Livro da Filosofia: As Grandes Ideias de Todos Os (Em Portugues do Brasil) [AS GRANDES IDEIAS DE TODOS OS TEMPOS ed.] 8525049867, 9788525049865

O livro da filosofia traz uma coleção de ideias fundamentais para um mergulho no pensamento filosófico. Engana-se quem p

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Livro da Filosofia: As Grandes Ideias de Todos Os (Em Portugues do Brasil) [AS GRANDES IDEIAS DE TODOS OS TEMPOS ed.]
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O HOMLM • WASJ~IVÍ~UO ( S06EMNO

IDEIAS AJA ~OMO SE. () O.Jll VOios cínicos. DEPOIS c.40·45 O polític o e filósofo romano Sêneca, o Jovem, continua a tradição estoica em seus Diálogos.

c.150-180 o imperador rom ano Marco Aµrélio escreve os doze volumes de Meditações, sobre filosofia estoica.

1584 O humanist a Justo Lí:psio escreve De constantia combinando estoicismo com cristianismo para fundar uma escola de neoestoicismo.

uas escolas jmportantes de pensamento filosófico surgiram depois da morte de Aristóteles: a ética hedonista e agnóstica de Epicu ro, que teve apelo limitado, e o mais popular e duradouro estoicismo de Zenão de Cítio. Zenão estudou com um discípulo de Diógenes de Sínope, o Cínico, e compartilhou de sua abordagem singela. Ele tinha pouca paciência com especulações metafísicas e chegou a acreditar que o cosmos era governado por leis naturais estabelecidas por um legislador sup remo. O homem, ele declarou, é completamente impotente para mudar essa realidade - e, além de desfrutar de seus muitos beneficios, o homem também tém de aceitar sua crueldade e injustiça.

Livre-arbítrio No entanto, Zenão também declarava que o ho1ne1n recebeu uma alma racional com a qual exerce o livre-arbítrio. Ninguém é forçado a perseguir uma vida "de bem". Cabe ao indivíduo escolher pôr de lado as coisas sobre as quais tem pouco ou

nenhum controle e tornar·se indiferente à dor e ao prazer, à pobreza e à riqueza. Mas a pessoa que fizesse isso, segundo Zenão, alcançaria uma vida em harmonia corn a natureza em todos os aspectos, bons ou ruins, vivendo de acordo com as decisões do supre mo legislador. O estoicismo conquistou apoio em grande parte da Grécia helenista, mas atraiu ainda mais seguidores no Império Romano, que estava em expansão, onde floresceu como uma base para a ética pessoal e política, até ser suplantado pelo cristianismo no século VI. •

A felicidade é o bem fluir da vida. Zenão de Cítio

Ver também: PlaLão 50-55 • Aristóteles 56-63 • Epicuro 64-65 • Diógenes de

Sínope 66

70 INTRODUÇÃO Plotino funda o neoplatonismo, escola de filosofia mística baseada nos textos de Platão.

Crises internas e externas levam à divisão do Império Romano em oriental e ocidental. O império ocidental cru em um século.

Boécio con1eça a traduzir a obra de Aristóteles sobre lógica.

c.260

395

c.510

O profeta Maomé realiza

a Hégira, sua jornada de Meca

a Medina, marcando o 1n1cio da era muçulmana.

622

313

397-98

618

711

Çgnstantino 1 decreta a liberdade religiosa dentro do Império Romano no Edito de Milão.

Santo Agostinho escreve suas

A dinastia Tang assume a China, trazendo uma Era de Ouro de desenvolvimento cultural.

Conquista da península Ibérica cristã (Espanha e Portugal) pelos muçulmanos.

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.filosofia não desempenhou grande papel na cultura romana. salvo o estoicismo. que era admirado pelos romanos por sua ênfase na conduta virtuosa e no cumprimento dos deveres. A tradição filosófica mais ampla estabelecida pelos gregos clássicos ficou, portanto, marginalizada sob o Império Romano. A filosofia continuou a ser ensinada em Atenas, mas sua influência d1minuju e nenhum filósofo de relevo surgiu até Platino, no século III, que fundou u1na importanLe escola neoplatónica. Durante o primeiro milênio da era cristã, a influência romana também diminuiu. politica e culturalmente . O cristianismo foi assimilado e, depois da queda do império no século V, a Igreja tornou -se a autoridade dominante na Europa ocidental, permanecendo assim por quase mil

Conflssões.

anos. A noção grega de filosofia como uma investigação racional independente de doutrinas religiosas foi contida com a ascensão do cristianismo As questões sobre a natureza do universo e o que constitui uma vida viirtuosa, acreditava-se, deveriam ser respondidas nas Escrituras: não eram consideradas temas para discussão filosófica. Santo Agostinho procurou mtegrar a .filosofia grega à religião cristã. Esse processo foi a principal tarefa da escolástica, uma abordagem filosófica que se originou das escolas monásticas e ficou famosa por seu rigoroso raciocínio dialético_ A obra dos filósofos escolást.icos, como Agostinho, foi menos uma exploração de questões como "Há um Deus?" ou "O homem tem uma alma imortal?" e mais uma busca por uma justificação

racional para a crença em Deus e na alma imortal.

A Idade das Trevas No momento em que o Império Romano se encolheu e finalmente caiu, a Europa afundou na ''Idade das Trevç.s" e a maior parte da cultura herdada da Grécia e de Roma desapareceu. A Igreja manteve o monopólio sobre o ensino e a única filosofia verdadeira a sobreviver foi uma forma de platonismo consideradcompativel com o cristian ismo, hem como a tradução da Lógica de Aristóteles por Boécio. No entanto. em outros lugares, a cultura prosperava. A China e o Japão, em particular. desfrutavam de uma "Era de Ouro" na poesia e na arte, enquanto tradicionais filosofias orientais coexistiam livremente com suas religiões. Nas terras que tinhar.

OMUNDO MEDIEVAL 71 • A "Casa da

Sabedoria" é fundada em Bagdá, atraindo estudiosos de todo o mundo para compartilhar e t raduzir ideias.

832

Proslogion.

alcança a Europa e mata inais de um terço da população.

Queda do Império Bizantino a porção oriental do I:npér10 Romano. com sua capital Constantmopla tomada pelos t urcos otoma_t'los

1077-78

1347

1453

A Peste Negra

Santo Anselmo escreve o

c.1014-20

1099

1445

1492

Avicena (Ibn Sina) escreve seu Kitab al-Shifa

Os cruzados cristãos capturam a cidade sagrada de Jerusalém.

Johannes Gutenberg, da Alemanha, inventa a prensa tipográfica, permitindo maior disseminação do conhecimento.

Cristóvão Colombo cruza o Atlântico e alcança as Índias Ocidentais.

(Livro da cura).

sido parte do império de Alexandre, o Grande, o legado grego inspirava mais respeito do que na Europa. Estudiosos árabes e persas preservaram e traduziram as obras dos filósofos gregos clássicos, incorporando suas ideias na cultura islâmica do século VI em diante. Quando o Islã se espalhou para o ' . leste na Asia, na Africa setentrional e na Espanha, sua influência começou a ser sentida na Europa. Por volta do século XII, novas ideias e invenções do mundo islâmico estavam alcançando regiões setentrionais tão remotas quanto a Grã-Bretanha, e estudiosos europeus começaram a redescobrir a matemática e a filosofia grega por meio de fontes islâmicas. As obras de Aristóteles, em particular, surgiram como uma espécie de revelação e provocaram um

ressurgimento do p ensamento filosófico dentro da Igreja cristã medieval. Embora a filosofia de Platão tenha sido relativamente fácil de assimilar no pensamento cristão - porque fornecia justificação racional lJara a crença em Deus e na alma humana imortal -. Aristóteles foi t ratado com desconfiança pelas autoridades da Igreja. Todavia, filósofos cristãos como Roger Bacon, Tomás de Aquino, Duns Scotus e Guilherme de Ockham abraçaram entusiasticamente o novo aristotelismo e convenceram a Igreja de sua compatibilidade com a fé cristã.

