A criação da juventude: como o conceito de teenage revolucionou o século XX
 9788532524157, 853252415X

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:omo o con ceit o

de t e e n a g e r e v o l u c i o n o u

o século

XX

século XX foi marcado por duas grandes

0

guerras e transformações culturais irreversí­

veis. Uma delas, a valorização da juven­

tude a qualquer custo, tem origens muito mais

antigas do que se pode im aginar. E o que mos­

tra o jornalista Jon Savage neste livro, que mapeia os caminhos percorridos pelos jovens desde o final do século XIX até 1945, quando tem início a

Teen Age.

A p a rtir daí, sua presença podia ser fa cil­ mente notada: bastava observar as manchetes de jornal, as revistas especializadas que come­ çavam a surgir, a publicidade estrategicamente direcionada. Tudo apontava para um novo - e poderoso - mercado consumidor, que passaria a ser referência cultural nos Estados Unidos e em boa parte da Europa a partir dos anos 1950, Mas de que maneira uma sociedade que va lo riza v a a h ie ra rq u ia entre gerações e via a adolescência como um obscuro período entre a infância e a idade adulta chegou até ali? Focan­ do sua pesquisa principalmente na Alemanha, na Inglate rra e nos Estados Unidos (a nação adolescente por excelência), Savage vasculha notícias de jo rna is entre 1875 e 19 4 5 e nos

teenage. Ela vai do Wandervoge! e sua paixão pela

apresenta a pré-História do grupo alemão

natureza até a Juventude Hitlerisfa; da delin­ qüência juvenil na Londres do final de século XIX

à revolta hedonista de Bright Young People após o fim da Primeira Guerra; das gongues de a d o­ lescentes no meio-oeste americano à veneração de Rodolfo Valentino e outros ídolos de Hollywood. Esses e outros e p isó d io s, re la ta d o s em

A criação da juventude,

provam que, mais do

que uma tentativa de manipulação de uma faixa etária, seus conflitos e suas conquistas, a

Age

Teen

desloca peças de um com plexo quebra-

cabeça: o de uma sociedade que ao longo de setenta anos deixaria para trás a moral vito ria ­ na e faria da instantaneidade, do consumismo e da compulsão pelo prazer seus maiores valores.

J O N S A V A G E nasceu em 1953, na Inglaterra. E jornalista e escritor, sendo reconhecidamente elogiado por seus trabalhos sobre a história do rock. E autor de

England's Dreaming,

livro so­

bre o movimento punk e a banda Sex Pistols.

Fotos de capa;

Teenage girl cn Malihu beach © Corbis; American teenagers in a recorcJ store in West Grove , Mississippi © Nina Leen; 'Space Division' of Hirier Youth © AKG-images; Two boys in zoot suits © Corbis; Boys arrestcd, Los Angeles © Corbis;

A CRIAÇÃO DA JUVENTUDE

JON SAVAGE

A CRIAÇÃO DA JUVENTUDE Como o conceito de teenage revolucionou o século XX

Tradução de Talita M. Rodrigues

ROCCO

Título original TEENAGE The Creation of Youth Culture Copyright © Jon Savage, 2007 Agradecimentos são feitos a seguir pelas autorizações de reproduzir excertos extraídos de obras protegidas pela lei de direitos autorais. I Am the Most Interesting Book ofAli: The Diary of Marie Bashkirtseff. Tradução para o inglês por Phyllis Howard Kernberger com Katherine Kernberger. Copyright tradução © 1997 by Katherine Kernberger e espólio de Phyllis Howard Kernberger. Usado com autorização da Chronicle Books, LLC. Matérias provenientes de Mass-Observation Archive, University of Sussex Library. Reproduzido com autorização da Curtis Brown Group Ltda., Londres, em nome de Thistees of the Mass-Observation Archive. Copyright © The Trustees of the Mass-Observation Archive. The Diary of a Young Girl: The Defmitive Edition de Anne Frank, organização de Otto H. Frank e Mirjan Pressler e traduzido para o inglês por Susan Massotty. Copyright © 1995 by Doubleday, uma divisão da Random House, Inc. Usado com a autorização da Doubleday, uma divisão da Random House, Inc. “Generation Without Farewell” provém de The Man Outside de Wolfgang Borchert, traduzido para o inglês por David Porter. Copyright © 1971 by New Directions Publishing Corp. Reproduzido com a autorização da New Directions Publishing Corp.

Direitos para a língua portuguesa reservados com exclusividade para o Brasil à EDITORA ROCCO LTDA. Avenida Presidente Wilson, 2 3 1 - 8 - andar 20030-021 - Rio de Janeiro - RJ Tel.: (21) 3525-2000 - Fax: (21) 3525-2001 [email protected] www.rocco.com.br Printed in Brazil/Impresso no Brasil preparação de originais NATALIE ARAÚJO LIMA

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. S277c Savage, Jon A criação da juventude: como o conceito de teenage revolucionou o século X X / Jon Savage; tradução de Talita M. Rodrigues. - Rio de Janeiro: Rocco, 2009. Tradução de: Teenage: the creation of youth culture ISBN 978-85-325-2415-7 1. Adolescentes - História - Século X X 2. Juventude - História - Século XX. 3. Adolescentes - Europa - História - Século XX. 4. Adolescentes - Estados Uni­ dos - História - Século X X 5. Cultura popular - História - Século X X 6. História social - Século X X I. Título. 09-0614

CDD -305.2350904 C D U -316.346.32-053.6

PARA JOSEPH LESLIE SAGE MC E MARGARET DOROTHY SAGE

SUMÁRIO

Introdução

11

PARTE UM | 1875-1904

19 Marie Bashkirtseffe Jesse Pomeroy

1 Céu e inferno

2 Nacionalistas e decadentes

A contrarrevolução europeia

32

49 Delinqüência juvenil e a mídia de massa

3 Hooligans e Apaches

65 L. Frank Baum e a Terra dos Sonhos de Oz

4 “Uma súbita visão do Paraíso”

5 O século americano

79

G. Stanley Hall e Adolescence

PARTE DOIS

6

| 1904-1913

Peter Pan e os Boy Scouts

Juventude imperial britânica

93

7 Calouros da escola secundária e alimento para a fábrica

Adolescência americana e a indústria

118 Movimentos de regresso à natureza na Europa

8 Wandervogel e Neopagãos

9 Nickelodeons e danças imitando animais

A economia do sonho americano

130

107

PARTE TRÊS

| 1912-1919

147 O abismo entre gerações na Europa

10 Invocação

156 Os mortos de guerra e jovens contra velhos

11 Sacrifício

174 Delinqüência juvenil e a Grande Guerra

12 A classe de 1902

13 Bandas de jazz e os soldados de infantaria

A juventude americana entra na Europa PARTE QUATRO

187

| 1919-1929

14 Choques do pós-guerra 201 Os Fascisti, o Bunde alemão e o Woodcraft Folk

218 O mercado jovem americano

15 Sheiks e Shebas

239 Os problemas da cultura de massa americana

16 0 complexo de Cinderela

256 Os Bright Young People

17 Em busca do prazer

PARTE CINCO

| 1930-1939

18 Os soldados de uma ideia

A Juventude Hitlerísta

277

19 0 exército infantil e o New Deal

299

20 Os Biff Boys e a ameaça vermelha

319

Adolescentes americanos na Depressão A polarização da juventude britânica

21

Jitterbugs e Ickies 340 O swing americano e o consumismo dos jovens

PARTE SEIS

| 1939-1943

361 A Juventude Hitlerista na guerra e em casa

22 Conquistadores e senhores feudais

23 Recrutas relutantes e heróis socialistas

A juventude britânica na guerra

24

371

Subdebs e GIs 387 Adolescentes americanos na escola e de uniforme

25 Garotos alemães do swing e os Zazous franceses

O swing na Europa nazista

26 Os Zoot-Suiters e as Victory Girls

A inquietação americana em 1943 PARTE SETE

403

419

| 1942-1945

441 Os soldados americanos e a juventude britânica

27 Os invasores pacíficos

28 Helmuth Hübener, A Rosa Branca e Anne Frank

A resistência na Europa nazista teenager 472 O lançamento de Seventeen

29 A chegada do

30 O ano zero 486 O teenager triunfante Agradecimentos Notas

501

499

453

CARTÃO-POSTAL COMERCIAL, INÍCIO DOS ANOS 1900

INTRODUÇÃO

A América costumava ser o lugar da juventude na imaginação de todos. A América tinha teenagers e o resto do mundo, só pessoas. - John Lennon, nascido em 1940, entrevistado em 1966

ESTE LIVRO TERMINA com um começo.

Em 1944, os americanos começaram a usar a palavra teenager para descrever a categoria de jovens com idade entre 14 e 18 anos. Desde o início, foi um ter­ mo de marketing usado por publicitários e fabricantes que refletia o poder de consumo recentemente visível dos adolescentes. O fato de que, pela primeira vez, os jovens se tornaram um público-alvo também significava que eles tinham se transformado num grupo etário específico com rituais, direitos e exigências próprios. A invenção do teenager coincidiu com a vitória dos americanos na Segunda Guerra Mundial, evento histórico decisivo para a criação do império que ainda detém o controle no século XXI. Na verdade, a definição do jovem como um consumidor era uma excelente oportunidade para uma Europa devastada. Nos últimos sessenta anos, esta imagem do adolescente pós-guerra dominou o modo como o Ocidente vê os jovens e tem sido exportada com sucesso para o mundo todo. Como a nova ordem mundial que prenunciava, ela precisa ser redefinida. Mas a cultura jovem do pós-guerra não é tao nova como pode parecer. Desde o último quartel do século XIX houve muitas tentativas conflitantes de imaginar e definir o status do jovem - fosse mediante esforços combinados para arregimentar adolescentes usando políticas nacionais, fosse a partir de visões proféticas, artísticas, que refletiam o desejo dos jovens de viverem segundo suas próprias regras. A narrativa começa em 1875, com os escritos autobiográficos de Marie Bashkirtseff e Jesse Pomeroy, e termina em 1945; durante esse período, cada um dos temas agora associados ao teenager moderno teve um precedente vivido e volátil. Esta, portanto, é a pré-história do teenager. * * *

INTRODUÇÃO

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Em janeiro de 1980, envolvi-me no projeto de uma possível série para televisão sobre a história de culturas jovens marginais. Naquela época, eu era um pesquisa­ dor da Granada Television, em Manchester, empresa então muito conhecida por suas programações inovadoras e socialmente conscientes. Com o suporte do meu produtor na época, Geoff Moore, montamos uma proposta que visava contar a história de todos os ‘modismos pós-guerra”: teds, beats, mods, rockers, hippies, skinheads, glitterboys, punks, assim como Rude Boys e rastafáris. O estímulo para a ideia da Granada veio da obra de Dick Hebdige, Subculture: The Meaning ofStyle, que, publicada em 1979, havia merecidamente redu­ zido a distância entre a academia e uma platéia mais ampla. Subculture foi um produto da abordagem interdisciplinar iniciada pelo Centro para Estudos Cultu­ rais Contemporâneos da Universidade de Birmingham. Misturando sociologia com interpretação literária e teoria francesa, o livro de Hebdige oferecia uma si­ nopse histórica dos muitos modismos britânicos dos jovens no pós-guerra, embora sem ignorar fatores como classe e raça. A abordagem alusiva de Hebdige concordava com as minhas próprias obser­ vações do cenário punk londrino, onde, em 1976, os pioneiros deste movimento sobre o qual pouco se falou até agora juntaram quase todos os estilos da cultura jovem, prenderam tudo com alfinetes e, depois, orgulhosamente, exibiram os resultados. Uma jaqueta dos anos 1960 podia ser usada com calças mot-suit e creepers no estilo dos Teddy Boys: sapatos enormes, de sola grossa, não muito di­ ferentes daqueles usados pelos Zazous parisienses na década de 1940. O efeito era ao mesmo tempo surpreendente, alucinante e assustador. Esta bricolagem viva revelou-se, fora sugerida pelas roupas vendidas nas várias encarnações do número 430 da Kings Road, a loja dirigida por Malcolm MacLaren e Vivienne Westwood. Entre 1971 e 1975, o nome da loja mudou diversas vezes, de Let It Rock (roupas no estilo teddy boy) para Too Fast To Live, Too Young to Die (roupas de roqueiro e zoptist), para Sex (roupas fetiche) e Seditionaries (“roupas de heróis” do rock punk desenhadas por estilistas). Cada fase foi marcada por um raro grau de pesquisa e atenção aos detalhes. Mas a colagem histórica do punk também marcou o momento em que o movimento linear foi substituído pelo loop, o que ocorreu a partir da década de 1960. De repente, todas as épocas da cultura pop estavam acessíveis no mesmo plano, disponíveis de uma só vez. Em retrospectiva, este processo havia começa­ do em 1966 - no auge do modernismo pop -, mas levara dez anos para se tornar uma parte viva da cultura jovem. Levado ainda mais adiante no início da década de 1980 pela corrente jovem mais recente, os New Romantics, este mergulho no passado reafirmou o fato de que havia uma longa e mal documentada história da juventude datando de uma época bem anterior à Segunda Guerra Mundial. 12

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INTRODUÇÃO

No decorrer dos 18 meses seguintes, o material sobre a cultura jovem que meu produtor e eu escrevemos para a Granada Television tornou-se um piloto para uma potencial série de documentários. Com o nome Teenage, o primeiro programa com duração de uma hora cobriu a cultura jovem britânica entre 1945 e 1957: a transição entre a austeridade do pós-guerra, a primeira aparição dos eduardianos, mais tarde chamados de Teddy Boys, e o impacto do roclcnroll durante 1956 e 1957. Por várias razões, entretanto, o piloto ficou inacabado e a série de TV foi cancelada.1 Mas o meu interesse pelo assunto se manteve. Nos dez anos seguintes, mais ou menos, continuei colecionando qualquer material que se relacionasse com o tema da cultura jovem - particularmente aqueles marcados com o jargão teenager. Quanto mais eu lia, mais percebia haver toda uma história anterior à Segunda Guerra Mundial. Lendo sobre os Wandervogel ou o mercado universitário ame­ ricano dos anos 1920, percebi que havia uma história inédita que não batia com a visão geralmente aceita de que os teenagers começaram a existir nos meados da década de 1950. Essa ideia cristalizou-se ainda mais quando descobri um exemplar de Adolescence, de G. Stanley Hall, no início da década de 1990. O prefácio de Hall continha um manifesto profético a favor da cultura jovem do pós-guerra escrito com meio século de antecedência. Sua visão da adolescência como uma fase dis­ tinta da vida sujeita a enormes quantidades de estresse e tensão - e que, portanto, devia ser tratada com especial cuidado e atenção - estava baseada, pela primeira vez, numa definição de idade muito específica. Dentro dos dois volumes daquele livro gigantesco, pelo visto, estava um começo da história. Adolescence também se harmonizava com dois outros documentos funda­ mentais do século XX: O mágico de Oz, de L. Frank Baum, e Peter Pan, de J. M. Barrie. Ambos eram incrivelmente românticos, extraordinariamente proféticos, e esforçavam-se para definir algo que estava no ar, mas que ainda não possuía um nome definitivo. Na virada do século, a ideia de que a juventude podia ser definida como uma fase distinta da vida estava engatinhando, mas essas obras cheias de imaginação exploravam as várias possibilidades de um sentimento, se não de toda uma sociedade, baseadas na promessa de juventude, transitória ou eterna. Esta promessa estava personificada na América, o poder em ascensão no novo século. Hall explicitamente associou o seu país, “uma nação com autorida­ de”, com a fase da vida que ele estava tentando definir: “O próprio fato de nos

1 Para algumas das razões do cancelamento de Teenage, ver Mary Harron, “Teen Dream That Wont Fade Away \ Guardian, 13 de julho de 1982.

INTRODUÇÃO

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julgarmos jovens fará da fé no futuro algo curativo, e um dia nós não só atraire­ mos os jovens do mundo por nossas inigualáveis liberdade e oportunidade, como desenvolveremos uma formação mental, moral e emocional que será a melhor preparação para explorá-las ao máximo e para ajudar a humanidade a alcançar um estágio mais elevado.” Ao mesmo tempo, a estirpe europeia, sintetizada pelos românticos e a juven­ tude revolucionária do fim do século XVIII, permanecia poderosa. Os impérios ocidentais do fim do século XIX estavam passando por problemas de desenvol­ vimento semelhantes —urbanização, industrialização e rearmamento —que resul­ taram num enfoque maior ao tema da juventude. O diálogo entre os Estados Unidos, o Reino Unido e o norte da Europa sobre a delinqüência juvenil havia começado em meados do século XIX e compôs a maior parte dos dados de pesquisa fartamente citados por G. Stanley Hall. A pré-história do teenager, portanto, não podia ser contada simplesmente através da América, era preciso acrescentar a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha. Eu originalmente incluí material da Itália e da Rússia - juntando a fascinante história dos bensprizornU a juventude itinerante da década de 1930 —, mas ele teve de ser abandonado por falta de espaço. As mesmas considerações inicialmente inspiraram a minha decisão de encerrar o livro nos meados do século XX. Entre­ tanto, quanto mais eu me adiantava, percebi que a narrativa tinha de terminar com a quase simultânea cunhagem da palavra teenager e a explosão das bombas atômicas que mudaram a noção de futuro. O livro, portanto, conta a história da tentativa, por dois continentes diferentes e por mais de meio século, de conceitualizar, definir e controlar a adolescência. Além do diálogo entre América, Grã-Bretanha, França e Alemanha, ele contém vários elementos diferentes que resumem a tensão entre a fantasia e a realidade da adolescência, e entre as muitas e variadas tentativas de exaltar ou capturar este fugaz e transitório estado. O testemunho pessoal - na forma de diários escritos na época por adolescentes de verdade procurando entender a si mesmos e o mundo —é colocado ao lado de notícias veiculadas na mídia e de políticas governamentais. O ideal de juventude como uma classe separada, grupai, contrasta com as realidades da classe econômica e social. As muitas diferentes tentativas de sociólogos, criminologistas e psicólo­ gos de normalizar a juventude - como uma fase da vida pela qual todos têm de passar - são contrapostas por narrativas de adolescentes extraordinários, aqueles que parecem personificar uma era ou apontar para um futuro que ainda precisa acontecer. Acima de tudo, a atenção que essas sociedades passaram a dar ao tema re­ forçou na juventude a ideia de si mesma como algo importante. É fascinante notar, com o avançar do século XX, como as vozes dos jovens tornaram-se menos 14

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INTRODUÇÃO

encurraladas pelos adultos e ouvidas com mais frequência nos seus próprios termos. Em outro nível, este livro contém a narrativa de como os jovens lutaram para se fazerem ouvir, se não totalmente de acordo com seus próprios termos, ao menos como aqueles em que podiam se reconhecer e acomodar. O sucesso do teenager como um conceito dominante deveu-se em grande parte a este delicado equilíbrio. * * * Embora este livro cubra um período do qual não tenho nenhuma experiência pessoal, ele contém elementos autobiográficos disfarçados - no mínimo na seleção do material. Nasci em setembro de 1953, perto do fim do primeiro baby boom. Meu pai servira com afinco na Segunda Guerra Mundial, sobre a qual raramente falava, enquanto o início da adolescência de minha mãe tinha sido dominado por aqueles seis anos. Seu subsequente amor por viagens internacionais foi em parte inspirado pelo desejo de se libertar de anos de racionamento e restrições. Nos primeiros 13 anos da minha vida, fui criado em Ealing, um subúrbio da parte oeste de Londres: um ambiente quase destinado a oferecer uma tábula rasa depois de anos de sofrimento e horror. Minha reação de adolescente contra tudo que se referia à vida nos subúrbios hoje é temperada pela compreensão de que esta mudança foi uma reação natural, se não a única racional, por parte da geração que passou pela guerra. As áreas mais antigas da cidade ainda estavam gravemente danificadas - os locais bombardeados no centro de Londres permane­ ceram assim até meados da década de 1980 -, mas os subúrbios eram seguros, confortáveis e, pensando bem, um excelente lugar para passar os meus primeiros 13 anos de vida. Cada geração tem sua própria tarefa. Tentar anular a experiência de uma outra geração é inútil e potencialmente perigoso. Tendo experimentado os tumul­ tos e tensões de um adolescente das décadas de 1960 e 1970, acabei percebendo que parte da minha tarefa no grupo era ajudar a lidar com danos da guerra so­ fridos por nossos pais. O horror sem solução daquele período e a imensa questão existencial proposta pela bomba H inspiraram as manifestações extremas da cul­ tura jovem dentro da qual eu mergulhei totalmente. Bem mais tarde, fui capaz de falar com meu pai sobre sua juventude nas dé­ cadas de 1930 e 1940, o que me ajudou a compreender o que ele passou. Por sor­ te, também tive um bom relacionamento com meu avô materno, que nasceu em janeiro de 1904. Suas histórias sobre a vida nas décadas de 1920 e 1930 incen­ tivaram a minha imaginação, enquanto seu amor pelo jazz e pela música popular americana - ele foi ver a Original Dixieland Jazz Band, em 1920 - estimulou e legitimou as minhas próprias obsessões musicais. INTRODUÇÃO

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As experiências da minha família, portanto, foram um meio de me orientar na primeira metade do século XX. Ao mesmo tempo, tentei ser o mais meticuloso possível no tratamento do material, e espero não ter deixado nenhum movimento ou manifestação importantes totalmente inexplorados. Se há alguma omissão, a responsabilidade é toda minha. Entretanto, é preciso lembrar que minha tendência foi de produzir uma obra da história popular e não um trabalho acadêmico de múltiplos volumes. Tem uma última coisa. Podem dizer que eu me concentrei demais no extra­ ordinário e não no comum, o exagero à custa da rotina. Eu diria o contrário, que esses jovens vão de encontro às tentativas de acadêmicos, especialistas em jovens e governos de padronizar a juventude, e à juventude predominante da época. Por exemplo, a pequena minoria de jovens alemães que resistiram a Hider é contrastada com os milhões de seus contemporâneos que ingressaram na orga­ nização do estado nazista, a Juventude Hiderista. Existe uma dialética no livro, portanto, entre o extraordinário e o ordinário. Mas, se tenho escolha, será sempre a de encontrar o extraordinário dentro do que é comum. Isto é inspirado tanto pelo meu temperamento como pelo próprio assunto. É um argumento que data da primeira publicação de Adolescence. Numa crítica do livro, em abril de 1905, um tal de J. M. Greenwood acusou G. Stanley Hall de dar prioridade ao “que se pode chamar de aberrações da raça, sem dar peso suficiente para a média dos disciplinados que compõem a grande maioria da humanidade”. É um comçntário justo, mas que considero incorreto. Por sua própria natu­ reza, a juventude tem sido acusada de representar o futuro: a perene tipificação do adolescente pela mass-media como um gênio ou um monstro continua codi­ ficando as esperanças e os temores dos adultos com relação ao que vai acontecer. Ignorar aqueles que se destacam como precursores em favor daqueles que se apegam ao status quo é recusar envolver-se com o futuro, se não interpretar mal a própria juventude. Como G. Stanley Hall, orgulho-me de ser um romântico neste assunto, no mínimo porque tenho esperanças de um mundo melhor.

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INTRODUÇÃO

CAPÍTULO

1

Céu e inferno

Marie Bashkirtseff e Jesse Pomeroy * * *

O homem não está destinado a permanecer criança. Ele deixa para trás a infância na época determinada pela natureza; este momento crítico, muito breve, tem conseqüências de longo alcance. Como o ribombar das ondas precede a tempestade, o mesmo acontece com o murmúrio de paixões em sobressalto; uma excitação reprimida nos alerta do perigo iminente. - Jean-Jacques Rousseau, Emílio, livro 4 (1 762)

MARIE BASHKIRTSEFF, DÉCADA DE 1870

JESSE POMEROY, 1874

“EU ESTAVA VOANDO, muito acima da terra, e com uma das mãos segurava uma lira. As cordas estavam constantemente frouxas, e eu não podia fazê-las produzir um som que fosse. Continuei subindo, vendo horizontes imensos, nuvens - azuis, amarelas, vermelhas, misturadas, douradas e prateadas - esfarrapadas, estranhas. Então tudo ficou cinza e estonteantemente luminoso, e eu continuava subindo até chegar a uma altura assustadora, mas não tinha medo. As nuvens pareciam descoradas, cinzentas e brilhantes, como chumbo. Depois tudo foi se apagando. Eu continuava segurando a minha lira com as cordas frouxas. E bem lá embaixo, sob meus pés, pendia uma bolha avermelhada - a terra.” Marie Bashkirtseff acordou deste sonho na madrugada de segunda-feira, 27 de dezembro de 1875. A jovem de 17 anos havia bebido vinho demais no jantar e era impossível continuar dormindo. Ela resolveu livrar-se de seus pensamentos agitados e se preparou para um ritual de confissão. “Agora que são duas horas da manhã”, ela começou, “e estou trancada no meu quarto, vestindo um longo penhoar branco, descalça, os cabelos soltos como uma mártir virgem, posso muito bem me dedicar a pensamentos melhores.” A confissão de Marie, entretanto, não foi aos padres de sua religião católica, mas ao caderno de anotações que era o seu refugio: “Este diário contém toda a minha vida; meus momentos mais tranqüilos são aqueles em que estou escreven­ do. Eles são provavelmente os únicos de calma que tenho. Queimar tudo, ficar exasperada, chorar, sofrer tudo e viver, e viver! Por que me deixam viver? Oh, es­ tou impaciente. Minha hora virá. Eu certamente quero acreditar nisso. Mas algo me diz que ela jamais virá, que passarei toda a minha vida esperando, esperando.” O diário não era só uma válvula de escape, mas um pedido de imortalidade secular. Marie queria atenção e fama. “Se eu tiver de morrer jovem”, ela continuou naquela noite, “queimarei este diário; mas se viver até ficar velha, as pessoas o lerão. Eu acredito, se posso dizer assim, que não existe ainda a fotografia da existência de uma mulher, de todos os seus pensamentos. Sim, todos, todos. Será interessante. Se eu tiver de morrer jovem em breve, e se por azar este diário não for queimado, dirão: ‘Pobre criança, ela estava apaixonada por Audiffret, e todo o seu desespero vem disso/” Esta explosão apaixonada acontecia no fim de um ano turbulento. Retor­ nando para a cidade de Nice adotada por sua família naquela primavera, Marie transferiu a sua paixão de estudante pelo inatingível duque de Hamilton para o jovem de 24 anos, Emile Audiffret. Nos meses seguintes, ela obsessivamente registrou o progresso do seu primeiro caso de amor real. No dia 26 de dezem­ bro, Audiffret cancelou um encontro, uma grave desfeita. A mãe de Marie tinha feito o convite, uma interferência materna que deixou a filha irascível furiosa. No outono de 1875, Marie tinha completado 17 anos. Isso provocou uma explosão ainda maior: “Estou cansada da minha obscuridade”, ela escreveu. “Eu 20

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1875-1904

mofo nas sombras. O sol, o sol, o sol! Vamos —coragem. Desta vez é só uma passagem que me levará para onde eu estarei bem. Estou louca? Ou predestina­ da? De um jeito ou de outro, estou enfastiada!” Ela estava sempre enfastiada: com a lentidão da sua mãe, com o tédio dos feriados familiares, com a inércia do mundo. A vida não vinha rapidamente o bastante para uma jovem que se encon­ trava numa corrida contra o tempo. Como a filha preferida de abastados refugiados russos, Marie era impaciente e mimada. Seus vestidos eram feitos à mão em Paris segundo seus próprios de­ senhos extravagantes. Ela acompanhava a família nas suas viagens pela Europa, divertindo-se com seus contatos com o beau monde. Tinha uma ala de quartos inteira na propriedade dos Bashkirtseff, situada no Promenade des Anglais, em Nice, na qual o santuário secreto era o quarto de dormir que, revestido de cetim azul-celeste e com um candelabro de porcelana de Sèvres no teto, parecia “o in­ terior de uma caixa de luvas”. Embora muito mimada, Marie tinha a responsabilidade de um destino espe­ cial. Quando ainda era bem pequena, uma cartomante dissera à sua mãe que a filha seria “uma estrela”. Desde então, Marie tinha sido criada para ser “a mais bela, a mais inteligente, a mais magnífica”, sendo incentivada em seus caprichos. Esta sensação de ser especial lhe deu uma confiança compartilhada com pou­ quíssimas jovens da sua idade e época. Quando começou a registrar seus pensa­ mentos e emoções num diário, tinha poucas dúvidas sobre o seu impacto sobre a posteridade: ele seria, é claro, “o livro mais interessante de todos”. As primeiras anotações traziam muita preocupação com a sua aparência: um dia ela se sentia “muito bonita”, no seguinte “um corpo que nem Satanás re­ conheceria”. Ela se sentia um Frankenstein: “Nós sabemos que eu tenho uma boa postura, que tenho ombros largos, um peito alto, coxas e traseiro curvilíneos e proeminentes e pés pequenos. Em cinco minutos, virei um monstro chato, ma­ gricela, com peito murcho, um ombro mais alto do que o outro, o que tira tudo o mais do lugar. Meus pés estão chatos e compridos, meus olhos, encovados e meus dentes, pretos.” A consciência do próprio corpo, entretanto, era o menor dos seus problemas. Quando começou a freqüentar a sociedade, Marie percebeu que sua família tinha péssima reputação. O tio e o irmão mais novo, Paul, estavam em constantes dificuldades com a Justiça. Sua mãe era separada do pai, enquanto tia Sophie vi­ via o tormento de um demorado processo judicial. A própria Marie era suspeita, graças ao seu entusiasmo e extraordinária noção de moda: uma roupa de patinação com uma cauda de penas de avestruz era avançada demais para os costumes pro­ vincianos de Nice. O efeito desses escândalos foi a não aceitação dos Bashkirtseff pela socieda­ de local. Marie sentia intensamente os desaforos: “Meu nome está manchado, e CÉU E INFERNO

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isso me mata”, ela escreveu depois que sua família foi caluniada pelos Tolstói, refugiados russos como eles. “Chorei como um animal, desanimada, humilhada.” Aos 14 anos, Marie tinha acrescentado o sentimento de vingança ao seu ímpeto já considerável: “Eu serei recebida na sociedade porque não serei uma celebrida­ de vinda dé uma classe inferior ou uma rua suja”, ela proclamou em março de 1873. “Sonho com a celebridade, com a fama.” Impulsionada pela profecia da cartomante e inflamada mais ainda pelas censuras da provinciana Nice, Marie vertia todo o seu ressentimento e sua frustra­ ção em seus cadernos. Quase todos os dias, escrevia sobre si mesma e a sua famí­ lia com extrema franqueza, como para se purgar de toda a falsidade que a rodeava. Ela não via sentido em “mentir ou fingir”. Tudo estava exposto ali na página: as suas variações de humor, a rivalidade com o irmão Paul, as suas primeiras expe­ riências com álcool e tabaco, a sua rebeldia contra os adultos e suas instituições, a obsessão com a sua aparência. Não era isso que se esperava de uma jovem nos anos de 1870. Como o bió­ grafo de Marie, Dormer Creston, comentou mais tarde, essa foi a época em que “grandes segmentos das classes altas e médias, e em particular as mulheres, foram educados com uma falsa noção de piedade”. Marie conscientemente reagia contra os ideais femininos contemporâneos de “autorrepressão, resignação e intensa domesticidade”. Como desdenhosamente ela observou: “Ora, eles se divertem — os homens. A mulher é sempre a vítima. Eu gostaria de ser um homem. Eu su­ peraria cada um desses senhores.” Já ardente de impaciência e frustração, Marie recebeu um golpe mortal no verão de 1875. “Tenho dores no peito”, ela revelou naquele mês de junho. “Parece que estou com tuberculose. Mas esta dor no peito me preocupa, e nos últimos cinco dias cuspi sangue. É terrível.” Este autodiagnóstico não se confirmaria por mais sete anos, mas Marie ficou chocada ao descobrir que a sua retórica mais me­ lodramática - “a morte para mim é um parente próximo”, ela declarara naquela primavera - havia se tornado uma probabilidade. O tempo era cada vez mais precioso. O sonho de Marie em 1875 vinha de uma imagem arquetípica da sua fé e do seu nome: a Assunção da Virgem Maria Abençoada. Mas também evocava a mesma sensação de possibilidades ilimitadas que os românticos já tinham atri­ buído ao jovem na puberdade. Aos 16 anos, Jean-Jacques Rousseau acreditara que “podia fazer qualquer coisa, conseguir tudo”. Como ele lembrou nas suas Confissões: “Eu precisava apenas me lançar para a frente, montar e voar pelos ares. Eu entrava no vasto mundo com uma sensação de segurança; ele se enche­ ria com a fama das minhas realizações.” Entretanto, Marie estava atenta demais para não perceber as notas ameaça­ doras emanando do seu subconsciente; a lira com as cordas frouxas, as nuvens 22

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de chumbo. Ela tinha toda a vida pela frente, no entanto, em contraste com esta imponderabilidade havia graves restrições. Embora ela quisesse romper as frontei­ ras de classe, gênero, família e até as do seu corpo físico, sabia que o seu tempo estava passando “muito rápido”. O sonho terminou em nauseante suspensão: ela mergulharia em direção a terra, como ícaro, ou continuaria subindo com a sua lira de cordas magicamente frouxas? * * *

Enquanto Marie lutava contra a sua doença, outro jovem ocupava-se com uma autobiografia. Como Marie, Jesse Pomeroy estava enfrentando uma luta de vida ou morte, mas no seu caso ele era quem a tinha provocado. No verão de 1875, estava preso na Suffolk County Jail, a penitenciária municipal do estado ameri­ cano de Massachusetts, por ter sido condenado no último dezembro por assassi­ nato em primeiro grau. Embora tivesse apenas 15 anos —quase exatamente um ano menos que a refugiada russa -, ele enfrentava a pena de morte obrigatória. Pomeroy já havia adquirido fama ou, para ser mais preciso, sua sombria no­ toriedade. Quase imediatamente depois de ter sido preso pela morte de Horace H. Millen, em abril de 1874, seu nome passou a ser o apelido de uma forma de depravação até aquele momento inconcebível. A sua vítima de quatro anos de idade fora encontrada gravemente mutilada na costa pantanosa do sul de Boston: Pomeroy a esfaqueara várias vezes no peito, furara-lhe os globos oculares, cortara sua garganta tão profundamente que a cabeça quase se soltou do pescoço e, para finalizar, divertiu-se numa tentativa de castração. Não por acaso ele ficou conhe­ cido em toda a América como o “menino demônio”. A histeria aumentou quando a sua sádica enxurrada de raptos e mutilações se revelou. As suas dez vítimas tinham sido, com uma exceção, meninos entre quatro e oito anos de idade, e todos tinham sido submetidos a uma horrenda lista de humilhações, espancamentos e facadas. Num dos casos, Joseph Kennedy tinha sido chicoteado no rosto, nas costas e coxas, e depois obrigado a esfregar água salgada nas feridas abertas. Quando o corpo de Katie Curran, a primeira vítima assassinada por Pomeroy, foi descoberto em julho de 1874, o menino de­ mônio teria sido rasgado de “membro a membro” se já não estivesse na prisão. Embora tivesse sido condenado em dezembro de 1874, Pomeroy recebera um adiamento da execução enquanto se decidia o que fazer com ele. A sua ju­ ventude, combinada com a extrema atrocidade de seus crimes, já havia despertado um feroz debate nacional sobre a pena de morte.1Apesar de o juri ter recomen­

1A pessoa mais jovem executada anteriormente na América tinha 18 anos na década de 1830.

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dado que sua punição fosse comutada para prisão perpétua, a opinião da maioria, expressa em editorais nos jornais e em centenas de cartas e petições, era a de que Pomeroy devia ser enforcado. No dia 2 de julho de 1875, a sentença de morte de Pomeroy foi confirmada pelo conselho executivo do governador do estado: tudo que restava entre o jovem e o patíbulo era a assinatura do governador. Enquanto a sua vida pendia na ba­ lança, Pomeroy era mantido na solitária. Em vez de um candelabro de Sèvres, paredes cobertas de cetim azul-celeste e uma cama em forma de concha pousada sobre patas de leão esculpidas, ele tinha um catre sobre uma estrutura de ferro, uma cadeira de madeira e dois baldes de água suja. Sua condição de extremo isolamento, combinada com a perspectiva de iminente execução, exacerbavam o desejo de justificar suas ações. Ele teve duas oportunidades naquele verão. A primeira foi proporcionada pelo Boston Times, que imprimiu uma “autobiografia” em duas partes do “monstro moral”. Em vez de reconhecer a sua inegável culpa, Pomeroy fugiu do assunto. “Estas são as razões pelas quais EU PENSO QUE, SE FIZ ESSAS COISAS, EU ESTAVA LOUCO ou não pude deixar de fazê-las”, ele escreveu, antes de concluir, “mas, não obstante tudo isso, como eu disse, EU NÃO ACHO QUE FIZ ESSAS COISAS.” Em outro trecho ele insultou as testemunhas do julgamento e os ju­ rados, a quem chamou de “12 imbecis”. O verdadeiro Jesse revelou-se, entretanto, numa série de cartas que escreveu na prisão. Durante o mês de junho de 1875, um menino de 14 anos chamado Willie Baxter foi preso por roubo e se viu na cela vizinha à do notório assassino. Embora o contato entre os prisioneiros fosse rigidamente proibido, os dois jovens deram um jeito de manter uma correspondência que durou até Baxter ser julga­ do semanas depois. Pomeroy ficou felicíssimo com o contato humano: “Vamos trocar longas cartas e assim enganar o nosso cativeiro, mas sem fazer muito barulho.” Pomeroy estava fascinado com a sua fama: “Diga-me tudo que ouviu a meu respeito, tudo que for ruim, e acho que não vou me zangar.” Ele também confes­ sou os assassinatos que havia negado no tribunal: “A moça entrou na loja uma manhã e pediu papel. Eu lhe disse que tinha uma loja no andar de baixo. Ela desceu, e eu a matei. Ah, Willie, a pena que tenho dela e também do menino. O que eu disse para o garoto não me alembro [sic]y mas você sabe que eu o matei também. Sinto muita pena dele e, acredite-me, não sei lhe dizer por que fiz essas coisas.” Este foi o elemento extra a alimentar a notoriedade de Pomeroy: os fortes ímpetos para os quais não existe um vocabulário na América dos Anos Dourados. O que agravava a crueldade dos seus crimes era a aparente impossibilidade de explicação: não só ele se recusava a assumir a responsabilidade, como não falava 24

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outra coisa que não fosse a linguagem mais simples de compulsão: “Algo me fez fazer.” O máximo que ele conseguia era descrever uma dor, quase uma descarga elétrica, que atravessava a cabeça de um lado ao outro e detonava os ataques. Pomeroy irrompeu na consciência americana como um novo tipo horrendo. Não havia nada na legislação existente que explicasse a sua insensível selvageria, apesar do fato de o crime juvenil ter sido discutido e definido ao longo do século XDC O termo “delinqüente juvenil” era da década de 1810 e, em 1824, a primeira legislação definindo “delinqüentes juvenis” fora aprovada na cidade de Nova York Esta sustentava que os delinqüentes tinham de ter menos de 21 anos de idade, a divisão da lei consuetudinária entre criança e adulto. Com a crescente urbanização, formou-se uma base de dados transatlântica sobre crimes praticados por jovens. No seu influente livro Juvenile Delinquents: Their Condition and Treatment, de 1853, Mary Carpenter sugeriu que “crianças” menores, como aqueles na sua segunda década de vida ainda eram chamados, de­ veriam ser tratadas diferentemente dos adultos com vinte e poucos anos, já crimi­ nosos empedernidos. Esta nódoa de corrupção, somada à redução da responsa­ bilidade imputada às crianças, começou a empurrar mais para baixo a definição legal de menoridade, chegando a 16 anos em alguns casos. , Pelas definições existentes, Pomeroy ainda era uma criança —14 anos quan­ do cometeu os seus crimes - e, no entanto, estava enfrentando uma sentença de adulto. Não obstante a sua idade sugerir uma responsabilidade reduzida, as au­ toridades e o público estavam diante de um jovem que parecia saber muito bem o que estava fazendo e que era capaz de distinguir entre o certo e o errado. Na verdade, seu comportamento durante os interrogatórios pela polícia e no tribu­ nal não mostravam nada além de uma compostura precoce, obstinada. No hiato entre a chocante realidade dos crimes de Pomeroy e os conceitos sobre delinqüência juvenil então existentes, havia espaço para muitas explicações diferentes. A solução mais popular para o mistério da motivaçao do jovem assas­ sino veio da frenologia, uma disciplina muito em moda na epoca. Com ela se afirmava que os criminosos eram retornos a um estágio mais primitivo do desen­ volvimento humano, e que seus atavismos fisiológicos eram marcados por irre­ gularidades no formato do crânio, rostos desfigurados e outras deformações. Embora Pomeroy fosse de estatura mediana, sua cabeça era nitidamente grande para o corpo, e seu olho direito era coberto por uma película leitosa. Para um jor­ nalista, “um simples olhar para a expressão do garoto” bastava para “ver como lhe era possível perpetrar as atrocidades pelas quais estava sob custódia”. Seus olhos eram “obstinada e brutalmente malvados”, com um olhar “frio, impiedoso”. Com 2 O primeiro trabalho defintivo sobre o assunto, Vuomo delinqüente, de Cesare Lombroso, foi publicado em 1876. CÉU E INFERNO

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“a palidez da sua pele” e “o caminhar desajeitado de alguém cujos pensamentos são do tipo mais baixo”, ele representava um retrocesso genético de livro didático. Outra solução possível foi encontrada no seu ávido consumo de romances de folhetim, as narrativas de aventuras em edições baratas então populares entre os jovens americanos da época. Títulos como Rangers of the Mohawk e Calamity Jane, the Heroine ofWhoop-Up descreviam em detalhes sangrentos as batalhas entre os índios e os robustos americanos da fronteira. Jesse era particularmente atraído pelas atividades dos índios americanos, identificando-se com o famoso renegado branco Simon Girty e se divertindo com as descrições de torturas e assassinatos. Esta linha de indagação deu origem a um diálogo bastante obtuso entre o jovem prisioneiro e o famoso editor James T. Fields. Quando lhe perguntaram se as suas paixões homicidas tinham sido incentivadas pelos folhetins, Pomeroy mencionou com aprovação “as ilustrações de sangue e trovões, machadinhas dos peles-vermelhas e escalpelos”. Entretanto, ele hesitava em admitir que eles influen­ ciaram seu comportamento: “Pensei muito nisso e me parece agora que eles in­ fluenciaram. Não posso dizer com certeza, claro, e talvez, se voltasse a pensar, diria que foi outra coisa.” “Que outra coisa?” “Bem, senhor, realmente não sei.” O enigma representado pelas ações de Pomeroy ditou os termos do seu jul­ gamento por assassinato. A única maneira de evitar a sentença de morte era decidir que ele era ruim da cabeça. Seu advogado chamou dois “especialistas em loucos” como testemunhas chaves. Dr. John E. Tyler pensava que o réu sofria de um “distúrbio mental” compulsivo e, portanto, “não era responsável por suas ações”. Dr. Clement Walker foi mais além e culpou uma forma obscura de epilepsia pela “falta de controle” do assassino. O testemunho pioneiro dos alienistas não surtiu efeito junto à opinião públi­ ca. No que lhe dizia respeito, os crimes de Jesse Pomeroy resultavam de uma “hor­ rível monomania”. Para a maioria das pessoas, ele era apenas um “jovem demônio” ou um “cão raivoso” que devia ser liquidado. O American Law Review deu ao assunto um brilho retórico: “Se o impulso do garoto está sob o seu controle, sem dúvida não há razão para que sua vida seja poupada. Se não está, em que ele di­ fere de um lobo, exceto pelo fato de que teria a inteligência de um homem, e que, portanto, seria ainda mais perigoso?” Era conveniente aos americanos pensar no jovem assassino como algo subumano. Entretanto, a unica linha de indagaçao que mal foi considerada na época teria lançado uma luz dura sobre a sociedade em geral. Pomeroy era um produto dos bordéis urbanos do continente, as cidades espalhando-se no ritmo acelerado da imigração. Neste ambiente brutal, os jovens tinham muitas vezes de se virar sozinhos. Havia muito pouca escolaridade, o trabalho infantil endêmico e a 26

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puberdade marcavam o momento em que a luta pela sobrevivência começava pra valer. Em meados do século, o reformador pioneiro Charles Loring Brace havia comentado a respeito do “imenso número de meninos e meninas soltos nas ruas, que mal tinham um lar ou ocupação a que se pudesse chamar assim, e que continuamente inchavam a multidão de criminosos, prostitutas e vagabundos’ . As crianças dos bairros pobres eram rotineiramente demonizadas nos jornais que ressaltavam o inexorável crescimento de gangues organizadas: os jovens in­ disciplinados que o New York Times, em 1873, chamou de semibêbados, pre­ guiçosos, inúteis vagabundos”. Pomeroy foi criado em Chelsea, um distrito pobre de Boston. O casamento de seus pais foi marcado pela violência alcoolizada do pai, expulso de casa em 1872, mais ou menos na época em que o menino cometeu o seu primeiro ata­ que sério. Enquanto a mãe trabalhava para pagar as contas, Jesse ficava perambulando pelas ruas. Com o seu olho leitoso, ele parecia estranho, e era alvo de provocações. A insegurança a respeito da sua aparência revelou-se em uma das suas cartas a Willie Baxter: “O que você acha de mim?”, ele perguntou. “Pareço um menino mau? A minha cabeça é grande?” Entretanto, foram as furiosas surras que recebeu do pai que deixaram a cica­ triz mais profunda. Suas cartas na prisão mostraram uma obsessão com “chicota­ das”. “Vou lhe contar a pior sova que recebi”, ele escreveu a Baxter. “Eu matei aula e roubei dinheiro da minha mãe. Meu pai me levou para o depósito de lenha e tive de despir o meu casaco e colete, e as duas camisa [sic\ para deixar as minhas costas nuas. Papai pegou um chicote e me deu uma chicotada muito forte. Doeu muito e sempre que penso nisso parece que estou sendo açoitado de novo.” Desconhecidas por mais de um século, essas cartas talvez tivessem ajudado a solucionar a exasperante questão que Jesse Pomeroy apresentava para a América dos Anos Dourados. Simplesmente ele havia aprendido muito bem com o exem­ plo dos adultos. Naquelas circunstâncias, ele foi desumanizado e resumido a um símbolo de pura maldade. Em contraste com os malcriados mas adoráveis perso­ nagens travessos dos “romances para meninos da época como Rãgged Dick> de Horatio Alger, ou The Story of a Bad Boy, de Thomas Bailey Aldrich, Pomeroy era uma rajada de pavor de dar calafrios: um Frankenstein saído diretamente de um laboratório urbano. Como a famosa criação de Mary Shelley, Pomeroy não podia retornar à so­ ciedade. Ele previu o seu destino: “Se dizem que devo morrer, eu estou morto. Se me mandam para a prisão perpétua, estou morto também. Depois que o seu confidente Willie Baxter deixou a Suffolk County Jail no verão de 1875, o jovem assassino padeceu mais um ano ate a sua sentença de morte ser substituí­ da por prisão perpétua na solitária. Embora sempre se recusando a aceitar o seu CÉU E INFERNO

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cativeiro, ele permaneceria desligado de qualquer contato humano pelos próxi­ mos 41 anos. * * * Durante o ano de 1887, enquanto Jesse Pomeroy fazia as suas quinta, sexta e sétima tentativas sérias de escapar da prisão, o diário de Marie Bashkirtseff foi publicado. Os anos que se seguiram a 1875 tinham visto alguns dos seus desejos satisfeitos. Aos 18, ela se desligou do provincianismo de Nice e se mudou para Paris a fim de estudar para ser uma artista. Apesar dos constantes tratamentos, a sua tuberculose avançava inexoravelmente. Em contrapartida, ela pintava como se sua vida após a morte dependesse disso. Expondo no Salon, conquistou o reconhecimento pelo seu retrato de crianças dos bairros miseráveis, Un meeting. Marie finalmente morreu aos 25 anos, em abril de 1884. Antes, naquele mesmo ano, ela escreveu um prefácio para o que esperava ser o seu testamento para a eternidade: “Quero que o meu diário seja publicado. Ele não pode deixar de ser interessante. A minha expectativa de que seja lido estraga ou tira o seu mérito? Nem um pouco. Eu o escrevi durante muito tempo sem sonhar com isso. E só agora, porque espero que o leiam, é que sou totalmente sincera. Se este livro não é a exata, absoluta e estrita verdade, ele não tem razão de ser.” Foi esta sinceridade que ajudou a fazer do diário um campeão de vendas na sua primeira publicação francesa. Ao retratar com franqueza e exaustivamente a sua jovem psique, Marie Bashkirtseff expôs uma espécie de percepção que a cultura e a mídia da época não reconheciam. Seu livro foi comparado a Confissões, de Rousseau, mas havia duas diferenças cruciais: Marie escreveu do ponto de vista feminino, registrando seus sentimentos e experiências conforme aconteciam em vez de se lembrar deles no fim da vida. Oferecendo um relato íntimo sem precedentes da vida na adolescência, o impacto do diário espalhou-se por toda a Europa, América e Grã-Bretanha. Foram publicados artigos a seu respeito em revistas como a Womaris World e The Nineteenth Century, onde o primeiro-ministro britânico, William Gladstone, chamou a autora de “um verdadeiro gênio, um desses seres anormais que neste ou naquele país parecem vir ao mundo uma ou duas vezes a cada geração”. Ma­ rie havia finalmente conquistado a fama que tão ardentemente buscara, como uma verdadeira “liberadora da mente”. Como ela havia previsto, entretanto, este sucesso tinha o estigma da ironia. O diário foi um pacto faustiano com sua mortalidade: foi o conhecimento da sua vida encurtada que dera força aos seus escritos, mas esse material, tão íntimo e iconoclástico, só pôde ser publicado depois da sua morte. Sua natural intensidade havia sido freada por um diagnóstico fatal, mas esta atmosfera mais intensa foi 28

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o que tornou o livro tão atraente para os jovens. Marie personificava a visão ro­ mântica de uma vida acelerada que a morte prematura selou. * * * Marie Bashkirtseff e Jesse Pomeroy tiveram em comum mais do que a sua época. A seu próprio modo, eles forçaram as suas respectivas sociedades a reconhecerem que os rituais existentes entre infância e idade adulta estavam obsoletos. A fase física da puberdade, em geral começando por volta dos 12 ou 13 anos e terminan­ do aos 18 ou 19, permanecia constante. Entretanto, o “verdadeiro gênio” e o “menino demônio” mostraram que não era mais adequado pensar que a idade adulta vinha imediatamente após a infância: eles foram os precursores de um novo estado intermediário que ainda não tinha um nome. Não que tivessem chegado totalmente sem se fazer anunciar. Já existia um conjunto considerável de obras sobre o tema. Na verdade, tanto Marie como Jesse sintetizaram o “momento crítico” para o qual Rousseau havia alertado mais de cem anos antes. Em Emílio, um tratado tão escandaloso que foi queimado quando da sua publicação, em 1762, Rousseau argumentava que a puberdade tinha efeitos mentais e emocionais tão elementares que representava um “segundo nascimento”. Os sintomas eram “uma mudança de temperamento, freqüentes explosões de raiva, uma perpétua agitação mental”. As ideias de Rousseau foram desenvolvidas dez anos depois em Os sofrimentos dojovem Werther, o clássico romance no estilo romântico alemão Sturm undDrang que mapeava a desintegração emocional de um rapaz talentoso, mas suicida. As cartas fictícias de Werther exibiam muito da patologia pubescente que Marie demonstraria cem anos depois - as extremas oscilações de humor, a sensibilidade às desfeitas sociais e a retórica autocomiserativa: “Não vejo outro fim para a tris­ teza do que o meu túmulo.” Embora Werther tivesse a “sagrada e inspiradora habilidade para criar novos mundos” em torno de si mesmo, ele era um homem fora do seu tempo. O sucesso internacional do romance de Goethe, publicado em 1774, selou a visão romântica da juventude como assediada por um fervilhar de ideias e in­ quietações, tanto que a morte prematura - por suicídio ou acidente - era sinto­ mática. Esta tendência alcançou seu apogeu na obra dos românticos britânicos, cujo avatar foi um jovem poeta e ferreiro chamado Thomas Chatterton. Depois da sua morte por envenenamento com arsênico aos 17 anos, foi lembrado por Shelley, Wordsworth, Coleridge e Keats numa seqüência de poemas que o cele­ bravam como um gênio incompreendido cuja juventude, eternizada pela morte, não perderia o viço jamais. CÉU E INFERNO

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O conceito ocidental de juventude também foi alterado pelo turbilhão eco­ nômico e político do fim do século XVIII. A Revolução Industrial deu início a enormes migrações do campo para a cidade e inaugurou uma nova sociedade baseada no materialismo, no consumismo e na produção em massa. Nas cidades anônimas, fervilhantes, estruturas tradicionais de trabalho, vizinhança e família se romperam. Os jovens e as crianças sofreram o impacto dessa revolução, traba­ lhando em tarefas perigosas e repetitivas, ou vagando soltas na imundície evocada por Henry Mayhew e Charles Dickens. Ao mesmo tempo, havia novos governos que proclamavam a verdadeira de­ mocracia. Após se livrar energicamente do “despotismo” do rei britânico, os 13 estados unidos da América fizeram a sua Declaração de Independência no dia 4 de julho de 1776: “Consideramos essas verdades como evidentes por si mesmas, de que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados por seu Criador de certos Direitos Inalienáveis, dentre os quais estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade.” Comparando-se com o feudalismo da velha Europa, o jovem continente americano estava aberto a todos. Estes ideais democráticos foram reafirmados na Declaração dos Direitos do Homem que a revolucionária Assembleia Nacional da França publicou em agosto de 1789. Explicitamente baseada no modelo americano, ela afirmava que “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em seus direitos”. Quatro anos de­ pois, o Conselho Nacional acrescentou mais 18 codicilos. O artigo 28 dizia que “uma geração não pode submeter à sua lei as gerações futuras”. Dentro de uma revolução dominada pelos jovens, o sentido era claro: a ideia da diferença de gerações começou aqui. As conseqüências destes acontecimentos estenderam-se por todo o século XIX. Amarrados a uma nova política radical de igualdade, os jovens passaram a ser uma fonte de esperança e símbolo do futuro, por um lado, mas por outro eram um grupo instável e perigoso. Num extremo, a sua participação nos movi­ mentos revolucionários como chartismo, socialismo e, seguindo o exemplo dos russos, anarquismo e niilismo, mostrava que a consciência de gerações converti­ da em ideologia radical podia ser uma ameaça à ordem social. Ao mesmo tempo, a juventude era associada à tendência para a inclusão da massa, se não à verdadeira democracia. O pleno início da era da massa na segunda metade do século XIX deu origem à ideia de que nenhum segmento da popula­ ção deveria ser desprezado na nova ordem social. Isso resultou na recente atenção dada às classes até então negligenciadas como os pobres trabalhadores urbanos e a própria juventude. O crescimento da mass-media acelerou esse processo. Na década de 1870, os jovens podiam ler a respeito deles mesmos e comprar produ­ tos, como romances em folhetins ou para meninos, que tinham como alvo prin­ cipal a sua faixa etária. 30

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O anonimato nas grandes cidades também oferecia as suas próprias chances. Numa idade em que, para a maioria dos jovens, a vida era rigidamente limitada, os mais determinados poderiam tentar a vida definida pela primeira vez em Cenas da vida boêmia, de Henri Murger. Focalizando um grupo de artistas em di­ ficuldades e moças trabalhadoras na Paris da década de 1840, as histórias de Murger promoviam a ideia de uma zona urbana onde a moral prevalecente era relaxada e na qual jovens dissidentes e artistas podiam sair em busca de suas visões e retardar a idade adulta. Trinta anos depois, esses enclaves boêmios ti­ nham se espalhado até Berlim, Londres e Nova York. Essas mudanças nem sempre foram vistas de forma positiva, na medida em que os jovens comprovavam os temores dos adultos. A Revolução Industrial e as revoluções políticas, suas contemporâneas, haviam colocado em ação forças que dificilmente estavam sob o controle dos homens e dos seus governos. As crian­ ças das áreas miseráveis, os meninos assassinos, os anarquistas: todos eles repre­ sentavam um futuro que poderia estar sujeito a forças selvagens, atávicas. Assim como a criatura de Frankenstein se virou contra o seu criador, do mesmo modo poderiam os jovens do Ocidente se virar contra seus pais e instituições. Com extraordinária empatia pelos jovens, Rousseau havia reconhecido o potencial pubescente para o exagero em Emílio, e concluiu que o intervalo entre infância e idade adulta deveria ser prolongado: “O período em que a educação em geral terminou é exatamente a hora de começar.” Na década de 1870, suas recomendações estavam sendo levadas a sério: depois que a chocante realidade da existência de crianças rebeldes foi exposta igualmente por repórteres, refor­ madores e romancistas, os governos da América e da Europa começaram a criar as instituições de educação compulsória. Mas Rousseau não falava apenas de uma escola ideal. Ele propunha um tipo de educação mais profunda, que reconhecesse a puberdade como uma fase distinta da vida e lhe oferecesse uma orientação compreensiva, poupando a socie­ dade de suas manifestações mais virulentas. Nos meados da década de 1870, Marie Bashkirtseff e Jesse Pomeroy simbolizaram os dois polos da juventude: gênio e monstro, criador ou destruidor de mundos. Os impulsos furiosos expos­ tos pela jovem diarista e o jovem assassino levariam as mentes questionadoras a aceitar as propostas de Rousseau. Em jogo estava o futuro: ele seria um sonho ou um pesadelo, céu ou inferno?

