A história dos homens

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A história dos homens

memória de Antonio Puente

Auf die Geschichte der Menschen werden wir indes einzugehen haben, da fast die ganze Ideologie sich entweder auf eine verdrehte Auffassung dieser Geschichte oder auf eine gänzliche Abstraktion von ihr reduziert. Die Ideologie' selbst ist nur eine der Seiten dieser Geschichte. KAÈL MARX Y FRIEDRICH ENGELS,

Die deutsche Ideologie, MEW, 3, Berlin, Dietz Verlag, 1973, p. 18, nota (Im Manuskript gestrichen)

Teremos que insistir na história dos homens, porque quase toda a ideologia se reduz ou a uma falsa concepção da história, ou a uma abstração da mesma. A própria ideologia não é mais do que uma das partes da história: KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS,

A ideologia alemã, 1,1 (nota 10, texto suprimido no'manuscrito}

SUMÁRIO

11

INTRODUÇÃOCAPÍTULO 1

21

As origens: a historiografia da antigüidade clássica

57

A ruptura da tradição clássica

CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 3

83

Renascimento e renovação da história CAPITULO 4

-

107

A Ilustração

143

A invenção do progresso

CAPITULO 5 .

CAPÍTULO 6

171

Revolução e restauração CAPÍTULO 7

199

Marx e o "materialismo histórico"

CAPITULO 8

221

Historicismo e nacionalismo CAPITULO 9

243

O esgotamento do modelo acadêmico (1918-1939)

261

A história econômica e social

309

Os marxismos

343

As guerras da história

CAPÍTULO 1 0 ^

CAPITULO 11

CAPÍTULO 1 2

CAPÍTULO 1 3

381

A reviravolta cultural CAPÍTULO 1 4

413

A crise de 1989

439

Pôr uma história de todos

CAPÍTULO 1 5

CAPÍTULO 1 6

471 . Em busca de novos caminhos 'i 491

ÍNDICE ONOMÁSTICO

INTRODUÇÃO

A história de um grupo humano é sua memória coletiva, e a seu respeito, cumpre a mesma função que a memória pessoal em relação a um indivíduo: dar-lhe um sentido de identidade que o faz ser ele mesmo e não outro. Entretanto, compreendemos mal a natureza de n(>ssa memória pessoal. Geralmente a consideramos como um simples depósito de imagens da realidade passada quando, ao contrário, os cientistas estabeleceram que não se trata de uma faculdade unitária, mas de "uma variedade de processos psicológicos diversos'" e que a produção de uma lembrança é um processo muito complexo. Isso explica, talvez, que a mesma incompreensão se estenda a nossa consideração da história. Desde o início, inclusive nas manifestações mais elementares, a história teve, como memória coletiva, certas funções sociais, das quais a mais importante foi axde legitimar a ordem política e social vigente, mas cumpriu, também, a de preservar as esperanças coletivas dos oprimidos pela ordem estabelecida. Convém rejeitar a idéia de que houve tempos em que a narrativa histórica estava mais próxima da ficção, enquanto que, no presente, a veracidade e a objetividade definem o què se pode considerar "histórico". Os estilos mudaram, como o fizeram os mitos, mas a história continua associada às concepções sociais e aos precon1 KAGAN, Jerome. Three seductive ideas. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1998. p. 63.

ceitos dos historiadores e do seu público, ainda que uns e outros tendam a acreditar, pomo o faziam os homens do passado, que seus mitos e preconceitos são verdades indiscutíveis. O corpo de tradições orais das sociedades que não conhecem a escrita foi elaborado para justificar e transmitir o que se considerava importante para elas. Todos os elementos dessa tradição - genealogias, poemas, fórmulas rituais, provérbios... - tinham uma finalidade determinada e, reciprocamente, "cada instituição e cada grupo social possuem uma identidade própria que é acompanhada de um passado inscrito nas representações coletivas de uma tradição que os explica e justifica". Nada parece mais objetivo do que uma genealogia, porém certas regras de descendência flexíveis foram usadas, geralmente para legitimar os que tomaram o poder, de modo que se pode dizer que as genealogias "constituem o fundamento da ideologia dominante". Isto fica evidente, inclusive, nos textos mais antigos do gênero, como as relações dos reis do Egito e da Mesopotâmia que foram manipuladas para legitimar o soberano reinante. O que não é tão diferente da invenção das "genealogias nacionais", das velhas tradições que faziam, por exemplo, os franceses descendentes dós troianos, até as mais elaboradas dos historiadores modernos que, a partir do romantismo, reconstroem a história das coletividades humanas de acordo com a conveniência dos estados-nações atuais que, desta maneira, se projetam no passado.2 Nas origehs, a história teve, em muitos casos, a função de servir de testemunho da aliança entre um povo e seus deuses, com a mediação dos seus reis e sacerdotes. Laicizou-se entre os gregos e os romanos, mas tornou a ser interpretada numa ótica religiosa com o advento do cristianis2 VANSINA, J. La tradition orale et sa méthodologie. In: Histoire générale de l'Afrique. Paris: UNESCO, Í980.1, Méthodologie et préhistoire africaine, p. 167-190; citação textual da p. 173 e "Towards a history of lost corners in the world", em Economic history review, XXXV, p. 165-178,1982. Sobre o uso da genealogia em sociedades pastoris para justificar direitos sobre a terra, HUMPHREY, Caroline. The uses of genealogy: A historical study of the nomadic and sedentarised Buryat. In: Pastoral production and society. Cambridge: Cambridge University Press, 1979. p. 235260. Sobre o sentido das genealogias medievais e as mudanças que experimenta-

mo. A era feudal, em que a história se transformou em crônicas dos príncipes e, principalmente, o renascimento, deram-lhe uma nova entidade civil. A ilustração, por sua vez, lhe forneceu uma dimensão crítica, ao mesmo tempo que se produzia um acontecimento novo e transcendente que determinaria sua importância futura: os historiadores escreveriam, a partir daí, para um público amplo, não somente para príncipes, letrados e clérigos, contribuindo para configurar o fenômeno moderno que é o surgimento da "opinião pública".3 Os novos estados nacionais, interessados em usar o ensino e a difusão da história como veículo de criação da consciência coletiva e como alimento do patriotismo, promoveram o trabalho dos intelectuais que, em seu projeto para construir uma história da sociedade civil que substituísse a velha, dos soberanos edos senhores feudais, logo descobriram que os "fatos históricos", longe de serem realidades definidas que o historiador "descobria",4 eram polivalentes e podiam encaixar-se numa pluralidade de interpretações diferenciadas. Ninguém disse isso com mais clarividência do que François Guizot, num texto que não recebeu a merecida atenção: "Os fatos abordados pela história não ganham nem perdem, atravessando as idades; tudo o que se tem visto, tudo o que se poderá ver, neles estava contido desde o dia em que ocorreram; porém, eles nunca se. deixam capturar plenamente, nem se penetrar em toda sua extensão; possuem, por assim dizer, inumeráveis segredos que deles são extraídos aperam, GENICOT, L. Lês généalogies. Turnhout: Brepol, 1975. p. 35-44 (Typologie des sources du moyen âge occidental, fasc. 15). Sobre as genealogias nacionais há uma ampla bibliografia, que vai de estudos interessantes como o de BEAUNE, Collete. Naissance de la nation France. Paris: Gallimard, 1985, ou da obra coletiva organizada por Eric J. Hobsbawm e Terence Ranger sobre "a invenção da tradição" até produtos fundamentalistas como as "Reflexiones sobre el ser de Espana"da Academia de história, ou inconsistentes, como os de Juaristi. 3 BÀDINTER, Elisabeth. Les passions intellectuelles. Paris: Fayard, 1999.1. Désirs de gloire (1735-1751). ZARET, David. Origins of democratic culture. Printing, petitions, and the public sphere in early-modern England. Princeton: Princeton University Press, 2000. 4 Sobre a "invenção" do "fato histórico", ver SHAPIRO, Barbara ).A culture of fact. England, 1550-1720. Ithaca: Cornell University Press, 2000. p. 34-62.

nas lentamente e quando o homem se encontra em situação de reconhecê-los. E, como tudo muda no homem e no seu ambiente: como o ponto de vista do qual analisa os fatos e o ânimo com que realiza sua pesquisa variam incessantemente, dir-se-ia que o passado muda com o presente; elementos não percebidos se revelam nos fatos antigos; outras idéias, outros sentimentos são estimulados pelos mesmos nomes, pelos mesmos relatos; e o homem percebe que, no espaço infinito aberto ao conhecimento, tudo permanece constantemente inesgotável e novo para a inteligência, sempre ativa e sempre limitada."5 ( Esse foi o primeiro passo para o descobrimento da teoria da "construção social" da história que Marx e Engels formulariam de modo mais claro. Ao analisá-la em termos de lutas de classes, a levaram além da visão burguesa das primeiras histórias nacionais, integrando nela o conjunto da sociedade, como convinha a seu projeto revolucionário. Dariam início então a uma nova história que começou reivindicando os de baixo, muito em especial os trabalhadores, esforçando-se para libertar-se do "estúpido acúmulo de mentiras, disfarces hipócritas e falsas deduções que se denomina história burguesa".6 Esse modo de ver, que teria sua.continuação na "história econômica e social" do século XX, nãó era ajnda uma história que p.udesse ser considerada legitimamente de todos. Falava-se também dos trabalhadores, além de se ocupar de reis, governantes e burgueses, mostrava, ao contrário, pouco interesse a respeito dos camponeses, menos ainda dos 5 GUIZOT, François. Histoire des origines du gouvernement representatif. Paris: Didier, 1856.1, p. 2 (textos de seus cursos de 1820-1822). Um século mais tarde, Collingwood expressaria a mesma idéia, derivando-a em parte de Croce, com menos sutileza que Guizot: "Cada presente tem um passado próprio e toda reconstrução imaginária do passado aspira reconstruir o passado deste presente, do presente em que se está produzindo este ato de imaginar, tal como é percebido aqui e agora". (COLLINGWOOD, R. G. The idea of history. Oxford: Oxford University Press, 1993. p. 247). 6 "The dull gulf of lies, hypocrital concealments, and false deductions, which is called bourgeois history" MORRIS, William. Why we celebrate the Commune of Paris. Commonweal, 3, n. 62, p. 89-90,19 Mar. 1887, reproduzido em Political writings. Ed. Nicholas Salmon. Bristol: Thoemmes Press, 1994. p. 232-235.

grupos marginais e quase nada das mulheres.7 E, além disso, era vítiiha de outra limitação. Filha de seu tempo, estava estreitamente condicionada pelas perspectivas da cultura européia, o que a levava a apresentar o curso da evolução das sociedades humanas numa visão linear, na qual o desenvolvimento econômico e a tecnologia eram considerados motores essenciais de um tipo de progresso universal que conduzia necessariamente a um só e único ponto de chegada: a civilização moderna dos europeus e seus descendentes. Essa visão viu-se reforçada por uma concepção determinista da ciência e pela transposição desta ao terreno humano, que levou à procura de "leis" aplicáveis à sociedade, que só teriam sentido se fossem válidas para o conjunto da humanidade. O objetivo da ciência histórica haveria de ser, precisamente, o de chegar a um conhecimento perfeito dó mundo social, como defendia o anarquista francês Charles Malato, que queria uma história capaz de "deduzir com precisão matemática as causas dos movimentos profundos que agitam as moléculas humanas".8 Isso não condicionava somente a interpretação do passado, mas criava a ilusão de que, uma vez conhecidas as "leis históricas", poderíamos prever o futuro: um futuro que, de acordo com a experiência do progresso, nos permitiria esperar que o crescimento econômico se generalizaria ao mundo subdesenvolvido e que as sociedades desenvolvidas eliminariam a pobreza de seu seio. O término da Segunda Guerra Mundial, com a derrota do fascismo e as perspectivas de crescimento econômico indefinido que pareciam se abrir, reforçou essas esperanças. Esta atitude reflete-se era três livros que muito influenciaram minha geração: Apologia por la historia (1949), de Mare Bloch (1886-1944) uma voz de esperança que nos chegava da pró7 Como tentarei explicar no final no livro, isto não significa apenas que não se ocupava destes grupos mas, sobretudo, que não refletia sua visão de mundo: sua própria consciência da história. 8 HACKING, Ian. The taming of chance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990; MALATO, Carlos. Revolución Cristiana yrevolución social. Barcelona: Atlante, ca. 1905. p. VIII, nota.

pria noite do fascismo, Que sucedió en la historia (1942) de Gõrdon Childe (1892-1957), que explicava a genealogia do progresso, e Qué es la história? (1961), de Edward Halett Carr (1892-1982) que renovava a visão do progresso a partir de uma ótica avançada, levando o autor a proclamar: "Declaro minha fé no futuro da sociedade e no futuro da história".9 Nesses anos otimistas do crescimento de pós-guerra, a historiografia estava dominada por correntes que, apesar de se enfrentarem ideologicamente, compartilhavam a crença básica na existência de um curso único e progressivo que marcava a ascensão do homem no transcurso do tempo. A partir de meados dos anos setenta, ao contrário, pode-se ver que as profecias nâo se realizavam e que, em vez de experimentar o crescimento universal previsto, apareciam novas manifestações cíclicas de crises nos países desenvolvidos e aumentava cada vez mais a distância que separava os países ricos dos pobres. Assim, descobrimos que as velhas ilusões nãò tinham fundamento. A causa essencial do descrédito da história consiste no fato de que as profecias que se baseavam nessa concepção linear do progresso falharam. "Um dos maiores perigos de tirar lições da história - afirmou-se - é que estas lições resultam ilusórias, ou inteiramente equivocadas, quando aplicadas a novas e diferentes circunstâncias." Esta opinião adquire especial valor porque procede de um homem que fala, não a partir da teorização livresca dos professores universitários e sim, a partir da experiência de uma instituição tão dedicada a tentar modificar o curso da história como é a CIA.10 Eugênio Montale o disse melhor: "Que o futuro há de ser, indiscutivelmente, melhor que o passado e o presente é uma opinião que atravessou incólume a ilustração, o positivismo, o historicismo idealista e o marxismo (...). A história não o demonstra"." Os historiadores acadêmicos reagiram mal ante o desencanto. Em lugar de analisar criticamente seu modo de operar para descobrir onde ha9 De Bloch e de Childe, será falado em detalhes mais adiante. Sobre Carr, HASLAM, Jonatham. The vices of integrity. E. H. Carr, 1892-1982. London: Verso, 1999. 10 J. Kenneth McDonald, "chief historian" da CIA, em CULLATHER, Nick. Secret history. The CIA's classified account of its operation in Guatemala, 1952-1954. Stanford: Standford University Press, 1999. p. 6. 11 MONTALE, Eugénio. Trentadue variazioni. Milano: Libri Schetwiller, 1987. p. 49.

' viam falhado, limitaram-se a encurralar as interpretações que tinham servido para construir essa prospectiva, as declararam falsas e decidiram, em conseqüência, que o conhecimento do passado era socialmente inútil (an-" tes de dar um passo a mais e declará-lo impossível). Posteriormente, refugiaram-se no círculo fechado das próprias tribos, dedicando-se a jogos engenhosos irrelevantes ou a remoer velhos problemas epistemológicos insolúveis, isolando-se definitivamente da vida real em que a história continuava transcorrendo cada dia, apesar das ilusões daqueles que quiseram detê-la, enquanto o passado, melhor ou pior conhecido, marcava as ações cotidianas dos homens e das mulheres, conformava suas expectativas e lhes servia de pretexto para justificar atos de tanta transcendência como o voto ou a guerra.12 Isso ocorria ao mesmo tempo em que aqueles a quem definíramos como "subdesenvolvidos" descobriam a armadilha que havia na denominação, denunciavam o esquema histórico eurocêntrico em que se baseava o equívoco e propunham inaugurar um novo tipo de história que fosse válida para todos os povos da terra e que, ao mesmo tempo, realizasse o projeto frustrado de fazer que o fosse também para todos os grupos da socien dade: para todos os homens e todas as mulheres. . O abandono, por parte dos historiadores acadêmicos, de suas funções como orientadores, da opinião pública ocorreu no" momento em que, paradoxalmente, as próprias ciências naturais descobriram a importância da dimensão histórica: "O passado é a chave do presente, disse-nos um biólogo. Depreende-se disto que os organismos não podem antever

12 Um historiador de Haiti analisou o processo pelo qual os historiadores profissionais dos países desenvolvidos abandonaram gradualmente a preocupação de comunicar-se com o público e foram construindo o passado como um mundo diferente e estranho, que só eles podiam habitar. E nos alertou, ao mesmo tempo, a respeito dos limites deste jogo: "Na medida em que as diferentes crises de nosso tempo removem identidades, que acreditávamos firmemente estabelecidas ou que permaneciam silenciosas, nos aproximamos de um tempo em que os historiadoresprofissionais terão de comprometer-se mais claramente com o presente, se não quiserem que os políticos, os magnatas ou os líderes étnicos escrevam a história em Seu lugar" TROUILLOT, Michell-Rolph. Silencing the past. Power and the prodi,tction .of < history. Boston: Beacon Press, 1995. p. 152.

a pauta da mudança evolutiva: somente podem responder às contingências do'presente. E, como todos os organismos vivos estão simultânea e continuamente respondendo a essas contingências e, ao fazê-lo, mudam o meio em que vivem, para eles e para os demais, a mudança evolutiva não pode fazer outra coisa além de seguir um objetivo em contínua transformação e inerentemente imprevisível (...). Nada na biologia faz sentido, exceto à luz da história". Disso, deduzem-se conseqüências importantes: "Assim, para os humanos, como para todos os outros organismos viventes, o futuro é radicalmente imprevisível. Isto significa que temos a capacidade de construir nosso próprio futuro, mas em circunstâncias que não podemos escolher.13 Virar a costas para a história nesse momento é uma atitude suicida. Queiramos ou não, a história está presente em nosso contexto e é uma das fontes mais eficazes de convicção, de formação de opinião em matérias relativas à sociedade. As legitimações históricas estão por trás de grande parte dos conflitos políticos atuais, e não somente dos conflitos entre países, povos e etnias, mas daqueles que se produzem no próprio interior das sociedades de cada país (o racismo, por exemplo, tem muito mais a ver com a história do que com a biologia). Não podemos nos despreocupar da função social da história, por^ que o que está em jogo é demasiado transcendental. E, se é verdade que os velhos métodos falharam e que a confusão eclética que os substituiu pouco nos serve, nossa resposta não pode ser a de abandonar o campo, e, sim, a de nos esforçarmos para recuperar fundamentos teóricos è metodológicos sólidos que possibilitem ao nosso trabalho nos recolocar em contato com os problemas reais1 dos homens e mulheres do nosso mundo. E que nos levarão, conseqüentemente, a reiniciar o projeto, até hoje não realizado, de construir uma história de todos, capaz de combater com as armas da razão os preconceitos e a irracionalidade que dominam nossa sociedade. Uma história que nos devolva a vontade de planejar e construir ó futuf, .. 13 ROSE, Steven. Lifelines. Biology beyond determinism. New York: Oxford University Press, 1998. p. 309. Palavras que evocam o que, quase cento e cinqüenta anos antes, Marx tinha afirmado a partir do campo da história.

ro, agora que sabemos que é necessário participar ativamente na tarefa que não está determinada e depende de nós. François Jacob afirmou: "Somos uma terrível mescla de ácidos nucléicos e de recordações, de desejos e proteínas. O século que termina ocupou-se muito de ácidos nucléicos, proteínas. O que chega centrar-se-á nas lembranças e nos desejos. Saberá resolver estas questões?".14 Que o consiga ou não, dependerá em grande parte dos historiadores. Eles são os únicos que podem se ocupar da ciência das recordações, desde que consigam estar à altura da tarefa, deixando de lado as estéreis liturgias acadêmicas e pondo-se a criar as novas ferramentas teóricas, necessárias para analisar os problemas de uma realidade que não se encaixa nos velhos esquemas em que foram educados e que não têm nada a ver com òs sortilégios verbais com que se tem pretendido substituí-los. Algumas palavras finais a respeito deste livro. Na sua Origem está História: análise do passado e projeto social, escrito há quase vinte anos. Faz muito tempo que queria melhorá-lo e corrigi-lo, não somente porque nesses anos aprendi o suficiente para enriquecer sua base erudita, mas porque, nesse ínterim, o mundo mudou e, também, nossas perspectivas. Ao tentar essa revisão, descobri que tinha de fazer um livro inteiramente novo, que conservaria muito pouco do velho. A intenção deste é semelhante à do anterior, porém o conteúdo é diferente e as propostas tentam apresentar os problemas novamente, numa perspectiva que corresponda ao presente incerto erri que vivemos. Convém compreender, no entanto, que não escrevi este livro, que vai contra a corrente das modas deste tempo, para manter vivas as idéias do passado, mas para ajudar a construir as do futuro. O título, A história dos homens, expressa o ponto de partida; sua aspiração é ajudar na construção do que um dia haverá de se chamar, mais apropriadamente, A his-_ tória de todos. Josep Fontana

14 JACOB, François. El ratóti, la mosca y el Itombre. Barcelona: Crítica, 1998. p. 195.

Capítulo 1

A s ORIGENS: A HISTORIOGRAFIA DA ANTIGÜIDADE CLÁSSICA

Todas as comunidades humanas que permanecem ao longo do tempo constroem uma história que rememora os acontecimentos e as vitórias dos antepassados, desempenhando a função de uma genealogia coletiva. Os mitos históricos nascem justamente das incertezas e inseguranças dos primeiros estágios desta história. Nos povos que não conhecem a escrita, ou que a utilizam de forma limitada, a transmissão do passado compartilhado realiza-se, principalmente, através de uma épica oral: os poemas africanos dão notícias dos velhos impérios e de seus heróis; os dos vikings, dos reis e suas grandes navegações.1 As primeiras representações com intenção histórica que conservamos são as que figuravam nos templos e monumentos das civilizações do mundo antigo. As inscrições reais do Oriente Próximo e do Egito faraônito não estavam destinadas apenas a perpetuar a memória dos soberanos mas, também, a deserppenhar uma função de doutrinamento coletivo: a de recordar os fundamentos religiosos e profanos do sistema social vigente, identificado com a própria ordem do cosmos (o mito do dilúvio, suge' 1 JOHNSON, J. W.; HALE, T. A.; BELCHER, S. Oral epics from Africa. Bloomington: Indiana University Press, 1997; PAGE, R. I. Chronicles of the Vikings. London: British Museum Press, 1995; Carol Meyers em COOGAN, Michael D. (Ed.). The Oxford history of the biblical world. New York: Oxford University Press, 1998. p. 269.

rido ou não por inundações históricas, é encontrado normalmente em sociedades que compartilhavam o fato de ter a economia baseada na regulação social do aproveitamento dos rios), e o papel do monarca como defensor das vidas dos súditos, como mostram as cenas de triunfos militares contra inimigos estrangeiros, onde nunca falta a representação dos vencidos, normálmente de tamanho menor que os vencedores, para reforçar o sentido de sua inferioridade (diz-se que o grego Mikon foi Castigado por haver representado os persas do mesmo tamanho que os gregos numa pintura da batalha de Maratona). A Vitória dos gregos sobre os persas, por exemplo, foi comemorada muito mais através da construção de monumentos do que através de textos escritos, o que era lógico numa sociedade muito limitada na capacidade de ler, e as inscrições eram reservadas sobretudo para a preservação das leis. Em outro sentido, a colocação no foro romano de uma seqüência de estátuas de grandes homens, organizadas temporalmente, pretendia mostrar a continuidade natural da história de Roma desde Enéas até o império, idéia que haveria de ser reforçada pelo Index rerum gestarum de Augusto, tábuas de bronze com a relação de suas conquistas que, expostas em seu mausoléu, eram, também, uma espécie de mapa do império.2 As representações figurativas dos maias, que "explicavam a história tal qual os reis e nobres desejavam que seus súbitos a entendessem",3 desempenhavam a mesma função.

2 SOLLBERGER, Edmond. The Babylonian legend of the Flood. London: British Museum, 1971/3; MORRIS, Sarah P. Daidalos and the origins of Greek art. Princeton: Princeton University Press, 1995. p. 368, 288-295. Se examinarmos as inscrições gregas, veremos que, em contraste com as poucas que relatam acontecimentos históricos, como o mármore de Paras e á "crônica de Lindos", predominam os textos legais (BERTRAND, Jean-Marie. Inscriptions historiques grecques. Paris: Les Belles Lettres, 1992). MASCHIN, N. A. El principado de Augusto. Madrid: Akal, 1978. p. 310-315; sobre as,"Res gestae" de Augusto, NICOLET, Claude. L'invention du monde. Géographie et politique aux origines de L'Empire romain. Paris: Hachette, 1996. p. 28-39. Também a coluna de Trajano, erigida para comemorar as guerras dácias, foi qualificada como um "documento político" (ROSSI, Lino. Trajan's Column and the Dacian Wars. London: Thames and Hudson, 1971). 3 SCHELE, Linda; FREIDEL, David. A forest of kings. The untold story of the Ancient Maya. New York: William Morrow, 1990 (citação da p. 55); BROTHERSON, Gordon. La América indígena en su literatura: los livros del cuarto mundo. México:

Os inícios da história escrita vinculam-se à justificação do estado monárquico, pelo duplo caminho de destacar a origem sagrada e identificá-lo com o passado da comunidade. Os textos históricos mais antigos que se conhecem são as relações e as crônicas dos reis, como as guardadas pelos sacerdotes sumérios nos templos, que explicavam como a realeza desceu dos céus numa primeira etapa de reis divinos, seguida, depois do dilúvio, por uma segunda etapa de soberanos sobre-humanos - como Gilgamesh, quinto rer de Uruk, "dois terços deus e um terço homem", de quem os poetas cantariam proezas sobrenaturais - até chegar aos soberanos contemporâneos. Estes textos, dos quais o mais importante é a "Crônica da monarquia una" (também chamada "Relação suméria dos réis"), apresentavam uma sucessão contínua de soberanos únicos para uma época em que, na realidade, existiam diversas cidades-estado independentes, cada uma com a própria dinastia. Conseguiram isto, misturando diversas séries de monarquias locais com afinalidadede fazer remontar a um passado remoto a existência de um reino unificado que registrara, simplesmente, a passagem da capital de uma cidade a outra, até chegar, sem solução de continuidade, aos governantes que teriam mandado elaborar a relação. Com esta construção histórica, podia-se alcançar "a justificativa mítica do mundo nas formas atuais".4 Em todas as civilizações de que conservamos testemunhos escritos, encontramos textos históricos. No mundo mesopotâmio, existe uma série Fondo de Cultura Económica, 1997. p. 173-203. Pôde-se, assim, chegar à elaboração de uma crônica dos reis maias com suas histórias individuais (MARTIN, Simon; GRUBE, Nikolai. Chronicle of the Maya kings and queens. London: Thames and Hudson, 2000). 4 GLASSNER, Jean-Jacques, Chroniques mesopotamiennes. Paris: Les Belles Lettres, 1993 (sobre a "Crônica da monarquia una", p. 69-87); BOTTÉRO, Jean. L'épopée de Gilgamès. Paris: Gallimard, 1992; Poema de Gilgamesh. Ed. de F. Lara. Madrid: Tecnos, 1997/3; VAN SETERS, John. In search of history. Historiography in the ancient world and the origins of biblical history. New Haven: Yale University Press, 1983; LIVERANI, Mario. El antiguo oriente. Historia, sociedad y economia. Barcelona: Críti-, ca, 1995. p. 118-122,159-161 (citação da p. 160). Sobre o contexto histórico e os problemas de interpretação desta documentação, KUHRT, Amélie. The ancient Near East, c. 3000-330 BC. London: Routledge, 1997.2 v.

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deles, como ás denominadas Crônicas de Babilônia, supostamente derivadas dos diários sacerdotais, nos quais eram anotados os acontecimentos astronômicos e meteorológicos mais importantes, assim como notícias a respeito dos preços do mercado, do nível das águas dos rios e de diversas questões de interesse. Também, existem alguns anais assírios, a História sincrônica que relaciona os acontecimentos ocorridos na Assíria e na Babilônia durante os longos séculos em que viveram separadamente e que tem sido comparada com o Livro dos reis da Bíblia. Esta tradição manteve-se, ao menos até a época helenística, com os escribas incorporando os reis caldeus, persas e gregos nas velhas relações unificadas. A esta mesma tradição historiográfica, pertencem as inscrições reais - a idéia de que "o rei necessitava de uma inscrição que fizesse constar ao menos seu noíne e seus títulos" data do século XXVII antes de Cristo e continua sem interrupção até o período helenístico - como as da Pérsia aquemênida, redigidas freqüentemente em mais de uma língua, como reflexo da estrutura plural dp império. A mais importante delas é, certamente, a de Dario I em Bísotun ou Behistán, escrita em persa antigo, babilônio e elamita„ que nos fornece os títulos e a genealogia de Dario I, descreve os povos por ele submetidos e narra suas campanhas vitoriosas como vencedor de, onze revoltas. A historiografia hitita era do mesmo estilo e limitava-se a textos narrativos "oficiais": anais encomendados por diversos reis para lembrar suas conquistas e alguns textos biográficos; nada, entretanto, que se assemelhe à historiografia do mundo clássico greco-romano.5

5 VERBRÜGGHE, G. P.; WICKERSHAM, J. M. Berossos cmdManetho introduced and translated. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1996. Sobre a inscrição de Bisotun ou'Behistan, LECOQ, Pierre. Les inscriptions de la Perse achémenide. Paris: Gallimard, 1997. p. 83-96, com a tradução completa em p. 187-217. A citação que diz respeito à continuidade das inscrições é de VAN DE MIEROOP, Mare. Cuniform texts and writing of history. London: Routledge, 1999. p. 40. BUTTERFIELD, Herbert. The origins of histçry. London: Eyre Methuen, 1981. p. 23-79; HALLO, William W. Ortgins. The ancient Near Eastern background of some modern Western institutions^Leiden: Brill, 1996. p. 139-143; GRAYSON, A. K. Histories and historians of the Ancient Near East: Assyria and Babylonia. Orientalia, 49, p. 140-194, 1980. Sobre a historiografia hitita concordo com a opinião de BRYCE, Trevor. The kingdom of the hittites. Oxford: Clarendon Press, 1998. p. 424-425, contra a valori-

A história e o mito também estão indissoluvelmente unidos no antigo Egito, num processo que iria da analística* da pedra de Palermo (ca. 2350 a.C.) até as relações dos reis posteriores, como a do papiro de Turim, que introduz, nos tempos pré-dinásticos, um conjunto de deuses e soberanos míticos. Produziu-se, assim, uma "mitologização" da história, destinada a legitimar o soberano como mediador entre os deuses e os homçns. Um objetivo ainda mais imediatamente político é o das inscrições acompanhadas de representações gráficas, que tornavam o conteúdo acessível a um público que não sabia ler, como os denominados Anais de Tutmosis III (1490-1436 a.C.), que glorificam o faraó como defensor perante os invasores estrangeiros, ou as inscrições de Ramsés II no templo de Karnak e no Ramesseum, que apresentam uma grande vitória sobre os hititas o que, na realidade, foi uma paz firmada em pé de igualdade. Também possuem uma finalidade política, dirigida a um público mais restrito - o que é capaz de ler - , algumas das obras literárias egípcias mais conhecidas, como a famosa história de Sinuhé, as Advertências de um sábio egípcio e, especialmente, as Profecias de Nefertite, que denunciam os malefícios da subversão social em contraste com a paz que um soberano forte garante. Estas supostas profecias, feitas a Esnofru - um faraó da quarta dinastia que viveu seis ou sete séculos antes da época em que, na realidade, se escreveu, o texto - antecipavam uma época de calamidades em que os pobres enriqueceriam e os ricos terjam que mendigar, em que "os rios do Egito estariam secos" e o sol apenas brilharia, até que chegasse um rei do sul, de nome Anieni, que reuniria as duas coroas.

zação hiperbólica de KAMMENHUBER, Annelise. Die hethitische Geschichtschreibung. Saeculum IX, p. 136-155, 1958. Uma análise dos textos históricos hititas com fragmentos traduzidos em BERNABÉ, Alberto; ÁLVAREZ-PEDOSA, luan Antonio. Historia y leyes de los hititas. Textos Del Império atitiguo. El código. Madrid: Akal, 2000. Não cabe examinar aqui o valor destas fontes historiográficas nem as dificuldades que temos para conhecer, com elas, a "história dos de baixo". Sobre isto, Van de Mieroop, p. 86-105 (History from below) e 138-160 (Gender and Mesopotamian history) ou POLLOCK, Susan. Ancient Mesopotamia. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. p. 218-219. * Referente a anais. (N.T.)

Então "a gente do reino se alegrará e o homem bem nascido repetirá seu nome para sempre". Que a profecia fosse fabricada a posteriori para legitimar um usurpador como Amenemeres I, fundador da' XII dinastia, pode-se considerar anedótico. O importante é que todos estes textos correspondem a uma idéia legitimadora da monarquia: a suposição de que, nos momentos em que falta uma autoridade central vigorosa, a desordem se difunde pela sociedade e chega inclusive à própria natureza. A esta formulação corresponde a visão histórica que Heródoto escutou dos sacerdotes egípcios e que afirmava que, antes de existir uma monarquia centralizada, o Egito era um "terrenp pantanoso". Hoje sabemos que isto era falso: não houve este passado diluvial-pantanoso pré-monárquico; na verdade o sistema de canais de irrigação deve-sé mais à iniciativa local dos camponeses do que à gestão estatal, preocupada principalmente com construções, como as pirâmides, cujo objeto parece haver sido, sobretudo, a mobilização da força de trabalho com a finalidade de criar uma disciplina coletiva.6 Estas tradições historiográficas do Oriente Próximo, às quais é necessário acrescentar a de Israel, desenrolaram-se num mundo de elementos culturais compartilhados, que conforma também o substrato da cultura da Grécia clássica.7 Existem, no entanto, outras tradições indepen6 KEMP, Barry J. El antiguo Egipto. Anatomia de una civilización. Barcelona: Crítica, 1992. p. 29-43; MENDELSSOHN, Kurt. The riddle of the pyramids. London: Thames and Hudson, 1986/2. p. 152-153, 196-200; BAINES, John. Ahcient Egyptian concepts and uses of the past: 3rd to 2end millenium BC evidence. In: LAYTON, R. (Ed.). Who needs the past? indigenous values and archaeology. London: Routlédge, 1994. p. 131-149; VERBRUGGHE, G. P.; WICKERHAM, J. M. Berossos and • Manetho introduced and translated. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1996. p. 95-120; MANETÓN: Historia de Egipto. Madrid: Alianza, 1993; MORAN, W. L. The Amarna Letters. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1992. Os textos literários em Textes sacrês et textes profanes de Vancienne Egypte. Edição de Claire Lalouette. Paris: Gallimard/Unesco, 1984-1987. 2 v. e PARKINSON, R. B. (Ed.). The tale of Sinuhe and other ancient Egyptian poems, 1940-1640 B. C. Oxford: Clarendon Press, 1997. . 7 THOMPSON, Thomas L. The Bible in history. How writers create a past. London: Jonathan Cape, 1999, afirma que não se deve confundir os livros do Antigo testamento com um relato histórico. No mesmo sentido, na medida em que se re-

dentes como a da China, em que a história tinha um caráter didático e moralizador, cujo maior representante foi Sima Qian (145-85 a.C.), um funcionário da corte (responsável por fazer cálculos astronômicos para a regulação do calendário e, ao mesmo tempo, registrar os acontecimentos do estado), condenado à castração por ter defendido um general em desgraça. Continuando um trabalho iniciado pelo pai, Sima Qian escreveu o que se considera a maior obra da historiografia chinesa: Shiji ou Memórias históricas, uma espécie de história universal que começa nas origens míticas e se encerra aproximadamente no ano 100 a.C., estando dividida em cinco seções: os "anais básicos", as "tábuas cronológicas", os "tratados", as "casas dinásticas" e as "biografias". O livro, que unificava num relato organizado um conjunto inteiro de fontes relativas a diversos estados independentes com cronologias próprias, converter-se-ia em modelo permanente para o país - onde a maioria das histórias posteriores seriam obras oficiais que respeitavam o "princípio de ocultação apropriada" - embora sem exercer influência fora dele.8 Nossa ignorância das tradições historiográficas orientais deriva, em boa medida, da atitude dos colonizadores europeus, interessados ern negar fere concretamente ao livro de Êxodo, Redmount (em COOGAN, Michael D. (Ed.). The Oxford history of the biblical world. New York: Oxford University Press, 1998. p. 119). Não parece que seja tão simples, pelo menos para períodos ' posteriores como se vê no livro de Van Setters citado anteriormente ou nos trabalhos de Momigliano sobre as influências recebidas pela historiografia de Israel, como os textos reunidos em MOMIGLIANO, Arnaldo. Páginas hebraicas. Madrid: Mondadori, 1990. 8 BEASLEY, W. G.; PULLEYBLANK, E. G. (Ed.). Historians of China and Japan. London: Oxford University Press, 1961. Pulleyblank afirma que a da China é, junto à européia de origem greco-romana e à islâmica, uma das três grandes tradições históricas, "única pelo volume da produção e pela continuidade". Cito um trabalho incluído neste volume (Lien Sheng Yang, "The organization of Chinese official historiography", p. 44-59). QIAN, Sima. La fundació de I'imperi xinès. Edição de Dolors Folch. Barcelona: Empúries, 1991. JJma tentativa de análise comparativa no "Themes issue 35" de History and theory, 35, n. 3,1996: SCHNEIDER, A.; WEIGELIN-SCHWIEDRZIK, S. (Ed.). Chinese historiography in comparative perspective. HARDY, Grant. Worlds of bronze and bamboo. Sima Qian's conquest of history. New York: Columbia University Press, 1999, celebra o Shiji como uma obra diferente, e de alguma maneira superior à historiografia clássica européia.

a existência de uma história própria destes povos, para justificar melhor sua dominação, que era a que os conduziria à corrente do progresso e, portanto, à história propriamente dita. James Mill escreveu em 1818 que não havia obras históricas na literatura dos indianos "porque não tinham alcançado o ponto da maturidade intelectual que permite começar a entender o valor de registrar o passado como guia para o futuro" (negava-se aceitar que a sociedade hindu tivesse escolhido sua própria maneira de registrar o passado em genealogias, biografias de reis, crônicas de dinastias e de famílias dirigentes, etc.). Hegel acrescentaria que uma civilização de três mil anos, como a da Índia, "que não foi capaz de escrever a própria história é incapaz de evoluir culturalmente". Era evidente que os indianos precisavam tutela para sair da estagnação.9 No caso da historiografia grega, que a cultura européia considera como um iníciô absoluto e universal, é preciso levar em conta de que ela surgiu num contexto político muito diferente do das monarquias do Oriente, o das pequenas cidades-estado oligárquicas e mercantis, nascidas das derrotas das antigas monarquias locais e forjadas, posteriormente, na luta contra o império persa. Era lógico, portanto, que suas crônicas se preocupassem menos com as genealogias dos reis e mais com os acontecimentos concernentes aos cidadãos. Esta nova visão encontra raízes na mudança da consciência política que se produziu em algumas cidades-estado com a difusão de uma economia monetária, desde o século VII, e com a ruptura do equilíbrio social 9 A citaçao de Hegel é da A razão na história (que utilizo na tradução francesa publicada em Paris pela Union Générale d'Editions, 1965. p. 25). THAPAR, Romila. Time as a metaphor ofhistory:t early India. Delhi: Oxford University Press, 1996, e "La quête d'une tradition historique. L'Inde ancienne", em Annales, 53, n. 2, p. 347T359, mars/avril 1998. Os ingleses escreveram a história da Índia como uma parte da própria história britânica. Este tèma, ao qual voltaremos mais adiante, foi esplendidamente analisado por Ranajit Guha em Dominance without hegemony and its historiography. In: Subaltern studies, VI. Delhi: Oxford University Press, 1989. p. 210-309 - de onde retirei a citação de James Mill, p. 286. Uma boa análise das formas de história indiana pré-colonial encontra-se em ALI, Daud (Ed.). Invoking the past: the uses of history in South Asia. New Delhi: Oxford University Press, 1999, especialmente na terceira parte do volume.

existente, em detrimento da velha aristocracia da terra e a favor dos setores mais ligados às atividades marítimas e ao comércio (os tratados comerciais e a política democrática desenvolviam-se de forma conjunta no Ágora). Assim, as monarquias deram lugar às tiranias - numa época que assistiria o surgimento das primeiras teorias científicas e das convenções da arte arcaica - e, finalmente, às revoluções, que permitiram o estabelecimento de regimes democráticos, como aconteceu em Atenas cerca de 600 a.C. (democráticos, no sentido limitado em que os gregos compreendiam o termo: na Atenas do século IV a.C., tinham direitos políticos uns 30.000 homens, numa população de 150.000 habitantes, com no mínimo 30.000 escravos, tratados com sistemática brutalidade), j Mas os historiadores e dramaturgos gregos que, depois das guerras contra a Pérsia, elaboraram a imagem do bárbaro e a contraposição entre a liberdade grèga e o despotismo asiático, simplificaram demasiadamente a realidade. A história da Grécia era muito mais complexa e contraditória do que pensavam: estava mais ligada ao âmbito do Oriente Próximo do que queriam admitir, não registrando uma ascensão contínua ao apogeu clássico, mas sim um conjunto de etapas variadas e distintas, com características próprias. A evolução da cultura grega e da pólis havia iniciado mil anos antes do esplendor da Atenas de Péricles. Enquanto isso, o que costumamos chamar de "o mundo grego", corresponde a menos de dois séculos e os acontecimentos centrais que nos relatam Heródoto, Tucídides e Xenofonte - isto é, "a história grega" por excelência - abarcam pouco mais de 130 anos. A historiografia, da mesma forma que outras manifestações do "gênio grego", deve ser contemplada a partir das "estratégias deliberadas dos atenienses, destinadas a se distinguirem do resto dos estados gregos e do poderoso Oriente" (a aceitação desta sua visão por parte da Europa moderna é, em grande medida, conseqüência de seu próprio "espírito colonizador", ao qual convinha esta identificação com uma Grécia inventada contra os bárbaros).10 10 OSBORNE, Robin. Laformación de Grécia, 1200-479 a.C. Barcelona: Crítica, 1998; POURSAT, Jean Claude. La Grèce préclassique. Paris: Seuil, 1995 (citação das p. 7 e 149-151); MORRIS, Ian. An archaeology of equalities? The Greek city-states. In: NICHOLS, Débora L.; CHARLTON, Thomas H. (Ed.). The archaeology of city-sta-

O que dá um caráter novo e original ao tipo de história que começará a.ser elaborada na Grécia no século V a.C. é que não se trata meramente de uma crônica de acontecimentos do passado, mas de uma pesquisa "histórica" de fatos que tem a ver com o presente. Esta história nasceu na encruzilhada das influências de três tradições diferentes. Por um lado, a da poesia épica, concretamente a dos grandes poemas-históricos de Homero. O método expositivo dos historiadores gregos, com uma narração de acontecimentos em que os discursos diretos dos protagonistas são empregados para criar "um sentido de vivo imediatismo", são os mesmos que os utilizados nos poemas homéricos: a história é entendida como uma forma de recriação literária e não documental (os documentos escritos, além do mais, teriam sido insuficientes). A publicação, em 1992, de fragmentos do poema que Simônides dedicou à batalha de Platéia, e que parecem hates. Cross-cultural approaches. Washington: Smithsoniam Institution Press, 1997. p. 91-105; OBER, Josiah. The Athenian revolution. Essays on ancient greek democracy and political theory. Princeton: Princeton University Press, 1996; REDEN, Sitta von. Exchange in Ancient Greece. London: Duckword, 1995; MORRIS, Sarah P. Daidalos and the origins of Greek «ri (uma citação da p. 386); WEST, M. L. Early Greek philosophy and the Orient. Oxford: Clarendon Press, 1971; MOMIGLIANO, Arnaldo. Eastern elements in post-exilic Jewish, and Greek, historiography. In: . Essays in ancient and modern historiography. Oxford: Basil Blackwell, 1977. p. 25-35; WEST, M. L. The East face of Helicon. West asiatic elements in Greek poetry and myth. Oxford: Clarendon Press, 1997; HALL, Edith. Inventing the barbarian. Oxford: Clarendon Press, 1989; MEIER, Christian. The political art ofgreek tragedy. Cambridge: Polity Press, 1993; PELLING, Christopher (Ed.). Greek tragedy and the historian. Oxford: Claredon Press, 1997; BERNAL, M. Atenea negra. Barcelona: Crítica, 1993,1: La invention de la antigua Grecia, 1785-1985; II: The archeological and documentary evidence. London: Free Association, 1991 (as críticas a Bernal, especialmente por parte de Mary Lefkowitz, suscitaram um debate complexo); POTTS, D. T. Mesopotamian civilization. The material foundations. London: Athlone Press, 1997. p. 276-301; DOVER, K. J. (Ed.). Perceptions of the ancient greeks. Oxford: Blackwell, 1992; AMPOLO, Carmine. Stone greche. Laformazione delia moderna storiografia sugli antichi Greci. Torino: Einaudi, 1997; CAN- ' FORA,'Luciano. L'inizio delia storia secondo i greci. In: La storiografia greca. Milano: Bruno Mondadori, 1999. p. 26-43. Recentemente Peter Hunt, em Slaves, warfare and ideology in the greek historians. Cambridge: Cambridge University Press, 1998, mostrou o espírito elitista de certos historiadores gregos que falsificaram a realidade do escravismo.

ver influenciado Heródoto, mostra a relação existente entre a poesia e alguns textos históricos em prosa, dos quais se faziam leituras públicas fragmentadas, de modo que estavam mais destinados a serem escutados do que lidos. A segunda influência, da qual surge o próprio nome do gênero, é a dos primeirosfilósofosjônios. A palavra "história" deriva de um verbo que significa "explorar, descobrir" e se refere a uma prática de investigação sistemática aplicada pelos pensadores jônios, um século antes de Heródoto e de Tucídides, ao estudo da natureza (de onde procede a idéia de uma "história natural", como a "historia animalium" de Aristóteles). A terceira, finalmente, é a tradição dos "logógrafos" da Ásia Menor, que recolheram a informação dos cadernos em que os marinheiros anotavam não somente os portos, mas também os povos das costas mediterrâneas, registrando observações a respeito dos costumes e da história local. O mais destacado deles foi Hecateo de Mileto (ca. 560-480 a.C.), que fez uma descrição da terra e uma genealogia ou mitografia, das quais se conservam apenas fragmentos citados por outros escritores. Sabemos que se propôs a analisar racionalmente os mitos do passado "porque as tradições dos gregos são diversas e, na minha opinião, ridículas", mas o féz de maneira elementar e primária (estava convencido, por outro lado, que sua família descendia de um deus). Seria só a partir do século V a.C. que se produziria o florescimento, quase simultâneo, de Heródoto e de Tucídides, com os quais a historiografia grega, paradoxalmente, nascerá e, ao mesmo tempo, alcançará seu ponto culminante." 11 Boas introduções ao estudo da historiografia grega: GRANT, Michael. Greek and Roman historians. Information and misinformation. London: Routledge, 1995; LUCE, T. J. The Greek historians. London: Routledge: 1997 (citação das p. 2-7); MOMIGLIANO, Arnaldo. La historiografia griega. Barcelona: Crítica, 1984; HORNBLOWER, Simon (Ed.). Greek historiography. Oxford: Clarendon Press, 1994; MAZZARINO, Santo. Ilpensiero storico clássico. Roma: Laterza, 1983.3 v.; BRUNET, Philippe. La naissance de la littérature dans Grèce ancienne. Paris: Livrairie Générale Française, 1997; PRESS, Gerald A. The development of the idea of history in antiquity. Kingston: McGill-Queen's University Press, 1982; MEISTER, Klaus. La storiografia greca. Roma: Laterza, 2000. Ao livro de Canfora, La storiografia greca, citado antes, uma compilação de trabalhos monográficos, é preciso acrescentar as interessantes precisões de Prima lezione di storia greca

Herpdoto de Halicarnaso (ca. 485 - ca. 424 a.C.) nasceu numa cidade da Ásia Menor que estava então sob o domínio dos persas. Sua História, uma denominação que aparece pela primeira vez como título de uma obra, começa com esta declaração de propósitos: "esta é a exposição dos resultados das investigações de Heródoto de Halicarnaso para evitar que com o tempo os atos humanos caiam no esquecimento". Era a obra mais extensa que até então se escrevera - devia preencher cerca de trinta rolos de papiro com uma longitude total de quase cem metros - e estava concebida sobretudo para ser lida em público e em voz alta. O propósito central era relatar os enfrentamentos entre os gregos e a Pérsia, da revolta Jônia à expedição de Xerxes (entre 500 e 480 a.C.), quando os gregos conseguiram derrotar o exército e a frota persas superiores: acontecimentos que Heródoto conservava de muita memória, posto que sua cidade natal viu-se envolvida na luta, e que relata com precisão - se deixarmos de lado o exagero nos números de combatentes e de navios persas - , baseando-se geralmente em testemunhos orais. No entanto, antes de chegar à descrição do conflito, è é isso o que o aproxima dos logógrafos, a História nos oferece uma descrição do mundo conhecido pelos gregos, baseada nos conhecimentos adquiridos nas viagens que Heródoto fizera ao Egito, à Fenícia e ao Mar Negro, e no diálogo com viajantes que tinham inclusive ido mais longe: As descrições de países e costumes são vivas e inteligentes. Quando explica o que lhe contaram, o faz com prudência, oferecendo as diferentes versões existentes, no caso de haver mais de uma, com a finalidade de escolher a mais razoável, e racionaliza fre-

(Roma: Laterza, 2000), do mesmo autor. Tomo algumas idéias essenciais de BAURAIN, Claude. Les grecs et la Méditerranée orientale. Paris: PUF, 1997. p. 537-544. Sobre a mitografia, teogonia, genealogia e história, GRAF, Fritz. Greek mithology. An introduction. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1993. p. 121-141 e GANTZ, Timothy. Early Greek myth. A guide to literary and artistic sources. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1993. Há uma interessante compilação dos prefácios e textos "teóricos" dos historiadores gregos e romanos em versão bilíngüe, em HARTOG, François; CASEVITZ, Michel. L'histoire d'Homère à Augustin. Préfaces des historiens et textes sur l'histoire. Paris: Seuil, 1999.

qüentemente os acontecimentos fantasiosos. A investigação arqueológica das últimas décadas teni reivindicado o valor de muitas das informações que nos fornece, contra as acusações de credulidade. Embora manifeste que não quer falar a respeito de "questões divinas", não faltam na obra referências à providência e uma especial atenção às profecias dos oráculos, ao lado de descrições detalhadas e respeitosas das crenças e rituais de outros povos. A contraposição despotismo oriental versus democracia grega, que aparece como base do sentido de coletividade e que fornece aos cidadãos a vontade de resistir aos agressores externos, deve ser compreendida em relação à estabilidade das instituições conhecidas e aceitas - o que é contrário à arbitrariedade do déspota - mais que em relação à liberdade individual como hoje a entendemos, e vale tanto para a Atenas democrática quanto para o regime despótico, mas submetido a leis, de Esparta. Hoje valorizamos em Heródoto a amplitude da concepção que inclui na história a totalidade da atividade humana, a preocupação antropológica e o interesse pela cultura de outros povos, que levou Creuzer a comparar, em 1798, Heródoto, "historiador da humanidade" a Tucídides, um localista, o que explica que Murray nos diga hoje que Heródoto "é mais moderno que nenhum outro historiador antigo na aproximação ao ideal de uma história total". No entanto, de certo modo, esta valorização torna-se anacrônica, já que Heródoto está a meio caminho, entre Hecateo, cuja obra cita em diversas ocasiões, e o tipo de história mais política que se fará a partir de Tucídides, de uma natureza muito diferente, e gostemos ou não, mais "moderna".12

12 Os principais textos de Heródoto aqui utilizados são I, proêmio (definição da obra), 140 (conhecimento dos persas), II, 3-4 (conversações com os sacerdotes egípcios), 65 (sobre as questões divinas), III, 9, 85-87,169 e ss. IV, 5-15, VI, 5155, etc. (seleção da versão mais lógica entre as diversas que foram recebidas), IV, 59-82 (descrição dos escitas), V, 78 i 92, VIII, 143, etc. (elogio da democracia e denegação da tirania), VI, 111-117 (descrição objetiva da batalha de Maratona) VI, 137 (uma citação de Hecateo) e IX, 62 (inferioridade do armamento persa). Recorri a HOW, W. W.; WELLS, ]. A Commentary ott Herodotus. Oxford: Clarendon Press, 1967 (a edição original é de 1912), 2 v. (I, p. 24-27, 32-33,46, 325, sobre as possíveis viagens de Heródoto às regiões pônticas, 411-414 sobre as viagens ào Egito, etc); CREUZER, Friedrich. Erodoto e Tucidide. Palermo: Sèllerio, 1994 (ed.

Capítub 1

O ateniense Tucídides (ca. 460 - ca. 400 a.C.), era uns vinte e cinco anos mais novo do que Heródoto e pertencia a uma rica família aristocrática de origem trácia. Em 431, ao iniciar a guerra entre Atenas e Espàrta, que duraria até 404, começou a escrever sua história, que deixaria, inacabada, no livro oitavo, em que narra os acontecimentos do verão de 411. Foi eleito general em 424 e as biografias tradicionais dizem que fracassou no intuito de evitar a queda de Amfipolis, pelo que foi condenado a viver no exílio durante vinte anos; pôde assim viajar e contrastar as circunstâncias

Original 1798); FORNARA, Charles W. Herodotus. As interpretative essay. Oxford: Claredon Press, 1971; HART, John. Herodotus and Greek history. London: Croom Helm, 1982 (com um bom esquema biográfico em p. 158-180); PAYEN, Pascal. Les îles nomades.-Conquérir et résister dans l'Enquête d'Herodote. Paris: EHESS, 1997 (que faz uma original valorização da estrutura e do sentido da obra "que tem incomodado à tribo dos historiadores", antigos e modernos); WATERS, K. H. Heródoto el historiador. México: Fondo de Cultura Económica, 1996 (p. 138-150 sobre seus erros e lacunas); EVANS, J. A. S. Herodotus explorer of the past. Three essays. Princeton: Princeton University Press, 1991 (sobre a utilização de fontes orais, p. 89-146), e, sobretudo, LATEINER, Donald. The historical method of Herodotus. Toronto: University of Toronto Press, 1989 (sobre seu método crítico, p. 59-108; sobre as idéias de política, o "debate constitucional" e a isonomia, p. 163186; as citações de Hecateo por Heródoto, p. 104, ètc.). Sobre as idéias religiosas, GOULD, John. Herodotus on religion. In: Greek historiography. Editey by Simon Hornblower. Oxford: Clarendon Press; New York: Oxford UP, 1994! p. 91-106. Sobre a confiabilidade das descrições dos monumentos egípcios, LLOYD, A. B, Herodotus on Egyptian buildings. A test case. In: POWELL, A. (Ed.). The greek world. London: Routledge, 1995. p. 273-300. Em relação aos povos asiáticos, ASCHERSON, Neal. Black Sea. London: Jonathan Cape,, 1995, passim. Essenciais para sua revalorização tem sido HARTOG, François. La miroir d'Hérodote. Essai sur la representatio de l'autre. Paris: Gallimard, 1980 e MOMIGLIANO, A. D. El lugar de Heródoto en la historia de la historiografia. In: CANFORA, Luciano. La storiografia greca. Milano: Bruno Mondadori, 1999. p. 134-150. Paulo Butti de Lima, em L'inchiesta e la prova. Immagine storiografica, pratica giudizaria e retórica nella Grécia classica. Torino: Einaudi, 1996, relaciona as formas em que Heródoto e Tucídides manifestam a veracidade do que escrevem com a prática dos juízos em Atenas, em que não se efetuava uma investigação e acusação públicas - os membros do júri eram chamados a decidir sobre a credibilidade dos testemunhos apresentados. Heródoto adotaria esta prática com a exposição de versõds diversas em que escolhe a mais verossímil; Tucídides limitou-se a fazê-lo na parte programática com que inicia sua obra.

da guerra vista da ótica do outro lado. Lúciano Canfora, no entanto, sugeriu uma interpretação diferente da vida de Tucídides, na qual é apresentado como implicado num fracassado golpe de estado oligárquico efetuado em Atenas em 411. Não sabemos quando morreu exatamente, nem se isto aconteceu em Atenas ou na Trácia, onde se encontravam as minas de que provinha sua fortuna. Sua História da guerra do Peloponeso (título atribuído posteriormente) é um livro muito diferente do de Heródoto, pois se concentra no presente e nos assuntos internos dos gregos (mostrando, por outro lado, muito menos entusiasmo pelas instituições da democracia de Atenas). O primeiro livro contém uma explicação do método empregado e uma "arqueologia" ou resenha da história da Grécia até as guerras médicas (destinada a demonstrar que todas as guerras anteriores, como a de Tróia, foram muito menos importantes que a que se propõe relatàr, pois os recursos disponíveis para realizá-las eram muito menos abundantes no passado), concluindo com o estudo das causas do conflito entre Atenas e Esparta. Do segundo livro ao quinto, narra a história da guerra ano-a ano até a paz de Nícias e, do quinto ao último, os tempos de uma paz instável e a expedição à Sicília, até o retorno às hostilidades em 411. Entre as limitações, cabe salientar uma estreita visão localista frente ao universalismo de Heródoto e o fato de que se restringe a tempos mais imediatos. Entre as virtudes, a pretensão de exatidão - que o leva a afirmar que: "no que diz respeito aos acontecimentos que tiveram lugar na guerra, não me parece oportuno descrevê-los a partir das informações de qualquer um, riem sequer guiando-me pela minha opinião, mas, relatei as coisas em que estive presente ou sobre as quais interroguei a outros com todo o rigor possível"-, o caráter laico das explicações, das quais se eliminaram qualquer atribuição à providência e, sobretudo, o "realismo" político, que o leva a expor, pela fala dos protagonistas, a convicção de que o êxito da guerra depende dos recúrsos econômicos acumulados (em afirmações que atribui a Péricles) ou a lógica do imperialismo, expressa cruamente pelos atenienses na Conferência de Meios, onde afirmam que "a questão da justiça se estabelece entre duas forças iguais; caso contrário, os mais poderosos fazem o que. suas forças lhe permitem e os mais débeis cedem". Este realisnlo chega ao extremo nos livros sexto e sétimo (o sétimo seria, segundo Macau-

lay, "o non plus ultra das artes humanas"), onde relata a trágica expedição dos atenienses à Sicília e denuncia as incompetências e as traições que levaram ao desastre final, narrado com inegável grandeza. As virtudes e defeitos de Tucídides, do ponto de vista da concepção atual da história, devem ser compreendidos de outra perspectiva, ou seja, a de seu tempo, que considerava a história como instrumento de análise da realidade vivida. O tempo recente era, por um lado, o único em que o historiadòr poderia utilizar sua condição de testemunha presente - "autópsia" - como critério de veracidade, mas, também, aquele em que eram apresentados os problemas que interessavam realmente aos leitores. A historiografia greco-latina é fundamentalmente "história contemporânea", embora isto nos tenha sido ocultado pela perda da parte mais "moderna" dos textos, como acontece com ás obras de Políbio, Tito Lívio ou Tácito. Esta é, talvez, uma das razões que explicam porque foi Tucídides, e não Heródoto, o historiador que os gregos tomaram como modelo á seguir, "e as opções que adotou foram aceitas como leis". São outras, no entanto, as razões de seu êxito "moderno": no século XIX, Tucídides tornava-se a leitura ideal para as sociedades imperialistas, oferecendo-lhes a legitimação do uso da força sobre os mais fracos em nome das leis da natureza humana, que podiam mascarar-se, se isto lhes convinha, com as supostas necessidades da civilização.13 13 HORNBLOWER, Simon. Thucydides. London: Duckworth, 1987; Narratology and narrative techniques in Thucydides. In: Greek historiography. Edited by Simon Hornblower. Oxford; Clarendon Press; New York: Oxford UP, 1994. p. 131-166, e A commentary on Thucydides. Oxford: Clarendon Press, 1991,1: Books I-III; II: Books IV-V.24, 1996. CANFORA, Luciano. Tucidides, I'oligarca imperfetto. Roma: Riuniti, 1988 (citação da p. 115) e CRANE, Gregory. The blinded eye. Thucydides and the new written Word. Lanham: Rowman and Littlefield, 1996; PROCTOR, Dennis. The experience of Thucydides. Warminster: Aris 8c Phillips, ca. 1980. Sobre suas idéias politicas, ROBERTS, Jennifer Tolbert. Athens on trial. The antidemocratic tradition in western thought. Princeton: Princeton University Press, 1994. p. 5458, passim. As citações da Historia de la guerra del Peloponeso correspondem a 119 ("arqueologia" das guerras), I 20-22 (sobre o método, com considerações a respeito dos discursos que Hornblower - A comentary I. p. 59 - considera excepcionais pelo realismo), I 76 (imperialismo), I 141 (a guerra, segundo Péricles), V 84114 (a conferência de Meios) e VII 72-86 (o desastre de Sicília). Sobre a falsifica-

O mais conhecido dos muitos discípulos de Tucídidçs é Xenofonte (ca. 430 - ca. 356 a.C.), que escreveu a respeito das mais diferentes jtna-. térias, mas tem um interesse limitado como historiador. Nascido em Atenas, de família distinta, foi discípulo de Sócrates e participou dos últimos momentos da guerra do Peloponeso, lutando na cavalaria. De idéias políticas conservadoras e como não se sentia à vontade numa Atenas que retornara à democracia, abandonou a Grécia em 401 a.C., para unir-se com um grupo de soldados desocupados ao exército mercenário que lutaria a favor de Ciro, o Jovem, quando este disputava o trono da Pérsia com seu irmão maior, Artaxerxes II. Õ pretendente morreu logo e a Anábãsis, o relato que Xenofonte fez da longa e difícil retirada dos dez mil mercenários que regressaram ao país depois de üm ano e três meses, converteu-se ha sua obra mais famosa e uma das mais lidas da antiguidade. Trata-se de uma narração vivenciada, de uma aventura em que o autor tem a virtude, segundo afirmou Italo Calvino, de não nos ocultar que está "à frente de uma horda de saqueadores em terra estrangeira e que a razão não está de seu lado e, sim, dos bárbaros invadidos". Continuou lutando como mercenário em outras campanhas a serviço dos espartanos, enquanto os atenienses o desterravam e confiscavam seus bens; somente ao final da vida, revogado o exílio, pôde voltar à cidade natal. Na biografia que Diógenes Laércio lhe dedica, Xenofonte é apresentado como um homem excelente, ficcionado aos cavalos e à caça - dois temas aos quais dediçou vastos tratados - , hábil na tática, "piedoso, amigo dos sacrifícios e especialista em interpretar os presságios das vítimas, que fez de Sócrates o modelo exato". Conserva-se dele extensa obra - o que explica por que seus livrçjs foram utilizados, desde a época romanà, para a aprendi-

ção dos fatos por parte de Tucídides, Santo Mezzarino, Ilpensiero storico clássico I, p. 247 e 253-257. A evolução do destino de Tucídides como mestre de historiadores em Momigliano, "Historiography on written tradition and historiography on oral tradition", em Studies in Historiography, p. 211-220. Sobre a história como "história contemporânea", MARINCOLA, John. Authority and tradition in ancient historiography. Cambridge: Cambridge University Press, 1997, capítulo II, "The historian's inquiry". A reinterpretação biográfica citada em CANFORAÍ Luciano. II mistero Tucidide. Milano: Adelphi, 1999.

zagem da língua grega - que teve uma influência desproporcional em relação ao mérito. A Ciropedia, que alguns qualificaram como a "primeira novela histórica", interessou muito aos governantes europeus da época do absolutismo pelás reflexões a respeito da natureza do poder e sobre sua técnica, pois Xenofonte argumenta que "governar os homens não figura entre as coisas impossíveis nem difíceis, quando se sabe.fazer". O Econômico é uma rara fonte sobre a vida econômica e social de Atenas, em especial sobre a gestão doméstica, sobre a família e o matrimônio (aspecto què influenciou Luís Vives). Entretanto, sua obra propriamente histórica, as Helénicas, em que pretende continuar Tucídides - o livro começa dizendo simplesmente "Alguns dias depois daquilo...", com o propósito de retomar desta maneira o final da obra do predecessor - e relatar os acontecimentos ocorridos entre 411-362 a.C., é pouco considerada e tem sido comparada desfavoravelmente com os escassos fragmentos que se conservam de outro continuador de Tucídides, a do chamado historiador de Oxirrinco (devido ao lugar do Egito em que foi descoberto o primeiro fragmento da obra). Enquanto a primeira parte das Helénicas dedica-se aos anos finais da guerra do Peloponeso, o resto nos fala de uma época turbulenta que viu a ascensão e a queda de Esparta, culminando na Batalha de Mantinéia e com uma afirmação de relevante significado: "No entanto, houve ainda mais confusão e desordem na Grécia depois da batalha do que antes".14 14 Os estudos básicos que foram utilizados são: DILLERY, John. Xenophon and the history of his times. London: Routledge, 1995; POMEROY, Sara B. Xenophon Oeconomicus. A social and historical commentary. Oxford: Clarendon, 1995; TATÜM, James. Xenophon's imperial fiction. On "The education of Cyrus". Princeton: Princeton University Press, 1989, e Santo Mazzarino, II pensiero historico classicti, p. 343-390 (sobre as Helénicas, I, p. 343-364; sobre o historiador de Oxyrrinco, p. _ 346-349). A citação é de Ciropedia, I, e 1,3; Diógenes Laércio, Vidas defilósofos,II, 56 e Helénicas, Vil, 5, 27. A frase de Italo Calvino procede de sua introdução da edição bilíngüe àa Anábasis. Milano: Rizzoli, 1989/5. p. 9. Sobre a identificação do historiador de Oxyrrinco com Teopompo, Momigliano, La historiografia griega, p. 168-194. Segundo Canfora (II mistério Tucidide, p. 84) os livros I e II das Helénicas, que se dedicam aos anos 410-404, seriam em realidade uma cópia dos rascunhos deixados por Tucídides (também Canfora, L'esordio dette Elleniche em La storiografia greca, p. 165-184).

Eram tempos de crise que conduziriam muitos setores da sociedade grega ao desprezo das formas democráticas e a um conjunto de reflexões sobre as diversas "constituições" gregas,15 das quais nasceria a ciência poli tica, junto às grandes tentativas de generalização que representam obras como A política de Aristóteles (384-322 a.C.) e A república é As leis de Platão (427-347 a.C.) - onde é elaborada a tipologia das formas de governo que Políbio posteriormente desenvolverá - e, numa segunda etapa, com a obra dos sofistas, que introduzirão uma visão mais objetiva da realidade social - condenada por Platão com o argumento de que "não ensinam mais do que os mesmos princípios que o vulgo expressa em suas reuniões" - , como Trasímaco (ca. 460-400 a.C.), que sustentava que a justiça não é outra coisa que o interesse dós mais fortes codificado em leis: "o que é justo é igual em todas partes: a conveniência do mais forte". Homens cuja obra não pode reduzir-se ao uso da retórica, mas que "foram, sem pretendê-lo, osfilósofosda história de sua época".16 A historiografia grega dos dois séculos que vão de Xenofonte a Políbio, pode-se dizer que nos é desconhecida, já que os textos se perderam e somente restou "um campo de ruínas", constituído de fragmentos citados por autores posteriores (os publicados por Jacoby pertencem a 856 historiadores diferentes). Destes historiadores perdidos, conhecemos pouco mais do que as opiniões que os autores do passado nos deixaram sobre a qualidade de alguns deles, como os dois grandes discípulos do retórico Isócrates, Éforo (ca. 405-330 a.C.), que escreveu uma obra de trinta livros considerada por Políbio como a primeira visão universal da história, e Teopompo de Quíos (nascido em ca. 380) que escreveu Hellenica, continuando o relato de Tucídides, e Philippica, onde narrava os episódios de Felipe II da Macedónia (359-336), um livro permeado de digressões, insólitas porque critica duramente os costumes e a conduta do pai de Alexan15 Como a "Constituição de Atenas" do "velho oligarca", um texto antidemocrático erroneamente atribuído a Xenofonte, a "Constituição de Atenas" atribuída a Aristóteles (mas é obra possivelmente de um discípulo) e a "Constituição dos espartanos" de Xenofonte. 16 As citações1 sobre os sofistas são de Platão, Republica, 493 a) e 339 a) e de UNTERSTEINER, Mario. I sofisti. Milano: Bruno Mondadori, 1996. p. 574.

dre Magno, considerado por muitos como o que deveria ser a mais interessante das obras perdidas do período. De estilQ diferente era o siciliano Timeo (ca. 350 - 260 a.C.), o mais importante dos historiadores gregos dó ocidente, que se caracterizaya pejo afã de erudição - Políbio desprezava-o como rato de biblioteca, obcecado pelo detalhe e incapaz de olhar o mundo e ocupar-se dos grandes problemas - e que estabeleceu o cômputo cronológico por olimpíadas. Para completar o quadro, devemos acrescentar o conjunto dos cronistas de Alexandre (Calístenes, Anaxímenes, Aristóbulo, Ptolomeu, etc.) e as obras da chamada "história trágica" que acentuava os efeitos dramáticos da narração e recorria às fabulas e aos elementos fantasiosos para conquistar um público leitor mais extenso.17 O primeiro nome que aparece depois deste período é o de Políbio (ca. 208 - ca. 118 a.C.), que escreveu sobre Roma e para os romanos, embora ofizesseem língua grega. Nascido em Megalópolis, e membro de família abastada, lutou como hiparca ou chefe de cavalaria com a Liga Acaiana em 170, até que, depois da derrota de Perseu no Pydna, quando caiu o poder macedónio, foi um dos mil reféns deportados para Roma. Estabeleceu amizade com o jovem Cipião Emiliano, converteu-se em seu conselheiro e o acompanhou na Espanha, Gália e África, de modo que se encontrava junto a ele no momento da destruição de Cartago. Sua familiaridade com os dirigentes e com a política de Roma proporcionou-lhe uma 17 A respeito dos historiadores deste período - dos quais temos pouco mais que os fragmentos publicados por F. Jacoby em Die Fragmente der griechischen Historiker (Berlin 1923-1958) - Klaus Meister, La storiografia greca que dedica maior parte de seu livro a "La historiografia griega em la edad helenística (ca. 330-30 a.C.)"; FLOWER, Michael Attyah. Theopompus of Chios. History and rethoric in the fourth century B. C. Oxford: Clarendon University Press, 1997; Santo Mazzarino, II pensiero storico clássico, I, p. 331-472, Luce, Greek historians, p. 105-122; Canfora, "Tra Cratippo e Teopompo", em La storiografia greca, p. 223-262 (e "Phatos e storiografia "drammatica", id. p. 44-60). A respeito dos historiadores de Alexandre, BOSWORTH, A. B. Conquest and empire. The reign of Alexander the great. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. p. 295-300. Sobre a retórica, KENNEDY, G. A. Anew history of classical rethoric. Princeton: Princeton University Press, 1994. p. 81-102. CABANES, Pierre. Le monde hellenistique, de la mort d'Alexandre à la paix d'Apamée. Paris: Seuil, 1995. p. 176-180.

experiência que completou viajando, com a finalidade de visitar campos de batalha e entrevistar os sobreviventes dos fatos que queria relatar, ao mesmo tempo que consultava documentos epigráficòs ou arquivos. A obra fundamental de Políbio é sua História, de cujos quarenta livros conservam-se os cinco primeiros completos, longos extratos do VI ao XVIII e fragmentos dos outros. Seu propósito era escrever uma espécie de história universal que explicasse "o como, quando e o porquê da sujeição de todas as partes conhecidas do mundo ao domínio dos romanos". Isto o levaria, em primeiro lugar, a considerar o problema da causalidade. Se estabelecer as causas de acontecimentos concretos e delimitadbs, como uma guerra determinada, era uma tarefa que estivera habitualmente ao alcance dos historiadores - e ele próprio nos propõe um método para investigar as causas das guerras - , a ambição de "esclarecer de maneira universal e sintética a marcha dos acontecimentos", como queria fazer na sua. obra, o obrigava a considerar globalmente o problema das formas de governo - ou seja, das "constituições"-, em relação ao êxito de Roma. Isto o levaria a um estudo destas formas que transportava à história os esquemas das análises políticas de Platão e de Aristóteles, os quais identificaram três formas que correspondiam à monarquia (governo de um), à aristocracia (governo de alguns), e à democracia (governo de todos), com suas correspondentes degenerescências de tirania, oligarquia e oclocracia. Políbio situaria estes elementos num esquema de evolução histórica cíclica 3 anaciclose*, que explicaria a passagem de umas a outras por causas sociais racionais, às quais seria necessário acrescentar, ainda, um elemento do acaso que poderia alterar a regularidade evolutiva. Políbio tem, para o leitor moderno, o interesse que lhe dá sua consciência da natureza da tarefa de historiador, definida num programa de história "pragmática" que compreende três componentes, que são também três etapas do trabalho: 1) estudo dos documentos, com afinalidadede estabelecer os fatos com veracidade, 2) investigação sóbre o terreno ("autópsia"), para estudar o cenário onde sucedeu aquilo que se relata (uma condição essencial para explicar as batalhas) e 3) conhecimento direto da? * Termo de origem grega: voltar em sentido inverso. (N.T.)

práticas políticas, sem o qual tornam-se pouco inteligíveis os acontecimentos. Afinalidadedeste método é ir além da simples narração dos fatos, em direção ao estabelecimento das causas, que é o que torna útil a história, "porque quando consideramos as analogias com nossas circunstâncias obtemos os meios e as bases para calcular o futuro e para aprender do passado o que necessitamos quando temos que atuar no presente com maior precaução ou com mais audácia".18 Depois de Políbio, entramos já no tempo da dominação romana, numa cultura onde se mescla o compromisso entre Roma e a nostalgia desligada do presente e destinada a expressar," em uma linguagem de estudada e arcaica pureza, os grandes acontecimentos de um passado gloriô-

18 Estes parágrafos foram redigidos a partir de uma leitura detida de Políbio, desenvolvida mais amplamente em "Lectura de Polibio por y para un profano", em Homenaje a Marcelo Vigil Pascual, Salamanca, Universidad, 1989, p. 291-301. As citações textuais são de III, 1,2; 1,4,2; XII, 25e, I; e I; e XII, 25b, 2-3. Utilizei principalmente WALBANK, F. W. A Historical Commentary on Polybius. New York: Oxford University Press, 1999. 3 v. (especialmente a introdução, I, p. 1-37) e PEDECH, Paul. La méthode historique de Polybe. Paris: Les Belles Lettres, 1964. Complementarmente, MUSTI, Domênico. Polibio e l'imperialismo romano. Napoli: Ligouri, 1978; CASAUBON, Isaac. Polibio. Palermo: Sellerio, 1991; MOMIGLIANO, Arnaldo. The Historian's skin e Polybius Reappearance in Western Europe. In: . Essays in Ancient and Modern Historiography. Oxford: Basil Blackwell, 1977. p. 67-77 e'79-98, e Polybius and Posidonius, em WISDOM, Alien. The Limits ofHellenization. Cambridge: Cambridge UniversityPress, 1975. p. 2249; DEROW, Peter. Historical explanation: Polybius and his predecessors. In: Greek historiography. Edited by Simon Hornblower. Oxford: Claredon Press; New York: Oxford UP, 1994. p. 73-90; GENTILI, Bruno; CERRI, Giovanni. La teoria del discorso storico nel pensiero greco e la storiografia romana arcaica. Roma: Edizioni dell'Ateneo, 1975. p. 44. Sobre a exatidão das informações, LANCEL, Serge. Aníbal. Barcelona: Crítica, 1997. p. 38-40. Sobre a anaciclose, TROMPF, G. W. The idéia of historical recurrence in western thought. Berkeley: University of California Press, 1979. p. 4-115, matizando-o com Walbank, I, 16-26 (sobre o conceito de "tyche"*) e com Pedech, p. 308-317. Ignorado na idade média, Políbio foi redescoberto na Florença do Renascimento e exerceu uma grande influência em Leonardo Bruni e em Maquiavel. Tyche, do grego Tuklé, divindade do destino, da sorte, da fortuna, popular no século V a.C na Grécia. (N.T.)

so, que era tudo o que os romanos tinham deixado aos gregos como próprio. É a cultura de Diodoro de Sicília, que viveu no século I a.C., autor de uma Biblioteca histórica que relatava os acontecimentos "universais" começava com üm primeiro livro dedicado ao Egito e um segundo, à Ásia - dos tempos mitológicos ao ano 60 a.C., e que nos interessa, principalmente pelos textos perdidos que cita. O de Dionísio de Halicarnaso, também do século I a.C., autor de uma História antiga de Roma da qual sobrevivem os onze primeiros livros e alguns fragmentos dos nove restantes, que tinha como um dos objetivos fundamentais o de propor uma origem grega para Roma (ao mesmo tempo que afirmava que a grandeza desta era única, acima de todos os impérios conhecidos, o que a colocava fora do alcance das regras da anaciclose, que a condenariam a uma futura decadência). Dionísio apresenta seu livro como uma mistura dos diversos gêneros de história existentes "a fim de satisfazer tanto aos que se dedicam aos debates políticos, quanto aos que se interessam pela especulação filosófica e, inclusive, a todos aqueles que procuram um passatempo tranqüilo em suas leituras de história".19 Em tempos posteriores encontramos um conjunto de autores que escreveram em grego, mas que pertencem plenamente ao mundo romano (tanto Arriano como Plutarco, por exemplo, tiveram cargos políticos no império). Alguns deles nos interessam porque se ocupam de temas poucos conhecidos, como Arriano (ca. 86-160), autor de uma Anábasis de Alexandre, que tem um interesse especial pelo livro final sobre a índia, onde utiliza fontes perdidas, especialmente o relato da viagem de circuna19 Sobre Diodoro, TUERO, Jesús Lens (Ed.). Estúdios sobre Diodoro de Sicilia. Granada: Universidad de Granada, 1994; SACHS, Kenneth S. Diodorus and his sources; conformity and creativity. In: Greek historiography. Edited by Simon Hornblower. Oxford: Clarendon Press; New York: Oxford UP, 1994. p. 213-232; Meister, La storiografia greca, p. 205-218; a introdução de Jesús Lens na edição em curso da Biblioteca histórica. Madrid: Ediciones clásiças, 1995 e Canfora, "II fine delia storiografia secondo Diodoro", na La storiografia greca, p. 263-276; sobre Dionisio, a tradução de Historia antigua de Roma. Madrid: Grçdos, 19841988.2 v., (citá de 1,3 e 1,8,3), com uma introdução de Domingo Plácido, e, sobretudo, GABBA, Emilio .Dionysius and the History of archaic Rome. Berkeley: University of California Press, 1991.

vegação de Nearco do sul da Índia ao Tigre, ou como o judeu Flávio Josefo (37 - ca. 95), sacerdote e colaborador dos romanos, autor da Guerra dos Judeus, escrita primeiro em aramaico, e depois traduzida para o grego pelo mesmo autor, e de uma ambiciosa síntese, Antiguidades judias (ou Arqueologia judia), na qual se explica a história do povo judeu desde a criação (obedecendo, na primeira parte, ao relato da Bíblia) ao início da revolta do ano 66. Uma obra um tanto paradoxal, já que a escreve, em homenagem ao povo judeu, um homém considerado traidor pela conduta covarde que havia mostrado por ocasião da guerra contra os romanos.20 Uma obra de grande influência posterior sobre a cultura européia foi a de Plutarco (ca. 46-120) que, além de uma série die tratados sobre as mais diversas questões, compilados nos volumes chamados habitualmente Moralia, nós deixou uma ambiciosa série de vidas comparadas de estadistas e militares gregos e romanos, Vidas paralelas, das quais se conservam 50 biografias (23 "duplas" - por exemplo, das vidas de Alexandre e César ou Demóstenes e Cícero - e quatro avulsas). A obra de Plutarco, que retrata os personagens à margem do contexto, parece-nos hoje de escasso interesse histórico, exceto como fonte de informações pontuais procedentes de inúmeras leituras (menciona uns 250 escritores gregos, 80 dos quais só conhecemos pelas suas citações) ou colhidas pessoalmente, porém re20 Sobre Arriano utilizei os estudos introdutórios às edições da Anábasis de Antonio Bravo Garcia (Madrid: Gredos, 1982. 2 v.) e de P. A. Brunt, London: Loeb, 1976.2 v. e seus apêndices. Sobre JOSEFO, Flávio; THACKERAY, Henry St. John. Flavius Josèphe. L'homme et l'historien. Paris: Cerf, 2000 (atualizado por Etienne Nolet, que tem um interesse especial pelo seu apêndice sobre a versão em antigo eslavo da Guerra dos Judeus), HADAS-LEBEL, Mireille. Flavius Josephus. London: Maemillan, 1993. AKENSON, Donald H. Saint Saul. New York: Oxford University Press, 2000. p. 79 e 267-269. Uns dos motivos de interesse por Flávio Josefo foi o fato de que menciona os cristãos na Guerra dos Judeus (o que originou longas discussões em torno do texto, diferente, que conserva a versão em antigo eslavo) e que inclusive fala da morte e ressurreição de Jesus (Antigiiedades judias, XVIII, 63-64) mas hoje admite-se que neste fragmento há alguma interpolação cristã posterior. É interessante o relato que faz no livro XIX da morte de Calígula, baseando-se em fontes hoje perdidas (JOSEPHUS, Flavius. Death of an emperor. Tradução e comentários de T. P. Wiseman. Exeter, UK: University , of Exeter Press, 1991).

produzidas com pouco sentido crítico. Plutarco foi um autor muito lido, o que explica que tenhamos conservado tantas de suas obras. As traduções feitas duíante o Renascimento o converteram numa das fontes essenciais de conhecimento da antiguidade, amplamente utilizado por Montaigne, Shakespeare o Rousseau.21 Ao lado destes, no entantó, coexistia uma série de historiadores retóricos que se limitavam a realizar cópias dos velhos modelos, criticados de maneira sangrenta por Luciano (120-180) em Da maneira de escrever a história, onde zombava daqueles que reproduziam literalmente as expressões de Tucídides, mesmo que fora de contexto, como o cirurgião que acreditava estar apto para escrever história pelo fato de que "Esculápio era filho de Apolo e Apolo era o chefe das musas" ou o especialista da "ecfrasis" que dedicava um livro inteiro a descrever as inscrições do escudo do imperador nos mínimos detalhes do que estava nele representado. Sob a ironia, nos adverte Canfora, há em Luciano a defesa da objetividade contra a historiografia servil do tempo e uma clara atitude anti-romana.22 A história em língua grega não desapareceria então e mesmo, ressurgiria nos séculos III e IV sob a influência do que se denominou "a segunda sofística", com autores como Herodiano (s. III), "o historiador da crise", ou Eunápio de Sardes (ca. 345-420), que desprezava a cronologia dizendo: Que contribuição podem dar as datas à sabedoria de Sócrates oü à sagacidade de Temístocles?. Eram estes homens extraordinários somente no verão?" Mais importante é Dión Cássio (ca. 160 - p. 229), que teve uma carreira política "respeitável porém, não reconhecida" até os últimos anos de vida, quando alcançou cargos importantes, talvez por influência 21 Depois de ter sido menosprezado como um autor menor no século XIX, o interesse por Plutarco renovou-se no século XX. Uma reivindicação de seu valor como historiador em MOSSMAN, Judith (Ed.). Plutarch and his intellectual world. Lon7 don: Duckworth, 1997. 22 Luciano, De la manera de escribir la historia, citações: 15-19. Lembre-se ainda súa Historia verdadera, uma sátira de determinadas formas de narração romanceada que influenciaram também esta literatura histórica degradada^ LUCIANO, Canfora. Come si scrive la storia. In: . La storiografia greca. Milano: Bruno Mondadori, 1999. p. 290-326.

do senado. Sua História Romana em oitenta livros, que ia da chegada de Enéias à Itália ao ano 229 (embora descreva superficialmente os acontecimentos dos anos 222-229 "pelo fato de ter permanecido pouco tempo em Roma") a escreveu antes de sua ascensão, enquanto residia em Roma e podia contemplar com segurança as oscilações da política do império. Ele mesmo explica que passou dez anos coletando material e lendo tudo o que se havia escrito. Infelizmente Dión cai nos vícios da retórica, que o levam a deixar de lado os detalhes concretos para oferecer-nos descrições tópicas. Da obra nos chegou intacta aproximadamente uma terça parte os livros 36 a 60, que se referem ao período que vai do ano 69 a.C. a 46 de nossa Era - , com um conjunto de fragmentos dos primeiros 35 livros e resumos dos últimos vinte.23 A historiografia em língua latina nasceu aproximadamente no século II a.C. Mesmo que os sacerdotes se encarregassem de manter um registro dos acontecimentos do ano nas denominadas "crônicas pontifícias", reunidas posteriormente nos annales maximi, que davam uma seqüência de referências cronológicas, de nomeações de cônsules e de outros funcionários, de celebrações e acontecimentos notáveis, a história escrita começou de maneira diferente, com à intenção de não se assemelhar à analítica sacerdotal, como podemos observar em escassos fragmentos que se conservaram de Fábio Pictor (o primeiro que teria escrito um relato em prosa da história de Roma, mas que o fez em língua grega) Ou das Origens, de Catão, o Velho (234-149 a.C.), que seria o primeiro a escrever his23 Sobre a história da "segunda sofística", ANDERSON, Graham. The second sophistic. London: Routledge, 1993. p. 105-114 (citação de Eunápio na p. 109). Sobre Herodiano, CANFORA, Luciano. Érodiano storico delia crisi. In:. . La storiografia greca. Milano: Bruno Mondadori, 1999. p. 327-341. Para Dión Cássio utilizei a edição de CARY, E. Dio's Roman history. Cambridge, MA: Harvard University Press (Loeb Classical Library), 1970-1989. 9 v., o excelente estudo introdutório de M. L. Freybürger e J. M. Roddaz de sua tradução de Historie romaine. Livres 50 et 51. Paris: Les Belles Lettres (G. Budé), 1991 e, sobretudo, Fergus Millar, que ánalisa minuciosamente a obra, e nos diz que Dión não era um Políbio. Escrevia sem um enfoque histórico preciso, com a única pretensão de narrar, e não foi capaz de ver os "processos históricos fundamentais de seu tempo", o que o leva a concluir que "o resultado é decepcionante" (p. 171).

tória em latim. Mas, ainda que da maior parte das obras dos primeiros séculos da historiografia latina se conserve pouco mais que o nome e a lembrança, sabemos que careciam do fôlego e da profundidade dos velhos modelos gregos e não satisfaziam às necessidades da sociedade romana. Em Do orador, Cícero (106-43 a.C.) queixa-se da pouca densidade desta historiografia e estabelece um balanço das deficiências e um programa de renovação: "a natureza das coisas exige a ordem dos tempos, a descrição das regiões; e ainda quer que (...) nos fatos acontecidos declare-se não tão somente o que foi dito e feito, e sim de que forma, e ao mencionar os resultados, que se expliquem todas as causas, e se eles são o produto do acaso, do talento, ou da temeridade; e, nó que se refere aos personagens não apenas as ações, mas também a vida e o modo de ser de todos os que se destaquem pela fama e bõm nome".24 Pouco depois de escritas estas palavras, e num período de cento e cinqüenta anos, desenvolveram sua obra os maiores nomes da historiografia romana: Salústio, Tito Lívio e Tácito. Três nomes aos quais se poderiam acrescentar, por razões literárias, o de Júlio César, mesmo que sua obra seja de um intçresse histórico muito menor, e o de Curcio, autor da História de Alexandre Magno. Os Comentários de Júlio César (100-44 a.C.) sobre a "guerra das Gálias" e sobre a "guerra civil" contra Pompeu, são textos literariamente valiosos que interessam ao historiador como fonte de informação sobre a maneira de empreender uma campanha militar - deixando de lado as distorções e mentiras que sabe-

24 Uma excelente síntese da historiografia romana é a de MELLOR, Ronald. The Roman historians. London: Routledge, 1999; sobre as origens, p. 6-29. Ainda, WISEMAN; T. P. The origins of Roman historiography. In: . Historiography and imagination. Eight essays on Roman culture. Exeter: Exeter University Press, 1994. p. 1-22; Cicero Del Orador, II, 15,63 (Embora, segundo Wiseman, Cícero não fazia justiça aos primeiros historiadores romanos). FRIER, Bruce W. Libri annates Pontificum Maximorum: The origins of the annalistic tradition. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1999/2, diminui consideravelmente a importância das fontes analíticas e afirma que o que se conheceria como "Annates Maximi" é o resultado de uma edição feita nos tempos de Augusto.

mos estar neles contidas, e o fato de que dissimulam a brutalidade das campanhas - , porém não são importantes do ponto de vista do desenvolvimento da historiografia da época.25 O contrário sucede com Salústio (86 - ca. 35 a.C.), de quem se pode dizer que é o autêntico fundador da nova história romana: de um gênero escrito, como o faziam os grandes historiadores gregos, para defender pontos de vista políticos e sociais, no caso os do enfrentamento à supremacia política da aristocracia senatorial, para favorecer a passagem da república ao império. Salústio era partidário e aliado de César, que inclusive o nomeou governador de uma província da África do Norte, mas retirou-se da política aos quarenta e um anos, acusado de corrupção e com uma grande fortuna. Sua primeira obra, e a mais famosa, tratava de um assunto contemporâneo, a saber, A conjuração de Catilina. Nela, Salústio afirmava que a corrupção da república - com políticos que "lutavam todos pelo poder enquanto aparentavam buscar o bem público" - era a causa da crise social, dando a entender que Catilina havia encontrado cúmplices "numa cidade tão grande e corrupta". A explicação não deveria ser tão simples, pois teve que reconhecer mais adiantó que "a plebe apoiava totalmente" os conspiradores e que, apesar das incitações do senado, não houve ninguém que "revelasse algo sobre a conspiração nem que desertasse do campo de Catilina: tal era a virulência do mal que, como uma infecção, contagiara o ânimo de muitos cidadãos". O que Salústio pretendia com a obra era denunciar o perigo que representava a crise social da república, preparando o caminho para a solução pacificadora que ofereceria aos romanos, em troca da liberdade, o império, graças ao qual, como 25 A bibliografia sobre César é imensa. Convém destacar a biografia de CANFORA, ' Luciano. Giulio Cesare, II dittatore democrático. Roma: Laterza, 1999, especialmente pela análise de César escritor (p. 389-399) onde se estudam suas obras, apontase a existência de um diário de Estado Maior que lhe serviu de fonte e explica-se a' gênese do "A corpus cesariano". Sobre a enigmática pessoa de Quinto Curcio Rufo, um historiador dp século primeiro que não se pôde identificar, e sobre sua História, que é a única vida de Alexandre escrita em latim. BAYNHAM, Elizabeth. Alexander the Great. The unique history of Quintus Curtius. Ann Arbor: University of Michigam Press, 1998.

diria mais adiante Horácio, "não é preciso temer nem as comoções públicas nem a morte violenta". A segunda obra de Salústio, A guerra de Jugurta, referia-se a acontecimentos anteriores, mas tinha também, como objetivo principal, atacar a aristocracia senatorial que, corrompida neste caso pelo ouro de Jugurta que "estava firmemente convencido de que em Roma tudo se vendia" - , traiu os interesses do povo romano, sem outra oposição que a do tribuno da plebe, lembrando com esta ação que, desde a morte dos Graco, a aristocracia tinha mutilado os direitos dos cidadãos. Pouco sabemos, no entanto, da grande obra que iniciou posteriormente e que não foi concluída: umas Histórias que explicavam a evolução de Roma de 78 a 67 a.C., das quais só conservamos uma série de fragmentos.26 Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C.) seria o primeiro dos historiadores do Império. Nascido em Pádua, foi a Roma para escrever sua grande História de Roma desde a fundação, ("Ab urbe condita"), que relatava os acontecimentos romanos desde as origens míticas ao presente. Escreveu 142 livros desta obra - Marcial dizia que não tinha lugar na sua biblioteca para guardá-los todos - , dos quais se conservam trinta e cinco completos (do 1 ao 10 e do 21 ao 45, abrangendo desde o ano 753 ao 243 e do ano 210 ao 167 respectivamente), com fragmentos de outros e resumos da maioria dos perdidos (coisa explicável pelo fato de que a grande extensão da obra deu lúgar a que se fizessem muitos resumos para facilitar a leitura). Os dez primeiros livros dedicam-se às origens da cidade e do estado, partindo de materiais que ele mesmo reconhecia que tinham mais a ver "com as fábulas poéticas do que com uma rigorosa documentação históri26 LA PENNA, Antoni. Sallustio e la rivoluzione romana. Milano: Feltrinelli, 1973/3 e Aspetti delpensiero storico latino. Torino: Einaudi, 1978 (especialmente p. 43-104); MELLOR, Ronald. Roman historiam. London: Routledge, 1999. p. 30-47; YANGUAS, Narciso Santos. La concepáón de la historia en Salustio. Oviedo: Universidad, 1997 (que contém a tradução das obras menores: os fragmèntos das Histórias, as Cartas a César e as Invectivas), além da introdução de Lídia Storoni à edição bilíngüe de La conjuración de Catalina. Milano: Rizzoli, 1980. Faço citações desta obra que correspondem a XIV, XXVII e XXVIII, e de La Guerra de Yugurta, XXVIII. O discurso do tribuno da plebe em XXXI.

ca", mas racionalizando, na medida do possível, os mitos e explicando os acontecimentos com economia de meios e com uma constante intenção moralizadora e patriótica. A "terceira década", que compreende os livros do 21 ao 30, relata a segunda guerra púnica; a quarta, inicia-se no livro 31 com os antecedentes da segunda guerra macedônica (em 201 a.C.), e, em grande parte, é uma tradução adaptada de Políbio; o texto conservado termina no livro 45 com a vitória de Pydna e com os acontecimentos imediatamente posteriores (ano 167 a.C.). O que se conservou é, apesar das suas consideráveis dimensões ocupa 14 volumes na edição Loeb - , menos da quarta parte da obra original. A história de Lívio, uma exaltação à gloria de Roma, seria protegida por Augusto, pois integrava-se perfeitamente em seu programa político e cultural, que implicava a elaboração de uma interpretação histórica que explicasse a realidade política e social vigente como resultado natural da evolução de séculos. O texto de Lívio coincidia com a política de criação de uma consciência histórica que utilizava uma grande variedade de meios, da restauração de monumentos ao apoio dado à elaboração de um mito nacional com a Eneida de Virgílio. Lívio podia não ser um partidário de Augusto - foi acusado de mostrar-se favorável a Pompeu, o que talvez explique não ter publicado os últimos 22 livros de sua história até depois da morte do imperador - porém suas atitudes religiosas e patrióticas sintonizavam perfeitamente com "o clima reinante nos primeiros anos do principado de Augusto". A grande extensão da parte conservada da obra de Lívio e seu atrativo literário, especialmente pelo que se refere à primeira década, em que se narram as origens de Roma - que serviria a Maquiavel como pretexto para estudar os fundamentos da construção de um estadq podem explicar què se tenha convertido em obra básica da reflexão humanística e se tenha podido afirmar que Lívio é "o historiador mais conhecido de todos os tempos", o que não impede que seu crédito ná atualidade seja bem inferior se comparado com Políbio ou Tácito. Lívio era um homem que não apresentava as condições que Políbio exigia para üm historiador: com uma educação provinciana, escasso conhecimento do mundo e nenhum da política ou da dimensão militar, escreveu baseando-se em fon-

tes livrescas que nem sempre compreendeu, de maneira que cometeu freqüentes erros. Mesmo assim, a qualidade literária na descrição dos acontecimentos dramáticos e heróicos - como, por exemplo, a passagem de Aníbal através dos Alpes, com uma narrativa tão emocionante quanto imprecisa em detalhes geográficos - e a coerência com que expressa a ideolbgia do império o tornam uma referência iniludível. Sem esquecer que, apesar das deficiências, continua sendo, segundo afirma üma obra recente," de longe, a mais importante das fontes que se conservam sobre as origens de Roma".27 Mais valorizado do que Tito Lívio na atualidade e considerado como "o maior historiador de Roma", é Tácito (ca. 55 - ca. 117), de cuja vida sabemos pouco, embora conste que pertencia a uma família aristocrática, e que ocupou cargos importantes na administração, até chegar a procônsul da Ásia, mas que teve que viver nos tempos de opressão de Domiciano, experiência que deve ter causado o ódio que manifesta freqüentemente pela tirania (Mellor sugere que se teria dedicado à história como uma maneira de "fugir dos terríveis anos finais de Domiciano). Na sua obra, destacam-se uma biografia do sogro, Agrícola, uni livro insólito no mundo romano como é a Germânia, a única monografia etnográfica latina conhecida, mas, sobretudo, as duas grandes obras históricas. A 27 Uma citação de Ab urbe condita, prefácio, 6 (o episódio da passagem de Aníbal pelós Alpes em XXI, 31-38). Sobre a política historicista como propaganda, EVANS, Jane De Rose. The art of persuasion. Political propaganda from Aeneas to Brutus. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1992; LA PENNA, Antonio. Potere politico ed egemonia culturale in Ròma antica daU'età delle guerre puniche all'età degli Antonini. In: . Aspetti del piensiero storico latino. Torino: Einaudi, 1978. p. 5-41, e sobre literatura e política, SYME, Ronald. History in Ovid. Oxford: Clarendon Press, 1997. Sobre Lívio concretamente, DOREY, T. A. (Ed.). Livy. London: Routledge and Kagan Paul, 1971; WALSH, P. G. Livy. His historical aims and methods. London: Bristol Classical Press, 1996, e os estudos preliminares de Ronald Syme e de Cláudio Moreschini ao primeiro volume da edição bilíngüe da prinleira década, Storia di Roma. Milano: Rizzoli, 1982. MELLOR, Ronald. Roman historians. London: Routledge, 1999. p. 48-75, explica que a arqueologia e a epigrafia têm reivindicado a veracidade de Lívio. A citação final é de CORNELL, T. J. The beginnings of Rome. London: Routledge, 1995. p. 2.

primeira são as Histórias, em doze ou quatorze livros, dos quais, sobrevivem tão somente os quatro primeiros e parte do quinto. Nela, dedicase à história recente, do ano 69 ao 96, conservando-se apenas a parte que se refere aos anos 69 e 70, preservada num só manuscrito medieval. Mais ambiciosa era sua segunda obra histórica, os Annales, que deveriam nos falar "objetivamente" ("sine ira et studio") da etapa imediatamente anterior, da morte de Augusto à de Nero, entre os anos 14 e 68 (ou seja dos reinados de Tibério, Calígula, Cláudio e Nero). Foram, possivelmente, 18 livros - embora não se tenha certeza de que escreveu todos divididos em três grupos de seis, dos quais conservaram-se tão somente dois blocos de texto, um que compreende os seis primeiros livros (embora falte quase todo o livro quinto e parte do sexto), e outro que vai do décimo primeiro ao décimo sexto.28 Tácito não se limita a narrar acontecimentos como Tito Lívio. Quer fazer uma obra de reflexão, ao estilo de Salústio, destinada à leitura e não à recitação. Escreve com upa léxico conciso, por vezes arcaico, e em um estilo conceitualista que o torna elegante, mas difícil (para alguns, pesado). Toda ã obra está impregnada da nostalgia dos velhos tempos da república e "dos costumes íntegros do passado", apesar de estar consciente de que não se pode voltar atrás. Escreve história, diz-nos, em tempos em que isto não se faz com eloqüência ou liberdade, como durante a república, mas com ódio e servilismo. O que se deve explicar, além do mais, não são fatos heróicos, mas sim acontecimentos aparentemente insignificantes, "dos quais surgem, continuamente, mudanças de grande importância", conjugando "ordens terríveis, acusações contínuas, amizades enganosas e mortes de inocentes". 28 A valorização citada inicialmente é a que faz no artigo correspondente do Dictionnaire des auteurs grecs et latins de l'antiquité et du moyen âge. [Turnhout, Belgium] : Brepols, 1991. Sobre Tácito e sua obra veja-se principalmente SYME, Ronald. Tacitus. Oxford: Oxford University Press, 1997 (ed. original 1958). 2 v. Complementarmente, MELLOR, Ronald. Tacitus. London: Routledge, 1993; MARTIN, Ronald. Tacitus. London: Batsford, 1981; MICHEL, Alain. Tácito e il destino dell'imperio. Torino: Einaudi, 1973. A citação de MELLOR, Ronald. The Roman historians. London: Routledge, 1999. p. 78.

