 . Rubens de. História das revo iuções em Mato Grosso,

TRóõú

45 Ver, a respeito, A rua velha, na qual o autor relata a forma de ocupação de

sul de Mato Grosso pelas famílias “pioneiras”, seus vínculos com a lerra € suis atividades políticas. Esses temas encontram-se bem detalhados na trilogia ch

Paulo Coelho Machado: A rua velha, A rua Barão e A rua principal.

Capítulo 3 O

O separatismo nos

tempos do bacamarte: as pelejas de João Mascarenhas, João Teixeira Muzzi, Bento Xavier e João Barros Cassal

m Mato Grosso, de modo geral, os embates e disputas à pelo poder político nasciam em Cuiabá onde, até o início de século XX, eram forjadas as lideranças regionais mais tradicionais. Distanciado

desses

acontecimentos, o sul aparece

no

cenário litigioso apenas como suporte desse ou daquele grupo, quando os chefes políticos arregimentavam aliados em um ou outro ponto dessa região do território mato-grossense, Desse

modo, o sul não integrou diretamente o ciclo de confrontos armados entre chefes e famílias tradicionais pelo controle do poder em Cuiabá. As lutas armadas no sul, considerando a sua formação histórica, assumiram três conotações: a de posse pela terra; a de oposição aos grupos dirigentes nortistas e a de sepa-

ração dessa parte do território do restante do estado. Os contflitos coronelísticos anteriormente referidos só fizeram acentuar o regionalismo

que, no

princípio,

era de razão mais geográfica

do que política. A bandeira separatista, contudo, não nasceu como

da comum

deman-

de todos os movimentos ocorrídos no sul a partir do

90

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

final do século XIX. Finalizada a Guerra da Trípli ce Aliança e iniciada a migração gaúcha, quando ali eclodiram OS primeiros confrontos, O traço comum a todos eles é a luta pela posse da

terra.

Assim,

enquanto

no norte

se sucediam

as contendas

entre

chefes políticos pelo domínio do poder estadual, no sul, a demanda pela terra constituiu o fator de maior tensão € eilEndãa durante a Primeira República (1889-1930). Foi nesse ambiente que as primeiras manifestações divisionistas eclodiram e é delas que passaremos

a tratar.

JNEPARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

Caetano de Albuquerque, sempre propenso a discursos, começa a

falar, Intima o mandatário, “em nome do povo, a deixar o alto posto”. O Presidente o interrompe: 'Povo não, só vejo soldados”. E, dizem testemunhas, que, continuando muito inflamada a oração do major, novamente o atalha Manuel Murtinho: "Não posso ouvi-lo, porquanto está se tornando impertinenti'. E não espera o fim da arenga; passa a outra sala!,

Pelo retorno de Manuel Murtinho ao comando do governo estadual, Generoso Ponce contou, no sul, com as forças de João Ferreira

1892

O primeiro movimento a expressar ideias separatistas no sul de Mato Grosso foi o de 1892, que propôs a separação de Mato Grosso da federação brasileira, No contexto das contendas

entre coronéis,

esta opôs tropas de Antônio Maria Coelho

as do vice-presidente Generoso Ponce,

conira

que se batia pela manu-

tenção do presidente Manuel Murtinho no cargo, enquan to aquele apoiava os que o derrubara. Os episódios da “revol ução de 1892”

constituíram,

na verdade,

uma

tentativa

de substituir a chefia do

Sovemno por um membro da oposição, isto é, do Partido Nacional, adversário do Republicano. O movimento tedundóu em arregimentação de forças ligadas a Ponce, em todo o estado, em prol da legalidade e em oposição às conspirações súlhigas no sul. | Na parte meridional do estado, especialmente em Nioaque Miranda e Corumbá, os contrários a ele foram liderados dela coronel João da Silva Barbosa que, com seus rebela dos. chegou a depor o presidente Murtinho. Na obra Generoso Ponce um chefe, o autor relata como a comissão de oficiais , Endibacada

pelo major e deputado Caetano de Albuquerque, entrou na tesi-

dência presidencial

Mascarenhas,

Augusto

Ferreira

Mascarenhas,

Manoel

Antônio de Barros, João Alves Ribeiro e Estevão Corrêa, famílias ainda hoje detentoras de grandes propriedades rurais, como Alves Ribeiro (Aquidauana) e Barros (Corumbá). No desenrolar do confronto surgiu a ideia, aliás, frustrada, de separar Mato Grosso da

João Mascarenhas combate a formação do “Estado Livre de Mato Grosso” em

91

para depor o presidente:

|

loderação brasileira, O que chama a atenção, todavia, é que a separação pleiteada por parte dos revoltosos contrários a Generoso Ponce, reunidos em Corumbá, não dizia respeito ao “sul” do estado, mas sim a “todo” o estado de Mato Grosso, que deveria desmembrar-se do Brasil juntando-se às Repúblicas do Prata! Após terem impedido

o desembarque, em Corumbá, do general Luis Henrique de Oliveira Eubank, que, a mando do marechal Floriano Peixoto iria assumir'o comando do 7º Distrito Militar, o chefe da tropa rebelada, coronel João da Silva Barbosa, contrário àquela autoridade, reuniu seus comandados para se assentar nas medidas “que deviam ser tomadas ante o procedimento do governo federal querendo impor um governador para este Estado quando ele já estava sendo dirigido pelo vice-governador”*. Na referida reunião foi proposta a separação de Mato Grosso,

medida não aceita pela maioria dos rebeldes, que já pensavam em voltar atrás na decisão de não permitirem o desembarque do | PONCE FILHO, Generoso. Generoso Ponce, um chefe, p. 90,

2 INTENDÊNCIA de Corumbá. Ata de 1892. Apud: PALERMO, Miguel À. Nioene: evolução política e revolução de Mato Grosso, p. 96.



TE

ge

2

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

general. A ata da reunião dos revoltosos, que, aliás, não chegaram a um acordo, registra: [..J no estado atual das cousas só havia dois caminhos a seguir para

sair-se da dificuldade, um mandar dizer ao general Ewbank que aquilo tinha sido brincadeira e que podia vir tomar conta e outro prepa-

rar-se para resistir a todo transe porque não devíamos esperar da parte do governo senão medidas enérgicas, A algumas objeções de

que não havia meios de resistência, declarou que meios havia e que o principal era declarar livre o Estado de Mato Grosso e oficiar às

Reptiblicas do Prata, porque estas, para manter neutralidade não con-

A intenção de formar o Estado Livre de Mato Grosso, ou República Transatlântica”, pode ser atribuída ao desespero dos amotinados em Corumbá, que, sem perspectivas, pressentindo a derrota, lançaram palavra de ordem insustentável.

O

ato impensado foi criticado pelos historiadores das duas

regiões do estado. O separatismo de 1892 é recomendado pela situação dos revoltosos e não por idealismo, afirmam douns autores do sul, por certo preocupados em distingui-lo das reivindicações de Mascarenhas, Muzzi, Cassal e Bento

sentiriam passar forças pelos rios que banham as mesmas repúblicas.

Xavier.

A outras objeções de falta de recursos pecuniários, disse que podia-

A

se obter esses recursos hipotecando-se o Estado à Inglaterra [...]. A

reunião dissolveu-se sem chegar-se a acordo algum, não procurando

o coronel Barbosa saber à opinião dos oficiais presentes?

que

se posicionou

contrária em

documento

pela sua Intendência, transcrito por Miguel Palermo em - evolução política e revolução de Mato Grosso:

4 Ê

de Mato

Grosso,

de

Virgílio

Corrêa

Filho,

O coronel Barbosa sugeriu, nessa reunião militar, a emancipação do Estado, que tomaria o nome de 'República Transatlântica de

Grosso da federação, o coronel Barbosa dei-

xou de contar também com a anuência da municipalidade de Corumbá,

História

como à unanimidade dos historiadores mato-grossenses, condena o gesto do coronel. Virgílio assim criticou “a insensatez do plano”;

Além de não ter obtido apoio entre os seus comandados para separar Mato

9a

DSP PARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

emanado

Mato Grosso”. A insensatez do plano completava-se com a indicação de providência para obter recursos financeiros “hipotecando-

Nioaque

se o Estado à Inglaterra! A indicação foi contrariada por vários

militares, entre os quais se destacou o Major Tupi Caldas [...] que declarou o Cel. Barbosa 'sedicioso' e o responsabilizou em nome

A Intendência Municipal desta cidade [...] protesta contra o procedi-

da legalidade e do governo da República, pelos acontecimentos

mento criminoso dos mericionados funcionários, procedimento que

ela vai levar ao conhecimento do governo federal. A atitude deste Estado é a de resistência pacífica à extorsão de seus direitos, à legal imposição dum governador pelo governo federal; é de legítima defesa a sua autonomia e dos direitos majestáticos do povo fundada na

referidos”.

pretensões do governo federal. Este Estado não rompeu, não quer

Rubens de Mendonça, analisando os mesmos acontecimentos, condena a “revolução” de 1892 e elogia “o bom senso e o patriotismo dos demais oficiais do exército [quel puseram fim a esse sonho de fazer de Mato Grosso, uma República indepen-

romper os laços que o vinculam à União brasileira; mas quer manter-

dente

força da Constituição federal, que é sua égide contra as absurdas

se digno da comunhão brasileira [...J'. E INTENDÊNCIA

de Corumbá. Ata de 1892. Apud:

PALERMO,

evolução política e revolução de Mato Grosso, p, 96-97.

Miguel A. Nioaque:

4 Intendência de Corumbá. Apud: PALERMO, Miguel A. Nioaque. Evolução

política e revolução de Mato Grosso, p. 100.

do Brasil”.

5 CAMPESTRINL Hildebrando; GUIMARÃES

A. Vaz. História de Mato Grosso do

Sul, p. 107: à CORRÊA

FILHO,

7 MENDONÇA,

Virgílio. História de Mato

Grosso,

p. 618

Rubens de. História das revoluções em Mato Grosso, p. 65.

94

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROBBO |

As obras citadas coincidem em dois pontos: a) na critica | criação de uma república mato-grossense apartada do Brasil; 5)

na omissão da participação de João Mascarenhas e João Teixeira Muzzi nos confrontos ocorridos no sul do estado. Apesar da lacuna, o empenho do primeiro na derrota da rebelião de 1892 e, portanto, da proposta exorbitante de separar Mato Grosso da federação brasileira foi fundamental. De tal for-

ma que, restaurada a legalidade com a reposição de Manuel

O ne

e



4

Murtinho na chefia do governo estadual, Mascarenhas recebeu carta de agradecimento de Generoso Ponce parabenizando “os patriotas do sul” por haverem “repelido os mercadores do nosso solo”. Miguel Palermo, contemporâneo dos episódios, reproduziu o texto: Ilustres membros do Diretório Republicano de Nioaque. Congratulome com os meus bons amigos e com a heróica população do muni-

cípio de Nioaque pelo nobre exemplo de civismo que acaba de dar ao país, erguendo-se para esmagar a anarquia é reivindicar os direitos do povo quase ao mesmo tempo que os seus irmãos do norte do Estado, à custa de algum sangue derramado, reconquistava a liberdade da pátria mato-grossense [...], Parabéns aos denodados patriotas do sul que tão dignos se mostraram na defesa da integridade da nação, repelindo os mercadores do nosso solo. Generoso Paes Leme

de Sousa Ponce”. Quase

Mascarenhas

ignorado

na produção

os

proprio destino: um destino digno, honrado, dentro dos principios da democracia”. A atuação de Jango Mascarenhas tem merecido tratamento smntrovertido. Os autores do Instituto Histórico e Geográfico de Mito

Grosso

geralmente

ignoram,

e quando

o fazem,

não

dão

pouco relevo à ação deste como à de outros que, para o Instituto

Histórico € Geográfico de Mato Grosso do Sul, são os líderes

divisionistas. Para Paulo Coelho Machado, por exemplo, Jango foi o “grande mártir da ardentemente desejada emancipação de

nosso Mato Grosso do Sul”!”, Já Campestrini lamenta que o seu valor ainda não tenha sido reconhecido, tal como se lê:

Por influência talvez de famílias ainda hoje poderosas, não lhe reconheceu o valor € à missão histórica. Demosthenes Martins e Lenine C. Póvoas ignoram a contra-revolução de Jango Mascarenhas, dando

destaque à fútil tentativa de se criar a República Transarlântica de Mato Grosso; João Batista de Sousa não faz qualquer referência à contra-revolução de Nioaque”.

A referência às “famílias ainda hoje poderosas”, que não lhe reconhecem “o valor e a missão não havia consenso entre elas menção positiva a Masearenhas, sor da causa, o que percebemos

histórica”, reforça a tese de que sobre a divisão. Mas apesar da fazendo de seu nome um defensão as suas posições ambíguas.

se na interpretação de Campestrini e de Paulo Coelho Machado, ele é “o mártir da emancipação de nosso Mato Grosso do Sul”, o

historiográfica

do

norte,

é enaltecido nas obras do Instituto Histórico e

Geográfico de Mato Grosso do Sul. Campestrini, por exemplo, trata-o como “o líder sulista do fim do século 19, de maior projeção e importância”, um homem que “viveu e lutou por

um ideal: tornar o povo consciente de que é artífice de seu & PONCE, Generoso. Apud: PALERMO, revolução de Mato Grosso, p. 119.

DOS EANATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

Miguel A. Ntonque. Evolução política e

seu engajamento na “valorização do sul do Estado” não foi algo constante.

Os próprios

registros históricos que

consultei não o

situam sempre favorável à divisão de Mato Grosso. y CAMPESTRINI,

Hildebrando. Jango

Mascarenhas.

In: PALERMO,

Miguel

A.

Nioaque... pe 12-13. de Mato 1) Ver PALERMO, Miguel A. Nivague. Evolução política e revolução

Grosso, p. 12:€ Revista Grifo, p. 21-23, 1983. [1 CAMPESTRINI, Hildebrando. Jango Mascarenhas. Nioaque. po 12.

In: PALERMO,

Miguel

A

96

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Muzzi é derrotado

Jango foi No conflito de 1896, contra João Caetano Teixeira Muzzi,

por Mascarenhas em 1896

usado pelos líderes do norte, que de forma alguma toleravam qual:

anos depois da fracassada “revolução”, outro conflito

aemaão aa a acontecer no sul de Mato Grosso, evidenciando que a depda divisionista não unia os grandes fazendei ros. Isto

pasquê, dessa vez, João Caetano Teixeira Muzzi, que, em 1896 teria se manifestado favorável à emancipação do sul, tis

setenta

oposição

de João

Mascarenhas.

Pará

Campestrini,

to-

fase, & Sesacerdo Ocorreu não porque Mascarenhas fosse cu trário ú divisão de Mato Grosso,

ii ini

da

mas

sim

porque

Muzzi

não

era

por Generoso Ponce. Tal assertiva apenas reforça a ae que esses chefes — Mascarenhas,

Muzzi,

Cassal E

asAsr — não lutavam “ainda” por uma causa própria, ou

Seja, a criação de um

novo

estado,

mas

sim contra os ibid

rios de seus aliados. Se estão sempre desunidos é porque nesse

Fraser quem tem a iniciativa do movimento histórico São: as Rap detentoras do poder estadual que, quando ameaçadas, para manter o poder, recorrem às lideranças políticas do sul capazes de alregimentar forças para o enfrent amento dos seus contendores. o

Por

vitória es

isso,

qualquer

vitória,

nessas

circunstâncias,

sulistas, ou seja, do divisionismo,

mas

e

não

era

grupos

negemônicos em Cuiabá. Os chefes políticos do sul, portanto

não chegaram, nessa fase do divisionismo, a constituir um seusi

coeso contra os chefes do norte. Não sé formou um antagonismo de lotto

contra

bloco, classe dominante

do sul contra

classe

dominante do norte. A iniciativa do processo histórico santa ari nas mãos da elite dirigente do norte. Por isso, quanto mais divididas fossem as lideranças do sul, melhor pata os intentos hegemônicos daquela. No excerto que se segue fica evidente que o mais

i mportante

nomia do sul”:

Por

97

JE PARATISMO NOS TEMPOS DO BAGAMARTE

era a disputa entre adversários e não a “auto-

«quer movimento separatista. Jango, fiel correligionário de Generoso seu adPonce, não pretendeu combater O divisionista Muzzi mas versário político (desde a contra-revolução de 1892),

o “mártir da emancipação do nosso Mato que, naGrosso do Sul”, era mais importante combater Muzzi, era quele momento, defendia a divisão, mas que, entretanto, Assim,

para

O «eu adversário político desde a contrarrevolução de 1892. dos ideal da divisão não consistia, assim, em bandeira comum os chefes políticos do sul, que ainda agiam de acordo com epiinteresses de seus aliados do norte. A propósito do mesmo o tament enfren sódio, Emílio Garcia Barbosa assinalou que O

entre Os rivais Muzzi e Mascarenhas, depois de muitas tropelias

habic desassossegos, deu a vitória a esse último, deixando os espera a e vitória da tntes da Vacaria divididos entre os cantos da vingança. Esta veio sem tardança, pois “a intriga perdurou, armas à os políticos de Cuiabá não dormiam, quer fornecendo uns, quer aos outros”?. ira Segundo o autor, foi em consequência de a Mate Laranje gado O haver alimentado braços mercenários para matar, roubar e as cavalhadas, que o capitão João Caetano Teixeira Muzzi, “"desgostoso e descrente da justiça matogrossense”, deu por en-

cerrada

a sua política é atividade no Brasil, exilando-se

Paraguai.

Na verdade, por João

o que precipitou

Ferreira Mascarenhas,

no

o exílio foi a sua derrota

o Jango,

em

1896. João

Caeta-

rno Teixeira Muzzi enriquecera-se, segundo consta, transpo s para tando, do Paraguai, mercadorias em caravanas de carreta

13 CAMPESTRINI, Nioaque... po 13 13 BARBOSA,

Hildebrando. Jango

Mascarenhas.

In: PALERMO,

Emílio G. Os Barbosas em Mato Grosso, p. 52.

Miguel

A

98

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO Rosso

abastecer fazendeiros. Dessa atividade mercantil passara a “afazendar-se” na Vacaria. Mascarenhas, por sua vez, tornarase influente chefe político, chegando a ser tende nte (prefei-

99

DSP PARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

oram

agravadas

“pela ação dos Murtinho,

de

que,

Cuiabá,

o

insullava para uma resistência de caráter político". Fica claro, pela análise das obras referentes ao período, que

to) de Nioaque e 2º vice-presidente de Mato Grosso na chapa

1 razões do movimento de 1896 vinculavam-se à luta pela posse

e fiel correligionário

da terra na região da comarca de Nioaque, que redundou em crise coronelista e em cisão do Partido Republicano local, Foi então que surgiram o Partido Autonomista, encabeçado por Muzzi, e O partido Republicano Popular, dirigido pelo coronel Jango vascarenhas. As duas dissidências do Partido Republicano passaum para a ação armada, cujo desfecho foi a derrota de Muzai.

que elegera Antonio Pedro Alves de Barros. Muzzi tal como Mascarenhas, mantinha estreita vinculação com as eligar guiss nortistas. Enquanto o segundo se colocava na condiç ão de amigo

de

Ponce,

Muzzi

era apoiado

Marina, jeira. Por

pelos

Os quais eram também proprietários da Mate faça isso, a tropa comandada por ele no confronto de 1896 tinha, a princípio, o objetivo de defender os intere sses da Companhia. Mas segundo as obras do Instituto Histór ico é Geográfico de Mato Grosso do Sul, nessa ocasiã o Muzzi teria manifestado ideias separatistas, o que provocou a reação de Mascarenhas. Já para Emílio Barbosa, Muzzi era homem andado é enxer-

gava

mais

que

os velhos

moradores,

criando

sobre

eles

ascen-

dência de chefe. Todavia, por interpretar as leis da terra emanadas de Cuiabá, “onde foi conhecê-las de forma diferente da É de Mascarenhas [...] veio daí então a seríssima diverg ên-

cia que desuniu a maior força do Sul"”,

À “seríssima divergência” era, na verdade, a relaçã o que cada qual estabelecia com os grupos hegemônicos na política mato-grossense. O próprio autor define o teor do antagonismo

ao afirmar que os Murtinho insuflavam Muzzi enquanto Genero-

fo Ponce

apoiava e armava

os poucos

habitantes da fronteira

Justamente quando mais precisavam de solidariedade entre si sm legalizar as respectivas posses. Segundo Pedro Ângelo da osa,

Muzzi,

começou

partidário

da

a ser combatido

separação

do

sul

de

pelas forças de Ponce,

Mato

lungo

Mascarenhas

ficou,

assim,

como

O único

chefe

no

sul, e

sustenta Emílio Barbosa que, a partir de então, “viu a necessidade

da divisão do Estado” conclamando “os mais inteligentes para se unirem”. Muzzi, por seu lado, íncurso em delicada situação por ter sido considerado “inimigo da ordem e da tranquilidade na regiao"?, havia se exilado no Paraguai, onde morreria. Sua trajetória inspirou os autores do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul a considerá-lo um autêntico líder do divisionismo. A propósito, eis o que escreveu José Barbosa Rodrigues em sua História de Mato Grosso do Sul: Declaradamente, Teixeira Muzzi prega a separação do sul de Mato Grosso, o que revolta os seus adversários políticos, seguidores do coronel Mascarenhas. As divergências entre os dois caudilhos tornam-se cada vez mais profundas. Cada um de seu lado alicia os seus

seguidores e parte para a luta. Mascarenhas, insuflado pelos irmãos Murtinho, adversários políticos de Generoso Ponce, leva vantagem. Mascarenhas e seus cavalarianos sitiam a fazenda Santa Rosa, que é

nc

cuja pseao

dominava no estado. As divergências entre Muzzi e Mascarenhas

|5 ROSA,

Paraguai),

Pedro

Ângelo

da. Resenha

bistórica de Mato

Grosso

(ronteira com

0

p. SÓ.

Emílio G. Os Barbosas em Mato Grosso, p. 52. [7 WEINGARINER, Alisolete. Movimento divisionista no Mato 16 BARBOSA,

14 BARBOSA,

Emílio G. Os Barbosas em Meto Grosso, p. 51,

(1889-1930), p. 46.

Grasso do Sul.

o

y

y

100

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

arrasada pelas balas de um canhão transportado do Presídio dos Dourados. Incendeiam-na, Batido, Teixeira Muzzi procura o caminho do

exílio, homiziando-se no Paraguai, onde mais tarde morreu !*,

Embora

nesta e em outras obras a intenção de dividir o estado apareça como “causa” do conflito armado, fica claro, em um estudo comparativo sobre o assunto, que as ideias separat istas surgem em determinado momento da luta “já desencadeada ”, geralmente pela posse das terras ou pelo apoio ou rejeiçã o de um

ou de outro coronel do sul ao governo ou aos grupos políticos do norte. Uma vez dizimadas as tropas e a própria fazenda de Muzzi, de fato, o coronel Mascarenhas, livre do seu principal conten dor,

e.

consolidou o seu poder de mando na região sul-mato-grossense !.

O livro de Campestrini e Guimarães também contribui para a conclusão de que o motivo da ação armada entre os dois consistia na disputa política entre caudilhos. Embora caracterizem a contenda pelo aspecto divisionista, este aparece como uma posi-

ção subjetiva dos autores. Eis como a descrevem:

Muzzi, vindo de fora, sentia quão esquecida era a re gião sulina do

Estado e, pela sua extensão territorial, pelos recursos naturais de que dispunha, pela distância de sua capital, poderia perfeitamente separar-se do grande Mato Grosso. Era, portanto, separatista. [...] De outro lado, considerando-se um líder natural, via com algum ciúme o prestígio que Jango possuía e crescendo à medida que corria o tempo. Na revolução de 1892, houve um princípio de desent endimento

entre Jango e Muzzi [...]. O fato é que, pouco tempo depois (em

18 RODRIGUES,

José

Barbosa,

História de Mato

101

O E PARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

fez abertamente

1896), Muzzi

à pregação separatista, através do

partido que criara, o Autonomista. Na ve atado Ro sul se e pe rte i va por recomendação dos chefes políticos de Cuiabá; Jango cia à corrente de Generoso Ponce. Finalmente, os a se Ee ram; após escaramuças, Jango subiu a serra € Ani é fazenda ae Rosa [..]. arrasada a fazenda, desejava Muzzi continuar Ê sia mas

amigos seus, cientes da desigualdade de forças, fizeram-no retirar-se 30 ds delin para o Paraguai, onde passou à residir e onde morreu”.

A evidência de que o separatismo não era bandeira comum no sul de Mato Grosso

fronto entre duas fronto tem todas segundo Carone, menos complexas

se expressa, em primeiro lugar, pelo con-

lideranças do sul; em as características das nas regiões onde as e as relações sociais

segundo lugar Ni conlutas co mónitncas qe =” de id ii mais simples, as relações

e vio-

políticas são mais agudas, o que explica o caráter melo!

ento dos conflitos e dissensões. Na configuração do aplica em estados mais atrasados, “os assassinatos políticos e a destruie cão de propriedades inimigas, afinal, são as soluções opa foram abundantemente ilustradas”?. Ora, não parece Fer ice outro o caso do confronto de 1896, cujo final foi a destruição a pleta das propriedades de Muzzi por Jango e peu bando. a

na apresentação da obra de Miguel Palermo, E política e revolução de Mato Grosso,

que

trata a

a

E ns

deta

tia

“revolução” de 1892 e na qual Jango Mascarenhas é engrana e o como herói da luta pela legalidade, há elementos que comprovam o recurso a esse tipo de método: o aniquilamento dos pars pri riais dos adversários. E isto não apenas em 1892. Por ii um embate posterior, em 1901, as palavras de Campestrini

vá são

Grosso do Sul, p. Lá4,

19 Emilio Garcia Barbosa sustenta que, após a sua vitória, a política cuiabana pensou em eliminá-lo. Antes, porém, seus companh eiros elegeram-no 2º vice-presidente do estado, aproveitando-se “dos imigrant es que entravam do sul, porque aqui não havia elementos que quisessem ou pudessem chefiar alguma revolução”. BARBOSA, Emílio Garcia. Os Barbosas em Maio Grosso, p. 54,

20) CAMPESTRINI, do Sul, p. 107.

21 CARONE,

1930), p. 273.

Hildebrando; GUIMARÃES,

Acyr V. História de Meto Grosso =

Edgard. A República velha. Instituições e classes sociais (1889

102

HEGIONALISMO E DIVISI ONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

elucida

]

e

p

s

é

4

Ee)

SOS

E

| TE

na o sul paia quê? Para ving ar-se dos que o haviam aniquila doe perseguiam seus amigos? Para destruiras fazendas dos se adversários políticos? Para eman ci paro sul? [.), Na verda me de, Jango

queria, por qualquer meio € à qual

quer custo, reconquistar a lid rânça que perdera, pará reali zar seus psietepiitlicam ep vê Ea a valorização do sul do Estado [..]. De fato, os do: rio

K de Jango, em grande Parte aven tureiros (alguns Estilos e ui a dg

crimes, como a destruição da Fazenda ç

Orónel Zózimo Francisco Goncalve s (inimigo r é saquearam outras. Fra costume na época os cn

da aff, rem propriedades para requisitar anim ais d e montaria, a gado vac e alimentotos. ; Atéa Coluna Prestes assi m praticou quan danddoo and code por estas plagas?, Ei guita Nota-se » Portanto, que a caus

a separatista não estava acima ela origi Es tamente no interiorHor d dos enfjrentament os intraclasse. | d és a e grupos ne contra Srupos, caracterizando-se sem pre como demanda da classe dos grandes proprietários de terra E. No tex to Jango Mascarenhas, de Campestrini, o fato de que do Navia coesão entre as lide li ranças sulistas fica nítid | o, princi palmente neste excerto no qual o autor explicita a tátic a a dede Cuiabá de “usar” » Conforme seus interesses imediatos, os líderes sulistas: as

desavenç venças entre coro"oné néis i . Ao contrário, a,

1

e criado nesse ambiente de violência, passou dez anos em armas, ora lutando por seus ideais, ora usado pelos nortistas, rotulado, por fim, de caudilho e bandoleiro*.

Assim, o autor distingue as ações políticas do “coronel” Mascarenhas, que “ora lutava por seus ideais”, desejando, certamente, referir-se à divisão de Mato Grosso, e “ora era usado pe os nortistas”, isto é, nos confrontos armados, ficando clara a dualidade que marcou a sua atuação na política mato-grossense. não foi, entretanto, exclusividade sua. Todos aqueles que podediam vir a ser líderes divisionistas no sul eram cooptados pela útica dos coronéis nortistas. Provavelmente, a sua adesão a esse ou àquele grupo era acompanhada da expectativa de se tornarem,

eles próprios, dirigentes ou, pelo menos, beneficiados pela política do vencedor. Basta examinar as fontes disponíveis, por exemplo, este depoimento que demonstra o interesse em impedir a união de chefes no sul: Esta coisa vem de longe, desde que cheguei do Rio Grande; o senador Ponce pegava aqui no Sul um caudilho, por exemplo... O Cel. Tango Mascarenhas; o Totó Paes pegava o Cel. Jejé, e faziam os dois

e

brigarem.

que passar 3 am aac domina i r a região, tanto na econom mia ia € como

política,

Como

o

sul

Mato

possuia

for E a

rEpres entat nt i vo ano

ta É) :osolídere deres s sulist sulist:as eram usados, com frequ ; ência, pelos: do norte É Quan 5

22 CAMPESTRINI, ue

Hildelbrando. Jango

Mascarenhas.

Tn; PALERMO,

nascido Miguel.

Segundo

o

o depoimento,

enguanto

o senador

Ponce

arregimentava forças, apoiado por Jango Mascarenhas, Totó Paes 23 CAMPESTRINI,

Hildebrando. Jango Mascarenhas. In; PALERMO,

Miguel

À

Nivaque: evolução politica e revolução de Mato Grosso, p. 12. 24 LIMA, Asturio Monteiro de. Maio Grosso de outros tempos: pionetros e herois p. 154;

=

o Jejé. O

aqui e eles ficavam lá em cima”.

E prod ML! do

o sul, alguém se destacava, os nortistas armavam-lhe um adver

sário, lo, a fim de desttruí ruí-lo. Jango, coronel da Guarda Nacional, os.

Ficavam espiando lá de Cuiabá...venceu

Mascarenhas emigrava para o Paraguai. Depois o senador Ponce dizia: “Vamos dar um jeito no Jejé...”. Afiava o Bento Xavier, que era um rio-grandense bom, e mais o Pio Rufino, e jogava contra O Jejé. Mas o Totó Paes ampatava oJejé e ajeitava o Felipe de Brum, outro rio-grandense, que acabou entrando na contradança, E assim, andavam sempre os cuiabanos na política: jogavam uns contra os outros

SurgiBira ram m osos latif úndio latifúndi os, s, :as grandes faze : ndas, os coronéis (e seus ca pang angaas), na

109

ERANATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

104

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GAGSSO:

O Coronel Alves de Barros, pessoalmente um homem de cultura é cavalheiro de aprimorados dotes [...] foi envolvido pela entourage que o cercava e, desavisadamente, entregou ao façanhudo usineiro 4] Antonio Paes de Barros (Totó Paes), famoso comandante da Legião Campos Sales, o comando de forças irregulares que se

contava com o coronel José Alves Ribeiro (Jejé), um dos maiores e mais famosos proprietários de terras no sul de Mato Grosso Vencido Mascarenhas, Ponce articulava-se com outro sulista, 48h ra Bento Xavier, para combater o coronel Jejé. A tática pirata da tanto quanto possível. Nesse caso, ela foi protagonizada por

arregimentavam para manter o prestígio da autoridade constituída,

dois dos maiores chefes políticos do norte, Ponce e Totó Paes Mas o procedimento

em face da debilidade da força policial, A desordem imperante malo-

repetiu-se com outros.

grou a ação administrativa do Coronel Alves de Barros. Dele somente registra a história os atos de violência, dentre os quais sobressaiu à

chacina da Baía do Garcês, perpetrada a 4 de novembro de 1901, a mando de Totó Paes L...J*.

Mascarenhas apoia o divisionismo de João Barros Cassal em 1901

O

A entrada do século XX em Mato Grosso se fez acompanha-

da das ações armadas entre adversários políticos. Na verdade, o que vinha ocorrendo até então era um equilíbrio entre o oii dos Murtinho opunham.

e de Generoso

Entretanto,

Ponce,

o governo

que

ora

se aliavam,

ota se

que se iniciou no ssénto

o de

Antonio Pedro Alves de Barros, por ser apoiado por outra liga quia, chefiada pelo coronel Antonio Paes de Barros (Totó Paes) proprietário

da

usina

de

açúcar

Itaici,

provocou

a reação

dis

Murtinho e de Ponce. Além disso, esse governo foi marcado por uma série de atos violentos dos quais se destacou a tragédia da o do Garcez, todos eles, segundo os historiadores do Instituto

Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHG-MT), de responsabilidade de Totó, espécie de eminência parda do poder durante essa gestão. Virgílio Corrêa Filho, em sua História de Mato Grosso, destaca, por exemplo, que as boas intenções de Antonio Sedito

Alves de Barros foram: baldadas “levando-o a participar da luta fratricida, no meio de cujas tragédias não cabe lugar à delicade-

za"?. Semelhante é a opinião de Demósthenes Martins: 25 CORREA

105

TEMPOS DO BACAMARTE NOSISMO CN PANAT

FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso, p. 594,

|

foi, na

episódio

verdade,

mais

uma

dos

demonstração

métodos empregados contra as dissidências oligárquicas. Ciente de uma reunião política de opositores na usina Conceição, pertencente

enviou

seu

ao

uma

tropa

contendores.

irmão,

em

consistia

cuja tarefa

Ocupada

arregimentados

“façanhudo”

o

dois

sem

em

Paes

Totó

prender

resistência, a usina,

grupos

de prisioneiros

para

para



os seus

foram serem

eles re-

metidos à Cuiabá: um seguiria por via fluvial, outro por terra. Este, composto de 17 homens, jamais alcançou a capital; foi trucidado às margens da lagoa chamada Baía do Garcez, em cujas águas foram atirados os corpos. O responsável pela operação, deserto tário

O protótipo do coronel autoriempreendedor, pois inaugurara, em 1897, a

por Carone como

e moderno

maior e mais moderna usina de açúcar do estado, não poupou

sequer a propriedade de seu irmão, considerado rival por ter ocupado provisoriamente o governo e adotado medidas liberais

em favor da oposição, familiar, conforme

fugindo,

pois, às leis de solidariedade

analisa:

Quando seu irmão substitui o governador do Estado e promulga de medidas liberais a favor da oposição, cerca e destrói-a sua usina 26 MARTINS, Demosthenes, História de Mato Grosso, p. BZ,

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SULDE MATO GROSSO.

açúcar, matando

impiedosamente grande número de seus partidários na baía de Garcez, porque ele fugira às leis de solidariedade familiar e ajudara os elementos contrários?

Documento

do próprio João Paes de Barros, irmão de Totó, relata os detalhes da ocorrência é no seu texto fica explícito que

a “ei” do coronelismo era rigorosa: quem não era a favor, era contra. Não havia lugar para neutralidade ou posições não ali-

nhadas. As tropas que tomaram sua fazenda eram conduzidas

por homens fiéis a Totó, entre os quais , seu irmão Henrique Paes de Barros, que o intimou com o seguinte ofício no qual estão vinculados Estado, partido e Famíli a, como podemos ler: Novembro de 1901. Janjão.— À vista de sua desle aldade para com o governo do Estado, o nosso partido é a sua própria família, de quem v. segregou “Se para comungar com inimigos irreconceiliáveis da mesma, achamo-nos aqui à frente de mil homens armados, para intimá-lo

de ordem de nosso irmão Antônio Pais de Barros, comandante

em chefe da divisão de forças patrióticas, a que v. se renda com todo o

seu pessoal. No caso de render-se, garant imos a sua vida é q de

todos, No caso contrário não respondemos pelo que possa suceder.

E o prevenimos de que, se dentro de 5 minut os não nos der resposta, mandaremos fazer fogo — Henrique Pais de Barros.— José Pais de Barros?.

João Paes de Barros, por sua vez, em texto publicado por

Edgard Carone, chama a atenção sobre o fato de que, além de invadirem a sua propriedade com “mil home ns” » OS dirigentes da força ainda justificaram sua interve nção , que se dava “por ordem

do governo federal”. Diante disso e na evidência da desvantagem, João foi obrigado a renunciar ao cargo de 1º vice-presiden-

27 CARONE, Edgard, A 1930), p. 266. 28

te

do estádo.

Mesmo

República velha. Instituições e classes sociai s (1889-

Ofício transcrito por Dantas Barreto em “Expedição a Mato Grosso”, Apud: CARONE, Edgard. A primeira República (1889-1930), p. 80.

p pado daa p prisão em foi pou ão foi i ndo, não abdica irmã o d s pelas tropas do irmão, conforr me régie s-

| ua prósin priae casa, cercada Eron:

a [..] Começaram a efetuar a prisão de todo o pesscial, ares cin de ade aquanó cadeia o edificio da usina onde havia grande para O serviço do dia seguinte. Por essa ocasião foram Ee e

asilados (em números superiores a 140). Estranhando eu ii E E

sões à vista das garantias que me haviam dado, yenpnnoa

: o

tudo se fazia por ordem do governo federal [..l. Rei a s a pc : e que diziam ir por terra à Cuiabá, soube que ui bra Ea de braços para trás pela escolta que os conduzia, pd ps ed à lugar denominado Potreiro, onde, junto à uma Ra ' E 5 j ae nome de Garcez, foram fuzilados, saqueados, e os ca e ja á aà ç E A ventres partidos em cruz, para não boiarem, E

cidade das piranhas, ficando ali postada uma preto ae Re E o : pi

recessem! |...). A força continuou até O a 25 e a [...]. Na véspera, à noite, chegaram de Cuiabá ida

E

lane

.E o duzindo o coronel Antônio Pais, seu genro, Dr. Aquino € ms sa = ais os soas. Ao amanhecer o dia tive ciência de que todos

e

das foram obrigados a embarcar nas ditas RARA pri sobremodo este fato, mandei pedir ao meu irmão siri

: a

tivesse à bondade de vir onde me achava, ao ee ar e E su expus que aquilo não tinha razão de ser e que teria ada E E das famílias desses pobres homens que ssa SR podiam ter na arena política. Respondeu-me

disc que

eu rompi a solidariedade com ele nada mais Do

Ee

mu

sm

favor. Insurjo-me contra este juízo cruel Fe ae mim e ss e sá ri pa como já expliquei no princípio deste de gar, Es pod ninguém o formaçã cuja partido constitucional, em verdade, às sacrifícios que fiz e a parte ativa que tomei”.

Eis, portanto,

—uí.....

107

PPARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

ia olióprias O relato de um componente das própr

opositores : os à opc terrottar ili zados Sppara derro garquias 7 sobre os métodos utili ti içã a js 29 Texto transcrito por Dantas Barreto em “Expedição CARONE

Edgard. A primeira República (1889-1930), p. Sb-sa.

Al Grosso", yrosso", Apud

108

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

O GEPARATISMO

TEMPOS

NOS

108

DO BACAMARTE

políticos. A vingança não tardaria. Aliaram-se Ponce e Murtinho para combater Totó. Em meio à instabilidade política e a choques

Felipe de Brum, contando com o apoio de Bento Xavier fotao Ae lu O go to de Jango, derrotando-o junto às cabeceiras do Taquaruçu.

armados, João Mascarenhas, vindo da Argentina no mesmo ano, 1901, desembarcou em Porto Murtinho e dirigiu-se para Ponta Porã à frente de cavaleiros, em apoio a Ponce, O objetivo era simplesmente depor o presidente Antônio Pedro Alves de Barros. Na sequência dos embates, contara, em Nioaque, com um

verno

simpatizante

da causa

divisionista, João

Barros Cassal,

vindo

do

Rio

Grande do Sul. Sobre a aliança, escreveu José Barbosa Rodrigues: “Senhor de uma oratória convincente, alia-se a Mascarenhas na suposição de que a idéia separatista encontrara

um caudilho capaz de levá-la à vitória", as obras do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso quase ignoram essa participação de Jango Mascarenhas e não mencionam qualquer conotação separatista no evento, as de Mato Grosso do Sul enfatizam justamente a

adesão dos chefes políticos do sul procurando encontrar aí elementos de divisionismo. Paulo Coelho Machado, por exemplo, afirma que, nessa ocasião, “Barros Cassal pôs na cabeça de Campestrini,

que

o sul tinha que

apartar-se

Paes,

fortalecido, seria o novo

presidente do Estado”. Percebemos,

mais uma vez, que as intenções divisionistas,

to já ainda tênues, surgiam sempre no decorrer de um confron deflagrado, não chegando a constituir um movimento organisado, nem mesmo por grupos. Nesse episódio, por exemplo, era Jango Mascarenhas colocou-se contra o governo do qual vice-presidente

sundo

fortalecer

para

Ponce.

Durante

se-

o embates

os historiadores do Instituto Histórico e Geográfico de

Grosso do Sul, emergiu a pretensão de dividir Mato Grosde um ora so, Essas intenções despontavam, coma vimos, ora

Mto

Enquanto

Mascarenhas

a revolução e Totó

ganhou

do norte”,

por sua vez, assevera que:

, de outro chefe político do sul. Dependendo das circunstâncias acontecia também que a tese separatista era defendida em um sugemomento e rejeitada em outro pela mesma pessoa, como deu a Mascarenhas,

Mato

Muzzi,

Grosso: No sul do Estado, surge um movimento chefiado pelo 2º Vice Presi-

Coronel João Ferreira Mascarenhas, Jango Nioaque e Mascarenhas, influente chefe político nos municípios de o combate em morre Miranda. Em outubro de 1901, em Nioaque, Coronel Mascarenhas”.

dente

dente do Estado de Mato Grosso, em face dos desmandos do governo e Antônio Pedro Alves de Barros e principalmente pela falta de

vero estadual [...], Jango foi batido por Felipe de Brum e seguiu

1896, ele combatera

éo um separatista. Agora, em 1901, ele próprio Mastinentãs, ret defensor da divisão de Mato Grosso! No entanto, é ássim em ões tado por Rubens de Mendonça em História das revoluç

O líder Jango Mascarenhas, firmado politicamente como seguidor de Generoso Ponce, em Nioaque e Miranda, como segundo vice-presi-

atenção à região sulina, levantou-se em armas propondo a divisão do Estado. Por isso não contava naturalmente com o apoio de Generoso Ponce, mas, por imposição momentânea, o chefe cuiabano, mesmo sabendo dos objetivos separatistas, aceitou-o para combater o go-

mas não só. Em

do

Estado,

Nenhuma palavra sobre divisionismo. Por sua vez, à obra desses de Virgílio Corrêa Filho sequer menciona à EORtenSIA exe» conflitos no sul do estado, Enfatiza, ao contrário, a série de

para Nioaque e depois para Miranda, onde autorizou o saque livre. 30 RODRIGUES, José Barbosa.

31 MACHADO,

História de Mato Grosso do Sul, Pp. 145,

Paulo Coelho. Entrevista. Campo Grande, 5 ago. 1997,

32

CAMPESTRINI,

p.

106.

33 MENDONÇA,

Hildebrando;

VAZ,

Acyr.

História

de Mato

Grosso

do

94 Rubens de. História das revoluções em Mato Grosso, po

St!

i

110

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

cuções criminosas durante o governo de Antonio Pedro Alves de Barros, a reação de Ponce e Murtinho e à eleição de Totó

1903. Após

os

crimes

da

Paes em

nalismo fundou

Segundo em

Baía

de

Garcez,

Ponce

no

Rubens

de

Mendonça

em

Grosso,

no

interregno

de

Mato

Paraguai,

Em

seu primeiro Mato Grosso:

com

artigo

mente por ter “um ideal político” e por pretender tão somente o de imprensa

“direito de crítica e análise, à liberdade

nm esa

em

terra”. Seus métodos, a despeito de seus muitos admiradores,

passou

a

gerir sua casa comercial em Corumbá, impedido de tornar à

capital.

11

O SEPARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

Antônio

Corrêa,

denunciava

História 1901

o jornal

a Situação

do jor-

a 1903,

do

parecem ter-se distanciado tanto dos utilizados ia SEA pen

te. O certo é que ele não se limitou a exercer o direito de crítica: A | um presidente tombara. No rol dos defensores de Generoso

ele

4 reação.

Excluindo-se da “nefasta oligarquia que se apoderou de Mato Grosso” e decidido a combater “a mais feroz e desenf reada ditadura” que governava o estado, Ponce uniu-se aos Murtinho

Ponce,

Póvoas

Lenine

escreve:

“infeliz”

O aparecimento deste periódico, órgão de um partido político no estrangeiro, só poderá causar admiração a quem ignore os graves aténtados postos em prática pela tirania que flagela o Estado de Mato Grosso; para aqueles, porém, que conhecem a triste situação desse infeliz Estado entregue à mais feroz é desenfreada das ditaduras [...]. A atitude que assumimos, nós emigrados matogr ossenses, perseguidos, por termos um ideal político, criando aqui na República do Paraguai este órgão de publicidade, está plenamente justifi cada pela absoluta falta de garantias ao direito de crítica e análise, à liberdade de imprensa em nossa terra [...]. Que nos seja permit ido pois, erguer este brado de indignação para denunciar ao mundo culto os crimes dessa nefasta oligarquia que se apoderou de Mato Grosso e aí impera pelo assassinato, pelo incêndio e pelo terror e que entretanto apontam-nos, a nós, como os perturbadores da ordem e da paz no Estado*.

não

Com a vitória da Revolução de 1906 so Ponce na Presidência, encerra-se consolidação da República no Estado de tranquilidade na política de Mato

Contra o “déspota” nada

e tendenciosa,

também

Generoso

e a eleição e posse de Generoo ciclo das lutas armadas pela e se inicia um período de paz é Grosso?.

se opõe, de maneira apaixo-

Ponce

Filho

na

obra

iiniáio

Ponce, um chefe. Idolatrando o pai como “condutor de homens

e definindo Totó Paes como “criatura de poucas letras, presa de instintos primários e paixões subalternas, de índole acessível à todos os arrebatamentos”*, Generoso

Ponce Filho assume

a ver-

são de Virgílio Corrêa Filho, segundo a qual o preparo aba donara o posto, refugiando-se nas imediações da capital depais de haver negado a capitulação. Seu último ato foi NNE esta reiterando pedido de apoio ao chefe da expedição militar enviada pelo governo federal a Mato Grosso, Esta, pé, sá chegaria após o assassinato do presidente. A carta que só valeu Mo posterior documentação histórica procurava alertar Dantas eaiteio para 6 fato de que “qualquer telegrama ou carta na qa rm

declaração de que dispenso o auxilio de V. Ex. é falso", O)

contra O agora presidente Antonio Paes de Barros (Totó Paes).

Sitiado em execução

Coxipó

provou

do Ouro, Totó foi assassinado em que

Ponce,

ao se exilar não o

1906. Sua

fizera exclusiva-

35 PÓVOAS, 36 PONCE

Lenine, História de Mato Grosso, p. 89. Generoso Ponce, um chefe, p. 381.

a7 Carta do presidente Antônio Paes de Barros a Dantas Fareeta am

34 MENDONÇA,

Rubens de. História do Jornalismo em Maio Grosso, p, 39-40,

,

FILHO, Generoso.

o a

de julho de 1906. Apud: PONCE FILHO, Generoso. Generasá Pance, um che) p. 418.

112

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

assassinato não é atribuído pelos historiadores do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso diretamente a Generoso Ponce.



Edgard

Carone

observa

que,

no

contexto

do

coronelismo, as ações armadas se fazem a despeito da simpatia ou da oposição do governo federal, pois o que as caracteriza é a afirmação do direito de rebeldia e o reconhecimento dos rebeldes como entidade jurídica autônoma. Uma vez vitorioso, o novo grupo é logo reconhecido e sancionado pelo governo federal, conforme analisa: Em 1906, Generoso Ponce toma Cuiabá, depõe e mata Totó Paes, apesar da oposição de Rodrigues Alves [...] quando o General Dantas Barreto chega a Cuiabá, em 1906, Totó Paes tinha sido assassinado, e o novo govemo é formado pela oposição vitoriosa; Rodrigues Alves nada pôde fazer, nem mesmo impor outro governo é castigar os

rebeldes*,

De fato, os “rebeldes” que depuseram e mataram o presidente de Mato Grosso não foram “castigados” porque quando o general Dantas Barreto finalmente chegou a Cuiabá eles já não eram “rebeldes”, mas governo. Ao general restou elaborar o seu relatório a respeito da situação e aguardar as ordens superiores,

ordens essas que dependiam dos demorados trâmites do processo legislativo. Ponce,

por seu lado, já sem motivos

para temer sua

intervenção, procurou mostrar que não lutara contra o poder esta-

dual, mas apenas contra um tirano local. Com a morte de Totó Paes “acabou, pelo menos temporariamente, pela acefalia do grupo de contestação, com a luta política, eis que tirava o poder

político de uma facção cujo prestígio repousava apenas nele e na autoridade pessoal do seu chefe"*.

58 CARONE,

1930), p. 257.

Edgard. 4 República

velha.

59 LINS, Antonio Lopes. Eduardo Olímpio Machado.

tempo, p, 64.

O “experimentado caudilho” Bento Xavier e o “causídico” Barros Cassal: intenções separatistas em 1907-1911

No breve governo de Generoso Ponce (1907-1908) ocorre ram conflitos na parte meridional do estado, novamente ocasiona-

insurgiamdos pelo monopólio da Mate Laranjeira contra O qual

dos se os desejosos de ali também se estabelecerem. Foi o caso

deixado gaúchos João Barros Cassal e Bento Xavier. Eles haviam dissiera ro o Rio Grande do Sul por motivos políticos. O primei

de dente republicano que se colocara contra o governo de Júlio

ro de 3 Castilhos quando este apoiara o golpe do Marechal Deodo um gor compo a de novembro de 1891. No mesmo ano chegou , um verno de oposição a Castilhos, o chamado “governicho” o, triunvirato de republicanos históricos, segundo Carone. Contud Cassal ores, oposit por cessado esse efêmero governo, e perseguido

Emílio refugiou-se em Mato Grosso, radicando-se em Nioaque.

que deixara Barbosa alude a João Barros Cassal como um gaúcho sões entre seu estado natal em vittude do envolvimento nas dissen Cassal chefes políticos regionais. Já em Mato Grosso, João Barros foi outra “vítima” do separatismo, segundo o autor: causídico Qutra vítima da tentativa da divisão do Estado foi o Dr. Barros,

lugar e viu sulriograndense, que por aqui veio atraído pela fama do e ir progred para a grande e imperiosa necessidade de que,

o acesso mente esta região, teria que ter a Capital mais próxima, com

possível rapidamente”.

das Quanto a Bento Xavier, igualmente partícipe das conten políticas rio-grandenses,

Instituições

e classes sociais (1889-

O homem,

113

O SEPARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

pertenceu

ao Partido Federalista e lutou

-se às na revolução federalista de 1894. Depois, querendo alhear Grosso, onde lutas políticas de seu estado, emigrou para Mato

o meio, seu 40 BARBOSA,

Emílio G. Os Barbosas em Mato Grosso, p. 57-58.

Na

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

seu prestígio não tardou a se firmar na fronteira. Segundo seus biógrafos, tornou-se fazendeiro e “constituiu fortuna comerciando com uma frota de carretas que se movimentava entre o Paraguai é

o Brasil transportando sal para o gado e toda a sorte de mercadotias". Sua inserção nas lutas políticas mato-grossenses

não dei-

xou de ser ambígua. Segundo Pedro Ângelo Rosa, em obra de 1962, a princípio, Bento Xavier “queria tratar exclusivamente. de negócios seus é não desejava mais envolver-se em revoluções [...]” mas acabou reunindo “gente” e “marchou para combater as tropas de Mascarenhas no Taquarussú, onde aquele defendia

a política de Generoso

Ponce

contra

os Murtinho,

en-

tão divergentes"”, Engrossando as fileiras de Felipe de Brum, em 1901, participou do ataque final que lhe tirou a vida. Mas em

1907: Queria ele a separação do Sul do Estado e eliminação dos direitos da Emprêsa Mate [...] para esse fim, convocou uma reunião na Cabeceira do Apa, ande se reunicam os caudilhos e grande números de

416

| SEPARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

então que “Jose paz e a população vivendo em sobressalto”. Foi Aquidauana, em Alves Ribeiro, vulgo Gegé, influente político a luta contra Bento Rave”. Fara Ai para gente reuniu à divisão do Barbosa Rodrigues, em livro escrito posteriormente estado, “era o sonho de Muzzi que renascia””. Os

combates



estenderam

de

1907

a 1911,

pr derrotado pelas forças do coronel Jejé, Bento pé para o Paraguai,

onde morreu.

Mesmo

os autores

quando,

é

sea do ae

do Sul, ano José tuto Histórico e Geográfico de Mato Grosso , admitem que Barbosa Rodrigues e Paulo Coelho Machado

com O Hesentotodo o sul de Mato Grosso esteve intranquilo

que as ideias lar dessas lutas, o que reforça a tese de ntos armados divisionistas surgidas no transcorrer de movime

entré coronéis não chegaram em que emergiram. Nesse governistas contaram com

a ganhar adesão no momento

episódio, por exemplo, as pare um dos mais poderosos pi

Jase Alves do sul, grande fazendeiro de Aquidauana, o coronel

elementos representativos da colônia gaúcha [...] o coronel Bento Xavier, com o fim de facilitar a legalização das posses para seus amigos, pensava na divisão do Estado, que assim teria sua Capital

Bento Xavier, Fa Ribeiro (catonel Jejé), que, ao combater portanto, a unidabatia também o separatismo, defendendo, foram di de de Mato Grosso. Os mesmos episódios pela disputa de dos por Carone como lutas entre coronéis

mais acessível para o povo do sul, de acordo com as idéias do dr.

liderança política,

Barros Cassal, advogado que, vindo do Rio Grande do Sul, aqui se

radicou, tendo sido sacrificado pela idéias, Segundo o autor, Bento Xavier, ao erguer-se contra os privilégios da Mate e propor a separação do sul, semeou a “intranguilidade no sul de Mato Grosso, com a perturbação da

41 RODRIGUES, José Barbosa. História de Mato Grosso do Sul p: 145.

42 ROSA, Peraguad, 43 ROSA, Paraguad,

Pedro Ângelo da, Resenha histórica de Mato Grosso Cronteira com à p. 61. Petiro Ângelo da. Resenha histórica de Mato Grosso (fronteira com o p. 63.

particular- regional ou esAs relações de liderança e de predomínio

lutar entre si: combátes, tadual- levam os coronéis, muitas vezes, à

normais o nie cercos às forças inimigas e guerra declarada são

Bento Xavier ataca à da política coronelística. Em 1911, o coronel cidade de Nioac (Mato Grosso).

Mato Grosso (fronteira com O 4á ROSA, Pedro Ângelo da. Resenha histórica de | Paraguai), p. 62-63. 45 RODRIGUES,

46 CARONE,

1930), p. 258.

p. 145. José Barbosa. Hastória de Mato Grosso do Sul,

socinls lasers CÊ) E , A República velha. Instituições e classes sociais Edgard

HH! (LHS

116

REGIONALISMO EDIVISIGMISMO MO SUL DE MATO GROSSO

pertencentes a fazendeiros e criadores da região Sul, fazendo-os pas sar para o Paraguay; que era criminoso [...]; e finalmente que por tudo isto se constituíra o terror e o flagelo daquela zona [...]. É de esperar que, com as providências por mim tomadas, já fazendo se-

Mas Virgílio Corrêa Filho não interpreta assim O governo de Generoso

Ponce.

Ele simplesmente

descreve

esses acontecimen-

tos como “desordens” na fronteira meridional ao sintetizar o govermo de Ponce:

guir para o teatro dos acontecimentos a força militar que aqui organizei e que, reunida a um forte contingente de bons cidadãos que no

Ainda cuidou de organizar a participação de Mato Grosso na Exposição nacional de 1908, de refrear as desordens causadas por Bento Xavier na fronteira meridional, e de neutralizar as investidas dos inte-

Sul se organizará, conseguiu o bom resultado que conheceis, pondo em completa debandada os revoltosos e anarquistas [...]); voltando a

ressados nas pretensas “terras do Barão de Antonina"”,

população ordeira e pacífica da futurosa região Sul à sua vida normal

[..]. Não devemos, porém, contentar-nos com o resultado obtido por

Mas o próprio Generoso Ponce trata da expedição militar

agora, da pacificação daquela parte do Estado [...). Ao contrario, penso que o governo deve estar sempre prevenido para reprimir pronta e energicamente qualquer nova tentativa de perturbação da ordem

contra Bento Xavier, “sobre quem desde muito pesavam graves acusações como grande defraudador, pelo contrabando das rendas federaes obra

do

Estado”.

Generoso Ponce,

um

Em

documento

transcrito pelo

filho na

publica que lá se dé, pois só assim poderemos conseguir a paz cons-

chefe, alude aos relatórios que recebe-

tante daquela região e o sossego e tranquilidade individual da sua

ra dos chefes de polícia dando conta de que Bento Xavier otganizara “grupos armados” para sair “a campo e saquearem fazendas, afim de ser o gado roubado conduzido para o território paraguaio” e que convidara “por escrito a innumeras pessoas para comparecerem armadas” a uma “manifestação de apreço á sua pessoa”, No entanto, segundo diligência de Ponce, isso era pretexto, pois, “ora dizia que na reunião se trataria de eleger [..] um amigo

capaz de ser o chefe e de, prestigiado por todos, dirigir ao mesmo governo em qualquer assunto que fosse necessário; [...] ora que dela resultaria a União do Sul [..*. Em suma: O inquérito revelou que Bento Xavier era um contrabandista ousado de mercadorias

estrangeiras,

as quais ele introduzia

7

DM PARATISMORNOS TEMPOS DO BSCAMARTE

em

território

matogrossense por vários pontos da nossa extensa fronteira com a Republica do Paraguay [...] que tinha por varias vezes, e ainda ultimamente, levantado grande numero de animais vaccuns e cavalares

população ordeira e laboriosa”. O texto citado

consta

de volumosa

obra,

rica em

docu-

mentos, sobre a trajetória política de Generoso Ponce. O autor, provavelmente, apenas menciona Bento Xavier porque as suas ações estiveram inseridas no governo do pai, Na obra, como se nota, ele é um “contrabandista” que saqueaya e roubava fazen-

das na fronteira, além de falar na “união do Sul”, mas para combater

as

“incursões

daquelles

inimigos

da

ordem

publica”,

Ponce contou com um “contingente de bons cidadãos do sul”, que, como foi citado anteriormente, era encabeçado pelo coronel Jejé, de Aquidauana, ou seja, ele também da “futurosa região sul”. Concluímos, assim, não ter existido, no final do século XIX

e início do XX, qualquer movimento organizado com o objetivo

principal de dividir Mato Grosso.

47 CORRÊA FILHO, Virgílio, História de Mato Grosso, p. 595. 48 PONCE, Generoso. Mensagem do governo de Mato Grosso. FILHO, Generoso. Generoso Ponce, um chefe, p. 498.

Apud: PONCE

49 PONCE, Generoso. Mensagem do governo de Mato Grosso. Apud: PONCI FILHO, Generoso. Generoso Ponce, um chefe, p. 498-490,

118

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

O divisionismo do início do século XX na historiografia mato-grossense e sul-mato-grossense

reivindicado

Idolatrada por uns, omitida por outros, o certo é que já existia uma causa divisionista no começo do século e os chefes políticos aqui mencionados foram os primeiros a nela acreditar. Todavia, como foram tratados pelos historiadores do norte do estado? No Dicionário biográfico mato-grossense, de Rubens de Mendonça, obra que arrola personagens e famílias da história de Mato Grosso, o nome de João Ferreira Mascarenhas é assim definido: “Nascido na Fazenda Correntes, distrito de Miranda, a 24

119

O BEPARATISMO NOS TEMPOS DO BAGAMARTE

a divisão de Mato

Grosso,

uma

vez que esta

não é

associada a sua luta de republicano. João Ferreira Mascarenhas, João Caetano Teixeira Muzzi, Bento Xavier e João Barros Cassal são nomes ausentes na obra em dois volumes intitulada Galeria dos varões ilustres de Mato Grosso, de Nilo Póvoas, editada em 1977, em dois volumes. Sintomaticamente,

nessa

coleção

que,

segundo

Lenine

Póvoas,

“esperava auxílio do Governo"*” para ser publicada, nem Vespasiano Barbosa Martins, considerado o maior nome do divisionismo sul-mato-grossense, é “ilustre”.

A análise da atuação desses chefes políticos esbarra, por outro lado, nos limites históricos próprios de uma causa como a do separatismo. Por exemplo, no momento em que ela era reprimida,

de junho de 1864 e morto em Nioaque, Foi comerciante e políti-

eles não tinham interesse em se identificar como divisionistas. Mas,

co prestigioso na zona Sul do Estado. Tomou parte na revolução de 1892". Nenhuma menção sobre defesa de ideias divisionistas. Uma das razões consiste no fato de que os governantes e as elites políticas do norte jamais admitiram qual-

depois da divisão concretizada, a relação com a causa adquiriu

quer manifestação nesse sentido.

outra dimensão.

Um

caso ilustrativo é o de Teixeira Muzzi. Tão

presente nos trabalhos sobre a divisão de Mato Grosso, não é relacionado no Dicionário biográfico mato-grossense, e mesmo entre seus familiares houve tratamento divergente sobre o fato de ter sido

História de Mato Grosso, a

ele um separatista ou não. Na década de 1930, quando as ideias

maioria escrita por membros da própria elite do norte, tal assunto é ausente. É significativo, ainda, que no Dicionário biográfico mato-grossense os nomes de João Caetano Teixeira Muzzi e o de Bento Xavier não compõem o rol dos biografados. Por sua vez, o de João Barros Cassal é assim descrito: “Ilustre político riograndense, um dos ardorosos propangandistas da república. Fale-

divisionistas reapareciam no sul, seu filho, João Muzzi, contestou a atuação do pai como um dos “primeiros semeadores da semente separatista"». Entretanto, em matéria jornalística de 1996, alusiva à divisão do estado, o seu tataraneto, ao contrário, reivindica maior divulgação sobre à vida de Muzzi, que teve “grande participação

Por isso, nas obras denominadas

no processo separatista”. A divergência de ponto de vista revela a

ceu em Nioaque, a 19 de outubro de 1903”. Seguramente, Barros

Cassal consta dessas biografias pela sua projeção como líder republicano nas dissensões do Rio Grande do Sul e não por ter

52 PÓVOAS, Lenine, Prefácio. In: PÓVOAS, Nilo. Galeria dos varões ilustres de Mato Grosso. v. 1, p. 9.

50 MENDONCA,

Rubens de, Dicionário biográfico mato-grossense, p. 95.

53 Pela união de Marto Grosso. O capitão Teixeira Muzzi não foi sep: Jornal do Comercio. Campo Grande, 24 mar. 1934. In: CORRÊA, Valmir Batista Coroneis e bandidos em Mato Grosso, p. 91 54 Contestado o processo separatista. Correio do Estado. Campo Gr ide, 1]

51

Rubens

out. 1996, p. 7

MENDONÇA,

de. Dicionário

biográfico

mato-grossense,

p. dá.

120

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

variabilidade da imagem histórica, isto é, a reinterpretação da histó-

O BEPARATISMO

do

NOS

TEMPOS

121

DO BACAMARTE

escrito antes da divisão de Mato Grosso e por um sulista.

Tia conforme os interesses do presente. No depoimento do filho,

Nele, os primeiros protagonistas da divisão são apresentados de

prestado em 1934, logo depois da derrota do movimento dé 1932, talvez fosse conveniente diminuir o engajamento do pai na causa derrotada por Vargas. Em 199, ao contrário: concretizada a divisão, criado um estado no sul, reivindica-se maior destaque a sua

forma

atuação.

No estudo das obras produzidas pelo Instituto Histórico e Geográlico de Mato Grosso, bem como as do Instituto Histórico é Geográfico de Mato Grosso do Sul, o que mais chama a atenção é a radical

diferença

de tratamento

entre

os dois Institutos

sobre

os

“movimentos divisionistas” no sul de Mato Grosso. Enquanto as obras escritas na época de Mato Grosso uno simplesmente ignora-

“am ou tratavam de forma abreviada como “desordens na fronteira meridional”, as de Mato Grosso do Sul, escritas, portanto, após a divisão do estado, não ficam imunes aos perigos opostos. À um só

tempo, a historiografia sul-mato-grossense tende a aumentar a atuação dos “divisionistas” e a enxergar “movimentos divisionistas” onde, na verdade, se tratavam de dissensões entre coronéis do norte

com apoio dos seus aliados do sul e no interior dos quais, esporadicamente, expressavam-se “ideias, intenções separatistas”, mas não “movimentos separatistas”. O que fica evidente é que determinados

chefes sulistas se aliavam As oligarquias nortistas em suas ações

armadas e, ao perceberem que seus interesses não seriam atendidos

por essas lutas, notadamente o direito de estabelecimento de propriedades nas terras monopolizadas pela Mate Laranjeira, expressavam, então, à convicção de seccionar o sul, pois assim deixariam de estar sujeitos tanto ao governo estadual quanto à Companhia,

cujos privilégios ele mantinha. Na obra de Emílio Garcia Barbosa, publicada em

ticos do sul a se envolverem nos conflitos armados do período:

as disputas entre os coronéis. Esse livro é indispensável por ter

=

épica e nobre.

É o caso típico de Bento

TP

Xavier,

retratado como “elemento ruim”, responsável pela derrota e morte de João Mascarenhas. Segundo Emílio Garcia Barbosa, ele se convertera em “caudilho experimentado nas pelejas” e, nessa condição se tornara “conhecido das gentes da fronteira”. Entretanto, em 1907 é o próprio Bento Xavier que contava com mais

de 5.000 gaúchos solidários com seu ponto de vista e falava “até em dividir o Estado para com mais facilidade legalizar as posses, o lote que a Companhia Mate Laranjeira, concessionária de toda

a fronteira, proibia”? Emílio Garcia

Barbosa,

arbitrária da Companhia,

cujo livro expõe a face violenta e

não isenta, todavia,

Bento Xavier e seu

bando composto de “elementos de toda espécie, dentre Eles facínoras belicosos,

como

os Cesmórios e Silvino Jacques"*,

tidos

como famosos bandidos, aliados de coronéis no início do período republicano, a serviço de uma ou de outra grei. Já o líder comunista Gregório Bezerra, em suas Memórias, ao analisar os movimentos no campo brasileiro, computa a Silvino Jaques uma luta

contra o latifúndio, como se lê: “Na região de Dourados, em Mato desenvolveu-se uma luta guerrilheira, comandada por Silvino Jaques, que conseguiu resistir durante vários meses, graças à sua mobilidade. Infelizmente, acabou derrotada pelas tropas do exército, enviadas para combatê-la””, Mas Emílio Garcia Barbosa chega a minimizar a atitude de Grosso,

Manuel Murtinho quando considera que “o abuso de fórça e os crimes cometidos por essa gente” foram os fatores que levaram “o Dr. Murtinho a escrever aquela carta, em que dizia preferir

1961,

transparece com maior nitidez a razão que move os chefes polí

e

menos

55 BARBOSA, Emílio G. Os Barbosas em Maio Grosso, p, 54-55 56 BARBOSA, Emílio G, Os Barbasas em Maia Grasso, p. SÁ. 57 BEZERRA,

Gregório. Memories.

Segunda

parte (1946-1969),

p. 220

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

122

E

de Bento Xavier, pois, segundo Emílio Garcia Barbosa: “Ele também pecou. Achou isto muito grande, baldo de recursos por ter a capital longe demais e virou separatista também, político”, esta,

raras,

infelizmente

escritas por

autores

do sul de Mato Grosso anteriormente à divisão, são importantes exatamente por terem sido elaboradas por sulistas antes da criação

de

Mato

Grosso

do

Sul.

de

Frutos

época

uma

em

que

a

divisão era pouco provável, uma causa incerta, elas revelam mais

verdadeiramente o grau de intensidade e de penetração das ideias divisionistas,

dando-lhes

a dimensão

que

provavelmente

tiveram

na época. Já nas obras do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, os chefes políticos, que, vez ou outra, defenderam ideias divisionistas, são alçados a uma estatura de heróis: nessa versão, são eles os semeadores de um ideal, um mito, que somente após um século seria concretizado. Suas ações

concernentes a esse projeto, mesmo que efêmeras e destituídas do grau de comprometimento com a causa divisionista que hoje se lhes atribuem, são engrandecidas, assumindo, portanto, uma dimensão que não tiveram na época em que Lranscorreram. Não raro, essas obras, escritas com o intuito de buscar no

passado a paternidade da criação de Mato Grosso do Sul, deformam

esse acontecimento

histórico, pois a sua tendência

repousa

Os Barbosas em Mato

Grosso,

p.

e

G.

59 BARBOSA, Emílio G. Os Barbosas em Maito Grosso, p. 5

pa

Emílio

dh

em uma compreensão do processo histórico como algo heroico,

58 BARBOSA,

129

DO BACAMARTE

não

protagonizaram

nos quais o

que dividiria êste descomunal Mato Grosso em dois Estados”. A ironia da história foi o próprio major ter aderido, depois, às ideias

como

TEMPOS

isto. A criação de Mato Grosso do contexto muito “ul foi um fato que acabou resultando de um esses episódios do passado especial, embora tenha relação com regionalismo adq viria, cada vez mais intensamente,

de, eles

expulsar para o Paraguai “aquele caudilho que um dia sonhou

Obras

NOS

m guiado, forjado produzido por “líderes”, indivíduos que teria o, na v erdaconscientemente a criação de um novo estado quand

ver Mato Grosso povoado por bolivianos é paraguaios a tê-lo por rio-grandenses do Sul. Bento Xavier, prossegue ele, foi derrotado por tropas da fronteira chefiadas pelo major Antônio Gomes, que deu tantos combates quantos fóram precisos para conseguir

»

BEPARATISMO

pe cores do divisionismo. distinta de A propósito, é bastante significativa a forma duas regiões do estadusão à divisão expressa por autores das

atória no seu do. José Barbosa Rodrigues fez a seguinte dedic

1985: “A todos aqueHistória de Mato Grosso do Sul, editado em sucederam alimentando o les que, durante quase um século, se Ou seja, para ele, a «onho da divisão da terra matogrossense”.

desses antepassacriação de Mato Grosso do Sul deveu-se à luta

: um convite à fortudos, Já Lenine Póvoas, no livro Mato Grosso

contracapa, de última hora, na, que publicou em 1977, incluiu na uma nota do editor com os dizeres: estava em fase final de imMaio Grosso: um convite à fortuna já pressão, quando o E

xcelentíssimo Senhor Presidente da República

acompanhada de anencaminhou ao Congresso Nacio nal Mensagem

ndo do território do Esteprojeto de Lei Complementar, desme mbra à cria ção do Estado de tado de Mato Grosso a região sul, destinada Mato Grosso do Sul.

um político de Considerando que o livro fot escrito por a nota nada destaque no norte, eleito vice-governador em 1965,

daquela elite sobre o mais revela do que o total desconhecimento à ditadura militar para processo que transcorria em sigilo durante

dividir o estado. A propósito,

aqui cabe

uma

reflexão sobre o que Adam

à redução da história schaff denominou de presentismo, ou seja, olítica atual projetada so» aos interesses do presente, ou seja, à p bre o passado.