Uma nova racionalidade Junto com a filosofia que revitalizou a Igreja, o mundo islâmico também introduziu uma abu ndância de conhecimento tecnológico e científico

na Europa medieval. Os métodos científicos de Arist óteles haviam sido refinados para níveis sofisticados na Pérsia, e avanços na química, física, medicina e astronomia abalaram a autoridade da Igreja quando chegaram à Europa. A reintrodução do pensamento grego e das novas ideias que levaram à Renascença na Europa no final do século XV provocou uma mudança de ânimo, à medida que as pessoas começaram a considerar mais a razão do que a fé em b usca d e respostas. Houve d iscordância até dentro da Igreja, a ponto de humanistas como Erasmo provocarem a Reforma. Os próprios filósofos desviaram sua atenção para longe das questões sobre Deus e alma imortal para os problem as apresentados pela ciência e pelo mundo natu ral. •

72

11 SANTO AGOSTINHO (354-430)

EM CONTEXTO •

AREA

Os humanos são • • seres rac1ona1s .

Ética ABORDAGEM

Platonismo cnstão ANTES c.400 a.e. Nas Górgias, Platão argumenta que o mal não é algo, mas a ausência de algo.

Para que sejam racionais. 'º s humanos devem Ler livre-arbítrio.

Século III Plotino ressuscita a visão de Platão de bem e mal. DEP018

c.520 Boécio usa a teoria agostiniana de mal em

Isso significa que devem ser capazes de escolher entre o bem e o mal.

A consolação dafilosofia.

c.1130 Pedro Abelardo rejeita a ideia de que não há coisas más.

1525 Martinho Lutero. sacerdote alemão que inspirou

Os humanos podem,

portanto, agir bem ou mal.

a reforma protestante. publica Da vontade cativa,

argumentando que o arbítrio humano não é livre.

Deus não é a origem do mal.

gostinho tinha interesse particular sobre a questão do mal. Se Deus é inteiramente bom e todo-poderoso, por que há o mal no mundo? Para cristãos como Agostínho, assim como para os adeptos do judaísmo e do islamismo, esse era, e ainda é, um problema central Isso ocorre porque transforma um fato óbvio sobre o mundo - que ele contém o mal - em argumento contra a existência de Deus. Agostinho foi capaz de responder a um aspecto do problema facilmente. Ele defendia que, embora tenha cnado tudo o que existe, Deus não criou o mal porque o mal não é algo, mas a falta ou a de:ficiência de algo. Por exemplo, o mal padecido por um homem cego é a ausência de visão; o mal em um ladrão é a falta de honestidade. Agostinho tomou emprestado esse modo de pensar de Platão e seus seguidores.

Liberdade essencial Mas Agostinho precisava explicar por que Deus teria criado o mundo de tal maneira a permitir que existissem tais males ou deficiências naturais e morais. Sua resposta girou em torno da ideia de que os humanos são seres racionais. Ele argumentou que, para que Deus criasse criaturas racionais.

OMUNDO MEDIEVAL 73 Ver também: Platão 50-55 • Plotino 331 • Boécio 74-75 • Pedro Abelardo 333 •

David Hume 148-153

como os seres humanos, tinha de lhes dar livre-arbítrio. Ter livre -arbítrio significa ser capaz de escolher inclusive escolhe r entre o bem e o mal. Por essa razão, Deus t eve de deixar a berta a possibilidade de que o primeiro homem, Adão, escolhesse o mal em vez do bem . De acordo com a Bíblia. isso é o que aconteceu, visto q ue Adão desobedeceu a ordem de ' Deus para não com er a fruta d a Arvore do Conhecimento. O argumento de Agos tinho se sustenta mesmo s em s e referir à

Bíblia. A racionalidade é a capacidade de avaliar as escolhas por meio do processo de raciocínio. O processo só é possível onde há liberdade de escolha, incluindo a liberdade de se escolher o errado. A gostinho também s ugeriu uma terceira solução para o problem a, c onvii.dando-nos a ver o mundo como algo b elo. Ele dizia q ue. e m bora exisLa o mal no universo. este contriblli para um bem total, que é m aior do que poderia existir sem o mal - exatamente

como a dissonância na música pode tomar u ma harmonia mais agradável ou fragmentos escuros cont ribuem para a beleza de um q uadro.

Explicando o mal natural Desde Agostinho, a maioria dos filósofos cristãos tem abord ado o problema do mal usando uma de suas abordag ens, enquanto seus oponentes, corno Davíd Hume. têm apontado para suas fra gilidades como argumentos

contra o cristianismo. Charnar a d oença de ausência de saúde, por &xemplo, parece apenas um jogo de palavras: a doença pode se originar de uma deficiência de algo, mas o sofrimento do doente é real o suficiente. E como o maJ natural, tais como terremotos e pragas, é explicado? Alg uém sem uma crença ante rior em Deus pode argumentar que a presença do m al no mundo prova que n ão há u m De us todo-poderoso e benevolente. M as, para aquele q ue já acredita em Deus, os argumentos de Agostinho devem conter a resposta. •

O que tornou Adão capaz de obedecer as ordens de Deus também o tornou capaz de pecar. Santo Agostinho

Santo Agostinho Aurélio Agostinho nasceu em 354 em Tagaste , pequena cidade no norte da África, de mãe cristã e pai pagão. Foi educado para ser um orador e, depois , lecionou retórica em sua cidade natal, em Cartago, em Roma e em Milão, onde ocupou posição de prestígio. Por um tempo, Agostinho seguiu o maniqueísmo religião que considera o bem e o mal como forças duplas regendo o universo - , mas, por influência do arcebispo Ambrósio, de Milão, foi atraído para o cristianismo. Em 386, sofreu uma crise espiritual e se converteu. Abandonou .a carreira e dedicou-se a escrever obras cristãs, muitas de natureza altamente filosófica. E m 395 tornou-se bispo de Hipona, no norte da África, e manteve o posto pelo resto da vida. Morreu ali aos 75 anos, q uando a cidade foi sitiada e saqueada pelos vândalos.

Obras-chave Um mundo sem o mal, diz Agostinho.

seria um mundo sem humanos, seres capazes de decidir sobre seus atos. Assim como para Adão e Eva, as escolhas morais permitem a possibilidade do mal.

c .3 88 -95 O livre-arbítrio c .397-401 Confissões c .413-2 7 A cidade de Deus

74

,

BOECIO (c.480-525)

EM CONTEXTO ÁREA Epistemologia

Deus vive no eterno presente.

Deus conhece o futuro como se ele fosse o presente.

Sou livre para não ir ao cinema hoje.

Deus sabe que vou ao cinema hoje.

ABORDAGEM

Platonismo cristão ANTES c .350 a.e. Aristóteles esboça os problemas de se tomar como verdadeira qualquer afirmação

sobre o resultado de um acontecimento futuro.

c.300 a.e. O filósofo sírio Jâmblico diz que o que pode ser c;::onhecido depende da capacidade do conhecedor. DEPOIS c.1250-70 Tomás de Aquino concorda com Boécio que Deus existe fora do tempo: é transcendente e está além da compreensão humana.

c.1300 John Duns Scot diz que a liberdade humana baseia-se na própria liberdade de Dells para agir, e que Deus conhece nossos atos autônomos e futuros por conhecer seu próprio arbítrio - imutável, mas livre.

Deus antevi nossos pensamentos e atos autônomos. filósofo romano Boécio foi educado na tradição filosófica platônica e era cristão. Ganhou fama por sua solução a um problema que antecede Aristóteles: se Deus já sabe o ·que vamos fazer no futuro, como podemos dizer que temos livre-arbítrio? A melhor maneira de entender o dilema é imaginar uma situação na vida cotidiana. Por exemplo, esta tarde posso ir ao c)nema ou passar o tempo

'

escrevendo. Como acaba acontecendo, vou ao cinema. Sendo este o caso, é verdade agora (antes do acontecimento) que vou ao cinema esta tarde. Mas se é verdade agora, então tudo indica que eu realmente não tenho a escolha de passar a tarde escrevendo. Aristóteles foi o primeiro a definir tal problema, mas sua resposta não é clara: ele parece ter pensado que uma frase como "devo ir ao cinema esta tarde" não é verdadeira nem falsa ou, pelo

OMUNDO MEDIEVAL 75 Ver também: Aristóteles 56-63 • Tomás de Aquino 88-95 • John Duns Scot 333 • Bento de Espinosa 126-129 •

Immanuel Kant 164-171

'

menos, não do mesmo modo que "fui ao

cinema ontem".

