Dos Animais e Dos Homens

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Dos Animais e Dos Homens

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JAKOB VON UEXKÜLL, NASCEU NA ESTÓNIA EM 1864; ESTUDOU ZOOLOGIA NA UNIVER­ SIDADE DE DORPART E FISIOLOGIA NA UNI­ V E R S ID A D E DE H E ID E L B E R G . OS SEU S -TRABALHOS

SOBRE

O

«MUNDO-PRÓPRIO

E MUNDO-INTERIQR DOS ANIMAIS» FORAM NÃO SÓ PIONEIROS, CRIANDO RAMO CIEN­ TÍFICO, MAS TAMBÉM, ATÉ HOJE, DEFINI­ TIVOS, JA QUE 0 ,áEU CONCEITO DE CICLO-DE-FUNÇÃO JAMAIS FOI CONTESTADO OU ULTRAPASSADO.

V IA J O U

POR

TO DO

O MUNDO, çj^M O INVESTIGADOR E CONFE­ RENCISTA. pÒUTOROU-SE TAMBÉM EM MEDI­ CINA, PELjjí UNIVERSIDADE DE HEIDELBERG E FOI PROFESSOR NA DE HAMBURGO E NA DE KIEL, TENDO SIDO GALARDOADO DOUTOR HONORIS CAUSA

POR OUTRAS UNIVERSI­

DADES EUROPEIAS

C O L E C Ç Ã O

V I D A

JA K O B V O N

E

C U L T U R A

U EXK Ü LL

Dos animais e dos homens Digressões pelos seus próprios mundos D outrin a do Significado

T r a d u ç ã o de ALBERTO CANDEIAS e ANÍBAL GARCIA PEREIRA ♦ Capa de

A. PEDRO *

Título da edição original STREIFZUGE DURCH DIE UM W ELTEN VON T IER E N UND M ENSCHEN *

Reservados todos os direitos pela legislação em vigor *

Edição feita por acordo com a BOWOHLTS DEUTSCHE ENZYKLOPÄDIE

EDIÇÃO «LIVROS DO BRASIL» LISBOA R u a do s C a e t a n o s , 22

UM PRECURSOR DA NOVA BIOLOGIA p o r A d o lf Portmann

A obra de Jacob von Uexküll veio a ter resultados fecundos nas ideias e nas tarefas da biologia actual. As investigações dos nossos dias falam de m undos-próprios dos anim ais no sentido particular que Uexküll atribuiu a este conceito e apresentam ciclos-de-função do s e r vivo exactamente como ele no-los tinha definido em dezenas de anos de labor intenso. Se hoje encaramos os fenóme­ nos da vida não só como causa de certos efeitos mas também como partes componentes de um conjunto preexistente devemo-lo principalmente ao seu trabalho. A nova geração, que agora começa a trabalhar, já não teve oportunidade de o conhecer e quase não mantém com a sua obra relações directas. Uexküll morreu durante os anos negros do fim da Segunda Grande Guerra e, na confusão desse período, muitos investigadores se esqueceram de quanto ficaram devendo a esse homem que foi, simultaneamente, um grande biólogo e um génio de forte personalidade. Vamos acompanhar a elaboração e a influência desta obra notável, para entrarmos depois na própria natureza dos dois trabalhos mais recentes, reunidos neste volume.