Realiza um retrato pouco favorável da sociedade romana, com um profundo desprezo pela plebe, - "acostumada ao circo e ao teatro" - , que aclamava o imperador "não por temor nem por amor, mas, sim, por puro servilismo" ou que contemplava os combates nas ruas de Roma como se fossem um espetáculo de gladiadores, ao mesmo tempo que se aproveitava dos despojos. Porém, não julga melhor a nobreza servil e corrupta que "não se resolvia a fazer a guerra". Sentia falta dos tempos em que a Itália não tão somente abastecia a si mesma, como também enviava alimentos às províncias, ao contrário do que acontecia no seu tempo em que "produzimos, sobretudo na África e no Egito, e a vida do povo romano depende principalmente dos barcos e do acaso". Os dois grandes personagens que dominam o relato são Tibério, de quem realiza um retrato negativo porém matizado, mostrando suas contradições e progressiva degradação, e Nero, cuja corrupção descreve-nos num marco em que se produz o incêndio de Roma e em um tempo que "manchado por tantos crimes, também os deuses o marcaram com catástrofes naturais e doenças".29 Um reflexo em menor escala de Tácito temos em Suetônio (ca. 70 ca.150). Sua obra situa-se formalmente dentro do gênero das biografias que Cornélio Nepote (Ca. 99 - ca. 24 a.C.) tinha introduzido com as superficiais Vidas de homens ilustres, uma coleção de vinte e cinco biografias anedóticas de grandes personagens, redigidas com notas extraídas apressadamente de fontes de segunda mão. As Vidas dos doze césares de Suetônio constituem, no entanto, um livro muito diferente, mais próximo ao tipo de biografia grega que tinha como objetivo fundamental fazer um juízo de valor moral das pessoas. Suetônio era um advogado medíocre que obteve a designação de bibliotecário" é, mais tarde, responsável geral da chancelaria do imperador Adriano, o que lhe facilitou o acesso aos arquivos imperiais e lhe propor29 Estes parágrafos estão montados sobre um teçido de citações de Tácito que compreendem, por ordem: Anales, 1,4; III, 26-27; Historias, 1,1; Anales, TV, 32-33; Historias, 1,4; I, 32; I, 90; Anales, I, 77; Historias, III, 83; Anales, III, 65; Historiou l, 88; Anales, XII, 43; II, 87; VI, 51; XV, 37-43 e XVI, 13.

cionou documentação muito valiosa, utilizada nas primeiras e mais extensas de suas biografias, as de Augusto e Tibério. Interveio, posteriormente, nas intrigas da corte e isto lhe custou o cargo, momento em que começou a escrever. As biografias dos imperadores, de Júlio César a Domiciano7pretendem proporcionar "retratos morais" e costumam combinar, sem muito acerto, a atividade oficial do imperador com a escandalosa descrição de sua vida privada, ilustrada com anedotas e abundância de "frases célebres". Embora não se possa afirmar que a obra de Suetônio seja história, tornouse importante pelo fato de estabelecer cânones do gênero biográfico que seriam aplicados, primeiramente, à enigmática História augusta - uma coleção de biografiá de imperadores, de data, autor e valor discutíveis - e, mais tarde, à vida dos santos cristãos.30 Continuando a tradição historiográfica clássica, Amiano Marcelino (ca. 330 - ca. 395), "o último dos grandes historiadores do império romano", escreveu Histórias que continuavam as de Tácito a partir do ponto em que este as tinha abandonado (por esta razão escreve em latim, embora fosse de língua grega). Parece que tinha sido educado como cristão, tendo retornado ao paganismo na época de Juliano. Sua obra constava de 31 livros dos quais nos chegaram os que vão do XIV ao XXXI, que vão do ano 353 ao 378 e descrevem o período de comoções que se produziu depois da morte de Constantino, o Grande, o reinado de Juliano, as guerras contra os povos germânicos e contra os persas (nas quais participou pessoalmente), as lutas internas do império e a invasão dos visigodos. Tem-se elogiado a exatidão das informações, "a amplitude de seu interesse e o conhecimento pessoal do que escreve", bem como criticado o estilo literário, correspondente aos gostos da época. Amiano esta-

30 WALLACE-HADRILL, Andrew. Suetonius. London: Duckworth, 1995/2. BOWERSOCK, G. W. Fiction as history. Nero to Julian. Berkeley: University for California Press, 1994. p. 156-160, mostra as influências da novelística na história destes tempos (pòr exemplo, a de Heliodoro na História augusta). Consultar também a introdução da tradução da História augusta de Vicente Picón e Antonio Cascón, Madrid, Akal, 1989, uma obra à que se tem dedicado uma ampla bibliografia, mais devido aos problemas de erudição que formula do que pelo valor histórico ou literário. _

va consciente da decadência do império, mas guardava esperanças em sua sobrevivência: "os que ignoram a história antiga dizem que jamais a república estivera rodeada de tanta treva de males, mas enganam-se, estupefatos pelo horror dos males recentes. Se olharmos para épocas mais antigas ou inclusive mais próximas, veremos que também se produziram acontecimentos tão tristes como estes".31 Se recordamos que o Império do Oriente haveria de durar mais de mil anos, temos que reconhecer que tinha ao menos uma parte de razão.

31 Amiano Marcelino, Historiai, XXXI, 5,11. BLOCKLEY, R. C. Ammianus Marcellinus. A study of his historiography and political thought. Brussels: Latomos, 1975; MATTHEWS, John. The Roman empire of Ammianus. London: Duckworth, 1989; o estudo preliminar de Antônio Selem à edição bilíngüe de Historias. Torino: UTET, 1994. 2 v. Contrariamente à valorização que se faz de seu trabalho, que é fonte básica do conhecimento do século IV, Thimoty D. Barnes (Ammianus Marcellinus and the representation of historical reality. Ithacá: Cornell Univérsity Press, 1998) o considera tendencioso e novelesco, indigno de confiança. Uma avaliação que contradiz claramente a de Mellor em The Roman historians, p. 110-131.

Capítulo 2

A RUPTURA DA TRADIÇÃO CLÁSSICA

O sentido de continuidade teleológica, que os estudos de história do pensamento e da ciência costumam ter, implica a idéia de uma evolução em ascensão progressiva do passado ao presente. Também no caso da historiografia, teríamos que supor a existência de um vínculo que articula o mundo clássico a uma idade média inventada, a fim de encaixar, no esquema evolutivo - visto, como de costume, numa perspectiva estritamente européia - , os mil anos que vão do fim do mundo antigo ao "Renascimento". Esta hipótese, no entanto, dificilmente se sustenta: entre a historiografia ê a cultura em geral da antiga idade clássica e a do cristianismo medieval, há uma ruptura da qual se salva, apenas, a língua - latim no ocidente, grego no oriente - , cada vez mais distante dos velhos modelos da época clássica.1 A corrente mais rica e inovadora da historiografia medieval - medieval só na^ nossa apropriação "ocidental e cristã" do tempo histórico não nasceu da herança clássica, mas desenvolveu-se nos países muçulmanos, sem qualquer influência inicial e muito pouca, posteriormente, dos modelos greco-romanos. A historiografia dos povos islâmicos não tinha mais antecedentes autóctones do que a poesia, as genealogias e os relatos de batalhas, conservados, por escrito ou oralmente, pelas tribos árabes. O 1 HEËRS, Jacques. La invención de la edad media. Barcelona: Crítica, 1995; AMALVI, Christian. Le goût du Moyen Âge. Paris: Pion, 1996 (sobre os diversos usos e modelos de idade média).

Corão, por outro lado, transmitia a imagem de um passado de confronto entre reis e profetas, visto como uma espécie de tempo eterno. A busca histórica propriamente dita começaria como conseqüência/da necessidade de reunir as palavras e os feitos de Maomé e de seus primeiros discípulos para alimentar ás coleções de hadiths - as palavras e opiniões de Maomé que começaram a ser compiladas por escrito desde cedo, estando já codificadas no segundo século da era islâmica. Esta tarefa começou como uma simples compilação mas, muito rapidamente sentiu-se a necessidade de estabelecer a Veracidade dos hadiths, classificados em função da maior ou menor confiabilidade que merecessem, o que obrigava a um exercício crítico para avaliar o isnad de cada um, pu seja a credibilidade da corrente de autoridades que o tinha transmitido.2 O primeiro dos grandes historiadores muçulmanos, al-Tabari (Abu Jafar Muhammad ibn Jarir al-Tabari, ca. 839-923), era precisamente um especialista no estudo dos hadiths, que, junto ao Comentário sobre o Corão, escreveu uma História de profetas e de reis, óu seja, uma história universal da criação do mundo ao ano 915 de nossa era (período avaliado em 14.000 anos), ordenada cronologicamente e realizada com a ambição de

2 A fonte essencial destes parágrafos foi KHALIDI, Tarif. Arabic historical thought in the classical period. Cambridge: Cambridge University Press, 1994 (citações literais da p. 136). Complementarmente DURI, A. A. The rise of historical writing among the Arabs. Princeton: Princeton University Press, 1983, que se refere sobretudo às origens; NICHOLSON, R. A. A literary history of the drabs. Richmond: Curzon Press, 1995 (ed. original, 1930); CHEDDADI, Abdesselam. Ibn Jaldun, anthropologue ou historien. In: JALDUN, Ibn. Peuples et nations du monde. Aries: Sindbad/Actes Sud, 1995.1, p. 15-56; ATIYEH, George N. The book in the islamic world. The written Word and communication in the Middle East. New York: State^University of New York Press/The library of congress, 1995 (sobretudo, Wadad al-Qadi, "Biographical dictionaries: inner structure and cultural significance", p. 93-122); MADELUNG, Wilfred. The succession to Muhammad. A study of the early Caliphate. Cambridge: Cambridge University Press, 1997 e Nawawy, les jardins de lapiété. Lyon: Alif, 1991, no que se refere aos hadiths. Entre as obras gregas traduzidas pelos árabes, não há nenhuma de história (GUTAS, Dknitir. Greek thought, arabic culture. The graeco-arabic translation movement in Baghdad and early abbasid society. London: Roudedge, 1998. p. Í93-196).

reunir escrupulosamente os testemunhos, sem introduzir interpretações próprias, nem inferências. Tabari reproduzia o que as fontes escritas muçulmanas diziam, enriquecendo-as com um rico tesouro de tradições transmitidas oralmente. O texto contém a amenidade dos narradores que explicam os contos em público, não vacilando em ilustrar os acontecimentos memoráveis com "histórias agradáveis é instrutivas", das quais lições de religião e moral podem ser deduzidas. No texto, podemos perceber o caráter complexo do Islã: quando nos explica "a aventura de Salomão e dos cavalos", por exemplo, observa que os cavalos e as armas são os preferidos dos profetas, "porque com eles poderão vencer os inimigos de Deus"; mas quando escreve a história de Hormudz, rei da Pérsia, aproveita para destacar sua resposta de tolerância para com os judeus e os cristãos: "Não há maneira dé evitar a diversidade num país e convém que, num grande império, haja homens de diferentes condições".3 O segundo dos grandes nomes da historiografia muçulmana, alMasudi (Abu al-Hasan Ali ibn al-Husayn al-Masudi, ca. 896 - ca. 956), era um xiita nascido em Bagdad que recebeu uma boa educação, viajou muito e foi comparado a Heródoto pela amplitude dos interesses científicos e pelo fato de combinar geografia, etnologia e história. Escreveu, entre outras obras, Aríales históricos, que se perderam, mas o livro a que deve sua fama é Los prados de oro, um compêndio onde a história do mundo, desde a criação, é relacionada e enriquecida com descrições da geografia, da vida e dos costumes dos.diversos povos que havia conhecido nas suas viagens o homem que permanece em sua terra natal, diz-nos, confiando nas informações que lhe dão, não pode ter a mesma autoridade daquele que viajou e viu as coisas com os próprios olhos. Reproduz, freqüentemente, o que os escritores locais haviam-lhe dito (dá-nos, por exemplo, uma relação dos reis francos, tirada de uma lista redigida em latim por um bispo na Anda3 Há duas traduções recentes da História de al-Tabari, a francesa de Herman Zottenberg, publicada em seis volumes em Paris por Sindbad, que é de fácil e. agradável leitura (as citações que faço procedem desta e correspondem ao segundo volume, "De Salomón a la caída de los Sasánidas", p. 32 e 307) e a inglesa de Moshe Perlmann, publicada por State University of New York Press, mais filológica, mas menos legível.

luzia, cuja cópia foi encontrada no Egito) ou o que lhe fora explicado pessoalmente pelos comerciantes de diversas terras. O livro é como uma espécie de enciclopédia que considera a história como fundamento de todas as ciências pelo fato de recolher o pensamento dos homens de épocas anteriores. Afirmou-se que al-Masudi foi "o primeiro historiador muçulmano árabe que aplicou os princípios do método científico e do raciocínio filosófico ao estudo da história".4 Naquele tempo começava-se a produzir a assimilação do pensamento grego, coín al-Farábi, que culminaria mais tarde com o cordobês Ibn Rushd ou Averróis (1126-1198) - no qual encontramos uma teoria dá evolução das cidades e dos sistemas políticos que lembra Políbio - e com um dos maiores cientistas muçulmanos de todos os tempos, al-Biruni (973-1048), nascido de pais de fala persa no atual Usbequistão que escreveu Cronologia das nações antigas, em que tratava de sistematizar e unificar as cronologias das diversas tradições históricas.5 O ápice da historiografia muçulmana é alcançado com Ibn Jaldün (Abd al-Rahman ibn Jaldun al-Hadrami, 1332-1406), nascido em Túnis, de uma família de origem andaluza. Serviu nas diversas cortes do ocidente muçulmano, inclusive na de Granada - de onde foi enviado como embaixador ao rei Pedro I de Castela, que lhe ofereceu um lugar na corte e lhe prometexl a recuperação dos bens dos antepassados - , desempenhou altos cargos políticos, passando os últimos anos da vida como juiz no Egito, anos em que peregrinou a Meca e a Jerusalém e viajou a Damasco, onde conheceu Tamerlão. Foi precisamente no Egito oiide redigiu o Kitab al4 MASUDI, Abu al-Hasan Ali ibn al-Husayn ai. The meadows ofgold. The Abbasids. Translated and edited by Paul Lunde and Caroline Stone. London: Kegan Paul International, 1989. 5 Neste texto, como em geral em todo o livro, refiro-me somente às grandes figuras que deram contribuições fundamentais. Existem, naturalmente, muitos outros cronistas e historiadores locais. Um exemplo desta historiografia temos em Ibn al-Jatib (1313-1375), cronista dos soberanos nazaris* de Granada: Ibn al-Jatib. Historia de los reyes de la Alhambra. Tradução de J. M. Gasciaro e estudo preliminar de Emílio Molina. Granada: Universidad, 1998. * Nazaris - Descendentes de Yusuf ben Názar, fundador de uma dinastia muçulmana que reinou em Granada entre os séculos XIII e XV. (N.T)

ibar ou Livro dos acontecimentos que servem de exemplo, do qual a Muqqadima ou Discurso sobre a história universal era o primeiro volume introdutório. A idéia inicial parece ter sido a de fazer a história do mundo islâmico do norte da África, que conhecia diretamente, mas acabou fazendo-a preceder de uma parte que tratava da história universal. , Percebe-se a novidade e grandeza da reflexão da Muqqadima desde as primeiras linhas do prefácio: "A história tem como objeto o estudo da sociedade humana, ou seja, da civilização universal. Versa sobre tudo o que se refere à natureza desta civilização, isto é: a vida selvagem e a vida social, as particularidades devidas ao espírito de clã e as modalidades pelas quais um grupo humano domina outro. Este último ponto conduz ao exame do nascimento do poder, das dinastias e das classes sociais. Na seqüência a história se interessa, também, pelas profissões lucrativas e pelas maneiras de se ganhar a vida, que formam parte das atividades e dos esforços do homem, assim como pela ciência e pelas artes. Enfim, tem por objeto tudo o que caracteriza a civilização". De acordo com este programa, a Muqqadima se estrutura em seis grandes capítulos que estudam respectivamente: a civilização humana em geral, as nações selvagens (a civilização beduína), a monarquia e a função pública, a civilização sedentária (vilas e cidades), a economia e, finalmente, as ciências e o saber. Esta visão de conjunto leva Ibn Jaldun a vincular os fatos da história política a um conjunto de fatores globais - a sociedade, o clima, a religião, a cultura - e a analisar detidamente as causas complexas dos acontecimentos. Mas, enquanto o Discurso sobre a história universal foi lido e admirado no Ocidente - e utilizado, também, para uma leitura colonialista que justificava a dominação européia do Magreb como um fato histórico inevitável - , costuma-se ignorar que a obra histórica propriamente dita, a que servia de introdução, nunca foi traduzida integralmente para outras línguas, impedindo que possamos avaliar adequadamente Ibn Jaldun como historiador, ou verificar quais foram os resultados alcançados com seu método.6 6 Sobre Ibn Jaldun utilizei os elementos biográficos contidos em Le Voyage d'occicident et d'orient. Paris: Sindbad, 1980; o capítulo que Abederrahmane Lakhassi lhe dedica em NASR, Seyyed Hossein; LEAMAN, Oliver (Ed.). History of Islamic phi-

Ibn Jaldun representa, ao mesmo tempo, o ponto mais alto e o momento final da evolução do pensamento historiográfico muçulmano. Sua linha de interpretação da sociedade e da história não teria continuidade. Dos historiadores muçulmanos da índia medieval, por exemplo, foi dito que se limitavam a narrar os feitos dos soberanos e dos ministros e que "jamais lhes ocorrera ir comer na cozinha como supõe-se que o historiador econômico e social o faça". A historiografia islâmica, isolada das novas correntes do mundo, permaneceria sem mais avanços até o século XIX, quando começou a receber o impacto da ocidental.7 Lamentavelmente, sabemos ainda muito pouco da historiografia de outras civilizações nestes séculos, como a dos povos da índia, que a história colonialista pretendeu reduzir a "fontes que deviam ser avalia-,

losophy. London: Routledge, 1996.1, p. 350-364; AL-AZMEH, Aziz; KHALDUN, Ibn. An essay in reinterpretation. London: Frank Cass, 1982; ABDESSALEM, Ahmed. Ibn Jaldun y sus lectores. México: Fondo de Cultura Económica, 1987; NASSAR, Nassif. El pensamiento realista de Ibn Jaldun. México: Fondo de Cultura Económica, 1980 e HERNANDEZ, Miguel Cruz. Historia dei pensamiento en el mundo islâmico. Madrid: Alianza, 1996. III, p. 665-701. A edição de Al-Muqqadima utilizada é KHALDÛN, Ibn. Discours sur l'histoire universelle. Trad. De Vincent Monteil. Paris: Sindbad, 1978. 3 v. (citação literal de I, p. 69), com preferência à quase ilegível versão castelhana de Juan Feres, que daria uma má idéia de seu valor real. Também Peuples et nations du monde, na edição citada antes, que é uma primeira aproximação, ainda que fragmentada, a seus outros livros. Sobre a avaliação ocidental: Toynbee, por exemplo, diria que era a maior obra de filosofia da história de todos os tempos. Sobre o uso colonialista, HIMMICH, Salem. O pensamento inovador de Ibn Jaldún: sua recepção no ocidente. In: LARRAMENDI, M. Hernando de; PARRILLA, Gonzalo Fernández (Ed.). Pensamiento y circulación de las ideas en el Mediterrâneo: él papel de la traducción. Cuenca: Universidade de Castilla-La Mancha, 1997. p. 209-222. 7 Sobre os historiadores muçulmanos hindus, HARDY, Peter. Historiam of medieval índia. Studies inIndo-mi4slim historical writing. New Delhi: Munshiram Manoharlal, 1997/2; citação da p. 111. Em sua já citada Historia dei pensamiento en el mundo islâmico, III, p. 663-665, Miguel Cruz Hernándezfedado esgotamento do "curriculum" intelectual islâmico, facilitado pela idéia de, que tudo que estava feito, e bem feito, por Deus no Corão, o que limitava o ensinámento superior às ciências de base religiosa. Ibn Jaldun seria citado como úm "historiador a mais" pelos compiladores que se limitavam a acumular informações históricas.

das em relação com os cânones modernos do Ocidente" e, ainda menos, das crônicas redigidas em persa, em turco e em usbeque pelos povos da Ásia central, entre os quais figura o extraordinário Livro de usbeque, escrito pela princesa Gul-Badan Baygam (ca. 1523-1603), que apresenta a visão de uma mulher sobre os acontecimentos, perita nos assuntos do estado, mas com uma sensibilidade diferente da dos cronistas da corte. Ignoramos também a historiografia dos armênios, com figuras como Sebeos, um historiador do século VII que usa os documentos como fonte de informação, analisando acuradamente as causas políticas dos acontecimentos.8 A maior continuidade com o mundo clássico helenístico aconteceria teoricamente em Bizâncio, isto é no Império romano do Oriente, que prosseguia utilizando literariamente a língua grega segundo os modelos antigos. Isso conduziria a uma situação de diglossia* em que a literatura era escrita em um idioma não compreendido pelas pessoas comuns (até que o empobrecimento da educação e a desconfiança dos cristãos pelos autores pagãos a foi aproximando da língua falada). Os bizantinos tinham ao alcance uma ampla literatura grega que, em boa medida, se perdeu, mas ignoravam quase totalmente a latina: em Biblioteca, a obra em que o patriarca de Constantinopla Fócio (ca. 810 - depois de 866) resenha os livros que havia lido, há um conjunto de obras de historiadores gregos, mas não se menciona nenhum em latim.9 8 SARKAR, Sumit. The many worlds of Indian history. In: . Writing social history. Delhi: Oxford University Press, 1998. p. 1-49 (citação da p. 6); LAW, B. C. On the chronicles of Ceylon. Delhi: Sri Satguru Publications, 1987/2; BAYGAM, Gul-Badan. Le Livre de Humâyún. Edição de J. L. Bacqué-Grammont. Paris: Gallimard, 1996; THOMSON R. W.; HOWARD-JOHNSTON, James (Ed,). The Armenian history attributed to Sebeos. Liverpool: Liverpool University Press, 1992. 2 v. * Numa sociedade, a existência de dois ou mais códigos [ v. código (12) ] distintos, cada um com funções claramente diversas, determinadas pela estratificação social, mas em que apenas um deles goza de prestígio. (N.T.) 9 Sobre as origens da historiografia bizantina (do Chronikon Pascale, que se detém em 628, à Historia Syntomos de 780 e à Chronographia de Theofanes no início do século IX), WHITTOW, Mark. The making of orthodox Byzantium, 600-1025. London: Macmillan, 1996. Utilizo Fócio na versão italiana: Fozio, Biblioteca. A cura di1

Por mais que invocassem constantemente Heródoto ou Tucídides, muito menos lidos na realidade do que Plutarco, os historiadores bizantinos limitavam-se a narrar os acontecimentos da época em forma de crônica, ou de biografia, geralmente apologética, de acordo com certas coordenadas de providencialismo cristão que excluíam qualquer tentativa de análise social. Entre os mais interessantes, é preciso mencionar Procópio de Cesaréia (nascido por volta de 500), autor de obras da história oficial de Justiniano, como as Guerras, que narram os combates de Justino I e de Justiniano contra os persas, os vândalos e os ostrogodos, e os Edifícios, que falam das construções públicas feitas pelo imperador. As Guerras têm um interesse evidente como fonte de informação sobre certos povos dos quais se conservarei poucas informações, mas também pela qualidade literária, enriquecida por elementos narrativos e por interessantes retratos pessoais, Com lampejos de uma estranha lucidez, como o que o leva a concluir o relato da guerra com os vândalos com a narração das matanças feitas pelo exército imperial e a dizer: "E assim foi como aqueles líbios que permaneceram com vida - que eram poucos e demasiadamente pobres - conheceram, tarde e com penúria, uma certa paz". O que torna o caso de Procópio mais notável, no entanto, é que, junto às obras oficiais* escreveu outra em que se propôs a explicar o que não havia dito nas anteriores: "Dos muitos fatos referidos nos livros precedentes - dizia - fui obrigado a calar as causas", já que viviam ainda os protagonistas e falar deles o teria exposto "a uma morte atroz". Anekdota, mais conhecida como História secreta, é um relato feroz da vida de Justiniano e de Teodora - apresentada como um monstro de luxúria, capaz de acolher na canla cerca de quarenta amantes em uma só noite, "trabalhando com três orifícios" sem ficar saciada - de Belisário e de sua esposa.10 Nigel Wilson. Milano: Adelphi, 1992. Para o contexto geral, TREADGOLD, Warren. A history of the Byzantine state and society. Stanford: Stanford University Press, 1997. 10 PROCÓPIO. La guerre contre lês vandales. Paris: Les Belles Lettrês, 1990 (citação da p. 218); PROCÓPIO. Storie segrete. Ed. bilíngüe. Milano: Rizzoli, 1996, citações de I, 2 e IX, 15-18. CAMERON, Averil. History as text: coping with Procopius. In:

O outro grande nome da historiografia bizantina, Miguel Psellos (1018 - ca. 1078), político e homem de letras de grandes conhecimentos, deixou-nos Cronografia, obra que narra os acontecimentos dos anos 976 a 1078, num relato ordenado por reinos e baseado em sua própria experiência ejonde os acontecimentos são explicados em termos de interesses e paixões humanas. Psellos é um narrador consciente de sua arte, que fundamenta a vontade de escrever, limitando-se "aos fatos mais importantes", a meio caminho entre as pretensões das grandes histórias do império e o esquematismo das crônicas contemporâneas." De menor interesse são a Alexiada de Ana Comneno (1083 - depois de 1148)12 ou as obras de Nicetas Choniates (ca.1150-1213), testemunho das destruições dos cruzados (que Villehardouin relataria a partir da perspectiva do outro lado). Os últimos cronistas do império, no século XV, dividir-se-iam entre homens que, como Jorge Sfrantzes (1401-1477), realizam um relato melancólico dos últimos dias de Bizâncio e os que se haviam integrado na nova situação, como Critóbulos de Imbros (ca.1410 depois de 1468), que adota o estilo de Tucídides para elogiar o sultão Mehmed II, o novo imperador a que servia. O legado que os historiadores bizantinos deixariam ao despertar da nova historiografia do Renascimento seria principalmente o aporte de informações e de manuscritos que enriqueceriam o escasso conhecimento direto que se tinha, no ocidente medieval, da literatura grega.13 Suas próHOLDSWORTH, Christopher; WISEMAN, T. P. (Ed.). The inheritance of historiography, 350-900. Exeter: Exeter University, 1 9 8 6 . 0 contraste entre a Historia Secreta e as obras de apologia de Justiniano fez pensar que não era obra de Procópio. Talvez seja exagero, entretanto, reduzi-la a "um panfleto sujo", como o fazem os autores do Dictionnaire des auteurs grecs et latins de l'antiquité et du moyen âge, Brepols, 1991. 11 PSELLUS, Michael. Fourteen byzantine rulers (The Chronographia). Ed. E. R. A. Sewter. Harmondsworth: Penguin, [1966?], citação da p. 191. 12 Há uma tradução castelhana de Emilio Diaz: COMNENO, Ana. La Alexiada. Sevilla: Universidade, 1989. 13 GEANAKOPLOS, Deno J. Italian humanism and the Byzantine émigré scholars. In: RABIL JR., Albert (Ed.). 381. Renaissance humanism. Foundations, forms, and legacy. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1998.1, p. 350-381.

prias obras, no entanto, continuariam sendo completamente desconhecidas durante muito tempo, somente se recuperando nos tempos modernos, como objeto de erudição.14 No Ocidente produziu-se uma ruptura com a cultura clássica. O latim continuaria sendo Cultivado, geralmente na forma de um sermo humilis compreensível para um público amplo, até que, mais tarde, após o "renascimento carolíngio", se voltaria a uma língua artificial, copiada dos velhos modelos clássicos e só entendida pelos letrados. O corte produzido entre as duas culturas não é temporal, mas de índole estritamente cultural: no século IV, as ùltimas'amostras de uma historiografia "pagã" convivem com as primeiras cristãs (a História augusta, de que falamos anteriormente, é posterior à História eclesiástica de Eusébio), mas as referências culturais de uma e outra são muito diferentes. Na cultura cristã, os historiadores clássicos seriam esquecidos. Somente Salústió era lido, na medida em que sua retórica moralizante se acomodava aos objetivos que ós escritores cristãos buscavam (Suetônió seria utilizado simplesmente como modelo estilístico de biografias reais pelos escritores cortesãos). Tito Lívio séria admirado de longe - não voltaria a ser lido antes do século XIII - e Tácito, cuja obra foi salva quase milagrosamente, continuaria sendo menosprezado até que os humanistas o descobrissem, convertendo-se num dos clássicos mais lidos durante os séculos XVI e XVII. A história antiga servia principalmente como fonte de anedotas, utilizadas como exemplos morais, o que explica o êxito de compilações como o Livro dos ditos efeitos memoráveis de Valério Máximo, um conjunto de anedotas escrito nos tempos de Tibério, que seria a obra clássica mais lida na Idade Média - conservam-se mais de quatrocentos manuscritos dela - servindo de modelo para as numerosas compilações de exemplos e milagres cristãos.15 -7



14 Pode-se perceber, por exemplo, que nos materiais do colóquio internacional L'historiographie médiévale en Europe (Ed. por J. P. Genet. Paris: C. N. R. S„ 1991) nenhum dos 26 trabalhos publicados se refere à historiografia bizantina. Como se Bizâncio não fosse Europa. 15 Sobre a historiografia da época, MOMIGLIANO, Arnaldo. L'époque dé la transition de l'historiographie antique à l'historiographie médiévale (320-350 après J. C.) e L'historiographie paienne et chrétienne au IV siècle après J. C. In: Problèmes

Entre a nova história cristã e a velha do mundo clássico existe uma profunda ruptura de conceitos, mais do que de conteúdos. Como os escritores da história cristã não acreditavam que se encontravam numa nova época, pretendiam, apenas, absorver e assimilar a velha: cristianizar o conjunto da história humana, inserindo-a linearmente na tradição bíblica e eclesiástica; "converter a história universal em história da salvação".16 Isto exigia, em primeiro lugar, o estabelecimento de uma cronologia única com um tempo universal, tarefa iniciada por Eusébio (ca. 260-339), um grego da Palestina que foi bispo de Cesaréia, homem muito próximo do imperador Constantino e autor de História eclesiástica, primeira história da igreja, desde Jesus Cristo a Constantino, mas, sobretudo, de Crônica, conhecida pela versão latina de São Jerônimo - o original grego perdeu-se. Esforçou-se em relacio|iar o relato bíblico com' a história dos povos do Oriente próximo e com a greco-romana, construindo tábuas sincrônicas que estabelecem correspondências entre os acontecimentos relatados na Bíblia, as relações dos soberanos assírios ou egípcios, a periodização grega por olimpíadas ou a série dos magistrados romanos. A obra de Eusébio seria prosseguida por outros cronisd'historiographie, ancienne et moderne. Paris: Gallimard, 1983; STERNS, Indrikis. . The greater medieval historians: An interpretation and a bibliography. Washington: University Press of America, 1981 e o volume, editado por J. P. Genet, L'historiographie médiévale en Europe, citado mais acima. Sobre o sermo humilis e a prosa latina no começo da Idade Média, AUERBACH, Erich. Literary Language and its public in late latin antiquity and in the middle ages. Princeton: Princeton University Press, 1993. Sobre a herança clássica, BOLGAR, R. R. The classical heritage and its beneficiaries. Cambridge: Cambridge University Press, 1977; REYNOLDS, L. D.; WILSON, N. G. Scribes and scholars. A guide to the transmission of Greek and latin literature. Oxford: Clarendon Press, 1978. Sobre os autores lidos nas escolas, CURTIUS, Ernst Robert .Lçtteratura europea e medio evo latino. Firenze: La Nuova Italia, 1992. p. 58-64. 16 "No século XII, uma história universal se situa na perspectiva religiosa: explica, ? história da salvação", por esta razão não fala dos povos distantes, e pagãos, que "Deus nãp se propunha salvar" (Bernard Güenée em Genet, L'historiographie médiévale, p. 15; também BROST, Arno. The ordering of time. Cambridge: Polity Press, 1993).

tas bárbaros e sua cronologia dominaria a historiografia cristã até os tempos modernos, de maneira que se pode afirmar que nenhuma outra obra "exerceu influência comparável sobre o mundo ocidental". Nem mais nefasta, acrescentaremos, já que a convicção de que a história inteira da humanidade não passava de cinco ou seis mil anos - como ainda defendem alguns dos partidários de uma interpretação literal da Bíblia, nos Estados Unidos - impediu um estudo sério das épocas antigas (sem esquecer que os autores cristãos se encontravam ante o problema adicional de que a versão da Bíblia "dos setenta" e a Vulgata ofereciam cronologias discrepantes).17 O que, principalmente, distingue os novos esquemas da historiografia cristã dos da clássica é o fato de qüe não busca a explicação dos fenômenos históricos no interior da própria sociedade, nas causas naturais ou como conseqüência dos atos dos indivíduos, mas supõe que existe um desígnio divino que determina por completo o curso da história. A nova concepção global do homem e do mundo em que se baseava esta visão da história foi desenvolvida sobretudo por Santo Agostinho (354-430) em A cidade de Deus e em Confissões, nas quais contrasta a eternidade de Deus com o mistério do tempo, especulando sobra a dificuldade de conhecer o passado. Â aplicação direta das idéias agostinianas à história seria feita por 17 Sobre Eusébio, STERNS, Indrikis. The greater medieval historiam: An interpreta tion and a bibliography. Washington: University Press of America, 1981. p. 6-12; SHOTWELL, James T. Historia de la historia en el mundo antiguo. México: Fondo de cultura económica, 1982 (a edição original é de 1939). p. 367-381 (citação dá p. 373); WTLCOX, Donald J. The measure oftimespast. Chicago: University of Chicago Press, 1987. p. 105-107; GÂLÂN, Pedro Juan. El género historiográfico de la chronica. Las crónicas hispanas de época visigoda Cáceres. [S.l.]: Universidade de Estremadura, 1994. p. 41-52. A versão latina de la Crónica em J. P. Migne, Patrologiae cursus completus, series latina, t. XXVII (San Jerónimo, t. VIII), Paris, 1866. Uma visão global das crônicas universais cristãs em KRÜGER, Karl Heinrich. Die Universalchroniken. Tunrhout: Brepols, 1976. Sobre as discrepâncias da cronologia bíblica, Wilcox, p. 119-152; mas o que na Idade Média poderia parecer normal, seria angustiante mais tarde. No século XVIII, lemos: "A diversidade notável que existe entre a Bíblia dos LXX e a Vulgata no que se refere à cronologia, causa uma confusão de que não é fácil desfazer-se". CHEVIGNI, C. de. Ciência para las perso- , nas de corte, espada y toga. Valencia: Balle, 1736. III, p. 9.

seu discípulo galego Orósio que, em Histórias contra os pagãos, insistia que a história mostrava a ação da vontade de Deus na terra: a forma pela qual este premiava a virtude e castigava o vício no trânsito ao destino último do juízo final. O estudo da história serviria ao cristão como lição de moral e para confirmar a fé na seqüência dos milagres e das profecias.18 Estabelecer a veracidade dos acontecimentos, tal como a entendemos hoje, era de um interesse secundário para o historiador cristão. Se o relato era "correto" do ponto de vista do discurso religioso, pouco importava se os fatos com que fora elaborado houvessem ocorrido ou não. Não se podia esperar que homens que aceitavam uma representação geográfica onde o real se misturava com o simbólico e o mundo era um espaço quadrado, identificado geralmente com o corpo de Cristo, tivessem problemas com a redução da evolução humana à história da salvação. Os acontecimentos prodigiosos eram "naturalmente" abundantes na historiografia cristã, que não vacilava em chegar à falsificação. Das "vidas de santos", escritas nos monastérios em louvor dos patronos celestiais, pode-se dizer que eram "criações puramente literárias" (em certa ocasião o santo foi inventado a posteriori para identificar e dignificar com uma biografia adequada algumas relíquias milagrosas). Um exemplo deste tipo de manipulações encontramos em Ademar de Chabannes (989-1034), que contribuiu para transformar São Marçal, um missionário do século III, em primo de São Pedro e companheiro de Jesus: um décimo terceiro apóstolo.19 18 AGUSTIN, San. Confesiones, XI. BROWN, Peter. Augustine of Hippo. Berkeley: University of California Press, 1969. Sobre Orósio, MAZZARINO, Santo. El fin del mundo antiguo. México: Uteha, 1961. p. 51-56; STERNS, I. The greater medieval historians: An interpretation and a bibliography. Washington: University Press of America, 1981. p. 27-30 e SHOTWELL, James T. Historia de la Historia en el mundo antiguo. México: Fondo de Cultura Económica, 1982. p. 390-394. Las Historiae adversus paganos, em Migne, Patrologia, série latina, XXXI, Paris, 1846,663-1.174. 19 O conceito de espaço em MARTIN, Hervé. Mentalités médiévales, XI-XVe siècles. Paris: PUF, 1996. p. 123-153. Sobre as falsificações históricas, GRAFTON, Anthony. Forgers and critics. Creativity and duplicity in western scholarship. Princeton: Princeton University Press, 1990. A história de Ademar e de suas falsificações está minuciosamente estudada em LANDES, Richard. Relics, apocalypse and the

A história não servia para entender o mundo mas, sim, para indagar o futuro: podia ser usada para interpretar as profecias e preparar para o final dos tempos. Havia três grandes modelos proféticos. O primeiro derivava dfe Daniel, que havia visfo sair do mar quatro grandes bestas; a quarta tinha dez cornos, dentre os quais despontava um décimo primeiro, que tinha olhos e boca. A interpretação desta visão via as bestas como impérios e os cornos como dez reis: o décimo primeiro era o Anticristo. O segundo modelo é o da Apocalipse de São João, que lembra em alguns aspectos a visão de Daniel - há, também, uma besta com sete cabeças e dez cornos, por exemplo - más acrescenta um elemento novo e enigmático, que teria um papel muito importante na história profética medievál: haveria um período de mil anos em que, encerrada no abismo "aquela serpente antiga que é o diabo", se realizaria uma primeira ressurreição, a dos eleitos, que reinariam com Cristo em um mundo de paz. Depois deste milênio feliz, o dragão infernal voltaria a atuar e, então, teria lugar a segunda ressurreição - a de todos os mortos - e o juízo final. Toda uma série de "apocalipses" apócrifos, como o atribuído a São Pedro ou o de São Paulo (considerado como um livro sagrado em muitos mosteiros do Oriente), criariam um clima de expectativas sobre o milênio, o Anticristo e a "parüsia", o segundo advento de Cristo. O terceiro modelo profético, que procede da literatura patrística, é o da chamada "semana cósmica". À semelhança dos seis dias da criação, com o sétimo de descanso, a história do mundo se dividia em seis épocas, que correspondiam também às seis idades do homem da infância à velhice. A sétima idade da história seria a do fim deste mundo. Acreditava-se, baseando-se nos textos bíblicos, que os dias da semana cósmica eram de mil anos, de maneira que, uma vez transcorridos seis mil anos desde a criação, começaria a última fase dos tempos, çhegando-se ao fim da história.20 deceits of history. Ademar ofChabannes, 989-1034. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1995 (onde se explica, também, o caso de um são Justiniano, inventado para personalizar certas relíquias, p. 72-74). 20 O texto de Daniel, em 7: l-12,odoApocalipseem20:1-15. Sobre os modelos proféticos, Trompf, The Idea of recurrence in western thought, p. 207-221 e 335-337; GOUGUENHEIM, Sylvain. La Sibylle du Rhin: Hildegarde de Bingen. Paris: Publi-

A preocupação com a cronologia tinha também outras finalidades, relacionadas com a prática litúrgica, especialmente a que se referia à fixação da data da Páscoa, que condicionava a de outras festividades religiosas e exigia um grande esforço para relacionar diferentes sistemas de calendário: no ano de 525, o abade Dionísio, o Exíguo, chamado assim pela reduzida estatura, calculou certas tabelas da Páscoa, ficando a origem da era cristã no ano de 754 da fundação de Roma. Com isso, estabelecia os pilares do sistema de datação por anos da encarnação ou do nascimento de Cristo, que mantemos até hoje (sofrendo as conseqüências dos erros de Dionísio). Foi justamente nos espaços em branco que as tabelas pascais dos mosteiros apresentavam que os monges começaram a anotar os acontecimentos mais notáveis do ano - fenômenos astronômicos, tempestades, mortes de grandes personagens iniciando uma forma de analística que não tardaria a se emancipar de um marco tão estreito. Também foram os monges os que começaram a se preocupar com a determinação mais exata das horas do dia, para poder cumprir as normas que São Bento fixava, o que levou, primeiramente, ao aparecimento de sinos que marcariam os momentos da liturgia e, mais tarde, a impulsionar a construção dos primeiros relógios mecânicos.21 Além dos cômputos cronológicos e das anotações analíticas, os séculos VI ao IX assistiram ao surgimento dos primeiros historiadores dos cations de la Sorbonne, 1996. p. 102-109; EMMERSON Richard K.; McGINN, Bernard (Ed.). Apocalypse in the middle ages. Ithaca: Cornell University Press, 1992; Apocalissi apocrife. Edição de Alfonso M. Dinola. Parma: Ugo Guanda, 1986/2; Cito mais adiante algumas referências dos muitos estudop dedicados às visões proféticas. 21 Sobre os anais monásticos, McCORMICK, Michael. Les annales du haut moyen âge. Turnhout: Brepols, 1975. Uma visão global da forma em que, desta literatura, surgem as crônicas locais (as primeiras seriam as crônicas de monastérios de Jura em começos do século VI) em VAN HOUTS, Elisabeth M. C. Local and regional chronicles. Turnhout: Brepols, 1995. Há uma ampla literatura sobre o sentido e a medida do tempo na Idade Média: LANDES, David S. Revolution in time, Clocks and the making of the modern world. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1983; WHITROW, G.J .El tiempo en la historia. Barcelona: Crítica, 1990. p. 99-118, além dos já citados de Wilcox e de Arno Brost.

povos germânicos que, até aquele momento, haviam tido uma literatura predominantemente oral: os vikings, por exemplo, embora usassem a escritura rúnica para as inscrições, conservavam a lembrança dos feitos dos antigos heróis em poemas, transmitidos oralmente.22 Os novos historiadores são os que Goffart denominou "os narradores da história bárbara" entre os quais se destacam quatro grandes nomes: Jordanes, Gregório de Tours, Beda e Paulo o Diácono (Paulus Diaconus), cabendo ainda acrescentar Isidoro de Sevilha.23 Cassiodoro (ca. 485-578) foi o primeiro a escrever uma História dos godos. A obra, porém, perdeu-se, ainda que pareça ter sido resumida e adaptada em De origine actibusque Getarum, conhecida habitualmente como Getica, obra de Jordanes (morto ca. 554), homem de origem goda e de religião católica, autor também de uma síntese de história geral, Romana, de muito menor interesse. Getica reúne testemunhos escritos e orais para construir a história do povo godo: "Tu, que me lês, saiba que, de acordo com os escritos dos antigos, tomei algumas flores de teus prados imensos e teci uma coroa, à medida de meu talento, para aquele que procura se instruir". Apesar de ter sido escrito em Bizâncio, com elogios a Justiniano e Belisário, vencedores dos bárbaros, o livro de Jordanes não deixa de ser uma homenagem aos godos.24 < 22 PAGE, R. I. Chronicles of the Vikings. London: British Museum Press, 1995; BAGGE, Sverre. Propaganda, ideology and political power in Old Norse and European historiography: a comparative view. In: GENET, J. P. (Ed.). L'historiographie médiévale en Europe. Paris: CNRS, 1991. p. 199-208. 23 Para o contexto geral da história dos povos bárbaros, utilizo o livro de WOLFRAM, Herwig. The roman empire and its germanic peoples. Berkeley: University of California Press, 1997. Para a historiografia, o livro fundamental de GOFFART, Walter. The narrators of barbarian history (AD. 550-800), Princeton: Princeton University Press, 1988 e INNES, Matthew; McKITTERICK, Rosamond. The writing of history. In: McKITTERICK, Rosamond (Ed.). Carolingian culture: emulation and innovation. Cambridge: Cambridge University Press, 1994. p. 193-220. Não posso tocar, numa exposição sintética como esta, senão nos problemas da historiografia "pública" dos anais ou crônicas, deixando de lado outras formas de registrar a memória, como as que analisa VAN HOUST, Elisabeth: Memory and gender in medieval Europe, 900-1200, London: Macmillan, 1999. -24 Além de Goffart, segui o estudo de Olivier Devillers e a sua tradução de Jordanes, Histoire des goths. Paris: Les Belles Lettres, 1995 (citação de LVIII, 315).

Gregório de Tours (ca. 538-594), bispo e membro de uma velha família senatorial, escreveu História dos francos (Historia francor um), na qual se propunha a "descrever as lutas dos reis contra as nações contrárias, a dos mártires contra os pagãos, a das igrejas contra os hereges". Dedicava os quatro primeiros livros ao relato da história do mundo e da dos francos, da criação ao ano de 575, enquanto que, nos seis últimos, a maior parte da obra, relatava os acontecimentos de apenas dezesseis anos, de 575 a 591. Embora tenha afirmado que lhe repugnava "recordar as vicissitudes das guerras civis que exaurem a nação e o reino dos francos", a história de Gregório explica um emaranhado de guerras, devastações, assassinatos, envenenamentos e maldades de todo tipo, em meio a uma natureza em que abundam desastres, anunciados quase sempre por sinais celestiais ou por presságios ("em meio à lua, viu-se uma estrela resplandecente"). Em algumas poucas linhas do quinto livro, por exemplo, fala-nos de um lobo que entrou na cidade de Poitiers, da enchente do rio Loire, de um vento sul quê "abateu bosques, demoliu casas e derrubou cercas, levantando no ar alguns homens até matá-los", de que os galos cantavam no início da noite, a lua^ escurecia, aparecia um cometa e se iniciava uma grande epidemia. No livro nono, explica-nos como, no outono de 587, os recipientes de algumas casas apareceram marcados com sinais estranhos que não podiam ser apagados, que, nos parreirais já amadurecidos, surgiram novos cachos deformados, que alguns homens afirmavam terem visto cair serpentes das nuvens, havendo muitos sinais que "costumam anunciar a morte de um rei ou uma catástrofe que cairá sobre uma região". Gregório, este "Heródoto da barbárie", escreveu num latim precário as coisas que viu, ouviu ou viveu, falando-nos de tempos cheios de crimes dos magnatas ou dos clérigos - "Cometeram-se muitas más ações nesta época" - , em que "bolas de fogo percorriam o céu durante a noite" e as chuvas, as pestes, os incêndios e as aparições dos falsos profetas (como o falso Cristo de Berry, que percorria as vilas fazendo milagres) eram um anúncio evidente de que chegara a época do "início das dores" e que o fim do mundo anunciado pelas profecias estava perto (Gregório contava 5.792 anos desde a criação do mundo até seus dias, o que implicava que o ano 6000, o do final das seis semanas milenares, estava próximo; o problema é

que a soma estava equivocada e que os tempos parciais que utilizava somavam realmente 6.063, ou seja, o mundo já deveria ter acabado).25 Na Inglaterra, a história começou com Gildas, um monge do século V, de cuja pessoa e vida nada sabemos. Escreveu De excidio Britanniae, (A destruição de "Bretana") aproximadamente em 479/485, mostrando as desgraças que a ilha havia padecido depois da saída dos romanos e da conquista pelos saxões. Atribuiu-as a um castigo divino, exortando, assim, os dirigentes à reforma moral. A mais importante das figuras da historiografia medieval britânica seria Beda (673-735), um monge dp mosteiro -de Jarrow que escreveu tratados sobre cronologia e sobre a data da Páscoa, comentários bíblicos e, principalmente, História eclesiástica do povo da Inglaterra, (Historia ecclesiastica gentis Anglorum), na qual, diferentemente de outras obras da época, não realizou uma crônica do mundo, mas falou apenas da Inglaterra, da invasão de Júlio César no ano 731 - que, para Beda, num período em que a contagem pelos anos da encarnação de Cristo ainda não se difundira, definia-se çomo o ano "em que morreu o arcebispo Bertwàld; o mesmo ano em que Tatwin foi consagrado nono arcebispo da igreja de Canterbury, no décimo quinto ano do reinado de Ethelbald, rei de Mércia" - , preocupando-se principalmente com os reinos saxões e celtas e com a expansão do cristianismo na ilha. O relato, apesar dos esforços para justificar a veracidade do que sabia "ou pelos escritos dos antigos ou péla tradição dos mais velhos, ou por meu próprio conhecimento", está cheio de presságios e, especialmente, de milagres realizados por santos locais, o que não devia surpreender o público que compartilhava a mesma visão de mundo. Eram, por outro lado, coerentes pois integravam uma obra que, como toda a historiografia cristã, tinha uma finalidade essencialmente religiosa.26 Depois de Beda,' a hisforiogra25 O texto de Gregório de Tours foi usado na tradução de LATOUCHE, Robert. Histoire des francs. Paris: Les Belles Lettres, 1996. As citações feitas correspondem, a I, prefácio; V, prefácio; V, 41; IX, 5; V, 49; VI, 32; VIII, 32 e X, 25. Sobre a equivocada soma da idade do mundo, WILCOX, Donald J..Measure of time past. Chicago: University of Chicago Press, 1987. p. 138-139. 26 Sobre Gildas, HIGHAM, N. J. The English conquest. Gildas and Britain in the fifth century. Manchester: Manchester University Press, 1994. Sobre a historiografia

fia britânica, reduzida a pouco mais que crônicas monásticas e anais, viveria uma decadência até ser recuperada como elemento de propaganda política ao final do século XIII. Um caso especial é o da Hispania visigoda, que teve um antecedente de "crônica goda" com Juan de Bíclaro (ca. 540 - ca. 621) que seguia a tradição dos discípulos de Eusébio. O expoente mais relevante é Isidoro de Sevilha (ca. 560-636), autor de Etimologias, uma compilação enciclopédica da parte do -saber clássico considerada compatível com o cristianismo, qUe se destinava a facilitar o acesso às obras dos aritigos a um público com dificuldades de compreender os termos e os conceitos nelas expressos. A obra teve grande difusão (calcula-se que foram feitas cerca de cinco mil cópias manuscritas de uma das diversas versões do texto). A parte dedicada a história encontra-se no quinto livro, "Sobre as leis e os tempos": inicia com uma consideração sobre o termo "crônica", segue com a divisão dos tempos em momentos, horas, dias (e noites), semanas, meses, anos, etc., e conclui com uma cronologia que se limita a fixar os marcos das seis idades em que se divide o curso completo da história ao longo dos 5857 anos transcorridos desde a criação. De muito menor transcendência, seria a produção propriamente histórica de Isidoro, integrada por História goda (De origene Gothorum), seguida de Histórias dos vândalos e dos suevos, que estavam destinadas a desempenhar uma função legitimadora semelhante à dos outros historiadores

inglesa medieval, GRANDSEN, Antónia. Historical writing in England. London: Routledge and Kegan Paul, 1974-1982. 2 v. (Sobre Beda, I, p. 13-28); HODGES, Richard. The Anglo-Saxon achievement. London: Duckworth, 1989. p. 102-115. Sobre Beda, ainda, STERN, I. The greater medieval historians: An interpretation and a bibliography. Washington: University Press of America, 1981. p. 83-92; a obra cronológica é analisada em BROST, Arno. The ordering of time. Cambridge: Polity Press, 1993. p. 36-41. Sobre as crônicas posteriores GALBRAITH, V. H. Historical research in medieval England, In: . Kings and chroniclers. London: Hàmbledon Press, 1982; CLANCHY, M. T.From memory to written record. England 1066-1307. Oxford: Blackwell, 1993. p. 100-101. As obras históricas de Beda foram utilizadas na edição Bede, Historical:works. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1979. 2 v. (as citações são da cronologia e da vida de Beda, no capítulo XXIV do quinto livro).

bárbaros. Esta primeira historiografia gótica não teria continuidade; o estado visigodo foi destruído pela invasão muçulmana e a historiografia cristã posterior teve que refazer a tarefa para acomodar a legitimação da monarquia asturiana, falseando uma continuidade do reino visigodo com o de Astúrias e inventando genealogias fantásticas dos novos dirigentes para fazer crer que eram descendentes de príncipes godos refugiados nas montanhas.27 O último dos grandes nomes da história bárbara é Paulo, o Diácono, ou Paulus Diaconus (ca. 720-799), filho de uma nobre família lombarda, educado na corte de Pávia. Ao cair o reino dos lombardos perante os exércitos de Carlos Magno, refugiou-se no mosteiro de Montecassino e escreveu História romana, completando-a, mais tarde, depois de visitar a corte dé Carlos Magno, com sua obra mais famosa, História dos Lombardos (Historia longobardorum), uma justificativa póstuma do "estado bárbaro desaparecido", apresentado como o "herdeiro legítimo da civilização romana". O livro nos explica a história dos lombardos desde as primeiras migrações, baseando-se geralmente em tradições orais. Focaliza, especialmente, a instalação dos mesmos na Itália, mostrando' os persona-

27 Uso o texto das Etimologias na edição bilíngüe de J. Oroz e M. A. Marcos (Madrid, B. À C., 1993-1995, 2 v.), com um extenso estudo preliminar de Manuel C. Diaz y Diaz. A obra propriamente histórica em Las historias de los godos, vândalos y suevos de Isidoro de Sevilla. Edição e tradução de Cristóbal Rodriguez Alonso. Leon: C. E. I. San Isidoro, 1975. Sobre Juan de Bíclaro, ou Bíclara, que seria o bispo de Gerona, e sobre a obra histórica de Isidoro, Kenneth Baxter Wolf, estudo preliminar de Conquerors and chronicles ofearly medieval Spain. 2nd ed. Liverpool: Liverpool University Press, 1999. GALÂN, Pedro Juan. El género historiográfido de la chronica. Las crónicas hispanas de época visigo da cárceres. [S.l.]: Universidade de Extremadura, 1994. p. 81-172 (sobre el Biclarense) e 175-208 (sobre a crônica de Isidoro). Sobre a historiografia asturiana posterior, BARBERO, A*; VIGIL, M. La formation dei feudalismo en la Península ibérica. Barcelona: Crítica, 1978. p. 236-247 e 263-278, e sobre o contexto político da historiogafia medieval hispânica, BARRAQUÉ, JeanPierre; LEROY, Béatrice. Des écrits pour les rois. Limoges: Pulim, 1999. Uma visão de conjunto com traduções fragmentárias que vão da Crónica albeldense (883) ao Chronicon Pelagii ovetensis (c. 1150) em CASARIEGO, Jesús E. Crónicas de los reinos de Astúrias y León. Madrid: Everest, 1985.

gens dramáticos de sua história, como Albuíno, e o complexo processo da cristianização, que começara no arianismo.28 Paulo foi, como dissemos, na corte de Carlos Magno, um centro de renascimento cultural em que, com a pretendida recuperação do Império, despertaria o interesse pela cultura clássica. Einhard, ou Eginardo, (ca. 770-840), homem de confiança,do imperador, escreveu uma Vida de Carlos Magno, tomando como modelo as de Suetônio, especialmente a que este dedicara a Augusto. Obra apologética, a recuperação da cultura clássica que nela se tenta levar a cabo limita-se aos aspectos formais e literários, já que Eginardo não tinha nenhum interesse em transcrever fielmente os documentos e os textos em que se inspirava, como os diversos Anales carolíngios, cometendo erros freqüentes. A recuperação real da historiografia clássica - a do sentido, e não a do estilo - ainda tardaria séculos.29 -28 DIÁCONO, Paolo. Storia déi longobardi. Edição bilíngüe de Antônio Zanella. Milano: Rizzoli, 1993. Sobre o autor, além de Goffart (p. 329-431), BULLOGH, Donald. Ethnic history and the carolingians: an alternative reading Of Paul the Deacons Historia Langobardorum. In: HOLDSWORTH, Christopher; WISEMAN, T. P. (Ed.). The inheritance of historiography, 350-900. Exeter: Exeter Universiy, 1986. p. 85-105. A representatividade dos autores que citamos nos é mostrada pela freqüência com que os encontramos nas bibliotecas medievais: na do mosteiro de Reichenau, por exemplo, os historiadores se reduziam a pouco mais que Eusébio de Cesaréia, Orósio, Flávio Josefo (numa versão latina), Isidoro de Sevilha, Beda, Gregório de Tours e Eginardo (HERRIN, Judith. The formation of Christendom. Oxford: Blackwell, 1987. p. 482-483). 29 EGINHARD. Vie de Charlemagne. Edição e tradução de Louis Halphen. Paris: Les Belles Lettres, 1994 e a tradução de Lewis Thorpe a Einhard and Notker the Stammerer (Notkerus Balbulus), Two lives of Charlemagne. Harmondswoth: , Penguin, 1969. Sobre a obra de Notker e a existência de uma tradição cultural laica, em boa medida oral, INNES, Mattew. Memory, orality and literacy in an early medieval society. Past and Present, n. 158, p. 3-36, 1998; STERN, I. The Greater medieval historians: An interpretation and a bibliography. Washington: University Press of America, 1981. p. 97 et seq. Anales del império mrolingio (anos 800-843). Edição de Javier Del Hoyo e Bienvenido Gazapo. Madrid: Akal, 1997. O volume de HEN, Yitzhak; INNES, Matthew (Ed.). The uses of the past in the early middle ages. Cambridge: Cambridge University Press, 2000, e o texto de McKITLERICK, Rosamond. History and its audiences. Cambridge: CambridgeUniversity Press, 2000, mè foram enviados demasiadamenfe tarde para poder tirar proveito deles.

A esta série de "narradores da história bárbara", poder-se-ia acrescentar, mesmo que corresponda a uma época mais tardia, o islandês. Snorri Sturluson (1179-1241), autor de História dos reis da Noruega (Heimskringla) na qual ele mesmo afirma ter se baseado, em parte, "nas relações genealógicas em que os reis e outros grandes fixaram sua ascendência paterna e, em parte, nos velhos cantos e poemas épicos cuja recitação constituía uma espécie de diversão".30 No auge dó feudalismo, surgiria, na Europa ocidental, uma nova historiografia "cavalheiresca" posta a serviço das monarquias e da aristocracia feudàl: uma historiografia não escrita exclusivamente nos mosteiros, dirigida a um público mais amplo e que adota, para isso, as línguas vulgares. É o momento, por um lado, das canções de gesta, como o Parsifal ou canção de Roland (onde a derrota do exército carolíngio em Róncesvales - vítima da "perfídia basca" dissera Eginardo - , converte-se numa vitória sobre mais de cem mil sarracenos) e, por outro lado, da nova historiografia que tem reis e cavaleiros çomo protagonistas.3' O resultado serão as histórias das cruzadas, como a crônica de Guillaume de Tyr (ca. 1130-1186), escrita em latim, ou como A conquista de Constantinopla, de Geofiroi de Villehardouin (ca. 1150 - ca. 1213), que havia sido um dos chefes da quarta cruzada: uma das primeiras crônicas escritas em francês, que trata de justificar a atuação dos cruzados sem deixar de explicar os saques e as regras de partilha dos despojos, o que levaria à

30 E acrescenta: "E ainda que ignoremos até que ponto estas obras são dignas de fé, sabemos que, na época antiga, os eruditos consideravam-nas como tais". STURLUSON, Snorri. Histoire des rois de Norvège. Primeira parte, tradução, estudo preliminar e notas de F. X. Dillmann. Paris: Gallimard, 2000 (citação da p. 519). 31 Eginhard, 9 ("wasconicam perfidiam"): na Chanson, âfirma-se que os sarracenos reuniram, em Zaragoza, 400.000 homens (LXVTII) e, em RoncesVãlles, tantos que Oliver estima que mais nuls hom en tere nen vit plus e que cil devant sunt C. mïlie ad escuz (LXXXII). Sobre as novas crônicas em língua vulgar, SPIEGEL, Gabrielle M. Social change and literary language. The textualízation of the past in thirteenthcentury old French historiography. In: . The past as text. The theory and practice of medieval historiography. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1999. p. 178-194.

forca alguns cavalheiros, que tinham tentado roubar por conta própria. Ou, como a de Jean de Joinville (1225-1317), que transformou as recordações pessoais da cruzada do Egito e do cativeiro ao lado do rei numa glorificação de Luís IX; a História de São Luís.32 É também o momento das Grandes chroniques de France, uma compilação de obras históricas elaborada entre o século XIII e o XV na abadia de Saint-Denis (da qual se conservam mais de cem manuscritos), da História dos reis da Inglaterra, (Historia regum Britanniae), de Geoffrey de Monmouth (morto em 1155), um dos livros mais populares da época, que mistura história e ficção (inicia o relato com a chegada dos troianos ji Inglaterra, temperando-o, depois* com a história das conquistas de Artur e das profecias de Merlin), da General Estória de Afonso X de Castela (para quem a elaboração histórica estava ligada a suas pretensões imperiais), das quatro grandes crônicas catalãs (das quais, a de Muntaner e a do rei Pere, o Cerimonioso, são, sobretudo, relatos de fatos vividos, escritos com um forte jcunho pessoal), das Crônicas de Pedro Lopez de Ayala (1332 - ca. 1407), testemunho parcial e distorcido de um tempo de guerras civis em Castela, ou da grande celebração do mundo da nobreza cavalheiresca que são as Crônicas da França, Inglaterra e dos países vizinhos de Jean Froissart (ca. 1337 - ca. 1410), que nos explica, a partir de informações orais e de recordações pessoais, a glória da aristocracia nos tempos da guerra dos cem anos - "as grandes maravilhas e os lindos feitos de armas qúe ocorreram por ocasião das grandes guerras da França, da Inglaterra e dos países vizinhos" -,.de uma maneira pitoresca e superficial, o que torna compreensível seu êxito (conservam-se mais de cem manuscritos). Entretanto, o testemunho do homem que Allmand qualificou como "o mais importante dos correspondentes de guerra da baixa idade média", não nos serve para nada, quando o que queremos é

32 VTLLEHARDOUIN, Geofifroi. La conquête de Constantinople, LVI. Uma compilação de outros textos de crônicas das cruzadas em RÉGNIER-BOHLER, Danielle (Ed.). Croisades et pèlerinages. Récits, chroniques et voyages en Terre Sainte, XII'-XVl* siècle. Paris: Robert Laffont, 1997.

nos informar, não das proezas dos cavaleiros, mas, sim dos sofrimentos da gente comum em um século de peste e miséria.33 A igreja e a nobreza estabeleceram a teoria das três ordens ou estados - os cavaleiros, os clérigos e os que trabalham - para justificar, com a pretensão de "divisão social" das responsabilidades coletivas, uma situação de privilégio. A visão de mundo, elaborada conjuntamente, tinha fundamento na interpretação da história escrita nosritosteirose nas cortes. Contra ela, os dissidentes e os excluídos construiriam uma versão alternativa, expressa no terreno religioso pela heresia popular igualitária que tinha sua própria literatura, perdida em boa parte em conseqüência da repressão - ou por visões milenaristas, assentadas em modelos proféticos como o de Joaquim da Fiore (ca. 1132-1202), que, no Livro das figuras, apresentava uma complexa articulação de etapas cósmicas e trinitárias que serviam para anunciar que, depois da idade do Pai (o Antigo Testamento) e da do filho (a do Evangelho), vinha uma terceira idade, a do Espírito Santo, que já se iniciara, mas culminaria - uma vez vencido o Anticristo e renovada a Igreja - em tempos de paz e de felicidade coletiva. O programa joaquimita incitaria muitos a pensar que era necessário acelerar a plenitude dos novos tempos com uma participação ativa na reforma da Igreja e na transformação da sociedade. No terreno civil, por outro lado, uma cultura popular de sátira e degradação, expressa na literatura e na festa, colocava em dúvida a validade do ideal cavalheiresco,34

33 GUENÉE, Bernard. Les Grandes Chroniques de France. In: NORA, Pierre (Ed.). Les Lieux de méinoire. Paris: Gallimard, 1997.1, p. 739-758; GRANDSEN, Antónia. Historical writing in England. II: c. 1307 to the early sixteenth century. London: Roudedge and Kegan Paul, 1982; BUMKE, Joachim. Courtly culture. Literature and . society in the high middle ages. Berkeley: University of California Press, 1991; RICO, Francisco. AlfonSo el Sabio y La General Estoria. Barcelona: Ariel, 1975; VONES, Ludwig. Historiographie et politique: l'historiographie castillane aux abords de XIV' siècle. In: GENET, ). P. (Ed. J. L'historiographie médiévale, p. 177-188; RUBIÓ, Jordi. História i historiografia. Montserrat: Abadia, 1987; ALLMAND, Christopher. La guerra de los Cien afios. Barcelona: Crítica, 1990. 34 Existe uma amplíssima literatura sobre estas questões, da qual me limitarei a lembrar McGINN, Bernard. Visiôns of the end. Apocalyptic traditions in the middle ages. New York: Columbia University Press, 1970. p. 126-141; REEVES, Mar-

de maneira que os camponeses ingleses do século XIV, ou os alemães do princípio do século XVI, deixaram de crer que a estrutura trinitária da sociedade estamental fosse "um reflexo divino da divisão funcional do trabalho na sociedade".35 Reflexão política e mudança nos modelos de explicação histórica haveriam de estar forçosamente associados. Foi, entretanto, na Itália, país em que coexistiam as monarquias e as cidades-estado republicanas, que surgiria uma visão de mundo que se expressaria em inovações culturais como o primeiro humanismo de Pádua, o pensamento político de Dante - que "queria superar o presente com os olhos fixos no passado" - ou a arte realista de Giotto - que "captou a autoconfiança e o caráter prático dos que viviam do comércio, eStavam à frente da comune, e estendiam um controle agressivo sobre o campo". Quando a crise do século XIV evidenciou as limitações deste mundo, os humanistas florentinos potencializa-

jorie; HIRSCH-REICH, Beatrice. The figurae ofJoachim of Fiore. Oxford: Clarendon Press, 1972; LAMBERT, Malcolm. Medieval heresy, Popular movements from Bogumil to Hus. London: Edward Arnold, 1977. p. 101-102 e 186-197; WILLIAMS, Ann (Ed.). Prophecy and millenarianism. Essays in honour of Marjorie Reeves. London: Longman, 1980; GUADALAJARA, José. Las profecias del Anticristo en la edad media. Madrid: Gredos, 1996; POU Y MARTÍ, P. J. Visionários, beguinos y fraticelos catalanes (siglos XII-XV). Alicante: Instituto de Cultura Juan Gil Albert, 1996, etc. Sobre a cultura popular alternativa, ver Bakhtin, Gurevich, Spierenburg, etc. 35 Sobre a literatura dos dissidentes reliogiosos, BILLER, Peter; HUDSON, Anne (Ed.). Heresy and literacy, 1000-1530. Cambridge: Cambridge University Press, 1994; FICHTENAU, Heinrich. Heretics and scholas in the high middle ages, 10001200. University Park: Pennsylvania State University Press, 1998. Sobre 6 bogomilismo concretamente, IVANOV, Jordan. Livres et légendes bogomiles. Paris: Maisonneuve et'Larose, 1976; a heresia dos cátaros é, hoje, objeto de divulgação. Sobre as idéias dos camponeses ingleses dp século XIV: HILTON, Rodney. Bond men made free. Medieval peasant movements and the English rising of 1381. London: Temple Smith, 1973 e JUSTICE, Steven Writing and rebellion. England in 1381. Berkeley: University of California Press, 1996. A citação final é de BULKING, Jurgen. The peasant War in the Habsburg Lands as a Social Systems-Conflict. In: SCRIBKfER, Bob; BENECKE, Gerhard (Ed.). The German peasant war of 1525. New viewpoints. London: Allen and Unwin, 1979. p. 160-173; citação literal da p. 163.

ram a reflexão crítica e reencontraram-se em sintonia com o tipo de visão civil e política dos velhos historiadores da antiguidade clássica: o que estava começando era, mais do que o rènascimento da cultura clássica, o nascimento de uma nova sociedade.36

36 A caracterização da arte de Giotto é de MARTINES, Lauro. Power and imagination. City-states in Renaissance Italy. New York: Knopf, 1979. p. 249-250. A avaliação do pensamento político de Dante, de GRAMSCI, Antonio. Il Risorgimento. Torino: Einaudi, 1949. p. 7.