Um Deus além do tempo Boécio enfrentou rnna versão mais difícil do mesmo problema. Ele acreditava que Deus conhece tudo, não apenas o passado e o presente, mas ;:ambém o futuro. Então, se estou indo ao cinema à tarde, Deus já sabe disso d e manhã. Parece, portanto, que não sou realmente livre para escolher passar a rarde escrevendo, visto que isso entrarita em conflito com o q ue Deus já sabe.

Tudo é conhecido, não conforme si mesmo, mas de acordo com a capacidade do conhecedor. Boécio

Boécio

Boécio solucionou o problema argumentando que uma mesma coisa pode ser conhecida de diferentes maneiras, dep e ndendo da natureza do conhecedor. Meu cão, por exemplo, conhece o sol apenas como algo com qualidades que ele pode sentir pela visão e pelo tato. Entretanto. uma pessoa também pode raciocinar sobre a categoria do sol, pode saber quais elementos o compõem, sua distância da te rra, e assim por 1diante. Boécio conside ra o tempo de forma simila r. Como vivemos no fluxo do tempo, só podemos conhecer os acontecimentos como passado (se eles ocor reram), presente (se estào ocorrendo agora) ou futuro (se vão ocorrér). Não podemos saber o resultado de acontecimentos futuros incertos. Deus, por outro lado. não está no fluxo do tempo. Ele vive em um

A Fil osofia e Boécio discutem o

!ivre-arbítno. o determinismo e a visão de Deus sobre o eterno presente em seu influente hvro A consolação da filosofia

ações futuras, como se elas fossem presente, também não as impede de

eterno presente e sabe o que para nós é

serem livres.

passado, presente e futuro do mesmo modo que conhecemos o presente. E, exatamente como o meu conhecunento sobre o fato de você estar sentado agora não interfere na sua liberdade para permanecer assim, então também o conhecimento de Deus sobre nossas

Hoie. alguns pensadores argumentam que. já que ainda não decidi se vou ao cinema esta tarde, não há simplesmente nada para se conhecer sobre isso. Então, nem mesmo um Deus que fosse onisciente não saberia (e não conseguiria saber) se vou ou não. •

Anicius Boethius, ou Boécio, foi

Teodorico . Gere.a de cinco anos depois, por uma intriga da corte, foi injustamente acusado de traição e sentenciado à morte. Escreveu sua obra mais famosa , A consolação da filosofia , na prisão, aguardando o julgamento.

um aristocrata romano cristão, nascido na época em que o Império Romano estava se desintegrando e os ostrogodos governavam a Itália. Ficou órfão aos sete anos, tendo sido criado por uma família a r istocrática em Roma. Extremamente bem-educado, 4' falava grego e tinha amplo

Obras-chave

1

conhecimento sobre literatura e filosofia grega e latina. Dedicou a vida a traduzir e a comentar textos gregos, especialmente as obras de Aristóteles sobre lógica, até ser designado como principal conselheiro do rei ostrogodo

-

c.510 Comentárfos às "Categorias" de Aristóteles c.513-16 Comentários a "Da interpretação" de Aristóteles c.523-26 A consolação da filosofia

76 ' - ·:

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ABORDAGEM Aristotelismo árabe ANTES c.400 a.e, Platão aTgumenta que a mente a o c>

Ibn Sina - ou Avicena, como os europeus o chamaram - nasceu em. 980 numa vila perto de Bukhara, atualmente no Uzbequistão. Embora escrevesse principalmente em árabe, língua escolar em todo o mundo islâmico, seu idioma era o persa. Avicena foi uma criança prodígio, superando rapidamente seus professores não apenas em lógica e filosofia, mas também em medicina. Adolescente, foi reconhecido como médico brilhante pelo governante samânida Nuh ibn Mansur, que lhe abriu acesso a uma magnífica biblioteca. Avicena passou a vida a serviço de vários príncipes como médico e conselheiro político. Começou a escrever aos 21 anos, produzindo mais de duzentos textos sobre assuntos tão dive·rsos quanto metafísica, fisiologi.a animal, mecânica de sólidos e sintaxe arábica. Morreu quando seus remédíos para cólica foram adulterados, possivelmente com más intenções, enquanto estava em campanha de guerra com seu protetor Ala al-Dawla. Obras-chave

. c.1014-2 0 O livro da cura c.1015 Cânone da medicina c.1030 Livro dos teoremas e dos avisos

78 AVICENA qualquer conhecimento que possa ser possivelmenLe refutado, restando apenas verdades absolutas. É umà antecipação à obra de Descartes, o famoso clual1sta do século XVII, que também decidiu não acreditar em nada. exceto naquilo que ele próprio poderia saber com certeza. Avicena e Descartes quiseram demonstrar que a mente. ot1 o "eu", existe porque sabe

que existe - e que é d1stinta do corpo humano.

O home m voado r l\To experimento homem voador, Avicena quis investigar o que conseguimos saber se formos efetivamente privados de nossos sentidos e não pudermos depender deles para obter informação. Ele nos convidou a imaginar o seguinte: suponha que eu tenha acabado de começar a existir, mas tenho toda a minha inteligênc1a normal. Suponha também que estou con1 os olhos vendados e que flutuo no ar, com meus membros separados uns dos outros, de modo que não p osso tocar em nada

Suponha que estou com1:ileta1nente sem qualquer sensação. Apesar de tudo, tenho certeza de que eu existo. Mas o que é esse "eu" que sou eu? Ele não pode ser qualq uer parte do meu corpo, porque não sei se o tenho. O "eu" que afirmo como e xi stente não ·tem comprimento, largura ou profundidade. Não tem extensão ou atributos físicos. E se eu fosse capaz de imaginar, por exemplo, uma mão, não a imaginaria como pertencente a esse "eu" que sei que existe. Conclui-se que o "eu" humano - o que sou - é distinto do meu corpo ou de q u a lquer coisa física. O experimento do homem voador. dizia Avicena, é um modo de alertar e lembrar a si próprio da existência da mente como algo diferente, e distinto, do corpo. Avicena também tem outras forma s de mostrar que a mente não pode ser algo material. A maioria dos a rgumentos baseia-se no fato de que o conhecimento intelectual que a mente consegue apreender não pode estar contido por nada material. É fácil ver

A conversa secreta é um encontro direto entre Deus e a alma, abstraída de todas as restrições materiais.

Avicena

~·.'CVII. Em 1640, Descartes retornou ;. dualismo mais próxjmo de Platão q ue de Aristóteles, e seu gu mento para isso era muito a:-ecido com o de Avicena. Descartes imaginava que havia :n demônio que tentava enganá-lo _ ore tudo que ele possivelmente dia ser enganado. A única coisa tire a qual não podia ser enganado, .

A história A bússola de ouro, de Philip

?-u!hnan, retoma a antiga ideia grega ela ;.ma, ou daimon, separada do corpo, :.x1bindo-a como um ser inteiramente à :--arte. tal como um gato.

ele percebeu, seria sobre sua própria existência. Esse "eu" é exatamente o "eu" d o qual o homem voador de Avicena tem absoluta certeza, 1nesmo na ausência do conhecimento pelos sentidos. Como Avicena, Descartes concluiu que o "eu" é completamente distinto do corpo e deve ser imortal.

O fantasma na máquina Uma forte objeção ao dualismo de Avicena ou de Descartes é o argumento usado por Aquino. Ele dizia que o "eu" que pensa é o mesmo "eu" que sente através do corpo. Por exemplo; não apenas percebo que há dor na minha perna da mesma maneira como um marinheiro percebe um buraco em seu navio. A dor pertence a mim tanto quanto meus pensamentos sobre filosofia ou sobre o que vou comer no almoço. A maioria dos filósofos contemporâneos rejeita o dualismo mente -corpo, em grande parte por conta do crescente conhecimento científico sobre o cérebro. Avicena e Descartes estavam ambos interessados em fisiologia e fizeram descrições científicas de atividades como movimento e sensação. Mas o processo de pensamento racional era inexplicável com as ferrament as científicas então d is poníveis. Hoje

somos capazes de explicar com precisão como o pensamento funciona em áreas diferentes do cérebro - mas não está claro se isso significa que podemos explicar o pensamento sem referência a u1n "eu". Um influente filósofo britânico do século XX, Gilbert Ryle, caricaturou o "eu" dos duailstas como "um fantasma na máquina" e tentou demonstrar que podemos exphcar como os seres humanos compreendem e atuam dentro do mundo sem recorrer a esse "fantasma doeu... Hoje, os filósofos estão divididos entre um pequeno número de dualistas, um número maior de pensadores que dize1n que a mente é simplesmente um cérebro, e a maioria que concorda que o pensamento é o resultado da atividade física do cérebro, mas que insiste que há uma distinção entre os estados físicos do cérebro (a matéria cinza, os neurônios etc.) e o pensamento que deriva deles. Muitos filósofos. especialmente pensadores da Europa continental, ainda aceitam os resultados do experimento ele Avicena em um aspecto central: cada u1n de nós teria um '·eu'' com uma visão do mundo em prin1eira pessoa que não está acomodado com a visão objetiva das teorias científicas. •

80

SANTOANSELMO (1033-1109) ~ -l, ... ~ .