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A AUTONOMIA DO SER VIVO O que Uexküll trouxe de novo ou simplesmente apro­ fundou, a partir\de investigações já feitas, teve o seu início na última década do século passado, nos anos que se seguem imediatamente aos sugestivos estudos de Hans Driesch. As experiências de Driesch com as pri­ meiras formas embrionárias do ouriço-do-mar tinham revelado particularidades de desenvolvimento que deixa­ vam transparecer nitidamente a autonomia do ser vivo e contnibuíram também de maneira definitiva para que, na busca de uma interpretação do ser vivo, se afirmasse, com nova força, a par da interpretação mecanista domi­ nante, a outra possibilidade: o vitalismo. Se, daí em diante, caem em desuso os termos m ecanism o e vita ­ lism o, por se ter reconhecido amplamente a existência de uma autonomia relativa, de uma independência, do ser vivo, também para este facto tão importante deu larga contribuição o trabalho criador de Jacob Uexküll. A sua obra foi muito particularmente sugerida pela vida dos animais marinhos. E é mais uma vez a utilização genial deste campo das formas animais marinhas que lhe revela novos factos acerca da função dos músculos e nervos e das relações com o meio. Os movimentos dos espinhos do ouriço-do-mar, os movimentos das lapas ou da medusa, o estímulo da sombra que actua no ouriço-do-mar, a maneira como os vermes ou os espatangóides (1) se ocultam na areia, a observação da vida dos chocos e das lagostas — cada um destes estudos é um raio de luz que ilumina as densas trevas da vida marinha. Já nestes primeiros trabalhos de fisiologia se dese­ nham os contornos de uma concepção de organismo que está em flagrante oposição com as ideias ainda larga­ mente aceitas no seu tempo, que vêem no organismo o (’)

Ouriços-do-mar de simetria bilateral.

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resultado de processos ocasionais de transformação, dos quais a selecção natural manteve os favoráveis, permi­ tindo assim a evolução das formas vivas. Desde o princípio, Uexküll dirige a atenção do obser­ vador para as propriedades supermecânicas da matéria viva, para o facto misterioso de que no organismo adulto se nos apresenta um todo organizado segundo um plano. Nós verificamos, impressionados e surpreendidos, que este plano já actua no óvulo e continua no desenvolvi­ mento individual deste. Uexküll já tinha mostrado há muito, em expressivas descrições, o que existe de extraordinário na matéria viva, no protoplasma. Esta necessidade de expor com clareza impeliu-o toda a sua vida para o género de comunicação mais capaz de atingir um largo círculo de pessoas interessadas no assunto. Tornou-se um mestre na exposição arguta e incisiva da sua concepção da natureza. Era-o na explanação oral e é-o também, com igual vigor e poder de sugestão, nos seus escritos. O nunca se ter integrado nas verdadeiras activi­ dades da ciência académica retardou, porventura, a expansão das suas ideias no campo espiritual da Univer­ sidade, mas permitiu, por outro lado, que tirássemos pro­ veito de muitos trabalhos seus, estimulantes e combati­ vos, que possivelmente seriam incompatíveis com a faina do ensino. CICLO-DE-FUNÇÃO E MUNDO-PRÓPRIO A concepção de ser vivo, de Uexküll, encontrou a sua integral explanação nas obras U m w elt und In n e n w e lt der Tiere, 1921, e Theoretische Biologie. A primeira trata com mais pormenor da observação de factos particulares da vida das mais diversas formas animais; a segunda, mais abstracta, é uma tentativa para ajustar o estudo da vida animal, principalmente com a posição filosófica inspirada em Kant.

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Uexküll tem o seu lugar histórico na solução da antiga querela travada à volta das concepções m ecanista e v ita lis ta do ser vivo. Pela influência da época, da escola, e da natureza fisiológica do trabalho, está ligado de várias maneiras — e mais solidamente do que ele próprio era capaz de ver — à interpretação mecanista, para a qual, aliás, era solicitado pelo mais íntimo do seu ser. Verifica, assim, como eminente fisiólogo da vida animal inferior, as grandes possibilidades da simplificação mecanista, que concebe, por vezes/com o mecânico cada um dos sis­ temas da vida animal. Ele considera como maquinismos as estruturas mais evoluídas. Assim, para ele, «a amiba é menos maquinismo que o cavalo» porque dispõe de menos estruturas adultas. Finalmente, Uexküll também se aproxima da interpretação mecanista quando isola a substância e a concebe como dirigida por uma forma de actividade não dimensional. São pois os «impulsos» — agentes não espaciais de ocorrências espaciais — que, por um processo morfogenético conferem à substância uma contextura mecânica. O protoplasma, como um todo, é sempre supermecânico.