Nesse

sentido,

risco de serem apagados

determinados

ou adaptados

passados

correm

à

aos interesses de quem

124

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

detém hegemonia na política atual. Tal postura, se radicalizada, pode conduzir à negação da verdade histórica objetiva e à conclusão de que tudo que se produziu no passado é erro e seriam verdades apenas as suas interpretações presentes”. Da mesma forma, como no caso em pauta, o presentismo pode extrair do passado a versão mais conveniente para o presente. Assim, se nos textos do Instituto Histórico e Geográfico

de

Mato Grosso do Sul o envolvimento desses chefes políticos nas lutas citadas é atribuído à causa separatista, tal não ocotre em obras mais antigas. Uma explicação para essa variabilidade da imagem histórica pode ser exatamente os interesses do presente, no caso, o momento

pós-divisão

de Mato Grosso,

atuando sobre

os historiadores e fazendo com que busquem do passado a imagem mais conveniente para o “movimento divisionista”, Por isso, quanto mais a história for pesquisada e reescrita mais se poderá avançar na compreensão do processo que marcou a gênese da criação de Mato Grosso do Sul. Nessa perspectiva, analisando as obras e os documentos disponíveis,

os

quais

envolvem

memórias,

narrativas,

de viagem e outros, classifico-as em quatro categorias:

relatos

1º) as

obras elaboradas antes da divisão do estado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso,

que abarca variada produ-

ção, destacando-se os autores Virgílio Corrêa Filho, Estevão de Mendonça, Rubens de Mendonça, Generoso Ponce Filho, Nilo Póvoas e Lenine Póvoas, entre outros; 2º) as obras produzidas depois da divisão do estado pelo mesmo Instituto, especialmente as de Paulo Coelho Machado, José Barbosa Rodrigu es, Hildebrando Campestrini e Acyr Vaz Guimarães; 3º) as obras escritas por autores do sul anteriormente à cisão de Mato Grosso, cuja maioria data da década de 1930 ao começo dos anos

POE PARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

de

125

1960, sobressaindo-se Oclécio Barbosa Martins, Emílio Garcia

Hurbosa,

Pedro

Ângelo

da

Rosa,

Arlindo

de Andrade,

Melo

mudêmicas Movimento divisionista no Mato Grosso do Sul [15859-1930), de Alisolete Weingariner (Universidade Católica Dom Bosco), e A divisão do estado de Mato Grosso: uma visão histórica (1892-1977, de Jovam Vilela da Silva (Universidade Hederal de Mato Grosso). Nessas obras não se encontram evidências históricas de que no começo do século XX tenha existido uma organização, coordenada por alguém ou por um grupo, que tivesse desencadedo ações continuadas com o objetivo de dividir Mato Grosso. “esmo nos livros dos defensores do “movimento divisionista” pairam dúvidas sobre o engajamento dos chefes políticos citados nessa causa.

No que se refere a Jango Mascarenhas, João Caetano Teixeira Muzzi, Barros Cassal e Bento Xavier convém frisar que não hã qualquer documento escrito por eles mesmos que mencione a questão separatista, A propósito, Alisolete Weingartner, no livro Hovimento divisionista no Mato Grosso Sul (1889-1930), publica-

do em 1995, após constatar “a carência de obras de cunho historiográfico que abordem especificamente o tema divisionismo” “ a ausência desse tema nas principais Histórias de Mato Grosso, alirma que “apesar da historiografia mato-grossense quase ignorir O movimento

divisionista,

isso

não

ocorre

em

relação

aos

jornais da época”!, Acrescenta a autora: Os periódicos do Sul criticam a política do governo estadual, divulgam manifestos contra as ações do governo e da Matte Larangeira.

Noticiam também as participações dos sul-mato-grossenses nos con-

01

WEINGARTNER,

Alisolete, Movimento

divisionista no Mato

Grosso do Sul

(1889-1930), p, 12. O título da obra pode causar confusão pois o movii 60 SCHAFE,

Adam.

História e verdade,

p. 277.

e

“vilva, Miguel Palermo e Demósthenes Martins; 4º) as pesquisas

divisionista a que se refere não ocorreu em Mato Grosso do Sul e sim no sul de

Mato

Grosso,

ou

seja, no

estado

uno,

o antigo

Mato

Grosso.

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

126

O HEPARATISMO NOS TEMPOS DO BACAMARTE

frontos armados. No meio do noticiário político aparecem artigos sobre a importância econômica do Sul e outros assuntos que envolvem o cotidiano das vilas é das cidades. Os jornais do Norte, às

Somos alheios a toda e qualquer seita religiosa, mas convencidos

apesar da diversidade das partes doutrinárias de que todas as religiões parem do mesmo princípio que é a moral, voluntários apresentamo-nos como sectários desses altos princípios sociais, sendo a divisa do desinteresse: para a sociedade, pela sociedade, Republicanos de princípios, para nós a República é a chave que coroa a abóbada desse grande edifício de conquistas político-sociais; Que a República é o único governo que pode fazer a felicidade do Povoa

vezes, omitem os fatos ocorridos no Sul e quando publicam algum acontecimento, fazem-no criticando os atores desse acontecimento,

classificando-os de bandoleiros e gente sem tradição”, Mas, como se vê, não aparece

no rol dos assuntos tratados

pelos referidos jornais o “movimento divisionista” no sul de Mato Grosso. Mais ainda: o fato de criticarem a política do governo estadual e divulgarem manifestos contra a Mate Laranjeira, não implica automaticamente que estivessem engajados no: “divisionismo”. Nas demais obras sobre Mato Grosso do Sul, quase nenhuma fonte jornalística referente à divisão foi utilizada. Entretanto, em um texto de Paulo Coelho Machado há a seguinte menção sobre o primeiro jornal que apareceu no sul, mais precisamente: em Nioaque, em 1894, e se chamava A voz do sul:

Impresso em máquinas adquiridas em Cuiabá, pelo Coronel Jango Mascarenhas, um dos objetivos declarados no artigo de apresentação. do velho jornal era o de 'batermo-nos pelos interesses do sul em todas as questões em que for envolvido, eis o nosso programa”. O jornal foi empastelado pelo indivíduo alcunhado Onça Preta, por

questões políticas”, O autor destaca fosse,

sobretudo,

um

esse trecho instrumento

fazendo

supor que o jornal

de luta pela

divisão. Todavia,

quando o confrontei com o texto publicado integralmente por ms Rubens de Mendonça, o que encontrei foi a defesa dos “interesses do sul”, mas também do “engrandecimento da pátria matogrossense”:

Brasileiro: eis as nossas convicções. Trabalhar pelo engrandecimento da pátria matogrossense em Lodo terreno; defender os interesses

estaduais, nas questões de interesse geral e batermo-nos pelos interesses do sul em todas as questões em que for envolvido: eis o nosso

programa“, Como

podemos perceber, há de fato uma preocupação expressa pelos interesses do sul, mas isso não revela uma conotação divisionista clara como induz Paulo Coelho Machado. Empastelado em 1896, 4 voz do sul somou menos de dois anos de existência. Por isso, o jornal não deve ter exercido a função de um divulgador de intenções divisionistas no final do século. A reflexão que deu início a este tópico volta, pois, ao ponto de partida: quem eram os líderes do “movimento divisionista” no início do século XX em Mato Grosso? “Aqueles agitadores”, denunciados pela Companhia Mate Laranjeira segundo a qual teriam “um plano audacioso de assalto a esse patrimônio do Estado” foram: João Ferreira Mascarenhas, João Caetano Teixeira Muzzi, João Barros Cassal e Bento Xavier, cujas ideias e interesses, como

vimos, não constituíram um programa coeso sobre o qual pudesse assentar-se um movimento organizado, Muito menos chegaram a constituir um ou

62 WEINGARTNER,

63 MACHADO,

Alisolete. Movimento divisionista no Mato Grosso do Sul, p. 12.

Paulo Coelho.

Arlindo de Andrade,

p. 26-27.

127

mesmo

para

“comitê”

as

formar

para assaltar “o patrimônio do Estado” um

outro

estado

64 A voz do sul, Nioaque, 1894, In: MENDONÇA, jornalismo em Mato Grosso, p. 79-80.

brasileiro.

Rubens

de.

Não

eram

História

do

128

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

líderes populares que se opunham ao mando das oligarquias defendendo a divisão do estado, como pode parecer à primeira vista. Ao contrário, eram grandes proprietários e chefes políticos de expressão no sul de Mato Grosso que se engaj aram contra ou favor de determinadas dissensões oligárquic as frequentemente ocorridas em Cuiabá. A pesquisa nas obras que citei permitiu, por fim, escla-

tecer alguns aspectos sobre o divisionismo do início do sécu-

lo XX:

1 —a co de

Mato

Grosso,

anterior à divisão

do

estado,

via de

regra,

meira República. Nesses trabalhos não existe um “movimento divisionista” no sul de Mato Grosso, De um lado, porque, devido

às condições geográficas e dificuldades de comun icação, na maioria das vezes, não se tinha notícia do que acont ecia no sul do estado. outro,

sediado

em

por

razões

Cuiabá,

políticas,

ou

não havia

ou não poderia

seja,

aos

olhos

do

governo

haver intenção

divisionista, Assim, os defensores de ideais separa tistas, reconhe-

cidos pela historiografia sul-mato-grossense, na produção daquele Instituto são tidos como

quando aparecem “agitadores” e “maus elementos” etc, que punham em risco a estabilidade política do estado, No caso de Jan go Mascarenhas, por ter sido vice-presidente do estado, sua atuação é sumariamente referida, mas sem alusão à causa divisionista;

2-a historiografia produzida pelo Instituto Histó rico e Geográfi-

co de Mato Grosso do Sul, Posterior, portanto, à divisão de Mato Grosso, ao contrário, aumenta a dimensão dos acontecimentos relacionados ao divisionismo, tomando-os como uma espécie de ponto de partida, o evento fundador da histór ia de Mato Grosso do Sul. Nesse sentido, talvez Sejam os mais carregados de ideologia;

NOS TEMPOS

RTE

DO BACAMA

12 9

1 — a historiografia produzida por estudiosos do sul de Mato Grosso, antes da divisão, obras geralmente datadas de 1930 a 1960, oferecem o contraponto, Nelas, aqueles homens, que no “Juturo seriam alçados à condição de líderes da divisão de Mato

Lirosso, estão muito mais imersos nas lutas entre coronéis do que no ideal da secessão;

| = as fontes consultadas permitem concluir que, pelo menos até 1 década de 1920, não existiu propriamente um movimento pela divisão

historiografia produzida pelo Instituto Histórico e Geogr áfi-

concentra atenção no período que se estende até o final da Pri-

De

SMO

BEPARATI

de Mato

Grosso.

Existiram,

sim,

manifestações,

idéias

e

unseios esparsos que surgiam em meio aos conflitos maiores entro chefes políticos regionais, Entretanto, um movimento, entendido como uma série de atividades organizadas e contínuas por pessoas que atuam em conjunto para alcançar determinado fim, no caso, a divisão do estado, não aconteceu na história de Mato Grosso até a década de 1930; > — embora não tenha havido um movimento, é inegável que um sentimento,

uma causa divisionista, embora tênue, tenha aí tido à

sua gênese. O fator geográfico configurava objetivamente duas situações distintas e, na medida em que o sul foi se povoando e se vinculando mais ao centro-sul do país, o estado de Mato Grosso tornou-se mais vulnerável ao amadurecimento e à consolida-

ção de ideais regionalistas e divisionistas. Finalmente, as manifestações divisionistas do início do século XX

serviram

mais ao futuro do que 40 seu presente,

isto €,

a sua importância para o futuro foi muito maior do que para O próprio

momento

em

que

se desenrolaram.

Isto porque

os

no-

vos sujeitos históricos da divisão, a partir de 1930, valorizaramnas engrandecendo a sua estatura, de tal forma que passaram a funcionar como uma utopia a ser concretizada e, mais, a aliança! as ações vindouras, na medida em que aquele passado, sempre

relembrado e enaltecido, funcionava como uma garantia de que as Suas pretensões não partiam do nada.

Capítulo 4

O sul de Mato Grosso de 1920 a 1932: tenentismo e separatismo E

ntre os autores

das “histórias” de Mato

Grosso do Sul é

unânime a assertiva de que após a derrota de Bento Xavier nos

confrontos

de

1907

a 1911

“o movimento

divisionista arre-

fece e só volta u ser agitado na década de 30”. A linha cronológica estabelecida nessas obras geralmente passa das “tropelias e

desordens” do “famoso caudilho”? para 1922, quando o sul de Mato Grosso aderiu ao levante de São Paulo. Ano de 1932, data emblemática na história de Mato Grosso do Sul. Consagrada em verso e prosa na memória da geração política a ela vinculada, adquiriu forte significado e, de certa

forma, “apagou” a década de 1920. Se é correta a afirmação de que o “movimento

preciso examinar

divisionista

a razão que

arrefece”

provocou

durante

esses anos,

a interrupção,

é

a não

aliança desses supostos “movimentos” às insurreições antioligárquicas da época. Um exame cuidadoso da historiografia conduz a reflexão para este aspecto: se existiram os “movimen| RODRIGUES. José Barbosa. História de Mato Grosso do Sul, p, 146. 2 MACHADO,

Paulo Coelho. A rua velha, p. 77.

132

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

tos divisionistas” liderados por Mascarenhas,

Muzzi, Bento Xavier

e Barros Cassal, o que explica o seu “desaparecimento” exata-

mente no período de maior ebulição política do país? Parado xal-

mente,

essa

historiografia

não

busca

as razões

do

salto:

ela

O

toma como fato dado, o que reforça a minha hipótese de que

não houve um movimento divisionista em Mato Grosso até o final dos anos de 1920, Ela ganha mais força quando sabemos que os episód ios da

década de 1920 foram os primeiros e mais vigorosos movim en-

tos protagonizados pelas novas classes sociais urbanas, destinados a derrotar, ainda que parcialmente, as oligarquias dominantes no país.

Esses movimentos devem ser entendidos no contexto das

crises políticas da época e da formação de novos grupos sociais com pretensões distintas dos interesses da burguesia nacional e

internacional vinculada à economia primária exportadora, con-

forme

escreveu

Octávio Tanni:

Em consequência da incipiente industrialização havida nas décadas

anteriores, do crescimento do setor terciário e da própria urbaniza -

ção, surgiram novos grupos sociais, particularmente os primeiros

núcleos proletários e os princípios da burguesia industrial, além de expandir-se bastante a classe média”.

Foi nesse ambiente urbano mais complexo e parcia lmente independente da cultura agrária que surgiram, na década de

1920, movimentos políticos e artísticos novos, dos operár ios às

camadas médias urbanas*. Entre eles, o tenentismo foi O que dei-

3 IANNI, Octávio. Estado e planejamento econômico no Brasil (1930-19 70), p, 17.

á Em 1922, um giupo de trabalhadores e intelectuais, sob a inspiração da Revolução Russa de 1917, fundou 6 Partido Comunis ta do Brasil (PCB); surgi-

am também as primeiras manifestações do tenentisma; realizou-se, ainda em

1922, a Semana de Arte Moderna. Tanni se refere também ao embrião da órganização de direita no país, um partido político de inspiração fascista, a Legião do Cruzeiro do Sul, em 1922,

t3a

D SUL DE MATO GROSSO DE 1920 À 1932

«ou as impressões mais duradouras ao concretizar a ruptura com

,

o Estado oligárquico.,

Ora. não era o sul de Mato Grosso contrário ao “governo de Cuiabá”, “aquelas oligarquias do norte”, no dizer de Arlindo de Andrade e de outros sulistas na década de 1930? Por que, então,

teria deixado

escapar

a chance

justamente quando pôde contar com

de contra

elas se rebelar,

numerosos alados que luta-

vam para pôr termo àquela República? Não teria sido o isa (o) RA momento para o “movimento divisionista” An governo de Cuiabá” e exigir a criação de seu próprio estado,

ainda mais quando

contou

com

a presença de uma

Coluna

antioligárquica? O que se passava ali, afinal? O estado ainda andava às voltas com disputas entre chefes

políticos e famílias mato-grossenses quando, na apa

de 1920,

sacudiu O país uma série de levantes de caráter nacional, cd pondo-se às lutas localizadas, pois atingiam o semo da Beni ca oligárguica cuja hegemonia era exercida por São Paulo e Mi| nas Gerais. O tenentismo, tal como passou a ser chamado o coniurto desses movimentos militares, originara-se nos quartéis, reunindo a jovem oficialidade do Exército. Manteve-se, nas suaa etapas iniciais,

predominantemente

no

âmbito

de um

RR imE

pé-

queno-burguês, com formulações vagas de Serasa e vida política do país e sem um programa de transformação Pass ampla da sociedade brasileira. Foi, entretanto, a forma possível de

contestação às velhas estruturas oligárquicas. As contradições entre o Exército e as oligarquias Esennane tes no país aguçaram-se a partir da sucessão presenças e Epitácio Pessoa, na qual a candidatura de Artur Beriibides era sustentada pelo eixo Minas Gerais-São Paulo, Contra ela uniram se as oligarquias dissidentes do Rio de Janeiro, Rio Erandio do Sul, Bahia e Pernambuco na chamada Reação Republicana, lan cando o nome de Nilo Peçanha.

REGIQNALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

135

BUL DE MATO-GROSSO DE 1920 A 1932

Antes do término do governo de Epitácio Pessoa (1919: 1922) ocorreu, na madrugada de 5 de julho de 1922, o levante do

Lopes, pelo major Miguel Costa e pelo tenente Joaquim Távora, que foi morto durante os combates. O movimento contou, ainda,

Forte de Copacabana, que gerou rebeliões militares em Niterói e

com a participação

na primeira Circunscrição Militar, sediada em Mato Grosso. O mineiro Artur Bernardes, cuja vitória eleitoral havia sido reconhecida pelas próprias oligarquias dissidentes, assumiu a presidência

da República em 15 de novembro de 1922 sob estado de sítio. Em seu govemo a crise agravou-se”. Em

1923, o movimento armado deflagrado no Rio Grande

do Sul opunha republicanos a libertadores, e os últimos rejeitavam à reeleição de Antônio Augusto Borges de Medeiros a presidente do estado em novembro de 1922. Herdeiro político de Júlio de Castilhos e chefe do Partido Rebublicano Rio-Grandense, Borges de Medeiros cumpria seu quarto mandato naquele cargo, que já

ocupara de 1898 a 1908 e no qual vinha se mantendo desde 1913. As oposições gaúchas, alegando fraude nas eleições, uniram-se na Aliança Libertadora em torno da candidatura de Joaquim Francisco de Assis Brasil, reivindicando do governo federal o não reconhecimento da eleição de Borges de Medeiros. Todavia, empossado este, o conflito armado eclodiu, estendendo-se por 10

destacada dos tenentes Juarez

Távora, Eduar-

do Gomes, João Cabanas, Filinto Múller e Newton Estillac Leal. de CamOs rebeldes, após a fuga do presidente do estado Carlos instalar a e Elíseos pos, chegaram a tomar o Palácio dos Campos

um governo provisório, chefiado pelo general Isidoro, exigindo a

renúncia do governo federal e convocação de uma Assembléia Constituinte. A negativa de Artur Bernardes e as consequências dos bombardeios na cidade reduziram suas exigências à conceso

de uma

anistia ampla

aos revolucionários de

1922 e 1924, o

que também foi negado. deciRecrudescida a repressão federal, as forças rebeladas ndo ruma julho, diram abandonar a capital na madrugada de 28 de s milipara o interior. Aquela altura, já haviam eclodido rebeliõe O tres no Amazonas, em Sergipe e em Mato Grosso. Apoiavam os levante de São Paulo, mas eram desconhecidas pelos revoltos paulistas. Em outubro, enquanto combatiam em território

um paranaense, tropas sediadas no Rio Grande do Sul iniciaram

meses.

de levante, associadas a líderes gaúchos contrários ao Pacto Pedras Altas. Em 1925, em Foz do Iguaçu (Paraná), as forças

A pacificação do estado, obtida por meio do Pacto de Pedras Altas, previa a manutenção de Borges de Medeiros no poder, contrariando uma das primeiras exigências dos libertadores.

Costa-Prestes, ou, simplesmente, Coluna Prestes, como passou a

Setores da Aliança Libertadora opuseram-se ao Pacto e, aliados a oficiais tenentistas, participaram de diversos levantes ocorridos

Paraná e como

rebeladas, gaúchas e paulistas, juntaram-se formando o continvente que deu início à marcha legendária da Coluna Miguel

história. Luiz Carlos Prestes relatou como se deu o encontro no conseguiu convencer parte dos paulistas a conti-

paulistas chefiados por Miguel Costa, para integrar, em 1925, a

Asnuat o movimento, cujo objetivo era “derrubar o governo”. Paulo, São «im disse ele em entrevista concedida ao O Estado de

Coluna Miguel Costa-Prestes.

em 1978:

no estado em

Em

1924. Em

São Paulo havia edlodido,

rebelião militar articulada 5 CPDOC.

seguida, uniram-se

aos revolucionários

no dia 5 de julho de 1924, a

pelo general

reformado

A revolução de 1930 e seus antecedentes,

p. 13-23.

Isidoro

Dias

Lembro-me O ambiente no Paraná era de desânimo e de derrota.

que fui imediatamente para Foz do Iguaçu, onde se achava o Estado Maior das forças de São Paulo [...]. A palavra de ordem, na ocasião,

ina. Tive que era de que a única solução seria emigrar para à Argent

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

dizer não, porque a minha coluna, ao lograr a unidade com as forças: de São Paulo, sentia-se vitoriosa. Disse que não poderia propor q esses soldados emigrar para a Argentina, naquele momento. Deveríamos unit-nos e tentar sair da região [...]. Constituímos então uma clivisão, sob o comando do general Miguel Costa, com duas brigadas. A do sul, sob meu comando, e a de São Paulo, sob o comando do coronel Juarez Távora*.

Contudo, antes mesmo de formada a Coluna Prestes, parte das forças tenentistas estacionadas no oeste do Paraná partiu em missão de sondagem em Mato Grosso. Ainda em julho de 1924, depois de reorganizadas as tropas em Bauru, São Paulo, seguiram para terras mato-grossenses; q) em primeiro lugar, a 31 de julho) de 1924, a Brigada comandada pelo general Bernardo de Araújo Padilha e pelos majores Luís França Albuquerque e Tolentino de Freitas Marques; b) no dia 1º de agosto de 1924, a segunda Brigada comandada

por Juarez Távora”.

Juarez Távora cançou

registrou

em suas

o território mato-grossense,

Memórias

que,

quando

al-

precisamente nas cercanias de

137

A 932 DE MATO GROSSO DE 1920

para aquela região, a atenção do comando governista, aliviando 4 pressão que exercia sobre o grosso revolucionário, no eixo du Sorocabana - resolveu enviar uma nova expedição a Três Lagoas, designando-me para comandá-la.

De fato, tais brigadas empenhavam-se em desviar a atenção do governo para o sul de Mato Grosso, propiciando, com isto, uma relativa liberdade de ação para que os insurgentes acantonados em Presidente Epitácio pudessem seguir, via fluvial, até o oeste paranaense onde entrariam em contato com as tropas do Rio

Grande do Sul, o que efetivamente ocorreu. Sobre a primeira incursão em Mato Grosso relembrou Prestes: Os companheiros de São Paulo, retirando-se da capital, seguiram pela Estrada de Ferro Sorocabana, até o rio Paraná. Eles pretendiam

invadir Mato Grosso, mas foram repelidos na cidade de Três Lagoas, que não chegou a ser tomada”. Enquanto essas manobras se passavam, o presidente de Mato de Grosso Pedro Celestino Corrêa da Costa manifestava-se a favor do governo Artur Bernardes. Em suas Memórias, Demósthenes

Martins, componente das forças legalistas mato-grossenses, relaCod:

ficaria estranho a essa ação subversiva, consoante a tradição históri-

cita a intenção dos insurretos sobre o sul de Mato Grosso:

ca de que, aqui, se rematavam os movimentos revolucionários bra-

sileiros”,

Dessa transcrição notamos, em primeiro lugar, que o gover-

no estadual tinha receio de que o sul de Mato Grosso não ficasse

d

O Comando Revolucionário - ou porque estivesse acalentando, diante do sucesso inicialmente obtido em Mato Grosso, a idéia de ocupar a região de Três Lagoas “Campo Grande e, em seguida, todo o sul

desse Estado; ou (o que é mais provável) porque desejasse desviar

6 PRESTES, Luiz Carlos. Prestes lembra à longa marcha da Coluna, São Perto. São Paulo, 2 jul. 1978, p. 7-8. (Entrevista). 7 TÁVORA, Juarez. Memórias. Mato Grosso, p, 144-151.

V.

1, Retirada

de

São Paulo

O Estado de

é sondagens

em

1!

mo resultante do sucesso inicial É descrito de forma a deixar implí-

no

Ficamos de sobreaviso porque dificilmente o Sul de Mato Grosso

Câua

Três Lagoas, reunindo-se à Brigada Padilha, notou nas tropas um ambiente de euforia consequente dos resultados obtidos perto da cidade mato-grossense onde a vanguarda do batalhão aprisionara, de surpresa, um contingente governista. Esse sentimento de otimis-

O SUL

Tai Eai

136

8 TÁVORA, Juarez. Memórias. Mato Grosso, p. 147-148.

v. 1. Retirada de São Paulo e sondagens cm

à PRESTES, Luiz Carlos. Prestes lembra a longa marcha da Coluna. são Paulo. Sao Paulo, 2 jul, 1978, p. 7-8. (Entrevista), 10 MARTINS, Demosthenes. A poeira da jornada, p. 72.

usa

mano

O Estero ch

138

REBIGNALISMO E DIVISIDNISMO NO SUL DE MATO GROSSO

“estranho

a essa ação

subversiva”

e, em

segundo

lugar,

embora

com

exagero, ao considerar que “os movimentos revolucionários”, “consoante a tradição histórica”, sempre “se rematavarm” al,

o governo aludia, implicitamente, aos gaúchos, que no início do século se refugiavam na região por motivos políticos. Mas, o “remate” da insurreição paulista em Mato Grosso, se contou com

simparizantes na região sul, foi logo reprimido. Sem dúvida, um grupo de civis saudava os ideais difundidos pelo tenentismo, o que era noticiado nos jornais 4 Tribuna (Corumbá); Tribuna do Povo (Aquidauana); Gazeta do Comércio (Três Lagoas) é O Pro-

gresso (Ponta Pora). A crescente influência paulista sobre o sul de Mato Grosso fez com que se desenhasse ali um esboço de concordância com o que ocorria em São Paulo. Mas não passou de ensaio uma vez que “todos que eram tidos como adeptos dos revolucionários foram presos [...]. Escaparam da prisão apenas Villasbôas e Rangel Torres, que se refugiaram na Bolívia e no Paraguai, respectiva-

mente”, De fato, o comandante da Circunscrição Militar nó sul do estado general João Nepomuceno da Costa reprimira e mandara efetuar a prisão dos “sediciosos” após haver sido informado sobre o “ambiente de insegurança” nos municípios de Ponta Pora, Bela Vista, Três Lagoas e Corumbá, Especialmente desta última recebera, dos seus subordinados, telegrama com a mensagem: “Situação

Corumbá instável. O Deputado Vilasboas faz conferências sediei-

osas concorridas por militares e civis"? Apesar

não tomou

da

intenção

de

apoiar

o movimento

paulista,

isto

proporção alguma além de afinidade com os prin-

cípios políticos do tenentismo, não se vinculando, portanto, a qualquer ideia ou intenção divisionista que porventura houvesse

LE

O SUL DE MATO GROSSO DE 1920 A 1932

no sul de Mato

Grosso.

Aliás, não

eram seus defensores

referidos jornais e seus mentores, nem o deputado Villasbôas. Não cogitaram, assim, de aliar à insurreição militar a causa divisionista € por essa razão foi nulo o efeito de um boletim editado pelas forças rebeldes concitando à separação do sul de Mato Grosso, nas proximidades de Três Lagoas, onde faziam o passível para atrair a atenção de tropas legalistas. Rubens de Mendonça assim menciona em sua História das revoluções em

Wato Grosso o referido boletim: Os revoltosos aproximavam-se cada vez mais de Mato Grosso. Seus objetivos eram alcançar o nosso Estado, para criar a Brasilândia, e para isso lançaram uma proclamação; “Aos Mato-Grossenses do Sul, na qual procuravam fazer surgir nesta região a idéia da separação dessa extensa zona de Mato Grosso, formando um Estado autônomo - a

BRASILÂNDIA. Esta proclamação, distribuída em Boletins impressos, está assinada: General Dias Lopes; General João Francisco; Coronel Bernardo Padilha: Coronel Olinto Mesquita; Coronel Miguel Costa”. Em suas minuciosas Memórias Juarez Távora fornece pistas

sobre a emissão de tal boletim, que tinha o propósito de desviar à atenção do governo sobre os companheiros ainda restantes no interior de São Paulo. O panfleto encaixava-se na estratégia de fazer agitação no sul de Mato Grosso deslocando para lá os holofotes governistas, conforme

escreve:

Embora às custas de pesados sacrifícios de homens e de material béli-

co, as diversões sobre Três Lagoas haviam logrado o seu objetivo fundamental: atrair para a zona da Noroeste fortes contingentes de forças governistas, que, de outra forma, teriam sido jogadas no eixo da Sorocabana, aumentando a pressão sobre o grosso revolucionário, con centrado em Presidente Epitácio: e, possivelmente, bloqueado com efetivos consideráveis a via fluvial de escoamento para o sul”,

11 MARTINS, Demosthenes. A poeira da jornada, p. 73.

[3 MENDONÇA,

12 MENDONÇA,

14 TÁVORA, Juarez. Memórias. v. 1, p. 151.

Rubens de. História das revoluções em Mato Grosso, p. 131.

os

nem

Rubens de. História das revoluções em Mato Grosso, p

132

140

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Conclui-se daí que a retirada “do grosso revolucionário concentrado em Presidente Epitácio” para o oeste do Paraná, onde, finalmente, se juntaria às forças gaúchas, formando a Coluna Prestes,

foi possível por causa dessa estratégia de chamar a atenção sobre o sul de Mato Grosso. Outro aspecto importante sobre a emissão desse boletim, de claro teor divisionista, assinado por elevadas figuras do tenentismo, são o conhecimento e o interesse dos militares sobre a questão meridional de Mato Grosso. Notemos sua expectativa de que “surgisse” nos “mato-grossenses do sul” a “ideia da separação dessa extensa zona de Mato Grosso”. Entretanto, deixou

escapar

embrião

de

o

“movimento

divisionista”

a oportunidade.

movimento

desse

Ora,

tipo,

caso

não

de

Mato

houvesse

teria

sido

Grosso ali

um

a ocasião

privilegiada para vincular a sua causa a um levante de caráter nacional? Se o alvo do movimento tenentista era o desmantelamento da política oligárquica, por que não se juntaram

a ele

os

divisionistas

sul-mato-grossenses,

especialmente

levando-se em conta que deveriam ter um motivo concreto para opor-se ao governo estadual, ou seja, a divisão do estado? Não deixa de intrigar o fato de justamente no momento em que o país estava em convulsão política e as oligarquias tradicionais em crise, o sul de Mato Grosso não aderir à insurreição antioligárquica e aproveitar para fazer dela também uma rebelião contra “o governo de Cuiabá”. A historiografia sobre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, de modo

geral, porém,

não coloca

em

dúvida

a versão

segun-

do a qual “o movimento arrefeceu-se” após 1911 e só voltou a “agitar-se em 1930”. Também não se ocupou em explicar a ausência de “movimento divisionista” na década de 1920. Em texto escrito após a divisão de Mato Grosso, Afonso Simões Corrêa, integrante da Comissão Especial que, em 1977, supervisionou a implantação de Mato Grosso do Sul, incorpora esse entendimento, mas acrescenta um elemento relevante que

141

O SUL DE MATO GROSSO DE 1920 A 1932

ndo ele; “Acontecimenvem ao encontro de nossa análise. Segu

os de repercussão nacional, como

as Revoluções

ne 1922 e

reduziram o ímpeto do 1924. dividiram as lideranças sulistas e ele, as siennção moviinento separatista”, ou seja, para Weingartner, criam, de fato, divididas. A historiadora Alisolete ionista” fortale1o contrário, sustenta que o “movimento divis se referir à proposta ceu-se nos anos de 1920 especialmente ao Grosso pelas tropas de criação da Brasilândia no sul de Mato afirma que “a qesara que antecederam a Coluna Prestes. Ela icação da região, dessa coluna rebelde não significou a pacif ta rebelde reativa o muito pelo contrário, a proposta divisionis Grosso", mas esclaremovimento divisionista no Sul de Mato ce

que

à

“ação 'açã

dos

sem planejamento,

ni tas ionis ivisio divis

permeada

nessae

de outros

fase

é isolada :

ainda ainda

interesses políticos””.

Mais adiante completa: rossenses € pião EaitAssim, o alijamento das lideranças sul-mato-g do Estado da Brasilândia, res impediram o sucesso da proclamação continuasse ca mas não impediram que a idéia divisionista Nesse período, essa idéia é divulgada entre os sul-mato-grossenses. a Prestes". reforçada com a chegada, na região, da Colun

que comproMas hão há referência a documentos ou fatos

sido “reforçado E vem que “o movimento divisionista” tenha EouAe esboço de a chegada da Coluna Prestes”. Ao contrário, o paulista de 1924, mas apoio no sul de Mato Grosso à insurreiçã

o do Estado de Mato Soronão ni 15 CORRÊA, Afonso Nogueira Simões. A criaçã Campo Grande: 100 anos di (Org). da Maia o Antôni Sul. In: CUNHA, Francisco Um construção, p. 64. onista no Mato eivist ento Movim . Santos dos A. te Alisole 16 WEINGARTINER, | | Grosso do Sul (1889-1930), p. 65. A. dos santos.

17 WEINGARTNER,

Alisolete

18 WEINGARTNER,

Alisolete A. dos Santos.

Grosso do Sul (1889-1930), p. 65. Grosso do Sul (1889-1930), p. 65-66.

no Ma

Movimento

divisionista

Movimento

divisionista no Maito

to

|

142

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

nada vinculado à divisão do estado. Aliás, O próprio João Villasbôas, uma das lideranças que tentou solidarizar-se com os paulistas, por meio do jornal 4 Tribuna, de Corumbá, segundo depoimen-

tos e documentos da época, era um dos mais renhidos adversários do divisionismo. Outro aspecto curioso na historiografia citada é que nela: não há referência ao fato de que o principal nome de 1932, Vespasiano

Barbosa

Martins,

estivesse

ausente

desses

eventos:

protagonizados na década de 1920. Na época, Vespasiano ainda não ingressara na carreira política é também estava ausente dos “movimentos divisionistas”. Teria sido a insurreição de 1932 6 motivo de ele se ter tornado separatista? Para compreendermos esse aspecto talvez convenha desconfiar das proclamadas intenções de se opor aos “terríveis políticos de Cuiabá"” e, mesmo, às oligarquias em geral. Para tal reflexão contribui a postura daquele que nomeou Vespasiano Barbosa Martins chefe do “uo-

vero constitucional” no sul de Mato Grosso: o major Bertoldo Klinger.

A trajetória de Klinger na década de 1920 pode ser analisada nos seis tomos de suas Narrativas Aotobiograficas, obra rara e de

difícil leitura por estar redigida na forma gramatical prepaita pelo autor, denominada “ortografia simplificada brasileira”. E, contudo, obrigatória para se compreender um pouco da personalidade contraditória de quem nomeou Vespasiano Barbosa

Martins chefe do governo constitucional de Mato Grosso. Além dela, contribuem também os densos volumes que compõem as Memórias de Juarez Távora, entre outros depoimentos da época.

Nesses relatos fica bastante evidente o desacordo do major quanto aos preparativos da insurreição de 1924 em São Paulo: A conspiração encontrava ressonância em quase todas as guarnições

visitadas, Havia, contudo, divergências sérias quanto à viabilidade do movimento. O centro dessas divergências era o então Major Bertoldo Klinger, oficial de grande valor e prestígio, que, embora adepto, em princípio, da rebelião contra o governo do Presidente Bernardes, julgava que os elementos disponíveis eram insuficientes para desencadeá-la com a probabilidade de êxito”.

Entre o pessimismo

A Revolução de 1930 desloca Bertoldo Klinger para o “limbo do território nacional” Bertoldo Klinger, que mais tarde iria ser o general do levante de 1932, divergia dos “tenentes”, desde

1924, e, por isso, colo

Cará-se em margem oposta à deles. Uma vez formada à Coluna Prestes, passou ao seu ataque “cheio de ardor legalista”?, Depois de combatê-la, opôs-se à Revolução de 1930 e, por isso, não é estranho vê-lo erguer-se contra Vargas em 1932. 19 Sobre o assunto ver Erros da federação. de Arlindo de Andrade, que participou do efêmero governo de Vespasiano Barbosa Martins. Sua obra é de 1934.

20 MENDONÇA,

Rubens de. Históric das revoluções em Mato Grosso. p. 136.

143

0) SUL DE MATO GROSSO DE 1920 A 1992

de Klinger e o otimismo

Távora, “socialista ardoroso”,

de Joaquim

“bandeira, cérebro e alma do movi-

mento”2, Juarez expõe as fissuras da “conspiração”, cuja derrota

provocou a união das forças paulistas e gaúchas. Denominando de “ingrato incidente” o não convencimento de Klinger, relatou em suas Memórias: Houve, porém, algo ainda pior: correndo, em Curitiba, a desronhança de que o Major Klinger se arredara definitivamente da conspiração, um de seus amigos e admiradores, naquela guarnição, escreveu-

lhe carta, pedindo-lhe informações sobre o desenvolvimento da tra: 21 TÁVORA, Juarez. Memórias. v, 1, p. 132, 22 BARBOSA, Francisco de Assis. Juscelino Kubtischeks, política brasileira. In: SODRÉ, p. Zlá.

Nelson Werneck.

uma

revisão

a

A história militar do Brasil,

144

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO.

ma revolucion

ária em São Paulo, A resposta dada a es. sa inda gação. constituiu verdadeira bomba anti-revolucionári a, Embora desse a en

pava Porto Felicidade na estrada de Panchita a Centenário, lançando Laranjeira ate Laranjeir i a Mate ! sede da Companhi uma vanguarda sobre esta vila,

tender que não era infenso a um movimento regenerador extralegal,

alirmava nada haver de sério, a respeito, em São Paulo. E conclu sua resposta com a seguinte advertência: "Estão jogando aí, perante Os camaradas, indevidamente, com o meu nome, É preciso tomar

cautela contra tal exploração».

Em consequência da dissensão, arrefeceu “Se O entusiasmo

inicialmente verificado em Grande

do Sul e mesmo

partidários de Távora capital paulista, onde,

várias guarnições

do Paraná,

do Rio

do interior de São Paulo. Admitira m os:

que a insurreição deveria ser iniciada na como

se sabe,

veio a ser derrotada.

Realizadas as sondagens no sul de Mato Grosso, em 1924, e não tendo conseguido atravessar o rio Paraná para prosseguir

em

território Mato-grossense,

naveparam

até o oeste

paranaense

onde, então, formaram a Coluna Prestes que seguiu para o Paraguai. Lá, desembarcou armada e retornou, imediatamente, por uma picada existente, ao território mato-grossense na região de Amambai e Ponta Porã, onde reini ciaria suas operações contra O governo do presidente Bernardes. “Desde que entramos em Mato Grosso, formou-se esse sent imento de orgulho de par-

ticipar do movimento"4,

contou Prestes. De fato, a entusiasmo

não era sem razão; vencedora nos combates próximos ao rio Amambai, a Coluna tomou à cidade de Ponta Porã, ab: andonada pelos legalistas. O episódio, em maio de 1925, foi assim narrado por Juarez Távora: A 9, enguanto o Regimento João Alberto alcançava a ponte superior

do rio Amambaí, e, sabedor do abandono de Ponta Porã pelas forças

govemistas, para lá se encaminhava

— 6 Batalhão Virgílio Santos ocu-

23 TÁVORA, Juarez, Memórics. v. 1, p. 134. 24 PRESTES, Luiz Carlos, Prestes lembra a longa marcha da Coluna. de São Paulo, São Paulo, 2 jul. 1978, p. 7-8. (Enmrevista).

em Mato Grosso?

face disso, O comandante

Em

da Ginunecrição

Nniiao en-

viou o major Bertoldo Klinger à fronteira com a missão de Ea vanizar as tropas legalistas e se opor aos a tudo, sempre vitoriosos, prosseguiram pa Doura

o

ee e

do Rio Pardo, onde cortaram os fios telegráficos da Nereie e o ]

Brasil, impedindo qualquer contato dos legalistas com - adia

ing F, É

do central, Perseguída sem sucesso pela tropa pi

Caluna rumou para Goiás, em junho. Depois de pain estado e Minas Gerais, Piauí, Ceará, Pernambuco e Bahia, Ro a Mato Grosso tom pouco mais de 600 homens, em use TO E 1926. Só deixou as terras mato-grossenses em Fever de la

Car

para refugiar-se na Bolívia (Prestes) e Paraguai (Siqueira a 326

ami

Dendis que a Coluna Prestes se internou na Bolívia, o a

mento militar no Brasil, em entendimento com forças políti aa

25 TÁVORA, Juarez. Memórias. vd, p. 1729-188. propósito

26 4 d

dei

Ed

da passagem transcreveu

da Coluna

interessante

Prestes por PAR depoimento

de

Gross O, E ese

a Ro

É nto comandado por es a laE do [6] fato” na ocasião em que 6 Destacame a nd os deixou Campo Grande com destino ao norte a EE a pese Jato no da morador menino, Maciel, à época nn

dE dique narrou éao autor a pre sença de Siqueira úpolis, li dp das História ca send de sua mãe. MENDONÇA, Rubéns de. Gê mi Ria E ; . : : o epi RS Grosso, p. 138-139.Também testemunha dessa cas e S& q Mato de a RR dor ; governa Ent então o Mato em Grosso, o t a Prestes ! Coluna da pn da gi € entrevis tou, em Martins, artins, telatou, Barbosa Wilson e Sul, Ê 5 :

Prestes, ter presenciado,

di

na infância,

a passagem hi Deacon

» de seu pal, Luiz Carlos Prestes Filho refez, em 1925, e a f: fa E e Ei Ei ão visitou, e trilhados pela Coluna am : ã, ACi Vista, ito, Bela À Bonito, É de Dourados,5, Corumbá, nunicípios: E como foi a Pique e Coxim, Segundo ele, à Coluna Prestes ne ul refeita Trilha Brasil". do militar feito “o maior em ps mu no MS. É Correio do Estado, Campo Grande, 20/21 turismo : arestesra isa V f

O Estado

14h

O BUL DE MATO GROSSO DE 1920 A 1932

:

se

1995, Caderno B, p. É.

att

x

pu

A

ú



146

REGIONALISMO E DBIVISIGNISMO NO SUL DE MATO

das oposições estaduais, particularmente no sul, entrava lase. Esta se abriu com a intransigência inicial do Washington Luís (1927-1930), que não se inclinou para da anistia. Fundara-se em São Paulo à Paitido Democr ático,

caria conjugar as suas ações ao movime nto

GROSSO

em nova governo a solução que bus-

militar, acompanhan-

do o rumo traçado pela oposição sulina. No ano seguinte, 1927, constituía um partido de âmbito nacional . Com à ascensão de

Getúlio Vargas ao governo do Rio Grande do Sul em 1928, abria-

se a perspectiva para entendimento mais amp lo entre a área militar, cujo prestígio provinha do fenentis mo, e à política propriamente dita. Constituíram oposições combativ as, além do Partido

Democrático,

de São Paulo,

o Partido Democrático

Nacional

e o

Partido Libertador, do Rio Grande do Sul, A história é conhecida. Washington Luís assu mira a presidência da República em 1926 em meio a uma tensa situação política e profunda insatisfaç ão popular. Mesmo às cafeicultores

atingidos com a política anti-inflacionária é passa tam, em grande parte, a engrossar as fileiras oposicionistas. Os sentiram-se

partidos políticos surgidos nesse período expressavam o “descontentamento dos produtores de café e de outras facções

oligárquicas dissidentes"?. A crise agravou-se a partir de 1929

com a pretensão de Washington Luís em asseg urar a continuida-

de de sua política econômico-financeira por meio da candidatura

paulista de Júlio Prestes para sucedê-lo. Reagindo às intenções continuístas do Palác io do Catete, a Aliança Liberal lançou Getúlio Vargas e João Pessoa à presidência e vice-presidência da República, respectivamente . Seu programa enfatizava o voto secreto e a ani lia, questões que suscitavam considerável mobilização popular, P aralelamen te às negociações de caráter eleitoral, os “tenentes” e segmentos mais radicais das 27 CPDOC,

A revolução de 1930 e sets enitecedente: ip: 93;

O

GUL

147

DE 1920 A 1952 DE MATO-GROSSO

dissidências oligárquicas articulavam-se Vigesço a Fe um novo movimento revolucionário. Essa a

foi re Ee apro

a derrota de Vargas nas urnas, o que a

a

ee an É E

dos entendimentos entre políticos e “tenentes . pes o ata mento sofreria uma retração: em maio de 1930 nho Carlos om “o rompeu com a Aliança Liberal e, no; mesmo mi jr sa UE acidente Siqueira Campos, a figura mais emtnsRE pois de Prestes. Entretanto, a morte de João Pessoa, em ) E

reverteu a situação: a comoção nacional assento novas ame

voces políticas que culminaram na eclosão do gd

pe

é q A

= bro de 1930. Irrompido a 3 e vitorioso à a empossou-se Vargas como chefe do Governo Propisáio Espa eram depois de iniciada a insurreição, ou seja, à 3 de nove : bai

por seu

lado,

persistiu na crítica ao aspeeaa =

em 1932, combate os remanescentes da Coluna Enade na Vargas na tomada do poder. A essa Aiura, o rompim a iba a a juárez Távora é Luiz Carlos Prestes já RE a conta com Astrojildo Pereira, na Bolívia, préudeno à a E e Corumbá, Prestes aderiu ao marxismo € do Partido . nã Brasileiro3. Nessa nova condição, condenou os EsaREs d ticos tradicionais e de militares rebelados pa di ea tom ai Gi E situação vigente, como se observa no nisi

“ao proletariado sofredor [...l, aos trabalhadores op

E

mi com Prestes is dias der aa de NO ligo ca canais mala uma com nó Bolívia, onde fora Grade xistas para que ele “estudasse por si mesmo”, E pi a ae que ele não demoraria em compreender que e eg o a B! espor era intuito Seu futuro”, do e do presente ms CM levava lireção do Partido” sobre as questões que Epa ge político problema O suma, em PGE à procurá-lo. “Era, aa Comunistas e os companheiros da Coluna O 18 Astrojildo Pereira conta como foi i seu O

“comunista Oe : E

as s

Lo onnulares po

PEB, 1922-1928, p. 1083-109.

PEREIRA,

Astrojildo,

Formação

do

148

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO.

aos que estão dispostos à luta e ao

sacrifício

em

prol

O SUL DE MATO GROSSO

Washington Luiz, nem pró Jetúlio - uma junta militar de governo

da

provizório providemsiaria para novo proséso de escolha e imvesticlura comstitucional de Prezidente da Republica*.

profunda

transformação por que necessitamos passar'?. Condenando o programa reformista dos tenentes, alertava que a revolução não poderia reduzir-se a uma simples luta entre oligarquias: dominantes, tal como podemos ler: A revolução brasileira não pode ser feita com o programa anódino da Aliança Liberal. Uma simples mudança de homens, um voto secreto, promessas de liberdade eleitoral, de honestidade administrativa, de respeito à Constituição e moeda estável e outras panacéias, nado

resolvem, nem podem de maneira alguma interessar a grande maioria da nossa população, sem o apoio da qual qualquer revolução que

se faça terá o caráter de uma simples luta entre as ol igatquias dominantes”,

tenentismo como “recalces [recalques) julianos"*!, Quando, porém, percebeu a inevitabilidade da queda de Washington Luís

aceitou

participar do

24 de outubro,

data

que chama



“pasificasão” pois, segundo pensava, o poder não poderia ficar com o presidente nem com Getúlio Vargas; os militares deve-

riam apenas assegurar o afastamento de Washington Luís e, depois, exigir novo governo. É ele quem “gramática simplificada”:

escreve, adotando a sua

O movimento tinha, a meu ver, seu objetivo bem espréso no cualificativo ofisialmente adotado, de 'pasificador': nem pró PRESTES,aL. Carlos, 29 os. min

militar no Brasil, p. 227-228. Bertoldo.

quando

a Junta

Governativa

entregou

foi revogada,

Constituição de 1891

O poder

a Vargas,

Narrativas aotobiograficas.

Nels / e v.5, p: 257

cl

istóri

e à

instaurando-se o Governo

Provisório, distribuiu nota expressando-se contrariamente “a ésa clara definisão da imstaorasão do absolutizmo, da ditadura” *.

Foi exonerado, promovido a general e enviado para O comando

militar de Mato dupla

Grosso em maio

interpretação:

de um

a Revolução

de 1931. O ato não permitia o afastava para

longe,

desven-

adversário. Klinger assim O compreendeu

e

O “limbo anotou em suas Narrativasque o governo O enviava para

do território nacional”: Em maco de 1931, na primeira grande promosão de xéfes militares

realisada pelo govemo revolusionârio L...], fue imeluido, como jeneral

de brigada. Não se atreveram a ignorarme, apezar de conheserem de siêmsia sérta as minhas declaradas rezérvas cuanto à lizura em ficar sobrepósta a vóz das armas á das urnas, € à do 3 de outubro, msiaram para facsiozo, á do 24, pasifista. Mas... imcontinenti provide onra! o meu afastamento, para o limbo do território nasional, Cuamta De todos os jeneraes désa léva fue o primeiro a ter comisão, e ésa

foe em MATO GROSO [...] lomjimcuo e filhastro*.

Assim, afastado para o “longínquo Mato Grosso”, Klinger mais acabaria, logo depois, tomando parte em um dos episódios

eloquentes e emblemáticos do regionalismo sul-mato-grossense contra o centro-norte do estado.

JESODRÉ, SsN. Werneck. A história militar : Manifes Apud: Manifesto,

30 PRESTES,5, Luiz ECarlos. s Manifeststo. Apud: SODRÉ, À É 31 KLINGER,

Imediatamente depois de 24 de outubro, Klinger chegou a ocupar o cargo de chefe de polícia da capital federal. Todavia,

cilhando-se

Motivos opostos levaram Bertoldo Klinger a também não acompanhar o grupo de Juarez Távora no apoio a Vargas. Sua posição já era conhecida desde o enfrentamento da Coluna e está bem explícita em suas narrativas nas quais define O

149

DE 1920 A 1932

141, 32 KLNGER, Bertoldo. Narrativas aotobiograficas. v. 5, Pp. 215. p: 5, v. raficas. aotobiog 33 KLINGER, Bertoldo. Narrativas 34 KLINGER, Bertoldo. Narrativas aotobiograficas. v. 5, p- 20.

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

O sul de Mato Grosso apoia São Paulo contra Vargas em

15

O SUL DE MATO GROSSO DE 1920 A 1932

cão da Aliança Liberal, as duas oligarquias ressurgem vigorosamente sob o Estado Novo [...)'*.

1932

Na

mesma

linha de interpretação,

Octávio

Ianni considera

As rebeliões militares da década de 1920, bem como a rups! tura político-institucional provocada pela Aliança Liberal, em 1930, . não representaram o colapso do poder oligárquico no Brasil, mas 9 início de uma transição que inaugurava, ainda sob a hegemonia

“pela impossibilidade de acomodarem-se as tensões e conciliarem-se os contrários liberados pela crise política e econômica

pública

É no quadro dessa recomposição de forças na transição para a sociedade urbano-industrial que se deve compreender a

da oligarquia, uma recomposição das estruturas de poder na Rebrasileira.

Segundo Florestan Fernandes, essa recomposição

de for-

ças sociais e políticas marcou o início da modernidade no Brasil é praticamente separou a “era senhorial” (ou o “antigo regime”) da “era burguesa” (ou “sociedade de classes”). Depois da aboli ção, as oligarquias não dispunham de base material e política para manter o padrão de hegemonia construído durante o Império.

Desse

modo,

para

se fortalecer, ela teve que se renovat,

ré-

compondo aquele padrão de dominação segundo as injunções da ordem soeial emergente e em expansão. Ainda de acordo com o autor, os conflitos que surgiram à partir de certos setores radicais

das “classes emergentes” e de setores insatisfeitos da grande burguesia, além da pressão das oligarquias “tradicionais” dos estados

em relativa ou franca estagnação econômica, se, por um lado, acabaram

com

a monopolização

do poder pela

“velha

oligar-

quia”, por outro, deram a ela a oportunidade de que precisava para a restauração de sua influência econômica, social e política, Isto porque a crise tornou os interesses especificamente oligárquicos

menos

visíveis

e mais

flexíveis,

favorecendo

um

rápido deslocamento do poder decisivo da oligarquia “tradicional” (ou agrária) para a “moderna” (ou dos altos negócios, comerciais-financeiros, e também industriais). Assim, apesar de to-

das as mudanças, as oligarquias resguardaram seus interesses materiais “tradicionais” ou “modemos”, Florestan Fernandes afir-

ma ainda que, “depois de sua aparente destituição, pela revolu-

[930 como o rompimento interno do próprio Estado oligárquico

mundial e interna”*.

eclosão

do movimento

paulista

de 1932,

que,

segundo

os auto-

res citados, foi uma tentativa, por parte das oligarquias “tradicionais”, prejudicadas pela Revolução de 1930, de restaurar seus privilégios. O modelo exportador do qual se beneficiavam, com

hegemonia do setor agrícola e fundador da dependência externa por causa da comercialização internacional da parte principal do café, sofrera um golpe com a vitória das forças político-sociais que lideraram o movimento de 1930, embora este não tivesse representado o fim do domínio oligárquico. Na obra O colapso do populismo no Brasil, Octávio Ianni assinala que: Na época do predomínio desse padrão de organização da economia nacional, o poder político é exercido pela burguesia agrário-comer-

cial, cujos núcleos mais fortes e organizados situam-se nos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Os grupos interessados na manutenção

dessa política econômica e da estrutura de poder conveniente à mesma sofreram uma derrota séria com a vitória da Revolução de 1930; mas não foi uma derrota total *.

O fato de não ter sido “uma derrota total” evidencia a força dos setores oligárquicos

35 FERNANDES, 36 IANNI, p. 18:19.

“tradicionais” e explica a rápida articu-

Florestan. 4 revolução burguesa no Brasil, p. 209.

Octávio,

37 1ANNI, Octávio.

Estado e planejamento econômico

no Bresil (1930-1970),

O colapso do populismo no Brasil, p. 54

1 152

REGIONALISMO E DIVISIDNISMO NO SUL DE MATO GROSSO.

lação da Frente Única Paulista contra Vargas. Interessante notar,

inclusive, o igualmente rápido deslocamento do Partido Democrático, das oligarquias dissidentes, que, em 1930, saudou a vitória de

outubro,

mas,

em

1931,

rompeu

com

o interventor João |

Alberto em cujo governo participava, por não ter o poder exelusivamente para

si. O choque

com

a orientação

“tenentista”

já se:

esboçava, Segundo Edgard Carone, ocorreu que: ao tenentismo, também em.

frente comum. O curioso é que os oposicionistas pensam que o! poder tenentista é momentâneo e que, depois, eles os substituiriam no governo”,

Os jornais paulistas, especialmente O Estado de São Paulo, passaram a apontar a Constituinte como os males”

e, uma

vez que o governo

o “remédio para todos

federal à ela não se opôs,

pelo contrário, começou a tomar as providências necessárias desde fevereiro de 1931, eles só puderam criticar a sua “morosi-

dade”, Para “conservar a amizade de São Paulo”, Vargas não poderia mais protelar a Constituinte, sob o risco de sua obra passar a ser incompatível com “a atmosfera do direito”. Em estudo sobre as oligarquias paulistas da época, Vavy Pacheco Borges afirma que, aliada à necessidade de “constitucionalização”, as oligarquias e os demais grupos insatisfeitos com o governo provi-

sório adicionam a questão da “autonomia” de São Paulo, isto é, a exigência de um interventor civil paulista em oposição aos interventores

tenentistas,

acusados

de

“forasteiros”.

Em

janeiro

de 1932, manifestos do Partido Democrático e do Partido Republicano Paulista incitaram ao rompimento com com

provisório.

O manifesto do Partido Democrático Bis

explicita-

mente ao poder de um elemento do “Rio Grande” João inte que “continua a fazer de São Paulo um feudo, e ele próprio im

feliz donatário de tão soberba capitania”. O manifesto do Partido

Republicano Paulista é mais conciso: considera que “15 meses são tempo suficiente para se julgar uma “ditadura” e para mostrar

a necessidade de um outro regime constitucional"”.

Logo após a revolução, as oligarquias estaduais situacionistas se desarticulam e os oposicionistas se unem

159

O SUL DE MATO GROSSO DE 1820 A 1952

a “ditadura”, termo

que, então, esses partidos passaram a denominar o governo

Assim, embora fracionados nos dois partidos citados, es interesses econômicos é políticos impeliram as oligarquias paulistas a se unirem em uma ação militar contra Vargas em 1932. Essa unicidade comprova a análise de Florestan Fernandes, para quem a recomposição de forças verificada no período acabou

favorecendo as próprias oligarquias. Apesar de ter havido reação oligárquica às formas de domínio tenentista em vários estados, foi em São Paulo que o antagonismo se agudizou e foi de São Paulo que partiu, segunda

Carone, “o grande ela” a favor da constitucionalização do pris-A iniciativa coube ao Partido Democrático. Tudo indicava que são Paulo não marcharia solitário contra Vargas. Mas foi o que aconteceu, salvo a participação de Mato Grosso, cuja adesão, Roo veremos, foi mais importante para os destinos de sua própria história do que para a constitucionalização do país. O

movimento

constitucionalista

de

1932,

embora

limitado

aos recursos paulistas e derrotado em pouco mais se dois meses, teve grande significado para Mato Grosso. Foi justamente

nesse ano, em consequência da insurreição paulista, Ei se formou o primeiro governo no sul do estado sob à alças Raquel

que é considerado o símbolo do processo divisionista: Vespasiano Barbosa Martins. Tudo sé passou, porém, no curto espaço de tempo em que

os paulistas enfrentaram o governo federal e por ele foram rapi38 CARONE, 39 BORGES,

Edgard. A República mova (1930-1937), p- 289, Getúlio Vargas e a oligarquia paulista, p. 165-183.

Vavy Pacheco.

40 BORGES, Vavy Pacheco. Getúlio Vargas e a oligarquia paulista, p. 177 178,

154

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

damente batidos, de julho a outubro de 1932. A posição geográfica de São Paulo,

vulnerável a ataques fronteiriços,

exigia, para o:

sucesso da operação, a obrigatoriedade do auxílio de outros estados. Foram feitos, então, contactos secretos; em maior escala com o Rio Grande do Sul e, em menor, com Minas Gerais. Mas, acredi-

tavam os paulistas, “a esperança maior é o auxílio do general Bertoldo Klinger, Comandante Militar de Mato Grosso com os seus 5000 homens prometidos", Entretanto, o movimento foi precipitado em decorrência da

nomeação

do general Espírito

para o Ministério da Guerra, formara,

desde

março,

em

Santo

Cardoso,

junho

de

1932,

um

155

DE MATO GROSSO DE 1920 4 1932

o do Rio de daneio, os nas Gerais é batidos no caminho ferroviári predomínio aro a combates prosseguiram até setembro. O os dos paulistas Os governo federal e a escassez de armament e locaram em situação de impasse.

Cogitaram à compra de Renas

do estado fe pedi no estrangeiro e o pedido de reconhecimento

de São Paulo foi assim perância à Itália. A situação insustentável dos estapor Carone, que não inclui Mato Gross o no rol descrita dos que o auxiliaram:

resultam o auxílio e io são Paulo luta contra o Brasil inteiro, e de nada Minas Gerais; Borges de revoltas dirigidas por Artur Bernardes, em ntes, em Salvador, ou os Medeiros, no Rio Grande do Sul; a dos estuda, a Pará e Amazonas”. pequenos levantes militares de Santa Catarina,

tenentista,

quando

o Estado-Maior Revolucionário

O WUL

já se

e se esco-

lhera Klinger para comandá-lo, Este não aceitou a nomeação de Espírito Santo Cardoso, negou-se a uma conciliação solicitada pelo general Góes Monteiro e rompeu publicamente com o governo”, O rompimento de Klinger ocorria em um momento desfavorável para os paulistas, uma vez que as oligarquias de Minas

ipalmente os sulOs historiadores mato-grossenses €, princ Martins, por exemmato-grossenses, divergem. Demósthenes Sul de Mato Grosso, plo, julga que “a revolução de 1932 teve, no e po sitiva adesão"*. fora das raias de São Paulo, a sua única ia de Mato Grosso, Virgílio Corrêa Filho, por sua vez, em Histór

Gerais e do Rio Grande do Sul vacilavam e se dividiam quanto à

i amente Mato Gross5 o d e São Paulo, espemaisi rapid i aproximou dei asia Sê di ões f da época d cialmente a região sulina, reanimando as ligaç ai dá ae a afirmar, não sem bandeiras que haviam esmorecido, chega uma dose de exagero, que: de MErUaRnRias, as Intensificou progressivamente O intercâmbio

ideia de uma insurreição sem antes tentar novas negociações para a solução do impasse político”. Mesmo sem o seu apoio, porém, grupos do Partido Democrático e os militares antecederam a data da sublevação para 9 de julho. O avanço de tropas gaúchas, em julho de 1932, foi o começo da derrota paulista. Desalojados de suas posições em Mi-

ao

considerar

o impacto

da

gE Ferrovia

ste do Noroeste

Brasisil,

q ue

Revolução Constituctoidéias, de sentimentos, a ponto de ser a dizer, desfechada de nalista, de São Paulo, de 1932, por assim

Campo Grande. 41 CARONE, Edgard. A República nova (1930-1937), p. 311. 42 Segundo Carone, Klinger considerou que a nomeação desapontava “por vários motivos”, acusando o general de incapaz para ocupar o cargo. CARONE, Edgard. A República nove (1930-1937), p. 311-312.

43 De fato, quando estourou o movimento, Vargas pôde contar com a solidariedade desses estados por meio dos interventores Flores da Cunha (RS) e Olegário Maciel (MG), CARONE, Edgard. A República nova (19301937), p. 313.

da obra de O assunto fica mais claro co m a leitura ião b andeirante, Affonso Henriques, que se alistou na rebel

44 CARONE,

314. Edgard. A República nova (1930-1937), p.

45 MARTINS, Demosthenes.

4 poeira da jornada, p. 108,

p- 602. 46 CORRÊA FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso,

156

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Intitulada Vargas, o maguiavélico, não deixa dúvidas quanto ao seu conteúdo. Sem poupar críticas ao desempenho de Bertoldo Klinger, segundo ele, “o maior responsável pelo fracasso da revolução de São Paúlo"”, o autor dá a sua versão sobre a participação de Mato Grosso é a precipitação fatal do início do movimento: Mas o que teria feito os chefes militares e civis da revolução de São Paulo tomarem uma atitude tão precipitada, quando tudo parecia ter

sido organizado com ordem e método, a ponto de haver-se compra-

O SUL DE MATO-GROSSODE 19204 1992

16]

seu conteúdo e, “nessa obstinação”, arrastou consigo “não só seus companheiros de luta, como a própria causa da constitucionalização do país”?. Affonso Henriques não se encontra solitário na pretação dos fatos. Outro protagonista de 1932, Paulo Filho, revela os pormenores do processo político da livro Ideais e lutas de um burguês progressista. No volume a Guerra cívica de 1932,

igualmente

condena

o general Klinger

pela precipitação fatal de enviar o “ofício-bomba”, que colocaria

do návios no estrangeiro com o fim especial de transportar armamento? A explicação disso se encontra num mero acontecimento dé ordem disciplinar provocado por um ato impulsivo, justamente do homem que havia sido escolhido para dirigir o movimento revolu-

em risco todo o movimento.

cionário - o General Bertoldo Klinger. Êsse General, não concordan-

mo “não convenceram jamais a opinião pública” *”.

da com a nomeação do General Espírito Santo Cardoso para o cargo de Ministro da Guerra, dirige-lhe uma carta-ofício protestando contra a sua investidura naquele alto cargo, praticando assim um ato de verdadeira provocação às vésperas de um movimento revolucionário do qual êle iria ser o chefe supremo... Resultado: a sua reforma administrativa, acompanhada da destituição do comando da Circunscrição Militar de Mato Grosso. Ora, os paulistas contavam não sômente

com à ajuda dos conhecimentos técnicos do General, mas sobretudo por haver êle prometido trazer consigo pelo menos 5.000 homens daquela guarnição, bem como copioso armamento e farta munição. Segundo

o autor, O “mais espantoso

nisso tudo”

foi o fato

de a referida carta-ofício ter passado pelas mãos de outros chefes revolucionários antes da sua entrega ao Ministro e de esses chefes, pelo telégrafo, tudo terem feito para dissuadir o General “dessa tremenda provocação”. Mas “tudo em vão”: Klinger não só ordenou a entrega como mandou irradiar por todo o país o

sua inter Nogueira época no intitulado

O autor tinha como certa a contri-

buição dos cinco mil homens seu “temperamento

armados

e municiados.

Criticando

singular” e “personalidade contraditória”, afir-

ma que os responsáveis por sua escolha para o comando De acordo parado as coisas pudesse levantar e resolutas, para

supre-

com os dois autores, Klinger sequer havia preem Mato Grosso para que, caso fosse demitido, em massa as suas tropas e trazê-las, aguerridas a frente paulista. Ao contrário, quando recebeu

à ordem superior para abandonar a sua tropa e recolher-se ao Rio de Janeiro,

de contra quem

mostrou-se

estranhamente

obediente

à autoricda-

se rebelara,

A propósito, no seu boletim de despedida, emitido do Quar-

tel-General em Mato Grosso, em 8 de julho de 1932, Klinger reproduziu o telegrama pelo qual fora reformado administrativa-

mente pelo chefe do Governo Provisório e expressou o seu orgulho por haver comandado o Exército naquele estado, exortando os comandados a se manterem em calma e dentro da

49 HENRIQUES,

Affonso.

Vargas, o maguiavélico,

p. 210.

Affonso.

Vargas, o maguiavélico, p.. 210,

48 HENRIQUES, Affonso.

50 NOGUEIRA FILHO, Paulo. Ideais e lutas de um burguês progressista. v. 2, p. 352. Já de acordo com Paulo Coelho Machado, os paulistas reclamam muita razão porque a “sua revolução não tinha generais”: eles tivera apelar para generais de fora do estado. MACHADO, Paula Coelho. Entrevista

Vargas, o maquidwélico, p: 209.

Campo Grande, 6 ago. 1997.

&7 HENRIQUES,

158

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

ordem. De Campo

Grande,

guira nem sequer levantar a sua própria circunscrição militar, segui do se progalava ea razão natural das cousas confirmava, deveria vil a frente de 5 a 6 mil homens, dar início a luta contra a ditadura”.

emitiu sua última mensagem, já refor-

mado, em 9 de julho, para o general Góes Monteiro: Aqui tudo em calma é ordem, conforme da índole comandados me orgulhei ter e não me hão de envergonhar, conforme ainda lhes

recomendei nas quatro palavras de despedida, lembrando-lhes a disciplina raciocinada e consentida vistas nos camaradas chefes, pensa-

mento no Exército da Pátria”,

As palavras de despedida de Klinger, às vésperas da eclosão de uma insurreição antigovernamental provocaram

mentário do general Euclydes Figueiredo,

o seguinte co-

um dos chefes do

levante: Era assim o chefe que íamos ter à frente da nossa grande revolução. Antes de entrar na luta já se considerava vencido. Despedia-se da

tropa do seu Comando como a querer dizer que nada mais teria com ela daí por diante. E recomendava aos seus camaradas que se mantivessem em calma, dentro da ordem, na verdadeira disciplina.

Nem

uma palavra de incitamento. Abandonava-os*, Por sua vez, Alfredo Ellis Junior,

tra-se indignado ferroviária

de

São

tropa prometida,

com

Paulo,

pois,

em

Bertoldo vez

de

de Klinger uma

mos-

Klinger à estação

desembarcar

com

a

das razões principais da

paulista, afirmando: O modo pelo qual o chefe dos paulistas agia nos casos referentes ao

comando militar, nos deixa nas seguintes alternativas: a) Inépceia; b) Incompreensão do que fazia e não correspondência do que pretendera fazer, com o que se vira obrigado a fazer; c) Extremada moleza na direção da guerra. Sim, porque o general Klinger, que não conse51 KLINGER, Bertoldo, Apud: NOGUEIRA FILHO, Paulo. Ideais e lutas de um burguês progressista. v. 2, p. 359 52 FIGUEIREDO, Ruciydes. Apud: HENRIQUES, Affonso. Vargas, o maquiavélico, p.

21,

Compreende-se, por essas transcrições, a frustração dos que

se preparavam para o movimento esperando contar como apoio principal os “5.000 homens de Mato Grosso”, que formariam uma

“tropa que nunca chegou ao Estado de São Paulo". Além do ressentimento contra o presidente de Minas Gerais Olegário Maciel, que prometera não disparar um só tiro contra São Paulo e acabou submetendo-se “ao guante ditatorial”, Affonso Henriques compu-

ta à ausência dos “cinco mil” a principal causa do fracasso paulista, como

se nota:

O General Klinger, em vez de vir de avião de Mato Grosso, decidiu

vir de wem, trazendo consigo apenas seu Estado-Maior. Nessa viagem levou dois dias e nesses dois dias à ditadura teve tempo de

garantir para si as tropas de Minas e do Rio. Os cinco mil homens de Mato Grosso lá ficaram lutando contra os que não haviam aderido ao movimento”.