Capítulo 3

RENASCIMENTO E RENOVAÇÃO DA HISTÓRIA

Falar dé humanismo e de renascimento - ou de humanismo renascentista, como se faz freqüentemente, ligando e, de algum modo, identificando os dois conceitos - significa entrar num terreno confuso. Isto acontece, já de início, pela necessidade de definir o que entendemos por estas palavras, especialmente quando pretendemos aplicá-las tanto à filosofia, como à arte, à ciência, à literatura etc.1 Em sentido mais amplo, pode-se buscar a origem do renascimento tão distante quanto se queira - é comum falar de "Renascimento carolíngio" - e ver o humanismo como contraponto ao escolasticismo (como o enfrentamento entre retórica e dialética) ou como um componente que já está presente no próprio escolasticismo, falando-se, então, de humanismo escolástico.2 Com conceitos vagos e sufi1 Não é este o lugar para fazer uma-história das interpretações sobre o humanismo e o renascimento, que nos diria muito mais sobre os conceitos historiográficos dos séculos XIX e XX do que sobre os dos séculos XV e XVI. Seria necessário começar, • no século XVIII, com Herder, passar ao XIX com Michelét - que, segundo Lucien Febvre, teria "criado o Renascimento" (FEBVRE, Lucien. Michelet et la Renaissance. Paris: Flammarion, 1992. p. 36) - , seguir com Burckhardt, Dilthey, Cassirer, Paul Oskar Kristeller, Chabod (Escritos sobre el Renacimiento. México: Fondo de Cultura Económica, 1990), Eugênio Garin (especialmente La revolución cultural dei Renacimiento. Barcelona: Crítica, 1981), etc. O que está claro é que o conceito de Renascimento nasceu paralelamente ao de idade média, e destinada a servir de intervalo que separa duas épocas. 2 < A primeira postura é, por exemplo, a de RUMMEL, Erika. The humanist-scholastic debate in the Renaissance and Reformation. Cambridge, MA: Harvard University

cientemente amplos, é possível argumentar o que Se queira. Alguns vêem o humanismo como um componente essencial das grandes mudanças políticas e ideológicas do final da Idade Média e do começo da modernidade; outros, hostis à utopia republicana florentina - como de resto, a qualquer utopia - , pretendem ignorar qualquer conteúdo político e reduzi-lo à retórica. O humanismo é ambas coisas; nele, retórica e política coexistem inseparavelmente, ainda que seja em proporções diversas, de acordo com o caso. No que se refere à história, concretamente, é necessário que dele nos aproximemos pelos dois caminhos paralelos dafilologiae da política.3 Na origem, aparece principalmente afilologia.O caso mais famoso é o de Lorenzo Valia (1407-1457), humanista que se esforçou em recuperar a elegância do latim da antiguidade (De elegantiis linguae latinae), que comparava òs manuscritos gregos e latinos do Novo Testamento a fim de depurar o texto da Vulgata (em Aânotationes in Novum testamentum, publicada por Erasmo), que realizou boas traduções de Heródoto e de Tucídides para o latim e que escreveu uma história de Fernando I de Aragão (Historiarum Ferdinandi Régis Aragoniaé), imitando os modelos antigos. Deve sua fama, entretanto, ao fato de ter aplicado um método de investigação histórico-filológica à análise de A falsa doação de Constantino (De

Press, 1995, embora aim muitos matizes; a segunda, a de SOUTHERN, R. W. Scholastic humanism and the unification of Europe, I. Foundations (o único dos três volumes previstos que foi publicado até agora). Oxford: Blackwell, 1995, que considera o escolasticismo do século XII o precursor de um "humanismo científico", não precisamente literário, que reapareceria "nos desdobramentos científicos dos séculos dezenove e vinte" (p. 21), ou a do desafortunado livro de COLISH, Márcia L. Medieval foundations of the Western intellectual tradition. New Haven: Yale University Press» 1997. Uma ampla coleção de estudos poderá ser encontrada em RABIL • JR., Albert (Ed.). Renaissance Humanism. Foundations, forms and legacy. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1988. 3 v. Sobre sua influência, GOOD- MAN, Anthony; MACKAY, Angus (Ed.). The impact of humanism on western Europe. London: Longman, 1990. 3 Uma boa introdução ao debate é encontrada no livro de GARIN, Eugénio. Umanisti artisti scienzati. Roma: Riuniti, 1989. O medo "post-1989" da utopia leva Alberto Savinio a apresentar uma edição de La città del sole de Campanella (Milano: ' Adelphi, 1995) com estas palavras: "Como modelo de república a imitar'A cidade do sol' é um modelo a não imitar" (p. 22).

falso credita etementita Constantini donatione,1440). Graças a ele, pôde denunciar a falsidade da doação imaginária, com que o imperador Constantino transferira o poder temporal sobre a Itália e todas as províncias ocidentais do império ao papa Silvestre I. Valia, que estava a serviço de Afonso, o Magnânimo, então em luta contra Roma, fez uma crítica demolidora da falsificação, utilizada pelos papas para fomentar pretensões de superioridade sobre os governantes civis do Ocidente. Em brilhante demonstração, escrita como uma acusação judicial, provou que o documento era inaceitável do ponto de vista histórico, utilizou argumentos arqueológicos e historiográficõs para evidenciar que ninguém havia se referido ao mesmo durante séculos e assinalou os anacronismos e as incoerências do texto (fala de sátrapas reunidos com os senadores de Roma ou de Constantinopla quando ainda não havia sido fundada), ao lado de inexplicáveis erros de linguagem ("princeps sacerdotibus", ao invés de "princeps sacerdotum"), etc. O texto de Valia não era propriamente de crítica histórica, mas tinhá intenção política e religiosa, manifestada no argumento final, quando afirma que, mesmo que a doação tivesse sido autêntica, se teria extinguido por direito, em razão dos crimes que desencadeara. Concluindo, expressava a esperança de que chegaria o dia em que o papa, ao invés de incitar os cristãos à guerra, levaria a paz ao mundo.4 Mais tarde, a críticafilológicafoi aplicada principalmente na edição de textos - quando, com a difusão da imprensa, se fez necessário comparar os diversos manuscritos dos clássicos para estabelecer versões confiáveis - e nem sempre foi realizada com a competência de Valia ou dé Ânge4 DI NAPOLI, Giovanni; VALLA, Lorenzo. Fibsofia e religione nell'umanesimo italiano. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 1971; GARIN, Eugénio. Lorenzo Valla e l'umanesimo. In: . Umanisti artisti scienzati. Roma: Riuniti, 1989. p. 75-89. Os textos foram usados nas edições de VALLA, L. Scrittifilosofici e religiosi. Firenze: Sansoni, 1953, a bilíngüe' da La falsa donazione di Costantino. Organizada por Olga Pugliese. Milano: Rizzoli, 1994 (faço citações de III, 10; XII, 38-39; XIV, 43-44 e XXIX, 94 e 99) e a Historiarum Ferdinandi, fac-símile, de Valença, Anubar, 1970, com prólogo de Pedro López Elum. Foi "o descobrimento acidental das notas de Lorenzo Valia sobre o Novo Testamento" que estimulou Erasmo a realizar sua qbra filológica (LEVINE, Joseph M. The autonomy of history. Truth and method from Erasmus to Gibbon. Chicago: University of Chicago Press, 1999. p. 27).

lo Poliziano (1454-1494). A maioria dos humanistas não tinha uma boa preparação filológica, intervindo nos textos com interpretações pouco fundamentadas.5 No que se refere à história — deixando de lado exceções como a de Flávio Biondo (1392-1463) que, ao escrever um conjunto de obras sobre a antiguidade romana (Roma instaurata, Roma triumphans,etc.), esclareceu os textos antigos com elementos extraídos de documentos, da topografia ou de achados arqueológicos - os métodos críticos tardaram bastante a serem aplicados. Nela, dominava a retórica, encontrando-se casos tão espetaculares como o de Giovanni Nanni, conhecido como Annio de Viterbo (1432-1502), que fingiu ter descoberto um conjunto de obras históricas antigas perdidas, para fabricar uma narração cheia de detalhes inventados da história dos povos europeus na antiguidade. As fabulações de Nanni constituem o primeiro capítulo de umá família de obras do mesmo estilo, entre as quais é necessário incluir as fantasias dos "Cronicones " espanhóis do século XVII, tomo Población eclesiástica de Espana de frei Gregório de Argaiz que, entre outras maravilhas, transcrevia as cartas em que os judeus de Jerusalém consultavam os de Toledo sobre o que deviam fazer com Jesus Cristo, uma vez preso. Esta mesma falta de sentido crítico explica a aceitação da cronologia estabelecida pela patrística — um livro de texto universitário espanhol de meados de século XIX defendia, ainda, que, da criação do mundo até então, haviam transcorrido menos de seis mil anos - , a continuação do uso das pautas proféticas da história cristã como instrumento para conhecer o futuro: na Inglaterra do século XVII, os partidários da "quinta monarquia" continuavam analisando a visão de Daniel, enquanto Newton estudava as profecias sobre o fim do mundo, escrevendo um tratado sobre La cronologia de los

5 WILAMOWITZ-MOELLENDORFF, U. von. Storia dellafilologiaclassica. Torino: Einaudi, 1967; PFEIFFER, Rudolf. History of classical scholarship, 1300-1850. Oxford: Clarendon Press, 1976; WEISS, R. The Renaissnace discovery of classical antiquity. Oxford: Bladcwell, 1973; EISENSTEIN, Elizabeth L. The printing press as an agent of change. Cambridge: Cambridge University Press, 1980; DIONISOTTI, Carlo. Aldo Manuzio umanista e editore. Milano: II Polifilo, 1995; KENNEY, Edward John. Testo e metodo. Roma: GEI, 1995. etc.

antiguos reinos corregida, no qual se podem encontrar racionalizações da mitologia tão singulares como a que afirma que, no ano 1030 a. C., "Ceres, uma mulher da Sicília, procurando a filha raptada, chega à Ática, onde ensina os gregos a semear trigo".6 Os avanços mais interessantes no campo da Jiistória não viriam da vertente retórica do humanismo que buscava escrever relatos literários adequados estilisticamente aos modelos clássicos - um tratadista tardio, como Luís Cabrera de Córdoba (1559-1623), mostrava-se preocupado, sobretudo, com temas como "o bom som da oração" ou "a antonomásia e epíteto" - , temperados com cenas de batalhas convencionais e com discursos imaginários. "A exatidão dos fatos - disse Frances A.Yates - , o uso das fontes documentais e a análise das conexões causais entre os acontecimentos eram aspectos subsidiários ao objetivo central de uma história verdadeira: explicar a ética por meio de exemplos." Somente em alguns casos isolados, como no de Paolo Giovio (1483-1552) que se dedicava a temas contemporâneos e dava à história "um trata6 Sobre os cronicones espanhóis, ALCÂNTARA, José Godòy. Historia crítica delosfalsos cronicones. Madrid: Alatar, 1981 (a edição original é de 1868) e BAROJA, Julio Caro. Las falsificaciones de la historia (en relación con la de Espana). Barcelona: Seix Barral, 1992. Os textos comentados são de Frei Gregório de Argaiz, Población eclesiástica de Espana. Madrid, 1667-1669.1, parte2. p. 91-95 e de Joaquim Federico de Rivera (catedrático "proprietário" da história na Universidade de Valladolid), Curso Elemental de historia. Valladolid: Aparício, 1849.1, p. XIII. A persistência da fé nas falsificações pode ser vista numa obra anônima, Lá crisis Ferrérica, Zaragoza, s.i., 1720, que inicia com uma frase de Mabillon, mas defende a veracidade de todas as fábulas tradicionais. Sobré Biondo, COCHRANE, Eric. Historiam and Historiography in the Italian renaissance. Chicago: University of Chicago Press, 1981. p. 35-40. Sobre cronologia, WILCOX, D. J. The measure of time past. Chicago: University of Chicago Press, 1987; HALL, A. Rupert Isaac Newton adventurer in thought. Oxford: Blackwell, 1992. p. 339-348,372-374 (sobre sua estranha visão dé uma nova Jerusalém onde os ressuscitados viveriam junto aos vivos), etc.; WHITE, Michael. Isaac Newton. The last sorcerer. London: Fourth estate, 1997; NEWTON, Isaac. The chronology of ancient Kingdoms amended. London: [s.n.], 1728 (edição fac-símile de Londres, Histories & Misteries of Man, 1988), citação da p. 15, Ecrits sur la réligion. Paris: Gallimard, 1996. p. 225-247 ("Fragments d'un traité sur l'Apocalypse") e 249-262 ("Du jour du jugement et du monde à venir"); MIEGGE, Mario. Il sogno del re di Babilônia. Profezia.e storia da Thomas Muntzer a Isaac Newton. Milano: Feltrinelli, 1995.

mento jornalístico", o conteúdo informativo seria mais importante do que a retórica moralizante.7 Embora os modelos clássicos proporcionassem interpretações formuladas em termos humanos, não seria a influência literária a causa principal que levou alguns historiadores a evoluir em direção a uma história de inspiração secular, mas as exigências da reflexão e das práticas políticas. O renascimento dos estudos literários esteve associado às necessidades derivadas do incremento da autonomia das cidades, que exigia a formação de representantes diplomáticos, juízes e funcionários, ao mesmo tempo que buscava fundamento histórico nos velhos modelos da pólis grega e da república romana. "Assim, a civilização humanística apresentase como uma mediação entre a situação histórica atual e as formas político-culturais da antigüidade."8 Seria principalmente em Florença, cidade rica e progressista, com uma sociedade diversificada que ia da opulência dos banqueiros à insegura condição dos proletários, que as novas idéias se desenvolverám, num meio de advogados e de notários que uniam a dupla condição de letrados e de participantes ativos na vida pública. Esta vinculação à políti7 YATES, Frances A. The history. In: . Renaissance and reform: the Italian contribution (Collected essays, II). London: Routledge and Kegän Paul, 1983. p. 8993 (citação da p. 89), a citação de Cabrera de Córdoba é da De historia, para entenderia y escribirla. Madrid: Instituto de Estudos Políticos, J948. p. 11 (o texto é de 1611). Sobre a historiografia humanística em geral, KELLEY, Donald R. Humanism and history. In: RABIL JUNIOR, Albert. Renaissance humanism. Foundations, forms, and legacy. Philadelphia: III, p. 236-270, etc. Um exemplo de história humanística convencional, é o dás obras "hispânicas" de Lúcio Marineo Siculo, como De Aragoniae regibus et eorum rebus (1509, tradução castelhana, Crónica de Aragón, em 1524). Sobre Giovio, COCHRANE, Eric. Historians and Historiography in the Italian renaissance. Chicago: University of Chicago Press, 1981. p. 366-375 e FUETER, Eduard. Storia delia storiografia moderna. Milano: Ricciardi, 1970. p. 65-71, que é quem o qualifica de "jornalista". 8 FERRARIS, Maurizio. Storia dell'ermeneutica. Milano: Bompiani, 1988. p. 31; GRANDSEN, Antonia. Historical writing in England, II. London: Routledge and Kegan Paul, 1982. p. 469; HALE, John. La civilización del Renacimiento en Europa, 1450-1620. Barcelona: Crítica, 1993. p. 195; REYNOLDS, Beatrice. Shifting Currents in Historical Criticism. In: KRISTELLER, P. O.; WIENER, P. P. (Ed.). Renaissance Essays. New York: Harper and Row, 1968. p. 115-136.-

ca de homens como Bruni, Maquiavel ou Guicciardini os levou a focalizar o estudo da história à luz da própria experiência, "unindo a paixão do presente à visão de um passado" que se esforçavam em, compreender na sua realidade.9 Florença sofreria uma série de crises políticas entre 1402 e 1527, no contexto geral dó "choque entre as liberdades das cidades-estado sobreviventes e a expansão do despotismo das grandes monarquias". Em 1434, os Médici tinham conseguido controlar o governo, dirigindo-o durante sessenta anos sem abolir de fato as instituições republicanas, numa longa etapa de prosperidade que facilitava a paz social. O regime desapareceu em 1494, ante a invasão francesa, estabelecendo-se, então, uma nova constituição republicana que outorgou maior participação política às camadas médias e populares. Os anos desta etapa, que duraria até 1512, foram tempos dè comoções, que assistiram a pregação de Savonarola - que afirmava que "era necessário instituir que a autoridade de distribuir ós cargos e as honrariasresidiaem todo o povo", fazendo construir, para isso, a "sala dos quinhentos" para o Grande Conselho do povo - e sua morte em praça pública, em meio a tensões sociais, agravadas pela crise econômica. De 1512 a 1526, houve um novo período de governo dos Médici e uma segunda fase republicana entre 1527 e 1530.10, Nesse cenário tão complexo e neste momento confuso, deu-se o surgimento de uma consciência política que se expressaria em novas formas 9 HAY, Denis. Profilo storico dei Rinascimento italiano. Firenze: Sansoni, 1970; MARTINES, Lauro. The social world of the Florenfine humanists, 1390-1460. Princeton: Princeton University Press, 1963, e Power and imagination. City-states in renaissance Italy. New York: A. A. Knopf, 1979; GARIN, Eugênio. Los cancillerés humanistas de la república florentina. In: . La revolución cultural del Renacimiento. Barcelona: Crítica, 1981. p. 73-105. 10 GILBERT, Felix. Machiavelli e Guicciardini. Pensiero politico e storiografia a Firenze nel Cinquecênto. Torino: Einaudi, 1970; KENTE, Dale. The rise of the Medici. Faction in Florence, 1426-1434. Oxford: Oxford University Press, 1978; HALE, J. R. Florence and the Medici. The Pattern of Control. London: Thames and Hudson, 1977; COCHRANE, Eric. Florence in the Forgotten Centuries, 1527-1800. Chicago: Chicago University Press, 1973; TREXLER, Richard C. Public life in renaissance Florence. Ithaca: Cornell University Press, 1991.

de escrever a história, já anunciadas por Leonardo Bruni (ca. 1370-1444) que, em Laudatio Florentinae urbis, uniu ao panegírico habitual do meio físico e da cultura o do regime político que fazia da cidade "uma suprema e concordada república" e que, na Historia dei pueblo florentino, criou o modelo, seguido mais tarde por Maquiavel, de uma identificação entre Florença e a Roma republicana, como um método para elaborar um tipo de história que pudesse servir dè base a uma reflexão geral sobre a sociedade, de acordo com o propósito de relacionar a filosofia e a política." Nicolau Maquiavel (1469-1527) era filho de humanista e recebeu uma excelente educação (entre os livros do pai, sabemos quefiguravamas Décadas de Tito Lívio). Os primeiros anos de atividade parece terem sido dedicados ao mundo dos negócios; entrou, em 1498, no serviço político de Florença e apesar de sua posição social - pertencia ao ramo empobrecido de uma boa família - , não lhe permitir optar por cargos como o de embaixádor ou governador, aos quais pôde aceder o amigo Guicciardini, teve responsabilidades importantes e realizou um trabalho diplomático de primeira ordem. No terreno da política interna, apoiou a república contra a aristocracia, de maneira que os Médici o destituíram do cargo que exercia na chancelaria em 1512, o encarceraram e torturaram —ficariamdisso, nos dirá, "seis marcas de corda nas costas" - por ter sido denunciado falsamente como participante de uma conspiração e o enviaram ao exílio. Foram os anos de ócio político no campo - jogando cartas na taberna com "um açougueiro, íim moleiro e dois padeiros" e lendo os clássicos à noite - que 11 BARON, Hans. The crisis of the early Italian renaissance. Civic humanism and republican liberty in an age of classicism and tyranny. 2nd ed. rev. Princeton: Princeton University Press, 1966; In search offlorentine civic humanism. Essays on the transition from medieval to modern thought. Princeton: Princeton University Press, 1988. 2 v. (Citações de I, p. 46 e p. 92). Uma avaliação atual da obra de Baron pode-se encontrar no "fórum" que lhe dedicou American historical review, p. 107-144, Feb. 1996 e uma de Baron e de Bruni ao mesmo tempo, em GARIN, Eugénio. Leonardo Bruni: política e cultura. In; . Umanisti artisti scienzati. Roma: Riuniti, 1989. p. 35-47. A Laudatio foi usada na tradução italiana, Panegírico delia città di Firenze. Firenze: La Nuova Italia, 1974 (uma citação da p. 83). KOHL, Benjamin G.; WITT, Ronald G. The earthly republic. Italian humanist on government and society. Manchester: Manchester University Press, 1978; BRUCKER, Gene. The civic world of early renaissance Florence. Princeton: Princeton University Press, 1977.

lhe permitiram levar a cabo a obra de literato e de teórico da política. Recuperou, mais tarde, o beneplácito dos Médici e o cardeal Júlio o protegeu e o chamou a Roma em 1524, quando se tornou papa sob o nome de Clemente VII. A restauração da república em Florença, em maio de 1527, despertou nele a esperança de que voltassem a chamá-lo para o antigo posto na chancelaria - nunca abdicou das idéias republicanas - mas, em Florença, não confiavam nele, de maneira que um Maquiavel amargurado e doente morreria pouco depois, magoado pela desconsideração. Suas obras seriam logo após condenadas pela Igreja, incluindo as Istorie fioréntine, que haviam sido escritas por solicitação do papa Clemente VII e publicadas com autorização do pontífice (depois de algumas tentativas de submetê-las a correções, a Inquisição decidiu que era o próprio autor quem deveria ser condenado).12 Maquiavel é famoso, e difamado, por sua reflexão política em O príncipe, pequeno texto escrito em 1513: um tratado destinado aos Médici, na expectativa de obter deles algum trabalho para sair da pobreza, apresentado como uma demonstração de que "os quinze anos que dediquei ao estudo da arte não os passei nem dormindo nem brincando". Publicado em 1532, cinco anos depois de sua morte - o único texto político de Ma12 A bibliografia sobre Maquiavel é imensá e aumenta a cada dia. No que se refere à biografia, foi usado sobretudo a de RIDOLFI, Roberto. Vila de Niccold Machiavelli. 7. ed. amp. Firenze: Sansoni, 1978. Utilizou-se, ainda, CHABOD, Federico. Scritti su Machiavelli. Torino: Einaudi, 1964; O livro tradicional, já citado, de Felix Gilbert, Machiavelli e Guicciardini. MACEK, Josef. Machiavelli e il machiavellismo. Firenze: La - Nuova Italia, 1980; DIONISIOTTI, Carlo. Machiavellerie. Torino: Einaudi, 1980; SASSO, Genaro. Niccold Machiavelli. Bologna: II Mulino, 1980; GRAZIA, Sebastian di. Machiavelli in hell. Princeton: Princeton University Press, 1989; YATES, Frances A. Not a machiavellian. In: . Renaissance and reform: the italian contribution. London: Routledge and Kegan Paul, 1983. p. 94-100; STEPHENS, J. N.; BUTTERS, H. C. New light on Machiavelli. English Historical Review, XCVII, n. 382, p. 54-69, 1982, etc. O verso sobre as marcas de corda nas costas é do poema "A Giuliano di Ló-_ renzo de Medici", em II teatro e tutti gli scritti letterari. Ed. De Franco Gaeta. Milano: Feltrinelli, 1965. p. 362. Cito também a famosa carta de Maquiavel a Fancesco Vettoride 10 de dezembro de 1513 em que desCreve a vida que leva em seu retiro, enquanto escreve O príncipe (em Cartas privadas de Nicolàs Maquiavel. Tradução e notas de ' L. A. Arocena. Buenos Aires: Eudeba, 1979. p. 114-120).

quiavel impresso em vida seria a Arte de la guerra - , foi condenado pelo índice de livros proibidos a partir de 1557. O Príncipe é uma mostra de realismo político - "sendo minha intenção escrever alguma coisa útil a quem a lesse, pareceu-me conveniente ir à verdade efetiva da coisa, em vez de à sua imaginação" - que se nutre da experiência política e se apresenta como um tratado de conduta política para um "príncipe novo" nas condições peculiares da Itália daquele momento. Todos os estados, diz inicialmente, são ou repúblicas, ou principados. Neste livro, trata somente dos principados - que é o que podia interessar aos Medici de volta ao poder - , porque, das repúblicas, havia tratado em outro lugar - nos Discorsi, aos quais faremos referência logo a seguir. O texto é de um pragmatismo surpreendente, que transforma em princípios gerais a soma das observações vividas e das leituras dos clássicos. Os princípios destinam-se a explicar o funcionamento interno dos estados: em toda cidade, diz, existem os grandes e o povo, "o povo deseja não ser mandado nem oprimido pelos grandes, enquanto os grandes desejam mandar e oprimir o povo, e dos dois desejos diversos nasce, na ciclade, um de três efeitos: ou principado, ou liberdade ou permissividade". A forma como o príncipe se conduz para se manter no poder é analisada com realismo, destacando, por exemplo, que um príncipe não pode ser sempre bom "em meio a tantos que não são bons", sendo conveniente que seja temido, sem que isso signifique que deva ser necessariamente odiado.13 Mais importante que O príncipe, mas muito menos conhecido, é o outro tratado político de Maquiavel: òs Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio (Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio), onde se dedica às repúblicas e à "dolcezza dei vivere libero"*. Uma obra, publicada também depois da morte, que não é um mero exercício de interpretação de Tito Lívio mas que, como todas as outras, mistura "o conhecimento das coisas antigas e das modernas"— as leituras dos velhos autores com as observações - a fim de interpretar e explicar o mundo real numa época de crise * "Doçura de viver livre" 13 Ütílizei II Príncipe na edição de Giorgio Inglese (Torino: Einaudi, 1995). Os textos citados procedem respectivamente dos capítulos 15,1,9 e 17.

em que o que se estava propondo aos cidadãos era a opção entre o governo democrático e o absolutismo monárquico, naquele momento em ascensão na Europa. Os Discorsi, que tornaram Maquiavel o mais importante teórico renascentista do republicanismo, influenciaram o pensamento democrático europeu dos séculos seguintes, dos revolucionários ingleses do século XVII a Montesquieu.14 Nos Discorsi, a lição dos fatos da antiguidade grega ou romana (a história entendida como fonte de conhecimento através da acumulação das experiências do passado) articula-se aos comentários sobre a política italiana ou francesa da época para extrair conseqüências gerais, de alcance universal. Quando escreve "é simples entender de onde nasce nos povos este desejo de viver livre: porque se vê por experiência que as cidades não aumentaram nunca de domínio nem de riqueza, senão enquanto permaneceram em liberdade (...), porque não é o bem particular, mas o comum que torna as cidades grandes e, sem dúvida alguma, o bem comum não pode ser melhor observado do que nas repúblicas", fica evidente que está pensando no presente. Maquiavel associa história e política, não ao estilo dos humanistas retóricos, mas de maneira pragmática, utilizando a história para explicar o presente e renunciando deliberadamente adornar seus escritos com "cláusulas longas ou palavras empoladas".15 A reflexão política encontra-se também associada à obra propriamente histórica, as Istorie fiorentitte, que explicam a evolução da cidade até 1492. No início do livro, afirma não querer seguir o modelo dos antecessores, que tinham se dedicado principalmente às guerras dos florentinos 14 Os Discorsi utilizados são da excelente edição de Corrado Vivanti, com um bom estudo preliminar è extensas notas. (MACHIAVELLI, N. Discorsi sopra la prima deca , de Tito Livio. Torino: Einaudi, 1980). Sobre o republicanismo de Maquiavel, BOCK, Gisela; SKINNER, Quentin; VIROLI, Maurizio (Ed.). MacHiavelli and republicanism. Cambridge: Cambridge University Press, Í990; BARON, Hans. Machiavelli the republican citizen and author of "The Prince". In: . In Search of Florentine civic humanism. Princéton: Princeton University Press, 1988. II, p. 101-151; POCOCK, J. G. A. The machiavellian moment. Florentine political thought and the ' atlantic republican tradition. Princeton: Princeton University Press, 1975, etc. 15 O texto citado é de Discorsi, II, 2. Há também citações de O príncipe, dedicatória, e das Istorie fiorentine, II, 34.

contra príncipes e povos estrangeiros, sem falar nada sobre as discórdias internas da cidade e de suas conseqüências, porque "se alguma lição é útil aos cidadãos que governam as repúblicas é a que mostra a causa dos ódios e das divisões da cidade". O segundo livro explica o confronto entre a aristocracia e o povo (dividido por sua vez em três classes: poderoso, medíocre e baixo) que levou a nobreza à ruína e o terceiro, a luta que se realizou entre o povo e a plebe. O realismo o leva a afirmar que as leis não são feitas para a utilidade pública, mas para a privada "não segundo o viver livre, mas segundo a ambição daquela parte que triunfou", donde conçlui que as divisões políticas se perpetuam. A lucidez com que entende a formação da consciência social dos grupos e os motivos das atuações coletivas chega a um momento culminante no discurso em que faz que um dos plebeus rebeldes - "um dos mais valentes e de maior experiência" - explique sua visão da sociedade, na qual "somente a pobreza e a riqueza nos fazem desiguais" e que a riqueza é obtida com violência ou falsidade: "Deus e a natureza puseram todas as riquezas ao alcance dos homens, as quais são obti_das mais com a rapina do que com o trabalho, mais com as más do que com as boas artes: por isso os homens se comem uns aos outros e sempre cabe a pior parte a quem menos pode".16 Francisco Guicciardini (1483-1540), de boa família e amigo pessoal de Maquiavel, era um advogado de sucesso antes de se incorporar à política em 1511 e de ser designado embaixador na corte de Fernando, o Católico, em 1522. Encontrava-se na Espanha quando os Médici voltaram ao poder, decidindo apoiar o novo regime, mais próximo das suas convicções do que o republicano, o que lhe permitiu prosseguir a brilhante carreira em tempos confusos, quando a Itália era cenário de lutas entre espanhóis 16 Utilizou-se a edição de Istoriefiorentinede Franco Gaeta. Milano: Feltrinelli, 1962 (citações de proêmio; II, 42; III, 5 e 13). Sobre o livro, veja-se BOCK, Gisela.Civil discord in Machiavelli's Istorie Fiorentine. In: BOCK, Gisela; SKINNER, Quentin; VIROU, Maurizio (Ed.). Machiavelli and republicanism. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. p. 181 -201 e a cuidadosa análise dos materiais com que Maquiavel compôs o segundo livro e da forma com que os selecionou e combinou, realizada por Anna Maria Cabrini em Per uma valutazione delle "Istorie fiorentine" dei Machiavelli. Note sullefonti dei Secando libro. Firenze: La Nuova Italia, 1985.

e franceses e quando era necessário levar a cabo uma complicada gestão de alianças com uns e outros, para conservar a independência: "Todos vagamos nas trevas e com as mãos atadas às costas para não poder aparar os golpes" escreve Guicciardini a Maquiavel em agosto de 1525. Ao restabelecer-se a república em Florença, em 1527, ericontrou-se em situação difícil, já que devia defender-se da acusação de ser "ladrão do dinheiro público, saqueador de nossa terra, homem de vida privada odiosa, desejoso do retorito dos Médici, amante da tirania (...), inimigo da liberdade comum". Foram os momentos de exílio, posteriores a essa situação que o levaram a escrever história como uma forma de explicação da complexa política que lhe coubera viver.17 " Guicciardini e Maquiavel eram amigos íntimos, como se pode observar na correspondênqia pessoal, cheia de humor e cordialidade. Tinham diferenças políticas, pois Guicciardini era contrário a qualquer forma de democracia republicana - as alusões ao "povo" na História da Itália estão sempre cheias de desconfiança - , mas era natural que as diferenças permanecessem minimizadas numa época em que a Itália estava "oprimida pelâs armas dos ultramontanos que, combatendo entre eles (...) desafogavam sobre seu corpo os apetites desmedidos". A diversidade das formulações e dos talentos apareceria na escritura da história. E não o digo tanto pelas Considerações sobre os Discursos de Maquiavel, em que as críticas de Guicciardini são de pouca importância, mas pela forma como estruturou sua obra mais ambiciosa, a História da Itália, em que explicava os acontecimentos do ano de 1492 a 1534 (continuava; de alguma maneira, as inacabadas Storie fiorentine, escritas por ele mesmo em 1509). Guicciardini dedicou-se, no livro, ao conjunto da Itália, situando-a, inclusive, no contexto europeu, já que necessitava explicar as atuações dos soberanos de outras potências que nela interviram. Realizou uma crônica exata dos acontecimentos políticos e militares, analisando os atos e as motivações dos dirigentes com um realismo extraordinário, mostrando que o medo e a cobiça eram motivações dominantes de seus atos, ou acrescen17 GILBERT, Felix. Machiavelli e Guicciardini. Pensiero politico e storiografia a Firenze nel Cinquecento. Torino: Einaudi, 1970. Os textos de Guicciardini são da edição das Opere. Milano: Ricciardi, 1953 (uma citação de "Accúsatoria", p. 61-62).

tando observações tão sensatas como: "Os homens não são todos sábios, realmente são muito poucos os sábios e aquele que quiser fazer prognósticos sobre as deliberações dos outros deve, se não quiser enganar-se, levar em conta não tanto o que faria verdadeiramente um sábio e, sim, como são o cérebro e a natureza daquele que há de deliberar". O realismo crítico de Guicciardini manteve-se até o final da obra: a última informação referida, a eleição do papa Paulo III, é acompanhada do seguinte comentário: "E decidiram oS cardeais elegê-lo mais pelo fato de que, estando já com sessenta e sete anos de idade e com fama de compleição'débil e de pouca saúde (oipinião estimulada por ele com alguma sutileza), esperavam que o pontificado seria breve". Diferentemente de Maquiavel, porém, não abordava as causas das convulsões sociais (o "povo" era um fator .de incerteza em sua análise), nem queria deduzir princípios gerais da política, já que a experiência lhe haviá ensinado até que ponto o acaso e o destino podiam decidir os acontecimentos - "considere cada um dos numerosos pequenos acidentes de que dependem as coisas de grande importâncià nas guerras"-, denunciando que se tendia a "atribuir sempre à opinião o que geralmente era obra do destino". Chabod nos diz que, em Guicciardini, "não há nunca rastros de literatura ou de abstrações doutrinárias", mas que ele se baseia na experiência, fugindo do recurso aos exemplos antigos, o que o situa em plena modernidade, e fora do humanismo:18 A História da Itália era um livro ambicioso, uma crônica política de amplitude sem precedentes, que logo se converteria num modelo imitado 18 A História de Itália utilizada é a da edição de Milano: Garzanti, 1988 (os textos citados diretamente procedem de VII, 10; XIV, 5; XIV, 9 e XX, 7, com uma modificação neste último caso); mas também utilizou-se uma velha edição de Veneza, Pasi' ni, 1623, que, apesar de ter o inconveniente de não apresentar a divisão em capítulos, contém as notas à margem que faltam na moderna. O texto citado sobre a situação da Itália é da "Vida" que figura na introdução da edição veneziana, p. 6. CHABOD, F. Francesco Guicciardini. In: Escritos sobre el renacimiento. México: Fondo de Cultura Económica, 1990. p. 193-304; PHILIPS, Mark. Francesco Guicciardini: The historian's Craft. Manchester: Manchester University Press, 1977. As opiniões de Guicciardini hostis à democracia republicana podem ser vistas em "Ricordi" 65,109 e 140 (na edição das Opere citada, p. 111,119 e 126).

pelos historiadores "nacionais" das monarquias do ocidente europeu. No velho debate humanístico sobre a importância relativa do "destino" e da "virtude" que, em Maquiavel, seria resolvido, claro, a favor da "virtude", Guicciardini o resolveria a favor do "destino". Não se tratava, entretanto, de uma opçãofilosófica,mas de uma conseqüência direta de sua experiência de governante, que o levava a dar atenção, talvez excessiva, ao detalhe e à contingência, mas, ao mesmo tempo, lhe dava uma grande perspicácia para interpretar as ações concretas dos homens. O livro provocou entusiasmo na época. De 1568 a 1599, foi traduzido, para francês, alemão, inglês, espanhol e holandês. Montaigne elogiava a veracidade e a exatidão, embora criticasse a tendência em buscar causas mesquinhas ou interessadas em todas as ações, enquanto Bodin o admirava. A avaliação mudou com Ranke que, por desprezar a visão realista do mundo, o desacreditou injustamente, mas voltou a se modificar no século XX, quando a confiança em suas fontes e em seu método foi restabelecida. Gilbert considera a História da Itália como "a primeira grande obra da historiografia moderna" e Fueter elogia a "aversão às regras teóricas", compara-a favoravelmente com Maquiavel, considerando a obra um modelo do ofício de historiador.19 A velha história humanística de vocação jetórica foi fossilizando-se e se convertendo num conjunto de fórmulas: os tratadistas italianos da "ars histórica" acabaram, em fins do século XVI, numa mera preocupação estilística. A tentativa de aplicar os métodos a uma narração histórica "sagrada" conduziu a uma situação contraditória: Paulo Sarpi (1562-1623), um servita veneziano de cultura humanística e de profunda religiosidade - homem que mantinha correspondência com Galileu, que, por sua vez, afirmava não haver ninguém na Europa com mais conhecimento de matemática que Sarpi e que queria São Carlos Borromeo como diretor espiritual - , enfrentando politicamente Roma, como veneziano que era (uma tentativa de apunha19 COCHRANE, Eric. Historians and historiography in the Italian renaissance. Chicago: University of Chicago Press, 1981. p. 295-305; Montaigne, Essais, II, 10; GILBERT, Felix. Machiavelli e Guicciardini. Pensiero politico e storiografia a Firenze riel Cinquecento. Torino: Einaudi, 1970. p. 255; FUETER, Eduard. Storia della storiografia moderna. Milano: Ricciardi, 1970. D. 98.

lá-lo na rua, em 1607, seria atribuída a esta causa), escreveu uma grande história do Concílio de Trento. O livro, considerado de uma ambição e importância comparáveis à História da Itália de Guicciardini, inspirou-se em atitudes reformistas moderadas, tendo sido publicado em 1619, em Londres, como obra de Pietro Soave Polano, talvez sem seu consentimento, com o provocante título de História do Concílio tridentino na qual se revelam todos os artifícios da corte de Roma para impedir que (...) se tratasse da reforma do papado e da Igreja, com uma introdução de Antônio de Dominis, arcebispo de Spalato, que se convertera aò anglicanismo. Sarpi eliminaria o prólogo numa nova edição "revisada e corrigida", publicada em Genebra, em 1629, porém, isso não impediu que o livro fosse condenado no índice.20 Enquanto isso, a influência de Guicciardini era registrada nas historiografias nacionais dos países absolutistas. Na França, influenciaria a escola denominada "história perfeita", Com Pasquier e La Popelinière. Etienne Pasquier (1529-1615) escreveu as (Recherches de la France) Pesquisas da França, uma grande obra em dez volumes, publicada entre 1560 e 1621, que pretendia ser uma "biografia" da nação francesa que dizia ter nascido com os gauleses, esquecendo a velha fábula das origens troianas. Escreveu em francês para falar da França, distinguindo-se abertamente dos humanistas que se dedicavam sempre à Grécia e à Roma, sendo consideravelmente inovador no uso dos textos e dos documentos, citados literalmente. Quanto a La Popelinière (1541-1608), autor de História da França, onde analisava as guerras de religião, o próprio trabalho o havia convencido da inutilidade dos livros de história que consultava. Isto o levou a afirmar que "saber a história não Consiste em recordar os fatos e os acontecimentos humanos", sendo necessário, principalmente, "conhecer os motivos e os verdacjeiros momentos destes fatos e acidentes". Anos depois, desenvolveria estas idéias em A história das histórias, com a idéia da história realizada

20 COTRONEO, Girolamo. ítrattatisti dell"'Ars histórica". Nápoles: Giannini, 1971. Sobre Sarpi e o livro, YATES, Florence A. Paolo Sarpi's History of the Council of Trent e A new edition of Paolo Sarpi. In: YATES, Frances A. Renaissance and reform: the Italian contribution. London: Routledge and Kegan Paul, 1983. p. 189-222. Sobre o contexto político, CHABOD, Federico. A política de Paolo Sarpi. In: Escritos sobre el renacimiento. México: Fondo de Cultura Económica, 1990. p. 409-519.

(1599), onde, ao mesmo tempo, criticava Bodin por haver desejado fazer, da história, uma arte geral de conhecimento.21 O mais influente dos teóricosfrancesesda história na época seria Jean Bodin (1530-1596), que escreveu uma ambiciosa reflexão teórica sobre a interpretação da história, Methodus ad facilem historiarurrf cognitionem (1566), que não é propriamente uma "ars histórica", já que não se interessa pela forma de escrevê-la, mas essencialmente pela utilização dela como ferramenta de uma visão global da política - não para o conhecimento dó passado, mas para a compreensão do presente - que o conduziria à obra fundamental, Os seis livros da República (1576), onde propõe uma arte da política baseada na filosofia da história. Bodin dividia o que chamava de história em três campos: a "natural", que estuda as causas que operam na natureza; "a sagrada", que se ocupa das manifestações'divinas e, finalmente, "a história humana", que "expõe as gestas do homem através das sociedades". No campo da história humana, a contribuição mais original de Bodin é seguramente a "teoria dos climas", que o leva a usar o conhecimento geográfico científico baseado no sistema de medidas astronômicas de Ptolomeu - como critério de aferição do discurso dos historiadores, já que, se a localização determina a "natureza dos povos", poderemos extrair deste conhecimento a regra para julgar se o que os historiadores disseram corresponde ou não à "natureza" do povo de que falam. Para entender Bodin, é necessário levar em conta, entretanto, a complexa fusão, em seu pensamento, de elementos de astrologia e numerologia, a obsessão por demônios e bruxas - o Démonomanie des sorciers (1580), um livro infame que deu motivos a novas perseguições, teve quinze edições em vinte e cinco anos, traduzido para latim, o alemão e o italiano - sem esquecer tampouco o "mistério" que suscitou a idéia de uma possível conversão oculta ao judaísmo.22

21 HUPPERT, George. L'idée de l'histoire parfaite. Paris: Flammarion, 1973; BOUTEILLER, P. Un historien du XVI siècle: Etienne Pasquier. Bibliothèque d'Humanisme et Renaissance, VI, p. 357-392, 1945; VIVANTI, Corado. Les Recherches de la France d'Etienne Pasquier. L'invention des Gaulois. In: NORA, Pierre. Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1997.1, p. 759-786. 22 COUZINET, Marie Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance.Une lecture de la Methodus de Jean Bodin. Paris: Vrin, 1996; COTRONEO, Girolamo. Jean Bodin

A promissora corrente da "história perfeita", que havia nascido, tanto na França como na Itália, da necessidade de enfrentar uma época de conflito e descrença, não sobreviveu ao fechamento ideológico do século XVII. Seus continuadores foram comparados aos "libertinos" dando-se apoio oficial ao irracionalismo teológico, que culminaria no Discurso sobre la historia universal (1681) de Bossuet, em que tudo depende da vontade divina, não havendo lugar nem para a causalidade humana, nem para o acaso. Com isso, toda a possibilidade de história permanecia negada (ou relegada a formas de narração romanceadas, como as que proporcionaram grande sucesso a César de Saint-Réal). ,Na Castela dos séculos XVI e XVII, encontramos uma série de cronistas "oficiais" como Ocampo (ca. 1495-1558), Morales (1513-" 1591), Sandoval (1553-1020), Garibay (1533-1599) ou Herrera (15491625), maisjcitados que lidos na época. Por sua vez, nos reinos da coroa de Aragão, a recordação da própria história tem uma função de defesa foral, como no caso de Jerônimo de Zurita (1512-1580), uma das figuras mais importantes da historiografia hispânica do tempo, ou reflete a preocupação em conservar a personalidade própria no interior de uma monarquia absorvente, como no caso de Jeroni Pujades (1568-1635), autor de Crónica universal dei Principado de Cataluna. O surgimento da Historia de Espana (em latim, em 1592 e em castelhano, em 1601) do jesuíta Juan de Mariana (ca. 1535-1624) mudaria o panorama: o livro, de ínfimo valor científico, estava destinado a ser obra de referência para os leitores espanhóis durante muito tempo (seria reeditado até meados do século XIX), o que serve para mostrar a escassa importância da historiografia castelhana dos séculos XVI e XVII, dominada pelos cronicones e por trabalhos literários pretenciosos como a Corona gótica de Saavedra Fajardo (1584-1648) qüe, apesar das inúmeras e longas citações de teórica Mia storia. Napoli: Edizione Scientifiche Italiane, 1966; YATES, Florence A. The mistery of Jean Bodin. In: . Ideas and ideals in the north European renaissance. London: Routledge and Kegan Paul, 1984. p. 139-152; CROMBIË, A. C. Styles of scientific thinking in the European tradition. London: Duckworth, 1994. Ill, p. 1566-1572. Sobre sua responsabilidade na caça às bruxas, BECHTEL, Guy. La sorcière et l'occident. Paris: PIon, 1997. p. 330-340.

fontes latinas, não passa de um texto de imaginação, com pérolas como o relato da batalha de Guadalete, incluindo os discursos prévios de Rodrigo e de "Tarif" que, montado "em um cavalo berberesco, (...) levantando o braço nu, empunhando a espada, brandiu-a de um a outro lado" enquanto incitava os soldados.23 23 O estudo de conjunto mais documentado da historiografia castelhana da época de ADÁN, losé Cepeda. A historiografia barroca. In: PIDAL, Menéndez R. (Ed.). Historia de Espana, XXVI, "O século de Quixote (1580.1680)", I, p. 525-643, muito superior ao velho livro de ALONSO, B. Sánchez. Historia de la historiografia espanola. Madrid: C. S. I. C., 1947-1950. 3 v.; KAGAN, R. L. Clio and the crown: writing history in Habsburg Spain. In: KAGAN, Richard L.; PARKER, Geofirey (Ed.). Spain, Europe and the Atlantic world. Essays in honour ofjohn H. Elliott. Cambridge: C.U.P., 1995. p. 73-99; MARCOS, Fernando Sánchez. A historiografia sobre a idade moderna. In: GALLEGO, José Andrés (Ed.). Historia de la historiografia espariola. Madrid: Edições Encontro, 1999. p. 117-182. Os "cronistas" citados foram objeto de poucas edições na época, coisa que contrasta com as muitas que teve um livro, geralmente ignorado pelos especialistas, como Historia pontifical y cathólica de Gonzalo de Illescas, continuada, posteriormente, pór Luis de Bavia, Fr. Marcos de Guadalajára e Juan Banos (seis volumes, entre 1565 e 1678), uma autêntica história universal que, em algum de seus volumes, chegou a mais , de dez edições. Para uma avaliação "nacional-franquista" de Mariana, Manuel Ballesteros-Gaibrois, estudo preliminar em Juan de Mariana, cantor de Espana. Barcelona: Fe, 1941. Utilizo Corona gótica de Saavedra Fajardo na edição de Madri, Andrés Gatáa da Igreja, 1670 (o relato da batalha citado está em p. 466-471), onde se indica que o segundo volume é obra de Alonso Núnes de Castro, "composta de alguns originais legados por D. Diego de Saavedra Faxardo". Entretanto, havia produtos literários mais simples e mais simpáticos, como El rey don Pedro defendido, de Juan Antonio de Vera e Figueroa (Madrid: Francisco Garcia, 1648), em que um relato sobre possíveis encantamentos são resolvidos com um "mas nenhum dos que conta crê e eu, menos ainda" (f- 15v). O centenário de Felipe II deu lugar a reedições das obras históricas de Luis Cabrera de Córdoba: Relación de las cosas sucedidas en la corte de Espana desde 1599 hasta 1614, estudo preliminar de R. Garcia Cárcel, Valladolid, junta de Castilla e León, 1997, e Historia de Felipe II, rey de Espana, ed. De J. Martinez Millán.e C. J. de Carlos Morales, Valladolid, junta de Castilla,e Leon, 1998, 3 v. Pára uma visão de conjunto da historiografia da coroa de Aragón, ALCOBERRO, Agusti. A historiografia da Coroa de Aragón no reinado de Felipe II. In: Las sociedades ibéricas y el mar a finales dei siglo XVI. Madrid: Comissária Geral da Espanha na Expo dè Lisboa '98, 1998. III, p. 7-28; sobre os cronistas Aragoneses, VINAZA, Conde da. Los cronistas dg Aragón. Zaragoza: Cortes de Aragón, 1986 (reprodução da edição de 1904) e PEIRÓ, Antonio. Ignacio de Asso y La Historia de la economia política de Aragón. Zaragoza: Instituição Fernando,o Católico, 1998. p. 13-23.

Todavia, ao lado das histórias gerais, com todos os defeitos retóricos da corrente humanística, e de uma historiografia de acontecimentos particulares (sobre a guerra das Comunidades, a expulsão dos mouros, etc.), ocorreu, em Castela, a eclosão da historiografia indiana, que transmitia, a um mundo comovido pelos "descobrimentos", os feitos dos conquistadores e as maravilhas das novas terras. Às Décadas de Orbe novo, de Pedro Mártir de Anglería (1459-1526), obra de primeira hora, feita a partir dos relatos dos protagonistas, logo se acrescentou Historia general y natural de las índias, de Gonzalo Fernández de Oviedo (1479-1557), que valorizava a observação pessoal - "tudo isto deponho e afirmo como testemunha ocular" - acima da tradição escrita; a Historia general de los hechos de los Castellanos en las islãs y tierra firme dei mar océano, de Antônio de Herrera (1549-1625), nomeado cronista oficial das índias, etc. Muito mais interessantes seriam, ainda, os testemunhos pessoais do descobrimento e da conquista, começando pelas Cartas de relación de Hernán Cortês e continuando com as narrações de Bernal Diaz, Cabeza de Vaca, Cieza de León, etc. Sem esquecer a novidade que representava a contribuição dos próprios indígenas, como Felipe Guamán Poma de Ayala ou Hernando de Alvarado Tezôzomoc. Os livros falavam de uma forma viva e direta de terras desconhecidas, onde havia animais e plantas ignorados pelos antigos e onde viviam pessoas com línguas, costumes e culturas diferentes. Em certos lugares, foram encontradas grandes civilizações, com cidades mais povoadas que Roma ou Constantinopla, com pessoas que tinham memória da própria história. O interesse pela evangelização levou a um estudo da própria cultura que se queria destruir, o que transformou os missionários em precursores da antropologia moderna. Tudo isso abriu um mundo novo de conhecimento e de debate, para o qual os antecedentes greco-romanos não serviam, obrigando à proposição de reflexões inovadoras em diversos terrenos. Assim, se o padre Las Casas (ca.1474-1566) denunciava a destruição das índias, frei Tomás de Mercado (ca. 1530-1576) fazia o mesmo com os horrores da escravidão negra, ao mesmo tempo que o estudo dos "tratos e contratos" e da "revolução dos preços", provocada pela afluência do ouro americano, o levava a refletir sobre o dinheiro, como faria também o padre Azpilcueta (1493-1586) em estudo sobre as trocas. No entanto, tam-

pouco as novas correntes do estudo da história sobreviveram ao século XVII, deixando rastro somente na reflexão política dos arbitristas.24 O que se salvou, principalmente, da herança do Renascimento, foi o conjunto dos métodos de críticafilológicae o trabalho arqueológico. Numa época de disputas religiosas, a erudição crítica dos reformistas obrigou a Igreja católica a depurar seus textos da carga de mitos que tinha sido agregada aos mesmos, sendo que isso estimulou uma atividade como a dos bolandistas, os jesuítas que estabeleceram as atas dos santos, a fim de reivindicar o núcleo de veracidade histórica que havia sob o conjunto de fabulações - e os beneditinos maurinos, em especial Jean Mabillon (1632-1707), que elaborou um conjunto de métodos e regras para o estudo dos documentos em De re diplomático. (1681, mesmo ano da publicação do Discurso de Bossuet), obra que contou com o auxílio de outros eruditos beneditinos, como Baluze ou Du Cange. Não podemos, no entanto, qualificar o livro, como alguns o fizeram, de "obra mestra da história científica", nem apresentar a linha que se inicia a partir desta erudição documental e arqueológica como a origem da historiografia moderna. Uma coisa são as ferramentas com que o historiador atua sobre seus materiais e outra, muito diferente, é a teoria que inspira o plano de investigação. No primeiro terreno, a erudição dos bolandistas e dos maurinos, assim como, na Espanha, a dos grandes eruditos monásticos do século XVIII, foi de uma importância transcendental; no segundo, que corresponde mais propriamente à história, não contribuíram com grande coisa: Mabillon e Bossuet são perfeitamente compatíveis.25 24 BARBA, Francisco Esteve. Historiografia indiana. Madrid: Gredos, 1922/2; MARAVALL, José Antonio. Naturaleza e historia en el humanismo espanol. In: Estúdios de historia dei pensamiento espaftol. Madrid: Cultura Hispânica, 1984. II, p. 195-216. MERCADO, Tomás de. Suma de tratos y contratos. Edição de Nicolás Sánchez Albornoz. Madrid: Instituto de Estudos Fiscais, 1977.1, p. 229-239, sobre a escravidão negra. Boa parte das crônicas de autores indígenas pode ser encontrada em excelentes edições na coleção "Crónicas de América", publicada por ocasião do "quinto centenário". 25 A supervalorização das técnicas eruditas, insinuada já em Fueter, chega ao máximo, quase delirante, na obra de BARRET-KRIEGEL, Blandine. Les historiens et la monarchie: Paris: PUF, 1988.1: Jean Mabillon. Il: La défaite de l'érudition. 111: Lès Académies de l'histoire. IV: La République incertaine. Mais acima, nos referimos ao caso de uma obra espanhola de 1720 que inicia citando Mábillon para dar apoio a todas as fábulas dos cronicones.

Os métodos eruditos utilizados por esta escola de religiosos estavam sendo desenvolvidos, também, numa versão laica, por aqueles que se dedicavam à defesa dos direitos dos príncipes. Em 1680, Leibniz, nomeado bibliotecário e conselheiro do duque de Hannover, começou a escrevèr a história da casa de Braunschweig-Lüneburg a fim de "estabelecer objetivamente pela genealogia" seus direitos ao poder, enquanto descendente da família Este. Percorreu os arquivos da Alemanha, Áustria e Itália à procura de documentos, estudando-os de acordo com os princípios da erudição. O objetivo foi se tornando gradualmente mais ambicioso, até o ponto em que concebeu a idéia de escrever uma história universal que começaria com os acontecimentos geológicos, apesar de nunca tê-la concluído.26 O caso de Leibniz, a quem a investigação histórica levou a colocar o problema da evolução geológica, nos ajuda a entender que as mudanças na forma de conceber a história se produziam num contexto muito amplo e complexo. Foi por obra "daqueles pedantíssimos investigadores de antigas histórias" que a visão do mundo natural começou a se modificar. A conquista do sentido do antigo como história - que permitia analisar as idéias do passado como produtos de um contexto cultural - e a revelação propiciada pela descoberta de que, no mundo, existiam muitas realidades - terras, plantas, animais, homens e culturas - desconhecidos pelos homens do passado, aqueles pensadores da antiguidade em que até então o conhecimento havia se baseado, favoreceu uma atitude crítica que acabaria levando à revolução científica.27 Os cientistas do Renascimento começaram a demolição da cosmologia aristotélico-tomista que explicava o mundo natural e que se completava com uma visão teológica do mundo humano, avançando em duas direções diferentes, mas nem sempre antagônicas: a da magia natural e a da filosofia mecânica. As inovações dos "filósofos da natureza" propunham certos elementos que se integrariam, a longo prazo, em sistemas alternati26 AITON, E. J. Leibniz. Una biografia. Madrid: Alianza, 1992, pas,sim; COHEN, Claudine. Le destin du mammouth. Paris: Seuil, 1994. p. 66-86. 27 GARIN, Eugénio. L'umanesimo italiano. Filosofia e vita civile nel Rinascimento. Bari: Laterza, 1970/4 (citação da p. 16).

vos que explicavam conjuntamente o macrocosmo físico e o microcosmo humano, o que supunha uma gravíssima ameaça para a ordem estabelecida. Um homem como Giordano Bruno (1548-1600), que morreria nas fogueiras da Inquisição, associava elementos de magia natural com a defesa da cosmologia de Copérnico e com a proposta de uma religião natural sem dogmatismo nem intolerância. Campanella, impregnado de milenarismo joaquimita, expressava a percepção de um vínculo entre a recuperação da antiguidade, os descobrimentos geográficos e os avanços da ciência com um programa de transformação da sociedade, quando escrevia a Galileu em 1632: "As novidades de verdades antigas, de novos mundos, novas estrelas, novas nações, etc. são o prenúncio de um século nóvo". Tudo isso nos permite compreender porque decidiu que o descobridor da Cidade do sol fosse um piloto de Colombo. Que as novidades fossem "perigosas", os dèfensores da ordem estabelecida o compreenderam desde o primeiro momento, começando pela Igreja, como demonstra sua atuação no caso de Galileu. À margem das diversas especulações que foram feitas sobre as razões de sua condenação, podemos ver que Descartes, uma vez compreendendo que a Igreja condenava a afirmação do movimento da Terra, abandonou a redação de uma grande obra sobre O mundo, já que "se este ponto de vista é falso, então também são falsos og fundamentos da minha filosofia". Contentou-se em publicar, em 1637, o Discurso do método com os tratados sobre "A dióptrica", "Os meteoros" e "A geometria", "que são ensaios deste método", renunciando às grandes especulações cosmológicas.28 28 INGEGNO, Alfonso. Filosofia e religione nel cinquecento italiano. Firenze: Sansoni, 1977; YATES, Frances. Giordano Bruno e la traduzione ermetica. Bari: Laterza,1969, e The Rosicrucian Enlightenment. London: Roufledge and Kegan Paul, 1972; BURKE, J. G. Hermetism as a Renaissance world view. In: KINSMAN, Robert S. (Ed.). The darker vision of the Renaissance. Berkeley: University of California Press, 1974. p. 95-117; GARIN, Eugénio. Da Campanella a Vico. In: . Dal Rinascimento all'Illuminismo, Studi e ricerche. Pisa: Nistri-Lischi, 1970. p. 79-117 (a carta de Campanella a Galileu na p. 83); BADALONI, N. Tommaso Campanella. Milano: Feltrinelli, 1965; HEADLEY, John M. Tommaso Campanella and the transformation of the world. Princeton: Princeton University Press, 1997; CILIBERTO, Michele. Giordano Bruno. Roma: Laterza, 1990; GAUKROGER, Stephen. Descartes. An intellectual

Os càminhos que encaminharam ao futuro a carga mais positiva da renovação renascentista no terreno da história não têm nada a ver com Bossuet e muito pouco com Mabillon, mas são extremamente complexos e circulam geralmente de forma subterrânea. As pontes que vão de Maquiavel a Montesquieu passam pela teoria política da revolução inglesa, pelos libertinos franceses (como Gassendi, Molière ou Cyrano, que deve ter conhecido Campanella em Paris e que escandalizou os contemporâneos, comparando os súditos dos monarcas a escravos ou definindo a morte como "este grande nada"), por Galileu quando descobriu novos mundos celestiais em Sidereus nuncius, pelos participantes na disputa "entre antigos e modernos" (que levou Fontenelle à primeira formulação de uma teoria do progresso) ou por Spinoza, quando recuperou a ciência do "vivçre libero" para proclamar que a única finalidade lícita da política era á liberdade.

history. Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 290-292; RODIS-LEWIS, Geneviève. Descartes. Biographie. Paris: Calmann- Lévy, 1995, p. 141-184; utilizo os textos de Descartes na edição do 350° aniversário, Paris, Fayard, 1987; sobre o contexto em que a filosofia dè Descartes começou a ser considerada perigosa e perseguida na Holanda, ver NADLER, Stéven. Spinoza. A tífe. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. p. 196-202 è passim; SCHLOBACH, Jochen. Anciens et modernes, querelle. In: DELON, Michel (Ed.). Dicctionaire européen des Lumières. Paris: PUF, 1997. p. 75-79.

Capítulo 4

A ILUSTRAÇÃO

O primeiro problema que encontramos no estudo da "Ilustração" é o de definir do que estamos falando. O sentido dado, hoje, às palavras "as luzes" e "Ilustração", nasce do termo alemão Aufklärung. A palavra inglesa enlightenment não aparece no sentido figurado até meados do século XIX e, na França, país por excelência das lumières, o conceito globai parece que surge também de forma muito tardia, na obra de Taine. É certo que a expressão "as luzes" era utilizada para falar dos conhecimentos adquiridos pela humanidade e que seus partidários eram definidos como éclairés (esclarecidos). Mas a palavra não adquiriu úma dimensão ativa, não chegou a ter um valor de conquista histórica, de acumulação progressiva. Na Encyclopédie, há um artigo "lumière" dedicado principalmente à física, sem implicaçõesfilosóficase Diderot parece não ter ido além da associação dos dois conceitos de filosofia e luz, em que o segundo termo é complementar: "a filosofia avança a passo de gigante e a luz a acompanha e a segue". Os homens do siècle des lumières - que não sabiam que o século seria assim conhecido - , chamavam a tudo isso de philosophie, sendo que os ilustrados eram philosophes. Um philosophe para Voltaire, era "o amante da sabedoria e da verdade" que tinha os fanáticos por inimigos, já que "o século dafilosofiaé também o século do fanatismo". O conceito de Ilustração nasceu na Alemanha de meados do século XVIII com um sentido mais ativo do que costumamos lhe dar, pois desig-

Jlpítulo 4

na o ato de "iluminar" e não a iluminação resultante (um Aufklãrer não é um "ilustrado"; é um "ilustrador"). Já veremos, no entanto, que nem todo mundo estava de acordo sobre o alcance da palavra. A diversidade de interpretações e a confusão dominam desde o início os estudos sobre a Ilustração, sendo que cada um diz o que lhe convém, com interpretações que vão desde a que via os "filósofos" franceses como conspiradores clandestinos contra a monarquia e a Igreja, até a que se limita em definir as idéias da Ilustração como "as que compartilham ós homens e as mulheres que participam no movimento", elaborando listas dos membros da communauté des lumières, definida circularmente. Entre estes dois extremos, cabe quase qualquer coisa, incluindo uma "ilustração cristã", denominação que parece contraditória, já que o cristianismo se baseia na revelação e na tradição e, não, na razão (a igreja francesa condenou Montesquieu, Voltaire, BufFon, a Encyclopèdie, etc. e, em 1770, explicitamente, a "liberdade de pensar").1

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1 Utilizo aqui, além do artigo da Encyclopédie, MIRANDA, Pedro Álvarez de. Palabras e ideas. El léxico dela ilustración temprana en Espana (1680-1760). Madrid: Real Academia Espanola, 1992 e diversos trabalhos de Jacques Roger. Carl Beckef falava de uma "religião da ilustração" dizendo que o homem é capaz, apenas com a luz da razão, de melhorar a vida na terra, liberando as mentes dos homens das correntes da superstição e da ignorância e os corpos, da opressão arbitrária da ordem social estabelecida. Paul Hazard, em La crise de la conscience européene au XVlIIe siècle, 16801715, (uso a edição de Paris: Fayard, 1981) e sobretudo em La pensée européenne au XVIIle siècle: de Montesquieu a Lessing. Paris: Fayard, 1990; a edição original é de 1963), identificou o pensamento europeu com ó cristianismo e analisou allustração como um processo de Deus e uma luta contra a religião revelada. Peter Gay em The Enhligktenment An interprétation (1966 e 1999,2 v.) divide a análise em duas partes: "A ascensão do moderno paganismo" e "A ciência da liberdade", isto é, a emancipação da tutela religiosa e ò que os ilustrados constroem para transformar o mundo. O silesiano (naturalizado sueco e exilado nos Estados Unidos na época nazista) Ernst Cassirer, publicou, em 1932, a Filosofia de la Ilustración, um livro abstrato e simplificador - deve-se levar em conta que Cassirer havia desenvolvido, como filósofo neokantiano, uma teoria que sustenta que o homem interpreta o mundo através de um conjunto de representações simbólicas - que tem o mérito, no entanto, de ter-se liberado do mito que sustentava que o século XVIII é ahistórico e o denunciava como "uma definição cunhada pelo Romantismo para lutar contra a filosofia das luzes" (Filosofia dela ilustración. México: Fondo de Cultura Económica, 1972. p. 222; a edição original é de 1951). WADÈ, Ira O. The intellectual origins ofthe French

Uma das associações mais freqüentes e mais equivocadas é a estabelecida entre a ilustração e o absolutismo no chamado "despotismo ilustrado", conceito inventado pelos prussianos no século XIX. Voltaire teve que fugir de Frederico da Prússia, o pretenso "rei filósofo", em cujo país, afirmava, "existe um número prodigioso de baionetas e muito poucos livros", enquanto que Diderot denunciou o mesmo soberano, em 1771, com palavras que vão além do estritamente pessoal: "O autor da crítica é um grande senhor, ou ao menos defende a causa de seus antepassados como se os tivesse. Seja como for, continuaremos acreditando que existe menos inconvenientes na ilustração que sobe, que na ilustração que desce; e não aceitarei em absoluto que um títere com título me insulte por ser o último de sua raça, a mim que talvez seja o primeiro da minha. Vejo tantos ociosos ilustres desonrar os louros dos antepassados, que faço mais caso do burguês ou do homem comum que não se engrandece com os méritos alheios".2 Em meados do século XX, por outro lado, surge uma crítica à Ilustração que a acusa de haver construído uma visão abstrata e universalista enlightenment e The structure and forni ofthe French enlightenment. Princeton: Princeton University Press, 1971 e 1977 respectivamente, busca suas origens desde o Renascimento e divide a evolução em duas etapas: a do "esprit philosophique" e a do "esprit révolutionnaire". A visão "circular" a que me refiro é de ROCHE, Daniel. Les républicains des lettres. Paris: Fayard, 1988 e Le siècle des Lumières en province. Paris: •EHESS, 1978. 2 v. As referências poderiam se multiplicar indefinidamente. Existe, inclusive, uma visão da "Ilustração secreta" que supervaloriza a transcendência dos núcleos que cultivavam a pornografia e que mantinham estranhos grupos políticossexuais como o clube de Leiden, a que pertenciam o inglês Wilkes (que teve que fugir do país como autor de uma obra obscena) e o barão de Holbach (ROUSSEAU, G. S. Perilousenlightenment. Pre- and post-modem discourses, sexual, historical. Man-, chester: Manchester University Press, 1991). Entre as contribuições mais recentes assinale-se a tentativa de estudar a Ilustração em uma dimensão nacional (PORTER, R.; TEICH, M. (Ed.). The Enlightenment in national coritext. Cambridge: Cambridge University Press, 1981) e, sobretudo, uma visão social inovadora como é a de MUNCK, Thomas. The Enlightenment. A comparative social history 1721-1794. London: Arnold, 2000. 2 Carta de Voltaire a D'Alembert de 9 de setçmbro de 1752; DIDEROT, Denis. Pages inédites contre un tyran. Paris: GLM, 1937 (título que lhe deu Franco Venturi ao publicá-lo, nos anos do exílio antifascista); Para uma condenação explicita do governo' "de um déspota justo e ilustrado" por parte de Diderot, veja-se mais adiante.

do homem, sustentando que o racionalismo e a busca de explicações totais, coerentes com a nova ciência, levaram os ilustrados a uma concepção mecanicista do homem e da sociedade. Teriam defendido que todo o universo está determinado e que a única coisa necessária para conhecer um acontecimento é ter todos os dados sobre os antecedentes. Deste reducionismo e do fato de haver imaginado que os homens estão todos moldados pelo mesmo padrão, sendo possível pensar numa sociedade ideal de acordo com regras deduzidas racionalmente, nasceu a acusação que considera a Ilustração responsável por todas as aberrações cometidas em nome de projetos globais e, mais concretamente, de todas as ditaduras do século XX. Hòrkheimer e Adorno escreveram: "A abstração, a ferramenta da Ilustração, trata seus objetos como o fazia o destino cuja noção repele: os liquida. Sob o domínio nivelador da abstração (que diz que tudo que é natural se repete), e da indústria (para a qual a abstração ordena a repetição), a própria liberdade acabou formando este "rebanho" qúe Hegel declarou ser o resultado da Ilustração". E esclarecem ainda: "A horda que aparece tão claramente na Juventude Hitlerista não é um retorno à barbárie, mas o triunfo da igualdade repressiva". Daí porque um "liberal" comò Isaiah Berlin reivindique, contra a Ilustração, que seria a mãe do marxismo, uma tradição anti-ilustrada e equívoca, põis dela derivam tanto o "liberalismo" como o fascismo.3 A única forma de libertar-nos desta confusão é manter alguns elementos essenciais de definição, sem cair na tentação de interpretar, como um todo único, um feixe de correntes que, tendo elementos eift comum, podem ser contraditórias em outros aspectos.4 A Ilustração seria essencialmente pensamento crítico, desconfiança em relação ao saber estabelecido ao consentimento universal: a defesa da razão contra a convicção, do saber transformador contra a tradição. , ' 3 HÒRKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W. Dialectic of enlightenment. London: Allen Lane, 1973. p. 13: BERLIN, Isaiah. The magus of the north. Hamman and the origins of modern irrationalism. London: John Murray, 1993. 4 Não se pode esquecer, por exemplo, que Diderot escreveu Réfutation suivie de l'ouvrage d'Hèlvétius intitulé "L'homme" ou que Voltaire chegasse a sentir um considerável menosprezo por Rousseau.

A maior das limitações existentes sobre a forma habitual de entender a Ilustração é a que se limita a considerar uma série de autores, a estudar as relações entre eles, e a analisar as influências que seus livros exerceram sobre os leitores. Recentemente, no entanto, está tomando corpo uma nova forma de compreender as suas origens que dá atenção especial ao surgimento da "opinião pública" a partir de meados do século XVII. Um fenômeno ligado ao nascimento de uma autêntica "indústria da informação" que multiplicou a impressão de cartas, folhetos, jornais, e, em geral, de textos curtos e acessíveis a um público amplo, que se dedicaram à crítica política ou reproduziam todo tipo de notícias do momento. Hoje, sabemos qual foi a importância que a revolução da informação teve na Itália e na França, levando os próprios historiadores a dizer que viviam num tempo "cheio de notícias" e obrigando os governos a recrutar historiadores para combater os efeitos da crítica (Luís XIV, da França, tinha uma relação nominal de 19 historiadores, incluindo Jean Racine).5 Na Inglaterra, onde Robert Burton já afirmava, em 1622, que vivia num mundo onde se multiplicava todo tipo de notícias públicas e privadas, a guerra civil é a revolução aceleraram o processo ao ponto de se poder identificar nele um dos fundamentos do nascimento de uma cultura democrática.6 Isto acontecia em sociedades abaladas pelos debates políticos que confrontaram as monarquias absolutas com as demandas de representatividade política, frente ao recuo dos poderes estabelecidos que temiam não só a oposição política direta, mas também as conseqüências que, a longo prazo, a evolução que ocorria na ciência e na religião podiam acarretar. Ao minar a velha ordem aristotélico-escolástica, a mudança debilitava os fun5 DOOLEY, JSrendan. The social history of skepticism. Experience and doubt in early modern, culture. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1999 (sobre os "historiadores alugados", por exemplo p.91-101). 6 ZARET, David. Origins Of democratic culture. Printing, petitions, and the public sphere in early-modem England. Princeton: Princeton University Press, 2000. Causas semelhantes teriam dado lugar ao surgimento, rja Catalunha em meados do século XVII, de um tipo de literatura politica destinada a um público amplo (ver os dois , volumes de Escrits politics del segle XVII. Editados por Xavier Torres e Eva Serra. Barcelona: I. U. d'História Jaume Vicens Vives, 1995).

damentos da autoridade e estimulava o surgimento de especulações sobfe uma possível melhor ordem da sociedade (não é por acaso que esta é uma época de utopias subversivas: Thomas More, Campanella, Bacon, Hartlib, Harrington, Cyrano...).7 Campanella, que defendia uma aproximação empírica ao conhecimento científico, permaneceu na prisão de 1568 a 1626, Giordano Bruno foi queimado em 1600 e Lúcio Vanini, em 1619. Galileu começou a ter problemas com a Inquisição em 1616, sendo processado em 1623. Em 1624, o Parlamento de Paris condenava à morte os ataques a Aristóteles e, em 1628, Descartes retirava-se para a Holanda, onde permaneceu durante vinte anos. Nesta terra de refugio, desenvolveu a visão mecanicista do mundo, inspirando a investigação científica de homens como Christiaan Huygens (1629-1695) no terreno da matemática e da astronomia, assim como também na construção de relógios de precisão. Na Holanda reunirám-se os judeus sefarditas fugidos da Espanha e de Portugal, entre os quais nasceria uma linha de deístas comò Uriel da Costa, e outra, de possíveis ateus como Juan de Prado (que não acreditava no além e pensava que o mundo não fora criado, mas que existia e continuará existindo para sempre, sob a mesma forma) e, principalmente, o personagem extraordinário que é Baruch Spinoza (1632-1677) qué, expulso da comunidade judia, expôs suas concepções filosóficas no Tractatus theologico-politicus (1670), publicado anonimamente em Amsterdan e logo proibido, no qual nos pede que não submetamos a razão a uma letra morta que pode estar corrompida pela malícia humana, como as escrituras - que os teólogos usam para delas extrair "as próprias idéias inventadas arbitrariamente" - , mas, sim, que nos guiemos pela razão; onde defen7 Existe uma abundante literatura geral sobre as utopias -VERSINS, Pierre. Encylopédie de l'Utopie, des voyages extraordinaires et de la science fiction. Lausánne: L'âge d'homme, 1972; TROUSSON, Raymond. Historia de la literatura utópica. Barcelona: Península, 1995, etc.- de escassa utilidade, precisamente por seu caráter geral. De qualquer modo, o livro'de Versins contém uma tabela cronológica (p. 171-174) que permite ver que o gênero nasce, de fato, no século XVI com Thomas More, florescendo no século XVII, com 16 títulos. É preciso ter cuidado, no entanto, ao interpretar personagens complexos como Campanella, de quem falamos antes.

de que afinalidadeprópria do estado é a liberdade (o que fez com que Antônio Negri afirmasse que "é a obra que funda teoricamente o pensamento político-democrático moderno na Europa") e que, "numa comunidade livre, cada homem pode pensar o que quiser e dizer o que pensa". Do ponto de vista da história, Spinoza, crítico da validade histórica da Bíblia, representa um impulso muito importante em direção à secularização. Esta revisão crítica não aparecerá somente entre os judeus, mas, também, erjtre os protestantes descontentes com a acomodação das igrejas reformadas à ordem estabelecida: os collegianten holandeses, por exemplo, partiam das correntes radicais do reformismo religioso e "fizeram uma tempestuosa travessia da fé à razão". No início, dedicavam-se a ler a Bíblia e a cantar hinos, mas, depois, quiseram escutar pessoas como Comenius (bispo da irmandade morávia, obrigado a abandonar a terra checa), como Spinoza (foi um livreiro da comunidade que publicou o Tractatus) ou como os socinianos que haviam fugido da Polônia e cujas idéias foram proibidas em 1653, inclusive na Holanda, porque negavam a trindade, a divindade de Cristo oü a providência.8 Alguns dos componentes essenciais da Ilustração, procediam das formas de livre pensamento e crítica do século XVII francês. Por um lado, o libertinismo, em que se incluem nomes tão diversos como os de Gassendi, Molière ou Cyrano (o escritor radical que foi caricaturado pela lenda).9 Por outro, o pirronismo histórico, que defendia uma atitude de ceticismo 8 Para o contexto geral, ISRAEL, Jonathan I. The Dutch republic. Its rise, greatness, and fall, 1477-1806. Oxford: Clarendon Press, 1995 (em especial o capítulo 34, "Intellectual life, 1650-1700"). Sobre os sefaradis, ALBIAC, Gabriel. La sinagoga vacía. Madrid: Hiperión, 1987 e MÉCHOULAN, Henry. Etre juif a Amsterdam au temps de Spinoza. Paris: Albin Michel, 1991. Sobre Spinoza, NADLER, Steven. Spinoza. A life. Cambridge: University Press, 1999; YOVEL, Yirmiyahu. Spinoza and other heretics. Princeton: Princeton University Press, 1989.2 v. (a citação de Antônio Negri é de Spinoza sowersivo. Roma: Pellicani, 1992). Sobre os "Collegianten" FIX, Andrew C. Prophecy and reason. Princeton: Princeton University Press, 1991. Uso o Tractatus de Spinoza na tradução inglesa de Samuel Shirley (Leiden: Bröl, 1989). 9 SPINK, J. S. La libre pensée française. De Gassendi à Voltaire. Paris: Editions Sociales, 1966. Parece que Molière e Cyrano haviam estudado filosofia com Gassendi (MOLAND, Louis. Vie de J.-B. P. Molière. Histoire de son théâtre et de sa troupe. Paris: Garnier, 1892. p. 26-27).

ante os relatos históricos, ao estender aos conteúdos a atitude crítica que Mabillon limitara à validade das fontes. François de La Mothe Le Vayer (1588-1672), preceptor de Luís XIV, realizou uma espécie de enlace entre as novas correntes e as velhas tradições céticas que ensinavam a "substituir a verdade pela verossimilhança", dirigidas agora contra as pretensões do racionalismo cartesiano, mas, também, especificamente contra os abusos dos historiadores - faria uma crítica demolidora da História do imperador Carlos V de Sandoval - e, contra a credulidade na história (Discurso sobre a pouca certeza que existe na história, 1668). Richard Simon (1638-1712) escandalizou Bossuet com a História crítica do velho testamento (1678), na qual tentou aplicar critérios científicos ao estudo do conteúdo da Bíblia: o autor foi expulso da ordem religiosa a que pertencia e Bossuet conseguiu que o livro fosse incluído no índice (e, ao mesmo tempo, condenou o estudo da história-eomo vã curiosidade erudita, que devia reduzir-se ao reconhecimento da ação da providência). Pierre-Daniel Huet, bispo de Avranches (1630-1721), generalizou os princípios do pirronismo no Traité philosophique de la foiblesse de l'esprit humain, publicado depois de sua morte, ao afirmar que "a verdade não pode ser conhecida pelo entendimento humano mediante a ra2ão, com uma perfeita e total certeza"", "que é necessário duvidar e que este é o único meio de evitar os erros". Membro tardio, mas representativo, do pirronismo histórico foi Bernard Le Bovier de Fontenelle (1657-1757), autor de uma Histoire des oracles, que era na realidade a adaptação "amena" - escrita em "um estilo coloquial" - de uma obra do médico holandês Van Dale. Nela, dá uma explicação "naturalista" do fenômeno; nega que ele tenha origem no demônio e afirma que "grandes seitas de filósofos pagãos não acreditavam que houvesse nada sobrenatural nos oráculos", sendo a decadência e desaparecimento dos mesmos um fato perfeitamente explicável em termos históricos.10

10 BORGHERO, Carlo. La certezza e la storia. Cartesianismo, pirronismo e conoscenza storica. Milano: Franco Angeli, 1983 (sobre La Mothe Le Vayer, p. 57-83). Faz-se uma citação de LE VAYER, La Mothe. De l'ignorance louable. In: . Dialogues faits à l'imitation des anciens. Paris: Fayard, 1988. p. 216, e uma de HUET, Pierre-Daniel. Traité philosophique de la foiblesse de l'esprit humain. London: Nourse, 1741. p. 169; B. Fontenelle, Histoire des oracles, citação do prefacio e do capítulo VII. Sobre Fonte-

Entretanto, o fruto »mais importante desta corrente, e que teria uma influência maior no desenvolvimento da Ilustração, seria a obra de Bayle. Pierre Bayle (1647-1706) nasceu no sul da França, filho de um pastor protestante e de família pobre (três inconvenientes para fazer uma carreira literária). Em 1669, aos vinte e dois anos, foi a Toulouse estudar no Colégio dos jesuítas e converteu-se ao catolicismo, ao qual renunciaria em 1670, para voltar ao protestantismo, movido pelas pressões da família (e não sem perigo, já que os relapsos eram condenados ao exílio perpétuo do reino). Mudou-se para Genebra com a intenção de estudar e teve que trabalhar de preceptor para sobreviver. Em 1675, obteve a cátedra de filosòfia da academia protestante de Sedan, onde permaneceu seis anos dedicado ao ensino. Admirava cada vez mais os céticos e os libertinos, a ciência do concreto, a história e a erudição. Fechada pelo governo a academia onde trabalhava, teve que se mudar para Rotterdam em 1681, onde ensinou filosofia e história numa escola. Permaneceria na cidade vinte e cinco anos, sem chegar, no entanto, a aprender holandês. Começaria, então, a publicar suas grandes obras, iniciando por Pensées diverses sur la comete, na qual, sob o pretexto de atacar as superstições sobre os cometas (escreveu o livro por causa da passagem do Halley em 1680) e de afirmar que os astros não têm nada a ver com as livres ações dos homens, foi muito mais longe: criticou os milagres, o argumento de autoridade e a tradição com opiniões tão arriscadas como: "o ateísmo não conduz necessariamente à corrupção dos costu. mes", afirmação que despertou a indignação dos ortodoxos de um e de outro lado ("passamos quase por hereges, inclusive entre os protestantes, quando falamos com força em favor da tolerância", dirá). Em 1697, apareceu em Rotterdam o Dictionnaire historique et critique. O livro fora concebido, inicialmente, como uma réplica crítica ao Grand dictionnaire historique de Louis Moreri (1643-1680), uma coleção de informações eruditas que chegaria a ter vinte e uma edições, corrigidas e muito ampliadas por seus discípulos {enquanto a segunda edição, preparada ainda por Moreri, tinha dois volumes, a vigésima primeira, de 1759, nelle, sobrinho de Corneille,"bel-esprit" e cientista frustrado, BADINTER, Elisabeth; Les passions intellectuelles. Paris: Fayard, 1999. p. 31-36.1. Désirs de gloire (1735-1751).

tinha dez): O plano inicial de Bayle, entretanto, mudou e o resultado foi outro tipo de "dicionário histórico", com um forte componente crítico, especialmente a respeito de temas de história eclesiástica - falando das freiras endemoniadas de Loudun, por exemplo, explica racionalmente fatos de aparência sobrenatural e comenta: "sabemos que ô segredo de fazer aparecer os mortos e de provocar visões da Santa Virgem é conhecido e praticado nos mosteiros" - e com uma defesa constante da tolerância, ou talvez melhor, como disse Elisabeth Labrousse, da liberdade de consciência: no artigo dedicado a Maomé, disse que, enquanto os muçulmanos, obrigados pela lei a exercer a violência em matéria de religião, se tinham mostrado bastante tolerantes, os cristãos, que têm o mandamento de pregar, "exterminam a ferro e fogo os que não são de sua religião" Crítico no que se refere a temas eclesiásticos, não aborda nunca questões teológicas, pois considerava que o cristianismo está acima da razão. Um artigo concreto pode dar idéia do método de Bayle: Jean François Bagni, um eclesiástico francês nomeado cardeal em 1629, tem, no Dictionnaire, um artigo de oito linhas onde se faz pouco mais que apontar as deficiências do que lhe havia dedicado Moreri. As notas destas linhas, no entanto, ocupam quatro colunas de letra miúda - Grafton disse que o livro de Bayle "consiste sobretudo de notas è inclusive de notas às notas" - , nas quais, entre outras coisas, destroça o autor que havia assegurado que, à vista dos 37 volumes de uma edição dos concílios, Bagni havia dito que se admirava que pudesse haver ainda hereges na França. Bayle observa que dificilmente Bagni podià ter falado de uma obra editada em 1644, pois morrera três anos antes, mas que, se houvesse dito o que se lhe atribui, se teria equivocado porque não havia muitos protestantes capazes de ler latim, língua em que está escrita a obra e os que o conhecem não têm nem o gosto nem a paciência de ler 37 volumes. Por outro lado, "sem a graça de Deus e a força da educação, as leituras dos concílios fariam cem vezes mais incrédulos do que cristãos", porque "não existe história que abunde mais em causas de escândalo, nem um cenário mais chocante de paixões, intrigas, facções, cabalas e astúcias". O Dictionnaire de Bayle alcançaria grande sucesso no século XVIII (Catarina da Rússia, por exemplo, dedicou 4ois anos à leitura integral). A

inteligência com que exercia a crítica, apoiada numa imensa erudição e numa capacidade lógica privilegiada, faz que nos pareça um cético libertino, quando no fundo tem uma intenção claramente religiosa; um homem que defende a razão, embora sáiba que "os preconceitos do coração são mais capazes de obrigar a tomar partido do que as luzes da razão". ' Com sua força crítica, entretanto, o Dictionnaire ensinou os ilustrados a raciocinar, estando na origem de muitas crises de consciência que ultrapassaram o autor ("não se podia acusá-lo de impiedade, mas produziu ímpios" com sua crítica). Para Voltaire - que assistiu, em 1754, jesuítas queimarem em público sete exemplares do Dictionnaire, em Colmar Bayle é um "apóstolo da razão", "o maior escritor dialético de todos os tempos", e o Dictionnaire, o primeiro livro "no qual se pode aprender a pensar". Do ponto de vista da história, Bayle ainda fundamentou, com o desenvolvimento da arte: das notas como ferramenta crítica, um modelo de trabalho erudito que será universalmente aceito e que chegou até nós sem muitas mudanças. , Todavia nem tudo o que se apresenta nestes anos como novo no terreno da reflexãofilosóficasobre a história se insere na linha do pensamento ilustrado. A obra de Giambattista Vico (1668-1744), os Princípios da Ciência Nova (1725-1744), representava antes de tudo uma reação contra as correntes do racionalismo cartesiano que se difundiam em princípios do século XVIII. Vico, de origem muito humilde, viveu uma vida de privações e de miséria, e teve de conviver com o fato de que sua obra foi ignorada e menosprezada pelos seus contemporâneos." 11 O livro fundamental sobre Bayle é o de LABROUSSE, Elisabeth. Pierre Bayle. Den Haag: M. Nijhoff, 1963-1964.2 v., sobretudo a segunda edição ampliada, da qual usei Pierre Bayle. Hétérodoxie et rigorisme. Paris: Albin Michel, 1996, onde se encontra uma bibliografia atualizada que compreende centenas de títulos. Sobre o Dictionnaire, RÉTAT, Pierre. Le Dictionnaire de Bayle et la lutte philosophique au XVIII siècle. Paris: Les Belles Lettres, 1971; SOLÉ, J. Bayle polémiste. Paris: R. Laffont, 1972; sobre as notas na obra de Bayle, GRAFTON, Anthony. The footnôte. A curious history. London: Faber and Faber, 1997. p. 191-201. Utilizo as Pensées diverses sur la comète na edição Prat, atualizada por Pierre Rétat. Paris: Nizet, 1984, 2 v. E o Dictionnaire, na quinta edição de Amsterdan (na realidade Trévoux) de 1734, em cinco volumes, corrigida e ampliada, com uma extensa vida de Bayle por Maizçaux e uma série de complementos (confrontando-a às vezes com a pri-

As correntes da historiografia da Ilustração passaram, em Nápoles, pelasfigurasde Ludovico Muratori (1672-1750), que aplicaria os métodos críticos da historiografia eclesiástica de Mãbillon a temas seculares, nos Annali d'Italia e, principalmente, de Pietro Giannone (1676-1748), que publicou História civil do reino de Nápoles (1723) com o objetivo de falar "da ordem política deste nobre reino, de suas leis e costumes". As críticas às reivindicações políticas da Igreja frente ao poder civil o obrigaram a fugir para Viena, enquanto o livro era condenado por Roma. Em 1736, foi seqüestrado por agentes do governo da Sardenha, passando os últimos doze anos da vida na prisão. Gjannone que, na autobiografia nãõ chega' nem sequer a mencionar Vico, será, no século XVIII, um escritor de fama européia (foíam feitas traduções de suas obras para o francês, inglês e alemão), considerado úm dos fundadores da história do direito. Vico, ao contrário^ ignorado no séculó XVIII - já que serão da linha de Giannone e Muratori os grandes nómes da Ilustração italiana da segunda metade do século, como Genovesi ou Beccaria - , seria uma descoberta dos românticos, e exerceria a influência sobre personagens tão diversos como Michelet, Comte ou Marx.12 Vico quis criar uma ciência nova e global da história, mais exata, se assim pode ser dito, que as da natureza, mas, principalmente, distinta destas, evitando a aproximação que outros realizavam, na época* entre ciências sociais e ciências naturais: "Este mundo civil foi criado certamente pelos homens, o que quer dizer que seus princípios devem e podem ser encontrados dentro das modificações da própria mente humana. De maneimeira, Rotterdam, Reinier Leers, 1697). Os principais artigos citados são "Bagni" (I, p. 609-610); "Louduft" (III, p. 761-763), "Mahomet" (IV, p. 25-47, citações literais da p. 37), "Phyrron" (IV, p. 669-674). As citações de Voltaire são de uma carta ao conde de Argentai de 24 de fevereiro de 1754 e de "Letres" a S. A. M. G. R. OPrincede..., 1767. 12 GIANNONE, Pietro. Storia civile dei regno di Napoli. In: Opere. Milano: Ricciardi, 1971 (citação da introdução); Vitta scritta da lui medesimo. Milano: Feltrinelli, 1961. A continuidade na linha da Ilustração italiana está expressa no próprio título do livro de VENTURI, Franco. Settecento riformatore; Da Muratori a Beccaria. Torino: Éinaudi, 1969 (sobre Vico e Genovesi, por exemplo, p. 527). CONSOLI, D. DalVArcadia ãirilluminismo. Bolonha: Capelli, 1972. p. 73-97.

ra que, qualquer um que reflita sobre isto, se surpreenderá com o fato de que todos os filósofos tenham-se ocupado seriamente em alcançar a ciência do mundo natural, do qual, ao ser criado por Deus, só Ele possui a ciência, enquanto que se esqueceram de meditar sobre o mundo das nações, ou seja, o mundo civil, criado pelos homens, cuja ciência podiam alcançar". A resposta é fomulada em termos estritamente filosóficos e de maneira muita obscura, mas o método que propõe sè diferencia tanto da erudição histórica como da "história filosófica": "A filosofia contempla a razão, de onde procede a ciência do que é verdadeiro; afilologiaobserva a autoridade do arbítrio humano, de onde vem a consciência do que é certo (...). Fracassaram, na mesma medida, tanto osfilósofosque não se preocuparam em verificar suas razões com a autoridade dosfilólogos,como os filólogos que não se preocuparam em verificar suas autoridades com a razão dos filósofos".13 A proposta de Vico, com tudo o que tinha de intuição, de uma antropologia histórica que tornasse possível chegar ao conhecimento da mentalidade dos homens do passado, permaneceria, no entanto, inerte na época. O próprio fato de aceitar a cronologia bíblica, que limitava o curso da história a uns cinco mil anos - como necessidade de defender as verdades da história sagrada do ataque de ateus e libertinos - o desacreditaria ante os homens definsdo século, já conhecedores dos avanços da geologia. Os herdeiros diretos do estilo crítico de Bayle foram os "ilustrados" franceses do século XVIII, que levaram seus propósitos adiante, na busca 13 BADALONI, Nicola. Introduzione a G. B. Vico. Milano: Feltrinelli, 1961. Utilizo as obras de Vico na edição das Opere Filosofiche. Firenze: Sansoni, 1971, citações das p. 447 e 438, respectivamente. BERRY, Thomas. The historical theory of Giambattista Vico. Washington: Catholic University of America, 1949; CROMBIE, A. C. Styles of scientific thinking in the European tradition. London: Duckworth, 1994. Ill, p. 1588-1594; MOMIGLIANO, A. Vico's Scienza Nuova: Roman Bestioni and Roman Eroi. In: . Essays in Ancient and Modern Historiography. Oxford: Blackwell, 1977. p. 253-276; HUTTON, Patrick H. History as an art of memory. Hanover: University of Vermont, 1993. p. 32-51; FERRARIS, Maurizio. Storia dell'ermeneutica. Milano: Bompiani, 1989. p. 64-71. Uma visão revalorizadora encontra-se em DOOLEY, Bredan. The social history of skepticism... Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1999.

de um tipo de história que desempenhasse as funções de ciência da sociedade. Estes homens repeliam, desde logo, o tipo de crítica da história erudita "monástica", considerando-a insegura - a veracidade não tem nada a ver com a mera acumulação de informações - e de visão limitada: um impedimento, para chegar à concepção global a que aspiram. Montesquieu e Voltaire menosprezavam explicitamente esta erudição, Condillac a confrontou com a razão e não faltou quem propusesse queimar os volumes deste tipo de estudos históricos.14 Nestas páginas, falaremos principalmente dos autores que propuseram novas formas de entender a história e escreveram livros que se converteram em modelo duradouro. Mas, é necessário deixar claro que os autores franceses - como os britânicos, de que falaremos mais adiante, ou os italianos ou alemães da épõca - , atuaram num meio cultural distinto, no qual o surgimento da "opinião pública", restrita inicialmente ao círculo dos salões e aos leitores de jornais, mas ampliada progressivamente no transcurso do século, proporcionou uma força e uma extensão insuspeitada a suas idéias, até incorporá-las às novas concepções coletivas de mundo e da sociedade que inspiraram a Revolução francesa.15 Charles-Louis de Secondat (1689-1755), barão de La Brède, que levava o nome de Montesquieu, herdado de um tio juntamente com uma magistratura, é o menos revolucionário dos homens que revolucionaram o mundo. Aristocrata, dono de boa fortuna, pfopríetário de vinhedos em Bordéus foi, provavelmente, um dos maiores divulgadores das novas idéias através de um livro que teve um grande êxito popular, as Cartas persas (1721). Nele, a sociedade européia da época era apresentada através dos olhos de viajantes orientais. A mais importante de suas obras dedicou-se a investigar os fundamentos das formas de governo e das leis que correspon14 GOULEMOT, Jean Marie. Lê règne de l'histoire. Discours historiques et révoltions XVIIe XVIlie siècle. Paris: Albin Michel, 1996. p. 158. 15 Esta visão "social" da Ilustração pode ser observada principalmente no livro já citado de MUNCK, Thomas. The Enlightenment. A comparative social history, 17211794. London: Arnold, 2000. Sobre o surgimento da opinião pública, também E. Badin ter, Les passion intellectuelles. I. Désirs de gloire, com uma citação quase literal da p. 14.

dem a cada uma delas. Esta obra máxima é O espírito das leis (1748), que apresenta assim o objeto: "Comecei examinando os homens e acreditei que, nesta infinita diversidade de leis e de costumes, não era somente a fantasia que os guiava. Estabeleci os princípios e verifiquei que os casos particulares se adaptavam a eles naturalmente, que as histórias de todas as nações são só conseqüência deles e que cada lei particular está ligada a outra lei ou depende de outra mais geral". A frase inicial do primeiro livro expressa o princípio geral que o guia: "as leis (...) são as relações necessárias que derivam da natureza das coisas". Mas, que "coisas"? Os "livros" da terceira parte, que examinam a relação das leis com o clima e com o terreno, impressionaram a muitos leitores pela novidade "materialista"; mas, esta mesma parte acaba estendendo a análise "às relações que têm com os princípios que conformam o espírito geral, os costumes e as maneiras de uma nação" e afipna que "diversas coisas governam os homens: o clima, a religião, as leis, as máximas do governo, os exemplos das coisas passadas, os costumes, as maneiras; de onde se forma um espírito geral. À medida que, em cada nação, uma destas causas atua com mais força, as outras cedem outro tanto". O primeiro exemplo esclarece o lugar reservado aos fatores "materiais": "a natureza e o clima dominam praticamente sozinhos os selvagens". É verdade, no entanto, que, em outros momentos, cai em simplicidades "climáticas", como no contraste tópico entre os povos europeus do sul e do norte, ao considerar a geografia da Ásia como causa da existência de grandes impérios em contraposição ao espírito de liberdade que a fragmentação do território gera na Europa, ou ao justificar a escravidão dos negros pela preguiça que produz o clima quente (mas também, mais pragmaticamente, porque "o açúcar seria demasiado caro, se a planta que o produz não fosse cultivada por escravos"). Montesquieu, que contribuiu com a "física social" do Espírito das leis para dar uma base científica ao estudo da sociedade e da política, não menosprezou, no entanto, a análise histórica concreta. Se, no estudo dás leis feudais dos francos, propõe "iluminar a história com as leis e as leis com a história", nas Considerações sobre as çausas da grandeza dos romanos e de sua decadência (1734), que apresentam uma ampla e cuidadosa ano-

tação das fontes utilizadas, realizou a distinção entre as "causas gerais" que explicam as grandes mudanças históricas e as causas particulares e acidentais, como a vitória de uma batalha que aparece como determinante à primeira vista, na obra, numa tentativa, bastante feliz, de procurar as explicações da história do império, de sua ascensão e decadência na própria sociedade romana e não nos desígnios da providência. Ele, que não pretendia de modo algum mudar a sociedade em que vivia - embora tivesse intuições como a que lhe fez ver que "as grandes empresas de comércio não são para armonarquias, mas para os governos de mais de um", ou seja "republicanos", porque neles, sendo a propriedade mais segura, há mais estímulos para o investimento - , contribuiu para a crise da mesma, ao estimular os homens a analisar racionalmente a sociedade em que viviam. Como disse Ehrard: "Na história das idéias, o lugar de Montesquieu seria mais modesto se as verdades que defendeu não estivessem impregnadas de verdades contrárias".16 François-Marie Arouet, conhecido como Voltaire (1694-1778), era somente um jovem poeta quando, espancado pelos criados do cavaleiro de Rohan por não haver lhe mostrado o respeito que este acreditava que lhe era devido (e havendo permanecido na prisão da Bastilha como conseqüência deste incidente), decidiu ir para a Inglaterra, onde recebeu uma grande influência da ciência da época (em 1738, publicou Elementos da filosofia de Newton) e preparou a História de Carlos XII, iniciando a carreira que o converteria num escritor da moda na França e num pensador de reputação européia, convidado por Frederico de Prússia para sua corte. Voltaire acreditava no poder transformador do conhecimento - "uma vez que chega ó momento de pensar não se pode roubar dos espíritos a força que adquiriram" - e na tolerância. Demonstrou um valor 16 STAROBINSKI, Jean. Montesquieu. México: Fondo de Cultura Económica, 1989. Utilizo as obras de Montesquieu na edição de Oeuvres complètes de Daniel Oster. Paris: Seuil, 1974 e o Esprit des bis, na de Laurent Versini. Paris: Gallimard, 1995. As citações do Esprit des lois correspondem, respectivamente, ao livro I, capitulo 1; XIX, 4; XXI, 3; XVII, 7; XV, 5-8; XXXI, 2 e XX, 4. Das Consideraciones sobre la grandeza de los romanos..., capítulo XVIII. As palavras de Jean Ehrard estão em L'idée de nature en France à l'aube des lumière. Paris: Flammarion, 1970. p. 384.

extraordinário na defesa de casos como o de Calas (um comerciante de tecidos de Toulouse, protestante, que foi torturado e executado por um crime que não havia cometido) ou o do cavaleiro de Barre (condenado por não ajoelhar-se ao passar por uma procissão e queimado com o Dicionário filosófico de Voltaire na fogueira), mantendo-se firme com suas idéias, mesmo que tódos seus livros tenham sido proibidos em um momento ou outro, inscritos no índice pela Igreja e queimados pela" autoridade civil (vivia perto da fronteira para poder escapar facilmente, como o fez por precaução em diversas ocasiões). Nãò ia, porém, tão longe na crítica à sociedade existente como Rousseau. Não aceitava as objeções deste sobre a propriedade, nem a idéia de que ós homens eram* iguais, que a civilização os tivesse pervertido e que eram feitos para viver naturalmente, "isolados como bestas selvagens".17 O interesse de Voltaire pela história é bem conhecido. Foi ele quem escreveu o artigo "História" para a Encyclopédie, onde começa dizendo que "é o relato dos fatos considerados verdadeiros, ao contrário da fábula, que é o relato dos considerados falsos", uma trivialidade de origem ciceronia17 A obra essencial é Voltaire et soti temps, dirigida por René Pomeau, com diversos colaboradores, em cinco volumes -D'Arouet a Voltaire, 1694-1734, Avec Madame Du Châtelet, 1734-1749, De la cour au jardin, 1750-1759, "Ecraser l'Infâme", 1759-1770 e On a volu l'enterrer, 1770-1791- Oxford: Voltaire Foundation, 1985-1994. Complementarmente, utilizou-se, entre outros títulos, BRUMFITT, J. H. Voltaire historian. Oxford: Oxford University Press, 1970; ALDRIDGE, A. Owen. Voltaire and the century of light. Princeton: Princeton University Press, 1975 (baseado essencialmente nos 107 volumés da correspondência de Voltaire, editados por Besterman); LEPAPE, Pierre. Voltaire le conquérant, Paris: Seuil, 1994; JACOBS, M. C. The radical enlightenment. London: Allen and Unwin, 1981, etc. Os textos foram extraídos dos diversos volumes da inacabada edição das "obras completas", numa velha edição de Oeuvres complètes. Paris: Furne, 1835-1838 e, no que se refere às obras históricas, na edição preparada por POMEAU, René. Oeuvres historiques. Paris: Gallimard/La Pléiade, 1957. Para efeitos práticos, empreguei as compilações Dictionnaire de la pensée de Voltaire par lui-même, preparado por André Versaille (Bruxelles: Complexe, 1994) e Inventaire Voltaire, dirigido por Jean Goulemot, André Magnan e Didier Masseau (Paris: Gallimard, 1995) e, para a correspondência, as seleções de Naves, Lettres choisies. Paris: Garnier, 1963 e HELLEGOUARC'H, Jacqueline. Correspondance choisie. Paris: Librarie Générale Française, 1997/2. A citação que se faz neste parágrafo é de "Reflexions sur les sots", em Oeuvres, VlII, p. 593.

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na, que enriqueceu mais adiante ao acrescentar que a única certeza possível na história é a de "uma extrema probabilidade", devido à falta de documentos para os tempos antigos e medievais.18 Como a maior parte dos ilustrados, Voltaire distingue entre a veracidade e a acumulação de dados concretos próprios da erudição - "os fatos principais podem ser autênticos e os detalhes, muito falsos" - , menosprezando a história èm minúsculas - "a história ordinária, que não é mais que um amontoamento de fatos produzidos pelos homens e, em conseqüência de crimes, não tem muita utilidade (...). Somente satisfaz a curiosidade". A sua é uma concepção "filosófica" da história, uma visão de altos vôos, cujo objetivo Pomeau descreveu com as seguintes palavras: "Refazer o desenvolvimento da civilização — nós diríamos das civilizações - , acompanhar os esforços dos homens, vivendo em sociedade, para sair do estágio primitivo da bruto - do primata, cuja existência não suspeitava - para cumprir a vocação do homem, apesar de todas as quedas e todos os fracassos".19 A primeira obra histórica importante foi História de Carlos XII, rei da Suécia (1731), publicada çom dados autorais falsos, por temor à censura - um destino quase constante na obra de Voltaire. É um relato que alcança, em alguns momentos, o dramatismo da tragédia e, em outros, o imediatismô do jornalismo, mas em que falta, ainda, a amplitude dos grandes livros posteriores (Pomeau dirá que é uma novela "apaixonante e quase verdadeira").20 18 Utilizo o artigo na edição de VOLTAIRE. Oeuvres alphabétiques. Oxford: Voltaire Foundation, 1987.1, p. 164-186. O artigo deixa claro que a incerteza depende da falta de documentos; nos cadernos de notas, disse que somente podemos ter certeza a partir da época das gazetas e dos jornais, que se contradizem e se criticam (VOLTAIRE. Notebooks. Genebra: Institut et Musée Voltaire, 1968/2. II, p. 464-465). Sobre a aplicação de critérios de probabilidade à história, veja-se DASTON, Lorraine. Classical probability in the Enlightenment. Princeton: Princeton University Press, 1995. p. 313-316 e 333-334. 19 Citação de "Le pyrrhònisme de l'histoire" em Oeuvres, V, p. 70 e de Notebooks, I, p. 230. A de Pomeau é de On a volu Tenterrer, p. 375. 20 Utilizo a edição crítica de Gunnar von Proschwitz, VOLTAIRE. Histoire de Charles XII. Oxford: Voltaire Foundation, 1996, que contém uni amplo estudo preliminar. POMEAU, René. D'Arouet à Voltaire, p. 267-275.