EM CONTEXTO ÁREA Filosofia da religião

ABORDAGEM Platônica-aristotélica ANTES c .400 Santo Agostinho defende a existência de Deus por meio

da nossa compreensão de verdad es imutáveis.

1075 Em seu Monológio, Santo Anselmo aperfeiçoa a demonstração de Agostinho da existência de Deus.

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mbora os pensadores cristãos tomem a existência de Deus como questão de fé, na Idade Média tentaram demonstrar também que ela podia ser provada por meio de a rgumentos racionais. A prova ontológica concebida por Anselmo - filósofo italiano do século XI que trabalhou com base na lógica aristotélica, no pensamento platônico e na própria genialidade - é provavelmente a mais famosa de todas . Anselmo imaginou-se argumentando com um louco, que nega que Deus exista (ver pág. ao lado). O argumento baseia-se na aceitação de duas coisas; primeiro, que Deus é "um

DEPOIS 1260 Santo Tomás de Aquino rejeita a prova ontológica de Santo Anselmo.

1640 Descartes usa uma das formas da prova ontológica de Santo Anselmo nas Meditações.

1979 O norte-americano Alvin Plantinga reformula a p rova ontológica de Santo Anselmo usando uma forma de lógica modal para estabelecer a verdade da prova.

.

Acreditamos que vós [Deus] sois algo que nada se pode. conceber . que vos se1a maior. Santo Anselmo

'

'

.

ser do qual não é possível pensar nada maior"; segundo, que a existência é superior à não existência. No final do argumento, o louco é forçado a aceitar uma posição contraditória ou admitir que Deus existe. O argumento foi aceito por filósofos eminentes, como René Descartes e Bento de Espinosa. Muitos outros, contudo, assumiram o lado do louco. Um contemporâneo de Anselmo, de Marmoutiers, disse que GaunHo 1 poderíamos usar o mesmo argumento para provar que existe em algum lugar uma ilha maravilhosa, maior do que qualquer ilha que possa ser concebida. No século XVIII, Immanuel Kant objetou que o argumento trata a existência como se fosse um atributo das coisas como se eu pudesse descrever meu paletó da seguinte forma: "é verde, feito de tweed e existe". Existir não é como ser verde: se não existisse, não haveria paletó para ser verde ou de tweed. Kant sustentou que Anselmo também errou ao dizer que aquilo que existe tanto na realidade quanto na mente é maior do que aquilo que existe apenas na mente, mas outros filósofos discordam. O que garante, afinal, que uma pintura real seja maior do que o conceito mental q ue o pintor tem antes de começar a trabalhar? •

OMUNDO MEDIEVAL 81 Ver também: Platão 50-55 .• Santo Agostinho 72-73 • Tomás de Aquino 88-95 • René Descartes 116-123 • Bento de Espinosa 126-129

Você concorda que se Deus existisse ele seria a maior coisa que poderia haver - "um ser do qual não é possível pensar nada maior"? Sim.

Santo Anselmo E você concorda que "um ser do qual não é possível pensar nada maior" existe na sua mente?

Santo Anselmo da Cantuária nasceu em Aosta, Itália, em 1033.

Sim, n.a minha

mente, mas não na realidade. Mas você concordaria que algo quê existe na realidade, assim como na m ente , é maior do que algo que existe apenas na mente?

Sim, acho que sim : um sorvete na m inha mão é maior do que aquele que está só na minha imaginação.

Então, se "um ser do qual não é possível pensar nada maior" existe apenas na mente, é menor do que se existisse apenas na realidade.

por volta de vinte anos para estudar no monastério de Bec, França, aos cuidados de um eminente lógico, gramático e comentador bíblico eh.amado Laniranc. Tornou-se monge de Bec em 1060, depois prior e, finalmente, abade, em 1078. Viajou para a Inglaterra e, em 1093, tomou-se arcebispo da Cantuária, apes.a r de seus protestos devido à saúde frágil e à falta de habilidade política. Essa posição o colocou em

conflito com os reis anglo-

Verdade. O ser que realm.ente existe seria maior. Então, agora você está dizendo q ue há algo maior do que "um ser do qual não é possível pensar nada maior"? Isso nem mesmo faz sentido. Exatamente. E a única alternativa para essa contradição é admitir que Deus ("um ser do qual não é possível pensar nada maior") realmente existe - tanto no pensamento quanto na realidade.

Deixou sua casa quando tinha

A prova ontológica de Anselmo foi escrita em 1077-78, mas ganhou esse título do filósofo a lemão Kant, em 1781.

-normandos Guílherm·e II e Henriquel,quandotentou defender a Igreja contr a o poder reaL Tais disputas levaram a dois períodos de exílio, durante os quais visitou o papa para defender a causa da Igreja inglesa e pleitear sua :remoção do cargo. No fim, reconciliado com o rei Henrique I, A nselmo morreu na Cantuária aos 76 anos.

Obras-çbave 1075-76 Monológio 1077-78 Proslógio 1095-98 Por que Deus se fez homem?

1080-86 Sobre a queda do demónio

82

" AVERRÓIS (1126-1198) EM CONTEXTO ÁREA

Filosofi.a da religião

ABORDAGEM Aristotélica árabe ANTES 1090 Abu Hamid al-Ghazali

ataca os filósofos aristotélicos islâm licos.

1120 Ibn Bajja (Avempace) estabelece a filosofia aristotélica na Espanha islâmica. DEPOIS 1270 Tomás de Aquino critica os averraís tas por aceitar verdades conflitantes do cristianismo e da :filosofia

ver róis trabalhou na área judiciária. Foi um qâdJ (juiz islâmico) que atuou sob os almóadas, um dos regimes islâmicos mais severos na Idade Média. Apesar disso, passava as noites escrevendo comentários sobre a obra de um antigo filósofo pagão, Aristóteles. E um dos leitores ávidos de Averróis era ninguém menos do que o soberano a lmóada., Abu Ya'qub Yusuf. Averróis reconciliou a religião e a filosofia com sua teoria h ierárquica da sociedade. Ele julgava que apenas uma elite educada seria capaz de pensar filosoficamente, e todo o resto deveria

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ser obrigado a aceitar literalmente os ensinamentos do Alcorão. Averróis não considerava que o Alcorão fornecesse uma explicação precisa do universo se lido de maneira literal, mas sustentava q ue era uma aproximação poética da verdade, e isso seria o máximo que o inculto poderia apreender. No entanto, Averróis acreditava que as pessoas cultas tinham a obrigação religiosa de usar o raciocínio lógico. Nos pontos em que o raciocínio revelasse que o significado literal do Alcorão era falso, Averróis dizia que o texto deveria ser "interpretado". Em outras palavras, o significado óbvio das 1 a zaz se

Aceitamos que o Alcorão é verdadeiro.

aristotélica. 1340 Móisés de Narbonne publica oomehtá;rios sobre a obra de Averróis. 1852 O filósofo francês Emest Renan. publica um estudo sobre Averróis, tomando-o uma importante influência no moderno pensamento político islâmico.

Mas algumas partes dele são demonstravelmente equívocas.

O texto é uma verdade :poética e deve ser interpretado pelo raciocinio filosófico.