A nossa guerra,

surgia como um “escoteiro”, Ele atribui à defi-

ciência de comando derrota

a chegada de

em

159

A 1932 O MUL DE MATO GROSSO DE 1820

De todo modo, a ausência de referência às operações reali-

zadas pelos sul-mato-grossenses nas comemorações do dia 9 de julho foram

sentidas

por Demósthenes

Martins,

endereçada

ao jornal

Correio Panlistano,

assim

que,

em

carta

lamentou:

Nas celebrações de 9 de julho, vejo, com tristeza e desaponto, à silêncio de vocês paulistas, relativamente à nossa cooperação na luta

constitucionalista. Matias Ayres, no seu brilhante artigo [...| tem frases

ungidas de ternura para o Rio Grande e Minas e, até para um quase platônico movimento dos estudantes do Pará e Bahia. Para nós, st ! mato-grassenses, que levamos nossas falanges às trincheiras de Buri

$3 ELLIS JUNIOR, Alfredo. A nossa guerra, p. 249. sá HENRIQUES, 55 HENRIQUES,

Affonso.

Vargas, o maquiavélico,

p. 211,

Affonso.

Vargas, o maquiavélico,

p. 215.

160

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO.

e outros setores da terra paulista, nem uma palavra. Para Borges de Medeiros e Artur Bernardes, muito merecidamente, aliás, referências agradecidas no dia festivo de São Paulo: para Vespas iano Martins,

que estabeleceu um governo civil de fato em Campo Grande , e levantou a sua terra em colaboração com São Paulo, nem uma pala-

vrabé

1)

Campo

Campo

de de que seja contada a verdade. Nós quando falamos em paulistas,

=

a indagação: teriam ficado realmente “cinco mil homens ” em

Mato

Grosso,

lutando

“contra os que

não

haviam

aderido

ao

movimento"? Quem eram esses homens “fiéis aos postul ados de 1932”, onde estavam, contra o quê e a favor de que lutavam ?

Grande,

“uma praça revolucionária” em 1932

não generalizamos quantos nasceram em nosso Estado, mas aqueles

Voltando à questão da ausência de Mato Grosso, fica agora

Grande e a nova

elite política do sul de Mato Grosso

o que se passou no sul de Mato Grosso, nesse admirá vel Estado de Maracaju. Isto é necessário porque nós paulistas, sentimo s necessida-

fiéis aos postulados de 19327.

Capítulo 5

o--—--

Em resposta, o jornalista lhe assevera que sempre fora seu intento recompor a história e, especialmente, fazer conhecida a atuação do sul de Mato Grosso, aproveitando para dar notícias sobre uma conferência feita por Auró Martins no Club Piratininga, “relatando o quanto devemos ao Sul de Mato Grosso ”. Mais adiante, solicita que o próprio Demósthenes escrevesse

ara o fracasso da insurreição de 1932, logo se encontrou um “ culpado. Responsabilizado pelo não envio das tropas

mato-grossenses e pelo malogro da ação antigetulista, o general Bertoldo Klinger, já no exílio, defendeu-se

das acusações

a ele

imputadas afirmando que, após o seu afastamento do fRiiARãO, militar em

Campo

Grande,

manteve

conversação telegráfica com

o coronel Euclydes Figueiredo, que dava a situação de São Paulo “como a melhor possível”, que os interventores de PERINRADNDO

e Rio Grande do Sul haviam sido depostos e que Minas e Paraná estavam solidários com os paulistas, fato que o desobrigava de enviar seus homens. Sustenta também que, desde maio, ppa ra claro ao comando revolucionário “que Matto Grosso, isto É eu, não tomaria a iniciativa da insurreição”!, e que a aliança funda mental deveria ser com o Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Rio 56 MARTINS,

Demosthenes.

A poeira da jornada,

p. V)9-110.

57 MENEZES, A, H. Carta apud MARTINS, Demosthenes, 4 poeira da Jornades,

p. 113-114.

de Janeiro. E E So Memorial Klinger. , abra 1 KLINGER, Bertoldo. age, Revista Brasileira. n. 2,à ago, 2465-247.

1934..1| 19%,

162

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Entretanto,

falhada

essa aliança, é tendo

um

dos parceiros

não apenas deixado de acompanhar São Paulo mas marchado contra São Paulo, o supremo comando não mais vacilou em cos

brar-lhe a remessa do contingente mato-grossense. Klinger respondeu então que a não adesão do Rio Grande do Sul “repercutira no seio da vasta colonia gaúcha que povôa o Sul de Mato Grosso e parte dessa gente, até alguma armada por nós, alçou-se contra nós”.

A alegada influência do Rio Grande do Sul sobre a colônia gaúcha do sul de Mato Grosso para justificar a ausência dos “cinco mil homens” não impediu que Klinger fosse substituído do comando pelo coronel Euclydes Figueiredo a quem acusava de nutrir “sentimentos hostis” e “desejos personalistas"?, Por sua vez, Enclydes Figueiredo, em obra que pretendeu oferecer uma “amplitude maior” e uma “história mais pormeno-

rizada” sobre 1932, por dispor de quase todo o arquivo relativo às operações do Vale do Paraíba, ao abordar os primeiros dias do movimento,

apesar de estarem os paulistas em situação favorá-

vel, afirma em tom de crítica a Klinger: “Mas faltou a prometida

tropa de Mato Grosso, que deveria chegar guiada pelo general que comandaria a vitória". A promessa de envio dos “cinco mil homens” é lembrada por contemporâneos de 1932, como é o caso de Léa Carvalho de Andrada e Silva, cujos familiares, em Araraquara é na capital paulista, se integraram à ação armada antigetulista, Ela se recorda das manifestações ocorridas no Largo do São Francisco e conta que

era comum

ouvir entre os combatentes

“Agúentem, que eu estou chegando”,

uma

frase de

Klinger:

2 KLINGER, Bertoldo. Memorial Klinger, Revista Brasileira. n. 2, ago. 1934, p. 240, 3 KLINGER, Bertoldo. Memorial Klinger, Revista Brasileira. n. 2, ago. 1934, p. 253. 4 FIGUEIREDO, Euclydes. Contribuição para a bistória da revolução constitucionalista de 1932, p. 140. 5 ANDRADA e SILVA, Léa Carvalho. Entrevista. São Carlos, 30 maio 1997. Ela narra também o caso de um amigo paulistano que, após a vitória de Vargas, “para protestar, passou a usar uma gravata preta até o fim da ditadura”.

163

A DO SUL DE MATO GROSSO DAMPO GHANDE E A NOVA ELITE POLÍTIC

a chegou a E Mas, se à tropa de “cinco mil homens” nunc

so tenha se pa paulo, isto não significa que Mato Gros

é

o Grande contitlgentes de revolucionários deixaram Camp

ndo Demósthenes Martins, “seguir: im em auxílio aos paulistas. Segu o que participou das operações, coube às Farpas E São Paulo se enfrentar as expedições que visavam a atacar a s divisa combates nas Grosso. “Nos renhidos e sangrentos

[...] em toda parte as Mato Grosso e Minas, e em Porto Murtinho | forças adversárias foram barradas”*. e, en Grand o Camp Dentre os batalhões que partiram de por Henrique ni rei contrava-se o Gato Preto, comandado Martins. Seu filho, Wilson Barbosa

dio, declarou que, contaminado

pefenibirando o bd

Martins,

pelas pregações dos com RR

mas aspire dm tes, insistiu em embarcar com Os eminentes,

má Resta a forte repreensão” do pai e teve que ficar. ficou ana ii pod Grande, disse que, atrás dos que partiram, id e air de praça revolucionária”, pois havia enorm A sa os era tail AR dade, e o engajamento da população amigos € parentes 5 res davam aulas uniformizados, enquanto E

ara

as frentes de luta”

|

do pai da “cidade agitada” e do “pito” que id sm intenção de Ra por haver “fugido do internato” com a com

a suá

tropa,

lembra-se

também

do

tio-avô

be

pena

ai RA a que lhe revelara jamais ter sofrido tanto em revolução, é a pie wi lhe aconselhara: “Nunca se meta n Barbosa Martins: do mundo”*, Acrescentou, ainda, Wilso

1932, quando o Norte per E Minhas lembranças mais nítidas são de

o Sul, sob o coma ndo neceu com Getúlio Vargas, ao passo que

6 MARTINS,

Demosthenes. 4 poeira da jornada,

dk

p. 103.

Sul. Correio do Esta do. Campo Giu 7 pivisão foi um sonho que mobilizou o de, 10 out 1995, p. 4. Correio do Estado. Campo Gran 8 Divisão foi um sonho que mobilizou o Sul, de, 10 out. 1995, p: 4.

Iú4

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Vespasiano Barbosa Martins, aderiu à revolução paulista. Lembro» me da cidade agitada, dos homense das mulheres de uniforme, dos quartéis improvisados para alojar os batalhões que se organizavam.

Recordo-me de meu

pai, feito comandante

de um desses

batalhões — o Gato Preto —, que me passou um “pito' porque eu

fugi do internato e fui assistir ao embarque da sua tropa, na estação da Noroeste. Eu queria seguir com ele para a Serra das Morangas”.

Campo Grande, dessa forma, depois de se tornar uma “grande Praça revolucionária”, fato que certamente lhe traria prestígio po-

lítico, só almejava vir a ser uma capital. Eis o que 1932 poderia ter Significado para o sul de Mato Grosso. Por isso, a sua relevância Na historiografia sul-mato-grossense. Estudos anteriores ao meu afirmam que o sul de Mato Grosso Vivia, até a eclosão do movimento de 1932, uma fase de “arrefecimento” do “movimento divisionista”. Entretanto, a pesquisa que

realizei mostra

Pelo menos,

que,

a rigor, não existiu,

até essa data

um “movimento divisionista”, Ideias, anseios, mani-

festações esporádicas, sim; luta organizada para dividir, não. Portanto, é fácil concluir que o “movimento” não tinha de onde “Tessurgir” em 1932. Essa insurreição, na verdade, pela sua próPria lógica interna, propiciou a formação de um governo efêmero

no sul de Mato Grosso, mas isso se deveu a uma necessidade estratégica dela, Não foi um ato resultante da vontade e da orga-

165

AMPO GRANDE E ANOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GRDSSO

portanto, divisão paralelo ao sediado em Cuiabá e que não houve,

de Mato grosso em 1932. Além disso, a partir deste

e

o tema

capítulo abordarei

do

, que deslocamento da liderança política no sul de Mato Grosso era

principalmente

exercida

pelas

cidades

de

maus

e

es comerCorumbá, e que esta última, preponderante nas selaçõ

zação oco ciais. nunca chegou a tomar partido na polari pratica por sê idemtificar culturalmente com Cuiabá. Até então,

Grosso sam mente, as mais importantes cidades do sul de Mato

à contar dos elas, acrescidas de Paranaíba e Miranda. Entretanto, dnsças a anos de 1920, e, especialmente de 1932, a situação a liderança mudar e Campo Grande arrebatou definitivamente no nei ia política do sul do estado. Sua posição geográfica O tod im região sul; a chegada da ferrovia; e, logo depois,

sido contemplada com a transferência do Comando

mine (o)

que ea Oeste, até 1921 sediado em Corumbá, foram condi des e es Além reram para o seu rápido ad dai segunda década do século XX, “participon de todos se destacou, mentos políticos da nacionalidade". Dentre eles ado, on para o futuro da cidade, o de 1932. Embora derrot ceu

como

emblema,

um

uma

lembrança

sempre

Pera



ceria. Foi o que a divisão de Mato Grosso, cedo ou tarde, aconte prenúncio de 1977.

nização de grupos sul-mato-grossenses para afirmar a sua auto-

Aomia perante o “governo de Cuiabá”. Não fosse a insurreição Paulista de 1932, não teria havido governo no sul de Mato GrosSO, mesmo que passageiro. Esse governo, por outro lado, é considerado como o “primeiro do estado autônomo”, dividido. Aqui, Porém,

demonstrarei

que ele constituiu uma

espécie de governo

O governo de Vespasiano Barbosa Martins (1932) Bertoldo Klinger, quando

administrativamen

boletim a 8 de te pelo Chefe do Governo Provisório, divulgou um julho de 1932,

9 MARTINS, Wilson Barbosa. A divisão foi um bem para os dois estados. Cultura. ano L. nº 3, set-out., 1985, p. 27-29. (Entrevista).

foi reformado

MS

10 MARTINS,

1

se « no qual se despedia das tropas mato-grossen

Demosthenes.

qa . o

4 poeira da jornada, p. 89.

166

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

167

AMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICADO SUL DE MATO GROSSO

haviam aderido ao movimento”, o chefe do governo revolucio-

vol pretensão do pai, crescem e vão tomando rumo. Andes se e Wim para a pecuária e agricultura”, Vespasiano decidiu estudar 1.304 de se fazer médico. Para tanto, o pai vende “uma boiada cabeças” e segue, em outubro de 1902, com dois filhos,

nário de Mato Grosso, Vespasiano Barbosa Martins.

Vespasiano

partiu

para

São

Paulo,

de trem,

onde

iria chefiar à “revolução”,

Antes de embarcar, porém, nomeou em Campo Grande, dentre “os cinco mil homens que ficaram lutando contra os que não

Vespasiano,

talvez a mais forte expressão

de um

grupo de

lideranças políticas que emergiu no sul de Mato Grosso no final da década 1920, uma personalidade, segundo Demósthenes Martins,

de

“singulares

atributos

de

condottiere”2,

tornou-se

o

símbolo da divisão do estado.

Primeiro médico sul-mato-grossense,

formado no Rio de

Janeiro em 1915, clinicou em Campo Grande, onde foi pioneiro na prática da cirurgia. Em 1925, após vender os bens que possuía, partiu para a Europa para se especializar. No retorno, trabalhou em São Paulo até 1929, quando regressou a Campo Grande, a pedido de amigos que o chamaram para participar de

campanhas

de

1930.

políticas

A partir dessa

que

prenunciavam

os

acontecimentos

data, sua vida se dividiu

cina e a política. Nelly Martins, sua filha, escreveu caçula de 14 irmãos. Nascido e criado

entre

a medi-

que Vespasiano era O na fazenda Campeiro,

região de Rio Brilhante, foi o único que satisfez o sonho do pai, Henrique

José

Pires

Martins.

Este,

um

pequeno

comerciante,

nascido e vivido em cidade do interior de São Paulo, adaptou-se

com dificuldade à vida do campo depois de se casar com Marcelina Barbosa, filha de Ignácio Gonçalves Barbosa, e passou, desde o casamento, cerca de 1863, a viver na fazenda da Vacaria. Henrique, “nas horas livres ensina Marcelina a ler e escrever”, lê jornais,

livros e “eleva o nível cultural de seu lar”. Pensa em dar aos filhos a oportunidade

que

não

teve.

Estes,

porém,

“desconhecendo

é José,

11 HENRIQUES, Affonso. Demosthenes,

Vargas, o maquiavélico, p. 215. História de Mato Grosso, p. 108,

sobrinhos,

João

e Henrique,

pará

Uberaba, MG, onde, internos em Colégio Marista, estudarão. ( ontinuou seus estudos em Cuiabá, onde terminou o ginásio no ai Colégio São Gonçalo, dos salesianos, em 1909. Em e do Medicina pre com o apoio do pai”, já está na Faculdade de À Rio de Janeiro, na Praia Vermelha?. frus1929, A primeira disputa para um cargo eletivo, em irou-se, A ausência de partidos nacionais ensejara, em Campo Grande, a criação da agremiação municipal, o Centro EAvieo, nascido, segundo seus membros, para “combater o Rapina o político”. Realizando-se naquele ano eleições para HrenRiit (prefeito) e vereadores do município, O Centro Cívico, mor

nhado na “renovação política”, lançou a candidatura de Vespasiano

Barbosa Martins, “destacada figura da família Barbosa, pioneira do povoamento da zona da Vacaria, numerosa, dinâmica e vitoriosa na atividade pecuária do sul mato-grossense”, Seu nome foi aposto ao de Antônio Antero Paes de Barros,

a oriundo de família poderosa, já citada, e que representava as continuidade do predomínio político exercido pelas oligarqui tradicionais do estado. Ao final da campanha, segundo a Demósthenes Martins, mais uma vez houve a consumação e. dominant fraude: venceu Antero Paes de Barros do “partido

Analisando os resultados da eleição que vivenciou, registrou O autor:

do, que Debalde foram interpostos recursos contra esse resulta e no positivava uma grosseira falsificação da votação, especialment

a 13 MARTINS, Nelly.

12 MARTINS,

e dois

Vespasiano, meu pai, p.37-48. A poeira da jornada,

p. 89,

14 MARTINS,

Demosthenes.

15 MARTINS,

Demosthenes. A poeira da jornada, p. 89.

168

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

distrito de Rio Pardo, onde, ressuscitados, votaram mortos cujos óbitos estavam devidamente registrados no Registro Civil. Era mais uma radiografia da falsidade do resultado dos pleitos eleitorais, justifican-

do, assim, o movimento da Aliança Liberal pela implantação do voto

pelas foi

AMPO GRANDE

terpretam

esse fato como

divisionismo. aque

168

E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

sendo

uma

É o caso de Campestrini

manifestação e Acyr

dia

ii

Vaz Guimardes,

esttevem:

secreto - à preliminar da moralização das eleições!s,

so none, No correr da revolução, o sul de Mato Grosso desligou-se

Entretanto, realizada a Revolução de 1930, que foi apoiada

para retas nomeado o médico Vespasiano Barbosa Martins

novas lideranças políticas de Campo

nomeado

prefeito

pelo

interventor

Grande,

Arthur

revolucionárias, tendo o General Klinger, chefe das forças armadas as foi pes da nova unidade - o Estado de Maracaju. O penei

Vespasiano

Antunes

a Rania em Campo Grande, no dia 11 de julho de 1932 L..). pa

Maciel,

ficou sem susdos constitucionalistas de São Paulo, o novo Estado tentação!.

em junho de 1931, e estando no exercício desse cargo é que foi

empossado por Bertoldo Klinger, em julho de 1932, para a che-

fia do governo constitucionalista de Mato Grosso, É importante

notar que até então não havia relação, pelo menos pública, entre Vespasiano e a causa divisionista. Sobre a nomeação relatou Rubens de Mendonça: Iniciada a revolução no dia 9 de julho, o General Klinger convenceu o médico e chefe político de grande prestígio no sul do Estado, Dr. Vespasiano Barbosa Martins, a assumir O governo revolucionário de Mato Grosso, em Campo Grande, e fêz transmitir pelo telégrafo uma proclamação a todas as guarnições do

Estado de que 'em São Paulo irrompeu vitoriosa revolução com o objetivo de restaurar pureza revolução 1930, especialmente conduzir Brasil máxima brevidade ao regime da lei para todos

governados, mas também para governantes”. Essa proclamação, bem como as demais ordens, foram retidas na estação telegráfi-

ca de Aquidauana”,

O trecho transcrito não menciona que Vespasiano Barbosa Martins tenha sido nomeado chefe de governo “do sul” de Mato Grosso separado do norte, mas sim do “governo revolucionário

de

Mato

Grosso”.

Todavia,

alguns

autores

in-

Como lemos, asseguram que o sul de Mato Grosso “no do a crer que correr da revolução desligou-se do norte”. Levan autores o os o “desligamento” realmente tivesse aRainde É o tem que, então, o General Klinger teria nao E aaa ur vespasiano Barbosa Martins para povemador da confirmar a sua de”. Mas não citam as fontes que poderiam Interpretação próxima é a de José Hasbana Roerigued. He o AESA entretanto, é mais cauteloso quanto ao “divisionism ia a º na nomeação de Vespasiano. De toda forma, para o ios o sul de Mato Grosso” se levantou “ao lado dos revolucionár s, de Bento para “concretizar O sonho de Muzzi, de Mascarenha Xavier". São suas as palavras:

tese.

Todo o sul de Mato Grosso se levanta ao lado dos FevolugionÃaos,

ne a era enquanto que o governo matogrossense permanece ia da à vxos pela central. Veladamente os sulistas aspiram e lutam concretizar : pa u | volução, certos de que havia chegado a hora de tantos outros que de Muzzi, de Mascarenhas, de Bento Xavier e de Gnmits RR no passado haviam lutado pela separação. Campo

se transtorma tornara a segunda cidade do Estado, depois da capital,

16 MARTINS, Demosthenes. A poeira da jornada, p: 90. 17 MENDONCA, p: 172:

Rubens

de.

História

das

revoluções

em Mato

=

Grosso,

rr

18 CAMPESTRINI, so do Sul, p. 127.

TRA

Hildebrando; GUIMARÃES,

Acyr Vaz. História de Mato Grs

170

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

no centro político e administrativo de toda a região sul. Um governo

independente do de Cuiabá instala-se na cidade sob a direção do médico Vespasiano Barbosa Martins. Até um Diário Oficial é editado. Batalhões são organizados e entram em ação”.

Nas palavras de José Barbosa Rodrigues, fica claro que não havia um “movimento” naquele momento, uma vez que “veladamente os sulistas aspiram e lutam pela Revolução, certos de que havia chegado a hora de concretizar o sonho de Muzzi”, ou seja, a “separação”. Sobressai nessa afirmação a prioridade da “revolução”

paulista

isto é, caso aquela viabilizar-se.

sobre

o “movimento”

fosse vitoriosa,

mento, Demósu : nes Manifestando-se favoravelmente ao movi ina alieiente Martins foi incumbido de adquirir no Paraguai gasol pela Força Pública para abastecer pequeno avião a ser pilotado

ate em Porto M urtinho. de São Paulo, que integraria a tropa de comb

poderia,

ipa irubalançar a superioridade de fogo “das forças do plica o autor. Somau-se,

Deflagrado o movimento armado de São Paulo a 9 de julho de 1932,

recebeu este imediata e entusiástica adesão do sul de Mato Grosso, a região mais populosa e desenvolvida do grande Estado do Oeste.

Atreito às suas tradições de lutas; às marcantes vinculações a São Paulo desde os tempos das bandeiras; às lides territoriais [...] não causou surpresa esse intrépido pronunciamento dos sul mato-

lidade de singulares atributos de liderança popular, então em extra-

ordinário destaque na sua terra natal?”

ém paltino É de se notar que essa obra, cujo autor foi tamb União Egas em Mato Grosso, tendo sido presidente da Harhinds Martins, Nacional (UDN), e companheiro de Vespasiano

20 MARTINS, Demosthenes. 4 poeira da jornada, p. 99100.

interessante,

se distancia

é mais

outros

Demáósthenes

do ufanismo, o que autores como separatista,

não dedica

Memórias,

um

único capítulo

ou

citado

por

em

suas

item sequer

para

Martins,

1932. ás spa tratar especificamente do tema “divisionismo' sim

Mato classifica como de to do governo instalado nesse ano, ele o separado do norte, como Grosso e não do “sul” de Mato Grosso

observamos a seguir: A

s, ERRADO ac dejulho, o Dr. Vespasiano Barbosa Martin

Klinger, Ei empecisa is dor do Estado de Mato Grosso pelo General

e militares € no cargo L...] na presença das mais altas autoridades civis entre vibrantes aclamações populares”, s22

Gampestrini « Fica assim O contraponto com a obra de mostram não une exis Guimarães, pois as evidências históricas ução Aepngou-se ele tido “nova unidade” que “no correr da revol próprio Vespasiano Bit Mato Grosso”, Leiamos as palavras do =

19 RODRIGUES, José Barbosa. História de Mato Grosso do Sul, p. 146.

então, aos seus amigos especialmente

ino Barcelos e os comde Andrade, Dolor de Andrade, Coronel Laudel engajados nessa panheiros das réfregas locais de Maracaju, todos histórica decisão de rebeldia”.

grossenses, Além dessas determinantes histórico-geográticas mais dois fatores se lhes somaram: a integração do General Bertoldo Klinger, comandante da guarnição militar do Estado, portador de grande prestígio na sua classe, que teve consigo a tropa do seu comando sédiada nesta região, e o apoio do Dr. Vespasiano Barbosa Martins, persona-

mos

Eduardo Machado, Arlindo as doutores Vespasiano Barbosa Martins,

então,

Mas é a obra de Demósthenes Martins, dentre os componentes do Instituto Histórico e Geográfico dos dois estados, que fornece melhores elementos para essa análise. Partícipe das “tropas de Mato Grosso que nunca chegaram a São Paulo”, registrou ele em suas Memórias:

ah esa

civis proa somente utilizando a aviação, os combatentes

sul-mato-grossense,

a divisão

A!

A DO SUL DE MATO GROSSO CAMPO GRANDE E À NOVA ELITE POLÍTIC

———

21 MARTINS,

——miem

Demosthenes.

A poeira da jornada, p. 100.

a, p. 1 Q2. 32 MARTINS. Demosthenes. A poeira da jornad

172

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO-SUL DE MATO GRÓSSO

Dosa Martins que, dias após ter sido nomeado e com o propósito de desfazer hoatos tendenciosos que eram veiculados “no norte”, fez o seguinte pronunciamento realçando que “não devemos ter questões regionais”: Ciente de correr aí que o movimento do Sul é regional contra o Norte, venho declarar não ser verdadeiro o que se afirma. Batemo-

nos com os nossos irmãos de São Paulo, Rio Grande e Minas pela volta ao País do regime da Lei. Não temos e não devemos ter questões regionais; batemo-nos pelo Brasil unido e livre. Apelo para o sentimento desse altivo povo do Norte a fim de cerrar fileiras ao nosso lado, e caminharmos pela estrada larga da Liberdade. a) Dr.

Vespasiano Martins. Interventor Federal de Mato Grosso?, De

precioso valor histórico,

transcrito

nas

esse pronunciamento

obras já referidas”.

Quanto

não foi

às palavras

de

Vespasiano Barbosa Martins, podemos extrair duas conclusões: a) o Chefe

do Governo

Revolucionário,

em

Campo

Grande,

não considerava que o estado estivesse dividido; b) pretendendo

evitar manifestações

regionalistas

que

pudessem

provocar

repressão do governo legal “de Cuiabá” contra o sul, Vespasiano, ao apelar para o sentimento “desse altivo povo do Norte a fim de cerrar fileiras ao nosso lado”, parece pretender não a divisão de Mato Grosso, mas a união das duas regiões do estado — norte e sul — lideradas por Campo Grande. Observemos, inclusive, que

ele assina

como Interventor

Federal

de Mato

Grosso

é

não do “estado de Maracaju”, É evidente que tal expectativa, isto é, de transferir a capital para o sul só poderia ser possível caso a insurreição paulista fosse vitoriosa, bem como derrotadas as

25 MARTINS, Vespasiano Mato Grosso, p. 109.

24 Demosthenes Mato

Grosso; José

publicada em

Barbosa, Apud;

MARTINS,

Demosthenes.

História de

Martins o reproduz em suas Memórias e na sua História de

1980.

Barbosa

Rodrigues,

na

sua

História de Campo

Grande,

Via

MATO GROSSO CAMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE

políticas

forças Vargas.

á uiabá, legalistas de Cuiab

iam o aneciam que perm no

|

p

A dissertação de Jovan Vilela da Silva, so: uma

a

visão histórica (1892-1977),

a

ficfiéis |

4 divisão de Mato à conclusão se-

chega

tivesse presiasado a melhante. O autor não afirma que o sul da ançie «ua autonómia. Julga, ao invés, que se tratava mais dividir o estado: a rência da capital para o sul do que de se dos tira caso o governo ficasse em Campo Grande, sse necessidade de revolucionário vingasse, talvez nem houve

cce

END

nomo E reforçar a tese de que não houve estado autô o e edema ç sul de Mato Grosso em 1932, menciono outro mi = ar vespasiano concitando “as armas” publicado seu

curto

governo.

Intitulado

“Matogrossenses!”,

enfatiza:

RE pelo Am Quando assumi o governo de Mato Grosso indica , O fiz por “e Klinger, chefe do movimento constitucionalista

que

Estado Lilagic nd ja ao encontro da vontade do povo do meu

esntrenharee pt N do com os princípios revolucionários. E ao política que vit ia pai a ra pelo caminho errado, organiza ndo uma À dos que Di com o Brazil, eu alistei-me ao lado ad A o constitucionalização como medida salvadora da À » e a população do Sul acorreu entusiasta à cru qaea a São Paulo a contri É tos do Norte virão amanhã unidos, levar á prolenigatapto E ã a que somos obrigados. Mato Grosso é um gs, vierans da ami Paulo. As nossas principais e mais antigas fatnfll dt o bo gente paulista, dos bandeirantes que Fizeram e

ras cidades. Foram os paulistas que levantaram as nossas primei

25 SILVA, Jovãn V. da. A divisão de Maio do 1977, p. 83.A dissertação de mestrado até o momento em que defendi a ' ciio Alisolete Weingariner, Movimento

(1889-1930),

Grosso: uma autor era à minha tese divisionista

et) ica ea (150 histór visão os y o ) de dotreras a SH no Maito o

não alcança os acontecimentos de 1952. pie a ados |

entretanto, apoia-se Interior, de 1977.

quase

integralmente

nos

textos

Fomo:

public

Ene

174

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO Grosso

uma parte de São Paulo [..]. São Paulo levan tou, matogrossenses, [e]

laboro da guerra para salvar o Brazil. Nenhum matog rossense valido pode fugir da luta redentora [...]. Meus concidadãos

matogrossenses! Nestes dias históricos, é esta à palavra de ordem: às armas. [...], Dr. Vespasiano Martins%.

Os

documentos

mostram,

Pois,

que

a

“causa

cons

titucionalista” era mais forte do que a intenção de dividir o estado.

Outro dado que fortalece essa idéia é à própr ia postura de Bertoldo: Klinger: ele nunca fora simpático a moviment os separatistas. Iria sé-lo agora colocando em risco a causa paulista? Em 1930, por exemplo, condenando o separatismo gaúch o, admitia que: Um prezidente da federasão saido do Rio Grand e seria O Único remédio [...]. Rezultaria na realidade melhó r ozmóse governamental entre a gente do Sul e os órgams normaes do governo sentral, averia muinto maes dezemvolvido aflueso de gauxo s á capital da Republica, dezaparescriam descomfiamsas gratuetas, preco mseitos sem baze, esclareserse-iam dúvidas ce im pédem ou arrefé sem afétos, satisfirseiam aspirasões licitas: éra uma vez o separa tismo!”,

Embora se saiba que o separatismo gaúcho signif icava coisa diversa do sul-mato-grossense, posto que aquele pretendia à separação em relação ao Brasil, adotar uma postura simpática à este no momento em que o próprio Klinge r dizia ser necessário Testaorar o abalado sentimento da unidade nasional”, parece fora de propósito. O levante de 1932, por outro lado, expun ha mais uma vez as diferenças regionais de Mato Gross o. Com a adesão do sul e nomeação de Vespasiano Barbosa Martins, chefe constitucionalista de Mato Grosso, tornava-se a parte meridional do estado mais vinculada aos movimentos nacionais que se iniciamn Caib 26 MARTINS,

Vespasiano

Barbosa.

Matogrossenses!

MATO

GROSSO. Oficial, Campo Grande, 28 jul, 1932, p: 1, 27 KLINGER, Bertoldo. Narrativeis cotobiografi cas, v. 5, p, 126-127.

AMPO

pum

GHANDE E 4 NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

com

o tenentismo,

enquanto

o centro-norte

permanecia

povernásta. Ao mesmo tempo, realçava a afinidade política maior do sul de Mato Grosso com São Paulo do que com Cuiabá, a sua capital. , Nesse

sentido,

em

sua

História de Mato

Grosso,

Demós-

thenes Martins, após afirmar que a “Revolução de 1932 teve, no “ul de Mato Grosso, fora das raias de São Paulo, a sua única e

positiva adesão”, assinala que a “conjuntura da luta armada” mais uma vez ressaltou a divergência

entre as duas regiões do

estado — sul e norte. Enquanto esta se manifestava “solidária com a ditadura de Getúlio Vargas, aquela aderia entusiástica e decididamente ao movimento revolucionário de São Paulo”. Segundo ele, tal adesão, além de movida por laços históricos que grid o sul de Mato Grosso a São Paulo, somava-se “a velha aspiração dos sul-mato-grossenses pela divisão do Fado”, A divisão, neste caso, estaria condicionada à vitória dos paulistas,

conforme lemos: A idéia, velha, determinada pelos imperativos gececonômicos que

dão características tão diversificadas às duas regiões, arregimentava a unidade sulista para, na hipótese da vitória constitucionalista, dicar a efetivação da ambicionada divisão”.

Não deixa dúvida a expressão constitucionalista,

reivindicar

“na hipótese

a efetivação

reivin-

da vitória

da ambicionada

divi-

são”, o que deixa implícita a conclusão de que o govemno de Vespasiano Barbosa Martins não representava “ainda” um novo estado. Poderia “vir a representar” na hipótese de ter sido outro o desfecho de 1932. Assim, esse governo deve ser classificado como uma forma “paralela” de poder, fruto do levante paulista, mas não o primeiro governo de Mato Grosso “dividido”.

Ditrio 28 MARTINS,

Demosthenes.

29 MARTINS,

Demosthenes, Flistória de Maio Grosso, p.

História de Mato Grosso p. IO, O,

176

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHOSGO.

Para reforçar esse ponto de vista, cito o próprio Klinger, que, em Lisboa, redigiu documento intitulado Memorial Klingen sabre a sua controvertida ação no movimento constitucionalista, Utilizando a metodologia de perguntas e respostas, abordou pon! tos polêmicos relacionados ao episódio e afirmou sobre a nos meação de Vespasiano: “Verbalmente me entendi com o prefeito. municipal, Dr. Vespasiano Martins, de quem consegui o sacrificio de acceitar a chefia do novo governo de Matto Grosso” *. Alude, como

vemos,

ao “novo governo de Matto Grosso”

e não de uma:

nova unidade federativa.

Outro aspecto que ajuda a entender o caráter do govemo! de Vespasiano é a referência de alguns autores sobre a conotação. separatista do movimento paulista de 1932. A esse propósito escreveu Carone: Revolução e separatismo são duas idéias que se afirmam cedo entre as oligarquias, atitude extrema do seu radicalismo. A pretensão revolucionária se esboça desde

o início de

1932, fato comprovado

pela apreensão de contrabando de armamentos em Santos?!.

Mais adiante, referindo-se ao apoio dos presidentes do Rio Grande

do Sul e de Minas

Gerais

*'aulo Nogueira Filho, por seu turno, em Ideais e lutas de um burguês progressista, tanscreveu matérias publicadas na época por um jornal denominado O Separatista, para quem “a sepa-

31

CARONE,

52 CARONE,

Bertoldo.

Memorial

Klinger. Revista Brasileira.

Nº 2, ago.

micão de São Paulo do Brasil é uma fatalidade histórica”. No entanto, ele próprio refuta as acusações sobre o caráter separalis-

ta de 1932 indagando: “O fato de um jornalzinho divulgar êsses slogans seria motivo para pôr em estado de alarma a Nação? Ridiculo!"*, obra Da mesma forma, Affonso Henriques, em uma condenatória sobre Vargas, refuta as acusações de separatismo que pesavam sobre os paulistas. atribuindo aos “agentes da ditadura” interessados em criar um ambiente contrário às aspirações de São Paulo, que “não eram outras senão à Constituinte e O retorno

“a ordem

legal democrática”,

Os seus aliás, como poderia tal movimento ser separatista, se entre

e chefes militares havia três gaúchos (Isidoro, Klinger e Palimércio)

um carioca (Euclides de Figueiredo)? E se o Rio Grande do Sul

à quase em pêso estêve ao seu lado? Mas a ditadura não se limitou pela os recrutad foram isso, É sabido que as levas de nortistas que ditadura nas caatingas do Norte vieram na ilusão de que iam lutar i, contra os italianos de São Paulo, os quais, às ordens de Mussolin

de estavam procurando tomar aquêle grande Estado, a fim transformá-lo numa colônia do Império Fascista [...), Não resta a perder, do a sua autonomia, a qual outros Estados iriam igualmente

desta ou daquela forma”,

Considerando essa apreensão dos paulistas, acusados de separatistas,

é possível compreender

4 República

nova,

p. 311.

Edgard. A República nova, p. 3135-514.

melhor

as circunstâncias

O históricas que levaram Vespasiano Barbosa Martins a realizar era pronunciamento explicitando que “o movimento do Sul” não ossenses “regional contra o Norte” e que não deviam os mato-gr “ter questões regionais”. A acusação de secessão que pairava

1934,

33 NOGUEIRA FILHO, Edgard.

interpela o autor:

menor dúvida de que São Paulo se lançara na luta por haver perdi-

a Gemlio Vargas, escreveu:

É assim que a solidariedade destes Estados a Getúlio Vargas permite afirmá-lo na luta, ainda mais que renentismo e interventores de outros Estados estão fervorosamente ao seu lado, acusando os paulistas de 'separatistas' e de pretender a volta ao antigo “predomínio”.

50 KLINGER, p: 236.

177

CAMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICADO SUL DE MATO GROSSO

Paulo, Ideais e lutas de um burguês progressista. v. |, |

366-367. 34 HENRIQUES, Affonso.

Vargas, o maquiavélico, p. 212.

E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GR REGIONALISMO

178

sobre São Paulo reforça a interpretação segundo a qual o govema

de Vespasiano ainda não era de um estado apartado.

Especialmente sabendo-se que idéias separatistas veicula o final do século XIX e estan

vam no sul de Mato Grosso desde

do Vespasiano Barbosa Martins ligado ao comando

revolucionds

rio de São Paulo, a proclamação da divisão de Mato Grosso e da. criação dé um novo estado certamente não ajudaria a causa paulista naquele momento. Por isso, é provável que essa eim

cunstância tenha contribuído para que Vespasiano declarasse ao norte o caráter não

regionalista

do seu governo,

preocupação

Cri a um dos atoss lot isã ã o de Mato Grosso seri ivis de afirmar que a div a sei qi rMOS O” , primeiro deles) desse movimento

Aos bandeirantes, destemidos desbravadores de sertões, devemos 0:

que somos. Mato Grosso « grande parte do Paraná foram por eles integrados em nossa nacionalidade, quando já em mãos estranhas, Não há interesse subaltemo, não há regionalismo. Estamos juntos com o Estado de onde partiram as Bandeiras intimoratas que nos uniram ao Brasil. Com ele estamos e estaremos”.

Em suma, à imputação que pesava sobre os paulistas é um. elemento relevante para a análise sobre a posição de Vespasiano Barbosa Martins. O caráter negativo atribuído ao “separatismo”

à hegemonia das forças liga tada 4 insurreição confirmando-se à derrota dos paulistas Pope das a Vargas. Para Mato Grosso, s grupos do norte e o ime 4 retomada do controle político pelo

o de Vespasiano cor diato desmonte do efêmero govern os outros chefes políticos Martins, que, então, à exemplo de tant gsa Paraguai. Da cidade de Pedro mato-grossenses, exilou-se no

de outubro de 1932 a abril Caballero, onde viveu com a família ai um irmão na qual revela “Ro enviou carta à isto é, de haver combatído arrependido” de seu “proceder”, 1933,

sul de Mato Grosso, o acompanharia. A propósito, artigo comemorativo da divisão de Mato Grosso, publicado em 1977, não deixa dúvidas: diz que o governo de 1932 “era de apoio "a Revolução Constitucionalista” e que “Vespasiano fazia questão 35 MARTINS,

Vespasiano

da jornada, p.104-105.

Barbosa, Apud:

MARTINS,

Demosthenes.

A poeira

“uma

o podemos ler: ditadura”. Nada sobre divisionismo, com

ta [...]. Para que ari ma Aqui vamos vivendo uma vidinha paca E

a fique impressionado com à minh

situação cumpre-me

am

do meu proceder e ain j ciente de que não estou arrependido saMS mais,

acho-me

contente

& esperando

serenamente

tudo

[6]

tos políticos, confisco de bens, que vier. Exílio, cassação de direi recebo como recompensa por nada disso me impressiona. Tudo

vai etemizando, cercada por haver combatido uma ditadura que sé de caudilhismo fanado e de elementos sem valor algum a não ser

paulista teve o efeito de fazer com que o separatismo do sul de Mato Grosso aguardasse os destinos do movimento de 1932 para concretizar-se ou não. Podemos interpretar também que a frase “com ele [São Paulo] estamos e estaremos” poderia significar, nas circunstâncias dadas, que caso São Paulo fosse vitorioso e levasse adiante qualquer intenção separatista, Mato Grosso, ou O

se vitO

io de outubro foi derroTadavia, tal não aconteceu. No iníc

de

também expressa em artigo de 1932 no qual escreveu:

179

TICA DO SUL DE MATO GaAos50 CAMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍ

rapinismo presentes”.

na” para Cuiabá,O uma “rebeldia rsuli egpi Agp PERL sobre a posição do Para um entendimento mais amplo constitucionalista de 1932, é sul de Mato Grosso no movimento arado pelo governo estadual preciso observar como ele foi enc A po 57. tério do Interior. Revista Interior, Minis 26 BRASIL,

ES

> MARTINS,

Vespasiano

neu pai, p. 68.

Barbosa. Carta. Apud:

MARTINS,

| Nelly.

Vespestomno

180

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHQuMD

e pela imprensa Arquivo Público jornais existentes exercício naquele que

os

jornais

da

sediada em Cuiabá. Pesquisa que realizei no daquela capital mostrou que, dentre vários no norte, O Matto Grosso foi o único em ano, pois, conforme pude notar, era comum época

não

tivessem

edições

contínuas.

O

periódico em questão teve a primeira edição em 1890 e a últi-

181

CAMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

A marcha dos acontecimentos ocupou amplamente a aten cão do jornal, que passou a apresentar um boletim diário sobre 24

de

innundaçios

de

boatos”,

No

por exemplo,

julho,

dia

vles.

afirmava

que

na

matéria

intitulada

“o movimento

continua

clrcumscripto a São Paulo e Sul de Matto Grosso, não se tendo propagado a ponto nenhum de qualquer outro Estado” e que “o

ma em 1937.

apoio de Matto Grosso nada lhe vale [a São Paulo), pois a arder

Com a epígrafe “Orgam democrata, dedicado aos interesses do povo”, o jornal classificou os episódios de 1932 de “contras revolução”, acreditando que o “scenário brasileiro não será jamais: o que a Revolução derribou”, pois “é a marcha evolutiva do povo que determinará a transformação que vae trazer a reconstitucionalização do Paiz”*. Ou seja, o periódico omite completa.

vm nosso Estado será restaurada em poucos dias”. Quanto a São paulo, segundo o jornal, não lhe passava “desapercebida a

mente o fato de que o governo estadual sediado em Cuiabá havia

combatido Getúlio Vargas em 1930 e agora, dois anos depois, inteiramente legalista, repele peremptoriamente a tentativa de se Voltar ao “cenário” que a “Revolução derribou”, ou seja, aquela: situação que antes defendia. Prosseguindo suas matérias, depois de noticiar, com preocupação, a viagem do interventor Leônidas de Mattos para resol-

ver “urgentes problemas ligados ao Sul do Estado”, afirmava, em

17 de julho de 1932, que “tinham fundamento os boatos espalhados nesta capital à boca pequenina de que estava imminente uma revolução”,

mas,

“não

tendo

explodido

a 5, julgávamos

que

a

idéia tivesse desaparecido”. Atestando as dificuldades de comunicação entre as duas regiões, continuava assinalando que “tornando-se dificil as communicações telegraphicas naquelle dia é es-

tando as linhas do Sul em poder dos sediciosos, estabeleceu-se

imminencia da derrota, traduzida pela solicitação de um accôrdo para a suspensão das hostilidades, mediante condições efpnlainia= das. E a resposta foi que o Governo Provisório só acceitaria rendicão incondicional, responsabilizando os autores da sedição”, pois “aceital-a sem precaução, será acceitar o erro como verdade”. Além de matérias com esse teor, o jornal passou a reprodu-

zir notícias recebidas pelo rádio, como a do dia 25 de julho, afirmando que “o governo recebe diariamente adhesões de todos os pontos do Paiz” e que “pessoas chegadas de São Paulo informam que reina alli o desanimo, a vista dos fracassos constantes,

tornando-se cada vez mais evidente ser a origem do movimento puramente

reaccionario”.

Já no dia 31 de julho, acentuando o tom da crítica aos sulmato-grossenses,

na matéria

Processo reaccionario noticiava que

“os reaccionarios de Matto Grosso fingem não conhecer a gravidade da situação”, pois “os promotores da masorca”, segundo o periódico, estavam “condenados ao maior desastre pelas ari

pela razão de se ter levantado o Paiz em peso ao lado da dictadura”, Nessa altura dos acontecimentos,

dois aspectos chamam

a aten-

uma situação de expectativa".

cão: 1) 0 jornal, até essa data, nenhuma palavra mencionou sobre

58 O Maio Grosso. Arquivo Público de Cuiabá. Localização: Caixa 1. 6º Rolo.

o governo de Vespasiano Barbosa Martins, o que nos leva : sil que tal omissão pudesse ser voluntária; 2) o Governo Provisório de Getúlio Vargas era claramente denominado de “ditadura”, em bora nesse termo o jornal não depositasse nenhuma conotação

390

Matto

Grosso.

40) Golpe de audácia.

Cuiabá,

5 jul, 1932.

O Múito Grosso. Cuiabá,

17 jul. 1932.

182

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHOSNO

negativa, ao contrário, “reacionários” eram aqueles que se coloca» vam contra ela. Isto fica mais claro ainda na matéria do dia 7 de agosto, intitulada O pretexto da reconstitucioalização a qual afip ma que “não foi o retorno do Paiz ao regimen constitucional O

factor do movimento sedicioso irrompido na noite de 9 para 10

183

CAMPO GHANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

Estado coheso, contrastando com o ideal separatista de aventurei ços

que

[...]

como

acceitam

provavel

a

do

creação

do passado”, pois “São Paulo quer nada menos que a liderança da

vulto

política nacional que o movimento de Outubro lhe arrebatara”,

mattogrossenses esses que se nivelam aos aventureiros!”

Para o jornal, os paulistas não tinham nenhuma

| «le setembro de 1932:

era

“o regimen

dictatorial

a causa

da

situação

razão, pois não aflictiva

do

Paiz,

mas as consequencias de erros, caprichos políticos e desperdícios dos dinheiros públicos”.

Desse

modo,

é evidente

a defesa

do

governo de Vargas, aqui intitulado como “regimen dictatorial” e compreendido como superior à situação “derribada” em 1930, isto

Grosso

a

vida

sua

Netorno

& paz

“Somos

pela paz.

Entre

irreparáveis, fomentando,

laboriosa

Nessa

comprheenderem a manobra sulina. Uma vez a capital transferida para o Sul do Estado, e isso acontecerá se os cuiabanos não acordarem do sono lethargico e se unirem, verão que promessas nada valem”:

21 de agosto de 1932: Do interventor federal Leônidas de Maitos Nessa matéria. o jornal enaltece as palavras de “estadista” do interventor federal Leônidas de Mattos e “seu intento de manter o

vem

[...]

desnarurados

causando

danos

córebro aventureiro”;

A seguir, apresento um pequeno mas ilustrativo rol das principais matérias que aludem ao sul de Mato Grosso, ora defenden-

“se por desventura e fatalidade a rebelião vencesse no Sul ou mesmo em São Paulo, seria demasiado tarde para os cuiabanos

ordeira

sobretudo, a idéia separatista gerada no

|| de setembro de 1932: Reaccionarios e inimigos do povo

14 de agosto de 1932: Cuiabá e a rebeldia sulina

e

nós a rebelião

é, à república das oligarquias tradicionais antes defendidas pelo governo de Cuiabá.

do a “dictadura”, ora condenando a possibilidade de transferência da capital para Campo Grande, ideia de “aventureiros”:

de

Estado

Maracaju ou a transferência da capital para Campo Grande E “Não fora a accumulação de forças federais em Campo Grande e a ferrovia, o movimento ter-se-ia limitado a São Paulo, continuando

matéria,

o jornal critica veementemente

“quem

tem

por

ídolo e pae” o general Bertoldo Klinger. Inconformado, acusa: “Deram para usar gravata preta com tópe de borboleta em Cuyabá”;

2 de outubro de 1932: Premúncio de paz "As mais recentes notícias são de molde

a nos

assegurar para

breve o regresso do Paiz aos dias de paz”; 9 de outubro de 1932: A vitória da causa nacional “O Brasil exulta nessa hora em que as armas

reimplantaram

o

regimen da ordem no Estado de São Paulo e Sul de Mato Grosso [..]. Os falsos constitucionalistas quiseram conduzir a Pátria ao regimen anterior à Revolução de 1930. O motivo invocado pelos reaccionarios não justifica a luta fratricida que ensopou de sangue o solo da Pátria. A ditadura no Brasil caracteriza-se pela brandura é pelo respeito à lei. Cuyabá continuará, mal grado o desejo de

filhos ingratos, a ser a capital de Matto Grosso. Daqui irradiar-se á para todo o Estado, a inteligencia constructiva do nosso desen

184

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

volvimento

econômico,

grandecimento

moral e material,

da civilização e do en-

como

dessa

uma

forma, que

a “rebeldia

F

despertar o rebotalho da politicagem profissional e os elemen tos que de há muito, em surda campanha, alimentavam a espe

deste futuroso Estado”:

10 de outubro de 1932: 4 derrocada da masorca “A masorca de São Paulo teve, finalmente, o desfecho almejado por todos os brasileiros”. Vemos,

185

CAMPO GRANDE E 4 NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

sulina” foi vista em

tentativa de transferir a capital para Campo

Cuiabá

Grande,

caso São Paulo vencesse, entretanto, como assinalado, “mal grado

o desejo de filhos ingratos”, Cuiabá continuava a ser a sede “deste futuroso Estado”. Em nenhuma das matérias há qualquer menção à existência de um outro estado já instalado no sul ou da divisão

concretizada, Podemos nos certificar mais claramente disso se considerarmos uma outra fonte importante para o nosso estudo. O governo estadual, sob o comando do interventor Leônidas de Mattos, ao mesmo tempo em que acompanhava a movimentação das tropas rebeldes no sul de Mato Grosso e o “governo fugaz” de Vespasiano Barbosa Martins, emitiu, no auge da “contra-revolução”, o seguinte Manifesto condenando a adesão dos sul-mato-grossenses a São Paulo, bem como a expectativa dos divisionistas de transferirem a capital para a “próspera Campo Grande”:

do povo do Norte e do Sul “Nos dias de lucto e de gloria que atravessa o Brasil, é à primeira vez que vos falo, valorosos mattogrossenses do Norte |...) Attentae agora! Ouvi o estrépito da desordem que hoje nos vem das campinas verdejantes do Sul! A ambição desenfreada daquelles que a nossa hospitalidade agasalhou, na persuasão de que iriam constituir elementos propulsores do progresso e da felicidade mattogrossense, quando levantam-se agora de armas na mão pela separação do Sul [...]. O movimento armado que irrompeu em Campo Grande [...] só conseguiu até agora

rançã da divisão territorial do Estado ou, quando menos, da mudança da capital [...]. Esse triumpho ainda redundaria em collocar Matto Grosso sob o vexatório protectorado paulista [.l. A vitória traria como uma de suas consequências a mudança da capital, já em arremedo pela creação de um governo cphemero e fugaz na próspera Campo Grande, imposto aos

mattogrossenses de brio pelo capricho e indisciplina de um general afastado, legal e justamente, das fileiras do glorioso Exercito Nacional [..]. A vós também, mattogrossenses do Sul, dedico hoje a minha palavra de revolucionário de Outubro. Confio na vossa energia e no vosso amor a Matto Grosso. Irmanados aos riograndenses do Sul, que nas rudes fainas dos

trabalhos campesinos, ahi mourejam, de sol a sol, fundando e aperfeiçoando fazendas [...] estou certo, pelejareis, sem dúvida, sem desfalecimentos nem temores, afim de que o nosso Matto Grosso [...] retome em breve a vereda iluminada da paz e

da gloria, entoando o hymno dem

por

Parayba

que às

se

linhas

batem

almejado do triumpho e da or-

bravamente

reaccionarias

de

nessa

do

hora,

Ourinhos,

o

Valle

heróico

do Rio

Grande do Sul, a Minas invicta e todos os demais Estados da Federação, em fileiras cerradas em torno do supremo Poder, outorgado ao Paiz pelo movimento nacional de 1930”. Cuiabá, 15 de agosto de 1932. Leônidas de Matos, Interventor Federal.

Observamos, de início, que o interventor associa a “desordem” que vinha das “campinas verdejantes do Sul” aos imigrantes

que ali haviam se fixado quando se refere à “ambição desenfreada

daqueles que a nossa hospitalidade agasalhou”, ou seja, aos olhos do governo estadual, persistia a desconfiança sobre esses contin gentes, especialmente os “riograndeses do Sul”, bem recebidos “na persuasão de que iriam constituir elementos propulsores do pro

186

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO Gi

187

DAMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

gresso e da felicidade mattogrossense”, mas que, infelizmente, contrária disso, levantavam-se “de armas na mão pela separação: Sul”. Por essa razão, apelava não apenas para os mato-grossenses do sul, como também para estes que ali “mourejavam de sol a sol,

culmente

fundando

asiram independentemente dos do norte, e mais, atuaram em oposi-

e aperfeiçoando

fazendas”.

Todos,

enfim,

passada

q

“masorca”, estavam convocados a abandonar “a surda campanha”

que alimentava a “divisão territorial do estado” ou, quando menos

“a transferência da capital” para Campo Grande. Deixo aqui esses elementos com o intuito de contribuir para clarear a compreensão sobre a posição do sul de Mato: Grosso em 1932 e a sua relação com o divisionismo ciente de que sobre o tema recaem entendimentos contraditórios. O historiador mato-grossense Luiz Philipe P. Leite, por exemplo, não atribui

grande importância ao episódio de 1932 como movimento separa-

tista: para ele tratou-se “apenas de um apêndice da Revolução Constitucionalista"?. No sul, interpretação semelhante assumiu Afonso Simões Corrêa, que, em 1999, escreveu: A 11 de julho de 32 foi instalado em Campo Grande o Governo Constitucionalista do Estado, com a posse de Vespasiano Barbosa Martins no cargo de governador. Embora tenha sido empossado como governador de Mato Grosso, Vespasiano Martins é considerado por muitos como o primeiro governador de Mato Grosso do Sul£,

O fato é que assim findou a “revolução” que, segundo Rubens de Mendonça, “não trouxe benefício algum a Mato Grosso” pois “ele continuou como sempre esquecido”"$, Pelo menos em parte ele se

enganou. Se 1932 “não trouxe benefício algum a Mato Grosso”, isto

poe ser verdadeiro para os interesses consolidados no centro-norte do estado. Significou, porém, muito mais para o separatismo do sul

dg que todos aqueles “movimentos” do início do século XX. Espeporque,

pela primeira vez, os grupos

cão à eles. Desde então, novas condições, mais favoráveis, estavam 1

vriacdas para que a causa separatista pudesse expressar-se por outras formas, quem sabe agora, em um movimento. Campo Grande já se transformara na segunda cidade do estado, o centro econômico e político do sul de Mato Grosso, “eus

laços com

São Paulo

Luiz Philipe P. Ê Revista sta Interior, arano HI, elan. 20/ edição ediçã espec ça i pecial,

nov E

42 CORRÊA, Afonso Simões. A criação do Estado de Mato Grosso do Sul, In;

CUNHA,

Francisco Antônio Maia da. (org).

irução, p, 66.

43 MENDONÇA,

Campo Grande:

100 anos de cons-

Rubens de. História das revoluções em Mato Grosso, p. 179,

estreitavam-se

cada vez mais intensa-

mente, quer pela abertura da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, quer pela ressonância dos movimentos político-militares a partir da década de 1920. Além disso, as lideranças políticas do sul, especialmente após a experiência de 1932, começam a se

projetar e a se organizar em termos da defesa dos interesses econômicos e políticos dessa região do estado polarizando com as lideranças do centro-norte. Comparando a primeira fase de manifestações divisionistas

com esta, que se estende do começo da década de 1920 até 1932, é possível sintetizar:

1º) desde 1920 a região sul de Mato Grosso começa a ser palco de movimentos político-militares que agitavam o país, deslocando-se da lógica que até então marcava a sua inserção na política mato-

grossense; 2º) em decorrência desse fenômeno, o sul passa a ser mais influenciado politicamente pelo que acontece nos grandes centros do país, notadamente São Paulo, do que pela política estadual,

representada por Cuiabá; 41 LEITE, » pe

políticos do sul

.

3) as lideranças do sul, desde 1932, passam a operar em termos da disputa política estadual movidas pelo regionalismo expresso na dicotomia norte-sul, que se acentuou após a derrota paulista. Por

isso, há também, a partir de então, um certo distanciamento das lutas internas das oligarquias hegemônicas do norte;

HEGIONALISMO E DIVISIDNISMO NO SUL DE MATO GI

188

4º) essa

mudança

no comportamento

revela não só o seu amadurecimento

político das elites do su como

a sua afirmação eco

nômica, uma vez que a pujança do sul também vai se fortalecem do e se consolidando; 5º) o levante de 1932

proporcionou

ao sul de Mato

senão separar-se do norte, pelo menos divisionista, tornando-o,

Grossa,

fortalecer o ideal

pela primeira vez, uma

causa pública.

(no sentido de seu deslocamento da lógica das lutas armadas de. grupos oligárquicos do passado recente) e torná-la exequível no futuro; 6º) firmou a liderança de Campo Grande, que já era sede da 9 Região Militar desde 1921, como centro político e econômico do sul.

DP

MANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GAOSSO

Wibtou à posição de centro político do sul de Mato Grosso ainda que.

que saibamos,

do século XX? É importante

po começo

As manifestações oligárquicas e conflitos armados do fim

estado depois de Corumbá. Sua importância estratégica foi analisada por Paulo Coelho Machado, que afirma: “Ali residiam as pessoas de maior projeção do sul e lá foram engendradas importantes decisões políticas e até algumas revoluções”. Quanto a Campo Grande, de onde, segundo Virgílio Corrêa Filho, teria sido “desfechada a revolução de 1932”, quase não há referências, o que revela a dimensão do seu significado até então. Mas transitou rapidamente, em menos de um século, de uma vila “pobre e caipira"? para capital de um novo estado. Como con44 MACHADO, 45 MACHADO,

Paulo Coelho. Arlindo de Andrade, p. 22. Paulo Coelho. A rua velha, p. 49,

vez

Po cm tamanho e pujança econômica a própria capital, a “cidade

mo ce Mato Grosso”*. A capital de Mato Grosso do Sul, fundada pelo mineiro Ho Antônio Pereira, em 1872, era uma pequena comunidade ieunida em ranchos, à beira dos córregos Prosa e Segredo, je permaneceu sem existência legal até 1889, quando foi

Grande.

mudo o distrito de paz de Campo toclho

Machado,

mastão,

Miranda

1) termo “omarca

uma

do século XIX e início do XX, no sul de Mato Grosso, transcorreram, principalmente, em Nioaque e Corumbá. A primeira foi, por longo tempo, a vila mais adiantada da parte meridional do

uma

à Partir de 1932, foi essa cidade que, paulatinamente, supe-

autor

de

de

e Paranaíba eram

Nioaque,

que,

por

Segundo

livros sobre

vários

sua

Paulo

ela, até essa

as únicas comarcas

do Mato Grosso. A freguesia de Campo

Campo Grande: de “vila pobre e caipira” a capital

189

do sul

Grande era vinculada vez, se subordinava à

de Miranda. Seu desenvolvimento foi tão rápido que,

década

depois

de ter sido

criado

o distrito de

paz,

a

reguesia foi elevada à condição de vila, conquistando a sua emancipação política a 26 de agosto de 1899. Em 1911, a cidadezinha

já tinha cerca de 300 casas e 1.500 habitantes

e

ininsformou-se logo em próspero “empório de gado”, conforme podemos ler Os boiadeiros de Uberaba e de outros centros compravam aqui os novilhos de engorda. Os fazendeiros obrigatoriamente vinham à cidade para a comercialização de seu produto. Muitos se entregavam à

atividade de comprar bois, colocá-los perto de Campo Grande, para vender a boiada assim reunida ao comprador de fora. Com a demora

dos boiadeiros e seus empregados na vila, surgiram os hotéis, os bares, os cabarés, as casas de jogo”.

16 GALETTI, Lylia da Silva Guedes. Grande sertão, fronteira: visões do Oeste ro nos séculos XIX-XX (O Mato Grosso), p. 149,

1 MACHADO,

Paulo Coelho, Arlindo de Andrade,

p. 14,

REGIONALISMOE DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHO

190

Nos seus deres públicos profundamente outras plagas e

primórdios foi uma terra negligenciada pelos po e marcada pelas “revoluções* que “perturbarag o [seu] desenvolvimento [...] pondo a correr pal pelas noticias apavorantes da falta de garant

escaramuçaram

uns e reçabiaram

outros, que deixaram de eni

[...]S, Segundo Emílio Garcia Barbosa, descendente de uma dg primeiras famílias mineiras que povoou a Vacaria, aumentava criminalidade, contribuindo para o mau nome de toda a região sul

de

Mato

Grosso.

Em

razão

disso,

era

necessário

criar

um

comarca para manter a ordem e a tranquilidade pública na po voação que se achava agitada, escreveu ele. As divergências políticas resolvidas à bala marcavam &

ambiente da cidade e de todo o estado, de tal forma que Arlindg de Andrade, o primeiro juiz de direito, ao nela chegar, em 1911 encontrou a comissão de boas-vindas composta, entre outros, do intendente e do presidente da Câmara, em armas. O episódio fal

narrado por Paulo Coelho Machado: Para surpresa do novo magistrado, cada visitante trazia à cinta dois revólveres ca cartucheira apinhada de balas, Desconcertado com 4 cena, fez sentir o juiz que estranhou tal exibição de armas, ainda

DAMPO

191

GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

pi dos primeiros tempos de Campo Grande”, que “fez, então, fugir o invasor”. Nota-se aqui que Machado não manifesta simpatia pelo divisionista” Bento Xavier mas, sim, por aquele que o “fêz fugir” e que era um respeitado fazendeiro da cidade, exercendo, além disso, Wlerança política na pequena comunidade. Analisando esses primeios tempos, afirma que os fatores iniciais não chegaram a constituir

vm óbice para o desenvolvimento econômico, demográfico e comercial da cidade, cujo impacto maior receberia da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que a ligou a São Paulo. A importância estratégiva desse feito é, aliás, mencionada por todos os que tratam da históriu de Mato Grosso, Entretanto, no excelente livro Uma ferrovia entre dois mundos, frato de estudos mais recentes e de maior fôlego sobre | lnistória da Noroeste, Paulo Roberto Cimó Queiroz mostra que louve exageros no entendimento de seu papel como propulsor de progresso no trecho mato-grossense.

Se a via de penetração ferroviária, lançada para Mato Gros“0, sÓ se construiu no alvorecer do século XX (1905-1914), a ideia é bem anterior, Parece haver consenso entre os estudiosos do

tema sobre o fato de que no decênio que se seguiu à Guerra da

mais numa visita à autoridade judiciária. Respondeu-lhe-o presidente) da Câmara que chefiava a comissão: 'Doutor juiz, nós vimos Lrazer dl)

[ríplice Aliança (1865-1870), todas as estradas que se projetaram “e cuja construção se iniciou no planalto - Mogiana, Sorocabana, [strada de Ferro Araraquara — nasceram com o óbjetivo de alcan-

V. Exa, à prova de que a Justiça será defendida. Neste lugar conhes

car Goiás

cem-se os homens pelas armas que conduzem”.

desse estado, a capital do Império às duas províncias centrais. A esse respeito, Paulo Cimó enfatiza a função estratégica que a ferrovia cumpriria e esclarece que, caso ela tivesse feito sucumbir o transporte fluvial, o que não aconteceu, isto não poderia ser encarado como espantoso pelos seus estudiosos, uma vez que este era exatamente um dos objetivos expressos da sua constru-

De fato, Arlindo de Andrade presenciou, 50 dias após a instas

lação da comarca, uma verdadeira guerra onde hoje é a rua 26 de: Agosto. Ali, em junho de 1911, “o famoso caudilho Bento Xavier”,

que invadira a cidade, foi expulso por um contingente improvisado, “pelo destemido Amando de Oliveira”, “a mais altiva e singular figu= 48 BARBOSA, de, p: 24. 49 MACHADO,

e Mato

Grosso,

ligando

São

Paulo

e, por

intermédio

cão. Em outras palavras, assinala o autor,

Emílio Garcia. Esbôco histórico e divagações sóbre Campo Gran Paulo Coelho. Arlindo de Andrade,

p. 15-16.

1) MACHADO, Paulo Coelho. Arlindo de Andrade, Coelho. A rua velha, p. 77.

p. 16-17. Machado,

Paulo

REGIONALISMOE DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHONHE

192

uma das razões para à construção dessa ferrovia foi precisamen

conveniência, do ponto de vista das elites dirigentes brasileiras, neutralizar a influência que sobre Mato Grosso era exercida pela região platina, através do sistema fluvial Paraná-Paraguai — conves

193

AMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTIGA DO SUL DE MATO GROSSO

histórica relação econômica e política entre Corumbá e Cuiabá, Weilimeda pelos portos dos rios Paraguai e Cuiabá; entretanto,

Mato Grosso, propiciando a criação de cidades (Três Lagoas, pol

vria exagerado adotar compreensão negativa quanto a uma hipotética “decadência” da primeira. Para ele, é aceitável a perda da condição de principal polo comercial do estado, que passou para Campo Grande, mas de modo algum o fato de que, “em vinude da Noroeste, a cidade de Corumbá tenha ingressado em um irreversível processo de decréscimo econômico e populactonal"S, Aliados à Noroeste, outros fatores favoreceram Campa Grande, como à amenidade do clima e fertilidade do solo; sua locali-

exemplo) e impulsionando o crescimento das já existentes (Camper

vação

Grande, Aquidauana, Miranda). Com efeito, o aumento da pop lação foi mais considerável nas vilas que se criaram ao longo O linha, especialmente nas bifurcações, como em Araçatuba, SB | Campo Grande. Segundo Fernando de Azevedo, a Noroeste contribuiu para integrar o sul de Mato Grosso aos centros mais importantes do des país e provocou também uma mudança radical na lógica de “a Paraguai, rio o substituir ao estado do senvolvimento interno

rebanhos

niência essa costumeiramente expressa,

por exemplo,

pelas im

gens da NOB como uma “torneira”, ou dreno, desviando para San

tos as correntes comerciais originalmente dirigidas ao estuário der Prata”, Contrariando

traçados iniciais, a Estrada de Ferro Noroeste

do Brasil acabou não alcançando Cuiabá: limitou-se ao sul de

melhor e mais fácil estrada de Mato Grosso"?. O sistema ferros viário para as vias de comunicação representou, de acordo com 9

nos campos bovinos

da Vacaria, e à faina

propícios agrícola;

ao apascentamento além

de

sua

dos

privilegiada

posição geográfica no centro da região sul do estado, bem como 1» levas migratórias nacionais (paulistas, mineiros, gaúchos) e estrangeiras (paraguaios, árabes, japoneses, portugueses, italia-

nos). O certo é que de todas as cidades beneficiadas pela ferroviu no trecho mato-grossense, avultou Campo Grande. Do ponto de vista populacional, por exemplo, basta observarmos que em 1913, quando ela ainda não havia sido con-

templada com a chegada dos trilhos, Aquidauana, “vila de re-

articulação entre transportes ferroviãs

conte fundação”, era “a maior e mais populosa do sul do Estado”, segundo expressou o presidente Costa Marques, A esse respeito, Fernando de Azevedo observou que quando ali chegarum os trilhos da Noroeste, em 1914, Campo Grande “não passava de uma povoação sertaneja, com 1.800 habitantes, e é hoje a

rios, fluviais e rodoviários” * do que um suposto assassinato do

capital comercial do Estado de Mato Grosso e a sede da região

autor, uma forma de o homem

assenhorear-se das terras, deixan-

do de ser escravo dos rios, ou seja, o caminho dos homens subs-

tituíria o caminho das águas. Para Paulo Cimó, contudo, ocorrem muito

mais

“uma

notável

rio pela ferrovia. Ainda

segundo as suas pesquisas, é lícito cons

militar do setor oeste de nossas fronteiras"*,

Paulo

Cimó,

por

cluir que daí emergiram novas rotas comerciais que superariam q “1 QUEIROZ,

Uma ferrovia entre dois mundos, p. 352.

51 QUEIROZ,

Paulo Roberto Cimó.

52 AZEVEDO,

Fernando de. Um trem corre para o oeste, p. 106. Paulo Roberto Cimó. Uma ferrovia entre dois mundos,

53 QUEIROZ,

Paulo Roberto Cimó.

Uma ferrovia entre dois mundos,

p. 359, entro ferrovia Una Cimô. » MARQUES, Costa. Apud: QUEIROZ, Paulo Roberto

dois mundos, p. 323, p. 385.

O AZEVEDO,

Fernando de. Lon trem corre para o oeste, p. 94.

DOM PO

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GA!

194

sua vez, demonstrando a sua assertiva segundo a qual a Noroum te não provocou a “decadência” de Corumbá, exibe os censol demográficos comparando o crescimento populacional dos doa

195

GHANDE E À NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

dhumou a minha atenção, porém, foi o fato de que a “vila caipira”, e

le a sua fundação, parece ter exercido um certo encantamento

1950 4

jo que nela chegavam. Jornais, livros e documentos do passado wvelam a idéia de progresso como aspecto sempre presente na majetória do pequeno lugarejo de três ruas no início do século XX que se tornou à capital de um novo estado na sétima década desse mesmo século. Ao tempo em que no sul de Mato Grosso as “revoluções” que apeavam do poder chefes políticos estaduais dessa ou

diferença favorável a Campo Grande era ainda mais acentuada) 57.033 contra 38.734 de Corumbá; finalmente, em 1960, o munido

daquela grei contavam com a liderança de Corumbá e Nioaque, quem poderia supor que ambas as cidades perderiam, e em breve,

municípios entre as décadas de 1920 e 1960, Por esses número:

ele deixa clara a superioridade de Campo Grande, mas most também que não houve retrocesso de Corumbá, Em 1920, em 19,547 a população total do município de Corumbá contra 21,360 de Campo

Grande; em

1940 era 29.521 contra 49.629; em

cípio de Campo Grande tinha 73.258 habitantes enquanto o de Corumbá 58.490. Já para Virgílio Corrêa Filho, a estrada, além de ter arúculas do mais rapidamente o sul de Mato Grosso com São Paulo, intensificou progressivamente o intercâmbio de mercadorias, de idéias,

de sentimentos, a ponto de ser a Revolução Constitucionalista de São Paulo, de 1932, por assim dizer, desfechada de Campo Grande”.