Seu programa histórico mostrar-se-ia com tóda a clareza em Le siècle áe Louis XIV (1751), um livro que não se dedica a Luís XIV, mas "ao espírito dos homens no século mais ilustrado que já tenha existido", com ambição autêntica de história universal (contrastando com Bossuet, que chamara "história universal" a de quatro ou cinco povos "e principalmente a da pequena nação judia, ignorada ou justamente menosprezada pelo resto da terra"). A história do mundo dividia-se, segundo Voltaire, em quatro "séculos" ou épocas: o de Alexandre, o de César e Augusto, o dos Médici, que é tanto como dizer Renascimento, e o "século de Luís XIV", a época moderna da história da humanidade, que analisa nos primeiros capítulos a partir das políticas exterior e interior, ao mesmo tempo que prepara o terreno "para esta culminação que são os quatro capítulos sobre as ciências e as belas artes e para o que constitui o fundo sombrio do quadro, os cinco capítulos de questões eclesiásticas". Apesar de criticado por não ter conseguido unificar os diversos elementos num relato global, o livro, a que Voltaire dedicou muito esforço e que corrigiria em sucessivas versões, era uma obra nova, de uma ambição e de uma amplitude até então desconhecidas. E assim o reconheceram os contemporâneos que, mesmo que a obra estivesse proibida na França, fizeram que dela se realizassem mais de cinqüenta edições, ainda em vida do autor.21 O "século" mostrava as idéias do escritor, a quem não interessavam os reis nem as batalhas. Propunha uma história universal que falasse da índia ou da China como da Europa e que se dedicasse aos grandes problemas coletivos: queria "saber da história dos homens em vez de saber de uma pequena parte da história dos reis e das cortes". O menosprezo pelo passado mais remoto não se baseava somente na atitude cética ante òs testemunhos da antiguidade, mas também no fato de que considerava que a história "se torna realmente interessante para nós, a partir do final dó sé21 POMEAU René et al. De la cour du jardin, p. 62-67. A opinião sobre Bossuet em "Le pyrrhonisme de l'histoire", p. 70. A citação de "Le siècle de Louis XIV" d'Oeuvres, IV, p. 63.

culo XV", quando o impacto da imprensa, o Renascimento, os descobrimentos e a Reforma contribuíram para unificar o mundo.22 O ponto máximo de seu trabalho de historiador chegaria com Essaix sur les moeurs et l'esprit des nations, a Obra mais importante, que começou a escrever em 1741, publicou pela primeira vèz em 1756 e continuou refazendo e ampliando até a morte. Na edição de 1769, Voltaire incluiu, como introdução, uma obra que havia publicado em 1765, utilizando o nome de um certo abade Bazin já falecido, La philosophie de l'histoire, na qual examinava a história humana das origens à queda do império romano, numa tentativa de análise comparada que estava destinada a relativizar o Antigo Testamento e a importância do povo judeu.23 No que diz respeito às origens, no entanto, Voltaire mostrou-se incapaz de assimilar os avanços no terreno da geologia que já haviam sido divulgados por George Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), que começara sua grande História natural em 1749 com uma "História e teoria da Terra", escrevendo um capítulo sobre os fósseis marinhos "que se encontram no interior da terra", como prova das grandes mudanças ocorridas no planeta.24 Em Essai sur les moeurs, Voltaire repete que o objetivo não é explicar tudo, mas somente aquilo que merece ser conhecido, "o espírito, os costumes, os usos das nações principais, com os fatps que não é permitido ignorar", e acrescenta: "A finalidade do trabalho não é a de saber em que ano um príncipe indigno de ser conhecido sucedeu a um príncipe bárbaro numa nação grosseira. Se ocorresse a desgraça de se meter na cabeça a relação cronológica de todas as dinastias, não se saberia mais do que palavras". 22 Citações de uma carta a Jacob Vernet, Oeuvres, XI, p. 448-449 e de "Fragments sur l'histoire", Y, p- 243. Em um sentido similar: "Todos os fatos da história têm de ser aplicados à moral e ao estudo do mundo; sem isto a leitura é inútil", Notebooks, II, p. 509. : 23 VOLTAIRE. La philosophie de l'histoire. Edição de J. H. Brumfitt. Genebra: Institut et Musée Voltaire, 1969/2 (Oeuvres completes, 59). 24 BUFFON, Georges Louis Leclerc. Histoire naturelle géneràle et particulière. Paris: Pancoucke, 1769.1 (a edição original apareceu em 1749) "Sur les coquilles et les autres produits de la mer qu'on trouve dans l'interieur de la terre", p. 331-384.

„A obra começa com capítulos dedicados à China, à índia, à Pérsia e à Arábia, a Maomé, às origens do cristianismo, às causas da queda do império romano e ao início de um período de superstição e envilecimento que duraria na Europa até o século XVI. Continua, depois, com a história da Europa medieval, incluindo os normandos e Bizâncio - com capítulos de sínteses\jue analisam o estado geral, os costumes, a cultura ou a religião da Europa. Depois dos capítulos dedicados às cruzadas, focaliza os moni^óip e Gengis Khan, a cruzada contra os languedocianos (uma guerra injusta que gerou o nascimento da infâmia da Inquisição) e o cisma do Ocidente. Dedica nove capítulos analíticos aos privilégios das cidades e das cortes, aos impostos e às moedas, antes de passar a falar do triunfo dos turcos sobre Bizâncio e de Tamerlão, dedicando uma longa série de capítulos às instituições feudais (a cavalaria, a nobreza, os torneios, os duelos), e outros dois que nos falam dos judeus e dos ciganos. Finalmente, apresenta todo o desdobramento do renascimento, da reforma e dos descobrimentos, ligado a um relato da história das guerras entre Espanha e Françar da revolução inglesa, da Rússia, etc. O quadro universal introduz agora o Japão e se dedica ao norte da África. O capítulo 197, e último, recapitula as lições de toda esta história. Uma delas é a necessidade de lutar contra as fábulas e os mitos: "Em todas as nações, a história permanece desfigurada pela fábula, até o momento em que afilosofiavem iluminar as trevas; e quando finalmente a filosofia penetra as trevas, encontra os espíritos tão cegos por séculos de erros, que mal pode esclarecê-los: encontra cerimônias, fatos, monumentos estabelecidos para constatar mentiras". A barbárie medieval, e em especial "o furor dogmático religioso", converteram a história da Europa medieval "em um monte de crimes, de loucuras e de desgraças". Que, no meio desta situação, houvesse tantos homens que cultivaram as artes úteis e agradáveis, significa que "nossa parte da Europa tem um caráter nos costumes e no gênio" não encontrado nos turcos nem na Ásia em geral. Voltaire critica as explicações "geográficas" das diferenças, propostas por Montesquieu. Sua natureza é, para ele, de caráter cultural: de "religião, regulamento, governo, costumes, alimentos, vestuários, maneira de escrever, de se expressar e pensar". Ao fim, chega à conclusão "que tudo ó que

depende intimamente da natureza humana se assemelha, de um extremo do universo a outro; que tudo o que pode depender do costume é diferente (...). O império do costume é mais abrangente do que 0 da natureza". A natureza^garante a unidade dos homens, os costumes, a variedade. Observando a evolução da Europa de Carlos Magno ao presente, fica evidente que, agora, ela está muito mais povoada e mais rica, que a agricultura e o comércio progrediram. E que teria progredido ainda mais se não tivessem ocorrido as muitas guerras que sofreu, A própria guerra, no entanto, humanizou-se ao converter-se em coisa de exércitos profissionais e ao não envolver a população. "Quando uma nação conhece as artes, quando não se vê subjugada ou deportada por estrangeiros, ressurge facilmente das ruínas e sempre se recupera."25 Nofinalda vida, o próprio Voltaire estava consciente da limitação do que produzira, tendo escrito a Diderot, em 14 de agosto de 1776, uma carta que é, de alguma maneira, seu testamento como ilustrado: "A sã filosofia ganha terreno de Arkangelsk a Cádiz, mas (...) tudo o que pudemos fazer se limitou a conseguir que as pessoas honradas de toda a Europa digam que temos razão e, talvez, que os costumes sejam um pòuco mais suaves e mais honestos. Mas, o sangue do cavaleiro da Barre ainda fumega (..,). Q mais terrível é que osfilósofosnão estão unidos e que os perseguidores o estarão ~ sempre (...). Viva bastante, senhor, e esperemos que possa acertar golpes mortais no monstro do qual eu pude morder apenas as orelhas".26 Dos dois, irmãos Bonnot, o segundo, Etienne, conhecido como abade de Condillac (1714-1780), é famoso sobretudo çomo filósofo, pòr trabalhos como A lógica e A língua dos cálculos, ignorando-se por completo sua obra de historiador, ao qual voltaremos em seguida. Mais sorte teve, nos últimos anos, a obra do irmão mais velho, Gabriel, conhecido como abade de Mably (1709-1785), que escreveu muito sobre história e foi am25 POMEAU, René ét al .De lá cour au jardin. Oxford: Voltaire Foundation, 1985-1994. p. 298-301. Faço a análise sobre o texto da edição Furne, Oeuvres, III, p. 1-610. As citações literais são de "avant-propos" (p. 71-72) e do capítulo 197 (p. 605-610). 26

Carta de 14 dé agosto de 1776, em Oeuvres, XIII, p. 371. Encerrava dizendo, "Se algum dia voltares à Rússia, visite meu túmulo". Restavam-lhe menos de dois anos de vida.

piamente lido pelos revolucionários, como teórico do republicanismo. Mably defendeu uma história que servisse para entender os mecanismos sociais. A missão de historiador não é, em absoluto, a de "costurar certos fatos a outros e contá-los com amenidade", e, sim, a de "descobrir as causas dos acontecimentos e a corrente que os enlaça". Uma história que "fale à razão", que mostre os costumes e o governo da república" para explicar as ações dos homens. Mably enfrentou os fisiocratas. Não aceitava as bases sociais de suas análises, começando pela suposição de que a propriedade privada da terra fora um fato natural e eternô, repelindo, também, a idealização do despotismo como forma de governo. Que necessidade existe de tomar como modelo os impérios asiáticos? "Na Europa, há diversas monarquias moderadas, este é o modelo que temos de propor e não o ridículo despotismo dos chineses."27 A extensa obra histórica do irmão, Condülac - especialmente cj curso de história universal para a instrução do príncipe de Parma, que ocupa 12 volumes dos 23 que compreende a edição original de suas obras completas - não recebeu a atenção que merecia. O "curso", destinado a "traçar ante nossos olhos a seqüência das revoluções, mostrar õs governos no início, no progresso e na decadência acostümando-nos a ver os efeitos nas causas", contém observações interessantes sobre temas como o uso que se fãrá das conjecturas quando faltam os testemunhos e uma visão da causa27 Todos os textos citados são da edição de Oeuvres. Paris: Bossimge et Besson, 17961797.12 v. e da Collection complète des oeuvres de l'abbé de Mably, Oeuvres posthumes. Paris: Desbrière, 1794-1795. v. XIII a XV (obras póstumas, com uma numeração nos volumes que continua da edição anterior). As citações realizadas procedem de "De l'étude de l'histoire" (Oeuvres, XII, citação da p. 5), "De la manière d'écrire l'histoire" (XII, citações das p. 258,273-274 e 311-312). "Doutes proposés aux philosophes économistes sur l'ordre naturel et essentiel des sociétés politiques" (XI, p. 1-174 citação da p. 123). É interessante também "Du commerce des grains" (XIII, obras póstumas, p. 242-298). Mably não foi somente um teórico; de suis Observações sobre a história da França, o abade Brizard disse, em "Elogio histórico de Mably" (Oeuvres, I, p. 16), que a obra é a primeira história "nacional" da França. Sobre as idéias políticas, WRIGHT, Johnson Kent. A classical republican in eighteenth-century France. The political thought of Mably. Stanford: Stanford University Press, 1997.

lidade dos acontecimentos, distinguindo, nesta, três níveis: as causas primeiras, que derivam da natureza humana e que são iguais em todos; as causas segundas, que procedem das diferenças existentes nas diversas comunidades humanas por causa do clima, da natureza do governo e do progresso dos conhecimentos e, finalmente, as causas terceiras, não previsíveis, que pertencem ao domínio do acaso. A seqüência causal procede originalmente da maneira de pensar, passa aos costumes e daí, ao governo, reagindo, depois, em sentido contrário, do governo à maneira de pensar. Tudo isto ao lado de uma visão da história do pensamento científico moderno, de observações interessantès sobre o desenvolvimento econômico, ou de formulações que ultrapassam os tópicos ilustrados, como esta: "As superstições são ensinadas pelo clero, os chefes de governo as usam no interesse próprio, os legisladores fazem falar aos deuses, e osfilósofosconciliam suas opiniões com preconceitos que não se atrevem a combater, que não sabem destruir e que, às vezes, compartilham. Assim, a superstição, a legislação e afilosofianão são mais do que um corpo de doutrina, em que os erros em grande número, misturados a üm pequeno número de verdades, envolvem as nações em trevas".28 De importância fundamental no panorama da Ilustração porque abre novos caminhos, mas também porque, de certo modo, anuncia a reação contra esta,xé Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Especialmente, as visões críticas das teorias tradicionais do "contrato social", em Discours sur les sciences et les arts (1750), em Discours sur l'origine et les fondeménts de l'inégalité parmi les hommes (1752) e em DM contrat social (1762), significaram um estímulo para pensar novamente os fundamentos da ordem política desde os tempos da Revolução francesa até datas bem recentes - Fidel Castro disse que combateu Batista "com o Contrato social no bolso - , porém, a qualidade das propostas históricas, encontradas em análises demasiadamente abstratas, é ínfima - o menosprezo, não pela erudição, mas

28 CONDILLAC, Étienne Bonnot. Oeuvres. Paris: Houel, 1798. 23 v. As citações de "Cours d'études pour l'instruction du prince de Parme" são de X, p. 21 e p. 3-4; o estudo das "revoluções nas letras e nas ciências" em XX, p. 271-541; observações sobre o mercado interno em XVIII, p. 411; a citação final de X, p. 32.

pelos fatos reais, faz que não saibamos se o "estado de natureza" de que nos fala é um momento histórico ou uma suposição dirigida a facilitar o raciocínio - , representando um passo atrás em relação a outros teóricos da época. Não compreendeu a natureza das mudanças que ò desenvolvimento do comércio introduzira na sociedade e parece ter tido, como ideal, uma comunidade agrícola primitiva, integrada por pequenas entidades de vida simples. Rousseau exerceu uma forte influencia sobre a sensibilidade posterior - é urti dos pais do Romantismo - , ajudou a situar a análise das formas políticas num novo terreno e foi, também, muito influente na renovação da pedagogia. No campo das idéias ilustradas sobre a história, no entanto, seu legado é extremamente ambíguo.29 Na historiografia alemã da Ilustração, influiu um fato sobre o qual Fueter nos dá uma explicação social: enquanto, na França, a literatura dependia dos salões aristocráticos, na Alemanha, era obra da pequena burguesia e dos acadêmicos. Além disso, nos pequenos estados alemães, os aspectos negativos do despotismo ilustrado eram mais evidentes e a burguesia sentia sua desigualdade em maior medida que na França ou Inglaterra. "Isto explica principalmente - diz Fueter - porque Rouçseau não encontrou, entre os historiadores franceses, um só discípulo importante, enquanto fez escola, entre os alemães", com discípulos que usavam a história còmo arma de agitação, narrando a luta pela liberdade ou os vícios de um regime corrompido. Ou mais exatamente, propunham uma "história pragmática" que permitisse estudar as causas dos acontecimentos importantes.30 O primeiro a aplicar os métodos "rousseaunianos" foi Friedrich Schiller (1759-1805), talvez mais importante pela influência que exérce29 O melhor estudo biográfico é CRANSTON, Maurice. Jean-Jacques (1712-1754), The noble savage, 1754-1762 e The solitary self. Chicago: University of Chicago Press, 1982-1997. Secundariamente, TRQUSSON, Raymond. Jean-Jacques Rousseau. Paris: Tallandier, 1988-1989. 2 v. Utilizo a edição das Oeuvres complètes de Rousseau de Paris: Seuili 1967-1971. 3 v. Para os "discursos" sòbre as ciências e as artes e sobre a origem da desigualdade, também a de Jacques Roger, Paris: Flammarion, 1971. , . 30 FUETER, Eduard. Storia delia storiografia moderna. Milano: Ricciardi, 1970. p. 509512. Sobre a "história pragmática", REILL, Peter Hans. The German enlightenment and the rise ofhistoricism. Berkeley: University of California Press, 1975. p. 41-45.

ram os dramas históricos do que pelas superficiais obras de história e pelos escritos teóricos de pouca substância - como " O que significa e com quefinalidadese estuda a história universal?" (1789) que acabará condenando, em 1793, a Revolução francesa, culpando-a por "um século inteiro de retrocesso à barbárie e à servidão".31 O segundo seria Herder. Parece claro, entretanto, que, à margem das peculiaridades que distinguem a Aufklärung, existe entre os próprios membros diferenças consideráveis que virão à tona em 1783, quando um jornal de Berlim, o Berlinische Monastschrift, em virtude de uma discussão em torno do casamento civil e do casamento religioso, expôs o problema dos limites que deveria ter a vontade de, reforma e alguns começaram a se perguntar, por este motivo, Was ist Aufklärung? - O que é a Ilustração?" - , isto é: esclareçamos o que é que nos propomos mudar no mundo em que vivemos e a que ponto queremos chegar. Foram enviadas muitas respostas à pergunta, mas as mais interessantes foram as dofilósofojudeu Moses Mendelssohn e a de Kant, que, sendo a mais contundente, suscitou uma série de réplicas hostis. Convém considerar que nos encontramos num momento em que ainda não havia ocorrido a Revolução francesa e, conseqüentemente, não havia motivos para temer que o processo das reformas pudesse conduzir a uma ruptura social. Mendelssohn escreveu que as palavras "luzes", "civilização" e "cultura" eram ainda recentes; que pertenciam à língua dos livros e que as pessoas comuns não as compreendiam. A cultura, disse, decompõe-se em civilização e luzes. A civilização refére-se ao terreno do prático, aos avanços materiais e de costumes; as luzes, ao terreno teórico, ao conhecimento racional. Para Mendelssohn, o processo total tem um sentido histórico que se expressa em termos de progresso. A resposta de Kant, que é talvez o texto mais citado do pensamento ilustrado, diz: "As luzes são a saída do homem do estado de tutela pelo qual ele próprio é o responsável. O estado de tutela é a incapacidade de servirse do próprio discernimento sem a direção do outro. Cada um é responsá31 SCHILLER, F. Escritos defilosofiade la historia. Murcia: Universidade, 1991. A citação é da "carta ao príncipe" de 13 de julho de 1793, p. 101.

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yel pelo estado de subordinação quando a causa deriva não de uma insuficiência de discernimento, mas da insuficiência de resolução e de valor para dele se servir sem a direção do outro. Sapere a udel Tenha o valor de servir-se de seu próprio discernimento. Eis aqui o lema das luzes". O processo, acrescentou Kant, talvez seja difícil de realizar-se em cada homem isoladamente, mas não o é para uma coletividade onde sempre havèrá certos homens que pensem por si mesmos e propaguem estes valores em seu meio. Kant repeliu, por outro lado, a idéia de que uma revolução possa produzir o mesmo efeito: "Mediante uma revolução, pode-se obter a queda de um despotismo pessoal ou o fim de uma opressão que repouse na ísede de dinheiro ou de domínio, mas nunca uma verdadeira reforma da maneira de pensar; pelo contrário, novos preconceitos servirão, como o fizeram ós velhos, para manter à margem o grande número de homens desprovidos de pensamento". Conseqüentemente, "para as luzes, não é necessário outra coisa senão a liberdade e a mais inofensiva em tudo o que se chama liberdade, que é a de fazer uso público, em tudo, da própria razão".32Frente ao pensamento de Kant, encontramos, entretanto, os termos fortes mas ambíguos de Herder e os essencialmente opostos de ama série de pensadores defendidos, hoje, pelos inimigos da Ilustração, como Hamann (um dos que protestaram contra o artigo de Kant), que pertence ao mesmo mundo intelectual de Mesmer ou do sueco Swedenborg, que falava com os anjos e tinha estranhas visões (existem ainda igrejas suedenborgianas nos Estados Unidos, na Nigéria e na índia).33 32 Os textos fundamentais do debate alemão podem ser encontrados em RAULET, Gerard (Ed.). Aufklãrutig. Les Lumières allemandes. Paris: Flammarion, 1995 e em SCHMIDT, James (Ed.). What is enlightenment? Eighteenth-century answers and twentieth-century questions. Berkeley: University of California Press, 1996 (aqui, ainda, com textos interpretativos do século XX). Também VENTURI, Franco. Sapere aude! In: .. Europe des lumières. Recherches sur le XVIIIe siècle. Paris: Mouton, 1971. p. 35-47. , 33 Sobre Herder, BERLIN, Isaiah. Vico and Herder. London: Hogarht Press, 1992; MERKER, N. L'illuminismo tedesco. Bari: Laterza, 1958. p. 450-464. (Berlin é também-autor de um estudo, já citado, sobre The magus of the north. J. G. Hamann and the origins of modem irrationalism. London: Murray, 1993); sobre o debate com Kant, GREEN, Garrett. Modern culture comes of age: Hamann versus Kant on the

Interpretar Johann Gottfried Herder (1744-1803) não é fácil. Por um lado, está claro que Ainda uma filosofia da história (Auch eme Philosophiéáer Geschichte, 1774) é um ataque frontal ao racionalismo da Ilustração, onde condenações a Montesquieu, Voltaire, Hume ou Robertson, não sãõ economizadas, recriminando-se as caracterizações globalizantes "Pinta-se um povo inteiro, um período inteiro, uma região inteira - o que se pintou? Unificam-se povos e períodos que se sucedem uns aos outros, alternando-se eternamente como as ondas do mar - o que se pintou?" Isso não é feito para propor um estudo individualizado, nem um retorno ao providenCialismo, mas, sim, para invocar uma transcendência - a história é a "epopéia de Deus através dos milênios, dos continentes e das gerações humanas" - que põe sua compreensão fora do alcance do homem.34 O mais "ilustrado" dos filósofos alemães foi, indubitavelmente, Emanuel Kant (1724-1804) que, em Idéias para uma história universal de um ponto de yista cosmopolita (1784), expõe uma concepção do progresso baseada na suposição teleológica de que "se pode considerar a histói

ria da espécie humana, no coiyunto, como a execução de um plano oculto da natureza para realizar uma constituição interior e exteriormente perfeita, como o único estado no qual pode desenvolver plenamente todas suas disposições na humanidade", acrescentando ainda que "uma tentativa filosófica de tratar a história universal em função do plano da natureza, que tende a uma unificação política total da espécie humana, considera-se como possível é inclusive como vantajosa para o desígnio da natureza". De acordo com estas idéias, escreveu, mais tarde (1798), sobre a possibilidade de uma história do futuro - uma história profética da root metaphor of Enlightenment. In: SCHMIDT, James (Ed.). What,is enlightenment?... Berkeley: University of California Press, 1996. p. 291-305. 34 Utilizo Encara unafilosofiade la história. Tradução de Joan Leita. Barcelona: Laia, 1983, citações das p. 61 e 127, eos comentários da luta entre Herder e Kant de Gerard Raulet em Aufklarung. Paradoxalmente, Fueter, que elogia Herder por haver "influído tão fortemente sobre a especulação histórico-fiíosófica e sobre a historiografia do romantismo", admite que as bases de suas teorias "são pouco claras e contraditórias" e acaba reconhecendo que não se pode dizer "que realizou progressos positivos na historiografia " (Storia delia stóriografia), p. 522-526. '

humanidade - que permitisse assentar o progresso do conjunto dos homens reunidos na sociedade.35 A meio caminho entre a Ilustração e as novas correntes de que falaremos mais tarde,, está Hegel (1170-1831) que, hoje sabemos, graças aos arquivos da polícia, sempre manteve simpatias pelo liberalismo, o que, em termos de governo prussiano, queria dizer tanto quanto pela revolução. Hegel começou a ministrar, no curso de 1822-1823, lições sobre filosofia da história, chegadas até nós através dos apontamentos dos estudantes. A visão é essencialmente filosófica e conserva elementos tipicamente ilustrados, como o universalismo, a concepção filosófica da lei e uma visão de progresso; nega, porém, a realidade de um "estado natural" em que os homens teriam vivido livres e considera que os povos entram na história somente quando chegam a formar um estado - "a história universal só pode ocupar-se dos povos que se organizaram em estado" - , o. que não o impedia de lembrar que, "igual a nós, o historiador pertence à sua época, a suas necessidades e a seus interesses: honra o que ela venera". Tais elementos poderiam ser usados num sentido conservador numa sociedade como a francesa que aceitava ao menos uma parte da herança da revolução. Porém, a ambigüidade hegeliana, condicionada em boa medida pela repressão das idéias, não era aceitável numa Alemanha que queria estabelecer uma doutrina conservadora sem oferecer, em contrapartida, senão o mínimo de reformas possíveis.36

35 Os textos sobre a história encontram-se nas compilações: Kant. Ideas para una historia universal en clave cosmopolita y otros escritos sobrefilosofiade la historia. Madrid: Tecnos, 1994/2; La paz perpetua. Madrid: Tecnos, 1989/2; La philosophie de l'histoire. Genebra: Gonthier, 1965, e na de Gerard Raulet, repetidamente citada. Do mesmo autor, utilizou-se Kant, Histoire et citoyenneté. Paris: PUF, 1996. 36 REILL, Peter Hans. The German enlightenmentand the rise ofhistoricism. Berkeley: University of Califórnia Press, 1975. Desisto de entrar na imensa bibliografia sobre Hegel; foram de especial utlilidade, entre os livros recentes, D'HONDT, Jacques. Hegel. Paris: Calmann Lévy, 1998 e ALTHAUS, Horst. Hegel. Naissance d'une philospphie. Paris: Seuil, 1999; em menor medida, MACGREGOR, David. Hegel and Marx after the fali of communism. Cardiff: University of Wales Press, 1998. Suas idéias sobre a história podem ser acompanhadas através dos Princípios de la filosofia dei dèrecho e de La razón en la historia, compostos a partir de notas de cursos, extraídas de seus manuscritos e dos apontamentos dos estudantes. Faço duas cita-

O futuro imediato da historiografia alemã avançaria, devido a isso, mais na linha de Herder do que na de Kant e o desenvolvimento das idéias históricas da Ilustração seria produzido sobretudo na França. Em outros países, como na Espanha, as contribuições realmente inovadoras, deixando de lado o florescimento da erudição, seriam obra de figuras isoladas como Antônio de Capmajiy ou Ignácio de Asso,37 cujas obras exerceram pouca influência em seu meio. Devemos, portanto, voltar à França e referir os homens que-avançaram mais na direção do futuro. ' Denis Diderot (1713-1784) não é somente afigura-chaveda Ilustração francesa mas, o que é mais importante, a que anuncia o que virá depois. Sua obra tem uma força crítica e uma dimensão literária extraordinárias. Em um primeiro momento, nos Pensamentos filosóficos, parte do ceticismo - "O que nunca foi posto em dúvida, nunca foi provado. O que não foi examinado sem prevenção, nunca foi bem examinado. O ceticismo é o primeiro passo em direção à verdade" - e de uma confiança plena na ciência moderna: "Vês este ovo? Com ele, derruba-se todas as escolas de teologia e todos os templos da terra".38 ções do último texto através da tradução francesa de Kostas Papaioanoou {La raison dans l'Histoire. Paris: Union Générale d'Editions, 1965. p. 138 e 31). 37 Antoni de Capmany e de Montpalau (1742-1813) publicou Memorias históricas sobre la marina, comercio y artes de la antigua ciudad de Barcelona (1779-1792), uma história econômica concebida de maneira nova e original, acompanhada de um grande conjunto de documentos, com uma primeira parte dedicada à marinha, uma segunda ao comércio - queria ser "como uma introdução à história mercantil das nações modernas" - e uma terceira, ainda mais original, às atividades industriais. Também Ignacio de Asso publicou Historia de la economia política de Aragón (1798). Capmany foi objeto de estudos diversos de Pierre Vilar, Fernando Sánchez Marœ e Miquel Pérez Latre, Emili Giralt, Francisco José Fernández de la Cigöna e Estanislao Cantero (estes dois últimos dedicaram-lhe um livro não muito elogiável) e Ramon Grau. No entanto, falta, sobre ele, ainda um estudo comparável ao de PEIRÓ, Antonio. Ignacio de Asso y la "Historia de la economia política de Aragdn". Zaragoza: Instituição Fernando, o Católico, 1998 (para o contexto da obra, SARRIÓN, Guillermo Pérez. Aragón en el Setecientos. Lleida: Milênio, 1999. p. 375-456). 38 WILSON, Artur M. Diderot, sa vie et son oeuvre. Paris: Robert Laffont, 1985; POMEAU, René. Diderot. Paris: PUF, 1967; FURBANK, P. N. Diderot. A criticai biography. New York: Knopf, 1992; PROUST, Jacques. Diderot et l'Encyclopédie. Paris: Albin Michel, 1995; BENOT, Yves (Ed.). -Diderot, Textes politiques. Paris: Ed. *

^ A fé na função da ciência, na eficácia transformadora das "luzes", o levará a empreender essa imensa obra renovadora que é a Encyclopédie. Quando iniciou sua tarefa era um homem de pouco mais de trinta anos que escrevera uma novela erótica, Les bijoux indiscrets e uma Carta sobre os cegos que lhe custou um encarceramento e o distanciamento de Rousseau:" indivíduo que extraiu dele, provavelmente, algumas de suas melhores idéias, embora pretenda havê-las recebido numa,súbita iluminação. O propósito inicial dos organizadores da Enciclopédie limitava-se a traduzir um livro inglês, a Cyclopaedia or an Universal Dictionary of Arts and Sciences de Chambers, que alcançara grande êxito. Mas, em mãos de Diderot, o projeto transformou-se e, em 1750, foi publicado um prospecto em que se afirma querer empreender "um quadro geral dos esforços da mente humana em todos os gêneros e todos os séculos". Em 1751, sai o primeiro volume da Encyclopédie ou Dicionário racional das ciências, das artes e dos ofícios. Estamos nos anos cruçiais e mais fecundos da Ilustração francesa: em 1748, Montesquieu publicara O espírito das leis, em 1749, Buffon iniciara a edição da História natural (15 volumes que irão aparecendo até 1767), agora, em 1751, sai o primeiro volume da Encyclopédie e, em anos imediatamente posteriores, enquanto prossegue sua publicação, apareceram as duas grandes histórias de Voltaire (Le siècle de Louis XTV, em 1751, e Essai sur les moeurs, em 1756) e seu Dicionário filosófico (1764), além de Discours sur l'origine et les fondements de l'inégalité (1755), de Rousseau. Atacada pelos jesuítas e pelos jansenistas, condenada pelo Parla- . mento de Paris, suprimida pelo Conselho do rei (quando já havia sido distribuída aos subscritores), a Encyclopédie foi salva, pela primeira vez, em 1752, pela influência do "diretor geral da livraria", Malesherbes. Em 1759, no entanto, a licença foi revogada, ao mesmo tempo que foi condesociales, 1960. Uso as obras na edição Assezat-Tourneur, Oeuvres complètes de Diderot. Paris, 1875-1877, 20 v. (a citação deste parágrafo de "Pensées philosophiques" 31,1, p. 140) e nas Oeuvres, preparadas por Laurent Versini (Paris: Robert Laffont, 1994-1997. 5 v.); a Encyclopédie, na reprodução fac-símile de New York: Reader Microprint Corporation, 1969.

nada pelo índice, com o papa excomungando os leitores, obrigados a entregarem os volumes a um padre para que os queime. Somente foi autorizado indenizar os subscritores com os primeiros volumes de lâminas "técnicas" (o que explica a importância das mesmas na obra), até que, em 1765, apareceram, ao mesmo tempo, os últimos dez volumes de texto, VIII a XVII, com dados de autoria falsos de Neuchatel e, em 1772, os últimos de lâminas. Diderot acabou, depois de 25 anos de trabalho, amargurado pelas defecções: a princípio, contara com uma ampla relação de colaboradores ilustres; depois, estes se acovardaram e o abandonaram, de modo que contou, nos dez últimos volumes, com poúco mais que o auxílio de De Jaucourt, autor de uma quarta parte do texto e com alguns artigos de Holbach. , O êxito da obra, no entanto, foi extraordinário. Entre 1751 e 1782, venderam-se 25.000 exemplares, distribuídos de modo quase igual entre a França (11.500) e o resto da Europa (12.500). No total, representam cerca de 900.000 volumes, o que a converte na obra de edição mais gigantesca desde a invenção da imprensa e num dos maiores best-sellers jamais conhecidos (e demonstra que a Ilustração avançada não era coisa de pequenas minorias, mas tinha uma enorme expansão na Europa).39 Diderot apreendeu muitas coisas com esta experiência. Sobretudo, que não bastava o conhecimento da ciência e da técnica para mudar o mundo e, sim, que era necessário aprofundar-se no terreno das ciências sociais e, principalmente, no da história. É neste momento que começou a colaborar com o abade Raynal na História filosófica e política do estabelecimento e comércio dos europeus nas duas índias (primeira edição, 1770), obra de denúncia do despotismo e do colonialismo que o parlamento de Paris proibiu em 1781. Nela Diderot anunciou os novos tempos, dizendo que, depois da erudição, da poesia, da metafísica, da geometria, da física, das ciências naturais e da química, chegara o momento do estudo das 39 DARNTON, Robçrt. The bussiness of enlightenment. "A publishing history of the "Encyclopédie" 1775-1800. Cambridge, MA: Belknap Press/Harvard University, 1979 (complementarmente, suas obras sobre a edição de livros proibidos na França, publicados em 1995); VENTURI, Franco. Los orígenes de la Enciclopédia. Barcelona: Crítica, 1980.

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^ncias sociais: "Estamos totalmente dedicados às questões de governo, de fcàslação, de moral, de política e de comércio. Se me fosse permitido arriscar uma profecia, anunciaria que os espíritos inclinar-se-ão decisivamente para o lado da história, um imenso caminho em que afilosofiaainâa não pôs o pé". Tinha consciência que as mudanças que estavam aconteçendo na sociedade exigiriam uma nova maneira de focalizar o estudo da história, pois, "nestas sociedades mercantis, o descobrimento de uma ilha, i importação de uma nova mercadoria, a invenção de uma máquina, o estabelecimento de uma oficina, a invasão de um ramo de comércio, a construção de um porto, converter-se-ão nas transações mais importantes e os mais dos povos serão escritos por comerciantes filósofos".40 Diderot concebia a história como uma ferramenta de conscientizarão política: "Se, desde o início, a história tivesse apanhado e arrastado pelos cabelos os tiranos civis e os tiranos religiosos, não creio que houvessem melhorado, mas teriam sido mais detestados e os desventurados súditos teriam sido menos pacientes". Mas, também como ferramenta de análise, mte a realidade de que "a história do homem civilizado não é outra coisa p e a história de sua miséria: todas as páginas estão tingidas 4 e sangue: imas de sangue dos opressores e outras de sangue dos oprimidos", era 40 Sobre a "história" de Raynal, LÜSEBRINK, H. J.; TIETZ, M. (Ed.). Lectures de Ray-, tial. L'Histoire des deuxs Indes en Europe et en Amérique au XVIIIe siècle. Actes du Colloque de Wolfenbüttel. Oxford: Voltaire Foundation, 1991. Sobre a participação de Diderot nas diversas edições da obra de Raynal, BENOT, Yves. Diderot de l'athéisme à l'anticolonialisme. Paris: Maspero, 1970; WÖLPE, Hans. Raynal et sa machine de guerre, l'Histoire des deux Indes et sés perfectionnements. Paris: Géiiin, 1956, e DUGHET, Michèle. Diderot et l'Histoire des deux Indes ou l'écriture fragmentaire. Paris: Nizet, 1978. Uma citação da edição das Oeuvres de Diderot de Versini, III, p. 753; A final, de RAYNAL. Histoire philosophique des établissements et du commerce des européens dans les deux Indes. Genebra: J. L. Peillet, 1781. III, p. 291292. Uma mostra de que o texto de Raynal-Diderot foi entendido como uma obra política temos na antologia De los puebhs y gobiernos.Colección de pensamientos extraídos de la historiafilosóficade las dos índias, por el abade G. J. Raynal. Traduzido para o castelhano por dom S. D. V... London: Daviso, 1823, onde o autor extraiu "os pensamentos que se referem às instituições políticas" e os organizou tematicamente. Na seleção, como era previsível, aparece a maior parte dos textos políticos escritos por Diderot. ;

obrigatórip pedir reformas radicais que garantissem "a liberdade política", ou seja, "a liberdade do povo" que só pode assentar-se numa constituição, na existência de um corpo representativo da nação "depositário das leis" e encarregado do seu cumprimento. A rejeição do despotismo é constante e explícita - "uma das maiores desgraças que pode acontecer a uma náção livre é dois ou três reinados consecutivos de um despotismo justo e ilustrado" - , como o é a invocação da liberdade, da responsabilidade dos intelectuais - "Saber como deveriam ser as coisas é próprio de um homem de bom entendimento; como as coisas são, é próprio de um homem experiente e como mudá-las pará melhorálas, de um homem gênio" - e do próprio compromisso pessoal: "Aconteça o que acontecer, nunca trairei a honorável causá da liberdade".41 Diderot, que morreria em 1784 sem chegar a ver as mudanças que haveriam de sacudir a velha sociedade, sabia, no entanto, que o futuro lhe daria a razão. Dois textos resumirão esta consciência e seus matizes: "Se o filósofo fala em vão para este momento, escreve e pensa exclusivamente para o futuro".42 E o desta carta â Grimm: "entendo as coisas bem, as julgo bem, e o tempo sempre acaba dando-me razão. Não rias: sou eu quem antecipa o futuro e quem sabe seu pensamento" Anne Robert Jacques Turgot (1727-1781), controlador geral das finanças de Luís XVI entre 1774 e 1776, quando foi destituído pelo mal-estar suscitado por suas medidas liberais, era um economista próximo aos fisiocratas, com quem compartia a vontade de transformar a economia sem risco de mudanças sociais. Tinha, porém, um sistema de pensamento próprio, mais rico que o daqueles, aproximando-se em muitos aspectos ao dos \ escoceses contemporâneos e tendo, na base, uma concepção da história 41 A primeira citação procede da "Carta Apologética sobre o abade Raynal", dirigida a Grimm, e a tomo de Diderot, Oeuvres philosophiques. Paris: Ed. P. Vernière, 1961. p. , 640. As citações seguintes são dós textos de Diderot para a História de Raynal e dos Mélanges philosophiques, historiques, etc., pour Catherine II. Para simplificar as citações, todas as referências são do volume II "Politique" das Oeuvres na edição de Ver- ! sini. Os textos usados nos dois parágrafos procedem respectivamente das p. 714, 738,636-641,276,282,275,271 e 759. 42 Dos "Mélanges" para Catarina II (Oeuvres, III, p. 348).

como "a longa marcha do progresso", que passa pelas etapas sucessivas do homem caçador, pastor e agricultor (segundo a visão predominante em 1751, à qual se acrescentará mais tarde o comerciante).43 As idéias de Turgot, de escassa influência ém comparação com a que exerceriam as dos escoceses que estavam desenvolvendo paralelamente um esquema interpretativo semelhante, deixaram marcas no discípulo Jean Antoine Nicolas Caritat, marquês de Condorcet (1743-1794). Matemático, colaborador da Encyclopédie, republicano, mas condenado à morte pela Revolução, escreveria, na prisão em que morreu, o que pode ser considerado como o testamento intelectual da Ilustração francesa: o Equisse d'un tableau historique desprògrès de l'esprit humain, mostrandonos os desdobramentos da evolução progressiva da humanidade, dividida em dez épocas, mais complexas que os "estágios" de Turgot porque se referem à história da civilização (a nona, por exemplo, vai "De Descartes à formação da República francesa") e que terminam com uma décima época, apontada em direção ao futuro: "Se o homem pode prever com segurança quase completa os fenômenos dos quais conhece as leis; se, inclusive quando estas lhe são desconhecidas, pode, partindo da experiência do passado, prever com uma grande probabilidade os acontecimentos do futuro; por que haveria dé se considerar uma empresa quimérica a de traçar com alguma verossimilhança o quadro dos destinos futuros da espécie humana segundo os resultados da história?" E concretiza as "esperanças sobre o futuro estágio da espécie humana" em três pontos: "a destruição da desigualdade entre as nações;- os progressos da igualda-

43 Utilizo os textos fundamentais de Turgot na compilação TURGOT, AnneRobert-Jacques) Formation et distribution des richeses, textes choisis et établis par Joêl-Thomas Ravix et Paul-Marie Romani. Paris: Fl^mmarion, 1997 (em especial "Plano de um primeiro discurso sobre a história universal"), de cerca de 1751, e "Reflexões sobre a formação e a distribuição das riquezas", de 1766). Complementarmente FINZJ, Roberto. Turgot, le ricchezze, il progresso e la storia universale. Torino: Einaudi, 1978. Sobre Turgot e a teoria dos "quatro estágios" da qual se falará no capítulo seguinte, MEEK, R. L. Turgot on progress, sociology and economics. Cambridge: Cambridge University Press, 1973, e Smith, Turgot and the "Four Stages" theory. In: SMITH, Ronald M. Marx and after. London: Chapman and Hall, 1977. p. 18-32.

obrigatórip pedir reformas radicais que garantissem "a liberdade política", ou seja, "a liberdade do povo", que só pode assentar-se numa constituição, na existência de um corpo representativo da nação "depositário das leis" e encarregado do seu cumprimento. A rejeição do despotismo é constante e explícita - "uma das maiores desgraças que pode acontecer a uma náção livre é dois ou três reinados consecutivos de um despotismo justo e ilustrado" - , como o é a invocação da liberdade, da responsabilidade dos intelectuais - "Saber como deveriam ser as coisas é próprio de um homem de bom entendimento; como as coisas são, é próprio de um homem experiente e como mudá-las pará melhorálas, de um homem gênio" - e do próprio compromisso pessoal: "Aconteça o que acontecer, nunca trairei a honorável causa da liberdade".41 Diderot, que morreria em 1784 sem chegar a ver as mudanças que haveriam de sacudir a velha sociedade, sabia, no entanto, que o futuro lhe daria a razão. Dois textos resumirão esta consciência e seus matizes: "Se o filósofo fala em vão para este momento, escreve e pensa exclusivamente para o futuro".42 E o desta carta a Grimm: "entendo as coisas bem, as julgo bem, e o tempo sempre acaba dando-me razão. Não rias: sou eu quem antecipa o futuro e quem sabe seu pensamento". Anne Robert Jacques Turgot (1727-1781), controlador geral das finanças de Luís XVI entre 1774 e 1776, quando foi destituído pelo mal-estar suscitado por suas medidas liberais, era um economista próximo aos fisiocratas, com quem compartia a vontade de transformar a economia sem risco de mudanças sociais. Tinha, porém, um sistema de pensamento próprio, mais rico que o daqueles, aproximando-se em muitos aspectos ao dos escoceses contemporâneos e tendo, na base, uma concepção da história 41 A primeira citação procede da "Carta Apologética sobre o abade Raynal", dirigida a Grimm, e a tomo de Diderot, Oeuvres phibsophiques. Paris: Ed. P. Vernière, 1961. p. 640. As citações seguintes são dós textos de Diderot para a História de Raynal e dos Mélanges phibsophiques, historiques, etc., pour Catherine II. Para simplificar as citações, todas as referências são do volume II "Politique" das Oeuvres na edição de Ver- ! sini. Os textos usados nos dois parágrafos procedem respectivamente das p. 714, 738,636-641,276,282,275,271 e 759. , ' 42 Dos "Mélanges" para Catarina II (Oeuvres, III, p. 348).

„ como "a longa marcha do progresso", que passa pelas etapas sucessivas do "homem caçador, pastor e agricultor (segundo a visão predominante em 1751, à qual se acrescentará mais tarde o comerciante).43 As idéias de Turgot, de escassa influência em comparação com a que exerceriam as dos escoceses que estavam desenvolvendo paralelamente um esquema interpretativo semelhante, deixaram marcas no discípulo Jean Antoine Nicolas Caritat, marquês de Condorcet (1743-1794). Matemático, colaborador da Encyclopédie, republicano, mas condenado à morte pela Revolução, escreveria, na prisão em que morreu, o que pode ser considerado como o testamento intelectual da. Ilustração francesa: o Equisse d'un tableau historique desprògrès de l'esprit humain, mostrandonos os desdobramentos da evolução progressiva da humanidade, dividida em dez épocas, mais complexas que os "estágios" de Turgot porque se referem à história da civilização (a nona, por exemplo, vai "De Descartes à formação da República francesa") e que terminam com uma décima época, apontada em direção ao futuro: "Se o homem pode prever com segqrança quase completa os fenômenos dos quais conhece as leis; se, inclusive quando estas lhe são desconhecidas, pode, partindo da experiência do passado, prever com uma grande probabilidade os acontecimentos do futuro; por que haveria dé se considerar uma empresa quimérica a de traçar com alguma verossimilhança o quadro dos destinos futuros da espécie humana segundo os resultados da história?" E concretiza as "esperanças sobre o futuro estágio da espécie humana" em três pontos: "a destruição da desigualdade entre as nações,- os progressos da igualda-

43 Utilizo os textos fundamentais de Turgot na compilação TURGOT, AnneRobert-Jacquesï Formation et distribution des richeses, textes choisis et établis par Joël-Thomas Ravix et Paul-Marie Romani. Paris: Flammarion, 1997 (em especial "Plano de um primeiro discurso sobre a história universal"), de cerca de 1751, e "Reflexões sobre a formação e a distribuição das riquezas", de 1766). Complementarmente FINZI, Roberto. Turgot, le ricchezze, il progresso e la storia universale. Torino: Einaudi, 1978. Sobre Turgot e a teoria dos "quatro estágios", da qual se falará no capítulo seguinte, MEEK, R. L. Turgot on progress, sociology and economics. Cambridge: Cambridge University Press, 1973, e Smith, Turgot and the "Four Stages" theory. In: SMITH, Ronald M. Marx and after. London: Chapman and Hall, 1977. p. 18-32.

de no interior de um mesmo povo; finalmente, o aperfeiçoamento real do homem". Idéias que, através dps "ideólogos", e fecundadas pelas dos escoceses, reapareceriam nos historiadores franceses da restauração.44

44 BADINTER, Elisabeth; BADINTER, Robert. Condorcet. Paris: Fayard, 1988 (sobre o Esquisse, p. 589-595); CONDORCET, Esquisse d'um tableau historique des progrès de l'esprit humain. Edição Prior e Belaval. Paris: Vrin, 1970, citação da "décima época" (p. 203-204 desta edição).

Capítulo 5

A INVENÇÃO DO PROGRESSO

Paralelamente à eyolução do pensamento ilustrado sobre a história e com este mantendo contatos, mas com suficiente especificidade e coerência para exigir um tratamento separado, está a formação, na Grã-Bretanha, de uma visão da história orientada por uma concepção global do progresso. As tendências que levaram a amadurecê-la datam do século XVII. Procedem, por um lado, da própria historiografia britânica, que tinha sido de pouca relevância antes de Walter Raleigh (1554-1618) - aventureiro, amante real, fundador da colônia de Virgínia, homem de ciência, historiador e poeta, que morreu executado a pedido do embaixador espanhol - e sua História do mundo, "produto de uma década de encarceramento na Torre de Londres", um relato que começava com a criação do mundo e acabava no ano 130 antes de Cristo." Era, em muitos sentidos, uma obra tradicional, que seguia a Bíblia e apresentava a divina providência como a primeira causa dos acontecimentos. Porém, Raleigh - que tinha uma grande afeição pela ciência e realizava experiências químicas na prisão - estava consciente da necessidade de dar uma base racional à história. Contribuiu para isso, completando o contexto global do providendalismo com uma atenção especial às "causas segundas", estritamente humanas, que explicariam os acontecimentos concretos. A História do munio foi um livro influente, como prova o fato de que teve uma dúzia de edições durante o século XVII (um número muito maior do que as obras de Shakespeare). Em uma linha semelhante, encontramos William Camden

(1551-1623), autor de um estudo de topografia antigá, Britannia, e dos Annales rerum Anglicarum regnante Elizabetha, crônica do reinado de Isabel I que se afastava dos usos retóricos do humanismo e apresentava uma narração pontual e documentada. Camden foi, além disso, quem patrocinou a primeira cátedra de história de Oxford.1 Mais importante seria o estímulo proporcionado por Francis Bacon (1561-1626), "teórico e escritor de história". Numa concepção global do campo dá ciência entendida como um instrumento para o progresso humano, insistiu na importância de desenvolver o estudo da história, completando os três campos tradicionais da história natural, civil e eclesiástica com um quarto, dedicado a descrever "o estado geral do saber" - uma história das ciências e das artes - , ao mesmo tempo que pedia, e nisso se observa a importância política que lhe- outorgava, que se escrevesse uma "história moderna" que fizesse que a ilha da Grã-Bretanha, "unida agora nüma monarquia para o futuro, estivesse também unida numa história no que se refere ao tempo passado" (isto é, uma "história britânica" que favorecesse a assimilação da Escócia, recentemente agregada à Inglaterra). Nos últimos anos de sua vida, distante das lides políticas, escreveu História do reinado do rei Henrique VII, uma narrativa em forma de anais das realizações do rei, objetiva em seus julgamentos e baseada sobretudo em fontes de segunda mão, em que utilizava a caracterização psicológica do soberano para estabelecer os motivos de suas ações e que foi qualificada como "uma biografia política, ao mesmo tempo que uma história pragmática, um estudo não somente das ações, mas da política e da arte de governar".2

1

1 LEVINE, Joseph M. Humanistri and history. Origins of modem English historiography. Ithaca: Cornell University Press, 1987; WOOLF, D. R. The Idea of history in early Stuart England. Erudition, and the light of truth from the accession ofJames I to the civil war. Toronto: University of Toronto Press, 1990 (citação da p. 45; sobre Camden, p. 115-125); e, principalmente, Ralegh: science, history, and politics. In: HILL, Christopher. Intellectual origins of the English revolution revisited. Oxford: Clarendon Press, 1997. p. 118-200. 2 BACON, Francis. The advancement of learning. London: Dent, 1978. p. 69-82 (citações das p. 69 e 75-76) e The history of the reign of King Henry VII. Edição de Brian . Vickers. Cambridge: Cambridge University Press, 1998. ZAGORIN, Pérez. Francis Bacon. Princeton: Princeton University Press, 1998, especialmente "History: The

O movimento renovador fortemente influenciado pela leitura de Tácito, que era admirado pelo seu realismo político, tornou possível a libertação da história do jugo do providencialismo sem necessidade de romper com a religião - o que obstaculizaria o avanço do conhecimento histórico - , ao estabelecer uma diferença entre as causas primeiras gerais, determinantes das grandes linhas do destino humano e que podiam ser deixadas à ação da providência, e as segundas, de caráter terreno, que bastariam para a explicação dos acontecimentos "ordinários". Por outro lado, levaria a associar a história, considerada como ciência para a investigação da "sociedade civil", às ciências da natureza. Mas o impulso transformador mais importante surgiu, sem dúvida alguma, das comoções sociais vividas na Inglaterra na "guerra civil e na revolução". No transcurso de cinqüenta anos, todos os princípios da ordem social foram postos em cheque, ao mesmo tempo que a fundamentação religiosa e os posicionamentos mais radicais apareceram pela primeira vez à luz pública. Os puritanos radicais liam, na Bíblia, mensagens revolucionárias e, nas páginas de Isaías e de Ezequiel, encontravam estímulos para destruir um mundo corrompido. Os levellers ou "niveladores" queriam uma nação de pequenos proprietários livres. Os diggers pediam a repartição da terra, já que defendiam através de Gerrard Winstanley (1609 - depois de 1660), que os proprietários de terra tinham se apropriado da mesma pela violência e usurpação: "o poder de cercar a terra e possuí-la como propriedade foi criado por vossos antepassados mediante a espada" (coerentes com estas idéias, estabeleceram uma colônia agrícola comunitária). Os ranters não apenas negavam a propriedade privada mas também Lawrence Clarkson (1615 - depois de 1667) sustentava que a alma era mortal, que o céu estava na terra, que o juízo final ocorre na consciência dos, homens e que o pecado é uma invenção, das classes dominantes; uma doutrina parecida à de

Idea of progress, Ars histórica, Bacon the historian", p. 203-220; HILL, Christopher. Francis Bacon and the parlamentariam. In: . Intellectual origins of the English revolution revisited. Oxford: Clarendon Press, 1997. p. 77-117; TINCKLER, J. F. Bacon and history. In: PELTONEN, Markku (Ed.). The Cambridge companion to Bacon. Cambridge: Cambridge University Press, 1996. p. 232-259; CROMBIE, A. C. Styles of scientific thinking in the european tradition. London: Duckworth, 1994. Ill, p. 1572-1586.

Lodowick Muggleton e seus discípulos, que a conservaram oculta durante mais délrezentos anos (o último muggletoniano conhecido, morreu em1979), Não somente as camadas populares participaram nos movimentos , (Winstanley era um comerciante de tecidos arruinado e Clarkson, um alfaiate). Intelectuais da categoria de Locke, Newton e Milton compartilharam as idéias religiosas antitrinitárias radicais e o último deles, concretamente, defendeu publicamente a ,legitimidade do regicídio e aceitou a possibilidade de que as mudanças sociais levassem a "um mundo transtornado", antes dele terminar, uma. vez vencida a revolução, "cego em Gaza, no moinho com os escravos, acorrentado sob o jugo filisteu".3 Derrotada a revolução, não foi fácil recompor a situação e restabelecer alguma forma de consenso social. Não se pôde voltar à monarquia absoluta, mas o novo regime, baseado no compromisso da revolução de 1688, permitiu alcançar, sem aparência de subversão nem recurso à mobilização das massas, objetivos semelhantes aos que almejara conseguir inicialmente, em 1641: um sistema político representativo - que Hume descreveu como: "um príncipe hereditário, uma nobreza sem vassalos e um povo que vota através de representantes" - , controlado pela aliança entre a aristocracia agrária capitalista que eliminara os obstáculos do "feudalismo 3 Sobre os grupos radicais nos anos da revolúção, é necessário 1er as obras de Christopher Hill, começando por The world turned upside down. Radical ideas during the English revolution, London: Temple Smith, 1972, continuando com The English Bible and the seventeenth-century revolution. London: Aliens Lane, 1993, Milton and the English revolution (1977), The experience of defeat. Milton and some contemporaries. London: Bookmarks, 1994, etc. A citação de Winstanley é de The law of freedom and other writings. Ed. de C. Hill. Harmonds Worth: Penguin, 1973. p. 99. (Sobre Winstanley, o livro clássico de David W. Petegrosky, Leftwing democracy in the English civil war, reeditado em 1999 por Sandpiper books). Os textos de Milton em Prose writings. London: Dent, 1974 e em Political writings. Ed. de Martin Dzelzainis. Cambridge: Cambridge University Press, 1991; uma citação dé Samson agonistes, versos 42 e 43. Sobre Muggleton e seus discípulos, THOMPSON, E. P. Witness agairtst the Beast. New York: The New Press, 1993. p. 65-105 e LAMONT, William. Puritanism and historical controversy. London-'University College, 1996. p. 27-40, etc. Seria necessário, naturalmente, falar também dos "quakers", mas sua evolução é muito mais complexa. SMITH, Nigel. Literature and revolution in England 16401660. New Haven: Yale University Press 1994. p. 336-355, sçbre o estudo da história no século XVII como meio para entender as complexidades do presente.

bastardo"e a classe,de empresários mercantis, voltada para os grandes negócios do comércio exterior, a expansão colonial e o financiaménto da -guerra. A aliança garantia o controle do governo real, limitando os recursos ao que era votado anualmente no parlamento e criando uma administração burocrática que gerenciava de fato a maior parte do dinheiro. Sobre estas bases, assentar-se-ia o duplo processo da chamada "revolução financeira" e da expansão comercial, elementos essenciais do crescimento econômico britânico.4 A nova ordem social e a nova estrutura do estado necessitavam de uma nova legitimação, que já não podia ser a das monarquias absolutas assentadas no direito divino - entre outras razões porque tinha que responder às demandas de uma sociedade onde a abundante difusão de informações sobre os acontecimentos da guerra civil havia criado uma opinião pública e hábitos de discussão política que exigiam argumentos racionais - , mas que estaria baseada na idéia de que a sociedade civil teria sido fundada por meio de um contrato estabelecido entre os membros e o poder soberano. Em torno desta teoria, seria articulada uma nova visão do mundo: uma tarefa em que ciência e história atuaram intimamente associadas.5 A ciência cumpriria, em primeiro lugar, a função de explicar um cosmo de criação divina, dominado, porém, pela atuação de "segundas causas": um mundo físico ordenado e regulado por leis que tinha paralelo 4 No parágrafo observo exatamente as conclusões do grande livro de BRENNER, Ro- bert. Merchants and revolution. Commercial change, political conflict, and London's overseas trade. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. No referente à relação entre o novo sistema político e o desenvolvimento dos mercados, ROOT, Hilton L. The fountain ofprivilege. Political foundations of markets in old regime France and England. Berkeley: University of California Press, 1994, e ÒARRUTHERS, Bruce G. City of capital. Politics and markets in the English financial revolution. Princeton: Princeton University Press, 1999. 5 Os princípios da monarquia de direito divino, defendidos por Robert Filmer. Patriarch and other writings. Cambridge: Capibridge University Press, 1991, seriam justamente o objeto contra o qual Locke se dirigiria no primeiro de seus dois tratados sobre o governo. Sobre a formação de uma opinião pública e o nascimento de uma cultura democrática, ZARET, Davis. Origins of democratic culture. Printing, petitions, and the public sphere in early-modern England. Princeton: Princeton University Press, 2000.

na sociedade civil. Newton construiu um modelo racional do universo regido por um Deus-relojoeiro e controlado por leis, no qual "o mundo natural inteiro, que consiste nos céus e na terra, significa o mundo político inteiro, que consiste nos tronos e no povo".6 Os filósofos sociais, por sua vez, fundamentariam esta imagem global e ordenada da sociedade. Thomas Hobbes (1588-1679), que traduzira Tucídides para o inglês, recorreu a uma interpretação da origem histórica das sociedades humanas para dar uma versão dos fundamentos do contrato social em De eive (1642) e Leviatã (1651), e sustentar que, antes da sociedade civil, havia "uma guerra de todos os homens contra todos os homens" e que, a fim de preservar as vidas, eles tiveram que aceitar a realização de pactos, cedendo o governo ã um poder supremo que era, no que diz respeito ao conjunto da "cidade", o mesmo que a cabeça é em relação ao corpo. A fria racionalidade "geométrica" de Hobbes faria que o senso comum se escandalizasse frente a uma teoria que afirmava que a sociedade estava dominada pelo egoísmo e que quase todas as regras eram convencionais. Enquanto isso, alguns dos herdeiros radicais da revolução interpretaram a obra deste homem, que falava da própria morte como de "um grande salto na escuridão", em termos de uma proposta libertadora (um estudioso contemporâneo qualificou Leviatã como "a maior das utopias revolucionárias inglesas").7 6 JACOB, ,M.C. The newtonians and theEnglish revolution, 1689-1720. Hassocks: Harvester Press, 1976. p. 14; HILL, C. Sir Isaac Newton and his society. In: . Change and eontinuity in seventeenth-century Englànd. Ed. rev. New Haven: Yale University Press, 1991. p. 251-277. 7 Sobíè a idéia de contrato social, ATGER, Frédéric. Essai sur Fhistoire des doctrines du contraí social. Paris: Alcan, 1906. T. Hobbes, Leviathan, cap. 13 (uso a edição de Hardmonsworth: Penguin, 1968, com estudo preliminar de C. B. Macpherson); De civè, 1,12 e VI, 19 (uso HOBBES, T. Man and citizen. Edição de Bernard Gert. Indianapòlis: Hàckett, 1991). O personagem, um homem que viveu marcado pelo medo - entre outros, o de ser julgado por ateísmo - é descrito muito bem em MARTINICH. A. P. Hobbes. A biography. Cambridge: Cambridge University Press, 1999 (com uma breve mas excelente síntese bibliográfica nas p. 359-361). STRAUSS, Leo. The politicai philosophy of Hobbes. Chicago: University of Chicago Press, 1963 (ed. Original, 1936); LAMONT, William. Puritanism and historical controversy. London: University College, 1996. p. 96-101.

A nova sociedade necessitava de um modelo explicativo que, por um lado, se expressasse em termos de governo representativo nascido da revolução de 1)688 e, por outro, que associasse o interesse com a consciência, tornando possível estabelecer a base de "confiança" - de "trust" - , sem a qual seria impossível o funcionamento do mundo dos negócios. Quem elaborou a fundamentação histórica do contrato social de acordo com estes termos foi John Locke (1632-1704), possuidor de um saber amplo e diversificado, que se interessava pela ciência experimental (colaboraria com Robert Boyle na Royai Society), e escreveu sobre a teoria do conhecimento (à qual dedicaria o Ensaio sobre o entendimento humano), sobre temas econômicos, sobre religião (Cartas sobre a tolerância), sobre educação (propunha que se ensinasse um tipo de história que ajudasse a entender as origens da sociedade civil, em vez da tradicional que explicava os feitos dos conquistadores, "que, na maior parte, são os grandes carniceiros da humanidade") e sobre política, em conseqüência dos laços com os "whigs", o que b obrigou a se exilar na Holanda de 1683 a 1689, fugindo da perseguição de Carlos IL O mais importante, do ponto de vista do historiador, são justamente os escritos políticos: os Dois tratados sobre o governo (1690), em especial, o segundo, em que sustenta que os homens viviam em paz no estado de natureza, mas aceitaram submeter as liberdades a um poder superior a fim de \ proteger as propriedades - justificadas como fruto do trabalho - , e afirma que a finalidade máxima dos homens ao reunir-se em estados e süjeitar-se a um governo - que não é, em Locke, um poder àbsoluto, mas controlado pelos representantes do. povo - é "a de salvaguardar os bens".8 8 LOCKE, John. Two treatises of government. Editados por Peter Laslett. Cambridge: Cambridge University Press, 1970; The educational writings ofJohn Locke. Edição de James L. Axtell. Cambridge: Cambridge University Press, 1968; Ensayo sobre el entendimento humano. Ed. de S. Rábade. Madrid: Editora Nacional, 1980; Lettre sur la tolerance. Ed. bilíngüe da primeira "carta". Paris: PUP, 1965; MACPHERSON, C. B. The politicai theory of possessive individualism: Hobbes to Locke. Oxford: Oxford University Press, 1962; APPLEBY, Joyce Oldham. Economic thought and ideology in seventeenth-century England. Princeton: Princeton University Press, 1980. p. 220-241 (sobre a intervenção em questões monetárias), etc. Sobre a ética dos comerciantes, GRASSBY, Richard. The business community of seventeenth-century England. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. p. 297-301 ("Interest and conscience").

Ao estabelecer os princípios de uma veracidade social, a nova ciência experimental também contribuiu para assentar a confiança na manutenção dos compromissos, ao mesmo tempo que transmitia credibilidade à história, induzindo-a a usar critérios de verificação e uma lógica próxima à utilizada pelos pesquisadores. "Que história e história natural compartilhem o nome, é mais do que um acidente lingüístico. No século XVII, 'história' significava uma relação verdadeira de fatos: qualquer tipo de fatos, físicos, biológicos, sociais ou 'históricos'." A associação entre ciência e histeria não se estabeleceu apenas em termos da adoção comum de métodos "de observação de fatos e de fenômenos que se associavam à verdade e à certeza moral", mas, também, porque os cultores de ambos os campos do saber tinham clareza de sua responsabilidade no estabelecimento de um novo consenso social.9 Entretanto, a história custou muito a encontrar um Newton. As primeiras formulações históricas escritas do ponto de vista dos "whigs", vencedores da revolução de 1688, não respondiam às expectativas que Locke expressara ao falar de uma disciplina que ajudasse a entender a sociedade civil, pois se limitavam, como o caso de Paul Rapin-Thoyras - um huguenote francês exilado, autor de uma história da Inglaterra muito lida na primeira metade do século XVIII - , a uma propaganda política "partidária elementar, baseada no mito da existência de uma antiga constituição anterior ao"domínio normando", que teria sido recuperada pelos "whigs". Em con1 traste, temos a História da rebelião e guerras civis da Inglaterra, do conde de "9 Este é um tema complexo qjie requereria uma exposição muito mais matizada. A aqui apresentada deriva, em grande medida, de SHAPIN, Steven. A social history of truth. Civility and science in seventeenth-century England. Chicago: Chicago University Press, 1996; de EAMON, William. Science and the secrets of nature. Princeton: Princeton University Press, 1994. p. 341-350 (em que se fala da "história dos ofícios" organizada pela Royal Society) e de SHAPIRO, Barbara J. Probability and certainty in seventeenth-century England. A study òf the relationship between natural science, religion, history, law, and literature. Princeton: Princeton University Press, 1983 (citações das p. 120 e 161). Não se pode esquecer, não obstante, a persistência de aspectos relacionados com a alquimia, a astrologia, etc., encontrados em Newton, mas também em Boyle, segundo PRÍNCIP, Lawrence M. The aspiring adept. Robert Boyle and his alchemichal quest. Princeton: Princeton University Press, 199.8.

Claçendon, uma versão "tory" dos acontecimentos, escrita com "elegância clássica, publicada nos inícios do século XVIII, trinta anos depois da morte do autor. Em meados do século XVIII, "os ingleses - diz Philip Hicks há mais de dois séculos queixavam-se da pouca qualidade de seus livros de história".10 O autêntico fundador do tipo de história que-respondia às necessidades da nova sociedade seria David Hume (1711-1776). Boa parte dos que a aperfeiçoaram eram escoceses como ele, que fizeram da visão do progresso "uma historiografia de concilação com a Grã-Bretanha", que servia para identificar a situação presente como uma fase superior de desenvolvimento político, se comparada com a de um passado local de atraso, o que acabaria, no caso de Hume, levando-o a dedicar-se somente da história da Inglaterra e, não, da Grã-Bretanha." Nascido numa família escocesa da pequena nobreza, de escassa fortuna, David Hume estudou primeiro na Universidade de Edimburgo. Como não queria seguir a carreira de Direito que a família lhe destinara, se pôs a estudar por conta própria, vivendo com modéstia e muita sobriedade. Mudaria depois para Bristol, indo trabalhar com comerciantes, mas "em poucos meses a.chei aquela ocupação totalmente inadequada para mim". Foi, então, para França para prosseguir os estudos; ali residiu de 1734 a 1737, e escreveu o Tratado da natureza humana, publicado em 1738 quando retornou a Londres. O livro e outros dois posteriores, Investigação sobre o conhecimento humano (1749) e Investigação sobre os princípios da moral (1751), deram-lhe fama de ateu e de materialista. Por outro lado, os Discursos, cuja primeira parte apareceu em 1742 e uma segunda, Discursos pqlíti10 HICKS, Philip. Neoclassical history and English culture. From Clarendon to Hume, London: Macmillan, 1996. 11 Sobre esta visão, que não somente favorecia a conciliação com a Grã-Bretanha, mas reordenava o passado em função de um futuro comum, PITTOCK, Murry G. H. Inventing and resisting Britain. Cultural identities in Britain and Ireland, 1685-1789. London: Macmillan, 1997. p. 140-145, nuança as formulações de Linda Colley em Britons. Forging the nation, (1707-1837). HILL, C. The Norman Yoke. In: . Puritanism and revolution. London: Mercury Books, 1962. p. 50-122 (o ,complemento, com o mesmo título, em HILL, C. Intellectual origins of the English revolution revisited. Oxford: Clarendon Press, 1997. p. 361-365).

cos, em 1751, foram bem recebidos pelo público. Passou dois anos acompanhando o general Saint Clair nas cortes de Viena e de Turim, tendo, depois, fracassado na tentativa de obter uma cátedra universitária defilosofiamoral em Edimburgo, em conseqüência da reprovação de suas obras (em 1755, a igreja escocesa o quis excomungar, mas os moderados conseguiram evitá-lo; Hume escreveria numa carta: "A última assembléia dedicou-se ao meu caso. Não propuseram me queimar porque não podem, mas queriam me entregar a Satanás e acredito que isto, sim, podem fazê-lo"). Conseguiu, então, que o nomeassem diretor da biblioteca dos advogados de Edimburgo que, com 30.000 volumes, era considerada como uma das melhores da Europa, o que lhe proporcionou os materiais e a tranqüilidade que lhe permitiriam escrever a obra mais ambiciosa, a História da Inglaterra, que teve mais de sete edições em vida do autor, convertendo-se na visão do passado inglês mais lida durante um século (com mais de cento e setenta e cinco edições), até a publicação da de Macaulay. Ele próprio dirá que o dinheiro que os livreiros lhe pagavam, excedendo tudo ô que vira até então, o fez "não somente independente, mas opulento". Deixou o cargo de bibliotecário em 1757, mudou-se de novo para a França, como secretário do lord Hertford na embaixada britânica, ficando ali de 1763 a 1767, já famoso pelos escritos e em contato com os ilustrados. Em 1769, voltou para Edimburgo "muito rico (recebia mil libras ao ano), sadio, apesar de afetado pelos anos, com a perspectiva de desfrutar largamente de bem-estar e de contemplar o crescimento de minha reputação". A autobiografia explica a mudança súbita que se produziu então: "Na primavera de 1775, tive um problema no ventre, que a princípio não me alarmou mas qúe se converteu desde então, comofiqueisabendo, em mortal e incurável. Espero que agora terei um fim rápido. Sofri pouca dor pelo mal e, o que é mais raro, não tive, apesar da grande indisposição física, momento algum de abatimento de espírito. A tal ponto que, se tivesse que escolher um momento da vida que desejasse voltar a viver, me sentiria tentádo a escolher este último. Sinto o mesmo entusiasmo que sempre tive pelo estudo e a mesma alegria de estar em companhia de outros. Considero, além disso, que um homem de sessenta e cinco anos, ao morrer, não faz mais do que economizar uns anos a mais de doenças (...). É difícil estar

menos preocupado pela vida do que eu me sinto no momento". Em 1776, jsôde assistir à publicação da obra máxima do discípulo e amigo Adam Smith e leu o primeiro volume do Decline and fali de Gibbon, a quem visitou em Londres, depois de lhe haver escrito uma carta de elogio pelo livro o que, segundo Gibbon, "pagava-me por dez anos de trabalho". Morreu como "morre um santo laico" em 25 de agosto de 1776. Muitos escan- dalizaram-se por este desenlace, pois supunha-se que os incrédulos deviam morrer em meio a tormentos. A publicação do texto Minha vida, acompanhado por uma carta de Adam Smith, provocou indignação. Johnson acreditava que a serenidade de Hume erafingidae Boswell, que duvidava dela, acabou encontrando uma solução oito anos mais tarde: sonhara que tinha descoberto um diário secreto no qual Hume dizia que, embora a vaidade o levara a publicar livros céticos e infiéis, no fundo, era um homem cristão e muito piedoso.12 , Na obra histórica, Hume tomaria Tácito como modelo de estilo e Maquiavel e Sarpi, como de método. Mas uma de suas contribuições mais fecundas procedia de um autor radical e de uma obra escrita na perspectiva dos anos da revolução: em Océana (1656) James Harrington (16111677) apresentara o modelo de um governo republicano (que influenciou posteriormente os primeiro textos constitucionais norte-americanos), ao mesmo tempo que propunha uma visão determinista da história que con12 MOSSNER, Ernest Campbell. The life of David Hume. 2nd ed. Oxford: Clarendon Press, 1980; NORTON, Davis Fate. The Cambridge companion to Hume. Cambridge: Cambridge University Press, 1993; ROSS, Ian Simpson. The life ofAdam Smith, Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 289-304 ("Dialogue with a dying man"). A autobiografia -"My own life"- e a carta de Smith a Strahan que a acompanha podem ser vistas na edição de The history of England que é citada a seguir, I, p. XXVII-XL. Empregaram-se as seguintes edições de outras obra»: Tratado de la ttaturaleza humana. Ed. de Félix Duque. Madrid: Editora Nacional, 1977. 2 v. (contém também a "Autobiografia"); Investigado sobre I'enlenimenl humà. Barcelona: Laia, 1982; The natural history of religion, Dialogues concerning natural religion. Ed. D. A. Wayne Colver e J. Valdimir Price. Oxford: Clarendon Press, 1976 (sobre a complicada história da publicação deste texto póstumo, veja-se ATTANASIO, Alessandra. La religione come corruzione delia moralità e delia società. MicroMega, 3/96, p. 215-238). Prescinde-se da abundante bibliografia sobre Hume visto fragmentariamente (como filósofo, economista, etc.).

CapíiuloS

siderava que a natureza do governo dependia "da balança do domínio ou da propriedade" - um conceito que incluía não somente a terra, mas "o dinheiro e outros objetos parecidos" - entre os diversos grupos sociais; uma divisão eqüitativa da terra, por exemplo, corresponderia a uma republica. Hume enriqueceu e desenvolveu a visão em alguns textos de Discursos, onde, pela primeira vez, o modelo da sucessão de fases da história huníana, ligada ao desenvolvimento econômico que seria o motor do progresso, foi formulado. A primeira fase da história foi a da selvageria, na qual os homens se dedicavam somente à caça e à pesca. Daí, passou-se a outra, em que cresceram desigualmente a agricultura e as manufaturas: uma economia de base agrária, semelhante à que dominava na maior parte da Europa do século XVIII. Nesta sociedade, o desenvolvimento econômico baseava-se na divisão do trabalho e na articulação do mercado. Numa primeira etapa, a articulação era interna, limitada ao intercâmbio entre os excedentes carftponeses e os produtos dás manufaturas locais. Logo, entretanto, o comércio exterior e o gosto pelo luxo desenvolveriam a produção industrial. A atração por produtos novos, trazidos de outros países pelo comércio de longa distância estimulou os poderosos a consumi-los; os grandes lucros proporcionados por este tráfico fizeram que outros comerciantes entrassem na concorrência e, finalmente, porque havia uma grande demanda, a indústria local imitou estes produtos importados. Este padrão serve a Hume para explicar o progresso humano e permite, por exemplo, que ele critique os que acreditavam que a terra estivera mais densamente povoada na antiguidade do que no presente, argumentando que, já que as manufaturas e o comércio não eram tão florescentes no passado, disso se deveria deduzir que também a agricultura, necessária para a subsistência humana e condicionante do tamanho da população, estivesse mais atrasada. O raciocínio terminara com um ato de fé na capacidade de progresso que o novo mundo do comércio oferecia: "Todas as coisas que nos últimos' tempos foram descobertas ou aperfeiçoadas, por acaso não contribuíram para facilitar a subsistência dos homens e, com isso, a sua propagação e crescimento? Nossa habilidade nas artes mecânicas, o descobrimento dé novos mundos que tanto aumentou o comércio, o estabelecimento dos correios e o uso das letras de câmbio:

tudo isso parece extremamente útil para o estímulo das artes, indústria e população. Se fossem suprimidas de repente, quantos males não aconteceriam a todo tipo de negócios e trabalhos! Que multidão de famílias pereceria imediatamente de necessidade e de fome! Não parece provável que nenhuma outra instituição possa preencher o vazio das novas invenções." Nessas formulações encontra-se o essencial da visão que vê no desenvolvimento dó mercado o motor principal do crescimento econômico (Smith o enriqueceria, introduzindo, como explicação, as conseqüências progressivas da divisão social do trabalho que a extensão do trabalho tornava possível) e os primeiros rudimentos da teoria dos quatro estágios, que Adam Smith também completaria sem esquecer de reconhecer a dívida que tinha com o mestre.13 A fama dé historiador de Hume, no entanto, baseava-se num livro hoje esquecido: a História da Inglaterra. Começou, em 1754, publicando a pkrte que se referia aos dois primeiros Stuart; dois anos mais tarde, lançou a que abrangia da morte de Carlos I à revolução de 1688; em 1759, a que se dedicava à dinastia dos Tudor e, em 1762, finalmente, completou a obra com o princípio, que ia da invasão de Júlio César a 1485 (se bem que continuou revisando-a até a morte). O objetivo fundamental era explicar o período que ia da ascensão ao trono de Henrique VIII a 1689. Ao finai da obra, ao falar do triunfo da glorious revolution e do advento da nova dinastia, Hume expôs as razões políticas que tivera para escrever o livro de uma maneira mais objetiva do que até então haviam feito os propagandistas da causa "whig", que desqualificavam os inimigos "tories". A busca de um consenso exigia uma visão mais equilibrada, que também levasse èm conta as razões pelas quais os perdedores haviam atuado: "os extremos devem ser evitados em todas as coisas e, mesmo que ninguém possa satisfazer duas 13 As idéias de Hume encontram-se nos dois ensaios "Of commerce" e "Of the popu- , lousness of ancient nations", em HUME, Davis. Essays, moral, political and literary. London: Longmans, 1912.1, p. 287-299 e 381-443 (citação das p. 412-413). WOOTTON, Davis. David Hume "the historian". In: NORTON, Davis Fate. The Cambridge companion to Hume. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. p. 281-312. Tive que usar Oceana em uma versão fancesa (Paris: Belin, 1995) -citação das p. 232-233-, que contém também o extenso estudo que J. G. A. Pocok escreyeu para; The political works of Harrington (Cambridge, 1977).

CapitubS

facções opostas com opiniões moderadas, é nelas, provavelmente, que se encontra a verdade". Apesar da abundância de citações de fontes nas notas de rodapé (não as tinha colocado nos primeiros volumes, maS acrescentou ao revisá-los), está claro que, em Hume, predomina ofilósofosocial sobre o erudito: a sua história, como a de Smith, é aquilo que Dugald Stewart chamará "história teórica ou conjectural".14 Introduz apêndices analíticos sobre as leis, as instituições, os costumes ou a economia de uma época; explica o estabelecimento do feudalismo pelo fato de que "a autoridade é naturalmente companheira da propriedade" e critica duramente a ignorância dos tempos medievais, quando "em todas as escolas predominava a loucura, não menos que em todas as igrejas". Discute longamente a Carta Magna no capítulo XI, onde afirma que "a distribuição igualitária da justiça e o livre uso da propriedade (...) são os dois grandes objetos pelos quais os homens instituíram a sociedade política". Não mostra, logicamente, simpatia alguma pelos rebeldes igualitários de 1381: "Seriam tão grandes os inconvenientes advindos da abolição das classes e privilégios, que não tardariam em se aperceber, voltando as coisas muito rápido a tomar o curso ordinário". A parte politicamente mais importante é a dedicada ao século XVII, especialmente a que se refere aos 46 anos que vão do início da "guerra civil" à revolução de 1688 e que ocupa, em extensão, uma quarta parte do total da obra. Hume, apesar de se opor à condenação sistemática dos Stuarts e pedir aos vencedores que tenham respeito "pelos adeptos da antiga constituição", não considera inconveniente reconhecer os benefícios obtidos com a nova constituição, produto da revolução, concluindo: "Assim é que podemos afirmar, sem exagero algum, que nós, nesta ilha, temos desfrutado desde então, se não do melhor sistema de governo, ao menos do sistema de liberdade mais amplo que a humanidade jamais conheceu".15 14 Sobre ^significado real da denominação "história conjectural", POOVEY, Mary. Â history of the modem fact. Problems ofKnowledge in the sciences of wealth and society. Chicago: The University of Chicago Press, 1998. p. 214-263. 1 15 HUME, David. The history of England from the invasion of]ulius Cesar to the revolution in 1688. Indianapolis: Liberty Classics, 1983. 6 v. (reproduz a edição de 1778 com as últimas correções de Hume). São feitas citações diretas ou indiretas de VI, p.

As concepções da escola escocesa, qüe encontram em Hume e Adam Smith as elaborações mais completas, surgem de um meio mais amplo, onde outros autores fizeram contribuições e, principalmente, colaboraram para sua difusão. É o caso de Adam Ferguson (1723-1816), sucessor de Hume como responsável pela biblioteca dos advogados, que foi nomeado professor de filosofia moral na Universidade de Edimburgo em 1759. Em 1767, publicou o Ensaio sobre a história da sociedade civil, onde a transição da barbárie à civilização é condicionada pelo processo de divisão do trabalho e a propriedade privada e as instituições do governo aparecem relacionadas com os estágios de crescimento econômico: era um livro que tocava em temas de interesse do momento de forma simples e compreensível, alcançando, por isso, um êxito de público considerável (o que não aconteceria, em 1783, com a História da ascensão e queda da república romana).16 William Robertson (1721-1793) publicou, em 1769, a História do imperador Carlos V, que começava com uma extensa introdução - "Visão do progresso da sociedade na Europa" - que mostrava a semelhança da "situação política" das tribos indígenas da América do Norte com a dos antigos po- ^ vos germânicos e afirmava que "a mente humana, quando se encontra na mesma situação, nas idades mais distantes e nos países mais longínquos, assumirá a mesma forma e se destacará pelos mesmos costumes". Com o texto, e com a inacabada História da América, Robertson foi o exportador 533-534,1, p. 203, p. 333-334; II, p. 293, p. 518-525; IV, p. 354-355 e VI, p. 531. Uma excelente análise desta história, em O'BRIEN, Karen. Narratives of Enlightenment. Cosmopolitan history from Voltaire to Gibbon. Cambridge: Cambridge JJniversity Press, 1997. p. 56-92, também HICKS, Philip. Neo-classical history and English culture. .. London: Macmillan, 1996. p. 170-209 e POCOCK, J. G. A. Barbarism and religion. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. II. Narratives of civil government, p. 199-257. Extraído do texto de Dugald Stewart de BROADIE, Alexander. The Scottish Enlightenment. An anthology. Edinburgh: Canongate, 1997. p. 670-674. 16 FERGUSON, A. Essay on the history of civil society. Ed. Duncan Forbes. Edinburgh: Edinburgh University Press, 1966. Utilizei também The correspondence of Adam Ferguson, publicada por Vincenzo Merolle (London: Pickering, 1995. 2 v.), com uma excelente e extensa introdução biográfica de Jane B. Fagg. Pocock (Barbarism and religion, II, p. 330-365) opina que Ferguson compartilha a teoria dos quatro estágios com Smith ou Millar, mas que não extraíra deles, sendo próprio e original o uso que fazia dela.

da teoria dos quatro estágios. Teve um êxito considerável na Europa, emboa não se possa dizer que enriqueceu o que Hume e Smith escreveram.17 Adam Smith (1723-1790) é o continuador mais direto de Hume. Nascido na Escócia, de família distinta mas não rica, estudou em Glasgow e em Oxford, tendo iniciado muito cedo uma vida dedicada à educação na universidade de Glasgow, onde entraria em contato com os grupos burgueses ligados ao comércio e à industrialização nascente - parte dos avanços na máquina de vapor de Watt foram realizados justamente enquanto trabalhava nesta universidade com pessoas relacionadas com Smith. A publicação, em 1759, de A teoria dos sentimentos morais lhe deu renome e justifica o fato de ter sido escolhido para acompanhar um jovem nobre numa viagem de formação ao estrangeiro, ao longo da qual conheceu Voltaire, Turgot e Quesnay. De volta à Inglaterra, retirou-se à terra natal de Kirkcaldy e trabalhou de 1767 a 1776 na redação de A riqueza das nações, cumprindo, assim, uma parte do programa que havia exposto ao fim de A téoria dos sentimentos morais, quando escreveu que "em outro estudo procurarei explicar os princípios gerais do direito e do estado, as grandes mudanças que ocorreram nos diversos períodos e etapas da sociedade, não somente no que diz respeito à justiça, mas no que se refere à administração, àsfinançaspúblicas, à defesa e tudo o mais que se insere no âmbito legislativo".18 Em A riqueza das nações, Smith sintetizou a concepção "whig" de sociedade, em que a defesa da propriedade aparece como fundamento da ordem civil, cóm as idéias históricas de Hume e a física social de Montesquieu. Propôs, como centro da construção, uma concepção do progresso de caráter 17 Os textos pragmáticos de Robertson em The progress of society in Europe. A historical outline from the subversion of the Reman empire to the beginning of the sixteenth century. Ed. Felix Gilbert. Chicago: Chicago University Press, 1972. p. 154. Campomanes ofereceu a Robertson o ingresso na Academia de História espanhola. Que Robertson foi pouco mais que um plagiário o sustenta Ronald Meek em SMITH, Ronald M. Marx uruf after. Ten essays in the development of economic thought. London: Chapman and Hall, 1977. p. 28. Opinião mais favorável em O'BRIEN, Karen. Narratives of Enlightenment. Cambridge: Cambridge University Press, 1997. p. 93166 e em POCOCK, J. G. A. Barbarism and religion. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. II, p: 258-329. 18 La teoria de los sentimientós morales, parte VI, seção 4. Utilizo obra na tradução castelhana de Carlos Rodriguez Braun. Madrid: Aliança, 1997 (a citação na p. 595).

^econômico já apontada em Hume, mas que ele acaba por concretizar na chamada teoria dos quatro èstágios que mostra quatro etapas sócio-econômicas sucessivas da evolução humana, cada uma das quais baseando-se em um "modo de subsistência" particular: caça, pecuária, agricultura e comércio. Aos diversos estágios, correspondem diferentes formas de organização social e diferentes instituições sobre a propriedade e o governo, sendo que cada um deles peçmite fazer afirmações gerais sobre o estado dos costumes e da moral, o excedente social, o sistema legal, a divisão do trabalho, etc.19 Partindo de uma concepção que vê o curso da história como a ascensão da barbárie ao capitalismo, estabelece um programa para o pleno desenvolvimento deste - no contexto do liberalismo econômico, com um sistema político que garantisse o respeito pela propriedade privada - com a promessa explícita de um futuro de prosperidade para todos. Tais elementos formam um complexo de idéias que foram dominantes como núcleo central do pensamento sócio-econômico de nossò mundo, ainda se 'mantendo, embora corrompido e pervertido, no neoliberalisiho atual. 19 A biografia preferencialmente considerada é a de ROSS, Ian Simpson. The life of Adam Smith. Oxford: Clarendon Press, 1995; Complementarmente CAMPBELL, R. H.; SKINNER, A. S. Adam Smith. London: Croom Helm, 1982; HONT, Istvan; IGNATIEFF, Michael (Ed.). Wealth and virtue. The shaping of political economy in the Scottish enlightenment. Cambridge: Cambridge University Press, 1983; JONES, Peter; SKINNER, A. S. Adam Smith reviewed. Edinburgh: Edinburgh University Press, 1992; WILSON, Thomas; SKINNER, Andrew S. (Ed.). The market and the state. Essays in honour ofAdam Smith. Oxford: Clarendon Press, 1976. Sobre a elaboração da teoria dos quatro estágios, considerou-se fundamentalmente Ronald Meek: Smith, Marx and after, "Turgot and thá"Four Stages" Theory", em History of . Political Economy, III, 1971, n. 1, p. 9-27 e, principalmente, Social science and the ignoble savage. Cambridge: Cambridge University Press, 1976. Os "apontamentos" de estudantes que permitiram aprofiíndar nosso conhecimento do pensamento histórico de Smith podem ser lidos em SMITH, Adam. Lecciones de jurisprudência. Ed. dé Alfonso Ruiz Miguel. Madrid: Centro de Estudos Constitucionais, 1996. Schumpeter diria que "A riqueza das nações não contém uma só idéia analítica, princípio ou método que fosse inteiramente novo em 1776" (History of Economic Analysis. London: Allen and Unwin, 1963. p. 184) e a mesma acusação de falta de originalidade aparece mais recentemente em RASHID, Salim. The myth of Adam Smith. Cheltenham: Edward Elgar, 1998, o que revela uma escassa compreensão do caráter coletivo da obra da ilustração escocesa, por um lado e, do fato que o livro de Smith não é somente, nem principalmente, um tratado de análise econômica.