OMUNDO MEDIEVAL 83 Ver t ambém: Platão 50-55 • Aristóteles 56-63 • AJ-Ghazali 332 • Ibn Bajja 333 • Tomás de Aquino 88-95 • Moisés de

Narbonne 334

ressurreição dos mortos, princípio

básico do Islã, era mais dificil de incluir

Os filósofos acreditam q ue as leis religiosas são

artes políticas necessárias. Averróis

palavras tinha de ser de sconsiderado, com a aceitação da teoria científica demonstrada pela filosofia aristotélica em seu lugar.

O intelecto imortal Averróis se dispunha a sacrificar algumas doutrinas islâmicas amplamente aceitas a fim de manter a compatibilidade entre filosofia e religião. Por exemplo, quase t odos os muçu lmanos acreditam que o universo cem um inicio, mas Averróis concordava com Anstóteles que ele sempre existiu - e afirmava que nada no Alcorão contradizia essa visão. No entanto, a

Averróis

no universo aristotélico. Averróis aceitava que devemos acreditar na imortalidade pessoal, e que qualquer um que rejeite isso é um herege merecedor de execução. Mas ele assl1mia uma posição diferente de seus antecessores ao dizer que o tratado Da alma, de Aristóteles, não afumava que os indivíduos humanos têm almas imortais. De acordo com a interpretação de Averróis, Aristóteles afirmou que a humanidade é imortal apenas por meio de um intelecto compartilhado. Averróis parecia dizer que há verdades imperecíveis, passíveis de descoberta pelos homens- mas que você e eu, como indivíduos, vamos perecer quando nossos corpos morrerem.

conhecidos como averroístas, e havia entre eles estudiosos judeus como Moisés de Nardonne, e latinos, como Boécio e Sigério de Brabante. Os averroistas latinos aceitaram o Aristóteles interpretado por Averróis como a verdade de acordo com a razão - apesar de também ratificar um conjunto aparentemente conflitante de "verdades" cristãs. Eles foram descritos como defensores de uma teoria de "verdade d upla", mas sua visão é, mais precisamente, a de que a verdade relaciona-se ao context o da investigação. •

Averroístas posteriores A defesa de Averróis da filosofia aristotélica (ao menos para a elite) foi evitada por seus colegas muçulmanos . Mas suas obras, traduzidas para o hebraico e latim, tiveram enorme influência nos séculos XIII e XIV. Estudiosos que apoiaram as opiniões de Arisêóteles e Averróis ficara1n

estudo no século Xll. mas Averróis argumentou que era essencial envolver-se com a religião de modo crítico e filosófico.

Ibn Rushd, conhecido na Europa como Ave rróis, nasceu em 1126 em Córdoba, então parte da Espanha

especialistas. Apesar do crescente panorama liberal do califado almóada, o público desaprovou a

islâmica. Pertencia a uma familia de

filosofia heterodoxa de Averróis. A

advogados ilustres e educou-se em direito, ciência e filosofia. Sua ami zade com outro doutor e filósofo, Ibn Tufayl, levou-o a ser apresentado ao califa Abu Ya'qub Yusuf, que nomeou Averróis como juiz principal e, depois, médico da corte. Ab u Ya'qub também compartilhava do interesse de Averróis por Aristóteles e o encarregou de escrever uma série de paráfrases de todas as obras aristotélicas, destinada a não

pressão pública levou ao banimento de seus livros e ao exílio em 1195. Comutada a pena dois anos depois, Averróis retornou a Córdoba, morrendo no ano seguinte.

Algu.n s muçulmanos não viam a filosofia co1no um tópico legitimo de

Obra s-chav e 1179-80 Discurdo decisivo 1179-80 Incoerência do incoerente c.1186 Grande comentário ao "Da alma" de Aristóteles

84

MOISÉS MAIMÔNIDES (1135-1204)

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Fiie·s ofia d~· :rel~gião ~

[email protected] . Anstotéliç·a-jutl!altªe.40:0 O ffe6~oÍQ ~:,$eUGl,o-'Dtonísi~ fµrrda a 'ttailiip"ãêil [email protected]

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De"us~;ã0 .é ' s~.t ·, rpas;;mais· do:·

aimônides escreveu tanto sobre a lei judaica (em hebraico) quanto sobre o pensamento aristotélico (em árabe). Em ambas as áreas, uma de suas principais preocupações foi evitar a antropomorfização de Deus - ou seja, pensar em Deus como se fosse u1n ser humano. Para Maimônides, o pior erro de todos era interpretar a Torá (primeira parte da bíblia hebraica) como verdade literal e pensar em Deus como algo corpóreo. Oualq1.1,er um q1,.1e pensasse

isso, ele di zia, devia ser excluído da comunidade judaica. Mas no Guia dos perplexos, Maimônides levou essa ideia até o limite, desenvolvendo um ramo do pensamento conhecido como "teologia negativa". Ela já existia na teologia cristã e focava na descrição de Deus apenas em termos daquilo que Ele não é. Deus, afirmava Maimônides, não tem atributos. Não podemos dizer com exatidão que Deus é "bom" ou "poderoso". Isso ocorre porque um

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...acidentais.

Mas Deus não tem acasos.

Deus não tem atributos.

... essenciais .

. Atributos essenciais definem.

Mas Deus é indefinível . •

OMUNDO MEDIEVAL 85 Ver também: Johannes Scotus Eriugena 332 • Tomás de Aqt lino 88-95 •

Mestre Eckhart 333' • S0ren Kierkegaard 194-195

atributo só pode ser acidental (passível de mudança) ou essencial. Um dos ineus atributos acidentais, por exemplo, é que estou sentado; outros, são meu cabelo grisalho e meu nariz longo. Mas eu ainda seria o que essencialmente sou !llesmo que estivesse de pé, tivesse cabelos ruivos e nariz arrebitado. Ser humano - isto é, ser um animal racional e mortal - é meu

Quando os intelectos contemplam a essência de Deus, sua apreensão torna-se incapacidade. Maimônides

atributo essencial: ele me define. Em geral, aceita-se que Deus não tem.

atributos acidentais porque é imutável. Para Maimônides, Deus também nào podia ter qualquer atributo essencial porque isso seria definidor, e Deus não pode ser definido. Então, Deus não tem atributos.

que "Deus é um c riador", devemos

Mairnônides afiimava que podemos dizer coisas sobre Deus, mas que elas devem ser compreendidas como referência eos etos de Deus , e não ao "ser" de Deus. A maior parte das

entender isso como urna afirmação sobre o que Deus faz, em vez do tipo de coisa que Deus é. Se considerarmos a sentença "John é escritor", normalmente lJodemos entender o significado de que ser escritor é a profissão de John. Mas Maimônides nos convida a considerar apenas o que

discussões na Torá deve ser entendida

foi feito: nesse exe1nplo, John escreveu

desse modo. Ent ão, quando nos d izem

palavras. A escrita foi obra de John, mas ela não nos conta nada sobre ele. Maimônicles também aceitava que

Falando sobre Deus

afirmações atribuindo qualidades a Deus podem ser compreendidas se int erpretadas como negativas duplas . "Deus é poderoso", por exemplo, devia ser interpretado com o significa do de que Deus não é impotente. Imagine un1 jogo em que penso em algo e lhe conto apenas o que esse algo não é ("não é grande, não é vermelho..."), até você adivinhar. A diferença, no caso de Deus, é que temos apenas as negações a nos guiar: não podemos dizer o que Deus é. •

Mo·i sés Maimônides Moisés Maimônides, também conhecido como Rambam, nasceu em 1135, em Córdoba, Espanha, numa família judaica. Sua infância foi rica em influências culturais: educado em hebraico e árabe, aprendeu a lei judaica com seu pai, um juiz rabínic·o, dentro do contexto da Espanha islâmica. Sua família fugiu dali quando a dinastia b·erbere a lmóada chegou ao poder em 1148, e viveu de forma nômade por dez anos até se estabelecer em Fez (hoje no Marrocos) e, depois, no Cairo. Problemas financeiros da família levaram Maimônides a estudar medicina, e sua habilidade o levou a uma nomeação pela corte em poucos anos. T ambém trabalhou como juiz rabínico, mas não recebia remuneração por essa atividade. Foi reconhecido como chefe da comunidade judaica do Cairo em 1191. Depois de sua morte, seu túmulo tornou-se local de peregrinação judaica.