Rubens de Mendonça, por sua vez, minimiza a tal ponto os: chamados “movimentos divisionistas” do início do século que,

1977, ao tratar da divisão do estado, computou a causa da

em

secessão

“Eles

não

à eles,

à Noroeste,

conforme

los divisionistas] simplesmente achavam deveria

so

mas

Noroeste

do

ser dividido mas Brasil

foi

que

que

podemos

Mato

ler:

Gros-

da estrada de ferro a viabilidade realmente,

a abertura deu,

divisão"*. Não fosse a Noroeste, teria permanecido Campo Grande como “depósito de gado"? É uma questão para a qual não busquei respostas neste estudo, uma vez que não a tive como objetivo. O que

dessa

57 CORRÊA 58

Os

FILHO, Virgílio. História de Mato Grosso, p. 602,

movimentos

separatistas,

um

governo

autônomo

e o amadurecimento

da idéia. Interior, Revista do Ministério do Interior. nov. 1977, p. 38.

| sua posição política para aquele lugarejo? Campo Grande, ao ubstituí-las em importância política, representou também uma nova [use em que uma elite intelectualizada se sobrepôs aos caudilhos.

Obviamente, esse novo padrão político não foi implantado de imedisto, pois a cidadezinha também era marcada pelos violentos con-

frontos armados que ocorriam em plena luz do dia, principalmente na rua 7 de Setembro. Distante dos caminhos hidroviários, Campo Grande teve na pecuária Muchado;

a sua

origem,

conforme

escreveu

Paulo

Coelho

Campo Grande surgiu do boi. Aqui era um centro de compra de

gado magro da Vacaria, levado para Uberaba para ser engordado e revendido a São Paulo, Funcionando como plataforma para a região que concentrava gado, Campo Grande começou a atrair alguns fazendeiros que aqui se instalaram, formando fazendas por perto, que serviam coma depósito de gado para os compradores mineiros que não precisavam mais arrebanhá-lo nos campos da Vacaria. Aqui

eles encontravam boiada pronta e vendiam as mercadorias (sal, arame, roupas, ferramentas agrícolas) que traziam, aproveitando a viagem”.

1) MACHADO, Paulo Coelho. A participação da classe rural na luta pela divi são. Revista Grifo, p. 22-23.

196

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHOMl

SMP

Como “depósito de gado” e mal-afamada pela violêndi com que os conflitos pela posse de terra eram resolvidos, mad indicava, a princípio, que ela viesse a ser o que é hoje. Longe d rio Paraguai, não podia desbancar a hegemonia econômica de Corumbá, cidade portuária e cosmopolita, que, desde o sécu k XVIII, mantinha estreito contato, por meio da navegação fluvial

com a capital do estado, O contraste entre o cosmopolitismo di Corumbá e a vida tacanha de Campo Grande foi descrito pela autor, que arrolou os produtos importados da França e Su ca consumidos na primeira, lamentando, entretanto: “Poucas de sas coisas chegavam à pequena freguesia de Campo Grande, ai pobre e caipira".

Tampouco

podia rivalizar-se com Nioaque, onde, no

cos

meço do século, “residiam as pessoas de maior projeção do sul e onde “foram engendradas importantes decisões políticas E

até algumas revoluções". Mas, antes de outros fatores, foi por. meio dos negócios do gado que atividades a ele ligadas Cestalas gens, comércio, casas de jogos, cabarés, armazéns é outros) com meçaram a gerar a fama de que “na vilazinha promissora corriam.

juntos o boi e o dinheiro”, por isso, Machado afirma que o grande negócio de Mato Grosso era o gado, que, “inclusive, servia de moeda na região”. Foi dele, portanto, “o elemento de mais forte

197

GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

min-na quando

o ministro da Guerra Pandiá Calógeras, durante O

soverno de Epitácio Pessoa (1919-1922), decidiu que ela sediaria a r

po pÉgião Militar, o que contribuíria para firmar a sua supremacia

em todo o sul do estado. A esse respeito escreveu Antônio Lopes Cuiabá, a capital, reivindicava o direito de sediar a região. Corumbá

também teve igual pretensão. Entretanto, O Estado Maior preferia um local no Centro-sul, que fosse atravessado pela ferrovia,

equidistante das fronteiras da Bolívia e Paraguai, que dispusesse de condições logísticas imprescindíveis a uma ação armada”,

Segundo Lins, Campo Grande tinha todas as condições exigidas. Faltava-lhe apenas presúgio político, mas então tançarum-se à luta “todos os homens que se interessavam pelo progresso da cidade”, e, procurando “agir nos bastidores” conquistaram à posição que resultou em uma maciça injeção de numerário a movimentar a produção e o comércio, além da modemização que se fez visível por

meio

de

edificações

as mais

diversas,

e “milhares

de

soldados a impor o respeito, a conter a desordem ea violência”,

nos seus primórdios”.

Entre os homens interessados “no progresso da cidade”, Lins cita Eduardo Olímpio Machado, Vespasiano Barbosa Martins, Eduardo Santos Pereira, Nicolau Fragelki, Laudelino Barcellos, Arlindo de Andrade, Arnaldo de Figueiredo, Demósthenes Martins, Laucídio Coelho e Fernando Corrêa da Costa. O rol

Além da ferrovia, a transferência do Comando Militar de Corumbá, em 1921, fez com que Campo Grande se tornasse, a

apresentado revela, por um lado, uma elite política com formacão intelectual oriunda das tradicionais e conceituadas Faculda-

partir de então, a capital militar do estado, o que lhe propiciou,

des de Direito da época (Eduardo

inclusive, participar dos movimentos tenentistas. A sua posição geográfica e o fato de ser atravessada pela ferrovia favorece-

Andrade) ou de Medicina (Vespasiano Barbosa Martins, Nicolau Eragelli, Fernando Corrêa da Costa), e, por outro, à classe social

influência para o impulso de progresso que nossa cidade recebeu!

vinculada à posse 60 MACHADO,

Paulo Coelho. A rua velha, p. 49,

61 MACHADO,

Paulo Coelho. Arlindo de Andrade,

62 MACHADO,

Paulo Coelho, A ria velha, p. 79-178.

p. 22.

Olímpio Machado,

de terras (Barbosa

Martins, Coelho,

03 LINS, Antônio Lopes. fiduardo Olímpio Machado, p. 85. (4 LINS, Antônio Lópes. Eduardo Olímpio Machado, p: 83-84.

Arlindo de

Machado,

198

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHOM

qu 199

li DO SUL DE MATO GROSSO CAMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA

Corrêa da Costa). O traço comum a todos eles foi a inserção qm atividade política, que propiciou a alguns alcançarem posição de relevo, como foi o caso de Vespasiano Barbosa Mar

políticas da região meridional do estado, muitos desses homens

Nicolau

jornalismo,

Fragelli, Arnaldo Estevão de Figueiredo e Fernand

Nioaque,

Abandonando que lá haviam

iniciado

suas

até então carreiras

é política,

advocacia

berço de manifestações profissionais,

transferiram-se

ligadas

para

ao

Campo

Corrêa da Costa. Os dois últimos viriam a ser governadores « Mato Grosso. Isso demonstra que uma forte elite política já se projetava n sul, notadamente em Campo Grande, o que iria ameaçar a hegemor da capital. A contar da década de 1920, destacaram-se como prefel

úrande. Foi o caso de Eduardo Olímpio Machado, Arlindo de andrade, Eduardo dos Santos Pereira e Demósthenes Martins.

tos de Campo Grande, Vespasiano Barbosa Martins, Arlindo de Andrade, Amaldo Estevão de Figueiredo, Eduardo Olímpio Machas

ser o eixo da vida social, política e econômica do sul de Mato Grosso, antes mesmo de começar a década de 1920. A propósi-

do, Demósthenes

Martins e Fernando Corrêa da Costa. Para An Õe

nio Lopes Lins, três desses nomes se destacaram por sua “capacidas de intelectual: Vespasiano, Arlindo e Machado". Ele conta que Eduardo Olímpio Machado veio da Bahia. para Mato Grosso a convite do ministro da Fazenda de Campos:

Sales, Joaquim Murtinho, chegandoà “terra mal afamada”, “terra. de castigo”, a “Sibéria canicular do funcionalismo civil e militar do BrasiP*, em 1903, pelo “caminho das águas”. Inicialmente, exerceu o cargo de juiz de direito em Corumbá, mas, depois de se ver envolvido na disputa política entre os coronéis Generoso: Ponce e Murtinho contra Totó Paes, decidiu deixar a cidade. Estabeleceu-se em Nioaque, onde também advogou sobre litígios pela posse de terras, demanda que crescia desde o final da Guerra da Tríplice Aliança (1870), o que mostra o vínculo que então se

estabeleceu entre os grandes proprietários rurais e os advogados que se projetaram na profissão, como foi o caso de Eduardo. Olímpio Machado e de outros que, como ele, vieram do Nordeste para Mato Grosso. 65 LINS, Antônio Lopes, Eduardo Olímpio Machado, p. 85. 66 MARTINS, Demosthenes. A pocira da jornada, p. 37. O autor cita a definição: de Mato Grosso como a “Sibéria canicular do funcionalismo: civil e militar do Brasil” de Euclides da Cunha.

Este último, inclusive, chegara a ser intendente (prefeito) daque-

la cidade, Alguns depoimentos ilustram a debandada de dezenas de famílias que se dirigiram para Campo Grande, que passava a

o, Antônio Lopes Lins assim se referiu à transferência de Eduar-

do Olímpio Machado para Campo Grande: A nova comarca [Campo Grande] começava a funcionar com um movimento muito maior do que o de Nioaque, a grande maioria dos seus clientes passandoa residir aqui [...]. Assim, no começo de 1912, Eduardo Olímpio Machado, advogado de mérito, vice-presidente do

Estado, emigrava pela quarta e última vez de sua vida e se fixava nesta cidade [Campo Grande) com sua família, até o fim de seus dias L..l. Mais ainda: contrairia a grande doença sentimental de sua vida, Campo Grande, a cidade Morena, foi para o dr. Machado, como uma obsessão amorosa”.

Esse mésmo

autor realça

irdua e difícil” por Campo Eduardo Olímpio Machado considerações:

duas figuras que

Grande

“travaram

luta

desde a década de 1920:

e Arlindo de Andrade.

São suas as

A partir de 1912 a história de Campo Grande está cheia das figuras de dois homens de fato grandes: Arlindo de Andrade, o primeiro juiz, «

Eduardo Olímpio Machado, o advogado vice-presidente. [...]. Pela vida afora eles se estimam, estão sempre juntos, comungam de ideais idén ticos, lutam a mesma luta e se entregam ao objetivo comum de en07 LINS, Antônio Lopes.

Eduardo Olímpio Machado,

p. 77-78.

200

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSS a

CAMPO GRANDE E

201

ANOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

grandecer uma cidade, moldá-la, dar-lhe alia e projetá-la para o futu ro. À nenhum melhoramento, a nenhuma tomada de posição em. vor da cidade esses dois homens estiveram alheios. Imigração, aco da de novos habitantes, traçados urbanísticos, arborização, ss | públicos, criação de núcleos assistenciais, segurança”, |

com a certeza de os obterem. Como mencionei, Eduardo Olímpio

Eduardo Olímpio Machado, Arlindo de Andrade e Demósthes

«ua

nes Martins,

todos nordestinos,

deixaram

sua terra natal rumo

q

Mato Grosso no início do século XX. Em suas Memórias, Demósthe ! nes relembra ter-se decepcionado ao não reconhecer, perto | Campo Grande, quando ali chegou o trem, o “mato grosso” que esperava encontrar e que deveria corresponder ao nome do esta-

do. Incrédulo, teria perguntado a um passageiro se ali era mesmo:

Mato Grosso. Só então soube que atravessavam uma região de campos que começam em Campo Grande e se estendem até Pon ta Porã, na fronteira com o Paraguai. A floresta de sua imaginação ficava no norte do estado. O relato dessa viagem ilustra O pano ma da cidade no final de 1915. O seu autor anotou como “um martírio” a primeira impressão sobre o que viu: | A noite passei-a desassossegado. Os mais estranhos pensamentos

vinham-me preocupar à chegada de Mato Grosso, terra lendária, desconhecida, mal alamada. 1...], Campo Grande, termo da nossa jornada do dia, era um vilarejo turbulento, considerado à mais Eliel Far West mato-grossense, consoante declaravam os poucos passa geiros do trem, Ao nos aproximarmos da vila, a terra tomara ana

coloração vermelha, da qual o comboio fazia levantar uma nuvem de poeira fina que invadia o vagão, sufocando os passageiros é tingindo suas roupas de marron. Um martírio”,

Mas esses homens

|

69 MARTINS,

Eduardo Olímpio Machado,

Demosthenes.

Direito da Bahia, altamente seletiva, que recebia “o que havia de melhor

?, Al, foi contemporâneo

na aristocracia rural da região”

de João Mangabeira, de quem se tornou grande amigo até O fim de vida

e com

quem

chegou,

mais

tarde,

a buscar

orientação

jurídica sobre a possibilidade de dividir Mato Grosso. A propósito, parece que ele passou ao filho não apenas a “obsessão amorosa”

por Campo Grande, mas também a obsessão pela divisão do esta-

do, pois, muitos anos mais tarde, como

mostrarei adiante, Paulo

Coelho Machado também faria semelhante consulta. Em 1911, Eduar-

do Machado chegou a ser eleito vice-presidente de Joaquim Costa Marques com dois outros vice-presidentes do norte. Em 1931 foi um dos fundadores da Associação Rural de Campo Grande, fato

indicativo de sua nova condição econômica, além de política, pois viria a ser também prefeito da cidade (1937-1941).

Na condição de adventícios de outros estados, esses homens, que viriam a se integrar aos novos quadros da elite política sul-mato-grossense, aliaram-se aos chefes locais para ingressar na vida política comandada por grupos oligárquicos. O próprio Demósthenes Martins relata seu encontro com o poderoso coronel Jejé (José Alves Ribeiro), a quem se apresentou, em Aquidauana, como “mais um soldado do partido que vinha apresentar-se ao chefe”: Três dias depois de encontrar-me em Aquidauana, metido na minha melhor fatiota, visitei o Coronel José Alves Ribeiro, conhecido por

não teriam alcançado projeção se já não:

proviessem de famílias abastadas do Nordeste, o que lhes garantiu chegar a Mato Grosso já nomeados a excelentes cargos públicos ou

68 LINS, Antônio Lopes.

Machado, que já chegou nomeado, havia cursado a Faculdade de

p. 79.

A poeira da Jornada, p. 36-37,

71) LINS, Antônio Lopes: Eduardo Olímpio Machado, p. 27. Havia duas grandes escolas superiores no Nordeste à época: a Faculdade de Direito de Recife e Faculdade de Medicina da Bahia, Frente a elas, a Faculdade de Dire Bahia estava em relativo desprestígio, e, segundo Lins, um esforço mui

dese fez para dar-lhe um renome semelhante ao de sua coirmã pe

o que pressupôs excelentes professores, clima de emulação e criação de alo espítito seletivo.

202

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GRO: Coronel Jejé - chefe político municipal da oposição - e declarando

minha condição de telegrafista recém chegado, acrescentei, apé do-lhe a mão, que podia contar com mais um solda do nas fileira]

seu partido, um soldado que vinha apresentar-se qo chefe. O Cor

nel Jejé abraçou-me calorosamente, estabelecendo-s e enire nós Ê d recíproca amizade, que se transmitiu, sem arrefeciment o, ao sé |

lho e sucessor político, portador de nome igual ao seu. Este se idem

tificou no tratamento popular como Coronel Joseli to e foi um dá

magníficos amigos que tive a ventura de possuir, amizade que pers

dura com os seus netos, dignos continuadores da linhagem é da

estirpe de Pedro Celestino Corrêa da Costa”.

A entrada desses novos protagonistas na política local

Peissível porque

se juntaram

aos grupos

hegemônicos,

ficou evidente pelo relato de Demósthenes

tal com g

Martins. Arlindo de

Andrade e Eduardo Olímpio Machado seguiram trajeto semes lhante. Podemos concluir que até a sua chega da a Campo Gran-

de, a cidade era dividida entre um grupo que comandava à Política local e desconfiava dos adventícios que vinham lhes

fazer in € os aventureiros, “sente de toda espécie” ane criavam um clima de violência. Os homens da lei, Arlindo é Eduardo, aliaram-se aos “melhores do primeiro grupo e comba-

pai

tenazmente

os violentos”.

Passaram,

aos poucos,

para a

Primeira linha”? da política. Um dado significativ o sobre a for-

Mação

dessa

nova

elite política foi a fundação do Centro Cívica

Por Eduardo Machado, Arlindo de Andrade Gomes e Vespas Barbosa Martins, pelo qual esse último saiu candidato a prefeito.

em 1929.

A propósito, entre a “gente de toda espécie”, Paulo Coelho

Machado incluía Bento Xavier, permitindo inferir que a elite Política que se vai formando em Campo Grande, a partir de comico

silo

71 MARTINS, Demosthenes. 4 foeira da jornada, p. 37-28, 72 LINS, Antônio Lopes. Eduardo Olimpio Machado, p. 80-81.

eua

CAMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

q !

1920, se considera distinta daquela que a dominava até então, Ficava para trás o tempo em que à “lei era o 44º, o tempo dos chudilhos,

que faziam a má

fama

da cidade, segundo

os relatos

jà citados. Novos tempos vinham se descortinando para a peijnena cidade desde à construção dos trilhos, que atraiu migracoes internas, bem como as levas estrangeiras (japoneses, por exemplo, começaram a chegar como trabalhadores da Noroestc), a instalação da 9º Região Militar e, enfim, a sua participação nos movimentos tenentistas, culminando no seu apoio a Vargas

em 1930 e, depois, na oposição a ele em 1932. No emaranhado desses acontecimentos aliados à prosperidade econômica do município,

forjou-se

uma

nova

elite dirigente no

sul de Mato

Crrosso.

Parte dessa elite era antigetulista desde 1932 e permaneceu nessa posição mesmo após o Estado Novo (1937-1945), como foi o caso de Vespasiano Barbosa Martins. Outros, cuja atuação política não teve o mesmo fôlego, pelo menos nessa época, mantive-

ram-se contrários ao “ditador”, conforme escreveu Lins a respeito da recusa do então prefeito Eduardo Machado em homenagear Vargas, quando de sua visita à cidade em 1941, passando o cargo interinamente a Demósthenes Martins. Honicamente, em discurso que pronunciou durante a recepção, o presidente denominou Campo Grande a “capital econômica” de Mato Grosso. De fato, na década de 1940, segundo dados da época, a sua arrecadação tributária era superior à de Cuiabá, além de ser tam-

bém a cidade mais populosa de Mato Grosso”. A essa altura, Campo Grande já ocupava a posição de centro político e econó-

mico do sul de Mato Grosso « publicações de então é o manifestando a convicção no de que não era outro senão

e o que se observa nos documentos orgulho da elite pecuarista, sempre “progresso” e no “destino” da cida o de vir a se tornar capital. Por essa

73 SOUZA, João Batista de. Evolução histórica sul Mato Grosso, p. 11,

204

razão, a divisão do estado passou a contar com um ingrediente

mais: O antagonismo de Campo Grande a Cuiabá.

espécie de condoitiere da divisão.

dessa classe e que lhe conferiu plenas Paulo Coelho Machado. Filho e neto de especialista em gado de corte do estapapel de sua classe social no processo.

divisionista: “Nós podemos dizer que toda a evolução de Mato

Grosso partiu da classe rural porque até agora, ou até há pouco

tempo

atrás, a economia

matogrossense

era essencialmente

ru-

ral”, Prosseguindo, tratou da origem das ideias e manifestações

separatistas atribuindo à criação do Partido Autonomista por João

Caetano

Teixeira

Muzzi

“um

grande

fazendeiro

nossa economia.

à

Por causa dessa imensa riqueza, Campo Granc tee

aro Tete H do novo Estado”. hoje a capital

Os latifundiários do sul do estado, protagonistas do separa tismo, e nessa época mais concentrados em Campo Grande, comp ceberam, ao longo do tempo, o “Progresso” como elemento qu distinguisse a cidade, Essa concepção vem claramente associada a pecuária e, sendo ela a principal base econômica do sul, q classe social que dela se beneficia se vê a si própria como uma:

Um representante mente essa condição foi fazendeiros, foi o maior do, e assim explicou o

205

CAMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO-GA

da

épo-

ca"? a primeira ideia autonomista. Em seu livro 4 rua velha, o

autor não poupa reconhecimento à pecuária e aos fazendeiros pelo “progresso” da cidade e do sul do estado. Alguns trechos são ilustrativos:

O gado é que fez nossa base econômica. Espalhou-se pelas campi-

nas sem fim da Vacaria, possibilitando q formação das fazend as e o aparecimento dos núcleos urbanos, ensejando, inclusive, o apareci mento da lavoura e de muitas profissões úteis. [...] Por isso criou-se

muito cedo a plena consciência de que no sul de Mato Grosso, re-

gião eminentemente pastoril, o dinheiro circulante provém do boi e somente do boi. Portanto, todos prestigiaram a atividade principal de 74 A participação da classe rural na luta pela divisão, Revista Grifo, p. 21-22 75. A participação da classe rural na luta pela divisão. Revista Grifo, p. 21-22.

i

Para O autor, a prosperidade econômica dos proprietários rurais a partir de 1920 estava em consonância com o Eta nao É mento da própria cidade “que fizera RR oe que nela ja ) tavam”, ou seja, transparece uma total convicção em relação

desenvolvimento da cidade como algo realizado por essa classe,

fruto da sua atividade econômica. Mas não apenas asse RA vimento lhe é computado como também a própria divisão / a

estado com a consequente elevação de At

pinto a pa

Em Nessa perspectiva, segundo ele, duas expressivas Rar j e Arlin e pai, seu ram a história da cidade: Eduardo Machado, Andrade, “divisionistas radicais”” e partícipes das lutas ri

que redundaram na adesão de Campo Grande aos pas Em E 1932. É significativo que ele omita desse rol Vespasiário ar ir

de Martins, justamente a figura de maior destaque político do sul = so na época. : dá Paulo Coelho Machado registram a história ii pa ne a desses principais pecuaristas do sul ae Mato ppa E Es p leva paulista-mineira (Barbosa, aicia, Lupi, Coe A Corrêa quanto os da mato-grossense (Alves Ribeiro, Rondon, re Costa e outras). É nelas que ficamos sabendo, por exemplo, seu avô materno Antônio Francisco Rodrigues Coelho,

o

is rio da fazenda Boa Esperança, em Nioaque, era, no acata século XX, um dos fazendeiros mais abastados da o Alves lado de Muzzi. Quanto aos Alves Ribeiro, pose

E ao [8

pe dig O, coronel Jejé, é praticamente seu patriarca, Soninuatio

coronel Zelito, e pelo neto, coronel Tico Reto. Ep entre outras, da fazenda Taboco,

próxima

a Aquidauana,

76 MACHADO, Paulo Coelho. A rua velha, p. 80. ; 77 MACHADO, Paulo Coelho. A rua velha, po 179, 8 MACHADO, Paulo Coelho. Entrevista. Campo Grande, 5 ago.

E, 1997

é,

“uma

206

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

das mais famosas propriedades rurais de Mato Grosso do Sul, pela antiguidade, importância, dimensão é modernização que vem recebendo desde sua compta há cento e cinquenta anos, até hoje, com Os trabalhos desenvolvidos pela família'?. O autor arrola também os ocupantes das terras após a Guerra do Paragua i; as imigrações árabe, japonesa, italiana, das quais se sobressatram algumas famílias, seja na posse de terras, seja na política, espe-

cialmente os árabes.

A fração da elite latifundiária, que se fixou em Campo Grande após a primeira década do século XX, constituiu, na sua interpr etação, em “grupo de dirigentes políticos”, um dos fatores requeri dos “para o progresso das comunidades”, Desse grupo de dirigentes políticos, a contar do próprio fundador, o mineiro José Antônio Pereira, Paulo Coelho Machado tem o melhor dos juízos. Ele atribui aos seus membros o fato de sempre terem sido para a cidade “conselheiros e amigos, que souberam conduzi-la pelo bom caminho". Talvez inspirado pelo passado desses homens e, ainda, por ter a plena dimensão do papel dessa classe na divisão do estado, escreveu ele em A rua velha:

Na gênese das cidades, há de haver uma liderança decidida é éficiente, com disposição de reivindicar os movimentos indispensáveis a prover a população dos meios de que necessita para seu desenvo l-

vimento, segurança e conforto, Tal elite condutora deve inspirar conliança à todos os moradores da cidade e do cam po, para que mantenham vivos e atuantes o entusiasmo pelo trabalho e o amor pelo

a

ts

79 MACHADO, Paulo Coelho, A rua Barão, p. 56. A família Alves Ribeiro uniuse à Corrêa da Costa por ocasião do casamento do coronel Zelito com a filha do presidente da estado de Mato Grosso Pedro Celestino Corrêa da Costa, Vineulam-se também

a ela, os Fragelh.

80 MACHADO, Paulo Coelho, À rua velha, p. 57. No aniversário da cidade, em agosto de 1996, o autor publicou artigo no qual repete esse argumento. MA-

CHADO, Paulo Coelho. A emancipação política de Campo Grande. Cotreio do Estado, Campo Grande, 24/25 ago. 199, Cademo B. po ARE 81 MACHADO,

Paulo Coelho. À rua velha, p. 57.

207

E A NOVA ELITE POLÍTICA DO SUL DE MATO GROSSO

CAMPO GRANDE

tugar

[. .]. Nota-se que. desde os seus primórdios, Campo Grande

ram ho contou persistentemente com semelhante apoio. Aqui vive o, ds mens dispostos a proteger a coletividade e forjar, a todo cust 6. . ual” bases de seu progresso moral e intelect

Politicamente conservador, Paulo Coelho Machado deidas xou uma obra que talvez não encontre rivais no ee rega Memo de que compõem o Instituto Histórico e gs e Ras E clareza o, do Sul por expressar com tanta convicçã sa informações, o pensamento da elite pa é revelan cnnsE, sim, foi um genuíno representante de sua que a “elite condutora” tinha plena consciência fe sua esteja histórica ao lutar pela divisão de Mato Grosso. A importância atribuída a esses condottieri é por vezes realçada, como observamos a seguir: Sempre souberam os varões sul-mato-grossenses temo ficar e cd nhecer os valores para os quais convergiam as api

do grupo

e, sobretudo, dirigir e administrar as mudanças sociais e culturais no ai Ru Rana : sentido desses interesses coletivos*,

A iniciativa de “reconhecer os valores e aspirações do gru“dirigir

po”,

de

com

ele, aos

e administrar

as

ia, Aero ou seja, ú elite pad

mudanças”

“varões sul-mato-grossenses”,

nômica do sul de Mato Grosso: os grandes fazendeiros. Reportando-se à vida rude e difícil que enfrentavam os pros ai tadores da “rua velha”, pois que, sendo pica: ficou aa tempo sem nome, assim enalteceu a persistência mens de bem”:

dos seus

ho

[..] Afinal conseguiram vencer as forças adversas e fazer de Campo elei Grande a prestigiosa cidade em que logo se transformou. Com « coragem muita arrojo, to, muita fibra, muita abnegação, muito

82 MACHADO, £3 MACHADO,

Paulo Coelho. A rua velha, p. 57. Púulo Coelho. A rita velha, p. 57-58.

208

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SULDE MATO GROSSO

sobretudo, muito amor à terra foram os ingre dientes utilizados. Essa q

glória de Campo Grande: seus homens de bem que jamais abandonaram à cidade à sua própria sorte. Souberam lutar rijamente. Vence-

ram alguns, caíram outros, masa cidade foi construída com à sonho

de todos eles”.

Em outro livro, o autor fez consider ações semelhantes: A ideologia do progresso foi uma const ante ao longo da história de Campo Grande [...). Houve sempre um consenso geral no sentido de

que a comunidade estava fadada a um gran de destino. Toda gente

em todos Os tempos, acreditou nisso, Ning uém, jamais, teve msi

de que q cidade parasse.

Paulo Coelho Machado não foi o único a engrandecer Campo Grande, embora em suas obras fique explícita q relação entre classe social, elite dirigente e a ideia de progresso a ser aonereti zada pelos grandes proprietários rurais . O jornal Correio do Estado, desde a sua fundação, em 1954, enalt ece à cidade. Na década de 1970, por exemplo, quando o regime militar editava propagandas ufanistas sobre o “Bigantismo” do país e a necessidade de Progresso” a qualquer custo, o jorna l publicava matérias nas

quais Campo Grande aparece como locus do progresso, do traba-

lho, enquanto Cuiabá é retratada como símbolo da ociosidade e qa apropriação da riqueza gerada pelos sulistas, Na matéria

intitulada

O segredo do crescimento de Camp o

Grande,

lemos;

208

CAMPO GRANDE E A NOVA ELITE POLÍTICADO SUL DE MATO GROSSO

Da mesma forma, por ocasião do censo de 1970, o jornal publicou várias reportagens sobre q crescimento da cidade com manchetes como esta: Censo confirma espetacular crescimento de Campo Grande. A rivalidade com Cuiabá evidenciou-se no final do censo em matéria que expressava o tom da disputa associado à mensuração do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos seguintes termos: A reportagem esteve no IBGE confirmando fim da apuração para certificar-se de que Campo Grande é a cidade de maior índice populacional do Estado de Mato Grosso |...] tendo suplantado a população de Bauru que é a capital da Noroeste”. Notamos aqui que a comparação é feita com Bauru, cidadesede da Ferrovia, vista como a condutora do progresso pot haver aproximado o sul de Mato Grosso à São Paulo. Nessa linha, pau-

taram-se as matérias destinadas a distinguir Campo cenário mato-grossense.

O

Correio do Estado,

Grande no

nesse aspecto, fez

muito bem o seu trabalho, que foi eficaz, porque ininterrupto. Sempre rivalizando com Cuiabá, afirmava, por exemplo, que a “crônica jornalística” deveria registrar para o futuro que “em 1965,

Campo Grande já era uma fábula de civismo"*. Ainda em 1965, noticiou que “deputados querem redivisão territorial” e em 1966 voltava ao tema com várias matérias, entre elas:

O campo-grandénse começa o seu dia dê trabalho às 5 da manhã

[..] a divisão, uma idéia sempre combatida pela população de Cuiabá,

chova ou faça sol e luta até por volta das 22 horas não esperando

presentemente já encontra forte corrente favorável |...) trata-se de uma velha reivindicação do sul de Mato Grosso, hoje a região mais progres

públicas. Este é o 'esquema", o segredo de Campo Grande que não tem ajuda da SUDENE, da SUDAM e nem incentivos Fiscais,

sista com dois terços da população e dois terços do colégio eleitoral”

que o governo trabalhe por ele ou lhe dê emprego em repartições

87 Campo Grande tem mais de 140.000 habitantes! Correio do Estado, Campo

84 MACHADO, Paulo Coelho, A rá velhe, p. 59-60, 85 MACHADO, Arííndo de Ancdrade. pis, Sá

Q

segredo

do

cresc 0, iment | o

de A

A mp: HC

Gra:é nae d iré

Crande,

11 nov. 1970, p, 1.

88 A marcha 1 out. 1965, O Drrei je)

de pes Estad Ê o

Ca m Bo

da vitória com Lúdio Coelho:

Correio do Estado. Campo

Grande

89 Divisão de Mato Grosso: deputado Edson de Brito Garcia aborda problem no Parlamento.

Correto do Estado. Campo Grande,

18 jan. 1966,

210

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

L...] discute-se a possibilidade de Campo Grande vir a ser capital de

um novo Estado [...] é um palpitante tema que reputamos do maior interesse para a região e iremos lançar brevemente uma consulta aos nossos leitores que talvez seja de utilidade para os legisladores

matogrossenses”,

Depois, já às vésperas da divisão, desconfiava das autoridades estaduais que previam maior crescimento populacional de

Cuiabá, publicando: “Cuiabá terá ultrapassado Campo Grande [...] o velho sonho cuiabano”?, Campo Grande e o sul de Mato Grosso não foram engran-

decidos apenas por esse jornal. Redigida em Melo e Silva, membro de Ponta

Porã, a obra

do efêmero governo Canaã

do Oeste,

1947 por José de

do Território Federal

cujo

título dispensa

211

MATO GROSSO ELITE POLÍTICA DO SUL DE CAMPO GRANDE E A NOVA

a

ou

na

sonh

a

e

CO

e

dia

no

tELZOU-SE

tar foi assinada a Lei Complemen [1 de outubro de 1977, quando sso criado o Estado de Mato Gro ;

ofe

dê 31, cujo artigo 1º consigna: “É

Grosso . de área do Estadode Mato do Sul pelo desmembram ento tal Fase nde Éé a capiEE ch dade de Campo Gra 4 o artigo 3º : completa:ja: CA da lei foi presenciada » A cerimônia de assinatura pa pe

Grossense, mentada pela Liga Sul-Matopor uma comitiv a arregi voo que ne sse dia, a bordo do famoso que redigiu sua última ata | o a transportou a- Bras gália?, pelo

ivas publicadas Ao lado das matérias comemorat “Cuiabá rece: Cuiab vrasas: em simples palaavr reio do Estado, o contraponto —. sua hi história sua

tris e de foi i o dia maisis trist be divisão em silêncio [...]

co-

mentários, é um libelo a favor do sul de Mato Grosso, “recanto de

indefinidas esperanças”, é de sua constituição em “unidade autônoma”. À respeito de Campo Grande escreveu: Campo Grande, porém, sai dos moldes comuns de uma cidade sertaneja |...]. A Cidade Morena, como é conhecida, nasceu num tumulto

de grandezas [...], Faltou-lhe na infância como na adolescência, apenas um ligeiro sópro, um pequeno impulso para acelerar-lhe o en-

grandecimento [...l. Foi favorecida, entretanto, pela circunstância felicíssima, ainda decorrente de sua privilegiada posição geográfica, de ser a sede de uma região militar, o que equivale a dizer a morada

de espíritos sempre novos, de homens de cultura e ao mesmo tempo aptos, para orientar meios em formação [...]. O mais impressio-

nante, porém, é que não se mede Campo Grande pelo que ela é: todos vivem mergulhados no grande sonho daquilo que ela vai ser?

90 A divisão de Mato Grosso. Correio do Estado. Campo Grande, 16 fev. 1966, p; 1. Em março publicava que “o assunto divisão repercute no Estado de São Paulo”. Correio do Estado. Campo Grande, 12 mar. 1966. 91 Cuiabá outra vez maior, à velho sonho cuiabano. Grande, 29 jul. 1977.

92 MELO e SILVA, José.

Canaã do Deste, p. 86.

Correio do Estado. Campo

==,

cria o Estado de Mulo + No. 31-11 out. 1977. Grosso do Sul. Rio de Mato . IBGE provi dências. In: din as o dá outr do Sul e Gi e Grosson o aneiiro, 1979, P = 185, Jane os

: , sob aplaus ciou campo à comissária anum ada de ro tom Constaque da o ata: 94cá eria de poucos instantes deecapital ade Matt dent avião“Na desc td

do Sul”,

. LIGA SUL-MATO-GROSSENSE

Ala, 11 out.

: ê

Fa po “sh do. Cam do Esta divisão em silêncio. Correioj | 95 cCuiabá recebe out. 1977, p. À.

2

=

Srande,

do

Da Liga Sul-Mato-Grossense ao Território Federal de Ponta Porã A Liga Sul-Mato-Grossense

e a rejeição à “dominação cuiabana” ' omo vimos no capítulo | do Brasil contribuiu econômicas do sul de Mato nalismo na medida em que

anterior, a Estrada de Ferro Noroeste para dinamizar as potencialidades Grosso, o que recrudesceu o regioacentuou a distinção entre norte-sul.

de Ao estudar o significado econômico da ferrovia para O sul

da Mato Grosso, Paulo Cimó destacou os três principais setores

bovieconomia mato-grossense até a década de 1950: a pecuária elas, na, a indústria do charque e a economia ervateira. Todas

desde o desenvolvidas no sul, além de virem distinguindo o sul

final do século XIX, receberam impulso com a ferrovia como

a nossa meio de escoamento da produção. Tal estudo reforça do ica econôm e oridad interpretação sobre a relação entre superi ce que sul e o divisionismo. Além disso, o mesmo autor esclare tamou-se “em correspondência com o estímulo à pecuária, registr uma bém no sul de Mato Grosso, após a construção da NOB, notável valorização das terras”. 1 QUEIROZ, Paulo Roberto Cimó.

Lima ferrovia entre dois mundos,

p. 421.

214

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO!

Ao

mesmo

tempo,

desde

demográficos não paravam

o final do

século

de crescer fazendo

XIX,

com

os fluxos

que,

especialmente após a chegada dos trilhos, Campo Grande, secundada

por Corumbá, Dourados e Três Lagoas, se configurasse como polo econômico da região. Seus vínc ulos com a capital eram mais tênues enquanto esforços destinad os a construir estradas de rodagem que a ela confluíssem também eram empreendidos pelo poder municipal: na época em que fora m prefeitos Eduardo Olímpio Machado (1937-1941) e Demósthen es Martins, que o sucedeu, foi construída pelo primeiro a estr ada ligando Campo Grande à Camapuã e pelo segundo, a Cone xão com a região do Araguaia, Nessa bém

época, as estradas de rodagem, conforme

= E AO SSENSE DAL LIGA SUL-MA T TO-GRO

miD. O ã (t1ês milhões de reses) em relação ao do nor te ; (800a sê | seamento de 1922, mesmo falho recense: viço e incompleto, e Grass As ivi ica em Mato rua parcis isão visão parcial dess a atividade so econôm ind

lados numéricos dos principais municípios. Nele,

a Noroeste

é todo o sul do Estado,

núúmero de reses ai dele jájá é,é, bem à frente dos demais,i o de maior

Vemos,

assim,

que

a

dos

terceiro posto nacional, atrás do Rio Grande do Sul e de Minas Gera

membro

do

governo

ade: m ; i do Sul, arrecadava os Municípios

Já em 1925,

Uma ferrovia entre dois mundos,

5 BARBOSA, Emílio Garcia. Os Barbosas em Mato Grosso, p. 56,

p. 375,

o

is

um

total Adade

Nor e> do Centro a a ess arrecadação ese aa arrecadac imi s, limitando-s 15,

82449 ” 1.348:9655 1.348:96582

:

s61:6308400rs. Daí por diante, as rendas da primeira zon

E

alguns, sa em o e deccrescem stacion: E do Centro estacionam se, as| dos Municípios 7 ia Pe PRE p q . o tera, açu indústria a e os no da Capital [...]. No Centro, diminuída ai iação a criaçã

Gu estacionasão ninar as são ivas, j as às rendas de gado e as E industrias extrativas,

media a com se v iu. O povoam como iram-se, i ou antes antes, redu ziram-se, rias rd Ei em v arias zonas, ic determinando o aparecimento da agricultura s] ic ate E m ' (al icoads o mais colheita da mento é a melhoria da pecuária, tabrij gado, gado, de de “ão “jo, i da exportação incrementoEs do comercio, a-me

rar dos meios ii rimento Res i xarque, de industrias diversas, vive ho j ado as O Estado iplicaçãão delas. . deu lugar a multiplicaç E de transporte, ct ação de

1

e

a

que rende o Sul.

Essa última frase, “o Estado vive hoje do que o

passou a ser, a partir de 1930, o mais forte Fá

ai

sionismo, transformando-se na palavra de ordem mi se des oblígias é econômicas, que também começaram a se projetar no cenário político mato-grossense.

Eis

cai E

E indidanedaa época é peRÇ da feder Arlindo. Erros = 79, Os dados É ação,ã p- 76-79. ; 7.333 com , Gerais Sul com 8.489.496 cabeças; Minas pétafea

AL 2 Paulo Roberto Cimó.

;

so na época:

is, evidenciava a superioridad e do rebanho do sul do estado

2 QUEIROZ,

de bg

econó ômico de Mato Grosi esenvolvimento sobreà o dese

sé expressou

dis

Emílio Garcia Barbosa afirma, por exemplo, que, por essa época, “a arrecadação no sul, somava mais de dois terços da totalidade”? A pecuária que, em 1934, alçava Mato Grosso ao

Andrade,

go a em Barbosa Martins, em Erros da federação, redigida

seria a estrada de

despeito

de

Arlindo

rodagem para Campo Grande". Mas, por falta de conservação adequada, segundo o autor, em 1935 seu tráfego já se encontrava

interrompido.

na

|

(356.184) +.

Paulo Cims, tam-

cursos divisionistas, era o norte que se achava mais isolado e com muito mais dificuldades de se liga r ao sul, cujo desempenho econômico crescia.

,| led

P

tdi

convergiam para Campo Grande. Ele mostra, a propósito que, frustrado o plano de Cuiabá ser contemplada com ferrovia, os dirigentes estaduais buscaram a comunicação com o sul, convencidos de que o mais importante era ligar a capital a Campo Grande. Em 1930, “parece defini tivamente firmada a idéia segundo a qual a melhor solução, para o problema da ligação de Cuiabá

com

215

ORA DE F PONTA PORÃ L E IO F FEDERA TERRITÓR RAM

:cameo

Rio

e Mato

Grosso,

5 ANDRADE,

com

3.800.000,

Arlindo. Erros da federação,

p. 186-187.

216

REGIO [8]NA

ISMO SM

E DIvis DI ONISM O Ni O SUL DEM AT OGRO ROSA SSA Ê

| Além do impulso econômico, a € ausa divisionista se fortaleceu após a insurreição paulista de 1932, mesmo tendo sido ely derrotada, Por isso, esse ano não € Olheu apenas fracassos, pelo menos considerando o que foi c apaz de Projet ietar ' par; ar F Ms to Grosso. u rPor aum lado, transformo ão Hi a Causa separatista em bi movim a ento ça Jutro, projetou politicamente C ampo » Pois Eela saiu do | epiM sódio c ais possSibilidadeses de consolidar-se mo o segundo cent E ronpolítico do esta do, o que realmente efetivou-se daí em diante Quanto

ao divisionismo,

enfrentará, lo 8º nos primeiro s década de 1930, um dilem a: muddia ança da capital ou cisão do estado? Superad aa fase das a mani tações a 5 manifes t E EE início do século, os divisionista n pi es entro oscilar S vão . oscilar entre essas duas perspectiv e en as. dDe todo modo mc , os : acontecimentos dessa década pr aguas na forma de ação polít ica das elite Éim ES Ss e na sua relarelação ção com e àos grupos hegemônicos de | Cuiabá j ia ã ae acasoO que sesó entãdo nasce uma organ orga izaçã niza ção com g o e encaminhar a luta pela divis ão de Mat re ; iga Sul-Mato-Grossense. a a Dentre as lider: ileradças que se vão formando e cuja atuaçã a dia relacionada com a Liga, Vespasiano Barbosa M a É 2-1905) Be é, por assi assimm dizer dizeAGR , quem simb si oliz| a q 4 e A En i enggendrada quadros Ad a partiri dessa nova conjuntu ra edp prb ea i ia ] E e Mato Gr osso: : em termos políticos, fti mais ligado a Sã id 9; em a atermos econ | ômicos, ; projetand O à j sua supe super:rior ioriidad or e sobr ae espa o norte do estado, Mas seu nome não consta d ; ria dos varõe varõess ililustres ) de Mato Grosso, obra em doi a nci oPEmato a -gro Sros ssen sens digg see Nilo Ni Doi : as. Póvo do Seria por a ele le have hz r pel aderidada o aos ' o a 1952? Obra similar é o Dici onário biográfi Ri rossense, de Rubens 5 de Mendonça . Nela consta 4 o segui | nt e sobre Vespasiano Barbosa Marti ns: nr anos

da

Nasc d eu

1

nana fazen Ea; da

Campeiro i ,

distrito

de

Vacariado É

a 04 de avôs

5 esa 899. Médico. Formado pela Faculdade do Rio d db ins € Janeiro, Político

217

RIO FEDERAL DE PONTA PORAÃ DA LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓ

3 vezes Prefeito Muniprestigioso na zona do Sul do Estado. Foi por ução Constitucionalista cipal de Campo Grande. Por ocasião da Revol

ário de 1933 (sic), foi o Governador Revolucion lica Repúb na o exilad tendo pot êsse motivo, se

de São Paulo, em Mato

Grosso,

ica, sendo novaParaguaia. Em 1935, foi eleito Senador da Repúbl

rática Nacional, Falemente escolhido em 1945 pela União Democ o de 1965 *. ceu em Campo Grande, MT, a 14 de janeir

O

certo é que,

universitários mato-grossenses, sul, criaram,

pelos

embalados

em outubro

acontecimentos

oriundos

de 1932,

de

1932,

das elites agrárias do

no Rio de Janeiro,

a Liga Sul-

o Oficial da União, Mato-Grossense. No extrato publicado no Diári

por objetivo “pleitear em abril de 1934, lê-se que a entidade tinha os Federados”, a divisão do Estado de Mato Grosso em dois Estad a “promover à união mas, paradoxalmente, propunha-se também a seguir: dos matogrossenses”, conforme observamos onde tem sede € Fundada nesta cidade por tempo indeterminado, fim: Pleitear a divisão do fôro, com o capital a constituir-se, tém por

promover união Estado de Mato Grosso em dois Estados Federados, ao nosso alcance para O dos matogross enses, e tudo que estiver

intelectual e moral do Estado, fundando Congresso Representaticongêneres, etc. Será administrada por um cinco delegados de vo que é o seu poder máximo, composto de

alevantamento

material,

ida por resolução cada Liga Municipal [...). A Liga só poderá ser dissolv

caso o seu saldo será do Congresso Representativo; dando-se êste estatutos só podentes doado a uma biblioteca municipal. Os prese

Os fundadores rão ser reformados pelo Congresso Representativo. atual consta ria direto a e 1932 constam de ata de 4 de dezembro de dos estatutos. A Diretoria”.

6 MENDONÇA,

ense, p. 95. Rubens de. Dicionário Biográfico Mato-Gross

Extrato dos estatutos da Liga Sul 7 BRASIL, Diário Oficial da União. Barbosa. Pela defesa nacional, p. 90. Matogrossense. Apud: ?MARTINS, Oclécio bro, mas

da ata de 4 de dezem O autor menciona que os fundadores constam

não atrola seus nomes.

218

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

A importância desse documento resid e no fato de que e le co primeiro que resulta de um a tentativa de organizar um movimento divisionista. É também o Primeiro que registra a intenção de dividir

Mato Grosso. Em

1933, a Liga divulgou

E pi ramente da opinião publica dominante, procurando tenção fora ini : tado e junto dos altos poderes da Republica, no SEaqRo a um novo Estado, com o desmembramento do território mattogros E R ERRA ER e aram que nossos ancestrais descobriram, palmilh e coheso em todo dilatado perímetro de suas linhas nm ) : ie Em manifesto que brevemente dará publicidade, a Liga e e Grosso Unido demonstrará com maior evidencia a pra < je g motivos é 1azões invocados para justificarem tão esdrúxula e

um Manifesto contundente

no qual reafirmava que a entidade visav a à “trabalhar por sua Tetra, tão esquecida dos governos” e Pleit ear, dentro das “ normas ck , dire ito” d sua autonomia política e jurídica, pois, sendo o sul de Mato Grosso uma “corporação terri torial, como é + possuidora das prerrogativas fundamentais indispensáve is á existencia de qualquer Estado”, não era admissível que se contin uasse a negar-lhe por mais tempo “a faculdade de auto-orpaniz ar- se e de auto-governarse”. A entidade não considerava justo que 7

concebíveis, distanciado por completo da verdade e lógica a de ie A hora presente não comporta aventuras. o RA mi E is F mes do e coheso. Dr. Pacífico Siqueira; Dr, Ytrio tes Mello, pharmaceutico; Américo Carlos Costa; Ro Corrêa, fa cad | ro; Dr. Arnaldo Figueiredo; Dr. Tertuliano Meirelles; Dr. Mira sa Campos; Sebastião Ignácio Souza, fazendeiro; me re qa o Humberto Miranda, comerciante; taelião Joaquim Copa je E Enio Schmann, professor; Dr. Argemiro Fialho; Dr. Ermírio

Toledo, fazendeiro; tabellão Godofredo Albuquerque; Eu ii

Por essa razão ratificava a aspiraçã o de “ libertarmo-nos definitivamente das peias que impede m o nosso progresso e toda nossa civilização”. A réplica não tardaria e teria orig em na cidade de Campo Grande. Intitulada Por Matto Gros so unido, foi endereçada ao chefe do Governo Provisório e publ icada no jornal Correio da

fundada, sem objectivos e finalidades parti dárias e constituída por ele-

mentos de matizes políticos differe ntes, que se congregam para a defesa da unid ade política e integral idade territorial de Matto Gros so, como é desej o da totalidade das suas populações vem protestar e o faz com vehemencia, contra à camp anha insídiosa, tumultuada, que um grupo sem credenciaes necessária s, por que se divorciaram intei——"...1

8 LIGA SUL-MAT OGROSENSE. Manif esto Barbosa. Pela defesa nacional, p. 91-92,

de

1933.

Apud;

MARTINS,

Oclécio

j

ê

e Arruda Sá; Dr. Lourival Azambuja; Francisco Gaude, did a jor Severino Queiroz; Benjamin Adese, jommalina; Dr. donas su Máximo Levy; Arnaldo Serra, capitalista; Clodomiro dio e Pe ; industrial Rosa, Dr. Fernando Corrêa da Costa; Octaciano Pereira Celestino Filho; Josino Graciano Pina.

Esse documento elaborado em janeiro de 1938, mesmo ai

do Rio de Janeiro, em 1933:

Campo Grande, Matto Grosso - A Liga por Matto Grosso Unido, ora

7 ae

pretensão, razões e motivos fantasiosos com feslsado e

o Sul, que tem em quasi absoluto desa mparo as suas necessidades os seus serviços publicos, continue a ver escoar-se a maior parte do produto do seu trabalho para satisfazer nece ssidades e serviços públicos de Cuiabá.

Manhã,

219

PORA DA LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA

em

que a Liga emitiu

O seu primeiro

manifesto,

signatários dois futuros governadores se seno

ct

tinha o

Si

sra gut

Corrêa da Costa e Arnaldo Estevão de Figueiredo. O Rb

o

o político mais forte e influente de todo o estado o pia

preendido entre 1946 a 1964. Ainda quanto aos seus is

E

pi fica-nos a impressão de que, ao indicar as suas na np dição econômica, objetivavam demonstrar à poi edi inserção social. Nesse caso, é interessante mio free E de farmacêutico, jornalista, professor, major, tabelião, além

deiros e até um “capitalista

“|

220

[A SUL-MATO-GROSSENSE

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSNO

Além dessa contestação, em 1934 foi publicada no Diário de São Paulo, uma entrevista do general Cândido Mariano da Silva Rondon contestando a reivindicação da Liga, Rondon alega va basicamente que: | — o movimento separatista só era amparado pelos “filhos de outros Estados”, que não votavam verdadeiro amor 4 Mato Grosso; 2-0 norte do estado era mais próspero e não tinha interess e em

irma:

Aí está a obra: fazendas, culturas, a pecuária magnífica, toda a riqueza sulista [...] tudo obra do patriotismo do povo sulista e da gente de outros Estados [..]. O Sul tem, hoje, 255 mil habitantes, quando o Centro tem 125 e o Norte 25 mil. O Sul tem 30 mil estrangeiros: paraguaios, japoneses, sírios, alemães, italianos, polacos, armênios, espanhóis e portugueses; 50 mil brasileiros, filhos de outros Estados; 170 mil sulistas matogrossenses".

3 — o sul não tinha elementos para constituir um estado da federa ção, não possuía recursos econômicos suficientes estando ainda

em

fase pastoril;

moral nem material.

Suas declarações mereceram revide em forma de opúsculo intitulado A divisão de Mato Grosso: resposta do general Rondon. Nesse documento de 35 páginas aparecem detalhadamente, pro» vavelmente pela primeira vez, os elementos constitu tivos das especificidades econômicas, políticas e culturais que, segundo os seus signatários, distinguiam as duas regiões de Mato Grosso. Em estilo incisivo, no prólogo de sua Resposta os divisionistas

acusam Rondon de ter tido contato rápido com os sulistas, pare

cendo não ter-lhe interessado a convivência com aqueles a quem chamara “filhos de outros Estados”. Insinuando ignorân cia do

general sobre a situação real “do seu querido Estado”, afirmavam

os contendores que “entre o estatismo do centro-norte e o dina:

mismo do Sul, vai um mundo”,

A Resposta ao general Rondon abordou os quatro itens da sua contestação. Quanto à acusação de que o movimento divisionista era obra dos “filhos de outros Estados”, argumentava, em síntese, que todos os que exploraram e povoaram o sul de Mato Grosso eram mesmo “filhos de outros Estados” : os Garcia, 9 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. A divisão de Mato Grosso: resposta ao general Rondon, p. 6.

221

lo Minas; os Barbosa, de São Paulo, e nas suas pegadas, os topes; Pereira; Sousa; Marques; Coelho; Azambuja; Lima; Noicira; Nantes; Martins e outros. De todos esses “ocupantes”,

retardar o progresso do sul:

4 — os divisionistas não estavam apoiados em razões de ordem

AO TERAITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÃ

Ainda quanto a esse primeiro item, a Resposta atribui a Hincionários públicos coagidos pelo governo a solidariedade por um

“Mato Grosso

"90,

um

assunto

unido”, pois “a política do Centro partidário,

um

interesse

dum

[...] é, desde grupo

contra

ulro, em que se fazem concessões a amigos, favores de toda dem, à clan política [...)” ". Quanto à “prosperidade do Norte”, “focumento é taxativo em condenar a omissão do governo estalual para com a agricultura, pecuária, borracha, ao mesmo em po em que constata a queda da indústria açucareira e o decréscino da pecuária no centro, enquanto no sul a qualidade do rebanho crescia com a introdução de reprodutores. No item em que Rondon alegava não dispor o sul de elementos para constituir um estado por se encontrar na fase pastoril, A Hesposta é mais minuciosa, demonstrando em números o erescimento econômico da região. Rechaçando essa “acusação grave ao ul”, sustenta que quase tudo o que se exportava e os poucos por ursos financeiros de Mato Grosso eram provenientes do sul, ortazendo “muito mais de dois terços das rendas publicas"?

LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. LIGA

SUL-MATO-GROSSENSE,

LIGA SUL-MATO-GROSSENSE.

4 divisão de Mato Grosso... p. 7-9, A divisão de Mato Grosso... p. 7-10. A divisão de Mato Grosso... p. 15.

222

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GH

Alegava ainda a Liga que o fato de ter grande pecuária d viver principalmente dela não significava estar “em fase pastonl. pois essa atividade equiparava-se à do Triângulo Mineiro em mo todos de seleção e de melhoria do rebanho, além de contar com um território “retalhado em mais de 18 mil propriedades rurais! enquanto

no

centro-norte,

além

de

“fazendas

sem

organização

alguma [...] encravadas em latifúndios”, não havia pecuária orga nizada; fazendas divididas nem cercadas, por isso vivia o “gado perdido por toda parte”. Arrematava, primitividade inconcebível".

em

suma,

“tudo é duma

Mas, além de contrapor-se à “primitividade inconcebível! da pecuária do centro-norte, a Resposta arrolava outras “rendosas atividades” do sul, a agricultura, por exemplo, que graças “a influência de São Paulo, vai relegando

a enxada”.

Outro

ponto,

que, aliás, constituía um motivo de orgulho para os sulistas, refe ria-se aos meios de transporte, notadamente a Noroeste. Sobre ela os divisionistas afirmavam não haver termos de comparação entre

os meios de transporte do sul e os do centro-norte. Respondendo ao quarto quesito de Rondon, o documento se estende nas “razões de ordem moral e material” que apoia vam os divisionistas, começando por anunciar que a população do sul “em menos de um século organizou a sua civilização por força do meio e das suas qualidades intrínsecas” e que, subor dinada ao governo de Cuiabá, vivia “sob uma grande injustiça” na medida em que, sendo duas vezes mais numerosa do que a do centro-norte, não contava com serviços de instrução e justiça compatíveis. “Que é que nos dá o Estado, de útil? Nada”, E mais adiante, ao lamentar que “a política de Cuiabá agiu sem» pre contra o sul”, sustentava que “o povo sulista cansou destas

cousas”, 13 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE.

A divisão de Mato Grosso... p. 17.

Já LIGA SUL-MATO-GROSSENSE, A divisão de Mato Grosso... p.24-25.

223

à LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÁ

O documento

ainda, a existência de três núcleos

menciona,

listanciados de população na imensa superfície de 1.475.000 quilbmetros de Mato Grosso: o do norte, com “pouco mais de 25 mil Imas”;

o do centro,

municação

com

o

iniciado Norte

mais

“há

e a mais

de

de dois séculos, mil

quilômetros

co-

sem do

SuP,

juntos, centro e norte faziam “150 mil habitantes”, enquanto que » último, “245 mil habitantes”. As três populações viviam em ambientes diversos” com

“riquezas naturais diferentes”, por isso,

perguntam os divisionistas, os “três povos matogrossenses” não deveriam ter destinos diversos? Tratando ironicamente o general Rondon, afirmam: “A Geografia, em que o General Rondon é mestre, está indicando a todos nós o caminho, como está dizendo io cuiabano:

somos

três povos;

temos

três destinos;

Estados”D, Curiosa é a identificação do cuiabano “coisas do Estado”,

“a máquina

com

da governança”,

damos

três

a política, as o que,

para

os

signatários da Resposta era associado a algo anacrônico e quase sinônimo de ociosidade, O sulista, ao contrário, era descrito como

“aberto a todas as iniciativas” e “desinteressado blicos”, tal como expressa o documento:

dos cargos pú-

O cuiabano amarrado ao seu meio, longe de tudo, tendo, nas suas mãos, a máquina da governança, que usa tão mal; apegado ao seu passado, às suas tradições, com a idéia anacrônica, errada, nociva,

perigosa, de que Mato Grosso é seu; de que só ele pode pensar em coisas do Estado; de que só ele sabe amar a terra. Essa mentalidade curiosa choca-se com o espírito do povo sulista, amante da liberdade, aberto a todas as iniciativas, desinteressado dos cargos públicos, cumpridor dos deveres cívicos, tendo, varias vezes, chegado á luta

armada”.

15 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE.

A divisão de Mato Grosso... p. 26,

[6 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. A divisão de Mato Grosso... p. 28.

224

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHQUN

Importante

notar

a acusação

segundo

a qual,

cuiabano”, “Mato Grosso é seu”, ou seja, percebemos espécie de disputa simbólica pelo estado e pela sua tação. Quanto a ser “cumpridor dos deveres cívicos”, va, para os sulistas, terem apoiado a Aliança Liberal, gundo o documento, a “revolução encontrou no Sul

para

“W

aqui uma represeno significa. pois seu completo

apoio”, enquanto que no centro-norte, os candidatos Getúlio Vargas e João Pessoa haviam obtido tão somente “onze vo» tos", Propagava-se, inclusive, as fraudes lá ocorridas é o se guinte episódio que teve lugar no município de alto Araguaia,

quando o chefe de polícia local assim abordou o presidente da mesa eleitoral: — Agui não admito voto de oposição. — Mas como saber quem vota em Prestes e quem vota na oposição, se o voto é secreto? A resposta:

— Deixe tudo nas mãos do secretário da mesa, que é homem prático!s, Assim foi feito e Vargas não obteve um único voto em Alto Araguaia.

Mas o cumprimento

do “dever cívico”, certamente,

era

também uma forma de lembrar que o sul havia cerrado fileiras com

São Paulo em 1932, enquanto o centro-norte, dessa vez, apoiara Vargas, já que após a vitória de 1930, a “massa cuiabana traveste-se de Liberal, revolucionária autêntica”, fiel a sua postu-

ra de estar sempre favorável aos governos. O documento alega repetidas vezes que os cuiabanos assim o faziam por dependerem dos empregos públicos, enquanto o “povo sulista”, pelo contrário, “amante da liberdade”, várias vezes chegara à luta armada.

17 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE.

A divisão de Mato Grosso..., p. 29.

18 Eleições de 1930, Revista interior, p. 38.

19 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE, A divisão de Mato Grosso..., p. 29.

A

SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÁ

225

públicos,

ironiza as tradi-

o funcionalismo

Fondena

e os gastos

es culturais cuiabanas, rejeita os políticos do centro-norte e vera que não lhes antepõe o seu regionalismo. Se regionalismo tem o sul, “é um regionalismo sadio, necessário, causa de progresso, expansão

á terra"?. A conclusão óbvia,

de amor

e na

mal depositavam toda a convicção, era expressa com essas palavas: “O movimento divisionista é, assim, lógico, urgente. Para

evitar a nossa ruína Cuiabá não nos pode dirigir mais”. Com a criação da Liga Sul-Mato-Grossense e com a divuldesse documento, a causa divisionista alcançava novo e distinto patamar na sua trajetória pela criação de um estado para um dos “três povos matogrossenses”: o do sul. Outro specto relevante diz respeito aos signatários da Resposta ao veneral Rondon. As suas 15 assinaturas correspondem a memcão

nos de algumas das mais antigas famílias que povoaram o sul de Mato Grosso a partir de 1830, introduzindo ali a pecuária. Assinaram

Sebastião Corrêa

o

documento:

Lima,

Filho,

Candido

Augusto

Antônio

Lima,

Rondon,

Aniceto

Rondon,

Israel Pereira Martins, Juvenal

Mascarenhas,

Nestor

Muzi,

Raul

Muzzi,

Corrêa, Altivo Martins, Major Leonel Velasco, Levino Garcia Leal, Braulino Garcia e Emílio Garcia Barbosa”. Observa-se que a própria família Rondon ficou cindida quanto à essa bandeira, pois dois de seus membros foram signatários Estevam

Alves

do libelo separatista. A Resposta ao general Rondon serviria como referência a outros manifestos emanados pelos divisionistas nos anos posteriores, como veremos adiante.

“) LIGA

SUL-MATO-GROSSENSE.

A divisão de Mato

Grosso...

Pp. 29.

LIGA

SUL-MATO-GROSSENSE,

À divisão de Maio

Grosso...

p. 30.

!|

22 A divisão de Mato Grosso-resposta ao general Rondon, p. 35.

226

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

o sul de Mato

Grosso,

um

dos efeitos da

227

nas as 13 mil assinaturas que ilustram € apóiam essa representacão?. (sem grifo no original),

“Caravana separatista e ideias subversivas” no sul de Mato Grosso em 1934 Para

DA LIGA BUL-MATO-GHOSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÁ

A respeito dessa coleta, no dia 3 de maio de 1977, quando o

insurreição

paulista de 1932 foi ter transformado a causa divisionista em movimento divisionista. Antes dela, havia ideias, intenções, sonhos,

presidente Geisel anunciou a sua decisão de dividir Mato Grosso,

o senador Italívio Coelho (ARENA/sul) qual enalteceu o feito:

proferiu

um discurso no

manifestações esporádicas e desorganizadas advindas de uma si-

A população sulina passou a defender ardorasamente a formação de

tuação histórica caracterizada pela polarização entre norte e sul,

um Estado no Sul. Organizou-se um movimento de massa em todos

mas não uma organização que objetivasse a divisão.

os municípios sulinos, ocasião em que se contaram mais de 20.000

a

Após a experiência frustrada do governo de Vespasiano Barbosa Martins, cuja intenção mais provável pareceu-nos ser a transferência da capital para Campo Grande, conforme mostrado no capítulo anterior, esses ideais esparsos foram expressos por um grupo organizado da oligarquia rural do sul, por meio da Liga Sul-Mato-Grossense.

assinaturasde populares. Esse número se agiganta quando verificamos que naquela época, em 1932, a população era muito peque-

na%. (sem grifo no original). Apesar de constar no documento

original que se tratavam

de “13 mil assinaturas”, o senador menciona

o número

de 20.000,

dade não titubeou: aproveitou a instalação da Assembléia Constituinte, em 1933, para encaminhar-lhe a petição sobre a divisão de Mato Grosso. Os divisionistas esperavam uma boa acolhida da causa entre os constituintes, uma vez que, segundo eles, a Revolução de 1930 cogitava uma redivisão territorial do

cifra que de fato seria impressionante considerando que a população de Campo Grande, a cidade que mais crescia na época, cra de 21.360, conforme o censo de 1920. Mas não foi apenas cle a dilatar os números. José Barbosa Rodrigues em sua História de Mato Grosso do Sil, escreve: “A Representação dos sulistas ao Congresso Constituinte recebeu, por incrível que pareça, ade-

país.

são, mediante

Para tanto, lançaram-se, sem demora, a uma bem sucedida empreitada pelo interior do sul do estado em busca de adesões que respaldassem o projeto a ser enviado à Constituinte. Em meio à repressão policial, conforme teremos ocasião de constatar à frente, os separatistas conseguiram seu objetivo, pois, no preâmbulo da petição intitulada Representação dos sulistas ao Congres-

originais foram encaminhados ao Chefe Provisório, Dr. Getúlio

Uma

vez constituída,

a enti-

so Nacional Constituinte, assinalam que na sua empreitada a Liga

encontrara sempre pela frente, disposta a embargar-lhe o passo e impedir-lhe a ação pacífica, toda sorte de ameaças governamentais, de que dão mostras os documentos 1 e 2 [telegramas da polícia. Não fora essa arbitrariedade inominável, e a Liga Sulmatogrossense poderia apresentar não ape-

assinaturas de mais

de VINTE

MIL

pessoas,

cujos

Vargas”>. (grifo do autor). Ante esses dados divergentes, passamos a comentar a discrepância. Consultando o documento original que se encontra no

3 LIGA Sulmatogrossense. Constituinte, p. IV.

Representação dos sulistas d0 Congresso Nacional

“4 BRASIL. Didirio do Congresso Nacional, 4 maio 1977, p. 1335-1337. O discur-

so foi divulgado pelo Senado com o titulo de Mato Grosso do Norte, Mato

sso do Sul. A lista completa das assinaturas está publicada em MARTINS, “lécio Barbosa. Pela defesa nacional, p. 101-146. O nome do autor consta de

todos os documentos elaborados pela Liga à época, '5 RODRIGUES, José Barbosa.

História de Mato Grosso do Sul, p. 148.

228

REGIONALISMOE DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Arquivo do Estado de Mato Grosso, em Cuíabá, tivemos à oportus nidade de ler no próprio texto à menção às “13 mil assinaturas”. Outro aspecto que chamou a atenção foi que, na verdade, ele não traz “assinaturas”, mas sim os nomes datilografados, o que nos fez pensar em outras hipóteses que não exatamente “um movimento de massa”. Poderiam ter sido nomes ditados sem que ne» cessariamente as pessoas tivessem lido à proposição divisionista

antes de a ela aderirem? Outro dado intrigante: ao lado da lista dos nomes, consta uma anotação em caligrafia bem delineada,

aparentando

ser antiga: “Até milhares de inconscientes

crianças

da escola primária assinaram"! Tal “recado” parecia estar ali a

nossa espera, para nos alertar sobre o verdadeiro grau de adesão à demanda separatista e sobre a forma pela qual aqueles nomes

chegaram à lista, Mas um estudo dessa natureza, embora impor-

tante, não era o objetivo do momento. Em 2005, porém, conforme relatado na Introdução, foi possível ter em mãos um exemplar desse raro documento, estudá-lo com mais vagar e chegar às seguintes conclusões:

1º) nem mesmo no documento original constam “13 mil assinaturas”. Das 70 páginas nas quais os nomes estão dispostos, a pri-

meira delas traz 124 enquanto a última, 83; todas as demais (ou seja, 68 páginas), cuja disposição gráfica está padronizada em

duas colunas quase iguais, trazem 136 nomes. Fazendo a aritmética, contabilizamos 9.248 nomes. Podemos flexibilizar um pouco

esse resultado, pois algumas páginas, em vez de 136, exibem 122 nomes; 2º) a lista de nomes datilografados nos deixa a dúvida sobre se,

de fato, as pessoas assinaram a petição ou se os seus nomes ali

foram incluídos de uma outra forma. Trata-se de uma hipótese

plausível, até porque, lê-se a seguinte nota: “devidamente sellado e assignado foi entregue a mesa da assembléa requerimento idêntico a este” (p. VID, o que me assegurava que o documento que esta autora tinha em mãos era “idêntico” ao que fora encami-

los

DA LIGA BUL-MATO-GROSSENSE

AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA

229

PORA

nhado à Constituinte, portanto, naquele exemplar também não constavam “assinaturas”. Estariam elas arquivadas? Tivemos o cuidado de tentar esclarecer essa suspeita no Congresso Nacional, | contudo, nada foi encontrado sobre a Liga naquela Casa; ") o primeiro nome da lista é o de Vespasiano Barbosa pedia

1 qual se seguem os 9.247, revelando uma nítida prepondietância de algumas famílias, tais como: Barbosa, Nantes, Pereira, Sousa, Rezende, Azambuja, Nogueira, entre outras. Alguns exemplos: nas páginas 28 e 29 há 35 nomes da família Nogueira; en páginas

57

e 58

constam

18

Barbosa

Martins,

além

ae

vários

outros espalhados ao longo das 70 páginas, como Oclécio Baia sa Martins (p. 59); Domingos Barbosa Martins (p.81), Emílio sia Barbosa (p. 61); entre as páginas 70 e 71 há 32 nomes da família azambuja. Relacionando essa lista a 1932 e observando os nomes dos chefes dos batalhões que partiram do sul de Mato Grosso para apoiar São Paulo, entenderemos a razão de algumas recorrências. Foram os seguintes os chefes das forças sulistas: Henrique Barbosa Martins, Antonio Alves Corrêa, Etalívio pera ra Martins, Teófilo Azambuja, Avelino Nogueira, Aral Moreira, Altivo Barbosa Martins (Kiki); (2) nota-se a presença

de quase

todos aqueles

nomes

aos quais

fizemos referências em documentos precedentes, tais como; Eduardo Machado, Arlindo de Andrade, Italívio Pereira Coelho, Laucídio

Coelho, Manoel da Costa Lima, além de descendentes dos Mascarenhas, Muzzi e Rondon, por exemplo. Ademais observamos um aspecto instigante: os sobrenomes estrangeiros aparecem com mais frequência nas famílias árabes (Rahe, Nabhan, Rai, Rachid, Bacha, Duailib, Buainain, Saad, Nagles, Maluf, Scaff, Nasser, Nassif, entre outros), entretanto em muito menor número

de pessoas se comparados às anteriormente referidas; aparecem também os italianos (Fragelli, Simiolli, Giordano, entre outros). Os japoneses, por sua vez, contrastando com o seu eonmngénio É

influência

cultural no sul do estado, são raríssimos:

individual-

230

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GRONDO

mente constam:

Senji Nakasato,

Casemiro Arakaki,

Yutu Atakall,

281

104 SUL-MATO-BROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÁ

“us,

então,

por que o documento

cita esse número?