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CAPITULO

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Nacionalistas e decadentes

A contrarrevolução europeia * * *

Eu visualizo uma guerra, de justiça ou força De uma lógica além de toda a imaginação. E tão simples como uma frase musical. - Arthur Rimbaud, "G uerre" (1 874)

POR PAVOR, PREENCHA E DEVOLVA O FORMULÁRIO NA PÁGINA AO LADO. FOLHETO DA BRIGADA DOS CHURCH LADS, DÉCADA DE 1890

OS TRADICIONALISTAS DA EUROPA sabiam o que fazer com todo esse excesso de energia pubescente. Nada de se preocupar em dar aos jovens tempo para se de­ senvolverem, o que estes selvagens precisavam era de educação escolar baseada em esportes e em seguida o alistamento em organizações pré-militares para cadetes. Durante a década de 1870, este impulso recebeu um ímpeto extra com a ascen­ dência industrial da Alemanha, um novo Estado-nação agressivo que desestabilizou a velha ordem europeia e começou o que viriam a ser quarenta anos de corrida armamentista. Ao mesmo tempo, houve uma forte reação contra o novo militarismo por parte de artistas, escritores e pensadores que assumiram a visão romântica e boê­ mia da juventude como uma fase distinta da vida. Eles buscavam ao mesmo tempo escapar das exigências materialistas da sociedade de massa do século XIX e sondar as regiões mais profundas da psique juvenil. Os chamados decadentes, embora não tenham dado origem ao seu nome, divertiam-se com suas doenças morais e físicas enquanto simultaneamente exploravam como seria ser eternamen­ te jovem. Com a aproximação do prazo final para o novo século, os decadentes e os nacionalistas travaram entre si uma luta para imprimir as suas visões do futuro na juventude europeia. A batalha poderia ter sido tão mortal quanto foi desigual, mas ambos os lados tinham em comum um romantismo que enaltecia a juven­ tude, congelando-a no seu zênite. Seja na forma do herói, caído em batalha no auge do seu vigor físico, ou a estrela cadente representada pelo prodígio pubes­ cente, a juventude eterna era o Santo Graal; morta ou autoimolada, ela jamais chegaria à idade adulta. A exposição mais clara da visão militarista da juventude foi a de um tenentecoronel de quarenta anos de idade, o barão Colmar von der Goltz. No seu livro publicado em 1883, The Nation in Arms, von der Goltz previu com exatidão, como uma das “mudanças revolucionárias” na ciência da guerra, que toda a po­ pulação se veria envolvida em algum conflito nacional. Tendo como seu objeti­ vo a total submissão do inimigo”, a nova condição de guerra total exigiria pleno compromisso e grandes sacrifícios igualmente de soldados e de não combatentes. Von der Goltz observou que “a fase dos 18 aos 24 anos” era a mais adequada para o serviço militar. Com muita sagacidade, sugeriu como explorar os atributos físicos e psicológicos deste grupo etário: “O corpo está então com vigor suficiente para suportar dificuldades, e o soldado ainda está livre e sem grilhões. A despreo­ cupação, uma qualidade peculiar do frescor juvenil, é um excelente incentivo para realizações marciais. Um exército jovem, em particular um uniformemente jovem, é em muito superior a qualquer outro.” Sua visão era tanto pragmática quanto mística: “Só os jovens despedem-se da vida sem angústias. Eles ainda não estão presos a esta terra pelos milhares de NACIONALISTAS E DECADENTES

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fios que a vida civil tece à nossa volta. Eles ainda não aprenderam a poupar horas de vida. O enigma que estão curiosos para resolver ainda está diante deles como um livro fechado. Eles escalam a montanha sem perceber a descida abrupta do precipício que há do outro lado. O seu amor pela aventura excita a sua ansie­ dade pela batalha.” Como ele concluiu, “a força de uma nação está na sua juven­ tude [em itálico no original]”. A Alemanha estava bem adequada para o nacionalismo militar. Era um país recentemente unificado, uma casa de força industrial que era o prodígio da Eu­ ropa, no entanto ainda presa ao sistema de dinastias. No lugar da revolução bur­ guesa que havia transformado a Grã-Bretanha, a França e os Estados Unidos, estava uma estrutura social autoritária atrelada a ideais prussianos medievais, que insistiam na “lealdade ao imperador, o amor apaixonado pela terra natal, a abnegação e o alegre sacrifício”. Durante a década de 1860, o recrutamento universal espalhou-se pelo país. O ideal alemão de “vitória absoluta” já se justificara com a total humilhação da França na Guerra Franco-Prussiana de 1870-71. Embora a França fosse o primeiro país no mundo a introduzir o recrutamento - em 1793, quando o go­ verno revolucionário precisou se defender das tropas monarquistas -, este tinha sido feito por meio de uma loteria que não funcionava. Com as deficiências no seu sistema militar tão brutalmente expostas, a Terceira República introduziu regras mais rígidas em 1872 para cobrir o grupo dos vinte aos quarenta anos. O outro importante poder imperial europeu, a Grã-Bretanha, estava protegi­ do pelo mar e não tinha um grande exército permanente. Em vez do recrutamento universal, o país encorajava um ideal de aspiração destinado a preparar os jovens para o serviço militar. As qualidades desejadas foram resumidas no Bookfor Boys, de W. H. Davenport Adams, de 1888, como “entusiasmo, sinceridade, infatigável perseverança, pureza de mente e corpo, disciplina do pensamento, julgamento cauteloso, aspirações elevadas, religiosidade e estabilidade de propósitos”. Durante o último terço do século XIX, as escolas públicas britânicas - que, apesar do nome, eram estabelecimentos exclusivos, pagos —desenvolveram um etos educacional que fundia religião, disciplina, cultura, adetismo e o espírito de serviço num sistema poderoso abrangente. A nova ideologia educacional foi inau­ gurada por Thomas Arnold, na Rugby School, durante a década de 1830, con­ centrando-se “primeiro nos princípios morais e religiosos, em segundo lugar na conduta cavalheiresca; e em terceiro, na habilidade intelectual”. Atuando para reformar os maus-tratos e as intimidações expostos pelo roman­ ce dos meados do século, Tom Browns Schooldays, de Thomas Hughes, Arnold tentava “formar homens cristãos, pois meninos cristãos dificilmente eu posso fazer”. Em vez do antigo sistema de escolas públicas, onde na falta de controles adultos os adolescentes podiam decidir o que fazer com boa parte do seu próprio 34

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tempo, o novo regime de Arnold gerou um respeito mútuo entre professores e alunos que, não obstante, colocava o poder definitivo nas mãos do professor. Este não era o idílio rousseauniano de uma escola livre. Depois da década de 1860, este equilíbrio idealista ficou subordinado a um culto à masculinidade que enfatizava a bravura física e não o desenvolvimento intelectual. Isto se encaixou na estratégia britânica durante o último terço do século XIX, quando o mais necessário era a manutenção e a extensão do império. A Grã-Bretanha não se envolvera em nenhum grande conflito europeu desde as Guerras Napoleônicas e, dentro desta Pax Britannica, o modelo da escola pública era vital para fazer de adolescentes das classes médias e altas fortalecedores da or­ dem imperial. A individualidade bucaneira do início do século XIX tinha se tornado obsole­ ta: escapara, através do Adântico, para a fronteira americana. No lugar do conquis­ tador imperial pirata entrou o ideal do jogador em grupo. Jogos de equipe como futebol, críquete e rúgbi tornaram-se o principal teste de caráter, o novo rito de passagem institucional. Pois, apesar do status social dos seus alunos, a educação na escola pública envolvia um sistema holístico, quase panótico, que se equiparava à severidade, se não à brutalidade, de ritos tribais. Os meninos eram afastados de casa aos 12 ou 13 anos e colocados em so­ ciedades de pares semelhantes a casernas, em geral chamadas de casa, amplamente administradas por meio de um eficiente sistema de monitores. Ao mesmo tempo, cada minuto do dia era acompanhado por meio de uma meticulosa escala de ho­ rários que permitia ao diretor descobrir onde cada jovem estava a qualquer hora. Isto era intencional: citando Davenport Adams, “ociosidade” era o “pecado de Sodoma”. De que este sistema imprimia com sucesso a sua marca não havia dúvida. Como um estudante anônimo dos meados da década de 1890 escreveu: “Uma fiiria adética/Tomou conta dos marlburianos de todas as idades/Agora, enfure­ cidos, críquetes todos jogarão/Agora nas nossas conversas à mesa só se fala do ‘jogo’.” A prática religiosa somava-se a esta obsessão pelo atletismo e esportes em equipe; conforme disse um diretor: “Em cada grande internato público a ca­ pela é o centro da vida escolar.” O produto ideal da escola pública era o cristão musculoso, que combinava autodisciplina, bravura física, observação religiosa e o espírito de serviço num novo tipo de masculinidade moral. Na definição de Davenport, o autoaprimoramento, a perseverança e o dever eram os primeiros passos numa “vida pura, honrada e trabalhadora”. A lealdade para com a casa entrelaçava-se com a lealdade para com a escola e, depois, para com o país - uma submissão voluntária que durava até a morte e além dela, até a vida eterna merecida pela morte pro patria. NACIONALISTAS E DECADENTES

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Entretanto, o império precisava de mais corpos do que o sistema de escolas públicas podia oferecer. A falta de recrutamento universal significava que havia menos incentivo para os jovens da classe trabalhadora ingressarem no exército, exceto como uma forma de escapar da pobreza ou ir em busca de aventuras. Com tramas que apresentavam meninos aplicados como heróis enfrentando figu­ ras históricas famosas como Moisés, Anibal ou Napoleão, os romances imperiais de G. A. Henty poderiam ter promovido a ideia de que o serviço militar era ex­ citante, mas lá pela década de 1880 as exigências do império e os desafios da nova Europa inspiravam uma ação mais concreta. Com o alistamento militar tornando-se um problema urgente, os reforma­ dores começaram a civilizar as selvas urbanas. Seguindo o exemplo de Toynbee Hall, os descendentes das escolas públicas e das universidades mudaram-se para os distritos pobres numa missão de melhoria social. Montando clubes para jovens e centros comunitários, o movimento de colonização tinha como objetivo inculcar atitudes de classe média; como os fundadores da Oxford Working Mens and Lads Institute afirmavam: “As classes mais avançadas da sociedade têm o poder de mostrar àqueles abaixo delas como viver.” Ao mesmo tempo, novas organizações voluntárias refinaram o evangelismo arregimentado da Associação Cristã de Moços, fundada em 1844, e o Exército da Salvação, do general Booth, fundado em 1878, num programa direcionado mais especificamente aos jovens. A pioneira foi a Boy s Brigade de William Smith, formada em Glasgow durante o ano de 1883. Combinando a disciplina da pra­ ça de armas com os ensinamentos da escola dominical, a Boys Brigade tinha como objetivo específico “o aperfeiçoamento do Reino de Cristo entre os meninos, e a promoção de hábitos de Reverência, Disciplina e Respeito por si mesmo, e tudo que tende para uma verdadeira masculinidade cristã”. Smith aproveitou-se do fato de todo um segmento da juventude não estar coberto pelas organizações voluntárias existentes. Como um membro original da Brigade mais tarde lembrou: “Com 13 anos de idade, a maioria de nós se achava grande demais para a escola dominical, e havia um hiato de alguns anos até podermos ingressar na ACM, aos 17.” A disciplina militar era predominante nas atividades da Brigade. Cada reunião começava com um desfile em formação, sem desculpas para os retardatários, e um uniforme constando de um chapéu sem abas, cinto e uma mochila era distribuído para usar sobre as roupas do dia a dia. O lema da Brigade era “Seguro e Firme”. Com o seu etos de rígida pontualidade, disciplina e obediência às ordens, a Boys Brigade oferecia não só uma base pré-militar ideal mas também uma boa referência embutida para qualquer futuro empregador. No fim da década de 1880, a Brigade tinha mais de 10 mil membros e ramificações por toda a GrãBretanha. Seu sucesso foi copiado por outras organizações como a Jewish Lads’ 36

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Brigade e a Catholic Boy s Brigade. A Church Lads’ Brigade foi um rebento da Band of Hope, o popular grupo de abstinência infantil. Todos estes enxertaram “o broto religioso no tronco militar”. Ao mesmo tempo, houve um aumento no número de unidades de cadetes, uma ideia pioneira de escolas públicas como Charterhouse e Dulwich College. Em 1889, a Southwark Cadet Corps foi fundada no sul de Londres, fundindose com a unidade de Toynbee Hall num batalhão completo dois anos depois. A associação ajudaria os meninos da jovem classe operária a evitarem as tentações da “ilegalidade” e os “music hall de baixa categoria”. O visível crescimento destes grupos, quando marchavam uniformizados pelas ruas, levou um jornal a comen­ tar que em 1889 a sociedade britânica estava “correndo livremente para o mili­ tarismo”. Levar a “civilização” aos “mal-educados, sujos e brigões” selvagens da classe operária urbana era outra expressão de valores coloniais. Todos os países imperiais pensavam que a sua soberania era o produto inevitável de uma superioridade racial. Na época da última grande divisão continental - da África na década de 1880 —, o elo entre nacionalismo e as ciências genéticas havia se congelado em ortodoxias tão poderosas que governavam a política das nações. No que dizia respeito à África, a superioridade europeia era predestinada pelo sangue. * * * Dentro deste sistema de crenças, o objetivo de cada nação não era apenas o pro­ gresso evolucionário, mas a realização de seu próprio destino racial único. A as­ cendente formulação de von der Goltz reverberou no meio dos aliados e inimigos da Alemanha igualmente. Se a força da nação estava de fato na sua juventude, então a juventude como um todo - não apenas aquela com idade para o serviço militar, seus grupos mais jovens também - estava investida de uma nova impor­ tância. Se o destino nacional, como no caso da Alemanha, era definido pela ex­ pansão militar, então não poderia haver nenhum contra-argumento. O jovem que não estivesse à altura não só era fraco ou pouco patriota, como significava uma ameaça para o futuro da raça. O efeito foi reduzir os ad­ versários do militarismo a selvagens subumanos. O pioneiro a dar nome para esses divergentes foi o psiquiatra francês B. A. Morei, que em 1857 cunhou o termo “degeneraçao” para definir humanos defeituosos vivendo em ambientes degradados, e ele criou raízes ao longo das décadas seguintes. Na visão naciona­ lista, quem se recusasse ou fizesse objeção ao serviço militar era um degenerado, pura e simplesmente. Entretanto, havia um pequeno segmento de jovens que fazia objeções. Com base no suicídio do irmão, Frank Wedekind, extrapolando, escreveu SpringAwakeNACIONALISTAS E DECADENTES

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ningy em 1891, uma raivosa polêmica contra um estabelecimento alemão que cruelmente arregimentava seus jovens, mas deixava de oferecer uma verdadeira orientação para a vida. A peça irritou por conter descrições de sexualidade e sui­ cídio juvenis. Este último era visto como um grande problema social na Alemanha da década de 1890: segundo livros do psiquiatra Emil Kraepelin e do sociólogo Émile Durkheim, escritos na época, o suicídio era diretamente causado pelas tensões e exigências da civilização industrial.1 - O fato de os jovens da nação mais avançada e triunfal do mundo estarem inclinados a se matarem tinha um tom sinistro em meio ao militarismo triunfan­ te. Os jovens costumam ser um reflexo para os adultos dos valores dominantes da sociedade e esses suicídios adolescentes levavam ao pressentimento de colapso que jazia sob a robusta superfície da Europa dos anos 1890. Enquanto seus exércitos e esquadras varriam o globo, os grandes impérios eram assediados por temores com relação à nova era da massa e à conseqüente involução da socieda­ de humana. Em The Crowd, de 1892, o filósofo francês Gustave Le Bon proferiu uma influente polêmica sobre a era de massa. Na nova sociedade tecnológica, o “direito divino dos reis” fora subsituído pelo “direito divino das massas”. Por sua própria natureza, as multidões eram atávicas: a sua “impulsividade, irritabilidade, inca­ pacidade de raciocinar” e o seu “exagero de sentimentos” eram exatamente aquelas qualidades “observadas em seres pertencentes a formas inferiores de evolução mulheres, selvagens e crianças”. A era moderna era “um período de transição e anarquia”, na qual o controle social da massa seria a questão-chave. Dentro desta distopia, a posição do jovem seria de vital importância: não só porque as crianças de hoje seriam os cidadãos de amanhã, como também porque a condição social degradada havia criado uma geração de degenerados. O futuro da raça estava em jogo. Havia o temor disseminado de que, se não fosse purificada, a raça se extinguiria e a Europa, ela mesma, pereceria num violento cataclismo. Como estes temores baseavam-se na possibilidade da guerra total que reforçava a lógica impiedosa do militarismo, eles começaram a gerar o seu próprio mo-

mentum.

Este anseio pelo apocalipse era o impulso central por trás tanto da decadência quanto do militarismo. Tinha sido também havia muito tempo, como Goethe e Wedekind notaram, uma forte manifestação da raiva adolescente. Mas o mundo de quem ia terminar? Uma torrente de retóricas apocalípticas jorrou tanto dos nacionalistas como dos decadentes na década de 1890, na medida em que eles rivalizavam para definir o novo século. Coincidindo com a corrida armamentista 1 Emil Kraepelin: Psychiatrie (1893); Émile Durkheim: O suicídio (1897). SpringAwakening não foi levada ao palco até o século XX.

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em aceleração prenunciada pelo influente livro de von der Goltz, este conflito ideológico politizou o status da juventude no norte da Europa. * * * Civilizações morrem. Essa era a mensagem bombardeada pelos teóricos raciais radicais e os vanguardistas da época. Essa era a mensagem do quadro que causou sensação no Salão de Paris, em 1891, Les demiers jours de Babylone, de George Antoine Rochegrosse. Em A rebours, Joris-Karl Huysmans previu “o vasto lupanar da América transportado para o continente europeu”. Embora odiasse “a ilimi­ tada, inimaginável e imensurável mesquinhez do financista e do homem que se fez por si mesmo”, ele derrubava o materialismo deles como uma praga: “Ora, desmorone então, sociedade! Pereça, velho mundo!” Não era de surpreender que as manifestações mais exageradas desta retórica de fin-de-siècle tivessem se originado na França, um país que nas últimas duas décadas do século XIX ainda era abalado pela instabilidade política que marcara a sua história desde 1789. A juventude havia representado um papel importante nessa revolução e tinha permanecido proeminente nos golpes e rebeliões de 1830, 1848 e 1871. Embora a Terceira República tivesse ampliado o recrutamento, a série de clamores anarquistas na década de 1890 significava que os jovens con­ tinuavam num estado politizado muito intenso. O messias do novo estado de espírito apocalíptico tinha sido, num sentido muito direto, o poeta dos dias mais sombrios do seu país. Durante o inverno de 1870-71, Arthur Rimbaud viveu na linha de frente da Guerra Franco-prussiana, na pequena cidade de Charleville, perto da fronteira com a Bélgica. Na véspera de Ano-Novo, sua família se protegia dentro de casa enquanto as bombas prussia­ nas pulverizavam a fortaleza medieval vizinha de Mézières, do outro lado do rio Meuse, em frente a Charleville. Aos 16 anos, Rimbaud estava rodeado de detritos de guerra: soldados aleijados, cidades esmagadas, paisagens desfiguradas. Ele se divertia com a destruição. “Vi um mar de chamas e fumaça alçando-se aos céus”, ele escreveu mais tarde, “e à esquerda e à direita toda a riqueza explo­ dia como um bilhão de raios.” Como o segundo filho de um coronel do exército francês que abandonara a família dez anos antes, Rimbaud tinha razões mais do que suficientes para não gostar das forças armadas. Quando seu irmão mais velho, Frederick, entusiasmado, se alistou, ele achou a atitude “desprezível”: quan­ do a França foi derrotada ele saiu por Charleville dizendo a todos que o seu país tinha tido sorte. Era como se a queda da França o tivesse libertado. Aos 16 anos, Rimbaud era o arquétipo do jovem provinciano que havia muito transcendera a sua família e a sua cidade natal. Ele mal podia esperar para ir embora. O caos criado pela Guerra Franco-prussiana externalizava a sua furia NACIONALISTAS E DECADENTES

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interior e lhe dava uma oportunidade para testar a si mesma. Naquele in­ verno, ele fugiu de casa e, em al­ gum lugar no meio da terra de­ serta da linha de frente prussiana, teve uma revelação: “N a estrada aberta em noites de inverno, sem teto, com frio e faminto, uma voz apossava-se do meu coração congelado: ‘Fraqueza ou força, você existe, isso é força.’” Dois meses depois, Rimbaud viu suas fantasias se tornarem realidade, quando os pobres da cidade capital ergueram-se junto com milhares de estudantes e tra­ balhadores na efêmera Comuna de Paris. Por um breve período, de abril a maio de 1871, os anar­ quistas tomaram conta da capital ARTHUR RIMBAUD, AOS 17 ANOS, e jovens poetas dirigiam a força po­ POR ÉTIENNE CARJAT licial. Rimbaud foi um entre milha­ res de jovens vagabundos que afluíram em bando para a revolucionária Paris como mariposas em direção à luz: eram tantos que a Comuna formou dois batalhões: as “Pupilles de la Commune” e os “Enfants perdus”. Embora a Comuna tenha sido esmagada semanas depois da visita de Rim­ baud, o rapaz de 16 anos aproveitou a sensação de liberdade que havia experimen­ tado para aplicá-la ao seu próprio trabalho e vida. Os dois se tornaram indivisíveis. N o dia 13 de maio de 1871, ele escreveu ao amigo Paul Demeny: “O problema é alcançar o desconhecido desorganizando todos os sentidos. O sofrimento é enorme, mas você precisa ser forte e ter nascido poeta.” Ele insistia que “je suis un autre": sua retórica em breve se traduziria em ação. Para Rimbaud, a poesia era uma vocação mística. Ele acompanhou a linha visionária sombria que teve início com os românticos, passando por Edgard Allan Poe e Charles Baudelaire até a sua conclusão. Depois de 1871, seus poemas estavam repletos de tumultos revolucionários, invectivas contra a burguesia, misticismo pagão e ferozes profecias, tudo misturado numa cosmologia coerente. Acima de tudo, suas visões eram apocalípticas: “Esta é a hora do banho de suor,

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de oceanos fervendo, de explosões subterrâneas, do planeta afastando-se num redemoinho, de exterminações certas a seguir.” Foi como uma presença que ele causou o maior impacto sobre os seus contem­ porâneos. Convidado pelo poeta Paul Verlaine para ir a Paris naquele outono, Rimbaud foi elogiado na capital da boêmia literária como o mais recente prodígio. Em vez da atitude correta de respeito pelos mais velhos, o rapaz de 17 anos rea­ giu com uma saraivada de expletivos escatológicos, e coisa pior, ao que via como sendo uma atitude paternalista. Ele interrompia as leituras, aterrorizava seus an­ fitriões, despejou ácido sulfurico na bebida de um amigo e, numa ocasião, feriu o fotógrafo Étienne Carjat. As duas fotos de Rimbaud feitas por Carjat que restaram mostram um rapaz com cara de bebê de queixo travado, boca fina e cruel, cabelos desalinhados e olhos pálidos adamantinos - o modelo do jovem fanático. Paul Verlaine o cha­ mava de “Casanova menino”, cujo queixo “bonito, severo, parece dizer ‘cai fora’ para qualquer ilusão que não seja o resultado do mais irrevogável ato de vontade”. Com sua “cabeleira soberba” e um “desdém extremamente viril por roupas”, o rapaz sintetizava uma “beleza literalmente diabólica”. Nos quatro anos seguintes, Rimbaud dedicou-se a uma folie à deux com Verlaine que passava pelo deboche, pela pobreza e o ostracismo para terminar em violência e exaustão. “O tédio deixou de ser o meu amor”, ele escreveu em Uma temporada no inferno: “Ira, perversão e loucura, cujo próprio impulso e de­ sastre eu conheço - minha carga está assentada por inteiro.” Aos 21 anos, ele parou de escrever; quando um amigo lhe perguntava sobre sua poesia, ele respon­ dia: “Je ne pense plus à ça? Logo depois, emigrou para a África e abandonou a sua antiga vida. A trajetória vertiginosa da carreira de Rimbaud foi alimentada por uma ex­ ploração retórica dos seus pensamentos e sentimentos explosivos - uma nova sensibilidade sintomática do que ele chamou, em “Jeunesse”, de “O eterno egoís­ mo da juventude”. Quando escrevia, no início da década de 1870, os jovens não tinham direitos, uma “posição extralegal” da qual ele estava muito consciente. Seus versos refazem tropos românticos existentes com uma maciça dose de pato­ logia masculina púbere. Colocando-se na pessoa de um príncipe estilo Calígula no poema “Conte”, ele perguntou: “O êxtase é possível na destruição? Pode al­ guém tornar-se jovem na crueldade?” Com seu desaparecimento, ele se tornou uma criatura mítica, congelada no seu zênite jovial tão certamente quanto Werther ouThomas Chatterton. Rimbaud já previra o seu destino. No seu manifesto de maio de 1871, ele descreveu o que aconteceria depois que o profeta surgisse: “Ele alcança o desconhecido e mesmo que, enlouquecido, ele acabe por perder toda a compreensão de suas visões, ele as viu! Se ele morrer depois deste salto para coisas inaudíveis, inomináveis, mais NACIONALISTAS E DECADENTES

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operários da vontade terrível virão; eles começarão nos horizontes onde o outro entrou em colapso!” O status de Rimbaud como o avatar da decadência francesa foi selado quan­ do, no ano de 1883 —o mesmo de The Nation in Arms -, Paul Verlaine publicou uma seleção dos seus poemas na antologia de Les poetes maudits. Com a sua “fé no veneno” e “insanidades“ extáticas, Rimbaud definiu o modelo para um mo­ vimento que associava sexo e morte numa nova revelação, definida por Verlaine como “o colapso nas chamas das raças exaustas pela sensação do som invasor das trombetas inimigas”. No fundo da África Oriental, o messias ficou estarrecido com a fama que não buscava. Entretanto, o estilo espalhou-se inexoravelmente por toda a Europa e até o outro lado do Adântico. Conforme sucessivas gerações de decadentes elevaram a aposta ao mais alto grau, a sua ambição cresceu. Na década de 1890, eles haviam construído um mundo hermético que englobava absinto, morfina, gurus barbu­ dos, sessões espíritas, resenhas que apresentavam “contribuições de falsos Rimbauds de arrepiar os cabelos” e editoriais que proclamavam uma missão “para destruir a velha ordem e preparar os elementos embrionários da grande literatura nacional do século XX”. * * * Graças à sua proximidade com a França, a Grã-Bretanha foi o terreno europeu mais fértil para a exportação de decadência, mas havia outros fatores. Na última década do século XIX, as certezas do alto vitorianismo tinham sido minadas pela crítica científica da religião e os efeitos aceleradores da era das massas. Havia também um aumento de atividade política extraparlamentar: o início do socia­ lismo de massa, a ascensão da nova mulher e do sufrágio feminino e as primeiras discussões sobre os direitos dos homossexuais. Ao mesmo tempo, as atrocidades urbanas cometidas pela juventude operária estavam ficando mais visíveis. Nas próprias escolas públicas, o arquétipo do cruzado sofria ataques. Os es­ tudos clássicos foram durante muito tempo a matéria-prima do sistema da escola pública e, a partir da década de 1870, aqueles que tinham enjoado do cristianismo muscular reinterpretavam o roteiro latino e grego numa nova estética que repre­ sentava a verdadeira alternativa para Deus e o esporte. Um dos mais influentes helenizadores, Goldsworthy Lowes Dickinson, lembrou que os seus dias de es­ tudante estiveram “imersos em barbarismos”: “Não há dúvida quanto à miséria, à futilidade, mais do que o desperdício de anos preciosos.” No início da década de 1890, a principal luz do esteticismo britânico propôs outra definição para juventude. Quando o seu primeiro romance foi publicado, Oscar Wilde já se estabelecera como um provocador e autor. Embora casado e 42

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com dois filhos, ele tinha uma outra vida no mundo homossexual. Parte parábola, parte roman à clefsobre Wilde e seu círculo, O retrato de Dorian Gray redistribui os papéis do mito faustiano para a era moderna: neste caso, o acordo foi selado com a promessa de juventude eterna. A gênese do romance datava de junho de 1884, quando Wilde visitou Paris em lua de mel. Ele já havia sido apresentado à exuberância da decadência rimbaudiana, na forma do protégé aturdido pelo ópio de Sarah Bernhardt, o poeta Maurice Rollinat, mas o texto que mais o impressionou foi A rebours. Wilde identificou-se tanto com des Esseintes que o esteta hermético de Huysmans “tornou-se para ele uma espécie de prefiguração de si mesmo. E, na verdade, o livro inteiro lhe parecia conter a história da sua própria vida, escrita antes que ele a vivesse”. Wilde oscilava constrangido entre o deboche decadente e a utopia socialista, mas via essas tensões como uma fonte de energia. Em 1891, publicou dois livros importantes que codificavam os dois pólos do seu caráter: o ensaio filosófico “The Soul of Man under Socialism” e o romance de corpo inteiro O retrato de Dorian Gray. Se o primeiro proclamava que “é pela desobediência que o pro­ gresso se fez”, então o último sacramentava a intensidade jovial: “Viva! Viva a maravilhosa vida que existe em você! Juventude! Juventude! Não há nada no mundo senão a juventude!” O mais chocante na excursão de Oscar Wilde pelo demimonde da época os estúdios de artistas, os salões musicais, os antros de ópio - não foi a total amoralidade com que ele destruía a vida de todos aqueles de quem se aproximava. Pelo contrário, foi o retrato da total dissolução do seu filho mimado dentro de “sonhos que tornariam a sombra do seu mal real”. Este perverso júbilo estava claramente viciado pela conclusão moralista do romance, da mesma forma que o contrato faustiano cobrava o seu preço. Em lugar da beleza jovial havia um defunto irreconhecível, “murcho, enrugado e de expressão nojenta”. Wilde era por demais cauteloso para propor a juventude eterna como uma suposição séria: a queda de Gray no tédio e na insanidade deixava bem óbvios os perigos desse estado. Entretanto, suas ambivalências o desmascararam. Em­ bora uma crítica da decadência, o seu romance efervescente ajudou ainda mais a popularizar o estilo. Wilde forçou a balança um pouco mais acrescentando uma série de aforismos preliminares - como “vício e virtude são para o artista o material de que se faz a arte” - que tinham a garantia de enfurecer aquilo que Huysmans chamava de “pesada atmosfera militarista” da Inglaterra. Se tivesse expressamente planejado isto, Wilde não poderia ter escolhido uma linha de ataque mais perturbadora para o inglês imperial. Os valores que ele promovia —os pecados gêmeos de Sodoma e socialismo —eram diametralmente opostos aos do cristianismo muscular. No lugar de espírito de equipe, ele sugeria NACIONALISTAS E DECADENTES

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o individualismo exuberante: “Perceber a própria natureza com perfeição —é para isso que cada um de nós está aqui.” Em vez do rígido guerreiro, ele definia o homem como “uma criatura multiforme complexa”. Principalmente através da sua cada vez mais declarada homossexualidade, ele expunha a falha no sistema educacional britânico exclusivo para meninos ou para meninas. Wilde dispôs-se a influenciar os jovens. “É absurdo falar sobre a ignorância da juventude”, ele escreveu. “As únicas pessoas cujas opiniões eu escuto com res­ peito são as pessoas muito mais jovens do que eu!” Como o sumo sacerdote do esteticismo, Wilde era um ímã para jovens fãs como o estudante de Oxford, Lord Alfred Douglas, que correu para conhecer o autor logo depois da publicação de Dorian Gray. Wilde vinha levando uma vida homossexual secreta há vários anos, mas o relacionamento que os dois tiveram abertamente conduziu a um confronto direto com a sociedade inglesa. Num artigo intitulado “Frases e filosofias para uso dos jovens”, publicado na edição de dezembro de 1894 de uma nova revista de Oxford, a Chamaleon, Wilde contradizia dogmas profundamente respeitados sobre religião, tempo, arte e história, e o relacionamento entre gerações. “Os idosos acreditam em tudo”, ele escreveu; “os de meia-idade desconfiam de tudo; os jovens sabem tudo.” Embora Wilde não escrevesse nada sexualmente explícito, outros colaboradores o fizeram —mais notadamente Lord Alfred, que celebrava “o amor que não ousa dizer o seu nome”. Quando o escândalo explodiu, Wilde foi execrado por associação. No tortuoso drama legal que se desenrolou no Londons Central C r i m in al Court durante os meses de abril e maio de 1895, a influência de Wilde sobre os jovens foi uma questão central. Ferido pelo assédio do pai de Lord Alfred, o marquês de Queensberry, ele o processou por difamação. Seus amigos o aconselha­ ram a não fazer isso, e seus piores temores se realizaram quando o réu apresen­ tou um pedido de justificação que acusava Wilde de sodomia com 12 jovens. A acusação sustentava que estes deboches já tinham sido publicados em 0 retrato de Dorian Gray, uma obra “calculada para subverter a moralidade e encorajar o vício anormal”. A confusão estabelecida entre romance e autor aumentou durante os três julgamentos, com Wilde no papel de corruptor de Gray, Lord Henry Wotton. A determinação punitiva do establishment resultou numa sentença de dois anos de trabalhos forçados por falta de decoro e sodomia. Resumindo, o juiz disse a Wilde que ele havia sido “o centro de um círculo de extensa corrupção do tipo mais hediondo entre os rapazes”. Esta primeira condenação bem-sucedida de acordo com o Criminal Law Amendment Act de 1885 apresentou a homossexu­ alidade ao público nos termos mais negativos: “Uma chaga que com o tempo não deixará de corromper e manchar tudo!” 44

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O veredicto foi um desastre pessoal náo apenas para Wilde, cujas obras fo­ ram proibidas e cuja figura permaneceu difamada publicamente durante décadas depois da sua morte, em 1900, mas também para os estetas e homossexuais cuja recente visibilidade a sua presença anunciou. As metáforas médicas usadas no tribunal e na imprensa para descrever estas criaturas doentes concordava r.n com as teorias genéticas popularizadas pela devastadora crítica de Max Nordau ao esteticismo, Degeneration, publicada pela primeira vez em alemão em 1892, mas que esteve em moda por um breve período na Grã-Bretanha. Dedicado a Cesare Lombroso, o livro de Nordau identificava a ameaça repre­ sentada por artistas que, como Baudelaire, Nietzsche e Wilde proclamavam as virtudes do individualismo contra a moral tradicional.2 Nordau destacava Wilde como “a aberração patológica de um instinto racial”. O tratamento que ele pen­ sava ser mais “eficaz” contra este “estado de espírito fin-de-siècle” foi decretado nos julgamentos na primavera de 1895: “Caracterização dos principais degenerados como mentalmente doentes: desmascarando e estigmatizando seus imitadores como inimigos da sociedade; advertindo o público para as mentiras destes parasitas.” Wilde ofendeu principalmente porque fez em público o que acontecia fre­ quentemente por trás da fachada da classe governante. Como observou o jorna­ lista W. T. Stead depois do veredicto: “Enquanto isso, aos meninos das escolas públicas é permitido entregar-se impunemente a práticas que, ao saírem da escola, irão enviá-los para os trabalhos forçados.” O drama também distraiu a atenção de um escândalo envolvendo o primeiro-ministro, Lord Roseberry, e outro herdei­ ro dos Queensberry, o visconde Drumlanrig - relacionamento que terminou com o suicídio do mais jovem. Com essas tendências ocultas, não é de surpreender que o julgamento de Wilde representasse uma tentativa determinada pelo sistema vitoriano de rejeitar qualquer exame da causa e acusar, em vez disso, o sintoma. Os filhos dos burgue­ ses, tão vitais para o futuro do país, tinham sido seduzidos por este flautista de Hamelin alquebrado, e suas almas estavam em jogo. Uma notícia no jornal deixou claro que eram os “rapazes das universidades, meninos inteligentes do sexto ano das escolas públicas” que “deviam avaliar dentro de si mesmos as uoutrinas e a carreira do homem que agora tem de sofrer a justa sentença da lei”. Havia alguma base para esta acusação. Na década de 1890, já havia dois grupos de jovens que se recusavam a prestar reverência ao materialismo imperial: o que, escrevendo dentro de um contexto americano, Thorstein Veblen mais tarde chamaria de “classe de lazer hereditária” e “delinqüentes das classes baixas”. 2 Nordau escolheu Marie Bashkirtseff para insultos em especial: “Uma menina degenerada que morreu de tísica, uma vítima da loucura moral, com um toque de megalomania e mania de perseguição, assim como mórbida exaltação erótica.”

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Na Gra-Bretanha, a elas se juntaram a classe média ou média alta boêmia: gra­ ças, em parte, aos próprios esforços de Wilde, o estilo de vida estético do roman­ tismo havia se entrincheirado dentro da burguesia britânica como um terceiro caminho entre militarismo e revolução. O veredicto de Wilde interrompera o modernismo britânico na sua trajetória. A exploração de Edward Carpenter do relacionamento entre feminismo e homos­ sexualidade, Loves Corning ofAge, foi enterrada quando da sua publicação, em 1896. A obra pioneira de Havelock Ellis, Sexual Inversion, revelando casos de adolescentes com desvios sexuais, foi proibida um ano depois. Ex-colaborador de Wilde, Aubrey Beardsley observou o momentum desta “reação”: “O puritanismo raivoso chega como uma onda alta e é imediatamente seguido por uma maré constante de brutal grosseria.” Por toda a Europa, a decadência recuou diante de uma nova normalidade agressiva. Em Degeneration, Nordau equacionara a aptidão física com saúde mental e psíquica. Ele definiu as qualidades que eram o extremo oposto da decadência: força de vontade, dever e trabalho, submissão diante da lei imutável da evolução. Próximo ao final do livro, ele pedia aos leitores para imaginar uma “competição” entre os decadentes, os estéreis habitantes do “hospital, do asilo de loucos e da prisão”, e os “homens que levantam cedo, e não estão cansados antes do pôr do sol, e têm cabeças lúcidas, estômagos sólidos e músculos firmes”. Na França, houve um ataque intelectual combinado contra os decadentes. Num discurso em julho de 1899, um jovem populista radical chamado Albert Mathiez atacou “esses jovens que vivem apenas para si mesmos” e “que se perfu­ mam e vivem como mulheres”. A suprema estupidez deles era o fato de se pro­ clamarem “desarraigados”. Esta era a individualidade pulverizada que o escritor Maurice Barrès chamou de “o imenso eu que os esconde do resto do mundo”. Embora Barrès tivesse bebido da fonte decadente,3 a sua trilogia de 1897 Les déracinés explorava esta desconexão. Traçando a migração de sete adolescentes provincianos de Lorraine para Paris, a narrativa de Les déracinés era árida: “Isolados de suas comunidades de nascimento, e treinados apenas para competir entre eles mesmos, os adolescentes adotam a mais lamentável visão da vida.” Na falta de qualquer provisão adulta ou valores estáveis, o individualismo levava ao assassinato. A crítica de Barrès a um sistema moribundo lentamente o empurrou para a ativa agitação política, conforme ele buscava arregimentar a geração que havia despertado, seus “prínci­ pes da juventude”, num novo nacionalismo místico. Remodelar o nacionalismo também passava pela cabeça de um eminente vitoriano inglês. Henry Newbolt era um advogado, romancista e editor que 3 Ele foi um dos primeiros entusiastas dos diários de Bashkirtseff.

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acreditava na “Inglaterra como uma potência mundial e orientadora do mun­ do”. Ele descreveu com entusiasmo um jantar em 1898 na sua universidade, Clifton College. “Às três da manha eu ainda estava sentado na cama de um homem que eu nunca tinha visto antes, lendo trechos do seu diário do Sudão. Ele é um capitão da R.A. e foram seus obuses que derrubaram os muros de Omdurman. Ele veio para Clifton no ano em que saí!” Newbolt acreditava que “para moldar o caráter nacional e seu componente, o caráter individual, as guerras às vezes foram um instrumento muito perfeito’”. Mais tarde, em 1898, publicou uma coleção de poesias chamada This IslandRace. Em “Vitai Lampada”, ele venerou a associação entre esportes e cavalaria que era a essência do domínio global pela Grã-Bretanha. Dentro da pragmática Albion, o misticismo era demarcado em saldos, e o poema sonante definitivamente afir­ mava qual era a visão imperial sobre a juventude britânica: Há um silêncio ofegante no Close esta noite Dez para fazer e a partida para vencer Uma estrada acidentada e uma luz ofuscante, Uma hora para brincar e o último homem dentro. E não é por causa de um casaco com fitas, Ou a egoísta esperança da fama de uma estação, Mas a mão do seu capitão no seu ombro bate “Aproveitem! Aproveitem! E joguem!” A areia do deserto é vermelha encharcada Vermelha com os destroços de um quadrado que quebrou —; O Gatling está congestionado e o coronel, morto, E o regimento, cego de poeira e fumaça. O rio da morte encheu até a borda, E a Inglaterra está longe, e Honra é um nome, Mas a voz de um estudante anima as fileiras: “Aproveitem! Aproveitem! E joguem!” Esta é a palavra que ano a ano, Enquanto no seu lugar a Escola é colocada, Cada um dos seus filhos deve ouvir, E ninguém que a escuta ousa esquecer. Isto eles todos com uma mente alegre Suportam a vida como uma tocha em chamas, NACIONALISTAS E DECADENTES

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E rápido para o exército que está atrás — “Aproveitem! Aproveitem! E joguem!” Os ecos desse mantra militarista ainda reverberavam duas décadas depois, quando a juventude da Europa ia para a guerra. Como Degeneration e Les déracinés, “Vitai Lampada” foi parte de uma contrarrevoluçao muito eficaz que pa­ recia banir para sempre o fantasma da decadência doentia. Apesar de todo o seu vigor, entretanto, o poema de Newbolt era assombrado pela morte;4 apesar de fazerem a pose de quem está cansado do mundo, os decadentes celebravam uma paixão juvenil pela vida que se reafirmaria depois do holocausto para o qual seus adversários “saudáveis” haviam se preparado com tanto entusiasmo.