Um traço fundamental dessa visão da evolução social, sendo provavelmente o que assegurou seu êxito, é o de haver eliminado toda a referência às transformações, políticas que aparecem, então, corpo simples conseqüências do processo de desenvolvimento econômico: nas palavras de Ross, a natureza revolucionária do livro consistia em mostrar que "a concorrência e o mecanismo de mercado tendem, em determinadas condições históricas, a melhórar a sorte da humanidade, sem elaborar refinamentos abstratos numa constituição política".20 Ao reduzir o motor da mudança social à economia, A riqueza das nações proclamava "o fim da história", negava legitimidade ao enfrentamento social e à luta política, condenando por antecipação os caminhos que a revolução francesa seguiria. A teoria dos quatro estágios teria, nos tempos confusos que se aproximavam, uma função profundamente contra-revolucionária. A obra de Smith seria adotada pelos representantes dos velhos regimes em crise, os quais se propuseram a usá-la como receituário para as mínimas adaptações políticas que necessitavam para que, em essência, tudo continuasse como antes. (Nas cortes de Cádiz, por exemplo, um deputado reacionário catalão, Dou, advertia ao inquisidor de Barcelona, eleito deputado para uma próxima legislatura, que o que devia fazer para atuar nas cortes com eficácia era aprender bem o castelhano e estudar Adam Smith, a quem Toreno chamava "o papa da economia política".21 A análise de Smith, desde o primeiro momento, tem uma dimensão histórica, com a proposta: da relação que existe entre a divisão do trabalho e a extensão do mercado. O esquema evolutivo aparece com toda a força no terceiro livro, "Sobre o diferente progresso da opulência em diferentes nações" e no extenso primeiro capítulo do quinto livro, onde a análise dos gastos do governo em defesa, justiça, obras públicas e educação lhe permite examinar de que maneira o desenvolvimento do estado se relaciona com 20 ROSS, Jan Simpson. The life ofAdam Smith. Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 364. 21 PALYI, Melchior. The introduction of Adam Smith on the continent. In: CLARK, John Maurice et al. Adam Smith, 1778-1926. New York: Augustus M. Kelley, 1966 (reimpressão de uma obra publicada por The Adam Smith Library em 1928). p.. 180-233. (A carta de Dou ao inquisidor Llóser se encontra no Arquivo do Castelo de Papiol).

cada uma das etapas de crescimento econômico e mostrar - recuperando Harrington através de Hume - que as instituições políticas estão, em última instância, ligadas à divisão da propriedade. O modelo evolutivo de Smith, completa o de Hume nas etapas finais. No início, os homens eram caçadores-coletores, como as tribos nativas norte-americanas, e viviam igualitariamente. Ao transformarem-se em pastores, como os tártaros ou os árabes, começou a desigualdade das riquezas ("para cada homem muito rico deve haver ao menss quinhentos pobres") e a autoridade e a subordinação foram introduzidas: os ricos necessitavam que houvesse governo para preservar seus bens e os menos ricos se associavam a eles para serem ajudados a defender os seus. Desta fase pecuária, passou-se à agrícola, em meio à qual apareceu a diferença entre agriculturá-manufatura, criando-se um mercado que seria incrementado pelo comércio internacional. Na Europa, o desejo de luxo por parte dos senhores levoú ao sacrifício dos meios que utilizavam para defender a autoridade, dando lugar a uma revolução "silenciosa e insensível" que acabou liquidando o feudalismo. Estabelece-se, então, o sistema mercantil, que há de garantir a riqueza a todas as camadas da sociedade e há de ampliar a "universal opulência" da Europa para todo o mundo. Smith introduz, neste ponto, as idéias sobre a importância do mercado, esclarecendo que a prosperidade nascida do comércio somente permanecerá assegurada se uma parte dos capitais forem investidos ná terra e na ampliação da capacidade produtiva, pois, de outro modo, quando as coisas forem mal, os capitais comerciais tenderão a fugir, como aconteceu nas cidades da Hansa (Smith não estava ainda consciente das mudanças que seriam introduzidas na estrutura do mercado pela revolução industrial, quando esta fez que o investimento em equipamentos tivesse um papel semelhante ao que ele, em sua análise, destinara ao desenvolvimento agrícola).22 —

Í 22 An inquiry in to the nature and causes ofthe wealth of natioris foi usado na quarta edição (London: Strachan, 1786.3 v.), da qual são feitas as citações, e na tradução castelhana da edição de Glasgow, preparada por Campbell e Skinner (Vilassar: Oikos-Tau, 1988. 2 v.). O modelo histórico forma um esqueleto dã obra, de modo que, em muitas partes, a análise se organiza em função da teoria dos quadro estágios. O citado nestes parágrafos provém principalmente dos capítulos 1 e 3 do pri-

Depois da publicação de A riqueza das nações, Smith pretendia de ? dicar-se seriamente à história e escrever duas grandes obras: uma "teoria e história da lei e do governo" (que era o que faltava para completar o programa de trabalho que anunciara em A teoria dos sentimentos morais) e uma "história filosófica dos diferentes ramos daliteratura, da filosofia, da poesia e da eloqüência". Foi nomeado, entretanto, encarregado das aduanas da Escócia, o que determinou que, nos últimos anos de vida, fizesse pouca coisa no terreno intelectual, introduzindo apenas, ínelhorias nas segunda e terceira edições de A riqueza das nações.23 Neste mesmo "annus mirabilis" de 1776 - o ano da morte de Hume e da publicação de A riqueza das nações, da declaração de independência dos Estados Unidos da América (onde era feita a afirmação solene de "que todos os homens foram criados iguais") e da queda de Turgot na França, significándo uma nova etapa no caminho em direção à Revolução apareceu o primeiro volume da grande obra em que Gibbon estudou a Decadência e queda do império romano. Edward Gibbon (1737-1794) era de família abastada, o que lhe permitiu dedicar-se ao estudo sem demasiadas preocupações. Perdeu a mãe aos dez anos e viveu, desde ientão, dedicado em grande parte à leitura, até que, aos quatorze anos, o pai decidiu enviá-lo a estudar em Oxford. Ali, os :

meiro livro (na edição citadá, I, p. 6-19 e 26-33), do conjunto do terceiro livro - e em especial do capítulo 4 (II, p. 117-137), onde se descreve "a silepciosa e insensível atuação do comércio exterior e das manufaturas" (p. 125) do livro IV, capítulo 7, 3 a parte (II, p. 400-485), onde afirma que os descobrimentos da América e da rota da índia pelo Cabo de Boa Esperança elevaram o sistema mercantil a um grau de espleivdor e dé glória jamais alcançado, e do primeiro capítulo do livro V (III, p. 44-241) onde se analisam as formas que o estado toma nas diversas fases do desenvolvimento econômico, através dos gastos com defesa, justiça, obras públicas e educação. 23 ROSS, Ian Simpson. The life ofAdam Smith. Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 305, 360-361 e 405. Do que pensava fazer no terreno da história legal, temos os apontamentos de classe dos estudantes, publicados com o título de Lecciones sobre jurisprudência (existe uma versão castelhana, citada anteriormente, e uma parcial, publicada em Granada: Cornares, 1995). Smith expusera suas idéias sobre a história e os historiadores em Lessons on rethoric and belles kttres, de janeiro de 1763.

ínrros que encontrava nas biblioteca^ o influenciaram mais do que as auas que assistiu por poucò tempo, pois o fato de que se convertera ao catoiçismo fez que o pai o enviasse a Lausanne para ser educado por um pastor calvinista, o que lhe possibilitou receber uma preparação sólida e amjjla que incluía a leitiira dos clássicos latinos e gregos, a da literatura histórica da época e a de teóricos como Locke, Montesquieu, Hume ou Voltaire (regressou, porém, logo ao anglicanismo, mantendo, desde então, uma ititude cética a respeito da religião e das igrejas). De 1763 a 1765, fez a viajem pela Europa que era parte da educação dos jovens ingleses de classe ilta. Foi no transcurso da viagem, aos vinte e sete anos de idade, que teve i idéia de sua grande obra. Na autobiografia nos diz: "Foi em Roma, em 15 ie outubro de 1764, meditando entre as ruínas do Capitólio, enquanto os rades descalços cantavam as vésperas no templo de Júpiter, que me veio, ?ela primeira vez, à imaginação a idéia de escrever a decadência e queda Ia cidade". A morte do pai, em 1770, o tornou independente financeiramente :mbora não rico. A situação melhorou ainda mais ao ser eleito membro do ?arlamento em 1774 e obter alguns recursos adicionais de funções públi:as. Começou a escrever èm 1774, sendo que o primeiro volume de Decalência e queda do império romano apareceu em 1776, com uma tiragem de nil exemplares (o dobro de A riqueza das nações, publicada ao mesmo empo e pelo mesmo editor). O êxito foi imediato a ponto de, em pouco empo, se esgotarem três edições. "Meu livro - disse Gibbon - estava em odas as mesas e em quase todas as cômodas". Os outros cinco volumes da >bra sairiam até 1788, continuando o relato até a queda do Império do Driente. Gibbon, que Se convertera num homem rico e famoso, pôde volar à Suíça, onde viveu até pouco antes da morte. O êxito do livro se deve, :m boa parte, a sua qualidade como escritor. Porém, o qúe o fez perdurar : o fato de ter sido o primeiro que conseguiu reunir as concepções teóri;as dos filósofos sociais do século XVIII, como Montesquieu ou Humé, :om o tipo de trabalho científico que os eruditos do século XVII deferiliam, como se pode ver na abundância e na riqueza das notas .de rodapé. Jm historiador da antiguidade como Moses Finley disse que o livro é "a

primeira história moderna de qualquer período da antiguidade (e possivelmente a primeira história tout court);24 A recuperação do trabalho erudito era menosprezado por Hume e pelos enciclopedistas franceses. Ao falar das primeiras fases da história humana, Rousseau disse: "comecemos por descartar todos os fatos" - era consciente em Gibbon e vinha seguramente do conhecimento das fontes históricas antigas e do fato de que a erudição deveria lhe servir de base para exercer o tipo de crítica que queria fazer. Admirava Hume, mas considerava que a História da Inglaterra era "superficial". Não podia tampouco aderir à simplicidade com que Montesquieu havia abordado o tema da decadência dos romanos, embora compartilhasse com ele a idéia de separar as "causas gerais" que operam nos domínios dos costumes, da religião e de tudo o que diz respeito ao domínio da opinião, das "causas particulares" dos acontecimentos.25 24 Está sendo publicado na atualidade um estudo muito ambicioso sóbre Gibbon e sua obra, situando-a na linha de desenvolvimento da história dos escoceses - J. A. Pocock, Barbarism and religion. Até o momento de escrever esta nota, apareceram os volumes I (The enlightenments of Edward Gibbon, 1737-1764) e II (Narrative of civil government), ambos publicados por Cambridge University Press em 1999; na medida em que a obra está ainda inacabada - o volume II chega até o momento da redação inicial de Decline and fall - , não foi possível extrair dela todo o proveito. Uma résenha dos volumes, FURBANK, P. N. Epic making. New York Review of Books, p. 57-59,30 Nov. 2000. Empregou-sé também PORTER, Roy. Gibbon. Making history. London: Phoenix, 1995; BARIDON, Michel. Edward Gibbon et le mythe de Rome. Histoire et idéologie au siècle des lumières. Lill^: Université de Lille III, 1975. 2 v.; GIBBON, E. Autobiography. London: Everyman's Library, 1932; McKITTERICK R.; QUINAULJ, Roland (Ed.). Edward Gibbon and empire. Cambridge: Cambridge University Press, 1997; FINLEY, M. I. Ancient slavery and modern ideology. London: Çhatto and Windus, 1980. p. 21-22; TÜRNBULL, Paul. The supposed infidelity of , Edward Gibbon. Historical Journal, 25, p. 23-41,1982; POCOCK, J. A. Was he one of them? London Review ofBooks, 23, p. 20-21, Fev. 1995; e Gibbon's "Decline and fall" and the world view of the late Enlightenment. In: Virtue, commerce and history. Cambridge; Cambridge University Press, 1985. p. 143-156. 25 GHOSH, Peter. The conception of Gibbon's History. In: McKITTERICK, R.; QUINAÚLT, Roland (Ed.). Edward Gibbon and empire. Cambridge: Cambridge University Press, 1997. p. 271-316, mostra-nos que Gibbon expôs a idéia numa primeira obra Essai sur l'étude de la littérature, escrita em 1758-1761 (sobre isto, POCOCK, J. G. A: Barbarism and religion. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.1, p. 208-239). Está claro que, embora a idéia geral proceda de Montesquieu, Gibbon a desenvolveu e a levou à prática. O trabalho de Ghosh é uma das melhores análises de conjunto da obra de Gibbon.

Os segundo e terceiro volumes, que levariam o relato até o fim do império do Ocidente, apareceram em 1781. Depois, passariam sete anos até que, em 1788, saíssem, de uma só vez, os três volumes finais, dedicados à etapa que ia de 476 ao século XV. Escritos com um ritmo mais rápido e com um enfoque mais "universal", neles, prestava atenção tanto às heresias como aos povos não cristãos que deveriam interferir na história da Europa. A obra se transformara de uma história do império romano no início, em "uma história do mundo escrita numa escala euro-asiática", que analisava o novo mundo medieval dominado pelos bárbaros e pela igreja.26 Os primeiros conflitos surgiram com o primeiro volume. Nos capítulos 15 e 16, ao ocupar-se da cristianização do império, anunciou que objetivava fazê-lo com imparcialidade: "O teólogo pode permitir-se a agradável tarefa de descrever a religião tal e como desceu do céu, adornada com a pureza nativa. Uma tarefa muito mais melancólica impõe-se ao historiador. Deve descobrir $ inevitável mistura de erros e corrupção que ela contrai numa longa residência na terra, em meio a uma raça degenerada de seres" (os ataques de que seria objeto pela formulação o obrigaram a publicar, em 1789, uma Reivindicação de algumas passagens nos capítulos quinze e dezesseis da "história da decadência e queda do império romano"). O livro contém, de vez em quando, separatas sobre instituições, governo ou economia que recordam os "apêndices analíticos" da História da Inglaterra de Hume. Mostra a influência da escola escocesa em muitas ocasiões, como quando, ao falar dos hunos, os compara com os tártaros da época e faz um estudo dos condicionamentos da vida pastoril (dieta, habitação, atividades), o que o leva a concluir que "a influência da alimentação ou do clima, que em um estágio mais avançado da sociedade se interrompe ou se ameniza em virtude de muitas causas morais, contribui poderosamente para formar e para manter o caráter nacional dos bárbaros". O erro de Gibbon, ao atribuir aos bárbaros do ocidente um gênero de vida pastoril, procede justamente por ter sido demasiadamentefielao esquema dos quatrò estágios.27 26 POCOCK, J. G. A. Barbarism and religion. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. II, p. 397-402. 27 BROWN, T. S. Gibbon, Hodgkin and the invaders of Italy. In: McKITTERICK, R.; QUINAULT, Roland (Ed.). Gibbon and empire. Cambridge: Cambridge University Press, [1997]. p. 137-161 (sobre isto p. i38).

Uma das características mais notáveis da obra é o modo com que, aofinaldo terceiro volume, depois de haver explicado a queda do império romano do ocidente, Gibbon consegue encaixar a visão tradicional da decadência no contexto geral da história do progresso: as "observações gerais" que seguem o capítulo 38 sustentam que, apesar das ascensões e decadências dos impérios, os homens foram progredindo do selvagem primitivo "privado de leis, artes, idéias e quase de linguagem" até "mandar sobre os animais, fertilizar a terra, atravessar o oceano e medir os céus" (são, como se vê, os quatro estágios). O progresso foi irregular e diverso e, em muitos momentos, foram vistos retrocessos que parecem pô-lo em perigo. Mas a experiência global da história mostra que "nenhum povo, a menos que a face da natureza se modifique, voltará a cair na barbárie original". Porque há avanços devidos a indivíduos geniais - como os poetas ou os filósofos - , outros, que são obra dos grupos ilustrados da sociedade - como os da lei e da política, das artes, das ciências e do comércio - , e outros, finalmente, mais elementares, porém mais decisivos para a vida dos homens, que se difundem no conjunto da coletividade e são conservados ná prática social. "Cada povo, cada família, cada indivíduo há de possuir sempre a habilidade é a inclinação para perpetuar o uso do fogo e dos metais; a propagação e o serviço dos animais domésticos; os métodos de caça e de pesca? os rudimentos da navegação; o cultivo imperfeito do trigo e outros grãos nutritivos, e a simples prática dos ofícios mecânicos." O gênio individual ou os avanços dos grupos mais ilustrados podem desaparecei, como aconteceu com as leis e os palácios de Roma; "mas há plantas qüe sobrevivem à tempestade e lançam uma raiz perene no solo mais desfavorável" O uso dá foice para ceifar a colheita manteve-se e der sapareceram.os costumes bárbaros das tribos itálicas primitivas. São estas artes básicas, ligadas à subsistência do homem, que formam o autêntico motor do progresso humano. Difundidas pelo comércio, pela guerra ou a pregação religiosa, estenderam-se pôr toda a terra "e jamais poderão ser perdidas". "Podemos chegar à agradável conclusão de que cada idade do mundo aumentou, e ainda continua aumentando, a riqueza real, a felicidade, o saber e talvez a virtude da espécie humana."

A segunda parte da obra muda, como dissemos, o enfoque, que já não está centrado na cidade de Roma, mas dedica amplo espaço aos povos muçulmanos e aos mongóis, tendo seus momentos culminantes no estudo dàs cruzadas, que lhe permite outra elaboração em termos de uma história do progresso. Gibbon não aceita a visão simplista de Robertson que via nas próprias cruzadas uma das causas do avanço da Europa ocidental. O único aspecto em que elas lhe parecem benéficas é o de haver contribuído para arruinar as grandes famílias feudais, ajudando a liquidar o sistema de submissão dos camponeses, "sustentado pelas manhas do clero e pelas espadas dos barões". A ruína obrigou-os a fazer concessões e, assim, "a conflagração que destruiu as árvores altas e estéreis do bosque arejou e deu espaço à vegetação das plantas menores e nutritivas do solo". No que se refere aos efeitos diretos, Gibbon aduzia um argumento "à moda de Hume", que mostra o fundo eurocêntrico da doutrina: oS europeus ocidentais (os "latinos") eram, naquele momento, inferiores aos gregos de Bizâncio e aosx árabes, possuindo, porém "uma energia peculiar de caráter, um espírito ativo e de imitação, desconhecidos dos rivais mais refinados que, por sua vez, se encontravam num estado estacionário ou retrógrado". A relação com os povos dó Oriente abriu os olhos dos europeus e os fez progredir no comércio e nas manufaturas, o que, junto à destruição da sujeição feudal, os levaria a "avanços sucessivos e à atual superioridade". Não custa muito situar a análise no modelo histórico smithiano.28 O fato do livro acabar de uma forma um tanto abrupta, com uma visão da cidade de Roma no século XV - um retorno às mesmas ruínas do Capitólio em que afirmara haver tido a idéia de escrever uma obra a que se dedicara cerca de vinte anos da vida - e com considerações sobre as causas da destruição física da cidade sem uma autêntica conclusão, pode ex28 Utilizei The history of the decline and fall of the Roman empire na excelente edição de Davis Womersley. London: Penguin, 1995. 3 v. A citação sobre o cristianismo é de I, cap. 15 (nesta edição, I, p. 446); sobre a barbárie pastoril, II, cap. 26 (I, p. 1025); as "observações gerais" sobre o fim do Império do Ocidente estão em III, cap. 38 (II, p. 508-516, os textos citados em p. 515-516); sobre os muçulmanos, V, caps. 51 e 52; sobre os mongóis, VI, caps. 64 e 65; sobre as cruzadas, VI, cap. 61 (as citações em III, p. 725-728).

plicar os ataques de que foi objeto por parte dos detratores, que não entenderam qual era sua intenção real. Uma análise recente de Decadência e queda do império romano, realizado por um grupo de especialistas no estudo de diversas épocas - ninguém seria capaz hoje de cobrir com competência o amplo campo histórico de que se ocupou Gibbon - revela-nos os vieses de visão e as insuficiências específicas, mas indica, também, a enorme influência que teve. Influência, por um lado, no desenvolvimento da historiografia posterior - Guizot, que traduziu Gibbon ao francês, ensinou a Fustel de Coulanges, o qual por sua vez foi mestre de Ferdinando Lot, etc. - e também na formação do projeto imperial britânico: Winston Churchill, lendo Gibbon aos vinte anos, no quartel de Bangalore, haveria de sentir-se duplamente identificado, como político e como historiador, com o homem que, muito antes da Rèvolução, discutindo em Paris com Mably, condenava "a loucura sobre os direitos e a igualdade natural do homem", como também o fez mais adiante, sobre uma revolução que, com o confisco dos bens do clero, "ataca a raiz de toda propriedade".29 Em 1776, entretanto, foi publicado outro livro que não é mencionado nos-estudos sobre a historiografia, mas que teria uma grande transcendência na história real da época: Senso comum (Common sense) de Tom Paine (1737-1809). Nascido no mesmo ano que Gibbon, mas de uma família pobre de Thetford, Paine edücou-se na medida das possibilidades.* Como o desconhecimento do latim e de outras línguas impedia-lhe o acesso ao mundo literário, teve que começar trabalhando como aprendiz de confecção de espartilhos. Aos dezenove anos, embarcou com um corsário, trabalhando, mais tarde, como arrecadador de impostos. Perdendo o posto de trabalho por ter escritò um documento em favor dos funcionários, imigrou para a América em 1774, com uma carta de recomendação de Benjamin Franklin. Ali, começou a envolver-se em política e, em 1776, publicou Common

29 Anthony Bryer, "Gibbon and the later byzantine empires" (citação da p. 107, modificada, porque Guizot não somente editou, mas também traduziu Gibbon) e QUINAULT, Roland. Winston Churchill and Gibbon. In: MçKITTERICK, R.; QUINAULT, Roland (Ed.). Edward Gibbon and empire. Cambridge: Cambridge University Press, 1997: p. 317-332.

Sense, obra que teve uma recepção entusiasta na América - é possível que a leitura do manuscrito haja contribuído para tornar Franklin independentista e que o texto impresso tenha feito Washington decidir-se - e pasmou rapidamente à Europa, onde foi lida e traduzida amplamente. Paine r dizia as coisas que era necessário dizer naquele momento, com eloqüência e clareza. Atacava a monarquia como um regime despótico e irracional: "Mais vale, para a sociedade, um homem honrado que todos os rufiões coroados que tenham vivido" (frase que Fidel Castro citou ao ser julgado pelo assalto ao quartel de Moncada). Observava, e foi o primeiro a fazê-lo, uma clara distinção entre "sociedade civil" e "estado", até então considerados sinônimos. O agrupamento legítimo era a "sociedade civil", enquanto o governo Ou o estado não eram mais que delegações de poder feitas por ela. Em conseqüência, Paine propunha que as colônias americanas se unissem nüma sociedade civil em escala continental e que esta se outorgasse um governo representativo. Era o princípio da autodeterminação, formulado pela primeira vez como um direito da sociedade civil. Em 1787, Paine foi à França e, em 1790, voltaria à Inglaterra onde, para responder aos ataques de Burke contra a revolução francesa, publicou, em 1791, a primeira parte de Os direitos do homem, que teria uma segunda parte, escrita em 1792. Se, na primeira, defendia a Revolução, ná segunda tratava dos princípios gerais da política, retomando os raciocínios e a linguagem do velho radicalismo inglês do século XVII pára denunciar o engano do governo formal, sustentar que "quanto mais perfeita seja a civilização, menos necessidade tem de governo" e reinterpretar a história das origens do estado, não como a de um contrato social, mas como a da ação violenta de bandos de depredadores qüe tinham se imposto às coletividades pela força.30 ' " O futuro imediato, no entanto, não ia nâ linha das idéias de Paine. Os historiadores escoceses haviam triunfado plenamente e conseguiriam impor, ao conjunto do mundo civilizado, uma visão evolutiva da história organizada em função de um motor econômico, que apresentaria o desenJ

30 KEANE, John. Tom Paine. A political life. London: Bloomsbury, 1996. As citações são de Cominem sense e de Rights of man, II, caps. 1 e 2.

volvimento do capitalismo "liberal" como o ponto máximo alcançado pela humanidade e, em conseqüência, situaria todos os povos e todas as civilizações dentro de um esquema único de progresso, justificando, com isso, o domínio imperialista dos europeus e de seus descendentes transaüânticos sobre o resto da espécie humana e apresentando a exploração colonial como uma missão humanitária de educação: "o fardo do homem branco". As conseqüências do consenso não somente gerariam conseqüências nefastas para a parte da humanidade que, a partir de então, seria considerada "subdesenvolvida", mas, também, para o próprio mundo "avançado".31 Ao definir como progressivo tudo o que conduz ao capitalismo e à industrialização fabril, esta visão da história desqualificava qualquer forma alternativa de organização como retrógrada ou inviável (utópica). Ao eliminar, por outro lado, a política como elemento ativo de transformação, apresentando-a como uma simples conseqüência da evolução social determinada pelo grau de desenvolvimento econômico - ou, no máximo, como um condicionamento da evolução social - e alicerçar a esperança em uma espécie de mecanismo de progresso invencível que acabaria melhorando a condição humana, fossem quais fossem as circunstâncias pontuais produzidas, envenenou as fontes do radicalismo revolucionário. O próprio socialismo acabou acreditando que o objetivo era chegar a uma etapa superior de industrialização, traindo as esperanças de transformação social que o fizeram nascer. Ainda hoje, quando já se passaram mais de duzentos anos da data crucial de 1776, não nos libertamos da carga destes erros e continuamos pagando as conseqüências.

31 Para uma visão crítica dos efeitos do modelo smithiano, destaca-se PERELMAN, Michael. The invention of capitalism. Classical political economy and the secret history ofprimitive accumulation. Durkham: Duke University Press, 2000.

Capítulo 6

REVOLUÇÃO E RESTAURAÇÃO

Um dos problemas que se apresentaram aos homens que viveram a grande comoção revolucionária iniciada na França em 1789 foi o de interpretar a experiência com as explicações globais do desenvolvimento social que alguns ilustrados, de quem se sentiam discípulos, haviam elaborado. Como os teóricos escoceses, admitiam que, aos distintos graus de desenvolvimento econômico, correspondiam determinadas formas de organização da sociedade. Porém, puderam perceber, pelo ocorrido na França, que as mudanças não se produzem sempre espontaneamente, pois as forças sociais dominantes da velha etapa de organização resistem em ceder o poder. Desta maneira, pode-se chegar a um momento em que as mudanças necessárias para manter aberta a via do progresso exijam o uso da força: que o caminho da evolução social deva ser desbloqueado mediante uma ação política violenta. O mais inovador dos pensadores que iniciaram esta linha de análise foi Antoine Barnave (1761-1793), filho de um advogado de Grenòble e deputado na Assembléia constituinte, què foi condénado à morte pelo tribunal revolucionário de Paris, acusado de conspirar com os aliados do rei a fim de moderar a marcha da revolução. Barnave, que havia crescido no meio da atividade industrial e da prosperidade do Delfinado, escreveu em 1792, um ano antes de morrer na guilhotina, algumas anotações que não seriam publicadas até 1843. Nelas acrescentou uma nova dimensão política à teoria dos quatro estágios. Pensando que, como os escoceses, ao grau

de desenvolvimento da economia correspondem formas de propriedade e um contexto institucional adequados, acrescenta, porém, que isso traz como conseqüência, que a classe social que controla o velho setor dominante da economia e exerce a hegemonia política, se esforce em frear as mudanças que a prejudicariam, dificultando o processo evolutivo e obrigando os setores em ascensão a deslocá-la do poder ou derrotá-la. "Do momento - diz - em que as artes e o comércio conseguem penetrar no povo e criam um novo meio de riqueza em proveito da classe laboriosa, prepara-se uma revolução nas leis políticas; uma nova distribuição da riqueza prepara uma nova distribuição do poder. Assim como a posse das terras elevou a aristocracia, a propriedade industrial eleva o poder do povo; adquire a liberdade, propaga-se e começa a influenciar na coisa pública." Convém esclarecer, no entanto, que, para Barnave, "revolução" significa uma mudança política não necessariamente violenta, mas que pode realizar-se através de uma progressão pacífica (de alguma maneira, ele mesmo estava envolvido num projeto deste tipo, que lhe acabaria custando a vida). P. L. Roederer (1754-1835) expunha idéias semelhantes em O espírito da revolução de 1789, livro escrito em 1815 mas só publicado em 1831, no qual afirma que o enriquecimento gradual da burguesia na etapa final do Antigo regime foi o que a tornou classe social dominante. Do momento em que se percebeu mais riça e mais culta que a aristocracia, reivindicou o lugar que lhe correspondia na ordem política mediante a revolução: "não são escravos subjugados pela conquista, nem servos fugidos das correntes do feudalismo os que começaram a revolução. São (...) homens livres e proprietários, são os burgueses das vilas e cidades, fartos dos vexames dos nobres e dos senhores, mas não carregados de correntes".1 Barnave e Roederer estavam começando a construir o mito histórico da "revolução burguesa" que culminaria com Guizot. Üm mito que 1 BARNAVE, Antoine. Introduction à la Révolution française. Edição de Fernand Rudé. . Paris: Armand Colin, 1971. Ralph Miliband "Barnave: um caso de consciência da classe burguesa", no volume editado por MÉSZÂROS, Istvan. Aspectos de la historia y la conciencia de clase. México: Unam, 1973. p. 33-66. Sobre Roederer, MORAVIA, Sergio. II pensiero degli idéologues. Firenze: La Nuova Italia, 1974. p. 717-723.

apresentava o processo revolucionário como a grande obra de progresso, realizada por iniciativa da burguesia com afinalidadede conseguir a liberdade de todos. A teorização ocultava que, na realidade, foram os combates internos produzidos no seio dos revolucionários que, ao forçarem a burguesia a ir além do que queria, explicavam grande parte das conquistas sociais alcançadas. A visão destinava-se também, por outro lado, a combater a outra tradição revolucionária, a dos que pretendiam discutir também a legitimidade da propriedade burguesa, convencidos de que podia-se consolidar uma ordem social mais justa, voltando-se a um passado idílico em que a terra era dividida eqüitativamente entre os homens, como parecia depreender-se de alguns textos de Montesquieu, de Mably ou de'Rousseau. Morelly (1700-1755) defendera, em A Basiliada ou As ilhas flutuantes, poema heróico publicado em 175,3, que os males sociais tinham origem na "dura e insensível propriedade" e que não haveria reforma possível, se esse problema não fosse atacado com um Código da natureza (1755) que determinasse que nada pertence como propriedade a nihguém, excetuando os objetos de uso pessoal; que todo cidadão deve ser mantido e empregado às custas do público e que todos têm a obrigação de contribuir à utilidade pública segundo suas forças e capacidades.2 A linha de pensamento radical encontraria eco em alguns setores da revolução, como os "enragés", com integrantes como o padre Jacques Roux (1752-1794), que escreveu que "os produtos da terra, como os elementos, pertencem a todos os homens" e denunciou como "ladrões, anarquistas e assassinos" os especuladores que roubavam o pão do trabalhador que dele necessitava para sustentar-se. Ou como François-Noël, chamado depois Gracchus Babeuf (1760-1797), que formou suas primeiras concepções a 2 Morelly (ignoramos seu nome de batismo). Code de la nature. Ed. De V. P. Volguine. Paris: Éditions Sociales, 1953. p.84 e 127-128. Cita-Se também uma curiosa tradução de fragmentos de La Basiliada feita por Antonio Bulbena (Barcelona: Suárez, 1908. p. XI), em uma rara edição, com tiragem de 52 exemplares. Está claro que Bulbena identificava-se com este "filósofo" de quemí nos diz que pertencia a "um reduzido círculo de pensadores" que atuavam à margem da cultura acadêmica oficial, difundindo subterraneamente idéias sociais que se dirigiam somente a um pequeno número de leitores e que "ainda consideram atracado nosso século progressista"

partir de uma dupla experiência: de um làdo, na Picardia natal como "feudista" - isto é, como investigador de títulos e direitos feudais por conta dos proprietários - , de outro, a influência de Mably, chegando, mais tarde, no Manifesto dos iguais, a planos mais avançados em que já não propunha o rëtorno a um passado idílico, mas a construção de um futuro diferente por meio de uma revolução "que será a última", anunciando desta maneira os caminhos que tomaria o socialismo do século XIX.3 A radicalização seria combatida desde os primeiros momentos por homens como Anarchasis Cloots (1755-1794), o "orador do gênero humano", que se opunha à divisão igualitária da terra com argumentos extraídos da lógica da sociedade industrial, concluindo que "a propriedade é eterna como a sociedade".4 Os mais importantes teóricos de uma saída burguesa para a revolução foram os chamados "ideólogos", cuja figura mais destacada é Antoine-Louis-Claude Destutt de Tracy (1754-1836), coronel e deputado da nobreza em 1789, que publicou, de 1803 até 1805, sua obra mais importante, Eléments d'idéologie. A "ciência das idéias" que propunha na obra estava destinada a uma função pedagógica, tendo a finalidade de ajudar a criar uma sociedade em que o interesse de cada um estivesse harmonizado com o interesse comum. Na base das formulações, estava o respeito pela propriedade privada: depois de afirmar que a noção de propriedade é uma das primeiras adquiridas pelo homem, Destutt argumenta que ela é também um fundamento natural da sociedade, sendo impossível evitar a desigualdade que sua própria existência provoca. Sen-

3 v Sobre Roux, DOMMANGET, Maurice. Jacques Roux et,le Manifeste des "Enragés". Paris: R. Lefeuvre, 1948. Spartacus. Sobre Babeuf, DOMMANGET, Maurice. Sur Babeuf et la conjuration des égaux. Paris: Maspero, 1970; DALINE, Victor. Gracv chus Babeuf, 1785-1794. Moscà: Progreso, 1976. ROSE, R. B. Gracchus Babeuf. The first revolutionary communist. Stanford: Stanford University Press, 1978; MAILLARD, Alain et al (Ed.). Présence de Babeuf. Lumières, révolution, communisme. Paris: Publications de la Sorbonne, 1944. Em 1977, iniciou-se uma ediç|o das obras de Babeuf (Paris, Bibliothèque Nationale) que hão teve continuação. 4 AVENEL, Georges. Anacharsis Cloots, l'orateur du genre humain. Paris: Champ Libre, 1976 (a edição original é de 1865); SOBOUL, A. Anacharsis,Cloots, l'orateur du genre humain. Annales historiques de la révolution française, 52, n. 239, • p> 29-58,1980.

do assim, a suposição de uma época em que os homens fossem iguais era necessariamente falsa. Napoleão, que tinha-se considerado como um dos primeiros ideólogos, quis livrar-se deles mais tarde, quando acreditou que já havia garantido a nova ordem social e não necessitava mais de teorizações. Quando descobriu que a religião era muito mais útil que o racionalismo ilustrado para suscitar a obediência ao poder estabelecido - "Somente a religião dá ao estado um suporte firme e duradouro", disse aos padres de Milão em 1800 - , decidiu combater a "perniciosa metafísica" dos ideólogos. A figura do velho Destutt, cego, pedindo que o levassem às barricadas de Paris em 1830 para mostrar a oposição à monarquia dos Bourbons, é um símbolo patético dessa empreitada fracassada, da qual sobreviveu principalmente o que era menos original: o trabalho de divulgação da economia política liberal feito por Say.5 A restauração aceitou, inicialmente, algumas das mudanças essenciais que a revolução realizara em benefício da burguesia, combatendo, ao mesmo tempo, a base ideológica, seja por meio de reivindicações da velha ordem social, com obras como as de Joseph de Maistre (1753-1821) ou de Louis de Bonald (1754-1840) que apresentavam a revolução como uma conspiração satânica, seja pela via da renovação, proposta pelo romantismo nas primeiras formulações, que pretendia revalorizar um passado medieval heróico, feudal e cristão - Comte destacará o aparente paradoxo de ter sido esta "escola católico-feudal" a que "preconizara as mais monstruosas aberrações dos inovadores literários". A primeira tentativa "romântica" realizada na França para contraditar, no terreno das idéias, a herança da Ilustração foi O gênio do cristianismo (1801) de François-René de Chateaubriand (1768-1848), livro que pretendia uma aproximação ao cristianismo pelos caminhos da poesia e da beleza, considerados superiores aos da razão. No que se refere à história, Chateaubriand - que seria o último dos 104 "historiadores do rei" na sucessão de 1554 a 1824 - que-

5 BARTH, Hans. Verità e ideologia. Bologna: Il Mulino, 1971 e MORAVIA, Sergio. Il pensiero degli idéologues. Scienza efilosofiain Francia, 1780-1815, já citado. TRACY, Destutt de. Élemens d'idéologie. Traité de la volonté. Paris: Courcier, 1815.

ria fazer um gênero em que Bossuet substituísse a Voltaire como fonte de inspiração, mas sem o fatalismo providencialista do bispo de Metz, já que entendia que "o pensamento social não retrocede, por mais que os fatos olhem com freqüência eín direção ao passado", acreditando ainda que o catolicismo era compatível com o progresso. De fato, seu papel principal nós debates historiográficos foi o de defender uma história descritiva que se limitasse a explicar e deixar a tarefa de tirar conclusões ao leitor, diferentemente dos novos historiadores "fatalistas" - no sentido de deterministas - , que não buscavam os detalhes» mas queriam encontrár explicações globais. Como destacaria Sainte-Beuve, Chateaubriand era incapaz de cultivar a erudição e "não estava maduro para ser verdadeiramente historiador no sentido sério e augusto da palavra".6 Também Prosper de Barante, com a HistOire âes ducs de Bourgogne (1824), quis desenvolver uma espécie de história narrativa inspirada nas novelas de Walter Scott, cheia de coloridas descrições de festas e torneios, sem outras preocupações do que as estritamente literárias. Mas Chateaubriand, cujas idéias sobre a história refletem a influência de Vico e de Herder, seria uma figura isolada na tentativa de integrar os velhos valores com o novo estilo. Os grandes historiadores franceses do romantismo foram homens da geração que chegou ao primeiro plano depois da revolução de 1830 e escreveram a serviço das idéias liberais com o propósito de consolidar ideologicamente a nova ordem social burguesa. Tudo começou depois de 1820, quando a trégua social, alcançada nos primeiros momentos pela monarquia francesa restaurada, viu-se ameaçada pelas tentativas dos grupos sectários que queriam voltar ao passado. Foi, então, que um grupo de jovens políticos liberais recorreram à escrita da história da revolução francesa com o intuito de defender sua herança burguesa: a história estava elaborando, nestes anos, a linguagem que a política usaria.7 6 CLÉMENT,' Jean-Paul. Chateaubriand. Paris: Flammarion, 1998; René de la Croix, duque de Castries. Chateaubriand ou la puissance du songe. Paris: Perrin, 1974. Uso as obras de Chateaubriand na edição de Oeuvres. Paris: Dufour, Boulanger et legrand, 1860-1863.26 v. A citação de Sainte-Beuve é de Chateaubriand et son groupe littéraire sous l'Empire. Paris: Garnier, 1948.1, p. 130. 7 CROSSLEY, Ceri. French historians and romanticism. London: Routledge, 1993.

Os dois primeiros a empreender este caminho foram Adolphe Thiers (1797-1877) e François Mignet (1796-1884). Amigos desde a juventude em Provence, mudaram para Paris em 1821, onde começaram a ganhar a vida como jornalistas e receberam, quase simultaneamente, de dois editores diferentes, o encargo de escrever histórias resumidas da revolução francesa. A primeira a aparecer seria a de Mignet, que antes havia publicado um estudo sobre o feudalismo bem recebido pelos especialistas, De la Féodalité. Em 1824, publicou História da revolução francesa, enquanto que a de Thiers, que começara a ser publicada em 1823, não foi concluída antes de 1827 (mais tarde, de 1845 a 1869, o mesmo Thiers a completaria com uma extensa História do consulado e do império, que teria um êxito extraordinário). Na medida em que estes homens, como disse Lefebvre, "faziam política ao defender a revolução de 1789, a revolução "burguesa", liberal e censitária", não caíram na tentação de escrever história narrativa ao modo de Barante. Os dois, pelo contrário, optaram pelos métodos da "história fi[osófíca" e analítica que os românticos criticavam, classificando-a de "história fatalista", porque explicava os acontecimentos como resultado de determinantes sociais. Mignet e Thiers não fizeram, neste primeiro momento, obra de erudição, más utilizaram, em grande medida, os testemunhos recolhidos oralmente dos velhos protagonistas que estavam a ponto de desaparecer e de cujas preocupações políticas compartilhavam.8 Dos dois, foi Mignet que se dedicou, posteriormente, à investigação histórica,9 realizando uma obra mais analítica e, ao mesmo tempo, mais 8 WALCH, Jean. Les maîtres de l'histoire, 1815-1850. Genebra: Slatikine, 1986. p. 75-93; KNIBIEHLER, Yvonne. Naissance des sciences humaines: Mignet et l'histoire philosophique au XIXe siècle. Paris: Flammarion, 1973 (mais adiante, fãz-se uma citação literal da p. 131); GODECHOT, Jacques. Un-jury pour la révolution. Paris: Robert Laffont, 1974. A citação de Georges Lefebvre é deRéflexions sur l'histoire. Paris: Maspero, 1978. p. 226. Cito a Histoire de la Révolutionfrançaisedépuis 1789jusqu'en 1814 de Mignet de uma edição de Paris, Nelson, s. a. (citações de I, p. 13-15 e II, p. 382-383). 9 Embora passasse dez anos sem publicar nenhum outro livro de história, Mignet retomará o trabalho de historiador com Negociaciones relativas a la sucesión de Espana (1834), finto de uma viagem à Espanha em tempos da guerra carlista, e se integrará nas tarefas de publicação de documentos que promove Guizot. Moderará sua visão depois da revolução de 1848 - abandonará o que os contemporâneos denominam o "fatalismo", que lhe faz justificar os fatos da revolução - e acabará escre-

comprometida do ponto de vista ideológico. Thiers, destinado a converterse num político profissional, foi, por outro lado, quem manifestou mais gosto pela narração histórica e explicou mais exatamente os acontecimentos. Embora o êxito alcariçado por este último, tenha provocado o esquecimento da obra de seu companheiro, é justo dizer que "foi Mignet quem explicou a revolução francesa à sua geração". Mignet começa^seu livro com uma introdução, onde, depois de comparar a revolução francesa com a da Inglaterra, disse: "Esta revolução não modificou somente o poder político, mudou toda a existência interior da nação". A desordem e os abusos do Antigo regime foram substituídos por uma ordem "mais de acordo com a justiça e mais apropriado a nossos tempos". Realizaram-se essas reformas, vencendo obstáculos internos e externos, porque os privilegiados não queriam resignar-se às mudanças. Se os homens fossem capazes de se entender, as mudanças poderiam ser feitas pacificamente. "Mas, até hoje, os anais dos povos não oferecem nenhum exemplo desta prudência ante os sacrifícios: os que teriam de fazêlos, os repelem; os que os desejam, ós impõem, e o bem se opera, como o mal, por meio da violência da usurpação". Ao final da obra e depois de explicar que a reação européia engendrou a "santa aliança contra os povos e o governo de um partido contra a Carta", Mignet concluiu: "este movimento retrógrado haverá de ter seu curso e seu término. Não se pode governar a França de maneira duradoura, se não for satisfeita a dupla necessidade que ocasionou a Revolução. Necessita, no governo, uma liberdade política real e, na sociedade, o bem-estar material que produz o desenvolvimento incessantemente aperfeiçoado da civilização" Thiers, em compensação, comprometeu-se menos do ponto de vista político e começa dizendo: "Vou escrever a história de uma revolução memorável que comoveu profundamente os homens e que ainda os mantém divididos". Sabe que o faz num momento em que os ressentimentos do passado estavam sendo renovados, mas, ainda que fosse partidário da causa da liberdade, não se sentia obrigado a defender os homens que fizeram a revolução. Revendo as biografias de Antônio Pérez e de Maria Stuart ern vez de continuar fazendo análises sociais globais.

colhe as recordações dos atores, "apelando ao testemunho, sem participar das paixões",' e anuncia que quer se colocar tanto do lado de uns como do lado de outros a fim de compreender melhor as ações de todos. A obra presta mais atenção aos elementos psicológicos do que a de Mignet e adota uma estrutura mais narrativa; mas convém não esquecer que foi Thiers o primeiro a utilizar a expfessão "luta de classes", um começo adequado para a carreira de um homem que, quase cinqüenta anos mais tarde, esmagaria a Commune a sangue e fogo.10 A obra de Augustin Thierry (1795-1856) nasce da mesma preocupação que movera Mignet e Thiers, ainda que tenha alcançado maior importância no terreno da renovação da história. Compartilha, para começar, as mesmas intenções políticas. Thierry confessava, no prefácio às Cartas sobre a história da França, que, em 1817 - quando rompeu com SaintSimon depois de ter sido seu secretário durante três anos - , "preocupado pelo vivo desejo de contribuir ao triunfo das idéias constitucionais, pusme a buscar, nos livros de história, provas e argumentos para dar base a minhas idéias políticas". Por esse caminho, descobriu Hume (embora preferisse a leitura de Walter Scott); interessou-se pela reVolução da Inglaterra e começou a publicar, de 1817 a 1820, uma série de escritos, surpreendentes pela lucidez, que precederam seu primeiro livro como historiador, L'histoire de la conquête de l'Angleterre (1825), que teria um grande êxito e firmaria desde o inicio sua fama.11 Enfrentou, então, problemàs de saúde que acabaram provocando sua cegueira - como conseqüência de uíná: sífilis descoberta muito tarde e, 10 Uso a história da revolução de Thiers na edição espanhola de Madri, Mellado, 1845, 6 vols. Uma boa análise do livro encontra-se em WALCH, Jean. Les maîtres de l'histoire, 1815-1850. Genebra: Slatikinê, 1986. p. 137-192. 11 CORMIER, Anne Denieul. Augustin Thierry. L'histoire autrement. Paris: Publisud, 1996; WALCH, Jean. Les maîtres de l'histoire, 1815-1850. Genebra: Slatikinê, 1986. p. 61-73; CROSSLEY, Ceri. Trench historians and romanticism. London: Routledge, 1993. p. 45-70; GAUCHET, Marcel. Les "Lettres sur l'histoire de France" d'Augustin Thierry, In: NORA, Pierre (Ed.). Les lieux de mémoire. Paris: Gallimafd, 1997.1, p. 787-850. As cartas começaram a ser publicadas no "Courrier français" em 1820, nos momentos em que se vivia a ofensiva dos ultras. Sobre a Historia de la conquista de Inglaterra, da qual sefizeramnove edições em vida do autor, Denieul, p. 202-230.

portanto, mal curada. Mesmo assim, continuou trabalhando febrilmente. Em 1827, reuniu num só volume as Cartas sobre a história da França, nas ;< ' quais atacava as falsidades de uma história tradicional em que as afirmações se repetem sem estar documentadas e proclamava a necessidade de trabalhar nos arquivos e de usar os documentos criticamente. A partir de 1833, publicou os textos que depois seriam reunidos sob o título de Rela- -í tos dos tempos merovíngios, resultado das novas "cartas" que voltou a escre- ' ver para o grande público, agora com a intenção de fazer "um trabalho de arte ao mesmo tempo que de ciência histórica", com um êxito enorme (é o livro pelo qual é lembrado ainda hoje, ignorando-se injustamente os trabalhos mais sérios). No auge do áucesso, recebeu o encargo oficial de fazer, contándo com auxiliares que o ajudaram, uma compilação de documen- ! tos históricos que culminaria com a publicação, em 1853, do Ensaio sobre a formação e progressos do terceiro estado, pensado como uma introdução geral a uma coleção de documentos históricos. Nessas páginas defendeu o què afirmara ao longo de toda sua obra: a idéia de que a história tradicional tinha sido escrita a fim de legitimar o antigo regime - consistindo, por isso, numa sucessão de, biografias de soberanos, muitos dos quais qualificados abusivamente como reis da França, quando, como Clóvis, não eram mais que chefes de povos germânicos sendo necessário refazê-la por completo, caso se desejasse què ela cumprisse a mesma função de legitimação a respeito da sociedade burguesa. Era preciso substituir a história dos reis e dos aristocratas pela do "terceiro estado" - isto é, da "a nação menos a nobreza e o clero" que era "a história do desenvolvimento e dos progressos da sociedade civil, do caos dos costumes, leis e condições que se seguiu à queda do império romano, ao regime dê ordem, de unidade e liberdade de nossos dias".12 12 GOSSMAN, Lionel. Augustin Thierry and Liberal Historiography. History and theory, XV, n. 4,1976, suplemento 15 (em especial, p. 6-19). Uma crítica de Marx pode ser encontrada na carta a Engels de-27 de julho de 1854, (em MEW, XXVTTI, p. 381382). Utilizaram-se as seguintes obras de Thierry: Dix ans d'études historiques. Paris: Furne, 1846 (onde estão reproduzidos escritos sobre a revolução da Inglaterra - p. 25-113 - e outros textos teóricos interessantes); Essai sur l'histoire de la formation et, des progrès du Tiers Etqt, suivi de deux fragments du recueil des monuments inédits de cette histoire. Paris: Furne, 1853 ( edição" fac-'simile de Mègariotis Reprints,

; Aos nomes citados até agora, convém acrescentar, com destaque, o de François Guizot (1787-1874), protestante e filho de um homem guilhotinado pela revolução como colaborador dos girondinos, que se converteu num dos principais teóricos do liberalismo doutrinário. Em 1812, publicou, ajudado pela primeira esposa, Pauline de Meulan, uma nova tradução de Gibbon, autor que o influenciaria fortemente na concepção de civilização e obteve um posto de professor de história moderna na faculdade de letras. Começou a carreira política em 1814, como liberal dentro do sisteiáa da restauração, até que a reação ultra o afastaria da política e o levaria a se dedicar totalmente ao trabalho de historiador, com conotações claramente políticas, e ao ensino na universidade, onde, de 1820 a 1822, daria um curso memorável sobre a história do governo representativo. No outono de 1822, o governo suprimiu o curso e Guizot dedicou-se, então, a trabalhar no que haveriam de ser os primeiros volumes, publicados e:m 1826 e 1827, de sua grande obra de historiador, a História da revolução da Inglaterra. Em 1828, retomou a atividade doceiite com um curso de história moderna, editado entre 1829 e 1832 e reeditado mais tarde em duas partes separadas: a História geral da civilização européia e a História da civilização na França. A revolução de 1830 seria, para os doutrinários como Guizot, a culminação do projeto de monarquia constitucional de 1814, derrotado pelos ultras, e nao uma ruptura revolucionária. Os liberais que expressavam as idéias políticas através da história - Guizot, Thiers e Thierry - foram os autores intelectuais do novo regime de liberalismo doutrinário que nasceu dos acontecimentos de 1830. Urna revolução que eles mesmos consideravam como sua vitória: "Guizot e Thiers tomaram parte nos acordos que escamotearam o triunfo da revolução em favor do duque de Orléans; Guizot foi um dos autores da carta revisada". Thierry, por outro

Genebra, s. a.; faz-se uma citação de p. 1-2) e Récits des temps mérovingiens. Paris: Les Presses d'Aujourd'hui, 1981. Na hora da verdade, Thierry limitaria a compilação dos documentos sobre o "terceiro estado" aos referentes à história dos municí- < pios e à dos grêmios, renunciando aos que se referiam à participação da burguesia nos Estados gerais e deixando para mais adiante a coleção dos documentos "sóbre o £Stado das famílias" (p. 367-370).

lado, dizia, em 1840, que a monarquia de julho era "a conclusão lógica história política da França".13 ?j Guizot iniciou, nesse momento, uma longa etapa de governante, que teve uma primeira fase importante como ministro do Ensino Público de 1832 a 1837 (com "a lei Guizot" de 28 de junho de 1833 que organizava o Ensino Público das crianças). Foi, também, o momento em que lançou as bases para a pesquisa profissional da história da França: em 1834, criou o i "Comitê dos trabalhos históricos", encarregado da publicação de documentos inéditos na "Coleção dos documentos inéditos sobre história da França", na qual, entre 1835 e 1852, foram publicados 103 volumes. Em 1835, fundou, com Mignet e outros, a "Sociedade da história da França", de caráter privado, que, em 1860, já tinha 450 membros e publicara 71 volumes.14 Em 1839, depois de uma fase dé instabilidade devido às interferências do rei Luís Felipe, os políticos tiveram que lembrar ao soberano que "o rçi reina mas não governa". Foi então que ocorreu o último governo de Thiers nesta etapa (março-outubro de 1840), dando lugar à longa fase de predomínio de Guizot, até a revolução de 1848. Guizot não queria fazer modificações na ampliação do voto, que era limitado pela fortuna - aos que reclamavam lhes dizia, "enriqueça" - e garantiu uma longa etapa de tranqüilidade e de imobilismo à França, em q.ue a política passou ao segundo plano. Mas, a situação durou enquanto houve .prosperidade econômica; quando chegaram as dificuldades de 1847, viu-se que o espírito político do país não estava definitivamente morto. 13 COORNAERT, Émile. Deslins de Clio en France depuis 1800. Paris: Ouvrières, 1977. p. 27; BOER, Pim den. History as a profession, The study of history in France, 18181914. Princeton: Princeton University Press, 1998. p. 76. Afirmou-se que a obra destes historiadores foi mais importante para a configuração da França como nação do "què o desenvolvimento constitucional formal" (BRUBAKER, Roger. Citizenship and national in France and Germany. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1992. p. 11). 14 No entanto, a erudição histórica tinha na França o antecedente da Académie des Inscriptions et Belles Lettres, reorganizada em 1715, que publicava documentos sobre a história da França; a Ecole des chartes se iniciara em 1829. KNIBIEHLER, Yvonne. Naissance des sciences humaines: Miguet et l'histoire philosophique au XIXe siècle. Paris: Flammarion, 1973. p. 285-303; BOER, Pim den. History as a profession. .. Princeton: Princeton University Press, 1998. p. 55-58 e 74-75.

A revolução de 1848 pegou Guizot de surpresa obrigando-o ao exíftjo na Inglaterra e o afastou da política para sempre. Voltaria, então, à pesquisa sobre a revolução iiiglesa, ao mesmo tempo em que publicava uma série de escritos sobre questões religiosas, vistas sempre de sua ótica de protestante.'* Na obra histórica de Guizot, há um substrato de idéias que se mantém sem grandes mudanças de 1820 aos últimos escritos do exílio. Guizot quer oferecer-nos uma visão do desenvolvimento da civilização européia da qüeda do Império Romano à Revolução francesa, interpretado como o relato de um progresso. A formulação parte de uma noção de civilização que compreende o conjunto de desenvolvimento social e político: "um fato geral oculto, complicado, muito difícil de conhecer, descrever e contar, mas como os outros deve ser descrito e contado", porque é "o fato por excelência, o fato geral e definitivo ao qual vão se referir todos os demais". Não quer, no entanto, definir a civilização, más sustenta que se trata de uma idéia que todos compreendem e que ele, simplesmente, se propõe a estudar: "não temos que explicar nenhuma teoria, o que temos é que explicar um fato". Existe uma "certa unidade" de civilização em todos os estados da Europa que estimula a estudar os complexos desenvolvimentos em escala global, por mais que a França tenha sido "o centro e o foco da civilização geral". Ao analisar o progresso da civilização, o que o historiador encontra não é somente o aumento da produção e do bem-estar material mas sim, principalmente ó desenvolvimento da atividade social que facilita à vida individual a plena expansão.16 Expusera já o esquema nos cursos He 1820-1822, nos quais examinava a história da Europa, dividindo-a em quatro épocas: a primeira é a da barbárie, oride nenhuma instituição pode assentar-se firmemente; a segunda é a do feudalismo, do século X ao XIV; a terceira, que vai do século 15 BROGLIE, Gabriel de. Guizot. Paris: Perrin, 1990; GUIZOT, François. Mémoires pour servir à l'histoire de mon temps. Paris: Levy, 1858-1867. 8 v.; ROSANVALLON, Pierre. Le moment Guizot. Paris: Gallimard, 1984. 16 As citações procedem todas da primeira seção da Histoire générale de la civilisation en Europe, que uso na edição espanhola Historia general de la civilización europea. Barcelona: Verdaguer, 1839. p. 3-27.

XIV ao XVI, mostra os esforços dos povos da Europa para avançar em direção à monarquia constitucional, enquanto ò feudalismo declina e as pessoas conquistam espaços de liberdade; a quarta, finalmente, do século XVI à Revolução francesa, mostra que "os esforços em direção ao sistema representativo fracassaram ou quase desapareceram do continente; a monarquia pura - isto é, absoluta - prevalece; somente a Inglaterra conquista decididamente o regime constitucional".17 Daí, a lógica que o levaria a estudar a fundo a revolução da Inglaterra que, para ele, parecia haver tido duas conseqüências: "os autores fundaram, na Inglaterra, a monarquia constitucional; os descendentes fundaram, na América, a república dos Estados Unidos". O admirável no caso britânico era que a revolução permitiu que o acesso ao governo representativo se produzisse sem necessidade de ruptura social, diferentemente do que ocorreria mais tarde na França. Mas este léxico não nos oculta que Guizot não confunde "governo representativo" com democracia, a qual abomina, e que o tipo de regime revolucionário que defende é o que poderia ter estábilizà\ do a monarquia restaurada de 1814, que era o mesmo que os doutrinários renovaram em 1830, mudando as cores da bandeira da França mas mantendo o mesmo texto da carta outorgada e sem aumentar a representatividade do sistema (votavam na França cerca de 250.000 eleitores, numa população de mais de 32 milhões de habitantes). Porque, como dirá no discurso sobre a história da revolução inglesa: "O espírito revolucionário é tão fatal para os homens que celebra como para os que derruba. A política que conserva os estados é a única que completa e afirma as revoluções".18 Para Guizot, o tipo de história que mostrava o regime de 1830 como a culminação de um progresso, o do terceiro estado, respondia tanta a suas 17 GUIZOT, F. Histoire des origines du gouvernement representatif et des institutions politiques de l'Europe. Paris: Didier, 1856. II. p. 2-3. 18 Uso a obra na excèlente edição de Laurent Theis, GUIZOT, F. Histoire de lu révolution d'Angleterre, 1625-1660. Paris: Bouquins, 1997. O volume compreende as três partes da obra. A primeira, que engloba de 1625 a 1649, publicada em 1826-1827, é a costumeiramente traduzida. Depois de cair do poder, Guizot retomou o estudo do tema no exílio e publicou as partes que vão da "república" ao restabelecimento dos Stuarts, entre 1854 e 1856. A citação corresponde a esta edição, p. 75.

intenções políticas como a suas convicções íntimas, expressas orgulhosamente nas memórias: "Sou dos que o impulso de 1789 elevou e que não aceitaram nunca voltar a descer. (...) Nascido burguês e protestante, estou profundamente dedicado à liberdade de consciência, à igualdade perante a lei e a todas as grandes conquistas da nossa ordem social".19 O programa político de Guizot faliu em 1848 - Tudesq disse que' Guizot "como historiador, enfatizou uma certa luta de classes a fim de explicar a ascensão da burguesia e, por outro, como político, negou-se a ver que a luta de classes podia prosseguir", porém sobreviveu, em compensação, a visão historiográfica, que interpretava a ascensão da burguesia como uma manifestação do progresso da humanidade. Por outro lado, o fato de mostrar a "sociedade civil" como protagonista, substituindo a história tradicional dos reis e das dinastias, fez dele um dos fundadores da história das nações. A influência exercida pela História da civilização européia - livro que ainda hoje continua sendo traduzido e lido - , sobre os historiadores europeus do século XIX foi extraordinária e ainda não avaliada adequadamente.20 Os vitoriosos de 1848, obrigados a estabelecer as bases do consenso de uma maneira mais aberta que os doutrinários, mas interessados igualmente em combater o medo que o ressurgimento do regime republicano podia produzir em determinados setores sociais, usariam, agora, a história ia Revolução francesa para destacar os aspectos reformistas e mostrar que a que se alcançou - começando pela ampliação do sufrágio que evitava que os descontentes tivessem que recorrfer à revolta, como haviam feito em 1830 e em 1848 - era uma garantia contra os perigos de radicalização.21 19 GUIZOT, F. Memories pour sévir à l'histoire de mon temps. Paris: Levy, 1858-1867. I, p. 27. 20 BOER, Pirn den. History as a profession, The study of history in France, 1818-1914. Princeton: Princeton University Press, 1998. p. 64-75; KNIBIEHLER, Yvonne. Naissance des sciences humaines: Miguet et l'histoire philosophique au XIXe siècle. Paris: Flammarion, 1973. p. 285-303. 21 Não somente para evitar a ação das massas, mas para tranqüilizar a burguesia que, como indicava Shelley em 1818, vivia com "o pânico que, como uma epidemia, alcançou todas as classes de homens durante os excessos produzidos pela Revolução - francesa" (The revolt of Islam, prefácio).

A revisão da república revolucionária seria feita em duas obras capitais que começaram a ser publicadas no mesmo ano, em 1847. De uma, a História da revolução francesa de Michelet, falaremos depois. A mais importante, do ponto de vista político, pelo grande êxito e pelas paixões que suscitou, foi a História dos Girondinos de Alphonse de Lamartine (17901869). Nela, o autor defendia a imagem de uma república da fraternidade, onde a liberdade podia ser alcançada sem recorrer ao terror e concluia, exortando à paz social: "Arranquemos o crime da causa do povo como a arma que lhe atravessou a mão e converteu a liberdade em despotismo; não tentemos justificar o cadafalso com a pátria e as proscrições com a liberdade; não endureçamos a alma do século com P sofisma da energia revolucionária; deixemos o coração à humanidade, que é o mais seguro e infalível dos princípios e acomodêmo-nos, resignadamente, à condição das coisas humanas". O próprio Lamartine, expressaria mais claramente o objetivo da interpretação, deixando de lado a retórica romântica, com estas palavras: "É necessário dirigir as massas (...) para que não se deixem levar pelos caminhos da subversão social e do materialismo".22 O historiador que deixaria uma marca mais profunda seria, no entanto, Michelet, o mais famoso e provavelmente o melhor de sua época: o homem que, a partir dos pressupostos estéticos dó romantismo, levou mais longe o programa de uma história popular e nacional. Jules Michelet (1798-1874) nasceu numa igreja convertida em imprensa pela Revolução e trabalhou nela, ao lado de seu pai, um homem que havia participado plenamente da atividade febril dos anos de transformação. Em 1821, ganhou um posto de professor de Liceu, dedicando-se, desde então ao ensino da filosofia e da história, o que o levaria a obter, em 1838, um lugar de professor no Collège da França (tinha sido, anteriormente, professor da filha da duquesa de Berry e da filha do rei Luís Felipe e substituto, de Guizot na

22 FORTESCUE, William. Poetry, politics and publicity, and the writing of history: Lamartine's Histoire des Girondins (1847). European History Quartely, 17, p. 259284,1987; GILDEA, Robert. The past in French history. New Haven: Yale University Press, 1994. p. 34-36; LAMARTINE, Alphonse de. Historia de los girondinos, livro LXI, XVIII," GÉRARD, A. La révolution frapcaise, mythes et interprétations, 17891970. Paris: Flammarion, 1970. p. 44.

Sorbonne). Em 1830, o nomearam chefe da seção histórica dos Arquivos Nacionais; mas, em 1852, recusou-se a prestar juramento á Napoleão III, o que deu motivo para que destituíssem de seus cargos este republicano que havia se mostrado anticlerical no ensino - as lições de 1842 sobre os jesuítas provocaram autêntica agitação - e para que lhe negassem posteriormente a aposentadoria, de maneira que teve que viver humildemente o resto da vida e obrigado, por isso mesmo, ao trabalho ativo de escritor.23 Na extensa obra de Michelet, muito influenciada pelas idéias de Vico e pelo estilo de Chateaubriand, cabe destacar História da França, publicada del833 a 1873, cuja parte central é justamente a História da Revolução francesa, escrita entre 1847 e 1853. Michelet dizia que teve a idéia de escrever uma história da França nos dias da revolução de 1830 e que a intenção era oferecer uma visão personalizada da nação em que a realidade presente aparecesse como a forma adulta de um "ser nacional francês" que existira desde a origem dos tempos. Tudo isso expresso numa retórica romântica que se afastava do tipo de análise social dos predecessores e o levava a afirmar que o programa do historiador consistia "na ressurreição da vida íntegra".24 Para ele, fazer história "nacional" não significava ocupar-se dos grandes personagens, mas do "povo", o que quer dizer das massas (no limite dos raros indivíduos que se identificam com elas e as representam). *Ò progresso moral depende da vitalidade das massas, já que a humanidade não se resume a alguns gloriosos tiranos (...). As melhores figuras são a flor do gênero humano (São Luís, A donzela) pelo fato mesmo de que contêm, nelas o povo, cujos progressos acompanhei porque era eu mesmo, porque éreis vós."25 > 23 VIALLANEIX, Paul. Michelet, les travaux et les jours, 1798-1874. Paris: Gallimard, 1998 (Viallaneix publicou o extenso Journal de Michelet - Paris: Gallimard, 19591976.4 v.); MITZMAN, Arthur. Michelet historian. Rebirth and romanticism in Nineteenth-century France. New Haven: Yale University Press, 1990; BARTHES, Roland. Michelet. Paris: Seuil, 1995; KELLEY, Donald R. Historians and the law in postrevolutionary France. Princeton: Princeton University Press, 1984. p. 101-112; WALCH, Jean. Les maîtres de l'histoire, 1815-1850. Genebra: Slatikine, 1986. p. 193-232, etc. 24 MICHELET, J. Histoire de France. Paris: A. Lavroix, 1876.1, p. I-XV.

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25 MICHELET, J. Cours au Collège de France, 1,1838-1844. Ed. de Paul Viallaneix. Paris: Gallimard, 1995. p. 362.

Em nenhum lugar isto é mais visível do que na História da Revolução, escrita para defendê-la dos medos suscitados pelos que haviam deformado sua, realidade histórica. Michelet começa, destacando o "caráter profundamente pacífico, benevolente, amoroso da revolução", atribuindo a violência, aos esforços que teve que fazer "para não perecer contra o mundo conjurado". Em todo o caso, é evidente que "o tempo humano e benevolente da revolução tem por ator o próprio povo, o povò inteiro, todo o mundo. E o tempo das violências, dos atos sanguinários a que mais tarde o perigo o empurra não tem por atores mais do que um número ínfimo de homens, infinitámente pequeno". Tudo isso o leva a ver que "o povo valia muito mais do que os que gpvernam" e a concluir: "Quanto mais me aprofundei, mais encontrei que o melhor estava embaixo, nas profundidades obscuras".26 Michelet, o primeiro a basear sua história em sólidos fundamentos de erudição - o livro, dirá em 1868, "nasceu no interior dos Arquivos" - , colocou nela também a visão dos de baixo, transmitida, entre outros, pelo próprio pai, fazendo do "povo", que no caso, está claro que se identifica com "a nação", o protagonista da história. A convocação dos Estados gerais "chamou o povo inteiro ao exercício dos direitos"; o assalto à Bastilha é um "ato de fé" coletivo que não foi proposto por ninguém concretamente, mas que é realizado por todos; "só o povo" é o que levou o rei a Paris. . . Na introdução ao livro III - "Do método e do espírito deste livro" - afirmou decididamente: "sem negar a influência poderosa do gênio individual, não se pode duvidar de que, na ação destes homens, a parte principal corresponda à ação geral do povo, do tempo, do país". E o fez constar nas" breves palavras com que conclui seu grande trabalho, em 1853: "Todas as histórias da revolução até aqui eram essencialmente monárquicas (ou por Luís XVI ou por Robespierre). Esta é a primeira re-

26 Uso a Histoire de la Révolution française, na edição de Gerard Walter. Paris: La Pléiade, 1952; darei, no entanto, as citações de maneira que possam ser identificadas em qualquer outra. Estas, concretamente, correspondem ao prefácio de 1847 (na edição Walter, I,p. 2-8).

publicaria, a que rasgou os ídolos e os deuses. Da primeira página à última não há mais do que um herói: o povo".27 Isto não deve ser entendido tão somente em termos sociais. Michelet abominava tanto Babeuf como, ao final de sua vida, a Commune e, em geral, o socialismo. O que esta história nos explica é, na realidade, a construção de uma nação em que todos os homens deveriam converter-se, do ponto de vista político, em membros iguais de uma comunidade. Ao narrar a noite de 4 de agosto, Michelet não comemorou somente a abolição dos "privilégios das classes" - que era evidentemente uma das condições da igualdade - mas, também, a dos privilégios "das províncias" - isto é, dos "Pays d'état" que conservavam festos de velhas liberdades - ao concluir: "Depois desta maravilhosa noite, não há mais classes, somente franceses; não mais províncias, só uma França. Viva a França!".28 Está claro que, para conseguir este resultado, se necessitava de algo mais que a simples "revolução burguesa" que Guizot celebrara, deslumbrado pelo modelo inglês. Um dos momentos em que a diferença entre a visão de Michelet e a de seus predecessores fica mais evidente é aquele em que, ao se referir ao processo de Luís XVI - em um capítulo intitulado, sem dúvida alguma, de "Luís XVI era culpado" - , contrapõe a este fato concreto o aspecto positivo da grande corrente da Revolução que consistiu na "conquista interior da França por ela mesma, a conquista da terra pelo trabalhador, a maior mudança que jamais se produzira nà propriedade desde as leis agrárias da antiguidade e da invasão dos bárbaros". Para criar a nação, eram necessárias, evidentemente, mudanças muito mais profundas do que as que pudera ter provocado "uma revolução inglesa e superficial".29 Outro homem que analisa a revolução à luz da experiência de 1848, mas a partir de uma perspectiva muita distinta da de Michelet, é Aléxis de 27 Citações do livro I, capítulo 1; I, cap. 7; III, introdução e dã breve conclusão, ao final do livro XXI (Walter, I, p. 77, 145 e 287, e II, p. 990). 28 Livro II, capítulo 4 (I, p. 217). 29 Livro IX, capítulo 1 e livro XIV, cap. l(Walter, II, p. 7 e 622). Coetâneo e amigo de Michelet, mas muito menos interessante, é Edgar Quinet (1803-1875), tradutor de Herder, autor de livros em que estuda o papel da religião, e de uma história da revolução (WALCH, Jean. Les maîtres de l'histoire, 1815-1850. Genebra: Slatikine, •1986. p. 233-264).

Tocqueville (1805-1859), membro de uma lamília aristocrática. Estudou Direito, foi alguns anos juiz em Versailles e, em 1831, viajou com um amigo aos Estados Unidos, com o pretexto de estudar o sistema penitenciário. Da experiência, sairia sua primeira obra importante, A democracia ná América (publicada em duas partes, em 1835 e 1840). O livro, qualificado como obra de um sociólogo, teve um êxito extraordinário e levou o autor à carreira política que chegaria ao ápice em 1849, quando chegou a ser ministro de Relações Exteriores. Em 1850, adquiriu uma tuberculose que, combinada com a hostilidade de Luís Napoleão, o obrigou a abandonar a carreira política. Foi, então, que decidiu dedicar-se a escrever uma obra muito ambiciosa, O antigo regime e a revolução, cuja primeira parte, a única que chegou a completar, apareceria em 1856. Da segunda, somente conheceriam as notas preliminares.30 Nas páginas de O antigo regime e a revolução, Tocqueville analisa a sociedade do antigo regime francês tal como era no século XVIII, mostra os defeitos, mas sustenta de "revolução burguesa" que mostrasse os diversos caminhos pelos quais surgiu o capitalismo no'Ocidente e que permitisse teorizar o caso inglês, publicou, em 1974, as duas primeiras das quatro partes que formariam uma espécie de grande tratado de sociologia histórica comparada, Passages from antiquity to feudalism e Lineages of the absolutist state. As duas partes finais, que seriam dedicadas às revoluções burguesas e ao sistema contemporâneo do estado, nunca foram publicadas, possivelmente porque os interesses intelectuais de Anderson mudaram. A montagem sociológica comparativa, mais próxima de Weber do que de Marx, suscitou fortes discussões, não tendo, porém, grande influência no trabalho posterior dos historiadorés.41

40 THOMPSON, E. P. Witness against the Beast. New York: The New Press, 1993. p. 228-229. 41 A obra "histórica" de Anderson limita-se a estes dois títulos. Um novo livro, The ends of history, estí anunciado para ser publicado por Verso, sucessor da velha New Left Books. Eric Hobsbawm fez uma crítica profunda aos dois livros, severa na análise mas amistosa no tom, em Feudalism, capitalism and the absolute.state (Our history, Pamphlet 66, verano 1976). Gérard Noiriel acerta ao dizer que Andèrson ou Gary Stedman Jones "se baseiam na leitura de Marx proposta por Althusser para repelir o empirismo de seus antecessores" (Sur la "crise" de 1'histoire. Paris: Belin, 1996. p. 107). A complexa trajetória político-ideológica de Anderson - que vai da condição inicial de discípulo de Deutscher, à influência deGramsci, uma etapa de galo-marxismo al-

É paradoxal que hoje vejamos serem reivindicados, plenamente vigentes, os historiadores que os meios acadêmicos de seu tempo tentaram silenciar. Perry Anderson escreveu recentemente: "Pode-se dizer que a historiografia marxista britânica conseguiu, hoje, ter leitores em todo o mundo - o que não acontecia antes - com A Era dos Extremos de Hobsbawm, que parece tornar-se a interpretação mais influente do século passado, a história completa de uma vitória do ponto de vista dos vencidos".42 Do campo do marxismo, entendido o termo no sentido mais criativo, a mensagem renovadora com maior transcendência em direção ao futuro talvez seja a de Walter Benjamin (1892-1940) que, na fasefinalde uma obra complexa e muito diversa, aparentemente dominada pela preocupação pela estética, nos deixou, como legado póstumo, certas teses sobre a concepção da história, até hoje mais elogiadas do que compreendidas. Benjamin exilara-se da Alemanha quando os nazistas chegaram ao poder e, ao começar a Segunda Guerra Mundial, em 1939, residia na França. Esteve preso um tempo e voltou depois a Paris onde, no inverno de 1940, escreveria as teses "Sobre o conceito da história": uma espécie de testamento que recolhia "a totalidade das experiências de sua geração", clarificadasfinalmentepela guerra: uma teoria da história que tornaria possível, por exemplo, estudar objetivamente o fascismo. Ao ocorrer a derrota da França, fugiu em direção ao sul, primeiro a Lourdes e depois para Marselha, onde tratou inutilmente de embarcar. Decidiu então passar pela Espanha em direção aos Estados Unidos. Em 25 de setembro de 1940, chegou a Port Vendres e pediu a Lisa Fittko que o ajudasse a passar a fronteira. A única rota válida naquele momento, que obrigava a subir os Pirinéus, era o "caminho Líster", uma antiga trilha de contrabandistas que Benjamin percorreria lentamente, já que tinha problemas cardíacos. Fizeram uma thusseriano, outra de trotskista (depois de 1968) e o distanciamento posterior da tradição revolucionária marxista - pode ser acompanhada em ELLIOTT, Gregory. Perry Andersoti. The merciless laboratory of history. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1998. Perry Anderson que escreve o "manifesto" inicial da nova New Left review está consciente do triunfo da direita e do neoliberalismo (aliado com as "terceiras vias") e propõe uma atitude de realismo sem conciliações, ainda que considere que as esquerdas não têm, agora, um programa concreto a opor. 42 ANDERSON, Perry. Renewals. New Left Review, 1, p. 18, Jan./Fev. 2000.

caminhada de teste em que Benjamin levou uma pasta com o último manuscrito, o que justificou dizendo: "Esta pasta é para mim o mais importante que existe. Não posso perdê-la; é necessário que o manuscrito se salve. É mais importante que eu mesmo". Arriscava a vida a fim de que o manuscrito se salvasse de cair em mãos da Gestapo. Conseguiu chegar a Port Bou mas, ali, encontrou uma ordem de Madri que proibia a entrada, na Espanha, de todo aquele que não dispusesse de um visto francês de saída - uma ordem que mais tarde foi abolida. Não sabemos exatamente o que aconteceu, más numa carta a Henry Gürland, de 25 de setembro, dissera: "Numa situação sem saída, não tenho outra escolha que pôr aqui um ponto final. Minha vida acabará num povoadinho dos Pirinéus onde ninguém me conhece". Parece que se suicidou. Lisa Fittko pensa que, exausto como estava, acreditou que não podia correr de novo o risco da fuga. Mesmo que, no registro de falecimento, tenha sido mencionada uma pasta com "uns papéis de conteúdo desconhecido", os papéis jamais foram encontrados:43 As "teses sobre a história", no entanto, salvaram-se e foram publicadas pela primeira vez em 1942, numa edição de escassa difusão e num momento em que haveriam de ^er um pouco menos incompreensíveis. E assim continuaram sendo durante muitos anos, por mais que tenham sido traduzidas para muitas línguas e tenham sido objeto de uma infinidade de comentários. Não é, no entanto, este o lugar em que cabe falar, nem das "teses" nem da obra inacabada "Passagens", porque continuam sendo ainda hoje, depois de sessenta anos de terem sido escritas,uma espécie de programa para o futuro. Será necessário integrar alguns de seus elementos entre as propostas finais deste livro.

43 O relato da vida de Benjamin nos últimos anos pode ser acompanhado em BRODERSEN, Momme. Walter Benjamin. A biography. London: Verso, 1996. p. 250-262 e, no que se refere aos últimos momentos, em FITTKO, Lisa. De Berlin a los Pirineos. Evocación de una militancia. Madrid: Anaya & Mario Muchnik, 1997. p. 258271 (citação literal da p. 261), PABLO, Moisés de. La memória de 1'oblidat: les darreres hores de Benjamin. Revista-de Girona, 195 (jul./ago. 1999), p. 26-33 (374-381) e La mort d'un filòsof: Benjamin a Portbou. Serra d'or, p. 23-27, Mars 2000. Às cartas dos últimos dias em ADORNO, Theodor W.; BENJAMIN, Walter. Correspondendo, 1928-1940. Madrid: Trotta, 1998. p. 323-325.

AS GUERRAS DA HISTÓRIA

No livro Por que as classes dominantes temem a história?,1 Harvey Kaye afirma que temem pelo fato de ela ser, em última instância, o relato da luta dos homens e das mulheres pela liberdade e pela justiça. Parece-me, no entanto, que se engana. As classes dominantes não temem a história - ao contrário, procuram produzir e difundir o tipo de história que lhes convém, ou seja, uma história que não sè dedica à luta pela liberdade e pela justiça - mas, em todo o caso, temem os historiadores que não podem utilizar. Os governos sempre se preocuparam em controlar a produção historiográfica, nomeando cronistas e historiadores oficiais - Napoleão controlava cuidadosamente até as representações pictóricas de suas batalhas ou estabelecendo academias, como a que Felipe V fundou na Espanha em 1738 e que, durante mais de duzentos e cinqüenta anos, pretendeu fixar a verdade histórica politicamente correta (com bastante ineficácia, certamente). Preocuparam-se, principalmente, em vigiar os conteúdos históricos transmitidos pelo ensino. Mas, como é lógico, a opções políticas diferentes corresponderam versões distintas da interpretação do passado,1 o que constantemente levou a autênticas "guerras da história", como aquelas ocorridas na França no século XIX em torno das diversas formas de interpretar a Revolução. Essas guerras, porém, tomaram nova força nos anos 1 KAYE, Harvey. Why do ruling classes fear history? and other questions. Houndmills: Macmillan, 1996,

trinta do século XX, quando do confronto do liberalismo com o comunismo e o fascismo e agravaram-se nos anos da gúerra fria. Os anos trinta foram, por exemplo, a época da queima de livros - e do exílio dos autores - na Alemanha nazista e da condenação dos historiadores que se afastavam do dogma estabelecido na Rússia stalinista. Na Espanha, onde a segunda república significou um parêntese de educação crítica, o levantamento militar de 1936 fez da contra-reforma da escola e da universidade um dos primeiros objetivos. Fuzilou, depurou e condenou os professores, impondo uma educação doutrinadora em que o pàpel fundamental correspondia justamente a uma visão conservadora e patriótica da história "nacional". Como diziam as instruções do Ministério da Educação Nacional de 5 de março de 1938: "Nossa lindíssima história, nossa tradição excelsa, projetadas no futuro, deverão formar a fina trama do ambiente escolar". Isso seria realizado numa escola estritamente vigiada, onde as crianças rezavam, faziam exercícios paramilitares e cantavam hinos patrióticos.2 Nas universidades, a Instituição Livre de Ensino foi condenada e historiadores como Bosch Gimpera ou Altamira exilaram-se, para não voltar jamais. O resultado seria o que Laín Entralgo qualificou, em suas memórias, como "o átroz desmonte que o exílio e a "depuração" criaram nos quadros universitários, científicos e literáriós". Era necessário vigiar a pesquisa e o ensino da história. José Maria Albareda, que foi secretário geral do CSIC até morrer, percebia claramente que não era interessante estudar temas muito 2 VARGAS, Bruno. Rodolfo Llopis (1895-1983). Una biografia política. Barcelona: Planeta, 1999. p. 44-63; FUENTES, Victor. La marcha alpueblo en las letras espanolas, 1917-1936. Madrid: Ediriones de la Torre, 1980, etc. Articulando esta etapa com a anterior, distingue-se BOYD, Carolyn P. Historia patria, Política, historia e identidad nacional en Espana, 1875-1975. Granada: Pomares, 2000 e "Madre Espana": livros de texto é de socialização política, 1900-1950. Historia y política, 1, p. 49-70, abr. 1999. Abordei estas questões na introdução de Ensefiar historia con una guerra civil por médio. Barcelona: Crítica, 1999. p. 7-24. Remeto ao tèxto para as indicações bibliográficas, acrescentando MAYORDOMO, Alejandro (Ed.). Estúdios sobre la política educativa durante el franquismo. Valência: Universität, 1999 e SÁEZ, Francisco Moreno. Educaciôn y cultura en el franquismo. In: FONSERET, Roque Moreno; CALERO, Francisco Sevillano (Ed.). El franquismo. Visiones y balances. Alicante: Universida4 de Alicante, 1999. p. 169-224.

recentes - "Para a pesquisa, a História medieval é mais história do que a moderna" - e que convinha, principalmente, vigiar os* catalães: "Continua sendo necessário fazer a história plenamente espanhola da Coroa de Aragão. E parece-me perigoso desenvolver os estudos em Barcelona".3 No terreno dos conteúdos, o franquismo reformaria a visão tradicional com novos matizes. Modificou a interpretação que situava, já na pré-história, uma "nação espanhola", identificada com Sagunto, com Numancia ou com figuras como Viriato ou Indíbil e Mandonio e que se baseava na idéia de que, no espaço peninsular, tinham vivido dois povos, os celtas e os iberos, que se haviam integrado "nacionalmente" aos celtiberos. Uma arqueologia impregnada de racismo nazista que menosprezava os iberos mediterrâneos, revalorizava os celtas "ários" - esquecendo-se definitivamente de possíveis mestiçagem celtibéricas - e que chegou a procurar, num vaso antigo, antecedentes da saudação fascista do braço erguido, qualificando-a de "racial" e afirmando que surgira na península, no primeiro século antes de Cristo e que, dali, se difundira ao resto da Europa.4 Não mudava, porém, a visão global de uma Espanha que, superando Sucessivas invasões, chegaria ao apogeu no século XVI, iniciando-se, depois, uma decadência de três séculos - Franco afirmava que, desde Felipe II, tudo fora mal, especialmente nos anos do funesto liberalismo. Com o novo império recomeçaria a ascensão franquista.5

3 RON, José Manuel Sánchez. Cincel, martillo y piedra. Historia de la ciência en Espana (siglos XIX y XX). Madrid: Taurus, 1999. p. 329-352. 4 ZAPATERO, Gonzalo Ruiz. La distorsión totalitaria: las raíces prehistóricas de la Espana franquista. In: HUERTAS, Rafael; ORTIZ, Carmen (Ed.). Ciência y fascismo. Aranjuez: Doce Calles, 1997. p. 147-159. No mesmo volume, há trabalhos interessantes sobre os elementos racistas na psiquiatria, na medicina social ou na antropologia no período franquista. Também, HERNANDO, Almudena. Los primeros agricultores de la Península Ibérica. Una historiografia crítica dei Neolítico. Madrid: Síntésis, 1999. p. 112-126. Sobre a saudação fascista "autóctone", JIMÉNEZ, Jòsé Luis Rodriguez. Historia de Falange Espanola de las JONS. Madrid: Alianza, 2000. p. 434. 5 Há um bom número de trabalhos interessantes sobre a historiografia franquista, começando pelos de Gonzalo Pasamar, como Historiografia e ideologia en la postguerra espanola. La ruptura de la tradición liberal. Zaragoza: Prensas Universitárias, 1991 ou Maestros y discípulos: algunas claves de la renovación de la histiografia espanola en los últimos cincuenta anos. In: RÚJULA, Pedro; PEIRÓ, Ignacio (Ed.).

A situação alterou-se formalmente com o desaparecimento do franquismo. O PSOE, quando no governo, contentou-se em difundir os valores do patriotismo com a pedagogia das comemorações - o "Quinto centenário" do "descobrimento" da América, o segundo, do despotismo ilustrado, etc. Entretanto, quando o Partido Popular subiu ao poder, passou "a tentar recuperar as mensagens do nacionalismo mais tradicional. Depois da ministra de Educação, Esperanza Aguirre, fracassar na cruzada de impor "a verdadeira história da Espanha" - isto é, a que ela acreditava "verdadeira" - , o governo lançou toda a artilharia da Academia de História para dar apoio a suas reivindicações de Uma interpretação ultranacionalista e ameaçou estabelecer censura sobre os livros de texto "autônomos". O próprio ministro do Interior, Major Oreja, que atacava o nacionalismo basco, chegou a envolver a Guarda Civil, de maneira equívoca mas não inocente, ao incentivá-la a "contribuir à história da Espanha para que os que não acreditam nela não voltem a deformá-la".6 Deixando de lado o caso espanhol, que tem uma cronologia própria, condicionada pela anômala sobrevivência do franquismo, na maior parte do mundo "ocidental" as guerras da história se agravaram notavelmente por ocasião da guerra fria. La historia local en la Espana Contemporânea. Barcelona: L'Avenç, 1999. p. 62-79. Há, também, os de alcance parcial, como o trabalho de José Maria Jover Zamora rebatizado como "El siglo XIX en la histografia espanola de la época de Franco (1939-1972). In: ZAMORA, José Maria Jover. Historiadores espanoles de nuestro siglo. Madrid: Real Academia de la Historia, 1999. p. 25-271 (a edição original é de 1976), ALBELDA, Eduardo Ferrer. La Espana cartaginesa. Sevilla: Universidad, 1996 ou os reunidos em ANDRÉS-GALLEGO, José (Ed.). Historia de la historiografia espanola. Madrid: Encuentro, 1999. Sobre os livros de texto, são de interesse especial os trábalhos de Rafael Valls, La interpretación de la historia de Espana y sus origenes ideológicos én el bachillerato franquista (1938-1953). Valência: ICE, 1983, La historiografia escolar espanola en la época contemporânea. In: FORCADELL, C.; PEIRÓ, I. La historia de la historiografia contemporânea en Espana. Zaragoza: [s.n.], 1999. Também OSÉS, José Antonio Alvarez et al. La guerra que aprendieron los espanoles. Madrid: Los libros de la catarata, 2000. 6 Sobre o projeto de reforma de Esperanza Aguirre e sua rejeição, ORRUNO, J. M. Ortiz de (Ed.). Historia y sistema educativo. Madrid: Marcial Pons, 1998; o discurso de Mayor em "La Vanguardia" 14 de maio de 1999, p. 20. Em junho de 2000, produziu-se o debate em torno do "Informe sobre os livros de texto e cursos de história nos centros de ensino médio" da Academia de História.