Nossa

con-

Tuki Tuma, Jeikiki Arakaki, Naki Takini, Sansiro Katayama, Oslim Takemoi, Kime Hotta, Siroma Techuo é Oshiro Tatsuo. Esse qm pecto nos faz cogitar sobre o irrisório envolvimento dessa impor tante colônia com o divisionismo, além de fornecer um contraponto a quantidade de nomes das famílias da oligarquia agrária, deixam» do-nos a impressão de que os seus chefes incluíram na lista quase todos os membros de suas famílias, procedimento que não se verifica em absoluto com os japoneses e muito pouco com ws árabes;

lusão se respalda em uma “nota dos editores”, que consta na ltima página: “Deixaram de ser transcriptos para mais de 4000 “quatro mil) assignaturas, por terem as listas chegado ao nosso poder depois de impressos e concluído este trabalho”*, ou seja, 13 mil só podem se referir à soma dos cerca de 9 mil nomes mais 1.000 que não foram incorporados. Os divisionistas demonstravam demasiada esperança na forca desse abaixo-assinado, entretanto, enganavam-se quanto às inrenções geopolíticas do governo Vargas: ele não tinha a menor

5º) não tivemos a possibilidade de, no âmbito desta pesquisa, conferir o “recado” encontrado no documento do arquivo em Cuiabá, qual seja, o de que até “crianças do primário assinaram”,

intenção de estimular regionalismos e dividir estados. Ao contrá-

Para isto, seria necessário realizar um levantamento nos cartórios,

procedimento impossível na ocasião. Todavia, tivemos a curiosidade de observar pelo menos alguns nomes conhecidos: o de

Paulo Machado consta logo abaixo do nome de seu pai, Eduardo Olímpio Machado. Feitas as contas, conclui-se que ele tinha 17 anos de idade. Da mesma forma, consta o de Wilson Martins, que devia ter a mesma idade dele;

Barbosa

6º) por fim, se não pudemos detectar a “assinatura” de “crianças”, deparamo-nos Martins

com

(repetida

na

duplicidade p. 62);

Dr.

de alguns nomes: Aral Moreira;

rio, ordenou ao interventor de Mato Grosso severa censura às ções da Liga por ocasião da coleta desses nomes, conforme transcrição dos telegramas abaixo, cujo teor não deixa dúvidas: Delegacia de Polícia. Nioac, 8 de Março de 1934, Edital. De ordem do Sr. Delegado de Polícia cidadão Nicola de Andrade, faço público o telegrama abaixo : Est. Delegado de Polícia Niovae, de Campo Grande, 29, fls. 28 Data 7. Hora 11,40, - Deveis ordem Governo Estadual

proibir energicamente qualquer manifestação Caravana Separatismo,

Idéias Subversivas. Saudações. Heraclito Silva Braga. Delegado de Polícia”,

Lina Barbosa

Antonio

Francisco

Rodrigues Coelho; Ovídio Derzi (p. 66 e 74); Wilson Barbosa Martins (p. 21) e Wilson Martins (p. 81) seriam a mesma pessoa? Constatamos nomes sem sobrenome: Maria do Carmo (p. 32); M. Cândida (p. 31); M. Teodora (p. 41); Maria Laura (p. 23). Não constam, finalmente, os nomes de Lúdio Martins Coelho e de Plínio Barbosa Martins, esse último, mais novo do que o irmão Wilson. Assim, que fonte teriam utilizado Italívio Coelho e José Barbosa Rodrigues para afirmarem a existência de 20 mil assinaturas se a própria petição não menciona esses números? E mesmo essas “13 mil assignaturas”, conforme mostrado, não constam ali.

Delegacia de Policia de Entre-Rios. Edital. O Delegado de Policia deste Município, Capitão Laudelino Pinto de Souza, recomenda a

seus jurisdicionados que, para boa marcha da ordem pública, fica de ora avante terminantemente proibida qualquer manifestação de

idéias e propaganda sobre divisões territoriais deste Estado, transcrevendo na integra o seguinte telegrama: “Sr. Delegado de Polícia Estadual de Campo Grande. Deveis envidar todos esforços sentido evitar propaganda idéias subversivas, como vem sendo feita pelo grupo separatista, não permitindo circulação boletins contenha tal propa-

“6 LIGA

Sulmatogrossense.

27 LIGA Sulmatogrossense.

Pela divisão do Estado de Mato

Grosso,

p. 81.

Pela divisão do Estado de Mata Grosso, p. 9.

232

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSMO

ganda ou outra qualquer [...]. Tenho ordens severas Dr. Interventor exigir auxiliares máxima energia sentido manter ordem e reprimir idéias subversivas pt. Confio, pois, empregueis máxima energia cum

primento desse dever. Saudações. Hugueney Filho, Sub-chefe de Policia do Sul do Estado”. Deante do exposto e para que ninguém

allegue ignorância tomou esta autoridade a deliberação de fazer pu» blico o referido telegramma, pot Edital que será afixado nas portas das casas publicas deste Município, e espera que os seus jurisdicionados rendam obediência ao exposto do telegramma acima. Não fazendo listas com assignaturas quaesquer outra propaganda directa ou indirectamente sobre separatismo do Estado. Delegacia de Policia de Entre-Rios, 20 de janeiro de 1934. Cap, Laudelino Pinto de Souza. Delegado de Polícia”.

Todavia, apesar dos esforços do governo em evitar “propaganda idéias subversivas, como vem sendo feita pelo grupo

separatista” e das “ordens severas” do “Dr. Intenventor”, o movimento conseguiu obter a lista e enviá-la ao Congresso Constituinte. Precedendo essa ação, a Liga já havia publicado dois manifestos:

o primeiro

deles

em

11

de outubro

Aos habitantes do sul de Mato Grosso,

de

1933,

intitulado

assinado por universitá-

rias mato-grossenses no Rio de Janeiro para divulgar os objetivos da entidade”. Alegando “o abandono em que sempre viveu o sul de Mato Grosso por parte de todos os governos de Cuiabá,

visltumbrou, desde logo, pelo destemor e pela firmeza de ação de sua mocidade, o urgente mister de fundar, no Rio de Janeiro, uma organização” cuja aspiração principal consistia em “pleitear, dentro das normas do direito, a sua autonomia jurídica [...] Na tarde gloriosa de 2 de outubro de 1932 deram, assim, alguns universitários matogrossenses nascimento à Liga Sul-Mato28 LIGA Sulmatogrossense.

Pela divisão do Estado de Mato Grosso, p. 10.

29 Oclécio Barbosa Martins, em Pela defesa nacional: estudio sobre redivisão territorial do Brasil, 1944, Nessa obra constam, ainda, a íntegra dos documentos citados e o

extrato dos Estatutos da Liga Sul-Mato-Grossense,

233

(A LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERBITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÃ

urossense'*, Os dirigentes da Liga declaravam não ser justo que o sul, quase totalmente desamparado em suas necessidades e erviços públicos, continuasse a ver escoar-se a maior parte do produto do seu trabalho para satisfazer necessidades e serviços públicos de Cuiabá. Assinam esse Manifesto: Ruben Alberto Abbet de Castro Pinto, Fadah Maluff, Alexandrino Brandão, Oclécio Barbosa

Martins, Jonas Barbosa Martins, Benjamin

Miguel Farah,

Carlos $. Martins Costa, Júlio Mário Abbot de Castro Pinto, Clineu da Costa

Moraes,

Valério Martins Costa, Alberto Neder,

Cândido

inheiro, João Rosa Pires, Amando de Oliveira, Alfredo Neder, Nicola Caminha, Auzonia Maciel de Oliveira, Alayr Maciel de Oliveira, Manuel Caminha e Jary Gomes. Não foi possível apurar de que Amando de Oliveira se trata, pois O famoso Amando da história de Campo Grande havia sido assassinado em 1914 e não

temos

notícia

de

outra

pessoa

homônima.

Já o seu

filho,

Euclydes de Oliveira, resídia no Rio de Janeiro nessa época. Fica evidente no seu primeiro Manifesto, a ênfase em um aspecto fundamental que movia a reivindicação divisionista; a superioridade econômica do sul do estado, Daí em diante a propagação do separatismo estará permanentemente vinculada a esse argumento expresso de forma a demonstrar orgulho pelo fato de o sul haver prosperado com o desenvolvimento da atividade pastoril e da erva-mate, “com a formação de cidades e povoados, com o progresso trazido pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil”, o que fez surgir “em Cuiabá a guerra contra O florescimento desta região, visando sobretudo impedir o assombroso progresso da cidade de Campo Grande”*. A diferenciação econômica

do estado passará, então, a ser definida em termos da

3) LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. Manifesto. Apud: MARTINS, Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional: estudo sobre redivisão territorial do Brasil, p. 91.

31 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. Manifesto. Apud: MARTINS, Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional estudo sobre redivisão territorial do Brasil, p. 9A.

2

235

vLIGA SULMATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÁ

a REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHONNO

34

polarização entre progresso e atraso, acompanhada pela maniles

um acentuado desprezo dos sulistas para com as tradições cul-

tação de ressentimento dos sulistas, já que, embora fossem halsh

turais

tantes “desta riquíssima zona brasileira”, eram relegados ao abam Séria pelo “governo de Cuiabá”. Por isso, começaram, desde em tão, a se convencer “nos bastidores e com a natural cautela” du necessidade da sua emancipação política, “de vez que em Mato

Grande do Sul e o próprio Paraguai (principalmente na raúsica),

“muito mais decivilização e de de pressa em contato com os centros mais fortes cultura” *. Culturalmente mais afinados com São Paulo, Rio “da

civilização

cuiabana”,

ss divisionistas menosprezavam

sentindo-se

os cuiabanos,

geralmente

zom-

Grosso, a cada hora se acentuava, como se acentua, O predomínio

bando de seus valores culturais, tal como se verifica, por exem-

da administração cuiabana, com o maior desprezo pelos interes

plo, na Resposta

ses econômico-sociais

do sul do Estado,

onde

do general Rondon,

quando

do mundo, o cio Cuiabá, um paraiso, embasbacar-se na grandiosidade

das florestas nortistas, deliciar-se com danças inocentes de Nhambiquaras e caçadas valentes de Bororós, gozar historias de montanhas de ouro e diamantes L..] >.

Acusando desdém e abandono por parte da administração estadual, manifestava também a frustração por não conseguira se fazer representar politicamente, já que na correlação de for ças entre elites do sul e do norte, esta levava vantagem. Aliás, O Manifesto encaminhado a Vargas, também fez referência ao fato

A tudo isso que compunha uma parte do passado histórico mato-grossense, designavam de “regionalismo inútil”, ao passo

de que para aquela legislatura em Mato Grosso, dos 24 deputa-

que

dos, “foram reservados ao sul [...] nada mais do que 3 ou 4 depu-

progresso, expansão de amor à terra”*,

Os dois ingredientes essenciais do ideal divisionista paredo sul

do estado sobre o centro-norte; b) a desproporção numérica de sua representação política, com vantagem para os “nascidos no norte”.

Aliada

a esses

fatores,

32 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE.

esse

mesmo

Manifesto

In: MARTINS,

Oclécio

Barbosa.

Pela

25 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. Manifesto ao chefe do Governo Provisório é à Assembléia Constituinte. cional... p. 93.

Apud:

MARTINS,

Oclécio Barbosa.

“um

regionalismo

sadio,

necessário,

causa

de

expressa

Manifesto aos habitantes do sul de Mato

Grosso. Rio de Janeiro, LI out. 1933. defesa nacional: estudo sobre... p. 92,

sul era

sul de Múio Grosso ao chefe do Governo Provisório e à Assembléia Constituinte, argumenta que nenhum estado da federação brasileira apresentava o aspecto de Mato Grosso, “com Irês zonas de povoamento, sem comunicação fácil e com formações completamente diversas [...]" ”. Mais adiante, indagando sobre “quem se opõe à divisão”, respondia que “s abe o governo federal que o povo sulista diante do abandono e da guerra que lhe move o

do Sul do Estado”*, a) a superioridade econômica

o do

O segundo Manifesto, publicado em 1934, Da mocidade do

tados”, escolhidos, segundo o libelo separatista, com preferência pelos que “soubessem recitar discursos laudatórios à grandeza da civilização cuiabana”, enquanto que, para a representação federal, “não se tinha a delicadeza sequer de consultar aos diretórios

então, amadurecidos:

se:

amar verdadeiramente o Estado é considerar Cuiabá a melhor cidade

residem as únicas

fontes de receita pública”?,

cem,

indagam

Pela defesa na-

)

“à LIGA SUL MATO-GROSSENSE. Manifesto aos habitantes do sul de Mato Pela Grosso. Rió de Janeiro, 11 out, 1933. Im: MARTINS, Oclécio Barhosa. 91. defesa nacional... p. 10. 35 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. A divisão de Mato Grosso.., p. Maio Grosso... p. 29: 36 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. A divisão de

do Sul de Mato GrosEi LIGA SUL-MATO-GROSSENSE, Manifesto Da Mocidade mo

p. 94. Am: MARTINS, Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional: estudo sobre...,

256

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

povo cuiabano, deseja ficar sob a administração Federal ou cons tituir-se em novo Estado”*. Demonstrando ambiguidade do divisionismo nessa fase, O documento apresenta a hipótese de se mudar a capital: Por isso, periodicamente, surgiam aqui, ali e acolá, alguns boletins anônimos, espalhados, medrosamente, ocultamente, feiibica ndo ao povo a idéia da mudança da Capital ou a separação do Estado, tanto mais que nada se fazia pela grandeza do sul, embora daqui fosse remetida a quase totalidade dos impostos”.

Esse ponto do Manifesto chama a atenção e reforça a nossa análise sobre o caráter do governo de Vespasiano Barbosa Martins em 1932, ou seja, a referência ao desejo de transferir a sua sedã político-administrativa para à região meridional do estado (Campo Grande) pode ser interpretada como uma tentativa, a princípio, não de dividir Mato Grosso, mas de mantê-lo coeso sob o governo “do sul”, Nesse sentido, compreendemos aquele apelo de Vespasiano citado no capítulo anterior para que o norte se pm ao sul na luta contra Getúlio Vargas. No caso de ser ai so o movimento paulista de 1932, a intenção era a de que a

capital de Mato Grosso fosse transferida para Campo Grande com o estado uno. Prosseguindo sua argumentação, o Manifesto critica a postura política “do norte”, que dera à Aliança Liberal apenas onze votos na região cuiabana, mas que, tão logo se instalara o Governo Provisório de Getúlio Vargas, apressou-se a aclamar “delirantemente” o primeiro interventor federal que aportava em Cuiabá

as Eri a gi A a ue: 39 LIGA

Manifesto da Mocidade do Sul de Mato Barbosa. Pela defesa nacional: TINS,S, Oclécio estudo soáci E j

SUL-MATO-GROSSENSE.

Apud: Grosso... Doca pi a

MARTINS INS,

léci Oelécio

Manifesto z Barbosa.

da

Mocidade

Pela defesa

do

Sul de

à nacional:

Mato

estudo so-

237

FEDERAL DE PONTA PORÁ [A LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO

Capital para o Sul, onde “e isso se fazia, para evitar a mudança da

habitavam os chefes da campanha libera gas

ão do regioMudança da capital ou divisão: eis à manifestaç A indefinição denotava nalismo no começo da década de 1930.

elite sulista já era um aspecto significativo: a força econômica da

lesmente, propor à tal que ela se sentia à vontade para, simp ção de sede política, destituição de Cuiabá da sua histórica condi o que

revela também

que,

a partir daí, o mais

importante

pari

inição, além disela era tornar Campo Grande a capital. A indef Liga na possibilidade so, se fazia acompanhar das esperanças da sição sobre a autode o Governo Provisório acolher a sua propo

a causa separatista nomia. O certo é que, conforme amadurece,

ese de o sul permaexpressa total inconformismo quanto à hipót extremo, como mosnecer dirigido por Cuiabá. Chegando a esse ao Governo Provisótramos em citação precedente, o Manifesto r que essa região rio e à Assembléia Constituinte chega a propo ório federal, ou seja, mato-grossense se transformasse em territ O qual se lutara em preferia-se passar à tutela do governo contra á. A “mocidade da 1932, a permanecer governado por Cuiab

podia “ficar indiferegião meridional de Mato Grosso”, que não Estado”, apelava: rente aos altos interesses político-sociais de seu à Assembléia Nacional Para o Chefe do Governo Provisório e para fase de reorganização do Constituinte, para que se concretize, nesta ou do novo Estado de país, a criação do TERRITORIO FEDERAL m a civilização sulina, e Maracaju - aspiração dos brasileiros, que criara tendo à sua frente, naqueque se batem por esse ideal, desde 1900,

is João Mascarenhas, ja época, os srs. Dr. José Barros Cassal, coroné João Caetano F, Muzzi e outros”.

40) LIGA

SUL-MATO-GROSSENSE,

Manifesto

Da

Mocidade

do Sul

de Mato

Pela defesa nacional: estudo soGrosso... Apud: MARTINS, Oclécio Barbosa. bre... p. 94. ao Governo Provisório e à As[ LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. Manifesto Pela defesa naciosembléia Constituinte. Apud: pal po He

MARTINS,

Oclécio Barbosa.

238

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO-GROSSO

Julgando

estar em consonância

com

os “ideais reformistas

da Revolução” que inscrevera no seu programa “a criação de territórios federais, nas zonas despoliciadas e mal cuidadas, com o seu desenvolvimento entravado por falta de ação administratia estadual”, os signatários esperavam que o referido território, caso viesse a ser criado, abrangesse os municipios sulinos em uma “rica província do Brasil”, formada por brasileiros vindos de São Paulo, de Minas, do Rio Grande do Sul, bem como de imigrantes

estrangeiros, e que

empregaram

todos os seus esfor-

ços “desajudados dos governos estaduais, que sempre pontifica-

ram no entorpecimento

do seu progresso,

à mercê da mais bai.

xa política que por ventura se pratica na Republica"? Oclécio Barbosa Martins reproduziu no seu livro Pela defesa naciona l q lista dos signatários, que totaliza 121 nomes, dentre os quais, Paulo Machado e muitos nomes da família Barbosa (Oclécio Barbosa Martins, Ênio Barbosa Martins, Wilson Barbosa Martins) . A ausência do nome de Vespasiano, tanto neste como no manifesto anterior provavelmente se explique pelo seu período de exílio no Paraguai, que coincidiu com a criação da Liga. Essas referências relativas a um momento posterior a 1932 deixam claro que a ambiguidade do efêmero governo de Vespasi ano correspondeu a uma fase em que a própria causa divisionista não lograra ainda definir seus rumos. O malogro do movimento, paradoxalmente, concorreu para o seu amadurecimento, cujo elemento mais expressivo foi exatamente a criação da Liga Sul-Mat oGrossense, No interregno de 1930 a 1934, o Tegionalismo foi per-

dendo

o seu

caráter

dúbio,

embora

ainda

não

se manifestasse

exclusivamente pela divisão como forma de resolução. Resumid amente, O processo assim se caracterizou:

42 LIGA SUL MATO-GROSSENSE. à Assembléa Constituinte. Apud: ciondi, estudo sobre... p. 95,

Manifesto ao Chefe do Governo Provisorio é MARTINS, Oclécio Barbosa. Pela defesa na-

239

DE PONTA PORA DA LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL

nas

|

programa

eleições

1930,

de

presidenciais

o sul

e

o

E

da Aliança ego

reformista dos candidatos

as

tmeRinaa

dando a tendência verificada na década de 1920 de afinidade aeriiis não 4 renovação da política nacional; " nao apoiou e ista govern > — Cuiabá manteve sua posição situacionista

Julio

o

Prestes,

homem

marcado

para

acordo com o processo eleitoral viciado e manipulado igarquias dominantes no país; a leadida a Revolução de 1930, o sul de Mato ao à e uma vez que nessa região do estado já havida as or ci a liberal o atuaçã correntes eleitorais [...] sendo centro de

»

3randeӎ;



ppp

no

rias pe,

situacionista,

entanto,

imediatamente

Cuiabá,

acolheu

pel: | ms E ça cida

=

a dai

seguindo

o seu

pi

rg

dad

9

azem

que a seu nome “sentir 40 novo chefe do executivo ci : aa havia sido incluido no rol dos 'cidadãos eulabanos e E Cuia 1932, s - ao levantar-se São Paulo contra Vargas em teve-se legalista, enquanto

o sul de Mato a

Pi

tes E

issa es É aparentemente contraditória, aderiu aos paula A 1 am demonstrou mais claramente o deslocamento polca ça eição 4 Cuiabá e sua afinidade com São Paulo. A insurr sul e pao e as contou com a formação de um governo no ne pr ) au mas esse governo não se diz Se pAnÉSA. Ho o norte

a unir-se

aos

sulistas.

Sua

pesição

é nie

e

ph

objetivos e as desdobramento dos acontecimentos permite ea a estratégias dos divisionistas amadureçam e a dg ps . 6 — em outubro de 1932 nasceu a Liga Sul-MatoVespastan análise de seus documentos e dos pronunciamentos de alisa aa do Gover = peço o 43 LIGA SUL MATO-GROSSENSE. Manifesto ao Chefe defe

Barbosa. Pela à kssembléia Constituinte. Apud: MARTINS, Oclécio mo cioral: estudo sobre.., Pp. 93. ni RO (nine do Chefe 4 LIGA SUL-Matogrossense. Manifesto ao

Con: uinte à Apud: : MARTINS, Oclécio Barbosa. Pela defesa a Constit biéia ES ssembléi nat estudo sobre..., p. 94.

nacie

240

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO SROSHO

Barbosa Martins permite concluir que, a princípio, logo que | movimento de 1932 eclode e Klinger o nomeia seu chefe em Matu Grosso, este acalenta a pretensão de que, em caso de vitória paulista, a capital simplesmente se transferisse para Campo Gran» de onde chefiava um governo “constitucional”, paralelo ao sediada em Cuiabá. Nessa hipótese, não se cogitaria a divisão do estado

como

está claro, aliás, em

seu pronunciamento

contra o regiona

lismo. A mudança da capital Tesolveria, então, favor avelmente ao sul de Mato Grosso, a questão regionalista; 7—a derrota de 1932 não permitiu, porém, que Campo Grande Se tornasse efetivamente a capital de Mato Grosso. Assim, OS Primeiros documentos da Liga Sul-Mato-Grosse nse (1932-1934)

postulam três formas possíveis de o governo federal dar solução

RE Martins, por exemplo, analisara a a eme E capta verificada no sul de Goiás com a criação da no sul, mas admitiu que “a experiência de Guiglia e a fo nece outra lição [...] as populações do norte goiano pira pe queixar-se do abandono em que ficaram largadas, surgin a psp ioga justos desejos de auto-governo. eae nr a movimento da criação do Território de Forge m lizaria ecográficas, além das políticas, portanto, inviabi

à geografia, as prerrogativas históricas penais: ap aa tariam a destituição de Cuiabá, símbolo do Rasta apresen de capital do estado. Das três proposições, então, apenas à são

resolveria

ao regionalismo do sul: 1º) transferência da apital para Campo Grande; 2º) divisão do estado; 3º) criação de um território federal na parte meridional de Mato Grosso. Essa última medida, como

se vê,

eta

contraditória,

Pois

os sulistas,

uma

vez

a

causa

&

sulista.

A Constituinte de 1934 não acolhe a petição separatista

constituídos

em território federal, passariam para o contro le direto do governo Vargas. Mas a primeira medida, além de auda ciosa, também revela seu limite, pois, transferida à capital para o sul, restaria uma parte imensa do território Mato-grossense isolada de sua nova sede político-administrativa. O propositor da transferência, o então deputado constituinte Italívio Coelho , sulista, um dos maiores pecuaristas do estado, justificava a mudan ça “em caso de calamidade pública”, e como era de se espera r, causou tamanha polêmica que recebeu Protestos com caixões alusivos ao “enterro” dos deputados do sul de Mato Grosso . Tinham razão os moradores de Cuiabá ao assim contestarem, pois tal medida, além de visar a destituir a capital de sua legend ária condição, apenas inverteria a situação de isolamento, repetindo-se o ocorrido com Goiás. Quanto a essa última hipótese, os próprios divisionistas tinham ciência do problema que acarretaria. Oclécio Barbosa

241

AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÁ

DA LIGA SUL-MATO-GROSSENSE

O regionalismo nascido no fim do século Es nd = ia recia, perdia ambiguidades, e se indo og e us lutas que ocorriam em Mato Girasho Heade ring

cer não propôs imediatamente a divisão do estado. por meio mos,

essa

Sul-Mato-Grossense,

da Liga causa,

já claramente

separatista, chegou Representação

ao governo

conforme

transformada

em

E pd

) e

Rr movime

federal. a Penn

dos sulistas do Congresso Eni

26

àa

vs g ae te assemelha-se, em muitos pontos, à ap nd irma Rondon. Logo na introdução, por ci ia imensa superfície mato-grossense paisitavaia três povos tos (do extremo norte, do centro e do sul): O do extremo norte, constituído por 25 mil adventícios do Amazoã conhece o Esta do ilei o, não nas. do Pará e de todo o nordeste brasileir

45 MARTINS, Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional..., p. 66-67.

242

REGIONALISMO E DIVISIDNISMO NO SUL DE MATO GAOSUM

em que vive e é por este totalmente ignorado. O do Centro - cutalig no - representado por 125 mil descendentes dos primeir os coloniza dores, destes conserva, aprimorado, o traço mais predom inante - à vaidade do mando. O povo do Sul, surgido a menos de 100 anos, representa-se por 245.000 indivíduos, que são, na sua quase unáani midade, filhos de paulistas, mineiros e rio- yrandenses, dos quais het

daram a lealdade cavalheiresca, a exuberante franqueza e a inde pendência indomável'*,

Percebe-se aqui o sentimento de superioridade dos sulistas ; exagerado nos seus predicados “herdados” de paulistas, mineiros e rio-grandenses,

enquanto

exalta

do

“cuiabano”

um

elemento

negativo herdado “dos colonizadores”, o seu “traço mais predo» minante, a vaidade do mando”. Acrescentam que a impossi bilidade de se confraternizarem “esses três povos díspare s” decorria tanto da “dessemelhança de caracteres” quanto da “imens a extensão de deserto que os separa”, A responsabilidade maior pela

aproximação

dessas populações

cabia

ao “cuiabano”,

que,

longe

JALIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORA A

243

ar wrês deputados impostos por Cuiabá. Contrapunham a e press dades e apetites dos homens de Cuiabá” o fato de o sul

isso Irês vezes mais que todo o centro e o norte conjugados. Mas

não era levado em conta pelo “cuiabano, senhor absoluto do

Co nos Estado”, que negava ao homem do sul qualquer ERIC e negócios públicos, não passando ele de mero “contribuinte

nada mais”.

O A rivalidade transparecia a cada linha, de tal modo que l conteúdo da Representação dos sulistas ao Congresso Naniena determie Constituinte não deixava dúvidas quanto à disposição nação dos sulistas em não reconhecer Cuiabá como a sua Eai aquela cidade que, segundo a Liga, consumia 65% push de sem das receitas públicas, cabendo ao sul gerar dois fnigue é o total. E sendo ele “o único produtor de riqueza publica,

a único a não compartilhar da aplicação das rendas, pois em toda de 400 ni zona meridional, o Estado não conta um patrimonio

tos de

réis,

em

obtas

publicas.

Isso

durante

45 anos

de regime

de atenuar esse mal geográfico, preocupava-se “primo rdialmente em acirrar a desunião, a tal ponto que, já hoje, não é mais possivel, pelo menos para o sulista, tolerar por mais tempo O governo

o sul tentou republicano!””. Mais ainda, enfatizava que quando estabelecer para entender-se com os poderes públicos estaduais a a equidade e “a modificação do sistema par qee se exerce

A intolerância pelo “governo do Centro” acirrar a-se nas eleições para a Constituinte em 1933 por causa da cassação de

públitra ele o arbítrio e à intolerância do governo”. Os cargos ou pessoas cos exercidos no sul “exclusivamente por cuiabanos

entre os quais o de concorrer ao pleito. A vam os sulístas, nunca so Nacional, enquanto

gente sulista”. pela Diante desses argumentos e ridicularizando a forma melhor, qual transcorriam os pleitos eleitorais em Cuiabá, ou

do Centro”?.

direitos políticos de representantes do sul pelo govern o federal,

Vespasiano Barbosa Martins, impedido de obstrução gerou mais cizânia. É que, alegahaviam tido um representante no Congresna Assembléia Legislativa, apenas dois ou

ate atividade governamental em seu território, — só viu crescer

de fora” cumpriam unicamente a função de “oprimir € aviltar a

48 LIGA Sul-Matogrossense.

46 LIGA SUL-Matogrossense. Pela divisão do estado de Mato Grosso: representação dos sulistas ao Congresso Nacional Constitu inte. p. IV. 47 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. Pela divisão do estado de Mato Grosso: ré presentação... - Apud; MARTINS, Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional p. 98.

Pela divisão do estado de Mato Grosso: representa-

ção dos sulistas ao Congresso Nacional Constituinte, p- Vi

de aid Grosso: representa49 LIGA Sul-Matogrossense. Pela divisão do estado , p. V. nte, cão dos sulistas ao Congresso Nacional Constitui dos tação represen 50 LIGA Sul-Matogrossense. Pela divisão de Mato Grosso: V. p. nte, sulistas ao Congresso Nacional Constitui

244

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO OU

“naquelas pobres paragens brasileiras”, concluíam os seps aratinta

que todo o esforço do “povo do sul” era inútil perante aquelh

realidade invencível,

“em face daquele ódio crescente” ince ntivo

do pela “política impatriótica de Cuiabá”. Sentindo a improficuidade do seu trabalho e “notando que o produto do seu labor” concora apenas para a satisfação de seus desafeto s e “ não para

a grandeza do Estado”, o sul “tem resolvido, daqui por diante, modificar q seu comportamento em relação ao govern o do centro”. Do rol de disparidades arroladas brotou, então, a ameaça mais revelador

da convicção sobre a superioridade econôm ica

do sul: “Os suljso

tas cogitam de não pagar mais impostos ao Estado. Esse vai SUL, caso se efetive, o primeiro gesto de rebeldia; o primeiro e muls pacífico dos protestos contra a dominação cuiabana”. Além disso, o documento expressava descrença nos 45 anos

de regime

republicano

que só serviam p ara capacitar a compre

ender que se vivia em uma “ficção de Estado”. haver-se extinto a esperança regime da administração matogrossens e” por popular, submetido à “subserviência invulgar” e demonstra ndo

diam, arrematavam

Contra tal “ficção! de se modificar “q meio do sufrágio

dos que o presi-

os separatistas em tom dramático:

L..] Os requerentes vêm pedir a Vv. Excia s. se dignem promover à desmembramento do Sul de Mato Gross o, para a formação de outro Estado, ou de um simples Território Federal. Agindo assim terão: Vv, Excias atalhado uma insurrei ção de consequências lamentabilíssimas e merecido , além dos aplausos do País, a gratidão inexprimível de 245 mil brasileiros. Que a Revolução Liberal de 30 seja, para aquele povo infeliz o reina do da Paz e do Trabalho, da

Liberdade e da Justiça? ——>—

Por fim, um outro aspecto merece comentário: trata-se da usência de Corumbá no rol de municípios citados para crspor | novo penas

estado,

pois

“Sant'

Ana,

aparecem na primeira página da ponção Trez Lagoas, Coxim, Cuinpo ig

iquidauana, Miranda, Porto Murtinho, Bela Vista, Nioac, Entre = tios, Maracajú e Ponta Porã”. Um manifesto rival rebateu, em 1934, as proposições das

ulistas e o “pretenso anseio de desagregamento do parsménia

moral, material e político do nosso Estado”, considerando feliz redator daquele

documento”,

isto é, da

Liga, de

o

Re

“caracteri-

sir o Norte e o Sul de Mato Grosso como duas zonas diferencia-

das, marcadas Ss DE

por divergências profundas”. Rejeitando a ee

o “ódio” entre as partes, prosseguia: “É que nunca houve

esse ressentimento,

essas diferenças,

esse ódio entre

eles, que o

e manifesto forceja por querer patentear, para armar ao efeito, pretender justificar o seu ponto de vista apaixonado». Tiaeta palavra de ordem oposta à dos divisionistas, o manifesto Po? Maito Grosso unido, concluía: Não temos outro ideal senão o de procurar servir [...] o nosso Estado e o nosso Brasil. Eis porque, nesta hora, em que mal avisados le: mentos levantam 4 bandeira da desagregação, provocando, assi,

naturalmente a união de todos os Mattogrossenses, acima das diver-

gências partidárias de momento, sob o palio do mesmo ideal - à preservação da unidade mattogrossense [...] nós achames apenso renovar por este documento publico os altos propósitos a res que nos norteiam [..]. Rio de Janeiro, 05 de fevereiro, Edo Leonidas Antero de Mattos, Felinto Múller, Generoso Ponce Filho, Francisco Villanova, Alfredo Pacheco”.

A assinatura de Generoso

Ponce

Filho apenas confirma

a

posição antidivisionista dos Ponce desde o final do século XIX e,

lo.

51 LIGA Sul-Matogrossense, Pela divisão do estado de ção dos sulistas ao Congresso Nacional Constituinte, 522 LIGA Sul-Matogrossense. Pela diy isão do estado de ção dos sulistas ao Congresso Naci onal Constituinte,

e4s

Ca tinA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORA

Mato Grosso; representap. V.

Mato Grosso; representap. VII.

53 MULLER,

s4 MULLER,

Felinto e outros.

Por Maito

Grosso unido,

p. 1-4,

Felinto e outros. Por Matto Grosso unido, p. 144. Note-se que e

onista assinatura de Generoso Ponce Filho apenas confirma a posição antidivisi XIX. século do dos Ponce desde o final

246

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO QUONAO

Por consequência, dos seus aliados no sul de Mato Grosso . Mas q name que mais chama a atenção aqui é, sem dúvida , o de Filintm

Miller, chefe de polícia da capital da República, e que seria à

homem forte de Vargas durante a ditadura ( 1937-1 945). Ele, que no futuro iria ser homenageado por Rachid Saldan ha Derzi, havil Participado “de um processo político de conotações ingratas pq década de 30"5, ou seja, da repressão instaurada pela ditadura de Getúlio Vargas, por essa razão, certamente, o seu nome teve maior peso do que os 9 mil que, “burlando a severa vigilância Policial, conseguiram chegar aos representantes da Liga”* e qo Congresso Nacional Constituinte. Nessa Casa, os parlam entares frustraram as expectativas divisionistas. A exposi ção de motivos sobre as diferenças históricas, econômicas e cultura is entre o nor te, o centro e o sul, o determinismo geográfico, o apelo para se

o Nacional Constituinte que o “ódio” crescia e se genetalizava dia a dia entre sulistas e cuiabanos, por isso não se poderia tolerar por mais tempo “o governo do Centro”. Pi imúncio de “guerra fratricida de proporções imprevisíveis aa convenceu

grossense.

Dessa

naufragou

a demanda

sobre

a “criação

do território federal ou do novo estado de Maraca ju” e os tempos vindouros que anunciaram sem tardança a ditadu ra do Estado Novo vergaram a bandeira separatista.

e o pleito extremo

de

autonomia”, ou seja, os “Amantes pi a herdade” preferiam se colocar sob o controle ao do “ce ça dor” que haviam combatido em 1932 a prossegutrem senao rovernados por Cuiabá: Tão profunda é, atualmente, a odiosidade reinante, que ae nto, afim de evitarem o seu extravasamento em uma luta fraticida, de proporções imprevisíveis, estão dispostos a panties a GassDo da própria autonomia, subordinando-se à administração diréta do ane verno Federal, caso Vv. Excias. hajam por bem de entender GR ua falecem elementos para se constituírem em Estado da Federação”,

a considerar o arrazoado da petição sul-mato.

forma,

os constituintes. Eis a ameaça

da “própria

cassação

atalhar “uma insurreição de consequências lament abilíssimas”, nada

disso os motivou

247

LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÃ

Findava, assim, a etapa mais eloquente da causa separatista.

Depois da criação da Liga, da coleta de “assinaturas” em todo o sul de Mato Grosso e da expectativa gerada em torno dos falsa dos

da

Constituinte,

a “revolução

liberal

de

30”

não

aceita

a

Nenhuma “insurreição” eclodiu contra “as vaidad es e apetites dos homens de Cuiabá”. Nem mesmo “o primeiro gesto de

demanda daquele “povo infeliz”. Todavia, apesar da EnAtaDãO, [o alegado “ódio que cresce e generaliza-se dia a dia” não redundou em “luta fratricida”. As razões foram duas:

do pagamento de impostos, efetivou-se. Esse que seria “o primeiro e mais pacifico dos protestos” contra o “mand onismo de

19 nunca

rebeldia [...] contra a dominação cuiabana”, isto é, a suspensão

Cuiabá”, fazendo compreender aos constituintes que as formas

de enfrentamento não pacíficas se seguiriam, não passou de retórica. Argumentava a Representação dos sulistas ao Congres-

55 DERZI,

Rachid Saldanha.

Filinto Muller: discurso proferido na sessão de 13-

56 LIGA Sul-Matogrossense.

Pela divisão do Estado de Mato Grosso: tepresenta-

8-73, p. 4. ção

dos

sulistas

ao

Congresso

Nacional

Constituinte,

p, VIL

houve

esse aludido

“ódio” entre os habitantes

do sul,

do centro é do norte. Tanto é verdade que que qense um século em que a causa separatista fecundou, a história não registrou qualquer tipo de confronto físico, a não se entre chefes

políticos. Porém, mesmo nesse caso, a razão príncipal dos aa ques não foi a divisão do estado, mas a disputa pura 8 er de pelo poder ou pela posse de terras. eniana forma enfrentamento

físico,

discriminação

ou

constrangimento,

como

57 LIGA Sul-Matogrossense. Pela divisão do Estado de Mato Grosso: representação dos sulistas ao Congresso Nacional Constituinte, p. IV.

248

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

as que se verificam historicamente em episódios separatistas ou naqueles que envolvem ódio racial, ocorreu entre “cuiabanos” e sulistas. O alegado “Ódio” era um recurso de retórica, e paid usar os termos do próprio manifesto, mais “ficção” do que reali2º) em nome

da unidade nacional, o regime de força implantado

por Vargas em 1937 impediu qualquer iniciativa de secessão, Inclusive, contra qualquer espécie de regionalismo, o Estado Novo promoveu a queima das bandeiras estaduais em ato público, querendo,

com

isto, simbolizar a referida unidade.

249

O sul de Mato Grosso após 1934: a criação do Território Federal de Ponta Porã

O espírito que guiou às decisões dos constituintes de 1934, diz respeito à redivisão

no que

dade:

a

PORÃ DA LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA

territorial do

Brasil, pode

ser

captado no trecho de uma entrevista concedida em março da-

quele ano pelo general Góes Monteiro, que exerceu o cargo de ministro da Guerra no governo Vargas. Aludindo ao caso de al Mato Grosso, sublinhou que o desejo de nova divisão territori ser devia não manifestado por “muitos matogrossenses do sul” se encarado “como anseio separatista”, acrescentando que “não deve cogitar de separar”, mas ntes, os [..] de demonstrar, perante as autoridades federais compete

a pleitear motivos que levam parte da população de Mato Grosso análise, O nova divisão do território desse Estado, porque, em última

crescendesejo comum é contribuir para O progresso cada vez mais te do Brasil?,

vez Exprime com essas palavras que o progresso cada mais crescente do Brasil” deveria estar acima de qualquer regionalismo, muito gresso”,

na

sua

na forma de separatismo, Ou seja, O “proconcepção, poderia prescindir da divisão de

menos

ignorou Mato Grosso. Isto porque, de fato, o governo Vargas não deu a lhe não nto, a problemática do sul de Mato Grosso, entreta

solução almejada pela Liga Sul-Mato-Grossense. ESTADO

IL

;

ho

Came Crane

“INAS

2

L-

1

A

e É%

As ações

DN

MARACASY “a

e

são

PANO

do

Estado

Novo

em

Mato

Grosso

inseriram-se

inteiramente no tripé político-ideológico no qual se assentava à ncionismo. ditadura de Vargas: autoritarismo, centralização e interve uma série Aliás, desde 1930, o Estado intervencionista adotara

de medidas centralizadoras destinadas a criar a chamada sociee Saúde dade nacional. São exemplos os Ministérios da Educação

Estado de Maracaju. Proposta da Liga Sul Matogrossense (1932) Fonte - Segadas Viana - T. Freitas

s8 BRASIL.

Diário Oficial. Rio de Janeiro,

mar. 1934, p. 1338.

250

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSa

Pública (1931); do Trabalho Indústria e Comér cio (1930); Conse

lho

Nacional

do

Café

(1931):

Instituto

do

Açúcar

e do

Álcoul

(1933); Instituto Nacional de Estatística (1934); Conse lho Nacional

do Petróleo (1938); Departamento Administrativo do Serviço Pp

blico (1938);

Instituto Brasileiro de Geografia

e Estatística (1938):

Fábrica Nacional de Motores (1940); Companhia Siderúrgica Na: cional (1941); Consolidação das Leis do Trabalho (1943), entre outras”, Segundo Octávio Ianni, essas e outras realiz ações resultaram de situações críticas surgidas ao longo do processo político e da evolução econômica brasileira é mostram o contexto histórico e estrutural em que o Estado brasileiro se encontrava. Em

particular,

“demonstram

as possibilidades e condições de expan-

são do modo capitalista de produção, em um país dependente" € ocorrem exatamente em uma época de crise global, ou seja, de rupturas estruturais nacionais e internacionais. O fechamento do Congresso Nacional em 10 de novembro de 1937 e a outorga da Carta Constitucional elaborada por Francisco Campos inauguraram o chamado Estado Novo, com o treforço do Poder Executivo, cuja característica marca nte foi o ilimi-

tado poder do presidente Getúlio Vargas. O golpe de Estado,

segundo seus próprios teóricos, fora necessário em função da fraqueza dos princípios liberais, como representa ção política, eleições diretas e assembléias, que teriam redundado no caos em que O país se encontrava. Francisco Campos, por exemplo, afirmava que o Estado era “terra de ninguém”: O Estado era uma “terra de ninguém”, mais ou menos ao alcance de imperialismos estaduais, que medravam e cresciam à custa da unida-

59 IANNI, Octavio.

Estado e Planejamento econômico no Brasil

60

Estado e planejamento

Pp. 23-24,

IANNI,

p. 24.

Octavio.

econômico

(19301 D70),

no Brasil (1930-1970),

251

4 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÁ

os obstácu de espiritual e política da Nação. Era imperioso sn los que impediam a ação, imediata e eficaz, ppaRsada para recompor e restaurar aquela unidade [...]. Com a sua unidade ameaçada, sem ordem interna € sem segurança externa, ao Brasil faltavam os =]

ol

o 1 a instrumentos adequados áa sua própria restauração Ejs

A própria Constituinte de 1934 era PREGA,

na medida em

que, para os ideólogos do Estado Novo, havia ed alvo de conflitos e não conseguira administrar a contento as crises e antago-

nismos surgidos. Era necessário, então, um Estado us

para

impulsionar o desenvolvimento econômico à pese da curados nacional?. O traço autoritário revelava-se no fortalecimento do Estado, com a gravitação da sociedade civil em torno dele, ou melhor, subordinada a ele. O sindicalismo atrelado ao aparelho estatal talvez tenha sido o aspecto mais conhecido. O mecanismo ee integração e concentração do poder, por meio da RORNRAÇÃO poli-

tica, bem como a ação do Estado como gestor do e to capitalista enquadrava-se no conceito teórico definido como “via prussiana”,

isto é,

a modernização

conservadora.

O nacionalismo foi outro ingrediente do Estado Novo. Logo após o golpe, Vargas proclamou a necessidade de um governo

forte com

alto grau

de liberdade

de ação

para dg

particularismos locais. A integração nacional foi um duro Bbios à continuidade do domínio oligárquico na forma como vinha se processando até 1930. Contra a resistência desses grupos, Vargas foimpôs os interventores. Assim, as antigas é novas NIH ram praticamente encurraladas em um sistema gos Dietas ne representação partidária estavam fechados e as interventorias li61 CAMPOS, Francisco. O Estado nacional. In: IANNI, Octavio, Estado e planeno jamento econômico no Brasil (1930-1970), p. 20-21. di 62 São sobejamente conhecidos os atos repressivos contra po a di sadas de filiações internacionalistas, como era o caso, em 125, Nacional Libertadora (ANL), de esquerda, e, mais tarde, contra a Ação Integralist

Brasileira (AIB), de caráter fascista.

252

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DÉ MATO GHONHO

gadas a órgãos burocráticos, subordinados ao Departamento Adm nistrativo do Serviço Público (DASP). A nomeação de interventores enfraquecia o status anterior, já que estes não eram vinculados às elites estaduais, mas ao Executivo Federal. Aglutinando forças convergentes e controlando as antagônicas, o Estado Novo se consolidou cada vez mais, sempre ajudado pelos mecanismos centralizadores que esvaziavam o regionalismo e favoreciam q desarticulação do poder oligárquico. Provavelmente, o alvo prin cipal de Vargas, ao combater o regionalismo, eram os estados que haviam se mostrado mais resistentes às mudanças pós-1930: São Paulo e Minas Gerais. Os objetivos principais do intervencionismo estatal na eco» nomia destinavam-se ao desenvolvimento industrial e à consolidação do mercado interno. Para tanto, foram criados estímulos às atividades agroexportadoras de modo a captar divisas para a acu» mulação interna. Os desdobramentos dessa política foram a derrubada das barreiras regionais e a distribuição espacial das atividades produtivas por meio da expansão das fronteiras agrícolas no Norte e Centro-Oeste e a localização da produção industrial no eixo São Paulo-Belo Horizonte-Rio de Janeiro. Nesse contexto é que se inseriu a campanha

“Marcha

para

o Oeste”, postulada pelo pensamento geopolítico do regime no decorrer das décadas de 1930 e 1940, A retórica criada sobre o fato de o Brasil ter, na época, quase a metade de seus espaços territoriais “desocupados” fortaleceu-se após 1930 e, particularmente,

com

o estabelecimento do Estado Novo,

quando

o nacio-

nalismo passou a ser sistematicamente incorporado à ideologia do regime. Esboçando a intenção de ocupar esses “espaços vazios” surge o lema “Brasil, país do futuro”, sintetizando a retórica

nacionalista sobre a interiorização do país. Foi então que o governo anunciou, em 1938, uma “Marcha para o Oeste”, que se propunha não só a garantir a efetiva integração nacional, mas povoar e explorar as imensas áreas “desertas” do

253

| LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÃ

“pais. No mesmo

ano, durante

visita a São Paulo, Vargas pronun-

dou um discurso enfatizando que “o nosso país tem necessidade le crescer, dentro de suas fronteiras”:

Ainda há pouco, vindo do interior paulista e observando a atividade das classes que labutam nas lindes do Estado, eu lhes disse que o Governo estava precisamente pregando uma cruzada nova, e o que

eu denominava 'marcha para o Oeste” nada mais era que a valorização do sertão brasileiro, daquelas vastas zonas por vossos antepassados, há quatro séculos, conquistadas para o Brasil, que elas precisavam ser utilizadas por processos modernos, no interesse do próprio Brasil. O nosso país tem necessidade de crescer, dentro de suas fronteiras, pelo aproveitamento e pelo enriquecimento da terra. Exprimindo deste modo as idéias que me trazem até vós, digo-vos que são estes os meus desejos, são estes os esforços do meu

Governo. Para a execu-

ção de tal programa, estão sendo construídas as duas grandes ferrovias que serão o prolongamento da Noroeste ligando-nos ao Paraguai e à Bolívia. Essas duas extensões ferroviárias irão abrir para a indústria de São Paulo novos mercados, nova ordem de relações, pela comunicação com as duas Repúblicas irmas, que, por seu lado, terão saídas para

o oceano, através do território brasileiro". Mais tarde, em 1940, Vargas voltou ao tema, deixando claras

is finalidades da campanha. mente o Brasil é uma por isso a imperiosa

No discurso afirmou

unidade”,

mas

que “politica-

“não o é economicamente”,

necessidade de ocupá-lo, e, assim, “o verda-

deiro sentido da brasilidade é o rumo

ao oeste”, conforme

lemos

neste excerto no qual ele intitula o golpe de Estado de “reforma le 10/11/37": Após a reforma de 10/11/1937, incluímos essa cruzada no programa do Estado Novo dizendo que o verdadeiro sentido da brasilidade é o rumo ao oeste. Para bem esclarecer a idéia, devo dizer-vos que o

14 VARGAS, p. 5305-306.

Getúlio.

A nova

política

do Brasil.

v.

5. O

Estado

Novo,

254

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHOMO

Brasil, politicamente, é uma unidade, Todos falam a mesma lingua todos têm a mesma tradição histórica e todos seriam capazes de o sacrificar pela defesa de seu território [...]. Mas se politicamente nd

255

e transportes. No dia em que dispuserem todos esses elementos, vm espaços vazios se povoarão. Teremos densidade demográfica e de senvolvimento industrial, Deste modo, o programa de Rumo Ju Oeste” é o reatamento da campanha dos construtores da nacionalida

O pensamento geopolítico também esteve atento à questio da interiorização do país, identificando o litoral com as influências estrangeiras” e o interior com o “fundamento da nacionalidade”, atribuindo ao Estado Novo a tarefa de dar proseguimento à obra iniciada pelos bandeirantes. Vê-se que a integração nacional e interiorização do país estão intimamente vinculadas à ideologia de Estado autoritário de Vargas: a interiorização seria o processo fundamental de consolidação da unidade nacional.

de, dos bandeirantes e sertanistas, com a integração dos modernos

Mas, segundo Eli Alves Penha, em A criação do IBGE no

processos de cultura. Precisamos promover esta arrancada, sob todos

contexto da centralização política do Estado Novo, o alcance da

os aspectos é todos os métodos, a fim de suprimirmos os vácuos demográficos do nosso território e fazermos com que as fronteiras econômicas coincidam com as fronteiras políticas“.

campanha

Brasil é uma

unidade,

não

o é economicamente

[..). Contiminm.

entrementes, os vastos espaços despovoados, que não atingi necessário clima renovador, pela falta de [...] saneamento, educação

Observamos que Vargas refere-se aos bandeirantes « sertanistas como “construtores da nacionalidade”, o que lembra a obra de Cassiano Ricardo,

Marcha para

Oeste, na qual defem

de que, no começo da colonização, os navios atraíam os lusos apegados à metrópole portuguesa enquanto o sertão, os brasileiros natos (mamelucos). Por isso, quando a primeira bandeira adentrou

nas matas

além-litoral,

estaria terminada

a história de

Portugal e começando a do Brasil. Cassiano Ricardo associa a esses brasileiros natos, a bandeira militar de Rondon, enaltecendo sua

A LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AD TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÁÃ

“obra

civilizadora”

no

estado

entre

1890

e 1930,

incluindo

mais de 6.000 quilômetros de fios telegráficos pela vastidão de seu território e definindo Mato Grosso como “exclusivamente brasileiro na sua formação e na sua história” pois, “nessa região é que se tem efetuado a maior parte do fenômeno bandeirante do século XX". 64 VARGAS, Guilherme.

Getúlio. A nova política do Brasil, s/d. Apud: VELHO, Capitalismo autoritário e campesinato,

p. 148,

65 RICARDO, Cassiano. Marcha para Oeste. v. IL, p. 596-611,

Otávio

“Marcha

para

o Oeste” foi pequeno

para

a época,

entre outros fatores, porque as grandes propriedades continuaram 1 ser a característica marcante do uso da terra com baixa produtividade. Assim, grande contingente da população rural continuou 1 utilizar os pequenos lotes, insuficientes para assegurar a subsistencia familiar, cuja dimensão não permitia a racionalização e

mecanização

da produção*. A falta de incentivos ao pequeno

produtor e a política de renda da terra, vantajosa aos grandes proprietários, demonstravam que as oligarquias tradicionais mantinham sua força que, aliás, era fruto do monopólio da terra e do controle do voto. A estrutura fundiária do país não se alterou e a desmobilização política imposta pela ditadura adiava a proposta de mudanças estruturais no país. A campanha “Marcha para o Oeste” iniciou-se nesse quadro sociopolítico, com o estabelecimento das colônias agrícolas nacionais, promovidas pelo governo federal em colaboração com os

estaduais. Para tanto, Vargas criou, em 1943, a Fundação Brasil Central, cujo objetivo era desbravar e colonizar áreas no Norte e

00 PENHA,

Eli Alves. A criação do IBGE no contexto da centralização política

do Estado Novo. Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, Rio de Janeiro, 1993, p. 58. (mimeografado).

256

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GH

(04 SUL-MATO-GROSSENSE AQ TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÃ

257

1940, ele viajara por essas regiões e, discursan

mande do Sul. Quanto ao município de Ponta Porã era, na épo-

do em Cuiabá, justificou seus propósitos em relação à campanha de interiorização do país. Segundo o presidente, ela colocar termo à dualidade do Brasil das cidades e do Brasil dos sertões Como exemplo das disparidades do nível de vida das populações

1 O terceiro de Mato Grosso em população, logo depois de impo Grande e Cuiabá. O Território Federal de Ponta Pora nasvu abrangendo municípios cujas atividades econômicas (pecuá-

Centro-Oeste.

Em

de cada Brasil, citou Mato

Quanto

Grosso

a Mato Grosso,

e São Paulo”.

foi sob a lógica da interiorização

nacional e, portanto, da consolidação do capitalismo pela via autoritária, que Vargas criou, em Ponta Porá

1943,

o Território Federal do e a Colônia Agrícola de Dourados, no sul do estado.

1, lavoura, erva-mate), testemunhavam “a vitalidade sulina do Estado"?, conforme definiu Virgílio Corrêa Filho, em texto de 1944. A criação do Território Federal de Ponta Porã, conforme nencionamos, obedecia à lógica da integração e interiorização do país. Baseado

Interessante observar que o Estado Novo voltou a sua atenção: para essa parte de Mato Grosso, pretendendo povoá-la e integra la ao desenvolvimento capitalista sem, contudo, atender a de» manda separatista que havia chegado as mãos dos constituintes de 1934. Vingança pela adesão do sul de Mato Grosso a São Paulo em 1932? Há quem assim entenda. O certo é que Vargas tinha hegemonia política na Constituinte; quanto a São Paulo,

nesse postulado, o



decreto-lei de

) jo

de 13 setembro de

1943, atento às disparidades territoriais, achou por bem reduzir a área

Que:

mato-grossense ti-

interiorização e da integração nacional, como poderia Vargas separar o sul de Mato Grosso nos moldes pretendidos desde

rando

Coerente

com

a ideologia de Estado forte, criou sim um

de “Piva RR o Jatá

or

Território Federal, mas não aquele reivindicado pelo documento encaminhado à Constituinte, pois nele não incluiu à cidade mais interessada na questão. Foi indisfarçável a decepção dos divisionistas na medida em que a área sob jurisdição do Território Federal de Ponta Porã não abarcava a próspera Campo Grande,

que aspirava o título de sua rival. O Território Federal abrangia uma faixa de terras na fronteira com

o Paraguai,

povoada

por famílias originárias do Rio

TE

Ponta

LN g

io N

PARAQUAI

É

PARANA

além

Porã, de

poré,

hoje

dônia,

na

ra com

id

|

o

Gua-

Ronfrontei-

a Bolívia,

o que demonstra que também a refee gião norte de Mato

N *

|

Assunção:

Grosso chamava a

[emitório Federal de Ponta Porã. Fonte: CAMPESTRINI, H. História de Mato Grosso do Sul, p.128.

68 CORRÊA

67 VARGAS, Getúlio. A nova política do Brasil, p: 273:

dela,

território

Pav Lo

19322

Ea

era um estado derrotado. E uma vez adotada a geopolítica da

FILHO,

despretenciosos, p. 46,

Virgílio.

A propósito dos novos territórios:

comentários

258

REGIONALISMOE DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHbNM

DA GUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÃ

atenção governamental, dando, em certa medida, razão que divisionistas do sul quando alegavam que Mato Grosso “dana três estados”. Pelo mesmo ato, sem qualquer consulta às popu lações interessadas, foram criados outros três territórios federais

Amapá,

Rio Branco e Iguaçu.

A propósito

dessas

redivisões,

escreveu Juarez

Távora

ma

concretizasse, voltou a ser uma constante no seia de toda à populacão que mourejava acima da torrente do Paraná”. ] |

Semelhante é a interpretação de Demósthenes Martins, para juem, o Território Federal de Ponta Porã cumpria preparar O sul para a “almejada divisão”:

Somente na vigência de regime discricionário puderam criar-se, em 1943, em zonas fronteiriças, invocando imperativos de segurança (desmembrado do Para |.

de

Mato

Grosso

e do

Amazonas):

Ponta

queza potencial. Esse prognóstico, porém, não se realizou. A Consti-

Por

tuinte de 1946, promulgando a Constituição de 18 de setembro de 1946, no seu artigo 8º decretou a extinção do Território, volvendo ao Estado os sete municípios que dele se haviam desmembrado”.

(desmembrado de Mato Grosso); Iguaçu (desmembrado do Paraná

de Santa Catarina) e Fernando de Noronha (arquipélago), até então

pertencente a Pernambuco”.

Quanto

Os

Territórios

Federais

de

Ponta

Porã

e de

Iguaçu,

que

chegaram

a ter sede e interventor, tiveram breve existência: q Constituinte de 1946 considerou por bem reincorporá-los aos estados de que haviam sido desmembrados. Na obra citada, demonstrando conhecer de perto o regionalismo sul-mato-grossense, Távora acrescenta que a decisão da Constituinte ao reintegrar ambos os territórios foi amparada por poucas justificativas, pelo menos aplicáveis a Ponta Porã. De fato, José Barbosa Rodrigues, em sua História de Mato

Grosso do Sul, considera que a criação desse território satisfazia parcialmente “o sonho sulista”. Por isso, revela sentimento frustração pela reintegração a Mato Grosso:

de

Foi decepcionante para os territorianos a decisão constitucional. Em consequência, a esperança de que o sonho separatista um dia se

de

toda e qualquer ação governamental destinada a dinamizar sua ri-

Rio Branco (desmembrado do Amazonas); Guaporé - hoje Rondônia - (desmembrado

o papel

A criação desse Território Federal foi recebida pela região do Sul do Estado como a preparação da almejada divisão do grande Estado, cuja imensa extensão territorial impedia se processasse o seu reclamado e ambicionado desenvolvimento, Diluia-se, nessa grandeza,

obra Organização para o Brasil, em 1959:

nacional, seis Territórios Federais: Amapá

259

à Colônia

de Dourados”,

que

se tornou

um

reduto

do “trabalhismo” getulista, embora não tenha gerado resultados à altura dos discursos ideológicos de Vargas, deu impulso à região, para onde acorreram cerca de 150 mil pessoas que ocuparam mais de oito mil lotes rurais,

cada

um

de 30 hectares.

A área total da

instalação era de 300 mil hectares, resguardados os espaços para concentração

urbana.

Dela

surgiram,

desde

então,

mais

de uma

dezena de cidades. Entretanto, por falta de apoio estrutural, cerca de 90% para se A “foi um

da área deixou de ter propriedades-padrão de 30 hectares aglutinar em fazendas e sítios com mais de um lote. propósito, Paulo Coelho Machado afirma que o projeto fracasso”. Para ele, a chegada dos gaúchos, a implemen-

7) RODRIGUES, José Barbosa. História de Mato Grosso do Sul, p. 157. 71 MARTINS, 72 Os

Demosthenes.

seus moradores

eram

História de Mato Grosso, p. 1I7-118. chamados

de “peteba”,

ou seja, correligionários

do PTB. A Colônia é um dos fatores que explicam as raízes desse partido no 69 TÁVORA,

Juarez.

Organização para

o Brasil,

p. 141-152,

sul

de

Mato

Grosso,

ao contrário

do

inexpressivo no período de 1946 a 1964.

norte

do

estado,

onde

o PTB

foi

250

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

tação da soja e a mecanização das lavouras, a partir da década de 1970, é que foram os impulsos para o desenvolvimento da região. Leonel Brizola, defensor da experiência de reforma agrária introduzida por Vargas, discordava: “Basta ver que hoje há naques la área várias cidades, indústrias, grande produção de grãos"? Por sua vez, Penha, em trabalho já citado, também se refere posi-

à LIGA SUL-MATO-GROSSENSE AO TERRITÓRIO FEDERAL DE PONTA PORÃ

Em tom semelhante, ao interpretar a atitude do interventor como

corrência de sugestão do Ministro da Agricultura, não fora a atitude adotada pelo interventor federal em Mato Grosso, Bacharel Julio Muller, que negou a cessão da área pretendida, sob a alegação de que a mesma deveria ser localizada na região norte do Estado [...]. Foi essa

atitude do então interventor recebida pelos sulistas como mais uma demonstração de que o que fosse bom para o Sul não o era para o Norte. Getúlio Vargas, que na sua visão de estadista sempre esperava o momento oportuno para efetivar o que planejara, exarou, na ocasião, lacônico despacho nos seguintes termos: “Não querendo o Estado fazer cessão das terras escolhidas pelos técnicos do Ministério da

É preciso considerar, porém, que a intenção de criar a Colónia era um pouco mais antiga, antecedendo a criação do Territóro, o que não foi possível por causa da rivalidade norte-sul. À propósito, Demósthenes Martins, ao comparar as atividades ecoGrosso

Julio Strubing Múller, por não haver feito, em 1942, a cessão das terras no sul, atrasando a criação da Colônia de Dourados e de ter, em vez disso, preferido criar a Colônia Agrícola de Poxoréu no norte do estado, que não prosperou: Daí originou-se, como previam até os mais daltônicos, o extraordiná-

rio desenvolvimento da agricultura na região, com o aproveitamento daquelas magníficas terras, uma das mais produtivas do Brasil, influindo esse desenvolvimento agrário na pecuária circunvizinha que, até então, era a base exclusiva de sua economia”.

de prejudicar o sul do estado, José Barbo-

Esta colônia deveria ter sido criada um ano antes, em 1942, em de-

Goiás”,

do sul e do norte, crítica o interventor de Mato

forma

Lerritório:

Dentre as colônias agrícolas estabelecidas pela Fundação Brasil Cen tral citam-se a de Dourados, em Mato Grosso, onde núcleos de 2000 a 4000 estabeleceram-se em lotes rurais, formando um gru po de pequenos proprietários rurais, e a colônia agrícola de Ceres, em

nômicas

mais uma

1 Rodrigues confirmou a precedência da Colônia em relação ao

tivamente à Colônia de Dourados, afirmando que:

| | |

261

Agricultura, não pode ser criada a Colônia. Rio. 19.02.9427", A maioria dos estudiosos, contudo, acredita que as colônias agrícolas, exceto a de Dourados

raram. ca dos Velho, quanto mente

(MT) e Ceres (GO),

Quanto aos resultados mais discursos substituiu medidas em Capitalismo autoritário à Amazônia, por exemplo, modestos, uma vez que o

não prospe-

gerais da Campanha, a retóriconcretas. Otávio Guilherme e campesinato, conclui que os resultados foram relativainteresse pela borracha foi

cpisódico e não sobreviveu à Segunda

Guerra Mundial.

Por outro

ludo, a migração nordestina resultou mais em mortes e decepções do que na concretização da experiência de pequenas propriedades, Quanto as colônias agrícolas, o autor julga que, apesar de

criadas em diferentes partes do país, não compunham uma políti73 Iniciativa ainda

provoca

dez.

A, p. 28.

1995. Caderno

polêmica.

O Estado de São Paulo.

São Paulo,

03

74 PENHA, Eli Alves. À criação do IBGE no contexto da centralização política do Estado Novo. Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1993,

ca

global

e, por

isso, tenderam

a vegetar.

No

entanto,

entre

lesenvolvimentos importantes na fronteira, cita o caso do CentroOeste, mais facilmente conectado aos principais centros de pro-

p. Ol. (mimeografado),

75 MARTINS, Demosthenes.

História de Mato Grosso, p. 117.

os

76

RODRIGUES,

José

Barbosa.

História de Mato Grosso do Sul, p.

156-157.

262

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSMU

dução do que a Amazônia. Estradas de ferro foram construídas ou ampliadas (Noroeste do Brasil) e, antecipando Brasília, uma

nova

capital foi construída para Goiás. A reocupação do sul de Goiás e de Mato Grosso por movimentos “espontâneos” vindos de São Paulo e de Minas Gerais, encontrou um certo apoio estatal”, Para

o sul

de

Mato

Grosso,

portanto,

a “Marcha

para

q

Capítulo 7

Oeste” atendeu, em parte, aos objetivos de povoação e inte» riorização, o que o distinguiu ainda mais do centro é do norte do estado.

Geopolítica e separatismo

campanha nacional

“Marcha para o Oeste”, em termos de política adotada

pelo Estado

autoritário, assentava-se em

fundamentos teóricos da geopolítica, concepção que nasceu às

vésperas da Primeira Guerra Mundial. Enfocando os Estados como organismos em luta pelo “espaço vital”, centrava-se na necessidade de expansão e ocupação territorial. No Brasil, porém, a geopolítica

não propôs a conquista de espaços fora de seu território, mas no seu próprio interior e se sustentava nos seguintes pilares:

|") o pensamento de Mario Travassos, consubstanciado na obra

Projeção continental do Brasil (1931), na qual manifestava a preocupação com a interiorização do país e lançava os fundamentos basilares da geopolítica brasileira para a primeira metade do século, enfatizando a importância da ocupação do Oeste brasileiro. Com isso e pela sua posição na América do Sul, poderia assumir

hegemonia de potência regional, conforme afirmava o autor. Sobre ele escreveu o general Meira Mattos: “Na década de 30, dois espíritos mantiveram quente o pensamento geopolítico brasileiro — Mario Travassos e Everardo Backheuser”!.

77 VELHO, Otávio Guilherme.

Capitalismo autoritário e campesinato, p. 152.

| MATTOS,

MEIRA.

Brasil: geopolítica e destino,

p. 51.

264

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHOSBE

2º) a obra de Cassiano Ricardo, que afirma a excelê ncia da from teira como elemento constitutivo da nacionalidade. Otávio Guis lherme Velho considera, por exemplo, que “Cassi ano Ricardo es tava consciente da importância da fronteira como mito e parecia assumir propositadamente o papel de fazedor de mitos” , Não É

casual que considerasse a costa vinculada estreitamente à Europa,

do passo que o Oeste (o sertão) como espaço conqu istado pelos que estavam dispostos a romper esses laços. Sua princi pal obra, Marcha para Oeste, publicada em 1940, exerceu enorm e influência sobre o regime do Estado Novo; 3º) a determinação do presidente Getúlio Vargas ao refutar a tese de que o governo tivesse pretensões imperialistas em relação aos países vizinhos. Para ele, “o imperialismo brasileiro” consistia ex-

clusivamente “na expansão demográfica e econômica dentro do

próprio país”, por isso, lançou a campanha “Marcha para o Oeste”. A referência ao pensamento geopolítico brasileiro da época

é importante porque permite perceber um fator determinan te para

a efetivação da futura divisão de Mato Grosso. Isto porque o separatismo fecundado nos confrontos armados do início do sé-

culo XIX ganhou

um

novo elemento:

a política nacional de

interiorização do país, o controle do espaço territo rial pelo Estado autoritário, que implicou uma nova forma de considerar o CentroOeste. Da conjugação dessa concepção geopolítica com os anseios separatistas existentes no sul de Mato Grosso é que surgirá a possibilidade de dividir o estado. Contudo, a concre tização dessa possibilidade, isto é, a transformação do ideal em realidade, não se fez durante essa ditadura. O processo da consolidação do capitalismo no Brasil, pela via autoritária, a partir de 1930, produziu também uma concepção de Estado fortemente assentada na neces sidade de controle sobre o território nacional e, para isto, era preciso conhecê-

2 VELHO,

Otávio Guilherme.

i POPOLÍTIC E SEPARATISMO A

2 Ga

Io cientificamente. Não é por acaso que à criação do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ocorre em 1938, exatamente

no

contexto

das

medidas

estatais

intervencionistas

rlotadas por Vargas. A difusão da idéia de um

Brasil uno, inte-

sado, a pregação da unidade nacional e a concepção territorialista do Estado Nacional baseada no domínio absoluto do território pelo Estado

são fatores

que

se devem

associar à cria-

cio do IBGE como mais um órgão governamental de abrangência nacional,

Tão logo foi fundado o IBGE, seus dirigentes passaram a empreender estudos sobre ordenamento e racionalização do qua-

dro político-territorial com o objetivo de fortalecer o Estado Nacional a partir de sua base territorial. Segundo essas análises, tanto o espírito regionalista quanto o localista deveriam equili-

brar-se sob a preponderância do nacional. A fim de atender às necessidades vitais do Estado de coesão, equilíbrio e desenvolvimento, o IBGE elaborou sugestões com vistas ao reajustamento

do quadro político-territorial, abarcando os seguintes ohetivos: a ocupação efetiva do território; a sua divisão de maneira equitativa “ racional; a localização adequada da capital da República”. Segundo Teixeira de Freitas, esse ideário, de caráter patriótico, estava em consonância com o lema nacionalista cultuado à época, “a conquista do Brasil pelos brasileiros”. De acordo com essa concepção, o IBGE elaborou, em 1941, o documento Problemas de base do Brasil, no qual reconhece como satisfatória a obra de renovação nacional empreendida pelo

à persistência de

soverno de 1937, mas insuficiente quanto certos problemas

complexos.

Como

medidas

de solução

3 PENHA, Eli Alves. A criação do IBGE no contexto da centralização política do

tistado Novo, p. 65-73. 1 PENHA, Eli Alves. 4 criação do IBGE no contexto... p. 101-116,

Capitalismo autoritário e campesinato,

p, 142.

des-

5 PENHA,

E. Alves. 4 criação do IBGE no contexto...

p. 101.