4 Depois da Grande Guerra, Newbolt empalidecia à sua menção.

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CAPÍTULO

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Hooligans e Apaches

Delinqüência juvenil e a mídia de massa * * *

Os melhores entre os pobres nunca são agradecidos. Eles são ingratos, descontentes, desobedientes e rebeldes. Eles têm razão de ser assim. - Oscar W ilde, "The Soul o f Man Under Socialism" (1891)

'OS GUARDAS DE MONTGOMERY: UMA G R O W LER ' GANG REUNIDA", C. 1890, DE JACOB RIIS

1 Espécie de jarra onde se bebia cerveja barata.

NAS METRÓPOLES do fim do século XIX, muitas crianças e adolescentes eram deixados à própria sorte. Na falta de uma estrutura imposta por adultos, eles se organizavam em gangues que mal podiam ser controladas. Jacob Riis descobriu isso quando, na virada da década de 1890, deparou com um grupo de jovens valentões no sul de Manhattan. Embora estivesse acostumado a lidar com crianças de rua, ele descobriu que tinha de se aproximar deste bando de “malandros” com mais cautela. Foi só apelando para a vaidade deles - pediu que fizessem pose de “fotos de cigarro” diante da sua câmera - é que evitou receber uma surra. A gangue “aceitou a oferta com muita prontidão, arrastando para o grupo uma ovelha de aparência indecorosa (o matadouro ficava ali perto) como mais um membro do bando. O rufião mais sem graça do grupo, que insistiu em ser fotografado com a cerveja na sua caneca’, aproveitou a oportunidade para jogar o que restava garganta abaixo, causando um certo desagrado, mas, a não ser por isso, a performance foi um sucesso. Enquanto eu aprontava a câmera, fiz uma leve sugestão de fotografias para cigarros, e ela pegou logo. Agora eu era obriga­ do a registrar os espíritos mais ousados da companhia a caráter”. Eles representaram seus crimes diários. “Um deles se jogou sobre um abri­ go, como se estivesse dormindo, enquanto outros dois se inclinaram por cima dele, vasculhando os seus bolsos com uma habilidade que era altamente suges­ tiva. Isto, eles explicaram para me favorecer, era para mostrar como eles ‘faziam o truque’. O resto do bando ficou tão impressionado com a importância da exi­ bição que insistiu em se aglomerar dentro da foto subindo no abrigo, sentando no telhado com os pés dependurados no beirai, colocando-se à vista de todas as maneiras possíveis de se imaginar, como eles pensavam.” A foto que resultou dali, “Uma Growler Gang reunida”, estabeleceu um novo padrão na iconografia delinqüente. Numa zona urbana com abrigos e pá­ tios de baixa densidade, sete membros dos Montgomery Guards anunciavam a mentalidade do seu grupo com roupas e gestos. Carrancudos contra a luz do sol desbotada, todos portam chapéus, roupas escuras e uma expressão de desafio. Sua insolência é personificada pelo ar de sarcasmo no rosto do rapaz que está no centro e pela determinação do bebedor mais jovem abaixando a cabeça para esvaziar a caneca cheia até a borda. Diante desta visão, você sairia correndo. Os jornais de Manhattan havia muito tinham noticiado as façanhas das gangues locais. No verão de 1857, o New York Times tinha intercedido publica­ mente no temível conflito entre os Bower Boys e os Dead Rabbits. Com seus chamativos nomes de grupos e com um jeito de arrepiar os cabelos, os jovens gângsteres ofereciam pautas perfeitas para os jornalistas da cidade. Os primeiros queriam publicidade, os últimos ficavam com exemplares pitorescos - tramas vivas de romances baratos —que, no entanto, combinavam esses dois ideais da imprensa: excitação e censura. 50

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Na última década do século XIX, o problema da delinqüência juvenil tinha se tornado mais premente. Mas só com a publicação, em 1890, da foto da “Growler Gang” e outras no How the Other HalfLives de Jacob Riis é que os ameri­ canos viram amplamente divulgadas evidências documentais da sua juventude urbana. Repórter da polícia que virou cruzado, Riis descobriu que a câmera com flash recentemente inventada era o instrumento perfeito para registrar as vidas de párias da sociedade de quem se falava muito, mas que raramente eram vistos: nesse caso, ele expôs um mundo jovem distinto, se não autônomo. Como os teóricos da degeneraçao, o objetivo de Riis era mostrar que as condições degradadas resultavam em vidas degradadas, e que os jovens eram os mais vulneráveis: “Das 82.200 pessoas presas pela polícia em 1889”, ele escreveu, “ 10.505 tinham menos de vinte anos de idade.” Entretanto, o seu propósito não era consignar os jovens pobres de Manhattan à sombria periferia, mas jogar uma luz sobre o problema. Integração, e não eugenia, era o estilo de Riis: o su­ cesso galopante de How the Other Half Lives foi a sua chance de influenciar a política nacional na reforma das condições habitacionais, espaços públicos e educação pública. Riis foi um dos muitos escritores a relatar o crime juvenil durante a última década do século XIX. Conforme o seu número crescia no mesmo ritmo que a sua asserção, as crianças nas áreas miseráveis apresentavam um problema mais visível. Se a sociedade das massas urbana e tecnológica ia funcionar, entao todos tinham de estar de acordo com as normas burguesas de frugalidade, dever e dis­ ciplina. O caos urbano não era mais aceitável. O movimento de reforma na Amé­ rica tornou a delinqüência um dos seus principais alvos, ao mesmo tempo em que os escândalos na Grã-Bretanha e na França eram as principais manchetes nacionais. Esses comentaristas não levavam em conta o impacto que suas reportagens sensacionalistas tinham no grupo que objetivavam. O jovem era um assunto emocionante, mais ainda se associado ao crime e a hábitos estranhos e bárbaros. Aparecer na imprensa dava status. Aparecendo aos olhos do público ao mesmo tempo que a imprensa popular flexionava pela primeira vez os seus músculos, o selvagem dos bairros pobres era uma amostra para o século seguinte. Exibindo uma alarmante, se não estranha, independência, o hooligan e o Apache anuncia­ ram o relacionamento simbiótico entre os meios de comunicação e a juventude. Esta súbita atenção refletia o fato de que, na década de 1890, muitos jovens urbanos estavam determinados a viver a vida a seu modo. Não importava o que reformadores e jornalistas pensassem, eles iam ter o que queriam por bem ou por mal: substâncias tóxicas, armas, roupas. Do mesmo modo que o seu vestuá­ rio extravagante chamava a atenção do público, novos tipos como os hooligans e os Apaches usavam sua aparência surpreendente como um distintivo de honra. HOOLIGANS E APACHES

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Ao fazer isso, irradiavam a própria rebeldia emplumada que sua exposição estava tentando cercear. * * * Foi no Novo Mundo que a delinqüência juvenil se mostrou mais radical. Entre 1880 e 1910, o total da população urbana triplicou - de 14 para 42 milhões. Este enorme crescimento teve duas origens: de dentro do continente, quando um número estimado de 11 milhões de pessoas trocou o campo pela cidade, e de fora, quando a imigração da Europa ocidental e oriental alcançou o seu auge por volta do novo século. Esta migração maciça convulsionou a América no que o educacionista John Dewey chamou de “uma revolução tão rápida, extensa e completa como nenhuma outra na história”. Os jovens estavam no extremo dessa revolução. Grupos como os Montgomery Guards eram um lembrete visível de que as instituições e a infraestrutura do con­ tinente não estavam acompanhando a atordoante velocidade das mudanças. Na falta de uma intervenção do Estado, as reportagens sociais de reformadores como Riis e Jane Adams, junto com a ficção realista de Theodore Dreiser e Stephen Crane, descreviam com uma urgência maior do que nunca as difíceis escolhas que a juventude americana enfrentava. Elas podem ter sido visões de pesadelos, mas com um objetivo prático: a melhoria do cotidiano da população pobre das cidades. As crianças dos bairros urbanos onde proliferavam os bordéis controlavam este novo enfoque sobre as condições sociais americanas. Como não aparentavam problemas e, na verdade, porque personificavam os principais valores americanos, os adolescentes das classes média e alta não eram tão visíveis nos novos meios de comunicação de massa. Os árabes nas ruas e as gangues de valentões eram um lem­ brete vivo de que, apesar de todo o desejo de forjar uma nova sociedade indepen­ dente das tradições europeias, e apesar da sua retórica de liberdade para todos, a iniqüidade estava inserida, não promovida, nos seus sistemas econômicos e sociais. Apesar da propaganda voltada para as aspirações, o seu sucesso —com raras exceções —dependia de como você nascia. Se fosse numa família de classe média aparentemente estável, tinha mais probabilidade de ter aspirações e ideais tra­ dicionais; se fosse homem, ingressar nos negócios da família ou num emprego adequado; se mulher, fazer o melhor casamento possível, ou então, entrar para a advocacia ou a medicina. Para os rapazes, em particular, havia uma escala já pronta de sucessos a ascender; educação primária e secundária, depois a universi­ dade e a entrada para o comércio, a indústria ou uma profissão liberal. As crenças instiladas na juventude americana de classe média refletiam a po­ sição estratégica do país. Embora a Guerra Civil tivesse erradicado a atração pelo conflito por uma geração, na década de 1890 houve uma nova belicosidade, vene­ 52

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rada na pessoa do comissário de serviço civil, Theodore Roosevelt, que concordava com o desejo do país de atuar no cenário internacional. No seu best-seller de 1885, Manifest Destiny, John Fiske havia profetizado que em um século a América seria “uma agregação política superando imensuravelmente em poder e dimensões qualquer império que jamais existira”. Os governantes do futuro, portanto, deveriam ter inculcadas as habilidades e atitudes necessárias para transformar essa visão em realidade. Mesmo antes da Guerra Hispano-Americana de 1898, o militarismo já estava inserido na vida dos americanos. O que Roosevelt chamou de “qualidades rudes que precisam combinar com a verdadeira masculinidade” foi reforçado tanto por um ideal espiritual de “cristianismo muscular” como por uma cultura de esportes altamen­ te desenvolvida: beisebol, futebol e musculação, as principais atividades de lazer dos machos de classe média do país. Na América pré-imperialista, entretanto, o objetivo máximo desse treinamento não era a guerra, mas os negócios. Do mesmo modo que as escolas públicas treinavam os jovens britânicos para governarem o Império Britânico, o esporte ao mesmo tempo disciplinava o jovem selvagem e o preparava para o “difícil e perigoso empenho” que Roosevelt consi­ derava necessário para a América alcançar a sua “verdadeira grandeza nacional”. Esta ideologia não dava nenhuma ideia de que os jovens de classe média formas­ sem uma corte distinta. Embora houvesse a noção de que “juventude” era um período de fluxo, isto estava desaparecendo com a crescente estratificação da educação e do lazer, o que significava que os rapazes estavam sob uma supervisão por parte dos mais velhos maior do que antes. Embora a asserção por parte de rapazes privilegiados fosse considerada como pertencente à ordem natural das coisas, ela não se baseava em nenhuma defesa de gerações. Os adultos comandavam. No épico “Estado da nação” de Theodore Dreiser, Sister Carne, de 1893, o morador da mansão, George Hurstwood Jr., poderia bem ter “manifestado uma sensibilidade e um exagero ainda maiores na questão de seus direitos individuais, e tentado fazer com que todos sentissem que ele era um homem com privilégios de homem”. Mas esta era “uma hipótese que, de todas as coisas, era a mais sem fundamento e absurda num jovem de 19 anos”. Nessa idade, muitas crianças dos bairros pobres estavam chegando ao fim de suas vidas. Nos cáusticos ambientes dos laboratórios metropolitanos da Améri­ ca, a luta pela sobrevivência desgastava corpos e almas com especial intensidade. Graças aos seus níveis muito altos de imigração e seu ambiente peculiarmente comprimido, Manhattan era muito dura com seus jovens. Crianças abandonadas nas ruas eram uma rotina: muitas morriam, enquanto aquelas com mais sorte encontravam empregos sem definição como jornaleiros ou vendedores de flores, ingressavam em gangues ou eram recrutadas pela Fagin local. Não havia infraestrutura de previdência social, nenhuma rede de segurança. HOOLIGANS E APACHES

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Esta modalidade primária de organização social dos jovens era local e ter­ ritorial. Também refletia a cidade onde viviam. Nova York era uma cidade escan­ carada, “a moderna Gomorra”. Como eles poderiam ter resistido a se fazerem à sua imagem? As gangues vinham se desenvolvendo em sofisticação e número desde os meados do século XIX. Na década de 1890, segundo o cronista Herbert Asbury, “Manhattan ao sul de Times Square estava dividida em gangues com reinos claramente definidos, e as fronteiras eram fortificadas e tão cuidadosamen­ te guarnecidas como as fronteiras de nações civilizadas”. Dentro dessa zona de batalha urbana, as divisões étnicas de Manhattan - de rua para rua, de bairro para bairro - eram expressas em batalhas campais e con­ flitos raciais. Entretanto, o crime e a proteção de pares eram os motivos mais co­ muns. Compreendendo membros com idades entre dez e vinte anos, as novas gangues incluíam grupos menores que defendiam seu produto principal - em geral a atividade ilegal associada com o seu bairro - e travavam guerras pelo controle de áreas a fim de estabelecer a superioridade de mercado. Era a delin­ qüência reestruturada num eco que nitidamente parodiava a consolidação cor­ porativa que começava a dominar a vida empresarial americana. A conseqüente distribuição criou um mapa alternativo de Manhattan. Os Five Pointers comandavam a área ao redor da Broadway e da Bowery; o território da Eastman ia da Bowery até o East River. Em outra parte, a Gas House Gang, os Gophers, os Fashion Plates, os Marginais e os Pearl Buttons - todos disputavam pelo seu respectivo pedaço de terra. Com uma alta rotatividade, as gangues re­ crutavam seus membros nos muitos clubes de rapazes que proliferavam por todos os lados a leste e oeste de Manhattan; organizados por chefes de bairros locais, eles também tinham nomes excitantes como os Bowery Indians e os GoAheads. Este era um mundo inteiro em si mesmo. Todas as regras usuais eram revira­ das de cabeça para baixo, mas a desgraça recaía sobre aqueles que contrariavam as novas leis. A gangue mais bem-sucedida do início dos anos de 1890, os Whyos, oferecia uma lista detalhada de preços para extorsão e assassinatos por encomen­ da —“socos” custavam apenas dois dólares, mas “fazer o serviço todo” ia “a partir de cem dólares”. Os Baxter Street Dudes dirigiam a sua própria casa de jogos no porão, sarcasticamente chamada de Grand Duke Theater. Jovens e moradores dos bairros miseráveis (“caçadores de elefantes”) vinham de todas as partes da ci­ dade para desafiar as gangues rivais e assistir a peças encenadas com cenários e adereços roubados. Uma grande atração deste mundo é a sua permissividade sexual - um adicio­ nal, sem dúvida, dentro da moralidade puritana americana —, mas isso só funcio­ nava para os homens. O escandaloso romance de Stephen Crane, de 1896, Maggie: The Girl ofthe Streets traçou o inexorável momentum desta transação desigual. 54

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Florescendo “numa poça de lama”, a sua heroína tem apenas a sua juventude: “Ela começou a ver o rosado em suas faces como algo valioso.” Repugnada com a perspectiva de trabalho escravo em lojas que exploravam seus funcionários, Maggie inicia um relacionamento com um gângster local. Depois que ele obteve dela tudo o que queria, ela não tem outra coisa a fazer exceto tornar-se membro dos “grupos pintados da cidade”. Embora a prostituição fosse uma das principais indústrias das gangues, mu­ lheres jovens e valentes podiam também viver segundo os seus próprios termos. Fora as inevitáveis cafetinas e gerentes de salão, havia gangues femininas que sur­ giram a partir de clubes como a Lady Locust, a Lady Liberties of the Fourth Ward e a Lady Truck Drivers’ Association. A Battle Row Ladies’ Social and Athletic Club era afiliada à Gophers: sob a liderança da feroz Battle Annie, as Lady Gophers, como elas eram também conhecidas, tinham provado o seu valor em “fre­ qüentes combates com a polícia”. Mas praticamente todos os líderes de gangues eram homens: “homens gran­ des” como Paul Kelly, o chefe dos Five Pointers, e seu capanga Biff Ellison, Dandy Johnny Dolan, dos Whyos, e Monk Eastman, tão poderoso que sua gangue adotou seu sobrenome. Muitos líderes de gangues de sucesso proclamavam a sua ascendência pela maneira de se vestir: Asbury notou que “o gângster realmente perigoso, o assassino, estava mais propenso a ser uma espécie de dândi”. Kelly era “garboso, de fala macia”, enquanto que Ellison “adorava se borrifar de perfume, de uma marca que mandava fazer especialmente para ele por um boticário sob juramento de manter segredo”.2 Dentro dos cortiços de Manhattan, esta sociedade subterrânea era uma teatral, porém mortal, inversão de valores tipicamente americanos. O líder de gangue bemsucedido era, para todos os efeitos, a imagem espelhada do adeta universitário de sucesso, o príncipe do seu próprio domínio. O seu poder estava no fato de que muitos jovens valentões procuravam imitar tudo o que ele dizia e fazia. No fim da década de 1890, Eastman tornou-se “um dos cidadãos mais celebrados do East Side, e inúmeros rapazes começaram a imitá-lo no discurso e nas atitu­ des, e assim existia uma escola Monk Eastman de jovens arruaceiros e briguentos”. Este heroísmo servia para mascarar as brutais realidades do mundo das gan­ gues. Para cada chefe bem-sucedido, havia milhares de jovens valentões desor­ deiros. Embora o seu capitão pudesse ter sido “um grande homem”, seus segui­ dores eram, literalmente, o oposto. Asbury observou que “com o passar dos anos, a miséria e o congestionamento da vida nos cortiços cobrou o seu tributo, e re­ gistros policiais e das penitenciárias mostram que os membros de gangue na 2 Ellison também dirigia um salão que atendia homossexuais apelidado de Paresis Hall devido aos efeitos médi­ cos da sífilis.

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época dos Gophers, dos Eastmans e dos Five Pointers tinham em média no má­ ximo l,60m de altura, e pesavam entre 54 e 61 quilos.” Esses pesos-leves combinavam os efeitos da desnutrição e das más condições de moradia com o seu pronto apetite pelo álcool e outros estimulantes e o simples perigo da profissão escolhida. Tendo a violência como motivação principal, eles estavam mais do que propensos a morrer com uma facada, um tiro ou de tanto apanhar antes de atingir a maioridade. Na verdade, esta probabilidade estatís­ tica significava que muitos estavam determinados a experimentar o que Luc Sante chama de “todas as ordens de altas e baixas sensações adultas” durante a sua se­ gunda década de vida. Na faixa dos vinte anos, estavam mortos, na prisão ou exauridos. Riis captou esta intensidade na sua fotografia de 1890. Seus temas não eram estáticos mas captados num breve intervalo entre uma “batida policial” e outra. A sua valentia era sustentada pela sua depravação aleatória. O reformador teve o cuidado de observar, “para que o leitor não se iludisse achando que eles fossem jovens inofensivos”, que não se passou mais de meia hora do seu encontro e três membros do Montgomery Guards tinham sido presos por assalto violento a um camelô judeu idoso. Eles haviam tentado decapitá-lo com uma serra, “só para se divertirem. O judeu apareceu e a serra estava ali, então nós o atacamos”. Vindos de distritos como Poverty Row, um quarteirão de cortiços na West 28^ Street, jovens como os Montgomery Guards tinham poucas chances de so­ breviver a não ser organizando-se em bandos, e, uma vez unidos, reproduzir a ética de “poder é lei”, que era a realidade social deles. Eles viam na abordagem do homem de meia-idade uma forma de reforçar a sua identidade grupai como fonte de orgulho e não de vergonha. Esperavam que, ao contrário da brutalidade da foto policial, que seria o seu único outro encontro com uma câmera, a fotogra­ fia de Rii convenceria o mundo de que eles eram grandes homens e não pequenos rufiões homicidas. Suas bravatas cruéis, entretanto, reforçavam a urgência da polêmica lançada pelos reformadores. Em 1893, o historiador FrederickJacksonTurner argumentou num discurso influente com o título “A importância da fronteira na história ame­ ricana” que os espaços selvagens do continente tinham sido finalmente domesti­ cados. A migração para o oeste em busca de terras e desenvolvimento que havia alimentado grande parte da prosperidade do continente durante o século XIX ti­ nha chegado ao limite. Quase não havia mais terras livres e, depois do fracasso da rebelião “Dança do Fantasma” dos Sioux, no inverno de 1890, não havia qua­ se mais nenhum índio americano fora de suas reservas. O espírito da fronteira selvagem tinha encontrado o seu novo lar nos desertos metropolitanos e, sem uma válvula de escape socialmente aproveitável, tornarase maligno. Era como se, depois de finalmente perderem o continente que fora 56

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deles por milhares e milhares de anos, os índios tivessem entrado nas almas das selvagens crianças de rua. “A Growler Gang in Session” revelou a incômoda ver­ dade:, o continente tinha um novo conjunto de nativos que precisavam ser domes­ ticados. Os jovens gângsteres estavam saindo das sombras: milhares e milhares de Jesse Pomeroys piscando na luz a que não estavam acostumados. * * * Na virada do século, a delinqüência juvenil havia chamado a atenção do mundo inteiro como um grave problema social. Em Juvenile Offenders, publicado em 1898, o criminologista W. Douglas Morrison observou que “quer olhemos para casa ou para o exterior, quer consultemos as estatísticas criminais do Velho Mundo ou do Novo, invariavelmente encontramos a criminalidade juvenil exibindo uma forte tendência a aumentar. É um problema que não se limita a uma única co­ munidade: ele está confrontando toda a família de nações; ele está surgindo de condições que são comuns à civilização”. Na Grã-Bretanha, o crime juvenil tornou-se uma questão nacional quando as crianças da classe operária urbana forçaram passagem para a conscientização pública. Como uma notícia de jornal em 1898 dizia: “Quem lê os jornais de Londres, Liverpool, Birmingham, Manchester e Leeds sabe que o jovem rufião e vagabundo de rua, com seu cinto pesado, sua faca traiçoeira e sua perigosa pis­ tola está entre nós. A dúvida de todo homem que se preocupa com a segurança das ruas quando anoitece, que elas sejam decentes quando já está escuro, e não desgraçadas por gritos obscenos e atos brutais, é saber o que deve ser feito com este novo desenvolvimento do menino da cidade e cidadão dos bairros pobres?” Entretanto, este ainda não era o resultado da indisciplina no estilo americano, mas um subproduto da longa, lenta e parcial marcha da prosperidade imperial. Em­ bora um terço da população vivesse abaixo da linha de pobreza, para as classes ope­ rárias mais altas as coisas estavam melhorando - com moradias e dietas melhores, mais instalações dedicadas ao lazer (futebol, estâncias para passar as férias, o music hall) e o aumento da produção de artigos de consumo para o novo mercado de massa. A crescente visibilidade e a maior liberdade da juventude urbana desafiavam uma burguesia ansiosa e determinada a ver prevalecer a sua visão de sociedade. O jovem urbano rebelde tinha sido um problema desde os meados do século XIX. Depois do pânico do início dos anos de 1860, a imprensa relatou com re­ gularidade a ocorrência de assaltos, carnavais nos feriados bancários e brigas de gangues durante as décadas de 1870 e 1880. Essas “explosões de arruaças”, como o crítico Matthew Arnold as chamou, “tendem a se tornar cada vez menos insig­ nificantes, para ser mais freqüentes em vez de menos freqüentes”, ameaçando “a profunda ordem da ordem estabelecida e da segurança”. A reforma havia acom­ HOOLICANS E APACHES

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panhado o ritmo desta curva, com a instituição, na década de 1850, de reformatórios separados e escolas industriais para criminosos com menos de 16 anos. A educação era o que mais preocupava os adultos durante os anos de 1870 e 1880, no que se referia à juventude. Para muitas crianças, as novas escolas esta­ duais, a insistência no ensino religioso, as atividades esportivas compulsórias e os castigos corporais transformaram a frequência num campo de batalha. O Ato Edu­ cacional de 1880 foi muito impopular porque mantinha as crianças na escola até a idade de 11 anos: a principal carga financeira agora recairia sobre os jovens com mais idade, que eram muitas vezes o principal, se não o único, meio de sustento. A frequência sob a nova lei começou bem: cerca de 60% durante a década de 1880. Entretanto, na década seguinte a vadiagem foi o segundo delito mais comum cometido pelos jovens, quando a sobrevivência da família era mais impor­ tante do que a educação. A profusão de empregos não especializados para os gru­ pos de 14 a 18 anos de idade afirmava a sua importância econômica: porteiros, garotos de recado, vendedores de rua. Até um certo ponto, isto dava independên­ cia e dinheiro no bolso, e ao mesmo tempo novos produtos de consumo tinham como alvo os jovens assalariados: roupas, diversões, revistas e histórias em qua­ drinhos. A frequência compulsória às escolas resultou numa crescente reserva de crian­ ças alfabetizadas, aumentando consequentemente o mercado de jovens leitores de todas as classes. Este tinha sido durante muito tempo um campo de batalha entre “policiais baratos”, com suas histórias de moleques, assassinos, vagabundos e índios americanos, e produtos mais aperfeiçoados como o Boys Own Paper (1879), publicado pela Religious Tract Society. Acompanhando o sucesso do irreverente Ally Slopers HalfHoliday (1884), um novo gênero de histórias em quadrinhos como Comic Cuts e Chips tinha como alvo tanto alfabetizados quanto “semialfabetizados”. Estes dois semanários tinham como atração piadas, observações sociais, vaga­ bundos diversos e ilustrações de qualidade. Sua circulação combinada chegou a meio milhão em 1890, estimulando um dilúvio de imitadores. Em 1893, o pri­ meiro exemplar de Larks publicou um artigo de primeira página sobre o Balls Pond Banditti, cuja logomarca incluía um laço, uma máscara e uma estaca: em seis etapas, a narrativa seguia “o alistamento de recrutas”, “o juramento de fidelidade” e “o conselho de guerra”. Esta gangue de adolescentes metidos a valentões, des­ bocados, refletia e invertia a sociedade militarista: a guerra não era contra um poder estrangeiro, mas contra a autoridade dos adultos. Esses relatos, embora chocantes para muitos pais, encontraram um mercado pronto porque refletiam a atividade preferida de seus leitores adolescentes: sair para as ruas, formar gangues e incomodar os adultos. O que para seus participan­ tes era “farrear”, a experiência de grupo que às vezes - por tédio, desespero ou 58

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mutuo incentivo —descambava para o vandalismo mesquinho e coisa pior, era para muitos adultos burgueses o colapso dos “sólidos hábitos feudais de subor­ dinação e deferência”. Seus filhos pensavam diferente. Surgia um novo tipo de gangue dos bairros mais pobres das cidades. Num notorio incidente em 1890, os Scuttlers de Manchester sustentaram uma luta livre em que estiveram envolvidos quinhentos jovens. O termo veio originalmente de Lancashire, onde “scuttling designava as lutas territoriais travadas por gangues vizinhas. Durante a década de 1890, ele passou a denotar um novo estilo jovem nacional, com suas roupas características e terminologia horripilante, que saiu de Manchester (o Forty Row, o Bengal Tiger) para Birmingham (o Peaky Blinders), Liverpool (o High Rip) e o leste de Londres (o Monkeys Parade e o Bowry Boys). Segundo relatórios da época, o “Scuttler profissional” usava “boné de pugilista”, calças “de boca larga”, sapatões com pon­ teira de metal e bico fino, cintos pesados e personalizados com desenhos, ressaltados com pinos de metal, que incluíam serpen­ tes, estrelas e corações perfurados. O “espe­ cialista em meninos”, Charles Russel, ob­ servou que a variante de Manchester usava “um cachecol branco frouxo”, os cabelos “bem gomalinados caídos sobre a testa”, um “boné pontudo um pouco tombado sobre o olho” e calças “cortadas - como as de um marinheiro —com ‘bocas de si­ no’”. A namorada dele “em geral usava sapatões, um xale e uma saia com listas verticais”. Observadores como Russel talvez te­ nham tentado inserir o Scuttler na tradi­ ção do bom humor jovial, mas os relató­ rios da imprensa na época contam uma história mais sombria. Em 1892, houve "AOS 17 ANOS, UM PERFEITO HOOLIGAN", DO JORNAL DAILY GRAPHIC um caso de assassinato sensacional em Manchester tendo como protagonistas três adolescentes da gangue Lime Street que “apagaram” um membro da gangue rival com uma facada nas costas. O assassino, William Willan, foi retirado do tribunal descalço, gritando: “Oh, senhor, não, tenha piedade de mim, só tenho 16 anos, estou morrendo.” A violência era também racialmente direcionada: HOOLIGANS E APACHES

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num famoso caso de 1897, um imigrante armênio foi assassinado por uma gangue do sul de Londres. Em agosto de 1898, estes distúrbios explodiram num escândalo nacional. Era um verão atipicamente quente, como o Times publicou no seu editorial: Sera que o forte calor incendeia o sangue do desordeiro de Londres ou árabe das ruas as­ sim como o clima sulino faz com o italiano ou o provençal de sangue quente?” As celebrações do feriado bancário de agosto resultaram numa onda de prisões na capital por ofensas públicas: embriaguez, brigas, roubos nas ruas e agressões contra a polícia. Achando seus epítetos tradicionais inadequados, a imprensa inventou um novo nome: o hooligan? Com sua pejorativa associação irlandesa, este termo oferecia uma forma simplificada de definir um urgente social. Todos os distúrbios provocados por gangues naquele verão foram marcados pela nova expressão, fossem os Lion Boys e a Pistol Gang de Clerkenwell, os Drury Lane Boys, ou os Fulham Boys. Os próprios participantes prontamente adotaram a opinião da imprensa a respeito de suas atividades. Em um incidente muito comentado, membros do Somers Town Boys derrubaram um carrinho de sorvete de um vendedor italiano e agrediram a polícia. Na fuga, correndo, eles gritavam: “Cuidado com a gangue dos Hooligans.” Pela primeira vez os jornais ingleses fizeram uma associação explícita entre a maneira de se vestir e delinqüência. O Daily Graphic descreveu em detalhes um réu com cabelos no estilo moicano no verão de 1898: “Seus cabelos estavam cortados quase até o couro cabeludo, com exceção de uma pequena tira no co­ curuto da cabeça, puxada para baixo sobre a testa para formar uma franja.” Pouco depois, o mesmo jornal dissecou o uniforme dos Hooligans: “Todos eles têm um cachecol peculiar enrolado no pescoço, um boné colocado jocosamente para frente, bem caído sobre os olhos, e calças muito justas nos joelhos e muito folgadas na altura dos pés.” No seu romance de 1899, The Hooligans Nights, Clarence Rook definiu o seu herói, Alf, de 17 anos, como “preparado para o conflito” pela maneira como se vestia. Neste novo tipo, o requinte do dândi coexistia com a violência. “Enrola­ do no pescoço ele usava o lenço azul, salpicado de branco, que na minha memó­ ria sempre o traduzirá; por baixo dele uma camiseta leve.” O “forte cinto de 3 A origem exata do termo é um mistério. Escrevendo em 1899, Clarence Rook isolou um indivíduo, Patrick Hooligan, como sendo o “Buda” ou “Maomé” deste “culto” e fez um breve esboço biográfico de um fanfarrão de Lambeth que matou um policial e em seguida morreu na prisão: “Pouca coisa há de notável em sua carreira. Mas o homem deve ter tido uma personalidade vigorosa, pitoresca, um fascínio, que fez dele um tipo... de qualquer modo, embora a sua individualidade possa ser obscurecida pela lenda, ele viveu, morreu e deixou atrás de si uma grande tradição.” Parece justo considerar isto mais como uma mitificação do que uma autobiografia. Pesquisando a origem do termo, GeofFrey Pearson cita várias possibilidades: uma corruptela do americano hoodlum (arruacei­ ro); dois irmãos chamados Hoolehan que eram pugilistas profissionais; uma adaptação do nome de um vigarista - Mr. Edward Hooley - que freqüentava as manchetes dos jornais na época.

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couro” do Scutder não era a sua única arma: “Colocando a mão no bolso interno do paletó, e olhando cautelosamente ao redor, sacava um cutelo de manejo apa­ rentemente fácil que sustentava na mão por um momento, como se tranqüili­ zando a si mesmo quanto ao seu contrapeso.” Rook descreveu um novo tipo urbano que não combinava com o bruto rufião da imaginação popular. Alf “tem l,70m de altura. É leve, ativo e muscu­ loso. Seu rosto não é nada brutal; é inteligente e torna evidente uma natureza muito sensível. Os olhos são o seu traço mais notável. Eles parecem olhar tudo em volta da sua cabeça, como os olhos de um pássaro; quando está zangado, cintilam com uma fiiria quase demoníaca”. Lidando “desde a infância com reali­ dades”, Alf era um rapaz teimoso, dissimulado, camaleônico, perfeitamente adap­ tado às exigências da vida metropolitana contemporânea. Publicada meses depois do pânico de 1898, a descrição de Rook deste jovem do sul de Londres “fiel às tradições Hooligan” era extraordinariamente equilibrada. O seu propósito era oferecer “uma fotografia do rapaz que anda de um lado para outro no mesmo ambiente que você, pronto para enfiar a mão no seu bolso, saquear a sua casa e até espancá-lo num canto escuro se achar que vale a pena”. Para aqueles que se queixavam de que ele estava apresentando o crime “em cores fascinantes”, ele ofereceu a defesa de reportagem: “Não recomendo os modos do meu jovem amigo, nem mesmo os desculpo. Simplesmente eu o coloco na frente dos senhores como um fato com o qual é preciso lidar.” Do ponto de vista deles, os Hooligans e os Scuttlers estavam tentando ser donos do seu próprio destino. Unir-se em bandos e envolver-se em disputas terri­ toriais era um modo de se afirmar, de ver um pouquinho de excitação e trans­ cender um estilo de vida sem saída. Entretanto, nem todos os adultos eram tão compreensivos como o amanuense de Alf. Demonizados pela imprensa, os Scutders e os Hooligans receberam o merecido castigo no futuro. Uma vez apanhados, eles apareciam, conforme notou um observador, “aos bandos nos tribunais, muitas vezes para receber selvagens sentenças”. O Hooligan brilhou na imprensa no fim da década de 1890 como uma ameaça para a sociedade, mas este era um tipo que refletia os valores de seus go­ vernantes através de um prisma fracamente distorcido. O jovem herói de Clarence Rook espancava a sua namorada e pensava que os estrangeiros eram “uma classe de gente” a ser “desprezada”. Num eco direto da exortação à escola pública de Henry Newbolt, Alf também achava que o policial, embora pudesse ser o inimi­ go natural, “faz o jogo, e tem o direito de ser tratado de acordo”. Como ele con­ cluiu: “Você não deve matá-lo, desde que ele faça o jogo, e o jogo não tem vidas para apostar.” Entretanto, o escândalo do Hooligan conferiu uma urgência extra aos pedidos de reforma da política britânica para a juventude delinqüente. A doutrina salvaHOOLIGANS E APACHES

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cionista do general Booth, que sugeria o embarque em massa dos bairros pobres para as colônias, não era uma opção viável. No fim do século, este era um pro­ blema tão urgente, que até o fictício Alf foi investigado para saber a sua opinião de especialista. Ele aconselhou caçar “o jovem criminoso”: “Tirá-lo do seu ambien­ te e ensinar-lhe uma profissão. Fazer dele um marinheiro, um soldado, ensinarlhe as artes da carpintaria, da colocação de tijolos, qualquer coisa que lhe der um emprego e um salário regulares.” *** Dois anos depois do verão dos Hooligans, outro tipo de jovem vilão muito visí­ vel tomou conta do cenário nacional. Em dezembro de 1900, um jornalista cha­ mado Henry Fourquier anunciou sarcasticamente no Le Matin que Paris tinha a sorte de ter uma tribo de apaches que, pelo visto, trocara as Montanhas Rochosas pelo distrito particularmente insalubre da capital. Ele os definiu como jovens seminômades, sem qualquer influência paterna óbvia, que estavam ajudando a formar o que a polícia chamava de um exército de criminosos. Os Apaches apareceram pela primeira vez na imprensa durante o verão como a mais recente de várias gangues de áreas pobres com nomes chamativos como Les Coeurs d’Acier, Les Aristos e Les Riffaudes. A origem do nome era obscura, mas, segundo o historiador criminalista Claude Dubois, era o produto inevitável de um fascínio francês pelos índios e pela cultura americanos que tivera início com o romance de James Fenimore Cooper, de 1826, The Last of the Mohicans. Na década de 1860, o termo peaux rouges era usado para descrever os jovens habi­ tantes mais visíveis do submundo parisiense. Era possível que o termo “Apache” fosse um jogo de palavras com Paris, a sua cidade de origem, mas foram as suas roupas extravagantes que deram destaque aos Apaches. Elas consistiam de um paletó preto com uma camisa colorida por baixo, às vezes usada com um cachecol foulard. O elemento mais surpreendente dos seus trajes eram as calças “dor de estômago”. Eram calças de feltro de confecção grosseira com relógios de bolso grandes o suficiente para os valentões amontoálos, como se todos tivessem graves doenças estomacais. Todo o conjunto era com­ pletado com uma boina, tatuagens e um sarcástico ar de superioridade burguesa. Até o inverno de 1901, os Apaches foram um fenômeno local. Mas o sensacio­ nal julgamento de Joseph Pleigneur, também conhecido por Manda, pelo esfaqueamento de Dominique Leca ajudou a divulgar o tipo para um público mais amplo. Não era uma história edificante: Manda e Leca eram ambos cafetoes pa­ risienses, e a briga foi por causa de uma jovem prostituta, Amelie Helie, também conhecida como Casque d’Or, que tinha sido namorada e empregada dos dois homens. A imprensa parisiense gastou uma dinheirama com o assunto, e mesmo 62

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que os Apaches nao tenham participado diretamente, eles foram envolvidos neste escândalo do submundo. Durante os primeiros meses de 1902, esses selvagens das áreas pobres da cidade quase não saíam do LeMatin e do LeJournal, diários com uma circulação de mais de um milhão de exemplares. O termo “Apache de Paris” passou a servir para todas as maldades dos jovens. Paródias dos Apaches surgiram nos clubes de Montmartre, falando no jargão dos índios: “Casque à Manda casqua; plaqua Leca, Tapache.” Quando o julgamento de Manda começou no fim de maio, o caso tinha se tornado um tamanho circo que Amelie Helie explodiu no tribunal: “Les Apaches! Les Mohicans! Casque d’Or! Tout ça cest des invention des journalistes. Entre nous, on s’appelle des copains!”4 Como os Hooligans, os Apaches eram essencialmente uma criação da mídia, que ampliava as atividades de um pequeno segmento da juventude francesa num clima generalizado de medo. Entretanto, o furor teve um resultado inesperado. Embora ambos, Manda e Leca, fossem despachados para as colônias penais fran­ cesas na Guiana —para nunca mais voltarem —, o estilo com o qual tinham sido associados começou a se espalhar das áreas pobres para os subúrbios, dos pobres urbanos privados de direitos civis ou privilégios para o jovem operário descontente. O que a imprensa tinha visto como um escândalo picante, os jovens desconten­ tes viram como uma convocação. Na sua vivida reconstrução, Michelle Perrot descreve o Apache como “um rapaz, com 18 ou vinte anos, que vive na cidade com um grupo. Ele é um jovem operário das periferias urbanas, principalmente parisienses; a sua gangue ou grupo recebe o nome do seu bairro, e ele está em conflito com a sua família. Ele rejeita o trabalho assalariado e a situação proletária de seus pais, assim como a ideia de ser um “derrotado”. Fábricas e pobreza são o seu pesadelo; ele tem desejos insa­ tisfeitos de consumo. Ele gosta de vagar, passear pelos grandes bulevares; um forasteiro, vindo dos subúrbios, ele quer estar no coração da cidade. Ele se veste bem com um cachecol de seda e boné, e, o mais importante, está bem calçado. Uma elegância afetada faz com que seja rotulado de efeminado pelos ope­ rários dos arredores da cidade. Está sempre pronto para saltar para dentro de um automóvel, sendo um carro a sua suprema ambição. O apache sonha com passeios, amigos e amor. Ele gosta de dançar e de garotas. Nas gangues apaches, o status das mulheres é ambíguo, ao mesmo tempo livres - trocam de homem à vontade se não estiverem satisfeitas - e submissas. Os homens brigam pelas mulheres, as mulheres se vendem para os homens - que agem em parte como cafetões.

4 “Apaches! Moicanos! Cabeças de Ouro! Tudo isso é invenção dos jornalistas. Nós nos chamamos de compa­ nheiros.” HOOLICANS E APACHES

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O dinheiro conta, mas não apenas o dinheiro. A atração tem um papel impor­ tante na formação dos casais. O apache é sentimental, um dândi que entende do assunto, tem uma noção de dignidade e um gosto pela distinção. Ele não se con­ forma com nada. Ele quer ver o seu nome nos jornais. Um anarquista por instinto, ele considera o roubo a justa restituição e pratica a “recuperação individual” com os burgueses, ou “tolos”, que caem nas suas mãos. Passar uns tempos na prisão de Fresnes, a grande penitenciária parisiense inaugurada em 1898, é praticamente um rito de iniciação. Como o escândalo dos Hooligans, a chegada do apache foi usada pelos de­ fensores da lei e da ordem para se oporem ao que chamaram de “crise na puni­ ção”. Personificando uma assustadora ascensão da delinqüência juvenil, só se podia lidar com estes voyotts com o chicote ou outras formas de castigo corporal. Eles foram até invocados quando se quis impedir a abolição da pena de morte na França. Durante a década depois do caso Casque d’Or, os Apaches tornaramse menos associados com um tipo particular, mas o termo se generalizou - como o Hooligan do outro lado do canal - para denotar qualquer tipo de rufião ou pequeno criminoso. Embora destinada a chamar a atenção para um problema social e, portanto, tornar possíveis as soluções, a publicidade em torno do crime juvenil na GrãBretanha, na América e na Europa na última década do século XIX teve um efei­ to ambíguo. Do ponto de vista dos repórteres, a delinqüência era um novo fe­ nômeno perturbador que trazia a selvageria, se não a guerra de verdade, bem para o coração da comunidade. Dependendo do lado da cerca em que você se encontrasse, a solução era a melhoria das condições das áreas pobres da cidade, um rápido despacho para o exército ou, melhor ainda, para os mais sombrios confins coloniais.

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CAPÍTULO

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“Uma súbita visão do Paraíso”

L. Frank Baum e a Terra dos Sonhos de Oz Um pensamento durante o dia pode muito bem fazer o papel do entrepreneur de um sonho; mas o entrepreneur, que, como dizem as pessoas, tem a ideia e a iniciativa de realizá-lo, nada pode fazer sem capital; ele precisa de um capitalista capaz de arcar com a despesa, e o capitalista que provê os gastos físicos para o sonho é invariável e inegavelmente, sejam quais forem os pensamentos do dia anterior, um desejo do inconsciente. - Sigm und Freud, A interpretação dos sonhos (1900)

A N N A LAUGHLIN C O M O DOROTHY N O MUSICAL FANTÁSTICO 0 M ÁG ICO DE OZ, 1902

N O VERÃO DE 1893, Helen Keller visitou a Worlds Columbian Exposition, a enorme feira montada nos arredores de Chicago para comemorar o quarto cente­ nário da descoberta da América. Ela se lembrou “com autêntico prazer daqueles dias quando milhares de fantasias infantis tornaram-se belas realidades. Todos os dias na minha imaginação eu fazia uma viagem ao redor do mundo, e via muitas maravilhas das partes mais distantes da terra —maravilhas da invenção, tesouros da indústria e da habilidade e todas as atividades da vida humana”. Na América da Era de Ouro, a juventude estava inextricavelmente entrelaçada com a fantasia, a ilusão e os devaneios comercializados. Helen Keller personificava esta conexão num grau mais intenso: sem audição, voz e visão, ela estava trancada dentro dos seus sentidos e forçada a confiar, consideravelmente, na sua imagina­ ção. Na década de 1890, graças à sua corajosa superação dessas adversidades, ela havia se tornado uma das jovens mais conhecidas da América: foi recebida em audiência pelo presidente e ajudou o amigo, dr. Alexander Graham Bell, inventor do telefone. Esta visita à exposição foi um ponto alto em sua vida. Assimilando as ‘glórias da feira através das pontas dos seus dedos”, Helen Keller ficou extasiada: “Era uma espécie de caleidoscópio tangível, esta cidade branca do oeste. Tudo me fas­ cinava, especialmente os bronzes franceses. Eram tão reais que pensei que fossem visões de anjos que o artista captara e aprisionara em formas terrenas.” Seu en­ tusiasmo foi ecoado por outros jovens visitantes, que ficaram fascinados com as exibições e as concessões para venda de suvenires, pipocas, hambúrgueres e refri­ gerantes. Para eles “foi como ter uma súbita visão do paraíso”. Com 50 mil expositores de cinqüenta países, o tamanho e a abrangência da Exposição de Chicago não tinham precedentes. Entre o início de maio e o fim de outubro de 1893, o local foi visitado por um quarto da população total dos Estados Unidos na época. Como nenhum outro evento fizera antes, ele oferecia um retrato instantâneo e completo de um continente no seu momento de autodefinição. Este foi, acima de tudo, o lançamento internacional da América, da sua indústria, da sua cultura e da sua percepção como um estilo de vida para a rival Europa. Foi, segundo o viajante e diarista Henry Adams, “a primeira expres­ são do pensamento americano como uma unidade”. Com sua reluzente arquitetura branca estilo Belas Artes e imponente escala, o local com 2,56km2 no Jackson Park era uma ilusão encenada que tinha o po­ der de transformar a realidade pela simples força de vontade. Para alguns europeus, parecia uma alucinação: um visitante alemão observou que tinha medo de fechar os olhos porque tudo “desapareceria como num sonho”. A maioria dos ameri­ canos tinha esta mesma sensação de assombro. Como lembrou Henry Adams: “Aqui havia uma quebra de continuidade - uma ruptura na seqüência histórica! Era real, ou apenas aparente?”

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Depois da Expo 1893, a América seria definida não apenas pela incrível fertilidade de sua destreza comercial e tecnológica, mas também por sua capacida­ de de criar sonhos tangíveis a partir do nada. Um senso jovial de inocência fazia parte deste truque de empresário de espetáculos; na verdade, era exatamente aquele elemento que lhe dava o ingrediente de sinceridade vital. Estava também afinado com a própria autodefiniçao da América como um país jovem. Dentro de um continente que seria definido pelo seu apetite pelo prazer, a intensidade da juventude foi elevada a um princípio nacional. *** Entre os 27 milhões de visitantes da exposição, estava um caixeiro viajante de 37 anos. Em 1893, L. Frank Baum já havia passado por várias carreiras como dramaturgo, dono de loja e editor de jornal. Dois anos antes ele se mudara com a mulher e quatro filhos, da agreste Dakota do Sul para Chicago. Quando inau­ guraram a Cidade Branca, Baum visitou o lugar várias vezes. Com sua enorme admiração pelo fantástico e o infantil, ficou fascinado com a cidade murada onde “todos pareciam felizes, contentes e prósperos”. Ao mesmo tempo, um jovem ilustrador chamado W. W. Denslow estava ocupado capturando as maravilhas da exposição: “É literalmente assombrosa a imensidade da coisa”, ele escreveu no seu diário. Segundo Michael Hearn, “Denslow passou quase todos os dias da exposição na Cidade Branca, desenhando cenas e personagens para o Chicago Herald”. Denslow também ficou fascinado com a natureza artificial, eclética e transitória dos prédios aparentemente monu­ mentais do local. “A primeira coisa em que pensei, sabendo que o seu uso seria apenas de seis meses, foi na magnífica ruína que eles se tornariam quando tudo estivesse terminado.” Ambos arquivaram essas impressões para utilização futura. Com o seu inte­ resse pelo credo holístico teosófico, Baum tinha bastante consciência “do anseio inato de nossas naturezas de desvendar o misterioso; buscar alguma explicação, embora fictícia, para o inexplicável na natureza e na nossa existência diária”. No fim da década, ele descobriu uma nova vocação como autor: depois da publicação de Mother Goose in Prose, em 1897, resolveu escrever um novo tipo de conto para crianças que tentaria também captar a América num momento crucial de sua história. Em novembro de 1899, a equipe por trás do livro infantil de maior sucesso do ano, Father Goose, apresentou o seu novo projeto ao editor George M. Hill. The Emerald City seria ilustrada por Denslow e escrita por Baum. Publicado em agosto como The Wonderful Wizard ofOz , o livro continha 24 pranchas coloridas e mais de uma centena de ilustrações dentro de uma capa atraente verde e verme­ “UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO”

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lha. A primeira tiragem foi vendida em duas semanas e se tornou o best-seller infantil para o Natal de 1900. Oz estava destinado a romper com a tradição. Baum escreveu na sua introdu­ ção: “A educação moderna inclui moral; portanto, a criança moderna busca ape­ nas o entretenimento nos seus contos de fadas e dispensa muito satisfeita qualquer incidente desagradável. Com esta ideia em mente, a história do Mágico de Oz foi escrita apenas para o prazer das crianças de hoje. Ela pretende ser um conto de fadas moderno, no qual a alegria e o espanto são mantidos, e os pesadelos e tristezas ficam de fora.” Este era um conto americano, cheio de “aventuras exci­ tantes”, “dificuldades inesperadas” e “fugas maravilhosas”. No seu objetivo de superar “o conto de fadas antiquado”, Baum iniciou e en­ cerrou sua história dentro de uma América reconhecível do fim do século XIX: “os grandes campos cinzentos” do Kansas nas garras da depressão agrocultural. No início do livro, Dorothy é uma órfã que mora com a tia e o tio; seu cachorro Totó é a única luz em sua vida. Apanhada por um ciclone, ela “de repente é ar­ rancada do seu próprio país e colocada no meio de uma terra estranha”. Oz é fan­ tástica, saturada de cores, cheia de gente pequenina, animais antropomórficos e bruxas todo-poderosas: a trama gira em torno de atos de magia e transformação. Essa terra imaginária, entretanto, estava enraizada na atualidade americana. Assim como os campos cinzas do Kansas foram tirados da dura vida de Baum em Dakota do Sul, a Cidade de Esmeralda, que deu ao livro o seu primeiro título, foi inspirada pela então atual Cidade Branca da Expo 1893. Denslow tinha ficado muito impressionado com sua arquitetura fantástica, e as edições originais de Oz continham uma ilustração de abertura de capítulo trazendo minaretes e cúpulas revestidos de esmeraldas, com a única entrada na forma de um rosto de olhos de esmeralda, assim como uma vista a distância da silhueta da cidade com torres e cúpulas. Esta conexão era reforçada pela descrição que Baum fazia da cidade com seus guardas, lojas movimentadas vendendo “doces verdes e pipocas verdes” e o conforto tecnologicamente projetado. Aqui a ilusão virava percepção: como o Mágico finalmente reconheceu: “Só para me divertir, e manter o povo ocupado, mandei que construíssem esta cidade e o meu palácio; eles fizeram tudo isso de boa vontade e bem. Em seguida eu pensei, como o país era tão verde e belo, eu o chamaria de Cidade de Esmeralda e, para o nome ser mais adequado, coloquei óculos verdes em todas as pessoas, para que tudo que vissem fosse verde.” Fascinando de imediato as crianças, O mdgico de Oz também agradou aos adultos como uma obra de profundidade psicológica. Publicada meses depois de A interpretação dos sonhos, de Sigmund Freud, a narrativa de Baum era sustentada por poderosas evocações de voos e quedas: um estado de sonho arquetípico no qual, segundo Freud, “os sentimentos agradáveis associados a estas experiências 68

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transformavam-se em ansiedade”. Apesar da declarada intenção de Baum de deixar de fora os pesadelos rançosos dos contos folclóricos europeus, Oz estava cheio de trapaças, mutilações e um medo difuso. Freud acreditava que os sonhos eram o produto do conflito entre as forças inconscientes - impulsos primitivos de natureza sexual ou destrutiva —e os con­ troles conscientes exigidos pela civilização. “Visto que nosso pensamento durante o dia produz rejeições psíquicas de vários tipos —julgamentos, inferências, rejei­ ções, expectativas, intenções e outras coisas mais —, por que durante a noite ele deveria ser obrigado a se restringir à produção de desejos apenas? Não existem, pelo contrário, inúmeros sonhos que nos mostram atos psíquicos de outros tipos —preocupações, por exemplo —transformados em sonho?” Os sonhos eram, portanto, não apenas fantasias aleatórias, mas pistas psíqui­ cas para o que estava reprimido pela civilização moderna. “O que antes dominava a vida em vigília, enquanto a mente ainda era jovem e incompetente, parece agora ter sido banido para a noite - assim como as armas primitivas, os arcos e as flechas, que foram abandonadas pelos homens adultos, aparecem mais uma vez no quarto das crianças.” A palavra-chave, entretanto, era “parece”. A simples inci­ dência das várias patologias discutidas por Freud revelava que este atavismo esta­ va longe de ser extirpado: na verdade, ela ameaçava explodir a qualquer momento. “O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica”, Freud escreveu em 1900. A sua conclusão teria muitas aplicações diferentes. Tanto o O mágico de Oz como A interpretação dos sonhos foram publicados no momento em que a vida comercial americana buscava ativamente dar forma física, na verdade transformando-os em mercadoria, a impulsos e visões inconscientes. Isto serviria à nova ordem so­ cial e econômica de emulação materialista que o sociólogo de Chicago, Thorstein Veblen, no seu polêmico The Theory ofthe Leisure Class, de 1899, chamou de “consumo conspícuo”. * * *

Durante o fim do século XIX, o apetite público pela palavra impressa aumentou rapidamente, fosse por livros, revistas, jornais ou anúncios. As imagens pictóri­ cas ou verbais tornaram-se parte integrante da nova paisagem urbana e peça vital para a nova psicologia de massa. Como Gustave Le Bon alertara: “A multidão pensa em imagens, e a própria imagem imediatamente evoca uma série de outras imagens, sem nenhuma conexão lógica com a primeira. Podemos facilmente con­ ceber este estado pensando na fantástica sucessão de ideias a que somos às vezes conduzidos pela evocação em nossas mentes de um fato qualquer.” A imagem tinha sido aquilo mesmo que os ensinamentos puritanos haviam denunciado e a sua produção em massa marcou o declínio da religião fundadora “UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO"

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da América e a sua substituição por um novo panteão secular. Os anos de 1890 assistiram a uma profunda mudança de valores, resumida por T. J. Jackson Lears e Richard Wightman Fox como “a troca da salvação protestante no outro mundo pela autopercepção terapêutica neste aqui”. Dentro desta nova moralidade, os velhos ideais de abnegação e transcendência forám substituídos por “novos ideais de autorrealização e gratificação imediata”. As antigas certezas não bastavam mais. No impulso para o materialismo, as experiências e desejos dos migrantes internos do país, fugindo da sombria depres­ são de uma economia rural em colapso, e seus imigrantes de segunda geração, libertados do mundo estático europeu de seus pais, foram de importância vital. A Cidade Branca de 1893 afirmava que o gênio americano estava no senso tea­ tral, no espetáculo, na acumulação e na instantânea satisfação do prazer: um novo tipo de visão imaginativa elevada a um princípio nacional que uniria numa coisa só todas essas pessoas diferentes. Satisfazendo tanto o credo econômico quanto uma necessidade desesperada, os sonhos acabaram definindo a América. As visões viraram dinheiro, ganhando forma tangível em parques temáticos, cinetoscópios, tabloides, livros de sucesso, partituras e a cornucópia de bens de consumo encontrados em lojas de departa­ mentos ou catálogos distribuídos pelo correio. Todos estes novos produtos ofere­ ciam um passo imediato para fora das exigências da realidade cotidiana, um consolo para as liberdades perdidas e uma celebração do estilo de vida metropo­ litano. A salvação seria encontrada pelo consumo: você se tornava o que com­ prava. Você comprava os seus sonhos. Graças ao grande empresário de espetáculos teatrais/embusteiro P. T. Barnum, tornar um produto irresistível já estava estabelecido como um talento particular­ mente americano. Na virada do século, entretanto, os anunciantes começaram a trabalhar com novas tecnologias nos filmes e na imprensa, e com a nova psicolo­ gia, para irem mais adiante - dar forma a desejos conscientes e inconscientes. Sub­ jacente a este etos havia uma atitude na identidade que refletia a experiência de muitos americanos, separados do passado: essa identidade não era simples e fixa, mas fluida e socialmente construída - um vir a ser pessoal, assim como nacional. De uma moralidade vitoriana que valorizava a prudência e a cautela em épocas de escassez originou-se um etos terapêutico, luxuriante, que exaltava a nova fartura de objetos. Os americanos já consumiam enormes quantidades de remédios patenteados, que se proclamavam como tônicos para todos os males debaixo do sol: “Todos os distúrbios nervosos, queixas biliosas, perda de apetite e debilidade em geral.” O óleo de cobra e a sabedoria dos índios americanos fo­ ram apenas a versão rústica de anúncios mais populares, que desde a década de 1890 promoviam seus produtos em termos de “força e energia” para um país obcecado com saúde e vitalidade. 70