Obr.a s·cbave A Torá mis hná foi uma completa ;'1.TJ ;"11)':) •

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reformulação da Lei Oral Judaica, que Maimônides escreveu em hebraico sünples, de modo que "jovens e velhos" pudessem entender as práticas.

1168 Comentário sobre a misbná 1168-78 Torá mishná 1190 Guia dos perpíexos

86

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NAO ENTE. UE SE PERDE RET RNA EM UT F R'MA JALAL AD-DIN MUHAMMAD RUMI (1207-1273)

EM CONTEXTO •

AREA. Filosofia islâmica ABORDAGEM Sufismo AN'l'ES 610 0-.ISlã é fundado pelo profet-a }4aomé.

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644 Alubn Abi Talib, pri,mo e

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sucessor de Maomé. torna-se califa.

Século X A interpretação mfstica.,do Alcorão por AU torna-se a base para o sufismo.

DEPOI& 1273 Os.seguidores de.Rumi fundam-a Ordem Mevlevi-de Sufism0.

Hoje As obras de Rumi

sufismo, a interpretação mistica e estética do Alcorão, é parte do Islã desde sua fundação, mas nem sempre foi aceito pelo estudiosos islâmicos predominantes. Jalal ad-Din Muhammad Rumi, mais conhecido como Rumi, foi criado no Islã ortodoxo

continuam a ser traduzid~ em

e teve o primeiro contato com o

váriasJíTI.guas ao redor domundo.

sufismo quando sua família se mudou das fronteiras orientais da Pérsia para

1925 Após a fundação da repúblieasecular da Turquia, a OrderilMevlevi é banida-ao país . Eermanece ilegal ate 1954, quando adquire o direito-ae se apresentar em certas ocasiões.

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Anatólia, em meados do século XIII. O conceito s ufl - unir-se a Deus por meio do amor - seduziu s ua imaginação e. a partir disso. ele desenvolveu uma versão de sufismo para explicar a relação do homem com o divino. Rumi tornou-se profes sor numa ordem sufi e, como tal, acreditava que era um veículo entre Deus e o homem. Em contraste com a prática geral

OMUNDO MEDIEVAL 87 Ver também: Sidarta Gautama 30-33 • Avicena 76-79 • Averróis 82-83 • • Hajime Tanab e 244 -245 • Arne Naess 282-283

desenvolvi1nento de uma forma até outra, temos de nos empenhar p ara o cresciment o espirit u al e para uma compreensão da relação divino-humano. Rumi defendia que essa compreensão v ern d a emoção, em vez da razão - emoção intensificada por música, canto e dança.

O legado de Rumi

A Orcl!em Mevlevi, ou Dervixes Giratórios, dança como parte da cerimônia sufi da Sema. A dança representa .a jornada espiritual do homem da ignorância à perfeição por meio do amor. islâmica, en fatizou mu ito mais o dhikr - a oração ou litanja ritua l - em vez da análise racional do Alcorão como guia divino, tornando-se conhecido por suas revelações em t ranse. Acreditava q ue era seu dever transmitir essas visões e, então, descreveu-as em forma de poesia. Fundamenta l para a sua filosofia visionária era a ideia de que o universo e tu do nele são um fluxo de vida infinito, no qual Deus é presença eterna. O homem, como parte do universo, também é parte desse continuum, e Rumi buscou explicar nosso lugar. O homem , ele acreditava, é a ligação entre o passado e o futuro em um contínu o processo de vida, morte e renascimento - não como ciclo. mas em progressão de u ma forma a outra. estendendo-se até a eternidade . A morte e a decadência são inevitáveis e partes d esse fluxo de vida infin ito, mas ao n1esmo tempo em q ue algo cessa de existir em u ma forma renasce em outra . Por causa disso, não devemos ter medo da morte ne m la mentar as perd as. No en tanto, a fim de assegura r nosso

Os elementos m ístiGos das ideias de Ru mi foram inspirad!ores dentro do sufismo, mas também influenciaram o Islã p redominante. Também se re·v elara·m essenciais para converter grande parte da Turquia do cristianismo ortodoxo para o islamismo. Mas esse aspecto de seu pensamento n ão influenciou muito a Europa, onde o racionalism o era a orde1n do dia. No entanto, no século XX, suas ideias se popularizaram no Oc idente, prin cipalm ente p or cau sa da mensagem de amor em sintonia com os valores New Age da década de 1960. Talvez seu maior admirador no século XX tenha sido o poeta e político Muhammed Iqbal, conselheiro de Muhammad Ali Jinnah, que na década de 1930 fez ca mpan ha por um Estado paquistanês islâmico. •

Morri como mineral e tornei-me planta, morri como planta e renasci como animal, morri como animal e fui Homem. Jalal ad-Din Rumi

Jalal ad·Din Rumi Jalal ad-Din Rumi, também conhecido com o Mawlana (Nosso Guia) ou simple smente Rumi, n asceu em Balkh , n um a província da Pérsia.. Quando as . "" ,. inv:asoes m on go1s ameaçaram a região, sua fa m ília esta b eleceu-se na Anatólia , Turq uia , onde Rumi conheceu

os poetas persas Attar e Shams al-Din Tabrizi. Decidiu de dicar-se ao sufismo e escreveu milhares de versos d e poesia persa e á rab e . Em 1244, Rumi t ornou-se o shaykh (mestre) de uma ord em

sufi e ensinou sua interpretação m ís tico-

-emocional do Alcorão, as sim como a import ância da m úsica e da dança em cerimôn ias re ligiosas. Depois de sua m orte , seus seguidore s fundaram a Ordem Mevlevi de Sufismo, famosa p elos Dervixe s Giratórios , que executam uma d ança

característica na cerimônia da Sema - forma de dhi kr part icula r à seit a. Obras-chave

Início-meados s éculo XIII Dísticos esp irituais As obra s de Sbams de Tabriz Nele o que estiver Nele

Sete sessões



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TOMAS DE A UINO c.1225-1274 •

90 SANTO TOMÁS DE AQUINO ., _ai;

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o

s opiniões das pessoas costumam se dividir entre as

que sustentam que o universo teve um inicio e aquelas que defendem que ele sempre exístíu. Hõjê tendemos a procurar a resposta na física e na astronomia, mas no passado essa era uma questão para filósofos e teólogos. A resposta dada pelo sacerdote católico Tomás de A.quino, o mais famoso dos filósofos m edievais cristãos, é especialmente interessante. Continua sendo uma forma plausível de refletir sobre o problema, e também nos conta muito sobre como Aquino combinou sua fé com o raciocínio fiEosófico, apesar de suas aparentes contradições.

lnftuência de Aristóteles A figura central no pensamento de Santo Tomás de Aquino é Aristóteles, o antigo filósofo grego cuja obra fascinou os pensadores medievais. Aristót eles tinha a certeza de que o universo sempre abrigou diferentes seres - de objetos inanimados, como pedras, a espécies vivas, como humanos, cães e cavalos. El€ afirmava que o universo muda e se move, e isso só pode ser causado por mudança e movimento. Então, nunca poderia ter

Santo Tomás de Aquino

Nascido em 1225, em Roccasecca, na Itália, Tomás de Aquino estudou na Universidade de Nápoles e ingressou na Ordem D.ominicana (então, uma nova

ordem de frades altamente intelectualizacl.a) contra a vontade da familia. Como noviço, estudou em Paris e depois em Colônia, com o teólog·o aristotélico alemão Alberto Magno. Retornando a Paris tornou -se mestre de t·eologia, lecionando por dez afias antés de viajar pela Itália. De maneira incomum, Aquino recebeu uma oferta para um segundo

havido uma primeira mudança ou um p rimeiro movimento: o universo estaria constant emente se movendo e mudando através dos tempos. Os grandes filósofos árabes,

Avicena e Averróis, estavam dispostos a aceitar a visão de Aristóteles, ainda que isso os fizesse discordar da ortodoxia islâmica. Os pensadores judeus e cristã'Os medievais, cont udo. tinham mais empecilhos. Eles sustentavam q ue , de acordo com a Bíblia, o u niverso tem um inicio, então Aristóteles devia estar errado: o u niverso nem sempre existiu. Mas essa visão era algo que tiínha de ser aceito baseado na fé ou podia ser refutado pelo raciocínio? João Filopono, escritor cristão grego do século VI, acreditou ter encontrado um argumento para demonstrar que Aristóteles estava errado e que o u niverso nem sempre havia existido. Seu raciocínio foi copiado e desenvolvido por vários pensadores do século XIII. que precisavam encontrar uma falha no raciocínio de Aristóte les a fim de proteger os ensinamentos da Igreja. A linha de argumento era especialmente engenhosa: usou as próprias id eias de Aristóteles sobre o período como mestre em Paris. Em 1273, sofreu algo que podia ser tanto um d~rrame quanto um tipo de visão mí:stica. Depois diss.o, afirmou que tudo o que fizelia era "simples ninharia" e nu_n ca mais esc;:reveu. Morr.e u aos 49 anos e em 1323 foi declarado sq,nto pela Igreja católica.