nismos ou até inimigos e chamou a essa correlação «ciclo-de-função». O ambiente tem notas ou sinais, no verdadeiro sentido destas palavras: estruturas que o animal assinala por meio dos órgãos sensoriais consti­ tuídos para esse efeito e para as quais se elaboram res­ postas e reacções especiais no organismo. Quanto às possibilidades de relação ,d e -, um organismo com o ambiente, elas estão já determinadas segundo qualidade e intens idadé7 por estrüturas previámente~-or-qaaizadas.. Os diversos ciclos^de-função, no seu conjunto, deter­ minam uma secção de propriedades com significado na vida do animal. Elas são, no âmbito mais largo da natu­ reza, a parte que no caso respectivo forma o am biente limitado e típico de uma espécie animal.

OS «PAPÉIS» DAS COISAS NO CENÁRIO DA VIDA; O ESTUDO DO SEU SIGNIFICADO

Uexküll verificou uma correlação estrutural, já exis­ tente no óvulo, entre o corpo do animal e certos factores do ambiente, sejam estes de natureza inanimada, orga­

Na vida animal, as coisas são portadoras de signi­ ficados, têm nela papéis a desempenhar. Ao referir-se a este facto potencial e real, Uexküll revelou à investi­ gação biológica um aspecto do ser vivo que, nas Ciências Naturais do século XIX, alguns tinham votado a inteiro esquecimento e outros simplesmente banido, como não científico, do domínio dos estudos biológicos. Guiados por Uexküll, encontramos circunstâncias que não podem entrar, reduzidas a medidas e números, numa explicação matemática da natureza, circunstâncias que dizem respeito a um aspecto da vida que é complementar de todas as conclusões obtidas por métodos quantitati­ vos. O mundo das qualidades experimentadas, com as suas cores e formas, os seus sons e aromas, as suas dores e os seus prazeres, aparece então como o objecto primacial da investigação biológica. Com Uexküll, o

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Na luta que travou por esta concepção, Uexküll emparelha com Hans Driesch. Mas em breve se manifesta a originalidade das suas investigações, quando, no núcleo do seu trabalho, se começa a levantar, a cada passo, uma questão soberana: como deve então entender-se a rela­ ção entre o ser vivo e o meio quFõ~cTrcunHã?~A pãrtTF de 1910, começa também a expor, de maneira mais inci­ siva, as suas ideias fundamentais, com que ajudou a for­ mar, tão decididamente, a biologia dos tempos futuros. Duas dessas ideias directrizes vieram a tornar-se parti­ cularmente importantes.

sujeito percipiente é tomado, pela primeira vez, como objecto de investigação positiva. Neste mundo comple­ mentar, tornh-se essencial o que no outro não passa de secundário; é\, pelo contrário, insignificante o que ali se tomava como decisivamente importante. Sucede assim, ser indiferente no mundo dos sujeitos se uma cor, como, por exemplo, o azul do céu, depende do carácter de uma combinação química ou se resultou de determinadas estruturas físicas. O importante, neste mundo, é que o azul se apresenta como fenómeno experimentado e que, como tal, desempenha no cenário da vida papéis diversos e rigorosamente determinados. E com que sagacidade dirige Uexküll esta introdução do sujeito na biologia! Ele afirma que as coisas do ambiente possuem um tom ou «teor» prático, quer dizer, que lhes pertence, conforme o seu papel, uma qualidade

idênticas, meramente estimulantes, o nervo óptico é sempre afectado sob a forma de sensação luminosa, conside­ rando-se a srproprTõ^mergGTFiãdo na escuridão, quands fenómenos de movimento no seu mundo-próprio se passam, como na lupa-de-tempo, retardadamente. ~ Um' exemplo de contracção de tempo está represen­ tado ha fig. 16, tirada da obra antes citada. Sobre uma bola de borracha aue, flutuando na água, pode nela escorreaar praticamente sem atrito, coloca-se um caracol, que se fixa pela concha, com uma pinça, a um suporte. Deste