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Baseada na riqueza futura, e não na escassez, este novo vitalismo prometia nova energia em fluida identidade, com o desenvolvimento pessoal e a autorrealização como seu objetivo máximo, e a intensidade do momento como a sua tô­ nica. Isto combinava com a criaçáo de uma percepção americana autenticamente nova em ambientes urbanos futuristas, comprimidos, como o Loop, o distrito comercial de Chicago.1 Enquanto o tempo para os europeus era visto como uma seqüência de acontecimentos, com o presente seguindo-se ao passado, para mais e mais americanos o tempo representava uma total instantaneidade, um infinitamente prolongável AGORA! Dentro destes vórtices fabricados pelo homem, os jovens, com seus córtices cerebrais superiores e maior força física, acabariam prevalecendo. Na verdade, uma grande parte do que o filósofo francês Henri Bergson chamou este élan vital foi a atração da juventude. Se bom condicionamento físico e saúde eram desejáveis para a sociedade americana, então a juventude, que naturalmente personifica estas qualidades, passou a ser o ideal sedutor para todas as idades. Na década de 1900, os anunciantes usavam universitários da classe média alta para promover roupas da moda e artigos esportivos, no etos de aspiração que Veblen havia tão bem definido como “emulação pecuniária”. As mulheres tiveram um papel importante neste novo etos guiado por pressões internas. Com a demarcação do lar como a “esfera feminina”, a maioria das de­ cisões sobre o consumo ficava nas mãos da “soberana dona” da casa. A expansão dos empregos em escritórios oferecia liberdades para as mulheres até então in­ concebíveis na Europa. Os anunciantes usavam mulheres jovens e atraentes para vender cosméticos, roupas e fogões a gás. Numa campanha da Aveia Quaker na virada do século, o desenho de uma jovem mulher robusta vinha acompanhado do slogan “Afasta a velhice nutrindo todo o organismo”. *** Uma parte importante da economia do sonho vitalista americano foi a florescen­ te indústria musical. Depois do sucesso sem precedentes do campeão de vendas “After the Bali” de Charles K. Harris, em 1892, o mundo de compositores e edi­ tores de músicas populares começou a se expandir rapidamente: em 1900, foram 1Ver a evocação, de 1891, do Loop pelo autor americano Charles King: “Colisões, choques, mergulhos furiosos por chapéus que vão sumindo sob o tropel de passos; desastres nas ruas, rodas travadas, chicotes estalando, cavalos arremetendo, policiais retóricos, motoristas blasfemando, gíria, linguagem grosseira, alvoroços, tumulto, gritos de furar os ouvidos... Clang lang, lang. ‘Quem você está empurrando?’ Clang lang, lang. Bang, bang, bang. Berros. Gritos. O clamor furioso de alarmes. Corridas, tumulto. Ei! Ei ali! Cuidado! CUIDADO! Bang, bang. Clang. SAI DA FRENTE! Corre-corre.” Isto parece uma partitura futurista de vinte anos depois. “UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO” | 71

vendidos dois bilhões de cópias de partituras. A canção popular passou a fazer parte da nova identidade nacional americana. Dentro deste estilo vulgar, a real competência musical não tinha importância diante da intensa expressão emocional e a excitação rítmica. Como os próprios anúncios, as canções populares ameri­ canas encaixavam-se na autodefinição do país como uma “democracia pugnaz, assertiva”. A própria canção popular, desde o início, foi alvo de agressiva publicidade. Charles K. Harris pagou pessoalmente para ter “After the Bali” inserida no show de sucessos A Trip to Chinatown. Num folheto chamado Como escrever uma can­ çãopopular, ele aconselhava seus leitores a “procurarem nos jornais o seu enredo”, para “se familiarizarem com o estilo em voga” e “conhecerem as leis de direitos autorais”. Com uma equipe de imigrantes recentes e crianças da classe média bai­ xa, a indústria de músicas populares rapidamente afinou-se com sua platéia bási­ ca, sem medo de emoções rudes, sentimentalismos e cenários de partir o coração. Entretanto, para muitos jovens americanos, peças lacrimosas como “After the Bali” não davam conta do recado. Eles queriam algo que acentuasse melhor suas crepitantes sinapses e começaram a encontrá-lo na nova música que ouviam por toda a parte, mesmo que ela ainda fosse ignorada pela indústria da música. Em Maggie, a heroína de Stephen Crane e seu amante gângster entram num salão no centro da cidade, onde uma “orquestra tocava melodias negras e um baterista batia, chicoteava, retinia e raspava numa dúzia de máquinas para fazer barulho”. O som flutuante da música “fez a moça sonhar”. A música popular oferecia um meio para os negros poderem começar a en­ trar na sociedade americana. Apesar dos esforços de políticos como Booker T. Washington, que foi convidado para ir à Casa Branca por Theodore Roosevelt, em 1901, para a maioria dos negros a vida era sombria. As estatísticas de lincha­ mentos - mas de uma centena por ano na década de 1890 - eram apenas a ponta do iceberg. “A maioria não tinha futuro nem esperança de ter”, escreve o biógrafo de Louis Armstrong, James Lincoln Collier. “Não podiam esperar nada além de trabalho, pobreza, doenças e morte. Uma filosofia de carpe diem [era] a única posição razoável em tais circunstâncias.” Um núcleo de resistência concentrava-se no prazer, nas sensações intensifica­ das do momento, nos bairros com luz vermelha encontrados nas cidades por toda a América: Chicago, St. Louis, Kansas, New Orleans. Durante o último quartel do século XIX, a expansão destes distritos proporcionou emprego regular para a gran­ de reserva de músicos itinerantes. Tocar nos salões e clubes passou a ser um ritual de passagem viável para muitos homens e mulheres jovens negros.2 O gosto do 2 Ver as memórias de Louis Armstrong e Jelly Rol! Morton. 72

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público americano mais amplo pela música negra já havia sido aguçado pela popularidade dos menestreis e, no fim da década de 1890, estava pronto para algo menos artificial. Em 1898, o ragtime explodiu como uma loucura nacional. Um tipo de mú­ sica que unia os ritmos desiguais dos honky tonks com o pulsar em dois tempos da clássica marcha de John Philip Sousa, ele acabou incluindo uma dança como estilo de vida (a novidade chamada de cakewalk), moda e até linguagem. Como uma canção observava, “Got ragtime habits and Italk that way / 1 sleep in ragtime and I rag ali day / Got ragtime troubles with my ragtime wife / Fm certainly living a ragtime life”. Comparando o velho com o novo numa sincopação ambidestra, ela captava o fervilhante tumulto de um continente em transição. O ragtime fora ouvido na Expo 1893: não na cidade murada, mas nos in­ ferninhos ao redor. A primeira publicação rag por um bandleader (um regente de banda de música popular) branco, em janeiro de 1897, foi seguida por mais rags de músicos negros. Destes, “Maple Leaf Rag”, de Scott Joplin, em 1899, foi o melhor e mais conhecido. Com seus ritmos contrastantes e melodias hipnóticas, o ragtime rapidamente cruzou as fronteiras de classe e raça. Um instantâneo de 1903 mostra Joplin tocando ao vivo numa festa de brancos, onde a multidão jo­ vem simplesmente adorou e, quando a festa acabou... queriam saber o seu nome para poder dar um baile e convidá-lo para tocar”. Entretanto, havia uma desconfortável barganha na exposição dessa forma mar­ ginalizada ao sistema. Jovens fãs brancos reagiam à selvageria enfatizada pelo novo jargão, “hot” (quente), que denotava sexo, roupas glamurosas e, acima de tudo, a simples intensidade do momento. Ao mesmo tempo, um sistema cultural indignado, estarrecido com a ameaça de miscigenação, chamava o ragtime de “ve­ neno virulento, que, na forma de uma epidemia de malária, está entrando nos lares e cérebros dos jovens a ponto de levantar suspeitas quanto à sanidade deles”. O problema era que os americanos não podiam fazer outra coisa a não ser levar a sério as promessas da Constituição. Se esse era um país que cultuava a igualdade - na verdade, se a música popular era realmente do povo -, então deve­ ria estar disponível para todos a despeito de credo, nacionalidade ou raça. A sim­ ples persuasividade da propaganda popular exaltada pelas artes populares ameri­ canas significava que elas se tornariam irrevogavelmente carregadas, e não pouco, com o impulso libertador. Isto se estenderia não apenas aos negros, mas a todos os outros grupos de estranhos, junto dos quais os jovens começariam a se iden­ tificar. *** UMA SÚBITA VISÂO DO PARAÍSO” | 73

Embora alimentando este surto de cultura popular, o talento americano para a organização de espetáculos acobertava urgentes problemas sociais. A Expo 1893 foi um exemplo perfeito, uma cidade branca tremeluzente, obscurecida pela sua gêmea, a monolítica cidade negra a poucos quilômetros da beira do lago. Na época da feira, Chicago havia dobrado de tamanho em uma década. Apesar de ser o cadinho de inovações como o arranha-céu, o elevador e a linha de montagem, ela possuía todas as cicatrizes da expansão irrestrita. Com seu ar poluído e odo­ res pútridos de currais, ela havia superado Manhattan na sua imundície e na sua ultramodernidade. A maioria dos recém-chegados era de imigrantes: 78% da população da ci­ dade eram os filhos de pais nascidos fora dos Estados Unidos —na Italia, Irlanda, Alemanha, no Leste Europeu. As condições de vida para a maioria destes novos cidadãos eram duras. As pressões de adaptação de um passado europeu para a cidade do futuro pesavam especialmente sobre as crianças imigrantes. Presos entre dois continentes, os americanos da segunda geração ansiavam instintiva­ mente por romper com aquilo que a assistente social e escritora Jane Addams chamou de “costumes do Velho Mundo”, mas não tinham o apoio dos pais para se tornarem cidadãos atuantes. A alienação que existia entre a criança que não conhecera nada além da América e os pais que ainda estavam sempre lembrando do país que tinham dei­ xado - muitas vezes a ponto de mal falarem o inglês - só podia aumentar durante a puberdade. Assim, elas seguiram o seu próprio caminho. Era este repúdio de todas as amarras conhecidas que preocupava Jane Addams; a partir dos meados da década de 1890, ela começou a registrar os seus procedimentos com os jovens atormentados de Chicago. “O industrialismo reuniu multidões de jovens criaturas ansiosas de todos os cantos da Terra”, ela escreveu, mas não havia como atender às suas necessidades mais profundas. Pertencente à primeira geração de mulheres americanas a se formar numa faculdade, Jane Addams recusou a medicina, o magistério e o trabalho missionário, que na época eram as opções de carreira femininas disponíveis. Em Londres, ela visitou o Toynbee Hall e assimilou o seu fervor missionário. Ao voltar para os Estados Unidos, Addams montou a Hull House dentro de um bairro onde os imi­ grantes predominavam para dar um suporte prático e estético às mulheres do distrito. Embora o enfoque inicial do estabelecimento fosse cultural, as condições em Chicago logo colocaram Jane Addams em confronto direto com os graves problemas sociais da cidade. Ela descobriu que o eterno problema da disciplina na adolescência exacerbavase com o fato de que os jovens começavam a trabalhar aos 14 anos, ou menos. “Em vastas regiões da cidade que são totalmente dominadas pela fábrica”, ela 74

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observou, “é como se o desenvolvimento da indústria tivesse deixado para trás todos os acordos sociais e educacionais”. A esterilidade e a sujeira do ambiente de trabalho coagulava a “alegria espontânea” do jovem em solidão, ou o niilismo expresso por Jimmy, de Stephen Crane: “Depois de um tempo, era tamanho o seu desdém que ele voltava o seu olhar feroz para tudo. Ele ficava tão alerta que não acreditava em nada.” Entretanto, os salários davam aos jovens trabalhadores a liberdade para “gasta­ rem como quisessem em meio ao vício intencionalmente disfarçado de prazer”. A juventude era um período “difícil” em toda parte, Jane Addams escreveu no livro que reuniu seus escritos sobre o assunto, The Spirit ofYouth and the City StreetSy “mas é como se às vezes uma grande cidade quase que deliberadamente aumentasse os seus riscos”. Dentro do sensorium metropolitano de um continente que estava começando a se definir pela aptidão para o prazer e sua produção in­ dustrial, o eterno desejo dos jovens por excitações era intensificado, se não ativa­ mente estimulado em excesso. Com seus bares cheios de crueldade e seus imensos salões de dança que re­ cendiam a solidão, os bairros pobres de Chicago ofereciam luzes fortes em vez de uma comunidade real, exploração em vez de valores. “Os sentidos recém-despertos são atraídos por tudo que é espalhafatoso e sensual”, Jane Addams escreveu, “pela música irreverente tocada nas ruas, os cartazes de teatro muito coloridos, as histórias de amor ordinárias, os chapéus emplumados, o heroísmo barato dos revólveres exibidos nas vitrines das lojas de penhor. Esta suscetibilidade funda­ mental é assim evocada sem o correspondente alvoroço de uma imaginação supe­ rior, e o resultado é tão perigoso quanto possível.” Em alguns casos, a “imaginação ardente” dos jovens da cidade levava-os a um território ainda mais perigoso. Jane Addams observou que “este mesmo amor pela excitação, o desejo de escapulir da monotonia da vida, também induz os garotos a experimentarem bebidas e drogas, num grau surpreendente”. A co­ caína em particular estimulava o “desejo de sonhar e ter visões”. Um usuário lhe disse que “nos seus sonhos ele via salas pavimentadas com moedas de ouro e prata, as paredes revestidas de notas de dólar, e que ele levou embora aos baldes tudo que pôde carregar”. As drogas eram uma parte integrante da vida americana: os tônicos ideais para os cidadãos de um país que exigia qualidades sobre-humanas na sua corrida para o crescimento econômico. A Guerra Civil introduzira o uso da morfina em todo o país, enquanto que os chineses haviam trazido o ópio para os bairros mais pobres. A cocaína, na época, era considerada um narcótico ainda mais pobre, uma reserva para uso próprio das prostitutas, gângsteres e crianças dos bairros miseráveis. Oferecendo efeitos ao mesmo tempo estimulantes e analgésicos, exci­ “UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO” | 75

tando-os e tornando-os insensíveis à dor, era um droga bem adequada para as suas duras condições de vida.3 Entretanto, a droga na época não era associada à ideologia de uma geração crítica: pelo contrário, fazia parte de uma cultura urbana pobre, de profunda dissolução, que aderia aos valores tipicamente americanos como através de um vidro escuro. As visões materialistas descritas pelo informante de Jane Addams correspondiam aos paraísos artificiais evocados pela canção folclórica contem­ porânea “Willie the Weeper”. Esta era um Kubla Khan expresso em termos do Novo Mundo: “Got a rubi bush> a diamond-mine, / An emerald-tree, a sapphirevine, / Hundreds ofrailroads that run for miles, / A thousand dollars worth of coke stacked up in piles ” Embora deixando o público em geral muito alarmado, este gosto ilegal ecoava a obsessão da América por remédios patenteados. No início da década de 1890, o refrigerante Coca-Cola, que tinha como ingrediente básico a cocaína, era anun­ ciado como uma bebida estimulante. Ao mesmo tempo, remédios populares vendidos legalmente sem receita como Rynos Hay Fever e Catarrh Remedy eram quase 100% cocaína pura. Seus consumidores, sem saber disso, ficavam viciados: “Está acabando com nossos meninos”, um pai escreveu para as autori­ dades do US Bureau of Chemistry. “Tenho um filho que vem usando e desde o ano passado tento fazer com que ele largue, mas não adianta, já que ele conse­ gue arranjar.” O uso de drogas fortes combinava com o ambiente excessivamente estimu­ lado da metrópole americana, assim como reforçava os anseios do novo conti­ nente por sonhos de qualquer tipo. Ao mesmo tempo, o uso exagerado encurtava as vidas dos jovens gângsteres, já reduzida pela pobreza e o perigo inerente ao seu estilo de vida. A cocaína era mais perturbadora do que a morfina porque seus efeitos eram eufóricos. Exigindo um reabastecimento quase instantâneo, ela trans­ formava os jovens criminosos nos consumidores mais ávidos, ao mesmo tempo que os deixava travados num eterno presente. Esta concentração exaustiva no momento cruzava classes e mercados. Era a marca registrada da sensibilidade boêmia que fora inspirada pelo exemplo tenaz de Edgard Allan Poe e recebera um empurrão estético com a controvertida turnê de um ano de Oscar Wilde pela América, em 1882. O sucesso sem precedentes de Trilby, de George du Maurier, em 1894, com a conseqüente comercialização 3 Herbert Asbury observa que uma gangue chamada Hudson Dusters tornou-se a preferida da imprensa na virada do século. Sua fama estava diretamente relacionada com o consumo de drogas: “Embora não fossem lutadores como os Eastmans, os Five Pointers e os Gophers, eram uma rara coleção de rufiões, e grande parte da sua fama era merecida. Talvez 90% dos Dusters fossem viciados em cocaína, e quando sob a influência da drogas eles eram muito perigosos, porque ficavam insensíveis aos castigos comuns e ficavam possuídos de grande, embora artificial, bravura e ferocidade.” 76

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de lingüiças, sorvetes, charutos e o famoso chapéu, transformou a boêmia num estilo. Ele atraía em especial as mulheres jovens, que, segundo Luc Sante, “extraí­ ram dele a coragem de se dizerem artistas e moças solteiras, fumar cigarros e beber Chianti”. A boêmia era a vitrine para um novo tipo de aristocracia baseada no talento e na fama, e não no nascimento. Esta era a premissa central de Trilby e do bestseller de Theodore Dreiser, Sister Carrie. Nesses romances moralistas, entretanto, havia um preço a pagar por esta elevação: o corte dos vínculos com o ambiente que nutria o talento, somado às cicatrizes deixadas por anos de pobreza e luta. Du Maurier fez questão de que Trilby, prematuramente envelhecida pela hipnose que fizera dela uma estrela, tivesse uma morte tão terrível quanto a do jovem Werther. Ela tinha vivido muito intensamente, tinha se consumido. Ao mesmo tempo, estes estilos de vida extremados eram diluídos e promo­ vidos para o consumo de massa na América. “Enquanto os boêmios da avantgarde dramatizavam o apelo da vida ao extremo”, Jackson Lears observa, “os capitães de uma nascente ‘indústria do ócio’ representavam o anseio de intensas experiências de todos os níveis sociais. Eles transformavam a excitação em merca­ doria nos cabarés e parques de diversões; atendiam ao ansioso homem de negó­ cios assim como à entediada mocinha da loja; eles assimilavam imigrantes e WASPs numa nova platéia de massa. Montanhas-russas, dançarinos exóticos e moças rebolando, tudo prometia fugas temporárias.” Havia uma contracorrente neste etos derivado do prazer que não podia ser ignorada. A intensidade poderia ter sido jovial e romântica, mas não durou muito. O nexus de valores entre uma indústria do entretenimento em expansão, a avant-garde e os despojados estava cheio de armadilhas em potencial. A nova mídia encorajava o pensamento a curto prazo, a concentração no instantâneo e as soluções fantásticas atribuídas na época às crianças e jovens na puberdade, ao mesmo tempo que excitavam impulsos humanos fundamentais. Eles prometiam uma forma atraente, mas instável de controle da massa. A nova metrópole absorvia milhares e milhares de pessoas de toda a América rural e da velha Europa. Elas chegavam fugindo de grandes campos cinzentos ou, pior, vinham em busca de uma vida onde podiam estar livres da luta pela simples sobrevivência. Para serem cidadãs plenas nestes ambientes murados, en­ tretanto, elas não apenas tinham de vencer a ameaça da morte por violência ou narcose, mas também ser coniventes com a percepção dos governos locais. Ten­ do navegado por todas estas tentações e perigos, elas descobriam que viviam num mundo mágico que nada mais era do que o truque de feiticeiro. Elas só precisavam tirar os óculos de esmeralda, mas, como Baum compreen­ deu muito bem, o trapaceiro só tem sucesso quando acerta nos sonhos e desejos “UMA SÚBITA VISÃO DO PARAÍSO"

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do seu alvo. É quando o falso se torna real. Não por acaso o seu livro recebeu o título de O mágico de Oz. Embora o seu personagem central fosse uma fraude, ele também era a personificação desta nova terra, resumindo o mecanismo de troca americano: “Neste país, todos devem pagar por tudo que têm.” Na verdade, com a sua lógica popular - “Sou apenas um homem comum” - o Mágico definia aquele novo personagem capitalista: o magnata da mídia. O século XX exigia novos mitos, e Oz não foi só um dos primeiros, mas seria um dos mais duradouros. Junto com A interpretação dos sonhos, ele ocupou um momento crucial na concepção ocidental de juventude. Se a nova economia do desejo tinha começado a escavar a mina do mundo infantil, então Freud co­ meçava a escancarar a área até então oculta da sexualidade infantil, o impulso em geral associado com a puberdade e o tabu mítico no coração do sistema fa­ miliar. Se estes anseios fundamentais, explosivos, fossem detonados, então haveria uma quimera até então inesperada. Assim como a aparente inocência de Oz - definindo a sensação infantil de encantamento que continua fazendo parte da psique americana - foi se atenuando em complexas correntes subterrâneas, o nascer de uma sociedade baseada em mercadorias de sonho tinha começado a revelar forças sombrias que jaziam ocultas. Os anunciantes poderiam muito bem ter buscado, conforme T. J. Jackson observa, “liberar a vida instintiva negando o seu lado sombrio”, mas era impossível ignorar “a crescente furia e os insaciáveis anseios no subconsciente humano”. Apetites, uma vez estimulados, são difíceis de saciar: uma vez erguida a tampa da caixa de Pandora, não há mais volta.

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CAPÍTULO

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O século americano

G. Stanley Hall e Adolescence *** A adolescência é um novo nascimento. - G. Stanley Hall, prefácio de Adolescence (1904)

G. STANLEY HALL, A N O S 1890

preparava o manuscrito chamado The Emerald City, o estado de Illinois aprovava uma lei com profundas implicações para a juventude americana. Decretada em julho de 1899, “para regulamentar o tratamento e o controle de crianças dependentes, negligenciadas e delinqüentes”, a Lei do Juizado de Menores definia como delinqüente “qualquer criança com menos de 16 anos” que violasse “qualquer lei deste estado ou cidade ou postura municipal” ao mes­ mo tempo que autorizava a instituição de um tribunal juvenil separado. Era um passo crucial na construção da adolescência como um estágio de vida distinto. Era conveniente que se criasse um juizado de menores na Chicago da virada do século, não só devido ao ambiente futurista da cidade, mas por causa do vi­ goroso movimento de reforma. A instituição do tribunal veio depois de anos de lobby por parte de organismos como Hull House e o Chicago Womens Club. Em contraste com a abordagem puramente punitiva - que havia falhado em er­ radicar o problema —o tribunal via a delinqüência como resultado de más condi­ ções sociais, uma visão progressista que se opunha às explicações deterministas apresentadas pelos sociólogos criminologistas da época. Os males de Chicago também tiveram a sua parte. Visitando a cidade du­ rante o ano da Expo, o jornalista britânico e defensor ardente das próprias idéias, W. T. Stead, achou o desenvolvimento forçado dos seus jovens um verdadeiro escândalo público. “Respeitam-se muito pouco as crianças em Chicago”, ele ob­ servou em 1893. “Mensageiros com não mais do que 14 anos entram e das celas policiais a todas as horas da noite ganhando intimidade com bêbados e classes degradadas, o que não se pode dizer que seja uma tendência à edificação.” Ele ficou admirado que “crianças pequenas fossem apresentadas tão cedo às abominações de uma cidade grande”, e que ninguém parecesse se importar com isso. Esta forte nódoa de corrupção ajudava a concentrar a atenção sobre como as medidas legais para a juventude eram ambíguas na América. Segundo o direito civil, os jovens eram considerados crianças até os 21 anos de idade, conceito pre­ servado pelo mais antigo reformatório juvenil americano, o New York House of Refuge. Entretanto, delinqüentes de 19 e vinte anos eram muito difíceis de con­ trolar, e outras instituições, tais como o New York Juvenile Asylum, começaram a se concentrar num grupo etário mais novo. Jovens com mais idade eram, por­ tanto, tratados como adultos, mesmo se ainda fossem “crianças” pela lei. Com a precocidade juvenil identificada como o principal problema, as defi­ nições de idade existentes tinham se tornado inadequadas para lidar com as com­ plexidades da vida na cidade. Visando a proteger os infratores mais jovens dos criminosos empedernidos, o Ato do Juizado de Menores oferecia um ponto de corte entre a infância e a idade adulta. Iniciava também uma abordagem flexível e preventiva ao tratamento da delinqüência. Jesse Pomeroy continuava sendo ENQUANTO L. FRANK BAUM

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um testemunho vivo, embora sepultado, do princípio de que a punição condig­ na não resultava em reforma, mas em obstinação ainda maior: durante o ano de 1899 ele fez as suas vigésima e 21? tentativas de fuga. O tribunal foi um grande sucesso. Durante o seu primeiro ano, o juiz presi­ dente, Richard S. Tuthill, ouviu quase 1.500 casos. Destes, a quantidade esmaga­ dora era de meninos acusados de infrações como roubo (quase 45% do total), “conduta irregular” e “incorrigibilidade”. Este último era um termo “aparente­ mente cunhado do desespero” para cobrir uma multidão de delitos urbanos do dia a dia: “ficar ocioso pelas ruas e usar linguagem vulgar”, “recusar-se a trabalhar ou ir para a escola, vagar pelas ruas tarde da noite”, “andar com más companhias, recusar-se a obedecer aos pais, e afastar-se de casa”. Representando apenas 8% dos casos, as meninas eram mais comumente acusadas de “imoralidade”, “conduta irregular”, “incorrigibilidade” e de se associa­ rem com “pessoas más”. A maioria das jovens que se apresentavam diante do tri­ bunal corria o risco de perder, ou já tinha perdido, a sua “virtude”. Jane Addams foi insistente neste tópico: “As meninas trazidas para o juizado de menores eram em geral filhas daquelas famílias de imigrantes mais pobres morando no pior tipo de cortiço da cidade.” Ela observou que “um número surpreendente de me­ ninas envolveu-se na maldade pelas mãos de homens de suas próprias casas . Setenta por cento dos jovens que passaram pelo juizado eram filhos de imi­ grantes. Como uma agência de integração de fato, o tribunal tomava medidas revolucionárias para lidar com estes novos cidadãos. Crianças “dependentes e negligenciadas” deviam ser colocadas em instituições ou num lar de adoção, ou ficariam no seu próprio lar “sujeitas a visitas do funcionário da justiça”. A última opção foi elevada a um grau surpreendente: Judge Tuthill era firme na crença de que a liberdade condicional era a melhor maneira de se lidar com um jovem transgressor. Ao avaliar o que deveria acontecer com cada delinqüente, o juiz exigia que os oficiais do juizado encarregados da vigilância levassem em conta três considera­ ções: “o bem-estar e os interesses das crianças”, “o bem-estar da comunidade e “a inteligência e os sentimentos de pais e parentes”. Este era um programa extra­ ordinariamente holístico que proporcionava visitas domiciliares freqüentes pelos funcionários de justiça ao mesmo tempo que visava a prevenir o crime antes que ele acontecesse. “É desejo do Tribunal salvar a criança da negligência e da cruel­ dade”, Tuthill escreveu; “também salvá-la do perigo de se tornar um criminoso ou dependente.” O tribunal foi manchete nacional. Embora na prática falhasse em erradicar as condições sociais que geraram a delinqüência, ele introduziu uma abordagem progressista que elevava a influência da educação, e não da natureza, sobre o 0 SÉCULO AMERICANO

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comportamento humano. Nisto ele entrou em descompasso com os cientistas sociais da época, muitos deles fiéis ao determinismo de Cesare Lombroso e Herbert Spencer. O seu sucesso não apenas incentivou uma nova geração de sociólogos, mas também inspirou uma definição mais precisa do que perturbava a segunda década da vida. Nitidamente, chamar um rapaz de 16 anos de “criança” não era mais adequado. No fim dos anos 1890, as autoridades estavam buscando ativamente encur­ ralar a juventude americana. Fossem as gangues urbanas selvagens, os jovens as­ sassinos monomaníacos ou a simples incidência de delinqüência juvenil, a ques­ tão do controle tinha se tornando premente. Ao mesmo tempo, investidos como estavam de projeções adultas para o futuro, os jovens tinham começado a receber um nível de atenção positiva sem precedentes. Em vez de serem enviados para o trabalho ou deixados à vontade, eles eram incentivados a continuar na escola, a retardar a sua entrada na idade adulta. Se observassem as regras do jogo, teriam uma independência circunscrita. Entretanto, ainda não havia um conceito generalizado para descrever esta mudança. Durante o século XIX, a puberdade não era considerada uma fase dis­ tinta da vida. Embora os homens alcançassem a idade adulta ao entrar no mundo do trabalho, do exército ou do casamento, o tempo passado para alcançar esta meta variava. Os rapazes oscilavam entre ficar na casa dos pais ou morar afastados, quando ingressavam num sistema de aprendizado ou de educação mais adiantada. Este período sem nome era reconhecido como um tempo de flutuação, até de “semidependência”: se era chamado de alguma coisa, era de “juventude”. O termo definitivo para o longo hiato entre infância e idade adulta foi cunhado por um psicólogo chamado G. Stanley Hall. Durante o ano de 1898, ele lutou para completar o seu imenso compêndio sobre a segunda década da vida. Ele vinha coletando dados havia no mínimo cinco anos e, numa conferência naquele verão, ele deu a sua primeira definição de idade para o que chamou de “adolescência”. A sua grande realização foi perceber que, na sociedade americana e ocidental, o estado intermediário que Rousseau havia ao mesmo tempo exaltado e feito advertências a respeito, não era só determinado biologicamente, mas so­ cialmente construído. “Adolescência é mais do que puberdade”, Hall declarou, “estendendo-se por um período de dez anos desde os 12 ou 14 até os 21 ou 25 anos nas meninas e nos meninos, respectivamente, mas culmina nos 15 ou 16.” Notando a importân­ cia dos costumes que “nações selvagens” empregavam para marcar este período, ele lamentou a falta destes rituais na América. A transição correta era ainda mais importante porque a adolescência era “um período de impulsos sexuais”; era também “a época do maior número de prisões por crime nos Estados Unidos, na Inglaterra, França e Alemanha”. 82

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Hall propunha nada menos do que a criação de uma nova, geralmente re­ conhecida, fase da vida que aumentaria a dependência e retardaria a entrada no mundo de trabalho: “Conforme avança a civilização, a educação se amplia. Os anos escolares se alongam inevitavelmente à medida que a comunidade fortalece seus ideais.” Qualquer tentativa de restringir o tempo que se passa na escola ou na fa­ culdade era “uma tentativa para retornar às condições selvagens, enquanto os ideais são mais altamente civilizados. A avaliação de qualquer sistema educacional deve se basear no seu sucesso em fazer os jovens atravessarem a adolescência com [o] desenvolvimento o mais perfeito possível”. Diante disso, o Hall barbudo e de meia-idade era um profeta improvável da juventude. Ele havia sido indicado recentemente para uma nova universidade americana, a Clark, em Worcester, Massachusetts - a culminação de uma longa carreira acadêmica. O seu ar já bastante remoto não havia melhorado com a as­ fixia acidental da mulher e da filha no início dos anos 1890. Dominado pela culpa e pela depressão, Hall passou por uma grande crise aos cinqüenta anos. Sofrendo com “os sintomas psíquicos precoces da velhice”, ele buscava ansioso um novo entusiasmo acadêmico. Durante o último quartel do século XIX, a tendência dominante na vida in­ telectual americana tinha sido a teoria evolucionária. Na década de 1890, o darwinismo dividira-se numa variedade de disciplinas, desde a criminologia deter­ minista de Cesar Lombroso até a sociologia do laissez-faire de Herbert Spencer, que acreditava que, dentro da sobrevivência do mais apto sugerida por Darwin, a competição levaria ao progresso. Qualquer tentativa de interferir nesse processo, como reforma, estava condenada ao fracasso. O corolário era que se deveria dei­ xar as crianças dos bairros pobres da cidade em paz para se afogarem ou nadarem. Hall tinha sido um dos alunos preferidos de William James, o fundador da psicologia americana. Entretanto, Hall rompeu com o establishment psicológico no início da década de 1890. Embora austero na aparência, ele insistia na pri­ mazia dos sentimentos que pensava terem sido negligenciados por James e seus acólitos. “O estudo da evolução da alma está apenas começando”, ele escreveu em 1894, “mas já está se tornando a chave mestra para todos que estiverem ten­ tando solucionar os problemas da vontade, das emoções e dos sentimentos huma­ nos. O intelecto era o começo e o fim da velha filosofia. O coração é o começo da nova.” Buscando uma outra maneira de integrar a biologia evolucionária à psicolo­ gia, Hall fixou-se no livro de Henry Drummond, de 1894, Ascent of Man. Neste darwinismo mais delicado, a evolução era “a revelação final da unidade do mun­ do”: em vez do mundo brutal da seleção natural, oferecia-se o conceito do “amor altruísta”, no qual a mãe humana era o produto supremo da evolução. Drum­ mond também lançou a ideia de que os seres humanos desenvolveram-se de 0 SÉCULO AMERICANO

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acordo com a lei da recapitulação, que dizia que “cada indivíduo em seu de­ senvolvimento recapitula a forma através da qual a raça evoluiu”. Isto estava de acordo com as próprias tendências visionárias de Hall. Adaptando a fusão de bio­ logia evolucionária e o desenvolvimento pessoal de Drummond, ele decidiu que a alma individual era um microcosmo de todo o mundo vivo, uma “câmara de ressonância” dentro da qual a evolução de gerações passadas ressoava. A psique individual estava portanto associada ao desenvolvimento da raça. Uma conseqüên­ cia natural disto era que a correta evolução de cada indivíduo tinha profundas implicações para o seu país, na verdade para a sua raça como um todo. O desen­ volvimento incorreto resultaria na morte de uma civilização. Para implementar esta nova descoberta, ele retornou à área de pesquisa, o movimento Child Study, que já havia ajudado a inaugurar nos meados dos anos 1880. Hall tinha estudado na Alemanha com o fundador da psicologia experi­ mental, Wilhelm Wundt, e procurado aplicar as técnicas da pesquisa de campo ao estudo detalhado das características emocionais e mentais básicas do comporta­ mento infantil. Sob esta motivação estava a crença de que, como o próprio Hall diz no seu estilo à la Rousseau, “Toda criança é um pequeno selvagem”: se ela ia evoluir corretamente, esta pesquisa profunda era vital. Ao contrário do método tradicional de ensino por repetição e organização, os progressistas do movimento Child Study buscavam descobrir o que as próprias crianças pensavam e sentiam. Usando observação e questionários, eles procuraram mapear uma ampla gama de emoções e processos mentais das crianças: seu cresci­ mento físico, sua saúde, sua associação com colegas, seu medo e sua raiva, sua arte e a natureza dos seus jogos. Coincidindo com o crescimento da consciência pú­ blica sobre a educação como um todo, o movimento Child Study rapidamente influenciou a política social voltada para suas crianças. O maior sucesso de Hall com o movimento tinha ocorrido durante a Expo 1893. Convidado a organizar um dos muitos congressos públicos que marcaram o aspecto educacional do evento,1 ele rasgou o seu resumo e iniciou uma nova conferência sobre o tópico de “Psicologia experimental e educação”, durante a qual os três dias inteiros foram dedicados ao Child Study. Entretanto, Hall não descansou sobre os louros. Sempre insatisfeito, ele anunciou em 1894 que estava considerando todo um novo campo de pesquisa, concernente ao estágio seguinte acima da infância na escala evolucionária, que ele definia como adolescência. Na elisão contemporânea entre infância e puberdade, dados sobre adolescên­ cia já faziam parte do material do Child Study, mas não tinham sido explicados ou identificados como algo distinto. Entretanto, o período de dependência outrora associado com a criança estava aumentando. Uma quantidade cada vez maior 1 Foi em outra que Frederick Turner deu a sua palestra “O significado da fronteira na história americana 84

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de americanos púberes continuava na escola, na medida em que o número de colégios de ensino secundário subira mais de 750% entre 1880 e 1900. Com um maior percentual de jovens americanos sob o controle e a observação de profes­ sores, foi possível ampliar para cima o encaminhamento para o Child Study. A pesquisa da puberdade harmonizava-se com o próprio entusiasmo de Hall. Ele tinha ficado fascinado com o diário de Marie Bashkirtseff —que chamou de um ‘precioso documento psicológico” - e com os crimes sem motivos de Jesse Po­ meroy. Estimulado ainda mais por suas observações de gangues urbanas, ele co­ meçou a colecionar material relacionado com o que chamou de “teens” (a idade “entre os 12 e 19 anos). Levaria dez anos para as suas constatações serem publica­ das, mas nesse meio-tempo ele viajou por toda a América, assistindo a conferências e dando palestras, sempre discutindo e aprimorando a sua compreensão dessa fase mal mapeada. O apoio de Hall à causa dos adolescentes também se encaixava com a sua própria psicologia e a particular fase de desenvolvimento da América como uma nova nação. Enquanto pesquisava para o seu livro, ele tirou férias e explorou as fazendas onde tinha vivido quando garoto. Publicado em 1899 com o título “Note on Early Memories”, seu relato do período entre os primeiros anos da sua infância e o início da puberdade aos 14 anos estava repleto de impressões e notas anedóticas detalhadas sobre a mecânica da memória. Para um psicólogo, entre­ tanto, ele foi extraordinariamente opaco quanto aos seus próprios sentimentos durante este período. Foi nas entrelinhas que a realidade emocional da adolescência de Hall pôde ser detectada. A visita a um túmulo detonou “uma deprimente sensação de soli­ dão” e “um estranho tipo de medo”. Nascido num meio puritano, com um violen­ to pai calvinista, Hall cresceu com um forte sentido da sua própria inadequação pessoal e intensa culpa sexual. Como Bashkirtseff, ele havia se obrigado a sair de uma situação insustentável. Ele se lembrava de escalar um pico distante quando ficava furioso: jurava “em voz alta que superaria muitos obstáculos reais e seria algo no mundo”. Mergulhando no tema da adolescência, Hall podia revisitar e tornar bom um período infeliz e não realizado da sua própria vida. Certamente, sua apaixona­ da identificação com o adolescente ia além do dever de realizar um desejo. “Quem fez a história?”, ele perguntava. “Não os grandes intelectuais do mundo, mas os grandes corações - Wesley, Loyola, Buda, Cristo, os grandes corações do mundo, os seus profetas. Rapazes e moças —especialmente os rapazes, conforme aprendi com a minha experiência como professor durante todos estes anos - precisam primeiro sentir emoção. Eles precisam sentir o formigamento, queimar. Como o elemento chave da nova psicologia era “a intensidade, a variedade e o alcance do que nós sentimos”, não surpreende que Hall tenha ido buscar 0 SÉCULO AMERICANO

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inspiração no diário de Bashkirtseff. Como ele sabia a partir das suas próprias tentativas, homens que revisitavam a sua adolescência escreviam “com menos abandono” do que as mulheres. Eles “tendiam mais a caracterizar suas metamor­ foses públicas mais tarde na vida, quando elas estavam um pouco pálidas, e tal­ vez por isso sentissem menos necessidade do confessionário”.2 Mulheres, por outro lado, superavam os homens “no seu poder de reproduzir e descrever gran­ des, mas com muita frequência evanescentes, ebulições desta idade”. O que Hall sugeria era o extremo oposto da rígida masculinidade represen­ tada pelos jovens homens de negócios americanos e as gangues jovens. Ele era, entretanto, uma mistura contraditória, ao mesmo tempo visionário e reacionário, e a sua solução para o excesso de energia dos rapazes era simples: “Muito se pode dizer a favor de banhos frios e natação nesta idade.” Suas prescrições para a edu­ cação das meninas baseavam-se na elevação da mãe ao mais alto estágio de evo­ lução. Ele criticava severamente o que chamava de “evangelho das feministas”: a vigorosa agitação na época por direitos iguais da Nova Mulher. Entretanto, seu tema o levava inexoravelmente para o futuro. Hall acreditava que a adolescência estava associada inextricavelmente à ascensão de um continente jovem. Conforme ele afirmou em 1898: “Nós americanos somos uma raça mista. Isto toma o período da adolescência na América único. Onde a natureza se man­ tém pura, este período de efervescência é concluído rapidamente e com poucos problemas, como entre os judeus e os alemães. O período de adolescência prolon­ ga-se na América devido à mistura de sangues e, se sobrevivermos às provações e perigos deste período, seremos os maiores homens e mulheres que o mundo já conheceu.” Nascido antes do holocausto da Guerra Civil, Hall havia assistido à vida americana se acelerar e aglutinar numa potência como o mundo nunca rinh a visto. O seu país era sinônimo de juventude: “Na era atual de rápida transição e expansão da nossa raça, o futuro e o ideal devem ser mais dominantes do que nunca ou encolheremos como nação. Esta é uma boa era para ser jovem.” Hall começou a reformar as expressões dos românticos num novo mito para um novo século. “Juventude é profecia”, ele previa. “O melhor ainda não aconteceu, e o homem é a larva do que ele será.” O novo conceito de juventude ficou cristalizado em 1904, com a publicação de Adolescence. Hall havia anunciado o projeto como “terminado” em 1898, mas a mentira foi revelada pela descrição que ele fez da sua metodologia. “Minha intenção tem sido a de coletar todo o material e toda literatura disponíveis”, ele escreveu, “e depois incluir numa simples descrição uma montagem fotográfica Na verdade, como Freud estava descobrindo em Viena ao mesmo tempo, a nova psicologia estava mais bem servida com a disposição das mulheres de expressarem suas emoções, se não até de sentirem prazer n ^ c 86

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do procedimento.” De fato, com o volume sempre crescente de dados somado à inata prolixidade do autor, quando o livro foi lançado havia assumido propor­ ções monolíticas. Um verdadeiro armazém vitoriano de informações, Adolescence compreendia meio milhão de palavras espalhadas por uma edição em dois volumes com quase 1.500 páginas. Todo o seu tom refletia a multifrenia que o autor atribuía ao seu tema: “É a era de sentimento e religião, de rápida flutuação de humor, e o mundo parece estranho e novo.” O tempo todo, Hall, o remoto, o firme educador, competia com o romântico visionário que ainda era capaz, como um dos seus colegas atestou, de encontrar um prazer infantil na versão local de Coney Island. Hoje, grande parte do material parece trancado no tempo, mas o livro ainda crepita com uma energia mal contida que ilumina as paginas de dados mal resumidos como um relâmpago difuso: é um clássico de literatura vitalista. Ape­ sar de todas as suas peculiaridades, Hall foi o primeiro a mostrar uma definição sistemática de adolescência, e ele definiu esta idade com clareza: o período entre os 14 e 24 anos.3 Adolescence foi também um dos primeiros livros americanos a citar Freud com aprovação e, na verdade, ele oferecia uma defesa coerente da psicologia como a única disciplina adequada para a compreensão desta época de “embriaguez mental e moral”. Hall pensava que “as atividades psíquicas da infancia, da juventude e da média dos homens comuns” eram merecedoras da mais alta atenção científica. A sua explícita conexão da juventude, como um estado, a America, como nação, tornava urgente esta linha de indagação: Efebite e o termo que os cientistas usam, mas poderíamos chamar no nosso pais de americanite, pois somos uma nação na adolescência.” Ele reconhecia a concentração juvenil do momento que iria definir a percepção do continente e sua indústria de sonhos: Ansiamos pelo máximo da vida. Nós a queremos em toda a sua profundidade e amplitude, agora e sempre.” Sua intenção era “coletar estados mentais e, para Hall, a adolescencia era, acima de tudo, uma condição volátil: “Os teens são emocionalmente instáveis e fáticos. É a idade da embriaguez espiritual. É um impulso natural para experimen­ tar estados psíquicos ardentes e fervorosos, e caracteriza-se pela emotividade.” Aler­ tado pela descoberta da primeira literatura jovem de exploração sexual, ele notou logo que o “sexo afirma o seu domínio em todas as áreas e faz o seu estrago na forma de vícios secretos, deboche, doenças e hereditariedade debilitada . A puberdade marcava o início desta condição: O alvorecer da adolescencia é marcado por uma especial conscientização do sexo. Citando Studien über Hys3 Citado por Hall com base numa definição de puberdade, em 1898, do psicólogo alemão Wille, contida no seu Die Psychosen des Pubersalters.

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terie, de Freud e Breuer, de 1895, Hall resumiu: “Psicoses e neuroses abundam nos primeiros anos da adolescência mais do que em qualquer outro período da vida. Isto provoca grande tensão emocional, que alguns descreveram como um tipo de insanidade reprimida.” Concentrando-se nos extremos de comportamen­ to, ele parecia sugerir não ser possível definir nenhuma norma de comporta­ mento em se tratando de adolescentes. Agravando esta neurastenia adolescente inata havia o fato de que “a vida da cidade moderna, num grau difícil de perceber, é artificial e pouco natural para a juventude”. Hall adotou Jacob Riis como seu guia: “No East Side de Nova York, cada esquina tem uma gangue com um programa de desafio da lei e da ordem, onde o jovem valentão, que é um covarde sozinho, se toma perigoso quando com a matilha. Ele ambiciona ser ‘apanhado’ ou preso, e posar de herói.” Os registros dos tribunais americanos mostravam que a adolescência era a época em que mais ocorriam as prisões. Hall concluiu que a estufa urbana tendia “a ama­ durecer tudo antes do témpo”. Reagindo contra Lombroso, Hall propôs que as exigências cada vez mais complexas da vida americana pioravam ainda mais os aspectos inerentemente negativos do caráter adolescente. Como a era de massa exigia restrições sociais ainda maiores, a vida ficava mais difícil para seus jovens impetuosos e egoístas. Já que eles iam na contramão, tornavam-se mais visíveis: “O aumento do crime juvenil, tão deplorado, não se deve totalmente à vida na cidade ou à crescente depravação dos jovens, mas também às crescentes exigências éticas da sociedade.” Ao mesmo tempo, Hall reiterava que “estes anos são a melhor década da vida. Nenhuma época é tao sensível a todos os melhores e mais sábios empenhos dos adultos . Suas próprias prescrições misturavam o conservadorismo com o bom senso progressista. Ele era favorável a solidariedade, apreço e respeito ao tratar com esta idade , ao mesmo tempo em que endossava o sistema de escola secundária em expansão. Pensava que a idade de deixar a escola devia ser prolon­ gada por mais dois anos, até os 16, e que os alunos das universidades deveriam ficar isentos das exigências da vida adulta: “O estudante deve ter liberdade para ser preguiçoso.” Mais importante, ele defendia a prolongação socialmente sancionada da adolescencia. Notando a tendencia para um aprendizado e especialização mais longos e severos , ele defendia um período probatório sempre ampliado”. Primi­ tivas ou desenvolvidas, todas as sociedades tinham seus ritos de passagem, seus “regimes objetivos” para marcar a pausa entre a infância e a idade adulta, mas, na América do século XX, o aumento deste intervalo seria “mais um índice do grau de civilização . Adolescencia, na verdade, deveria oferecer um porto seguro para as insistentes demandas da sociedade industrial. 88

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Hall recomendava que as instituições americanas deveriam notar o fato de que ‘para o completo aprendizado da vida os jovens precisavam de repouso, lazer, arte, lendas, romance, idealização e, em resumo, humanismo”. Estas proposições, cheirando à educação ideal de Rousseau, lentamente infiltraram-se na política social da América. Pois Adolescence foi um sucesso surpreendente quando final­ mente foi publicado: um dos alunos de Hall, quando esteve na Brentanos em Nova York, ouviu dizer que ele ‘estava tendo uma venda extraordinária para um livro tão caro”. Com um forte impacto acadêmico e vendas intermediárias, Adolescence acele­ rou a demanda para ampliação das oportunidades educacionais e abriu os olhos da América para este estado onipresente, porém, mal definido. Ao mesmo tempo, Hall apresentou à América uma visão de si mesma como um país jovem que seria um farol para o próximo século: “O próprio fato de pensarmos que somos jovens tornará a fé em nosso futuro curativa, e um dia atrairemos os jovens do mundo por nossas incomparáveis liberdades e oportunidades.”