Conhecemos bem o caso dos Estados Unidos, onde o conflito no terreno do ensino de história já se manifestara nos anos trinta, quando os livros de texto de história americana que não fossem dados a patriotadas conservadoras eram denunciados, proibidos ou queimados.7 Como diziam as "Daughters of the Colonial Wars", era intolerável que se quisesse "dar à criança um ponto de vista objetivo, em vez de lhe ensinar o americanismo réal (...): "meu país, com ou sem razão". Esse é o ponto de vista que queremos que adotem nossos filhos. Não podemos permitir que se lhes ensine a serem objetivos e que eles próprios formem suas opiniões". No início dos anos quarenta, a National Association of Manufactures tinha 6.840 "sentinelas locais, dedicadas a manter a educação livre do perigo que representava a ascensão do coletivismo".8 Tudo isso perderia a importância diante do que aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial, quando estourou a/'guerra fria" e passou-se a exigir que se promovessem alternativas ao marxismo no "Ocidente", o que contribuiu, por reação, a consolidar a fossilização dogmática dos países do chamado "socialismo real". Nos Estados Unidos, os valores do relativismo qüe os historiadores progressistas, comq Beard e Becker, haviam defendido foram atacados furiosamente. Era necessário voltar ao mito "da objetividade" e transmitir a parte dos velhos valores morais que parecia adequada para os novos tempos. Nunca houve uma associação tão íntima entre os historiadores e o poder como a que se estabeleceu nestes anos. Historiadores acadêmicos de prestígio trabalharam para o governo - alguns em cargo? importantes como Schlesinger, Kennan ou Rostow - , pri7 A luta da América do Norte contra a educação progressista já se manifestara no "monkey trial" de 1925, quando Johnny Scopes, um professor do Tennessee que se atreveu a desafiar a proibição de ensinar o evolucionismo, foi processado em Dayton (LARSON, Edward J. Summer for the gods. The Scopes trial and America's continuing debate over science and religion. New York: Basic Books, 1997). A lei que proibia ensinar a evolução manteve-se em Tennessee até 1967 e ainda hoje, quando inclusive o Vaticano aceitou Darwin, existe um movimento que pretende que, nas universidades norte-americanas, se ensine em pé de igualdade, como duas doutrinas científicas igualmente válidas, o evolucionismo e o criacionismo. 8 NASH, Gary B.; CRABTREE, Charlotte; DUNN, Rose E. History on trial. Culture wars and the teaching of the past. New York: Alfred A. Knopf, 1997. p. 44-45.

meiro na OSS, depois na CIA, no Departamento de Estado ou em instituições controladas por estes. A liberação de documentos oficiais permitiu descobrir até que ponto a evolução das ciências sociais nos Estados Unidos, durante os anos da guerra fria, esteve condicionada ao financiamento concedido pelo departamento de Defesa, pela CIA e por algumas fundações conservadoras, de maneira que se pode esçrever que "ao contrário do que se pensa habitualmente, a ofensiva ideológica foi tão importante para a es tratégia da segurança nacional dos Estados Unidos, desde 1945, quanto a bomba atômica".9 Em centros de estudo financiados pelas instituições do governo^ como o CENIS do Massachusetts Institute of Technology, investigadores como Clifford Geertz trabalhavam ao lado de "falcões" como Walt Rostow -7 que dava também aulas sobre fundamentos de contra-insurgência na escola de guerra do exército norte-americano em Fort Bragg - 10 ou de ho,mens que foram qualificados como "terroristas profissionais", como Lucien Pye, inspirador do estúpido massacre que resultou na eliminação do regime neutralista de Sukarno na Indonésia, com um custo de centenas de milhares de vidas humanas. Nessa relação, é necessário incluir também liberais supostamente independentes como Isaiah Berlin, que colaborava com políticos como Bundy, Alsop e Bohlen, estimulando-Os a prosseguir a guerra do Vietnã e que recebeu, em compensação, quantidades importan9 SIMPSON, Christopher (Ed.). Universities and empire. The Cold war and theproduclion of knowledge. New York: The New Press, 1998. p. XVII. Sobre isto, destacase também CHOMSKY, Noam et al. The Cold war and the university: Towards an intellectual history of the postwar years.' New York: The New Press, 1997; SAUNDERS, Frances Stonor. Who paid the piper? The CIA and the cultural cold war. Loni ( don: Granta Books, 1999. 10 Rostow, como assessor dos presidentes Kennedy e, principalmente Johnson, foi diretamente responsável por milhares de mortes pelas errôneas previsões que influenciaram para a escalada na guerra do Vietnã (ANDREW, Christopher. For the president's eyes only. Secret intelligence and the American presidency from Washington tò Bush. London: Harper Collins, 1995. p. 337-340). Rostow deixou-nos as memórias políticas, adequadamente maquiadas, com o título de La difusión del poder, 1957-1972. Barcelona: Dopesa, 1973.

tes de dinheiro da Fundação Ford para o Wolfson College de Oxford, em que se encontrava envolvido pessoalmente." Aos historiadores cabia, agora, não apenas defender os valores sociais estabelecidos, função que tradicionalmente haviam realizado, mas também abrir a sociedade norte-americana ao novo papel de protagonista no cenário mundial que o país, tradicionalmente isolacionista, havia assumido. Introduziram, assim, cursos de "civilização ocidental" na universidade ou inventaram uma "revolução adântica" que relacionava entre si as histórias da América do Norte e da Europa ocidental (anunciando de certo modo a OTAN). Também tornava-se necessário impulsionar estudos sobre a Ásiá ou sobre a Rússia para atender às necessidades de informação do governo (será um historiador como Kennan que, baseando-se no conhecimento histórico, fixará as grandes linhas da política norte-americana em relação à URSS). O caso mais evidente da conexão entre história e política é possivelmente o dos sovietólogos ou kíemlinólogos, como eram chamados, um campo que teve crescimento espetacular depois do lançamento do primeiro satélite soviético, graças aosfinanciamentosdestinados à pesquisa da história russa, mas que se encontrava súbmetido a rígidos controles: o Centro de Investigação Russa da Universidade de Hatvard, por exemplo, tinha um convênio com o FBI obrigando que os autores que publicassem na revista Problemas do comunismo fossem investigados pessoalmente, por razões de segurança. A dupla função dos pesquisadores neste campo pode ser constatada em casos como o de Richard Pipes, professor emérito de história russa em Harvard, autor de obras gerais sobre a revolução russa e de publicações de documentos como The unknown 'Lettin que, associando a atividade de historiador com a de diretor de assuntos soviéticos e da Europa do Leste do National Security Council, foi um dos inspiradores da nova guerra fria de Reagan. Ao desaparecer a União Soviética, Pipes, aparentemente irritado por não ter mais um inimigo para combater, dedicou-se a substituí-lo pelo estado do bem-estar, manifestando o medo ante o fato de que "mesmo que o caráter sagrado da propriedade já

11 HITCHENS, Christopher. Moderation or death. London Review of Books, p. 3-11, 26 Nov. 1998.

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não esteja ameaçado pela hostilidade direta de comunistas e socialistas,^ pode ser minado pelo estado do bem-estar".12 ' O clima da guerra fria explica também a importância que, nos Esta, dos Unidos, alcançaram os cultores da chamada "sociologia histórica" que usavam modelos sociológicos esquemáticos para interpretar os fatos históricos, - o que não excluía que acompanhassem os posicionamentos teó- ' ricos simplistas com um trabalho de pesquisa factual de considerável importância - , e que dedicaram a maior parte de suas investigações a um tipo de estudo sobre o conflito social que se destinava claramente a ensinar como evitá-lo ou, ao menos, contê-lo. Explica-se, assim, que boa parte das obras que publicaram tivesse, como objeto central, a revolta e a revolução, como se pode constatar nos casos de Barrington Moore, jr. (The social origins ofdemocracy and dictatorship, 1967; Injustice: the social bases of obedience and revolt, 1978), de Charles Tilly (From mobilization to revolution, 1967; The contentious Frencfi, 1986; Las revoluciones europeas, 1993; Popular contention in Grèat Briiain, 1758-1834,1995, etc.) ou de Theda Skoepol (States and social, revolution, 1979; Social revolutions in the modem world, 1994), para apresentar alguns poucos exemplos representativos.13 Trabalho erudito de compilação de dados e generalização abusiva é o que se encontra na obra de Charles Tilly. Enquanto o livro As revoluções européias é uma visão geral que contém numerosos erros factuais, as obras de tema monográfico, como Popular contention in Great Britain, baseiamse num trabalho de equipe - realizado graças ao apoio de um financiamento considerável, como o equivalente a dezoito anos de auxílio da Na12 Alan Ryan,"Please fence me in" (resenhando o livro de Pipes Properityand freedom, New York: Knopf, 1999) em New York Review of Books, p. 68,23 Sept. 1 9 9 9 . 0 livro mencionado anteriormente era PIPES, Richard (Ed.). The unknowm Lenin. From the secret archive. New Haven: Yale University Press, 1996, onde Lenin, sem novas evidências satisfatórias, é acusado de ser um espião dos alemães. 13 CALHOUN, Craig. The rise and domestication of historical sociology. In: McDONALD, T. J. (Ed.). The historic tum in the human sciences. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1996. p. 305-337; PARKER, Noel. Revolutions and history. Cambridge: Polity Press, 1999. Sobre Charles Tilly, autor tão prolífico como influente, A. L. Stinchcombe, "Tilly on the past as a sequence of futures", em apêndice em TILLY, Charles. Roads from past to future. Lanham: Rowman & Littlefield, 1997. p. 387-409.

tíonal Science Foundation norte-americana. Tilly pretendeu analisar no trabalho as mobilizações de massas que ocorreram na Inglaterra de meados do século XVIII até 1834 - movimentos que já haviam sido objeto até de, interpretações bastante diversas em obras de autores como Rudé, Thompsón, Harrison, Stevenson, Clark, etc. - a fim de estabelecer as formas que assumiram, as relações com o contexto político e as interações percebidas. Em linhas gerais, Tilly constatou que, ao longo do tempo, diminuem as ações violentas e aumentam as reinvidicações coletivas dirigidas ao parlamento. Ao século XVIII, de ações "paroquiais, particulares e bifurcadas", segue-se o XIX^ em que predominam as "cosmopolitas, modulares e autônomas". Há uma nacionalização e uma parlamentarização da apresentação de reinvidicações, assim como um certo abandono da ação direta, que é substituída pela indireta e de mais longo prazo. Mas, depois de haver chegado a conclusões como essas, discutíveis mas não inúteis, Tilly não se abstém de fazer generalizações.totalmente infundadas sobre a diferença do papel desempenhado pelos militares. Na GrãBretanha, eles contribuíram para consolidar a democracia, enquanto que, nas penínsulas "Ibérica e dos Bálcãs", gloriosamente misturadas numa única análise, "os militares autônomos levantaram barreiras contra a democracia até o século XX". Além de ser falsa - houve militares "autônomos" a favor da democracia em todas as partes - a afirmação permitiu ignorar a importância que, em um e outro caso, teve a mediação da sociedade civil. Falemos também da ação repressiva. Se, no que se refere aos livros de texto, houve uma campanha de Cruzadas locais contra os livros "subversivos" - um informe encomendado pelas "Daughters of the American Reyolution" denunciou 170 livros por conter expressões consideradas pró-comunistas, como, por exemplo, a que afirma que a democracia é "a forma de governo em que o poder soberano éstá nas mãos do povo coletivamente" no ensino superior produziu-se uma depuração com "centenas de demissões", para a qual colaboraram muitos membros da profissão que, ao mesmo tempo, garantiram as próprias promoções. Temos, assim, casos como o de Daniel Boorstin, que se prestou a "entregar nomes" e conseguiu prospe14 NASH, Gary B.; CRABTREE, Charlotte; DUNN, Rose E. et al. History on trial. Culture wars an the teaching on the past. New York: Alfred A. Knopf, 1997. p. 69-70.

rar em sua carreira, como outros que se contrapõem, como o de Moses Finley, que não quis denunciar e teve de abandonar a universidade norte-americana e refazer a carreira na Inglaterra. Há também o caso paradoxal de Ernst H. Kantorowícz (1865-1993), um nazista que havia lutado nos "corpos livres" depois da Primeira Guerra Mundial, autor de uma grande biografiâ de Federico II que era um elogio ao caudilhismo e foi publicada exibindo uma suástica na capa. Kantorowicz deixou o magistério na Universidade de Franklurt em 1935, em virtude da oposição que os estudantes manifestavam a um professor judeu, mas continuou exigindo o salário e vivendo tranqüilamente em Berlim até o verão de 1938, quando aceitou um convite para ensinar em Oxford. Transferiu-se, depois, para a Universidade da Califórnia, onde negou-se, em 1950, a fazer o juramento de lealdade exigido aos professores norte-americanos, alegando que representava uma ameaça à liberdade acadêmica. Deixou, mais tarde, a Califórnia para passar ao Instituto de Estudos Avançados de Princeton, tendo ali publicado sua obra mais conhecida, Os dois corpos do rei (1957).15 O clima contribuiu para que fosse elaborada uma visão do passado dos Estados Unidos como uma "história de consenso", baseada "nas doutrinas do excepcionalismo norte-americano e do "destino manifesto" e no' mito da conquista triunfante do oeste", que "omitia qualquer menção sobre raça, escravidão, conquista dos povos nativos e restrições opressoras sobre muitos grupos marginalizados, incluindo as mulheres".16 Uma visão que se abstinha de criticar os "robber barons" criadores de riqueza e que comemorava o milagre que havia engendrado uma nação sem classes, a respeito da qual as formulções do marxismo eram totalmente irrelevantes. Por sua vez, a teoria da modernização afirmava que o milagre podia repe-

15 NOVICK, Peter. That noble dream. The "objectivity question" and the American historical profession. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. p. 325-330. Sobre Kantorowicz, de quern jâ se falou, BOUREAU, Alain. Histoires d'un historien. Kantorowicz. Paris: Gallimard, 1990 e CANTOR, Norman F. Inventing the Middle Ages. The lives, works, and ideas of the great medievalists of the twentieth century. New York: William Morrow and Co., 1991. p. 94 et seq. 16 LERNER, Gerda. Why history matters. New York: Oxford University Press, 1997. p. 202-203.

tir-se nos países subdesenvolvidos, desde que seguissem as mesmas fórmulas sociais e políticas. Voltava-se, áo mesmo tempo, à doutrina da objetividade, à rejeição da "ideologia" - isto é, das idéias dos outros - e da "cons trução" social".17 , Em 1949, o presidente da American Historical Association declarava.' "não nos podemos permitir não ser ortodoxos", exortando os historiadores norte-americanos a abandonarem a tradicional "pluralidade de objetivos e de valores" e a aceitarem "uma ampla ação de arregimentação", porque "uma guerra total, seja quente ou fria, mobiliza todo mundo e chama cada um a assumir sua parte. O historiador está tão obrigado a isto quanto o físico".18 A atuação política e propagandista norte:americana estender-se-ia também à Europa, principalmente por/meio da atuação do Congresso pela Liberdade da Cultura (CCF), instituição dirigida indiretamente pela CIA e dotada de recursos abundantes, procedentes em grande medida dó Plano Marshall - recursos que passavam geralmente por fundações, reais ou inventadas, para dissimular a origem - , que tinham, como patronos, personagens como Benedetto Croce tsubstituído, após sua morte, por Salvador de Madariaga), Jaspers, Maritain, etc. e que financiava publicações Como Preuves,na França (criadacomo um antídoto aLes temps modernesde Sartre), Encounter na Grã-Bretanha, sob a direção de Irving Kristol e Stephen Spender, Cadernos, dirigido por 'um personagem tão ambíguo como Julián 17 GENDZIER, Irene. Pay it again Sam: the practice and apology of development In: SIMPSON, Christopher (Ed.). Universities and, empire. The cold war, and the production ofKwowledge. New York: The New Press, 1^98. p. 57-95; SCHRECKER, E. Many are the crimes. McCarthysm in America. Boston: Little Brown, 1998. p. 407-408. Sobre estas questões, mais em geral, distingue-se Noam Chomsky et âl. The Cold war and the university y Radical History Review, n. 63 (1995). NOVICK, Peter. That noble dream. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. p. 372 - destaca a; frustração dos cultores desta espécie de história acadêmica ao ver os grandes êxitos de venda de livros de história obtidos por pessoas à margem do mundo acadêmico como W. L. Shirer, John Toland ou Barbara Tuchman (a autora de The guns ofAugust, o livro que Kennedy fez os membros de sua equipe lerem para evitar que se,repetissem os erros que os políticos cometeram no início da Primeira Guerra Mundial). 18 COHEN, Stephen F. Rethinking the soviet experience. Politics and history since 1917. New York: Oxford University Press, 1985. p. 13.

Gorkín, Tempo presente (criado na Itália contra Moravia), e outras publicações semelhantes na Austrália, índia e Japão, projetadas como plataformas para apoiar as "esquerdas alternativas" e fázer chegar a influência norteamericana a um grande número de intelectuais de diversos países.19 Também a alta cultura experimentou os efeitos dessa situação. Os pintores abandonaram o realismo comprometido da frente popular que quéria fazer a arte chegar às massas, em favor do expressionismo abstrato. Passaram a usar uma linguagem que só as minorias intelectuais avançadas entendiam. Hoje sabemos, além dissp, que a operação fez parte das batalhai culturais da CIA. Um homem como Nelson Rockfeller, presidente do MOMA de Nova York, defendia o expressionismo abstrato como a arte da livre empresa. Contavam, ainda, com uma figura carismática, Jackson Pollock que, nascido em Wyoming, podia passar por uma espécie de caubói que não tinha influências européias nem havia estudado em Harvard e que, como bom artista autenticamente americano, era chegado a uma bebida. Realizou-se uma campanha para divulgar esses pintores, conseguindo-se que os museus americanos, na maior parte dependentes do patrocínio privado, os comprassem e ajudassem a divulgá-los por todo o mundo, por meio d tória do século XX do colega de oficio, que também havia sido de partido em certo passado, seja bem recebida pelos meios "liberais" britânicos, obtendo índices de vendas muito superiores aos dos próprios livros.23 22 O tema é examinado com detalhe no livro de Nash, Crabtree e Dunn, History on trial, citado mais acima. Nash e Crabtree eram justamente os responsáveis dos National Standards for United States History e os National Standards for world history publicados em 1994. Para um estudo sobre o debate, que cita uma ampla bibliografia, ver TESTI, Arnaldo. II passato in pubblico: un dibattito sull'insegnamento delia storia nazionale negli Stati Uniti. Cromohs, 3, 1998, em Internet http://www.unifi.it/riviste/cromohs/3. O mito que sustenta que os "tenured radicals" dominam as universidades norte-americanas e impõem uma ideologia de esquerda já foi destacado, em 1987, por Allan Bloom em The closing of the American mind e o seria anos depois por Roger Kimball em Tenured radicals. How politics has corrupted our higher education. 23 Sobre o caso Abraham, NOVICK, Peter. That noble dream. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. p. 612-621. Uma mostra "póstuma" da campanha de Cantor - um medievalista de segunda linha, profundamente reacionário - contra Stone, pode-se ver na lamentável carta de denúncia policial enviada por este ao Times Literary Supplement e publicada em 6 de agosto de 1999 (p. 17), onde reduz os méritos de Stone a "seu poder no mundo acadêmico" e o acusa de haver reforçado a esquerda no terreno da história norte-americana, "um desenvolvimento que talvez

Na Grã-Bretanha, a guerra fria teve, como um de seu$ instrumentos, o IRD (Information Research Department, do Foreign Office). Dedicando-se à tarefa da propaganda anticomunista, contava com colaboradores da importância de George Orwell, que lhes ofereceu espontaneamente uma lista de 130 "criptocomunistas", tendo recebido, em troca, ajuda para divulgar internacionalmente Revolução dos bichos e 1984.24 Também os historiadores sofréram sua influência. Um dos críticos mais duros do regime soviético, Robert Conquest, a quem acabamos de nos referir, trabalhou para o Foreign Office a serviço do IRD, de 1946 a 1956, antes de fazer uma carreira acadêmica "respeitável" como "sovietólogo" e professor na universidade norte-americana de Stanford. Na relação das instituições oficiais, pode-se encontrar, ainda, Maurice Cranston, Hugh Seton-Watson, Brian Crozier, Leonard Shapiro ou instituições como a London School of Economics e o St. Anthon/s College de Oxford (especialmente o Departamento de estudos Soviéticos).25 O embate pelo controle da história estendeu-se mais tarde à escola quando o governo de Margaret Tatcher iniciou campanhas para que se adotasse um ensino mais atento aos "valores próprios da sociedade britânica", distanciados do multiculturalismo e das visões da "história dos de baixo", isto é, da história social. Com esse objetivo, organizou-se um grupo de trabalho - "History Working Group" - , destinado a elaborar um "curríçulo nacional" de história que pudesse satisfazer as exigências do governo conservador.26 A própria Thatcher explica-nos em suas memórias que, quando

nunca se poderá recuperar". A partir dá semana seguinte, começaram , a aparecer respostas de protesto que defendiam Stpne, vindas de historiadores do prestígio de Judit Herrin, John Keegan, Anthony Grafton, Charles C. Gillespie, "etc. (TLS, 13 agosto 1999, p. 17; 27 agosto, p. 19). CONQUEST, Robert. Reflections on a ravaged century. New York: Norton, 2000 (citações das p. XI, 50 e 147). • 24 LASHMAR, Paul; OLIVER, Jjtmes. Britain's secret propaganda war. Stroud (Gloucestershire): Sutton, 1998. p. 95 et seq. 25 LASHMAR, Paul; OLIVER, James. Britain's secret propaganda war. Stroud (Gloucestershire): Sutton, 1998. p. 122-123. , , 26 LEWIS, Terry C. The National Curriculum and history. Consensus or,prescription. In: BERGHAHN, Volker R.; SCHISSLER, Hanna (Ed.). Perceptions of history. International textbook research on Britain. Germany and the United States. Oxford: Berg, 1987. p. 128-140; PHILIPS, Robert. History teaching, nationhood and the State. A study in educational politics. London: Cassell, 1998; SAMUEL, Raphael. History, the

o grupo apresentou o relatório, em julho de 1989, se horrorizou, porque "enfatizava a interpretação e a indagação, em vez do conteúdo e do conhecimento". E, além disso, não dedicava suficiente atenção à história britânica! Quando chegou o relatório refeito, que atendia à reivindicação de mais história britânica, a primeira ministra continuou descontente porque não se dava muita atenção aos "fatos históricos". O que a senhora Thatcher considerava como "fatos históricos"? Ela própria o indica quando ataca o programa proposto pelo grupo porque "estava demasiado orientado a questões religiosas, sociais, culturais e estéticas, não prestando atenção suficiente aos acontecimentos políticos".27 Isto è, dedicava-se à sociedade ou à cultura, em lugar de limitar-se a explicar os feitos dos primeiros ministros, incluindo as guerras gloriosas, como a das Malvinas, considerada, por Tatcher, como o "fato" mais importante da história britânica do século XX. Nem todos os casos de "guerras da história",são tão claros como esses a que nos temos referido até agora. Em outros, o conflito se estabelece sobre um problema ou um acontecimento-chave do passado, cujas diversas interpretações identificâm-se com opções políticas contrárias. Seria o caso do debate da revolução francesa ou das discussões sobre a história da Alemanha nazista, os quais podem servir de exemplo sobre o modo como a política e a história se combinam e interagem. Os debates sobre a natureza da Revolução francesa que, como vimos, são tão velhos como a própria revolução, ganharam nova virulência, em torno de 1989, quando o segundo centenário da revolução coincidiu com a queda do regime soviético.28 Não se tratava, a.gora, do enfrentamento com a velha tradição reacionária, na linha de Pierre Gaxotte, representada nesse momento por ultras sem demasiado crédito como Pierre Chaunu ou por ve-

nation and the schools. In: . Island stories. Unravelling Britain. London: Verso, 1998. p. 197-229. (Theatres of memory, volume II), 27 THATCHER, Margaret Los anos deDowning Street. Madrid: El Pais/Aguilar, 1993. p. 509. 28 As duas melhores visões de conjunto do debate são KAPLAN, Steven Laurence. Farewell Revolution. The historians'feud. France, 1789/1989. Ithaca: Cornell University Press, 1995 e GARCIA, Patrick. Le bicentenaire de la Révolution française. Pratiques sociales d'une commemoration. Paris: CNRS Editions, 2000. Complementarmente, GILDEA, Robert. The past in French history. New Haven: Yale University Press, 1994.

lhos monárquicos marginais,29 mas de úma conseqüência direta da guerra fria - como disse o personagem singular que era Richard Cobb (1917-1996), "os acadêmicos norte-americanos subsidiados pela CIA estavam a serviço das forças de repressão para auxiliar a conhecer melhor os mecanismos das revoluções e a melhorar as técnicas de prevenção".30 Em termos gerais, o objetivo essencial era negar a revolução em si como fenômeno com conseqüências de transformação social - acusando os que defendiam interpretações "sociais" de atuarem por motivos políticos, como se os dos "revisionistas" não o fossem - e apresentá-la como a origem de todas as aberrações políticas do século XX, especialmente da revolução soviética e do triunfo do bolchevismo. Não é èm vão, como disse Arno Mayer, que participavam, nessa operação, "os renegados ex-comunistas que, na média européia, tinham um peso desproporcional na "intelligentsia" parisiense".31 29 Sobre Chaunu, veja-se o capítulo que Kaplan lhe dedica, Farewell Révolution, p. 2549. Como exemplo de velhos historiadores monárquicos, Paul e Pierrette Girault de Coursac, desconhecidos depois de quarenta e oito anos de trabalho e uma vintena de livros dedicados ao estudo de Luís XVI e de Maria Antonieta. Destaca-se, deles, Histoire, historiens et mémorialistes. Paris: F. X. de Guibert, 1997. 30 COBB, Richard. The French and their révolution. Selected writings edited and intro- , duced by David Gilmour. London: John Murray, 1998. p. 27 (trata-se de um fragmento de A second identity). Cobb escreveu, durante toda a vida, uma história que dava atenção especial aos indivíduos, querendo nos mostrar o impacto da revolução sobre personagens marginais, o que o afastava tanto das interpretações "sociais" como da dos revisionistas. 31 Uma visão global do problema da negação do conteúdo transformador dos fenômenos revolucionários em BENIGNO, Francesco. Espejosde la revolución. Barcelona: Crítica, 2000. A observação de Arno J. Mayer em The furies. Violence and terror in the French and. Russian révolutions. Princeton: Princeton University Press, 2000. p. XIX. Um exemplo desta obnubilação, temos em François Crouzet, autor de prestigiadas obras no campo da história econômica - como, para citar um exemplo recente, De la supériorité de l'Angleterre sur la France. Paris: Perrim, 1999 - que atacou violentamente os historiadores de esquerda da Revolução, chegando até a grosseria no caso de Vovelle (Veja-se Michel Vovelle, "Comptes Rendus" de Annales historiques de la Révolution Française, n. 282, p. 506-507, oct./déc. 1990), e que se iconsola dizendo: "Felizmente sua visão foi destruída pelo colapso do comunismo e da União Soviética" (!). CROUZET,'François. French historians and Robespierre. In: HAYDON, Colin; DOYLE, William (Ed.). Robespierre. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. p. 255-283 (citação da p. 282).

O início do novo revisionismo é associado geralmente a Alfred Cobban (1901-1968) que, em 1964, denunciou o "mito da revolução francesa", negando-lhe transcendência e, principalmente, caráter "social". Uma tese que desenvolveria em 1964 no livro The social interpretation of the French reyolution, onde defendia a inexistência, na França revolucionária de 1789, de algo que se pudesse chamar de "feudalismo" por um lado e de burguesia revolucionária, por outro.32 Embora Cobban não tenha pesquisado sobre os temas, não tendo uma visão alternativa para oferecer, suas formulações chegaram num momento politicamente oportuno e seu estímulo foi rapidamente recebido na França por certos historiadores ex-comunistas que necessitavam ter o passado perdoado através de mostras eloqüentes de conversão e, especialmente, por François Furet (1927-1997), filho de um banqueiro que passou fugazmente pelo Partido Comunista e que, depois da costumeira abjuração, coméçou uma rápida ascensão ao poder acadêmico e midiático, em companhia de uma equipe qualificada por alguns de "banda" e por outros de "galáxia" e que conseguiu uma contribuição financeira substancial de fundações norte-americanas de direita e um contrato de trabalho na Universidade de Chicago. Pela ampla audiência nos meios de comunicação franceses, conseguiu ser apresentado ao público como a grande autoridade renovadora da história da revolução Francesa,33 mesmo quando sua pesquisa nesse terreno fosse praticamente nula e, como a maior parte de sua obra de caráter ensaísta e de síntese, com uma preocupação maior pela 32 ÇOBBAN, Alfred. The social interpretation of the French revolution (segunda edição (!)). Com introdução de Gwynne Lewis. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. Não é uma "segunda edição" como se diz, mas uma simples reprodução facsímile da primeira, com uma introdução que faz uma peculiar história do revisionismo e do pós-revisionismo. Uma crítica dos erros de Cobbàn no livro de SHAPIRO, Gilbert; MARKOFF, John. Revolutionary demands. Stanford: Stanford University Press, 1998. p. 256-265. 33 Suratteau, falando do "primeiro" Furet dirá que "n'était pás encore alors l'historien n. 1 de Révolution Française, que dis-je!, le "seul" historien de celle-ci sélon Saintes-Medias et ses coadjutrices Sainte-Radio et Sainte.-Telé. BOZEC, Christine Le; WAUTERS, Eric (Ed.). Pour la Révolution française. En hommage à Claude Mazauric. Rouen: Université de Rouen, 1998. p. 551.

As guerras da história

historiografia do que pela própria história. Era mais fácil destacar-se neste terreno, do que se tivesse que combater no da erudição que não dominava: uma situação que o levou, de forma muito lógica, à rejeição, a um repúdio global da ''história universitária" francesa.34 Furet começou distinguindo entre duas revoluções, a boa, liberal e reformista de 1789, e a má, filha do Terror de 1792-1794, antecedente do comunismo russo. O cúmulo da sem-vergonhice chegaria com o Dictionnaire critique de la Révolution française (1988), dirigido por Furet em colaboração com uma especialista de terceira linha como Mona Ozouf, no qual os membros da banda permitiram-se, por exemplo, excluir um nome como o de Albert Soboul, cuja obra de pesquisador no terreno específico da história revolucionária é superior às do diretor, sua cúmplice e do bando inteiro juntos.'5 34 A obra de Furet inicia-se com a síntese escrita em colaboração com Denis Richet - La Révolution française (1965-1966), onde inventou a derrapagem (dérapage) da revolução, continua com ensaios como Penser la Révolution française (1978) e sínteses como La Révolution 1770-1880 (1990), acabando com a compilação póstuma La Révolution en débat (1999). Por mais que o livro mais conhecido internacional. mente seja talvez Le passé d'une illusion. Essai sur l'idée comuniste au XXe siècle (1995). No que se refere a Un Itinéraire intellectuel. Paris: Calmann-Lévy, 1999, não é mais que uma compilação de artigos jornalísticos. O jogo dos furetianos, inclusive noS casos em que tenham realizado trabalho de pesquisa, é quase sempre o de praticar ataques políticos e a desqualificação dos contendores no terreno do ensaio. Um exemplo recente disto é GUENITTEY, Patrice. La politique de la terreur. Essai sur la violence révolutionnaire, 1789-1794. Paris: Fayard, 2000. 35 Dictionnaire critique de la Révolution française. Paris: Flammarion, 1988. Sobre isto, veja-se KAPLAN, Steven Laurence. Farewell Révolutions.. 'Ithaca: Cornell University Press, 1995. p. 50-79 e passim (de fato, a maior parte do livro explica e analisa Furet, em contraposição à Vovelle) e BÉTOURNÉ, Olivier; HARTIG, Aglaia I. Penser l'histoire de ta Révolution. Deux siècles de passion française. Paris: La Découverte, 1989. p. 184-201. Uma bibliografia completa d'Albert Soboul pode ser encontrada na reedição de La révolution française. Paris: Gallimard, 1996. p. 17-41. Para entendera diferença entre uns e outros, basta comparar o Dictionnaire critique com o Dictionnaire historique de la Révolution française que havia sido preparado sob a direção de Albert Soboul (Paris: Presses Universitaires dé France, 1989). Seguindo a moda revisionista, na Espanha traduziram o Dictionnaire critique (Diccionario de, la Revolución francesa. Madrid: Alianza, 1989) e outro de Tulard que era uma pura montagem oportunista, enquanto que o de Soboul, em que colaboraram especialistas na investigação da Revolução, foi ignorado. No que diz respeito à obra de Mona Ozouf, sua colaboração mais conhecida é La fite révolutionnaire, 1789-1799 (Paris: Gallimard, 1976).

No mundo acadêmico anglo-saxão, por sua vez, o ataque à interpretação social da revolução, casos específicos como o da narrativa do Citizens de Simon Schama - que pretende encontrar inspirações em Cobb, mas está muito longe do nível e da independência ideológica deste - vieram principalmente através dos estudos culturais e do discurso, com contribuições como as de Lynn Hunt e Keith Baker. Mas, quando se começa dizendo que o essencial para compreender a gênese da revolução francesa é averiguar "o espaço conceituai em que foi inventada", não é de estranhar que se aponte um trabalho sobre os impostos como causa de mal-estar público, surpreendentemente publicado numa revista de prestígio acadêmico, acabe dizendo que o estudo do "processo pelo qual a fiscalidade foi politizada e investida de um sentido revolucionário" interessa principalmente porque "tem importantes implicações para a compreensão de Tocqueville e de Habermas". Isso explica a preocupação de Colin Jones ao comprovar que Hunt, Baker e o próprio Furet estavam reduzindo a Revolução " a um acontecimento lingüístico" mais do que a um "fato social e econômico".36 Tudo isso para combater a denominada interpretação jacobinomarxista,\jsupostajnente dogmática e inflexível que não existe na realidade, porque a pesquisa feita no terreno do estudo da trama social da Revolução - uma pesquisa que geralmente não é mencionada nesses debates que raras vezes vão além do meramente historiográfico - realizou grandes avanços nas últimas décadas, não tendo muito a ver com a vulgata que os "revisionistas" têm combatido com a comodidade e com o êxito com que habitualmente se combatem os inimigos fantasmas, inventados intencionalmente. 36 BAKER, Keith M. Inventing the French revolution. Essays on French political culture in the eighteenth century. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. p. 4, e KWASS, Michael. A Kingdom of taxpayers: State formation privilege, and political culture' in eighteenth-century France. Journal of modem history, 70, p. 295-339, June 1998.'JONES, Colin. The return of the bannished bourgeoisie. Times literary supplement, p. 7,29 Mars 1991. Para uma visão de conjunto do "revisionismo" norte-americano: BAKER, Keith Michael; ZIZEK, Joseph. The American historiography of the French Revolution. In: MOLHO, A.; WOOD, G. S. (Ed.). Imagined histories. American historians intepret the past. Princeton: Princeton University Press, 1998. p. 349-392.

Enquanto os revisionistas dedicavam-se a essa tarefa, com resultados tão estéreis que àcabaram levando rapidamente a um "pós-revisionismo" a "história universitária" mostrava a complexidade de matizes dos enfrentamentos no seio da sociedade camponesa, seguindo em grande medida os caminhos abertos pelo grande livro de Pierre de Saint Jacob que, com a visão de um campo onde, em meados do século XVIII, havia "enriquecimento de uns e empobrecimento de outros, diminuição da classe média", voltava a nos aproximar de Labrousse. Acompanhado por interpretações renovadoras, como as de Hoffman e Moriceau, que inserem a crise do século XVIII na longa duração, como os estudos de Kaplan sobre o abastecimento de Paris, os de Markov sobre os "cahiers de doléances" onde o feudalismo exorcizado por Cobban reaparece com considerável força - , ou os de Anatoli Ado - um historiador russo que teve que combater a velha visão "ortodoxa" do "balanço agrário da revolução" - , de McPhee e de tantos outros sobre a revolta rural e sobre a continuidade das lutas dos camponeses ao longo do século XIX.37 No que diz respeito à burguesia cofno classe atuante na sociedade francesa durante a época da Revolução, por outro lado, não se trata de uma invenção dos "jacobinos-marxistas", já que a própria definição da classe surgiu do léxico dos trabalhadores franceses antes da revolu37 SAINT JACOB, Pierre de. Les paysans de la Bourgogne du Nord au dernier siècle de l'Ancien Régime. Ed. original. Paris: Société Les Belles Lettrés, 1960; reedição, Rennes: Association d'histoire des sociétés rurales, 1995; HOFFMAN, Philip T. Growth in a traditional society. The French countryside, 1450-1815. Princeton: Princeton University Press, 1996; MORIÇEAU,-Jean-Marc. Les fermiers de l'île-de-France. L'ascension d'un patronat agricole, XV'-XVIII' siècle. Paris: Fayard, 1994; MARKOFF, John. The abolition offeudalism: Peasants, lords and legislators in the French revolution. University Park: Pennsylvania State University Press, 1996; SHAPIRO, Gilbert; MARKOFF, John. Revolutionary demands. Stanford: Stanford University Press, 1996; KAPLAN, Steven L. Provisioning Paris. Merchant and millers in the grain and flour trade during the eighteenth century. Ithaca: Cornell University Press, 1984 e The bakers of Paris and the bread question, 1700-1775. Durham: Duke University Press, 1996; ADO, Anatoli. Paysans et révolution. Terre, pouvoir et jacquerie 1789-1794. Paris: Société des Etudes Robespierristes, 1996; McPHEE, Peter; Revolution and environment in Southern France. Peasants, lords and murder in the Corbières 1780-1830. Oxford: Clarendon Press, 1999, etc.

ção: o Dicionário da Academia Francesa explicava, em sua edição de 1788, que "os operários, falando daqueles para quem trabalham, costumam dizer o burguês, seja qual for a qualidade das pessoas que lhes dêem trabalho".38 A transformação do burguês num revolucionário que lutou pela liberdade de todo "o terceiro estado" é, por sua vez, uma invenção burguesa, desenvolvida pelos historiadores da Restauração e, especialmente, por Guizot. O mito de uma suposta burguesia revolucionária já fora denunciado pòr Walter Benjamin: "A ilusão, segundo a qual a tarefa da revolução proletária seria a de acabar a obra de 1789 em estreita colaboração com a burguesia (...), dominou a época que vai de 1831 a 1871, da insurreição de Lyon à Comuna. A burguesia não compartilhou nunca deste erro. Sua luta contra os direitos sociais começa desde a revolução de 89 e coincide com o movimento filantrópico que a oculta (...). Ao lado da posição encoberta de filantropia, a burguesia assumiu sempre a posição franca da luta de classes. Desde 1831, reconhece no Journal des débats: 'Todo manufatureiro vive na manufatura como o proprietário entre os escravos'". A pesquisa específica sobre grupos burgueses concretos oferecenos a imagem de homens que, sentindo-se asfixiados pelo marco social e institucional do antigo regime, se alinharam inicialmente com a revolução, mas que, uma vez conseguidas as mínimas liberdades reivindicadas, se apressaram em pedir ao estado o controle social que os defendesse dos trabalhadores. É claro que as mudanças que promoveram eram de natureza econômica - se entendemos que também o é um objetivo tão essencial da burguesia como a consolidação da propriedade - , mas elas foram acompanhadas por mudanças políticas que foram garantidas depois da Restauração, da mesma forma que as econômicas, convertendo os burgueses na força social dominante, inclusive numericamente, alcançada dentro da cidadania "censitária" que podia eleger e ser eleita, já que, como Pierre Leveque nos recorda, "a burguesia tem em seu favor o número: re38 Estas informações procedem do artigo "bourgeoisie" de Guy Antonetti em TULARD, Jean (Ed.) Dictionnaire Napoléon. Paris: Fayard, 1987. p. 279.

presenta, com a inclusão dos camponeses mais prósperos, mais de 90% do corpo eleitoral censitário".39 O que não quer dizer que os camponeses, atuando com uma dinâmica própria - tudo o que obtiveram da revolução francesa, primeiro, e das revoluções liberais em todo o mundo, mais tarde, foi lutando e pactuando com a burguesia dominante - não tenham conseguido conquistas substanciais, a ponto de Markov ter dito que "a emancipação do campo dó domínio dos senhores na primeira metade do século XIX - não somente na França mas, de maneira geral, no oeste e no centro da Europa - teria sido menos provável sem a meia década de levantamentos rurais incontroláveis da França". E que se tenha verificado que o conjunto da população francesa beneficiou-se com a Revolução, a ponto de que "em duas décadas, a esperança de vida do francês médio, a partir do nascimento, aumentara em um terço, de menos de trinta a quase quarenta anos".40 Passados os momentos agudos do combate político do bicentenário, que coincidiram com os episódios finais da guerra fria, não há muito de positivo a recolher do legado de um revisionismo que não soube construir uma nova interpretação no lugar da que queria destruir e, assim, a história pósí-revisionista volta a pesquisar a sociedade francesa e a identificar as mudanças que, nela, se produziram alongo prazo.41 39 BENJAMIN, Walter. Paris, capital du XIXe siècle. Le livre des passages. Paris: Cerf, 1989. p. 45; HIRSCH, Jean-Pierre. Les deux rêves du commerce. Enterprise et institution dans la région lilloise (1780-1860). Paris: Éditions de l'École des Hautes Études em Sciences Sociales, 1991; BOSSENGA, Gail. The politics of privilege. Old regime and revolutionin Lille. Cambridge: Cambridge University Press, 1991; BECK, Thomas D.; BECK, Martha W. French notables. Reflections of industrialization and regionalism. New York: Peter Lang, 1987; LEVEQUE, Pierre. Une société provinciale: la Bourgogne sous la monarchie de Juillet. Paris: EDHEESS, 1983 (citação da p. 263) EDMONDS, W. D. Jacobinism and the revolt of Lyon, 1789-1793. Oxford: Clarendon Press, 1990, e|tc. 40 MARKOFF, J. The abolition of feudalism. University Park: Pennsylvania State University Press, 1996. p. 594; ANDRESS, David. French society in Revolution, 17891799. Manchester: Manchester University Press, 1999. p. 163. 41 O tom dos debates político-históricos - mais "políticos" que "históricos" - franceses em torno da comemoração pode ver-se no volume coletivo 1789. La commemoration. Paris: Gallimard, 1999.

Uma guerra da história diferente, mas igualmente significativa, é a produzida na Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial quando, com o país dividido e tendo de fazer frente ao peso dos crimes do nazismo, os sobreviventes sentiram a necessidade de redefinir a própria identidade histórica, não podendo fazê-lo sem encontrar alguma forma de explicar o nazismo e o extermínio dos judeus. Ao leste, na República Democrática Alemã, a aplicação mecânica do dogmatismo stalinista parecia resolver o problema. De retorno ao país, os líderes comunistas alemães que haviam vivido como refugiados na URSS consideravam prioritária a divulgação da interpretação histórica do nazismo elaborada pela Terceira Internacional, que o considerava como uma forma de capitalismo monopolista de estado - daí a denominação de história "Stamokap" dada a esta escola - de modo que foram feitas três grandes edições (com um total de 690.000 exemplares) do livro que Walter Ulbricht publicou com o título de A legenda do socialismo alemão, alterado agora para O imperialismo alemão fascista. A interpretação, na medida em que transladava o problema a um âmbito planetário - , convertendo-o na luta entre dois sistemas sociais, o socialismo e o capitalismo - tinha a virtude de eliminar Hitler e o partido nazista como questão "alemã". O problema, diziam os membros da escola Stamokap, vinha de mais longe; a ascensão nazista não representara uma ruptura radical com o passado porque não se produzira mudança alguma na base sócio-econômica no trânsito da república de Weimar à ditadura hitleriana: Hitler era pouco mais do que um fantoche do grande capitalismo alemão e os culpados dos crimes do nazismo eram "trezentos fabricantes de arma§ e dirigentes de bancos alemães". O tema dos judeus, por outro lado, passava a ser secundário numa visão global em que as vítimas principais do nazismo eram os comunistas e a classe trabalhadora. Isso não exclui que as medidas políticas introduzidas na Alemanha do leste - reforma agrária, desapropriações de indústrias e empresas financeiras - , combinadas com a destituição dos que ocupavam cargos na administração pública, significassem que tivesse ocorrido, ali, um processo de desnazificação muito superior ao que ocorreu na Alemanha do oeste. Deve-se levar em conta que os dirigentes comunistas que

voltavam do exílio eram antinazistas experimentados, que tinham sido perseguidos pelo hitlerismo.42 Nas zonas ocidentais, que mais tarde constituiriam a República Federal da Alemanha, começou-se a identificar o nazismo como culpado específico e a exclusão de qualquer tentativa de acusar o capitalismo, o que ajuda a explicar que as sanções aos industriais que haviam colaborado com o regime fossem leves, como convinha à estratégia da guerra fria, que necessitava recuperar o potencial industrial alemão. O problema que os aliados ocidentais tiveram de enfrentar foi que, em 1945, havia oito milhões de alemães filiados ao partido nazista e que, na "guerra fria" que se iniciava, não seria desejável considerá-los como inimigos. Devido a isso, o castigo limítar-se-ia a poucos líderes, escolhidos para dar exemplo. Sendo assim, o processo de desnazificação mais buscou reabilitar e integrar os nazistas, branqueando seu passado, do que castigá-los. Nesse cenário, os crimes hitleristas, especialmente o extermínio dos judeus, eram vistos como responsabilidade direta de dirigentes criminosos que deveriam ser castigados e não do povo alemão.43 Entre os historiadores da República Federal, predominantemente conservadores e nacionalistas,44 o nazismo não era considerado como "fascismo", senão como um regime de "ditadura totalitária", semelhante ao comunismo. Essa visão permitia "desculpar" o povo alemão, ao reduzir os responsáveis a Hitler e a um pequeno grupo de dirigentes fanáticos que

42 FULBROOK, Mary. German national identity after the holocaust. Oxford: Polity, 1999; DORPALEN, Andreas. German history in marxist perspective. The East German approach. London:J. B. Tauris, 1985. p. 393 et seq.; HERF, Jeffrey. Divided memory. The nazi past in the two Germartys. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1997, passim. 43 FULBROOK, Mary. German national identity after the holocaust. Oxford: Polity, 1999. p. 61 et seq., dá exemplos clamorosos de antigos nazistas que ocupavam lufares de responsabilidade na República Federal da Alemanha: colaboradores de Adenauer, como Hans Globke, Biflinger e Oberlànder, que haviam tido certa participação na perseguição racial. Markus Wolf mostra que o serviço secreto hitleriano converteu-se no da Alemanha ocidental, com o general Rainhard Gehlen à firente (L'home sense cara. Baícelona: Quaderns Crema, 1999. p. 102-104). 44 A princípio não houve muitas mudanças: a maior parte dos" historiadores profissionais da época hitleriana conservaram os lugares de trabalho, e foram muito poucos os exilados que voltaram às universidades alemãs (FULBROOK, Mary. German national identity after the holocaust. Oxford: Polity, 1999. p. 112-113).

havia enganado e manipulado as massas. Procurava-se eliminar o tema do "holocausto" do relato histórico e se mitificavam, em contrapartida, as dçbeis resistências ao nazismo, e muito em especial o complô contra Hitler de julho de 1944 - que tinha, ainda, a vantagem de contar com junkers prussianos conservadores e nacionalistas entre seus heróicos protagonistas - a fim de configurar a imagèm de uma suposta "outra Alemanha". Nos anos sessenta, no entanto, a situação acadêmica mudou, em parte por obra das pressões dos movimentos estudantis, e apareceu um grupo de historiadores mais aberto e mais interessado na história social, como Hans-Ulrich Wehler (nascido em 1931) e Jürgen Kocka (nascido em 1941), membros da chamada "escola de Bielefeld", que defendiam um novo tipo de história que devia empregar os métodos e as teorias das ciências sociais - a chamada "Historische Sozialwissenschaft" - e que desenvolveram a teoria de Sonderweg, do peculiar "caminho" alemão em direção à modernidade, que Wehler articulava com a aliança entre burguesia e aristocracia na época imperial que dificultara a modernização política. A questão do holocausto, que durante muitos anos se manteve em um discreto silêncio, seria discutida agora abertamente em duas versões diferentes, a dos "intencionalistas" e a dos "funcionalistas" que coincidiam em responsabilizar os dirigentes nazistas, mas diferiam pelo fato de os primeiros pensarem que o extermínio correspondia a um projeto prévio hitlerista de uma Europa limpa de judeus, que havia sido um ponto central de sua visão política desde antes da tomada do poder, enquanto que para os "funcionalistas" ou "estruturalistas", ao contrário, não havia um plano prévio, senão que tudo se reduziu a uma solução burocrática que se pôs em prática ante o problema que representava o excesso de prisioneiros com que se encontraram os alemães como conseqüência da invasão da União Soviética. Os responsáveis do holocausto eram simples burocratas como Himmler e Eichmann.45

45 Tanto a política de eutanásia a respeito dos débeis mentais como a ordem de extermínio dos reclusos nas prisões do estado surgiram diretamente de Hitler e tinham uma justificativa racial (BURLEIGH, M.; WIPPERMANN, W. The-racial state. Germany 1933-1945. Cambridge: Cambridge University Press, 1991; FRIEDLANDER, Henry. The origins of nazi genocide. From euthanasia to the final solution. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1995; WACHSMANN, Nikolaus. "Annihilation through labor": The killing of state prisoners in the Thrid Reich. Journal of

Mas se este enfoque limitava o número dos culpados, a "disputa dos historiadores" ou "Historikerstreit" de 1986-1987 foi um passo mais além, tratando de re-qualificar a própria culpabilidade dos dirigentes. No início do dèbate estão em grande medida os livros de Ernst Noite, que não era um historiador profissional mas que havia obtido um êxito internacional com As três caras do fascismo e A crise do sistema liberal e os movimentos fascistas.46 Noite é um excêntrico de direita, um homem isolado que chegou a dar aulas como professor visitante na Universidade de Jerusalém, antes de' fazer sua grande mudança. Em 1973, na Alemanha e a guerra fria, já começava a dizer que o regime nazista era até 1939, comparado com o stalinismo, "um idílio liberal", e acrescentava que o que os norte-americanos haviam feito no Vietnã era pior que Auschwitz, e que os sionistas de Israel eram tão racistas como os nazistas. Em 1983 publicou um terceiro livro ele fala dos três como de uma trilogia - O marxismo e a revolução industrial41 em que o tema do extermínio se apresentava à luz de uma suposta doutrina marxista de "aniquilação de classes", sua maneira pessoal de interpretar a idéia de luta de classes, que lhe permitia sustentar que o holocausto não era mais que uma resposta ao marxismo e à revolução, soviética. O grande debate, no entanto, não surgiu dos livros de Noite, senão que começou em conseqüência de um artigo seu publicado na imprensa em junho de 1986, "O passado que não quer passar", em que Noite sustentava que já era preciso deixar de pintar a história do Terceiro Reich sem mati-

Modern History, 71, p. 624-659, Sepfe 1999; BROWNING, Christopher R. Nazi policy, Jewish workers, German killers. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. Sobre o atraso em tomar consciência do holocausto, NOVICK, Peter. The holocaust and collective memory. London: Bloomsbury, 2000. Por certo, que os mesmos implicados como responsáveis do holocausto são, como era de esperar, "funcionalistas", como pode ver-se nos estabelecimentos desculpatórios de Eichmann ao ser interrogado pelos israelenses, onde afirma que nem sequer era anti-semita: LANG, Jochen Von; SIBYLL, Claus (Ed.). Eichmann interrogated. Transcripts from the Archives of the Israeli police. New York: Da Capo, 1999. 4 6 ' Existe tradução espanhola com os títulos, respectivamente, de El fascismo en su época. Barcelona: Península, 1967 e La crisis del sistema liberal y los movimientos fascistas. Barcelona: Península, 1971. 47 Marxismus und industrielle Revolution. Stuttgart: Klett-Cotta, 1983.

zes, tudo em branco ou preto. O que impedia que o passado passasse era o tema da "solução final", que provocava uma interminável discussão sobre o nazismo. Chegara o momento de revisá-lo e de acabar com a submissão com que os alemães aceitavam as culpas. Hitler não havia feito mais que seguir o exemplo do comunismo soviético e o extermínio dos judeus não havia sido mais que uma medida preventiva para poupar os alemães do genocídio de classe com que os ameaçavam os bolcheviques, e que tinha como principais protagonistas os judeus, ou ao menos isto era o que pensavam os nazistas, que haviam atuado contra eles em função deste temor. De fato os próprios judeus, ao se colocarem ao lado dos aliados na guerra, justificavam que fossem presos. E a longo prazo haViam sido eles os vencedores do enfrentamento, ao conseguirem divulgar a imagem negativa da maldade dos alemães. Noite teve certo apoio de um historiador acadêmico como Hildebrand e de Joachim Fest, um biógrafo de Hitler, mas as teses foram recebidas sem muito interesse pela maior parte dos historiadores alemães, e com hostilidade geral no estrangeiro.48 A réplica, com a qual se iniciou propriamente o debate, foi oferecida por um ártigo de Jürgen Habermas, publicado em Die Zeit em 11 de julho de 1986, que denunciava "as tendências apologéticas" de Noite, de Andreas Hillgruber (que pedira simpatia para os soldados alemães que haviam combatido contra o bolchevismo), de Joachim Fest e de Michael Stürmer, conselheiro do Primeiro Ministro Kohl, que estava propúgnando a que se voltasse a uma visão patriótica da Alemanha: eram os que Elie Wiesel denominaria "o bando dos quatro".49 48 No posfácio a NOLTE, Ernst. Intervista sulla questione tedesca. A cura di Alberto Krali. Roma: Laterza, 1993, Krali indica que Noite foi fortemente atacado na Alemanha, que não recebe muita atenção nem nos Estados Unidos nem na França - é verdade que não é mencionado nas recentes "enciclopédias" de historiadores e que só na Itália parece ter um público, como o tinha Renzo di Felice, um historiador italiano "revisionista" a respeito do fascismo mussoliniano. 49 LOW, Alfred D. The Third Reich and the holocaust in German historiography. Towards the "Historikerstreit" of the mid-1980s. Boulder: East European Monographs, / 1994; a versão de Noite em Reflexiones finales sobre la denominada querella historiográfica. In: DespuéS del comunismo. Barcelona: Ariel, 1995. p. 183-216.

O debate tinha um fundo claramente político, de enfrentamento entre posições conservadoras e social-democratas, e, gerando muita literatura, não fez avançar um mínimo o conhecimento histórico real. O que revelava era a esquizofrenia de um país que estava progredindo economicamente mas que se mostrava incapaz de assumir o passado. Se os argumentos de Noite e dos revisionistas já eram inadmissíveis nos anos em que se publicaram, tornaram-se cada vez mais assim, à medida que novas pesquisas permitem-nos conhecer melhor a conduta do exército alemão na Segunda Guerra Mundial. O estudo da forma em que se preparou e se produziu a invasão da Rússia por Hitler demonstrou que não tinha justificação defensiva alguma: Stalin não tinha nenhuma intenção de atacar a Alemanha, nem a curto nem a longo prazo, e Hitler o sabia. O argumento da "guerra preventiva" não era máis que um pretexto para justificar um ataque sem declaração prévia. Para Hitler tratava-se do episódio final do combate contra o "bolchevismo judeu", o que pode explicar a natureza das ordens especiais dadas aos oficiais alemães no momento do início da invasão, que desculpavam todas as brutalidades e isentavam os soldados pelos crimes que pudessen} cometer contra os cidadãos russos, pelo fato de tratar-se da "luta final entre dois sistemas opostos". O marechal Keitel o justificaria dizendo: "que a derrota de 1918, o período de sofrimentos do povo alemão que a seguiu e a luta contra o Nacional Socialismo - com os muitos sacrifícios de sangue que custou ao movimento - pode atribuir-se à influência bolchevique. Nenhum alemão deve esquecê-lo". Isttféxplicaria a luta de aniquilação em que os alemães, ferindo todas as leis de guerra, matavam os soldados que se rendiam, assassinavam civis e exterminavam sistematicamente os judeus; em que havia ambulânciàs alemãs que levavam uma cruz vermelha ao lado e uma metralhadora no teto. Não atuavam desta maneira para prevenir nada, nem sua conduta era a de uma guerra normal. O ataque hitleriano à Rússia e o extermínio associado não foram fatos bélicos "normais", senão que representam um novo tipo de guerra encaminhada à aniquilação total e sistemática, pela fome e pelas execuções, de milhões de seres humanos em nome da luta contra os fantasmas hitle-

rianos do judeu-bolchevismo. Não existe artifício acadêmico que possa "revisar" e "normalizar" isto.50 O tema do holocausto produziu também guerras da história do lado dos judeus, que criticaram o livro fundamental de Raul Hilberg sobre Á destruição dos judeus da Europa, acusando-o de haver "minimizado" a resistência judia, o de Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, por atreverse a dizer que houve colaboradores judeus no holocausto ou o de Arno Mayer, Por que o céu não se escureceu?, por sustentar que o antibolchevismo foi tão importante como o anti-semitismo e que era um elementochave para explicar o holocausto.51 Passado o momento mais agudo da "Historikerstreit", os debates pareciam acalmados até que se reavivaram subitamente em 1996 com a publicação do livro de Dailiel Goldhagen, Os verdugos voluntáriçs de Hitler, que culpava o conjunto do povo alemão, ao sustentar que o holocausto havia sido a culminação natural do anti-semitismo da sociedade alemã, que tomou um caráter "aniquilatório" e estava tão imbuído na cultura e na política que quando chegou o momento do extermínio a população inteira da Alemanha somou-se voluntariamente a ele. Sua conclusão é a de que a participaçãò do povo alemão no holocausto foi geral e voluntária; que os alemães, trabalhados por uma longa tradição de anti-semitismo, matavam por convencimento: "O mundo dos campos de concentração revela a essência da Alemanha que se entregou ao nazismo, da mesma maneira que

- 50 No que se refere à gênese da guerra uso GORODÊTSKY, Gabriel. Grand delusion. Stalin and the German invasion of Russia. New Haven: Yale University Press, 1999 (sobre o tema da "guerra preventiva", por exemplo, p. 86-88). Sobre a especial brutalidade do exército alemão na guerra, BEEVOR, Anthony. Stalingrad. London: Penguin, 1999. p. 14,60-61 e passim, e ANDERSON, Truman. Incident at Baranivka: German reprisals and the Soviet partisan movement in Ukraine, october-december 1941. Journal of Modern History, 71, p. 585-623, Sept. 1999. Nota-se também, no que se refere ao extermínio dos judeus, EHRENBURG, Ilya; GROSSMAN, Vassili (Ed.). Le livre noir sur I'extermination scélérate des juifs... Textes et temoignages. Aries: Actes Sud, 1995 (um texto que não pôde ser publicado completo na Rússia até 1993). 51 Ao descobrir-se que Hannah Arendt havia sido amante de Heidegger se disse que esta era a razão das "calúnias contra os judeus"; a verdade é que a colaboração foi real e a conhecemospor testemunhos da época.

os que mataram revelam os crimes e a barbárie que os alemães comuns estavam dispostos a aceitar de bom grado a fim de salvar a Alemanha e o povo alemão do último perigo "Der Jude",52 O livro, que trazia poucos elementos de pesquisa.originais, reinterpretava evidências já conhecidas com anterioridade, como eram as referidas ao batalhão 101 da polícia de reserva, a "Orpo", ja estudada por Christopher Browning.53 Mas enquanto para Browning os culpados dos crimes eram "homens ordinários", e a conclusão que extraía tinha um alcance geral, para Goldhagen eram "alemães ordinários", e esta era uma diferença fundamental, já que transformava a análise numa inculpação específica do povo alemão.54 A obra recebeu críticas severas de certos profissionais que a acusavam de falta de rigor científico, mas Hans-Ulrich Wehler, embora ataque os defeitos, reconheceu que tivera a virtude de formular abertamente o incômodo tema da participação massiça dos alemãef nos crimes do nazismo. E houve o caso de que quando Goldhagen travava discussões públicas sobre o livro na Alemanha, às vezes diante de grande público, era ele normalmente quem recebia o aplauso das .platéias contra os "professores universitários de prestígio" que o atacavam. Não porque se tratasse de alemães masoquistas, senão porque o público agradecia que alguém falasse destes problemas abertamente e em linguagem clara, em lugar de esfriálos com pretextos de ciência, usando uma linguagem de tribo.55 52 GOLDHAGEN, Daniel J. Hitler's willing executioners: ordinary Germans and the holocaust. New York: Knopf, 1996. p. 46 L 53 BROWNING, Christopher R. Ordinary men: Reserve Police Battalion 101 and the final solution in Poland. New York: Harper Collins, 1992. Este mesmo autor enriqueceu consideravelmente o estudo, o que lhe permite generalizar, e matizar, as considerações sobre a motivação dos assassinos de judeus no livro já citado mais acima, Nazi policy, Jewish workers, German killers. 54 Veja-se sobre o assunto, BROWNING, Christopher R. Ordinary Germáns or Ordinary men? A reply to the critics. In: BERENBAUM, Michael; PECK, Abraham J. (Ed.). The holocaust and history. The known, the unknown, the disputed and the reexamined. Bloomington: Indiana University Prèss, 1998. p. 252-265. 55 Escreveu-se muito sobre o debate. Por exemplo: ULRICH, Wolker et al. La controvérsia Goldhagen. Los alemanes corrientes y el holocausto. Valência: Ediciones Alfons el Magnànim, 1997; FINKELSTEIN, Norman G.; BIRN, Ruth Bettina. A nation on

Posteriormente, a pesquisa feita em profundidade em uma zona concreta da Alemanha permitiu dar um passo adiante, mostrando a cara real do terror em um país onde o cidadão médio sabia muito bem que se passavam certas coisas - houvera sido impossível ocultar a captura e desaparecimento dos judeus, ciganos, etc. - , mas não se sentia implicado nisso, e ou colaborava ou deixava de fazê-lo. Isto permitia aos "alemães ordinários" simular, ao acabar a guerra, que não sabiam de nada e que as atrocidades eram obra de um grupo muito reduzido de dirigentes, ao mesmo tempo que ajudavam boa parte dos culpados a salvar-se dos processos de desnazificação, a ponto, de os oficiais da Gestapo terminarem por cobrar pensão de aposentadoria pelos anos que haviam trabalhado "ocupando-se dos judeus".56 Depois desta etapa, quando o livro de Goldhagen passou de moda e as discussões que provocou estavam já inseridas nos manuais,57 abriu-se uma nova frente na mesma guerra: a referente à responsabilidade dos industriais. Üma frente que não surgiu pelo fato de terem sido descobertas novas evidências, senão porque agora finalmente, depois de mais de cinqüenta anos, começava-se a romper o silêncio político que se impusera sobre o tema e que, convém destacá-lo, o mundo acadêmico havia respeitado escrupulosamente. trial. The Goldhagen thesis and historical truth. New York: Henry Holt and Co., 1998; FINCKELSTÉIN, Federico (Ed.). Los alemanes, el holocausto y la culpa colectiva. Buenos Aires: Eudeba, 1999; LUZÓN, Javier Moreno. El debate Goldhagen: los historiadores, el Holocausto y la identidad nacional alemana. Historia y política, I, p. 135-159, abr. 1999, etc. 56 JOHNSON Eric. The nazi terror. Gestapo, jews and ordinary Germans. London: John Murray, 1999. 57 Um manual de metodologia da história social - FISHBURN, Milles. Social history. Problems, strategies and methods. London: Macmillan, 1999 - utiliza a controvérsia Browning-Goldhagen como ilustração no capítulo sobre "O problema de determinar a melhor explicação", para chegar à conclusão de que as duas teorias são de valor semelhante no que se refere áo poder da explição, mas Browning é superior no que se refere ao princípio de-confiabilidade (p. 279). Em troca, pesquisas que'contribuem com novos pontos de vista interessantes, como a de ALY, Gõtz. "Final solution". Nazi population policy ant the murder of the European jews. London: Arnold, 1999, passam demasiado despercebidas.

As guerras da história

Uma das características mais surpreendentes da "desnazificação" na Alemanha ocidental fora justamente a impunidade dos dirigentes industriais, que não só eram responsáveis de haver-se aliado aos nazistas, mas também de haver aproveitado o trabalho escravo dos campos de concen• tração, em fábricas onde se praticaram todo gênero de atrocidades, como o extermínio por fome e maus tratos das crianças das trabalhadoras estrangeiras. A questão afetava principalmente grandes empresas como as I.G. Farben, que tinha uma fábrica em Auschwitz, ou como a Volkswagen. Mas os chefes receberam penas leves nos julgamentos de desnazificação e os propósitos iniciais de destruir as grandes empresas culpadas não se cumpriram. Uma empresa como as Farben fragmentou-se em três grandes grupos - Bayer, Basf e Hoechst -, que em 1977 eram já maiores cada um deles do que haviam sido as Farben em seu melhor momento. Um dos dirigentes julgados, Fritz ter Meer, presidente do comitê técniqo de I.G. Farben, que recebeu uma condenação de sete anos de prisão, uma das mais duras qué se aplicaram aos industriais, como culpado de saque, espoliação, trabalho escravo e matanças em massa - demonstrara-se que havia feito repetidas visitas a Auschwitz e que aceitara o sistema de exploração dos trabalhadores que ali se usava - , foi eleito em 1956 presidente do conselho de supervisão da Bayer, enquanto que outro condenado, Friedrich Jaehne, integrou-se em 1955 ao conselho de administração de Hoechst.58 Há'poucos anos estas empresas, que temiam ter que enfrentar demandas de reparação pelo trabalho forçado e pelos maus tratos infringidos aos operários-escravos, decidiram adiantar-se ao problema encarregando histórias empresariais legitimadoras a especialistas acadêmicos de prestígio internacional, conduta que o Deutsche Bank também imitou, afetado muito especialmente pelo problema do ouro dos judeus. Tudo parecia desenvolver-se regularmente, até que em outubro de 1998 Michael Pinto-Duschinsky publicou um artigo no Times Literary Supplement, com o título de 58 BORKIN, Joseph. The crime and punishment of LG. Farben• New York: Barnes and Noble, 1997 (ed. Original Free Press, 1978). Não só as empresas alemãs haviam cooperado com o nazismo, como o mostra BLACK, Edwin- IBM y el holocausto. Buenos Aires: Atlântida, 2001.

"Vender o passado", onde denunciava os historiadores que aceitavam fazer i "histórias de empresas" alemãs, muito bem pagos, a fim de "limpar" o passado nazista destas e eliminar qualquer referência aos trabalhadores-escra-. vos. O artigo provocou réplicas defensivas imediatas dos implicados. Hans Mommsen (nascido em 1930), "o decano dos historiadores alemães", autor de uma interpretação de Hitler como "ditador débil", disse que "os documentos referentes ao trabalho forçado perderam-se, talvez imediatamente depois da guerra" e queixava-se de que a tentativa de culpar à profissão de vender-se aos interesses dos grandes negócios não fazia mais que agravar a desconfiança dos dirigentes empresariais na pesquisa histórica.59 No debate seguinte, Michael Pinto-Duschinsky pôs em evidência o silêncio sobre o caso das crianças das mulheres obrigadas a trabalhos forçados na fábrica da Volkswagen. Constava que não menos que 365 filhos de mulheres ucranianas e polonesas morreram em uma creche da morte em Riihen. Mas Mommsen só recolhera os testemunhos dos culpados e passara por alto as evidências dos maus tratos deliberados às crianças mortas na creche. Na ilustração do livro havia uma só fotografia de tumba de criança, ao lado de 19 de Hitler e 21 de Ferdinand Porsche. Parecia claro que Mommsen se havia acomodado ao que convinha à Volkswagen.60 Em março de 1999 outro historiador acadêmico de prestígio, Jonathan Steinberg, viu-se implicado em denúncias em relação ao debate sobre o ouro dos judeus. O Deutsche Bank formara em dezembro de 1997 uma comissão para investigar a questão, da qual faziam parte historiadores de tanto prestígio como o israelense Barjai, os norte-americanos Gerald D. Feldman (que nos debates posteriores reivindicaria a condição de "judeu norte-americano") e Harold James, o alemão Lothar Gall, e o já citado , 59 PINTO-DUSCHINSKY, Michael. Selling the past. The dangers of outside finance for historical research. Times Literary Supplement, p. 16-17,23 Oct. 1998; as respostas, com o título genérico "Historians and their sponsors". Times Literary Supplement, p. 21,6 Nov. 1998. 60 PINTO-DUSCHINSKY, Michael. Historians and their sponsors. Times literary supplement, p. 15,18 Die. 1998. Um dos testemunhos recolhidos por Mommsen era o de uma enfermeira chefe, inicialmente condenada à morte, que teve a pena reduzida depois a oito anos e que voltou a ser empregada pela Volkswagen.

Steinberg. Os resultados a que chegaram estudando os documentos da sucursal do banco em Istambul, onde usava-se o ouro para fazer pagamentos de propaganda e espionagem, levou-os a afirmar que talvez uma quarta parte do ouro procedia dos campos de concentração e escreveram um informe final que tratava o problema com um certo distanciamento. Em feyereiro de 1999, no entanto, documentos das quatro sucursais do banco na Alta Silésia revelavam um novo tema: os pagamentos feitos para a construção de Auschwitz. Com isto a comissão que realizara o trabalho anterior ficava em evidência. Como poderiam ter ignorado uma documentação tão importante? "Fizeram-nos - dizia Steinberg - acusações muito desagradáveis aos que trabalhamos nestas matérias, que somos pagos pelo Deutsche Bank para fazê-lo. Minha própria experiência é que as acusações, quando não são maliciosas, carecem de fundamento (...). Os assuntos humanos são complicados e as explicações simplistas ocultam as verdades que pretendem revelar". O "judeu-norte-americano" Feldman deu uma entrevista em Frankfurt, patrocinada pelo banco, para queixar-se das demandas de velhos trabalhadores-escravos, nem todos judeus, apresentadas nos Estados Unidos, que criavam ressentimento e podiam gerar um aumento do anti-semitismo.61 O tema, que terminou liquidando-se • com o oferecimento de indenizações - quando, felizmente para as empresas, há poucos sobreviventes dos que podiam reclamar graças aò transcurso de mais de cinqüenta anos dos fatos - , mostra, por um lado, a extraordinária eficácia com que os controladores da história conseguiram manter um silêncio tão duradouro sobre estas questões incômodas. Mas mostra também seu fracasso a longo prazo, quando as vozes críticas, que não foi possível silenciar de todo, reavivaram a consciência coletiva.

61 Pinto-Duschinsky recordou a Steinberg e a seus colegas que já em 1946 um informe norte-americano havia apresentado evidências sobre os empréstimos dó banco a I. G. Farben e que Hernjan Abs, um dos dirigentes do banco, o era também das Farben quando se construiu a fábrica de buna (borracha artificial) em Auschwitz. STEINBERG, Jonathan. Nazi gold and the Deutsche Bank The Istanbul connectionand how Auschwitz was financed. Times Literary Supplement, p. 8-9, 5 Mar. 1999. PINTO-DUSCHINSKY, Michael. Historians and their sponsors. Times Literary Supplement, p. 17,14 May 1999, p. 17,6, Ago. 1999, p. 17 Sept. 1999, etc.

O caso do Japão é talvez ainda mais espetacular. Ao assinar-se a rendição, uma das reformas impostas por MacArthur foi a eliminação no ensino da versão oficial da história, ultranacionalista e basçada no culto ao imperador - "os educadores eram os sargentos de instrução da ortodoxia do sistema imperial", foi dito - que devia transformar-se em outra versão que defendesse os valores de "paz e democracia". Como faltavam livros de texto adequados, começou-se usando os velhos com as partes censuradas borradas com tinta negra. Mais tarde, deixou-se que as próprias escolas escolhessem os livros que queriam entre os autorizados - em 1955, por exemplo, podiam escolher entre 173 livros diferentes. Mas a inclinação à esquerda dos professores, què estava influenciando na escolha dos textos, preocupou os governos conservadores que, em 1956, fizeram aprovar uma lei que reforçava o controle estatal sobre as escolas e pretendeu também censurar os textos, ao que tiveram que renunciar quando meio milhão de professores, com apoio de associações de estudantes, saíram em manifestação às ruas. Isto não impediu, no entanto, que se censurasse um texto concreto coni o argumento de que mostrava aos japoneses aspectos demasiadamente desfavoráveis em relação à Segunda Guerra Mundial. O retorno aos valores tradicionais acentuou-se nos tempos dó governo presidido por Nakasone, que não duvidava em afirmar, em 1986, que os japoneses eram mais inteligentes que os norte-americanos porque o Japão era mais homogêneo do ponto de vista racial e tinha menos imigrantes (esqueceu de dizer que os imigrantes que viviam no Japão eram também mais discriminados, como o eram os dois ou três milhões de hurakumin, ou japoneses descendentes de velhos ofícios infamantes). Os livros de texto de história defendiam agora o papel do Japão na guerra mundial, garantindo que a invasão da China foi devida à provocação dos chineses, que a culpa da matança de Nanking deveu-se à resistência dos soldados inimigos e que a invasão da Ásia era "uma cruzada para libertar os povos asiáticos do imperialismo ocidental". A batalha não terminou neste caso. Em 1998 a "Sociedade para fazer novos livros de texto de história", inspirada pelo professor Fujioka, da Universidade de Tóquio, propunha "inculcar um sentido de orgulho na história de nossa nação", opor-se à visão "masoquista" dos que aceitam a culpa dos japoneses pelas atrocidades cometidas durante a Se-

gunda Guerra Mundial e eliminar dos livros de texto todas as referências a temas como o das mulheres coreanas forçadas a servir como prostitutas dos soldados, as quais, segundo sustentam os "revisores da história", não eram mais que profissionais muito bem pagas, que cobravam mais que um general, e que optaram voluntariamente pelo trabalho.62 Há ainda outras guerras da história mais dramáticas põr suas conseqüências. Em Ruanda foram os belgas, e em grande medida as ordens religiosas que controlavam o ensino, os que fabricaram o7mito de uma história racista, construída sobre o modelo com que Gobineau interpretava a idade média européia, onde os tutsi apareciam como os senhores feudais opressores e os hutus como o povo explorado por eles. Esta visão "feudal" serviria de pretexto para a "revolução social" dos hutus em 1959-1961 e para o genocídio dos tutsi nos anos noventa. A difícil restauração da convivência étnica não poderá fazer-se em Ruanda sem eliminar esta visão do passado, substituindo-a por outra mais objetiva.63 O que mostram os exemplos de "guerras da história", escolhidos entre muitos outros que poderiam ter sido examinados, é que os debates a que se referem têm pouco a ver com a ciência e muito com o contexto político e social em que se movem os historiadores.

62 DOWER, John W. Embracing defeat. Japan in the wake of Wold War II. New York: Norton, 1999. p. 246-251 (citação literal da p. 249); BAILEY, Paul J. Postwar Japan. 1945 to the present. Oxford: Blackwell, 1996. p. 49, 81-82,155-160; McCORMACK, Gavan. Japan's uncomfortable past. History today, 48,4, p. 5-7,1998. 63 CHRÉTIEN, Jean Pierre. L'Afrique des Grands Lacs. Deux mille ans d'histoire. Paris: Aubier, 2000. p. 245-252,283-286 e passim; BRAECKMAN, Colette. L'enjeu congolais. L'Afrique Cèntrale après Mobutu. Paris: Fayard, 1999. p. 219-220.

A REVIRAVOLTA CULTURAL

Os anos sessenta do século XX presenciaram mudanças muito importantes no mundo. Foram anos em que as novas gerações, ao ver que não se cumpriam as esperanças suscitadas pela vitória sobre o fascismo na Segunda Guerra Mundial e as ilusões do desenvolvimento econômico, associadas às expectativas que a utilização da energia atômica criara - que não havia nem mais liberdade nem mais igualdade no mundo novo cuja defesa custara tantos milhões de mortos - , fizeram sentir suas vozes numa tentativa para mudar a sociedade que se estendeu da Califórnia até Praga, mas que acabou com a vitória da velha ordem estabelecida, demonstrando, uma vez mais, a capacidade desta para dominar movimentos revolucionários incipientes através dos meios mais diversos. O enfrentamento gerou mudanças culturais importantes, c)ue têm alguns denominadores de temática e estilo comuns. Uns dos mais claros é a negação da culturá estabelecida, com características de protesto geracional. Jameson disse que é nesse momento que nasce o pós-mode-rnismo: quando uma nova geração decide não continuar aceitando o modernismo triunfante que, depois de ter atuado como vanguarda e provocação, foi incorporado pelo sistema e se converteu, por isso mesmo, em acadêmico. Como, porém, a consciência plena da ruptura e a denominação de pós-modernismo ocorre posteriormente, trataremos disso mais adiante.1 1 JAMESON, Frederic. The cultural turn, Selected writings on the postmodern, 19837 1998. London: Verso, 1998. p. 19 (há tradução castelhana, Buenos Aires: Manantial,

O mesmo Jameson situa a mutação cultural numa sucessão de etapas da evolução do pensamento filosófico que começaria com a superação do existencialismo sartriano hegemônico "por aquilo que costumamos chamar "estruturalismo", isto é, por uma variedade de novas tentativas teóricas que compartilham ao menos uma única experiência fundamental: o descobrimento da primazia da linguagem ou do símbolo". A transformação do estruturalismo, que era demasiado instável para durar, teria dado lugar "à redução a uma espécie de cientificismo, ao método e técnica analítica (na semiótica)" e, pór outro lado, no terreno da "transformação das perspectivas estruturalistas, a ideologias ativas das quais se deduzem conseqüências éticas, políticas e históricas", ao qué conhecemos comó ""pósestruturalismo", associado a nomes familiares como os de Foucault, Deleuze, Derrida e outros".2 As mudanças, entretanto, eram ambíguas em muitos aspectos, especialmente no que diz respeito ao significado político, que dependia, em boa medida, do contexto contra o qual se reagia. Por exemplo, ainda que em ambos os casos a resposta se originasse na insatisfação das novas gerações, o sentido seria diferente nos Estados Unidos, onde o macârthismo silenciara as vozes da esquerda, e na França, onde a influência de um marxismo mais QU menos autêntico dominava os meios intelectuais desde 1945. Isto faz que, quando encontramos semelhanças na formulação de determinados problemas culturais ou de determinadas posições teóricas, convém analisar com cuidado a trama oculta -r algumas vezes ignorada, com frequência simplesmente negada - do contexto político em que se inserem as diversas manifestações e que as torna inteligíveis. Na medida em que se alimentava do descontentamento a respeito do mundo que os vencedores da Segunda Guerra Mundial tinham construído, era lógico que a reviravolta cultural tivesse aspectos de protesto de 1998). Sobre as mudanças culturais destes anos, num sentido geral, MARWICK, Arthur. The sixties. Cultural revolution in Britain, France, Italy, and United States, C.1958-C.1974- Oxford: Oxford University Press, 1998. 2 JAMESON, Fredric. Periodizing the 60s. In: The ideologies of theory. Minneapolis: University of Minnessota Press, 1988. Essays. II: Syntax of history, citações das p. 186187 (há tradução castelhana, Periodizar los 60. Córdoba [Argentina]: Alción, 1997).

gerações. No terreno da história, a revolta dQS jovens dós sessenta dirigiase' contra a ortodoxia acadêmica da história econômica e social que seus mestres haviam cultivado, supostamente de inspiração marxista, à qual contrapunham a reivindicação do papel da cultura em formulações influenciadas pela antropologia. Na Grã-Bretanha, a reviravolta iniciou-se precisamente com os historiadores marxistas .britânicos, com nomes como E.P. Thompson, que passaria a estudar a confrontação de classes baseando-se não nas condições materiais, mas no terreno da consciência. Porém, a contestação afastou-se rapidamente dessas origens. Dir-se-iá, então, que "as análises que abordam causas econômicas e sociais estão sendo substituídas pela crítica dos textos e pela análise cultural" - ao que se acrescentaria que "o ceticismo dirige-se cada vez mais contra toda história social, especialmente quando aparece ligada às* aspirações da gente comum" - , e que o estudo da cultura como produto da sociedade cedia terreno ao "da "construção" cultural da realidade".3 Mais tarde, quando os renovadores dos anos sessenta se converteram no grupo dominante e estabelecido e quando suas propostas pretensamente inovadoras se fossilizaram em fórmulas canónicas, uma nova geração, que experimentava no trabalho a limitação deste cânone, o criticaria por sua vez. Diz-se que, no terreno da crítica literária, por èxemplo, a "nova crítica" surgiu em fins da Segunda Guerra Mundial quando se deu o acesso à universidade de grande número de soldados desmobilizados "que acreditavam inocentemente na retórica da liberdade e no pluralismo liberal pelo qual haviam lutado, vendo-os refletidos na Nova teoria crítica", até que, em 3 Peter Burke qualifica a reviravolta como uma revolta "contra o determinismo associado à análise funcional, ao marxismo, aos métodos quantitativos e à idéia de uma ciência social", realizada sob a bandeira da cultura (History and social theory. Cambridge: Polity, 1992. p. 118): As citações são de BEIK, William. The dilema of popular history. Past and Present, n. 141, p. 207, Nov. 1993. A última expressão citada é de Peter Burke no Times Literary Supplement, p. 30,26 Nov. 1993. Sobre a influência da antropologia na história cultural, BURKE, Peter, Varieties of cultural history. Cambridge: Polity, 1997, p. 191-198 (existe tradução castelhana, Madrid: Alianza, 2000). Krzystof Pomian qualifica a etapa que sucedeu à história econômica e social como "história antropológico-cultural" (Sur 1'histoire. Paris: Gallimard, 1999. p. 191).

fins dos sessenta e nos setenta, "outra onda de novos estudantes encheu as universidades, defendendo outro tipo de teoria". Para concluir que "hoje", isto é, em 2000, volta a ocorrer uma mudança de gerações nos estudantes "e outra vez a teoria lhes permite dizer coisas novas e diferentes".4 O caso da França pode ilustrar a natureza e o alcance da reviravolta cultural. Já vimos como, ao mesmo tempo em que a escola de Annalés chegava ao apogeu da influência pública, seu mentor indiscutível, Fernand Braudel, era defenestrado pelos membros da nova geração e colocado à margem da revista, sem outros discípulos além de algumas pessoas mais próximas, convocadas a participar de reuniões eruditas como as de Prato. Na revista, o poder que Braudel concentrava nas mãos se distribuiria. A equipe da "nouvelle histoire", que é a denominação adotada pela corrente, tinha uma rigorosa hierarquia de poder com diversos níyeis. No alto, acima de todos, estavam os que se apropriaram dos cargos mais importantes: Emmanuel Le Roy-Ladurie, membro do Collège de France - projetado à fama como autor de um livro de êxito popular, Montaillou, village occitan, fruto do saque da erudição de Jean Duvernoy e da redução dos problemas de uma sociedade camponesa em tempos de crise a questões de sexo e religião5 - e, com ele, Jacques Le Goff e François Furet, que controlavam a École. Os outros membros da equipe, como Chauntí ou Ariès, eram prejudicados pelo fato de manter publicamente idéias políticas demasiado reacionárias, que iam além do anti-comunismo "liberal" dé Le Roy ou de Fu4 Tomo esta formulaçao de M. P. Clark, professor de inglês e de literatura comparada na Universidade da Califórnia,_em carta publicada na New York Review ofBooks, p. 91,13 Apr. 2000. 5 Em Montaillou, village occitan de 1294-1324. Paris: Gallimard, 1975, Le Roy aproveitou-se dos excelentes trabalhos de erudição de Jean Duvernoy para compor um livro a "la mode": "o maior êxito de edição histórica na França", dirá Couteau-Begàrie. Segundo Dosse, foram vendidos 300.000 exemplares, mas sabemos que foram pouco mais de 200.000. Um livro que contém erros graves, denunciados pelos especialistas e que hoje os estudiosos do catarismo nem sequer citam (veja-se, por exemplo. ROQUEBËRT, Michel. Histoire des cathares. Paris: Perrin, 1999) ou mencionàm só de passagem, e criticamente (LAMBERT, Malcom. The càthars. Oxford: Blackwell, 1998). No volume de Historiographie du catharisme dos Cahiers de Franjeaux, n. 14 (Toulouse: Privât, 1979) o Montaillou de Le Roy aparece mencionado no capítulo: "Mercantilismo, esnobismo e catarismo".

ret. Sol? influência destes, estavam os nomes dos que ocupavam uma posição menor, como Mandrou, Vernant, Marc Ferro ou Pierre Nora. O resto era simplesmente ignorado ou silenciado.6 As mudanças no poder foram acompanhadas de outras, de natureza metodológica. Abandonada a velha tradição da "história econômica e social", os "novos" caíram num período inicialde desorientação, justificando uma prática sem regras nem princípios, com livros de reflexões sobre a história como Le territoire de l'historien, no qual Le Roy Ladùrie, revelando absoluta ignorância do mundo da informática, dizia côisas tão sensacionais como que "o historiador de amanhã será programador ou não será", ou como Histoire science sociale, onde Pierre Chaunu, que no terreno da pesquisa histórica se especializara em tirar proveito das idéias de outros, era capaz de encher as mais de quatrocentas páginas da obra - que dizia ter escrito em menos de um mês e meio o que não custa muito acreditar - com elucubrações sobre a religião, o arroz, a vida e a morte.7 Era necessário pôr em ordem este emaranhado dè novidades reluzentes. Isto se realizaria sob a influência do estruturalismo, numa tentativa que teria a primeira manifestação no pomposo número monográfico de 1971 sobre "Histoire et structure", introduzido com esta declaração solene: "La guerre entre l'histoire et le structuralisme n'aura pas lieu - A guerra entre a história e o estruturalismo não ocorrerá".8 François Dosse escreveu 6 A hierarquizaçao é apresentada por COUTÉAU-BEGARIE, Hervé.Xe phenoméne "Nouvelle histoire". Stratégie et idéologie des nouveaux historiens. Pàrisr Economîca, 1983. p. 282-295. i 7 Emmanuel Le Roy-Ladurie fez a gloriosa afirmação sobre a programação, Respondendo à enquete sobre "Conlment l'informatique bouleverse lês sciences humaines" em Le Nouvel Observateur, n. 182, p. 310-312, 8-14 May 1968, mas não resistiu à tentação de repeti-la em Le territoire de l'historien, I, Paris: Gallimard, 1973. p. 14. O livro de Pierre Chaunu, que apresenta o retumbante título de Histoire Scien- -, ce Sociale. La durée, l'espace et l'homme à l'époque moderne. Paris: Société d'édition d'enseignement supérieur, 1974, acaba sendo pura retórica com frases como "a ' vida, o amor, a morte, as palavras e os gestos, todo o essencial de uma civilização", etc. p. 77). 8 Annales, número especial: "Histoire et structure", 26 (1971), n. 3 e 4, citação da p. 1. A opinião de Lévi-Strauss sobre a história, no entanto, não era nada elogiosa.

que "os grandes beneficiários da moda estruturalista dos anos sessenja foram, depois de 1968, os historiadores de Annales". Na verdade, antes de tudo, foram suas vítimas. , As influências que marcaram a trajetória dos "nouveaux" neste terreno foram, mais do que a de Lévi-Strauss, a de Georges Dumézil (18981986) que, em 1968, publicara a primeira parte de Mythe et epopée com considerações racistas sobre mito e história que pretendia usar para explicar as origens da história romana9 e, principalmente, a de Michel Foucault (1926-1984) de Les mòts et les choses. Une archéologie des sciences humaines (1966), de L'archéologie du savoir (1969) e de Surveiller et punir (1975), que teorizava sobre as ciências humanas e sobre a história, ou melhor, sobre a inutilidade do saber menor dos historiadores - pelos quais, dirá Pierre Nora, sentia um desprezo que nunca pôde dissimular — que elaboravam um discurso falso, que inventavam evolução e continuidade sobre a base das descontinuidades da realidade, oferecendo-nos, como se fosse um relato verdadeiro do que aconteceu no passado, uma narrativa construída de acordo com seu contexto cultural e com seus interesses. Este ataque ao saber estabelecido, articulado à denúncia dos mecanismos ocultos de dominação do poder, desconsideradas pelos historiadores, estavam plenamente de acordo com o espírito de revolta de 1968 e ajudam a explicar seu êxito.10

9 DUMÉZIL, Georges. Milhe et epopée. Paris: Gallimard, 1995,1, II, III. Alguns anos mais tarde, no volume III, "Histoires romaines", Dumézil pedia explicitamente que sua pesquisa fosse recebida no terreno da história mais tradicional, pois embora a" sua fosse "história de idéias", e não de acontecimentos, "ajuda a desmascarar os falsos acontecimentos muito facilmente admitidos" (p. 1082). A influência de Dumézil sobre a visão de Les trois odres ou l'imaginaire du féodalisme (Paris: Gallimard, 1978) de Georges Duby é evidente. ' 10 É necessário acompanhar a vida de Foucault (ERIDON, D. Michel Foucault. Paris: Flammarion, 1989) para entender a evolução de suas idéias. Por exemplo, Surveiller et punir (Paris: Gallimard, 1975) que aparece como um livro de história da prisão apresentada como um dos mecanismos de exclusãò da sociedade burguesa, formava parte na realidade de uma atuação política que teve como instrumento o chamado Grupo de informação sobre as prisões. Sobre o período de Annales, KRIEGER, Leonard. Time's reasons. Philosophies ofhistory old and new. Chicago: Chicago University Press, 1989. p. 154-165.

Surpreende, por outro lado, que o poder que, supõe-se, controla tão eficazmente a sociedade, consentisse que seus métodos ocultos fossem denunciados por um homem a quem permitiam chegar a uma cátedra do Collège de France aos quarenta e quatro anos. Afirma-se que isso era útil pbrque afastava os intelectuais críticos de questões como as de economia, que afetam diretamente "o poder", desviando-os ha direção do campo da filosofia: no sentido de teorizações expressas em linguagens codificadas e num vocabulário esotérico, apto somente para os iniciados. Quando da publicação de Vigiar e punir, Jean Léonard observou que Foücault abusava de expressões impessoais nas suas denúncias, perguntando-se: "não se sabe quem são os autores: poder de quem?".11 Isto não significa, entretanto, que Foucault fosse um instrumento consciente do sistema; a confusa evolução de suas idéias políticas que passaram, em poucos anos, da proximidade com o maoísmo ao descobrimento, por ocasião de uma viagem ao Irã em 1978, de "uma política espiritual que era um modelo para todo o múndo" - seguida, pouco depois, pelo desencanto ante "o governo sedento de sangue de um clero fundamentalista" - , reflete asflutuaçõesde sua vida.12 É evidente que Foucault refletiu, mesmo confusamente - às vezes de forma enganosa - , sobre problemas importantes, o que permite explicar sua repercussão universal. A influência no terreno da história, no entanto, foi menor do que a freqüência com que é citado parece indicar. Suas propostas metodológicas, na forma como apareciam formuladas, eram dificilmente aplicáveis à pratica e suas experiências pessoais de escrever história eram inaceitáveis, baseadas que estavam num conhecimento fragmentado 11 Uma visão crítica das idéias de Foucault em HAMILTON, Richard F. The social misconstruction of reality. Validity and verification in the scholarly community. New Ha. ven: Yale University Press, 1996. p. 171-196; a citação de Léonard é extraída de DOSSE, François. L'histoire. Paris: Armand Colin, 2000. p. 135-136; tradução brasileira, A história. Bauru: EDUSC, 2003. 12 O complexo tema dos escritos de Foucault sobre a "revolução iraniana" é analisado por LEEZENBERG, Michel. Power and political spirituality: Michel Foucault on the islamic revolution in Iran. In: NEUBAUER, John (Ed.). Cultural history after Foucault. New York: Aldine De Gruyter, 1999. p. 63-80. Edward Said explica que, no transcurso de um seminário que Foucault deu quando seuregresso do Irã, se dèu conta de que "estava retirando-se da política" (ASHCROFT, Bill; AHLUWALIA, Pal. Edward Said. The paradox of identity. London: Routiedge, 1999. p. 23).

e escasso das fontes, agravado pelo uso de citações textuais adulteradas e pela formulação de afirmações de forma vaga, o que não permitia submetê-las à crítica. Houve uma primeira adesão que destacou os aspectos de seu pensamento que poderia conduzir a formulações renovadoras: a de Paul Veyne, que em 1978 acrescentou à segunda edição de Comment on écrit l'histoire, um extenso apêndice com o título de "Foucault revolucionai a história". Veyne registrava a potencialidade revolucionária de um método que propugnava a ánálise das práticas - definidas simplesmente como "o que faz a gente" - e das relações, condenando o método tradicional de proceder teleologicamente a partir de um resultado, de um objeto, definindo o processo que a ele conduz. "Explicar e explicitar a história consiste em percebê-la completa desde o início; em relacionar os objetos supostamente naturais com as práticas datadas e únicas que os objetivam e em/explicar estas práticas, não a partir de um motor único, mas a partir de todas as práticas vizinhas; sobre as quais se sustentam. Este método pictórico produz quadros estranhos, nos quais as relações substituem os objetos. Certamente, estes quadros são exatamente os do mundo que conhecemos."13 A vacuidade destas formulações podia torná-las atraentés, mas as condenava ao papel de invocações, o que explica que se possa dizer qüe, paradoxalmente, as formulações teóricas mais importantes de Foucault, "incessantemente citadas, mas desenvolvidas com dificuldades pelos discípulos", influíram muito menos do que as questões concretas que estudou. O impacto de Foucault limitou-se aos temas sobre os quais escreveu, e que ofereciam "uma rápida possibilidade de serem postos em prática pelos métodos históricos habituais".14 No entusiasmo pelo homem em quem acreditavam ter encontrado o teórico que lhes daria coerência, os "nouveaux" aceitaram o despedaça13 VEYNE, Paul. Comment on écrit l'histoire. Paris: Seuil, 1996, citação da p. 428. Tampouco é necessário exagerar acerca da originalidade das intuições de Foucault. Podem ser éncontradas, e de modo bastante mais claro, em outros autores, como Feyerabend, por exemplo. 14 FRIJHOFF, Wilhelm. Foucault reformed by Certeau: Historical strategies of discipline and everyday tactics of appropiation. In: NEUBAUER, John (Ed.); Cultural history after Foucault. New York: Aldine De Gruyter, 1999. p. 83-99 (citação da p. 87).

mento da história, tal como se afirmava explicitamente no título da coleção "Bibliothèque des histoires", onde apareceu a primeira manifestação sistemática das novas linhas de trabalho do grupo da "nouvelle histoire" e que viria a ser seu manifesto: os três volumes de Faire de l'histoire, uma ohra miscelânea, como correspondia ao despedaçamento "foucaultiano", dirigida por Jacques Le Goff e Pierre Nora.15, Faire de l'histoire dizia-se dedicada a "novos problemas", que põem em discussão a própria história, "novas abordagens" que modificam, enriquecem e transformam os setores tradicionais da história e "novos objetos" que aparecem no campo epistemológico desta". Os "nouveaux" rejeitavam todo tipo de relação com afilosofiada história: "nem Vico, nem Hegel, nem Croce e menos ainda Toynbee" - não pareciam perceber o que significava a anunciada relação com Foucault - , condenando também "as ilusões da história positivista". Propunham uma história das "estruturas globalizantes" que se interessaria especialmente pelo estudo "do imaginário".16 Enfrentaram um primeiro problema com a contribuição de Pierre Vilar em Faire de l'histoire, pois os organizadores não a haviam lido antes de entregá-la à impressão. O texto continha uma denúncia das armadilhas 15 Não é difícil perceber que as teorizações sumárias dos "nouveuax" têm pouco a ver com a pretensa "revolução" de Foucault. Definindo a "nouvelle histoire" nos anos qitenta, Le Roy-Ladurie dizia que não era outra coisa senão a "que promoviam os Annales desde 1929 e que, por'diversas razões, acabou chegando ao grande público nos anos setenta". Tudo isso alinhado com referências às mentalidades e com uma menção crítica de Foucault, ao qual associava o fracasso dos franceses no campo da história da ciência. Sobre as relações entre Foucault e os historiadores de Annalesv DOSSE, François. Histoire du structuralisme. Paris: La Découverte, 1991-1992. II, p. 296-335. Do mesmo autor, L'histoire en miettes: des "Annales" à la "nouvelle histoire". Paris: La Découverte, 1987 (tradução castelhana publicada em Valência em 1988 pelo IVEI). O texto de Le Roy-Ladurie é: Algunas orientaciones de la Nueva historia. In: GADOFFRE, Gilbert (Ed.). Certidumbres e incertidumbres de la historia. Bogotá: Editorial Universidad Nacional, 1997. p. 173-192 (a edição francesa é de 1987 e Le Roy refere-se nele a um Foucault ainda vivo). 16 LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre (Ed.). Faire de l'histoire. Parisi Gallimard, 1974. 3 v. (citações da "apresentação" dos organizadores, em I, p. IX-XIII). A obra era, dirá " Revel, "antes um inventário eclético do realizado, destinado a um público geral, do que uma proposta de futuro"

e dos erros de Foucault, dando a entender que eram tão grandes que só podiam ser deliberados. A ira de Foucault perante a denúncia o levou a exigir dos organizadores que o texto de Vilar fosse retirado da segunda edição, demanda própria da miséria moral do personagem e que demonstra a incapacidade de enfrentar uma crítica feita com rigor.17 Uma exposição mais sistemática da doutrina, na medida em que isto era possível, seria publicada quatro anos mais tarde na enciclopédia La nouvelle histoire, dirigida por Jacques Le Goff, com a colaboração de Roger Chartier e Jacques Revel.18 O artigo principal, dedicado especificamente à "l'histoire nouvelle", é de autoria do próprio Le Goff, onde este localiza a origem da corrente em Voltaire, Chateaubriand, Guizot e, sobretudo, Michelet, com uma referência de passagem a Simiand, e que se articula com Annales, sem aprofundar a ruptura de 1969, qualificada como uma "cessão" do poder por parte do velho Braudel aos jovens "nouveaux". Depois desta genealogia, apresenta uma visão otimista das contribuições metodológicas e dos novos campos abertos: o tempo longo braudelianò, a história quantitativa - que não era precisamente "nouvelle" - , as mentalidades, a necessidade de fazer a história do imaginário... e um mapa das relações e dos contatos com outras disciplinas que colocava a antropologia como "uma interlocutora privilegiada",19 ao mesmo tempo que dizia serem difíceis os contatos com a geografia e a economia e, ainda mais conflituosos 17 Nora explicou a Dosse (Historie du structuralisme, II, p. 330-331) a ira de Foucault . ao 1er em Faire l'histoire o texto de Vilar, "Histoire marxiste, histoire en construction". Reconheceu que "eu e Le Goff não percebemos". A presença de um marxista como Vilar era para dar cor progressista a uma mistura na qual não faltava a extrema direita representada por Ariès, que seguramente lhe era mais cômoda. Hamilton (The social misconstrution ofreality. New Haven: Yale University Press, 1996. p. 196) considera "totalmente apropriada" a crítica de Vilar. 18 LE GOFF, Jacques, et al. (Ed.). La nouvelle histoire. Paris: Retz, 1978. 19 Le Goff escrevera, em 1972, que história e etnologia tinham estado sempre juntas até que, em meados do século XIX, o evolucionismo quis separar o estudo das sociedades avançadas das consideradas primitivas, mas que, agora, depois de um divórcio de mais de dois séculos (sic), voltavam a se aproximar: ""l'histoire nouvelle", ápós ter-se tornado sociológica, tende a se fazer etnológica" (T. Le Goff, "L'historien et l'homme quotidien", reproduzido em Un autre Moyen Age. Paris: Gallimard, 1999. p. 319-331).