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modo ele não é impedido de rastejar, conservando-se con­ tudo sempre no mesmo lugar. Se agora pusermos em contacto com a palmilha do caracol uma varazinha, este rastejará sobre ela. Se aplicarmos um a três toques da vara, por segundo, sobre o caracol, ele reage afastando-se dela, mas se os toques se repetirem quatro ou mais vezes por segundo, então o caracol começa a arrastar-se

Fig. 16 — O momento do caracol. S = esfera; £=engrenagem; A/=varazinha; S=caracol

ao longo da varazinha. No mundo-próprio do caracol, uma vara que vibra com o períodcTde quatro vezes por segundo é como se estivesse em repouso. De onde devemos con­ cluir que o tem pojdo caracol flui num ritmo de três a quatro momentos por segundo. Isto tem como consequência que no mundo-próprio do caracol todos os fenó­ menos de movimento se passam muito mais rapidamente do que no nosso. Além disso os movimentos típicos do caracol não fluem para ele mais lentamente do que os nossos para nós.

5 - A. HOMENS

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4. OS MUNDOS-PRÓPRIOS ELEMENTARES

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Espaço e tempo não são de qualquer préstimo ime­ diato para o sujeito. Só adquirem significado quando mui­ tas características que, sem o quadro temporal e espa­ cial ruiriam, tem de ser diferenciadas. Um tal quadro, em mundos-próprios elementares, em que há um único sinal-característico, não é, porém, necessário. A fig. 17 representa par a par o mundo ambiente e

o mundo-próprio da paramécia, um pequeno ciliado. A paramécia é revestida de densas fiadas de cílios, por meio de cuja agitação se move rapidamente na água, girando em torno do seu eixo maior. De todas as diferentes coisas que se encontram no seu mundo ambiente, o seu mundo-próprio apreende apenas a característica, sempre a mesma, pela qual a paramécia quando quer que seja, seja como for e onde for, é estimulada a desencadear o mesmo movimento. O mesmo carácter de obstáculo provoca sempre o mesmo movimento de fuga. Este consiste em um movimento de recuo, a que depois se segue um desvio lateral, seguido de novo avanço, de modo que o obstáculo é ultrapassado. Pode dizer-se que, neste caso, o mesmo sinal caracterís­ tico é cancelado pela mesma marca-de-acção. Quando o animalzinho contacta com uma partícula das que lhe ser­ vem de alimento (1) — as bactérias de decomposição, que, de entre tudo que existe em todo o mundo-ambiente, não determinam qualquer estímulo — o animal detém-se. Estes factos mostram-nos como a natureza consegue estruturar a vida segundo um.plano com um único ciòío-de-função. Alguns animais pluricelulares, como as medusas pelágicas do género Rhizostoma, também podem, bas­ tar-se a si próprias com um único ciclo de função. Neste caso o organismo consiste num dispositivo hidráulico natatório que recolhe em si a água do mar não filtrada, rica em plâncton, e a reexpele filtrada. A única manifestação de vida na medusa consiste em oscilações, para um e outro lado, da umbela gelatinosa e contráctil. Por meio de uma pulsação sempre igual, o animal man­ tém-se nadando à superfície do mar. Ao mesmo tempo, o intestino, membranoso, dilata-se e contrai-se alternada­ mente, assim entrando e saindo a água do mar, por peque-

Fig. 17— Mundo ambiente e mundo-próprio da paraméciá

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C)

Na figura 17, Nahrung.