2668

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

ses complexos e persistentes problemas, propu nha: reajusta» mento do quadro de unidades políticas, vindo a compor-se de um distrito federal e 29 estados

(ou territórios); estabelecimen-

to de um padrão uniforme de 250.000 a 350.000. quilômetros quadrados para essas novas unidades; inter iorização da metrópole federal, O rol de medidas sugeridas não foi imple mentado, mas os discursos de Vargas sobre a campanha “Marcha para o Oeste” tinham íntima conexão com os princ ípios do IBGE. Tanto os discursos presidenciais como o ideári o do IBGE se fundamentavam no objetivo de fortalecer o Estado Nacional em função de sua base territorial. Quanto à necessidade de redivisão territorial do país, so-

bressai o discurso de Mario Augusto Teixei ra de Freitas, em 1932,

no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, conclamando o governo provisório a resolver definitivamente o problema da uni-

dade nacional por meio da equidade na divisão polít ico-adminis-

trativa. Segundo ele, a redivisão era um imper ativo histórico que nas duas Constituintes anteriores (1824 e 1891) tivera importância mínima em função dos interesses particulares dos proprietários de terras. A Carta de 1934 não poderia perder essa terceira oportunidade de dar ao país uma distribuição territo rial equitativa e

justa. Para tanto, só o chefe do Governo Provis ório, “como autori-

dade suprema revestida de poderes discricionár ios”, poderia “extirpar num só golpe este vício” que estaria destruindo “visceralmente” a República”. Como princípio de equivalência de áreas ideais para o Brasil sugeriu São Paulo é Rio Grande do Sul como modelo de padrões, embora ciente de que suas propostas encontrariam objeções por parte das populações dos estados que seriam atingidos. A Constituição de 1934, entretanto, não aproveitou a “terceira oportunidade” de dar ao Brasil redivisão mais justa, como que6 PENHA,

E. Alves, À criação do IBGE no contexto..., p. 106.

267

DE OPOLÍTICA E SEPARATISMO

ria Teixeira

de Freitas. Foi, talvez,

uma

boa

chance

para

que

esse

«leário se confrontasse com interesses políticos e econômicos mais fortes: o caso de Mato Grosso é exemplar nesse asperio, pois, a despeito de contar com uma Petição ancoradaiem 20 mil nomes enviada à Constituinte, a unidade de Mato Grosso prevalea, ceu. Não se atendeu, portanto, ao regionalismo isto evidenIsso mas, sim, aos grupos hegemônicos do centro-norte. cia

que

Vargas

não

tinha

interesse

em

romper

totalmente

com

certos grupos oligárquicos, ainda mais quando se tratavam dao queles que haviam defendido o seu governo em 1932. Mas, além de Teixeira de Freitas, o major Segadas Viana, já

em 1940, também apresentou uma proposta de redivisão Herbrial do Brasil baseada no critério de extensão territorial a partir de dois tipos: um de 85.000 a 130.000 quilômetros euariados para as zonas ricas e médias e outro, de 130.000 a 170.000 aco quadrados, para as pobres”. Todavia, Vargas não se isa A implementar nenhuma dessas propostas, mesmo no caso de haver assentimento da população de determinada região de um estiido, como era o do sul de Mato Grosso”, certamente para não acirrar | | conflitos regionais ainda latentes. a foi efeito a levada Por essas razões, a única modificação divisão regional, em 1941, que atendeu, sobretudo, as conveniências práticas de não se desmembrar qualquer unidade iededa. Com essa medida, o IBGE estabeleceu as normas gerais para à fixação do novo quadro regional do Brasil, a saber: a) prapapataNs de unidades federadas ligadas por ocorrências geográficas dominantes é características; b) indivisibilidade de qualquer unidade

7 PENHA, E. Alves. A criação do IBGE no contexio..., p. 107. 8 Além de Mato Grosso, os incessantes pedidos das populações ds usas es Goiás (atual Tocantins); da zona baiana a oeste do Rio São Francisco; Ha sena norté de Minas Gerais; do Triângulo Mineiro; do Amazonas e do Pará. PENHA, Eli Alves. A criação do IBGE... p. 108.

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROnaO ça

1932-37: 5. Viana-TEIXEIRA»e FREITAS

269

JVOPOLÍTICA E SEPARATISMO

A geopolítica da Escola Superior de Guerra Os estudos sobre geopolítica foram intensificados, príncipalmente, a partir dos ensaios de Golbery do Couto é Silva na década de 1950. Comparativamente aos princípios anteriormente upontados, Golbery faz parte de outra vertente do pensamento ucopolítico: o da Escola Superior de Guerra, criada em 1949. segundo o general Meira Mattos, autor de Brasil: geopolítica e destino, a partir da Escola Superior de Guerra, o pensamento

TERLIToAIE

MAMORE

seopolítico brasileiro começou

a se estruturar em bases realísticas

« científicas, mas incorporando, no realismo de sua doutrina, os valores geopolíticos que vinham sendo levantados por todos aqueles que a precederam como instituto superior de altos estudos. assentada no binômio “segurança” e “desenvolvimento”, de 1949 a 1964, durante 14 anos, a Escola Superior de Guerra não teve influência maior nas decisões de governo. Entretanto, escreve Mattos: Formulou sua doutrina de segurança nacional e pesquisou profunda-

mente no campo do desenvolvimento. Formou elites civis e militares aptas a pensarem no Brasil com objetividade, como um todo, à

Território do Rio Pardo - Proposta S. Viana - Teixeira de Freitas (1937)

se exercitarem na formulação de uma política de aplicação do poder

componente; c) fixação de um número reduzido de regiões para se efetuar a divisão”. De acordo com

essas normas, o Brasil ficou

constituído por grandes regiões (Norte, Nordeste,

Leste, Centro-

Oeste e Sul). Segundo Penha, a divisão regional implementada

nacional para a segurança, a se aprofundarem nas tentativas de selecionar rumos para o nosso desenvolvimento. Quando veio a Revolução de 1964 a doutrina da Escola Superior de Guerra já estava foórmu-

lada e exercitada em termos laboratoriais ou escolares. Foi fácil para

instituídas as grandes regiões, as propostas de redivisão político-

o Chefe da Revolução, o Presidente Castelo Branco e seus principais assessores Golbery, Ernesto Geisel, Juarez Távora, Cordeiro de Farias, todos ex-militares, participantes ativos na formulação dessa doutrina, pois todos haviam pertencido aos quadros da ESG, transferirem para a prática governamental, a doutrina formulada durante 14 anos

territorial, paulatinamente,

no casarão do Forte de São João”.

pelo Estado Novo funcionou como solução intermediária à proposta de redivisão territorial das unidades político-administrativas formuladas

9 PENHA,

pelo

IBGE.

Observa,

ainda,

que

desde

cessaram de existir.

E. Alves, À criação do IBGE no contexto... p. 108.

que

foram

10 MATTOS,

Meira. Brasil geopolítica e destino, p. 61.

ro

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

De fato, nesses 14 anos referidos Pelo general Meira Mattos, o pensamento geopolítico brasileiro foi sendo formul ado à base das diretrizes que inspiravam a própria criação da Escola Superior de Guerra: a) a substituição do conceito de defesa pelo de segurança; b) a consciência de que o Brasil possuí a requisitos para chegar à grande potência; c) a crença de que o desenvolvimento vinha sendo retardado por incapacidade de planej amento e execução governamentais”. Dentre os assessores do general Humberto de Alenca r Castelo Branco, que destituíra o governo João Goulart, instituindo a ditadura militar, encontrava-se Juarez T ávora, que elabor ou diver-

sos trabalhos de geopolítica. Em um deles, Organização para o

Brasil, publicado

em 1959, discorre longamente sobre a necessi dade de reajustamento do quadro territorial brasile iro, consideran-

do-o anacrônico:

Peso] ato =r3 drag H Peca H pelaEnedespropo rção dasae áreas, pela bizarria de suas tormas, pelo artificialismo dos contornos e, em alguns casos, pela excessiva com-

plexidade das regiões naturais ou zonas ecológicas abrangidas, ou pela dificuldade de comunicá-las, internamente, por vias naturais? .

Criticando a persistência de “anomalias” de estados com área equivalente a 70 vezes a de outros e populações extremamente rarefeitas, alertava para o fato de que em certas zonas do país “ 15 populações praticamente desconhecem a existên cia do

governo

regional,

como

expressão de organização,

de apoio,

de

estímulo, de eficiência, Talvez só a sintam através dos aspectos coercitivos da autoridade - o imposto e a polícia”, “Imposto e polícia”: essas eram as formas pelas quais o sul de Mato Grosso conhecia o governo estadual, segundo a Liga Sul-

1H MATTOS, Meira. Brasil: geopolítica e destino, p. 60, 12 TÁVORA,

Juarez.

Organização pare

o Brasil,

271

1EOPOLÍTICA E SEPARATISMO

Na década de 1930, alegava que os habitantes

Mato-Grossense.

daquela região do estado só eram lembrados pelo governo como “contribuintes”. Já no episódio do abaixo-assinado encaminhado à Constituinte, o sulista conheceu o governo estadual por meio

das ordens coercitivas emanadas por delegados de polícia contra qualquer manifestação separatista, conforme já foi mencionado. Na obra citada, Juarez Távora considera que “o remédio preventivo contra possíveis movimentos futuros de desintegração nacional” deveria ser a homogeneização política e defende essa

tese apoiando-se na “maior autoridade brasileira no assunto”, Teixeira de Freitas, cujos conceitos de equivalência territorial, equipotência demográfica, econômica e financeira, ou seja, a capacidade igual de progresso, embora com intensidades variáveis, marcaram os estudos de geopolítica a partir de 1940. Nesse trabalho, ele faz também uma análise da evolução do quadro territorial brasileiro da colonização portuguesa até a década de 1950. Em linhas gerais, essa evolução assim se deu: a) instituição das capitanias hereditárias;

b) criação

de

capitanias

mediterrâneas

(Minas

Mato

Pedro); c) em 1808, o quadro territorial achava-se esboçado em dez apitanias gerais (Pará, Pernambuco, Maranhão, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande de S. Pedro, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás) € seis capitanias subalternas CRio Negro, Piauí, Ceará, Rio

Grande vamente:

do

Norte,

Paraíba,

do Pará, Maranhão,

Espírito Santo dependentes

respecti-

Pernambuco e Bahia; e Pernambuco

tinha supremacia também sobre o Rio Grande do Norte e Paraíba);

d) durante o II Reinado foram criadas duas novas províncias, termo que substituiu capitanias: Amazonas, em 1851 e Paraná, em 1853; e) finalmente, em 1943, Vargas criou seis territórios federais: Amapá, Rio Branco, Guaporé, Fernando de Noronha, Iguaçu e Ponta Porã.

Os dois últimos volveram aos seus territórios de origem.".

sa,

15 TÁVORA, Juarez. Organização para o Brasil p. 136-137 .

Gerais,

Grosso, Goiás, Rio Negro) e do extremo sul (Santa Catarina e São

14 TÁVORA, Juarez.

Organização para o Brasil, p. 138.

272

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

A proposta de redivisão territorial apresentad a por T ávora previa áreas médias da ordem de 300.000 quilô metros quadrados

(médias

dos estados do Maranhão,

Piauí, São Paulo,

Rio Grande

do Sul) comportando a formação de 29 unida des federadas. Delas, apenas quatro continuariam praticamen te com as suas fron-

teiras: Rio Grande do Sul, São Paulo,

Piauí e Maranhão.

Seu esbo:

ço baseava-se em estudo feito há mais de dez anos pelo então tenente-coronel João de Se gadas Viana, poster iormente modificado e publicado na Revista Brasileira de Estatís tica, por Maria

Augusto Teixeira de

Freitas.

O sul de Mato Grosso seria desmembrado para formar o estado de Maracaju com capital em Camp o Grande, t al como aspirava a Liga Sul-Mato-Grossense. Ainda segun do a Proposta, O novo estado não mais comporia o Centro-Oe ste, mas a região Sul do país, que seria constituída Por São Paulo, Rio Grande do Sul, Iguaçu e Maracaju. Finalmente, quanto ao estudo de Juarez Távor a, devemos

considerar o seu conhecimento pessoal do território mato-grossense, por onde transitou em 1924 e, depois, c om a Coluna Prestes, conforme anteriormente referido. Esse conta to deve ter contribuí-

do para a formulação de uma Proposta que viesse a corresponder

era

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

cialmente do Instituto Histórico e Geográfico e, em 1966, condensou pá os seus escritos no livro Geopolítica do Brasil. O pensamento de Golbery do Couto e Silva não só passep a orientar os estudos da Escola Superior de Guerra, Guno consistiu

em diretriz para os governos da ditadura militar Apos doa

se

gundo a lógica da Guerra Fria, cuja manifestação ia do máxima após a Segunda Guerra Mundial era a pojariaação do mun-

do em dois blocos, capitalista e socialista, Golbery julgava que o ocidente estava ameaçado, sustentavam,

e, com ele, os valores essenciais que (o)

a saber: “a) a Ciência — como

ia

E ação;

b) a Democracia — como fórmula de organização paid

c) o

Cristianismo — como supremo padrão ético de convivência social”é, Segundo o autor, tendo surgido o Brasil “para o paúndio É a civilização sob o signo da própria cristandade”, cuja jornada

histórica transcorrera há cinco séculos nas fontes do praia e da fé ocidentais, “não poderia renegar jamais esse Ocidente e que se criou desde o berço profundamente incorporou No que tange ao tipo los arautos da “revolução de como

sistema capaz

e cujos ideais democráticos e cristãos Ba à sua ente o pede desenvolvimento da 1964”, a consolidação na Rap

de barrar as “investidas comunistas

po dis

dos anseios separatistas amadurecidos na décad a de 1920 € come-

sil era incompatível com a existência de largas áreas vazias e

Quanto a Golbery, representa à que se poder ia chamar de

despovoadas. A ocupação territorial era fundamental, tanto para atender objetivos de ordem interna quanto eRtetaa, uma ue ane ambos os objetivos se conjugavam em prol da “vitória Ni cr

ço da seguinte nessa região de Mato Gross o. pensamento

geopolítico

contemporâneo,

compondo

um

grupo

de estudiosos que, após os anos de 1950, tentou manter aquecida essa corrente ideológica e propor * uma política feita em decorrência das condições geográficas". Sem dúvid a, é seu mais des-

tacado nome, tendo militado ne

sse campo desde tenente-coronel.

Além de conferências nas escolas de Esta do Maior e Superior de Guerra (ESG), escreveu artigos em revistas especializadas, espe15 COUTO

e SILVA, Golbery do.

Geopolítica do Brasil, p. 259.

sobre o “mundo comunista”. Segundo Golbery, A duna não comportava neutralidade. Assim, uma das estratégias internas para o Brasil deveria ser a ocupação, a tempo, a Espaços oi zios, entre os quais se incluía o Centro-Oeste. Em

nstas gemia &

grande idéia de manobra geopolítica para a integração do territó16 COUTO e SILVA, Golbery do. Geopolítica do Brasil, 226. 17 COUTO e SILVA, Golbey do. Geopolítica do Brasil, 226.

era

REGIONALISMO E DIVISIONIS MO NO SUL DE MATO GR

TO naci cion onsal foi i assi assim expressa sil e sua hinterlândia ”.

por Golbery, no capítulo “O Bri

anti fi 19)2 a artic ularar firm emente à hase ecumênica de nossa projeção cont

nentaj l, ligando 6 Nordeste e o Sul ao núcleo central do país: mesmo passo que garantir a invio labilidade da vasta ge d À povoada do interior pelo tamponam ento efi caz das possíveis Fo vias de penetração; 2º) impulsionar o avan ço p ara noroeste da onda col o zadora, a partir da plataforma centr a 1,x de modoSain a tegr egr:ar a pení enins nsul

a centro-oeste no todo ecumênic o brasileiro; 3º ) inundar de civilização | a Hiléia amazônica, a coberto dos nódulos fronteiricos, par tindo de 1

uma base avançada no Centro-O este!s o

a

ra

o

ga

vezes e repetidas b em seus textos, essa estra tégia, -

z

quanAa

Oeste, aliava-se a um fator 8eopolítico de ordem externa e extrema ai importânânci cia para o autor. NesseÀ âmbito, o robl pro blema fundamentalé da Seopol ítiÍtica “não poderia deixar de objet Pjet ivar a salvaguard a da inviolab ilidade territorial, ante ameaças externas de quaisquer origens que se jam, por pouco prov áveis | mesmoj que se nos afigurem"?, Nesse sentido, » meremerec ci ia especial i tenção 1

ate

a

a



“integração do Centro-Oeste, área [.] de importância tir

e

a

estratégica no coração do cont inente ec apaz de perm

itir reação co az a qualque T aventura expa efic nsionista, ostensiva ou mascat aà, que venha a surgir por essas ban das? | Assim, no plano de ocupação terr itorial de Golbery, o Cen

Hanionede era alvo de dupla Pre ocupação: no plano Intern dev Ha integrar-se ao “todo ecumên ico brasileiro” e, uma ve z int | egra-d

do, cumpríria, ao mesmo

tempo,

a funcão dé br onteir

a viva, contra “qualquer aventura expansio nista” ; Tesidindo aí o aspect o externo. O receio quanto à seg urança dos limites mato-gros senses

JWOPOLÍTICA E SEPARATISMO

ars

com a Bolívia e Paraguai é bastante enfatizado por considerar que Mato Grosso participava do “caráter indeciso e ambivalente”?. dos dois vizinhos. Ele insiste no tema incluindo Mato Grosso nas áreas estratégicas que deveriam integrar-se ao “núcleo central ecumênico”, estruturado no triângulo “altamente vitalizado de Rio5P-BH”,

conforme

se lê:

A oeste, duas zonas estratégicas terrestres - a amazônica e a platina, ligadas por uma zona estratégica de soldadura que abarca, grosso modo, o Mato Grosso, Paraguai e Bolívia, em sua ambivalência já por muitos assinalada?.

Para Golbery, constituíam

“zona

essas regiões de

vulnerabilidade

integração desses “desertos” vital para

fronteiriças do Centro-Oeste

ao “núcleo

reforçar a estrutura econômica

máxima”,

central ecumênico”

era

nacional, diminuindo

as

possibilidades de “ataques solertes”, das “táticas sutis de infiftracão do terrorismo, da guerrilha” e, ao mesmo passo, buscar “enfraquecer o sistema econômico dos antagonistas". Em suma, a idéia central é a ocupação do território, a interiorização do país, a tentativa de evitar “as fronteiras ocas”, termo associado a “um avançar sem consolidação, de modo que atrás ressurge, mais ou menos vitorioso, o deserto”*, Na classificação do seu esquema geopolítico destaca a necessidade de integrar “três grandes penínsulas” de “circulação precária”: a nordes-

tina, a do extremo sul e a goiano-matogrossense. Em outro texto, O império brasileiro, prevendo o adensamento da população no “heariland central” (São Paulo, Rio de Janeiro,

grande

parte de Minas

Gerais,

metade

do sul de Goiás

e SILVA, Golbery do. Geopolít ica do Brasil, p. 46-47. : COUTO e SILVA, Golbery do. Geopolítica do Brasil, p. 93 O COUTO e SILVA, Golbery do. Geopolítica do Brasil, p. 93,

e

ampla área de Mato Grosso meridional), nos anos de 1960, insistia:

—0 1

o COUTO

a

portanto,

21 COUTO

e SILVA, Golbery.do.

Geopolítica do Brasil, p. 126.

22 COUTO e SILVA, Golbery do. Geopolítica do Brasil, p. 213 23 COUTO

e SILVA, Golbery do. Geopolítica do Brasil, p. 137-157.

24 COUTO e SILVA, Golbery do. Geopolítica do Brasil, p. 43.

276

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

L...! se áreas rurais antigas e decadentes da zona da Mata em MG e do Espírito Santo em sua metade meridional vêm constituindo impres: sionantes zonas de expulsão, em contraste, as zonas pioneira s do MT, de Goiás e o sul do Estado de MT apresentam-se como focos de atração dos mais potentes”.

Nessa perspectiva, a transferência da capital federal para o

Centro-Oeste era encarada como elemento dinamizador e propulsor da estratégia

de

interiorização

do país,

também

reconhecida

por outros defensores da geopolítica. A construção de Brasília. segundo Golbery, ajudara a ocupação da “extremidade setentrional do heartland central”, cujo dinamismo seria, ao cabo, também multiplicado. A ocupação do Centro-Oeste enquadrava-se, pois, na estratégia da geopolítica que visava, de um lado, à “segurança”, e, de outro, a “integração do território”. Das fases previstas para a conse-

cução desses dois objetivos inclufa-se a constituição de potenciais regionais

tanto maiores

fossem

“as ameaças

que se prevêem”.

O

grau de importância dessas “ameaças” era classificado de máximo face ao Prata, médio no Nordeste e mínimo na periferia amazôni ca. Como medida “preventiva”, destacava a “ntegração da península do Centro-Oeste”, visando a “contrapor-se ao avanço para o norte de um imperialismo platino”. A integração era necessária à segu-

rança nacional, na medida em que fortaleceria o desenvolvimento

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

277

Na sua concepção, segundo Meira Mattos, o “heariland Que sileiro traz inscrito em si mesmo um “destino imperial manifesto' na medida em que o estiramento da área geopolítica de Fase central” ? (SP, RJ, BH) alcançasse mais o noroeste, alargando até essa região estratégica a influência do núcleo irradiador de provresso. Assim escreve ele: O abarcamento do heartland pela área de manobra central representaria um impulso decisivo à política de continentalidade, a concretização da Marcha para o Oeste realizada não mais pelas bandeiras de Borba Gato, Chico Preto, Pascoal Moreira Cabral [...l, mas, como apregoava Cassiano Ricardo, pelos instrumentos modernos de pars na conquista de terra - tecnologia industrial Li; ço partindo vazios, veterbração do território e integração dos espaços de um núcleo progressista agrandado pela integração do Planalto Central; daí para diante, a dinamização do processo integrada se autoalimentará?.

Temos, assim, um dos aspectos do que poderíamos esaanar

de projeto dos militares para o Brasil: a obsessão pelo Hidra mento; o reforço do papel do Brasil na “política ae comjnenta: lidade”, integrando os seus “espaços vazios” a partir de “um núcleo progressista”, isto é, capitalista, ou pelo menos de onde o

capitalismo se encontrava mais avançado.

capitalista, contribuindo para o cumprimento do objetivo externo que consistia no “enfraquecimento dos antagonistas”.

25 COUTO

e SILVA, Golbery do.

Geopolítica do Brasil, p. 123.

26 COUTO e SILVA, Golbery do. Geopolítica do Brasil, p. 45.

O regime militar, a geopolítica

Para cumprir

a estratégia, Golbery percebia a necessidade de fortalecer os víneulos de algumas cidades dessa região com o “triângulo altamente vitalizado”, citando “Campo Grande e o sul de Mato Grosso, Goiânia e o sul de Goiás"?, que corresponderiam à constituição de “potenciais regionais” Et para o desenvolvimento capitalista brasileiro.

e a divisão de Mato Grosso Quando o general Ernesto Geisel assumiu a presidência da República, em 1975, tudo indica que já estivesse decidido a ai car em prática pelo menos algumas das estratégias geopolíticas

27 MATTOS, 28 MATTOS,

Meira. Brasil: geopolítica e destino, p. 58. Meira. Brasil: geopolítica e destino, p. 59.

278

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GRONHE

elaboradas por Golbery do Couto € Silva. Com Golbery e Távom, Geisel havia sido um dos Principais assessores de Castelo Bt ANO, e todos membros da Escola Superior de Guer ra na qual essy douirina amadurecera. Discursando na aula inaugural da Escola, em 1967, por exemplo, o presidente Castel o Branco chamav aa atenção para a dilatação do conceito de segur ança nacional, bas tante diferenciado, segundo ele, do conce ito restrito de defesi nacional, com ênfase nos problemas de agres são externa, ao pas so que: A noção de segurança nacional é mais abra ngente . ComprE eende, E

Em 1967, além de explicitar a necessidade de c ontrole interno do território, acreditando que a “agr essão interna” era mais provável do que a externa » ASSOCiava ao conceito de segurança q de desenvolvimento, pois aquela só seria plena e satisfatória se houvesse um processo de desenvoly imento econômico e social. As linhas desse desenvolvimento não poder iam gerar “excessiva concentração de renda e crescente desnível social”, pois redundaram em conflitos que comprometeriam a seguran ça do regime, afirmava o general presidente, 29 CASTELO

BRANCO,

Humberto

geopolítica e destino, p. 61-62. 30

Castelo

Branco

assinalou:

satisfatório, se acompanhado

de Alencar

apud

MATTOS,

Meira.

Brasil.

“Mesm o um desenvolvimento econô mico é de excessiva concentração de renda e cresce nte

desnível social, gera tensões e lutas que imped em a boa prática

Segundo

das instituições e acabam comprometendo o própri o desenvolvimento econômico é a segurança do regime”. CASTELO BRANC O, Humberto de Alencar. In: MATTOS, Meira. Brasil: geopolítica e destino, p. 62.

esse

divisionistas,

alguns

Em

E

SOR,

investidura, voltou as vistas para Mato (Grana, fronteiriça, analisando sigilosamente as cenpiççes

E iai

pasa

possíve - o

por

à etiação de um estado no sul. José Barbosa cia plo, referiu-se a isso como um “segredo de Estado”:

O ministro Juarez Távora, da Viação e Obras Raplicas do pia o ai Castelo Branco, destaca dois coronéis do Prep a save a Es a de viabilida Golbery do Couto e Silva, para estuda RA a

S = um Estado que compreendesse o território de Sul de Bia nece e era NA como ou conclusão desse estudo consider ur como sária tal criação. Sigilo em torno do assunto é mantido, segredo de Estado *.

pol

“Pp assim dizer, a defesa global das instituições, incorporando os aspectos psicossociais, a preservação do desenvolvi mento e da estabilidade política interna; além disso, o conceito de seguranç a nacional, muito mais explicitamente que o de defe Sa, toma em linha de conta à agressão interna, corpotificada na infiltraçã o e subversão ideológica, até mesmo nos movimentos de guerrilha, formas hoje mais provãveis de conflito do que a agressão externa” .

279

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

Paulo Coelho Machado, por seu lado, pior que agr cepa a o , a presidente da ea Távoraos foidoiscandidat Juarez gara encarre militares Geisel

e Soler, RR

geopolítico de Mato Grosso, pois ele; Juarez, Gp

no da década de 1930 no qual previa a redivisão Em

suas Memórias Juarez Távora

ps

seria

g ge

a



desse es

relata a campanha

presi

dencial de 1955, ocasião em que concorreu pao Partido pá erata Cristão (PDC). Quanto aos pontos essenciais o a sua

no

ação

governo,

vários dê seus livros, um

foram,

papa

É j e :

publica

Organização ceia (o) é es

dos quais

Esse livro, conforme comentado, propunha a redivisão ae sa do Brasil que, grossense.

Anos

se adotada,

contemplaria

depois, Távora

a demanda

Fi

j

Branco

foi ministro de Castelo

SO dod Sul, p. 15512. 31 RODRIGUES, José Barbosa. História de Mato Grosso e deRxMato Grosso. Correio divisão da s À ; bastidores Nos O, Paulo Coelho. jr e com conversas Nas 5. p. B, Caderno 1993, out. 17 6 o o

Sia o ele confirmou essa sua convicção sobre Vávora e Re cade mi ie É a de década na de um estudo dele, publicado a nroi ; T are de Paranaíba. : seria transformado no estado stosso i R Brasil, do territorial divisão In: FLEMING, Thiers (org). Nova rei Janeiro, s/edit., 1939. Aa

,

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"

280

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Ha mesmas Memórias fez uma apre ciação global de sua ação à ini do Ministério da Viação e Obras Públicas (1964-1967). Men cionando o esforço governamental para a “valorização regional” destacou, como obra essencial, a cheg ada dos trilhos que ligadalh Pires do Rio a Brasília, pois “essa cheg ada significava apenas, na vedado, que Brasília acabava de ligar-se, por trilhos, à Rede Ferroviária Centro-Oeste, e ia integrar-s e, afinal, por foro del; ao Brasil litorâneo e desenvolvido”. | 4 A integração da capital federal “ao Brasi l litorâneo e desen. volvido” fazia parte, como observamos, da estratégia geopioiital elaborada por Golbery do Couto e Silva. No âmbito das açõe destinadas a essa “integração” o ministro realizou O levita çd das redes rodoviárias do Centro-Oeste “a fim de facilitar q fixação global de prioridades de execução, baseadas em elementos col pet de viabilidade econômica”*, Cont udo, apesar de Em sua Visita a Mato Grosso e Paraguai, “em agosto de 1965, para acendh a Pepe de vias de transporte e meio s de comunicação entre os

aa Pies,

Távora

não

alude

aos

estudos

específicos

soil

divisão territorial de Mato Grosso. Já a obra Organização para o Brasil, que tratou da redivisão geral do país, propunha quase o mesmo desenho que hoje Mato Grosso do Sul tem. | Concluímos, assim, que o regime milit ar contava com estudos suficientes à esse respeito. Por outro lado, a destituição do presidente João Goulart, em 1964, obtiv era não apenas a anuência

do governo

mato-grossense,

mas

das duas

elites que

simboliza-

vam a rivalidade norte-sul. A propósit o da posição de Mato Gros-

so ante o golpe militar de 1964, asseverou o general Odílio Denys

em entrevista publicada na revista Fatos e Fotos, de 2 de maio dê 33 TÁVORA, y Juarez. :y Memórias“as, v. 3, p: Z200. Ver també arta Castelo Branco em 14 de março de 1967, v. 3, p. 208. RA 34 TÁVORA, Juarez. Memórias, v. 3, p. 200-201. 35 TÁVORA, Juarez. Memórias,

v. 3, p. 200-201,

ivor:

Aa

281

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

1964: “São Paulo, Paraná e Mato Grosso eram inteiramente nossos |...]. Conosco estavam seus governadores, o General Amauri Kruel,

e generais que o acompanhariam,

bem como

as forças públicas

desses Estados”*. Já o general Meira Mattos, que na época do golpe militar

dirigia o Comando do 16º. BC na capital de Mato Grosso, afirma que Cuiabá, “capital de ricas tradições políticas”, não poderia ficar insensível “as preocupações que dominavam o espírito dos democratas brasileiros”. Quanto às articulações em curso para

depor o presidente João Goulart, assim as descreve: Nesta capital encontrou o Cel. Meira Mattos o apoio decidido e franco do Governador do Estado, doutor Fernando Corrêa da Costa, homem de formação democrática e cristã e que, assim como a maioria dos brasileiros de responsabilidade, se impressionava ao ver o Brasil

precipitando-se no abismo da desonestidade oficial desenfreada e da subversão de asas sôltas [...]. Passaram-se os últimos meses de 1963 e os primeiros de 1964 em conversas domiciliares frequentes, nas quais o espírito daqueles que não se conformavam robustecia-se na fé de que um movimento político haveria de surgir breve para conter a avalanche de desmandos que avassalava o país. O ponto preferido dêsses encontros, verdadeiras tertúlias políticas, era o carramanchão da residência do Governador Corrêa da Costa [..

Atestando

a convergência

p.

ideológica das elites nortistas e

sulistas a favor do golpe militar, edição histórica da revista Manchete, em abril de 1964, fez ampla cobertura da tomada do poder

pelos militares com as fotos da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que se encerrara “diante do altar da pátria, com a presença de centenas de milhares de fiéis”. Em uma das fotos aparece

36 DENYS, Odílio. In: TÁVORA, Juarez. Memórias. v. 3, anexo 9, p. 250. 37 MATTOS, Meira. Participação de Cuiabá na Revolução de 31 de março. In: Rubens de. História das revoluções em Mato Grosso, MENDONÇA,

p. 197-198.

282

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

a seguinte legenda: “D. Letícia Lacerda, esposa do govemador da Guanabara, ao lado da Sra. Mari a Elisa Bocaiúva Corrêa da col Primeira dama de Mato Grosso"8 , Ou seja, o governo de Mall Grosso, naquele momento dirigido por um sulista (Fernando Corrêa da Costa), demonstrava o seu apoio ao golpista Carlos Iate representando também o pensament o da elite do norte. y Portanto, diferentemente do Pass ado, especialmente er Copia a uanda Os grupos hegemônicos do norte e do sul tado divergiram, em 1964 apoiaram a “revolução” re ua razões, por acreditarem que haveria q cafe ad na)”. Demósthenes Martins, a propósito, entendia que, até 1964 Mato Grosso estivera relegado ao abandono pelo governo edad ral, » Situ situaçã ação que começo: u a mudar com a “revolução”, conforme assinalou:

A partir da vitória da Revolução de 31 de ma rço [...] graças ao espírito dese

nvolvimentista dos governos re voluc ionários, nosso Estado viuse enxergado, neste caminho de integração nacional, maximé nesta tuzilhada da penetração da Amazônia . Com o apoio federal que

enc

1

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Gros So Pp od ec > COI u = =

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= htusiasmado pelo “espírito dese nvolvimentista” que propitaria a Mato Grosso ser enxergad o”, celebrou-se o advento da ditaadur dur a milit ilitaar, que, segu ; ndo o autor, teve apoio unânime em az

4

*

ps

Mat O Gross "OSSo,

e.

a

>

tanto no norte quanto no sul, ao contrário do

que 9correra nos movimentos de 1930 e de 1932, quando não houve oncordância entre as duas elites ca políticas. Afirma Demósthenes:

[6

E

as

a

JO

sta

que

[o

Jovernando: numa PSépocaSE de Srave ' s agita ções políticas, econômicas € Sociais, que culminaram com à Revolução de 31 de março de 1 a 964, movimento

ci PatriRES óticoici com

o qual esteve solidário, desde a

E 38 Ver: Edição Histórica da revis ta Manchete Rio de Janeiro, ME: abril 39 MARTINS, Demosthenes. História de Maio Grosso p. 133134

3

1964,

,

ano 11

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

283

fase conspiratória, conseguiu Fernando Corrêa ver a unidáde da opinião pública do Estado sufragar sem discrepância o veredictum nacional de condenação do governo João Goulart, ao revés do que se verificou nos movimentos revolucionários de 1930 e 1932, quando a divergência dos mato-grossenses se manifestara nas suas regiões. Em 1930, o Norte, com o Governador Aníbal de Toledo à frente, apoiou o Governo de Washington Luiz, enquanto o Sul, com

suas

unidades militares e o seu povo, engajou-se na luta, a favor de Getúlio Vargas. Em 1932, o Sul, sob a liderança de Vespasiano Martins e a guarnição militar, comandada pelo General Bertoldo Klinger, aderiu total e entusiasticamente ao movimento constitucionalista de São Paulo, ao contrário do Norte, que, conduzido pelo Interventor Leônidas de Matos, solidarizou-se com o Presidente Getúlio Vargas.

Os governos militares, saudados pelas elites políticas e econômicas mato-grossenses, estavam bem apetrechados de estudos geopolíticos sobre o Centro-Oeste. A lógica do “progresso” e do “desenvolvimentismo”, como mencionamos, vinculada intimamente

ao conceito de segurança nacional, não descuidaria dos destinos de Mato Grosso. A implementação do modelo capitalista preconizado pelos autores de 31 de março de 1964 poderia incluir, como de

fato

incluiu,

a divisão

de

Mato

Grosso

de

modo

a melhor

ocupar o Centro-Oeste e integrá-lo “ao Brasil litorâneo e desenvolvido”, cabendo a um dos três principais assessores de Castelo Branco a decisão de criar Mato Grosso do Sul. Tão logo assumiu a presidência da República (1975), o general Ernesto Geisel, que na juventude se engajara na Revolução de 1930 e exercera

funções

de secretário de Estado, primeiro no

Rio Grande do Norte, e depois na Paraíba, integrando-se em 1932 às forças legalistas contra São Paulo, deu mostras de que estaria disposto a intervir na configuração geográfica de algumas regiões

+

40 MARTINS,

Demosthenes.

História de Mato Grosso, p. 132-133.

284

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROUND

do país. Sua primeira medida sobre o assunto foi a fusão Guanabara Estado do Rio de Janeiro, que se enquadrou perfeitamente no panorama geopolítico desenhado por Golbery. Para que nos cer tifiguemos sobre a coincidência entre à estratégia daquele estu dioso e a decisão presidencial, basta ler o 1 Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), editado em dezembro de 1974: O que se procurou fazer foi, desde logo, criar novo e poderoso pólo de desenvolvimento, através da fusão Guanabara-Estado do Rio de

E

POPOLÍT E SEPARATISMO ICA

285

Ao que tudo uperior de Guerra riter artificial das emtido, a intenção

indica, no governo Geisel os estudos da Escola aprofundaram essa questão eliminando o caprimeiras proposições. É significativa, nesse revelada no II PND de não cuidar de redivisão

em larga da, Por UND, no timentos

escala, principalmente na área economicamente ocupaisso, a menção exclusiva ao caso de Mato Grosso. O II item Integração Nacional, previa no programa de inves(1975-1979) recursos financeiros que aparecem sob os

termos “transferências da União para os Estados e Municípios do

Janeiro, para que, no núcleo mais desenvolvido do País, melhor equi líbrio econômico-geográfico se estabeleça no triângulo São Paulo Rio-Belo Horizonte!

vorte, Nordeste e Centro-Oeste” *. Embora

não explicitasse a

destinação para uma possível divisão de Mato Grosso, a previsão orçamentária era bastante ampla, nos termos em que se formulou,

Além disso, o II PND afirmava que a prioridade “em matéria de divisão territorial é considerar um ou dois pontos importantes da ocupação do subcontinente Amazônia-Centro-Oeste, com atenção especial à situação de Mato Grosso”2. Assim, pela primeira vez, o separatismo do sul de Mato Grosso encontrava res-

para atender, se fosse o caso, como de fato o foi, às necessidades (ue surgiriam com a criação de uma nova unidade federativa. As intenções de Geisel reaqueceram a causa divisionista, que, aliás, andava esmorecida.

paído em um governo federal. Podemos afirmar inclusive que a determinação

desse governo

era superior à própria demanda

te-

O movimento

gional, coma veremos adiante, O governo Geisel (1975-1979) tratou de orientar o assunto sobre a divisão territorial, alertando logo que não se cogitava de “redividir o Brasil, segundo áreas mais ou menos iguais geografi-

duas ditaduras: de

estados

economicamente

estabilizados,

politicamente

e culturalmente avessos à idéia de desmembramento.

Vargas a Geisel

Depois da decisão da Assembléia Constituinte de 1934 de não acatar a questão meridional de Mato Grosso na forma reivindicada pela Liga Sul-Mato-Grossense, os separatistas, embo-

camente”, deixando implícito o desinteresse pelas propostas geopolíticas de Teixeira de Freitas e Segadas Viana, que previam uma redivisão com áreas padronizadas, o que implicaria intervir em

divisionista entre

ra frustrados, tiveram de se contentar com as medidas de Getúlio

Vargas, que passavam ao largo de suas esperanças. Tanto o Território Federal de Ponta Porã (1943-1946) quanto a Colônia Agrícola de Dourados consistiam em estratégias dirigidas a incrementar o povoamento daquela região fronteiriça do Brasil e, caso não tivesse sido extinto O Território que volveu a Mato Grosso, próva-

coesos

A propósi-

to, até mesmo a proposta de Juarez Távora seguia essa metodologia.

velmente o divisionismo teria perdido a sua bandeira, pois, como 41 BRASIL. 1 Plano Nacional de Desenvolvimento, p. 46. 42 BRASIL, ! Plano Nacional de Desenvolvimento,

p. 46.

7

15 BRASIL, 4 Plano nacional de desenvolvimento, p. 99 e 103.

286

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GuODD o

28”

POLITICA E SEPARATISMO 4

vundo

vez tenha sido positiva para os objetivos da Liga Sul-Mato!

ncumbida de estudar a questão territorial brasileira, entre 1933 e

Grossense,

1954, embasada nos conceitos de “unidade da pátria e defesa nacional”. Segundo Oclécio Barbosa Martins, o relatório final, ubmetido à Constituinte de 1934, considerou necessária a criação imediata de dez territórios nas fronteiras brasileiras, inspirada nos wpuintes critérios: “1 Separar dos Estados fronteiriços somente

cujo

núcleo

era Campo

dos divisionistas, essa cidade,

Grande

e, portanto,

na visam

antagonista de Cuiabá, teria de ser

incluída em qualquer estado ou território que alí se criasse, No entanto, ficara excluída do Território Federal de Ponta Porã, par decepção

dos separatistas. Após ter sido surpreendida

Oclécio

Barbosa

Martins, de “uma

plêiade de patriotas”,

1s partes despovoadas, decaídas, insalubres, longínquas, de dificeis

Liga Sul-Mato-Grossense dispersou-se. Um dos seus mais ardorosos

comunicações; 2º) Separar partes fronteiriças dotadas, embora de vida incipiente e progressista, mas carecendo de policiamento,

Oclécio

Barbosa

Martins,

divisionista declarado,

editou,

em 1944, o livro Pela defesa nacional: estudo sobre redivisão territorial do Brasil, no qual faz um levantamento histórico das propostas de redivisão territorial desde a independência do Brasil. Dedicado aos

instrução, povoamento e vigilância”.

do Brasil do Oeste; aos que sonharam, nos dias felizes e nos dias

Parece, fora de dúvida, que a criação do Território Federal de Ponta Porã estaria muito menos em função do primeiro critério do que do segundo, isto é, deveria atender ao interesse mais predominante da geopolítica de Vargas: a defesa nacional. Pelo

amargos, com um govêrmo próprio para a região sulina, no sincero

relatório

esforço de engrandecimento da Pátria comum; aos lutadores que

passaria a ser o “território de Maracaju”

acompanharam todos os movimentos cívicos em pról da nossa auto:

onde

nomia administrativa'l,

esse plano porque, no dizer de Oclécio, “foi habilmente maneja-

brasileiros que habitam o Sul de Mato Grosso, sentinelas avançadas

esse livro, escrito durante a ditadura getulista que sufocou regionalismos em nome da unidade nacional, consistiu em uma espécie de lembrança sobre a existência de uma causa cujos fundamentos estavam consignados e, quem sabe, esperando para ressurgir em um momento mais favorável, Expressando sentimento semelhante sobre

|

alisa a jornada da Grande Comissão Nacional, constituída, se-

com a criação desse Território, q

membros,

|

Importante para a história de Mato Grosso do Sul, o livro

continuar a reivindicar uma unidade federativa no sul de Mato Grosso se ali já existia o Território Federal? Nesse sentido, a sua extinção pela Constituinte de 1946 tal)

essa obra, considerou José Barbosa Rodrigues: “Durante muito tempo essa publicação ficou sendo o livro de cabeceira dos sulistas”. 44 MARTINS,

Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional: estudo... p. 1. 45 RODRIGUES, José Barbosa. História de Mato Grosso do Sul, p. 150. Quase todos os entrevistados nesta pesquisa, inclusive contemporâneos de Oclécio Barbosa Martins, fizeram referência respeitosa não apenas à obra como também a sua atuação em prol da divisão de Mato Grosso. a

da

Grande

Comissão

se situa Campo

Nacional,

o sul de

Mato

Grosso

e não abarcaria a área

Grande. A Constituinte, todavia, não acatou

da pelos representantes dos Estados do Oeste, que por certo seriam fracionados, notadamente sim, lamentou

Oclécio

Barbosa

Amazonas e Mato Grosso””, AsMartins,

o exaustivo

trabalho

da

Comissão foi repousar nas bibliotecas. Entretanto, mesmo rejeitado, parece que nem tudo foi perdido, pois, em 1943, quando Vargas criou os seis territórios já mencionados, em parte coincidiu com o levantamento da Grande

Comissão Nacional. No que diz respeito ao Território Federal de Ponta Porã, contudo, Oclécio lembra que era ainda menor do que 40 MARTINS, Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional... p. 39. i7 MARTINS,

Oclécio Barbosa.

Pela defesa nacional...p. 40.

288

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

o proposto território de Maracaju, pois este teria Nioaque por capital, ao passo que, naquele, essa cidade e grande parte do seu município ainda permaneceram no estado de Mato Grosso, coma também Campo Grande, A Constituinte de 1934 rejeitara, portanto, duas proposições sobre o sul de Mato Grosso: a da Liga Sul-Mato-Grossense e a da Grande Comissão Nacional. Elas convergiam na reivindicação de um território administrado pela União, caso os constituintes concluíssem pela inviabilidade de constituir um estado autônomo naquela parte de Mato Grosso. O que não coincidia, porém, é que, na proposta da Liga, Campo Grande comporia a parte desmembrada ao passo que, para a Grande Comissão Nacional, ela permaneceria no estado de Mato Grosso, passando Nioaque à condição de capital do território a ser criado. Mas nada disso vingou. Vargas também não incorporaria 0 plano de Teixeira de Freitas, que pretendia modificar totalmente o cenário geográfico com a criação de 13 territórios e 16 estados. Mato Grosso, por exemplo, seria desmembrado em cinco unidades e uma delas, o território do Rio Pardo, teria como capital a cidade de Campo Grande. Oclécio Barbosa Martins afirma que o

DPOLÍTICA E SEPARATISMO

a 289

com divisas no norte pelo curso do rio São Lourenço (plano Fausto

de Souza). Em

E

suma,

a obra

&

Pope

de

dia

Oclécio las

Barbosa tura

Se]

1 : Martins

as | += adotaa as

ad

has mestras da geopolítica getulista para construir o atrazoado l1 questão meridional de Mato Grosso. Portanto, além da superioridade econômica do sul, onde “reside mais da metade dos rebanhos bovinos de todo o Mato Grosso” e dos seus municípios “que iparentam os melhores índices de prosperidade, os quais canaliim para o Tesouro do Estado, em Cuiabá, a maior parte das rendas públicas”?, o autor cita Alberto Torrres, para quem: A política é um instrumento destinado a agir, tão diretamente quanto possível, sobre a terra e a gente, à sociedade c seus fenômenos,

os

interesses, as necessidades e as relações, abandonando as abstrações que não correspondem a estes elementos e fatos concretos, e não admitindo senão as que dizem respeito aos fenômenos reais da vida social”.

O determinismo geográfico é a ideia-força de seu argumen10, que repete o autor citado, segundo o qual, “o território, mais do

que

o

povo,

forma

o

estado

moderno”,

embora

a

às portas da Constituinte de 1934,

autoadministração que permitiria “o surto das energias latentes” de Mato Grosso, tenha permanecido um sonho. Seu livro, porém, não ficou apenas “nas cabeceiras dos sulistas”. Inspirado na sua

Acalentando esperanças de que o presidente Getúlio Vargas ainda viesse a outorgar a autoadministração ao sul de Mato Grosso nos moldes ambicionados pela Liga, e que, caso isto ocorresse, reforçaria a defesa nacional consoante as diretrizes políticoideológicas do governo, Oclécio finaliza a sua exposição, suge-

1950, um manifesto denominado Movimento pró-divisão de Mato Grosso. Datado de 1º de junho de 1959 na cidade de Campo Grande, o manifesto é assinado por: Anísio de Barros, Nelson Benedito Neto, Cícero de Castro Faria, Adauto Ferreira, Diomedes

território de

mesmo

Rio

Pardo

correspondia,

nas

suas

linhas gerais,

ao

estado de Maracaju pleiteado pelos sulistas que bateram

leitura, um grupo de separatistas emitiu, no final da década de

rindo que: Isso pode ser feito com a revisão das divisas do Território de Ponta Porã, ampliando-as para o norte, ao longo do rio Taquari (plano de Teixeira de Freitas), - ou então — com a criação de uma nova

13 MARTINS,

Oclécio Barbosa.

Pela defesa nacional..., p. 88.

1) MARTINS,

Oclécio Barbosa.

Pela defesa nacional...

unidade federativa abarcando toda a região sul de Mato Grosso,

| MARTINS, Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional... p. 70.

1) TORRES,

Alberto, In: MARTINS,

p. 59.

Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional.

p. 70.

290

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GRÓguo

França, José Fragelli, Salviano Mendes Fontoura, Paulo Jorge Simões

Corrêa,

Otacílio

Faustino

da

Silva,

Assis

Brasil

Corrêa,

Oelécio

Barbosa Martins, Diomedes Rosa Pires, Eduardo Macha do Metelo, Martinho Marques, Carlos de Sousa Medeiros, Nestor Muzzi, Nel: son Mendes Fontoura, Licio Proença Barralho, Nelson Borges de Barros. Importante notarmos que todos esses sobrenomes estão presentes na Petição encaminhada à Constituinte em 1933, alguns mais que outros, dependendo da extensão e da influê ncia política

que cada uma dessas famílias exercia. Evocando as linhas mestras da obra de Oclécio, ele própri o não é insólito, “mas um

novo e oportuno

pronuncia-

mento que é uma constante aspiração dos habitantes desta região, um imperativo econômico e uma consequência dessa desajustada

Grande (57.000 habitantes), que possuía 30 escolas;

(37.000 habitantes), 27 escolas;

Dourados

(23.000

habi-

tuntes), 19 escolas; enquanto Cuiabá (56.000 habitantes) possuía b4 escolas; Rosário Oeste (17.000 habitantes), 58 escolas; Livramento (11.000 habitantes), 47 escolas”. Quanto à questão política propriamente dita, o que chata | atenção é o fato de que, diferentemente de 1932, quando a Liga ul Matocnsaennt de

1959

reclamava da baixa representatividade do sul, revela

uma

mudança

que demonstra

a força

política dos grupos hegemônicos sulistas, conforme se lê: Temos no sul a maior receita pública, a maior população, o maior eleitorado e também maior desamparo do Estado. De 30 deputados à federais, 5 são também,

daqui. Tudo isso espelha uma realidade que não há como esconder”,

A representação política do sul continuou a crescer, segundo mostra Manuela Renha de Novis Neves, de tal forma que no

Em vez de harmonia, de acordo com o manifesto, “apenas diversidade de ordem física, econômica e social a animar um todo que se contrasta”. Considerando absurda a vasta área de 1.153.689 quilômetros quadrados quase vazia é imprimindo “estilos de vida díspares à economia da região”, afirma o grupo não esposar “q tese do materialismo histórico”, mas não fugir do recon hecimento da influência dos fatores econômicos nas origen s ideológicas.

período de 1947 a 1962 ela consolida a sua Supesiatidade,

totalmente extranha à prepoderosa contribuição ao carreiam para ali”. O texto superioridade demográfica

dos municípios do sul, estes contavam com bem menos unidades escolares, o que revelava descaso governamental. Para tal, utiliza-

Grosso

de 1950 para apresentar as

do Sul.

disparidades entre municípios do sul e do norte. Entre aqueles 52 MOVIMENTO

Pró Divisão de Mato Grosso. Campo

Grande-MT,

1 jun. 1959.

O

quadro da página seguinte demonstra essa tendência de pd clara, especialmente considerando que Corumbá, da ambígua na identificação regional da época, culturalmente identificada com o norte, acabou agregada ao sul. | Notamos que em todas essas eleições o sul elegeu mais deputados estaduais do que o norte; já para o Congresso Nacional, o norte fez maioria em 1947 e 1950, enquanto em 1954 e 1958 o sul o superou. Finalmente, em 1962, verificamos empate (3 e 3). Significativo ainda é o fato de que Corumbá não fazia parte dessa rivalidade, portanto não estamos contabilizando para o sul os deputados eleitos por esse município, que hoje pertence a Mato

Enaltecendo o “progresso do Sul” como “resultado do esfôrço do

va dados do censo demográfico

291

?

Assembléia, 21 são do sul; de 7 deputados

constituição geográfica do atual Estado de Mato Grosso".

seu povo”, afirma que: “A ele é quasi sença governamental, a despeito da erário estadual que as atividades daqui demonstra em números que, apesar da

ta Campo corumbá

| situação

um dos signatários do panfleto e talvez o seu autor, justifi ca que 0

movimento

POPOLÍTICA E SEPARATISMO



53 MOVIMENTO

Pró Divisão de Mato Grosso. Campo

Grande-MT,

1 jun. 1959,

54 MOVIMENTO

Pró Divisão de Mato Grosso. Campo

Grande-MT,

1 jun. 1959.

282

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

REPRESENTAÇÃO FEDERAL - ESTADUAL POR REGIÃO (1947-1962) Ano

| Norte

Sul

Est. | Fed. | Est. | Fed. 1945

|--——-|

03

||

1947 |

10

01

16

1950 |

11

04

16

1954 |

10

02

1958 |

12

1962 | Total

|

02

|

Corumbá

Total

Est.

Fed. | Est. | Fed,

|

DEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

|

298

Os políticos do sul queriam ter igualdade de poder com os políticos do norte, que detinham a tradição do poder [...). A bancada do sul era maioria em 47 e propusemos a Emenda [sobre a transferência da capital] nós queríamos dizer que Cuiabá não era a “dona” da capital [...] a reação foi muito veemente [...]. Na Emenda constava que a

O

a

05

04

01

30

02

02

03

01

30

07

isso [...]. Aí foi aquela guerra dentro da Assembléia [...]. Os dois depu-

18

05

02

em

30

07

tados de Corumbá é que acabaram decidindo a votação, dividida

02

17

04

01

01

30

07

12

03

16

03

02

02

30

08

55

15

as

16

12

05

150

36

| -——

|

FONTE: NOVIS NEVES, M. Manuela Renha de. Elites políticas: competição e dinâmica partidário-eleitora! (caso de Mato Grosso), p. 179.

Uma explicação para esse crescimento é o fato de que as disputas eleitorais, a partir de 1945, passaram a ter caráter mais regionalista do que propriamente partidário, segundo a autora. Nesse caso, pesava menos a filiação política e mais a origem dos candidatos, isto é, se do norte ou do sul, tal como ilustra o depoimento abaixo: Quando chegou em 45 já havia tendência formada desde 32 [..] tanto à UDN como o PSD do sul tinha o mesmo ponto de vista sobre a separação do estado [...] daí em diante começou a briga porque nós, do sul, queríamos fazer a representação maior para pressionar o governo”.

Assembléia é que fixaria o lugar da capital [...] então, a lei ordinária de uma maioria eventual podia mudar a capital e nós percebemos

entre bancada do sul e do norte ...], O Octacílio votou com eles e o André de Barros votou conosco — aí empatou, porque a representação norte e sul era mais ou menos igual nessa época”. Notamos

nesse

depoimento

importante:

muito

fato

um

(16 contra 10) e mesmo assim a proposta de transferência da capital não foi aprovada, pois, segundo Italívio Coelho, a decisão acabou dependen-

bancada

sul era maioria

do

do dos deputados

de

no ano

de Corumbá,

e um

1947

deles

votou

com

o norte,

não se alinhando, portanto, aos que desejavam destituir Cuiabá da condição de capital. Mas, além do Poder Legislativo, o fato mais significativo diz respeito à hegemonia das lideranças sulistas no próprio Executivo estadual, pois de 1947 a 1964, foi o seguinte o quadro dos governadores

de Mato

Grosso:

ANOJELEIÇÃO

GOVERNADOR

PARTIDO/Região

1947

Arnaldo E. de Figueiredo

PSD/Sul

1950

Fernando €. da Costa

UDN/Sul

1955

João Ponce de Arruda

PSD/Norte

lograra êxito. É o que explica o ex-senador Italívio Coelho, que na

1950

Fernando €. da Costa

UDN/Sul

época era da União Democrática Nacional (UDN/Sul):

1965

Pedro Pedrossian

PSD/Sul

Essa superioridade na representação política veio a constituir,

desde então, mais um forte argumento separatista, embora não tivesse sido suficiente para convencer o governo federal a dividir o estado. Nem mesmo uma tentativa de transferir a capital, em 1947,

a

55 PEREIRA, Waldir dos Santos. Depoimento. Apud: NOVIS NEVES, M. Manuela

Renha de. Elites políticas: competição e dinâmica partidário-eleitoral (caso de

56 COELHO,

Mato Grosso),

de. Elites políticas... p. 176177.

p. 1753-174.

Italívio. Depoimento.

Apud:

NOVIS

NEVES,

M. Manuela

Renha

294

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSNU

Os dados mostram que não mais procedia a alegação dos divisionistas segundo a qual Cuiabá tinha vocação para o “man do”, conforme lemos nos manifestos da década de 1930, por exemplo. A correlação de forças, favoravelmente ao sul, portal to, já era uma realidade após o fim da ditadura Vargas, pois,

Mato Grosso teve quatro governadores até 1965, e apenas um

IEOPOLITICA E SEPARATISMO

E

295

O Manifesto foi propagandeado no final da década, ocasião em que Jânio Quadros, um sul-mato-grossense de nascimento, foi candidato a presidente da República. Esperando obter a sua con-

cordância quando ele se hospedou em uma chácara em Campo (irande,

pouco

antes

campanha

da

separatistas o procurou,

mas

eleitoral,

assim que tomou

comissão

de

conhecimento

do

uma

era do norte. Há mais, porém: a maior liderança da época fol Fernando Corrêa da Costa, do sul, que exerceu o mandato por duas vezes.

simbolo do movimento, uma tesoura que cortava o mapa de Mato Crosso em duas partes, teria dito: “Esta tesoura corta o meu cora[, cao!” Suas palavras foram água na fervura”, Afonso Nogueira

Voltando ao manifesto do Movimento Pró-Divisão de Mato Grosso, de 1959, percebemos que é fruto de uma fase morna do divisionismo, ou seja, que veio na esteira da ressaca pós-criação do Território Federal de Ponta Porã. ;

simões

EDEW/EEDERP PARA NMULTIPLICAR

Corrêa



a mesma

versão,

acrescentando,

porém,

ele-

mentos relevantes para o nosso estudo. Segundo ele, paralisado dutante o Estado Novo, o movimento separatista ressurgiu com o lançamento de um manifesto pró-divisão do estado, subscrito pe-

las principais lideranças do sul, mas destaca o papel de Campo Grande,

ao afirmar:

Nos anos seguintes, essas lideranças, com base política em Campo Grande,

intensificaram a campanha

separatista [..]. Na campanha

eleitoral de 1960, o candidato Jânio Quadros, mato-grossense de nas-

cimento, contava com o apoio da maioria do eleitorado do Estado, inclusive dos líderes divisionistas. A posição do candidato, contrária à

divisão, representou uma verdadeira ducha de água fria no ânimo desses líderes que o apoiavam e eles se viram obrigados a interromper a campanha divisionista para não prejudicar a eleição de seu candidato (sem grifo no originaD*.

Esse excerto mostra que o divisionismo, de fato, não unia a elite política, ao contrário, e aqui a redundância verbal não é demais: o divisionismo dividia a própria classe social da qual se originara. Ou seja, no caso em questão, a divisão

MOVIMENTO DIVISIONISTA DE MATO GROSSO Cartaz separatista do final da década de 1950.

57 RODRIGUES, José Barbosa,

História de Mato Grosso do Sul, 151.

58 CORRÊA, Afonso Nogueira Simões. A criação do Estado de Mato Grosso do Sul, In: CUNHA, Francisco Maia da (org). Campo Grande: 100 anos de construdo, p. 67-68.

296

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

de Mato

Grosso

297

IFOPOLÍTICA E SEPARATISMO

episódio, assim narrou o frustrado intento mencionando à consulta que fizera a João Mangabeira e à qual fizemos referência anteriormente em alusão a seu pai Eduardo Olímpio Machado:

PDO), mas sim um populista de direita, sua passagem pela presidência foi tão efêmera que não chegou a romper com essa tendência. Em outros termos: aquele populismo não rimava com seopolítica. Dessa forma, é compreensível a conclusão de Paulo Coelho Machado segundo a qual era “praticamente impossível” dividir o estado pela via constitucional. Nessa afirmação ele deixa transparecer o receio de que, por esse caminho, ou seja, democrático, a divisão não aconteceria. Em primeiro lugar, porque o próprio regime político da época não tinha interesse nela; em segundo, porque não havia qualquer movimento popular no sal de Mato Grosso capaz de garantir adesão da maioria à proposi-

Nesse período eu estava morando no Rio e participei, com con-

cão divisionista, Ela era, desde o início, uma reivindicação da elite

unificá-la,

não

e sim

constituía

a eleição

um

aspecto

presidencial

político

de Jânio

capaz

de

Quadros;

dessa forma, “para não prejudicar a eleição de seu candidato”, ela se viu obrigada a interromper a campanha divisionista. Essa informação do autor vem ao encontro de nosso entendimento sobre a questão, conforme ainda teremos ocasião de discutir. Por

sua

vez,

Paulo

Coelho

Machado,

contemporâneo

do

política hegemônica no sul. Seria preciso, então, uma conjuntura política favorável para que o tema da divisão de Mato iai voltasse à baila. Essa conjuntura não tardou a se concretizar: O

sultas junto aos estudantes, de um movimento para ver a viabili

dade da Divisão já no governo Jânio Quadros. Foi nessa época que consultei pessoalmente João Mangabeira - o mais im portante especialista de Direito Constitucional de seu tempo - e concluímos que seria praticamente impossível. A situação ficou pior quando Jânio veio aqui. Ele precisava de votos do Norte, então ele veio aqui e disse: “sso aqui é tudo nosso, e partir isso aqui será o mesmo que partir o meu coração". Uma demagogia danada que esfriou tudo”.

De fato, considerando

as ambiguidades

do populismo

dos governos da época (1946-1964), com hegemonia do Partido Social

golpe militar de 1964. O regime autoritário instituído a 31 de março de 1964, pelos objetivos a que se propôs, encarou a secular questão meridional de Mato Grosso sob outro ângulo e aí residiu a sorte dos divisionistas. Segundo os ideólogos do regime militar, não poderia haver “segurança nacional” sem um alto grau de desenvolvimento econômico, pois à segurança de um país impõe o desenvolvimento de recursos produtivos, a neta lização e uma efetiva utilização dos recursos naturais, uma

e

Democrático

(PSD) e do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que tentaram manter-se no poder com apoio popular, é compreensível a posição do governo federal em relação ao assunto,

isto é, ele não tomaria a decisão de dividir Mato

estenma

a Jânio

Quadros,

grupo político hegemônico 59 MACHADO,

embora

não

Grosso

pertencente

(era do Partido Democrata

comunista”,

e comunicações

para

integrar

O

por

isso,

a contraofensiva

deveria

consistir

em

promover uma rápida arrancada do desenvolvimento od mico para obter o apoio da população. Preocupava a eita ra, sobretudo, a vulnerabilidade dos amplos “espaços vazios”, as “vias de penetração” que deviam ser eficazmente

aquele

Cristão -

Paulo Coelho. Revista Executivo Plus, p. 5. (Entrevista).

transportes

território. Um país subdesenvolvido, frisava Golbery do An e Silva, é particularmente vulnerável à estratégia do “inimigo

sem contar com a aprovação da população tanto do sul quanto do norte do estado. Quanto

de

rede



“tamponadas”.

298

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Explicita-se, assim, a estratégia de um dos aspectos da poli tica econômica de desenvolvimento após o golpe de 1964, isto é, a ocupação territorial das partes “desintegradas”, de modo a an pliar o modo de produção capitalista prevenindo-se, ao mesmo

tempo, contra a “ameaça comunista”,

com Golbery do Couto e Silva, para realizar estudos de geopolítica

sobre a sentado Escola. sobre o

viabilidade de se dividir o estado. Na ocasião teria apre: suas conclusões afirmativas na forma de uma tese aquela Todavia, quando procuramos a instituição, consultando-a assunto, ela não confirmou a existência de tal texto escri-

to por Geisel. Entre os documentos

obtidos, portanto, não consta

a referida “tese”. Assim, não se pode afirmar que Geisel tenha, do próprio punho, escrito algo sobre a divisão de Mato Grosso. Talvez essa “tese” tenha sido apenas verbalizada: é a única hipótese viável para o assunto, segundo os nossos estudos. Tudo indica também que esse levantamento tenha feito parte dos estudos publicados por Juarez Távora * no governo Humberto de Alencar Castelo Branco (1964-1967) quando ele incumbira Geisel e Golbery do Couto e Silva, de realizá-lo. A esse respeito escreveu Paulo Coelho Machado: Sabíamos que o general Juarez Távora havia enviado o Geisel para estudar a redivisão territorial do País, eclee o Golbery haviam estado aqui estudando as condições para que o Estado fosse dividido. Foi feito um levantamento geopolítico sobre a divisão”.

60 COUTO e 61

O que

SILVA, Golbery

reforça

essa

do. Geopolítica do Brasil, p. 96.

suspeita

também

é o fito

o de O certo é que os dois governos que se SEGUAPA Costa e Silva (1967-1969) e o de Emílio Garrastazu Médici a 9691974).

não

trataram

de

não

haver

qualquer

citação da referida “tese” de Geisel em qualquer das fontes documentais, livros e dissertações que consultei, portanto, se ela existe, até agora não foi localizada.

62 MACHADO, Paulo Coelho. Revista Executivo Plus, p. 5. (Entrevista),

do

assunto.

O

combate

à “subversão”,

Ê

consolidação do regime e a implementação do “milagre Pi lciro” (1968-1974),

Segundo depoimentos que colhemos, quando Ernesto Geisel cursava a Escola Superior de Guerra, estivera em Mato Grosso.

298

FOPOLÍTIGA E SEPARATISMO

que transcorreu em meio ao arrocho Rg

dis« repressão política, eram as preocupações centrais. ás a 1964 de s St uma análise comparativa dos governos imposto 1985 permite perceber que nenhum Asies nto uma sneao estratégica do desenvolvimento do empatia nais E centrada na geopolítica de interiorização e integração Pages como o de Ernesto Geisel. Seu envolvimento com q tema, desde os tempos

da juventude,

ainda tenente, edepois,

na gu

Superior de Guerra, vincula-se diretamente e ideias a JOTadas por Golbery do Couto e Silva e Juarez Távora, aqui menE | cionadas. É fiposso pira dividir Feito presidente, eis que decide separatismo,

desde

as suas

primeiras

manifestações

no

sécu sá

XIX, finalmente deparava-se com a conjuntura nacional proprcia, uma vez que a ideologia do desenvolvimento eira á pelo regime instaurado em 1964, no aspecto a a áreas “desintegradas”, encontrou respaldo no histórico regionalismo pela criação de uma unidade ENIAtivA no sul ne InDO Grosso. Inclusive o fato de o país estar submetido a uma apanh

ra facilitou os intentos estratégicos de Geisel, já que ele pie prescindir de consultas populares sobre a aceitação ou não da

medida, o que teria sido impossível na época anterior Go461964). Jânio Quadros, como vimos, apoiado pela elite ponta & da necessitando dos votos do norte para se eleger preapenio República, rejeitara a petição separatista em 1960. dd presidente imposto, não teria de lidar com esse problema nem mesmo realizar articulações políticas destinadas a viabilizar seu intento. Por isso, sua decisão, embora política, aparentou ter sido algo de pessoal, como expressou Paulo Coelho Machado:

300

REGIONALISMO E DIVISIONI SMO NO SUL DE MATO GROSSO

“Decorrente de uma sua decisão pessoal foi criado o Estado de Mato Grosso do Sul", Na verdade, à resolução não era “pessoal”, pois fazia parte de uma estratégia de desenvolvimento e, para se concretizar, não

se baseou em plebiscito nas duas regiões envolvidas . Na condição

ae presidente, Geisel aliou os propósitos de interiovização: dá país e integração nacional aos anseios divis ionistas existentes secularmente na parte meridional de Mato Grosso. Para tanto, encarregou seus assessores, os ministros do Interior, do Pasteis to e da Justiça, de providenciarem o apara to legal necessário, o

que se pode verificar na Exposição de motiv os assinada por o

e encaminhada ao presidente em agosto de 1977:

eo o início de seu Governo, Vossa Excel ência determinou a realização de estudos, visando a alcançar objeti vos pré-estabelecidos no que se refere à redivisão territorial do País. Três foram as diretrizes fundamentais: a primeira, a elaboração de legisl ação básica, dispondo sobre a criação de Estadose T; erritórios, medida consubstanciada

na Lei Complementar número 20, de 1º de julho de 1974; a segunda corporificada no Capítulo II da referida Lei, estab eleceu ' fusão do

Estados do Rio de Janeiro e Guanabara, medida RaaEtizado e em pus consolidação; a terceira, foi à recomendaç ão de Vossa Excelência no sentido de que se procedessem aos necessários estudos

301

JEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

e

não se falava em divisão no sul de Mato Grosso, exceto, talvez, O jornal Correio do Estado que não deixou de publicar matérias com esse teor. Quanto à Liga Sul-Mato-Grossense, encontrava-se completamente desativada. De acordo com o seu presidente, “depois dos primeiros tempos da luta pela divisão, o problema voltou com força quando o general Geisel assumiu a Presidência da República". Tomando

1 Plano Nacio-

ciência do objetivo anunciado no

nal de Desenvolvimento, remanescentes da Liga tentaram, então, se rearticular para oferecer suporte à decisão de Geisel, bem como para apressá-la. Sobre isso declarou seu estrategista: “[..] Aí tivemos a certeza que ele [Geisel] queria dividir o Estado; ele [Geisel] já havia decidido, então mandou

o ministro do Interior, Rangel

Reis,

em absoluto sigilo, iniciar o processo de divisão”*. Mas se a Liga Sul-Mato-Grossense que deveria estar mobilizada não mais existia, isto não consistiu em óbice para os objetivos de Geisel. Mesmo porque, quanto mais sigilosos fossem os preparativos,

mais

adequados

estariam

à essência

da

ditadura.

Nesse sentido, o governo delegou o estudo do assunto à Escola Superior

de Guerra,

O que demonstra

a visão geopolítica que

presidiu a divisão.

Os estudos a que se referem os ministros Rangel Reis, Armando Falcão e João Paulo dos Reis Vello so haviam transgomilo

Em 1975, a Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG) — Delegação de Mato Grosso promoveu, simultaneamente em Campo Grande e em Cuiabá, o 1º Ciclo de Estudos sobre Segutança e Desenvolvimento no qual um dos

Congresso Nacional, que ocorreu no dia 14 de setembro de 1977

temas propostos para estudo e discussão foi a Divisão PolíticoAdministrativa de Mato Grosso. O grupo de Campo Grande,

objetivando a divisão do Estado de Mato Gross o.

em sígilo até aquela data, isto é, véspera da votação da lei pelo e Poder Executivo estava tão seguro da sua aprovação que o

incomodou

63 MACHADO,

ô

o fato de que exatamente na década de 1970 quase

Paulo Coelho. Revista Executivo Plus, p. 5. ( Entrevista). ME 64 BRASIL. Ministério do PI anejamento. Exposição de Motivos. Brasília, | 24 ago.

coordenado pelo coronel-aviador Octávio Luiz Tude de Souza,

65 MACHADO,

Paulo Coelho.

Os bastidores da divisão.

Executivo Plus, p. 5.

(Entrevista).

66 MACHADO, (Entrevista).

Paulo Coelho. Os bastidores da divisão. Executivo Phes, p. 5-6.

s02

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

era composto de: Hirose Adania (médico), João Carlos Mazinho Lutz (administrador), Francisco Giordano Neto (advogado) Bráulio Secco Thomé (industrial), Assima Abdo (pedag oga Terezinha Silvana Arruda Castro (advogada), Antônio de Pádua Vasconcelos

(engenheiro-agrônomo),

Rogério

Fernandes

Neto

(médico), Eduardo Contar Filho (advogado), Cândido de Castro Rondon (engenheiro), Luiz Carlos Iglesias (economista, relator) e Afonso Simões Corrêa (engenheiro-agrônomo, dirigente)? E a esses nomes com manifestos, listas e pátifleçaa divisionistas do passado, fica evidente a permanência de alguns sobrenomes como também alguma renovação: por outro lado, a la

torna evidente

a relação desses divisionistas com

O cesfrtil

militar instaurado em 1964. Quanto aos divisionistas da década de 1930, é oportuno lembrar que Vespasiano, por exemplo, morrera em

1965:

Eduardo

Andrade,

em

De ADESG mente

Olímpio

Machado,

em

em Campo

Afonso

Simões

Corrêa,

regionais e locais”"º. Partindo da caracterização da área territorial, que representava, aproximadamente, 15% da área total do país, e comparando o desempenho do estado no setor econômico, social e cultural com

as demais

o relatório expõe

da federação,

unidades

a fraca

contribuição econômica do Centro-Oeste e, em particular, de Mato para

Grosso,

o desenvolvimento

nacional.