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CAPÍTULO

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Peter Pan e os Boy Scouts

Juventude imperial britânica *** O que Van Cheele viu nesta tarde em particular foi, entretanto, algo muito distante do que ele estava acostumado a ver. Numa saliência de rocha lisa, projetando-se sobre uma piscina profunda no oco de um bosque de carvalhos, um garoto de uns 16 anos jazia estatelado, secando seus membros morenos voluptuosamente ao sol. Os cabelos molhados, divididos por um mergulho recente, estavam colados na cabeça e os olhos castanho-claros, tão claros que havia quase um brilho de tigre neles, voltavam-se para Van Cheele com certa atenção preguiçosa. Era uma imagem inesperada, e Van Cheele se viu na nova experiência de pensar antes de falar. De onde vinha este menino de aparência rebelde? - Saki, "Gabriel-Ernest" (1909)

PETER PAN SOBRE A PEDRA, UMA ILUSTRAÇÃO DE F. D. BEDFORD, 1911

N O ÚLTIMO A N O da Segunda Guerra Mundial, um editor de meia-idade começou a compilar a história da sua família. Peter Llewelyn Davies referia-se ao manuscrito como o Morgue, um título adequado para uma narrativa marcada por morte prematura e obsessão psíquica. Seu infortúnio não foi apenas compartilhar o nome de batismo com o herói eternamente jovem de Peter Pan> mas também o de ser o terceiro de cinco irmãos que haviam inspirado “essa terrível obra de arte”. Peter sentia que a sua alma fora roubada e que o Morgue era uma desespe­ rada, mas condenada, tentativa de exorcismo.1 Os fragmentos que restaram, entretanto, são uma janela para uma adolescên­ cia dourada de classe média alta. Para muitos bretões, a era eduardiana representa a última era de ouro, antes de duas guerras mundiais cataclísmicas e do fim do império: uma era de aparente estabilidade e inocência prelapsariana. O que Peter Llewelyn conta sobre as férias de verão que passou em New Forest caçando bor­ boletas com o irmão George, em 1908, parece confirmar isto. Lembrava-se de “muitos dias felizes com ele vagando nos bosques e parques armados de rede e garrafa, e sanduíches para o almoço”. Mas as nuvens já se aglomeravam sobre o menino de 11 anos, Peter, e o ir­ mão de 15. Na primavera do ano anterior, o pai, Arthur Llewelyn Davies, tinha morrido com um tumor canceroso na mandíbula. Com a mãe, Sylvia, como chefe de família, eles eram sustentados pelo autor de meia-idade, J. M. Barrie. Para as crianças, a vida seguia despreocupada. Peter lembrava que em 1908 eles viviam “num mundo de meninos, excluindo todos os outros, e pouco nos incomodamos com o desaparecimento de Arthur de nossas vidas ou com a tristeza que a Sylvia empobrecida sem dúvida fez de tudo para ocultar de nós”. Um encontro casual na New Forest revelou que, mesmo neste aparente pa­ raíso, havia forças incontroláveis e fortes pressentimentos de morte. Uma tarde, George e Peter encontraram uma companhia de soldados numa estrada remota da floresta. Peter mais tarde lembrou que “eles pararam e saíram de forma por uns minutos, desafivelando seus equipamentos e estirando-se à beira da estrada nas atitudes relaxadas de homens cansados, e George e eu começamos a conversar com um sargento e um ou dois soldados rasos na retaguarda da pequena coluna”. Os adolescentes ficaram fascinados. Como acontecia com os rapazes, eles imitaram a marcha uniforme do soldado: “Nós seguimos atrás deles, divertindonos com o ritmo dos pés marchando, e imperceptivelmente emocionados por uma sensação de unidade com os soldados suados, praguejando e tagarelando.” O incidente ficou gravado na mente de Peter “como um trecho de filme mudo”: “Foi um estranho presságio romântico das verdadeiras marchas de seis anos depois,

1 Peter Llewelyn Davies abandonou-a em 1951. Nove anos depois, ele se jogou debaixo de um trem de metrô, inspirando a manchete “Peter Pan comete suicídio”: nem na morte ele conseguiu escapar da associação. 94

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para as quais os soldados do regimento escocês estavam mais ou menos conscien­ temente se preparando, [embora] nada poderia ter parecido mais distante do destino dos dois meninos.” Os primeiros anos do século XX estavam longe de ser o eterno verão doura­ do da lembrança folclórica, conforme os países da Europa imperial expandiam as suas influências globais ao ponto de um conflito irreversível. Na Grã-Bretanha, as certezas vitorianas eram minadas pela Guerra dos Bôeres e pelos pressenti­ mentos de uma guerra maior a caminho, ao mesmo tempo que eram desafiadas pelos movimentos sufragistas femininos, os direitos sindicais e a reação domés­ tica ao modernismo europeu. O grupo de jovens mais bem-sucedido do século, os Escoteiros, foi formado em resposta às crescentes exigências da nação e do império. Guerra e morte jaziam sob a aparência de ordem eduardiana, no mínimo como num impulso irracional, vivificante. Em nenhum outro lugar isto está mais evidente do que em PeterPan, que, encenado pela primeira vez em dezembro de 1904, havia se tornado um arquétipo do século XX.2 Como o seu contemporâ­ neo O mágico de Oz, Peter Pan era um conto para crianças, mas os adultos foram atraídos por sua profunda complexidade psicológica. Ele continua tão expressivo geração após geração que é fácil esquecer que possui uma origem em uma época, um lugar e uma biografia determinados. O relato que Peter Llewelyn fez do seu encontro com os soldados escoceses foi filtrado através das terríveis experiências que teve dez anos depois, mas a his­ tória da sua família ilustrou o fatal entrelaçamento de fantasia e realidade que marcou o período. Quando Sylvia Llewelyn morreu, no fim do verão de 1910, Peter e seus irmãos foram confiados aos cuidados do autor que havia arrasado suas vidas para a peça que o fez famoso. J. M. Barrie aludiu a este ato de transfe­ rência, se não de posse, ao escrever sobre os Darling em Peter e Wendy\ “Nunca houve uma família mais simples e feliz até o advento de Peter Pan.” Quando conheceu a família Llewelyn, em 1897, Barrie já estava bem estabe­ lecido, mas, sob a fachada de sucesso, ele vivia atormentado por dúvidas e medos mórbidos. De baixa estatura, assombrado pela perda do irmão David durante a infância, aprisionado num casamento a que se referia como um “horrendo pesa­ delo”, Barrie tinha perdido a mãe e o irmão em 1896. Nas suas longas caminhadas em Kensington Gardens, ele começou a procurar consolo nos filhos dos outros. Isto foi não só um substituto para a paternidade, mas um reflexo do seu próprio dilema autodiagnosticado: “Ele era um menino que não conseguia crescer.” 2 Depois do seu sucesso contemporâneo, PeterPan tem sido sempre fonte de inspiração para livros dej)sicologia popular (como o best-seller de dr. Dan Kiley, de 1983, Síndrome de Peter Pan), para filmes de orçamentos elevados (como The Wiz, 1978, e E. 77, 1982), e a Neverland, propriedade particular do superastro mais bizarro da música pop, Michael Jackson. PETER PAN E OS BOY SCOUTS

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Um encontro casual com George deu origem a uma amizade com toda a família. Um ano depois, ele começou a trabalhar numa história infantil sobre as semelhanças com os passarinhos que via nos bebês em geral e no irmão mais novo, Peter, em particular. Tirando a ideia de uma peça da época,3 ele concebeu um personagem chamado Peter Pan que foge do seu quarto de criança e tenta viver como um pássaro. Tendo se isolado da sociedade humana - um ‘meio a meio”, nem uma coisa nem outra - ele se torna um proscrito. Quando tenta voltar para o seu quarto, as janelas estão trancadas: “Não existe uma segunda chance, não para a maioria de nós.” A ideia foi mais bem desenvolvida no romance de 1902, O pequeno pássaro branco, onde Peter Pan aparece como uma trama secundária importante. Depois do seu sucesso, Barrie dispõe-se a expandir o personagem numa “peça de fàdas” inteira: um primeiro rascunho feito às pressas ficou pronto em abril de 1904, e os ensaios começaram seis meses depois. Quando estreou, no dia 27 de dezembro, Peter Pan foi um sucesso imediato tanto entre os adultos como junto às crianças. Daphne du Maurier mais tarde escreveu a respeito do desempenho do seu pai, George, no papel principal masculino: “Quando [o Capitão] Gancho caminhou pelo seu tombadilho superior no ano de 1904, as crianças foram retiradas da platéia aos berros.” Apenas um crítico, Max Beerbohm, notou a fusão por demais perfeita do adulto com a criança: “Mr. Barrie não cresceu. Ele ainda é absolutamente uma criança.” Na aparência, Peter Pan é uma peça infantil: como O mágico de Oz>ela exige uma suspensão do ceticismo adulto e do pensamento linear, e brinca com os temores arquetípicos de estar perdido e órfão. Mas se Oz é afável e esperançoso - cheio do otimismo de um novo continente —,Peter Pan é assombrado e assom­ broso: se, para Dorothy e as crianças Darling, nada se compara ao lar, então para Peter Pan o lar não existe. O impulso dominante da história de Barrie foi quase exatamente aquele que Oscar Wilde usou para O retrato de Dorian Gray\ o ideal da eterna juventude e a natureza faustiana do seu contrato contra naturam. Desde o momento da sua chegada, quando volta a se unir à sua sombra perdida, Peter deixa claro seu status de proscrito: “Fugi no dia em que nasci”, ele declara. “Porque ouvi meu pai e minha mãe falarem sobre o que eu ia ser quando me tornasse um homem. Eu quero ser sempre um menininho e me divertir: então fugi para Kensington Gardens e vivi muito tempo entre as fadas.” Peter está em estado de suspensão, de permanente vir-a-ser. Com a sua capacidade de voar à vontade —lembrança dos sonhos visionários dos românticos e de Marie Bachkirtseff —, ele transporta a si mesmo e a família Darling para um 3 Chamada Pan and the Young Shepherd, de Maurice Hewlett, (1898). 96

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reino fantástico, a Terra do Nunca. Um verdadeiro Sonnenkind>4 ele é dotado de ilimitada autoconfiança e usa sua flauta de Pa para atrair seus seguidores —os Meninos Perdidos —, que procuram nele, entre os perigos da Terra do Nunca, a liderança que na verdade nunca chega. Pois, apesar da sua magia, ele não tem outra moral que não a do interesse próprio. “No meio de uma briga, Peter sem­ pre mudará de lado.” Apesar da idade que aparenta - ainda tem dentes de leite —, Peter está criogenicamente congelado na infância: mas ele se comporta como quem tem idade para estar na adolescência. Peter parece oferecer intimidade, mas sempre se retrai. Desejado por vários personagens femininos - Tiger Lily, Sininho e Wendy -, Peter não pode nem ser tocado: todo o seu ser é “um assustador desdém das leis da natureza”. Ele pensa que no seu reino mágico pode evitar a idade adulta que mais teme: no seu mundo, nada pode ser pior do que se tornar “um homem”. Entretanto, existe um preço a ser pago por esta juventude eterna na maldição do desenvolvimento contido. No final da peça, Peter está distanciado dos seus Meninos Perdidos - agora adultos amadurecidos - e da família Darling reunida: “Não poderia haver visão mais encantadora, mas não havia ninguém para vê-la exceto um menino estranho olhando pela janela. Ele teve êxtases incontáveis que outras crianças jamais conhecerão: mas ele via pela janela a única alegria da qual deverá estar para sempre excluído.” Tanto PeterPan quanto O retrato de Dorian Gray profetizaram fantasticamente o século que estaria centrado na juventude. Ambos exploraram elementos auto­ biográficos para apresentar a juventude como um princípio abstrato e explorar o seu inconsciente explosivo. Mas Wilde foi colocado no ostracismo, enquanto Bar­ rie tornou-se a figura mais homenageada de Londres, e não era difícil ver por quê. Wilde escreveu o livro para adultos, ambientado num presente reconhecível, e ficava feliz, como um importante decadente, que as pessoas pensassem o pior dele. Sendo Barrie um autor para crianças, a explícita fantasia o isentava de críticas, enquanto a sua vida pessoal ficava intocada por qualquer sugestão de escândalo. Se a perversidade de Wilde era direta - e solucionada num conto nitidamente moral -, então a de Barrie estava obstruída, mas onipresente, fluindo pela narra­ tiva como o seu herói misterioso. Escrevendo ao mesmo tempo que as primeiras investigações sobre a sexualidade infantil, Barrie não podia deixar de reproduzir um dos princípios centrais de Freud: a insistência de que a infância não é um estado do qual se transcende com a idade e é descartado como a pele de cobra, mas que persiste até a vida adulta. Um corolário disto é que estes impulsos in­ conscientes - uma vez tendo sido reprimidos na idade adulta —são passíveis de vir à tona com violência. 4 Filho do sol.

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A imagem final de Barrie para Peter, para sempre excluído do mundo dos seus amigos jovens, expressava de maneira fantástica sua própria condição: ele se sentia proibido de ser quem queria. Havia algo que não estava muito certo na apaixonada intimidade do autor com as crianças da família Llewelyn Davies, mas, ao contrário de Wilde, foi ao mesmo tempo controlado e cauteloso para en­ cenar a sua peça de um modo que revestia essas ambigüidades em tradição tea­ tral. Não por acaso Peter Pan foi representado por uma atriz com seus trinta anos de idade: desejo sublimado em forma aceitável. Este deslize de idade e gênero foi importantíssimo. Ao fazer o seu herói ser representado por um adulto com aparência jovem, Barrie garantiu que a sua mensagem fosse relevante não apenas para as crianças, mas para os adultos, e que por implicação o desenvolvimento interrompido que Peter personificava pudesse continuar até a meia-idade. A própria adolescência está implícita tanto na sensibilidade estouvada, solipsística, quanto na então contemporânea elisão de todos os estados pré-adultos: este era o período em que os jovens entre os 14 e 19 anos ainda eram chamados de “meninos”. Embora a sexualidade explícita esteja ausente, sugestões edipianas afloram no status abjeto das figuras paternas na peça: Mr. Darling no seu canil, e o Capitão Gancho mu­ tilado, liquidado. A escolha de alguém do outro sexo para o papel central enfatizou ainda mais a permanência de Peter na fase anterior à idade adulta: ele não poderia jamais ser um homem porque já era uma mulher adulta. Isto também colocava a peça firmemente dentro das tradições da pantomima, com o travestismo da sua atriz principal (menino principal) e ator protagonista (a dama). Apesar de ser apresen­ tado como um desvio radical, com seu espetáculo tecnológico, Peter Pan era uma continuação direta do teatro de pantomima de magia e transformação, acres­ cido de um toque freudiano: os outros mundos explorados não eram externos, mas internos. O paganismo original da pantomima sobreviveu intacto em Peter Pan. O herói não ganhou o seu nome à toa. Pã era uma divindade grega famosa, o deus bode da natureza que, abandonado quando criança, simbolizava a dança e a música —com a sua flauta de Pã, era a origem do mito do Flautista de Hamelin europeu. Somado ao seu poder de profecia havia um violento erotismo e uma aparência de pesadelo. Sendo “o instigador de violento e súbito terror”, Pã talvez fosse a divindade certa para se ter ao lado num conflito imperial. Havia um pro­ blema, entretanto: Pã foi a única divindade olímpica a morrer no seu tempo, exatamente como um mortal. Esta foi uma estranha propaganda imperial. Um dos momentos mais assus­ tadores em Peter Pan, ressaltado pela famosa ilustração de F. D. Bedford, ocorre quando Peter espera para submergir na lagoa das Sereias. Ele escuta “um tambor 98

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que soa dentro de si” repetindo a frase: “Morrer será uma incrível aventura.” Em­ bora George Llewelyn Davies tenha sido quem na verdade pronunciou este famoso epigrama —em 1900, durante a Guerra dos Bôeres —, foi Barrie quem plantara a ideia na sua cabeça, graças às suas incansáveis descrições de crianças mortas e da paradisíaca Terra do Nunca para onde elas voavam. Isto é o que continua a perturbar em Peter Pan. Barrie não podia deixar de trazer a sua própria psique prejudicada para as suas relações com as crianças da família Llewelyn Davies. É como se ele as programasse, no estilo Svengali, com a sua própria fixação na morte. Depois de George, que foi morto em abril de 1915, o preferido de Barrie era o quarto filho, Michael: o relacionamento extraor­ dinariamente intenso dos dois terminou com a morte de Michael em maio de 1921, aos vinte anos, num aparente pacto suicida. Com a infância dos irmãos as­ sim sutilmente contaminada, é difícil discordar da crença de Peter Llewelyn Da­ vies de que Barrie roubou as suas almas. Mas Peter Pan não afetou apenas uma família: um sucesso estrondoso, tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido, ele foi revivido ano após ano e ra­ pidamente tornou-se elemento básico para a diversão das crianças. A peça inseria a exploração de gêneros característica da pantomima no novo mercado da juven­ tude, ajudando a fazer da androginia um dos principais símbolos de uma cultura adolescente em formação. Dentro de um contexto britânico, ela iniciava um novo paganismo e remodelava a eterna juventude dos românticos em termos de morte prematura. Ela também condensava as ambíguas visões de juventude que domi­ naram a primeira década do século XX. A juventude era vista como um arauto elétrico do futuro, uma força da na­ tureza capaz de revificar ou destruir velhas tradições. Se fosse esse o caso, então seriam necessários esforços maiores para domesticar esta imprevisível e selvagem besta. Na Grã-Bretanha, o ideal da escola pública continuava sendo o modelo juvenil perfeito porque personificava o autossacrifício inconseqüente que o impé­ rio exigia de suas crianças. “Estas são as minhas últimas palavras”, Wendy declama no navio pirata do Capitão Gancho. “Sinto que tenho uma mensagem para vocês de suas mães verdadeiras, e é esta: ‘Esperamos que nossos filhos morram como cavalheiros ingleses/” *** Um dos fãs mais fervorosos de Peter foi um homem solteiro de uns 45 anos de idade. Robert Stephen Smyth Baden-Powell ficou tão emocionado com a peça de Barrie que voltou no dia seguinte para assistir a ela de novo, recomendou-a aos seus amigos e cultivou um relacionamento com a atriz que fazia o papel de Mrs. Darling, Dorothea Beard. Isto poderia parecer estranho para um soldado de PETER PAN E OS BOY SCOUTS

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carreira e herói nacional, mas, segundo o biógrafo Piers Brendon, Baden-Powell foi, durante a sua vida inteira, um “eterno menino do coro da escola, um perene adolescente assobiador, um caso de desenvolvimento interrompido com brio. Ele era despudoradamente um ‘menino-homem’”. Nascido em 1857, Baden-Powell foi criado pela mãe depois que o pai morreu, em 1860. Educado na escola pública de Charterhouse, aderiu ao etos esportivo da época como um patinho na água: sua bravura nos jogos e atividades militares mais do que compensava seus fracos registros acadêmicos. Ele também desenvol­ veu um talento para o palco assim como um apreço pela natureza, estimulado por suas solitárias incursões por áreas rurais remotas. Recusado pela Universidade de Oxford, alistou-se na cavalaria e foi mandado para a índia, o primeiro de uma série de postos que o levariam ao Afeganistão e à África do Sul. O Império Britânico exigia constante vigilância e atividade nas quais os in­ divíduos ficavam subordinados às exigências militares de aquisição e manutenção imperial. Os livros infantis eduardianos como Our Impire Story, publicado em 1908, ofereciam relatos detalhados do heroísmo que acompanhava os britânicos ao redor do mundo desde a América do Norte até a Austrália e a índia. A in­ crível resistência de exploradores era combinada com constantes lutas coloniais contra enxames de nativos, como os bravos “cem” que resistiram às hordas de zulus em Rorkes Drift. Em 1900, a Grã-Bretanha era um país com 40 milhões de habitantes e 193.080 quilômetros quadrados tentando controlar uma população de 345 mi­ lhões de pessoas espalhadas por mais de 11,5 milhões de milhas quadradas. Com esta disparidade, um tom assediante começou a penetrar na ideologia imperial: cada rebelião era um problema sério para um exército e uma marinha que já ti­ nham chegado ao seu limite. Baden-Powell literalmente personificou esta mentali­ dade, mantendo-se firme durante o longo cerco de Mafeking na Guerra dos Bôeres. O resgate da cidade foi uma rara notícia boa numa campanha em geral desastrosa: quando ela chegou, em maio de 1900, provocou manifestações de rua selvagens e espontâneas. A Guerra dos Bôeres marcou o momento em que o humor do império mu­ dou de autoconfiante para paranoico. O medo não era apenas de que as conquistas coloniais estivessem perdidas, mas de que a própria Grã-Bretanha estivesse su­ jeita a invasões. Estas preocupações eram promovidas por revistas juvenis como Boys Friends e Boys Herald> que publicavam histórias em série de arrepiar os ca­ belos sobre invasões feitas por franceses, russos, alemães. Como dizia um editorial: “Os meus leitores acreditam que, no atual momento, existem não mais do que umas centenas de soldados neste país capazes de resistir ao ataque que uma nação estrangeira antagonista resolva fazer sobre a nossa pequena ilha?” 100 | 1904-1913

O crescente nível de alfabetização por toda a Grã-Bretanha tornava sua ju­ ventude mais suscetível à enxurrada de propagandas alarmistas nestas revistas e em best-sellers como The Riddle ofthe Sands, de Erskine Childers, e The Invasion of 1910, de William Le Queux. O tradicional inimigo tinha sido a França, mas depois da Entente Cordiale, de 1904, o foco mudou para a Alemanha. Os meni­ nos das escolas públicas e os membros da Boys’ Brigade tinham recebido durante muito tempo o treinamento pré-militar, mas agora a juventude da Grã-Bretanha como um todo estava sendo preparada para o conflito. Mas, embora a maioria das novas classes de colarinho-branco e as classes operárias fosse patriótica e rea­ lista, o corpo não estava sempre à altura do espírito nacionalista. O pânico com os hooligans de 1898 tinha deixado visível a existência de uma subclasse de jovens em grande parte independente, viciada em cigarros, álcool e casas de show. Quando estes jovens habitantes urbanos se alistaram para lutar na Guerra dos Bôeres, o primeiro grande conflito durante trinta anos, foram con­ siderados fisicamente abaixo dos padrões. Em algumas áreas pobres, dois terços de todos os voluntários foram rejeitados de imediato. Quando se tornou neces­ sário um exército britânico de 450 mil pessoas para sufocar uma rebelião de 40 mil fazendeiros holandeses, ficou evidente que a grande massa da população masculina do fim da era vitoriana estava longe do ideal musculoso cristão. O futuro do Império Britânico estava na sua juventude, e ela não estava à altura da tarefa. Segundo os “Boys Experts” que proliferaram depois da Guerra dos Bôeres, a culpa era da vida urbana, com seus “males causados pela embriaguez e o jogo, e outras formas de vício”. Com os hooligans frescos na memória, e com as histórias de horror da Guerra dos Bôeres tais como o vício de soldados no “po­ deroso narcótico” cordite, a administração da juventude britânica deveria basica­ mente se preocupar com o seu condicionamento físico para a batalha. A primeira ação foi uma série de leis que pretendiam retirar os jovens do limbo, que eles tão bem haviam explorado, para a esfera pública. . Num eco transatlântico da instituição do tribunal juvenil de Illinois, a prisão de menores de 16 anos no mesmo prédio em que os criminosos mais velhos foi proibida durante o ano de 1899, enquanto que o Education Act de 1902 pela primeira vez autorizava o Estado a sustentar a educação secundária. Entretanto, estas leis não começaram a tratar de problemas mais profundos do ambiente urbano. Reformadores filantrópicos e grupos de igreja tinham apenas um im­ pacto limitado. Quando a Boys’ Brigade e a Church Lads’ Brigade marchavam pelos distritos da classe operária, eram muitas vezes recebidos com vaias, pedra­ das e epítetos obscenos. A deferência indispensável estava desaparecendo. O jovem trabalhador Char­ les Russell observou que “o menino da classe operária é um crítico e de modo al­ gum gentil. Ele é incisivo e rígido. Ele não vê por que deve fazer alguma concessão PETER PAN E OS BOY SCOUTS

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à fraqueza daqueles que fingem controlá-lo, e não faz nenhuma”. Dentro deste rude ambiente, o “menino” poderia muito bem se tornar um “ikê\ o sucessor do scuttlen “O ike é um sujeito idiota, que, diante da constante indulgência em vícios de muitos tipos, perdeu o controle sobre suas paixões mais brutais, e as deixa livres assim que surge uma oportunidade.” Má postura e tendências violentas andavam de mãos dadas com uma distinta falta de entusiasmo imperial. Russel concluiu que “ninguém que tenha tido con­ tato com o menino médio das classes operárias em Manchester pode deixar de se surpreender com a quase total falta de esprit de corps como a que existe entre os garotos criados nas grandes escolas públicas”. Se estes eram o ideal britânico, então o rapaz da classe operária era um exemplo da degeneração que ameaçava a estabi­ lidade imperial com o enfraquecimento da raça. O seu mau estado físico signi­ ficava que ele não poderia satisfazer as “sempre crescentes responsabilidades de ampliar o Império”. Como na América, as primeiras ideias sobre adolescência focalizavam o con­ trole dos pobres do meio urbano. O “Comitê Sobre a Deterioração Física” identi­ ficou o problema apresentado pelo rapaz das “classes mais rudes” que escorregava pela rede da igreja, da escola ou da organização voluntária. Embora notando com aprovação grupos de jovens existentes como a Boys’ Brigade, a comissão re­ comendava um período mais ajustado de treinamento, com o lugar proeminente conferido aos “exercícios físicos e disciplinares”, de modo que “o adolescente do sexo masculino” possa “pegar em armas com muito pouca disciplina suplementar”. Baden-Powell viu ali sua oportunidade. Em abril de 1904, ele assistiu à ins­ peção e revista de treinamento anual da Boys’ Brigade em Glasgow. Desafiado pelo fundador da Brigade, William Smith, a “reescrever o livro de escoteiros do exército para que se adequasse aos meninos”, o ex-coronel lembrou-se do Mafeking Cadet Corps, uma organização quase militar de todos os meninos abaixo da idade militar na cidade sitiada. Entre nove e 18 anos, esses cadetes proporcio­ navam um modelo já pronto de herói: como ele escreveu em Scoutingfor Boys, eles “não ligavam a mínima para as balas. Estavam sempre prontos para cumprir or­ dens, embora isto significasse arriscar as suas vidas todas as vezes”. Cinco dias antes da estreia de Peter Pan, este Flautista da Paz revelou o seu manifesto no Chronicle do Etton College: uma escolha reveladora. Sua carta co­ meçava com a premissa do cerco: “Na Inglaterra, nós somos um pequeno país cercado de nações muito mais fortes em armamentos, que podem nos esmagar a qualquer hora. A questão é como nos prevenir contra elas?” Invocando os cavalei­ ros da Idade Média, Baden-Powell propôs um teste para “todos os meninos in­ gleses”: “perguntar a si mesmo todo o primeiro dia do mês - ‘O que fiz para o bem do país, além do que tenho feito para a minha própria diversão pessoal ou aprimoramento?5” 102 | 1904-1913

Baden-Powell decidiu formar uma série de grupos locais, incentivados com a leitura de histórias de aventuras, que em seguida aprenderiam “a atirar com ri­ fles em miniatura”, “a treinar e tomar parte em escaramuças” e a ser escoteiros. Estes “corpos” seriam explicitamente encarregados de uma litania de deveres ca­ valheirescos: “1. Temer a Deus. 2. Honrar o rei. 3. Ajudar os fracos e atormenta­ dos. 4. Reverenciar as mulheres e ser bondoso com as crianças. 5. Treinar o uso de armas para defender o seu país. 6. Sacrificar a si mesmo, os seus divertimentos, a sua propriedade, e, se necessário, as suas vidas pelo bem de seus compatriotas.” O primeiro teste sério dessas ideias aconteceu em 1907 com o acampamento de escoteiros inaugural, onde 21 meninos entre nove e 17 anos foram instruídos na ética e nos aspectos práticos do movimento: lealdade ao rei e ao império, técnicas de acampamento, culinária, marchar e rastrear. Baden-Powell estava muito satisfeito com a mistura de turmas, o seu grupo de teste tendo sido cuida­ dosamente selecionado para incluir tanto os meninos da escola pública como os da classe operária. “Os garotos mais grosseiros subiam perceptivelmente de nível em questão de comportamento, limpeza etc.”, ele escreveu, “eles observavam e imitavam os outros e melhoravam num grau notável em muito pouco tempo.” O escotismo tinha passado por muitas mudanças desde o manifesto de 1904. Baden-Powell tirava as suas ideias de muitas fontes: literatura clássica, as teorias de educadores como Johann Heinrich Pestalozzi e Frederick Jahn, assim como de rituais dos espartanos, dos antigos britânicos e do bushido japonês. Entretanto, a sua maior influência veio dos American Woodcraft Indians, um grupo criado nos primeiros anos do século por Ernest Thompson Seton. Baden-Powell conhe­ ceu Seton na sua visita à Grã-Bretanha em 1906: para mortificação deste, ele adaptou o ideal woodcraft numa forma mais regimentada. Incentivado por sua fama de herói de Mafeking, Baden-Powell atraiu o apoio do editor e patrocinador C. Arthur Pearson, cujo principal periódico era o Daily Express, lançado em 1900 como um jornal para o mercado de massa com uma programação explicitamente patriótica: “Nossa política é o Império Britâ­ nico.” Como parte desta visão de mundo, Pearson já havia instituído um Fresh Air Fund para mandar crianças pobres para o campo, e, durante o ano de 1907, ele deu à campanha de Baden-Powell um imenso estímulo com turnês de palestras e uma publicidade relâmpago. Ele também assumiu a publicação da revista do movimento. Dando destaque a histórias de aventuras e competições, The Scout foi um sucesso imediato, atingindo uma circulação semanal de mais de 100 mil exem­ plares no fim de 1908. Pearson também ajudou a cunhar o nome do movimento: “Não acho que Escoteiros Imperiais seja um bom nome”, ele escreveu em 1907. “Parece-me que deveríamos certamente usar a palavra menino’. Não penso que PETER PAN E OS BOY SCOUTS

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você irá superar Meninos Escoteiros (Boy Scouts).” Com uma campanha pela mídia, com artigos nos jornais, palestras e publicações, o mercado foi preparado para o lançamento do escotismo com a primeira aparição em série do livro de Baden-Powell, em janeiro de 1908. Este manifesto foi um instantâneo e duradouro sucesso. Baden-Powell tinha um talento para a intensidade que correspondia de perto às sensações intensificadas na adolescência. As suas descrições de técnicas de trecking tinham uma densidade quase alucinatória, enquanto a sua insistência na observação minuciosa da natu­ reza aproximava-se do total envolvimento com o aqui e agora, que é a marca re­ gistrada da religião oriental. Acima de tudo, ele a fazia parecer divertida: “Acampar é a parte divertida da vida do Escoteiro... viver ao ar livre, entre as colinas e as ár­ vores, entre pássaros e animais ferozes, o mar e os rios - isso, viver com a natureza.” Scoutingfor Boys estava organizado em torno de 26 “contos ao redor da fo­ gueira” que cobriam tópicos relevantes como “cozinhar no acampamento”, “seguir pistas” e “aperfeiçoamento pessoal”. A maioria das explicações práticas baseavase firmemente no bom senso e contém uma riqueza de detalhes —como dar nove tipos de nós diferentes, por exemplo - que continua a formar a base dos manuais de sobrevivência atuais. Dentro deste vivido formato, Baden-Powell citava inspirações para o movimento: os Cavaleiros de São Jorge, os gaúchos da América do Sul, os Zulus e os índios americanos. Baden-Powell também citou indíviduos famosos como o presidente dos Es­ tados Unidos, Theodore Roosevelt, e modelos cavalheirescos do etos escotista, como o de um rapaz escocês de 18 anos, “chamado Currie”, que tentou salvar uma me­ nina de um trem que se aproximava. O ideal era o autossacrifício e o altruísmo. Baden-Powell encontrou o seu menino perfeito na pessoa de Robert Hindmarsh, um jovem pastor que detectou um assassino andarilho através da experiência da vida nas florestas e de sua observação: “Você deve se lembrar de que seus atos podem estar sendo observados por outras pessoas e tomados como exemplo, também. Portanto, tente cumprir com os seus deveres corretamente em todas as ocasiões.” Cada escoteiro estava ligado por promessas que incluíam “lealdade ao rei, ao seu país, a seus colegas escoteiros, a seus pais, a seus empregadores e àqueles subordinados a ele”. Estas também insistiam em que “um escoteiro obedece a ordens dos seus pais, do líder da patrulha ou do mestre escoteiro sem questio­ nar”. Baden-Powell ecoou Henry Newbolt no seu discurso à “geração mais jo­ vem de bretões que estão agora crescendo para ser homens do Império”: “Não sejam desgraçados como os jovens romanos que perderam o império de seus avós por serem fracos e indolentes sem nenhuma energia ou patriotismo. Divir­ tam-se! Cada homem no seu lugar, e joguem segundo as regras!” 104 | 1904-1913

Tais exortações revelavam que o manifesto de Baden-Powell não era tão desti­ tuído de ideologia como afirmava. Scoutingfor Boys estava imerso no etos imperial do cristianismo muscular das escolas públicas. Havia ilustrações caricaturadas grosseiras que inferiam características essenciais a partir da aparência exterior. Gente e roupas “parecendo estrangeiras” eram alvos automáticos de suspeitas: isto numa época em que se dizia, num documento da Royal Commission, que os imigrantes acolhiam entre si “criminosos, anarquistas, prostitutas e pessoas de mau caráter, num número além do percentual comum da população ativa”. Baden-Powell reproduziu ainda mais as teorias da degeneração da época com suas freqüentes injunções contra o fumo, a bebida, a masturbação e os indolentes: “Não há espaço para o malandro e o resmungão.” Tendo como alvo o “rapaz” da classe operária a quem os especialistas em meninos tinham identificado como sen­ do um problema, o escotismo teve uma recepção variada. Alguns jovens das áreas pobres ficaram encantados em jogar este novo jogo excitante e se juntar a um grupo de colegas que oferecia aventura, viagens no campo e alguma liberdade das exigências de pais, professores ou patrões. Em 1910, o escotismo ainda não era o movimento que viria a ser a partir da década de 1920, mas CAPA DA PRÓXIMA TERÇA-FEIRA já era o maior grupo de jovens no de Reino Unido, com mais de 100 mil membros. Como a Boys’ Brigade The MAGNET Librar? e outros grupos de jovens, entre­ tanto, era composto principalmen­ te de jovens da classe média baixa e da classe operária alta. Deixou de atingir uma grande parte dos judeus dos bairros pobres que es­ tavam ameaçando o império por duas razões principais: o uniforme e a matrícula eram caros demais, e muitos jovens eram hostis à insis­ tência do movimento na discipli­ ELE SENTIA M U I­ na e nos exercícios militaristas. TO, MAS NÃO PÔDE O etos da escola pública foi implantado nos jovens urbanos po­ DEIXAR DE RIR. bres por um outro caminho, ines­ perado. O gosto de todas as clas­ ANÚNCIO NO PRIMEIRO NÚMERO ses por histórias em quadrinhos e DE MACNET, 1908 revistas ilustradas estava bem defiHo. 8

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nido na época em que Magnet foi lançada, em 1908, no mesmo ano de Scouting for Boys. O primeiro número apresentava um “um conto escolar completo”, es­ crito por Frank Richards, contando como um jovem rebelde é despedido por um “velho soldado bronzeado, de rosto severo”. Tendo descoberto que seu sobri­ nho estava “levando uma vida desregrada”, Colonel Wharton o manda para um colégio interno numa tentativa de curar a sua natureza “voluntariosa e teimosa”. As lutas de Hariy Wharton eram uma leitura irresistível, em parte porque a sua indubitável “garra” estava temperada por sua hostilidade de pavio curto. Dentro do primeiro número de Magnet, havia pelo menos cinco lutas sangrentas dignas do nome: muita selvageria para satisfazer o scuttler mais assíduo. Seu retrato de uma sociedade fechada, dominada pelos pares, onde os meninos se comporta­ vam mal mas acabavam sendo recebidos de volta no rebanho, fazia de Magnet e suas estórias do Greyfriars um sucesso instantâneo, não apenas junto aos meninos das escolas públicas, mas entre os habitantes dos bairros pobres da cidade. Nas suas memórias da vida em Salford, na década de 1900, The Classic Slum, Robert Roberts lembrou que ele e seus colegas eram viciados: “Os padrões de con­ duta observados por Harry Wharton e seus amigos no Greyfriars definiam normas sociais diante das quais os estudantes e alguns jovens adolescentes lutavam espasmodicamente para se adaptarem. Lutas - na teoria, pelo menos - aconteciam segundo regras do Greyfriars: não bater no adversário se ele estivesse caído, não chutar, de fato não usar nenhuma arma exceto o punho viril. Na Old School aprendemos a admirar coragem, integridade, tradição; nós zombávamos do glutão, do americano e do francês.” Comparada com a sua própria escola triste, este estabelecimento fictício “tornou-se para alguns de nós a nossa verdadeira Alma Mater, à qual nos sentía­ mos ligados por uma lealdade sonhadora”.5 Roberts reconheceu que “o etos da escola pública, distorcido em mito e vendido entre nós em publicações baratas, para o bem ou para o mal, definia ideais e padrões. Nisto, nossos próprios tu­ tores, religiosos e seculares, falharam. Numa estimativa final, pode muito bem ser que Frank Richards, durante o primeiro quartel do século XX, tenha tido mais influência sobre as mentes e perspectivas da jovem classe operária inglesa do que qualquer outra pessoa isolada, não excluindo Baden-Powell”.

^ Roberts lembrou que havia meninos tão ávidos por números atuais do Magnet e Gem que viajavam num dia de semana até a estação de trem da cidade para pegar o carregamento que vinha de Londres e comprar os primeiros exemplares nas bancas de livros. Um rapaz entre nós adotou um jeito de andar aos saltos tentando imitar o passo adédco, elástico de Bob Cherry. Timidamente, incorporamos a gíria incompreensível à nossa própria maneira de fàlar, cheia de imprecações - ‘Yaro-oh!’, ‘Minha santa tia, ‘Leggo!’ e uma dezena de outras. Os Famous Five eram para nós como jovens cavaleiros, sans peur et sans reproche". 106 | 1904-1913

CAPÍTULO

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Calouros da escola secundária e alimento para a fábrica

Adolescência americana e a indústria >jc íjí

A jovem geração praticamente se criou sozinha. A disciplina nas escolas, desde a abolição do castigo corporal, tornou-se quase nominal; a disciplina da Igreja é praticamente nula; e até a disciplina dentro de casa, embora retenha as formas, nada mais é do que uma casca vazia. A criança moderna a partir dos dez anos é quase o seu próprio “chefe”. - Randolph S. Bourne, "The Two Generations", Atlantic Monthly, m aio de 1911

C IN C O M EN IN O S AMERICANOS, A N O S 1900

europeus imperiais disputavam posição, a América come­ çava a afirmar os seus direitos como a potência financeira e industrial do novo século. Suas intenções foram declaradas no início de 1901, com a criação da United States Steel Corporation. Capitalizada em 1,4 bilhão de dólares, a nova companhia uniu num só cartel quase todos os produtores de aço americanos, num acordo montado pelo banqueiro J. P. Morgan. Fazendo encolher até a Stan­ dard Oil Company de Nova Jersey, de John D. Rockefeller, ela era a maior com­ panhia do mundo. A América tinha as suas próprias ambições imperiais na década de 1900, mas elas excluíam a intervenção direta nas disputas europeias. A influência do país seria exercida através da indústria. Temporariamente livres da corrida armamentista que começava a consumir seus concorrentes mais próximos, a América perseguia o seu próprio Destino Manifesto. Isto era capitalismo rigoroso, que se definia não apenas pela produção industrial, mas pela sua utilização, mediante o fluxo de dinheiro, em corporações ainda maiores —instituições que eram verdadei­ ras personificações do tamanho e do potencial do país. O lugar da juventude dentro deste projeto nacional era importantíssimo. Assim como os jovens do norte da Europa estavam sendo programados para lutar na guerra prestes a acontecer, a juventude da América iria representar o seu papel dentro do ideal dos negócios. Este imperativo teve um considerável im­ pacto sobre a política educacional americana, que retirava cada vez mais adoles­ centes do trabalho nas fábricas conforme uma nova classe empresarial e de serviços começava a ser moldada. Com a crescente urbanização, os velhos tempos de in­ dividualismo da fronteira, sede de viagens e autossuficiência tinham acabado. Homens de negócios exigiam segurança, força física, obediência inquestio­ nável e capacidade de trabalhar em grupo —de desenvolver, no jargão educacional da época, “uma disposição socializada”. Como na escola pública britânica, este etos era mais bem inculcado nos jovens com o esporte, e as atividades em equipe passaram a ter importância primordial nas escolas e universidades. Entretanto, a América precisava de mais potencial humano para o seu Destino Manifesto do que as classes média e alta poderiam proporcionar. Assim como o continente havia sido domado, tornava-se necessário treinar todos os jovens americanos para que abandonassem o seu comportamento “atávico”. O crescente foco na adolescência durante a década de 1900 assumiu a forma de preocupação oficial e pública com a manifestação mais visível dos jovens: as classes miseráveis selvagens que viviam tão desregradamente nas áreas pobres das cidades que ameaçavam contaminar os filhos dos burgueses. Num manual contem­ porâneo intitulado Boys As They Are Made and How to Handle Them, F. H. Briggs afirmava que o delinqüente não vinha “do lar onde a indústria, a inteligência e a frugalidade prevalecem”, mas era “o menino do outro lado da cerca dos fundos”. ENQUANTO OS PAÍSES

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Em Adolescence, G. Stanley Hall havia definido com sucesso a puberdade como uma fase distinta da vida, mas esta definição agora era usada pelas classes comer­ ciais para impor seus valores sobre a juventude americana como um todo. Desde 1905, o problema da juventude era assunto principal nos jornais e revistas voltados para o mercado de massa. A Harpers Bazaar, a Good Housekeeping e a campeã de vendas Ladies’ Home Journal publicavam artigos sobre “Como e quando ser franco com os meninos”, “Com que meninos meu filho deve brincar”, e “Manten­ do na linha um menino da cidade”. Artigos sobre “meninos” e “delinqüência ju­ venil” eram dez vezes mais numerosos do que na década anterior. O recém-desenvolvido mercado para a classe média foi levado a pensar que os jovens valentões urbanos representavam uma séria ameaça social, que a delin­ qüência era contagiante e poderia passar para os seus próprios jovens. Como o m ais famoso especialista em jovens do país, Stanley Hall foi empurrado para este debate nacional. Ele revelou que tinha recebido centenas de cartas de pais e ami­ gos preocupados: “A questão em todas estas cartas é: ‘O que fazer?’ Os pais ou parentes estão desnorteados e dispostos a qualquer solução desesperada.” Ele con­ cluiu que “nunca, nem mesmo o menino americano, foi tão rebelde como agora”. Numa entrevista em janeiro de 1906, Hall declarou num escândalo nacional que, de 27 milhões de jovens americanos entre cinco e 21 anos, apenas 12 mi­ lhões freqüentavam a escola. Mesmo num sistema de educação em tempo integral, estas crianças - os meninos particularmente - estavam sendo arruinadas por deficiência de currículo: “O trabalho com muita frequência degenera num tipo de brincadeira.” O pior de tudo era que os alunos podiam escolher “suas próprias matérias para estudar”: “Isto mais uma vez depende do princípio dos direitos in­ dividuais do cidadão e até da criança, nos quais as possibilidades de serem presi­ dentes jamais são esquecidas.” Na sua maneira de ver, a educação americana comparava-se favoravelmente com o sistema alemão, que não apenas mantinha cada criança na escola por um maior número de horas mas também tornava seus alunos mais adequados às exigências da indústria. Até a língua funcionava a favor dos alemães, com o seu “vocabulário técnico” que uma criança era capaz de entender. A comparação foi de importância vital pois “pergunta-se muito por que os alemães estão se diri­ gindo tão rapidamente para as áreas industriais, mercantis, técnicas e administra­ tivas”. Educação era a chave para esta “regeneração”, sustentada por uma cons­ ciência nacional de objetivo que envergonhava a América. A “efeminação” das escolas americanas tinha sido responsável por criar uma geração de adolescentes rebeldes. Num artigo de 1908, Hall criticava a situação CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E ALIMENTO PARA A FÁBRICA

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causada pela “feminilização rapidamente progressiva da força de ensino”: “A per­ suasão moral prevalece, o castigo está banido, e um espírito de açucarada benignidade que não produz a melhor têmpera na alma dos meninos impregna a escola.” No gráfico que acompanhava o artigo, grupos jogando futebol e andando de trenó eram contrapostos com um único jovem esteta, de cabelos longos, rou­ pas de veludo e punho de renda: o espectro da decadência. Hall não era um completo vitoriano, mas era um homem da sua era, e o seu foco nas inadequações das escolas secundárias fazia parte de uma indagação na­ cional mais ampla que, basicamente, dizia respeito ao status internacional da Amé­ rica. O “vandalismo” que Hall interpretava como um problema de disciplina tinha, para muitos educadores e homens de negócios, uma conseqüência mais profunda. A nova era de massa americana não favorecia o indivíduo ou o dissidente. Todos tinham o seu papel a representar, e esse papel não era, como na Europa, predes­ tinado pela classe, mas pela economia. As comparações entre América e Alemanha —ambos países novos-ricos — não eram feitas levianamente. Com a sua expansão sem precedentes, a Alemanha era ao mesmo tempo inspiração e motivo de preocupação. O problema dos Es­ tados Unidos era que níveis maiores de produção não correspondiam a um con­ sumo equivalente. As conseqüentes deficiências deixaram a economia vulnerável às desastrosas depressões dos meados da década de 1870 e início dos anos de 1890. A saída para este impasse não era cortar a produção, mas expandir o mercado potencial para uma variedade mais ampla de produtos. O primeiro sinal desta solução foi um impulso agressivo para as exportações: depois de a vitrine da América ser exposta ao público na Expo 1893, estava na hora de expedir e vender. Durante o ano de 1902, o banqueiro sênior Frank Vanderlip celebrou a “invasão comercial da Europa” pelos americanos: o país tinha “enviado carvão para Newcasde, algodão para Manchester, talheres para Sheffield, batatas para a Irlanda, champanhes para a França, relógios para a Suíça e vinho do Reno’ para a Alemanha”. O Destino Manifesto estava ganhando da isolacionista Doutrina Monroe. Ao contrario dos seus sósias alemães, não se esperava dos jovens americanos que se unissem em defesa contra “inimigos de todos os lados”. A tarefa deles era trabalhar nas fábricas que haviam começado a rejeitar. Para os homens de negó­ cios, a equação era simples: cada delinqüente, cada menino feminilizado estava se recusando a preencher a sua definição de masculinidade adequada. Exatamente quando a América precisava produzir como nunca antes, muitos dos seus jovens nativos recusavam-se a participar do processo de manufatura. Em vez de examina­ rem as más condições nas fábricas, os empregadores preferiam culpar as escolas. Na década de 1900, as matrículas nas escolas secundárias tinham atingido níveis sem precedentes graças às sucessivas campanhas de reforma. Isto tirou 110 | 1904-1913

muitos adolescentes do mercado de trabalho, mas os filhos dos novos imigrantes ocuparam logo o lugar deles. Entretanto, os industriais não demoraram a desco­ brir que esta nova fonte de alimento para a fábrica não era inexaurível. Muitos novos cidadãos americanos trouxeram do Velho Mundo suas políticas socialistas e, com isso, promoviam agitações para conseguir um maior reconhecimento sindical. O sistema de aprendizado estava sob o controle da American Federation of Labor, que tentava aumentar os salários dos jovens. O movimento contra o trabalho infantil já avançava: antes de 1900, 28 estados aprovaram leis regulamentando sua prática. Um de seus líderes, Florence Kelly, formou o National Child Comittee, que saiu em defesa de controles federais mais rígidos sobre o “poder de trabalho dos jovens”.1Em 1906, o escoriante estu­ do de John Spargo, The Bitter Cry ofthe Children (O Grito Amargo das Crianças), foi publicado. Jane Addams, inspirada pelo Adolescence de Hall a dar atenção ao problema dos adolescentes urbanos, escreveu uma série de observações e recomen­ dações que foram reunidas no seu livro de 1909, Youth and the City Streets. Uma de suas chocantes histórias falava de um menino de 15 anos que traba­ lhava numa usina de aço: sua função era “acionar uma alavanca quando um pe­ queno tanque estivesse cheio de metal derretido. Durante os poucos instantes em que o tanque enchia, ele tinha o costume tolo de pegar o reflexo do metal num pedaço de espelho e lançar o pontinho de luz na direção dos olhos de seus cole­ gas de trabalho. Apesar de um capataz exasperado privá-lo duas vezes do seu espe­ lho, com um terceiro fragmento ele estava um dia fazendo a luz piscar no ambiente sombrio da oficina quando o tanque esquecido transbordou, calcinando quase instantaneamente as suas duas pernas.” Addams foi tão acusada de impor valores da sua própria classe aos jovens das áreas pobres quanto qualquer outro reformador, mas, além da eficácia prática do seu trabalho e do seu despertar de consciências, o seu desejo de melhorar as condições de vida correspondiam aos desejos e necessidades das massas. O princí­ pio de melhoramento estava enraizado na psique americana. Tendo sido levados a acreditar que todos os homens são iguais, muitos imigrantes novos viam a es­ cola secundária como o primeiro passo nesse sentido, se não para eles mesmos, mas para seus filhos, que aprenderiam a ser verdadeiros cidadãos do Novo Mun­ do. Ela oferecia uma forma de sair da fábrica. Perdendo constantemente jovens trabalhadores para a matrícula na escola, os empregadores reagiram. Eles achavam que se gastava muito tempo em assuntos 1Depois de anos de lobby pelo National Child Labor Committee, foi aprovada uma lei federal, o Keating-Owen Act, em 1916, com rígidias cláusulas sobre as condições de emprego dos jovens: a idade mínima para trabalhar era 14 anos, até 16 nas minas e pedreiras, e ninguém com menos de 16 anos podia trabalhar durante a noite. A semana de trabalho não podia passar de 48 horas, com um máximo de oito horas diárias. Embora o Supremo Tribunal declarasse o ato inconstitucional em 1918, ele estruturou muitas leis estaduais individuais. CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E ALIMENTO PARA A FÁBRICA

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gerais, como latim, álgebra e história, e que a escola secundária havia instituído com sucesso uma educação de colarinho branco. Durante o ano de 1905, a sua organização lobista, a National Association of Manufactures (NAM), instituiu o seu próprio Committee of Industrial Education. Seu objetivo fundamental era combater as ameaças da Alemanha —a crescente potência industrial na Europa —e do crescente poder dos sindicatos criando um novo sistema de educação que daria prioridade às necessidades da indústria. Tendo como modelo o sistema alemão de educação técnico-industrial, a co­ missão de donos de indústrias procurava treinar “meninos americanos” para in­ gressarem nas fábricas com aptidões especializadas e de supervisão. Com outro grupo lobista chamado National Society for the Promotion of Industrial Educa­ tion, eles promoviam agressivamente um sistema segregado de instrução. Era tem­ po, como observou o decano da Escola de Educação da Universidade de Stanford em 1909, de “desistir da ideia excessivamente democrática de que todos são iguais, e que a nossa sociedade é destituída de classes”. Sob este novo sistema, as crianças seriam graduadas na fase elementar. Aquelas mais bem classificadas receberiam uma educação secundária generalista orientada para os clássicos. O resto teria uma instrução vocacional que, segundo a convenção da National Education Association, de 1908, incluiria “contabilidade, aritmética comercial, estenografia e datilografia, correspondência comercial e legislação co­ mercial. No treinamento manual, os estudantes podiam estudar desenho mecâni­ co, trabalhos em madeira, em ferro, modelagem e metalurgia avançada”. Haveria cursos de ciência doméstica para as meninas, incluindo “culinária, corte e costura, confecção de vestidos, economia doméstica”. Embora rapidamente integradas dentro dos currículos das escolas secundárias, estas reformas não tiveram aprovação unânime. O problema era que “as massas”, depois da oferta de uma escada educacional para sair da fábrica, não entendiam por que deveriam voltar para lá, especialmente se as condições de trabalho ainda eram brutais e desumanas. Muito pior era que este sistema graduado de ensino estava começando a resultar num tipo de segregação já praticada contra os negros: para cada dólar gasto na educação de uma criança negra, mais de 33 dólares iam para a educação da sua correspondente branca. Ao mesmo tempo, a segregação de gênero estava se tornando parte da prática educacional, defendida por muitos daqueles que atacavam a “feminilização”. Na década de 1900, zombava-se das meninas que se saíssem bem academicamente. Para as filhas das “massas”, o casamento era a vocação aprovada. Se não, elas se­ riam educadas para trabalhos de serviço na indústria. “Quem se formasse em eco­ nomia doméstica podia ensinar culinária, costura, bacteriologia, química ou quais­ quer dos seus vários ramos. Ela podia supervisionar os alimentos e a higiene de 112 | 1904-1913

instituições tais como hospitais, hospícios, estabelecimentos mercantis, usinas de algodão e casas de correção.” Insistindo neste sistema, os homens de negócios e os educadores americanos encontraram resistência tanto por parte de pais quanto de professores. Eles não percebiam que o sistema prussiano não era produto de uma democracia, mas de um império feudal. Como a quantidade de escolas secundárias continuava a au­ mentar no início da década de 1910, a batalha entre acadêmicos e vocacionalistas crescia. Se os primeiros estavam empenhados na “obrigação da comunidade e do Estado para um desenvolvimento superior e melhor do indivíduo”, os últimos estavam simplesmente preocupados em tornar “cada empregado individual subor­ dinado à produção da sua instituição particular”. *** Este conflito ideológico impediu a aceitação da educação secundária durante a década de 1910. Embora o número de adolescentes de 14 a 17 anos na escola dobrasse, isto era apenas um pouco mais de 30% do total no fim da década. E o índice de abandono permanecia alto nas cidades grandes. No seu levantamento de 1914, The High SchoolAge, Irving King notou que em algumas áreas urbanas pobres, um total de 88% dos alunos em idade escolar não se formavam, porque “não achavam possível, ou talvez não valesse a pena, continuar estudando”. As escolas secundárias podiam atrair mais alunos, mas não os mantinham. O currículo talvez fosse o responsável, mas a questão de classe era uma razão mais forte. Seja por necessidade ou temperamento, muitos jovens pobres não viam razão para ficar no ambiente escolar e saíam para o mundo dos empregos tempo­ rários, de bancos salários, ou para a delinqüência. No que lhes dizia respeito, até alguns centavos no bolso davam status e permitiam um certo controle sobre suas próprias vidas. Ao mesmo tempo, a escola secundária estava no caminho de ser considerada uma instituição de aspirações. A sua imagem idealizada, promovida pela ficção popular tal como o romance de H. Irving Hancock, publicado em 1910, The High School Freshmen, era de cidade pequena e classe média: ainda mais do que as his­ tórias de Frank Richards para a Magnet, ela estava perfeitamente sintonizada com os valores do mundo dos negócios. Entretanto, tendo recebido mais liberdade do que suas companheiras britânicas, as crianças pobres americanas eram menos influenciadas por estes documentos melhoradores. Ambientado numa “típica cidade pequena americana, com uns 30 mil habi­ tantes”, The High School Freshmen coloca Dick Prescott, o filho certinho de um dono de livraria, contra o corrupto e vingativo Fred Ridley. Enquanto “todos os amigos de Dick eram meninos de famílias de condições econômicas medianas”, CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E AUMENTO PARA A FÁBRICA

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o “advogado Ridley dava a Fred muito mais dinheiro do que o rapaz esnobe sabia utilizar”. Apesar de ser um calouro humilde de 14 anos, Prescott se distin­ gue na escola por sua coragem e habilidade nos esportes. O seu prêmio é ser convidado para o baile dos veteranos. Dando destaque a brigas com socos e proezas escusas saídas direto de Tom Brotvrís Schooldays ou Magnet, High School Freshmen está bem dentro da tradição europeia das histórias de estudantes, com as quais também divide uma inclinação propagandista. Como Dick roga ao seu inimigo mortificado: “Vamos, Fred, seja um cara diferente. Decida-se a vencer na escola secundária e depois na vida, li­ dando com todo mundo na praça. Seja agradável e honesto —seja um cara de clas­ se alta - e todos gostarão de você e vão querer a sua amizade.” A estima de pares não é conferida pelo dinheiro, mas pela habilidade nos esportes e capacidade de jogar em equipe. O romance de Hancock compartilhava os mesmos valores dos “livros para meninos” que haviam influenciado a opinião da América sobre crianças e adoles­ centes desde o sucesso do The Story of a BadBoy, de Thomas Bailey Aldrich, e A Boys Town, de William Dean Howells. Nestas obras do fim do século XIX, a natural travessura de meninos levados era no final domada com atividades ao ar livre e moralidade prática, de cidade pequena. Elas eram publicadas em série em revistas infantis como Youth’s Companion and Harpers Young People, junto com guias explicitamente dedicados a meninos, como o Boy Scouts of America, de Ernest Thompson. O etos por trás dos livros para meninos - resumido no romance de Seton, em 1903, Two Little Savages - seguia a teoria de recapitulação explorada em Ado­ lescence. Para o autor John T. Trowbridge, o menino era “um bárbaro. Ele herda não só as moderadas possibilidades dos pais, mas também os traços felinos ou tigrescos que permitiam aos seus progenitores, no obscuro passado, lutar pela exis­ tência. Às vezes é como se sua humanidade fosse tão fina quanto o seu casaco, e caísse nele da mesma forma frouxa. O animal selvagem está disfarçado; desnu­ de-o e você encontrará as listras.” Estes livros ofereciam soluções práticas para lidar com a selvageria dos me­ ninos de oito a 14 anos. Elas incluíam esportes, pais alertas e educação vocacional. A atividade física e os esforços práticos também eram inculcados pelo grupo de jovens lançado por Ernest Thompson Seton, o American Woodcraft Indians. Apesar de todos os seus subtons místicos, esta era uma organização que não to­ lerava dissensões: como Seton escreveu em How to Play Indian: “Não se rebele. A rebelião contra qualquer decisão do Conselho é punível com a expulsão. A obe­ diência absoluta é sempre imposta.” O ideal humano de Seton incluía o autocontrole e a responsabilidade. Com a sua limpeza, liderança e altruísmo, o chefe shaumee, Tecumseh, era “o persona­ 114