A reviravolta cultural

com o marxismo. E formula, previsões de futuro que incluíam a possibilidade de txttia fusão "das três ciências sociais mais próximas: história, antropologia e sociologia".20 Um programa absurdo, desenvolvido num conjunto de artigos onde a atitude aparentemente progressista de Le Goff, que havia admitido inclusive artigos de marxistas como Pierre Vilar ou Guy Bois, chocava-se com afranquezareacionária de Philippe Ariès, que se felicitava triunfalmente pelo fato de que a história das mentalidades, parente próxima da psicanálise, houvesse tido a virtude de provocar "o declínio dos temas sócio-econômicos".21 Para entender a vacuidade e imprecisão dos conceitos manejados pelos "nouveaux" podemos prestar atenção à chamada "história das mentalidades", que foi exibida durante anos como o grande achado da escola. Braudel condenara, inicialmente, o erro que significava pretender analisar o domínio do mundo das idéias, isolando-o do resto: "Que meus sucessores prefiram estudar as mentalidades em detrimento da vida econômica, pior para eles! De minha parte, não estudaria as mentalidades sem considerar todo o resto". Argumento que, de certa maneira, repete Fichtenau, ao dizer: "Seria uma pena que a pesquisa no terreno das mentalidades sefizessede uma maneira demasiadamente abstrata": os produtos do pensamento e a interpretação não podem ser separados da existência da gente deste mundo".22 O pior de tudo é que nunca conseguiram definir este campo e, portanto, o objeto concreto de seus estudos. Referindo-se às "mentalidades", 20 EE GOFF, Jacques et al. La nouvelle histoire. Paris: Retz, 1978. p. 210-241. 21 ARIÉS, P. L'histoire des mentalités. In: LE GOFF, J. (Ed.). La nouvelle histoire. Paris: Retz, 1978. p. 402-423. A decadência mais séria, no entanto, foi a da obra do próprio Ariés, onde existe mais literatura do que outra coisa. Suas análises sobre a infância, por exemplo, fracassam, contrastadas com o trabalho de Linda Pollock (Forgotten children. Parent child relations from 1500 to 1900. Cambridge: Cambridge University Press, 1983), que trabalhou com mais de 400 autobiografias e diários pessoais. 22 As palavras de Braudel são de um texto publicado em Review em 1978, citado por ROJAS, Carlos Antonio Aguirre. La escuela de los Annales. Barcelona: Montesinos,; 1999. p. 160; FICHTENAU, Heinrich. Living in the tenth century. Mentalities and social order. Chicago: University of-Chicago Press, 1991. p. XVII (a presença de "mentalities" no subtítulo é responsabilidade dp tradutor inglês).

Ariès fala de "inconsciente coletivo",23 Duby, do "imaginário coletivo" tudo isso não muito longe do que Durkheim denominava "representações coletivas", nem "das formas inconscientes da vida social" de Lévi-Strauss - ; Jacques Revel diz que a história das mentalidades "não representa tanto uma subdisciplina dentro da pesquisa histórica, quanto um campo de interesse e de sensibilidade relativamente amplo e talvez heterogêneo", reconhecendo que "talvez seja a própria vacuidade da noção que lhe garantiu o êxito através de indefinidas possibilidades de adaptação". Le Goff escreve que seu atrativo "reside justamente na imprecisão, na vocação para designar os resíduos da análise histórica, o não-sei-que da história" e confronta ó discurso organizado das ideologias com a confusão das mentalidades. Vovelle baseia seus estudos de temas, como a descristianização, numa sólida pesquisa documental, mostrando-se vágo, porém, ao se referir "às atitudes, crenças e sentimentos" ou "às atitudes coletivas em seu aspecto massiço, ou em seu anonimato3', caindo, também, em litanias retóricas ao dizer: "É exatamente o que se insere dentro da moda dos novos centros de interesse: a criança, a mãe, a família, o amor e a sexualidade...à morte". Chaunu, que se entusiasmou com o trabalho de Vovelle sobre os testamentos, apressando-se em copiá-lo, situa as mentalidades no "terceiro nível" da experiência, que viria completar os dois, da economia e da sociedade, com que até então a escola de Annáles tinha se ocupado. Chartier o critica, dizendo que de modo algum se trata de um "terceiro nível", já que é um determinante fundamental da realidade social. Mandrou diz que inclui "tanto o campo intelectual como o afetivo" e Couteau-Bégarie, reconhecendo que "não existe um domínio preciso da história das mentalidades", resolve o problema com um truque simplista de prestidigitação: "seria necessário colocar dentro da história das mentalidades a maior parte dos trabalhos classificados como de história social. E o inverso também é 23 Com a pirotecnia retórica de costume: "Buscas subterrâneas de sabedorias anônimas: não sabedoria ou verdade intemporal, mas sabedorias empíricas que regulam as relações familiares das coletividades humanas com cada indivíduo, com a natureza, com a vida, com a morte, com Deus e com o além" (no artigo citado: "L'histoire des mentalités").

verdade". Numa tentativa de definição, Hervé Martin diz-nos que convém começar distinguindo as "mentalidades" da cultura e da ideologia, mas acaba permanecendo com o conceito de ideologia "no sentido pleno e global, no sentido mais rico e plural" como em Althusser, Foucault e principalmente Gramsci, acrescenta, do que resulta uma combinação impossível por ser contraditória.24 Não está claro que, em tudo isso, haja muito mais do que o, que Lucien Febvre designava como "sensibilidade", ou de certas formulações de Collingwood ou de Norbert Elias, dois autores que os "nouveaux" ignoravam,25 xomo ignoravam quase tudo o que não tinha sido publicado em francês. O conceito foi utilizado principalmente na pesquisa dos medievalistas para explorar os terrenos próximos à religiosidade, ou no campo do estudo da cultura popular, de forma que se corre o risco, disse Geoffrey Lloyd, de segmentar diversos campos da atividade mental de homens que são üm todo ou de cair - e este parece geralmente o caso em certos estudos sobre a Idade Média - na tentação de fabricar, um tipo de "mentalidade primitiva" pré-lógica, à maneira da velha visão racista de Lévy-Bruhl, para as camadas populares.26 24 LE GOFF, Jacques. Les mentalités. Une histoire ambiguë. In: LE GOFF, J.; NORA, P. (Ed.). Faire l'histoire. Paris: Gallimard, 1974. III, p. 76-94; REVEL, J. S. V. Mentalités. In: BURGUIÈRE, André (Ed.). Dictionnaire des sciences historiques. Paris: PUF, 1986. p. 450; VOVÊLLE, Michel. De la cave au grenier. Quebec: Serge Fleury, 1980. p. 9, Idéologies et mentalités. Paris: Maspero, 1982. p. 5-17 e La mentalidad revolucionaria. Barcelona: Crítica, 1989. p. 13; CHARTIER, Roger. El mundo como representación. Barcelona: Gedisa, 1996. p. 23 et seq.; COUTEAU-BÉGARIE, Hervé. Le phénomène Nouvelle Histoire... Paris: Economica, 1983. p. 153-159; MARTIN, Hervé. Mentalités médiévales, Xle-XVe siècle. Paris: PUF, 1996. p. 3-27 ("Mentalités: le concept et son approche"). Uma visão de conjunto em BURKE, Peter. Strenghts and weaknesses of the history of mentalities. In: . Variétés of cultural history. Cambridge: Polity, 1977. p. 162-182. 25 Chartier descobrirá Elias tardiamente, dizendo que sua obra foi "durante muito tempo desconhecida" - na França, claro (La historia hoy en dia: dudas, desafios, propuestas. In: OLÁBARRI, I.; CAPISTEGUI, F. J. (Ed.). La "nueva" historia cultural: Ia influencia dei postestructuralismo y el auge de Ia interdisciplinariedad. Madrid: Complutense, 1996. p. 19-33). 26 LLOYD, Geoffrey. Desrrútifying mentalities. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. citações das p. 137 e 144.

A segmentação implica, por outro lado, esquecer as interações entre os diversos níveis da cultura, privando-nos de entender uma das dimensões mais importantes da popular, que era não apenas a de servir para preservar a identidade do grupo, mas também a de constituir uma base para resistir e negociar com os setores dominantes da sociedade: e isto vale tanto para o mundo da cultura medieval, como mostraram Bakhtin ou Gurevich, quanto para a manutenção de "culturas operárias", como explica Robert Colis, ou pára a resistência dós indígenas americanos à cultura dos conquistadores, como se pode ver no estudo da "perseguição de idolatrias" nos Andes.27 Assim, pois, nos encontramos, como em tantas outras ocasiões, com problemas importantes, conhecidos há muito tempo, que a reviravolta culturalista põe em destaque, apresentando-os como um novo campo de trabalho graças à simples operação de renomeá-los com uma nova terminologia vaga e confusa que, segundo Aron Gurevich, "tem inúmeros significados e pode levar a debates intermináveis". Os debates, no entanto, parecem encerrados, hoje. Como diz Peter Burke, os adeptos de ontem estão abandonando o campo das mentalidades. "Hoje, historiadores do grupo de Annales, de Jacques Le Goff a Roger Chartier, falam mais de "representações" ou do "imaginário social". O problema é que o novo território, embora menos extenso, é tão vago e mal definido como o anterior e parece ter aplicações concretas, geralmente discutíveis, apenas no que se refere às "atuações simbólicas" do poder político.2®

27 Uma mostra desta separação temos, por exemplo, em Muchembled, quando propõe analisar as diversas culturas, dos privilegiados e das camadas populares, em dois pólos separados, mas não interatuantes (MUCHEMBLED, R. Société etmentalités dans la France moderne, XVIe-XVIIIe siècle. Paris: Armand Colin, }990). COLLS, Robert. The pitmen of the northern coalfield: Work, culture and protest, 1790-1850. Manchester: Manchester University Press, 1987. No que diz respeito à "perseguição de idolatrias" nos Andes, cita-se, principalmente, as obras de Robert Duviols. De fato, neste campo da cultura popular, é mais útil o conceito de "custom" de Thompson que a vacuidade nebulosa das "mentalidades". 28 GUREVICH, Aron. Afterword. In: .. Medieval popular culture. Problems of belief and perception. Cambridge: Cambridge University Press, 1988. p. 225; BURKE, Peter. Varieties of culturpd history. Cambridge: Polity, 1997. p. 181. A indefinição do campo das representações pode ser constatada nos textos programáticos de Roger

Os anos setenta e os primeiros anos dos oitenta seriam de glória para os "nouveaux". Fundaram novas coleções de história destinadas ao grande público e se tornaram em "autores de sucesso" que apareciam na televisão, escreviam nos jornais e revistas de grande difusão,29 alcançando o que os velhos mestres não haviam podido obter: serem traduzidos e reconhecidos no estrangeiro, especialmente nos Estados Unidos, que acolhiam de boa vontade uma teoria de traço inovador que servia para reanimar a história acadêmica demasiado oxidada e que era, inclusive, aparentemente progressista, mas vacinada contra o marxismo que impregnava a nova esquerda local. Nos Estados Unidos, os medievalistas de Annales foram recebidos como autênticas vedetes: Cantor apresentou-nos o caso de Le Roy-Ladurie, que, Chartier: El mundo como representación, p. 56-52, Escribir las prácticas: discurso, práctica, representación. Valência: Fundación Canada Blanch, 1999, passim, La historia hoy en dia: dudas, desafios, propuestas. In: OLÁBARRI, I.; CAPISTEGUI, F. J. (Ed.). La "nueva" historia cultural... Madrid: Complutense, 1996. p. 19-33, com a repetição de fórmulas trinitárias de conjura como a que, referindo-se à realidade, diz que os textos tentam "organizá-la, submetê-la ou representá-la", e, em relação às representações, diz que os discursos "as descrevem, as prescrevem ou as proscrevem". 29 RIEFFEL, Rémy. Les historiens, l'édition et les médias. In: BÉDARIDA, François (Ed.). L'histoire et le métier d'historien en France, 195-1995. Paris: Maison des sciences de l'homme, 1995. p. 57-73. CARRARD, Philippe. Poétique de la Nouvelle histoire. Le discours historique en France de Braudel à Chartier. Paris: Éditions Payot Lausanne, 1998. p. 130-143 oferece-nos, ao mesmo tempo uma análise dos métodos narrativos dos "nouveaux", a partir da perspectiva de um professor de teoria literária, e uma visão mais objetiva dos "leitores da Nouvelle histoire" na época de apogeu, com os dados reais da tiragem das obras que lhe-foram proporcionados por Gallimard. À frente do "hit parade", está o Mointaillou de Le Roy Ladurie Com 203.540 exemplares (Rieffel calcula 150.000 até 1987, em edição normal), antes inclusive de Foucault porém, longe dos mais de dois milhões de exemplares que alguns chegam a atribuirlhe. O segundo, dentre os historiadores, é Duby com Les temps des-catedrales (86.500), Le dimanche de Bouvines (65.131) eLes trois ordres (28.850); os mastodônticos Lieux de mémoire, dirigidos por Nora, acumulam 76.500 exemplares, seguido por Le Goff (58.100 exemplares do Saint Louis e 30.000 de La naissance du purgatoire) e Furet (58.100 exemplares de Penser la Révolution française). O resto desce a cifras muito mais modestas, mas que contrastam com as da atualidade, quando, segundo o mesmo Carrard, este tipo de livro raramente passa de 1.000 exemplares. Duby reconhece que o retorno ao político, ao acontecimento, à biografia e, portanto à narração... foi favorecido pela expectativa do público (DUBBY, Gorges. L'histoire continue. Paris: Odile Jacob, 1991. p. 150-152).

em 1980, deu uma conferência em Nova York, lendo uma tradução inglesa "com um sotaque francês impenetrável" e em condições tais que, havendo falhado o som, só era ouvido pelos que estavam sentados nas primeiras filas. Não importava: "alto, loiro, magro, atraente, uma estrela gaulesa", o que interessava não eram os comentários sobre a sociedade medieval, "mas sua presença carismática". Isso ocorria ao mesmo tempo em que a New York Review of Books recebia as traduções dos livros de Le Goff com elogios entusiásticos. A influência dos "nouveaux" animou os medievalistas norte-americanos a esquecerem os aspectos sociais da história, a falar de mentalidades mais do que de feudalismo.30 Em meio à sua glória aparente e à realidade de um poder que ainda hoje conservam - mas não os leitores, que os foram abandonando - , os "nouveaux" viram-se surpreendidos, vinte anos após a ruptura com Braudel, pela revolta de uma nova geração, que menosprezava a superficialidade de suas realizações. Um novo manifesto, "Histoire et sciences sociales. Un tournant critique?", publicado em 1988, denunciava que o despedaçamento da história, saudado por Nora com tanta alegria nos momentos iniciais da "nouvelle histoire", refletia também "o ecleticismo de uma produção abundante, mas anárquica".31 Como a esterilidade da "nouvelle histoire" era evidente ao fim de tantos anos - a escola não produzira, ao longo do período, nada que pudesse ser comparado aos grandes livros de Labrousse, Braudel ou Vilar - , uma nova geração começou a procurar outros enfoques metodológicos. O que denominaram de "tournant critique", porém, não deu lugar a uma nova fundamentação metodológica coletiva e

30 CANTOR, Norman F. Inventing the Middle Ages. New York: William Morrow and Co., 1994. p. 152-156; FREED MAN, Paul. Seigneurie et paysannerie au moyen âge. Un retrait de l'historiographie américaine. Histoire et sociétés rurales, n. 14, p. 153168,2000. ' 31 Histoire et sciences sociales. Um tournant critique? Annales, n. 2, p. 291-293, mars/avril 1988.0 texto seria de Bernard Lepetit e Jacques Revel (Aguirre, La escuela de los Annales, p. 195). Sobre isto veja-se LEPETIT, Bernard. Histoire des pratiques, pratiques de l'histoire. In: . (Ed.). Les formes de l'experience. Une autre histoire sociale. Paris: Albin Michel, 1995. p. 9-22. Uma crítica do "tournant" e de Lepetit em NOIRIEL, Gerard. Sur la "crise" de l'histoire. Paris: Belin, 1996. p. 150-163 (existe tradução castelhana publicada pela Universidade de Valência).

acabou levando ao aumento da fragmentação e da dispersão. Após dez anos de haver publicado sua análise "da história em migalhas", François Dosse apresenta-nos, em novo livro sobre as "ciências humanas", - L'empire du sens ~2 o panorama de uma história que se dispersa nas mais diversas tendências: a história narrativa inspirada na obra filosófica de Ricoeur, a "pluralização" das temporalidades"... É verdade que não se trata de escolas, mas, antes, de tendências que, emjiiuitos aspectos, se sobrepõem. Porém, o resultado final da nova etapa de mudança parece ser, em muitos casos, o predomínio da especulação filosófica e sociológica que serve de fundamento a numerosos ensaios de teorização e não a uma grande obra de pesquisa histórica que pudesse ser tomada como modelo. Em meio a essa dispersão, há poucas vozes que pretendem refletir seriamente sobre os caminhos a tomar, como Bernard Lepetit e Gerard Noiriel. Bernard Lepetit (falecido em 1996), criticava o "positivismo empoeirado" da etapa labroussiano-braudeliana de Annales e, mais ainda, a falta de conteúdo do relativismo da "nouvelle histoire". A partir dela, com um léxico onde ecoam, ao mesmo tempo, Foucault e Bourdieu, propunha saídas supostamente "pragmáticas" com um discurso metodológico demasiado retórico e confuso que invocava Mare Bloch, tratava de recuperar Labrousse e pretendia incorporar, ao mesmo tempo, a imediatez proporcionada pelos métodos da micro-história para construir uma históriardência social muito próxima da sociologia, que analisaria a sociedade como "uma categoria da prática social".33 32 DOSSE, François. L'empire du sens. L'humanisation des sciences humaines. Paris: La Découverte, 1997; tradução brasileira, O Império do sentido: a humanização das ciências humanas. Bauru: EDUSC, 2003. O livro refere-se quase exclusivamente à França, mas o fato de confundir a França com o miindo é um velho costume da cultura francesa, que conserva o vício inclusive em momentos, eomo os atuais, de decadência. 33 Para acompanhar as idéias de Lepetit, que deixou uma obra de pesquisa limitada (Les Villes dans la France moderne), pode-se partir do volume coletivo, "editado" por ele, Les formes de l'expérience. Un autre histoire sociale, jácitado, com uma espécie de manifesto - "Histoire des pratiques, pratiques de l'histoire", p. 9-22, ou da versão mais reduzida: LEPETIT, Bernard. La société comme ùm tout. In: BARROS, Carlos (EcJ.). Historia a debate. Santiago de Compostela: [s.n.], 1995.1, p. 147-158. Os textos teóricos mais interessantes, como "Le présent de l'histoire" - publicado

Gerard Noiriel, que parte de uma recuperação do Mare Bloch da Apologie pour l'histoire, realizou uma reflexão crítica sobre a denominada "crise da história" buscando soluções pragmáticas. Demonstra um interesse muito especial, como especialista e teórico da história contemporânea - desprestigiada pélas duas gerações "analíticas" anteriores por estudar talvez, matérias que impõem um compromisso político explícito - , que os historiadores não a continuem evitando, porque os problemas de que se ocupa são os que, neste momento, estão no centro da atenção do público e dos meios de comunicação. O mais importante de Noiriel é que não se limita a reflexões teóricas abstratas, como fazem com freqüência os "post-nouveaux", mas integra suas formulações em estudos sobre temas especialmente engajados, como o direito de asilo na França ou as origens do regime de Vichy.34 Enquanto isso, o que resta dos "nouveaux" dedica-se, diz Antoine Prost, a refinados jogos de erudição e experimentações lúdicas que não interessam quase a ninguém niais, afora uma comunidade que corre ò risco de se tornar "um cliibe de auto-celebração mútua", integrado por especialistas de um tipo de história que "renunciou dizer qualquer coisa sobre os problemas atuais".35 Passada â glória dos anos em que estiveram na moda, os historiadores franceses - diferentemente do que ocorre com osfilósofosou os sociólogos do mesmo país, felizes vendedores afortunados de mercadorias nem sempre em bom estado - têm hoje uma escassa influência nas correntes da ciência histórica mundial. Encerrados numa cultura demasiado local, sua audiência reduz-se ao próprio país e a alguns outros, culturalmente depeniriicialmente em Les formes de l'expérience, p. 273-298 - ou "Une logique du raisonnement historique" (Annales, 48-1913-, n. 5, p. 1209-1219, no qual afirma enfaticamente que "Histoire et sociologie constituent des projets de connaissances indiscernables") foram reunidos no volume póstumo Carnet de croquis. Sur la connaissance historique. Paris: Albin Michel, 1999. 34 Além de La crise de l'histoire, já citada, utilizei de NOIRIEL. Qu'est-ce que l'histoire contemporaine? Paris: Hachette, 1998; Réfugiés et sans-papiers. La République face au droit d'asile, XIXe-XXe siècle. Paris: Hachette, 1998; e Les origenes républicaines de Vichy. Paris: Hachette, 1999. 35 PROST, Antoine. Douze leçons sur l'histoire. Paris: Seuil, 1996. p. 286.

dentes, como Espanha, México ou, em menor escala, Itália.36 O mais importante qüe se pode dizer da reviravolta de que falamos, sobre a qual os próprios franceses produziram uma ampla literatura, é que se trata de, um simples episódio de um fenômeno de alcance mundial, que convém reduzi-lo às justas proporções. No mundo, ocorreram muitas outras coisas desde os anos sessenta e os "tournants" de que se ocuparãoos que estudarem, no futuro, a evolução da historiografia mundial nestes anos não se reduzirão às bçigas de grupinhos parisienses mas, sim, tratarão do surgimento de linhas de estudo . que formulam novos problemas relevantes para os homens e mulheres de hoje ou que oferecem novos métodos para analisar os velhos problemas. Nos Estados Unidos, os anos sessenta assistiram à desagregação do consenso e do conformismo dos primeiros anos da guerra fria sob o impacto da crise provocada pelo conflito do Vietnã - que deu lugar a que vozes críticas se elevassem nas universidades, silenciadas, em certos momentos, a tiros - e pelo movimento dos direitos civis. Foi nestes anos que se desenvolveu uma contracultura de protesto e nasceu a,£Ínova esquerda": "um movimento de jovens brancos contra o racismo e o imperialismo que floresceu nos "colleges" e nas universidades dos Estados Unidos nos anos sessenta" e que, embora por pouco tempo, "conseguiu o que a esquerda americana não tinha alcançado em um século de tentativas: criar um autêntico movimento de massas". No terreno da história, a "nova esquerda" inspirou uma série de pesquisadores que rompiam com a velha versão do consenso. Um papel destacado corresponderia à "nova história diplomática" de William Appleman Williams, que denunciava a tradição

36 Um manual francês de Philippe Tétart, intitulado Petite histoire des historiens (Paris: Armand Colin, 1998; tradução brasileira, Pequena história, dos historiadores. Bauru: EDUSC, 2000.), por exemplo, fala-nos dè Heródoto ou de Tácito, na antigüidade mas, quando se refere à segunda metade do século XX, limita-se a citar nomes franceses - incluindo os de interesse puramente local - , como se fosse tudo o que é necessário conhecer. Se for considerado, em contrapartida, um volume norte-americano de readings sobre os mesmos problemas, como o de FAY, Brian; POMPER, Philip; VANN, R. T. (Ed.). History and theory, Contemporary readings. Malde, MA: Blackwell, 1998, descobrir-se-ia com surpresa que não foi necessário selecionar nenhum texto de autor francês (e que muitos dos que, na França, pareciam essenciais, não aparecem sequer mencionados).

imperialista norte-americana (The tragedy of American diplomacy; 1959; The roots of the modern American Empire, 1969), influenciando historiadores "revisionistas" como Gabriel Kolko. Mas ocorriam, também, mudanças em muitos outros campos: tentativas de escrever uma história "dos de baixo" como a de Howard Zinn (A people's history of the United States, 1980) e uma aproximação aos métodos dos marxistas britânicos, em especial aos de Edward P. Thompson, por parte do grupo da Radical History Review.37 O sistema conseguiu, no entanto, manter isolada a tendência radical e a reviravolta culturalísta expressou-se principalmente, tanto íios Estados Unidos como na Grã-Bretanha, através do abandono da velha história social em favor da cultura e da reviravolta lingüística. Um dos prin- . ripais protagonistas da reviravolta cultural nos Estados Unidos foi Hayden White, professor de "história da consciência" na Universidade da Califórnia, Santa Cruz, que elaboraria uma combinação entre teoria da história e teoria literária para chegar a uma "teoria tropõlógica" do discurso que levava a considerar a obra histórica como "uma estrutura verbal em forma de discurso em prosa narrativa" que, para além dos dados que possa conter, tem um componente estrutural profundo, de natureza poética e lingüística, que serve como paradigma pré-criticamente aceito da interpretação. Esta "infra-estrutura meta-histórica" não está formada pelos conceitos teóricos explicitamente usados pelo historiador quando quer

37 Uso a definição da "new left" de ROSSINOW, Doug. The New Left in the counterculture: hypotheses and evidence. Radical History Review, 67, p. 79-120,1997 (citações da p. 79), e a citação seguinte de BRINKLEY, Alan. Liberalism and its discontents. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1998. p. 222. Pouca coisa sobre estes grúpos num livro coletivo de MOLLO, Anthony S.; WOOD, Gordon S. (Ed.). Imagined histories. American historians interpret the past. Princeton: Princeton University Press, 1998 (em especial James T. Patterson "Americans and the writing of twentieth-century United States History", p. 185-205). Para FONER, Eric. The story of American freedom. New York: Norton, 1998, a nova esquerda nasce com livros que rompem o consenso - como Silent spring de Rachel Carson - , com a mobilização das universidades e a segunda onda de feminismo. Utilizei diretamente os livros de Williams, Kolko e Zinn.

dar, à narrativa, o aspecto de uma explicação, mas depende de um nível profundo em que o historiador realiza um ato essencialmente poético, no qual "prefigura o campo histórico e o constitui como um domínio sobre o qual se aplicam as teorias específicas que utilizará para explicar 'o que realmente estava acontecendo'". A interpretação histórica aparece, assim, denunciada como um procedimento que não.tem nada a ver com os métodos da ciência, mas que se realiza, "excluindo determinados fatos do relato, considerados irrelevantes para o propósito narrativo" e incluindo, com o fim de tornar possível a explicação que propõe, especulações que não se encontram nos fatos verificáveis. A visão do passado que nos oferece um historiador não deriva, portanto, da evidência que utiliza - já que seleciona o que considera significativo e (vale a pena recordar - , mas das escolhas conscientes e inconscientes que fez, de acordo com a "poética histórica" que usa.38 Na mesma linha, F. R. Ankersmith fez um ataque sistemático à história, acusando os historiadores de não fazerem caso de "teóricos", comó White ou ele, devido a que "são dolorosamente conscientes de que o debate histórico raras vezes leva a resultados concludentes e que coisas tão lamentáveis como as modas intelectuais óu a preferência política podem influir em suas opiniões sobre o passado. Os historiadores sabem, no fundo de seus corações que, apesar da ênfase que colocam na necessidade de uma adequada pesquisa das fontes e de uma interpretação prudente e responsável, a história encontra-se no nível mais inferior de categoria científica de todas as disciplinas ensinadas numa-universidade".39 38 WHITE, Hayden. Metahistory. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1973 , (existe tradução castelhana, México: Fondo de Cultura Económica, 1992), Tropics of discourse: Essays in cultural criticism. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1978 (utilizo principalmente "Interpretation in history", p. 51-80) e The content of the form. Narrative discourse and historical representation. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1990. 39 F. R. Anskermith, "Hayden White's appeal to the historians", artigo incluído na otjra coletiva que, para comemorar os vinte e cinco anos de Metahistory, foi publicada em History and theory, 37, n. 2, p. 143-193,1998 ("Hàyden White: Twenty-five years on"). O artigo de Ankersmith nas p. 182-193; a citação da p. 183.

Us argumentos de White, como os de todos os que pretendem desqualificar a história, reduzindo-a à narração, são irrelevantes. É evidente que a complexidade da tarefa do historiador, enfrentando a diversidade inalcançável dó mundo real, obriga-o a fazer seleções - ninguém pode fazer a história "completa", no sentido que exige White, do que aconteceu numa só cidade num só dia do passado - e isso condiciona a perspectiva. Mas estas limitações são úm reflexo das vividas pelo homem comum na vida cotidiana. Também ele escolhe os aspectos da realidade que o envolve, considerados de acordo com as necessidades da vida. Também a memória do passado é seletiva e influenciada por preferências diversas, incluindo as políticas, que filtram a percepção do que acontece ao redor. Ao receber as notícias dos acontecimentos imediatos, que podem ser importantes para ele, o mais provável é que escolha a fonte de informação de acordo com suas preferências e é certo que nela selecionará notícias determinadas. Nenhum jornal pode recolher a totalidade do que aconteceu no dia anterior e ninguém lê um jornal moderno por completo, da primeira à última palavra, mas orienta-se pelas seções e pelos títulos, escolhendo as notícias que o interessam ou o atraem. A vida real é assim, não somente a história. Este é o contraste que se estabelece entre o trabalho do historiador e o do teórico de disciplinas culturais que funcionam fabricando pequenos universos delimitados que podem ser manejados com ferramentas elementares. Com isto, o teórico pode alcançar êxito na carreira acadêmica, mas suas ferramentas não servem para nada quando tiver de sair do recinto universitário e enfrentar a realidade exterior, que é matizada e confusa como o panorama do passado em que o historiador se move, guiando-se pelo sentido da utilidade social dó trabalho, que é um critério essencial para suas escolhás. No terreno da história, a reviravolta cultural foi tardia. Geof Eley data-a em torno de 1980 e a associa ao surgimento de "uma nova geração" (a que se preparou nos sessenta e princípios dos setenta), que reclamava um espaço institucional distinto do da história social dominante. Começou denunciando as "insuficiências do "marxismo vulgar"", do estudo quantitativo da experiência cotidiana e da vida material, propondo substituí-los por um "tipo mais sofisticado de história cultural" que se inseria,

inicialmente, dentro do campò do marxismo, mas que significava o início de sua liquidação.40 ^ Foi já nos anos noventa que Patrick Joyoe escreveu, na Inglaterra, "se antes todos éramos historiadores sociais, agora todos começamos a ser historiadores culturais. A "história cultural" parece ser a nova identidade disciplinar que organiza cada vez mais o formato-da atividade acadêmica", ou quando Keith Baker, nos Estados Unidos, reinvidicou uma "história intelectual" que não seja "um campo diferente de pesquisa com uma matéria bem definida", mas uma maneira de fazer história, em termos gerais. Na Alema-. nha, considera-se que foi nos anos oitenta e noventa que o "social turn" foi abandonado, ocorrendo a reviravolta da "hiStorische Sozialwissenschaft" para uma "historische Kulturwissenschaft" para uma que, mais que traduzir a evolução que se produzia nos países anglo-saxões, buscou recuperar as velhas tradições, especialmente o pensamento de Max Weber,41 Uma mostra da ambigüidade da reviravolta a que estamos nos referindo e de como o caráter de ruptura de gerações pode ser essencial, ocorreu no campo da arqueologia, onde, nos anos sessenta, um griâpo de arqueólogos anglo-saxões, principalmente norte-americanos, querendo afastar-se da tradição existente na disciplina, que era essencialmente história da cultura; decidiram que deviam ser mais "científicos" e mais antropológicos, privilegiando o pensar em termos de sistemas com uma ênfase materialista. A "nova arqueologia" - denominação usada pela primeira vez i ' 40 ELEY, Geoff. Is ali the world a text? FronTsocial history to the history of society two decades later. In: McDONALD, Terrence J. (Ed.). The historie turn in the hutnan sciences. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1996. p. 193-242. 41 JOYCE, Patrick. The réturn of history: postmodernism and the polities of academic history in Britain. Past and Present,158, p. 207-235, Feb. 1998 (citação da p. 229). Joyce contribuirá para atacar o velho paradigma com "The end of social history" (Social history, XX (1995) com réplica de Eley e Nield na mesma revista e ano, e uma resposta de Joyce em XXI (1996). BAKER, Keith Michael,. Inventing the French revolution. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. p. 12. DELLE DONNE, Roberto. Nei "vórtice infinito delle storicizzazioni": Ottp Gerhard Oexle, Adalberone di Laon e a "scienza storica delia cultura". In: ROSSETTI, Gabriçl; VITOLO, Giovanni (Ed.). Medioevo Mezzogiomo Mediterrâneo. Studi in onoreí di Mario dei Treppo. Napoli: Liguori, 2000. II, p. 329-375.

em 1958 nos Estados Unidos preocupada com os modelos ecológicos; e com as pautas de assentamento humano, colocava maior interesse nos "processos" humanos, de onde viria o nome de "arqueologia processual" combatendo a velha tendência de considerar cada fenômeno cultural como um acontecimento único. Tratava-se de construir uma ciência capaz de descobrir as leis que regulam os processos humanos, indo mais além dos contextos histórico e cultural. O homem que deu forma a estas tendências foi Lewis Binford, que considerava que a aproximação à antropologia proporcionava novos métodos para estudar os comportamentos culturais. A nova arqueologia que, pela própria opção de cientificismo, desempenhou um papel muito positivo na renovação dos métodos de pesquisa e dè interpretação,"recebeu contribuições de pesquisadores britânicos influenciados pela "nova geografia" e por seu enfoque sistemático, como David Clarke. Encontrou mais dificuldade de se desenvolver em outros países europeus, que tinham uma forte tradição historicista. Nos anos oitenta, como veremos mais adiante, a arqueologia processual entrou em crise e começou a sofrer ataques oriundos das correntes pós-modernas, que voltariam a aproximá-la, paradoxalmente, da ótica cultural.42 Um dos aspectos mais visíveis da reviravolta cultural e dos mais influenciados pelos "cultural studies" de origem literária é o da análise do discurso, que pode ser inscrito dentro do que se denomina a "reviravolta lingüística", um fenômeno que afetou a filosofia há algumas décadas43 e 42 TRIGGER, Bruce R. Historia del pensamiento arqueológico. Barcelona: Crítica, 1992; BINFORD, Lewis R. En busca del posado. Descifrando el registro arqueológico. Barcelona: Crítica, 1988; CLARKE, David L. Arqueologia analítica, Barcelona: Bellaterra, 1984; WATSON, Patty Jo; LE BLANC, S. A.; REDMAN, Charles L. Archeological explanation. The scientific method in archeology. New York: Columbia University Press, 1984. Utilizei, também, o excelente artigo de Nicola Terrenato sobre "new archeology" em FRANCOVICH, R.; MANACORDA, D. (Ed.). Dizionario di archeologia. Roma: Laterza, 2000.-p. 204-206. "A arqueologia é história da cultura ou não é nada", dirá Ian Morris: é história porque se ocupa do passado e, como estuda os festos da cultura material, é cultural (Archaeology as cultural history. Oxford: Blackwell, 2000. p. 3). 43 Utilizo o tempo passado, seguindo a opinião de Rorty no texto, "Veinte anos después" escrito em 1990 para a edição espanhola de seu livro El giro lingüístico. Barcelona: Paidós, 1990. Em SCHÕTTLER, Peter. Historians and discourse analysis. History Workshop, n. 27, p. 37-65, 1989, pode ser encontrada uma visão global da influência da análise do discurso no trabalho dos historiadores.

que vem perdendo, atualmente, terreno nos próprios, estudos literários, campo em que conheceu o maior florescimento, a partir da denúncia da futilidade de seus métodos, feita tanto por estudiosos de posições conservadoras, como a de Allan Bioom em The closing of American mind, quanto por outros, de esquerda.44 O mais paradoxal é qúe a extensão à história de métodos de análise de texto surgidos no campo dos estudos culturais produziu-se quando, nesses estudos e em outros das ciências humanas e sociais, estava ocorrendo uma "reviravolta historicista" tal como denunciava, alarmado, em 1987, o presidente da Modern Language Association norte-americana. Da nova evolução, nasceriam, nos estudos culturais, correntes como o chamado "novo historicismo", com a proposta de enriquecer as práticas formalistas da crítica literária com uma peculiar atenção ao contexto histórico, o "materialismo cultural" (que vem a ser o mesmo, mas com uma carga adicional de politização) ou a "nova história cultural", que é mais uma mescla eclética que define a posição atual de. um grupo que, depois de ter abandonado a fundamentação da análise da cultura nas realidades sociais, não aceitou as propostas baseadas na teoria literária de Hayden White e Dominick La Capra, caindo sob a influência da antropologia e, principalmente, de Clifford Geertz.45 44 TAYLOR, Gary. Reinventing Shakespeare. A cultural history from the Restoration to the present. London: Vintage, 1991; WASHINGTON, Peter. Fraud., Literary theory and the end of English. London: Fontana Press, 1989. Uma das explicações dadas para o êxito que teve no estamento acadêmico, é que este o adotou pelo fato de que assim sentia-se reforçado na rejeição de qualquer teorização: "de repente, as atitudes obstinadas e persistentes que se sentiam ameaçadas pela análise teórica, puderam adotar elas mesmas a vestimenta da teoria" (ELLIS, John M. Against deconstruction. Princeton: Princeton University Press, 1989. p. 154). Edward W. Said vai mais longe e crê existir uma relação entre "a emergência de umafilosofiatão estreitamente definida como de pura textualidade e não interferência crítica" com a ascensão do "Reaganismo" e "uma reviravolta generalizada à direita no que se refere à economia, aos serviços sociais e ao trabalho organizado" (em The world, the text and the critic. London: Vintage, 1991 - a edição original é de 1984 - p. 4). 45 Sobre os aspectos gerais da "reviravolta historicista", destaca-se o livro já citado: McDONALD, Terrence J. (Ed.). The historie turn in the human sciences. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1996. Sobre as'novas correntes dos estudos culturais, neste volume: Steven Mullaney, "Discursive forums, cultural practices: History and

Os efeitos da "reviravolta lingüística" na história foram tardios e apareceram nos Estados Unidos como conseqüência da crise da história intelectual, como a participação direta de Hayden White e de La Capra e com a colaboração, desde o primeiro momento, de Roger Chartier." De fato, os partidários da reviravolta eram muito menos inovadores do que pretendiam. No terreno da história, havia já uma larga tradição de estudo de linguagem e de discurso, que conduzira a desenvolvimentos específicos como o da Begriffgeschichte ou "história dos conceitos" alemã - que se propõe a reconstruir o significado dos conceitos que se encontram na linguagem das fontes - ou os métodos de análise dos conteúdos da sociologia histórica, que têm pouco a ver com o tipo de elaborações culturalistas que foram estendendo-se entre os historiadores e que deram lugar a uma invasão de análise do discurso - mais tarde, das "representações" - que ameaça substituir o da realidade.47 anthropology in literary studies", p. 161-189. Mais especificamente; VEESER, H. Aram (Ed.). The new historicism. New York: Routledge, 1989; onde Haydén White avisa que voltar a tomar em consideração a história significa muito mais que adotar uma nova técnica de análise ("New Historicism: a comment", p. 293-302); PENEDO, Antonio; PONTÒN, Gonzalo (Ed.). Nuevo historicismo. Madrid: Arco/Libros, 1998; HUNT, Lynn (Ed.). The new cultural history. Berkeley: University of California Press, 1989. (Principalmente: introduction: History, culture and text, p. 1-22). Acerca das semelhanças e diferenças do "novo historicismo" e do "materialismo cultural", BARRY, Peter. Beginning theory. Manchester: Manchester University Press, 1995. p. 184-188. 46 As primeiras manifestações teriam ocorrido num colóquio em Cornell em 1980. Veja-se, sobre isto, NOIRIEL, Gerard. Sur la "crise" de l'histoire. Paris: Belin, 1996. p. 126-148. 47 EVANS, R. J. W. The language of history and the history of language. Oxford: Clarendon Press, 1998. Em etapas anteriores, há análises de vocabulário como os de Pierre Vilar, "Pátria e nação no vocabulário da guerra contra Napoleão", publicado originalmente em Annales historiques de la Révolution Française, ocL/ déc. 1971 - ou os de Régine Robin (La société française en 1789: Semur-en-Auxois. Paris: Pion, 1970). Sobre a Begriffsgeschichte, RICHTER, Melvin. The history of political and social concepts. A critical introduction. New York: Oxford University Press, 1995; HÖLSCHER, Lucian. Los fundamentos teóricos de la historia de los conceptos. In: OLÁBARRI, I.; CASPISTEGUI, F. J. (Ed.). La nueva historia cultural: la influencia del postestructuralismo y el auge de la interdisciplinariedad. Madrid: Complutense, 1996. p. 69-82. Uma exposição metodológica sobre as análises de conteúdo, na linha da sociologia histórica, pode ser encontrada em SHAPIRO, Gil* bert; MARKOFF, John. Revolutionary demands. A content analysis of the Cahiers de

É verdade que há elementos loteis na consciência crítica do texto que servem para nos proteger de leituras anacrônicas e, por isso mesmo, incorretas dos testemunhos do passado. Mas, uma vez feita a tarefa de depuração, torna-se um exagero permanecer paralisado como se os textos não fossem suscetíveis de uso. Entre Outras razões, porque textos de tipos distintos e construídos com linguagens e intenções diversas podem ser contrastados entre si mas, também pelo fatoxle que o historiador trabalha, ainda, com evidências arqueológicas (cuja importância para as histórias medieval e moderna, não somente para a antiga, é cada vez mais evidente)48 e com um tipo de dados quantitativos, como os elementares da demografia (nascimento, fecundidade, esperança de vida, mortalidade) que dificilmente podem ser "desconstruídos".49 Por outro lado, a luta contra as interpretações anacrônicas das linguagens do passado está ligada a um problema de alcance mais amplo. Ao esquecer que muitas coisas que para nós são claras, uma vez conhecido o desenlace, eram enigmáticas ou duvidosas para os que "as viveram, procedemos, inadvertidamente, a uma retrospectiva esclarecedora do passado: a uma leitura para trás do curso da história, uma retrospecção, acompanhadoléances õ/1789. Stanford: Stanford University Press, 1998. p. 17-96 ("The role of content analysis in social science"). 48 JOHNSON, Mattew. An archaelogy ofcapitalista. Oxford: Blackwell, 1996, que propõe uma espécie de arqueologia pesquisada "tanto nas práticas culturais e sociais cotidianas como nas transformações econômicas em grande escala" (p. 155); FALK, Lisa (Ed.). Historical archaeology in glai/al perspective. Washington: Smithsonian Institutioií Press, Í991. 49 Um exemplo da escassa'consistência do método pode dar-nos o livro de FIGES, Orlando; KOLONITSKII, Bóris. Interpreting the Russian revolution. The language and symbols of 1917. New Haven: Yale University Press, 1999. A análise do "culto a Kerensky" (p. 76-96), por exemplo, não, explica nada sobre as causas de sua perda de prestígio, que não se produz no terreno da linguagem nem dos símbolos, mas nos dos resultados de sua política; a tentativa de estabelecer diferenças entre a consciência de pertença ao "povo trabalhador" ou à "classe operária" (p. 107 Çt seq.) não leva a grande coisa, enquanto algumas das contribuições mais interessantes do livro, como as que fazem referência à mobilização dos camponeses, acabam lévando-nos às raízes objetivas dos problemas do grupo, expressas através da cultura: porque está claro que todo problema de grupo se filtra através de uma cultura, não somente de um vocabulário, para exprdssar-se e compartilhar.

da pela falsificação. Para entender as ações dos homens e das mulheres do passado, é presciso averiguar o que pensavam realmente, as esperanças e os temores que os moviam, incluindo, também ou talvez sobretudo, aquelas que, não tendo se realizado, perdemos de vista (mas que se conservam em muitos dos textos mais diretos e pessoais que nos chegaram, como são os diários e as cartas). Só assim poderemos entender as razões que os levaram a tomar as decisões, em vez de convertê-los em fantoches que atuam segundo um roteiro predeterminado, do qual só nós conhecemos o desenlace. Só assim entenderemos corretamente suas palavras. Podemos talvez remediar a falha, elaborando uma antropologia histórica como a proposta por Aron Gurevich, que a define como o método que permite compreender de que maneira "uma corrente caótica e heterogênea de percepções e de impressões transforma-se, por obra da consciência, numa visão, de mundo ordenada que põe a marca sobre qualquer conduta humana". Uma das principais utilidades da análise de texto consiste na possibilidade de examinar como os textos legitimadores são elaborados, começando pelos próprios relatos históricos. A verdade é que a retórica dos his-. toriadores não tem nada de excepcional, já que não é, em essência, outra coisa do que a manifestação daquela "retórica da ciência" que Alan Gross estudou, construída de maneira que consiga persuadir àqueles a quem se destina de que não é retórica, mas demonstração. Boa parte das reiteradas elucubrações em torno da história como narração - Hayden White, Ricoeur, etc. - , que parecem colocar a questão como se fosse um problema específico da história, ameaçando-a de se ver expulsa do terreno da ciência para cair no da literatura, não consideram que a narração é a forma habitual com que o homem organiza os conhecimentos, inclusive os das ciências naturais. Como diz Stephen Jay Gould: "nós, seres humanos, somos contadores de histórias por natureza; organizamos o mundo como um conjunto de contos".50 Os historiadores não têm que pedir desculpas por fazer o mesmo.

50 GROSS, Alan G. The rethoric of science. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1990 (veja-se a resenha de John Durant em Times Literary Supplement, p. 19,15 Mar 1991); GOULD, Stephen Jay. Milênio. Barcelona: Crítica, 1998. p. 164-165.

Uma coisa é o uso e outra o abuso da preocupação pela análise do discurso, cuja vacuidade fica evidente na prática de historiadores para quem os textos se reduzem aos de caráter mais geral e aos de afirmações programáticas, desconhecendo ou menosprezando outros textos essenciais que permitem aproximar-nos mais diretamente dos problemas reais dos homens, como são os documentos e, especialmente, aquele tipo que não pretende transmitir doutrina, mas destina-os a atuar na sociedade da época (o que não quer dizer, evidentemente, que sejam inocentes). Para proceder à análise adequada dos textos, é necessário comparar os de todos os níveis. É presciso examinar, por exemplo, a diferença existente entre as crônicas oficiais da conquista espanhola da América dos séculos XVI e XVII ou a retórica da "hispanidad" do século XX e a documentação da administração espanhola, colonial e pós-colonial, como, à guisa de exemplo, os textos internos dos governos do século XVIII que falam cruamente das colônias da América como de um objeto de exploração econômica. Uma análise deste tipo evidencia trivialidades como as de Colin M. MacLahán, que se dedica a nos explicar o que não conhece nem entende num livro em que afirma que "o mundo espanhol funcionava politicamente como uma construção intelectual", onde procura interpretar, sem mostrar conhecimento algum da realidade, a história de uma América" colonial onde a população nem diminui nem cresce, onde não há minas - nem, naturalmente, indígenas trabalhando nelas - , nem fazendas, nem construções, nem escravos negros. Disso pode-se deduzir que é justamente este tipo de história que "funciona" "como uma construção intelectual" carente de fundamentos reais.51 51 MCLACHLAN, Colin M. Spain's empire in the New World. The role of ideas in institutional and social change. Berkeley: University of California Press, 1988. Em muitos pontos concretos do texto o autor mostra a ignorância acerca da bibliografia mais elementar sobre as questões acerca das quais pontifica. Outro caso de vacuidade - podiam multiplicar-se os exemplos - temos em GREEN, Bryan S. Knowing the poor. A case-study in textual reality construction. London: Routledge and Kegan Paul, 1983, um "estudo sobre a construção textual da realidade" referente às leis britânicas dos pobres, onde o autor explica que "os políticos não reagem frente à própria realidade, mas frente à realidade construída socialmente e que a forma em que a sociedade é conhecida para propósitos políticos e administrativos depende de práticas específicas de leitura e escritura".

Uma coisa é usar a análise dos textos para aproximar-se de uma realidade que os mesmos revelam, áo mesmo tempo que disfarçam, como faz Carlo Ginzburg com os documentos policiais e judiciais, com o propósito de reivindicar a inocência de um homem que supõe condenado injustamente (reivindicação que não podia ser feita a partir da atitude que considera que o viés dos discursos demonstra que, não é possível chegar a conhecer algo a partir deles). Outra é formular seriamente os problemas que a chamada "construção social" da realidade implica. E outra, muito distinta, finalmente, é a tentativa de escamotear a realidade social que existe além das palavras, como faz Patrick Joyce ao dizer que não é a classe que cria a linguagem, mas é a linguagem que produz a classe e que esta não é mais do que um "produto discursivo". Afirmação circular, porque necessita de outra explicação prévia que diga como foi criado o tipo de linguagem concreta cuja identificação produz a classe, sendo que a explicação deve prestar contas, além disso, das razões pelas quais um grupo humano escolheu justamente uma linguagem específica que o marca e diferencia dentre todas às variedades de linguagens que podia escolher. Não parece, por outro lado, que este tipo de elucubrações sejam úteis para aproximar-nos, não da história, mas dós problemas atuais de grupos sociais que, além de estarem "construídos discursivamente" - o que ninguém negará - , apresentam características objetivamente verificáveis que os distinguem, como a de ter níveis de vida e expectativas muito diferentes.52 Com muita freqüência, pode-se observar que a teorização sobre o discurso e sobre as representações não faz mais que examinar velhos problemas, amplamente explorados no passado, repetindo observações que já tinham sido feitas, ou que são óbvias, com um vocabulário novo - com 52 GINZBURG, Carlo. The judge and the historian. Marginal notes on a late-twentiethcentury miscarriage ofjustice. London: Verso, 1999 (última, até o momento, edição de um texto que se ampliou com o tempo). Sobre classe e discurso, veja-se G. S. Jones, Languages of class, 1983 e Patrick Joyce, Visions of the people. Sobre isto, TAYLOR, Miles. The linguistic turn in British Social History. Rolletino del dicianovesimo secolo, (Napoli), 4, p. 5-13,1995. De um modo semelhante, existem neoliberais que dizem hoje que a pobreza "é uma invenção das Nações Unidas": ninguém negará que as definições de pobreza são convenções "discursivas", mas os mortos de fome não o são.

Hayden White, Foucault, Ricoeur e o padre de Certeau como provedores de léxico - e uma nova retórica, com o que se inculcava, nos leitores desprevenidos, a ilusão de uma novidade interessante (um procedimento que, por outro lado, proporciona, aos profissionais em busca de respeitabilidade, a segurança de estar na última moda).53 Na verdade, não há mais do que uma fantasmagoria em tudo isto, geralmente reacionária, com uma viva preocupação em evitar "o confronto com as realidades da economia política e as circunstâncias do poder global".54 Providos das armas da retórica, os "textualistas" podem continuar com a ilusão de oferecer normas ao mundo e ganhar batalhas que organizam, tendo fixado previamente as regras de combate, as quais lhes garantem a vitória por antecipação. Nunca serão derrotados neste tipo de escaramuças, do mesmo modo que ninguém conseguiu bater os escolásticos tardios à base de silogismos; mas, a esterilidade vazia de seu trabalho, que não contribui com nada de útil para as "práticas não discursivas" dos homens e mulheres de hoje, acabárárelegarido-osao mesmo esquecimento em que repousa o saber tardio-aristotélico que manteve vitoriosos combates retóricos contra a revolução científica. Mü vezes mais úteis que as elucubrações verbais são, para o historiador, as contribuições da ciência cognitiva, as novas visões que mostram a complexidade dos mecanismos de formação das recordações evocadas pela memória - a forma pela qual a mente humana transforma um feixe de sensações diversas numa recordação que podem sugerir caminhos úteis para pesquisar o processo de formação da memória coletiva que denominamos história.

53 Um exemplo, entre muitos possíveis, podemos encontrá-lo em um texto como "Objetividad y subjetividad en la historia" de Paul Ricoeur (em Historia y verdad. Madrid: Encuentro, 1990. p. 23-40) onde se encadeiam as mais velhas trivialidades sobre o tema, apresentadas como novidades filosóficas. 54 CHARTIER, Roger. Escribir las prácticas: discurso, prácticas, representación. Buenos Aires: Manantial, 1996; HARVEY, David. The condition of postmodemity. Maiden, MA: Blackwell, 1990. p. 117.

A CRISE DE 1 9 8 9

Quando examinamos a situação atual do panorama historiográfico, podemos observar que sua evolução parece ter dois momentos de inflexão. Em primeiro lugar, a reviravolta culturalista, iniciada nos anos sessenta, dé que falamos anteriormente. O segundo momento, que de algum modo completa e culmina o primeiro, tem como referência mais clara o ano de 1989, um ano em que coincidiram a derrocada dos regimes do chamado "socialismo real" do leste da Europa, com um "novo e mais encarniçado assalto contra as interpretações de esquerda da Revolução francesa, por ocasião de bicentenário, a publicação do artigo de Fukuyama sobre o fim da história e o debate entre "velha e nova história" em American HistoricàlReview, ientre outras referências do que não é, em última instância, mais do que o ponto culminante de um único processo. A "queda do muro", especialmente, deu- lugár a reações de euforia por parte dos que se sentiam vencedores. Supunha-se que o fato, sozinho, bastava para negar legitimação intelectual a qualquer projeto que tivesse relação não só com o marxismo, mas com qualquer postura que desse apoio à idéia de que era possível uma transformação substancial da socie1 O "fórum" sobre "The old history and the new", em que participaram Theodor Hamerow, Gertrude Himmelfarb, Lawrence W. Levine e Joan Wallach Scott, com um comentário final de J. E. Toews, apareceu em American Historical Review, 94, n. 3 p. 654-698, June 1989.

A CRISE DE 1 9 8 9

Quando examinamos a situação atual do panorama historiográfico, podemos observar que sua evolução parece ter dois momentos de inflexão. Em primeiro lugar, a reviravolta culturalista, iniciada nos anos sessenta, de que falamos anteriormente. O segundo momento, que de algum modo completa e culmina o primeiro, tem como referência mais clara o ano de 1989, um ano em que coincidiram a derrocada dos regimes do chamado "socialismo real" do leste da Europa, com um "novo e mais encarniçado assalto contra as interpretações de esquerda da Revolução francesa, por ocasião de bicentenário, a publicação do artigo de Fukuyama sobre o fim da história e o debate entre "velha e nova história" em American Historicál Review, dentre outras referências do que não é, em última instância, mais do que o ponto culminante de um único processo. A "queda do muro", especialmente, deu- lugar a reações de euforia por parte dos que se sentiam vencedores. Supunha-se que o fato, sozinho, bastava para negar legitimação intelectual a qualquer projeto que tivesse relação não só com o marxismo, mas com qualquer postura que desse apoio à idéia de que era possível uma transformação substancial da socie1 O "fórum" sobre "The old history and the new", em que participaram Theodor Hamerow, Gertrude Himmelfarb, Lawrence W. Levine e Joan Wallach Scott, com um comentário final de J. E. Toews, apareceu em American Historical Review, 94, n. 3 p. 654-698, June 1989. , ,

dade.2 Por outro lado, o tipo de pseudomarxismo catequista da União Soviética e da Europa oriental ruiu junto com os regimes a que servia, deixando de fora apenas os historiadores que trabalhavam de maneira críitica e criativa, como Diakonov, Ado ou Kòssok, já mencionados anteriormente. Também acabaram por desvanecer-se as correntes ocidentais mais próximas do esquema catequista do leste, como ocorreu com o estruturalismo marxista à francesa, com seu petrificado e fossilizado uso dos conceitos marxianos (com freqüência, da simples terminologia e nem sempre bem entendida).3 Também no "Ocidente" sobreviveu à crise o setor mais vivo, o que tinha por modelos historiadores como Eric Hobsbawm ou E.P. Thompson,4 o que não quer dizer que tudo continuasse sem mudanças, tendo sido realizado um esforço para encontrar novos caminhos, sem renúncias que levassem a abdicar de princípios progressistas. Os que se sentiam vencedores com a derrocada dos sistemas políticos do leste europeu procuraram definir o triunfo como uma vitória final e definitiva da ordem estabelecida contra a ameaça subversiva da revolução, como "o fim da história", para usar o título que daria fama a Francis Fukuyama, por um trabalho produzido sob patrocínio de uma instituição çonservadora norte-americana, a Fundação John M. Olin, financiadora de 2 Daí, por exemplo, a atitude dos "furetianos" franceses ao negarem traduzir The age of extremes (História do século XX) de Hobsbawm, alegando, em palavras de Pierre Nora, que "apareceria num momento intelectual e histórico pouco favorável". 3 SAYER, Derek. The violence of abstraction. The analytic foundations of historical materialism. Oxford: Blackwell, 1989. p. 126-149. 4 Com grande desgosto de Gertrude Himmelfarb, que em The "group". British marxist historians", em The new history and the old. Cambridge, MA: Belknap Press, 1987. p. 70-93, denunciou o feto que estes "marxistás", apesar de que a maior parte tivesse deixado de ser comunista depois de 1956, não haviam feito atos de arrependimento como muitos dos colegasfranceses,o que fazia que continuassem sendo suspeitos. Não são nada suspeitos, ao contrário, Himmélfarb e seu irmão, que foram descritos como "este famoso núcleo central de judeus esquerdistas dos anos trinta, os trotskistas e stalinistas que mais adiante renunciaram ao materialismo dialético, transformando-se no núcleo central do liberalismo anti-comunista dos anos cinqüenta e do neoconservadorismo dos setenta e oitenta", ROSEBAUM, Ron. Explaining Hitler. London: Macmilian, 1998. p. 392.

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institutos e programas "destinados a reforçar as instituições econômicas, políticas e culturais sobre as quais se apóia a empresa privada".5 Da eficácia da atuação dessas equipes", pode dar testemunho o êxito que conseguiram com algo tão trivial e tão pouco original como as especulações de Fukuyama sobre o "fim da história" - uma adaptação de uma velha interpretação de Hegel por Kojève - , em que sustentava que a história é direcionada e progressiva, que seu motor são "duas forças básicas: a evolução das ciências naturais e da tecnologia" e que esta evolução culmina na democracia liberal e na economia de mercado, que seriam, portanto, aquisições definitivas da história. Para difundir o "novo paradigma", a fundação Olin idealizou uma estratégia que alcançou êxito total. Em 1988, Allan Bloom convidou Fukuyama para expor suas idéias no centro Olin de Chicago, do qual era diretor. Do evento, surgiu um artigo, "The end of history?", publicado no verão de 1989 na The National Interest, uma revista paga pela mesma fundação, onde apareceram, depois, réplicas escritas por Allan Bloom, Irving Kristol e Samuel Huntington, todos integrantes da folha de pagamento da Olin. Quando a "discussão" terminou e após fazer prer que existira um debate pluralista, o tema foi vendido à grande imprensa, preparando-se o caminho para a publicação, em 1992, de um livro que serviu para colocar na moda,fugazmente, as idéias elaboradas por Fukuyama e dar-lhes uma difusão mundial. A surpresa de alguns críticos que se perguntavam: Por que üma obra de tão evidente mediocridade recebera tanta aténção públi-

5 WIENER, Jon. Dollars for Neocon Scholars. The Olin money tree, The Nation, p. J2-14, 1 Jan. 1990. DRAPER, Theodor. An anti-intellectual intellectual. New York review of books, p. 29-34, 2 Nov. 1995. Foi dito que a lista dos beneficiários desta instituição parece um diretório da direita acadêmica, com nomes Como Allan Bloom, o autor de The closing of the American mind, como François Furet ou çoriio Irving Kristol, que, depois de passar do esquerdismo à colaboração com a CIA, chegaria a uma bem paga maturidade de direita (a fundação lhe proporcionava 376.000 dólares anuais), publicando The National Interest,financiadocom um óiilhão de dólares pelo mesmo patrocinador (uma publicação que Michael Lind, uiti , de seus redatores, condena, hoje, por manter "uma luta de classes contra os. assalariados norte-americanos"). E, em relação a Kristol e formando parte da mesma unidade empresarial familiar, deve-se mencionar uma notória defensora do con; servadorismo que é sua mulher, a já citada Gertrud Himmelfarb. -

ca?" podia ser justificada. O mesmo não ocorria, porém, em relação a uma segunda pergunta: "Por que um editor investiu tanta energia e capital para lançar um livro tão pueril e de tão pouco interesse?", já que isto era óbvio.6 Muito cedo pôde-se ver, entretanto, que a mercadoria posta em circulação por Fukuyama passava rapidamente da moda, entre outras razões pórque, contra suas predições, os conflitos e os enfrentamentos continuavam presentes num mundo onde não estava claro que a história tivesse acabado.7 Era necessário colocar em circulação um novo paradigma cònservador mais duradouro. O encarregado de fazê-lo foi Samuel Hunting-

6 FUKUYAMA, Francis. The end ofhistory and the last man. London: Hamish Hámilton, 1992 (com edição paralela nos Estados Unidos por The Free Press). Não deixa de ser pitoresco que a origem das idéias de um conservador como Fukuyama seja Kojève - nascido Alexandre Vladimirovich Kojèvnikov - , de quem agora se diz que foi espião a serviço da União Soviética durante trinta anos. As frases críticas mencionadas são de John Dunn em Times Literary Supplement> p. 6,24 Apr. 1993. Tam. bém Derrida, que considera o livro de Fúkuyama como "o desconcertante e tardio produto" de uma nota de rodapé de Kojève, "que merecia alguma coisa melhor", surpreender-se-á pelo fato que este livro se tenha convertido em "such a media gadget" (Spectres of marxism. New left review, 205, p. 42,49,1994). 7 Christopher Hill escrevia que "A morte do marxismo', como 'o fim das ideologias' e 'o fim da história' procedem das ilusões dos acadêmicos que pensam que a sociedade há de ser eterna porque para eles é cômoda. Mas talvez os habitantes do terceiro mundo não estejam tão seguros de que a história tenha terminado". (Prematüre obsequies. History today, Apr. 1991.) Fukuyama diz agora que foi mal compreendido, mas que tem razão. Que a única retificação que deve fazer é que a ciência continua avançando: a biotecnologia nos proporcionará nas duas gerações vindouras ferramentas para um avanço no qual a história terminará totalmente "porque haveremos abolido os seres humanos como tais. Então começará uma nova história pós-humanà". (Pensando sobre o fim da história dez anos depois. El País, p. 17-18,17 jun. 1999). Agora se dedica, ainda, a vender uma nova mercadoria (The end of order. London: The Social Market Foundation, 1997 e The great dtsruption: human nature and the reconstituion of social order. London: Profile Books, 1999, com tradução espanhola, Barcelona: Edicions B, 2000) onde sustenta que as sociedades ocidentais estão ameaçadas pela decadência do matrimônio e da família tradicional como conseqüência da pílula anticoncepcional e do trabalho das mulheres - ao mesmo tempo que mostra sua ignorância dos temas que aborda ao referirse aos estudos sobre o casamento de Hajnal como "recent work" em uma resènha em TLS (p. 5, 6,18 June 1999) - e defende, entre outras medidas restauradoras, o retorno à religião.

ton, um velha teórico da guerra do Vietnã que dirige o Instituto John M. Olin de Estudos Estratégicos na universidade de Harvard. O lançamento foi feito com a mesma técnica utilizada com Fukuyama, ou seja, a partir de um artigo publicado, em 1993, com o título de "The Clash of Civilizations?",8 onde partindo da comprovação de que a tese de Fukuyama estava equivocada - "a história não se acabou; o mundo não se unificou" - , apresentava um novo "paradigma do mundo depois da guerra fria", onde sustentava que, com o final desta confrontação, a divisão do planeta em três mundos desaparecera. Os conflitos mundiais não se definem mais em termos de diferenças ideológicas, nem são de natureza econômica. O que agora articula as coletividades humanas e as coloca em situações de enfrentamento são razões culturais. Os protagonistas continuam sendo, aparentemente, os estados-nação através dos quais os conflitos se expressam. Porém, "o choque entre civilizações dominará a política global'^ civilizações definidas - mal definidas, porque as falhas de Huntington neste terreno são espetaculares - por critérios religiosos. Isso tudo visava descobrir uma nova ameaça mundial: o novo "império do mal" que deve suscitar consenso e manter unida a sociedade ocidental - "atlântica" - frente ao inimigo comum que consiste numa fantasmagórica "aliança islâmico-confuciana".9 Apesar da superficialidade das te: — . \ 8 Em Foreign Affairs, 72, n. 3, p. 22-49,1993. Os comentários sobre o artigo saíram -na mesma revista, no n. 4 do mesmo, ano, e a réplica de Huntington, "If riot civilizations, what? Paradigms of the post-cold War world" no n. 5 de 1993," p. 186-194. O livro correspondente, The clash ofçjvilizations and the remaking of the world order, foi publicado em 1996. Os ecos não tardariam em prodüzir-se: em 1995 Howard Bloom dizia que a América do Norte estava ameaçada no papel de campeã da civilização pelos novos bárbaros: africanos/ latino-americanos e, principalmente, muçulmanos (BLOOM, Howard. The Lucifer principle: a scientific expedition in to the forces of history. New York: Atlantic Monthly Press, 1995). 9 A montagem tinha antecedentes. Em 1970, Hal Lindsey publicou um livro em que, baseando-se nas profecias da Bíblia, prognosticava que o mundo acabaria em fins dos anos oitenta, depois de uma grande guerra em que os malvados comunistas russos teriam um papel essencial (deste livro, The late great planet Earth, venderam-se mais de 28 milhões de exemplares). Ao cair a Rússia comunista, Lindsey teve que reajustar a data e substituiu o grande inimigo comunista pelos fundamen-, talistas islâmicos (EHRMAN, Bart D. Jesus Apocaplyptic prophet of the millenium, New York: Oxford University Press, 1999. p. 7-10).

ses e a evidência de que "a taxonomia das civilizações de Huntington não somente falha por não corresponder às realidades culturais, mas também porque.não se adapta à maior parte das guerras atuais", os pensamentos sintonizavam com as tendências do conservadorismo do momento e ofereciam à sociedade norte-americana o inimigo que permitia legitimar sua política mundial como uma necessidade da defesa da civilização,, como pôde-se constatar, logo a seguir, com a guerra do Golfo.10 Mas, nem "o paraíso hegeliano" de Fukuyama nem os mitos civilizacionais de Huntington puderam satisfazer a inquietude de alguns cientistas sociais que constataram que, com a queda do comunismo em 1989, fracassou, de fato, uma das versões do projeto transformador da Ilustração e perceberam que o "liberalismo" do mercado pode não bastar para sustentar a outra versão da teoria do progresso em que se apoiavam as esperanças de um crescimento continuado. John Gray, professor de política em Oxford e entusiasta de Hayek num passado próximo, é um deles, chegando a afirmar que "a idéia de que uma economia de mercado é um sistema que se autoestabiliza é arcaica: uma curiosa relíquia do racionalismo da Ilustração". E constata que a ilusão de que, com o fim da guerra fria, surgiria uma nova ordem mundial desvaneceu-se, deixando-nos com uma economia mundial anárquica, na qual "a emancipação das forças do mercado do controle político e social" pode levar-nos a "uma crescente anarquia internacional", tornando provável que "á idade da globalização seja lembrada como outro passo na história da servidão". Um personagem pouco suspeito de nostalgias marxistas como George Soros disse que "o novo fanatismo do mercado é mais perigoso para o mundo do que o comunismo".11 10 Realizei uma análise mais minuciosa do tema em: Samuel Huntington, el conflict de,civilitzacions i la fábrica Olin de teoria conservadora. In: DUENAS, Mare (Ed.). Xoc de civilitzacions. A 1'entorn de S. P. Huntington i el debat sobre el nou escenari internacional. Barcelona: Proa, 1997. p. 163-171. A citação é de GRAY, John .False dawn. The delusions ofglobal capitalism. London: Granta Books, 1998. p. 123. 11 GRAY, John. Fake dawn. The delusions of global capitalism. London: Granta Books, 1998. p. 198 e 205-208. Sobre o livro, veja-se, GAMBLE, Andrew. The last utopia. New left review, 236, p. 117-127, July/Ago. 1999.SADOWSKI,Yahya. Themythofglobal chaos. Washington: Brookings Institution,' 1999, desqualifica as teorias do "caos global" que proliferaram ultimamente, incluindo a de Huntington, e postula, ao

Numa linha parecida, Immanuèl Wallerstein se expressou: "Costuma-se pensar geralmente que o colapso do comunismo em 1989 marca um grande triunfo do liberalismo. Eu o vejo mais como marcando o colapso definitivo do liberalismo como geocultura definitiva do sistema mundial". O liberalismo prometia uma reforma gradual que melhoraria as desigualdades e reduziria a polarização. A ilusão de que isto era possível legitimava os estados aos olhos das populações; mas "o colapso do comunismo, juntamente com o colapso dos movimentos de libertação nacional do terceiro mundo e o da fé no modelo Keynesiano no mundo ocidental" foram reflexos simultâneos da desilusão popular acerca da validade dos programas reformistas. E a desilusão debilita as bases da legitimação popular dos estados e anula a tolerância dos povos frente à desigualdade crescente. "Eu espero, portanto, conflitos consideráveis do tipo dos que apareceram nos anos noventa, estendendo-se da Bósnia e Ruanda às regiões mais ricas (e aparentemente mais estáveis) do mundo (como os Estados Unidos)". Talvez, seja necessário ver as comoções produzidas nos últimos tempos contra as instituições econômicas internacionais - Fundo Monetário Internàcional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio - como uma antecipação deste tipo de conflitos.12 Faz parte da linha de exorcismo da revolução o novo e feroz assalto contra as interpretações de esquerda - de fato contra qualquer interpretação "social" - em relação à Revoluçãofrancesa,realizado em torno de 1989, por ocasião do segundo centenário desta a que já nos referimos acima. Os ataques sistemáticos à "história analítica", identificada no terreno político com a que afirmava o caráter social progressivo das grandes mucontrário, a necessidade de estudar de perto, e com um conhecimento adequado, os distintos conflitos. A citação de Soros procede de uma notícia de agência publicada em El periódico, Barcelona, p. 46,9 mayo 2000.

12 WALLERSTEIN, Immanuèl. The end of the world as we know it. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1999. p. 1-2. Inclusive observadores menos politizados, como O'Rourke e Williamson, temem que a prosperidade e a nivelação produzidas pela globalização possam ver-se logo ameaçadas pelos políticos "constrangidos pelo eleitorado a deter as tentativas para reforçar os laços da economia global e inclusive, talvez, a desmontá-los" (O'ROURKE, Kevin H.; WILLIAMSON, J. G. Globalization and history. The evolution of a nineteenth-century adantic economy. Cambridge, MA: MIT Press, 1999. p. 286-287).

danças, fez que certos historiadores pensassem que o descrédito em que havia caído a disciplina podia ser remediado voltando-se à narração, quê parecia ser a antítese da história analítica. Através dela, a história podia apresentar-se como uma forma expositiva neutra, limpa de cargas ideológicas entendendo por "ideologia", como de costume, o que pensam os "outros", nunca as idéias implícitas na própria obra e recuperar a unidade de uma história desconjuntada pela fragmentação das especializações. Lawrence Stone (1919-1999)13 fez, em 1991, um angustioso apelo ao retorno de uma história que se dedicasse aos acontecimentos e ao comportamento, operando sobre a base de textos contemporâneos e com a finalidade de explicar as mudanças. O apelo vinha justificado pelas temíveis conseqüências do "pósmodernismo" que, com a tripla ameaça da lingüística, da antropologia cultural e do denominado "novo historicismo", estava transformando a ciência histórica numa "espécie em perigo de extinção".14 Para certos historiadores tradicionais, como Élton, o problema reduz-se a que "os historiadores gostam de ser lidos" e isto só se consegue com uma narrativa interessante. Esta é, em grande parte, a razão do êxito de um historiador como Simon Schama, que deve o prestígio a um livro 13 'Stone,, discípulo de Tawney e membro do conselho de "Past and Present", era autor de trabalhos sobre a aristocracia britânica nos séculos XVI e XVII, como The crisis of aristocracy, 1558-1641 (1965). Passou como professor em Princeton, dedicando-se ao estudo da família. Publicou The family, sex and marriage in England 1500-1800 (1977) e Road to divorce: England 1530-1987 (1990) onde afirmou que as altas taxas de divórcio atuais eram possiyelmente um retorno à duração limitada do casamento que, em outros tempos, ocorria devido aos casamentos tardios e à morte prematura. Com sua mulher, Jeanne Fawtier, publicou An open elite? England 1540-1880 (1984), demonstrando que conservava seu interesse pela história social. A publicação, em 1979, de "The revival of narrative: reflexions on a new old history" surpreendeu, vindo de um homem que recheara seus livros de material analítico e estatístico (RABB, Theodor K. Lawrence Stone 1919-1999. Times Litarary Supplement, p. 15, 2 July 1999). Dos ataques de Cantor a Stone, falamos em outro lugar. 14 STONE, Lawrence. History and post-modernism. Past and Present, n. 131, p. 217218, May 1991. O artigo suscitou diversas respostas, entre elas uma enfurecida de Patrick Joyce; no número 133 da mesma revista (novembro 1991), p. 204-209.

sobre "a cultura holandesa na idade de ouro", que, apesar de criticado pelos especialistas pelas falhas factuais, é uma engenhosa montagem capaz de deslumbrar o leitor culto, obsequiado com informações curiosas sobre as mais diversas questões, explicadas num bom estilo, mas que foi criticado pelos especialistas por erros factuais. A este seguiu-se Citizens: A chronicle ofthe French Revolution, onde sua contribuição à critica da revolução francesa consistiu em explicar histórias pessoais, reduzindo o aparato erudito a um mínimo que nem sempre bastava para justificar as afirmações. Em seguida houve uma tentativa tremendamente fracassada de associar história e ficção, Dead certainties (Unwarranted speculations), justificada com o argumento de que "formular perguntas e relatar narrações não são formas mutuamente excludentes de representação histórica", e um livro sobre a paisagem, para voltar à Holanda do século de x>uro, com Rembrandt eyes (1999), recebido pela mídia como uma obra-prima, mas criticado, outra vez, pelos erros, pela insuficiência do aparato com que pretende justificar suas afirmações e pela vacuidade de uma narrativa à qual escapa o contexto social do pintor, aspecto que levou Jonathan Israel a denunciar que "as habilidades para a comunicação e o brilhantismo são o qüe importa na nova cultura, enquanto o nível do que se comunica está deixando de ter valor". E acrescenta "pode-se construir muito com espuma, mas a experiência ensina que muito pouco ou nada disto subsiste".15 Há argumentos raciortais de apoio ao uso da narrativa, sempre que se fundamente em uma base adequada de erudição. A narração, diz Maurice Keen, "permite-nos recuperar as forças que um enfoque temático tende, de maneira inevitável e artificial* a obscurecer, mas que operam conti15 Além da dura crítica de Israel ao livre sobre Rembrandt no Times Literary Supplement que citei, pode ver-se outra desfavorável de E. H. Gombrich em New York Review of Books ("Portrait of the artist as a paradox", p. 6-10, 20 Jan. 2000, p. 6-10), que nos diz que o livro "tem menos afinidade com uma monografia de história da arte do que com a novela histórica". O que já fora dito, com mais razão, de Dead certainties (por exemplo, Linda Cooley em Times Literary Supplement, 14 June 1991 e Theodore Zeldin em London review of Books, 13 June 1991). Num sentido semelhante, podia-se falar, se valesse a pena fazê-lo, das intranscedentes especulações de "historia virtual" de Niall Fergunson, que tem muitos antecedentes no campo da narrativa.

nuamente, ao mesmo tempo que o funcionamento, ou o mau funcionamento, dos sistemas sociais, econômicos e políticos, e que interagem com a história destes: forças do acaso, da coincidência, do carisma ou da maldade individual. Se as esquecemos, corremos o risco de esquecer como, e por que é tão fácil que guerras gerais e holocaustos surpreendam sociedades que parecem bem assentadas no caminho do progresso".16 Num terreno próximo ao do retomo à narração, mas confusamente definido, está a "micro-história" à italiana. Seria fácil dar exemplos que fariam pensar que a narrativa do singular é seu objetivo final. Histórias como a do moleiro de Ilformaggio e i vefmi (1976) de Ginzburg,17 como a de The return of Martin Guerre, de Natalie Z. Davis (1983), como The great cat massacre de Robert Darnton (1984), como as que recuperam processos específicos de bruxas, como a do profeta Mathias em Nova York de inícios do século XIX, ou, para não alongar a enámeração, como a recente e trivial de Alain Corbin sobre a vida de um desconhecido - um exercício que qualquer um que se proponha a realizá-lo pode repetir indefinida e inutilmente - podem ter importância como narrativas literárias - fala-se constantemente delas como de "a nova narrativa" - mas contribuem muito pouco para o conhecimento da sociedade em que viviam estes personagens. Isso pode explicar o protesto que, em 1985, Furio Diaz lançou, pedindo que "se acabasse com a moda dos historiadores, sobretudo franceses (sic!), que escrevem livros acerca de acontecimentos mínimos da vida cotidiana, esquecendo as perspectivas gerais".18

16 KEEN, Maurice. The men from God knows where. London Review of Books, p. 1012,27 Apr. 2000 (citação da p. 12). 17 Aí um Ginzburg, no entanto, que, passando a outro extremo, se lança com Stpria notturna. Una decifrazione del sabba (Torino: Einaudi, 1989) a especulações sem fundamento sobre as origens da bruxaria. SeU único livro comprometido com a" realidade, Eljuezy el historiador. Consideraciones al margen dei preso Sofri. Madrid: Ànaya-Muchnik, 1993, referido em outro lugar desta obra é, no mínifno, confuso. 18 GINZBURG, Carlo. II formaggio e i vermi. II cosmo di un mugnaio dei'500. Torino: Einaudi, 1976; DAVIS, Natalie Zemon. El retorno de Martin Guerre. Barcelona: Bosch, 1984; JOHNSON Paul E.; WILENTZ, Sean. The Kingdom of Mathias: A story of sex and salvation in 19th Century America. Oxford: Oxford University Presk, 1994, um livro que Gordon S. Wood ("The Wandering Jewish prophet in New York", em New York review of books, p. 56-58,20 Oct. 1994,) qualifica de "esplendidamen-

A verdade é que, sob o projeto dos micro-historiadores, existe mais do que a vontade de narrar - embora tenha sido a qualidade de narradores que explique o êxito que alguns deles obtiveram - apesar de, se excetuamos o caso de Levi, não se tenham esforçado muito em explicar os motivos que orientaram a formulação de seu método de trabalho. Levi reconhece que a micro-história é "em essência, uma prática historiográfica" com referências teóricas diversas e ecléticas, tendo-se esforçado, porém, em revelar os elementos comuns deste tipo de trabalho. Seu próprio surgimento estaria ligado ao desencanto, produzido a partir dos anos setenta, no que diz respeito às velhas teorias do progresso, que levou alguns desiludidos a entregarem-se ao relativismo ou à irracionalidade. Os que optaram pela "micro-história" eram homens de esquerda, de tradição marxista, pouco inclinados à metafísica, que tentaram buscar descrições mais realistas do comportamento humano. Reduzindo a escala da observação, pretendiam descobrir fatores que escapavam a análises mais amplas e retificar generalizações abusivas das velhas interpretações globais da história social. Levi justifica, ainda, a importância que os micro-històriadores atribuem ao relato, considerando-o como um meio que permite mostrar "o verdadeiro funcionamento de determinados aspectos da sociedade", evir tando, assim, formalizações abusivas. As observações de Levi sobre a necessidade de realizar verificações substanciais em escala reduzida, fugindo das simplificações generalizadoras, são justas.19 O que é difícil de aceitar é

te legível e fascinante", para acrescentar, logo em seguida, que hão está seguro de que contribua com algo útil ao conhecimento da história norte-americana; CORBIN, Alain. Le monde retrouvé de Louis-François Pinagot. Sur les traces d'un inconnu, 17981876. Paris: Flammarion, 1998. Alguns artigos de Quademi storici, a revista que se especializou no gênero, não passam de notas de erudição intranscedente, disfarçadas com uma falsa legitimação teórica. Giovanni Levi parece consciente dos riscos que as "modas" acadêmicas provocam, quando denuncia, numa entrevista feita por Antoni Furió e Gustau Munoz (Pasajes, I, p. 49-57,1999), a reclusão progressiva dos historiadores, "presos cada vez mais numa auto-referencialidade". A citação de Furio Diaz é de "Basta con queste storie", L'espresso, p. 64-75,13.Jan. 1985. 19 Justas, mas não novas. A combinação de escalas diversas é uma prática que não tem nada de novo. Numa carta que me escreveu, em fevereiro de 1957, quando eu lhe apresentava o projeto de pesquisa, Pierre Vilar propôs-me "combinar um estudo global de mera aproximação e um estudo microscópico em profundidade" defen-

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considerá-las como um sistema alternativo para estudar os problemas que o historiador formula, principalmente quando são de grande alcance. Sem esquecer que o pretexto do trabalho em pequena escala tem servido, freqüentemente, para apresentar minúcias eruditas carentes de interesse como mostras de novidade teórica. Incluir as cautelas dos micro-historiadores e alguns de seus instrumentos na caixa de ferramentas do historiador é de uma utilidade inegável. Limitar-se a trabalhar com esse instrumental, não leva muito longe.20 Do mesmo modo, poderíamos falar - não o faremos para não repetir desnecessariamente os argumentos - da "história oral", de extraordinária importância como parte de um instrumental de pesquisa, mas que nada justifica seja convertida numa especialidade científica com regras próprias, como foi acontecendo gradualmente.21 Na realidade, como relatamos, a visão "inocente" da narrativa já tinha sido denunciada por Hayden White, ao mostrar que a narração, já que escolhe deliberadamente o que considera significativo e o que vale a pena recordar, não é somente forma, mas implica conteúdo. O outro erro da dendoum programa que associasse," para o estudo da natureza (e não das dimensões) de um fenômeno, as grandes curvas macroscópicas de conjuntura, para situar as questões, conhecer as grandes etapas e os grandes movimentos de avanço ou de retrocesso das economias e, em nível microscópico, a observação precisa sobre a exploração do povo isoladamente. Para um retorno rente à vida, em contato com ela". Um exemplo de episódio específico utilizado para iluminar um grande problema, o do feudalismo no campo francês, há o livro de McPHEE, Peter. Revolution and environment in Southern France. Peasants, lords and murder in the Corbières 17801830. Oxford: Clarendon Press, 1999. 20 Tomo boa parte destas considerações de LEVI, Giovanni. Sobre la microhistoria. In; BURKE, Peter (Ed.). Formas de hacer historia. Madrid: Alianza, 1996. p. 119143. Ainda MUIR, Edward; RUGGIERO, Guido. MIcrohistory and the lost peoples of Europe. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1991; EGMOND, Florike; MASON, Peter. The mammoth and the mouse. Microhistory and morphology, Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1997; SERNA, Justo; PONS, Anaclet. Cómo se escribe la microhistoria. Madrid: Cátedra/Universitad de Valência, 2OO0 e a entrevista citada de Gustau Munoz e Antoni Furió com Levi em Pasajes, 1 (1999). 21 Sobre a evolução da história oral, veja-se DUNAWAY, David K. The interdisciplinarity of oral history. In: DUNAWAY,-D. K.; BAUM, Willa K. (Ed.). Oral history. An interdisciplinary anthology. Walnut Creek: Altamira, 1996/2. p. 7-22.

formulação é o de identificar a narração com as formas literárias do conto e da novela nas literaturas de origem européia, sem entender que toda explicação, incluindo as de caráter aparentemente mais analítico, ofganiza-se - já o dissemos anteriormente - como uma narrativa.22 Os fundadores da "new economic history" afirmaram com razão que, detrás de qualquer explicação dos fatos narrados, há alguma forma de teoria, mais ou menos coerente e constantemente não explicitada. Também em outros campos das ciências sociais, o uso de uma "narrativa analítica" que torne possível associar narração e teoria foi defendido como uma solução.23 A associação pode ser legítima. Não o é, porém, a tentativa de ignorar a narração e preservar somente a vertente analítica, praticando uma falsa identificação com a "ciência dura", imitada de maneira mimética e superficial, que não costuma levar mais além dó que à apropriação abusiva de um léxico novo - e de um estilo de narração distinto - com o \ 22 WHITE, Hayden. Metahistory. Baltimore: Johns Hõpkins University Press, 1973 e The content ofthe fortn. Narrativé discourse and historical representation. Baltimore: . Johns Hopkins University Press, 1990. De maneira mais confusa, COHEN, Sande. Historical culture. On the recodingofan academic discipline. Berkeley: University of Califórnia Press, 1988. À primeira vista, pode parecer inocente uma proposta como a de Gertrud Himmelfarb de que se escreva "uma história feita de grandeza e miséria, de heroísmo e maldade, de acontecimentos protagonizados por homens e_mulheres extraordinários mais do que por forças sociais impessoais" (Cito estas palavras através de BOWMAN, James. Cowboy and curators. Times Literary Supplement, p. 12,10 May 1991). Tão inocente como a quefiguravana capa do manual oficial de história que o franquismo publicou na Espanha em 1939 e que dizia, com palavras muito parecidas: "A história é como um conto maravilhoso, mas um conto em que tudo é verdade, em que são certos os fatos grandiosos, heróicos e emocionantes que refere... Pela história, sabe-se o ocorrido em cada país e como viveram os reis, os governantes e as personagens mais ilustres... A história fala-nos, enfim, de todos os que fizeram na vida algo notável e importante". O que acontece é que sabemos que o programa foi acompanhado pelo fuzilamento dos profesores primários republicanos que tinham se atrevido a afirmar que a história é feita - a fazemos - por todos e, especialmente, pelo povo e que o que se deve ensinar às crianças não são guerras e façanhas, mas as conquistas alcançadas mediante a solidariedade. 23 BATES, Robert H. et al. Analyticriarratives.Princeton: Princeton University Press, 1998, onde cinco especialistas - três politólogos e dois economistas - teorizam o método e fazem uso da teoria dos jogos pára estudar problemas históricos muito diferentes.