Por outro lado, consi-

dera a superioridade econômica do sul do Estado relacionando-a a aspiração separatista e à “velha idéia recalcada no sentimento sulista desde 1900 quando se corporificou no movimento chefiado

por João

Mascarenhas,

da Retirada da Laguna,

João

Caetano

Teixeira

Muzzi,

capitão

e Dr. João de Barros Cassal",

de

O que chama a atenção, além do discurso construído em torno dos mesmos “heróis”, é a coincidência de certos trechos

participante

da

idênticos

|

com

sob o prisma dos objetivos nacionais em um plano, de vez que os interesses do Estado como Nação, devem-se sobrepujar aos

aliadas

1968:

1975,

acordo

303

JEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

a outros

documentos

aqui

citados,

como

é o caso

da

favoravel-

seguinte transcrição, a mesma do texto Movimento pró-divisão de MT: de 1959:

afirmando que ela viria desvincular duas populações, afrouxando antigas c permanentes tensões, ou disputas de comando visando à

Sem esposarmos a tese do materialismo, que entende que toda superestrutura ideológica é determinada pela infra-estrutura econômi-

Grande,

os estagiários concluíram

à divisão

sobrevivência de cada uma, mas em Cuiabá, os participantes foram frontalmente contrários à tese da divisão, considerando-a artificial inoportuna e inconvenientes. |

| Na visão do grupo de Campo Grande, o problema, consistia um “jogo de interesses, regionalismo é enfoque emocio nal” Para superar tal concepção, era necessário “enfocar o problema

ca, não fugiremos ao reconhecimento da influência dos fatores econômicos nas origens ideológicas”.

Além deste, há outros inteiramente coincidentes com o referido Manifesto, permitindo supor que houvesse uma identidade de concepção entre um e outro. Aliás, quando os documentos

69 ADESG- Delegação de Mato Grosso. Divisão político-administrativa de Mato 6 G 7 ADES Mato Giso

a

“a Delegação DA l

de

Matot

3 Grosso.

Divisão sdoset

politico-administrat dmini político-a iva

de

68 CORRÊA, Afonso Nogueira Simões. A criação do Estado de Mato Grosso do Sul.

In:

CUNHA, 6 3 Francisco o

Maia

da

( OF Pod RA)

C ampo

G! tENde,2:

[8 100

anos a de e] CORsird Fis; =

Grosso, p. 6. 70 ADESG-Delegação Grosso, p. 26.

de Mato Grosso. Divisão político-aciministrativa de Mato

71 ADESG-Deleação de Mato Grosso. Divisão político-administrativa de Mato Grosso, p. 27.

304

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

pró-divisão são cotejados, desde aqueles emanados pela Liga até aos que antecederam outubro de 1977, fica nítida a constância da mesma linha interpretativa como elo de todos eles, o que indica q assunção da “ideologia do progresso” de uma geração a outra dentro da mesma classe social defensora da divisão. No documento da ADESG, as diferenças econômicas são atribuídas ao passado e à dicotomia dos “estilos de vida” dos “dois povos”, isto é, “cata do ouro, extração da borracha e garimpagem” no norte; “lida do criatório, exploração da erva-mate é da agricultura” no sul. Enquanto “o sul vive da faina agropecuária”, o norte “dispõe de reservas extraordinárias de minérios e seringais nativos”. Ante essa realidade, impunha-se “a divisão física do território” que viria, então, “solucionar uma velha reirega: a errônea constituição geográfica e histórica de Mato Grosso”. Interessante a compreensão dos diplomados da Escola Superior de Guerra de considerar “errônea” à “constituição geográfica e histórica de Mato Grosso”! O relatório da ADESG serviu, mais tarde, de subsídio para o projeto da divisão de Mato Grosso, inclusive os limites geográf icos do novo estado; quando a divisão finalmente aconteceu, eram Os mesmos

que haviam sido sugeridos por ele. O estudo, todavia,

distingue-se dos documentos anteriormente mencionados em um ponto: não faz referência às administrações “de Cuiabá” e nem aos “políticos do norte”, críticas sempre ácidas naqueles textos. Demonstrando,

entretanto, perfeita consonância com os objetivos

de Geisel e reportando-se ao estudo que fizera em parceri a com Golbery do Couto e Silva, admitia que o “destino caprich oso” colocara a divisão nas mãos do presidente Ernesto Geisel:

Hoje o projeto da Divisão do Estado, empurrado pelos ventos elíseos do destino caprichoso, está às mãos de duas autoridades que deve-

305

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

siE : i rão decidir sobre a sua assinatura. Trata-se do Exmo. Senhor pi dente da República, General Geisel, e do Chefe da sua Casa Civil, silva? Ministro Golbery do Couto e Silva”.

Decidida nos altos escalões do Exército e na Peesiência da República, o ministro do Interior encarregou, ensão, a ie

dência do Desenvolvimento do Centro-Oeste GULECO) var as medidas para a divisão e esta, por sua Fez; a soria “a quatro pessoas de expressão de Campo Grande” Coelho

Machado,

Coelho

Machado,

Kerman

Cândido

*, Pau 5 e José

Rondon

o Fragelli, que procederam a minucioso levantamento sobre a Paulo o cão socioeconômica de Mato Grosso, enfrentando, seguridi do

a resistência

governador José

Garcia

Neto

ele, que “não dava qualquer informação”. Ainda de eis com tamesse trabalho, que durou três meses, foi grande e realizado n75 q “sigilo absoluto””. é e % ennas que todo esse “sigilo” só foi possível Anuais circunstâncias do regime militar em que a liberdade de pe e organização estava cerceada. E importante perceber, Fa que

oriunda

a divisão,

desse

contexto,

isto pi a

a

ão participação popular, completou a trajetória ae Fundaç elites divisionista” como demanda que esteve sempre vinculada às no políticas e econômicas do sul de Mato Grasão. Conforme

discutido anteriormente,

á atende

considerando

ssidade de aquilatarmos a fidedignidade da adesão ao abaixo-a nem que nado levado à Constituinte em 1934, podemos afirmar pois, popular. Depois ição pop i nto” cá teve feição iã o ! “movime mesmo nessa ocasião

73 ADESG-Delegação Grosso,

p. 25.

74 MACHADO,

de Mato Grosso.

75 MACHADO, (Entrevista).

Divisão político-administrativa de Mato ma

="

Paulo Coelho. Os bastidores da divisão. Executivo Plus, p. 6. p

(Entrevista).

72 ADESG-Delegação de Mato Grosso. Divisão politico-administr ativa..., p. 28-29.

Machado,

de Ea se

Paulo Coelho.

Os bastidores da divisão,

o

Executivo Plus, p. 6.

306

REGIONALISMO E DIVISÍONISMO NO SUL DE MATO GROSSO |

ã sua

última

etapa de vida, sob o governo

divisão era iminente, a Liga Sul-Mato-Grossense,

Geisel, quando

q

coerente com

o

seu apoio aos governos militares, não estimulou ações populares ou manifestações políticas sobre o assunto. O grupo que auxiliou o governo federal confiava na tática presidencial, tanto que só pensou em reativar a Liga em 1977 ao temer pelo fim do governo Geisel, pois todo o levantamento havia sido encaminhado à SUDECO,

mas a situação não se resolvia. Assim, a sua reativação

Ocorria simplesmente como estratégia de apoio à decisão do gs neral, Jamais se cogitou de submeter o tema da divisão à apreciação e ao julgamento popular. Coube a Paulo Coelho Machado a iniciativa de reativá-la, tal como

relata:

co”, de “manobras de bastidores” populares e a participação direta o que resulta no afastamento das dem política que toma o lugar da

para reiniciar a luta pela divisão, com os mesmos objetivos e os mesmos estatutos, apenas atualizado. Então começamos a fazer

que substituem os movimentos no processo político brasileiro, massas populares na nova oranterior”.

Foi exatamente o que aconteceu no caso da divisão de Mato

Grosso. Todo o processo foi encaminhado pelos assessores mais próximos de Geisel, cabendo à Liga Sul-Mato-Grossense, recémreativada, montar a estratégia que consistia em “provocar Os para

cuíabanos

que

eles reagissem”,

criando,

falsos “atri-

assim,

tos” para “acelerar o processo”. Pequenas querelas é manifestações ocorridas em Cuiabá”, depois de noticiadas, eram enviadas a Geisel

Aí comecei a me preocupar, Nessa época eu afirmava: “daqui a pouco acaba o Governo Geisel e aí não sai mais a divisão”. Então convidei alguns companheiros à minha casa é propus a reativação da ei Sul-Mato-Grossense, que tinha sido desativada em 1934,

307

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

pelos

divisionistas,

para

convencê-lo

de

que,

de

fato,

havia hostilidades entre a população das duas regiões e que elas tendiam a se agravar. Nisso consistiu o “reinício da luta pela

divisão”, ou seja, um “trabalho subterrâneo” e uma

“guerrilha

psicológica” praticados pela Liga Sul-Mato-Grossense, desativada desde 1934,

um trabalho subterrâneo para que saísse a divisão. Montamos a estratégia. Provocamos os cuiabanos para que eles reagissem, pois eles não podiam nem ouvir falar no assunto. A criação de atritos entre os cuiabanos é nós (o sul) era uma

cesso. E pegou [...]. Tudo o que era publicado na Imprensa nós

nuar essa situação, € isso funcionou”.

A divisão concretizou-se, afinal, por meio de “trabalho subde acertos

“pelo alto”, típico procedimento

» des DO 1 MAC

Em seus escritos, Paulo Coelho Machado costumava enfatizar o papel da “classe rural” no progresso e na divisão de Mato Grosso.

De fato, desde as primeiras

manifestações

divisionistas,

na história

política brasileira, verificado, aliás, desde o processo da independência, como bem analisou Caio Prado Junior em Evolução política do Brasil chamando a atenção para o caráter de “arranjo políti-

ç

sul-mato-grossenses e o divisionismo

forma de salada o pro-

mandávamos para o Geisel e dizíamos que não era possível conti-

terrâneo”,

Os grandes proprietários rurais

77 PRADO Jr. Caio, Evolução política do Brasil, p. 5253.

78 Ocorreram dois fatos apenas. Em uma procissão realizada naquela capital pelo padre Pombo, o deputado Milton Figueiredo pronunciou-se dizendo que, . se Geisel assinasse a lei da divisão, estaria cometendo um crime de lesa-pátria

Em outra ocasião, também em Cuiabá, um grupo de torcedores apedrejou um ônibus do time de futebol Operário, de Campo Grande. Quanto a esse último Pau lo

o DE. vel h o '

O, s

b asticiores st d T =

d +A |

div CIVISISã O, -

Executiv Ci Oo

Plus,s

Pp.

6 Ê

episódio, o próprio nada teve à ver com

Panlo Coelho Machado declarou política, ou seja, com a divisão.

acreditar

que

aquilo

3

08

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

essa causa foi encabeçada por representantes dos grandes pro-. prietários rurais do sul do estado. João Caetano Teixeira Muzzi, exemplo, era um dos maiores fazendeiros do sul: João

por

Mascarenhas, além de fazendeiro, influente chefe político sia região, Da mesma forma a geração de divisionistas da década de pu

originava-se

dessa classe, bem

como

a das décadas

poste-

309

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

ção

no sul e do sul. Como

bem

definira

no

Oclécio

passado

Barbosa Martins, “o sul possui tudo, menos administração”?. A questão objetiva da superioridade econômica do o norte e dos condicionantes geográficos getou, ao tempo, uma situação propícia ao regionalismo, que só resolveu. É claro que o divisionismo, expressão extrema

sul sobre longo do a divisão do regio-

tores na qual se incluía o próprio Paulo Coelho Machado. Tal afirmação baseia-se na análise de todos os signatários das listas

nalismo, poderia ou não se efetivar, ou seja, ele era apenas uma possibilidade. E só se realizou porque teve a sorte de coincidir

abaixo-assinados

com a determinação geopolítica do regime militar. Portanto, podemos dizer que a obsessão dos grandes fazendeiros do sul se

e demais

documentos

aqui mencionados,

a

mostram exatamente esse vínculo dos grandes fazendeiros com o divisionismo, aspecto sobre o qual forneceremos mais detalhes no livro que sucede a este. Podemos afirmar que q isolamento em que vivia uma região em relação à outra fez com que se formasse no sul uma classe economicamente poderosa que rivalizava com a do norte e que acabou sobrepujando as oligarquias tradicionais daquela região. Economicamente mais forte, vinha tentando, particularmente após 1930, despojar do aparelho: de Estado os grupos que monopolizavam “o governo de Cuiabá”. O que passou a ocorrer foi uma inadequação entre a condição de superioridade econômica dessa classe situada geograficamente no sul e o fato de ela não dispor de um aparelho de Estado próprio, isto é, naquela região de Mato Grosso, pois mesmo quando os sulistas conquistaram maioria na Assembléia Legislativa e passaram a exercer mais vezes que os nortistas a chefia do Executivo, isto não lhes foi suficiente porque, na lógica do separatismo, os recursos financeiros do sul continuariam canalizados para Cuiabá. Não bastaria, portanto, que e srupos economicamente dominantes do sul chegassem a aa cipar do governo “do norte": para eles, teria de existir um governo no sul. Um governo que finalmente adequasse a condiião de classe economicamente dominante desses grupos à de classe dirigente, já que eles tinham tudo, exceto a direção política do Estado, isto é, O aparelho de Estado, o conjunto de toda a administra-

concretizou “na última hora”, principalmente se considerarmos que esse regime, com

o qual a maior parte das elites políticas

mato-grossenses estava de acordo, vinha promovendo a integração

regional. Afonso Simões Corrêa, por exemplo, assim relaciona o

“movimento de 64” ao desenvolvimento de Mato Grosso: Além da contribuição da Usina Jupiá, é justo reconhecer que o Estado de Mato Grosso foi bastante beneficiado pelos governos militares, com o lançamento de vários programas de desenvolvimento, tanto de infra-estrutura quanto de incentivos às atividades econômicas.

Além de programas de investimentos em estradas, energia elétrica e saneamento básico, como o Prodoeste, foram lançados e implementados, com significativos recursos financeiros, outros programas de incentivo às atividades produtivas do Estado, especialmente à agropecuária. [...] Não se pode negar que Mato Grosso nunca foi tão beneficiado com programas de financiamento, a maioria

com crédito subsidiado, como nesse período”.

Tudo indicava que, com esses investimentos e com a con-

cordância da elite política das duas regiões do estado com

o

4. 709 MARTINS, Océcio Barbosa. Pela defesa nacional: estudo sobre redivisão..., D.

80 CORRÊA, Afonso Nogueira Simões. A criação do Estado de Mato Grosso do

Sul. In: CUNHA, Francisco Antônio Maia da. (Org.) Campo Grande: 100 anos de construção,

p. 69.

310

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

regiao militar, a causa divisionista tivesse perdido a sua razão de existir e que à polarização norte-sul estivesse com os seus dias contados. | Como vimos, na trajetória regionalista, a rivalidade passou

a ser estabelecida

mos que, perções

em termos de sul contra

na verdade,

o estado

territoriais distintas:

de Mato

norte, embora

Grosso

sai bai

possuía

o sul, o centro e o norte.

três

Mas,

na

simplificação da disputa, os sulistas passaram a Elbie ias (0) termo norte como sinônimo de Cuiabá. É compreensí vel, pois na medida em que essa cidade vinha mantendo, desde a Colônia, a posição de centro político decisório, as sucess ivas vitórias governistas sobre o separatismo do sul acabaram fortalecendo, nos grupos dominantes sulistas, o desejo de eles próprios possuírem a sua máquina político-administrativa. Em outras palavras, não bastaria apenas que a classe dominante do sul fosse dirigente: ela teria de ser dirigente no sul, na região à qual pertencia e se sentia pertencente. Esse interesse, inicialmente implícito, começou a ser aliado à representação que a elite sulista criou e difundiu sobre o centro-norte, chama do simplesmente de “norte”. É o cuiabano à imagem-chave, se assim se porte dizer, da polaridade que as elites sulistas elabor am pia distinguir a sua própria identidade cultural. É como se fosse

preciso

construir

uma

figura

emblemática,

símbolo

dos proble-

mas vividos no sul, e essa figura passou a ser o cuiaba no ado”,

segundo

a ideologia

divisionista.

Assim,

às

“atra-

Rondisses

objetivas (superioridade econômica, maior “progresso” do sul é outros), aliaram-se as subjetivas, entre as quais, o sentimento de “não pertença” difundido pelas elites sulistas de que “a população do sul” não pertencia ao mesmo universo cultural do “cuiabano”. Nesse aspecto é importante considerar mos o estudo enbie o conceito de região de Pierre Bourdieu, para quem “não só as propriedades ditas 'objetivas' (como a ascend ência, o terri-

tório, a língua,

a religião, a atividade econômica

etc), mas tam-

Fa

311

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

bém as propriedades ditas 'subjetivas' (como sentimento de pertença das

etc)

constituem

o universo

de

representações

construí-

noi

Especialmente após 1932 esse sentimento de não pertencer a Cuiabá, de já constituir o sul, de fato, um estado distinto, aparece em todos os manifestos, discursos e obras redigidos sobre o separatismo. Consumada a divisão, o presidente da Assembléia Legislativa de Mato Grosso, deputado Paulo Saldanha (ARENASul), a propósito, discursou enfatizando a superioridade numérica

da representação parlamentar do sul e as peculiaridades culturais que distinguiam expressou ele:

e outra região de Mato

uma

Grosso.

Assim

se

Mato Grosso já estava dividido há muito tempo € a separação que está sendo feita agora é apenas de direito. O sul tem maioria no atual

legislativo matogrossense [...]. Sul e norte são completamente diferentes, a começar pela fauna, flora, além ta é “paulista” enquanto que o nortista é é diferente, existindo a brincadeira de que O sul está muito mais ligado a São Paulo

do próprio homem. O sulisamazônico. Até a linguagem no norte se fala o cuiabanês. do que a Mato Grosso e com

a separação estes laços vão se acentuar ainda mais“,

A presidência da República, da mesma forma, ao publicar a lei da divisão, elaborou um arrazoado justificando que “de fato, os estados já eram dois". A necessidade de se estabelecer a distinção cultural “dos dois povos” vinha de longe e nesse esforço predominava a forte convieção da superioridade empreendedora do sulista, historicamente identificado por eles próprios, com o espírito desbravador dos bandeirantes paulistas. Transparece, in-

81 BOURDIEU, Pierre, O poder simbólico, p. 120. 82 Um

mato-grossense

para governar

MT

do sul,

Correio do Estado,

Campo

Grande, 6 set. 1977, p. 2. 83 BRASIL. Assessoria de Relações Públicas divisão de Mato Grosso, out. 1977, p. 7.

da Presidência

da

República.

A

312

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

clusive, o sentimento de que os sulistas, compostos de “filhos de outros estados”, eles sim seriam os verdadeiros descen dentes da-

queles desbravadores. A propósito, a identificação do sul de Mato Grosso com o pioneirismo das bandeiras já estava explícita em texto de 1934, redigido por Arlindo de Andrade, que compôs o governo constitucional de Vespasiano Barbosa Martins, em 1932; Direito à terra, a governá-a, a dirigi-la, a pensar nos seus problemas, quem deve ter? Quem expulsou o índio e firmou a brasili dade da terra? Quem traçou os caminhos, vingou os rios, abriu florestas? [a Quem planejou e construiu a Noroeste e quantos morrer am ás suas

margens? [...). Quem fez a imprensa? Quem fez as industrias? [.. ]. Quem

ilustra os povos? [...]. Quem fez a Feira do gado? [...] Na própria guerra do Paraguai, quem corre à fronteira, varando sertões descon hecidos? A primeira expedição sagrada, que Taunay eterniza, mineiro s, paulistas, baianos. Quem lhes abre caminho Paraguai a dentro? Lopes. O guia Lopes, paulista, um símbolo imortal da terra sulista.

Sobressai nitidamente a relação entre o direito de “dirigir ” e as ações arrojadas dos que povoaram e “fizeram” o sul de Mato Grosso. A partir dos intentos divisionistas de 1932 e, particularmente, nos momentos que antecederam a divisão, em 1977. são nítidas as ideias sobre a incompatibilidade desses “herdeiros dos bandeirantes” quanto à aceitação do “ governo planta do em Cuiabá”.

Assim,

a

rejeição

não

se

manifestava

contra

Mato

Grosso,

mas

contra o governo “de Cuiabá”, que, segundo a Liga, não encaminhava os destinos mato-grossenses na direção do que deveria ser o modelo do desenvolvimento, isto é, do “espírito empre endedor” herdado dos bandeirantes. Esse direcionamento, pelo prisma regionalista, deveria ser dado pelos mato-grossenses “senuínos”, os descendentes dos antigos desbravadores paulist as: os matogrossenses do sul. Tal argumento, porém, é questi onável e só mostra o grau de rivalidade e disputa entre as duas regiões , uma 84 ANDRADE,

Arlindo de. Erros da federação,

p. 65-66.

313

GEOPOLÍTICA E SEPARATISMO

vez que Cuiabá, sim, foi fundada pelos Paneieibantes as asa o sido a formação histórica sulista muito mais tardia e q as nar que para também com os paulistas, residia aí o motivo regiões disputassem entre si à condição de representarem melhor | = a obra dos bandeirantes. quer da a-se originav O tom político da petição divisionista tão econômica. Dirigir o aparelho de Estado era paete quan A aos sulistas: eis o que transparece na ideologia do iai classe economicamente dominante do sul não aceitava ser enono dinada

ao

“governo

plantado

em

Cuiabá”,

e ua gua

obsessão,

construiu o discurso da divisão ancorado na diRAção pu so povo já desenvolvido (progresso) daquele que ainda E rea a o seu processo civilizatório (atraso). Em outros termos: O pn ainda não havia sido totalmente integrado ao papos de ne capitalista, o que era encarado como não pisilização, into E (o) prisma da geopolítica de Golbery do Couto e Silva ei Sad objetivos regionalistas dos grandes proprietários rurais sul-Mato cena efetivada a divisão e finalmente criado Mato Gbos o so do Sul, de que maneira essa classe irá encaminhar as gentios dessa nova unidade federativa? Uma vez apartada do “governo E plantado em Cuiabá” e da “mais baixa política que por pn praticava na República”? como ela própria irá ata a nova unidade federativa? O segundo livro tratará da relação entre grupre pos dirigentes sul-mato-grossenses, prensa iara

em que medida eles se distinguiram dos

Hegríais po ea

Cuiabá”, aqueles que tinham “nas suas nB6 upa governança” e a usavam “tão mal.

mãos

LIGA

À

E SUL-MATT O-GROSS35ENSE.

remembiéia

Constituinte.

In:

a maquina

da

peca a o Provisório do Governo nacional, defesa Pela Oclécio.

sab Mani ifesto ão chefe

MARTINS,

;

E E , p- 95. 28. p. Grosso... 86 LIGA SUL-MATO-GROSSENSE. A divisão de Mato

314

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO enosso”

Por enquanto atenhamo-nos à trajetória que explica como o sul do antigo Mato Grosso veio a se tornar Mato Grosso do Sul. Em síntese: uma trajetória na qual o regionalismo se distinguiu como elemento intrínseco à formação histórica do sul e que evoluiu para a forma extrema: o divisionismo. Nessa passagem, sempre encabeçada pelos grandes fazendeiros do sul, a causa nem sempre postulou a divisão pura e simplesmente, pois, quando Campo Grande se tornou a “capital econômica” de todo o estado a década de 1940, os divisionistas cogitaram nada mais nada menos do que a transferência da capital, reivindicação esta que jamais seria viável. Cada vez mais restrito à elite pecuarista de Campo Grande, o divisionismo passou, então, a ser identificado como uma causa dos campo-grandenses, tendo se originado daí a rivalidade com Cuiabá, Quando, porém, era menos provável que a divisão acontecesse, eis que ela chegou como um presente para essa elite que, basicamente desde o início dos anos de 1960 não mais divulgava os ideais separatistas. Exatamente quando a política econômica dos governos militares iniciava a integração regional capaz de pôr fim ao divisionismo aconteceu a inesperada divisão de Mato Grosso.

Capitulo

8

Mato Grosso do Sul: uma nova estrela na federação A criação de Mato Grosso do Sul:

uma causa sem partido fastada das articulações sigilosas ocorridas nos bastidores : da divisão, a população do sul de Mato Grosso foi surpreendida com a notícia do desmembramento do estado. Concluídos os estudos pela equipe governamental, e votado o projeto de Lei, em setembro de 1977, pelo Congresso Nacional, o presidente Geisel sancionou, no dia 11 de outubro de 1977, a Lei Complementar Nº 31 que criou Mato Grosso do Sul. Na solenidade discursou: Foi preocupação do meu Governo abrir caminho no sentido de uma melhor divisão territorial do País, que considero de suma necessidade. Necessidade decorrente, em primeiro lugar, de uma imposição geográfica, decorrente também do desenvolvimento do País e, sobretudo, da ocupação, da utilização de novas áreas que até agora jazem apenas em estado potencial. Mas decorrente também de uma necessidade política, tendo em vista um melhor equilíbrio da Fede-

ração do dia de amanhã. Sei que a divisão territorial do País sempre

constituiu um problema complexo, difícil de abordar em conseguência dos naturais sentimentos de regionalismo, e também da tradição

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

316

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

histórica, que não pode absolutamente ser desprezada [...]. O que o meu governo fez foi desbravar o terreno e iniciar a solução do problema. Se, de um lado, conseguimos fazer a fusão dos antigos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, realizamos agora a separação do Mato Grosso do Sul [...]. A tarefa que temos pela frente é imensa, vamos construir praticamente dois Estados: Mato Grosso do Sul, que passa a ter vida política, e o Mato Grosso do Norte, que vai se defrontar com novos problemas [...]. Mas a imensidão da tarefa não nos deve desanimar, ao contrário, ela constitui um desafio [...]. Tenho em mim seguras esperanças de que vamos construir dois grandes futuros Estados do Brasil".

O estado-sonho tornava-se, enfim, estado-realidade. Provavelmente, porém, o sonho não era de todos. A população, privada da participação, mostrou, com o seu silêncio, um misto de indiferença e aprovação. Uma parte, de fato, era favorável à divi-

são do estado, mas isso nunca foi mensurado. O que os jornais registraram foi a “passeata monstro”, comemorar o acontecimento. tenha

Embora

ocorrido

em

Campo

a manifestação,

Grande,

para

ela foi a única

e,

assim mesmo, depois do ato consumado. Em todo o processo, não houve participação popular. A maioria nem sequer soube do envio do projeto de lei ao Congresso Nacional e da sua aprovação

317

ciado panfletos comemorativos e quando foi aprovada a lei nós saímos em caravana comemorando com fogos de artifício. Mas a população não sabia de nada e, portanto, não entendia. Quando passávamos, gritávamos apenas “divisão, divisão!”. Foi uma festa só”,

Ele reconhece, portanto, que na ocasião da votação da lei que dividiu Mato Grosso, “a população não sabia de nada”, apesar de aquela ter tramitado

no Congresso

Nacional. Ocorre que

a

essência do regime autoritário, que impôs um ato sem consulta prévia e sem qualquer discussão, fez com que uma lei dessa envergadura fosse aprovada sem mobilização popular. Ele admite também

que

“as idéias separatistas ficaram latentes

até chegar

divisão, que acabou vindo quase que de cima para baixo”. Apesar disso, após a edição da lei que criou Mato Grosso do Sul,

o deputado federal Valdomiro Gonçalves (ARENA-MT) discursou no Congresso Nacional preocupado em “fixar uma verdade” eis que “aqui e ali [...] surgem políticos ou não políticos buscando reivindicar para si mesmos tanto a paternidade da idéia quanto a da conquista agora efetivada”. O seu pronunciamento tinha a finalidade de definir a autoria da divisão de Mato Grosso, que,

segundo ele, era da “entidade anônima e coletiva que se chama povo”:

em outubro. A

A verdade pura - a verdade nua e crua - Sr. Presidente, Srs. Deputa-

surpresa foi quase geral. Eis, a propósito, o depoimento de Paulo Coelho Machado confirmando o caráter sigiloso do processo desencadeado por Geisel e a própria exclusão do povo, que “não sabia de nada”:

dos, é que a criação do Estado de Mato Grosso do Sul só tem um dono e um autor, essa entidade anônima e coletiva que se chama

em setembro,

só vindo a saber do ato consumado

O povo quase não tomou conhecimento porque a coisa tinha que ser meio sigilosa [...]. Quando a lei da divisão foi enviada ao Congresso Nacional para votação nós nos reunimos no meu escritório, na Rua 15 de Novembro, para acompanhar pelo rádio. Eu já tinha providen-

povo! Foi a alma das ruas, o espírito cidadão, a consciência popular, enfim, que gerou e viu frutificar a idéia [...]. Foi a sensibilidade do

MACHADO,

Paulo Coelho. Entrevista. Campo Grande, 10 jan. 1996.

3 MACHADO, Paulo Coelho. A participação da classe rural na lula pela divisão, [).:224

| GONÇALVES,

Valdomiro.

Discurso proferido na sessão de 31 de outubro de

1977. Câmara dos Deputados. 1 GEISEL, Emesto.

Pronunciamento. Brasília, 11 out. 1977,

a

1978, p. 79.

Centro de documentação e informação. Brasília,

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

318

VATO GROSSO DO SUL: UMA MOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

319

neira e brilhante, no alto do mastro aquela conquista! Mato Grosso do

a alegria, ou mesmo - e principalmente aí - a tristeza dos homens que estão em Mato Grosso não seja hoje embasada de um lado é aceita de outro, após uma consulta popular, da qual deveriam ter participado todos os mato-grossenses. Aí os nossos irmãos do Norte

Sul é, assim, única e exclusivamente, a vitória da consciência popu-

estariam felizes ou, pelo menos, aceitariam o fato conscientes de

lar, entendida pela inteligência de estadista do presidente Geisel é

que houve uma decisão de maioria”.

povo, foi a sua argúcia, foi o seu indormido desejo de independência, de liberdade e de progresso que conduziu a bandeira da divisão

racional do nosso Estado de Mato Grosso do Sul e que plantou, alta-

tornada Lei pelo patriotismo do Congresso Nacional!,

“Vitória da consciência pressões

que

soam

como

popular”,

ficção

ante

“alma das ruas” são exum

processo

transcorrido

por meio de acertos sigilosos! A esse propósito, lamentou a ausência de participação popular, o deputado federal Antônio Carlos de Oliveira (MDB-SuD, no dia 11 de outubro de 1977, reclamando

a necessidade de ter havido plebiscito para que todos os matogrossenses tivessem opinado sobre a divisão. Assim discursou no Congresso Nacional o maior nome da oposição sul-mato-grossense da época, assinalando que “os nossos irmãos do norte” ressentiam-se, com razão, contra a “decisão arbitrária”: Esse evento [...] provavelmente, para nós, desta geração, seja, em termos regionais, o maior acontecimento. Mas também não podemos esquecer que no Norte de Mato Grosso, na eterna Cuiabá, prin-

cipalmente, conterrâneos nossos de até três horas atrás, mas irmãos nossos por toda a vida, de hoje e de sempre, estão tristes porque o Governo Federal, os homens que compõem o governo, decidiram isso sem uma consulta popular - uma consulta popular da qual nós, do Sul, não temíamos

um

resultado adverso. Pelo contrário, desta

tribuna mesmo chegamos à pedi-ta. Os nortistas, com toda razão, reclamam contra a decisão arbitrária, que não lhes permitiu sequer emitir opinião, tentar salvar, como pretendem eles, a unan imidade, a

integridade da história de Mato Grosso L...], E é pena que a festa, que

5 GONÇALVES,

Valdomiro. Discurso proferido na sessão de 31 de outubro de

1977. Câmara dos Deputados. Centro de docrimentação e informação. Brasília, 1978, p. 79-80.

Tinha razão Antônio Carlos de Oliveira: a divisão foi um ato traumático para o norte e ilustra melhor o fato de ela ter sido fruto de um ato autoritário do que a sua recepção no sul. Isto porque, obviamente, quem mais perdeu foi o norte. Mas a sua elite políti-

ca, tal como a do sul, não estava preocupada com o fato de a população ser excluída do processo, conforme veremos, a comecar pelo próprio governador. Quando da passagem de governo de José Fragelli (ARENA-

Sul) para José Garcia Neto (ARENA-Norte), tudo indica que este aceitou

o

cargo

ciente

de

que

no

seu

governo

ocorreria

O

desmembramento do sul. Tanto é assim que, na eleição indireta que se realizaria a 3 de outubro de 1974 para a sucessão de José

Fragelli, a ARENA, partido de sustentação da ditadura, organizara uma lista composta de dez nomes a ser submetida à apreciação

de sua respectiva Comissão Executiva, para a designação de um deles a governador. Desse rol, os seis primeiros eram do sul e os outros quatro do norte: Paulo Coelho Machado, Rachid Saldanha Derzi, Antônio Mendes Canale, Ialívio Coelho, Marcelo Miranda Soares, Kerman José Machado, Gastão Miúller, Gabriel de Matos Miller, Nilson Constantino e Enio Carlos de Souza Vieira. Posteriormente, veio de Brasília a solicitação para que fosse

incluído o deputado José Garcia Neto, um dos vice-líderes da ARENA,

o que provocou

a desistência do último nome

da lista

6 OLIVEIRA, Antônio Carlos de. Mato Grosso do Sul ou a realidade de muitos sonhos. Câmara dos Deputados. Centro de documentação e informação, Brasília,

[1 out 1977, p. 355.

320

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO,

para que fosse efetuada a sua substituição pelo nome de José Garcia Neto. O primeiro nome, Paulo Coelho Machado, era o secretário de Agricultura do governador José Fragelli e o seu preferido para ocupar o cargo; o último, por razões estratégicas, era o favorito do presidente. Desse modo, José Garcia Neto (ARE-

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

321

face disso, o deputado Célio Borja sugeriu ao presidente o nome de José Garcia Neto, político de grande influência no norte, tendo sido o deputado mais bem votado na última eleição, e que, portanto, não despertaria sanções contra si pelos opositores da divisão. A sua indicação certamente se respaldava no fato de

NA/Norte) foi o escolhido como último governador de Mato Grosso

que ele havia sido informado, quando da fusão Guanabara-Rio

uno”, pois, durante a ditadura, suspensas as eleições para gover-

de Janeiro, que a próxima medida, de suma importância quanto

nadores,

prefeitos das capitais e de ci-

ao redesenho geopolítico nacional, seria a divisão de Mato Grosso

dades consideradas como área de segurança nacional, o presidente indicava o nome do governador e o submetia à votação de um Colégio Eleitoral composto nas Assembléias Legislativas dos estados. Tudo previsto no Ato Institucional nº 2. A explicação do porquê fora ele o nome preferido por Geisel veio tempos depois, segundo relatou Pedro Valle, que compôs o secretariado desse governo e acompanhou o desmembramento

e que, portanto, tendo sido previamente comunicado, e sendo da base governista que já havia concordado com o processo semelhante (a fusão) sem consulta à população, ele não se oporia à divisão.

presidente

da República,

Entretanto,

já governador,

em

abril

de

1977, José

Garcia

Borja (ARENA/GB), líder da maioria na Câmara dos Deputados, confidenciou aos parlamentares que, resolvido esse problema geopolítico, o próximo passo seria a divisão de Mato Grosso.

Neto teria endereçado a Geisel um documento mostrando a inviabilidade da divisão, o que não mudou em nada a decisão presidencial. Naquele mesmo mês, estando em viagem ao sul, exatamente na cidade de Campo Grande, ele teria sido comunicado pelo chefe da Casa Civil David Balaniuc de que a decisão presidencial já estava tomada e que ele tivesse cautela nas suas declarações à imprensa, ao que teria declarado: “Há 15 minutos eu era contra, mas agora vesti a camisa do presidente e já sou a favor” 8. No dia 2 de maio, chegou a Campo Grande a notícia de que o ministro do Interior Rangel Reis entregara ao presidente os

Depois, quando Geisel recebeu a lista, percebeu-se em dificul-

estudos que lastreariam a divisão. O jornal Diário de Cuiabá noti-

dades para proceder a escolha, inclusive porque a maioria dos nomes era do sul, que seria desmembrado de Mato Grosso. Não poderia ele, portanto, nomear governador um político da região que seria beneficiada pela divisão, pois isto provocaria reações negativas na região contrária quando ela fosse anunciada. Em

ciou: “Garcia Neto deveria ter te da República tão logo foi para evitar a desintegração do Assim, basicamente, de secular do divisionismo teve o foi encaminhado ao Congresso

do estado quando José Garcia Neto deixou o cargo para concorrer

a uma vaga de senador tendo assumido o vice, Cássio Leite de Barros (ARENA-Sul). Ocorrera estados

da

que,

em

Guanabara

1974, e do

quando Rio

foi realizada

de Janeiro,

a fusão

o deputado

dos Célio

7 O vice-governador Cássio Leite de Barros C(ARENA-Sul) finalizaria esse último governo de Mato Grosso uno, pois José Garcia Neto deixou concorrer a uma vaga de senador nas eleições de 1978.

o cargo

para

entregue seu mandato ao presideninformado que nada poderia fazer território mato-grossense””. abril a outubro de 1977, a causa seu termo: o anteprojeto da divisão Nacional em agosto e submetido à

5 VALLE, Pedro. A divisão de Mato Grosso, p. 50. 9 Diário de Cuiabá, 10 maio, 1977, p, 2.

322

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

votação em 14 de setembro de 1977 quando compunham a banca-

da federal de Mato Grosso os seguintes deputados: Mato Grosso - Deputados Federais (1977) Sul

Vicente Vuolo (ARENA)

Ubaldo Barém (ARENA)

Nunes Rocha (ARENA)

Walter de Castro (MDB)

Gastão Miller (ARENA)

Antônio Carlos de Oliveira (MDB)

Benedito Canellas (ARENA)

Quanto aos senadores, lembrando que, na data da divisão de Mato Grosso, Filinto Múller já havia falecido (1972), Mato Grosso contava com Italívio Coelho, Antônio Mendes Canale e Rachid Saldanha Derzi, todos do sul e da ARENA”, o que confirma a força política da sua elite econômica, conforme já citada. Seria estudo, caso vivesse o então se-

nador Filinto Miller, acompanhar a sua posição uma vez que, como mostramos, ele havia sido um dos antidivisionistas da década de 1930. Mas, como à ARENA e apoiando a ditadura militar, talvez não se “Mato

a mesma

Lei Complementar

Nº 31, que o dividiu, criou o

estado de Mato Grosso do Sul. Uma amostra das matérias publicadas no jornal O Estado de Mato Grosso ilustra a posição governista adotada pela elite política em Cuiabá no curto período transcorrido de maio a outubro de Lo:

Multidão recebeu Garcia Neto no aeroporto “Com a presença de todo o secretariado foi realizada

Elaborado pela autora com dados do Prodasen

nessa questão, dos mais renhimorreu filiado mais defendes-

uma

reunião

em

que

o governador

Garcia

Neto

ontem

relatou

sua

estada em Brasília e discorreu sobre a sua audiência com o presidente da República, quando foi decidida a divisão de Mato Grosso [...]. Erroneamente alguns órgãos de imprensa procura"am situar a reação dos cuiabanos no caso do desmembramento. uma injustiça cometida contra Cuiabá, seu povo e uma

Mais

tradição de 258 anos de existência e descortínio dos fatos [...]

Cuiabá está mais do que acostumada a servir à Pátria” (6 de maio de 1977);

Desmembrar para desenvolver

a sua súbita morte, o

“O governo Federal decidiu desmembrar o atual Estado de Mato

Grosso passou a contar com as três cadeiras no norte com nenhuma. Para aquilatarmos a expressão política dessa bancada, basta observarmos que Italívio filho de Laucídio Coelho, talvez o fazendeiro mais de todo o estado; e Rachid Saldanha Derzi, além de

Grosso para estimular o desenvolvimento das duas áreas” (12 de maio de 1977)

Grosso

sul de Mato Senado e o econômica e Coelho era emblemático

323

Com essa representação política fortemente enraizada no sul e com ampla maioria governista, Mato Grosso se viu dividido no dia 11 de outubro de 1977. Sancionada pelo presidente Ernesto Geisel,

Norte

Valdomiro Gonçalves (ARENA)

muito interessante para o nosso

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

unido”. O fato é que, com

se incluir entre os maiores proprietários rurais do sul, era reco-

Desenvolvimento e segurança

“Desde que o desmembramento se consumou para dar oportunidade ao surgimento de um novo estado, o de Campo Grande, este jornal passou a encarar o problema do desenvolvimento regional

nhecido pela excelência de seu gado nelore.

como

10 CONGRESSO

Garcia: um entrelaçamento maior depois do desmembramento “O governador Garcia Neto, em Três Lagoas, presente à inauguração da escola Louremberg Nunes Rocha, disse que o desmem-

Nacional. Ata da 166 sessão conjunta, em

1977. Brasília, set. 1977. p. 2374-2435.

14 de setembro de

uma responsabilidade maior" (13 de maio de 1977)

d24

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

bramento territorial do Estado não significa uma divisão, mas o entrelaçamento cada vez maior do Norte com o Sul” (16 de junho de 1977)

Concluímos dessa consulta que: |—o

nas mãos

de Geisel

os subsídios

a divisão, mas como era ligado ao governador José Garcia Neto e

se tornou irreversível:

apresentados

2 — para justificar a aceitação do governador José Garcia Neto, logo que a divisão foi anunciada, enaltece “a nobreza de caráter do cuiabano” e passa a editar matérias sobre o “apoio é solidarie-

pelo governador à elaboração do ante-projeto de criação de um Estado [...]. Ao deixar Brasília, o governador Garcia Neto declarou: “Mato Grosso vai dar um filho ao Brasil e que no momento

dade

estão sendo preparadas as condições para um parto normal, a fim de que nasça um garoto robusto” (14 de agosto de 1977)

a Garcia”;

à — justifica e aceita à decisão de Geisel, transmudando o discurso em defesa do “desenvolvimento regional”, reproduzindo discursos de Geisel e de Golbery: 4 — inicialmente (maio-junho) designa o processo de “desmembramento” e não de divisão, pois o fato “já consumado” decorrera de razões estratégicas para estimular o desenvolvimento dos dois

Desmembramento: empresários apóiam Garcia “O governador recebeu a visita de uma delegação de dirigentes de classe, empresários [..] para prestar solidariedade acerca da questão do processo divisório, ora em andamento na esfera federal” (21 de agosto de 1977); Hoje no Congresso a mensagem

jornal O Estado de Mato Grosso não esperava e não desejava

sempre fora governista, demonstrou ser favorável quando o fato

Novo Estado: com Geisel as sugestões de Garcia “Já se encontram

325

estados.

É sutil,

mas

eficiente

essa

mudança

de

nomenclatura,

pois no termo “desmembramento” fica implícito que Mato Grosso perdera uma parte de seu território sem ser consultado, portanto, o governo estadual não poderia ser responsabilizado; 5 — O jornal registra pronunciamentos de deputados do norte dizendo-se felizes por não ter sido acrescido “do Norte” ao nome

de novo Estado

“A lei deverá ser aprovada até 3 de outubro de 1977 e MS instalado em primeiro de janeiro de 1979” (24 de agosto de 1977)

Congresso Nacional aprovou criação de Mato Grosso do Sul “Aprovou ontem em sessão noturna o projeto de lei [...] quatro oradores discursaram: Célio Marques Fernandes, Evandro Carreira, Gastão Miller, Jerônimo Santana” (15 de setembro de

de Mato Grosso. Da mesma

forma, registra crítica do deputado

estadual Paulo Saldanha (sul), insatisfeito com o nome “Estado de Campo Grande”, primeira denominação dada à tegião que foi desmembrada. Fica implícita a defesa do nome “Mato Grosso” para as duas regiões.

1977) Ernesto Geisel assinará a lei criando o novo estado

“Em solenidade [...] o presidente assinará hoje a lei que criou o

No Congresso

Nacional, a sessão que aprovou

a criação de

Mato Grosso do Sul, conforme mencionada, ocorreu no dia 14 de

novo estado de Mato Grosso do Sul” (11 de outubro de 1977);

setembro e nela fizeram uso da palavra os seguintes parlamenta-

Ernesto Geisel sancionou a lei criando o novo estado “Sancionada ontem a lei que criou Mato grosso do Sul. Na oportunidade, discursaram o ministro Rangel Reis é o presidente Ernesto

res: Gastão

Múller (ARENA-MT):

“Nesta data histórica

para o

Brasil marca-se uma nova era no desenvolvimento brasileiro, com

Geisel” (12 de outubro de 1977). “

segurança, através da hábil política da Revolução, atualmente sob

326

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

a liderança

de notável homem

público

que,

com coragem,

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

civis-

ções interessadas. Após essas intervenções, o presidente do Senado Petrônio Portella colocou em discussão a redação final da Lei Complementar sobre a criação de Mato Grosso do Sul e, não havendo inscritos para discutida, foi colocada em votação, Vale registrar que se tratou, ainda mais, de votação simbólica, por acordo entre os dois partidos existentes (ARENA e MDB). Depois disso, foi encaminhada à sanção presidencial. Quanto à sessão do dia 11 de outubro, data em que foi sancionada a lei da divisão, discursou Antônio Carlos de Oliveira

mo e visando o Bem Comum, vai tornar realidade o sonho dourado de milhares de brasileiros, isto é, implantar o novo Estado da Federação, o grande Estado de Mato Grosso do Sul, futuro celeiro do Brasil, ao lado de Mato Grosso e de outros Estados brasileiros. (..). Na prática, Sr. Presidente, Srs. Deputados, a separação de Mato Grosso em duas partes bem distintas era e é evidente, palse diz vulgarmente

Célio Marques Fernandes (ARENA-RS):

[...)"!!,

“Esse projeto fará

com que naquela região Centro-Oeste da nossa Pátria surjam dois Estados de grande significação: o do Notte e o do Sul. Digo isto com orgulho para nós gaúchos, rio-grandenses do Sul, nosso Estado esteve presente na campanha, desde os seus primórdios, para o desmembramento do sul de Mato Grosso. O rio-grandense

do sul, Srs. Congressistas, como um dos pioneiros do povoamen-

to dessa Região, prestou valiosa contribuição [..]. O gaúcho que defendeu o seu Estado nas revoluções que vêm de 1870 e depois em

1910

e 1915,

agora

se

orgulha

imensamente,

antes

de

ser

gaúcho, ser brasileiro, e, agora, mato-grossense do Sul". Vicente Vuolo (ARENA-MT):

de de representante nesta o referido projeto ora em mentos em várias outras Apoiando o projeto,

“De pleno acordo, na qualida-

Casa da Bancada de Mato Grosso, com discussão, conforme nossos pronunciaoportunidades [...]'3. Vicente Vuolo fez incluir na Ata, como

anexo, um estudo sobre questões litigiosas envolvendo Mato Grosso

e Goiás. Nenhuma

1 CONGRESSO

palavra sobre a falta de consulta às popula-

Nacional, Ata da 166 sessão conjunta, de 14 de setembro de

ME

visível a 'olho nú”, como

(MDB-MT), concordando com ela, mas ressalvando que teria sido melhor, para ambas as partes envolvidas, que

a

pável,

327

antecedesse

o ato.

Nesse

ponto

uma

pediu

Cantídio Sampaio (SP), líder da ARENA,

consulta popular

aparte

o deputado

para se contrapor afir-

mando: “Esse movimento de consultas, Excelência, iria acirrar os ânimos, iria causar divisões ainda mais profundas, iria reabrir feridas”". Já o deputado Walter Silva (RJ) considerou o processo inverso

pelo

qual

passara

o

Rio

de Janeiro,

com

a fusão

à

Guanabara, fato que, segundo ele, deveria ter sido realizado desde que o território deixara de sediar a capital da República e lamentando que tivesse faltado, como faltava também no caso de Mato Grosso, a consulta popular. Por fim, discursou o deputado

Nunes Rocha (ARENA-MT) apoiando a decisão de Geisel e concordando com Cantídio Sampaio sobre a falta de consulta popular, pois, segundo ele: O plebiscito obviamente resultaria na aprovação da maioria do povo em favor da divisão de Mato Grosso, já que na parte situada no sul do Estado se encontram 58 municípios populosos, cidades desenvolvidas; além disso, o sul representa aritmeticamente 2/3 da população. Inquestionavelmente, o plebiscito seria mera formalidade”.

1977. Brasília, set, 1997. p. 2379.

12 CONGRESSO

Nacional, Ata da 166 sessão conjunta, de 14 de setembro de

1977. Brasília, set. 1977. p. 2382.

13 CONGRESSO

Nacional. Ata da 166 sessão conjunta, de 14 de setembro de

1977. Brasília, set. 1977. p. 2383.

l4 CONGRESSO Nacional. Ata da 191 1977. Brasília, out. 1977. p. 9779.

sessão cónjunta,

15 CONGRESSO Nacional, Ata da 1977, Brasília, out. 1977, p. 9781.

sessão

19]

de

11 de outubro

de

conjunta, de 11 de outubro

de

328

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Como vimos, exceto Antônio Carlos de Oliveira, a bancada parlamentar mato-grossense apoiou incondicionalmente a,divisão de Mato Grosso sem que a sua população fosse consultada! Se os representantes do povo se postavam assim, o que dizer do nível de mobilização contra ou favor da divisão? Quanto às reações contrárias ocorridas em Cuiabá, ficou registrada a “Carta do MDB ao presidente da República”, assinada pelo então deputado estadual Dante Martins de Oliveira na qual afirma: Desde quando da divisão, nós da oposição, já alertávamos para os

desdobramentos negativos da divisão, principalmente no “Velho Mato Grosso” [...] Mesmo sabedores de que não é do seu feitio, do seu caráter, prestar satisfações ao povo sobre seus atos, já que se condidera

acima de tudo e de todos, o mínimo que se poderia esperar seria

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

329

vindas a Pedro Pedrossian, declinava o seu apoio aquele que pleiteava ser nomeado primeiro governador da nova unidade. Embora se referindo a 50 mil, o número real dos presentes à passeata foi mais modesto pelo que se pode observar nas fotos publicadas pelo próprio jornal e pelo testemunho de quem viveu o acontecimento. Mas além do Correio do Estado, Paulo Coelho Machado também reconhece em Geisel o “autor da divisão” e afirma que a causa divisionista, por sua extrema complexidade, seria “inviável”, caso dependesse de plebiscito para se efetivar, pois o “norte era contra”. Em seu depoimento,

admite que a decisão final, como

ocorreu, só

foi possível por ter sido fruto de um regime de exceção e que “Geisel era um homem estranho, explosivo, mas só por ter dividido Mato Grosso,

redimiu

todos os seus pecados”.

Eis as suas palavras:

uma explicação clara, objetiva e honesta da importância da divisão

Ele [Geisel] é o autor da divisão, pode-se dizer. Porque, pelo proces-

do nosso Estado [...]. Estaremos sempre a cobrar, como estamos

so constitucional, nas constituições antigas, para dividir um estado,

fazendo no momento, que se cumpram as promessas feitas quando

precisava primeiro da autorização da Assembléia, aprovação do Congresso Nacional e plebiscito das populações interessadas. Certa vez eu consultei alguns constitucionalistas, como João Mangabeira, por

da divisão e que os dirigentes assumam a devida responsabilidade, principalmente V. Exa., antes de abandonar o Governo, pois só assim poderemos ter esperanças de que o nosso Estado não seja abandonado na sarjeta da avenida dos Estados brasileiros",

exemplo, e eles acharam todos que havia necessidade de observar o que a Constituição falava: 'consulta às populações interessadas, tendo que haver um plebiscito no norte e outro no sul”. Então, isso

No sul, a recepção foi outra. O jornal Correio do Estado, que desde a sua fundação, em 1954, defendeu a bandeira pródivisão, organizou em Campo Grande a “passeata monstro”, distribuindo faixas e cartazes padronizados com os dizeres “Obrigado Geisel. Bem-vindo Pedrossian””, O agradecimento demonstrava que, do ponto de vista do jornal, tinha sido o presidente o autor da divisão. Quanto às boas

tornava inviável a divisão porque o norte era contra [...]. O presidente Geisel perguntou ao Fragelli como é que a população iria reagir à divisão e o Fragelli respondeu que em Campo Grande seria uma

festa, ao passo que em Cuiabá... Então o Geisel fez isso e só no regime

de

exceção

foi possível

As organizações populares tes

16 OLIVEIRA, Dante Martins. Carta do MDB ao presidente da República. Cuiabá,

fazer [...). Geisel era um

na

época

não

tomaram

parte

e os partidos políticos existenno

assunto,

O

que

mostra

ausência de “sujeitos coletivos” no processo da divisão, exceção

5 fev. 1979.

17 Nasceu MS. Correio do Estado, Campo desse dia é dedicada ao evento.

Grande,

homem

estranho, explosivo, mas só por ter dividido Mato Grosso, eu acho que ele redimiu todos os seus pecados".

12 out. 1977, Toda a edição 18 MACHADO,

Paulo Coelho,

Entrevista. Campo

Grande,

5 jan. 1996,

a

330

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

feita ao jornal Esta, porém,

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

Correio do Estado e à Liga Sul-Mato-Grossense. conforme

mostramos,

rearticulou-se

às pressas,

L..1. Então ela desapareceu. Não houve um encerramento. Esgotou

em

março, para dar respaldo a uma decisão já tomada. Não houve mobilização pela divisão, pois o cérebro e o corpo da Liga eram Paulo Coelho Machado. Ele explica, inclusive, que muitas pessoas só assinaram a ata de reativação da entidade depois, quando a divisão já era certa, para constar nas suas páginas. A lista de assinaturas, por si só, não permite, pois, uma análise sobre o real vínculo dos signatários com a causa divisionista. Analisando-as, verifica-se, por um lado, alguns nomes historicamente vinculados à causa ou pelo menos de famílias a ela ligadas, por exemplo, os descendentes de Vespasiano Barbosa Martins. É o caso de Plínio Barbosa Martins, cuja assinatura consta da ata de 25 de março de

1977. Por outro lado, constam nomes cujas famílias tinham até combatido “divisionistas” do passado, coma os Alves Ribeiro”,

331

seu papel, Aí, eu guardei as atas e os documentos”.

Vemos, portanto, que a viagem a Brasília “para assistir ao ato da assinatura e levar a placa de ouro ao presidente para agradecer a divisão” encerrou a trajetória divisionista. Aliás, há um aspecto simbólico nessa própria viagem de avião que confere à causa divisionista um caráter restrito até nos seus momentos finais. Consultados os líderes de maior expressão da Aliança Renovadora Nacional da época foi possível confirmar a ausência até mesmo dos políticos do sul de Mato Grosso no processo desencadeado por Geisel. A ARENA ocupou-se de outra questão, mais pragmática, já que a divisão não havia precisado do seu empenho. Antecipou-se, então, para a escolha do 1º governador do novo estado. Quanto ao Movimento Democrático Brasileiro, como

e, logo

partido oposicionista ao regime, ficou à margem do processo como também não desenvolveu qualquer ação popular pró ou contra a divisão.

Eu reativei a Liga antes da divisão com medo de que não saísse a divisão, aí reuni em minha casa os amigos é fizemos uma ata de

À esse respeito, Paulo Coelho Machado costumava dizer que “os políticos ficaram todos em cima do muro”?. Por sua vez,

Machado

conta

também

como

se deu

à reativação

em seguida, a extinção da Liga:

reativação da Liga, mas depois muita gente quis assinar e assinou. Serviu para engrossar o número mas no começo não eram tantos e

alia gente ia discutindo, esclarecendo e fazendo trabalho alertando O presidente de que a divisão era irreversível, que o povo ia ficar satisfeito e tudo correu bem. O último ato da Liga foi a viagem a Brasília para assistir O ato da assinatura [da divisão] e levar a placa de ouro ao presidente v agradecer a divisão. Depois recebemos o Harry [...). Então eu disse que a missão e o papel da Liga estava exaurido

12 Na ata de 25 de março de 1977, constam, entré outros, os nomes de Renato Alves Ribeiro; José Fragelli; Manoel de Barros. Nas duas últimas li nhas, em letras miúdas, apertadas, confirmando as palavras de Paulo Coelho Machado segundo o qual “depois muita gente quis assinar e assinou”, constam outros nomes, entre os quais o da ex-deputada federal e hoje senadora Marisa Serrano.

indagado

sobre

os

“líderes”

da

divisão,

Fragelli reagiu exaltado. Primeiramente formulação”, depois prosseguiu:

o ex-governador

observou

“o engano

José

na

Se há um período em que não houve nenhum movimento, nem popular e nem de políticos, pela divisão de Mato Grosso, foi de 1977. A divisão acomeceu porque o presidente Geisel queria. Só por

isso. Ele trabalhava com esse assunto, já tinha idéias sobre isso, sobre o Brasil, sobre a sua posição geopolítica e justamente nesses anos que precederam 1977 ninguém aqui tratou da divisão do estado, De forma que quem se arvorar aqui pra dizer “eu fui líder divisionista!” é

20 MACHADO,

Paulo Coelho.

Entrevista. Campo Grande,

10 jan. 1996.

21

Paulo

Entrevista.

3 jan.

MACHADO,

Coelho.

Campo

Grande,

1996.

REGIONALISMO E DIVISIONIS MO NO-SUL DE MATO GROSSO

história! Havia muitos que queriam a divisão. Um dos mais apaixona dos, o Dr. Wilson mesmo, não se metia nisso. Não participou em Coisa nenhuma em matéria de divisão do estado [..]. Eu era, sempre fui a favor, menos quando fui governador [1971-1974] porque eu achei que não podia tomar uma posição. Quanto ao Dr. Paulo Coel ho Machado, foi sempre um dos mais entusiastas e dos mais batalhadores pela divisão. Mas é interessante, justamente nessa época, eu fui pro Sovermno em março de 1971, esse período todo até o momento do presidente Geisel deflagrar a divis ão, ninguém se batia pela divis ão do estado. Então há um engano muito grande em dizer que aqui houve lideres da divisão.

Não houve líder nenhum!2,

Na sua franqueza de opiniões , o ex-governado José r Fragelli enfatizou que mesmo os mais apaixonados pela causa sepa ratista, como Wilson Barbosa Mart ins, estiveram ausentes no período

imediatamente anterior à 1977 e ele mesmo, Fragelli, se auto inclui no rol. Perguntado sobre o papel da Liga Sul-Mato-Grosse nse, respondeu simplesmente: “Eu nem me lembro da Liga Sul-Mato -

Grossensel” o

A ausência de lideranças é con firmada também por outros depoimentos. Paulo Coelho Machado, em longas e detalh adas explanaçõ es,

enfatizou a omissão

to, depois do ato consumado, pelo poder:

“dos políticos”, que,

no entan-

aderiram e passaram à luta aber ta

políticos é que aderiram logo. Os que tinham idéias

no, recuaram”,

os que tinham, mas estavam no gover-

— 0———— 01. 0.

22 FRAGELLI, José M. F. Entrevista . Aquidauana,

23

FRAGELII,

24 MACHADO,

José

M,

Paulo

E Entrevista.

33 3

Análise semelhante foi feita, em 1996, pelo diretor do jornal Correio do Estado José Barbosa Rodrigues, que frisou a bandeira

pró-divisão do seu jornal aludindo aos interesses mais imediatos dos “políticos”, que “eram contra a divisão, mas não permaneceram

contra”:

A campanha pró-divisão do estado de Mato Grosso, tendo apeno consegiência a criação de Mato Grosso do Sul contou com o apoio total do jornal Correio do Estado. É verdade que o movimento já vinha desde o final do século passado e o jornal foi criado bem depois, está agora com 42 anos, e teve a ocasião de acompanhar o movimento e dar apoio integral à criação de Mato Grosso do Sul, Não só nós do jornal, mas também colaboradores escreviam artigos, como,

por exemplo, escreveu muito sobre a divisão o Dr. Oclécio sad [.], o Dr. Paulo Simões Corrêa e vários outros colaboradores escreviam artigos pró-divisão. Quer dizer, a chama permaneceu acesa atra-

vés do Correio do Estado. Outros jornais daqui escreviam alguma notícia, mas campanha mesmo, não. Então nós fizemos a campanha. Tinha eu agui, [no jornal] a Liga que lutava pela divisão do Estado, presidida pelo Dr. Paulo Machado [...]. Então, o apoio do jornal foi total €...). Agora, tinha aqueles políticos que eram definitivamente

contrários porque queriam viver bem com a cúpula estadual em Cuiabá [...]. Esses políticos eram contra a divisão, mas não permaneceram contra”,

Ficaram todos em cima do muro pra ver o que é que dava, Porq ue “ia uma situação duvidosa: vai sair ou não vai sair a divisão? Entã o 6 sujeito estava esperando uma definição maior Para entrar. Os que não eram divisionistas. Assim mesmo,

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO A

Aquidauana,

Coelho. Entrevista. Campo

4 nov:

1995.

4 nov.

1995,

Grande, 6 jan. 1996.

Reiterando a sua interpretação também expressa em livros, José Barbosa Rodrigues conferiu ao presidente Ernesto Geisel papel principal na divisão de Mato Grosso. Admitindo não ter

tido conhecimento sobre a visita de estudos que este fizera ao sul de Mato Grosso durante o governo Castelo Branco, disse ele que “devemos isto aqui ao Geisel e ao Golbery”, conforme lemos: Nós ficamos sabendo que o presidente da República, que era o general Geisel, acompanhado do Golbery do Couto e Silva, eles vieram

25 RODRIGUES, José Barbosa. Entrevista. Campo

Grande,

27 fev. 1996.

334

REGIOMALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

aqui anteriormente, quando

não eram esses nomes nacionai s.

popa = teve a sensibilidade de eclodir o processo da pa país, Esse foi seu grande mérito. Eu diria que ele não foi o «e E foi co-autor da divisão com uma posição destacada [...] e eu inc o

Eles Vieram a mando do presidente da República e fizeram um levan ta mento, um estudo apoiando é dize ndo que era viável a divisão, que

havia potencial humano muito grande, que o norte e o sul supo rtar am. E, coincidentemente, Geis el veio a ser depois o presidente , e

o Dr. Paulo Coelho Machado, o Dr. Vespasiano Barbosa Martins, O a E.

Demosthenes Martins, jovens como o Dr. Eduardo Machado mete o, Dr. Nelson Benedito Neto, Dr. Paulo Simões... outros se geração que

Golbery, seu braço direito IE «). Mas nós ighorávamos que o Geisel teria vindo aqui com Golbery [...] só ficamos conhecendo depois [...]. De maneira que nós devemos isso aqui ao Geisel é 40 Golbery. Nós devemos à boa vontade e ao trab alh O que eles fizeram, eles já tinham estudado isso antes?,

e se seguiram como o Dr. Neson Trad, o Dr. Nelson sd ai de Leite, permitiria a imodéstia, eu mesmo, o Dr. Cassio

não manifesta concordância

cima, sem dúvida alguma, não se pode esquecer a figura pr

Associação

Mato-grossense dos Estudantes, se diada no Rio de Janeiro, que era * controlada pelos estudantes do norte” até 1953, quando ele, cursando o Primeiro ano de Direito, liderou um “mo-

vimento de rebeldia à Situação exist ente” e venceu as eleições da entidade, o que foi “o primeiro ato de demonstração de força do sul contra

o norte,

muito

embora

ele

tivesse

ocorrido

no

Rio”.

Figueiró ressaltou os “altos esca lões” na autoria da divisão, enfatizando a influência de Golb ery e designando Geisel como “coautor”; Eu considero que a decisão do presidente Geisel não se deveu exclusivamente a um gesto pessoal dele. Os órgãos do governo já vinham estudando isso há muitos anos, mas não só a divisão de Mato

Grosso L...]. Isso foi um processo que os altos escalões do governo federal vinham analisando. O presiden te Geisel, sem dúvida alguma,





a

e

as a importante na decisão de Geisel”.

Embora citado por Figueiró, José Fragelli, que pia pela ii Mato Grosso quando o governo federal Mi além de enfatizar a ausência de políticos estatal no pn que culminou na criação de Mato Grosso do Sul, assinala que não existiu uma organização pró-separação, na panico big : EM Go er um-clube”. O ex-governador realça a epa Couto

e Silva, cujos estudos

foram

decisão de Geisel, que, segundo cia”, Assim

pronunciou-se

os que

cap

eric

ele, “era de limitada inteligên

a esse respeito:

Em 1932 houve aquele surto, alguns falavam a favane da Raso ses ninguém organizou nada. Por exemplo, não se ess

Entrevista. Campo

Grande, 27 fev, 1996,

o

ou mesmo um clube, até mesmo um clube PEpaRdiisia, nac iaé u E e

e nó va como governador lá em Cuiabá, chega o anHo do a “Fragelli, o presidente manda lhe comunicar a iii de ae e o o mas pede pra você não divulgar. Que não seja divulgado”. E achei que devia contar isso a uma pessoa do norte, o Mauro 5 : E era o meu chefe de gabinete e também ao Dr. Paulo Coelho Machado.



26 RODRIGUES, José B arbosa,

E

Golbery do Couto e Silva, que foi o Heine que fez o mz k ds E tante estudo da geopolítica brasileira. Muito Senna ele o um aparecido, eu não tenho dúvidas de que a opinião dele loi 1

total com o fato

de se atribuir a Geisel a autoria da divisão de Mato Grosso. Rememorando detalhes da trajetória divisionista, desde a década de 1920, ele se referiu a Vespasia no Barbosa Martins, Eduardo Olímpio Machado e Demósthenes Martins como “figuras de prol dos movimentos pela independênci a do sul”. Citou também a

F

enfim, muita gente contribuiu, cada um eniocanda Luma sd ps processo de pavimentação, para que a divisão titia e a e

Já o ex-deputado federal Ruben Figueiró, na época da divi-

são filiado à ARENA,

335

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

27 FIGUEIRÓ,

Ruben.

Entrevista. Campo

Grande, 8 fev. 1996.

336

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO Gnosso

Só pas esses dois. Mas a coisa foi correndo até que se tornou de domínio público. Mas O que você pode regist rar é o seguindo ata

houve nenhum

líder separatista na época da divisão, nos dois a

sa

anas que precederam a divisão do estado, Foi uma decisão do presi dente Geisel, que eu sei, influenciado... ele era de limitada inteligência Rr tinha um homem extraordinário com ele: o Golbery, que tem e livro excelente Geopolítica do Brasil. Na verdad e, nos anos que ante:

cederam, quem mais influiu para a divisão foi mesmo o Golbery! Asi,

quem se apresentar como líder está pondo na cabeça e pisa pe hão aconteceu. Ninguém foi líder! Eu mesmo fiquei numa postçam, muito difícil porque eu era governador , embora fosse pela divisão do estado, tanto que depois que saiu a divisão, Siri om Cuiabá, aid, até Al! c tirar me do estádi meeu neme stácli lh 4 í o que E se chama “Joséã Fragelli”É porque sabiam que eu sempre fui divisionista”.

|

SATO GROSSO

Outro aspecto importante foi a falta de consenso sobre a divisão entre os próprios membros da elite dirigente sul-mato-

grossense. O depoimento do então senador Lúdio Martins Coelho, por exemplo, contém elementos que confirmam análises de Paulo Coelho Machado, José Barbosa Rodrigues e Plínio Barbosa Martins

sobre a ambiguidade Mas, diferentemente divisão” porque, na tamanho do nosso força nacional.

uma das razões maiores da divisão. Então a classe política matogrossense se dividiu [...]. Eu passei um pedaço maior da minha vida

populações de ambas as partes do estado e os trâmites normais

que deveriam respeitar a Assembléia Legisl ativa, coincidiu com p desejo de Paulo Coelho Machado, que tamb ém não cogitava essa participação. Mas é interessante observar que em alguns depoimentos as iniciativas pró-divisionistas são supervalorizadas pe em

outros,

diminuídas,

ou talvez,

mais fiéis ao que ea

mente representaram na época. Basicament e o ex-deputado fed ral Ruben Figueiró minimizou o papel do regime militar na ie ria, conferindo destaque aos “líderes” do passado ao psd ue : ex-governador, ao contrário, afirmou não ter havido da em termos regionais nos anos que antecedera m a divisão e, por isso ea aconteceu exclusivamente porque “o presidente Geisel cine só por isto”. : =

dos políticos em relação à causa divisionista, dos demais, ele confessa que “não queria a verdade, o que faltava “era governadores do estado”, que, “bem administrado, seria uma

Isso é coisa de mais de 60 anos atrás, de quase um século atrás. O Dr. Paulo relatou pra você a história da divisão? Bom, efetivamente, não houve uma luta pela classe política. Eu tinha um certo amor por Mato Grosso, por inteiro. Eu achava que o que estava faltando a Mato Grosso era governadores do tamanho do nosso estado. Porque um estado com aquele tamanho e a potencialidade que tinha Mato Grosso, bem administrado, seria uma força nacional. Eu até penso que foi

Os depoimentos confirmam que realmente não houve organização popular com ações destinadas a criar um arde opinião pública favorável à divisão de Mato Grosso, e mais, a forma acitada pelo general Geisel, que dispensou a consulta às

quanto

gar

DO SUL; UMA MOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

ativa lá no norte do estado. Eu morei vinte anos

no Pantanal,

norte, e tinha ligações muito grandes com o estado inteiro [...]. Eu não queria a divisão”,

As palavras de Lúdio Martins Coelho, além de confirmarem que “efetivamente não houve uma luta pela classe política” pela divisão do estado, fornece o contraponto à tese sobre o “ódio” que

os divisionistas

elaboraram.

Assim

como

ele,

muitos

4 nov.

1995,

mato-

grossenses do sul devotavarm “um certo amor” a Mato Grosso uno

e não desejavam vê-lo dividido. Resta considerar, pelos depoimentos transcritos, que, tal como no início do século, a causa divisionista não mobilizou nem mesmo “a classe política” do sul, como considerou Ludio Martins Coelho. E mais, o seu depoimen-

ln

2 FRAGELL AGE I, José: M. F. Entrevis 28 ; ta. Aquidauana,

no

29 COELHO,

Lúdio

Martins.

Entrevista.

Campo

Grande,

15 fev.

1996.

soa

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

to reforça a tese sobre a polarização regional, quand o afirma que “a classe política mato-grossense se dividiu”, o que redundou na divisão. que

a ocupar,

não

assumiram

posição

em

favor

Barbosa

Rodrigues,

“eram

contra

mas

não

permaneceram

contra”. De todo modo, podemos considerar que o fato de não ter havido “uma luta pela classe política”, tal como sustent a o exsenador Lúdio Martins Coelho, não significa que ela fosse contrária. Na verdade, movida por interesses políticos imedia tos, ela não se expôs porque a causa era incerta: havia à experi ência da

derrota

de

1932

e da

Constituinte

de

1934.