Obras-chave 1256-59 Questões disputadas: "da verdade" c.1265-74 Suma teológica ' 1271 Da eternidade do mundo

OMUNDO MEDIEVAL 91 Ver também: Aristóteles 56-63 • Avicena 76-79 • Averróis 82-83 • João Filopono 332 • John Duns Scot 333 • Pedro Abelardo 333 • Guilherme " de Ockharn 334 • Imrnanuel Kant 164-171

que o universo

o universo

sempre existiu.

nem sempre existiu.

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O mundo teve um começo, mas Deus pode tê- lo criado de forma

a ter existido eternamente.

Aquino cercado por Aristóteles e Platão em O triunfo de To1nás de Aquino sobre Averróis. Sua compreensão acerca da

filosofia antiga era consi.derada maior do que a de Averróis, aqui a seus pé·s. infinito como ponto de partida para refutar sua visão do universo como a lgo eterno.

Uma infinitude de humanos De acordo com Aristótel·es, infinito é o que não tem limite. Por exemplo, a sequência de números é infinita: para cada número há outro número maior que o segue. De maneira similar, o universo tem existido por um tempo infinito, porque para cada dia há um dia anterior. Entretanto, na opinião de Aristóteles, essa é uma infinitude "virtual", visto que esses dias não coexistem ao mesmo tempo; uma infinitude "atual" - na qual um número infinito de seres existem ao mesmo tempo - é impossível. Fi lopono e seus seguidores do século XIII consideraram que esse argumento apresentava problemas que o próprio Aristóteles não percebera. Eles apontaram para o fato

de que ele acreditava que todos os tipos de seres vivos no universo sempre existiram. Se isso fosse verdade, significaria que já havia um número infinito de seres humanos na época em que Sócrates tinha nascido - porque, se eles sempre existiram, também existia1n naquela época. Mas desde a época de Sócrates muitos mais humanos nasceram, e portanto o número de humanos nascidos até então devia ser maior do que o infinito. Mas nenhum número pode ser maior do que o infinito. Além disso, acrescentaram esses autores, os pensadores cristãos creem que as almas humanas são imortais. Se fosse assim, e um número infinito de humanos já existia, deveria haver um número infinito de almas humanas em existência. Então, haveria uma infinitude atual de almas, não uma infinitude virtual - e Aristóteles dissera que a ínfinitude atual era impossível. Com esses argumentos, usando os próprios princípios de Aristóteles como ponto de partida, Filopono e seus seguidores estavam confiantes

çle ter demonstrado que o universo não pode ter existido sempre. Aristóteles estava, portanto, errado. O universo não é eterno e isso se encaixava perfeita1nente com a doutrina cristã de que Deus criou o mundo. Santo Tomás de Aquino não perdeu tempo com esse tipo de raciocínio. Ele salientou que o universo pode ter sempre existido, mas que espécies como humanos e animais podem ter tido um início as dificuldades levantadas por Filopono e seus seguidores, assim, >>

Nunca houve tempo em que não houvesse movimento.

Aristóteles

92 SANTO TOMÁS DE AQUINO

Deus poderia ter criado o universo sem humanos e, depois, criá-los. Tomás de Aquino

podiam ser evitadas. Apesar de sua defesa do raciocínio de Aristóteles, Aquino não aceitava a afi rmação aristotélica de que o universo é eterno, porque a fé cristã diz o contrário, mas não julgava que a posição de Aristóteles fosse llógica.

Como Filopono e seus seguidores,

(incontestável) sobre bases lógicas.

Aquino queria mostrar que o universo teve um inicio, mas também desejava demonstrar que não houve falha no raciocínio de Aristóteles. Ele afirmava que seus contemporâneos cristãos confundiram dois pontos diferentes: o primeiro é que Deus criou o universo, e o segundo é que o universo teve um início. Aquino começou a provar que, de fato, a posição de Aristóteles o universo sempre existiu poderia ser verdadeira, a inda que também fosse verdade que Deus criou o uni verso.

Como todos concordavam, Deus criou

Criando o eterno Aquino se afastou de Filopono e seus seguidores ao insistir que embora fosse verdade, como a Bíblia diz, que o universo teve um início, essa não era uma verdade necessária

o universo com um início - mas Ele

poderia com igual facilidade ter criado um universo eterno. Se aJgo é criado por Deus, então deve sua existência a Deus, mas isso não significa que deva ter existido um tempo em que esse algo não existiu. Seria, portanto, possível crer em um universo eterno que tenha sido criado por Deus. Aquino deu um exemplo de como isso pode acontecer. Imagine que um pé deixa uma marca na areia, e que esta tenha .sempre estado lá. Mesmo que nunca houvesse um momento anterior à marca, ainda recon hecer1amos o pé como a causa da marca: se não fosse pelo pé, não haveria marca.

Aquino e síntese Os historiadores às vezes d izem que Aquino "sintetizou" o cristianismo e a filosofia aristotélica, como se tivesse pegado as partes que queria e composto u ma inistura homogênea. De fato, para Aquino, como para a maioria dos cristãos, os ensinamentos da Igreja devem ser aceitos, sem exceção ou concessão. No entanto, Aquino era incomum. porque pensava que, adequadamente compreendido, Aristóteles não contradizia o ensinamento cristão. A questão sobre se o uruverso sempre existiu é a exceção que prova a regra. Nesse caso particular, Aquino julgou que Aristóteles estava errado, mas não em seu princípio ou racioclnio. O universo realmente pode ter existido desde sempre. até onde os antigos filósofos sabiam. O problema era apenas o fato de que Aristóteles, não tendo acesso à revelação cristã, não Aquino acreditava na narrativa da criação por fé, mas afirmava que alguns elementos da fé cristã podiam ter demonstração racional. Para ele, a Bíblia e a razão não precisam estar em conflito.

OMUNDO MEDIEVAL 93 Aristóteles dizia que o universo era infinito, visto que cada

hora e cada dia são sucedidos por outras horas e outros dias. Tomás de Aquino discordava. acreditando que o universo teve um começo, mas seu respeito pela obra de Aristóteles levou-o a argumentar que sua filosofia podia estar certa.

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tinha como saber que o universo não tinha existido desde sempre. Aquino acreditava que havia várias outras doutrinas centrais ao cristianismo q ue os antigos :filósofos não conheciam nem podiam ter conhecido - como a c rença de que Deu s é uma Trindade. e que uma pessoa da Trindade, o Filho, tornou-se humano. Mas, na opinião de Aquino, quando os humanos raciocinam corretamente. não podem chegar a qualquer conclusão que contradiga a doutrina cristã. Isso ocorreria porque a razão humana e o ensinamento cristão viriam da mesma fonte - Deus - e não poderiam se contradizer. Aquino ensinou em mosteiros e universidades na França e na Itália, e a ideia de que a razão humana nunca poderia entrar em conflito com a doutrina cristã muitas vezes o colocou em conflito violento com a lguns de seus colegas acadêmicos, especialmente aqueles especializados em ciências, que na época derivavam da obra de Aristóteles. Aquino acusou seus colegas eruditos de aceitar certas teses acerca da fé - por exemplo, a posição de que cada um d e nós tem

uma alma imortal-. mas de ao mesmo tempo dizer que. de acordo com a razão, tais teses podiam ser demonstradas como erradas.