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gem mais parecido com Cristo apresentado nas páginas da história americana; ele, portanto, é o modelo de perfeita masculinidade que escolho para orientar o jovem homem da América”. O primeiro manifesto completo do movimento, The Birch Bark Roll ofthe Woodcraft Indians, foi publicado em 1906. Com a sua natureza autogestora, seu sistema de prêmios e hierarquias, regras e juramentos, e a mística da vida ao ar livre, ele oferecia um modelo definitivo para o movi­ mento escoteiro. A instituição voluntária mais bem-sucedida que buscava canalizar de forma produtiva as energias da juventude americana foi o Boy Scouts of America, fun­ dada por um editor de Chicago chamado William D. Boyce, em 1910. Embora inspirado em Seton, Boyce era melhor organizador e observou o sucesso de Baden-Powell: em poucos anos, seu grupo havia absorvido o American Woodcraft Indians assim como outros grupos de escoteiros como os Sons of Daniel Boone. Tendo como alvo “meninos” entre 11 e 17 anos, o Boy Scouts of America estava organizado segundo as mesmas coordenadas de seu correspondente inglês. Em 1911, o BSA publicou o seu manual, Handbook for Boys, que incluía o Juramento do Escoteiro Americano: “Juro pela minha honra dar o melhor de mim, cumprir meus deveres para com Deus e o meu país, obedecer à Lei do Escoteiro, ajudar os outros sempre, manter-me fisicamente forte, mentalmente desperto e moralmente correto.” A Lei do Escoteiro delineava as qualidades que exigia de seus membros: “Um escoteiro é digno de confiança, leal, prestativo, amigo, cortês, bondoso, obediente, bem-disposto, econômico, bravo, limpo e reverente.” Os escoteiros organizavam-se segundo ordens hierárquicas rígidas, desde o grupo básico, chamado Patrol, até o maior Pack Troop. A organização rapidamente se tornou uma força nacional. A revista do BSA, Boys Life, começou a ser publicada em 1912, no ano em que Juliette “Daisy” Low formou o American Girl Scouts, depois de conferir em primeira mão o Britains Girls Guides. A ênfase em ambas as organizações estava na vida ao ar livre, nos acampamentos e nos trabalhos em madeira: méritos eram conferidos pelo conhecimento das habilidades de escotismo num programa progressivo destinado a incentivar a responsabilidade pessoal, as qualidades de liderança e o serviço à comunidade. Em 1916, o Congresso deu ao BSA uma carta federal, quando já havia mais de 250 mil escoteiros por toda a América. Apesar de todos os seus problemas iniciais, entretanto, a escola secundária ainda era a melhor resposta para a delinqüência juvenil e o trabalho infantil. No entanto, romances como The High School Freshmen, que visavam explicitamente a um grupo etário mais velho —“meninos de todas as idades abaixo dos sessenta” - combinavam a verdadeira instituição com a sua contraparte ficcionalizada. As histórias de arrojos juvenis de Hancock mascaravam a propagação de valores do mundo dos negócios. “Não é só brincadeira na escola”, Hancock concluiu. “Uma CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E ALIMENTO PARA A FÁBRICA

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vasta quantidade de estudos precisa ser dominada. Existem exames exasperantes. É uma vida tremendamente ocupada, apesar dos esportes.” A escola secundária era projetada como uma máquina de assimilação desde o início. Devido à necessidade de integrar muitas raças e nacionalidades diferentes, a América desenvolveu uma estrutura social conformista altamente conservadora. A sala de aula tinha se tornado um instrumento homogeneizante importantíssimo. O educador progressista John Dewey a considerava o lugar ideal para preparar os jovens para as exigências e padrões éticos particulares da sociedade americana; uma vez que o indivíduo se tornasse “um participante ou parceiro” de atividades de grupo, suas crenças e ideias “assumiriam uma forma similar às dos outros no grupo”. Entretanto, a total integração através da educação ainda era um sonho ilusório na década de 1910. Ao se desenvolver num sistema verdadeiramente de massa, a escola secundária faria malabarismos com as abordagens vocacionais e acadêmi­ cas ao mesmo tempo que encobria a disparidade entre os ideais americanos e a realidade. Proclamando iguais oportunidades para todos e, na verdade, represen­ tando com esta retórica o seu papel na criação de um grupo de jovens pares, a escola secundária continuava sendo uma instituição dominada por valores de classe média. Não era um verdadeiro nivelador social. Os debates acirrados sobre o currículo nacional também ressaltavam o relacio­ namento irritado da juventude americana com a indústria. A exploração cruel de crianças e adolescentes estava, era o que Jane Addams pensava, “colocando em risco o fogo divino da juventude”. A tentativa de industrializar a educação não tivera êxito: em 1912, apenas 7% dos que freqüentavam a escola secundária fa­ ziam cursos industriais e comerciais. Ser um “produto” ou homem-máquina não satisfazia adequadamente ao papel social que já havia sido atribuído à juventude americana, que era o de personificar a coalescente latência da nação. Assim como a própria América, a terra da liberdade, estava no processo de “vir a ser”, sua juventude merecia o reconhecimento do seu status icônico especial, muito diferente do papel destrutivo e de sacrifício confiado aos adolescentes na Europa. Havia uma outra maneira de atrelar os jovens a um projeto nacional de América. A solução viria de um casamento muito pragmático, embora casual, da produção industrial com uma sagaz compreensão da psique americana emer­ gente - aquela fusão de teimosia com a visionária qualidade já definida e atribuída aos jovens por Hall, Baum e outros pioneiros. O jovem operário siderúrgico de Addams não servira para o trabalho mecâni­ co por causa da necessidade biológica da sua idade de brincar e sonhar. No fim do seu detalhado levantamento do sistema educacional americano, Irving King concluiu que “o adolescente é por tradição um sonhador. Ele anseia por aquilo que não consegue expressar nem para si mesmo. Sente de alguma forma que 116 | 1904-1913

está face a face com uma grande ideia que, até agora, nenhum homem jamais compreendeu: sente que está prestes a solucionar o enigma da existência, que até então deixou frustrados até mesmo os maiores intelectuais do mundo”. Apesar das melhorias estruturais feitas nas condições de vida dos jovens, era o sonho da economia que iria inspirar os adolescentes, não apenas na América mas na Europa. Não foi pouco irônico o fato de que, quando os produtos ame­ ricanos começaram a viajar pelo oceano, a implícita promessa de igualdade do seu país estivesse sendo minada pelos imperativos da indústria. Foi como se os ideais fundadores da América, no momento em que estavam a ponto de ser lan­ çados ao mar, tivessem sido canalizados para a essência dos próprios produtos em si, como uma minúscula dose homeopática de liberdade.

CALOUROS DA ESCOLA SECUNDÁRIA E ALIMENTO PARA A FÁBRICA

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CAPÍTULO

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Wandervogel e Neopagaos

Movimentos de regresso à natureza na Europa íj; :{c Em pleno verão, de noite, faremos novamente um solene sacrifício aos deuses da Eterna Juventude, para encerrar o ciclo e celebrar dignamente o seu parto e nascimento. Estou imaginando mesmo agora o ritual: precisa ter fogo; e água, água de fonte límpida vertida de uma taça de cristal virgem ao nascer do sol; e guirlandas de rosas-de-cão e madressilvas; e deve haver um pássaro na gaiola para ser libertado ao alvorecer e uma prece para cantar enquanto dançamos de mãos dadas ao redor da fogueira crepitante. - Jacques Raverat, carta a Katherine Cox, 19 de janeiro de 1 9 10

WANDERVOGEL, EM LÜNEBERG HEATH, 1909

N O IN ÍC IO DE 1903, uma estudante de 17 anos chamada Karen Horney registrava no seu diário uma torrente de emoções: “Sinto-me como se fosse um capitão que salta da segurança do seu navio para o mar, que se agarra a uma prancha de ma­ deira e se deixa levar pelo tumulto do mar, agora aqui, agora ali. Ele não sabe para onde está indo.” Entrando no centro do turbilhão, ela tenta expressar seus senti­ mentos com um “poema louco” que a via presa numa “antiga cidadela de pedra que milhares de anos haviam construído para mim. Era sombrio e fechado —eu ansiava por liberdade”. Embora quase sepultada, ela escapuliu cavando com as mãos nuas: “Eu res­ pirava vida. A claridade da luz quase me cegou —mas logo me acostumei com o seu brilho. Olhei ao redor. A paisagem era quase ampla em excesso, minha vista podia vagar a distâncias sem fim. Quase opressivos, o Novo, o Belo me invadiam. Nisso um anseio onipotente tomou conta de mim, quase explodindo o meu peito, e me fez avançar vagando para ver, apreciar e conhecer o Todo.” Esta nova liber­ dade, entretanto, não trazia integração, mas alienação ainda maior: “Sem lar eu estou. Sem moradia para me abrigar eu perambulo de um lado para o outro.” Impedida por um professor do sexo masculino de participar de uma aula sobre dissecação animal, Karen Horney resolveu na sua furia dissecar a si mesma: “Isto provavelmente será mais difícil, mas também mais interessante.” Ela também estava perturbada por causa de uma conversa com a sua amiga, Alice, que admitiu que às vezes “ia” com “cavalheiros estranhos”. Ela relatou o diálogo: “Eu: ‘Pensei que estas coisas não aconteciam nos nossos círculos.5Alice ri: ‘Aos montes. Uma menina da sua turma fez isso —e até com o pai dela/ Fiquei muda de horror.” Com a cabeça cheia de literatura romântica e moral tradicional, Horney lutava contra estas realidades. Criticando o casamento como uma farsa, ela sentia que “toda a nossa moral e moralidade ou são absurdas’ ou são imorais”, decidindo que “não era imoral se dar a um homem a quem realmente se ama”. Ela concluiu a anotação no seu diário projetando o futuro: “Mudarei um dia? E como? E quan­ do? O alvorecer de uma nova era está despontando. Espero com todas as forças da minha jovem esperança. Talvez até a próxima geração não conhecerá estas batalhas.” Nascida numa família próspera de classe média, Horney foi uma das primei­ ras mulheres alemãs a tirar vantagem das novas oportunidades educacionais. Na sua cidade de Hamburgo, as mulheres só foram aceitas no ginásio, o sistema es­ colar de elite, depois de 1901, enquanto as universidades só aceitaram mulheres nas suas escolas de medicina depois de 1900. Uma boa parte do seu diário está ocupada com a questão dos direitos das mulheres. Horney era uma grande admiradora da feminista sueca Ellen Key, que defendia a igualdade para as mulheres em livros como The Century ofthe Child. Horney foi uma das muitas jovens de classe média do norte da Europa a ten­ tarem forjar uma “nova moralidade” na primeira década do novo século. “Novas WANDERVOGEL E NEOPAGÃOS

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batalhas convocam os nossos esforços agora”, ela escreveu. “Queremos esta liber­ dade para a nossa vida emocional e para a sua expressão, liberdade e não licença, pois nos sentimos amarradas às exigências da natureza.” Este desejo de mudança não se limitava às mulheres, embora elas ainda fossem consideradas cidadãos de segunda classe. O feminismo era apenas parte da rebelião dos jovens contra o mundo do século XIX de seus pais, que eles percebiam como um pesadelo mate­ rialista, hipócrita e idiotizante. Durante a década de 1900, novos movimentos juvenis surgiram na GrãBretanha e na Alemanha em reação ao militarismo e ao industrialismo. Seus jo­ vens adeptos sentiam que o único caminho para frente era para trás: para o paga­ nismo da adoração da natureza. Entretanto, na busca de se livrarem das restrições dos adultos, se expunham aos demônios que jaziam sob a superfície ordenada, aparentemente racional, da vida europeia. Esta reação juvenil teve um ônus em particular na Alemanha imperial, onde, no início da década de 1900, os filhos da burguesia não gozavam das comparativas liberdades disponíveis para suas contrapartes na Grã-Bretanha, França e América. Dentro de um sistema que expressava e favorecia a rígida ideologia nacionalista das classes altas alemãs, estes jovens viam o seu progresso na vida bloqueado pelo telhado de vidro dos privilégios prussianos. A estas tensões somava-se em todas as classes o relacionamento irritado entre pais e filhos. O ideal prussiano do exercício da paternidade foi sintetizado na história do príncipe Frederick, de 18 anos. Rebelando-se contra um pai militar severo e disciplinador, o rei Frederick William I, o jovem príncipe de inclinações estéticas tentou fugir, mas foi traído e capturado; seu castigo foi assistir à execução do seu melhor amigo, Hans Hermann von Katte, que havia fugido com ele. Só diante desta severa atitude ele amadureceu para se tornar a lenda nacional da Prússia, Frederico, o Grande. Esta caprichosa crueldade ajudou a alimentar a assassina hostilidade entre pais e filhos que se espalhou por toda a Alemanha. Ao mesmo tempo, o sistema de educação semi-interna, com a sua ênfase na estufa acadêmica, a disciplina rígida e a falta do apoio do grupo que marcava as escolas públicas britânicas produziam alunos angustiados. Este era o autoritarismo hipócrita que Frank Wedekind havia exposto em SpringAwakening, e a enxurrada de suicídios de meninos em idade escolar não cessou. No seu estudo O suicídio, o sociólogo Émile Durkheim comparou índices na França, Itália e Alemanha; os mais altos no grupo de 16 a vinte anos de idade ficavam na Saxônia e na Prússia. A intensidade do descontentamento entre os jovens alemães revelou-se na extraordinária popularidade do recém-redescoberto escritor Friedrich Hõlderlin. O seu romance de 1797, Hiperion, ou o eremita na Grécia foi escrito na primeira pessoa como Os sofrimentos do jovem Werther. o seu modo direto de falar contri­ buiu para que ele se tornasse um sucesso nos meios culturais durante a década 120 | 1904-1913

de 1900. A mensagem deste romântico condenado era inflexível: “Não posso imaginar gente mais desmembrada do que os alemães.” Para ele, “jovens” não eram “seres humanos”: para atingir a integridade, o jovem não podia confiar em mais ninguém a não ser nele mesmo. A falta de habilidade da educação prussiana para lidar com “energias juvenis em turbilhão” foi explorada por Robert Musil no seu romance sobre a escola militar, de 1905, Young Torless. Atormentado pela atração física que sentia por outro menino, Torless se vê privado de suas “sólidas, burguesas” certezas, “nas quais tudo acontecia de forma ordenada e racional”. Sob a superfície ordenada da vida europeia jaziam demônios irreconhecíveis: “Do mundo de claridade diur­ na, que era tudo que ele conhecia até então, havia uma porta que levava para outro mundo, onde tudo era abafado, fervilhante, apaixonado, nu e destrutivo.” Se a luta das moças pretendia obter igualdade social e sexual, então a dos ra­ pazes era para encontrar outro tipo de identidade longe da chave de braço solda­ do/atleta. Depois de Wilde e da Degeneration de Nordau, o esteta decadente era obsoleto e caluniado. A única opção era explorar a sensibilidade masculina de outra forma. Organizado em vários agrupamentos, este impulso exaltava a espon­ taneidade do instinto e da expressão emocional, e o misticismo voltado para a natureza que se podia encontrar na vida ao ar livre. Esta foi a “febre” inflamada pelo século XX. Esta ânsia de criar um novo mundo juvenil, discreto, teve a sua primeira es­ trutura coerente na Alemanha imperial. O Wandervogel oferecia uma fuga bá­ sica, mas disponível de imediato, de um regime opressivo. A ideia era simples e resumida no seu nome, que significa “pássaro errante”: longas caminhadas em grupo e excursões para acampar no campo. Como um dos primeiros adeptos lembrou: “A essência do Wandervogel era fugir dos limites da escola e da cidade para o mundo aberto, afastar-se dos deveres acadêmicos e da disciplina da vida cotidiana para a atmosfera de aventuras.” O movimento começou no ginásio de Steiglitz, perto de Berlim, onde um jovem estudante e professor em regime de meio expediente, chamado Herman HofFman, começou a excursionar com seus alunos durante a primavera de 1896. Com fogueiras, cantos comunitários e pouco tempo para o sono, estas longas caminhadas rapidamente atraíram adeptos entre os estudantes. Em 1900, as ex­ cursões ficaram tão populares que foram organizadas numa instituição nacional: em 1901, o carismático e esforçado Karl Fischer assumiu a liderança e fundou um novo grupo oficial de jovens chamado Ausschuss fíir Schülerfahrten. A Alemanha imperial era hostil ao movimento moderno e a terminologia deste novo grupo traía suas fascinações arcaicas. Fischer recebeu o título de Oberbachant, o nome dado ao líder de estudantes medievais que viajavam, e exigia total obediência de seus membros. Havia um sistema probatório e um uniforme WANDERVOGEL E NE0PAGÃ0S

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de insígnias e bonés que lembravam a era pré-industrial. Fischer acrescentou vontade de poder ao misticismo da natureza de Hoffman. Ele tratava o exercício da caminhada como “uma ideia que podia ser transformada em propaganda”: “Salve-se, agarre o seu bastão de caminhada e busque o homem que você perdeu, aquele simples e natural.” Apesar da mentalidade controladora do seu líder, o Wandervogel atraía porque oferecia liberdade. Um de seus primeiros membros, Hans Bluher, acabara de en­ trar na puberdade quando ingressou em 1901. Ele via o movimento quase como uma rebelião instintiva, romântica, que envolvia o abandono de convenções de classe média: as brigas de rua e, graças à popularidade dos romances ambientados no oeste americano de Karl May, as brincadeiras de fingir que eram índios ame­ ricanos eram importantes elementos de apelo do movimento. Fumar, beber e associar-se a verdadeiros vagabundos eram a cobertura do bolo. Apesar de toda esta sedução, a vida simples era a essência das atividades do Wandervogel. As jornadas eram feitas com o mínimo de luxo e dinheiro: as re­ feições eram preparadas em fogões de campanha e fogueiras, enquanto as acomo­ dações eram em celeiros e tendas. Os membros eram incentivados a registrar suas impressões da caminhada e do campo em prosa ou em ilustrações, e os resultados eram reunidos em pequenas revistas. Uma parte vital da experiência era a desco­ berta e a cantoria em grupo de antigas baladas e áreas, acompanhadas de violões e alaúdes, que ajudavam a criar um renascer do cancioneiro folclórico alemão. Ao contrário dos Boy Scouts, os grupos Wandervogel se organizavam sozi­ nhos, embora em torno de um líder mais velho. A unidade básica compreendia cerca de sete ou oito membros. Mais tarde emergiu uma estrutura piramidal, que se expandiu para cobrir uma divisão local, compreendendo todos os grupos de uma determinada cidade, e depois uma divisão provincial chamada Gau. A maioria dos membros era de adolescentes do sexo masculino: com menos de 12 anos, eles eram crianças demais para suportar os rigores das expedições, e com mais de 19 os rapazes, em sua maioria, estavam se alistando no exército ou já eram estudantes. No início, não havia identificação de grupo. Isto foi acontecendo aos poucos, com o uso de emblemas e broches e outras modas, como o uso de chapéus vis­ tosos. As atividades em grupo concentravam-se num clube, o Heim, que era uma cabana ou sala adequada decorada com insígnias do clube e contendo uma peque­ na biblioteca. O evento Wandervogel mais importante era a grande expedição pelo campo. Em geral ela ocorria durante o verão, mas havia acampamentos e caminhadas mais curtos nos fins de semana e feriados. Não havia uma rede de albergues para a juventude; portanto, a maioria dessas viagens estava literalmente abrindo um novo caminho. 122 | 1904-1913

Os Wandervogel tentavam fugir das realidades contemporâneas para um idílio prelapsariano, mas eles não podiam deixar o mundo lá de fora esperando. Como todos os outros grupos de jovens alemães, tinham uma desconcertante tendência de se dividirem em facções. Era como se a tensão entre seus confessos ideais de liberdade e a educação autoritária fosse demais. Ou, quem sabe, fosse apenas o prazer alemão de formação e cisões de grupos. Havia também outras conotações que resultaram da política de recusa explícita dos Wandervogel. A falta de um programa concreto inicialmente funcionou a favor do movi­ mento: com suas roupas medievais, a sinceridade e a desafiante união de grupos de pares, seus primeiros seguidores chocaram a sociedade da época, que os via como rebeldes e sexualmente promíscuos. Este romantismo arcaico fez do movimento uma expressão exata de uma classe média alemã surpreendida entre um proletaria­ do cada vez mais militante e a elite prussiana. Entretanto, ele também acirrava o medo implícito do modernismo que foi em seguida acoplado às ideias Vdlkische de sangue e raça. Conforme o movimento ganhava popularidade, ia se tornando mais diverso e ideológico. Novos grupos dissidentes surgiram em um espectro político variando desde a direita, como os Jungwandervogel, até o de perfil mais urbano e cultural, o Hamburg Wanderverien. Num extremo estavam os visionários que se reuniam na aldeia de Ascona, nas montanhas da Suíça, e criaram a comuna que praticava o vegetarianismo, as curas naturais e o amor livre. Este “eleitorado sensível” ofe­ recia um porto seguro para anarquistas, intelectuais e os Wandervogel igualmente. A nova tendência, mais difusa, entretanto, foi estimulada pela popularidade do romance de Hermann Popert, de 1910, Helmut Harringa, a história de um rapaz que declara guerra não só às organizações estudantis prussianas da Alemanha como também ao álcool e ao sexo antes do casamento. Tendo contraído uma doença venérea, Harringa comete suicídio porque desperdiçou a matéria-prima racial “na imunda dupla intoxicação de um quarto de hora”: “Não ouso mais levantar os olhos para meus avós.” Associada à pureza racial, a abstinência tor­ nou-se palavra de ordem entre os Wandervogel na virada do século. Dois anos depois, Hans Bluher publicou o primeiro fascículo da sua con­ trovertida história dos Wandervogel, em três volumes, que ajudou ainda mais a disseminar as ideias do movimento. No terceiro volume, Bluher revelou uma das principais falhas da fraternidade. Ele tinha ficado furioso com a expulsão do presidente Alt-Wandervogel, Willi Jansen, acusado de homossexualidade. Com base em Freud, no pioneiro em sexologia Magnus Hirschfeld, na revista que de­ fendia os direitos dos gays, Die Eigene, Bluher retaliou, sugerindo que a união entre os homens do movimento mantinha-se pelo erotismo homossexual. Esta parte da sua história causou sensação quando foi publicada em 1913, no mínimo por causa dos escândalos homossexuais —mais notadamente, o caso WANDERVOGEL E NE0PAGÃ0S

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Harden-Eulenberg, de 1907 - que haviam exposto as paixões ocultas sob a fa­ chada prussiana. Entretanto, o furor obscureceu a crença de Bluher de que o Wan­ dervogel compreendia um intervalo necessário antes das plenas responsabilidades da idade adulta. Karl Fischer tinha, afinal de contas, imaginado “um estado de colegiais”, um “Lebensraum onde os meninos podem, têm permissão e devem ser meninos, para se tornarem homens de verdade”. Entretanto, a hostilidade de Bluher com relação às mulheres abria a ferida maior dentro do Wandervogel: o fato de ser um clube exclusivamente para meni­ nos. Nos primeiros anos do movimento, as mulheres não eram aceitas por uma questão de política. Esta exclusão continuou vigorando até a bem-sucedida forma­ ção de uma organização alternativa para moças, o Wandervogel Deutscher Bund. Outros grupos aceitavam a participação limitada das meninas se estivessem acom­ panhadas de suas mães, enquanto outros, como o conservador Jungwandervogel, recusava-se até a pensar nisso. Mas foi impossível conter a pressão: em 1911, muitos líderes de grupos ju­ venis concordaram com que as moças deveriam ter um lugar igual no movimento. Mesmo assim, houve disputas sobre se os sexos deveriam ser mantidos separados. Surpreendentemente, o sexo promíscuo não era um problema para o Wandervo­ gel. Uma observadora contemporânea, Elizabeth Busse-Wilson achava que o movimento de jovens estava inundado de “uma multidão de moças sem preten­ dentes”, que haviam se castrado e tinham “encontrado homens, se não um homem no movimento”. Como Hall declarou, a adolescência era a fase da vida “em que o sexo afirma o seu domínio em todas as áreas”, e aqui estava um grupo de Peter Pans, longe dos limites paternos, tentando negar a conexão mais óbvia entre si. O avanço da abstinência impunha enormes pressões sobre cada indivíduo. Estas tensões foram vigorosamente expressas no diário de Karen Horney. Embora esforçando-se para se livrar “da moralidade cotidiana”, ela estava, não obstante, limitada pelas fortes convenções da época. A sua solução foi se “libertar da sensualidade”. Ela sentia que o celibato dava um grande poder a uma mulher: “Só assim ela será independente de um homem. De outro modo ela sempre o desejará e, no exagerado anseio de seus sentidos, ela será capaz de abafar todos os sentimentos quanto ao seu próprio valor.” En­ tretanto, ao mesmo tempo em que buscava a independência, ela alimentava fan­ tasias de si mesma como uma “rameira”. Como ela reconhecia: “No desejo de prostituição há sempre oculto um desejo masoquista: renunciar à própria persona­ lidade, submeter-se a outro.” Sob o desejo declarado de liberdade jazia um desejo mais profundo de subjugação. Os jovens alemães podem ter desejado a liberdade com todo o seu coração, mas a dimensão de realidade do seu objetivo era perturbadora para adolescentes 124

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criados num país repressivo. A natureza cada vez mais linha-dura do Wandervogel era testemunho deste paradoxo. De um grupo descontraído de jovens que gos­ tava de apreciar a natureza, ele passou a ser um movimento cindido por lutas mutuamente destrutivas. Em 1912, a influência dominante era o grupo Vortrupp, de Hermann Popert, que promovia a higiene racial ao mesmo tempo que con­ denava a decadência, o álcool, o tabaco e a sociedade de massa. Era como se as implicações fundamentais da adoração à natureza fossem por demais assustadoras para ser consideradas. Seguir os instintos pagãos pode­ ria trazer acusações de homossexualidade aos homens e prostituição, se não ninfomania, às mulheres. O Wandervogel compartilhava objetivos e meios com os Boy Scouts —o gosto pela vida ao ar livre, a promessa de união entre pares —,mas, na falta de uma liderança imposta de cima para baixo pelos adultos, os jovens da Alemanha preferiram policiar a si mesmos. Suas tentativas de viver fora das res­ trições dos adultos foram subvertidas de dentro para fora pelo próprio autorita­ rismo que tentavam rejeitar. * * * Não havia um paralelo exato para o Wandervogel na Grã-Bretanha. Para a maioria dos jovens do país, liberdade foi uma quimera distante durante a década de 1900. Nas classes alta e média, os pais tentavam navegar no abismo entre o vitorianismo e os primeiros sinais de independência. Mesmo assim, peças como The Younger Generation, de Stanley Houghton, mostravam uma limitada tolerância para com a rebeldia juvenil. Ainda se esperava que os rapazes se conformassem com a car­ reira escolhida pelos pais, enquanto que as moças ainda eram preparadas para o casamento certo. Qualquer encontro entre eles era rigidamente controlado por um acompanhante adulto. Na maioria dos lares de classe média, o pai permanecia sendo a autoridade absoluta. Em The Classic Slum, Robert Roberts lembrou que durante a década de 1900 os adolescentes, “especialmente as meninas, eram mantidas sob rédea curta. O pai fixava o número de noites em que elas poderiam sair e exigiam saber exatamente onde e com quem elas passavam o seu tempo livre. Ele definia, também, a hora exata da volta para casa: poucas ousavam desobedecer à regra. A filha de um vizinho, uma menina de 19 anos, foi espancada quando voltou para casa dez minutos atrasada depois do ensaio do coro”. As restrições não eram apenas físicas. Roberts lembrou que, em Salford, “qualquer interesse por música, livros ou artes em geral, aprendizado ou até cortesia ou inteligência poderia fazer de alguém um suspeito”. A “associação de homossexualidade com cultura” atingiu todas as classes quando o impacto do julgamento de Wilde produziu um corte profundo. WANDERVOGEL E NEOPAGÃOS

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Somente dentro do anonimato de uma cidade imensa poderia o jovem expressar as opiniões expostas no escandaloso romance de H. G. Wells, Ann Verônica: “Se individualidade significa alguma coisa, esta é romper fronteiras - aventura. Você será moral e a sua espécie, ou imoral e você mesmo? Nós decidimos ser imorais.” Se bem que a preservação de uma boêmia dedicada, se não privilegiada, de poucos, continuava sendo uma das poucas válvulas de escape para o jovem não conformista, relativamente privilegiado. Outro era o envolvimento com o socia­ lismo “científico” da Sociedade Fabiana. Para as moças de todas as classes, a es­ colha mais radical era o envolvimento na luta pelo sufrágio feminista através do Women Social and Political Union. Entretanto, nenhum destes grupos estava organizado em torno de uma ideia de juventude, seja como um ideal ou como um programa prático. O único grupo que agiu assim oferecia uma variante de foco moderado da adoração à natureza praticada pelos movimentos dos escoteiros e o Wandervogel. Para o pequeno bando de elite dos Neopagãos, esta se expressava em acampamen­ tos, discussões socialistas e banhos de sol nus e um fascínio intelectual pelo sexo. Como uma do grupo, Gwen Darwin lembrou mais tarde: “Nós costumávamos nos refestelar em poltronas e falar exaustivamente sobre arte, suicídio e o problema sexual.” Para ela, pelo menos, a rebeldia era um impulso importante: “Às vezes penso que todo mundo deveria morrer aos quarenta, quando vejo o tormento que todos os pais são para os filhos.” Os Neopagãos eram um grupo de uns vinte intelectuais, escritores e artistas aglomerados ao redor de Rupert Brooke, Jacques e Gwen Raverat e as quatro irmãs Oliver. Embora se encontrassem devido a um interesse mútuo pelo socialis­ mo fabiano, eles desenvolveram uma consciência juvenil estudada que buscava desafiar as censuras vitorianas, ao mesmo tempo que celebrava a intensidade do momento. A sua livre mistura era bastante excitante na era da chaperone, a acom­ panhante. Mas eles estavam tão inebriados com a sua vitalidade, talento e beleza que foram mais longe ainda: como eles poderiam, como fariam o tempo parar? No verão de 1909, Rupert Brooke sugeriu o plano que se tornaria o manifesto neopagão. Ele começou com a premissa de que o mundo estava “imperfeitamen­ te organizado. Um erro, um grande erro nele é que seus habitantes envelhecem”. A pior parte disto não era a decadência do corpo, mas do espírito. Assim, com im­ pressionante presunção, ele projetou o grupo para o futuro: “Temos vinte e poucos anos. Em 1920 teremos trinta e poucos. Em 1930, teremos quarenta e poucos, fa­ lando com gente mais ou menos gorda, mais ou menos próspera, mais ou me­ nos pesada, casada, conservadora, desconfiada que um dia foi jovem como nós.” Ele observou que Londres estava cheia de “fantasmas mortos de cartola” da­ queles que já foram jovens, “assombrando a civilização que foi a sua ruína”. Mas “suponha que no passado um grupo de jovens esplêndidos tivesse feito um plano 126 | 1904-1913

para escapar do grande destruidor, para continuar jovem, e suponha que tenha conseguido - não teria sido um maravilhoso, inigualável, triunfo?” Brooke con­ vocou o grupo para se encontrar na Basle Station “no dia l 2 de maio de 1933, no café da manhã . So assim eles poderiam permanecer para sempre jovens. Nos seremos crianças de setenta anos, em vez de sete. Nós viveremos o Romance, não falaremos dele.” O entusiasmo de Brooke rapidamente se espalhou para o resto do grupo. “A ideia, o esplendor desta fuga de volta para a juventude, nos fascinava”, ele mais tarde escreveu. Imaginávamos um número de pessoas jovens, trabalhando juntas de forma esplêndida, jurando viver csta ideia, partindo para fazer o seu ‘trabalho no mundo por uns tempos e então, vinte anos depois, encontrando-se em algu­ ma estrada sinuosa, numa manha de primavera pré-combinada, renascidas para fazer e encontrar juntas um novo mundo, desaparecendo do conhecimento de homens e coisas que conheciam antes, ressurgindo no sol e na chuva - Estamos determinados a ser essas pessoas.” Brooke sugeria o abandono, pela simples decisão de se encontrarem dali a 24 anos, de todas as responsabilidades e cuidados adultos numa tentativa de apa­ gar os anos intermediários. Em vez de serem pessoas de meia-idade, eles pode­ riam, como num passe de mágica, voltar à graça e à beleza de seus eus adolescen­ tes. Este era um novo desvio dentro da concentração romântica na criança, uma filosofia de vitalismo e ação que ecoava as eternas obsessões tanto de Peter Pan quanto de O retrato de Dorian Gray e cultuava o imperativo pagão tão difundi­ do entre a geração 00. Como o menino de ouro do grupo - nas palavras de Francês Darwin, “um jovem Apoio” -, Brooke era inquieto, compulsivo, futil e carismático. Filho de um diretor de escola pública, ele começou a se rebelar contra a sua educação na adolescência. Tendo sido obcecado por Peter Pan, cedeu aos encantos de Wilde e Baudelaire aos dezessete anos. Na Universidade de Cambridge, recebeu o crédito por lançar um novo estilo: cabelos longos, sapatos macios e camisas abertas, co­ larinhos frouxos. Farejando a revolta antivitoriana, Brooke passou rapidamente da faux-decadence para o vegetarianismo e o socialismo fabiano. Com estes elementos coexistindo desconfortavelmente na composição da sua fachada, a concentração de Brooke em um instante eterno ajudou a dissolver suas contradições. Como ele concluiu: “Nós herdamos o mundo. Por que devemos ir chorando além dele? O presente é surpreendentemente nosso.” Entretanto, na falta de uma atividade concreta além do fascínio do despertar de consciência fabiano - como uma “caravana”, no verão de 1910, em protesto contra a antiqua­ da Lei de Assistência Social —,o programa neopagão era bastante vago. Juventude, privilégios e natureza podem ter sido o que os manteve unidos, mas nada disso bastava em si como um princípio organizador. WANDERVOGEL E NEOPAGÃOS

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Apesar da exuberância de Brooke, os Neopagãos estavam presos a um dilema. Por um lado eles tinham a influência do paganismo e a licença sexual promovidas por pensadores influentes como H. G. Wells; por outro, ainda se apegavam à in­ sistência moral da classe média de que o período antes do casamento deveria ser uma zona sexual proibida. Como David Garnett mais tarde lembrou: “Adormecer a um ou dois metros de distância de uma menina encantadora sem nem pensar em tentar fazer amor com ela era natural para mim aos 18 anos. Fazia parte do clima social em que fui criado.” Havia, entretanto, considerações práticas. As sanções eram particularmente severas para as mulheres, visto que um erro poderia resultar em gravidez, bem diferente da perda da reputação. Os Neopagãos faziam da necessidade uma virtude e pregavam a abstinência. Entretanto, esta moratória sexual significava que eles precisavam desviar os instintos selvagens que tinham esperado invocar para vários cortejos prolongados que, com os inevitáveis ciúmes e anseios reprimidos, ajuda­ vam a separar o grupo em um ou dois anos. Como a figura de proa neopagã, Rupert Brooke personificava estas tensões. O seu status icônico mascarava um rapaz que no íntimo ardia de frustração e in­ segurança. Em poucos anos, ele perseguiu três mulheres neopagãs, Noel, Brynhild Oliver e Ka Cox, ao mesmo tempo que flertava com a androginia e a homossexua­ lidade. Depois que muitos Neopagãos juntaram-se ao movimento Bioomsbury, mais velho e mais ideológico, com a sua fácil aceitação da homossexualidade, Brooke mudou de repente. A sua curiosa passividade o havia levado a circunstân­ cias que o fizeram recuar. Em janeiro de 1912, ele sofreu um colapso nervoso quase fatal que arruinou o seu equilíbrio e a fácil camaradagem do grupo. A ilusão de Peter Pan, voando livre de todos os limites morais, não podia continuar. Em poucos meses, os Neo­ pagãos se dissolveram com um certo azedume acrimônia. Este evento tinha sido previsto pelo único homem casado do grupo, Jacques Raverat, que escreveu: “A ju­ ventude é uma coisa muito enganadora; ela faz pensar que tanta gente é tão mais bonita do que é na realidade, só por causa desse indolente fluir de sangue jovem. A meia-idade os encontra a todos expostos na sua nudez de alma - e de corpo.” A partir de 1912, Rupert Brooke começou a se encolher num conservado­ rismo estético e social. Ele repudiou totalmente o seu antigo radicalismo. Quando visitou a moderníssima Berlim e se viu rodeado pelos boêmios da cidade, reagiu escrevendo este adeus arcadiano, “The Old Vicarage, Grantchester”, em que tudo se resumia às tradições das regiões rurais inglesas. Começou a desejar a morte como a solução para os seus problemas: “Aqueles que me conhecem me­ lhor (a saber, eu mesmo) pensam que vou morrer. Nem eu quero muito viver.” * * * 128 | 1904-1913

O impacto dos Neopagãos e dos Wandervogel foi simbólico, não estatístico: eles foram comparativamente insignificantes para as organizações juvenis oficiais ou políticas do período. Na Grã-Bretanha, o número de Boy Scouts excedeu o des­ ses filhos do sol. Na Alemanha, os grupos socialistas e religiosos de jovens absorve­ ram a juventude operária que o Wandervogel não conseguiu atrair. Muitos das classes médias juntaram-se ao novo Jungdeutschlandbund, um grupo dirigido por adultos baseado em esportes militares, ou a versão alemã dos Escoteiros que foi formada em 1911. Entretanto, estes dois grupos pseudopagãos, obcecados pela natureza, ofere­ ciam apenas tentativas organizadas de definir a independência adolescente que eles achavam ser necessária para a vida no novo século. Embora já anunciada por uns poucos visionários, a exata natureza do que seriam estas liberdades ju­ venis não estava clara, para dizer o mínimo. No seu desejo instintivo de prolongar o estado de inocência infantil evitando o sexo e o envolvimento emocional, os Neopagãos e os Wandervogel se permitiram ficar expostos à morbidez que é a conseqüência inevitável da eterna juventude. Esse instinto de morte, anunciado por Wilde e Barrie, foi a imagem espelhada de toda a conversa sobre sol e luz. Como G. Stanley Hall, os pioneiros dos anos 1900 perceberam que as complexidades da vida moderna exigiam um prolonga­ mento desse estado recém-definido, a adolescência. Entretanto, ao mergulharem em cultos que recendiam a irracionalidade, privilégios e escapismos, eles deixa­ ram de levar consigo a grande massa de seus pares, e eles mesmos caíram vítimas das tensões entre as restrições do século anterior e a fracamente prefigurada selvageria do século juvenil que se aproximava.

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CAPÍTULO

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Nickelodeons e danças imitando animais A economia do sonho americano * * * A sede de experiências da juventude é que ela quer simplesmente ser tudo, fazer tudo e ter tudo que se apresenta à sua imaginação. A juventude de repente se tornou consciente da vida. Ela comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal. - R a n d o lp h Bourne, Youth a n d Life (1 9 1 3 )

IN D O A O "CINEMA", 14:30, JERSEY CITY, NOVA JERSEY, DE LEWIS HINE, 1912

os jovens da Europa e da América adotaram novos símbolos de independência para si. Alguns vinham do então existente mercado ju­ venil para revistas e livros, enquanto outros eram retirados da mídia de massa em rápida expansão. O novo foco americano na juventude coincidiu com o crescimen­ to da psicologia comercial e da indústria cinematográfica. Os filmes encontraram o seu primeiro mercado entre os adolescentes, que, segundo Stanley Hall, compu­ nham um terço de toda a população americana. O seu entusiasmo fez deles cobaias involuntárias para a emergente sociedade de consumo. Conforme ela se espalhava por toda a Europa, a imagem mais icônica da cultura americana era a do índio americano. Esta criatura mitológica foi promovi­ da por muitos meios: o espetáculo Oeste Selvagem de Buffalo Bill; contos de “pelesvermelhas” como aqueles escritos por Edward Sylvester Ellis; romances westerns de enorme popularidade de Zane Grey e, na Alemanha, Karl May; até a loucura por canções indígenas que acompanhou o sucesso de “Hiawatha”, de Charles N. Daniels. Exatamente quando o continente estava sendo domado, havia índios por toda a parte, um nítido lembrete do individualismo que avançava a todo vapor acionado pela nova sociedade de massa. Um elemento básico na leitura infantil havia muito tempo, o índio americano passou a ser um símbolo identificador do apelo adolescente no início da década de 1900. Apesar do fato de que em geral eles levavam a pior nas batalhas fictícias com os caubóis, os “peles vermelhas” eram selvagens e livres. Eles compartilhavam tendências atávicas com a adolescência em geral, e seu status de vítimas da socie­ dade rimava com uma classe de jovens emergente em busca de uma metáfora para a sua própria situação. Ainda sem direitos à cidadania, mas constantemente lembrados de seus deveres para com a nação, os jovens urbanos na América e na Europa viam na figura fugitiva do índio um símbolo de espaço escancarado, assim como de dignidade sob pressão. Isto foi observado com mais clareza na vida em gangues do início do século XX. Na sua história do Wandervogel, Hans Bluher celebrou a rejeição dos limites da classe média conquistada através das brincadeiras de índio. Na França, os Apa­ ches parisienses transformaram esta identificação num escândalo nacional. Do outro lado do espectro, Ernest Thompson Seton e Baden-Powell buscaram apro­ priar-se deste apelo para seus próprios fins. Scoutingfor Boys ressaltava as habili­ dades com a madeira e a vida nas florestas dos escoteiros Red Indian, que “costu­ mavam amarrar nas costas a pele de um lobo e caminhar de quatro, rondando pelo acampamento durante a noite, imitando o uivar de um lobo”. Outros estilos de fora cruzaram o Atlântico. A arte dos menestréis tinha sido popular na Grã-Bretanha durante o século XIX, e o cakewalk chegou no início da década de 1900. A conquista completou-se com o esmagador sucesso, em 1912, do teatro de revista Hullo Rag-time. Apresentando canções como “Alexander s DURANTE A DÉCADA DE 1900,

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Ragtime Band”, escrita pelo compositor branco Irving Berlin, este espetáculo atre­ vido tipicamente americano hipnotizava a platéia com a música e a dança no estilo selvagem dos negros. O futuro tinha chegado. Para o escritor J. B. Priesdey, os adeptos do ragtime estavam “nos convocando para um outro tipo de vida no qual tudo podia acontecer”. Essa noçao de possibilidades era a grande atração da economia do sonho ame­ ricano. Esqueça carvões, trens, aço e cutelaria —o que os europeus queriam da América era o seu senso de espaço, a sua selvageria, a sua energia, os seus ritmos sincopados, misturados, que aceleravam o tempo da vida num eterno presente. Entretanto, havia um enigma nesta equação. Se a América estava tão identificada com a juventude, então supostamente tinha qualidades juvenis - e estas eram ao mesmo tempo atraentes e perigosas. A juventude podia oferecer energia e excita­ ção, mas podia facilmente extravasar em barbarismos e violência. Na América, a exploração comercial e a tentativa de controle simultâneas dos jovens deram origem a um paradoxo. A profunda escavação da psique incen­ tivada por anunciantes começou a colocar para fora aquelas mesmas características atávicas que estavam tentando canalizar com a criação de uma sociedade baseada em torno da acumulação de objetos e confortos. O controle social por meio do consumismo pode ter sido mais benigno do que por métodos mais totalitários, mas causou tipos diferentes de distorções, cada vez mais representadas na intensa oscilação entre hedonismo e puritanismo. * * *

Anunciada pela Expo 1893, a economia do sonho americano começou a se de­ senvolver como uma importante indústria durante a década de 1900. Transformar a fantasia em dinheiro vivo adequava-se muito bem ao caráter nacional e às exi­ gências de uma nação ainda em formação. Nascida a partir das desesperadas ne­ cessidades dos novos imigrantes e desenvolvida por corporações em processo de consolidação, uma nova cultura de massa foi criada fundindo a psicologia básica humana com as inovações tecnológicas futuristas. Não era apenas uma cultura, mas um novo jeito de ver o mundo que rapidamente se tornou uma força incontrolável. A perícia técnica da América era a maravilha do mundo. A década de 1900 assistiu à primeira aparição de muitos futuros produtos básicos do século XX. Entre eles o primeiro disco de 10 polegadas para gramofone (1901); o primeiro voo equipado com motor (1903); a disponibilidade comercial da litografia em offset (1904); o primeiro toca-discos automático, os nickelodeons (1905); os pro­ gramas radiofônicos regulares (1906) e a criação do primeiro carro projetado para as massas - o Modelo T, da Ford Motor Company (1908). A um grau conside­ 132 | 1904-1913

rável, estes produtos de massa ajudaram na tendência padronizadora pressionada pelo comércio. A mão de obra tornava-se cada vez mais pulverizada. Em 1913, a popularidade do Modelo T deu origem à primeira operação de linha de montagem completa nas instalações da Ford, em Highland Park: o princípio da mão de obra reduzida às tarefas mais básicas - uma torcida num parafuso, um puxão numa alavanca - e infinitamente repetidas. O trabalhador individual era um dente na engrenagem. Apesar das contínuas agitações sindicais, o sistema econômico e social americano estava rapidamente se tornando um as­ sunto liquidado. Se não era possível mudar coletivamente o mundo externo, então, no que dizia respeito aos produtores e anunciantes, a paisagem interna, individual, seria o foco do desenvolvimento. Este projeto era atraente para uma nação em crescimento. No lugar do pas­ sado europeu, haveria o presente americano, tão vivido que pareceria durar para sempre. Os espasmódicos cortes entre cenas diferentes no filme inovador de Edwin Porter, O grande roubo do trem,, de 1903, comprimiam a percepção em si: como o próprio Porter comentou sobre a extasiada recepção ao seu filme: “O fu­ turo não tem fim.” Esta intensidade, entretanto, seria atrelada aos imperativos do comércio: cada pessoa podia ser transformada, não pela atividade artística ou política, mas pela aquisição do produto indispensável. A psicologia seria o ingrediente ativo neste processo alquímico de transformar objetos inanimados em talismãs com carga reforçada, produzidos em massa. Esta não era, entretanto, a psicologia acadêmica praticada por Hall, ou pela psicaná­ lise de Freud, mas uma variante simplificada oferecida pelos novos mediadores entre produtor e comprador: o homem de marketing. A indústria publicitária expandira-se dez vezes mais durante as últimas décadas e, com o crescimento, veio uma ambição maior. Buscando a penetração direta no subconsciente, os anuncian­ tes começaram a fatiar a disciplina psicologia de acordo com a sua marca particular de feitiço. Nos meados da década de 1890, a revista de comércio Printers Ink estava na expectativa do momento em que “o redator de anúncios, como o professor, es­ tudará psicologia. Pois, por mais diversas que suas ocupações possam à primeira vista parecer, o redator de anúncios e o professor têm um grande objetivo em comum —influenciar a mente humana”. Este processo “esclarecido” de educação de massa ganhou velocidade no novo século: o seu defensor mais influente, o pro­ fessor Walter Dill Scott, insistia em 1906 em que “o anunciante mais bem-suce­ dido deve estudar psicologia e deve fazer isso logo”. Scott defendia nada menos do que a exploração total dos desejos humanos atávicos. “Nós temos reações instintivas para agir pela preservação e favorecimento de (1) nossos corpos, roupas, lares, propriedades particulares e família (também os instintos de caça e construção que são mais complexos do que outros desta classe); NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS

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(2) nós mesmos como existimos nas mentes dos outros; (3) nossas faculdades mentais. Vimos que para garantir a ação de acordo com estas normas não é ne­ cessário mostrar o valor de tal ação ou a necessidade dela, mas simplesmente apre­ sentar o estímulo adequado, e a ação se dará imediatamente.” Os novos anúncios iam além da simples transmissão de informações. Na nova terapia de fartura, não bastava que remédios patenteados ou flocos de mi­ lho tivessem propriedades específicas: agora eles eram apresentados, explícita ou implicitamente, como tendo o poder de transformar o cotidiano. Portanto, os flocos de arroz Rice Krispies não eram vendidos como tendo valor nutritivo, mas porque praticavam uma série de eventos dramáticos: “Ele explode! Ele salta! Ele estala!” A famosa série de campanhas “Reason Why”, de Claude Hopkins, ven­ deu com sucesso pastas de dentes e automóveis ao sugerir que a compra destes itens levaria por si só a uma vida mais plena, mais rica. Estas técnicas tinham as mulheres como alvo principal, mas o processo come­ çava mais cedo na vida. No seu influente livro The Psychology ofAdvertising, Scott fez a associação entre consumismo e juventude: “O homem jovem parece com­ pelido a se mostrar da melhor maneira possível para uma jovem dama, mas nem sabe como. O rapaz sempre tenta “se mostrar” na presença das mocinhas. Muitas vezes isso é ridículo, mas ele não sabe por que faz essas coisas. Quando ele está diante da moça, parece compelido a fazer algo bizarro que tem certeza de que vai atrair a sua atenção.” A “emulação pecuniária” de Veblen havia se tornado uma indústria multi­ milionária que, segundo admitia Scott, estava enraizada na psicologia social dos adolescentes: “Sofremos todos como o rapaz e o menino. Consultamos não apenas a nossa preferência, mas também as opiniões dos outros ao comprar nossas rou­ pas ou nossas casas e ao escolher nossos amigos e profissões. Parecemos compeli­ dos a lutar por essas coisas que nos farão subir na estima dos outros e, ao com­ prar e escolher, selecionamos aquelas coisas que são aprovadas por aqueles cuja estima mais ambicionamos.” No fim da década de 1900, já havia um surpreendente número de produtos cujo alvo era a mulher jovem. Num artigo chamado “The Budding Girl and the Boy in His Teens”, Stanley Hall observou a inclinação do adolescente do sexo feminino por “belos adornos”. Esta era a “estação de mechas caídas na testa, ca­ chos, rolos, pompadours, babados, fitas, possivelmente rouges e pós, saltos altos, chapéus espalhafatosos, sombrinhas, bolsas ornamentais, braceletes, luvas muito longas - modas que afetam favoravelmente o observador; isto é, essas coisas agora avultam no centro da consciência. As vitrines são um sonho”. Hall foi atraído para as aplicações populares da psicologia do adolescente quase a despeito da sua própria vontade. Em outubro de 1908, ele endossou uma nova estrutura de artigos regulares no Womaris Home Companion chamada “Teens 134 | 1904-1913

and Twenties” e escritos pela jovial Lucy Norman. Seu artigo era claramente voltado para fazer de meninas adolescentes esposas úteis: “Nossos livros são bem aceitos, tenho certeza, para ficar ali em fila apreciando o espetáculo das recémformadas Teens and Twenties manejando a agulha, cuidando da casa, vendo se o jardim está aconchegado’ para o inverno e se as plantas dentro de casa estão bem aquecidas.” A compreensão popular da psicologia recebeu um impulso com a visita de Sigmund Freud à América e do seu então colega Carl Jung, no fim do verão de 1909, convidados por Stanley Hall para dar uma palestra na Clark University. O intercâmbio funcionou nos dois sentidos. Hall buscava um apoio extra para o status acadêmico da psicologia, enquanto que Freud estava ansioso pela oportu­ nidade de falar fora da Áustria e, na verdade, queria a validação acadêmica que, apesar da publicação de Sobre a psicopatologia da vida cotidiana, ele ainda não tinha recebido. Apesar dos acadêmicos que o acharam um “homem sujo, nojento”, Freud ficou muito satisfeito com a recepção que teve. Sua platéia foi respeitosa, como foi a maioria das notícias subsequentes nos jornais. Ele mais tarde escreveu: “Quando subi na plataforma em Worcester para dar as minhas Cinco lições de psicanálise parecia a realização de um sonho incrível: a psicanálise não era mais um produto de delírio, tinha se tornado uma parte valiosa da realidade.” A visita em 1909 tornou Freud famoso e ajudou a divulgar ainda mais suas ideias: a importância do sexo, o complexo de Édipo, a repressão, a existência do inconsciente na vida cotidiana, a importância da psi­ canálise no tratamento da neurose. Estas teorias tiveram uma aceitação acadêmica e outra popular, fosse com a fundação, em 1911, da American Psychoanalytic Association ou com a cunhagem do termo “lapso freudiano”. As ideias de Freud seriam, mais adiante, adaptadas ao contexto americano pelo seu sobrinho Edward Bernays, o fundador da indústria das relações públicas e promotor da “psicologia de massa” como um agente de controle social. A insistência de Freud na psicopatologia do cotidiano reforçou a noção de que poderia haver psicologia na vida cotidiana, uma mensagem que anunciantes, produtores e compradores igualmente levaram a sério. * * * A década anterior à entrada da América na Primeira Guerra Mundial assistiu à crescente popularidade do entretenimento de massa. O avanço mais dramático se deu no cinema, uma indústria que nasceu como resultado do espantoso sucesso dos nickelodeons —as salas de cinema baratas em que se pagava um níquel para entrar. Em 1910, seu poder sobre o público americano havia aumentado a ponto de atrair entre 10 e 20 milhões de visitantes semanalmente. Muitos eram crianças NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS

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e adolescentes, atraídos às centenas de milhares para um ambiente diferente, futurista, que eles podiam chamar de seu. Um subproduto do trabalho infantil tinha sido o primeiro início do consumismo juvenil, que se alimentava diretamente do florescente comércio cinema­ tográfico. No seu romance sobre a vida antes da Grande Guerra, Laços humanos —Uma árvore cresce no Brooklyn, Betty Smith escreveu a respeito de como a sua heroína de 11 anos de idade, Francie Nolan, sentia-se ao receber os seus salários: “Francie tem um centavo, Francie tem poder.” Chegando a uma loja popular de variedades que vendia artigos entre cinco e dez centavos na Broadway, “ela ia e vinha pelos corredores tocando em todos os objetos que aguçavam sua imaginação. Que sensação maravilhosa pegar uma coisa, segurá-la por uns instantes, sentir o seu contorno, passar a mão sobre a sua superfície e depois recolocá-la cuidado­ samente no lugar. A sua moedinha lhe dava este privilégio”. Criada para pensar que “dinheiro era uma coisa maravilhosa”, a juventude americana associava independência a gastos. No fim do século XIX, pequenos jornaleiros, comerciantes de rua e estudantes paravam nas lojas de doces e lancho­ netes para comprar balas, hambúrgueres e sorvetes. Entretanto, o destino mais popular eram as galerias de máquinas automáticas para jogar ou os salões de en­ tretenimento: fachadas de lojas ou salões que continham máquinas caça-níqueis e, depois do início da década de 1890, cinetoscópios, máquinas que exibiam fil­ mes por um pequeno orifício, o peephole. Desde o início, a juventude americana ficou extasiada diante dos “filmes”. Havia a novidade da mídia, mas o atrativo era o fato de que os mundos de so­ nho na tela correspondiam muito de perto à psique do adolescente em desenvolvi­ mento. Segundo G. Stanley Hall, este período “é marcado por uma intensificação muito emocional da vida de sonhos, e em nenhuma outra idade a sua influência é tão marcante sobre os humores e disposições da consciência desperta”. Ele sentia que a puberdade era marcada por uma “absorção interior e por sonhos” que poderiam acabar em “narcose”. Quando o peephole foi substituído pelo projetor, os filmes cresceram em popularidade. Era mais agradável, e muitas vezes mais barato, ver imagens numa tela grande: também dava aos jovens um lugar sancionado para estarem juntos, no escuro. A natureza comunitária da ida ao cinema foi acentuada pela introdução dos nickelodeons em meados da década de 1900. Estes teatros mais formalizados eram tão populares que, para observadores como Jane Addams, pareciam ter “surgido de repente, de algum modo, ninguém sabe por quê”. Estimava-se que crianças e jovens formassem entre um quarto e metade da “nova platéia de cinema”. A maioria era composta por filhos de novos imigrantes, visto que os nicke­ lodeons quase sempre eram montados nos distritos das classes operárias e pobres. No cinema, os jovens americanos podiam ver sua própria experiência refletida 136

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como em nenhum outro lugar. Os “caça-níqueis”, particularmente nas apresen­ tações à tarde e no início da noite, também conferiam uma certa liberdade em relação à supervisão dos adultos. Addams notou que “jovens freqüentam teatros de cinco centavos em grupos, com algo do instinto de gangue’, gabando-se dos filmes e façanhas no nosso teatro’”. Eles podiam fazer isso porque muitos ainda ganhavam. A frequência compul­ sória às escolas secundárias ainda não impedira a mão de obra adolescente. Um estudo da década de 1910 sobre estudantes de Iowa descobriu que mais de dois terços dos rapazes em idade escolar recebiam salários fora das horas de estudo. O número era menor para as moças, pouco menos de um quarto. Assistir a “pro­ gramas de cinema” era um de seus modos de entretenimento preferidos: pouco menos da metade dos meninos e dois terços das meninas da pesquisa viam entre um e seis filmes por mês. Em 1910, as novas imagens em movimento atraíam uma platéia semanal de 10 milhões de pessoas. Muitos reformadores pensavam que os filmes tinham um efeito perturbador sobre os jovens. Jane Addams citou “um eminente alienista de Chicago” que afirmava ter atendido a “muitos pacientes entre crianças neuró­ ticas” que haviam “se tornado vítimas de alucinações e distúrbios mentais” depois de freqüentarem regularmente os teatros. Ainda mais alarmante eram as “crianças” que moldavam seriamente “suas condutas segundo os padrões definidos diante delas nestes palcos mímicos”. Addams citou o caso de três meninos entre nove e 13 anos de idade que, tendo visto um assalto a uma diligência na tela, tentaram “laçar, assassinar e roubar” o leiteiro local: “Felizmente para ele, quando jogaram o laço, o cavalo se assustou.” Num sensacional julgamento, em 1912, no qual um adolescente era acusado de assassinar a sangue-frio o seu amigo durante um assalto frustrado a um trem, o famoso filme O grande roubo do trem, de Edwin Porter —na época em exibição na localidade -, foi citado nos noticiários pela imprensa como a causa da violência: a tragédia era “uma reprodução exata do filme”. Casos como estes, onde o criminoso citava os filmes como inspiração para seus crimes, só alimentavam a condenação desta nova forma pelos adultos. Entre­ tanto, tentativas de controlar a indústria fracassaram pelo fato de que ela se ex­ pandia mais rapidamente do que as instituições montadas para administrá-la. Em 1909 criou-se o National Board of Censorship, mas até 1914 ele aprovou 95% de todos os filmes submetidos à sua censura. O resultado foi uma liberdade considerável não apenas para deslumbrar a América mas também para examinar os seus pontos fracos: a década de 1910 viu uma variedade de filmes que retrata­ vam as falhas na sociedade americana. A experiência de ir ao cinema foi desencadeada por um quadro de exploração. Nas guerras declaradas entre empresas estabelecidas, como a Biograph, e os novos NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS

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independentes, as iniciantes começaram a exibir filmes mais longos, de longametragem, nos antigos teatros de vaudeville. O poder de atração destes locais maiores, com sua capacidade de audiência aumentada e mais luxuosos, foi de­ monstrado pelo inesperado sucesso de uma das primeiras apresentações, Traffic in Souls, de 1913. Esta dramatização do “comércio de escravas brancas” foi uma sensação: 30 mil pessoas viram o filme na primeira semana, muitas delas moças com idades entre 16 e 18 anos. Naquele mesmo ano, a delinqüência juvenil fez sua aparição em Saved by theJuvenile Court- uma interpretação do trabalho de reabilitação realizado pelo juiz reformador Ben Lindsey. Este primeiro filme colocava de maneira firme a juventude delinqüente dentro da estrutura do controle legal, mas as gangues de rua adolescentes e seus correspondentes mais maduros foram amplamente exibidos em Regeneration, de Raoul Walsh, filmado com gângsteres de verdade nas ruas do Bowery e no Lower East Side. Baseado nas memórias de um líder de gangue do Bowery, Owen Kildare, o filme captou os bairros pobres de judeus da década de 1890, época em que estavam desaparecendo. Outros filmes naquela fase inicial tratavam de problemas dos jovens com um brilho reformador. O vício e a embriaguez entre os adolescentes foram mostra­ dos na adaptação por Jack London, em 1914, do seu romance Memórias de um alcoólico: John Barleycom: com suas cenas de crianças bêbadas, foi saudado como “um forte apelo à abstinência”. Naquele mesmo ano, The Drug Traffic ressaltou a necessidade de maior controle sobre narcóticos, retratando a morte de um tí­ pico jovem americano relacionada com o uso da morfina. Entretanto, eles eram a exceção e não a regra: os filmes nunca foram concebidos como uma forma pu­ ramente documental ou socialmente consciente. Eram uma distração: mesmo quando lidavam com assuntos contemporâneos, os filmes muitas vezes estavam atrasados ou eram de um sensacionalismo grosseiro. Não estavam ali para refletir a realidade, eram um “téâtro” onde se representavam os dramas fictícios. Embora uma certa confusão entre os dois talvez fosse inevitável nos seus primórdios, era óbvio, na década de 1910, que o cinema representava uma “terra encantada” que industrializou o gosto americano pela fantasia numa nova mídia cujo poder não tinha precedentes. O mágico de Oz tinha encontrado o modo perfeito de fascinar a percepção dos cidadãos da Cidade de Esmeraldas. A relação dos filmes com a juventude americana era psicologicamente íntima. Por um lado, eles representavam um mundo de fantasia que oferecia uma pausa no cotidiano. Por outro, começaram a produzir imagens que refletiam aspectos da vida adolescente que, sutilmente ficcionalizadas, realimentavam psiques férteis. A conseqüência foi uma sofisticada dança entre platéia e produtores: os estúdios podiam ter a chave na medida em que faziam o produto, mas a platéia tinha o 138 | 1904-1913

poder de conceder ou negar o sucesso. Com frequência, como no caso de Traffic in Souls, isso podia ser inesperado. O que os jovens freqüentadores de cinema queriam era uma versão intensi­ ficada da realidade, com a qual pudessem se identificar e que, ao mesmo tempo, os transportasse para um outro mundo. Estas aspirações fundiram-se num novo tipo de figura pública criada por estímulo da imprensa. Até a década de 1910, os atores de cinema tinham gozado de baixo status. Geralmente anônimos, quando citados eram os representantes da empresa - a “Moça da Biograph”. No início de 1910, para negar boatos intencionalmente vazados de sua morte num acidente de carro, a Biograph citou a sua “moça” como sendo Florence Lawrence. Duas semanas depois, Florence foi anunciada num artigo de jornal que dizia: “Os produtores estão começando a entrar em acordo sobre a exigência do público de informações sobre seus atores e vêm reconhecendo o valor de suas per­ sonalidades.” Foi previsto que “vai chegar a hora em que estes atores exigirão os serviços de assessores de imprensa como qualquer outra atração estelar”. Ao mes­ mo tempo, a Variety descrevia Florence Lawrence, de vinte anos, como a “estrela do cinema”. No início de 1912, ela era a “Moça de um milhão de rostos”. Como uma das primeiras estrelas citadas, Florence Lawrence simbolizava um corpo celestial - uma estrela infantil no estilo Pã de Oscar Wilde, materiali­ zada numa forma feminina jovem, atraente, que era em seguida reproduzida eletronicamente mil vezes, ampliada além do seu tamanho natural na tela e fi­ nalmente consumida pelas massas. Nesta nova religião pagã,1 o astro era o deus ou a deusa. Não demoraria muito e seus personagens emergiriam como a versão do século XX do Olimpo na Grécia Antiga: um intricado sistema de valores de impulsos humanos abstraídos que podia ser aplicado tanto à vida nacional quanto às necessidades individuais. A adolescência foi importantíssima para este sistema, exemplificando a atração sexual e a inocência idealizada. Congelada no celulóide, a juventude do astro podia parecer tão eterna quanto aquelas aceitas nos fictícios Dorian Gray ou Pe­ ter Pan, uma qualidade que podia ser atribuída às suas vidas reais. O romancista Booth Tarkington observou a respeito do protagonista mais popular da época, o elegante e musculoso Douglas Fairbanks: “Ele nunca envelhecerá - a não ser que o mercúrio possa envelhecer.” Na verdade, a juventude era um prêmio tão grande que seria induzida por meios artificiais, principalmente nos primórdios do sistema estelar.

1 Esta qualidade pagã foi reforçada pelo primeiro sucesso de bilheteria, o filme Intolerance, de D. W. Griffith, em 1916. Embora baseado na história bíblica de Belsazar, ele fez da decadência babilônica algo sensacional graças ao enorme cenário, espetacularmente decorado. Essa era a visão de Rochegrosse de Les demiersjours de Babylone.

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Os filmes tinham o poder de embaçar a distinção entre realidade e fantasia. Uma das atrizes mais populares da época, Theda Bara, depois do sucesso de A Fool There Was, de 1915, tornou-se o modelo clássico da mulher fatal: olhos delineados a kohl e chamejantes, de “desenfreado erotismo”. O departamento de imprensa do seu estúdio a descrevia como a “filha de uma princesa, amamentada com o sangue de serpentes, dada em casamento místico a uma Esfinge”, mas na verdade ela era Theodosia Goodman, filha de um alfaiate de Ohio. A máscara funcionou perfeitamente: quando mudou de tipo, sua carreira acabou. Esta era apenas uma das armadilhas do novo sistema. As demandas por estes deuses industrializados estavam começando a aumentar. Além da necessária reforma para transformar uma pessoa real numa abstração, e a correspondente confusão psicológica que isso gerava, as identidades eram totalmente construídas segundo as determinações do estúdio. Em contraste com a inocente menina de 12 a 16 anos, de cachos resplandecentes, que ela representava, a Mary Pickford da vida real tinha vinte e poucos anos, estava separada do marido, tinha um caso, gostava de usar unhas longas e fumar cigarros. A estrela estava se tornando um monstro de Frankenstein. A elisão de idade verdadeira e fictícia também era personificada na figura de Charlie Chaplin, que transformou o vagabundo num arquétipo cômico. Para o crítico Parker Tyler, o vestuário famoso de Chaplin, com calças folgadas e paletó justo, representava “um paradigma de como o adulto era visto pela criança a seus pés que olhava para a altura invejada lá em cima”. Chaplin começou a fazer fil­ mes em 1914, pouco antes do seu primeiro grande sucesso, O vagabundo, que eter­ nizou sua imagem. Ao escolher esta figura de rejeitado como um “Deus da Máfia”, Chaplin intencionalmente representou um dos maiores pesadelos da burguesia. O fechamento da fronteira significava a demonização do viajante. Nos mea­ dos da década de 1910, o vagabundo era uma perturbadora lembrança de um pas­ sado selvagem que muitos americanos estavam ansiosos para esquecer. Histórias escandalosas sobre um tumulto provocado pelos sem-teto em Nova York, durante o inverno de 1914, reafirmou a ameaça que o vagabundo sugeria ao tecido or­ denado da vida social americana. Assumindo a figura desta que era a mais des­ prezada de todas, utilizando todo o talento e recursos técnicos à sua disposição, Charlie Chaplin trouxe à luz o submundo disfarçado de entretenimento. A ideia de que os astros podiam tornar atraentes pessoas estranhas ao meio acrescentava mais um gostinho ao fascínio exercido pelo cinema. Proscritos foram durante muito tempo heróis americanos e nada podia ser mais atraente para os jo­ vens do que uma figura que seus pais odiavam. Em Morte nafamília, James Agee descreveu a reação da sua mãe puritana ao ver pela primeira vez O vagabundo: Chaplin “num movimento rápido segurou a bengala pela ponta e, com a outra ex­ tremidade curva enganchada na saia dela (da atriz), ergueu-a até o joelho, exata­ 140 | 1904-1913

mente do jeito que desagradou a mamãe, olhando com muita ansiedade para as suas pernas, e todo mundo caiu na gargalhada, mas ela fingiu não ter notado”. Com a sua dança de equilibrismo entre exploração e moralidade, estes pri­ meiros filmes personificavam perfeitamente a característica americana que Rupert Brooke definiu como a “combinação de selvageria total e regulamento total”. Quando o “distrito do vício” em San Francisco foi fechado em 1913, um jovem operador de câmera chamado Hal Mohr filmou os festejos finais. Os anúncios para The Last Night ofthe Barbary Coast promoviam o estilo de vida da zona do prazer no momento do seu desaparecimento: “Veja os famosos Turkey Trot, Te­ xas Tommy, Bunny Hug. Veja os salões de baile negros com seus próprios estilos de dançar jamais vistos antes.” * * * Ainda mais do que o cinema, a música popular americana colidiu com o ir e vir entre hedonismo e puritanismo vivido pela sociedade dos pais. Durante os primei­ ros anos do século XX, a indústria musical continuou a se expandir rapidamente; entre 1890 e 1909, a receita proveniente de partituras mais do que triplicou, en­ quanto que nesse último ano mais de 27 milhões de discos e cilindros para fonógrafos foram produzidos. Em 1914, o número tinha subido para 31 milhões. Ansiosas por novos produtos, as editoras e gravadoras continuaram lançando o que tivessem nas mãos. Enquanto os best-sellers do período eram as grandes baladas sentimentais, o ragtime continuava crescendo em popularidade. Sua expansão cultural teve a ajuda de uma forte migração interna. Com a imigração europeia seriamente li­ mitada depois da deflagração da guerra em 1914, industriais do norte começaram a procurar ativamente à sua volta uma nova fonte de mão de obra, chamando negros do sul para preencherem os empregos criados pelas demandas da produção de guerra. Em poucos anos, quase um milhão de negros mudaram do sul para os principais centros urbanos como Nova York, Chicago e Detroit, levando consigo seu estilo de vida. Com muito mais artistas negros encontrando uma platéia pronta fora do sul, o ragtime e o blues continuaram a sair dos círculos viciados das cidades po­ bres. Esta diáspora aumentou sua popularidade entre os jovens brancos. O ragtime pode ter sido filtrado através dos guetos negros desde os meados de 1890, mas o primeiro milhão de vendas do estilo foi alcançado por Irving Berlin, com o su­ cesso de 1911, “Alexanders Ragtime Band”. Foi preciso um homem branco para realmente vender música negra, à medida que estilos anteriormente subterrâneos chegavam à sociedade como loucuras exploráveis. Este era o acordo: o novo mé­ todo de intercâmbio. NICKELODEONS E DANÇAS IMITANDO ANIMAIS

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O sucesso do cruzamento do ragtime estimulou comentários desfavoráveis, na certa por causa do fascínio que exercia sobre os jovens. O MusicalAmerican achava que o ragtime era como uma droga que viciava. Em 1913, o Musical Courier afir­ mou que a América estava “sendo vítima da alma coletiva dos negros através da influência do que popularmente se conhece como música ‘ragtime ”. Isto nada mais era do que “um desastre nacional”, visto que o ragtime era “símbolo da mo­ ralidade primitiva e das perceptíveis limitações morais do tipo negro. Ali a res­ trição sexual é quase desconhecida, e se concede a mais selvagem amplitude de incerteza moral”. O vínculo entre música, raça e sexualidade confirmava-se aos olhos dos mo­ ralistas pelas “danças imitando animais” que inundavam os bairros pobres depois do sucesso de “Alexander s Ragtime Band”. Começando com o sucesso do turkey trot, uma dança muito rápida e animada que evoluiu do cakewalk comunitário do século XIX, todo um bestiário irrompeu nas pistas de dança da nação com o acompanhamento do ragtime: danças como o bunny hug, o grizzly bear, o monkey glide, o possum trot e o kangaroo dip. Como Irving Berlin observou no seu su­ cesso de 1911: “Todo mundo está fazendo isso agora.” Nas danças de animais, os participantes inventavam seus movimentos na hora. Em vez de se abraçarem a distância decorosa de um braço na formalidade da valsa ou da polca, os dançarinos giravam pela pista com braços e pernas en­ trelaçados. No turkey trot, a metade inferior do corpo da mulher, da cintura até o joelho, ficava enfiada nas pernas do seu parceiro. O grizzly bear consistia de um abraço de corpo total que passava longe dos padrões anteriores da decência. Este deslizar e trepidar era uma atividade associada com os artistas do teatro burlesco e com os negros, não com jovens brancos bem-educados. Os jovens americanos não se importavam. Como a terra de sonhos ofereci­ da pelo cinema, as danças de animais eram feitas sob medida para a sua psique. “Adolescência é o período de ouro para o nascimento do ritmo”, Stanley Hall havia notado. “Dançar é umas das melhores expressões de pura recreação e das necessidades motoras dos jovens.” Mais praticamente, os salões de dancing que haviam surgido para satisfazer a loucura representavam lugares públicos onde os adolescentes trabalhadores da América podiam se encontrar longe da supervisão dos adultos, e onde podiam fazer a corte nos seus próprios termos. As moças assumiram o comando. Num levantamento realizado em 1911 sobre o entretenimento em Nova York, descobriu-se que 88% das meninas ad­ mitiam saber dançar; quase todas diziam que gostavam. Algumas moças operárias de Manhattan, segundo a terapeuta de jovens Ruth True, passavam “várias noi­ tes por semana nos salões de baile”. Muitas moravam em lares para moças que, conforme notou Ruth, “não eram lugares muito propícios para entretenimentos 142 | 1904-1913

e diversões. São muito apertados e muitas vezes miseráveis”. Em particular, “visitas de amigos do sexo masculino” eram “malvistas”. No salão de baile, as mulheres podiam dançar independentemente. Um re­ latório de 1911 feito por dois reformadores adultos captou o ritual: “Uma grande maioria de moças chegava sozinha, assim como os rapazes, cada um encontrando parceiros no salão. Poucas apresentações eram vistas; duas moças dançam juntas e dois rapazes, a cujo gosto elas convêm, tiram-nas para dançar. Alguns indivíduos conversam com elas depois da dança, e outros não.” Eles concluíram que, embora as moças “fossem inteligentes, felizes e gostassem de se divertir”, não pareciam se importar com o “tipo de rapaz que encontravam”. A loucura tomou conta da cidade. A revista Life relatou em 12 de fevereiro que as danças de animais prosperavam “em cima, embaixo e no meio. O círculo dançante na nossa cidade deve ter a força de meio milhão”. No seu guia da vida noturna de Nova York, de 1913, Julian Street observou que a dança havia criado uma “mistura social jamais sonhada neste país - uma miscelânea heterogênea de pessoas em que respeitáveis mulheres jovens, casadas e solteiras, e até debutantes, dançam, não apenas sob o mesmo teto, mas na mesma sala, com mulheres da cidade. Liberté —Egalité - Fraternité”. As implicações revolucionárias de uma loucura que parecia estimular a mis­ tura de classes e raças provocaram uma forte reação negativa. Grupos reformadores tais como a Commission on Amusements, de Nova York, e o Vacation Resources for Working Girls já haviam criticado os salões de baile por promoverem “licenciosidade e deboche”, e mandaram seus investigadores a hotéis requintados e so­ ciedades dançantes. Manchetes como “Movimento começa a proibir turkey trot’ e grizzly bear na Quinta Avenida” exploravam o pânico maior de uma vertigi­ nosa queda dos padrões morais. Isto foi resumido num artigo histérico no exemplar de agosto de 1913 do Current Opinion, que fervilhava: “Soou a Hora do Sexo na América: uma onda de histeria sexual e discussões sobre sexo parece ter invadido este país.” As danças imitando animais foram associadas ao aumento da escandalosa prostituição e à difusão do comércio de escravas brancas: o rapto e a intoxicação com drogas de moças para propósitos sexuais. Não há muitas dúvidas de que ambos ocorriam nos salões de taxi-dance - salões onde os clientes pagavam uma taxa para dançar, em geral com uma moça —, mas nada como a horripilante dimensão promovida pela imprensa e por filmes como Traffic in Souls? No entanto, a publicidade teve o efeito desejado. 2 O Congresso já havia aprovado o White Slave Traffic Act de 1910, mais tarde conhecido como o Mann Act, que proibia, inter ãliã, o transporte de mulheres com menos de 16 anos nas fronteiras estaduais. Isto foi usado para cortar as asas do campeão mundial de boxe negro da categoria de pesos-pesados, Jack Johnson, preso sob uma falsa acusação em 1913.

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“Os salões de baile hoje em dia são, notoriamente, grandes fatores na derru­ bada da moralidade”, escreveu o criminalista William Healy no seu estudo enciclo­ pédico The Individual Delinquent, de 1915. Os reformadores e as autoridades fizeram o máximo para policiar a loucura. Incapazes de fechar totalmente os sa­ lões ou acabar com a mania de dançar, eles se voltaram para as zonas urbanas de onde esse vício havia se originado. Exatamente no momento em que a música negra americana encontrava uma audiência maior, nacional e internacionalmente, os antros em San Francisco e St. Louis foram segregados e, em seguida, total­ mente fechados. Mas já era tarde demais pois, desafiando os reformadores e os legisladores, mi­ lhares de jovens americanos continuaram a se aglomerar nos salões de baile todas a noites da semana. Eles votavam com seus pés. A popularidade das danças de animais ilustrava o fato de que, durante as primeiras duas décadas do século XX, os adolescentes estavam começando a encontrar a sua própria cultura nos entre­ tenimentos urbanos exuberantes e gregários. Longe de serem respeitáveis, estes divertimentos originaram-se daqueles grupos proscritos aos quais foram atribuí­ das as mesmas qualidades atávicas, por assim dizer. Conforme a juventude tornava-se uma parte integrante da cultura de massa americana, ela dava aos adolescentes um novo incentivo para explorarem aquela mesma selvageria que outras instituições americanas - a escola em particular tentavam domar. Se não bastasse essa contradição, o projeto nacional de associar a juventude ao prazer teve outra conseqüência. “Este tipo de juventude é transitó­ rio”, escreveu o radical especialista em jovens, Randolph Bourne. “O prazer tra­ ma para se exaurir muito rapidamente, e a juventude se vê deixada prematuramen­ te com as cinzas da meia-idade.” A rápida rotatividade de astros, moda e estilos de dança que marcaram a nova economia de consumo cultuava os transitórios entusiasmos da adolescência ao mesmo tempo que proporcionava um modelo industrial ideal de veloz obso­ lescência. Eles também desviavam com êxito a grande maioria dos jovens ame­ ricanos daquilo que radicais como Bourne pensavam ser a sua verdadeira tarefa: desafiar a agenda natural dos adultos. Entretanto, estes privilégios tinham um preço. A jovialidade industrializada da cultura popular americana, ao atualizar com eficiência a intensidade dos românticos, também bebia em grandes goles do seu poço de morbidez.

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PARTE

III

1912-1919

CAPÍTULO

10

Invocação O abismo entre gerações na Europa * * * A reprodução é sempre sacrificial. - G. Stanley Hall, Adolescence (1904)

FRANCÊS CORNFO RD EM ATITUDE E TÚNICA NEOPAGÃS, AG OSTO DE 1914

DURANTE O A N O DE 1912, dois jovens intelectuais franceses chamados Henri Massis e Alfred de Tarde fizeram um estudo de todos os parisienses do sexo mascu­ lino, entre 18 e 25 anos de idade, que estivessem recebendo educação de nível médio ou superior. A amostragem não era representativa da população, mas captava o modo como um segmento influente da juventude metropolitana pen­ sava a respeito de si mesmo e do seu lugar na sociedade. Por sua vez, a amostragem teve uma ressonância mais ampla porque, na expectativa do momento em que assumiria o poder, esta elite tinha mais probabilidade do que seus contemporâ­ neos de se considerar uma classe de jovens diferente. O estudo tinha a sua própria tendência. Massis e de Tarde eram tradiciona­ listas quando se tratava de educação. Na opinião deles, a substituição do estudo clássico por sociologia “teutônica” era apenas um exemplo de um currículo que deixava de satisfazer às necessidades espirituais da juventude francesa. Massis já tinha publicado uma monografia em homenagem a Maurice Barrès, a quem re­ conhecia o mérito de ter dado à sua geração, cética e em busca de uma doutrina “que nos devolveria a energia que vem da vontade”, um propósito com sentido renovado. Conforme ele concluiu: “No dia que descobrimos Barrès, nós nos des­ cobrimos também.” Tendo revelado um novo tipo de jovem, que rejeitava o sistema liberal, tec­ nológico e cosmopolita prevalecente, Massis e de Tarde decidiram, como muitos futuros pesquisadores de mercado, fazer uma pesquisa com um resultado pré-configurado. Coletado no ano seguinte no livro Lesjeunes gens daujourd’hui e publica­ do sob o pseudônimo clássico de Agathon —que na história grega foi discípulo de Sócrates, “bravo na guerra” -, o estudo alcançou plenamente seu objetivo. Como um daqueles que foi pesquisado queixou-se amargamente: “Tudo no ensino deles nos forçava a servir como escravos apáticos ou a nos exasperar em rebeldia.” Agathon descobriu um abismo entre gerações. A enquête comparava os rapazes de 1912 com os que chegavam à maioridade em 1885. A geração anterior tinha sido pessimista, exageradamente intelectual, relativista e agnóstica —qualidades que a haviam levado, ela mesma, à decadência, e a própria França à sua abjeta posição durante a década de 1870. Cansada do que enxergava como o recente caos na França, a geração que surgia adotou a posição contrária. O rapaz de 1912 tinha “exilado a falta de autoconfiança”: era “sua característica criar ordem e hie­ rarquia, assim como os mais velhos do que ele tinham criado desordem e ruínas”. Isto dava um novo rumo ao choque de gerações: os filhos rebelavam-se con­ tra pais que não eram conservadores, mas liberais, até decadentes. Era como se Rimbaud, em vez de ser uma testemunha traumatizada da guerra, fosse diretamen­ te responsável, por meio da poesia, pela ignóbil derrota da Franca em 1871. Ha­ via nisto uma história pessoal: Massis era amigo do sobrinho de Maurice Barrès, Charles Demange, que se suicidou em 1909. Para Massis, Demange “tinha

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muita pressa de viver; e esta sua febre tinha algo de assustador. Ele tinha nervos excelentes, mas abusou deles”. Buscando uma saída desta intensidade adolescente e do “culto do eu”, Massis e de Tarde foram atrás de exemplos heroicos para confirmar o nacionalismo de Barrès. Encontraram o modelo perfeito no escritor Ernest Psichari, na época com vinte e tantos anos: no fim da adolescência ele flertara com o socialismo e, em 1903, chegara à beira do suicídio. Neste ponto de crise, Psichari ingressou no serviço militar compulsório e decidiu alistar-se como soldado regular. Pelo resto da década, serviu nas regiões mais remotas da África - um eco do desapa­ recimento de Rimbaud. Publicado em 1913, no mesmo ano que o estudo de Agathon, o romance de Psichari, Uappel des Armes, dramatizava o choque de gerações ao inverter a “relação normal nas atitudes” ao apresentar um pai progressista e um filho conser­ vador. Enviado para a África no serviço militar, Maurice Vincent fica fascinado com um capitão que é “uma grande autoridade do passado”: “puro, ilibado, não contaminado pela modernidade”. Progresso é uma forma de americanismo, e o “americanismo o desagradava”. No final do livro, Vincent é o soldado perfeito, “a própria personificação da França”. Como a religião, o serviço militar cultuava a renúncia ao ego pelo bem maior, definido neste caso como a pureza e a fé de uma França esquecida. A associação de religião e militarismo era reforçada por outra importante influência sobre Aga­ thon, o escritor Charles Péguy, que em 1910 publicou o polêmico Notrejeunesse. Péguy expressou uma desilusão apocalíptica: “Somos os últimos. Quase aqueles depois do último. Imediatamente depois de nós começa o mundo que chamamos de... o mundo moderno. O mundo que tenta ser mais esperto. O mundo dos in­ teligentes, dos avançados... Isto é: o mundo daqueles que não acreditam em nada.” A principal mensagem de Agathon era a de que a geração de 1912 havia as­ sumido naturalmente as qualidades pelas quais precursores como Psichari e Péguy tiveram de lutar. Aqueles com 18 a 25 anos na época eram homens de ação, in­ teressados em aeroplanos e esportes em vez de livros. Atraídos pelo catolicismo, eles eram mais sexualmente conservadores do que a geração de 1885 e mais rá­ pidos em aceitar responsabilidades adultas. Desgostosos com a corrupção da Terceira República, eles buscavam a redenção na futura guerra com a Alema­ nha. A combinação de “batalha misturada com orações” levava inexoravelmente a um martírio típico de Cruzada. Lesjeunes gens daujourdyhui foi um sucesso midiático. Um romancista daquela mesma classe de 1885 que havia sido execrada como “incapaz” retrucou afirmando que o jovem típico da nova geração estava “intensamente apaixonado pelo prazer e por jogos violentos, sendo facilmente iludido pela retórica do seu tempo, incli­ nado pelo vigor de seus músculos e pela preguiça de sua mente às brutais doutrinas INVOCAÇÃO

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da Action Française, nacionalista, realista e imperialista”. Maurice Barrès, entre­ tanto, pensava que “a nova geração agora ascendente anunciava-se como uma das melhores que o nosso país já conheceu”. * * * O estudo de Agathon foi uma das muitas tentativas europeias de delinear novos movimentos juvenis no período imediatamente anterior à guerra. Estas buscavam traduzir a vitalidade do jovem e a sua nova importância social num programa artístico e/ou social. Até então, a juventude tinha sido um estado definido princi­ palmente pelos adultos: agora os sujeitos destas definições clamavam para ter sua própria voz. Abstraída nestes tratados, a juventude tornou-se uma religião em si mesma, uma apoteose que se materializou em 1911, quando o místico de 16 anos, Jiddu Krishnamurti, levado para Londres pelos teosofistas, foi anunciado como o primeiro messias adolescente. Estes anos foram a primeira era dourada do manifesto, conforme ondas su­ cessivas de jovens irados anunciavam a sua chegada em ambiciosas invocações do “eterno alvorecer” por vir e em sonoras denúncias de seus pais. Havia muitas ra­ zões para isso: o progresso do ensino superior; o aperfeiçoamento nas comunica­ ções e na mobilidade social; a frustração com o lento ritmo das mudanças sociais. Havia também forças psicológicas mais profundas em jogo. Embora o conflito entre pai e filho já fosse um tropo literário, a criação do termo “complexo de Édipo” por Freud, em 1910, inflamou ainda mais o conflito entre gerações que vinha cozinhando em fogo brando. O manifesto é o estilo clássico do adolescente sem paciência. Vivendo num mundo governado pelos mais velhos, é claro que os jovens veem tudo que está er­ rado, mas são impotentes para realizar mudanças. Em vez disso, têm de continuar vivendo segundo as regras que sabem com todas as suas fibras serem obsoletas. A frustração extravasa numa retórica polarizadora que não admite tons acinzen­ tados, só o preto e o branco. Como o escritor expressionista de 21 anos de idade, Hans Leybold, escreveu no seu manifesto Revolution, de 1913: “Vocês, pessoas respeitáveis! Vocês, os bem-educados! Vocês, os mandachuvas! Devíamos colocar a língua pra fora para vocês! Meninos, vocês dizem. Velhos! Vamos responder.” Essa foi também a era dos “istas”: os cubistas, os expressionistas, os futuristas, os vorticistas. Na medida em que um grupo rivalizava com o outro para ser o mais radical, o mais controverso, aderir significava mais do que simplesmente fazer parte de um movimento: era a rendição total dentro de um etos tão poderoso que era como se fosse uma religião. Isto mais correspondia à visão de adolescência de Stanley Hall: ele achava que a conversão religiosa era “um processo normal, uni­ versal e necessário” nesta fase da vida. Numa era em que alguns membros da avant150

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garde pensavam que Deus tinha morrido, ser um extremista era um substituto mais que satisfatório. Estas ideologias de formas mais nítidas foram marcadas pela mudança de sentido de uma palavra-chave. Nos meados do século XIX, o termo “geração” era usado para descrever “todos os homens que viviam mais ou menos na mesma época”. Na América, ele descrevia a assimilação de imigrantes na sociedade: pri­ meira ou segunda geração. Em 1900, a palavra assumiu uma conotação juvenil: termos como “a nova geração” eram comuns, uso que devolveu a palavra à sua raiz latina —literalmente “vir a ser”. Também afinava-se com o discurso prevalecente na década de 1890 de degeneração e regeneração: aquela luta pelo futuro da corrida das nações na qual os jovens ocupavam a linha de frente. A definição de juventude como uma classe em destaque ocorreu ao mesmo tempo que o uso geral do sufixo “geração” como controlador de ideias sociais. En­ tretanto, os adultos também haviam promovido a autoconsciência daquela classe recém-iluminada —com imprevisíveis resultados, da mesma forma com que o monstro de Frankenstein virou-se contra o seu criador. Consciente ou inconscien­ temente, os novos partidários da juventude perceberam que o primeiro passo na reivindicação do poder era anexar a palavra ao núcleo de todas aquelas disciplinas adultas. Durante a década de 1900, portanto, “geração” deixou de ser uma pala­ vra controladora, tornando-se, ao contrário, o toque de um clarim extremista. “Sempre que uma geração se apresenta no terraço da vida parece que a sin­ fonia do mundo vai atacar um novo tempo”, escreveu o polêmico italiano Giovanni Papini na sua autobiografia publicada em 1912, Un uomo finito. Esta foi uma das mais puras expressões do impulso generacional deste período: “Para o homem de vinte anos, todo velho é um inimigo; todas as ideias são suspeitas; todo grande homem deve ir a julgamento; a história passada parece uma longa noite quebrada apenas por lâmpadas, uma espera cinzenta e impaciente, um eterno alvorecer daquela manhã que emerge hoje finalmente conosco.” Entretanto, neste início, a busca pela liberdade foi dificílima. Tendo forçosa­ mente se divorciado da experiência de seus antepassados e se afastado do que era conhecido, estes jovens extremistas tiveram de aguentar as conseqüências desse distanciamento. Implícito na ideia do abismo entre gerações havia o forte senti­ mento de que a geração que surgia era, como escreve Robert Wohl em The Generation o fl9 l4 , “única, sacrificada e perdida”. Dentro deste vácuo, muitos destes extremistas acabariam por espelhar os valores que tão violentamente rejeitaram. * * * As primeiras utilizações desta retórica generacional foram estéticas. Em 1906, os pintores alemães da escola Die Brücke, A Ponte, convocaram “todos os jovens a INVOCAÇÃO

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se reunirem” a fim de “criar espaço para se movimentar e liberdade existencial contra as forças estabelecidas dos mais velhos”. Na prática, entretanto, o resultado foi um mero refinamento de estéticas expressionistas e fauvistas existentes. Os futuristas na Itália, entretanto, se apresentavam como uma ruptura radical. No seu jornal Leonardo, Giovanni Papini já havia convocado os jovens italianos a jogarem para o alto a prudência e viverem em busca de aventuras, sonhos e “programas eternos”. Influenciado por esta retórica generacional e pela prática, em seu país, da polêmica violenta pessoalmente direcionada chamada la stroncatura, o artista F. T. Marinetti, em fevereiro de 1908, anunciou sua visão de um mundo do futuro dominado pelo princípio da juventude. “Os mais velhos entre nós têm trinta anos”, ele declamou no manifesto futurista, “portanto, temos pelo menos uma década para terminar nosso trabalho. Quando estivermos com quarenta, outros homens mais jovens e mais fortes provavelmente nos jogarão na lata de lixo como manuscritos inúteis - queremos que isto aconteça!” Entretanto, o mais importante no manifesto de Marinetti foi sua incorpora­ ção da tecnologia. Com a evolução do automóvel, do aeroplano, do rádio e do cinema, os homens agora rompiam os limites de seus corpos e se lançavam no tempo e no espaço como nunca antes. “Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se com uma nova beleza”, escreveu Marinetti, “a beleza da velocidade. Um carro de corrida cuja capota é adornada com grandes cilindros, como serpentes de fôlego explosivo - um carro roncando que parece montado numa bala de metralhadora é mais belo do que a Vitória de Samotrácia.” Este foi um rompimento significativo com a adoração à natureza do Wan­ dervogel ou dos Neopagãos: em vez de algo que se devia abominar, o homemmáquina devia ser celebrado. Conforme Marinetti alertava: “Já vivemos no ab­ soluto, porque criamos a velocidade onipresente, eterna. Nós glorificaremos a guerra —a única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto des­ trutivo dos que trazem a liberdade, ideias belas que merecem que se morra por elas, e desprezo pela mulher. Nós destruiremos os museus, as bibliotecas, as aca­ demias de todos os tipos, combateremos o moralismo, o feminismo, todas as covardias oportunistas ou utilitárias.” Os futuristas viraram a manivela da aceleração estética e intelectual que informaria tantas coisas na vida do século XX. O preço foi muito alto, entretanto, à medida que Marinetti e seus pares na belicosa “Jovem Itália” lançavam-se num território desconhecido. Na sua reação contra a percebida “feminilidade” da deca­ dência, eles exaltavam as rígidas certezas do nacionalismo, as exigências da dis­ ciplina externamente imposta, e a violência gratuita que marca uma patologia masculina particular e defendida. Não havia lugar para o sexo feminino no novo mundo jovem de Marte. 152 | 1912-1919

A retórica de Marinetti cultuava a combinação de paganismo com tecnologia que entremeava o período: o “barbarismo com luzes elétricas” de Stanley Hall. A sua brutal polêmica, entretanto, deu frutos numa visita a Londres, em junho de 1914, quando ele foi atacado pelos adeptos de um novo movimento artístico. Apesar da sua forte influência futurista, os vorticistas e seu líder, Percy Wyndham Lewis, não eram avessos a uma pitada de parricídio. Diante de um grupo tão ruidoso e demolidor quanto qualquer outro convocado pela sua retórica, Marinetti entrou numa discussão progressiva sobre velocidade que o quebrou “numa cen­ tena de pedaços cheios de ódio”. Os vorticistas lançaram sua primeira publicação em junho de 1914, uma grande revista marrom arroxeada que codificava sua posição no título - Blast. Escritos pelo pugilista Wyndham Lewis, os opostos maniqueístas do manifesto, tipograficamente organizados em páginas encabeçadas com “BLAST” e “BLESS”, injetaram uma nova e dura nota na vida cultural britânica. Rejeitando a polidez do grupo de Bloomsbury, os vorticistas buscavam sintetizar modernismo europeu com escultura polinésia, e empurravam o encanto futurista com a tecnologia e o urbanismo em direção a uma estética dura: “Somos mercenários primitivos no mundo moderno.” A vitalidade da juventude era uma parte integrante da sua estética. O introdutório “Longa Vida ao Vórtice” pronunciava: “NÓS QUEREMOS QUE O MUNDO VIVA e sentir sua crua energia fluindo dentro de nós.” Wyndham Lewis amaldiçoava “O esteta britânico” e anunciava “ENORMES JOVENS, EX­ PLODINDO POR TODA PARTE ATRAVÉS DAS ROUPAS PESADAS E JUSTAS”. Celebrando as correntes contraditórias e explosivas da vida pré-guerra, eles mes­ mos permaneceriam calmos no centro do redemoinho: Nosso vórtice não teme o passado: ele esqueceu a sua existência. Nosso vórtice considera o Futuro tão sentimental quanto o passado... Com nosso vórtice, o presente é a única coisa ativa. Vida é o Passado e o Futuro. O Presente é Arte. Havia uma sensação distinta, em 1912, 1 9 1 3 el9 l4 , de que tudo convergia para um ponto. O vórtice começava a arrastar tudo dentro do seu irresistível momentum, conforme as certezas do século XIX iam se desfazendo. O lugar da juven­ tude neste novo mundo selvagem foi dramatizado por um dos Gesamtkunstwerk1 mais sensacionais do período, tão novo que provocou uma quase rebelião na sua 1 Obra de arte total.

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estreia em maio de 1913.2 Tendo como astro Vaslav Nijinsky,3 o bailarino que desafiava a força da gravidade, e com uma partitura de Igor Stravinsky que exe­ cutava o som de máquina numa repetição mecânica dissonante, o mais recente balé russo, A sagração da primavera, exaltava nada menos do que o sacrifício tribal. Os Ballets Russes de Sergei Diaghilev eram famosos tanto por suas produções inovadoras e caras como por sua capacidade de provocar escândalos: o orgasmo simulado no palco por Nijinski na apresentação de Prelúdio para a tarde de um fauno, em 1912, já havia causado indignação em Paris. As produções de Diaghilev eram muito modernistas no seu fascínio pelo primitivo, sua hostilidade para com a nova civilização de massa e sua exaltação da vitalidade jovial. A sagração da primavera sintetizava a arte visual, a música, o texto e a dança num ataque sem reservas à percepção contemporânea - como um salto para o futuro. O impulso por trás do tecnopaganismo revelou-se na narrativa que Stravinsky concebeu para evocar “o poder criativo da primavera”. O balé começava com flautas de Pan e um ritual de regeneração primaveril, antes de passar para “O Grande Sacrifício”: “A noite inteira as virgens celebram jogos misteriosos, cami­ nhando em círculos. Uma das virgens é consagrada como a vítima e é duas vezes apontada pelo destino, sendo apanhada duas vezes na dança perpétua. As virgens... invocam os ancestrais e confiam a escolhida aos sábios anciãos. Ela se sacrifica na presença dos anciãos à grande dança sagrada, o grande sacrifício.” O primeiro título de Stravinsky para a peça - A vítima —sublinhava a ideia de que não haveria regeneração sem violência. Embora A sagração da primavera caminhasse na direção oposta à de Peter Pan no espectro artístico, ele oferecia a mesma previsão brutal. A juventude estava sendo energizada para o conflito, para participar voluntariamente do sacrifício “necessário para que o mundo do século XX tivesse início”. Em julho de 1914, o crítico Maurice Dupont chamou o balé de “uma orgia dionisíaca sonhada por Nietzsche e evocada pelo seu desejo profético de ser o farol de um mundo lançando-se para a morte”. O paganismo escapista da geração anterior não teve chances contra estas se­ veras exigências. Cinco meses depois da sensacional estreia de A sagração da pri­ mavera, o Wandervogel fez o que pretendia ser uma reunião culminante no Hohe Meissner, perto de Kassel. O movimento havia crescido em tamanho e âmbito e se estendido para fora das fronteiras alemãs, atraindo grupos de jovens de todos os tipos, com visões políticas que iam do anarquismo ao anti-industrialismo e ao racismo. Tinham decidido unir todos estes grupos disparatados, ou Bunde, numa organização global chamada Freideutsche Jugend. 2 O crítico teatral americano Carl Van Vechten assistiu à estreia do balé no fim de maio de 1913. Ele relatou que “os franceses ficaram tão surpresos e ofendidos com esta novidade que vaiaram quase sem interrupção”. 3 Segundo a autobiografia deTamara Karsavina: “Perguntaram a Nijinsky se era difícil ficar no ar como ele fàzia quando saltava: ele não compreendeu logo, mas depois, muito gentilmente: ‘Não! Não! Não é difícil. Você só tem de pular e dar uma paradinha lá em cima.’”