Por

outro

lado,

ela

contou com dois “intelectuais coletivos”: à Liga e o Correi o do Estado. No passado contara, entre outros, com Oeléci o Barbosa Martins, cujos artigos eram divulgados nesse jornal e, depois, com nomes como Paulo Coelho Machado que também encontraram nele um espaço para a “militância” divisionista. Na década de 1970, finalmente, contou com a determinação do govern o federal: a geopolítica conjugar-se-ia a sua causa, decidindo-a positivamente. Especialmente porque preponderou, além da geopolítica, a preocupação de Geisel com “os dias de amanhã ”, ou seja, o fortalecimento da base política do regime diante da luta cada vez mais crescente pela democratização do Brasil. Assim, o seu projeto de “abertura controlada” foi fator determinante para a própria divisão de Mato Grosso, como sustenta estudo de Amaríl io Ferreira

do

CCI

capitalismo brasileiro com a criação de uma nova unidade id administrativa na Região Centro-Oeste; e a ampliação da base parlamentar da ditadura militar para dar sustentação à chamada 'abertura lenta e gradual implementada pelo governo Geisel”.

da

divisão de Mato Grosso. De um lado postaram-se aqueles que simpatizavam com ela, mas não se manifestaram favora velmente; de outro, os que eram contrários apenas até o momento da edição da lei que criou Mato Grosso do Sul. Estes, segundo palavras de

José

rios do sul de MT; a estratégia econômica

Os políticos do sul, em face dos cargos que ocupavam ou

aspiravam

339

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃOÀ

De fato, o regime militar operou com essa lógica ao dividir Mato Grosso, isto é, além da questão estratégica da EropouiEs, ao satisfazer os interesses da elite agrária sul-mato-grossense, eia a aumentar a sua base de sustentação. O objetivo político imediato foi exatamente esse. Basta considerarmos que quando o presidente Geisel assinou a lei que criou Mato Grosso do Sul, justificou que o ato era “decorrente também de uma necessidade política, venda em vista um melhor equilíbrio da Federação do dia de amanhã”*. Apesar da clareza com que esse objetivo foi deeinráios ie tos anos depois, o ex-deputado Ruben Figueiró se disse deceprtos nado ao ler o livro 4 ditadura encurralada, de Elio Gaspari, publicado em 2004, no qual o autor afirma exatamente o mesmo que esta autora escreveu na tese de doutorado ( 1597). Sentido

Bia

Gaspari, o Pacote de Abril, de 1977, cujo objetivo psd

garantir maioria da ARENA e vitalidade eleitoral do regime, previa como estratégias, dentre outras, a divisão de Mato Grosso em dois

“na estimativa de um deputado da região, a bancada federal, que tinha seis deputados da Arena e dois do MDB, ficaria E treze para a Arena, enquanto a oposição continuaria com dois”*. Essa informação, de acordo com Elio Gaspari, havia sido repassada pelo deputado Benedito Canelas (norte) a Heitor de Aquiap' é, deste, para Geisel. Ante essa informação do autor, Figueiró assim

Junior:

L..Ja criação do Estado de MS, no final da década de 70, contemplava diversas questões políticas relativas aos interesses imediatos das forças sociais que davam sustentação ao regime militar, tais como: a ação divisionista historicamente reivindicada pelos grupos latifundiá-

30 FERREIRA JR., Fê

“io

31 BRASIL.

Amarilio.

Professores e Sindicalismo em Mato Grosso do Sul,

Ministério do Planejamento.

Exposição de motivos sobre a criação E

de Mato Grosso do Sul. Brasília, 24 ago. 1977. 32 GASPARI, Elio. A ditadura encurralada, p. 365.

4

.

a

a

340

HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GRONMO

expressou a sua “decepção”: “Será que um simples cáleulo de vantagem política, armada em palác io, foi superior à aspiração brotada nas planícies sul-mato-grossen ses? Não dá para acredita! L.] que o grande ideal não sé concreti zou pela sua luta indômity. mas por um circunstancial jogo de números”. Como demonstrado ao lon go deste estud o, não foi nem uma

coisa

nem

outra,

ou

Seja, o regionalismo,

sozinho,

jamais

MATO

so Ponce,

Congresso Nacional, onde foi sena dor por duas vezes (1935-1937

e 1945-1955), permitem

não estava

presente

Sessões

1947

sobre ==

de

diversos

q 1954, temas,

coneluir que a divisão de Mato Gros so

nas suas

preocupações

por exemplo,

entre

os quais,

de parlamentar.

há pronunciamentos problemas

Nas seus

relacionados

Essa não sabia... - Correio do Estado, Campo

341

ã

NA FEDERAÇÃO

em

1952,

mas

nenhum

G Genero-

divisionista. N Nesse causa divisionista. sobre aa causa

discursou Vespasiano: o

tando as estatísticas ser o seu rebanho de bovinos nao feno milhões de cabeças.

Essa imensa fortuna nacional ba

E: :

necessitada

de maior assistência do govêrno [...]. À pneumo-enterite o dis ros é uma calamidade. Eu mesmo, que tenho pequena Ee pi E E pe pa de criação de gado junto à cidade de Campo ja É : deu = rg essa que perdi 50% de bezerros vitimados por E. frizar, porém, que, se existem em Mato Grosso 5% si a ' de parte da faltando-lhes, compreensão, cultos, há 95% sem a menor govêrmo, assistência, aparelhagem e ensinamentos

que devem ser

levados a todos os criadores”.

Em julho de 1952 ele ocupou Generoso Ponce:

a tribuna para homenagear E gs

Ocupo a tribuna para cumptir o indeclinável fee de e

tão significativa para a minha terra natal. ja nascia em Cuiabá, capital de Mato Grosso, Generoso j aes

sas

E

Leme c

Souza Ponce, filhos de pais humildes [...] Em 1867 [.] alicia a Voluntário da Pátria. O território brasileiro estava sendo invadido pelo

inimigo agressor L...JÉ. Esse exame

da vida pública de Vespasiano

Barbosa Martins

reforçou o meu entendimento sobre o cara do seu ad : 1932. A suspeita de que aquele RoNRiTão não ara o de e = os feitas dividido encontrou sustentação nas leituras Congresso Nacional. Os seus pronunciamentos ali ne see permitem perceber que ele não se empenhou em uma lu

= é sá =

à

a

33 FIGUEIRÓ, Ruben. out. 2004, p. 2 A.

ESTRELA

Mato Grosso é um dos maiores centros de produção aa En

do go

Mas é necessário notar que, para doxalmente, o próprio Vespasiano, depois do malogro de 1932, não desenvolveu ações pró-divisionistas na sua atuação parl amentar. Consultas às atas do

UMA NOVA

ano, por exemplo,

teve

Por fim, é preciso analisar a Posi ção dos Barbosa Martins, família historicamente vinculada à caus a divisionista que no passado teve pelo menos dois dé seus membros publicamente nela envolvidos nela: Oclécio Barbosa Marti ns e Vespasiano Barbosa Martins. Dois descendentes de Vesp asiano, seus genros Wilson Barbosa Martins e Plínio Barbosa Martins, gozando de projeção política na época, mas na oposição ao regime militar, estiveram ausentes do processo divisionista, mas apoiaram a decisão que, segundo eles, concretizou à utopia de 1932, o sonho do “velho Vespa”.

DO SUL;

de SCI de nascimento ari peste de gado no estado; o centenário

força para promover a divisão, além de nunca ter dado aw divisionismo visibilidade e base popular. Não fosse o regime mili-

tar, ele não teria logrado êxito , portanto, a determinação verno Geisel preponderou sobr e o aspecto regional.

GROSSO

Grande, 29

to. i 34 MARTINS, Vespasiano Barbosa, Pronunciamen cional. Rio de Janeiro, 5 fev. 1952, p. 787.

"essa Nado Congresso idri Diário = iq

Pronunciamento. Barbosa. E 35 MARTINS, 1 Vespasiano + o cional. Rio de Janeiro, 11 jul. 1952, p. 6474,

Diário do Congresso

Es Pr

.

342

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GHOS SO

carater separatista

depois

do exílio.

Isto não equivale

MATO GROSSO

a dizer

Havia muitos que queriam a divisão. Um dos mais apaixonados, o Dr.

causa, o que eai de fato, nesse período ela não teve voz. Aliás, na década

de divisão [...] antes da revolução ele não era divisionista. Pelo menos não se manifestava. E eu achava até que era contra”,

contudo, que ele não fosse divisionista: registramo s tão sonia :

ausência qe

de pronunciamentos

mantinha posição claramente antidivisionista. Em sua campanha governador,

em

1950,

por

exemplo,

Fernando

Corrêa



Costa rebateu uma “calúnia urdida contra à sua pessoa” Sua sendo ser contrário à mudança da capital e às ideias separatistas pois Aipals “um absurdo desses podia partir de um filho de Peito Celestino”.

O Jornal do Sul, de Aquidauana,

publicou

o seu

dis-

curso, que nos mostra que a divisão não contou com esse partido:

Para eu esposar essa idéia matricida seria necessário renunciar todo o meu passado e dos meus, Seria renegar o meu sangue e minha

formação moral, que tem as suas raízes fundas mergu lhadas na nossa

querida Cuiabá. Nunca um absurdo desse s podia partir de um filho de Pedro Celestino. Interessante é que esses eternos exploradores de sentimentos regionalistas diziam, por ocasião de minha eleição para prefeito, que eu era cuiabano e que iria fazer a política do

norte”,

| UDN e

ris

| posição provavelmente expressava o pens amento da

isso ajuda

Wilson mesmo, não se metia nisso. Não participou em coisa nenhu-

a favor dessa

1950, quando Vespasiano já se filiara à União Democrática Nacioal LI ), O presidente desse partido em Mato Grosso, Kéinando Corrêa da Costa, a quem Vespasiano era polit icamente vinculado

para

ada

DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

a entender a razão de os Barbosa

Martins não

terem assumido a liderança pública dessa causa. A propósito Paulo Coelho Machado acreditava que foi criado um “mito” sobre Espa, expressando a convicção de que ele não teria sitio E divisionista que a memória social propaga. Ainda sobre os Barbo-

sa Martins, José Fragelli afirmou que, antes de 1964, pensava até que Wilson Barbosa Martins fosse contrário à divisão:

ma

Verificamos, assim, a manifestação anteriormente.

p. 1

citada

da ambiguidade

do ex-governador José Fragelli, de

O depoimento

certa forma, coincide com as palavras de José Barbosa Rodrigues, para quem,

Barbosa

Wilson

no que concerne

Martins,

à divisão,

“não era lutador [...] politicamente, ele [Wilson] não estava lutando naquela causa

ocasião"*. Admitindo acrescentou,

separatista,

a afinidade da família com

porém,

que tanto

os irmãos

a

Bar-

bosa Martins quanto o “velho” Vespasiano “não eram lutadores; como Paulo Machado, ali, sempre firme; o Martins [..l: o Paulo Simões Corrêa [.l”.

lutador era um homem Dr. Oclécio

Barbosa

Entrevistado em

1995, o então governador Wilson

Barbosa

Martins, cujos direitos políticos estavam cassados em 1977, esclareceu que não participou de nenhuma das reuniões com Geisel,

mas reconheceu que a divisão “surgiu com idéias generosas, de consolidação da nossa pátria”. Realçando o fator determinante da geopolítica e a posição do Exército brasileiro, além da “simpatia

geral da população”, completou: Eu tenho informações de que a divisão de Mato Grosso era bem vista nos altos escalões do Exército por questões estratégicas e isto é compreensível. Nós que conhecemos a história de Mato Grosso sa-

bemos que em 1892 houve uma revolução [...] com o objetivo de desmembrar o estado de Mato Grosso da federação brasileira [...]. Por isso o Exército, porque tinha essa experiência histórica e porque pesasse talvez o fato de que o estado era muito grande, tinha largas

37 FRAGELLI,

36 Nosso candidato. Jornal do Sul. Aquidauana, 5 fev. 1950,

matéria

em

José

M.

F. Entrevista.

Aquidauana,

4 nov.

1995.

38 RODRIGUES, José Barbosa. Entrevista. Campo

Grande,

27 Fev. 1996.

Campo

Grande,

27 fev. 1996.

39 RODRIGUES, José Barbosa. Entrevista.

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

fronteiras com dois países, Paraguai e Bolívia, entendi a que o estado devesse

ser dividido

e numa

das ocasiões

em

que

são do estado, foi um ato que o presidente quis e acabou solucions assado; eu eraa m menino € o passado; à desde isso t fan do. As nossas elites queriam recordo de que a históriai sobre o assunto era longa,a, m: mas OS qa me

esteve aqui o

general Geisel como presidente da República, numa reunião espe

cial me parece, porque eu não estava presente, assim como não estava em nenhuma de suas reuniões, uma vez que eu estava pros erito pela minha cassação de 13 de fevereiro, nessa reu nião ele teria conversado com os amigos do sul sobre o problema da divis ão é ouviu de todos que era uma idéia lavrãd a no sul há muitos e muitos

anos. Havia também a simpatia gera l da população e ele teria deela-

rado que estava disposto a fazer com que essa idéia vingasse e dai partiu para a divisão. Tudo o que sei é que a divi são surgiu assim, em 1977, com

id Éias generosas,

de consolidação da nossa pátria, não

tenho conhecimento de que outros ideais tivessem trab alhado em

sentido contrário”.

Plínio Barbosa Martins, tal como o irmão Wilson, sobrinho-neto e genro de Vespasino Barbosa Martin s, admitiu que a ditadura militar foi eficiente para lidar com a quest ão divisionista e explicou a razão de não ter est ado nas conversações com Geisel: É preciso levar em conta a minha posição polític a. Na época eu era frontalmente contra os governos da revolução. Eu discordava da maioria esmagadora de todos os atos admini strativos é especialmente dos políticos. Mas sou uma pessoa que recon hece que esse presidente favoreceu muito a divisão do estado, que era almejada por todos os sulistas. Eu me recordo que antes disso, no governo Jânio Quadros, havia um movimento espetacular, ningu ém se opunha, todo mundo queria, à exceção de alguns que aspiravam uma posição política futura e temiam que, não acontecendo a divisão, ficar numa situação difícil com Mg to Grosso do norte e com o eleitorado de lá. Eram posições de políticos conhecidos que não tomaram partido da

divisão naquela época por isso. Mas a ditadura foi eficiente na divi-

40 MARTINS, Wilson Barbosa.

Entrevista. Campo Grande, 12 ser. 1995,

345

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃÃO

41 Es problemas sempre abafados”.

Re É importante notarmos a sua asia ao ao I a ia tes”, que “queriam isso desde o passado” e ane | “posição a queria” a divisão, exceto os que almejavam futura”, preocupados com objetivos eleitorais e al em a engajamento

com

a causa divisionista. Mas O aus : a

d

leg

ug

j nao na posição assumida pelos para Matias ia i d lado, pertenciam a partido político contrário à a isso não participaram das articulações entre o o e seus aliados no sul de Mato Grosso, por outro a O, ee razão, por si só, não nos parece suficiente para Gm

ção um por ral

que a causa separatista tivesse constituído uma cia

ce

a da oposição, inclusive liderada por eles, ei a E a á legítima, viável e justa a divisão de Mato Grosso. nunca houve um movimento de tal natureza no ic Sp mocrático Brasileiro ou em qualquer outra organização a ciedade civil com esse propósito. Certamente RpRIue a dr democratização da sociedade brasileira na dência e oa mais

importante

para

a oposição;

já a causa

divisionista,

m T = da o : E p

ua sua natureza, não fez parte dessa agenda. A divisão do estado não foi, portanto, uma pandeira ; oposição democrática. A sua ausência da luta pela o Mato Grosso do Sul explica a hegemonia das forças po nes que davam sustentação à ditadura militar (ARENA) no Fa pe que se instaurou depois da criação do estado. A alia Ea que bi E mobilização fez com que a divisão RARAS havido

“construtores”

de um

novo estado.

Por isso, à nova

41 MARTINS, Plínio Barbosa, Entrevista. Campo Grande, 9 jan. 1996,

uni

a46

HREGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

dade federativa ficou nas mãos dos velhos políticoque s já exis tam no sul de Mato Grosso antes da divisã o. Em outras pala Vras: a criação de Mato Grosso do Sul, por ato da ditadura militar, concretizou-se sem que fossem forjad as lideranças capazes de substituir aquelas que vinham sendo beneficiadas pelo regime militar, o que acarretou profundas implicações para a vida política do estado que nascia. Quanto ao quadro político existente no sul de Mato Grosso, assim que o estado foi dividido contava com importantes dirigen-

tes, uma

vez que os três senadores eram do sul: Italívio Coelho, Antônio Mendes Canale e Rachid Salda nha Derzi. Todos eles, além do ex-governador José Fragelli, pertenciam à ARENA e, no

seu interior, ao grupo denominado “ortodoxo” , que tinha por rival o grupo “independente”, do ex-governador Pedro Pedrossian. A oposição, por sua vez, organizava-se no MDB, do qual se distinguiam tanto os políticos que divergiam da ditadura, apenas por não serem beneficiados politicamente por ela, quanto aqueles que, além de razões políticas, se opunham ao tipo de desenvolvimento capitalista implementado pelo regim e desde 1964. Uma frente democrática contra a ditadura milita r era vigorosa em 1977 na região que acabava de se tornar Mato Gross o do Sul.

s47

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

dos na Divisão”*, conta que a notícia sobre o nome causou apteensão na própria cidade por receio da reação dos habitantes das outras, principalmente de Dourados e Corumbá. Os vereadores da primeira, segundo o autor, anteciparam-se enviando um ofício ao presidente da República no qual pleiteavam que o nome do estado fosse mudado para Mato Grosso do Sul. E assim foi, No

projeto de lei encaminhado ao Congresso Nacional em agosto de 1977, ele já se chamava Mato Grosso do Sul e foi com esse nome que o estado nasceu em 11 de outubro daquele ano.

A atribuição do nome, entretanto, demonstra que a divisão realizada sem consulta popular incorreu em questões de caráter simbólico, desconsiderando a própria história, pois chamar a nova

unidade de Campo Grande, realmente, era um exagero desmedido. Foi um

aspecto

sobre

o qual

não

se pensou

nos meses

que

antecederam a divisão, pois ele não aparece nos documentos aqui citados anteriormente à decisão presidencial. A Ata Nº 07 da Liga Sul-Mato-Grossense, de 22 de junho de 1977, é ilustrativa:

O único problema ainda existente é o do nome a ser dado ao novo Estado, apesar de que o de Campo Grande foi escolha do próprio Presidente da República, mas que devido algumas contestações, o Sr. Ministro do Interior, Rangel Reis, solicitava sugestões. Após as devidas discussões de que o nome não é o mais importante, decidiu-se sugerir a permanência, se possível, do nome de Campo Grande pelo fato da

Por que Mato Grosso do Sul?

imprensa nacional já ter dado ampla divulgação, ou de Campo Dourado, conforme desejo, ao que nos parece, do próprio Ministro.

A nova unidade que emergiu da divisão foi denom inada, de

vingou. Ora, Campo Grande foi a cidade matogrossense mais beneficiada pela divisão e ainda teria o seu nome inscrito na nova unidade federativa? Pedro Valle, para quem “agasalhavam-se na

Por sua vez, Pedro Valle reproduz um trecho de uma entrevista de Paulo Coelho Machado a um jornal de Brasília na edição histórica de 1º de janeiro de 1979, esclarecendo que, a princípio, o nome era mesmo Campo Grande; mas, em função da “rivalidade” contra a cidade, acabou ficando Mato Grosso do

que,

42 VALLE, Pedro. A divisão de Mato Grosso, p. 44.

início,

“Estado

de

Campo

Grande”,

entretanto,

esse

nome

não

Liga Sul-Mato-Grossense apenas as lideranças campo -grandenses, quando muito algumas cidades vizinhas, como Aquidauana” e Os campo-grandenses é que estavam diret amente interessa-

43

LIGA

Sul-mato-grossense.

Ata N.

7. Campo

Grande,

22 jun,

1977,

|

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

348

Sul, E emendou: “Acharam que Campo Grande ia ficar com tudo. E no fim ia se transformar numa cuiabazinha”*. Já Afonso Simões Corrêa, depois de constatar que a maioria da população mato-grossense foi surpreendida pela iniciativa de Geisel de encaminhar projeto de lei complementar ao Congresso Nacional, propondo a divisão de Mato Grosso e a criação de um novo

estado, que se chamaria Campo Grande, completa: Atendendo a reivindicação popular de vários municípios do interior, e em homenagem aos divisionistas de todos os tempos, que sempre agiram como sul-mato-grossenses, a Liga dirigiu apelo ao presidente > 40 Congresso nacional, pleiteando a mudança do nome do Estado

para Mato Grosso do SulS.

Mas,

típico de um

processo

mal

resolvido,

depois

o seu

nome seria motivo de polêmica. Transcorridos quase vinte anos da divisão, que se efetivou sem que tivesse havido ação coletiva que geralmente antecede, amadurece e dá coesão aos litígios separatistas, o aspecto da identidade histórico-cultural de Mato Grosso do Sul veio a debate público, quando, em 1995, foi cogitada a mudança de seu nome. Apegados a uma concepção mais pragmática, alegando confusão generalizada por parte dos outros estados da federação para distinguir Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, situação preju-

dicial a esse último, sempre tomado pelo primeiro, parlamentares sul-mato-grossenses (PSDB) propuseram trocar o nome do estado por outro, que “projetasse o sul” e colocasse termo à ideia de que

Mato Grosso do Sul representa apenas “um apêndice de Mato Grosso”,

sugerindo

44 MACHADO, pu SA;

Paulo

“Estado do Pantanal”,

Coelho

apud VALLE,

Pedro.

iniciativa fracassada,

A divisão de Mato

Grosso,

45 CORRÊA, Afonso Nogueira Simões, A criação do Estado de Mato Grosso do Sul. In: CUNHA, Francisco Maia da (Org). Campo Grande: 100 anos de construção, p. 69.

349

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

mas positiva pelo debate que suscitou. O tema ganhou as ruas. Discussões populares, políticas e acadêmicas; matérias de jornais e de televisão,

pesquisas

de opinião

e outras manifestações

pro-

vocaram uma tomada de posição por parte da população. Pesquisa de opinião realizada pelo jornal Correio do Estado, contrário à troca, apresentou 88% de desaprovação à adoção do nome “Estado do Pantanal”. A proposta não chegou a viabilizar-se em emenda constitucional por não haver obtido apoio de pelo menos 16 dos 24 deputados do Poder Legislativo”. A oposição

ro so do so.

a se rebatizar o estado justificou-se, em

primei-

lugar, porque o Pantanal não é região exclusiva de Mato Grosdo Sul, portanto, “Estado do Pantanal” não faria jus à extensão fenômeno geográfico, que se localiza também em Mato GrosEm segundo lugar, dentro das próprias fronteiras sul-mato-

grossenses, a maior parte do território situa-se fora do Pantanal”, Dourados,

Três

Lagoas,

próxima

à fronteira

com

São

Paulo;

e,

principalmente Campo Grande, não aceitaram transformar-se em “pantaneiras”. A Câmara Municipal de Três Lagoas, por exemplo, rejeitou desvincular-se “do velho e querido Mato Grosso, que, uno, nos viu nascer”*. Mesmo

Corumbá,

cidade-símbolo do Pan-

tanal sul-mato-grossense, nunca identificada como “nortista” ou “sulista”, histórica e culturalmente vinculada a Cuiabá, rejeitou a intenção parlamentar, conforme ficou registrado: “Sempre live46 Os deputados Roberto M. Orro, Waldir Neves é Eder Brambilla, todos do PSDB, pressionados pela opinião pública e sem respaldo na Assembléia Legislativa, recuaram de sua posição inicial. 47 O prefeito de Dourados Humberto Teixeira, defensor da manutenção do nome atual, argumentou que “Mato Grosso do Sul é muito apropriado e histórico”, enquanto os vereadores lembraram que “se o nome Pantanal tivesse sido discutido no momento da divisão do estado, tudo bem. Hoje é fora de hora à questão”. Dourados: campanha pode esclarecer. Correio do Estado,

Campo Grande, 28 set. 1995, p. 6. 48 Três Lagoas: proposta não ser. 1995, p. 6.

é aceita.

Correio do Estado,

Campo

Grande,

28

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

350

identidade definida e, em muito nos assemelhamos ao

mos uma povo

do

norte,

do

qual

parte”?,

fizemos

A proposição legislativa tomou rumo diverso do pretendido é remeteu significativo contingente da população à história quase oculta da divisão. Mesmo na Assembléia Legislativa, as teações brotaram de todos os líderes dos partidos ali representa-

351

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

pressaram o sentimento geral de que a divisão de Mato Grosso foi assunto de poucos. Mas a polêmica reforçou o aspecto mais colocado em dúvida pelos parlamentares: o passado comum dos dois estados, passado este que registra ásperos debates entre divisionistas e antidivisionistas na década de 1930 sempre tendo a referência a

dos”, forçando O recuo do deputado Eder Brambilla, que admitiu haver cometido “um erro de estratégia muito grave porque antes de anunciar publicamente a proposta, o assunto deveria ser amplamente discutido com os notáveis que lutaram pela

Mato Grosso como argumento para ser contra ou a favor da divisão. Documentos da época testemunham a disputa entre as duas regiões para tentar “provar” qual delas era mais mato-grossense

divisão”, A referência aos “notáveis que lutaram pela divisão” revela o seu caráter restrito, entendimento também expresso pelo então deputado estadual Waldir Neves, para quem, a estratégia deveria

grossenses

que

a outra.

Em

um

acusavam

desses

textos,

os “cuiabanos”

já aqui

citado,

os sul-mato-

de presunçosos por consi-

derarem que “Mato Grosso é seu”, e enfatizavam orgulhosamente que, pelo contrário, mais mato-grossenses eram os “sulistas”.

ser, primeiramente, ouvir “os líderes” do movimento divisionista, pois, sem o seu apoio, a emenda não deveria ser apresentada. Ao

se referirem aos “notáveis” e aos “líderes”, os parlamentares ex-

Entre Mato Grosso, Goiás, Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Paraguai e Bolívia

A Lei Complementar nº 31, de 11 de outubro de 1977, estabe49 Troca desagrada até moradores da cidade. Correio do Estado, CG. Grande, 28 palavras de

set. 1995, p. 6. O depoimento reproduz Barros, tradicional no Pantanal.

um

da família

membro

50 O então deputado estadual Eurídio Ben-Hur, líder do Partido dos Trabalhadores

graves

(PT),

considerou

problemas

do

a proposta

estado.

Sua

além

“ridícula”,

posição

foi

de

desviar

reforçada

a atenção

por Antônio

dos

Carlos

Arroyo, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), que classificou a proposição de inoportuna, pois “temos coisas muito mais sérias para discutir”. fá o deputado Franklin Masruha, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), avisou que sequer participaria dos debates por julgar a ideia “um desrespeito à população, que se considera sul-mato grossense, ver a denominação de seu estado com outro nome”, Já a deputada Celina Jallad (PMDB), filha do governador Wilson Barbosa Martins, declarou: “Por ser tradicionalista sou favorável à ma-

nutenção do nome de Mato Grosso do Sul e com essa polêmica o nome de Mato

Grosso

res da cidade.

do Sul ficará ainda

mais

marcado”.

Correio do Estado. Campo

Grande,

51 Troca desagrada até moradores da cidade. set. 1995.

Troca

desagrada

até morado-

28 set. 1995, p. 6.

Correio do Estado. C. Grande, 28

leceu os limites da área desmembrada de Mato Grosso para constituir o território de Mato Grosso do Sul, de forma muito próxima às propostas precedentes e incluindo Corumbá no estado nascente, fato para o qual chamamos a atenção ao mostrar que esse municipio não estava incluído no rol daqueles constantes na Petição da Liga Sul-Mato-Grossense em 1934. A configuração física dos dois estados após a divisão passou a ser a do mapa da página seguinte. Na data da divisão, Mato Grosso ficou constituído de 38 municípios, totalizando sua superfície 881 mil quilômetros quadrados, permanecendo como o terceiro estado da federação em tamanho, atrás de Amazonas e Pará. A população desses 38 mu-

nicípios, segundo o censo de 1970, alcançava 601.000 habitantes, dos quais, 223 mil na zona urbana e 368 mil no campo.

TT 352

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

MATO GROSSO

353

DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

enormes vazios demográficos e econômicos do norte exigiriam “durante e após a concretização da divisão, grandes somas de recursos aquela porção do território nacional”*, Entre as providências tomadas destacava-se a extensão dos limites da Amazônia Legal a todo o estado de Mato Grosso, com o que, entre outros benefícios, passava a contar com recursos provenientes de incentivos fiscais destinados à região. Programas especiais de desen-

Mato Grosso

volvimento também foram previstos”. Para o novo estado previa o prosseguimento

de empreendi-

mentos já existentes, como o Programa de Desenvolvimento do Pantanal (PRODEPAN) e o Programa de Desenvolvimento da Região da Grande Dourados (PRODEGRAN),

além de apoio a ativida-

des agrícolas e industriais e à federalização da então Universidade

Estadual de Mato Grosso (UEMT), sediada em Campo Grande. Ao ser dividido, apenas o sul do antigo Mato Grosso conservou fronteiras com dois países, Paraguai e Bolívia. A região centronoite passou a limitar-se somente com esse último país latino-

Mato Grosso do Sul

americano. O estado de Mato Grosso do Sul passou a incluir, no seu âmbito, a maior parcela das bacias dos rios Paraná e Paraguai em território da região Centro-Oeste. Sua confrontação faz-se com

os estados de Mato Grosso e Goiás; enquanto a fronteira leste,

Mato Grosso dividido.

Mato Grosso do Sul integrou-se por 55 municípios, totalizando

350.549 quilômetros quadrados. Esses municípios possuíam, em 1970, um milhão de habitantes, dos quais, 453.000 na zona urbana e 547.000 na rural. Sua densidade demográfica era maior, ou seja,

2,85 habitantes por quilômetro Grosso”,

quadrado,

demarcada

pelas

divisão, 11 de outubro de 1977, afirma que, com a bipartição, os dois estados ganhavam; mas admite também que a existência dos de

Relações Públicas

da

Paranaíba

e Paraná,

limita-se

a linha da fronteira ocidental”.

Bolívia, marca

53 BRASIL. Assessoria de Relações Públicas divisão de Mato Grosso, Brasília, 1977, p. 14.

da

Presidência

da

República,

4

54 BRASIL. Assessoria de Relações Públicas divisão de Mato Grosso. Brasília, 1977, p. 14.

da Presidência

da

República.

A

Baixo Assessoria

do

com os estados de Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Seu extremo meridional defronta-se com a República do Paraguai, que, com a

55 Mato Grosso 52 BRASIL.

fluviais

contra 0,68 de Mato

Documento da Presidência da República, editado no dia da

divisão de Maio Grosso. Brasília, 1977, p. 12-13.

calhas

Presidência

da

República.

4

do Sul está dividido nas seguintes

Pantanal,

Paranaíba, Iguatemi.

Três

Aquidauana, Lagoas,

Alto Taquari,

Nova

Andradina,

microrregiões

Campo

Grande,

Bodoquena,

geográficas:

Cassil: Dourados

e

354

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

355

Segundo dados da Secretaria de Planejamento de Mato Grosso do Sul, a população economicamente ativa representava, em 1970, 31% da população total. A maioria (59%) ligada ao setor primário, ao terciário e a décima

terço (30%)

um

parte (11%)

ao setor secun-

dário. Esse aspecto evidencia um estado cuja economia estava voltada principalmente para as atividades agrícolas, destacandose a pecuária e a agricultura. De acordo com o que se observa nas

cre

tabelas elaboradas por essa Secretaria, apenas a microrregião Pastoril de Campo Grande tinha a maior parte de sua população microrregião, mais a de Três as únicas que apresentavam a maior parte de sua e ativa nos setores secundário e terciário, economicament população setor

vinculada ao Lagoas, eram

Essa

terciário.

o que é explicado por um processo de urbanização mais acentuado, enquanto que nas demais essa população concentrava-se nas atividades agrícolas € no extrativismo.

Mato Grosso do Sul na Federação (2000).

Quanto da região que Grosso do Sul has de um milhão

passaram

a constituir Mato

Grosso

do

Sul, a

evolução da população do estado no período de 19550 a 1980 foi a C seguinte:

Além

disso,

63%

até 1983,

trabalhava sem

da

obra,

era

população

registro formal”.

cão economicamente

:

marcada

por

gtandes

ativa

ativa

economicamente

A estrutura setorial da popula-

era a seguinte:

ú

[ESTRUTURA SETORIAL DA POPULAÇÃO ECONOMICAMENTE ATIVA

*

E

POPULAÇÃO RESIDENTE

[5

de

rios, 48% percebiam até um salário mínimo e 23% até 0,5 salário.

à sua população, conforme citado, era superior à constituiu o atual Mato Grosso. Enquanto Mato totalizava, na época da divisão, aproximadamente E habitantes, Mato Grosso contava com 600.000. Em que

mão

mos, enquanto 1,5% mais de 20. Dos que ganhavam até três salá-

1977, essa população era majoritariamente rural. Considerando os municípios

da

à renda

Quanto

distorções na distribuição salarial dos trabalhadores. Em 1980, logo após a divisão, 81% deles ganhavam até três salários míni-

1980

%

59

176426

36

32.822

1

87.289

18

TERCIÁRIO

92.405

30

216478

43

SETORES

1970

nes PRIMÁRIO

182.556

SECUNDÁRIO

%

Distribuição

1950

1980

1970

1980

OUTRAS

-

-

15.874

3

Urbana

tta.018

242.182

452.153

919.129

TOTAL

307.783

100

502.921

100

Eu

193.559

sALESE

Total

306.571

;

pias

eai

a

FONTE: SEPLAN/MS. O Centro-Oeste e à Retomada do Desenvolvimento Nacional, p. 23.

piscas

1.369.567

56 MATO

GROSSO

retomada

do desenvolvimento.

FONTE: SEPLAN/MS. O Centro-Qeste é a Retomada do Desenvolvimento Nacional, p. 30.

;

DO

SUL.

Secretaria Campo

de Planejamento. Grande,

jul,

1985,

; O Centro-Oeste e o

p. 52,

356

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

357

MATO GROSSO DO SUL; UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

tal era o perfil econômico do estado nascido a 11 de outubro de

Para a autora, o regime instaurado em 1964 inaugurou uma concepção de planejamento acompanhada da “desintoxicação ideológica”, de “descarte” de valores, ideologias, nacionalismos e outros. Os intelectuais tecnocratas que davam sustentação ideológica ao tegime defendiam, segundo ela, a ideia da ciência calcada na “razão técnica"* enquanto um bem em si mesma, aparente-

TOP.

mente desvinculada de interesses,

Vocacionado para a agropecuária, segundo os documentos aqui referidos, tendo se dedicado, até a década de 1960, à pecuária extensiva, possuidor de um dos maiores rebanhos bovinos

do

país,

o quarto

em

1975,

terceiro

produtor

de

soja,

e

colocado entre os cinco maiores produtores de trigo e de arroz:

para poder servir a determina-

dos objetivos específicos. Pelos elementos de que

A concepção de “estado-modelo” Transcorrido sob a ditadura militar, o período que se seguiu à criação de Mato Grosso do Sul até a instalação do primeiro governo (janeiro de 1979) foi marcado por intensas articulações e pressões de grupos que compunham a ARENA regional para obter do governo federal a indicação ao cargo de governador. As disputas nos bastidores anunciavam que Mato Grosso do Sul já nascia em crise, o que colocava em xeque as ideias concernentes à “unidade modelo do Brasil” que vinham sendo veiculadas desde abril de 1977, quando a divisão fora decidida por Geisel. Matérias jornalísticas, suscitando a expectativa de que no novo estado “tudo seria diferente”, começaram a ser veiculadas com o seguinte teor: “Fim do funcionalismo público com

todos os servidores passando ao regime da CLT poderá ser uma das inovações (como qualquer empresa), O Governo Federal pre-

tende criar unidade modelo para todo o Brasil”. Observamos aqui a concepção dos governos militares (1964-1985), de Estado como “qualquer empresa”, uma unidade técnica, não política, tal como analisou Maria de Lourdes Covre em A fala dos bomens. 57 O novo estado de Campo Grande, uma unidade modelo do Brasil. Correio do Estado. Campo Grande, 23-24 jul, 1977, p. 1. Nota-se a denominação do estado como “Campo Grande” nas edições dos jornais compreendidos entre maio e agosto de 1977,

dispomos,

tudo indica que na uni-

dade federativa que acabava de nascer, tal “razão técnica” veio acompanhada de outros componentes como “planejamento participativo” e “democrática participação comunitária”, expressões muito presentes nos documentos governamentais da época que, entretanto, não chegaram a ser implementados”. A racionalidade e o planejamento eram os ingredientes principais da concepção de Estado da primeira equipe governamental que dirigiu Mato Grosso do Sul. Já no discurso de posse, o governador Harry Amorim Costa referiu-se explicitamente ao planejamento como método de governo, tal como lemos;

A elaboração da estrutura organizacional do Poder Executivo, como instrumento operacional das ações do Governo, merecem cuidados e atenções especiais, com o objetivo de alcançar racionalidade e eficiência administrativa, baseada nos pressupostos condicionantes da organização sistêmica, da gerência integrada e da descentralização executiva. Daí resultou uma estrutura inovadora na forma e na gerência, que congregando órgãos centrais e vinculados L..] adotado o planejamento como método de Governo, para a mais ampla, livre e democrática participação comunitária em

58 COVRE, Maria de Lourdes Manzini. A fala dos bomens, p. 39-40. 59 Este tema merece um estudo específico, pois são recorrentes as alusões c sentimento de frustração pela não concretização do “estado-modelo”. Estudioso do assunto é o ex-secretário de Planejamento Jardel Barcellos, quem mantivemos diálogo sobre o governo Harry Amorim Costa.

com

TDPoÕooÕf£oÕÃo 358

FREGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

359

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

busca de melhor apoiamento aos Municípios e mais estímulo à

cretarias de Estado: Secretaria de Meios (Planejamento, Fazenda e

iniciativa privada”,

Administração);

Nota-se a referência a uma “estrutura inovadora” adotando “o planejamento como método de governo, para a mais ampla, livre e democrática participação comunitária”, ou seja, estava anunciado aqui o princípio do “planejamento participativo”, que muitos anos depois voltaria à tona na política brasileira. Esse aspecto nos remete a uma observação sobre os técnicos do primeiro esca-

Secretaria

de Desenvolvimento

de Recursos

Hu-

manos (Saúde, Cultura, Educação, Trabalho e Promoção Social); e

Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Agricultura, Indústria é

Comércio,

Turismo,

Fiscalização

Agropecuária

e

Preservação

Ambiental). O sistema encontrava apoio em uma quarta Secretaria, a da Infra-Estrutura

Rural e Urbana,

pelo sanea-

responsável

mento, estradas, habitação, energia elétrica e comunicações. a sua gestão

como

“eminentemente

técnica”,

“ex-

lão que acompanharam Harry Amorim Costa a Mato Grosso do Sul, constituindo o seu secretariado. O secretário de Planejamento, por exemplo, Jardel Barcellos, era defensor e um dos formuladores dessa concepção. Economista do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (IPEA), havia participado do pro-

diferente da existente nos demais estados, cujo aspecto mais distintivo era o número reduzido de secretarias. Nos raros documentos que

jeto de fusão do estado do Rio de Janeiro com a Guanabara

de administração

pública.

desenvolvimento

nacional,

tendo

exercido, depois, a subsecretaria de Planejamento do chamado Governo da Fusão. Atuou, a pedido do Ministério do Planejamen-

Reaiçando

clusivamente

administrativa”, o governador montou

uma

estrutura

restaram desse curto governo há sempre menção a essa concepção Em

um

de maio

deles, de

Mato 1979,

Grosso do Sul e O consta

um

capítulo

intitulado “Surgimento e concepção do novo estado” em que se Iê:

to, como supervisor-geral na divisão de Mato Grosso. Desse modo,

Recém-surgido, Mato Grosso do Sul teve oportunidade ímpar, baseada

ele compôs a equipe de Harry com a intenção de instaurar novos métodos de governo. Parte da elite política local, porém, imediatamente começou a criticar o governo pelo seu “desconhecimento da realidade”. O fato é que a equipe parecia um tanto otimista,

nas experiências políticas e administrativas vivenciadas pela Adminis“ação Pública, para conceber estrutura organizacional de característi-as singulares, visando a promover eficazmente o desenvolvimento de suas potencialidades. Pouco departamentalizada, compreende re-

talvez desconhecendo ou minimizando o poder dos caciques po-

duzidos centros de decisão, supervisão e coordenação, Caracteriza-se

líticos

mato-grossenses. Os jornais da capital, reproduzindo o discurso de posse do governador, divulgaram, nos primeiros dias de governo, matérias alusivas à “estrutura enxuta” que assumia a administração estadual e ao “fim do empreguismo político”'!, A estrutura administrativa adotada por Harry Amorim Costa constava de poucas Se-

pela execução através de Administração Indireta e fundações instituídas pelo Poder Público e pela ação delegada aos Municípios. Contudo, a alimentação desse sistema decisório lança suas raízes no seio das diversas comunidades, mediante adoção do planejamento participativo, traduzido pela implantação de ramificações administrativas e colegiados regionais. Evidentemente, a operacionalização dessa estrutura dar-se-á ao longo do tempo, em decorrência de sua práxis

e do espírito de envolvimento comunitário e regional”, 60 COSTA,

1979, p. 9.

Harry Amorim.

Discurso de posse. Revista Liderança. Maringá, jan.

61 Fim do empreguismo político em MS. Correio do Estado. Campo Grande, 6 ján. 1979, p. 1.

62 MATO GROSSO DO SUL. Secretaria do Planejamento, Mato Grosso do Sule o desenvolvimento nacional, maio 1979, p. 5-6.

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

De acordo com o documento, deveria prevalecer uma admi-

nistração: a) pouco departamentalizada; b) com reduzidos centros

361

MATO GROSSO DO SUL; UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

Essa

era

a concepção

dominante

do

governo

curto

Harry.

de decisão; e) execuções por intermédio de fundações; d) adoção do planejamento participativo, que não poderia prescindir da ple-

Seu secretariado expressou essa intenção de realizar um governo baseado em tais premissas, o que contrariava frontalmente os interesses da elite política local. Na época, a alusão de que o

na

governo

adesão

dos

municípios.

Peça

central

da

estratégia

governa-

mental, o planejamento era assim definido:

não era “político” ganhava

reforço

da imprensa que, para isto, se apegava ao fato de que “a maioria

O Estado intensificará o planejamento em todos os níveis, da forma mais aberta e democrática possível, coerentemente com os horizon-

tes políticos que se vêm delineando. Planejamento é ordenação técnica à serviço das aspirações mais legítimas do corpo social. Daí a ênfase em caminhar-se para um planejamento participativo, como prevê o ideário da organização do Estado de Mato Grosso do Sul, contido no Decreto lei número 2, de 1º de janeiro de 1979%.

Apesar de assegurar que o planejamento deveria ocorrer da “forma mais aberta e democrática possível, coerentemente com os horizontes políticos que se vêm delineando”, ficando implícito o reconhecimento das aspirações e lutas da sociedade brasileira pelo restabelecimento das liberdades democráticas, o governo Harry Amorim Costa insistia na tecla de que não era “político”, refrão repetido pela imprensa de modo geral e presente na seguinte matéria, tão logo tomou posse o primeiro governador: O Estado de Mato Grosso do Sul terá um Governo com estrutura inteiramente

Costa

Harry Amorim

inédita no Brasil, e exclusivamente administrativo, já

que todos os seus integrantes são eminentemente técnicos, inclusive o próprio Governador, ex-presidente do Departamento Nacional de Obras e Saneamento. Nenhum dos seus assessores, integrantes dos “sistemas de governo”, tem qualquer ligação partidária, local ou

nem

é natural

de

Mato

Grosso,

mas

técnicos

de

competência

reconhecida”. De fato, a princípio, o próprio governador se esquivava da “política”. Quando, porém, percebeu que teria de enfrentá-la, era tarde demais: foi derrubado no sexto mês de mandato pelos afeiçoados a uma determinada política, a que se tramava nos bastidores e que desferiu o golpe fatal contra o “governo eminentemente

técnico” de Harry.

A 13 de junho de 1979, um dia após a promulgação da Constituição estadual, a articulação desencadeada de Brasília não encontrou resistência na Assembléia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que aceitou a deposição do governador. A composição de forças ali lhe era desfavorável, apesar de, aparentemente, os deputados da ARENA terem lhe hipotecado apoio. Pouco antes de sua queda, eles assinaram um documento” que, na verdade, apenas cumpriu o papel de registrar que não tiveram responsabilidade pela articulação, conforme será mostrado no livro que dá sequência a este. Por enquanto, fica apenas a indagação:

deputados fossem, de fato, fiéis ao governador, por que a sua destituição? O primeiro governador, por sua vez, de que a sua indicação por Geisel apenas se efetivara esgotados todos os esforços de obtenção de consenso

se esses

aceitaram era ciente depois de na ARENA

nacional. A maioria nem é natural de Mato Grosso, mas todos são

técnicos de competência reconhecida”,

63 MATO

GROSSO

DO

SUL.

Secretária

desenvolvimento nacional, p. 37.

do Planejamento,

65 Eram onze os deputados da ARENA que assinaram o documento: Ramez Tebet, Paulo Saldanha, Londres Machado, Valdomiro Gonçalves, Osvaldo Mato Grosso do Sul e o

64 Governo eminentemente técnico. Revista Liderança. Maringá, jan. 1979. p. 11,

Horácio

Cerzósimo,

Rudel

Trindade,

Alberto

Cubel,

Walter

Carneiro,

Ze

io

dos Santos e Ary Rigo. O MDB contava com sete parlamentares: Jesus Gaclta, Getúlio Gideão, Sérgio Cruz, Onevan de Matos, Sultan Rasslan, Odilon Nacasato é Roberto Orro,

362

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL HE MATO GROSSO

regional. Logo que assumiu, sabedor dos obstáculos com os quais se depararia, confessou: “A minha própria escolha, na condição de simples técnico apartidário, advém da impossibilidade total de

uma composição política”%,

363

MATO GROSSO DO SUL; UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

| — a “superioridade econômica” do sul do estado e insatisfação quanto ao escoamento de seus recursos financeiros por meio do pagamento de impostos. O divisionismo indicava que “mais de dois terços das rendas públicas” sustentavam a capital. “Sabe-se

A destituição de Harry Amorim Costa mostra, portanto, que a elite política do sul, beneficiada pela divisão de Mato Grosso, não tinha compromisso com a construção de um estado diferente

que existe Mato Grosso pelo talão de imposto”, registravam docu-

daquele que criticavam e que servia ao “mando de Cuiabá”, pois

cadorias, enquanto que “o centro e o norte rendiam menos dum terço” e absorviam “mais de 65% da receita, só na capital”?; 2 — “aspecto social”: os argumentos delendidos centravam-se, basicamente, nas críticas à ausência de aplicação de recursos financeiros na área educacional, a mais reivindicada entre todas as políticas sociais. Denunciavam o desprezo e o esquecimento a que o sul era relegado pelo Estado, que não lhe trazia “auxílio algum”. Além da falta de assistência à saúde, criticavam mais veementemente a situação “da instrução pública”: enquanto o go-

não toleraram a intenção de Harry de implantar uma estrutura de

governo diversa daquela. Em que consistia e de onde se originava, afinal, a ideia de um

“estado-modelo”?

governo, escudado

De

um

lado,

as formulações

do primeiro

na concepção de Estado “técnico”, “exclusiva-

mente administrativo”; de outro, o rol de ideias difusas que, historicamente, havia composto o ideário da causa divisionista. Ou seja, emanou principalmente do secretário de Planejamento Jardel Barcellos, e do próprio Harry Amorim Costa, a ideia de um modelo organizacional cujos princípios inovadores, inclusive o planejamento participativo, eles pretendiam adotar com o objetivo de construir um “estado-modelo” no país, em termos institucionais. Os estudos realizados permitem concluir por uma cone-

mentos da década de 1930 repetidos até a década de 1970. Em síntese: maior

arrecadação,

maior exportação,

circulação de mer-

verno aparelhava o centro-norte de escolas, o sul se encontrava sem

“um

móvel do Estado [...] nem

um livro, nem

um tinteiro do

Estado. E os professores? São técnicos? Nunca. Um ou outro com alguma

competência”*.

Com

a divisão de Mato Grosso,

amuncia-

cretaria de Planejamento desse primeito governo e aquelas que, historicamente, haviam embasado o discurso dos divisionistas,

vam os panfletos: “Teremos instrução pública primária e secundárias gratuitas com um corpo de professores bem remunerados, pagos em dia e competentes"? As críticas quanto à omissão do governo nesse assunto arrastaram-se da década de 1920 em dian-

embora,

te, considerando o sul sempre desassistido;

Xxão, mesmo

que

como

involuntária,

demonstrado

entre

no

a ideia formulada

livro

que

completa

pela

este,

Se-

elas

acabassem se reduzindo à mera retórica ante a prática efetivamente adotada pelos grupos dirigentes locais após a instalação do estado de Mato Grosso do Sul. Da causa divisionista, no contexto das críticas ao “governo de Cuiabá”, sobressaíam os seguintes elementos:

3 — “aspecto político”: os divisionistas dirigiam ao governo estadual, sempre deixando explícito que ele não representava os su-

7 A divisão de Mato Grosso: resposta do general Rendon, p. 9-20, COELHO, Italívio. Pronunciamento. Diário do Congresso Nacional. Brasília, 4 maio 1977, p.

66 Governo 1979, p. 12.

exclusivamente

administrativo.

Revista

Liderança.

Maringá,

jan.

1335-1338.

68 A divisão de Mato

Grosso: resposta dao general Rondon,

69 Boletim n. 1 Sulinos! Rio de Janeiro, 24 jan. 1934.

p. 21-24,

364.

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

listas, as mais duras acusações contra o empreguismo, culpando “os políticos” pelo não desenvolvimento do estado. Um boletim emitido em 1934 e cujas críticas foram, depois, sempre reiteradas, dizia: “Teremos a maior dádiva dos deuses — q eliminação na vida econômica e administrativa do Sul, dos Tubarões da politicalha, dêsses politiqueiros vorazes, que levaram o Estado a esta situação infeliz — espoliado, empobrecido [...J'7º. A sujeição do sul aos “terríveis políticos de Cuiabá”, afeiçoados “ao mando” e a submeter o sul de acordo com os interesses das oligarquias dominantes do centro-norte, era argumento forte do separatismo. O “cuiabano” era visto como “senhor absoluto do Estado”.

hostil aos interesses políticos sulistas além de não admitir

“a idéia de concorrentes, de pensamentos de liberdade”? Aliado ao monopólio do poder pelo “cuiabano”, os separatistas rechaçavam também o “empreguismo” e o “clientelismo” praticados pela máquina governamental?. Em síntese, esses aspectos gerais retirados das críticas ao governo estadual deixavam implícita a expectativa de que, uma vez dividido o estado, o governo do sul seria exatamente o oposto daquele que rejeitava. No que diz respeito à economia, esta conti-

nuaria a crescer apresentando índices sempre superiores aos do centro-norte. E mais: os frutos desse desenvolvimento que antes “sustentavam Cuiabá”, se aplicados

unicamente

no sul, promove-

riam áreas sociais tão reclamadas de assistência e até então esquecidas. Quanto ao aspecto político, subjazia nas entrelinhas que o

governo do novo estado seria avesso a qualquer forma empreguismo, clientelismo e, sobretudo, de corrupção.

de

365

MATO GROSSO DO SUL: UMA NOVA ESTRELA NA FEDERAÇÃO

Por outro lado, ao criticarem o “mandonismo” dos que dominavam a política em Mato Grosso e não aceitavam “a ideia de concorrentes”, as elites do sul davam a entender que elas, uma vez dirigentes, adotariam formas democráticas de condução da máquina estatal, Por fim, no que tange ao aspecto social, decorrente do econômico,

o que se pregava era o privilegiamento des-

se setor, especialmente na área educacional. Essas eram as expectativas acalentadas pela população do sul que durante quase um século conviveu com a hipótese de que, um dia, o grande Mato Grosso seria dividido em dois estados. Suas elites políticas e econômicas cio do

século,

esse

ideário que

construíram,

permaneceu

desde

subjacente

o iní-

à causa

divisionista. A tudo isso, foi adicionada a concepção de Estado do primeiro governador de Mato Grosso do Sul, Harry Amorim Costa. Com ênfase no planejamento participativo, eficiência e racionalidade da máquina governamental, reduzido número de secretarias e burocracia, Harry forneceu os ingredientes que faltavam para a idealização de um “estado-modelo” que Mato Grosso do Sul deveria ser destacando-se no conjunto da federação brasi-

leira, e, consequentemente, distinguindo-se do governo a que sempre fora “submetido”, o de “Cuiabá”. A tese do “estado-modelo” foi recebida com otimismo porque a população identificou nos seus postulados aspectos que historicamente haviam sido defendidos pelo divisionismo e os quais distinguiam positivamente o sul de Mato Grosso, atribuindo à “política do norte” a não realização das suas potencialidades. De tal forma que aquelas antigas proposições

pareceram encontrar na concepção

de

“estado-modelo” a oportunidade para se concretizarem. 70 Boletim n. 1 Sulinos! Rio de Janeiro, 24 jan. 1934. 71 COELHO, Italívio. Pronunciamento. Diário do Congresso Nacional. 4H maio 1977, p. 1337.

72 A divisão de Mato Grosso: resposta ao general Rondon, pe 25: Oclécio Barbosa. Pela defesa nacional, p. 90-101.

73 MARTINS,

Brasília,

Ironicamente, derrubado o primeiro governo, aqueles que o substituíram incorporaram, no discurso, a sua tese do “estadomodelo”, mesmo que contraditória com a prática política que passaram a adotar. A retórica que permeara o divisionismo, como teremos ocasião de mostrar, continuou subjacente.

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Esse mito permeou pelo menos,

a história

de Mato Grosso do Sul até,

vinte anos após a divisão, quando, então, começ ou

ser questionado. O Correio do Estado, que tanto defendeu a divi são e a superioridade do sul, diante da crise que se desenrolava nos

anos

de

1990, diferentemente

de aniversários anteriores,

a

em

1996, publicou matéria alusiva ao 11 dé outubro cuja manchete anunciava simplesmente: “Sem parabéns”. O livro dois mostrará, porém, que a tese do “estado-modelo”, apesar de relativizada, não foi abandonada.

Caderno de Imagens

Do final do século XIX ao ano de 1977, muitos fatos políticos marcaram a trajetória que Mato

com

culminou

divisão

a

do antigo Grosso



a criação de Mato Grosso do Sul. Nas próximas páginas alguns desses momentos e nomes ligados ao divisionismo.

—" "000

74 Ver também: Mato Grosso do Sul não tem Q que comemorar no aniversário. Correio do Estado.

Ca mpo

Grande,

11

out,

1996,

p: 7.

388

MATO GROSSO

DO SUL;

À CONSTRUÇÃO

DE MATO GROSSO REGIONALISMO E DIVISIONISMO MO SUL

DE UM ESTADO

| l

mm

João: Ferreira Mascarenhas Qango Mascarenhas). Revista MS Cultura nº3 - Set /Out. 1985

PE

Acervo ÁRCA

pero

ines

ETA

md

Ei

O

dmg

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Vespasiano Barbosa

Martins

Arquivo da Familia

Acervo ÁRICA,

eee

Loja Maçônica Maracaju, Sede do governo Élio Taveira / Acervo ÁRCA

paralelo em Campo

Grande.

1932.

370

MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

RA

RE o

bt

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Fernando Corrêa José Fragelli.

Oelécio Barbosa Martins. Arquivo Correiodo Estado

EEE

da

Silva Quadros

Arquivo Correio do Estado

em

Campo

Grande,

Década

de

1960.

O governador

de Mato

Arquivo Correto do Estado

da Costa

e

Arquivo Correio do Estado

Acervo Arquivo Público MS

Jânio

371

REGIOMALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Grosso

uno José

Fragelli

e o deputado

estadual

Levy

Dias.

a72

MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

Paulo

Coelho

Machado:

Arquivo Correiodo Estado

Presidente Ernesto Geisel assina a lei da Brasília, 11 de outubro de 1977,

Acervo E

Paulo Coelho Machado Sul-Mato-Grossense.

pelo MDB Acervo ARCA

preside, em Campo À esquerda,

Grosso.

suo secas

ni E GORULHELLHANDIA º

Grande, reunião da

Aurélio

é um dos fundadores do PT-MS.

divisão de Mato

ARCA

10008

Liga

73

GROSSO / REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO

Cance

Jr., vereador

eleito

Divisionistas embarcam, em Campo Grande, para presenciar, em Brasília, a ar da Lei Complementar nº 31, que dividiu Mato Grosso e criou Mato Grosso do Sul. Arquivo Correio do Estado

s74

MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO

DE UM ESTADO

Linha do Tempo Volume 2

Comemoração Mato Grosso.

no centro de Campo Grande 11 de outubro de 1977,

após

q

ssinatura

da lei que

dividiu

Arquivo Correio do Estado

Fatos pontuais da história de Mato Grosso do Sul em seus primeiros trinta

anos.

Tema desta obra em seu segundo volume:

“Poder político e elites dirigentes sul-mato-grossenses”.

Divisionistas Acervo ARCA

comemoram,

em

Campo

Grande,

a criação

de Mato

Grosso

do Sul.

MATO GROSSO

DO SUL: ACONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

377

REGIONALISMO E DIVIS IONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

Sem imaginar que seu mandato teria curta duração, Harry Amorim (á direita), ao lado do presidente Geisel, saúda a população no dia de Sua posse como governador de MS.

1º de janeiro de 1979 Instalação do primeiro governo dé Mato Grosso

Fundação do Partido dos Trabalhadores.

do Sul. Nomeado por Geisel, Harry Amorim Costa toma posse como

Junho de 1979

primeiro governador.

Setembro de 1980

CORREIO DO ESTADO

Destituição de Marcelo Miranda e nomeação de Pedro Pedrossian como 3º

1980-81 Movimento pela defesa do Pantanal.

governador de MS.

Wilson Martins (ao microfone) é Plínio Martins (à esquerda)

1980-81

O governador

Primeira

28

Pedro

para governador em

É [e] [=] omu [a [ra [=] õ

garante

Pedrossian au

presidente João

Baptista Figueiredo a vitória do PDS (ex-ARENA) na primeira

eleição

para governador que ocorreria em

do

mesmo

ano,

Jul

Marcelo Miranda (à direita) e Pedro Pedrossian.

Maior planícia inundável do mundo, o Pantanal - que tem em Mato Grosso do Sul 55% de sua área brasileira — é considerado Reservada. Biosfera pela Ungaco.

1982.

Deputado Antônio Carlos de Oliveira, um dos fundadores do PT Nacional, do PT-MS e candidato agovemador em 1982.

CORREIO DO ESTADO

Destituição do governador Harry Amorim Costa e nomeação de Marcelo Miranda Soares como segundo governador de Mato Grosso do Sul. Harry Amorim que havia tomado posse no dia 1º de janeiro

1982

1981

ficou

apenas seis meses À frente do governo. Pedro Pedrossian (à direita) e presidente Figueirado (á esquerda)

eleição

Mato Grosso do Sul. Foram candidatos: Wilson Barbosa Martins, José Elias, Antônio Carlos de Oliveira e Wilson Fadul. Eleito Wilson Barbosa Martins

(PMDB).

378

MATO GROSSO

DO SUL:

À CONSTRUÇÃO

DE UM ESTADO

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

379

E

É

Ê

É

|]

|

É

E

ha ha

Concentração popular na

confiuência da av. Alonso Pena

RA

com rua 14 de Julho,

Posse

do

Mato Grosso J

1984 Campanha

eleito de De

do Sul,

g

a

-

Diretas-Já.

das

A

Municipal de Campo Grande

1985

1985

primeiro

saca

E

Ato público na Câmara

em Campo Grande

Março de 1983)

;

1986 :

Fim do regime militar.

Legalização do

Pedro Pedrossian é

Ja Pedro Pedrossian

Votação indireta de Tancredo Neves

Partido Comunista Brasileiro.

Lúdio Martins Coelho se unem

é eleito governador.

a

para presidente foi acompanhada nó p Paço Municipal de Campo Grande.

8! Er

1990

no

PTB para a

E

campanha

E

Pp - eleitoral. Marcelo Miranda Soares (PMDB)

À

vence a eleição

para governador derrotando

Lúdio.

|

ia É

CORREIO

4

DO ESTADO

Wilson Martins (à direita ecvice Ramez Tebet, A esquerda, senador Antônio Mendes Canals

Pedro Pedrossian (à esquerda) £ Lúdio Coslho

E Ê 5

380

MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

André Puccinelli é eleito prefeito de Campo Grande. José Orcírio Miranda dos Santos (Zeca

perde a eleição

Barbosa

Martins é eleito governador.

no segundo (turno por 411 votos.

1994

Orcírio

Miranda dos Santos (Zeca do PT) é eleito governador de Mato Grosso do Sul.

Reeleição de Zeca do PT para o governo estadual.

André Puccinelli é eleito governador.

2002

1998

2006 2007

CORARO DO ESTADO

CORREIO 23 ESTADO

1986

José

Trinta anós da divisão

de

Mato Grosso e da criação de Mato Grosso do Sul.

CDAREID DO ESTADO

Wilson

do PT)

381

REGIONALISMO E DIVISIONISIO NO SUL DE MATO GROSSO

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MATO GROSSO DO SUL: À CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

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GEISEL o

A

PECUÁRIA

vai

bem.

Os

criadores,

melhor

ainda.

Correio

do

Estado,

AMANHÃ em Campo Grande e Brasília, a grande festa da sonhada Correio do Estado, Campo Grande, 10 out. 1977. p.01,

divisão.

Campo

Grande,

AMORIM

Costa

15 nov. 1980, p. (5.

continua

rio dea Serra. Campo

caminhada

Grande,

31

out.

pelos 1978,

municípios

pode

indicar

hoje

Grande,

20 mar.

1978,

Diá-

p: 06.

de

MS.

Correio

do Estado.

Grande,

Campo

Correio do Estado.

definido.

1978, p. OI. GOVERNO de Harry tende a agregar-se a renovadores. Correio do Estado. Campo Grande, 21 nov. 1978 p. 07. GOVERNO

mato-grossenses.

governador

p. 05.

está

nada

que

L assegura

o

391

eminentemente

GOVERNO 1.

1970,

técnico,

exclusivamente

Liderança.

Maringá,

administrativo.

jam. 1979,

p.

Liderança.

11.

Maringá,

q. 12.

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quer

ANACHE

IF

medalha

to

Muller.

de

alienígena,

Correio

Correio do Estado.

do Estado,

Campo

Grande,

25 abr, 1991, p. (2, CAMPO

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moderna.

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recebe

a divisão

em

silêúcio.

Correio

do

Estado,

São

quer

Paulo,

1996.

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DIVISÃO Campo

foi

um

Grande,

DEPUTADOS

Vale

a vender

Caderno

Urucum.

O Estado

ÚL.

Campo

Grande,

HARRY analisa v 24 out. 1978, p. 01.

de São

pode esclarecer. Correio do Estado, Campo

sonho

que

mobilizou

o Sul,

Correio

Grande, 28

do Estado.

10 out. 1995, p. 04,

querem redivisão territorial, Correio do Estado, Campo

11 jul. 1966. p.01.

“DEUS guarde o nosso povo, Ele é inocente”, do Estado, Campo Grande, 31 out. 1980. p.0L. FIGUEIREDO demite 13 jun. 1979. p.01. FIM

do

Paulo.

B, p. 03.

empreguismo

Harry. político

Correio em

MS.

do

diz

Estado,

Marcelo. Campo

Correio do Estado.

Grande, Correio Grande,

Campo

Grande,

06 jan. 1979, p. OL. FRANCELINO tentará unir Fragelli e Pedrossian: a ordem reio do Estado. Campo Grande, 30 jan. 1978, p. 07. GADO e soja ainda maio 1994, p. 17.

são as forças em

MS.

partiu de Geisel. Cor

Correio do Estado. Campo

Grande,

12

GEISEL escolhe sozinho 0 governador de MS. Correio do Estado. Campo Grande. 13 mar.

1978, p. O1.

Diário da Serra. Campo

hoje no norte de MS. Diário da Serra. Campo

Estado,

HARRY

obrigar

26 jul.

HARRY

segue hoje para a região do Bolsão.

vai

itas

visitar

a municípios.

des da faixa

16

Grande,

Diário

Grande, 01 out. 1978, p.

da Serra.

e se Faz

HARRY atingiu seu objetivo: conhecer Campo Grande, 17 nov. 1978, p. 09.

conhecido.

MS,

Costa, o governador Amorim HARRY Campo Grande, 22 mar. 1978. p.02.

de

HARRY,

político.

um

grande

técnico,

Campo

Grande,

22

1978.

HARRY

recebe

de Estado,

ainda

03 dez. 1995. MARCELO



um

grande

Gran-

Diário ea Serra.

do

Estado,

do

Estado,

tudo.

Correio

Correio Correio

mar.

é pouco,

mas 1979.

polêmica.

apesar

de

p.OL.

O Estado de São Paulo.

São

Paulo,

Caderno A, p. 28.

Miranda

1979.

MARCELO

nde, 05

provoca

Grande,

p.03.

apoio,

importante

Campo

INICIATIVA

mar.

Campo

de fronteira. Diário da Serra. Campo

de, 04 nov. 1978, p. 03.

28 jun.

Grande,

1978, p. 05.

do

Correio

12 out, 1977. p.03.

DANTE

HARRY 27 set,

Diário da Serra. Campo

já é governador.

Correio do Estado,

Campo

Grande,

p.Ol.

é

exonerado.

Pedrossian

assumirá.

Correio

do

Estado,

Campo Grande, 30 out. 1980. p.01, MATO

do

Grosso

Sul

Gorreio do Estado.

Campo

de

Barros

MENDONÇA

não

tem

Grande,

quer

o

que

11 out.

retirar

comemorar

1996,

Urucum

no

aniversário.

p. 07.

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patrimônio

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MS.

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movimentos

separatistas,

Campo

um

Grande,

governo

na

12 out.

autônomo

DE UM ESTADO

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foi

1966. p. 01.

eleito

em

MT?.

Correio

do Estado,

Campo

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velhos

Rachid

Saldanha

Estado. Campo Grande,

Derzi

e Antônio

Mendes

no MS: cada dia um candidato de plantão.

po Grande,

09 mar.

Lagoas:

1978,

refeita

proposta por

não

é aceita.

TROCA UM

BUÇTAR,

Levy Dias, Correio

Campo

filho de Prestes vira turismo no M&.

28 set,

mato-grossense

até 1995,

para

moradores

da

cidade.

do

Grande,

Correio do Estado,

Marisa,

do

Estado,

p. 06

governar

Campo Grande, 06 set. 1977, p. 02.

BITTAR,

M

do Estado.

do

sul.

Córreio



Estamos

vivendo

histórica,

a rupt

Estado.

Correio do Estado. Cam-

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1; FERREIRA

Campo

do. Campo

Grande,

24-25

CARDOSO,

Ciro Flamarion.

de

ocupação

Correio de

seu

16. (nimeografado).

Mato Grosso

Hildebrando.

CAMPESTRINI,

do Sul sempre.

processos

e os

e Guarani Sul, p.

do

Grosso

Mato

território no

Kaiowá

Os

Antônio.

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Grande,

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n. 3, mar./ago.

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2004,

1995,

1995,

p. 05. (En-

Essa

não

sabia.

Correio

do Estado.

José

M.

MACHADO,

Paulo

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ano

Fontanillas.

Grande,

Coelho.

1995,

out.

90 anos,

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relembra

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é

um

rural

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do

Correio

não?

ou

sim

MS:

alves.

Fernando

CORRÊA,

MS Giltura,

MT

do

Correio

Sul?

do

1995, p. 04,

po Grande, 02 abr, 2000. p. 5 A (Entrevista).

Grande,

Correio

16 out.

Grosso

Mato

quê

Por

Mar

Grande,

do Estado,

desagrada Grande,

BITTAR,

Campo

uno.

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Henrique José Pires Martin...

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406

MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

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Joaquim Francisco LOPES. reenecemiserenenesa men

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13, 14 José Luis Sanfelice.... mamae ia A José Oreírio Miranda dos Santos (Zeca do PT. entanto mansa do A 106 A PRE pon oa pr José Pães de Barros. usas paga scommersessreesssemmmaermemetss sans ssasnmm+ AL eterna Josino Graciano Pina. passantes

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João de Barros Cassal... 71, 72, 89, 93, 96, 113, 114, 119, 125, 127, 132, 303 João de Segadas Viana... sis pa serra prnddada RUDE 267, 272, 284 João Ferreira Nriscaranhia 15Ganso seas. 87, 89, 90, 91, 93, 94, 95, 96, 98, 99, 100, 101, 102, 103, 104, 109, 114, ps 121, 127, 128, 132, 169, 303, 308 João GOUlalt. aussenarenancaspas apar naaasa eccaçad70, 280, 281, 284 HERE iRass af TR MR E E 201, 296, 329 João Muzzi....... . veste eme 119 João Nepomuceno da Costa.

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Ignácio Gonçalves Barbosa... ;

407

REGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

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408

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MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO

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HEGIONALISMO E DIVISIONISMO NO SUL DE MATO GROSSO

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MATO GROSSO DO SUL: A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO

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Esta obra, em dois volumes, oferece ao leitor uma compreensão abrangente sobre a gênese de um Estado que começou a ser

sonhado no final do século XIX, após a Guerra do Paraguai, e

que passou a ter existência quase um século depois quando,

em 1977, a ditadura militar dividiu Mato Grosso dando origema Mato Grosso do Sul. A trajetória secular

ade

“db

grandes proprietários ms

protagonizada

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pelos

que sau

ram a bandeira da sua criação, o regionalismo, os projetos frustrados, a obsessão de Campo Grande por se tornar capital e, finalmente, a conjugação da causa divisionista à geopolítica militar são os temas que se entrelaçam neste volume para dar

sentido à divisão de Mato Grosso. Fator que contribuiu para viabilizar economicamente essa causa, a criação do gado nelore na região, é estudado pela autora como um processo que operou

verdadeira

revolução

na

pecuária

nacional

trans-

formando o animal sagrado da fé indiana em icone do agronegócio brasileiro. Além disso, ao analisar o nascimento de Mato Grosso do Sul como resultado da combinação entre interesses regionais e nacionais, Marisa Bittar revela um aspecto pouco conhecido da ditadura militar.

ISBN 978-85-7613-231-8 INVESTIMENTO

FUNDAÇÃO DE CULTURA DO PATO dagics mc au

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