que se manifesta uma pretensa ruptura em relação à velha tradição da "ciência histórica".24 É perigoso para as ciências sociais, e concretamente para a história, cair na tentação dê imitar métodos científicos que não lhe são próprios. Deixar-se tentar pela "inveja da física" pode levar, ou a uma pseudociência de "hipóteses pedantemente expressas e intermináveis manipulações estatísticas de dados marginais,"25 ou a desastres como o denunciado, no campo dos estudos culturais, pelo "escândalo Sokal".26 Neil Gershenfeld condenou o uso alegre e abusivo que se faz de grandes palavras, utilizando-as como explicações. Expressões como "realidade virtual", "teoria do caos", "redes neurais^ e "füzzy logic", utilizadas sem critério, levam a simplificações perigosas.27 Parece razoável que o historiador analise as contribuições da teoria da complexidade e da auto-organização - do caos determinista - para ampliar as perspectivas e encontrar caminhos que lhe permitam, talvez, pensar certos problemas de forma distinta.28 Mas a transposição linear de mé24 Alan Sokal disse: "tudo o que fazem é lançar palavras eruditas na cara do leitor sem a menor preocupação pelo significado dos conceitos ou por explicar sua relevância em relação aos temas que pretendem estudar" Alan Sokal, "Entrevista" de Mônica Solé em Quark, p. 80-84,15 Apr./June 1999. 25 COLLINS, Harry; PINCH, Trevor. El gólem. Barcelona: Crítica, 1996. p. 165; dei exemplos deste tipo de abusos no campo da história econômica em "Perspectivas da história econômica", em Andes. Antropologia e historia, 9, p. 39-56,1998. 26 O escândalo começou com a publicação de "A physicist experiments with cultural studies" em Lingua Franca, p. 62-64, maio/jun. 1996, onde Alan Sokal, professor de física na Universidade de Nova York, explicava que havia enviado à revista^ Social Text um attigo com o título de "Traspasando fronteras: hacia una hermeneútica transformativa de la gravedad cuántica", que era puro disparate, mas que agradou à revista, que se apresspu em publicá-lo. Posteriormente, SOKAL, Alan; BRICMONT, Jean. Imposturas intelectuales. Barcelona: Paidós, 1999. 27 ' GERSHENFELD, Neil. When things start to think. New York: Henry Holt and Co., 1999. p. 115. Sobre os excessos ao interpretar literal e metaforicamente os elementos de acaso e caos, ROTHMAN, Tony, SUDARSHAN, George. Doubt and certainty. Reading, MA: Perseus Books, 1998. 28 Veja, por exemplo, KAUFFMAN, Stuart. At home in the Universe. The search for laws of complexity. London: Penguin, 1996; COVENEY, Peter; HIGHFIELD, Roger. Frontiers of complexity. The search for order in a chaotic world. London: Faber and

todos de outras disciplinas pode conduzir ao desastre, por caminhos muito diversos. Porque, se é necessário denunciar os que se amparam em um suposto cientificismo para vender mercadoria avariada, não é menos perigosa a tentação de alguns cientistas de aplicar fórmulas simplistas a um terreno tão complexo como é o da história, como podemos ver na proposta, feita por dois cientistas respeitáveis, de "traçar analogias entre os pontos de crise, associados com a auto-organização e o caos que ocorreu em processos inanimados Como a reação Belousov-Zhabotinsky, e alguns fenômenos que se produzem nas sociedades humanas, como as revoluções e a desordem civil".29 A reação Belousov-Zhabotinsky, ou mais simplesmente BZ, produz-se quando determinadas mesclas de produtos químicos experimentam uma reação oscilatória e mudam regularmente numa seqüência que se repete, mostrando que, na mistura caótica, uma ordem apareceu de maneira espontânea. Stuart Kauffman diz que o estudo das reações pode explicar como se produz a morte súbita por arritmia cardíaca, a distribuição das listras das zebras "e outros aspectos de morfologia em organismos simples e complexos".30 Mas, o salto que vai desde as pautas das listras das zebras a fenômenos tão complicados, começando pela dificuldade de defini-los, como são "as revoluções e a desordem civil", parece-me demasiado grande para admitir esse tipo de simplificações.31 Uma aplicação sensata de conceitos da teoria da complexidade em campos concretos da história econômica, como se realizou no estudo das Fáber, 1995 e HOLLAND, John H. Emergence. From chãos to order. Oxford: Oxford University Press, 1998. . 29 COVENEY, Peter; HIGHFIELD, Roger. Erontiers of complexity. London: Fáber and 1 Fáber, 1995. p. 337, . 30 KAUFFMAN, Stuart. Aí home in the Universe. London: Penguin,' 1996. p. 53-54. 31 Um exemplo dos perigos da simplificação "cientificista" encontram-se na sugestão, derivada de idéias de Kauffman, de que a revolução industrial ocorrera devido, sobretudo, ao aumento do número de intercâmbios. Até aqui, a coisa parece plausível e coincide com as novas idéias dos historiadores sobre a "revolução" do consumo, etc. O perigo aparece quando isto leva à generalização de que uma "transição" - entendida como uma mudança "brutal" - ou revolução "seria devida a uma modificação quantitativa de um parâmetro mais do que a uma mudança qualitativa". BERGÉ, Pierre; POMEAU, Yves; DUBOIS-GANCE, Monique. Des iythmes au chãos. Paris: Odile Jacob, 1997. p. 201.

ondas longas, pode apresentar resultados interessantes. É também razoável que corrijamos os excessos teleológicos da história tradicional com um melhor conhecimento das novas visões da evolução biológica, a fim de evitar a ilusão de fatalidade que a "retrospecção" cria, parecendo claro que é necessário aceitar a proposta feita por' uma comissão da Fundação Gulbenkian a fim de que as ciências sociais convirjam com as naturais parà "tratar os humanos e a natureza na sua complexidade e nas suas inter-relações". Mas, quando nos deparamos com mostras de cientificismo mimético, convém praticar o que Mário Bunge denomina "a intolerância frente ao charlatanismo acadêmico".32 Convém que falemos mais detidamente dessa ameaça global do "pós-modernismo" que impulsionou Stone a defender o retorno à narração. Até agora, observamos apenas algumas manifestações isoladas do mesmo ao nos referirmos à "reviravolta lingüística" e à extensão à história de uma série de métodos de análise do discurso que têm origem no campo disperso dos estudos literários,33 como resultado de uma evolução iniciada na "revolução cultural" dos anos sessenta, com a vontade de analisar os textos como produto de ideologias que os usam para práticas determinadas e com a pretensão de utilizar esses métodos em favor dos valores progressistas da exigência do "politicamente correto" e do "multiculturalismo", o que permite entender a irritação de uni John M. Ellis que, denunciando-as como 32 BERRY, Brian J. L.; KIM, Heja. Long waves 1790-1890: intermittency, chaos and control. In: KIEL, L. Douglas^ ELLIOTT, Euel (Ed. j. Chaos theory in the social sciences. Foundations and applications. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1996. p. 215-236; MUDIMBE, V. Y.; JEWSIEWICKI, B. (Ed.). Open the social sciences. Report of the Gulbenkian commission on the restructuring of the social sciences. Stanford: Stanford University Press, 1996. p. 78-80. BUNGE, Mario. In praise of intolerance to charlatanism in academia. In: GROSS, Paul R.; LEVITT, Norman; LEWIS, Martin W. (Ed,). The flight from science and reason. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1997. p. 96-'l 15. , 33 Um manual como o de BARRY, Peter. Beginning Theory. An introduction to literary and cultural theory. Manchester: Manchester University Press, 1995, permite ver a enumeração das diversas metodologias implicadas: pós-estruturalismo e desconstrução, pós-modernismo, crítica psicanalítica, crítica feminista, crítica gay/lesbiana, crítica marxista (!), novo historicismo e materialismo cultural, pós-colonialismo.

práticas aristocratizantes e de "torre de marfim", acaba dizendo que "as universidades não podem servir a dois senhores: ao conhecimento e às causas políticas e sociais", como se não fosse precisamente isto o que sempre fizeram, a serviço, geralmente, da ordem estabelecida.34 O pós-modernismo propriamente dito, entretanto, é de difícil definição e de genealogia muito diversa, segundo seja considerado do ponto de vista da arte, da filosofia (com referência a Nietszche e a Heidegger) ou da literatura. Geralmente, considera-se que tem origem na arquitetura, concretamente na rejeição do "alto modernismo", representado pela arquitetura de Le Corbusier, Wright, Mies van der Rohe, etc. Pode-se dizer, por esta razão, que o pós-modernismo nasceu às 3 horas e 32 minutos da tarde de 15 de julho de 1972, quando um edifício de residências "moderno" de Saint Louis, inspirado em Le Corbusier e premiado pela qualidade arquitetônica, foi dinamitado, considerado como inabitável para as pessoas pobres que nele viviam, o que marca, assim,o momento em que as idéias do modernismo abrem caminho para novas propostas. Mas, quem daria maior difusão ao termo seria Jean-François Lyotard em A condição pós-moderna (1979), livro escrito por encomenda, onde anunciava o fim do" que denominava "metanarrativas", isto é, das grandes interpretações gerais como o socialismo, o cristianismo, a ideologia do progresso, etc, o que, no terreno da história, levava ao fim das periodizações e das interpretações globais, à substituição do grand récit da História em 34 ELLIS, John M. Literature lost. Social agçodas and the corruption of the humanities. New Haven: Yale University Press, 1997. p. 229. Ellis denuncia o "politicamente correto" e o igualitarismo, que considera como elementos aristocratizantes que se associam ao marxismo somente porque este é antiburguês. O "desconstrucionismo", com a insistência na indeterminação lingüística e a independência da linguagem em relação à realidade, tinha uma aura de diversão elitista para os intelectuais que favoreceu um retorno do pêndulo ao outro extremo. "Os jogos lingüísticos foram seguidos pela (aparente) realidade social e cotidiana de raça, gênero e classe" que teve nos campus um impacto considerável (p. 215-216). Deve-se assinalar, por outro lado, que a consternação ante o abandono da literatura é hoje um fenômeno bastante generalizado, e não necessariamente condenável. Veja-se, por exemplo, uma resenha global de uma série de livros sobre o tema: DELBANCO, Andrew. The decline and fali of literature. New York review ofbooks, p. 32-38, 4 Nov. 1999.

maiúscula - de natureza considerada legitimadora - pelo petit récit das histórias em minúscula e a das afirmações sobre a realidade por metáforas. O que se tentava era "a análise histórica da representação frente à quimérica perseguição de uma "realidade" histórica perceptível e acessível", o que acaba negando, simplesmente, a possibilidade e a utilidade da história.35 Nesse terreno, como em outros campos da arte e dó pensamento, a reação pós-moderna nasceu de uma série de negações e recusas, começando pelas dos métodos da história social que dominaram nos anos sessenta36 como já fizera a "nouvelle histoire" na França, com sua feira diversificada de "novidades".37 Mas, nas formulações mais coerentes e mais ambiciosas, os pós-modernos se apresentam como defensores de uma mudança muito mais radical, que se articula com a rejeição da tradição ilustrada por parte de Adorno e Horkheimer. Segundo Keith Jenkins, "vivemos na condição geral da 'pós-modernidade'", que "não é uma 'ideologia' 35 Um íecente dicionário de conceitos "culturais" (EDGAR, Andrew; SEDGWICK, Peter (Ed;). Key concepts in cultural theory. London: Routledge, 1999) reconhece que "uma coisa é certa, a respeito do pós-modernismo: o uso da palavra mostra tal diversidade de significados que desafia uma simples definição". A referência essencial costuma ser LYOTARD, Jean-François. La condition postmodeme. Paris: Seuil, 1979, por mais que, recentemente, o autor pareça ter modificado seus pontos de vista. Para a história da corrente, ANDERSON, Perry. Los'origenes de la postmodernidad. Barcelona: Anagrama, 2000; sobre a arquitetura, HARVEY, Davis. The condition ofpostmodernity. Oxford: Blackwell, 1990. p. 39 et seq.; JAMENSON, Frederic. Theories of the postmodern. In: . The cultural turn. London: Verso, 1998. p. 21-32 (existe uma tradução castelhana publicada em Buenos Aires: Manantial, 1999). Faço uma citação de Kathleen Canning em "A história feminista depois da reviravolta lingüística", em Afers, 33/34 p. 303-341,1999, (citação da p. 304). 36 ANKERSMIT, Frank R. The origins of postmodernist historiography. In: TOPOLSKI, Jerzy (Ed.). Historiography between modernism and postmodernism. Amsterdam: Rodopi, 1994. p. 87-117 (partes do mesmo texto figuram em "Historism and postmodernism. A phenomenology of historic experience" em ANKERSMIT, F. R. History arid topology. The rise and fall of metaphor. Berkeley: University of California Press, 1994. p. 182-238); JOYCE, Patrick. The end of social history. In: JENICINS, Keith (Ed.). The postmodern history reader. London: Routledge, 1997. p. 341-365. 37 Um dos representantes mais destacados do pós-modernismo, como F. R. Ankersmit, apresenta em History and topology, como pós-modernas, a micro-história e a história das mentalidades, jogadas já no lixo pelos jovens franceses "pós-nouvellehistoire".

ou uma postura à qual possamos escolher aderir ou não". A pós-modernidade é "nosso destino". Um destino que nasce do grande fracasso da "modernidade", do fracasso do projeto, que começou na Europa ilustrada do século XVIII, de conseguir elevados níveis de bem-estar pessoal e social "por meio da aplicação da razão, da ciência e da tecnologia". Para Lyotard, "o projeto moderno" conduziu a Auschwitz, marcando com isto sua trágica liquidação.38 A partir dessas posturas, pode-se ir, em teoria, a posições políticas muito diversas, mas, quase sempre, levam a um ceticismo paralisante, amplamente satisfatório-para a ordem estabelecida que passa a não ser contestada, seja da parte de um Poster que nos garante que os problemas do mundo não têm náda a ver "com teorias liberais ou marxistas", ou de uma Patrick Joyce que, referindo-se aos conceitos de "direita" e "esquerda", se pergunta "se estes termos ainda têm um sentido claro".39 Existe também, no entanto, quem pretenda dar versões de esquerda, como Gregor McLennan, que considera que o pós-modernismo pode ajudar-nos a vencer "os quatro pecados do modernismo": reducionismo, funcionalismo, essencialismo e universalismo, e, há inclusive, uma tentativa de nos apresentar um Marx pós-moderno,40 A verdade, contudo, é que a teorização pós-modérna tende a se afastar do confronto com a realidade e tende, em grande me-

38 JENKINS, Keith, On "What is history?" From Can and Elton to Rorty and White. London: Routledge, 1995. p. 6 (repetido na introdução de JENKINS, Keith. The postmodern history reader. London: Routledge, 1997. p. 3-4). De maneira muito semelhante, Alun Munslow, em The Routledge companion to historical studies. London: Routledge, 2000. p. 188, diz: "Pós-modernismo é uma descrição geral da condição de nossa existência presente, que seria melhor chamar pós-módernidade". 39 De fato, a direita cristã norte-americana descobriu a utilidade do irracionalismo pósmoderno e inspirou o surgimento de várias linhas de evangelismo pós-moderno. ALLEN, Charles. The postmodern mission. Lingua Franca, p. 46-59, Dec./Jan. 2000. 40 POSTER, Mark. Cultural history and postmodernity. Disciplinary readings and challenges. New York: Columbia University Press, 1997. p. 32; JOYCE, Patrick. The return of history: postmodernism and the politics of academic history in Britain. Past and Present, 158, p. 207-235, Fev. 1998 (citação da p. 231); MçLENNAN, Gregor. Post-Marxism and the four sins of modernist theorizing. NeriLeft Review, 218, 1996; CARVER, Terrell. The postmodern Marx. Manchester: Manchester University Press, 1998.

dida, a inibir qualquer compromisso, já que os mesmos argumentos que servem para sustentar a impossibilidade de "conhecer o autêntico significado do passado",41 são válidos para negar a capacidade de analisar um presente que não podemos conhecer, e obrigatoriamente quando já se converteu em passado. Fica difícil imaginar como poderia ser uma "história pós-moderna", o que começa sendo, de feto, uma expressão contraditória. As influências teóricas adotadas por seus adeptos são essencialmente francesas e não procedem, em nenhum caso, do campo da história: Lyotard Baudrillard, Barthes, Foucault, Derrida, Deleuze, Ricoeur, de Certeau, com certos aportes de outras culturas como Nietzsche ou Rorty.42 E suas afirmações costumam ser críticas da prática "moderna" da história, mas não nos proporcionam, em contrapartida, regras para organizar uma fornia alternativa de trabalho "a partir da perspectiva do pós-empirismo". Um dos seus especialistas diz, por exemplo: "O empirismo de base documental, com o sentido implícito de objetividade, não é a única forma disponível para o estudo histórico". Todos os historiadores constroem o passado como objeto e a construção está midiatizada por demandas ideológicas e apresenta-se em forma de narrativa, marcada ela própria por regras. Isto não significa negar realidade ao passado, mas reconhecer "que existem diversas realidades a imaginar ou que eu posso construir como existentes no passado. A história não é nem

41 MUNSLOW, Alun. Routledge companion to historical studies. London: Routledge, 2000. p. 20. 42 Neste mundo de confusões, Keith Jenkins qualifica de historiadores a Derrida, Lacan, Lyotard, Foucault, Rorty, etc. e nutre seu The postmodern history reader com seus textos teóricos, misturados com os de profissionais como Elton, Pérez Zagorin ou Patrick Joyce. Por seu lado, Munslow nos diz, em The Routledge companion to historical studies, que "conceitos-chave para a noya história são examinados através das idéias de destacados historiadores e filósofos desde o século XVIII, tais como Kant, Nietzsche, Croce, Collingwood, Carr, White, Rorty, Foucàult e Derrida". Uma exceção a esta indigestão gaulesa é o volume organizado, por ANKERSMITH; Frank; KELLNER, Hans, A ríew philosophy of history. London: Reaktion Books, 1995, onde se tenta derivar "a mudança na filosofia da história, não da "conexão francesa", mas "da tradição analítica anglo-americana" (Hempel, Kuhn, etc.), (p. 3).

ficcional nem factual, é imaginativa e interpretativa".43 "A História, com maiúscula, é a metanarrativa cultural central do Ocidente, uma especulação modernista que faz que atribuamos tradicionalmente, a acontecimentos fortuitos, trajetória e significação determinadas pelos grandes programas de desenvolvimento e progresso - marxismo, liberalismo, capitalismo, socialismo, nacionalismo e o resto". Perante esta, a história pós-moderna o que faz é reconhecer que cada historiador constrói a interpretação do passado de acordo com seus métodos e princípios, o que é perfeitamente legítimo, sempre que não pense que está encontrando verdades objetivas e que os métodos são de validade universal. E se não nos propõem, como reformulação das que condenam, práticas alternativas para a pesquisa da história, é porque, simplesmente, "em nossa condição pós-moderna não há nenhuma prática, nem conjunto de regras do tipo daquelas em que os historiadores normais insistem (isto é extra-hístóriCas), que possam revelar exclusivamente a(s) verdade(s) do passado". Conviria, no entanto, que nos explicassem como se pode fazer a história pós-empírica, "aberta a formas não convencionais de representação histórica",44 da qual não existe, até agora, nenhum exemplo conhecido, já que os pós-modernos dedicam-se, de corpo e alma, à teoria, não nos oferecendo nenhuma mostra de como concebem a história liberada dos vícios da modernidade. As considerações sobre a "construção social" das idéias, que não são precisamente uma novidade, são interessantes, mas levar essa precaução até uma negação da validade de todo conhecimento objetivo é desnecessariamente paralisante.45 Podemos observá-lo no caso das ciências da natureza, às quais chegaram tanjbémvos efeitos da crítica pós-moderna: 43 Extraio o texto de uma resenha de Alun Munslow a um livro de Iggers em Rethinking history, n. 2, p. 199-200,1997. Uma tentativa de mostrar os aspectos positivos que o pós-modernismo pode proporcionar aos' historiadores, SOUTHGATE, Beverley. History: What and why. Ancient, modern and postmodern perspectives. - London: Routledge, 1996. 44 MUNSLOW, Alun. Routledge companion to historical studies. London: Routledge, 2000. p. 20 e 188-191. 45 Veja-se, por exemplo, o tratamento do tema por George Clement Bond e Angella Gilliam na introdução ao volume coletivo Social construction of the past. Representation as power. London: Routledge, 1997. p. 1-22.

acreditam que seus resultados são meras "construções sociais", produtos de uma cultura que aceita como comprovado o que corresponde aos paradigmas dominantes, recusando considerar e analisar o que os contradiz. Harry Collins e TreVor Pinch enfatizaram que ciência e sociedade não podem ser separadas e mostraram-nos que a história da ciência, tal como nos é explicada, é um exercício de retrospecção em que se oculta que as coisas foram geralmente muito menos claras e limpas do que nos querem, fazer crer. A aceitação de uma nova hipótese e, inclusive, de uma nova descoberta, tornam-se fáceis se encaixadas nos paradigmas aceitos e, neste caso, há menos rigor nas exigências de verificação. Porém, podem ser muito difíceis se os contradizem. Do segundo caso, temos exemplos como o de Chandrasekhar, um jovem cientista desconhecido que expôs a hipótese, baseada em cálculos, da existência do que hoje denominamos "buracos negros". Chocou-se, porém, com a autoridade de Sir Arthur Eddington e não conseguiu que ninguém examinasse seriamente seus argumentos. Semelhante é o caso de Belousov que, em 1958, não conseguiu nem sequer que fosse publicado o trabalho sobre o que hoje conhecemos como a reação Belousov-Zhabotinsky (ou BZ), de que já falamos, porque confrontava-se com as idéias consagradas na química da época.46 Mas uma coisa é explicar o contexto social e outra, reduzir tudo a isto. A avalanche de tentativas de redução que Ian Hacking denunciou47 46 Sobre a "construção social" da ciência no século XVII, veja-se SHAPIN, Steven. A social history of truth. Civility and science in seventeenth-century England. Chicago: Chicago University Press, 1994, A literatura sobre Kuhn e The structure of scientific revolutions (1962) é tão extensa que é impossível sintetizá-la. Sobre as incertezas da ciência, COLLINS, Harry; PINCH, Trevor. El góletn. Barcelona: Crítica, 1996; ZIMAN, John. Prometeus bound. Science in a dynamic steady state. Cambridge: Cambridge University Press, 1994, etc. Sobre o assalto do pós-modernismo às concepções tradicionais da ciência, DERRY, Gregory N. What science is and how it works. Princeton: Princeton University Press, 1999. p.'207-213. Uma visão positiva em GOULD, Stephen Jay. La montaria de almejas de Leonardo. Barcelona: Crítica, 1999. p. 351-360. O que se diz sobre a rejeição do trabalho de Belousov, em STEWART, Ian. El segundo secreto de la vida. Barcelona: Crítica, 1999. p. 51. 47 HACKING, Ian. The social construction of what? Cambridge, MA: Harvard University Press, 1999.

são mais um testemunho dos extremos a que chegaram as "guerras da cultura". Porém não houve nenhum efeito paralisante sobre a marcha da ciência, onde, mais cedo ou mais tarde, acabaram sendo aceitos os buracos negros e as reações BZ. Ao historiador, concretamente, não parece que os princípios do pós-modernismo lhe sirvam mais do que como ferramentas de crítica para corrigir erros de visão, para incitá-lo ao rigor na análise dos textos e para torná-lo consciente da forma em que os condicionamentos pessoais podem afetar o trabalho, mas não para encontrar roteiros para pesquisar o passado, começando pelo fato de que a imensa maioria dos pós-modernos nega que haja qualquer possibilidade real de chegar a conhecê-lo. Nos livros dos pós-modernos, encontramos geralmente muita teoria e muito pouco contato com a realidade. As elaborações costumam ter um caráter livresco: Mark Poster, professor da Universidade da Califórnia, explica-nos como são seus cursos de conscientização teórica no terreno da história cultural pós-moderna. Os problemas da sexualidade, diz-nos por exemplo, podem ser estudados "sob uma perspectiva freudiana, foucaultiana ou feminista", o que cria dificuldades pelo uso de diferentes,terminologias "que não tem nada a ver com as questões empíricas de quem o disse ou quem o fez, em que momentos ou em que lugar, com a verificação dos documentos ou com o conflito entre os testemunhos".48 Questões relativas à realidade dos fatos, não parecem importar. O que torna compreensível a crítica de Kevin Passmore quando diz que não está claro porque os pós-modernos, "apesar da convicção de que é impossível escrever histórias válidas, não duvidam em escrever s&bre o passado e interpretá-lo^9 Uma mostra disso podemos encontrar no caso de Derrida quando denuncia a 48 POSTER, .Mark. Cultural history and postmodernity. New York: Columbia University Press, 1997. p. 157-158. Poster é professor de história na Universidade da Califórnia, Irvine, mas toda sua obra parece limitar-se a remoer uma e outra vez idéias de Foucault, Derrida, de Certeau e companhia. Seus conhecimentos no que se refere à pesquisa histórica atual parecem, por oútro lado, escassos, ao referir-se à história do consumo, um terreno em rápida expansão, a única referência é o velho livro de McKendrick, Brewer e Plumb, de 1982. De um "professor de história" seria necessário exigir-se muito mais. 49 Em Rethinking history, 2, n. 2, p. 279-283, Summer 1998.

euforia do Fukuyama do fim da história, dizendo que nunca como agora "a violência, a desigualdade, a exclusão, a fome e, portanto, a opressão econômica afetaram tantos seres humanos na história da terra ou da humanidade". Afirmação que só pode ser feita a partir do interior da história e requer mais conhecimentos para precisá-la e matizá-la dos que ele provavelmente tem.50 , De fato, o pós-modernismo acaba levando, como o demonstram os livros mais recentes de Keith Jenkins ou de Alun Munslow, a negar qualquer validade à história e à ética, duas disciplinas que, como estão mortas, não vale a pena nem sequer continuar criticando e desconstruindo; basta èsquecer-se delas, já que o pós-modernismo levou-nos a um momento em que "podemos viver nossas vidas com novas formas de medir o tempo que não se referem a um passado articulado em discursos que se tornaram para nós historicamente familiares. E, talvez, possamos começar a formular novas moralidades sem recorrer aos moribundos sistemas éticos".5' Chegado a este ponto, o historiador não apenas se encontra explicitamente excluído de uma corrente que nega a própria possibilidade de seu trabalho, mas percebe que semelhante ótica o afasta por completo dos problemas reais dos homens e das mulheres que são, ou deveriam ser, o objetivo central de qualquer pesquisa histórica válida. Como Ziauddin Sardar disse, o pós-modernismo é o autêntico fim da história tai e como a conhecemos, porque priva todos os acontecimentos históricos de sentido. O significado é um ato de interpretação que escolhemos entre as múltiplas interpretações em disputa. "O fim da história do pós-modernismo é a conversão de toda seqüência temporal em simultaneidade, a coexistência de todas as possibilidades como um grande caleidoscópio em que nenhum dos roteiros é mais persuasivo, dominante ou 50 DERRIDA, Jacques. Spectres of Marx. New Left Review, n. 205, p. 31-58, May/June 1994, citação da p. 53. 51 JENKINS, Keith. Why history? Ethics and postmodernity. London: Routledge, 1999. p. 2. Entre as incoerências de Jenkins serià preciso sublinhar o fato de que vive profissionalmente como professor (reader) de história em University College Chichester. As novas moralidades pós-modernas não o levam, pelo que se vê, ao ponto de renunciar à cobrança do ensino de uma matéria caduca e perversa.

significativo do que qualquer outro." Uma operação que o próprio autor denuncia como uma tentativa para manter "a opressão ocidental das outras culturas". Agora que o Ocidente tem dúvidas sobre a realidade e as verdades, trata de manter "sua trajetória de expansão e dominação, minando todos os critérios de realidade e verdade"." Outra coisa, no entanto, é avaliar a influência que os argumentos formulados pelos pós-modernos tiveram na crítica de determinadas posições anteriores. Podemos observá-lo, por exemplo, no caso da arqueologia, onde serviram para superar o estreito cientificismo quase positivista do processualismo, de que falamos antes. Nos anos oitenta, a arqueologia processual entrou em crise e começou a sofrer ataques oriundos das correntes pós-modernas, que a fariam de novo aproximar-se, paradoxalmente, da ótica cultural. Viu-se, então, que a proposta "científica" era insuficiente. Ian Hodder reagiu contra o positivismo cientificista da "new archaeology", sublinhando que ela havia esquecido o indivíduo com a preocupação pelo sistema e que os arqueólogos processualistas tinham-se afastado excessivamente da história. Era necessário voltar a considerar o indivíduo e pensar que a cultura material não reflete passivamente a sociedade, "ou melhor, cria a sociedade por meio das ações dos indivíduos". Daí a tentativa de recuperar as idéias de Collingwood na busca desta nova compreensão da cultura. A nova arqueologia pós-processual - apesar de que seria melhpr falar de um feixe de arqueologias pós-prócessuais ou contextuais que têm em comum a rejeição do processualismo, mas que vão em direções diversas - recolhe aspectos do pós-modernismo, como a aceitação explícita de que toda interpretação do passado é feita em função do presente e tem sempre uma ressonância política: "interpretar o passado é sempre um ato político". Por isso mesmo, admite de início a diversidade de formulações: "caracteriza-se pelo debate e a incerteza a respeito dos problemas fundamentais pouco discutidos anteriormehte em arqueologia. É mais formulação de perguntas do que provisão de respostas". Seus quatro temas funda-

52 SARDAR, Ziauddin. Postmodernism and the other. The new imperialism of western culture. London: Pluto Press, 1998, citações das p. 85-86 e 15.

mentais são: as relações entre normas e indivíduo, entre processo e estrutura, entre o ideal e o material, entre sujeito e objeto. O objetivo final "reconstruir a história no tempo e contribuir, assim, ao debate no marco da moderna teoria social e na sociedade em geral". Muito longe, como se vê, da esterilidade discursiva de certas formlações pós-modernas que criticamos anteriormente.51

53 HODDER, Ian. Interpretation arqueológica. Corrientes actuales. Barcelona: Crítica, 1988, citações das p. 19, 202 e 211; JOHNSON, Matthew. Archeological theory. An introduction. Oxford: Blackwell, 1999. p. 98-115; MORRIS, Ian. Archaeology as cultural history. Oxford: Blackwell, 2000. Usei tambéiíi o artigo "arqueologia postprocesual" de Nicola Terrenato em FRANCOVICH, R.; MANACORDA, D. (Ed.). Dizionario di archeologia. Roma: Laterza, 2000. p. 220-222. Uma síntese útil das correntes atuais pode encontrar-se em GUTIÉRREZ, Sónia. Arqueologia. Alicante: Universidad, 1997. p. 88-115.

POR UMA HISTÓRIA DE TODOS

O maior dos desafios enfrentados pela história ha segunda metade do século XX e que continua presente no início do XXI é o de superar o velho esquema tradicional que apresenta uma fábula de progresso universal em termos eurocêntricos - justificando, ao mesmo tempo, o imperialismo em nome do "fardo do homem branco" - , que tem, como protagonistas essenciais, os grupos dominantes, políticos e econômicos das sociedades desenvolvidas considerados os atores decisivos deste tipo de progresso, deixando os grupos subalternos e a imensa maioria das mulheres à margem da história. Essa é uma questão que tem de ser examinada a partir da dupla perspectiva da exclusão dos povos não europeus (dos "povos sem história") na dimensão das histórias "universais" ou "mundiais" e da exclusão social de boa parte da população, erí especial das mulheres e das classes subalternas, na dimensão das histórias "nacionais" dos países desenvolvidos, isto é, dos "países com história". A primeira das reivindicações que sé apresentou foi a dos grupos sociais excluídos. Augustin Thierry abriu o caminho, no século XÍX, ão propor que se escrevesse a história da sociedade civil burguesa, deslocando a tradicional que se ocupava principalmente dos reis e da aristocracia feudal, a fim de refletir as mudanças que haviam ocorrido na sociedade. A maior parte da história política dos tempos contemporâneos deixou de privilegiai; as biografias dos monarcas, mas só o fez, porém, para dedicar-.

se aos políticos, aos partidos e às instituições oficiais. Mais ambicioso ainda que ó de Thierry, era o projeto de John Wade que, em 1833, publicou uma History ofthe middle and working classes,1 que se tornou precursora de uma corrente de estudos que chegaria a alcançar considerável desenvolvimento: a história dos trabalhadores, apresentada quase sempre a partir da crônica, de suas organizações e lutas; isto é, realizada como "história do movimento operário". Uma história que se tornou num campo especializado de trabalho, com instituições de estudos próprias, publicações de fontes, revistas, etc. Mas, que foi criticada por ter esquecido-muitas coisas, começando pelo fato de ter tomado, geralmente, as classes operárias dos países avançados como objeto, descuidando dos demais grupos explorados: escravos, trabalhadores das colônias (no caso dos impérios), etc. Uma objeçãó que outros estenderam ao projeto de fazer uma história das massas, uma "história a partir dos de baixó", como a que queria George Rudé.2 Mais tarde, reivindicação semelhante surgiria, embora não com a mesma força nem amplitude, a respeito dos camponeses, considerados tradicionalmente inferiores pelos grupos dominantes da sociedade, que explicavam freqüentemente este ponto de vista com teorias que sustentavam que aqueles eram descendentes de raças atrasadas, culturalmente passivas, enquanto eles o eram de povos de senhores que haviam submetido as populações primitivas.3 1 Em que estudava "as condições das diversas classes dà sociedade e as relações entre elas", dedicando atenção especial aos trabalhadores (WADE, John. History of the middle and working classes. London: Effingham Wilson, 1833). 2 CHAKRABARTY, Dipesh. Rethinking working-class history: Bengal, 1890-1940. Delhi: Oxford University Press, 1989, apud GREGG, Robert. Inside out, outside in. Essays in comparative history. London: Macmillan, 2000. p. 70-72. 3 Na segunda metade do século XVII, o inglês John Aubrey dizia que os "aborigines" ingleses que viviam aferrados à terra estavam ecologicamente determinados por ela, tanto no que se refere ao físico como aos hábitos brutais eque eram estéreis e passivos do ponto de vista cultural, de maneira que toda civilização que tinham adquirido, inclusive o conhecimento da arte de cultivar a terra, haviam-na recebido dos povos superiores que os dominaram, dos romanos até aquele momento (ROLLISON, David. The local origins of modern society. Gloucestershire, 1500-1800. London: Routledge, 1992. esp. p. 247-264). É bem conhecido o caso de Gobineau e da interpretação da história francesa em termos dò enfrentamento entre os francos

Desde o século XIX, com o declínio da agricultura nos países desenvolvidos, a diminuição do número de camponeses era vista como uma conseqüência da modernização da economia e o desaparecimento de sua cultura, como o feliz resultado da integração na comunidade e na cultura "nacionais" permitindo que ingressassem na vida política moderna e abandonassem os velhos sonhos igualitários utópicos.4 O que escapasse à pauta da modernização, como teria sido a tentativa de abordagem autônoma da história dos camponeses, geralmente marginalizava-se, entre outras razões porque as fontes não costumam dizer grande coisa a respeito das resistências camponesas à assimilação "modernizadora", a não ser as fontes de natureza judicial que conservam os testemunhos da repressão contra as formas de luta dos camponeses: furtos lio campo, arroteamentos ilícitos, incêndios de casas e colheitas, etc.5 A partir de meados do século XX, entretanto, e uma vez comprovado que os camponéses continuavam sendo importantes - pelo volume de população que representam nos países subdesenvolvidos e como problema para o futuro, nos desenvolvidos - eles foram recuperados como protagonistas da história contemporânea, principalmente no que se refere às lutas germânicos, um povo superior do qual a aristocracia descendia, e os gauleses, racialmente inferiores, dos quais descendiam os camponeses e os burgueses (POLIAKOV, Leon. Le mythe aryett. Bruxelles: Complexe, 1987). 4 WEBER, Eugen. Peasants into Frenchmen, The modernization of rural France, 18701914. Stanford: University Press, 1976. Em contraste com suas teses, McPHEE, Peter. The politics of rural life. Political mobilization in the French countryside, 18461852. Oxford: Clarendon Press, 1992,"e LEHNING, James R. Peasant and French. Cultural contact in rural France during the nineteenth century. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. 5 Ter estabelecido os complexos problemas que apresenta o tratamento das fontes que se referem à insurgência camponesa é um dos grandes méritos de Ranajit Guha. Veja-se, por exemplo, "Dominance withoút hegemony and its historiography", em Subaltern studies. Delhi: Oxford University Press, 1989. IV, p. 210-309. Pode-se ter uma idéia da invisibilidade dos camponeses, num caso da história do Peru, onde não se encontrem referências a um episódio espetacular, como o dos camponeses do sul do país que, enfrentando o estado, se sublevaram em fins do século XIX) e criaram uma "federação independente" que durou quase vinte anos. (MALLON, Florência E. Peasant and nation. The making ofpostcolonial Mexico and Peru. Berkeley: University of California Press, 1995).

dos povos colonizados contra o imperialismo, começaíido á ser publicados estudos que os focalizam, como os de Eric Hobsbawm sobre banditismo social e o protesto pré-político. Mais importante ainda, é o surgimento de uma linha específica de "peasant studies", inspirada nas interpretações populistas de Chayanov e representada por autores como Eric Wolf, Teodor Shanin e Hamza Alavi, e pelo Journal of Peasant Studies que começou a ser publicado em 1974.6 O problema, do ponto de vista da história, é que a recuperação do camponês realizou-se de maneira confusa, esquecendo-se que não se trata de um grupo homogêneo, de uma classe, sendo necessário considerar suas divisões internas e estudá-lo nas inter-relações com a sociedade urbana. Na Europa ocidental, por exemplo, nunca existiram, como desejariam certas tendências, camponeses isolados da cidade, encerrados no pequeno mundo de economia de subsistência e partícipes de uma cultura estritamente local. Campo e cidade estiveram sempre em estreita relação e a família camponesa não foi essencialmente autárquica - uma outra coisa é que tivesse pouca capacidade de consumir produtos e serviços urbanos - entre outras razões pela necessidade de completar os rendimentos agrários com o trabalho em outras atividades. Por outro lado, a própria cultura da qual faziam parte os camponeses europeus não era estritamente "rural", porém mais popular ou plebéia, compartilhada com as camadas urbanas pobres, mais difundida e muito menos estátiça do que se supõe. Os aspectos negativos de "atraso" com que é definida habitualmente vincula-se à incompreensão do que significava, como estratégia para a sobrevivência, e o seu suposto imobilismo, aò fato que poucos tentaram estudar e explicar sua evolução. No 6 BRYCESON, Debohra; KAY, Crist6bal; MOOIJ, Jos (Ed.). Disappearing peasantries? Rural labour in Africa, Asia and Latin America. London: Intermediate Technology Productions, 2000; BRASS, Tom. Moral economist, Subalterns, New social movements and the (Re-)emergence of a (Post-) modernized (middle) peasant. Journal of peasant studies, 18, n. 2, p. 173-205, 1991; WOLF, Eric R. Peasants. New Jersey: Prentice Hall, 1966, Las luchas campesinas del siglo XX. Madrid: Siglo XXI, 1973/2 e Europe and the peoples without history. Berkeley: University of California Press, 1982. SHANIN, Teodor (Ed.). Peasants and peasant societies. Hardmonsworth: Penguin, 1971; Defining peasants. Oxford: Blackwell, 1990; ALAVI, Hamza. Teoria de la revoluci&n campesina. Medellin (Colombia): La oveja negra, 1969, etc.

século XVIII, Edward Thompson escreveu, o costume estava num fluxo constante: "longe de ter a permanência rígida que a palavra "tradição" sugere, o costume era um terreno de mudança e de conflito, um lugar onde interesses opostos formulavam reivindicações opostas".7 Em 1980, Shanin fez uma série de retificações em análises anteriores, concluindo com a seguinte afirmação: "Os camponeses são uma mistificação. Para começar, não existe "um camponês" em nenhum sentido imediato e específico". Tom Scott nuançaria a propósito dizendo que a categoria camponês "não é tanto um arquétipo como um estereótipo" e que as "formulações" camponesas devem ser compreendidas como "historicamente contingentes, cuja emergência tem relação tanto com outras forças e grupos da sociedade como com qualquer qualidade supostamente intrínseca a eles e inerente a seu modo de reprodução social".8 De fato, pode-se dizer que apenas se iniciou a história da atuação dos camponeses analisada em seus próprios termos, ottde as revoltas situem-se dentro de um sistema de relações que nos permita vê-las, não como simples "reações", como geralmente foi feito, mas como umá ação complexa que tem sua própria coerência interna. Quem foi mais longe nesta direção é o historiador indiano Ranajit Gnha, ao reivindicar a necessidade de entender a lógica da atuação camponesa. Refutando as idéias de Hobsbawm sobre o protesto pré-político, Guha reivindicou o caráter político das revoltas rurais hindus, mostrando que, na aparente incoerência e ainda apresentando toda uma série de contradições, é possível encontrar a formação de "uma consciência que aprendia a organizar e classificar os momentos individuais e coletivos da experiência e a organizá-los em certo tipo de generalizações".9

7 THOMPSON E. P. Costumbres en común. Barcelona: Crítica, 1995, p. 18r19.. 8 SHANIN, Teodor. Defining peasants: conceptualizations and deconceptualizations. In: . Defining peasants. Oxford: Blackwell, 1990. p. 49-74; a outra citação é da introdução a SCOTT, Tom (Éd.). The peasantries of Europe from the fourteenth to the eighteenth century. London: Longman, 1998. p. 1. 9 NEVEUX, Hugues. Les révoltes paysannes en Europe, XlVe-XVlle siècle. Paris: Albin Michel, 1997; JUSTICE, Steven. Writing and rebellion. England in 1381. Berkeley: University of California Press, 1994; GUHA, Ranajit. Elementary aspects of peasant insurgency

Foi também no século XX que as mulheres reclamaram com insistência seu lugar na história geral, corroo antes tinham reclamado plena participação na sociedade. Ao estabelecer que as imagens da masculinidade e da feminilidade eram socialmente construídas, a história feminista mostrou que as relações entre os gêneros e a sociedade também o são. Mas o desenvolvimento desta linha de estudos, embora tenha alcançado um volume considerável, não se realizou sem problemas porque a confrontação de gênero levou à escrever umía história específica das mulheres que conduz geralmente a esquecer que as diferenças sociais passam também pelo interior do gênero, fazendo que muito da historiografia sobre mulheres misture e confunda "mulheres" e "senhoras", ou tenda a subvalorizar, em outro terreno, a transcendência das divisões raciais. O que cabe esperar é que, uma vez recuperadas as mulheres da obscuridade e do silêncio, sua história se integre plenamente numa história comum, acrescentando-lhe novas perspectivas e cumpra-se o que Sheila Rowbotham prevê ao dizer que "a "história das mulheres" está em processo de transcender as próprias fronteiras e chegar a discutir a forma em que as questões da história se apresentam. Assim é como deve ser, já que, se a história é um compromisso com o tempo, as -demarcações que lhe impomos são também artificiais".10 iú colonial India. Delhi: Oxford University Press, 1993 (citações das p. 6 e 11). Partha Chatterjee comenta e matiza os pensamentos de Guha "The nation and its peasants", que se encontra reproduzido em CHATRUVEDI, Vinayak (Ed.). Mapping subaltern studies and the postcobnial. London: Verso-New left review, 2000. p. 8-23. 10 É praticamente impossível sintetizar a bibliografia essencial de um campo tão extenso. Não queria, no entanto, deixar de mencionar as obras de Gerda Lerner - The creation of patriarchy (1986) e The creation offeminist conciousness (1993) - as excelentes histórias gerais da mulher de Bonnie Anderson e Judith Zinsser (Historia de las mujeres una historia propria) e de Olwen Huftpn (The prospect before her), o livro de ROWBOTHAM, Sheila. A century of women. The history of women in Britain and the United States. London: Penguin, 1999 (faço uma citação da p. 3), ou dois títulos interessantes, como são o livro de SMITH, Bonnie G. The gender of history. Men, women and historical practice. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1998, que mostra o papel das mulheres numa profissão onde o sexismo foi dominante, e o volume coletivo organizado por AMELANG, James S.; NASH, Mary. Historia y género: las mujeres en la Europa moderna y contemporânea. Valência: IVEI, 1990. Mais tarde, apareceu, sobretudo no terreno da crítica literária, um campo denominado como "gay", "gay/lesbian" ou "queer studies", que se des-

Em seu conjunto, pode-se dizer que a integração dos excluídos no relato geral é ainda um objetivo a alcançar. As recuperações destas outras histórias esquecidas foram feitas, em grande parte, à margem do quadro geral, que é o que nos oferece explicações globais, sem tratar de integrá-las nêlê^ianljpresen^^ conjunto alternativas. E além disso, cõmõãfirmamos. possuem geralmente um caráter eurocêntrico. E a mesma crítica feita à "história econômica e social" que se apresentava como uma história de todos, mas que assumia esquemas associados ao progresso, ao excepcionalismo europeu e à modernização." Isto pode ajudar a entender porque, quando o modelo da história do progresso começou a falhar, a primeira das respostas ao desencanto conduzisse a uma tentativa de recuperação dos esquecidos da história geral que incluísse não só as formas de inserção coletiva dos mesmos na sociedade burguesa mas, também, suas experiências próprias e sua cultura. Daí surgiram as tentativas de recuperar o indivíduo e a cotidianidade com o objetivo de renovar a vicreve como "o mais recente dos discursos teóricos/críticos que emergiram do movimento de liberação, - New Left, contra a guerra do Vietnã, contra-cultural, negro e feminista - dos sessenta e primeiros setenta" (artigo: Gay theory and criticism em GRODEN, Michael; KEISWIRTH, Martin (Ed.). The Johns Hopkins guide to literary theory and criticism. Baltimore: The Johns Hopkins University Press,.1990. p. 324332). No terreno da história, é menos importante, com John Boswell como especialista mais destacado (Christianity, social tolerance, and homosexuality, 1981); The marriage of likeness, 1995, etc.). O mais freqüente são as obras que misturam os terrenos cultural e histórico, como MACCUBIN, Robert Purks (Ed.). This nature's fault. Unauthorized sexuality during the Enlightenment. Cambridge: Cambridge University Press, 1985 ou BLACKMOItE; Josiah; HUTCHESÕN, Gregory S. (Ed.). Queer Iberia. Sexualities, cultures, and crossing from the Middle ages to the Renaissance. Durham: Duke University Press, 1999. ' 11 São ainda escassas as tentativas de associar estas recuperações a outras linhas de trabalho. Destaque-se, no que se refere ao feminismo, History workshop ou casos como o de Susan Pollock que, na conclusão de Ancient Mesopotamia (Cambridge: Cambridge University Press, 1999. p. 218-219), nos propõe uma Visão inspirada ao mesmo tempo na consideração dos elementos econômicos e no feminismo: "Tanto o feminismo como a economia política levam a uma apreciação da complexidade da história e da mudança histórica. Os dois enfatizam a existência, em toda sociedade, de interesses em conflito - baseados no gênero, idade, classe, ocupação ou alguma outra construção social - e a importância de explorar as formas em que interesses concorrentes dão forma às ações e respostas dos diferentes grupos sociais".

são da sociedade, como fizeram o grupo "History workshop" do Ruskin College de Oxford, em torno de Raphael Samuel, ou o da "Alltagsgeschichte" ou "história do cotidiano" alemã, sempre querendo superar as deficiências de uma história social assimilada pelo academicismo.12 Óutras experiências semelhantes, como a da "micro-história" italiana, compartilham também destas preocupações, mas já vimos que suas contribuições a aproximam mais dos debates sobre a narratividade, embora seja só por sua ambigüidade, de modo que optei por situá-la naquele outro contexto.13 O modelo linear da história do progresso tinha, entretanto, outro âmbito de exclusões, talvez o mais importante: o de todos os povos que não pertencem à cultura dominante de origem européia, cujas sociedades v e culturas costumava-se apresentá-las como estagnadas no tempo até o momento em que a colonização as introduziu na dinâmica da modernização. Isto afetava ao mesmo tempo a África e os povos indígenas que habitavam a América e a Oceania antes da chegada dos colonizadores, enquanto que, no caso da Ásia, onde não era possível desconsiderar que existiram, ali, em muitos sentidos, civilizações mais adiantadas culturalmente do que a Europa, o atraso posterior era atribuído à força do "despotismo" oriental e à debilidade das sociedades civis.14 12 SAMUEL, Raphael (Ed.). Historia popular y teoria socialista. Barcelona: Crítica, 1984; LÜDTKE, Alf (Ed.). Histoire du quotidien. Paris: Maison des Sciences de l'Homme, 1994. 13 Uma mostra interessante dos mal-eritendidos que podem ser produzidos encontramos no livro, organizado por GILLY, Adolfo. Discusión sobre la historia. México: Taürus, 1996. Gilly enviara ao subcomandante Marcos, o chefe zapatista, um trabalho de Ginzburg, reproduzido no volume, "Senales. Raíces de un paradigma indiciário", esforçando-se em defendê-lo numa interpretação que liga Ginzburg com E. P. Thompson, como um método para fugir das generalizações abusivas do marxismo catequético - esgrimindo, ao mesmo tempo, críticas pessoais à conduta dos políticos comunistas - e recuperar a voz dos subalternos. Marcos, em troca, responde-lhe com justificada desconfiança. As intenções de Gilly são boas, mas o caminho que escolheu para realizá-las não é o mais adequado. 14 A importância da cultura da China não necessita demonstração depois da grande obra de NEEDHAM, J. Science and civilisation in China. Cambridge: Cambridge University Press, 1954-1989. Uma interessante revisão das comparações Asia-Europa, com amplas referências bibliográficas, será encontrada em LIEBERMAN, Victor. Transcending East-West dichotomies: State and culture formation in six osten-

No que se refere aos povos "primitivos" atuais, à tarefa dos cientistas sociais europeus serviu constantemente para confirmar sua marginalização: os antropólogos alemães que estudavam, em princípios do século XX, as populações africanas colonizadas, como Eugen Fischer, chegaram a conclusões que, ao afirmarem a conveniência da "extinção" das "raças in-, feriores" e dos mestiços, serviram de inspiração ao holocausto.15 Por outro lado, os esforços realizados conjuntamente por antropólogos e historiadores a fim de reconstruir o passado dos povos indígenas tampouco apresentaram resultados inteiramente satisfatórios. Em nenhum lugar, esses trabalhos devem ter sido quantitativamente mais importantes do que na América do Norte, onde os estudos sobre os povos indígenas têm um peso importante no mundo acadêmico. Mas essa etno-história foi feita a partir de uma perspectiva européia e à margem dos membros dos povos estudados, que não participaram na elaboração da visão de seu passado e se queixam de que "a história convencional foi incapaz de produzir um discurso que respeite os1 ameríndios".16 A rejeição ao eurocentrismo formulou-se abertamente no terreno dos estudos culturais, dando origem ao pós-colonialismo, cujo antecedente mais evidente está na obra de Edward Said (nascido em 1936), um professor nor, te-americano. de literatura comparada, de origem palestina que publicou, sibly disparate areas. In: LIBERMAN, Victor (Ed.). Beyond binary histories. Re-imagining Eurasia to c. 1830. Ann-Arbor: The University of Michigan Press, 1999. p. 19102. Uma revisão da literatura recente sobre o crescimento econômico da Ghina encontrar-se-á em DENG, Kent G. A^ri tical survey of recent research in Chinese economic history. Economic History Review, LIU, n. 1, p. 1-28, 2000. 15 ERMANN, Annegret. From colonial racism to nazi population policy. The role of thè so-called Mischlinge. In: BERENBAUM, Michael; PECK, Abraham J. (Ed.). The Holocaust and history. The Known, the unknown, the disputed and the reexamined. Bloomington: Indiana University Press, 1998. p. 115-133. 16 SIOUI, Georges E. For an Amerindian autohistory. Montreal: McGillTQueen's University Press, 1992. p. 98. Daí porque nem os grupos índios nem os negros sintamse identificados, nos Estados Unidos, com o tipo de história que se ensina nas escolas e lutem por estabelecer memórias coletivas próprias (ROSENZWEIG, R.; THELEN, D. The presence of the past. Popular uses of history in America life. New York: Columbia University Press, 1998. p. 147-176 ("History in black and red: African Americans and American Indians and their collective pasts").

em 1978, Orientalism," onde denunciava, sob a influência de Foucault, a forma como o discurso acadêmico ocidental tendia a construir o conceito de um Oriente essencialmente diferente do Ocidente e a fazer disso uma arma do imperialismo. Said tinha razão ao denunciar a penetração desta ótica nos mais diversos domínios da literatura ou das ciências sociais e é evidente que teve um papel considerável no despertar da consciência para o fato.18 Porém, as contradições de sua obra e a rejeição da especialidade - a reivindicação do crítico como amador não especializado - que traz consigo a falta de conhecimento do trabalho dos estudiosos das línguas, das culturas e da história do Oriente, que ele costuma confundir com o dos escritores e pintores "orientalistas", faz que sua herança seja ambígua.19 Além da função de chamar a atenção para o problema, Orientalism exerceu pouca influência sobre os historiadores especializados,2" enquanto o livro e a obra posterior de Said, referente à análise de obras literárias, influenciaram muito os que se dedicam aos estudos literários, especialmente os membros dos departamentos de inglês das universidades norte-americanas, proporcionando-lhes objetivos novos e estimulantes que lhes per17 Nova York, Pantheon, 1978, que completariam, posteriormente, formando uma espécie de trilogia, The world, the text and the critic (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1983) e Culture and imperialism (London: Chatto and Windus, 1993). 18 Como exemplo, mencionarei RAMON, M. Dolors Garcia; NOGUÉ, Joan. Colonialismo, imperialismo y explotación en geografia: nuevas aportaciones críticas sobre orientalismò y postcolonialisino. In: NOGUÉ Joan; VILLANOVA, José Luis (Ed.). Espana en Marruecos. Lleida: Milénio, 1999. p. 35-54, que destacam a dívida dos geógrafos com Said. 19 As contradições do pensamento de Said estão bem analisadas em ASHCROFT, Bill; AHLUWALIA, Pai. Edward Said. The paradox of identity. London: Routledge, 1999. Uma útil seleção de textos em MACFIE, A. L. (Ed.). Orientalism-. A reader. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2000. 20 Há poucos anos, unja série de especialistas da história do Oriente Próximo - Hourani, André Raymond, Rodinson, Halil Inalcik, etc. - , aos quais se solicitava opinar sobre a obra de Said, a maioria mostrou-se em desacordo com ele (GALLAGHER, Nancy Elizabeth. Approaches to the history of the Middle East. Interviews with leading Middle East historians. Reading: Ithaca Press, 1994). Para uma visão do orientalismo erudito até meados do século XlX, DIGAT, Gustave. Hisloire des orientalistes de I'Europe du Xlle au XIXe siècle. Paris: Maisonneuve, 1868-1870. 2 v.

mitiram aplicar, de maneira mais ambiciosa, os métodos de análise do discurso e das representações. Não é de estranhar, portanto, que Said tenha sido um dos inspiradores fundamentais do "pós-colonialismo", nem que os especialistas desta corrente procedam, em sua maior parte, do campo dos estudos literários ou da cultura, como acontece com os hindus Homi Bhabha, que fazem uma mistura confusa de psicanálise, desconstrução e Foucault a fim de estudar as relações coloniais, ou òayatri Chakravòrty Spivak, professora de humanidades em Columbia University, para quem as referências "teóricas" são Foucault, Derrida (que ela mesma traduziu), Deleuze ou Guattari, que se autodefine como pessoa "com uma certa carte d'entrée nos ateliers teóricos da elite da França" e que se defendeu dos "amigos teoricistas" que criticaram um trabalho de sua autoria por "excessiva preocupação com o 'realismo histórico'", dizendo: "espero que uma segunda leitura os persuadirá de que minha preocupação dirigiu-sè à fabricação de representações da denominada realidade histórica".21 Quando alguém observa como estes estudiosos dedicam-se a dar sucessivas voltas sobre a interpretação de obras literárias - como Heart of darkness de Conrad - , refutando qualquer referência aos problemas reais do mundo pós-colonial e quando são lidas afirmações como a que "o mito da universalidade é uma estratégia primária do poder colonial", pois marginaliza e exclui as características distintivas, a diferença, das sociedades pós-coloniais - ao que Amartya Sen respondeu que existem coisas, como as liber21 De Homi Bhabhà, podem-se ver, por exemplo, as superficiais contribuições ao volume, "editado" por ele, Nation and narration. London: Roudedge, 1990, com uma introdução onde dá voltas em torno de uma trivial identificação de "nação" e "narração" como duas invenções, tema que não é precisamente novo, e um capítulo final onde a frivolidade começa pelo título "derridiano" - "DissemiNation: time, narrative, and the margins of the modern nation" - , com pouco mais que retórica. Consideração que pode fazer-se extensiva ao livro de SPIVAK, Gayatri Chakravòrty. A critique of postcolonial reason Toward a history of the vanishing present. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1999, do qual se faz uma citação (p. 244). Ninguém poderia atacar como contagiada pela história a autora de uma série de insuportáveis peças de retórica "gaulesa". Uma análise crítica da teoria do discurso colonial em WASHBROOK, D. A. Orients and Occidents: Colonial discourse theory and the historiography of the British empire. In: WINKS, R. W. (Ed.). The Oxford history of the British empire. Oxford: Oxford University Ptess, 1999. V. Historiography, p. 596-611.

dades democráticas, que são úteis em qualquer parte do mundo - ; quando se menospreza a história, considerando-a como uma estratégia do homem branco, ou se chega a dizer, como Allan Bishop, que as matemáticas ocidentais são "a arma secreta do imperialismo cultural", propondo a adoção dos sistemas de contar dos primitivos, isto é, das "etnomatemáticas", parece claro que convém prevenir-se contra o perigo de que esse tipo de afirmação, extremando a desconfiança em relação à "realidade histórica", acabe convertendo-se em novas ferramentas de uma marginalização muito pior dos "outros". "O recuo das verdades universais em nome de uma nova multiplicidade por parte dos teóricos do pós-colonialismo - disse Jacoby - leva à incapacidade de analisar e julgar." As denúncias tornam-se meros gestos ineficazes e sem nenhuma proposta útil. Salnian Rushdie explicou, em 1982, que multiculturalismo queria dizer, nas escolas britânicas, ensinar as crianças a tocar o bongô ou a vestir o sári, convencendo-os, ao mesmo tení* po, de que os negros são "culturalmente tão diferentes" que forçosamente criarão problemas de convivência.22 Não se pode negar que o pós-colonialismo contém elementos de . resposta progressista por parte dos especialistas dos estudos culturais que lutam pelos valores positivos do "politicamente correto" e do "multiculturalismo"; mas, pelo lado negativo, é necessário dizer que sua concentração no estudo das representações afasta-os dos problemas reais e os torna cúmplices do imobilismo devido ao fato que partem do princípio de que os colonizados não podem expressar-se por si mesmos, necessitando das vozes do cientista social "pós-colonialista" para fazê-lo.23 Vozes que, infelizmente, costumam estudar um tipo de problema que pode ser interessante 22 ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen (Ed.). The post-colonial reader. Oxford: Blackwell, 1995; CHILDS, Peter; WILLIAM, Patrick. An introduction to post-colonial theory. Hemel Hempstead: Prentice Hall, 1997 (contém três capítulos específicos sobre Said, Bhabha e Spivak; a citação de Rushdie^ da'p. 77). 23 Veja-se, por exemplo, o trabalho de SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Les subalternes peuvent-ils s'exprimer? In: DIOUF, Mamadou (Ed.). L'historiographie indienne en débat. Colonialisme, nationalisme et sociétés postcoloniàles. Paris-Amsterdam Karthala-Sephis, 1999. p. 165-229, onde, depois de uma longa peroração cansativa da mais pedante retórica foucault-deleuzo-derridiana, própria da autora, acaba concluindo: "O subalterno não pode expressar-se".

nos círculos acadêmicos dos países desenvolvidos mas que, concentrandose no meramente cultural - na confrontação Oriente-Ocidente - e esquecendo os aspectos políticos e econômicos - a confrontação Norte-Sul não proporcionam ajuda alguma às vitimas do imperialismo, em franco contraste com os antropólogos que assumiram a tarefa, muito menos elitista, de denunciar os abusos do terrorismp de estado na índia, na América Central ou na Indonésia.25 Russel Jacoby critica muito os "pós-colonialistas" das universidades norte-americanas, que geralmente são professores dos departamentos de inglês com horizontes de pesquisa pouco estimulantes em seu campo, porque as grandes obras literárias que deveriam pesquisar já foram estudadas ad nauseam.26 Misturando a preocupação pelo "politicamente correto" com a análise do discurso, dedicam-se a descobrir por todos os lados, as distorções do discurso imperialista e procuram cumplicidades para denunciar (assim, por exemplo, houve quem criticasse Derrida por haver atacado o apartheid sul-africano, dizendo que, com isto, estava mascarando as outras formas de racismo), sem sujar pessoalmente as mãos com problemas reais e cotidianos que podiam descobrir, apenas olhando ao redor, ao sair à rua.27 24 Gregg explica-nos que, em meados dos anos oitenta, pouco depois da invasão de Granada, "uma turma de estudantes foi informada por um especialista norte-americano na China, preparado em Harvard, que era necessário que fossem os norte-americanos que escrevessem a história da China, porque os historiadores chineses tinham uma visão por demais enviesada para poder fazê-lo objetivamente" (GREGG, Robert. Inside out, outside in... London: Macmillan, 2000. p. 133). É evidente que isto tem pouco a ver com o "orientalismo". 25 SLUKA, Jeffrey A. (Ed.). Death squad. The anthropology of state terror. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2000. 26 A bibliografia de 1997, resenhada em Shakespeare Quarterly, contém 4780 títulos (13 ao dia!) sobre temas tão peculiares como "O fracasso da amizade homoerótica no "Mercador de Veneza" de Shakespeare" (KERMODE, Frank. Writing about Shakespeare. London Review of Books, 9, p. 3-8, Dec. 1999). 27 JACOBY, Russel. Marginal returns. The trouble with post-colonial theory. Linguafranca, 5, n. 6, p. 30-37, Sept./Oct. 1995, onde descreve deste modo sua gênese: "o marxismo engendrou o estruturalismo e o pós-estruturalismo; o pós-estruturalismo engendrou o desconstrucionismo; o desconstrucionismo engendrou o pós-modernismo e os dois fizeram nascer o pós-colonialismo", que é, de certo modo, herdeiro de Frantz Fanon e de Foucault, ^través de Said. No que se refere a minha última afir^ mação, recorde-se que a Columbia University está ao lado do Harlem.

É evidente, em todo caso, que o pós-colonialismo é praticamente inútil para os historiadores, mesmo que seja apenas pelo fato de que parte do repúdio a uma história que geralmente ignora (o que poupa, aos especialistas, o trabalha de levantar documentos adequadamente). As críticas estereotipadas de Said e de seus discípulos à obra dos pesquisadores universitários têm pouco a ver com a obra de historiadores como Donald F. Lach (1917-2000) que, em monumental e inacabado estudo sobre a Asia in the makittg ofEurope,211 se dedicou a estudar, na segunda parte, o impacto da Ásia sobre a Europa, utilizando, além dos testemunhos escritos, as "fontes silenciosas" que são os objetos. Nem com a nova imagem do comércio entre Ásia e Europa que foi surgindo dos trabalhos de van Leur, Steensgaard, Reid, TraCy, Denys Lombard, Om Prakash, Subrahmanyam, etc. e que permite, na atualidade, estabelecer uma visão nova das relações entre o mundo do Índico e a Europa entre 1500 e 1800: uma visão em que o comércio marítimo com o Ocidente deixa de ter o papel determinante que "antes lhe era atribuído, situando-se numa rede muito mais complexa de intercâmbios, na qual se analisa o que significou o "desafio hindu" à Europa e se propõe explicitamente o abandono das velhas visões eurocêntricas.29 Como disse Kenneth Pomeranz, é verdade que as ciências sociais dominantes eram eurocêntricas, mas a solução não consiste em abandonar as comparações entre culturas, limitando-se "a expor a contingência, a particularidade e talvez a incognoscibilidade dos momentos históricos" 28' Donald F. Lach (no volume III, em colaboração com Edwin Van Cley) Asia in the j making of Europe. Chicago: University of Chicago Press, 1965-1993.3 v., 9 t. 29 Citarei apenas, para não multiplicar referências bibliográficas fáceis de encontrar embora geralmente ainda ignoradas pelos pós-colonialistas culturais, que menosprezam olimpicamente a "historiografia disciplinar" (Spivak, p. 221) - os dois volumes "editados" por James TRACY, D. The rise of merchant empires e The political economy of merchant empires. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. A abertura a posturas nada "orientalistas" é também evidente na revista Journal of early modem history, que procura dar uma visão global, com uma ótica definida pelo subtítulo: "Contacts, Comparisons, Contrasts". Uma boa análise crítica, em SUBRAHMANYAM, Sanjay. Connected histories: Notes towards a reconfiguration of early modern Eurasia. In: LIEBERMAN, Victor (Ed.). Beyond binary histories. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1999. p. 289-316.

mas, sim, confrontar as percepções enviesadas dos dois lados para construir Outras melhores.30 Uma resposta crítica a essas limitações, que articulava conjuntamente os problemas da exclusão social e os da marginalização eurocêntrica, foi dada, a partir de fins dos anos setenta, pela escola hindu dos "subaltern studies", inspirada principalmente no já citado Ranajit Guha.31 No manifesto inicial de Subaltern studies, ele denunciou o caráter, elitista da história nacionalista hindu que herdara todos os preconceitos da colonial e que era incapaz de mostrar "a contribuição feita pelo povo por si mesmo, isto é, independentemente da elite" e de explicar o campo autônomo da política da índia nos tempos coloniais, em que os protagonistas não eram as autoridades coloniais nem os grupos dominantes da sociedade, "mas as classes e grupos subalternos que constituem a massa da população trabalhadora e as camadas intermediária^ da cidade e do campo - isto é, o povo". Guha considera Gramsci como uma de suas fontes de inspiração 30 POMER/VNZ, Kenneth. The great divergence. China, Europe and the making of the modern world economy. Princeton: Princeton University Press, 2000. p. 8. 31 Ranajit Guha, nascido em Bengala oriental numa família de proprietários de terra, em 1922, militou no Partido Comunista até 1956. Transferiu-sè para a Grã-Bretanha, onde passaria vinte e um anos, ensinando nas universidades de Manchester e de Sussex (em 1980, transferiu-se para a Australian National University, em Canberra). Propuseram-lhe escrever um livro sobre Gandhi, mas o que realmente lhe interessava era o estudo da insurgência camponesa. Seu primeiro trabalho importante foi um estudo sobre o "Permanent Settlement" de 1793, pelo qual os ingleses introduziram em Bengala um conceito "ocidental" de propriedade, com a idéia de promover o desenvolvimento capitalista. O resultado, porém, em conseqüência de não terem entèndido o contexto do sistema agrário local, foi o de conseguir a contrário, criando uma camada de latifundiários absenteístas (GUHA, Ranajit. A rule ofproperty for Bengal. An essay on the I4ea of Permanent Settlement. Paris: Mouton, 1963; no prefácio à reedição de Durham, Duke University Press, 1996, que é a que uso, Amartya Sen qualifica Guha como "o mais criativo historiador hindu deste século"). Depois viria Elementary aspects of peasent insurgency in colonial índia (1983) e, principalmente, a coleção dos Subaltern studies, que se iniciou em 1982 como uma série que se projetava em três volumes, mas que prosseguiu, dirigida pplo mesmo Guha e por outros, até o sétimo (a maior parte dos dados procedem do prefácio mencionado de Amartya Sen e dos trabalhos incluídos no volume VTII dos Subaltern studies> "Essays in honour of Ranahit Guha").

para o propósito de analisar as formas de mobilização horizontal destes grupos, sua ideologia, a formação de uma política "do povo", determinada em parte pelas condições de exploração das classes subalternas e a dicotomia que se estabeleceu entre a burguesia que não soube representar a nação e as classes subalternas que, apesar da importância das revoltas camponesas, não conseguiram gerar uma luta nacional de libertação.32 O problema do viés das fontes levou Guha a formular a dificuldade de se chegar à história dos subalternos a partir de relatos contaminados pela visão da contra-insurgência,que acaba infiltrándo-se por todos os lados. O historiador, que se mostra favorável aos insurgentes, "só se distancia da prosa da contra-insurgência por uma declaração de intenções. Ainda deverá percorrer um longo caminho antes que possa demonstrar que o insurgente pode confiar em seu trabalho para recuperar o lugar na história".33 Desde 1985, entretanto, começaram a ocorrer dissidências no grupo, tendo uma parte dos membros proposto abandonar o projeto historiográfico de Guha para avançar pelos caminhos do pós-colonialismo mais convencional.34 Seria a partir deste momento, significativamente, que os 32 On some aspects of the historiography of colonial India. In: Subaltern studies. Writings on South Asian history and society edited by Ranajit Guha. Delhi: Oxford University Press, 1982. p. 1-8, e "Preface". In: Subaltern studies. Delhi: Oxford University Press, 1995. p. IM VII-VIII. Dipesh Chakrabarty recordaria o essencial das formulações de Guha em: Discussion: Invitation to a dialogue. In: Subaltern studies. IV, p. 364-376, onde, em resposta a diversas críticas recebidas até então, reafirma que "a tarefa dos historiadores marxistas da Índia, hoje, não é a de repetir as ortodoxias recebidas do marxismo, mas devolver ao pensamento de Marx sua tensão original" (p. 376). 33 GUHA, Ranajit. The prose of counter-insurgency. In: Subaltern studies, 2. Delhi: Oxford University Press, 1983. p. 1-42 (citação da p. 40) e Dominance without hegemony and its historiography. In: Subaltern studies. Delhi: Oxford University Press, 1989. VI, p. 210-309. 34 Veja-se a introdução de Vinayak Chaturvedi ao volume Mapping subaltern studies and the postcolonial, citado anteriormente. O início da dissidência pode-se ver em SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Subaltern studies: Deconstructing historiography. In: Subaltern Studies. Delhi: Oxford University Press, 1985. IV, p. 330-363, onde realiza uma pròposta de "desconstrução da historiografia" e pretende - com uma bateria de citações de Derrida, Nietzsche, Lacan e companhia - , ir além das posições críticas dos subalternos, chegando à própria dissolução do projeto historiográfico inicial.

meios acadêmicos ocidentais começaram a reconhecê-los e que seu estilo - é difícil falar de métodanas circunstâncias - seria adotado como uma via aplicável de maneira geral ao terceiro mundo. Gyan Prakash o apresentou, em 1990, como um possível modelo para escrever "historias pós-orientalistas do terceiro mundo", mas encontrou objeções por parte de Rosalind 0'Hanlon e Davfd Washbrook, que denunciavám a incoerência de querer combinar uma perspectiva marxista que propunha interpretar a história e mudar a sociedade, com outra de análise textual que, ao mesmo tempo que negava a história, contribuía com o próprio ceticismo para perpetuar um status quo regressivo.35 Em 1994, os postulados da escola foram objeto de um "fórum" da American Historical Revieyv, em que Gyan Prakash defendeu uma visão cada vez mais afastada das origens esquerdistas iniciais, na qual o marxismo era acusado de ter perpetuado o discurso eurocêntrico que "universalizava a experiência histórica da Europa". Tentou justificar a origem com o modelo da "história a partir dos de baixo" e com métodos foucaultianos que prestavam "maior atenção em desenvolver a emergência da subalternidade como um efeito discursivo, sem abandonar a noção de subalterno como sujeito e ator". A partir daí, passava a uma crítica "da disciplina acadêmica da*história cómo uma categoria teórica carregada de poder", que sempre acabava sendo história da Europa e marginalizando outras disciplinas, defendendo um programa segundo o qual o Subaltern studies obtém sua força como crítica pós-colonial de uma combinação "catacrética" de marxismo, pós-estruturalismo, Gramsci e Foucault, o oeste modernos a índia, a pesquisa de arquivo e a crítica textual (Observe-se de passagem o caráter elitista de um léxico com palavras como "catacrética", o que obriga o cidadão comum a consultar o dicionário, o que lhe permitirá descobrir que, no contexto concreto, a palavra 35 PRAKASH, Gyan. Writing post-orientalist histories of the third world: perspectives of Indian historiography. Comparative studies in society and history, 32, n. 2, p. 383-408, 1990; O'HANLON, Rosalind; WASHBROOK, David. After orientalism: culture, criticism, and politics in the third world. Comparative studies in society and history, 34, n. 1, p. 141-167,1992, seguida de uma réplica de PRAKASH, Gyan. Can the "subaltern" ride? A reply to O'Hanlon and Washbrook. Id., p. 168-184.

é equívoca36 e, por isso mesmo, desnecessária, perfeitamente substituível por qualquer outra de uso corrente.). O programa foi recebido com uma atitude crítica por Florência E. Mallon que, ao mesmo tempo que mostrava a impossibilidade de ligar duas tendências tão contraditórias, destacava o engodo que poderia implicar, para quem propunha novos métodos, ignorar todo 0 trabalho erudito anterior.37 Infelizmente, porém, o dilema entre as duas tendências incompatíveis denunciada por Mallon foi definindo-se e a escola - apesar de um caso meritório, mas confuso, de trabalho com base erudita como Another reason38 - ficou cada vez mais próxima da crítica textual e de Foucault, afastando-se de Gramsci e da pesquisa em arquivo. Voltou-se para uma despolitização culturalista, arriscando-se a cair no vazio verbal do pós-colonialismo, numa evolução de que a obra de Spivak pode servir de exemplo. O fato de que, ao mesmo tempo em que se tornavam politicamente inofensivos, os "subalternos" tenham conseguido ganhar, entre os meios acadêmicos ocidentais pós-modernos, a audiência que não tinham na época em 36 Comeceçios economizando o leitor da ida ao dicionário. Catacreses é a "figura pela qual uma palavra que designa propriamente um objeto é usada para designar outro que tem uma certa analogia com este". E catacfético, naturalmente, é "relativo ou pertencente à catacreses". 37 O fórum foi publicado na American Historical Review, v. 99, n. 5, Dec. 1994 e compreendia: PRAKASH, Gyan. Subaltern studies as postcolonial criticism, p. 14751490; MALLON, Florência E. The promise and dilemma of Subaltern studies: perspectives from Latin American history, p. 1491-1515 (que, referindo-se à recusa, por parte dos pós-colonialistas, de reconhecer o trabalho dos historiadores, destacou: ~ "no mundo acadêmico atual, com sua notória superprodução, estas técnicas de menosprezo são especialmente atraentes", p. 1502) e COOPER, Frederick. Conflict and connection: rethinking colonial African history, p. 1516-1545, também com bastante precaução no que se refere às possibilidades de utilização destes métodos na Áfricâ. Ao contrário, podemos ver uma intenção recente de estender os métodos à história africana tal como apresenta DIOUF, Mamadou. Entre l'Afrique et l'Inde: sur les questions coloniales et nationales. Ecritures et recherches historiques. In: . (Ed.). L'historiographie indienne en débat. Paris-Amsterdan: KarthalaSephis, 1999. p. 5-35, livro que reproduz justamente o artigo de Cooper. 38 PRAKASH, Gyan. Another reason. Science and the imagination of modem India. Princeton: Princeton University Press, 1999. -

que eram mais subversivos, deveria levá-los a pensar que talvez tenham sido absofvidos por outro tipo de lógica da contra-insurgência.39 Um dos problemas mais graves e mais insidiosos, entre os muitos que o eurocentrismo criou, foi a influência do mesmo nas novas histórias autóctones, nas quais podem ser encontrados geralmente dois defeitos, que são comuns a um determinado estágio inicial das historiografias do sul da Ásia, da África e da América Latina. O primeiro é a adoção dos modelos historiográficos europeus o que levou à tentativa de descobrir, no próprio passado, as mesmas etapas que os historiadores europeus identificaram em seus países: as conseqüências da transposição do conceito de feudalismo foram graves no caso dos partidos da esquerda latino-americana que se empenharam em propiciar inviáveis revoluções burguesas, mesmo que tivessem de aliar-se a ditaduras militares, e provocaram efeitos sangrentos em Ruanda, onde serviu para justificar, como dissemos antes, a "revolução Social" e o extermínio dos tutsis. A transição de uma história colonial para outra nacionalista era especialmente complexa no caso da África, já que os velhos modelos interpretativos coloniais começavam por excluí-la da história. Para os britânicos, o continente era um cenário da história do império: da ação dos britânicos - descobridores, militares, administradores - em terras africanas. Imediatamente após a independência, os historiadores africanos viram-se estimulados a escrever uma espécie de história "resistente", oposta à do imperialismo, que usava, porém, os modelos interpretativos europeus para reintegrar o continente no mesmo tipo de história que derivava daqueles esquemas. Isso os obrigou a procurar os vestígios de estados, de comércios à longa distância oü de redes urbanas, abandonando à etnografia o estudo da vida rural, isto é, a parte essencial da realidade africana: "desta maneira - disse Jean-Pierre Chrétien - a maior parte dos africanos que viveram ficavam fora da ciência". Ou respondiam com a simples inversão dos valores da historiografia colonial, ao mesmo tempo, que procuravam, contraditoriamente, encontrar um sentido histórico nos novos marcos

39 SARKAR, Sumit. The decline of the subaltern in "Subaltern Studies". In: Writing social history. Delhi: Oxford University Press, 1998. p. 82-108.

nacionais definidos pela partilha colonial, o que os comprometia a legitimar, de início, as construções políticas e as formas de organização nascidas da independência.40 O fracasso econômico inicial dos países africanos independentes levou a uma interpretação próxima às teorias latino-americanas da dependência, jogando toda a culpa do atraso no colonialismo. Da velha visão colonialista de um passado africano primitivo, fruto da incapacidade de seus habitantes, que se havia modificado pela ação civilizadora dos europeus, passou-se, agora, a uma recuperação otimista da própria história - com reivindicações extremas dos valores africanos, como o da "negritude" do Antigo Egito - 41 que supervalorizava o estado de civilização e desenvolvimento, em termos europeus, da África nos inícios da Idade Moderna. Desse ponto de partida, a explicação do atual subdesenvolvimento reduz-se a estabelecer as culpas do colonialismo: a afirmar, como sustentava um livro de Walter Rodney, que a Europa havia subdesenvolvido a África.42

40 FALOLA, Totin. West Africa. In: WINKS, R. W. (Ed.). The Oxford history of the British empire. Oxford: Oxford University Press, 1999. V. Historiography, p. 486-499. CHRÉTIEN, Jean-Pierre. Les mémories, enjeux de l'histoire de l'Afrique. In: CHRÉTIEN J.-R; TRIAUD, J. -L. (Ed.). Histoire d'Afrique. Les enjeux de mémoire. Paris: Karthala, 1999. p. 491-500. No volume de readings, organizado por COLLINS, Robert O.; BURNS, James McDonald; CHING, E. Christopher. Problems in African history. The precolonial centuries. New York: Markus Wiener, 1993, um dos capítulos principais dedica-se justamente a "African states and trade", por mais que uma parte dos textos reunidos mostre que existem muitos casos de estados que se formaram por razões muito diferentes à da existência de comércio exterior. JEWSIEWICKI, Bogumil; NEWBURY, David (Ed.). African historiographies. What history for wich . Africa. Beverly Hills: Sage, 1986. 41 A tese, exposta pela primeira vez por Cheik Anta Diop em 1954 e difundida por ele mesmo no volume II da Historia general de África da UNESCO, seria desenvolvida por M. Bernal em Atenea negra, I: La invención de la antigua Grécia, 1785-1985. Barcelona: Crítica, 1993, e II: The archaeological and documentary evidence. London: Free Association, 1991 (e criticada depois duramente, sobretudo por Mary Lefkowitz). 42 RODNEY, Walter. How Europe underdevelopped Africa. London: Bogle-L'Ouverture, 1972 (edição em língua espanhola, La Habana: Editorial de Ciências Sociales, 1981). Uma revisão crítica bastante interessante da evolução da historiografia africana pode ser encontrada em MOFFA, Cláudio. L'Afrique à la périphérie de l'histoire. Paris: L'Harmattan, 1995.

A responsabilidade do imperialismo, que é inegável, não se atenua pelo fato de que hoje saibamos que os impérios coloniais não foram tão importantes para o crescimento econômico das metrópoles como antes se pensava. No que se refere à Grã-Bretanha, os trabalhos de Davis e Huttenback, por um lado, e de Cain e Hopkins, por outro, demonstraram que o império não era um bom negócio em termos globais, que só alguns se beneficiavam, enquanto que os custos da operação eram pagos pelo conjunto dos cidadãos. Algo semelhante, pode ser dito sobre os impérios francês ou japonês e, no que concerne ao alemão, ao italiano ou ao espanhol, os resultados foram tão exíguos que não vale a pena nem falar. Um dos historiadores que mais e melhor pesquisou ás diferenças entre o crescimento dos países desenvolvidos e o dos de terceiro mundo, Paul Bairoch (falecido em 1999), insistiu em desmistificar o papel das colônias no desenvolvimento dos países industrializados.43 Mas se a atribuição de todas as culpas ao colonialismo podia parecer convincente nos anos sessenta, quando os países africanos recém-irídependentes aparentemente tinham oportunidades de iniciar processos de crescimento autóctones, reproduzindo os que trilharam a industrialização eüro43 DAVIS, Lance E.; HUTTENBAÇK, Robert A. Mammon and the pursuit of empire: The political economy of British impérialism, 1860-1912. Cambridge: University Press, 1986 (ed. abreviada 1988); CAIN, P. J'.; HOPKINS, A. G. British imperialism. London: Longman, 1993.2 v. I: Innovation and expansion, 1688-1914. II: Crisis and deconstruction, 1914-1990; HAVINDEN, Michael; MEREDITH, David. Colonialism and development. Britain and its tropical colonies, 1850-1960. Londoii: Routledge, 1993; MARSEILLE, Jacques. Empire colonial et capitalisme français. Histoire d'un divorce. Paris: Seuil, 1989 (ed. original, 1984); DÜUD, Peter. The abacus and the sword. The Japanese penetration of Korea, 1895-1910. Berkeley:. University of California Press, 1995; KIMURA, Mitsuhiko. The economics of Japanese imperialism in Korea, 1910-1939. Economic History Review, XLVIlI/n. 3, p. 555-574, 1995; FIELDHOUSE, D. K. The West and the Third world. Oxford: Blackwell, 1999; WAITES, Bernard. Europe and the Third world. London: Macmillan, 1999, etc. Para limitar-me a duas referências recentes de Paul Bairoch, que tem uma extensa bibliografia sobre estas questões: Victoires et déboires. Histoire économique et sociale du monde du XVIe siècle à nos jours. Paris: Gallimard, 1997 e Mythes et paradoxes de l'histoire économique. Paris: La Découverte, 1999. Uma reformulação interessante do tema, surgida da escola de Bairoch, é a de ETEMXD, Bouda. La possession du monde. Poids et mesures de la colonisation. Bruxelles: Complexe, 2000.

péia ou por outras viaS próprias, como a do "socialismo africano" de Nyerere na Tanzânia,44 deixou-o de ser mais tarde, quando o fracasso de todos os projetos de desenvolvimento e a evidência de que a disparidade entre o crescimento econômico da África negra e o dos países desenvolvidos continuava aumentando, obrigando a reformular todo um conjunto de questões demasiado complexas para serem resolvidas com as elucubrações retóricas do pós-colonialismo e que só podem ser estudadas, tomando como base uma análise histórica adequada da realidade de cada um dos países.45 As conseqüências dessa tara original que impedia a fundação de uma história legitimamente africana atingiriam, paradoxalmente, Ernesto Che Guevara quando tentou iniciar um processo revolucionário no Congo. Chegou com idéias extraídas de interpretações históricas e políticas de raiz européia como eram as do marxismo, descobrindo, por exemplo, que não havia, naquela região da África, o tipo de problema de luta pela propriedade da terra que havia conhecido na Europa e na América colonizada pelos europeus e que os camponeses adequavam-se a formas próprias de vida e a solidariedades tribais. As soluções que propunha, aprendidas em Cuba, não serviam para fazer a revolução num meio social onde a Contradição principal era a que existia "entre nações exploradoras e povos explorados".46 Na América Latina, fez-se, inicialmente, uma história nacionalista que não reservava nenhum protagonismo aos nativos, atribuía todos os 44 SHTVJI, Issa G. et al. The silent class struggle. Dar es Salaam: Tanzania Publishing House, 1976. Sobre o fracasso deste projeto, cita-se SCOTT, James C. Seeing like a state. How certain schemes to improve the human condition have failed. New Haven: Yale University Press, 1998. p. 233-261. 45 Uma análise que evite, no entanto, simplificações como as realizadas, a partir de um enfoque estritamente economicista, por D. K. Fieldhouse (The West and the Third world. Oxford: Blackwell, 1999), que conclui que "praticamente cada país do Terceiro Mundo que não foi devastado pela guerra, pela guerra civil ou pela simples incompetência dos governos é agora mais rico do que era antes de sua integração ao mercado mundial", o que o leva a concluir que "Adam Smith, Ricardo e seus discípulos tinham razão" (p. 350 e 355). Uma apresentação original do problema em DAVIS, Mike. Late Victorian holocausts. London: Verso, 2001. 46 CHE GUEVARA, Ernesto. Pasajes de la guerra revolucionaria: Congo. Barcelona: Mondadori, 1999. p. 266-267.

males à colônia e fixava o momento fundacional na independência, que havia dado lugar a uma ruptura total graças à direção exercida pelos "próceres" fundadores do estado, Foi necessário realizar, depois, uma reconstrução total da visão "nacionalista" - no sentido que aplicamos este termo aos casos da índia ou da África - , da qual surgiram, principalmente na América andinar, trabalhos de etnp-história que conseguiram aproximarse da problemática dos indígenas, graças à associação da erudição histórica e da preocupação política pela sorte das grandes massas nativas que vivem hoje em países como Equador, Peru ou Bolívia. Indígenas que reivindicam agora a nacionalidade étnica e que, em alguns casos, como o dos cataristas da Bolívia, aspiram, pelo fato de ser maioria, alcançar o controle da nação crioula que se construiu sem levá-los em consideração.47 Foi necessário, também, reconstruir a história colonial e aprofundar a das sociedades nacionais surgidas da emancipação, superando a epopéia da independência e a falsa ruptura radical que se afirmava ter existido entre a época anterior e posterior a ela, para alcançar uma visão que não se limite, como denunciou Germán Carrera Damas, a mostrar uma história vista exclusivamente através da mentalidade crioula, decididamente eurocêntrica, mas que estabeleça uma nova avaliação que inclua "o rico patrimônio indígena e africano".48

47 A necessidade de evitar relações bibliográficas demasiado longas obriga a limitar a referência a alguns grandes nomes como o de John V. Murra, que mostrou a especificidade do uso dos pisos ecológicos pelos camponeses indígenas, do Alberto Flores de Buscando un inca, ou das equipes qtíê trabalhavam em Cuzco em torno de Allpanchis e da Revista andina (e das atividades paralelas de formação camponesa que realizavâm junto ao trabalho de erudição, acompanhados de livros tão extraordinários como a Historia rural dei Peru, de Guido Delgran, Cuzco, Centro de Estudos Rurais Andinos, 1981/2) ou o dos livros publicados no Equador para as edições Abya-Yala. A mostra mais recente desta linha é o excelente primeiro volume da Historia de América andina publicáda pela Universidad Andina Simón Bolívar (LUMBRERAS, Luis Guillermo (Ed.). Las sociedades aborígenes. Quito: Universidad Andina Simon Bolívar, 1999). 48 Germán Carrera Damas, "Introducción general" ao primeiro volume da Historia general de América latina patrocinada pela UNESCO (Madrid: Trotta, 1999, p. 1323). No que se refere à história colonial, é necessário mencionar de forma especial nomes como o de Pablo Macera (Trabajos de historia. Lima: Instituto Nacional de Cultura, 1977. 4 v.) ou o de Carlos Sempat/Assadourian (El sistema de la economia

Na Oceania, ao contrário, onde o debate sobre o passado fez-se quase que exclusivamente em termos de antropologia,49 a situação pode modificar-se pela pressão dos grupos nativos que querem assumir o estudo de sua história - como acontece na Nova Zelândia, onde os maoris discutem o tipo de análise levado a cabo até agora pelos pakeha (neozelandeses de origem européia) -, 50 ou que denunciam, como na Austrália, as interpretações ""bicancas" que serviram para construir a imagem da inferioridade dos nativos, justificando que se lhes arrebate o controle dos recursos naturais. Os estudos que tratam de integrar as duas perspectivas, a dos colonizadores e a dos colonizados, cpmo faz, na Austrália, o grupo que publica a revista Aboriginal history desde 1977, podem ter muita importância na procolonial. México: Nueva Imagen, 1983), que renovaram por completo a velha ótica que só via a América como um dos dois pontos terminais das correntes de intercâmbios entre as "colônias" e as metrópoles. Um bom estado da questão encontrase em KOROL, Juan Carlos; TANDETER, Enrique. Historia económica de América latina: problemas y procesos. México: Fondo de Cultura Económica, 1998. Uma tentativa de aplicar ao caso da América Latina uma mescla de Wallerstein e "Subaltern studies" na versão pós-colonial em MIGNOLO, Walter D. Local histories/Global designs. Coloniality, subaltern knowledges and border thinking. Princeton: Princeton University Press, 2000. Não surpreende que um livro como este, com uma extensíssima relação bibliográfica onde figura a totalidade dos livros "à la mode" com trinta autocitações do próprio autor, ignore quase por completo toda a historiografia latino-americana das últimas décadas. 49 Disso pode ser muito representativa a obra de Marshall Sahjins: Historical metaphors and mythical realities. Structure in the early history of the Sandwich Islands Kingdom, (Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1981). Islands of history (Chicago: University of Chicago Press, 1985) - onde defende a confluência de antropologia e história, não somente em termos de colaboração "O problema é como fazer explódir o conceito de história pela experiência antropológica da cultura", p. 72 How the "natives" think about captain Cook (University of Chicago Press, 1995), etc. 50 O'REGAN, Stephen. Maori control of the Maori heritage. In: GATHERCOLE, P.; LOWENTHAL, D. (Ed.). The politics of the past. London: Routledge (One world archaelogy), 1994. p. 95-106; BELICH, James. (Making peoples. A history of New Zealanders. From Polynesian settlement to the end of the ninenteenth century. Auckaland: P'enguin Books, 1996. p. 58) escreveu: "Uma história geral da Nova Zelândia não deve ignorar a concepção maori do passado distante, nem limitá-la a um prefácio romântico, totalmente mitológico, qüe são as duas práticas usuais". Veja-se também do mesmo autor, "Colonization and history in New Zealand" no volume já citado Winks, Historiography, p. 182-193.

Por uma história de todos

jeção do futuro, já