Como adquirimos conhecimento Aquino foi fiel a seus princípios em toda a sua obra, mas eles estão particularmente claros em duas áreas centrais de seu pensamento: suas descrições sobre como adquirimos conhecimento e seu tratamento da relação entre mente e corpo. De acordo com Aquino, seres humanos adquirem conhecimento por meio do uso dos seu s sentidos: visão, audição, olfato, tato e paladar. No entanto, tais impressões sensoria1s apenas nos dizem como são as coisas superficialmente. Por exemplo, John, de onde está sentado, tem uma impressão visual de um objeto tridimensional, que é verde e marrom. Eu, por outro lado, estou sentado ao lado de uma árvore e posso sentir a rigidez de sua casca e o cheiro da floresta. Se John e eu fôssemos cães, nosso conhecimento sobre a árvore seria limitado a essas impressões sensoriais. Mas, como seres humanos, somos capazes de ir além e entender

de forma racional o que é uma árvore de forma racional, definindo-a e distinguindo-a de outros tipos de plantas e seres. Aquino chamou isso de "conhecimento intelectual" porque o adquirimos usando o poder inato do intelecto para apreender, com base nas impressões sensoriais, a realidade que está por trás delas. Animais diferentes dos humanos não têm essa capacidade inata - daí que seu conhecimento não pode se estender além dos sentidos. Toda a nossa compreensão científica sobre o mundo se basearia no conhecimento intelectual. A teoria do conhecimento »

Devemos considerar se há uma contradição entre algo ser criado por Deus e seu existir perp étuo. Tomás de Aquino

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94 SANTO TOMAS DE AQUINO de Aquino deve muito a Aristóteles, ainda que esclareça e elabore mais o pensamento do filósofo grego. Para Aquino, como pensador cristão, os humanos são apenas um tipo entre as várias espécies de seres capazes de conhecer as coisas intelectualmente: almas separadas de seus corpos na vida após a morte, anjos e o próprio Deus também podem fazer isso. Esses outros seres conscientes não têm de adquirir conhecimento por meio dos sentidos: conseguem apreender diretamente as definições das coisas. Esse aspecto da teoria de Aquino não tinha paralelo em Aristóteles, mas foi um desenvolvimento coerente dos princípios aristotélicos. Mais uma vez, Aquino conseguiu manter as crenças cristãs sem contradizer Aristóteles, mas indo além dele.

A alma humana De acordo com Aristóteles, o intelecto é o princípio da vida, ou "alma", de um ser humano. Todos os

seres vivos teriam uma alma. o que explicaria sua capacidade para níveis diferentes do que chama de "atividade vital": crescer e reproduzir, para as plantas; mover-se. sentir, procurar e evitar, para os an imais; e pensar, para os humanos. Aristóteles crê que a "for1na" transforma a matéria naquilo que ela é. Dentro do corpo humano. essa forma é a alma, que transforma o corpo no ser vivo que é ao lhe dar um conjunto particular de atividades vitais. Como tal, a alma está ligada ao corpo, e então Aristóteles crê que, mesmo no caso dos humanos, a alma-vida sobrevive apen as enquanto anima o corpo, perecendo na morte. Aquino seguiu o ensinamento de Aristóteles sobre os seres vivos e suas almas, insistindo que o ser humano tem apenas uma forma: seu intelecto. Embora outros pensadores dos séculos xm e XIV também adotassem as linhas principais de Aristóteles, eles romperam o nexo que o pensador

As leis de causa e efeito nos levam a buscar a causa de qualquer acontecimento, até mesmo o começo do universo. Aristóteles supôs que Deus colocou o universo em movimento. Aquino concordou, mas acrescentou que o "Primeiro Movedor" - Deus - devia ser ele mesmo sem causa.

Desde a Idade Média, Tomás de Aquino veio a ser considerado o filósofo ortodoxo ofic ial da Igreja católica. Em sua própria época, quando traduções de fi losofia grega estavam sendo feitas a partir do árabe, cheias de comentários, foi um dos pensadores mais interessados em seguir a série de raciocínios filosóficos de Aristóteles, mesmo quando não se encaixavam com a doutrina cristã. Sempre permaneceu fiel aos ensinamentos da Igreja, o

que a existência do próprio ..

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Depois de Aquino

Uma pessoa deve ter provocado o movimento desse berço de Newton . Mas será

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grego estabelecera entre o intelecto e o corpo, pois assim podiam acomodar o ensinamento cristão de que a alma humana sobrevive à morte. Aquino recusou-se a tal distorção. Isso tornou bem mais difícil para ele defender - como fez - a imortalidade da alma, e1n outro exemplo de sua determinação em ser um bom aristotélico, e bom fllósofo, sem renunciar a sua fé.

universo tem uma causa?



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OMUNDO MEDIEVAL 95 A radiação cósmica de fundo fornece a evidência do "Big Bang" que iniciou o universo. Mas ainda podemos argumentar, como Aquino, que essa não foi a única maneira possível para sua criação.

que não evitou que seu pensamento quase fosse condenado como herético logo após sua morte. Os grandes pensadores -e professores do século seguinte, como o filósofo secular Henrique de Gand e os fra nciscanos John Dun s Scot e Guilherme de Ockham, se inclinaram muito mais a dizer que o raci·ocinio filosófico, como representado no mais alto grau pelos argumentos de Aristóteles, estava muitas vezes errado. ScoL considerava inadequada a visão aristotélica de Aquino sobre a alma. Ockham rejeitou a descrição de conhecimento de Aristóteles quase completamente. Henrique de Gand criticou a visão de Aquino de que Deus poderia te r criado um u niverso que sempre existiu. Se ele sempre existiu, argumentou Gand, não haveria possibilidade de não existir. então Deus n ão teria possuído autonomia para criá-lo ou não. A suprema confiança de Aquino no poder da razão denotava que ele tinha mais em comum com o maior filósofo do século anterior. o teólogo francês Ped ro Abelardo, do que com seus contemporâneos e sucessores .

Crença coerente Tanto a visão geral sobre a relação ent.re filosofia e doutrina cristã de Aquino quanto seu tratamento particular da eternidade do universo permanecem relevantes no século XXI. Hoje, poucos filósofos acreditam que posições religiosas. como a existência de Deus ou a imortalidade da alma, possam ser provadas pelo raciocínio filosófico. Mas o que alguns reivindicam para a filosofia é que ela

pode demonstrar que, embora os religiosos mantenham certas doutrinas como questão de fé, suas visões gerais não são menos racionais ou coerentes d o que as dos agnósticos e ateus. Essa visão é uma extensão e um desenvolvimento do esforço de Aq uino para desenvolver u m sistema de pensamento filosoficamente coerente, ao mesmo tempo em que mantinha suas crenças. Ler as obras de Aquino é uma lição de tolerância, para cristãos e não cristãos.

O papel da filosofia Hoje não procuramos a filosofia para que ela diga se o universo sempre existiu ou não, e a 1naioria de nós não se volta para a Bíblia, como Aquino e outros pensadores medievais fizeram. Em vez disso, buscamos a física , em particu lar a teoria do "Big Bang" proposta por cientistas modernos, incluindo o físico e cosmólogo britânico Stephen Hawking. Essa teoria afirma que o universo se expandiu a partir de um estado de temperatura e densidade altíssimas num instante particular no tempo. Embora a maioria de nós agora se volte para a ciência em busca de uma explicação sobre como o universo começou, os argumentos

de Aquino mostram que a filosofia ainda é relevante no modo como pensamos sobre a questão. Ele demonstra como a filosofia pode fornecer ferramentas para a investigação inteligente, permitindo-nos investigar não o que acontece. mas o que é possível e o que é impossível acontecer, e quais são as questões inteligíveis a serem feitas. • E ou não é coerente acreditar que o universo teve um começo? Essa ainda permanece uma questão para filósofos, e nem toda a física teórica seria capaz d e respondê-la. •

Alguém pode dizer que o tempo teve início no Big Bang, no sentido de que tempos anteriores simplesmente não seriam definidos.

Stephen Hawking

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NIG:OLAU DE GUSA (1401-1464) .·

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icolau de Cusa pertence a u1na longa tradição de filósofos medievais que tentaram descrever a natureza de Deus, realçando como Deus é diferente

outras formas de conhecimento, e alguns antigos teólogos cristãos falaram de Deus como "além do ser". De Cusa, que escreveu por volta de 1440, foi além, afirmando que Deus é o

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de qualquer ser que a mente humana

que vem antes de tudo, antes mesmo

Platonism