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é°moeido« d Ü h

I eX'St! nteS- 0 conteúdo f,u id ° do intestino 90 extensos canais digestivos, cujas

Mat a S n to d a fS n r..In Sa° r

6m ? a,Íment0S 6 ° ox,9®ni° arrastado. l 83?. alimentos e respiração mecânica aS Pela contracção rítmica dos mús-

mnv meX' f 6nteS naS margenS da umbela' Para que estes movimentos se continuem sem interrupção, existem nas

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Fig. 18- M e d u s a pelágica com corpos marginais

margens da umbela oito órgãos campanuliformes (corpos m argmbad a,s) l0Si í convencionalmente na fig. fiq 18 ) cujos a cada puIsaç_0j representados cPQca os na 18). nervosa. O estímulo resultante do choque, p r o v ia a oul saçao seguinte da umbela. Deste modo a medü™ p Z c a característico ' “

- es,a U b e r t s T Z l l provoca de

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No mundo-próprio da medusa soa sempre a mesma badalada, que governa o ritmo da vida. Todos os outros estímulos se apagam. No caso em que um único ciclo-de-função se mani­ festa, como em Rhizostoma pode realmente falar-se de um animal reflexo, porque o mesmo reflexo se desenca­ deia desde cada campânula até à faixa muscular na mar­ gem da umbela. Deveremos, porém, falar de animais reflexos, quando existem ainda outros arcos reflexos, como sucede em outras medusas, quando eles se con­ servam completamente independentes. Assim, há medu­ sas que possuem filamentos pescadores que contêm em si a fonte de arcos reflexos que se fecham sobre si pró­ prios. Muitas possuem ainda um manúbrio bucal móvel, provido de musculatura própria, que está ligado aos receptores da margem da umbela. Todos estes arcos reflexos funcionam com perfeita independência uns dos outros, não sendo controlados por nenhum órgão central. Quando um órgão exterior é a sede de um arco reflexo, diz-se que é como se fosse um «indivíduo reflexo». Os ouriços-do-mar são constituídos põr um grande numero desses indivíduos reflexos, cada um dos quais, por si e sem coordenação central, desempenha a sua função reflexa. Para tornar claro o contraste entre os animais assim constituídos e os animais superiores, formulei a proposição seguinte: quando um cão se desloca, o animal move as pernas, quando um ouriço-do-mar se desloca, as «pernas» movem o animal. Os ouriços-do-mar põssuerrrr como o ouriço-cacheiro, muitos espinhos, que, contudo, fazem parte de indivíduos reflexos autónomos. Além dos espinhos rígidos e picantes que assentam numa superfície articular esférica do testo e estão pron­ tos a opor uma floresta de lanças a qualquer objecto, capaz de provocar qualquer irritação, que se aproxime do testo, existem ventosas pediceladas (pés ambulacrários) moles, longas e musculosas, que servem para a

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locomoção. A^lém disto, muitos ouriços-do-mar possuem ainda, espalhadas por toda a superfície do testo, quatro tipos de pinças (pinças ornamentais, pinças percussoras, pinças preensof-as e pinças venenosas) cada tipo com a sua utilização especial. Apesar de muitos indivíduos-reflexos funcionarem em conjunto, as suas actividades são absolutamente inde­ pendentes umas das outras. Assim, actuados pelo mesmo estímulo químico proveniente do inimigo do ouriço — a estrela-do-mar — os espinhos divergem subitamente e em vez deles surgem as pinças venenosas que encarniçadamente se lançam contra os pés ambulacrários daquela. Pode-se, pois, neste caso, falar de uma «república reflexa», em que, porém, apesar da independência de todos os indivíduos reflexos, reina um «espírito cívico» perfeito. Porque os próprios pés ambulacrários, moles, do ouriço-do-mar nunca são atacados pelas pinças preensoras, que aliás mordem qualquer objecto próximo. Este «espírito cívico» não é ditado por qualquer posto central, como sucede com o homem, onde também os dentes cortantes constituem um perigo para a língua, o qual só é evitado mediante a intervenção do sinal-perceptivo do perigo de dor no órgão central. Porque o perigo de dor impede o acto que o provoca. Na república de reflexos do ouriço-do-mar, que não possui nenhum centro superior de coordenação, o «espí­ rito cívico» tem de ser atribuído por outros meios. É a substância, autodermina, que o consegue. Não diluída, ela não paralisa os receptores dos indivíduos reflexos. Nos tegumentos existe em diluição tão elevada que é inactiva quando ao contacto de um objecto estranho. Logo, porém, que dois pontos do tegumento contactam, a sua actividade manifesta-se e impede o desencadear do reflexo. Uma república de reflexos, como é o ouriço-do-mar, pode perfeitamente admitir no seu mundo-próprio várias

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notas, ou sinais característicos, se se compuser de vários indivíduos-reflexos. Tais notas, porém, devem manter-se completamente isoladas, pois que todos os ciclos-de-função se realizam, completamente isolados uns dos outros. Já a carraça, cujas manifestações vitais consistem, como vimos, em três reflexos, representa um tipo mais elevado, pois que os ciclos-de-função não se utilizam desses arcos reflexos isolados, mas possuem um órgão-de-percepção comum. Existe, por isso, a possibilidade de, no mundo-próprio da carraça, o animal-presa, embora con­ sista apenas em estímulo do ácido butírico, estímulo do tacto e estímulo do calor, constituir, não obstante, uma unidade. Tal possibilidade não existe no caso do ouriço-do-mar. Os seus sinais característicos, que se compõem de estímulos graduados de pressão e estímulos químicos, constituem grandezas completamente isoladas. Muitos ouriços-do-mar respondem a qualquer obscurecimento do horizonte com um movimento dos espinhos que, como o mostram as figs. .19 a e 19 b, se verifica igualmente como resposta contra uma nuvem, um navio, e o seu verdadeiro inimigo, um peixe. Mas a repre­ sentação do mundo-próprio ainda não está suficiente­ mente simplificada. Não é o caso de o sinal característico som bra ser transferido pelo ouriço-do-mar para o espaço, pois que este não possui nenhum espaço visual, e as sombras só se efectivam como por uma leve passagem de um floco de algodão sobre o tegumento, sensível à luz. Representar isto graficamente era tecnicamente impos­ sível. 5, FORMA E MOVIMENTO COMO SINAIS-CARACTERÍSTICOS Mesmo qué se quisesse admitir que, no caso do mundo-próprio do ouriço-do-mar, todos òs sinais-caracte-

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rísticos, ou notas, dos diferentes indivíduos-reflexos são dotados de uma representação em espaço, e por isso cada um se encontra num local diferente do de cada outro — não havia, contudo, nenhuma possibilidade de relacionar estes locais uns com os outros. Por isso a este mundo-próprio devem necessariamente faltar os sinais caracte­ rísticos de forma e de movimento que pressupõem a ligação de vários locais de uns com os outros — e é isso o que se dá. Forma e movimento aparecem pela primeira vez em mundos de percepção superiores. Ora nós estamos

Fig. 19 a — Mundo ambiente do ouriço-do-mar

Fig. 20 — Gralha-de-bico-vermelho e gafanhoto

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habituados a admitir, graças às experiências adquiridas no nosso mundo-próprio, que a forma de um objecto ó a nota, ou sinal-característico, dada em primeiro lugar, e que o movimento sobrevem ocasionalmente como sinal-característico secundário. Isto porém não é o que se passa em muitos mundos-próprios dos animais. Neles, forma em repouso e forma em movimento não são dois sinais-característicos inteiramente independentes um do outro, podendo também ocorrer o movimento sem forma, como sinal-característico independente.

Fig. 19 b — Mundo-próprio do ouriço-do-mar

A fig. 20 representa a gralha-de-bico-vermelho, ou corvacho, caçando gafanhotos. A gralha é completamente

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incapaz de descobrir um gafanhoto em repouso, e só o ataca quando ele salta. Nestas circunstâncias conjecturamos imediatamente que a forma