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Este Freideutsche Jugendtag (dia da juventude alemã livre) também tinha a intenção de neutralizar as muitas concentrações patrióticas realizadas durante o ano de 1913, o ano centenário da vitoriosa batalha de Leipzig, tão amada pelos militaristas alemães. Em contraste com este chauvinismo de cervejaria socialmente sancionado, eles queriam liberdade “para dar feitio e forma às suas vidas” separados “dos hábitos indolentes antigos e das leis de odiosas convenções”. Entretanto, espalhar-se por si só não era o suficiente para conter todas as muitas ideologias e teorias mundiais que o movimento estava tentando incluir. Muitos dos oradores proferiam mensagens contraditórias, variando desde exortações belicosas até a elaborada recusa esquerdista do fascínio nacionalista exercida pelo fundador do movimento Free School, Gustav Wyneken. “Devemos ousar”, ele afirmou no discurso culminante na reunião, “manter uma certa distân­ cia da pátria e do patriotismo irracional em que fomos educados.” Entretanto, a mensagem não bateu fundo. Ao contrário de seus objetivos declarados, quase todos os discursos no Freideutsche Jugendtag foram pronunciados por adultos, e a platéia simplesmente não deu atenção. Apesar da sensação geral de sucesso, o encontro Hohe Meissner terminou sem um claro acordo ou plano definido para juntar todos os diferentes grupos de jo­ vens alemães. Logo depois começaram as cisões, conforme o movimento se divi­ dia em orientações políticas de esquerda e de direita mais tradicionais. Ao mesmo tempo, alarmadas com a influência do Wandervogel, as autoridades criaram gru­ pos de jovens controlados por adultos que buscavam encurralar a adoração à na­ tureza e a mentalidade de grupo da juventude alemã em formatos mais aceitáveis. O mais bem-sucedido foi o Jungdeutschlandbund nacionalista, organizado na Prússia, em 1911, para dar à juventude alemã o treinamento militar adequado. Com seus fortes vínculos com o exército, este novo grupo aprovado pelo Estado oferecia um misto de exercícios ao ar livre e “jogos de guerra”: atividades que in­ cluíam treinos, prática de primeiros socorros e manobras completas, fundidas com uma ideologia explicitamente marcial. Depois do seu sucesso inicial, o exér­ cito e o funcionalismo público tentaram unir todos os outros movimentos juvenis sob a sua bandeira. Em 1914, o Jungdeutschlandbund havia absorvido muitos dos grupos Wan­ dervogel. As suas noções de Lebensraum e união masculina não eram, afinal de contas, muito diferentes da tendência prussiana para expansão e império. O sa­ crifício substituiu a adoração à natureza na revista do movimento: “A guerra é bela. Sua grandeza ergue o coração de um homem acima das coisas terrenas, aci­ ma da rotina diária. Essa hora nos aguarda... que esse seja o paraíso para os jovens alemães. Por conseguinte, desejamos bater à porta do nosso Deus.” Concen­ trando cerca de 750 mil membros, o Jungdeutschlandbund havia se tornado o maior grupo de jovens do mundo. INVOCAÇÃO

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CAPÍTULO

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Sacrifício Os mortos de guerra e jovens contra velhos * * * A natureza arma a juventude para o conflito com todos os seus recursos sob seu comando. - G. Stanley Hall, prefácio, Adolescence (1904)

RUPERT BROOKE, 1913, POR SHERRIL SCHELL

N IN G U ÉM SABIA QUANDO, ou onde, a guerra ia começar, mas as massas que afluíam às ruas das cidades europeias no auge do verão de 1914 estavam inundadas pelo que Wyndham Lewis, comentando sobre a multidão em Londres, chamou de “uma apática eletricidade”. Quando finalmente a tempestade se desencadeou no dia 28 de junho, o catalisador foi parricida: o tiro desferido contra o herdeiro do Império Habsburgo, o arquiduque Franz Ferdinand, pelo jovem sérvio de 19 anos Gravrilo Princip, do grupo nacionalista Miada Bosna (Jovem Bósnia). Com a evolução da crise, a demanda por uma guerra, apesar dos protestos, varria tudo diante de si num paroxismo de sentimentos nacionalistas. Gustave Le Bon avisou em 1895 que “as reivindicações das massas estão se tornando cada vez mais nitidamente definidas, e significam nada menos do que uma determi­ nação de destruir totalmente a sociedade como ela existe agora”. A era tecnológica, como já havia sido profetizado, irrompia no primeiro conflito verdadeiramente de massa, que mataria milhões de combatentes e civis da mesma forma. Depois de seis semanas de incertezas, a guerra foi detonada pela invasão da Bélgica pela Alemanha, na segunda-feira, 3 de agosto. Na Grã-Bretanha, o fim de semana anterior tinha sido um feriado público e, conforme noticiou o The Times, muitos “turistas tinham sido atraídos a Londres por um desejo de estar presentes na capital neste momento de grave crise”. Na noite de segunda-feira, milhares de pessoas estavam reunidas nos espaços públicos londrinos: “A demons­ tração de patriotismo e lealdade ficou quase extática até que, por fim, a enorme multidão se dispersou.” “De tarde, fui até a cidade e fiquei andando em frente ao palácio de Buckingham e pelo Mall”, lembrou um londrino de 17 anos da classe operária, Vic Cole. “Havia uma grande multidão do lado de fora do palácio e outras pessoas con­ gregavam-se em Whitehall e dirigiam-se para Westminster. Mais tarde, pouco antes da meia-noite, correu a notícia de que, tendo expirado o ultimato, estávamos agora em guerra contra a Alemanha. Eu fiquei excitadíssimo; aquilo de que as pessoas vinham falando havia anos finalmente tinha acontecido e, a qualquer momento (eu pensei), teria início a invasão da Inglaterra.” Aos dez anos de idade, Vic Cole havia assistido a uma exibição no palácio de Cristal em Londres chamada “A Invasão”, que “mostrava um vilarejo inglês completo, em tamanho natural, com igreja e pub. Os habitantes saíam a pé, lentamente, da primeira e, na segunda, ficavam bebendo cerveja. Nesta pacífica cena rural, de repente surgia um aeroplano alemão (ele deslizava por um fio de arame) e deixava cair bombas que explodiam com o devido barulho e muita fu­ maça. Quando o ar limpava, via-se que soldados alemães ocupavam a aldeia. Tudo terminava bem quando o Exército Territorial chegava e expulsava o inimigo”. Embora não tivesse alcançado a idade mínima para o serviço militar, Cole estava impaciente para se alistar: “Eu queria estar no exército com uma arma na

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mão, como os meninos sobre os quais eu tinha lido tantas vezes em livros e revistas.” Depois de se alistar, ele foi para casa dar a notícia para a família. “Eu ainda não tinha fechado a porta, quando gritei: ‘Alistei-me no exército!’ ‘Oh, querido! Oh querido!’, disse a vovó. ‘Meu pobre menino.’ Nenhum deles foi efusivo, mas, quando eu me sentei, vovó passou os seus velhos braços sobre os meus ombros por um momento. Minha tia derramou uma lágrima e depois dis­ se: ‘Bem, acho que você gostaria de uma xícara de chá agora.”’ Sem nenhuma ideia do que estava por vir, os jovens do norte da Europa alistaram-se cheios de entusiasmo. Os franceses viram o conflito como uma opor­ tunidade de compensar a humilhação que o país sofrerá com a guerra francoprussiana e reclamar a província de Alsácia, perdida em 1871. A resposta ao to­ que de mobilização no fim de julho foi esmagadora, tanto que, quando o líder do Partido Socialista Francês, Jean Jaurès, convocou um esforço combinado da classe operária contra o conflito iminente, foi assassinado por um nacionalista fanático. No dia 2 de agosto, a Alemanha cruzou a fronteira da França pela pri­ meira vez desde 1870. Ali havia uma chance para reescrever a história. Ernest Psichari sentiu que o conflito havia “chegado na hora e do modo como precisávamos”. A juventude burguesa da França concordou. Robert Poustis, então um estudante em Paris, lembrou que em agosto de 1914 “todo mundo estava gritando e querendo ir para o front. Os carros, os vagões de trem lotados de soldados estavam cheios de bandeiras tricolores e inscrições: ‘a Berlim, a Berlim’. Queríamos ir para Berlim imediatamente, com baionetas e lanças, correndo atrás dos alemães. A guerra, nós pensávamos, ia durar dois meses, talvez três”. Da sua parte, os alemães viam a guerra como uma chance de flexionar seus músculos num palco internacional. O seu lema, contido num best-seller contem­ porâneo, era “ Weltmacht oder Untergang - Dominar o Mundo ou Declinar. Isto era sustentado pelo comportamento tempestuoso da multidão no fim de julho: a razão escapara pela janela. Como Ernst Junger, 19 anos quando do seu alista­ mento em 1914, observou mais tarde: “Um interesse pelo medonho fazia parte, sem dúvida, do complexo de desejos que nos arrastava tão irresistivelmente para a guerra. Um período de lei e ordem longo como aquele que a nossa geração tinha atrás de si gerava um verdadeiro anseio pelo extraordinário.” Anos de agitação e preparação militarista por grupos como o Jungdeustchlandbund haviam transformado a guerra numa espécie de experiência religiosa. O dramaturgo e ex-Wandervogel prussiano, Walter Flex, escreveu em 1914: “Não sou mais eu mesmo. Eu era. Agora faço parte da horda sagrada que se sacrifica por ti - pátria.” A primeira edição de Der Wandervogel durante a guerra afirmava: “Nada divide o Wandervogel da humanidade. Não somos especiais. Desejamos ser considerados como todos os outros, homens no mais pleno sentido do termo.” 158 | 1912-1919

A juventude alemã alistou-se num êxtase de autoimolação. Ernst Junger, um dos mais articulados expoentes do militarismo, lembrou mais tarde nas suas memórias, The Storm o f Steel, que “havíamos crescido numa era material, e em cada um de nós havia o anseio de mais experiências, tais como nunca conhecêra­ mos. A guerra havia entrado em nós como vinho. Partimos numa chuva de flores em busca da morte dos heróis. A guerra era o nosso sonho de grandeza, poder e gloria. Era um trabalho de homem, um duelo nos campos onde as flores se manchariam de sangue. Não havia morte mais encantadora no mundo”. * * * Os jovens da Alemanha e da França estavam bem preparados. Em agosto de 1914, os exércitos de ambos os países chegavam a 3,6 milhões cada um. Em comparação, o exercito britânico tinha sido negligenciado e mal financiado, com pouco menos de 250 mil oficiais e homens regulares. Com reservistas e voluntários em tempo parcial, a Grã-Bretanha podia concentrar uma força militar completa de pouco menos de 750 mil homens, mais ou menos um quarto de seus companheiros combatentes. Sem recrutamento, a folga seria completada por voluntários, mas o entusiasmo popular era tal que 300 mil homens se alistaram nas primeiras semanas de guerra. Entre eles estavam os protegidos de J. M. Barrie, George e Peter Llewelyn Davies. Aos 21 anos de idade, George já freqüentava Cambridge, com Peter, en­ tão com 17 anos, prestes a ingressar também. Na primeira semana de agosto, os dois receberam uma carta do adjunto do Corpo de Treinamento para Oficiais da Universidade de Cambridge, “chamando atenção para o fato de que era um de­ ver óbvio de todos os estudantes oferecerem seus serviços sem demora”. Eles descobriram que sua experiência escolar era suficiente para garantir uma patente. Quando o coronel presidente descobriu que George tinha jogado críquete por Eton, ele “se tornou visivelmente mais cordial”. Não surpreendeu ver rapazes das classes alta e média alta aglomerando-se nas salas de recrutamento. Eles tinham sido treinados para guerra nos campos de esportes, em suas sociedades de pares autorregulamentadas, através do etos de cris­ tianismo muscular. Robert Graves, então na Charter House (o convento dos cartuxos), lembrou que quando um general do exército visitou seu campo de trei­ namento na escola, em 1913, “infundiu em nós que a guerra com a Alemanha deveria inevitavelmente estourar dentro de dois ou três anos, que devíamos estar preparados para assumir o nosso papel como líderes das novas forças que sem dúvida seriam criadas”. Pouco tempo depois, Graves participou de um debate escolar sobre a proposta “de que esta casa aprova o serviço militar compulsório”. Ele lembrou que “apenas SACRIFÍCIO

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seis votos em 119 foram contra. Fui o principal orador da oposição, tendo re­ centemente renunciado ao Corpo de Treinamento para Oficiais, indignado com a teoria da obediência implícita às ordens”. Graves era uma distinta minoria de uns 5% que preferiram reagir contra o etos militarista da época, visto que a assombrosa maioria de seus pares preferiu aderir. Outros rapazes da Boys Brigade ou do Boy Scouts alistaram-se imediatamen­ te e descobriram que, como tinha sido a intenção, seu treinamento arregimentado os favorecia. Como Richard Hawkins lembrou, “havia quatro sargentos de pelotão que tinham de ser escolhidos entre seus homens e, por Deus, se um deles tivesse estado no Boy Scouts, ora, ele era um cabo imediatamente”. Jack Davis, na época com 19 anos, alistou-se no início de setembro: “Eu estava na Boys Brigade e era membro de um clube de atletismo também, portanto aceitava a disciplina e ao mesmo tempo tinha uma vida organizada. Por isso, a convocação para o exército naturalmente me atraiu.” Assim como o Wandervogel, os British Scouts adaptaram-se rapidamente às exigências da guerra. Desde o início da década de 1910, eles haviam cada vez mais se filiado ao movimento Dever e Disciplina, destinado a neutralizar o “grave ris­ co social” da “atual indisciplina juvenil”. Este organismo aprovado pelo sistema deu novo ímpeto às convocações de recrutamento já emanando da Liga de Serviço Nacional. Para militaristas como lorde Roberts e coronel Baden-Powell, o trei­ namento militar universal para todos os homens entre 18 e 23 anos de idade era “a solução para a decadência moral da Grã-Bretanha”. Quando a guerra estourou, Baden-Powell pensou que ela dava ao movimen­ to dos escoteiros “a sua melhor oportunidade”. Além de obter o reconhecimento oficial para o uniforme dos escoteiros, ele também fundou um Corpo de Defesa dos Escoteiros para jovens de 15 a 17 anos, no qual eles receberiam treinamento especial em técnicas militares básicas como tiro, sinalização e construção de trin­ cheiras. Com a vantagem de saber como penetrar na mente infantil, ele reconheceu a atração dos adolescentes pela guerra: “Portanto, também, quando estourou a guerra, as mentes dos meninos estavam obcecadas com ideias guerreiras. Não adianta lutar contra isto se a febre tomou conta deles.” Seja como for, 60% dos adolescentes britânicos não tinham tido contato com qualquer tipo de treinamento pré-militar, e foram influenciados não ape­ nas por uma febre de guerra mas por vários outros fatores. Alguns estavam entediados com seus empregos e buscavam aventuras. Segundo a prática de recru­ tamento na época, forças de trabalho e áreas inteiras alistavam-se juntas. Dessa forma era possível continuar com seus colegas de trabalho e amigos no mesmo regimento. Era impensável ficar em casa quando todos os seus amigos estavam arriscando suas vidas. 160 | 1912-1919

Em 1914, a isenção era conferida a trabalhadores em atividades essenciais e àqueles com menos de 19 anos. Entretanto, a exigência de uma idade mínima era muitas vezes ignorada. Nesta temporada de febre de guerra, o londrino Reginald Haine foi se alistar: “Meu amigo me apresentou ao sargento, que disse: ‘Está disposto a se alistar?’ Eu disse: ‘Sim, senhor.’ Ele disse: ‘Quantos anos você tem?’ Eu disse: ‘Tenho 18 anos e um mês.’ Ele disse: ‘Você quer dizer 19 anos e um mês?’ Então eu pensei um segundo e disse: ‘Sim, senhor.’ Ele disse: “Certo, então assine aqui, fazendo o favor.”’ Para aqueles cuja ansiedade era menos imediata, as atrações da vida no exér­ cito aumentavam na medida em que o desemprego crescia durante o outono de 1914. Nos primeiros meses de guerra, meio milhão de homens perderam seus em­ pregos em conseqüência do bloqueio de rotas comerciais e da instabilidade econô­ mica. A saúde da classe operária pobre não havia melhorado significativamente desde que fora identificada como um escândalo nacional durante a Guerra dos Bôeres. Para uma grande parte dos jovens das áreas pobres da Grã-Bretanha, as rações do exército representavam uma grande melhora nas condições de vida. A promessa dos sargentos do recrutamento de “carne todos os dias!” teve repercussão. Robert Roberts lembrou que recrutas retornando a Salford de licença estavam “uns seis quilos mais gordos, mais altos, confiantes, esguios e eretos”. “Quase irre­ conhecíveis como os homens que partiram”, eles encorajavam outros a se alistarem imediatamente. O oficial Charles Carrington lembrou que, “quando eles nos procuravam, eram crianças fracas, desanimadas, magras e assustadas - o refugo do nosso sistema industrial - e estavam em condições muito ruins por causa da escassez de alimentos durante a guerra. Mas, depois de seis meses de boa ali­ mentação, ar puro e exercícios físicos, mudavam tanto que suas mães não os reconheceriam.” A pressão social para se alistar era tremenda. No início da guerra, isto era policiado por milhares de moças que iam de um lado para o outro estendendo penas brancas para todos os rapazes não uniformizados, num gesto que caracte­ rizava covardia. A ideia fora sonhada por um marechal aposentado, que criou a Ordem da Pena Branca especificamente com este propósito, e era apoiado por campanhas com cartazes que perguntavam: “O seu ‘namorado’ está usando cáqui? Se não está, VOCÊ NÃO ACHA que deveria estar? Se ele não acha que você e o seu país merecem que se lute por eles, você acha que ele é DIGNO de você?” Tendo em mente que a atração sexual de um uniforme do exército era um fator nas mentes de muitos rapazes, esta era uma campanha brutalmente eficaz. Independentemente de ser menor de idade ou já ter se alistado, cada aparente “desertor” era uma vítima em potencial. Um londrino de 16 anos de idade, Norman Demuth, ficou “pasmo” ao receber uma pena branca: “Eu tinha tentado con­ vencer os médicos e oficiais do recrutamento de que tinha 19 anos e pensei: ora, SACRIFÍCIO

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isto me dá um incentivo maior, porque devo parecer que tenho, portanto fui procurar as agências de recrutamento com mais fervor.” Um jovem professor de arte chamado Harry Ogle lembrou que “uma onda de temor parecia ter se espalhado sobre o país e rapazes sem uniforme eram pre­ senteados com penas brancas por moças (também não uniformizadas). Os homens de mais de quarenta anos, achando-se seguros por trás de empregos ‘importantes’, insistiam para que se alistassem aqueles que eram jovens demais para perder mais do que suas vidas. O casal de idosos e extremamente religioso do qual eu era inquilino me tratava com frieza, louvando em alta voz Ted Pullen que, segundo os jornais, havia galantemente colocado sua jovem vida a serviço da Nação’”. * * * Estas manobras eram apenas a versão de rua de uma repressão muito mais ampla de sentimentos antiguerra. A oposição estava ali desde o início, em discursos de socialistas independentes, editoriais de revistas de esquerda, intelectuais de Cambridge como Bertrand Russell e o grupo de Bloomsbury. A lei era imediatamente invocada para suprimi-los, depois que a Defense of the Realm Act (conhecida como DORA) foi aprovada em 8 de agosto de 1914. Políticos e escritores proemi­ nentes defendiam a guerra como um “excelente desinfetante” contra uma “po­ dridão nacional”, da qual o movimento moderno era o sintoma mais mórbido. Na sua belicosa peça Der Tag,1 que estreou em dezembro de 1914, J. M. Barrie escreveu que “a Grã-Bretanha ficou insípida e preguiçosa: terra que é um ventre, ela jaz superalimentada, sem sonhos tais como os de manter vivos os Po­ deres”. Num discurso de outubro de 1914 com o título de “Arte, Moral e a Guerra”, o professor de belas artes de Oxford, Selwyn Image, afirmou que “nós precisamos de um purgante, um despertar abrupto, um novo chamado para a sanidade, para um reajuste de nossas avaliações das coisas”. Para ele, a guerra era um “choque salutar”. Outro editor populista simplesmente expressou sua esperança quanto aos modernistas: “Que pereçam todos na guerra.” Dentro desta arrasadora mobilização de mentes e corpos —3 milhões de homens nos primeiros 18 meses de guerra-, foram poucos os opositores conscien­ tes: pouco mais de 16 mil durante todo o período de quatro anos. Era preciso uma considerável convicção para ser um OC (opositor consciente). Embora 80% recebessem a isenção do serviço militar, uma proporção significativa foi mandada para trabalhar no front em equipes médicas e ambulâncias, onde continuava sendo desprezada por seus compatriotas. Os mais rigorosos na recusa estavam 1 O brinde à vitória dos alemães.

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entre os mais ou menos 6 mil OCs enviados para a prisão, onde os que tinham menos sorte eram obrigados a vestir camisas de força e eram espancados. Mas isso não quer dizer que muitos rapazes não se alistassem sem receios. Sob a atitude de bravata, muitos se assustavam com um futuro desconhecido. Peter Llewelyn Davies lembrou que, no caminho para o alistamento, seu irmão George “teve uma daquelas estranhas alterações, algo entre um ataque de desmaio e uma enxaqueca, a que era propenso desde criança, e precisou se sentar por uns minu­ tos num banco fora do quartel. Eu de bom grado teria dado meia volta e retornado a Londres, humilhado mas livre. George, entretanto, assim que se recuperou, me fez entrar com ele por aqueles escuros portões”. No dia que os irmãos Llewelyn Davies chegaram ao enorme quartel Sheerness para o treinamento militar, descobriram que “oito jovens oficiais” que tinham in­ gressado uma ou duas semanas antes estavam indo para a França “substituir as baixas nos Batalhões no Marne e no Aisne. Esta confrontação um tanto abrupta com as exigencias do serviço teve, temporariamente, um efeito depressivo, e me lembro de George, ao nos despirmos na nossa tenda naquela noite, rompendo um silêncio bastante longo com as palavras: ‘Bem, jovem Peter, pela primeira vez em nossas vidas vamos enfrentar algo realmente grave, **** se não vamos/” Estes receios não eram infundados. Todos os soldados sonham com uma cam­ panha curta e rápida, e neste conflito europeu não era diferente. Em agosto, quase todos pensavam que ele acabaria no Natal. Conforme as listas de baixas cresciam, e os dois exércitos ficavam estagnados ao redor da saliência de Ypres, lentamente ficou claro para os militares, se não para o público, que isto não ia acontecer. Em vez de campanhas travadas por unidades de cavalaria pequenas e de grande mobili­ dade, forças imensas começaram a se enfrentar num sistema de trincheiras imóveis. Esta não seria uma guerra de heroísmos individuais, mas de lento atrito de massas. Esta mudança, fundamental na natureza dos conflitos armados, foi um imenso choque para os voluntários e recrutas idealistas de 1914. Muitos já tinham achado difícil a transição entre a paz e a guerra: esta, afinal de contas, era um rito de pas­ sagem tradicional entre a juventude e a idade adulta, e nem todos deixavam de ser jovens sem alguma resistência. Como o jovem de Yorkshire, F. B. Vaughan, lembrou: “Foi muito difícil começar a obedecer a ordens, mas gradualmente sa­ bíamos como formar quatros, voltar para a direita, voltar para a esquerda e todo o resto. Nós nos tornamos, em outras palavras, um grupo disciplinado de homens.” Mesclando ordens para marchar, armar baioneta e cavar trincheiras, o processo de treinamento da infantaria inglesa eliminava a individualidade e mergulhava o recruta nos principais valores do exército: obedecer às ordens de superiores a qualquer custo e suspender o tabu dos tempos de paz contra matar um outro ser humano. Ao mesmo tempo, a rebeldia e a vitalidade juvenis eram subordinadas SACRIFÍCIO

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a um mundo onde os mais velhos, os oficiais superiores, inquestionavelmente governavam. Em si, isto não era diferente do clássico treinamento para o exército, mas antes outras guerras já tinham sido travadas por um pequeno percentual da população jovem. Nesta guerra em grande escala, milhões de adolescentes estariam juntos en­ volvidos na renúncia à juventude, se não à vida: o holocausto de uma geração que teria imprevisíveis e duradouras conseqüências. Servindo na primeira gran­ de campanha da guerra, o combate pelo porto belga de Antuérpia, Rupert Brooke foi testemunha das novas condições de conflito. “É uma coisa sangrenta”, ele es­ creveu para um amigo americano, “metade dos jovens da Europa soprados através do sofrimento para o nada, na incessante matança mecânica destas batalhas mo­ dernas.” Ele havia acabado de fazer 27 anos, mas continuava a se definir por sua juventude. Quando a guerra estourou, Brooke tinha usado seus influentes contatos, como Winston Churchill, para conseguir uma rápida patente. Finalmente havia encontrado sua especialidade. Num breve artigo autobiográfico escrito logo após a declaração de guerra, “Um rapaz incomum”, ele revelou que era o rapaz do tí­ tulo porque, apesar de todos os horrores que estavam por vir, “sentia-se extraor­ dinariamente feliz”. O serviço militar e a probabilidade de uma morte gloriosa ofereciam uma solução inflexível para as emoções irrevogavelmente confusas de Brooke. Como ele escreveu: “Espero que será a melhor coisa para todos se uma bala perdida me encontrar no ano que vem.” Depois de Antuérpia, Brooke procurou colocar sua paixão pela guerra como a causa justa num longo poema chamado 1914. Neste trecho explicitamente vol­ tado para os jovens —“Agora, graças a Deus / Que nos adequou à Sua hora, / E apreendeu nossa juventude, e nos acordou do sono” —, Brooke converteu os sa­ crifícios rituais com que os neopaganistas haviam brincado no sacrifício militar exigido pela guerra. Na terceira parte, chamada “Morte”, ele celebrou os caídos: “e aqueles teriam sido, / Seus filhos, eles deram a sua imortalidade.” Esta era “a herança” na qual ele e, por implicação, sua geração, haviam finalmente se trans­ formado. Esta seqüência tocou imediatamente num nervo sensível quando da sua pu­ blicação no início de março de 1915. Era a primeira de muitas coleções que pro­ curariam definir uma experiência quase inconcebível numa linguagem íntima, mais contemplativa do que se via nos noticiários censurados ou comunicados mi­ litares. Como afirmou o Times Literary SupplemenP. “Estes sonetos são pessoais - nunca sonetos foram mais pessoais desde que Sidney morreu2 - e no entanto 2 O famoso soldado-poeta do século XVI. No dia 3 de maio, o Sphere escreveu que Brooke “era o único poeta inglês de algum respeito que havia dado a vida nas guerras do seu país desde que Philip Sidney fora ferido de morte nos muros de Zutphen, em 1586”.

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o próprio sangue e a juventude da Inglaterra parecem encontrar neles expressão. Eles não falam a um coração apenas, mas a todos a quem o seu chamado veio na hora da necessidade e que foram encontrados instantaneamente disponíveis.” Estas frases floreadas, entretanto, não combinavam com a verdadeira expe­ riência da guerra em grande escala. Em março de 1915, George Llewelyn Davies escreveu para J. M. Barrie das trincheiras. Ele havia visto um soldado colocar sua cabeça sobre o parapeito: “O topo da sua cabeça foi explodido com um tiro, portanto ele nada sentiu. Mas foi uma visão medonha.” Respondendo com a notícia de que o tio de George, Guy de Maurier, tinha acabado de ser morto, Barrie concluiu: “Perdi toda a noção de que a guerra é gloriosa, agora ela é in­ descritivelmente monstruosa.” Três dias depois, Llewelyn Davies levou um tiro na cabeça; ele tinha pensado que “esta era a melhor morte que se podia ter”. No início de abril, o decano da catedral de St. Paul leu em voz alta parte de 1914 no seu sermão do domingo de Páscoa. Àquela altura, entretanto, Brooke estava de cama com febre alta e, no dia 23 de abril, morreu de septicemia. Já re­ conhecido como um importante poeta da guerra, sua morte selou o pacto em mármore. Os tributos choveram: “Ele é o símbolo da juventude da nossa raça” {Star). “Ele foi parte da juventude do mundo” (Daily News). O Times publicou um longo obituário sem assinatura redigido por Edward Marsh, que lhe atribuiu “a tristeza da juventude prestes a morrer, e o consolo triunfante garantido de um espírito sincero mas valente”. Este não era o Rupert Brooke por completo, como seus amigos tentaram mostrar em vão: como o New Statesman expressou: “Criou-se um mito, mas ele cresceu em torno de uma figura imaginária muito diferente do homem real.” Mas estas quei­ xas ficaram submersas numa enxurrada de sentimentos nacionais. Ajudado pelo perfil clássico e pela boa aparência de garoto captados nas famosas fotografias registradas por Sherril Schell, Brooke tornou-se o garoto propaganda morto que representava cada um dos milhares de rapazes cujas mortes eram noticiadas com crescente velocidade na Lista de Honra do Times. Os alemães também celebraram este etos necrótico de imortalidade juvenil. No início da guerra, muitos da primeira leva de voluntários morreram na aldeia flamenga de Langemarck. Nos noticiários dessa ação ocorrida em novembro, milhares de tropas ainda inexperientes, compostas de aprendizes, estudantes uni­ versitários e alunos de liceus, encontraram suas mortes num ataque sem esperanças a posições fortemente defendidas. Na fábula, uma voz jovem começou a cantar - o famoso brado nacionalista, “Deutschland, DeutschlandüberAlies' - e a melodia foi adotada por sucessivas ondas de jovens alemães. Dessa matança inútil nasceu um mito poderoso, que exaltava o princípio do autossacrifício até a morte. Muitos dos mortos eram ex-Wandervogel: a irracio­ nalidade atávica com que o movimento havia brincado fora facilmente desviada SACRIFÍCIO

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da natureza para o misticismo de batalha. Como um jovem voluntário afirmou: “Víamos o sentido da guerra nesta liberação interna de toda a nação de suas convenções obsoletas, neste grande avanço’ para o desconhecido, para alguma aventura heróica, não importa quem ele devorasse. Isso é que inflamava o nosso entusiasmo.” Esta transição foi captada num famoso romance dos tempos da guerra. Escrito por um oficial de serviço chamado Walter Flex, Um andarilho entre dois mundos celebrava o amigo de Flex, Ernst Wurche, que pensava que “toda a glória e saú­ de da futura Alemanha vinha dos Wandervogel”. Segundo Flex, Wurche “perso­ nificava este espírito do puro e luminoso”. Da natureza eclética das leituras Wandervogel - “um pequeno volume de Goethe, Zaratustra, e uma edição de campanha do Novo Testamento” —, Wurche oferecia uma parábola sobre a vida no exército: “Nas trincheiras, todos os tipos de espíritos estranhos são forçados a ficar lado a lado. É o mesmo com os livros, assim como com as pessoas.” Quando Wurche foi morto, Flex tentou imortalizar o amigo colocando os seus pensamentos na boca do fantasma de Wurche, que aparecia exatamente quando Flex estava perdendo o ânimo: “Isso não é velhice, como você pensa, mas amadurecimento. Seus feitos e seus mortos estão fazendo você amadurecer e se manter jovem. É a vida que ficou velha e gananciosa, a morte continua sempre a mesma. Você não sabe nada sobre a eterna juventude da morte? E a vontade de Deus que a vida que envelhece se torne jovem de novo na eterna jo­ vialidade da morte. Esse é o sentido e o mistério da morte.” Na sua fusão de romantismo, misticismo da natureza dos Wandervogel e rendição à ideologia militar, o pensamento de Flex oferecia uma consistente “convicção moral que pode se realizar tanto na derrota como no heroico sacrifício de uma nação”. Publicado no fim de 1917, pouco depois da morte de Flex, Um andarilho entre dois mundos ajudou a dar sentido ao que não tinha sentido. O autor tinha permanecido fiel à sua visão até o fim. Como escreveu na sua última carta: “Tenho o tranqüilo e íntimo conhecimento de que tudo que acontece e pode acontecer comigo faz parte de uma evolução da vida sobre a qual nada que está morto tem qualquer poder.” As obras de Walter Flex e Rupert Brooke deram um brilho idealista ao que estava se tornando nada menos do que matança em massa. Foi na primavera de 1915 que o horror dessa guerra ficou evidente. A ofensiva britânica em Neuve Chapelle falhou, resultando em 7 mil mortos. Os alemães lançaram seu primeiro ataque com gás de cloro. Ocorreram os primeiros ataques a Londres com zepelins. Os combatentes no front Ocidental ficaram atolados no sistema de trincheiras que ia do Canal da Mancha até a fronteira com a Suíça. Durante o outono de 1915, 80% das forças de ataque britânicas na batalha de Loos acabaram mortas ou feridas. Este era o horror daquilo que os generais 166 | 1912-1919

alemães chamaram de Stellungskrieg, guerra de posição: um novo tipo de estra­ tégia defensiva em que batalhões inteiros caíam “como uma porção de Charlies Chaplins”. Ernst Junger observou que “aqui a cavalaria desaparecia para sempre. Como todos os nobres e pessoais sentimentos, ela deu lugar ao novo tempo de batalha e à lei da máquina”. Os constantes golpes de artilharia ofereciam nada além da morte instantânea e anônima: a maioria dos mortos nunca foi identi­ ficada. Para os que sobreviviam, a experiência nas trincheiras era uma total agressão aos sentidos. Muito além dos incansáveis bombardeios, as tropas também tinham de lutar contra lança-chamas, gás, atiradores de tocaia e as condições de existência no dia a dia: sujeira, frio, enchentes, lama, ratos, moscas e todos os outros tipos de praga. Neste inferno, os homens envelheciam drasticamente. Robert Graves achava que os oficiais estavam “na sua melhor forma” entre três e quatro semanas no front. Depois disso a “neurastenia se instalava”. Havia uma idade ótima para a sobrevivência: “Os oficiais entre 23 e 33 anos de idade podiam contar com uma vida útil mais longa do que aqueles mais velhos ou mais moços.” A disparidade entre o idealismo de 1914 e a realidade da guerra era tão grande que combatentes e não combatentes igualmente tinham de encontrar mitos que dessem sentido ao sem sentido. A elevação de Brooke e Flex ao status de heróis marcou a volta daquele poderoso nexus romântico de juventude - morte e imortalidade mas não como uma expressão de liberdade. Na verdade, ambos são vítimas clássicas de infanticídio, Isaac de Abraão —mas desta vez regozijandose voluntariamente no seu sacrifício. No entanto, embora a guerra fosse um jogo de rapazes, ela era combatida nos termos definidos por homens mais velhos: os jovens não tinham outra escolha que não fosse obedecer. * * * Conforme a guerra continuava sem qualquer guinada decisiva, a própria juventu­ de tornou-se um campo de batalha ideológico. Este conflito em particular, pela alma de toda uma geração, foi encenado em forma verbal, mas não menos amarga. Quase tão logo tinham sido cultuadas, as cristalinas abstrações de 1914 tornavamse obsoletas. Em reação à morte de Brooke, um oficial de vinte anos de idade chamado Charles Sorley criticou a sentimental representação que ele fizera do seu serviço militar “como uma proeza muito intensa, notável e sacrificial, quando ela é meramente a conduta que exigem dele (e de outros) conforme as circuns­ tâncias”. Mais tarde, naquele mesmo ano, outro oficial e ex-aluno de escola pública escreveu sobre a vida nas trincheiras de Loos para sua incompreensiva noiva. Roland Leighton descreveu “os ossos descarnados, enegrecidos de homens simples SACRIFÍCIO

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que verteram o seu vermelho e doce vinho da juventude inconscientemente, por nada mais tangível do que a Honra ou a Glória do seu País ou outra Ânsia [de] Poder”. Tendo se alistado com o típico idealismo, Leighton sarcasticamente convo­ cava aqueles que promoviam a guerra a “perceber que coisa magnífica e gloriosa é ter destilado toda a Juventude, Alegria e Vida num monte fétido de hedionda putrescência”. A importância essencial da juventude se confirmou quando o governo inglês finalmente recorreu ao recrutamento. O índice de atrito era tamanho que a de­ manda de sangue fresco era incansável. Em agosto de 1915, um registro nacional fora instituído, obrigando todos os homens e mulheres entre 16 e 65 anos a for­ necerem detalhes de suas vidas. Um outro esquema de voluntariado em outubro nao produziu os números necessários, e o recrutamento de todos os homens solteiros entre 18 e 41 anos de idade foi introduzido em fevereiro de 1916. Com isto foram lançados mais 2 milhões de soldados, aos quais juntaram-se outros tantos depois de maio, quando foram recrutados também os homens casados. Nesse mesmo mês, os alemães deram um golpe decisivo em Verdun, o início de um holocausto que durou nove meses e tirou a vida de meio milhão de fran­ ceses. Em junho, teve início a ofensiva no Somme, resultando no primeiro dia em 60 mil baixas britânicas. Mas a retórica idealizada de juventude continuava, em volumes como A busca da verdade. Publicado em agosto de 1916, o livro era uma coleção de poemas de H. Rex Freston, um estudante de Oxford morto dez dias depois de chegar ao front. “Melhor morrer”, ele havia escrito, “enquanto os membros são fortes e jovens, / Antes do fim do dia, / Antes que seja entoada a vigorosa canção da juventude.” Para alguns poucos combatentes, este tipo de tropo romântico não passava de uma abominável mentira. Durante o ano de 1916, foram feitas as primeiras tentativas de oposição ao etos de sacrifício prevalecente. Quase irreconhecíveis na época, elas foram o indício de uma mudança de ânimo por parte da classe que tinha sido educada para o conflito. Na Grande Guerra, a classe de oficiais liderados do front, uma prática militar que resultou numa proporção maior de oficiais morrendo do que em qualquer outra patente: um número desproporcio­ nal de ex-alunos de escola pública.3 Alguns deles começaram a questionar a dis­ paridade entre a imagem idealizada de juventude e a sua esmagadora realidade. A réplica mais direta à retórica de autossacrifício de Freston veio de um jo­ vem oficial chamado Arthur Graeme West, que interpretou sua experiência na linha de frente em termos de “imponente horror”. Entretanto, ele não tinha o “caráter de mártir” para agir de acordo com suas tendências pacifistas. Não

3 Harrow registrou 516 ex-alunos mortos durante a guerra, só em um ano, e uma média de um a cada três dias.

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querendo retornar ao front, responde com uma réplica mordaz à “busca da ver­ dade” de Freston. Em apenas cinqüenta linhas, seu poema “Deus! Como eu vos odeio, vós rapazes alegres!” vertia escaldante desprezo pelo romantismo da guer­ ra, pelas “elegias sentimentais” da propaganda do front doméstico e pelo próprio sistema de escolas públicas obcecadas por esportes. West permaneceu inédito até 1918, o ano seguinte a sua morte em Bapaume, mas a sua foi uma ressalva prematura no que os soldados em serviço viam como uma guerra pela verdade. Recrutas e oficiais igualmente sabiam que a linguagem oficial de guerra - as frases vangloriosas dos poetas da guerra mais publicados ou a sentimental belicosidade de documentos populares como “Resposta de uma mãe a um soldado comum” - não fazia qualquer sentido na insensatez do hor­ ror de 1917. Este foi o ano de quase inanição no front interno e o ano de Passchendaele, uma ofensiva de três meses que terminou com 250 mil baixas britâ­ nicas e 400 mil alemãs. Com os jovens das escolas públicas ainda exaltados como o ícone oficial de sacrifício, o livro britânico mais sensacional de 1917 tentava destruir o ideal cristão muscular. Escrito por um oficial em serviço, Alec Waugh, O assomar da juventude foi o resultado, como seu autor mais tarde admitiu, de “um estado de espírito de rebeldia. O sistema de escolas públicas era venerado como um pilar do Império Britânico e, dessa veneração, surgira o mito do garoto de escola pú­ blica ideal - o menino dom de Kipling. Em nenhum sentido tinha eu encarna­ do tal mito e ele tinha sido responsável, eu sentia, por metade dos meus proble­ mas. Eu queria expô-lo.” Em um nível, O assomar da juventude mantinha-se firme na tradição das histórias de escolas de grupos de pares da década de 1900 como Stalky & Co., de Rudyard Kipling, e The Hill, de Horace Vachell. Entretanto, a ira de Waugh transformou este gênero em excesso. Entrando na fictícia Fernhurst, em 1911, o protagonista Gordon Caruthers logo aprende as ideologias opressoras da sua nova escola: “ao atleta, tudo é perdoado”; o sistema de Escolas Públicas (...) ama a mediocridade, gosta de ser aceito inquestionavelmente como foi o Velho Tes­ tamento.” O sentimento opressivo do novo menino é o seu “medo de fazer a coisa errada”. Os meninos são fustigados pelas forças contraditórias do “militarismo” e pelos fragmentos de dissonância fornecidos por Oscar Wilde e o ragtime america­ no. O amigo de Caruthers, Tester, oferece o credo decadente: “Eu vou fàzer o que quiser com a minha vida. O certo e o errado não passam de termos relativos.” Preferindo seguir suas próprias inclinações em vez daquelas “de uma hipócrita civilização do século XX”, os meninos mais rebeldes organizam várias ações para atrapalhar os adetas. Eles representam a Younger Generation, de Stanley Houghton, SACRIFÍCIO

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com um texto parricida: “Para cortar as algemas do pensamento amadurecido que estáo tolhendo os membros da juventude.” Quando a guerra estoura, todos se alistam, mas se iludem com a propaganda vigente. Como Tester afirma: “Toda a nossa geração foi sacrificada; claro que é inevitável. Mas é muito duro. Os homens mais velhos viram algumas de suas esperanças realizadas: nós não veremos nenhuma. Não sei quando esta guerra vai terminar; não agora, eu penso. Mas, quando isto acontecer, no que nos diz respeito, os dias em que tudo são rosas terão acabado.” Nada resta a não ser ci­ nismo: “No início, fomos enganados pelos ouropéis da guerra; o romantismo teima em não morrer. Mas agora sabemos. Não nos interessam mais os contos de fadas. Não há nada de glorioso na guerra.” O sacrifício era promovido como um ideal nacional, mas o que ele significava para aqueles que estavam sendo sacrificados? Como aqueles que sobreviveram o entenderam? Os prognósticos de Waugh eram sombrios. Ele sentia que não resta­ ria mais nada para sua geração depois da guerra. Mesmo que a civilização retornasse às suas antigas glórias em algum futuro, à suposta paz, ele e seus pares seriam cas­ cas secas e ocas, sua juventude teria sido roubada. “Nós só vivemos uma vez”, Tester conclui. “Só uma vez nos ufanamos no vento, e no mar, e no amor, e no êxtase de estar vivos. E está tudo despedaçado; nunca teremos realmente vivido.” A primeira obra a contrapor explicitamente o ideal de uma geração com a realidade do sacrifício, The Loom ofYouth, provocou uma tempestade. Entretanto, não foi a crítica desse ideal que suscitou a ira do público, mas as leves sugestões de homossexualidade. Esta foi, é claro, a principal falha no sistema de ensino exclusivo para um ou outro sexo e, vinte anos depois de Oscar Wilde, ainda era o maior de todos os tabus. Embora alguns oficiais de serviço achassem o livro “exagerado”, ele ainda tinha força para ser um problema nacional no fim de 1917. Ele inspirou um volume em resposta, The Dream ofYouth, que promovia o “cavalheirismo” como um antídoto para a “impiireza”. Em 1918, o quarto ano de guerra, qualquer traço do idealismo de 1914 já tinha desaparecido havia muito tempo. Nesse estágio, o exército britânico estava aceitando um número sem precedentes de recrutas adolescentes, que tinham so­ frido com a escassez dos tempos de guerra. Eles foram lançados num inferno. O êxito da revolução bolchevique de novembro de 1917 levou a Rússia a se retirar da guerra. Meio milhão de soldados alemães foram liberados do front Oriental e, com esse novo exército, os alemães planejavam um ataque definitivo ao front Ocidental que mal saíra das suas posições originais de 1915. O ataque alemão começou em março com o mais feroz bombardeio de ar­ tilharia da guerra, e os mais jovens aguentaram o rojão. Como um cabo lembrou: “Na minha seção havia quatro jovens que tinham acabado de fazer 18 anos, que 170 | 1912-1919

estavam na nossa companhia havia apenas três semanas e cuja primeira experiência de fogo de artilharia foi essa, e QUE experiência. Eles choravam e um não parava de chamar mãe e quem podia culpá-los, um tal INFERNO transforma covardes nos mais fortes e nenhum nervo ou corpo humano foi feito para suportar tamanha tortura, barulho, horror e sofrimento mental.” Nitidamente, sob tamanha pressão, uma dura disciplina militar era necessária para manter firmes esses jovens recrutas. William Holmes, um soldado raso num regimento londrino, lembrou-se da chegada de dois recrutas muito jovens, “entre 16 e 17 anos de idade”. Quando receberam ordem de atacar, começaram “a cho­ rar desesperados”. Apanhados enquanto tentavam fugir, foram acusados de deser­ ção, privados de suas insígnias e fuzilados. Para Holmes, isso era coerente com os “fatos da guerra”: “Todos os homens tinham vindo lutar. Pela mera desobediên­ cia a um oficial, você poderia ser morto com um tiro. E, assim, nós aceitávamos o castigo como um fato da vida.” Estes incidentes eram relativamente raros. Embora o índice de deserção fosse estimado em 10,26 a cada mil homens, apenas 266 foram executados por este crime. Os combatentes ficavam no lugar porque tinham de ficar. Esta compulsão era imposta pelo medo de ser executado ou colocado em ostracismo pelos seus pares. Entretanto, muitos homens da linha de frente davam uma interpretação positiva para suas razões para continuar comprometidos com uma guerra insana. Os meninos das escolas públicas ainda se mantinham fiéis à ideologia “Vitai Lampada” de jogar conforme as regras, enquanto, para muitos operários, o ser­ viço militar era visto, em termos práticos, como “um trabalho a cumprir”. A maior motivação era o vínculo entre todos as patentes. Conforme Charles Carrington lembrou: “Os homens numa trincheira são como marinheiros sobre­ viventes de um naufrágio numa jangada, totalmente comprometidos com seu grupo social, de modo que ninguém poderia ter qualquer dúvida sobre as fraque­ zas morais ou físicas de seus companheiros porque a vida de todo mundo dependia da confiabilidade de cada um.” Estes “vínculos de companheirismo”, de uma forma crucial, cruzavam as anteriormente rígidas fronteiras de classe no exército britânico, que, até 1916, haviam sido uma força tão estratificada quanto a socieda­ de em geral. Só na segunda metade da guerra é que oficiais foram tirados do meio da tropa. No caldeirão do combate, as classes encontravam-se umas com as outras e aprendiam a se entender: não havia outra escolha. Os meninos das escolas públicas que nunca tinham se defrontado com o proletariado descobriram que ele não só existia no mesmo plano, como na verdade aprenderam muito com aqueles que em outras circunstâncias teriam repudiado. Na verdade, as habilidades de mineiros e operários braçais eram valorizadas no duro mundo físico das trincheiras. Como Harry Ogle foi aconselhado por um de seus soldados rasos: “Você é um mestreSACRIFÍCIO

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escola e sabe algumas coisinhas que não servem de nada nesta droga de lugar, mas se é para usar a pá e a picareta, deixa comigo.” Esta “confiança entre homens” funcionava nas duas mãos. Um soldado raso de Lancashire pensava que “nossos oficiais e subalternos eram maravilhosos no cumprimento do seu dever. Estavam sempre nos vigiando e vendo se recebíamos algo quente para beber”. Obviamente, nem sempre era assim que acontecia: a guerra não erradicou o ressentimento entre as classes. Mas a ideia dos vínculos entre todas as patentes tornou-se o ideal mais forte e viável nos últimos anos do conflito. Substituindo a ideia romântica de sacrifício e honra, este ideal pragmático fundiu-se com a retórica de pares que começava a aparecer com mais intensidade no último ano da guerra. Poetas como Siegfried Sassoon, Wilfred Owen e Richard Aldington começa­ ram a remodelar o ideal de sacrifício de uma geração em outros termos. Impregna­ dos com este novo ideal de amor profundo entre companheiros de luta, poemas como “O Sangue dos Rapazes” e “Hino à Juventude Condenada” não ofereciam floreadas generalidades, mas denúncias amargas —não a respeito dos alemães, mas da geração mais velha. Aqui, os mais velhos, um dia respeitados e autoritá­ rios, reapareciam como maníacos infanticidas que, como o pai em “A Parábola do Velho e do Jovem”, “matou o filho, / e metade da descendência europeia, um por um”. Estas ainda eram vozes de uma minoria, raramente publicadas, mas cresceriam em estatura por fortes motivos emocionais e demográficos. No último ano da guerra, a Grã-Bretanha estava chegando ao fundo do poço do seu efetivo. A ida­ de para o serviço militar havia sido estendida tanto para cima - até 55 anos quanto para baixo. A partir da primavera de 1918, muitas divisões eram “em grande parte compostas de soldados que poderiam muito bem estar na escola”. No inverno, cerca de metade de todos os 1,85 milhão de soldados britânicos ser­ vindo na França e na Bélgica tinham 18 anos de idade. Os exércitos franceses e alemães continham uma faixa etária semelhante. Dentro das culturas militares que acentuavam o vínculo entre pares em opo­ sição aos limites de classes, não é de estranhar que surgisse uma nova identificação de geração. Era como se a polêmica de Agathon, em 1912, falando de uma “ge­ ração sacrificada”, tivesse se tornado uma realidade estatística, porém, em 1918 ela não envolvia apenas os poucos escolhidos mas a grande massa de homens en­ tre a adolescência e a meia-idade. Os sonhos de 1914 eram meras cinzas: como os britânicos, os combatentes alemães e franceses tinham de dar sentido ao vasto vácuo moral e espiritual conseqüente da profunda desilusão. Na França, a “geração de 1914” do início da guerra havia sido substituída por um grupo mais jovem, como uma ruptura que aparece após um tremor de terra. Os mais francos expressavam sua raiva visceral por generais incompetentes 172 | 1912-1919

e ideólogos da juventude nacionalistas. Outros usavam o humor negro niilista, como o oficial Jacques Vaché: “Fico satisfeito em viver beatificamente, como câmeras 13x18”, ele escreveu no verão de 1918. “É muito parecido com qualquer outro modo de esperar pelo final que virá. Eu ganho forças e me guardo para atos futuros. Vocês verão que maravilhosa confusão será o nosso futuro e como ele nos permitirá matar pessoas!!!” Os jovens na Alemanha também eram desafiados pelo misticismo de guerra sintetizado pelo herói-errante de Walter Flex. No romance proibido de Fritz von Unruh de 1917, O caminho do sacrifício, a “sagrada comunhão” da geração sa­ crificada foi colocada a serviço de um futuro socialista, idealizado. Na verdade, von Unruh imaginou a inversão do poder dos antigos para os jovens unidos: “Aqueles que no passado sentaram-se em tronos, hoje sentam-se diante de tele­ fones, pálidos e trêmulos, e nos servem. Somos o fator decisivo. A iniciativa é nossa! Ninguém nunca mais vai manter cativos os nossos corações! Em nós vive a juventude! Atrás de nós jazem os velhos!” Mesmo antes do seu fim, a Grande Guerra havia destruído para sempre a obediência automática que os mais velhos esperavam dos jovens. O mito do sa­ crifício havia se tornado uma faca de dois gumes. Soldados jovens esperavam cumprir seu dever, mas, se sobrevivessem, sentiam que haviam conquistado o direito de ditar seu próprio mito. Se fossem sacrificados, então não seria em nome dos mais velhos que permaneceriam em casa. Não, o sacrifício deles seria oferecido no altar da nova classe de jovens, da geração cujos membros combate­ ram aos milhões uns contra os outros, sofrerá em conjunto e que estaria para sempre unida por essa terrível experiência.

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CAPÍTULO

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A classe de 1902 Delinqüência juvenil e a Grande Guerra

Ah, eu sei. Eu sei. Todos vocês acham que estou louco — olhando para mim assim. [Ele havia se descontrolado totalmente; suas palavras explodiam num crescendo constante.] Mas há milhões fazendo isso — milhões. Os jovens fazendo isso, e os velhos sentindo-se dignos por causa disso. - M ile s M a lle son , Black 'Eli (1 9 1 6 )

JOVENS NUMA REBELIÃO CONTRA O S ALEMÃES, POPLAR, LESTE DE LONDRES, 1915

EM JANEIRO DE 1916, um soldado de 19 anos do exército canadense se viu diante de um enigma. Francis Chester havia fugido do Canadá para Nova York aos 16 anos, onde trabalhava como mensageiro. Ele ficou sendo o “fiel sargento” de um homem de meia-idade que vendia cocaína e morfina, e começou a provar as mercadorias. Aos 17 anos, estava viciado em morfina e traficando para sustentar o seu vício. Entretanto, a droga não eliminara de todo seu gosto por aventuras. Convencido pelo amigo “Snuffy”, Chester, graças a um blefe, conseguiu entrar para o exército canadense no verão de 1915. O único problema era que ambos ficaram isolados dos seus usuais fornece­ dores. Como porcos farejando trufas, Chester e seu parceiro logo encontraram o caminho para a Chinatown de Londres. Ali eles se satisfizeram não com a suas costumeiras injeções de morfina, mas fumando “ópio”. Embora essa droga ainda não fosse ilegal, “os chineses não se arriscavam. Costumavam nos fazer entrar e sair às escondidas”. Chester ficou tão seduzido que se tornou “perito nas delícias da cachimbada, e durante três semanas vivi num quarto de uma casa chinesa, entregando-me ao ópio”. Essa negligência para com seus deveres militares resultou no seu retorno à base em Shorncliffe, em Kent. Entretanto, a atração pelo vício era mais forte do que qualquer ameaça de disciplina militar. Ajudado por Snuffy, cujas especiali­ dades incluíam roubo e trapaças, Chester imediatamente adquiriu um passe para deixar a base e os dois foram direto para a cidade mais próxima, Folkestone. Con­ seguir drogas era algo prioritário na agenda deles, e para isso fariam uso da força, se necessário. Chester lembrou que “Snuffy tinha uma pistola que havia com­ prado de alguém no acampamento. Até hoje acho que aquele negócio não ia atirar realmente”. Falsa ou não, a arma de fogo parecia bastante real para servir a seu propósito: “Enfiamos bolas de papel laminado no tambor da pistola para parecer que estava carregada e entramos numa farmácia. Um garoto com um jaleco branco estava do outro lado do balcão. Apontei a arma para ele do bolso da minha túnica. ‘Es­ cuta, garoto’, eu disse. ‘Não queremos machucar você. Só queremos um pouco dzjunk! ‘Junte O que é isso?’, ele perguntou, intrigado e aterrorizado. ‘Toda a cocaína e morfina que você tiver.’ ‘Tudo bem, soldado’, ele disse. E estendeu o braço para uma prateleira e nos deu duas ou três garrafas. Deixamos o garoto de olhos arregalados.” Este incidente das memórias de Chester, Shot Full, revela os perturbadores efeitos da Grande Guerra sobre o Jront europeu. A reação do jovem farmacêutico é crucial: não só ele não conhecia a palavra norte-americana para morfina, junk, como ficou “de olhos arregalados” porque tinha acabado de presenciar algo que nunca tinha visto antes. Depois de uns 16 meses de conflito, os civis começaram a perceber, assim como os soldados, que nada voltaria a ser como antes, que as

A CLASSE DE 1902

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pessoas estavam começando a se comportar de um jeito como nunca tinham fei­ to antes, isso ainda não tinha um nome. Conforme a Grande Guerra passava, os valores essenciais do ocidente entra­ vam em questão. Para o eurófilo G. Stanley Hall, observando obsessivamente a sua trajetória nos Estados Unidos, a única interpretação era a de uma “esquizo­ frenia” coletiva. Seguindo a recente cunhagem1da palavra, Hall definiu-a como um termo “usado pelos psicólogos para descrever uma mente dividida, da qual a personalidade Jekyll-Hyde é um dos tipos”. O barbarismo havia retornado na medida em que a civilização involuía. A guerra havia arrancado “o verniz superfi­ cial da cultura” para mergulhar o “homem na categoria das emoções primitivas”. Nada era mais sintomático das novas condições de morte em massa do que o “ZUIIIIN, CRASH, CLANGUE! ZUIIIIIG, CRASH! CRASH! CLAAANGUE!” dos constantes bombardeios. “Com o primeiro estrondo do fogo de artilharia, uma parte do nosso ser se arremessa a mil anos atrás”, o romancista Erich Maria Re­ marque mais tarde observou. “Nós partimos como soldados, e poderíamos estar resmungando ou poderíamos estar animados - chegamos à zona onde começa a linha de frente e viramos animais humanos.” A esmagadora pressão desta tempes­ tade de aço teve devastadores efeitos psicológicos. A nova loucura da guerra foi definida pelo psicólogo Charles Myers, que em fevereiro de 1915 a chamou de “neurose de guerra”. Os médicos logo notaram um aglomerado de sintomas que “se seguiam ao choque de uma bomba explodin­ do”: paralisia, estupor, amnésia, um incontrolável sacudir de braços e pernas num eco demente das danças de Nijinsky de antes da guerra. Em julho de 1915, o professor de medicina em Oxford registrou uma “orgia de neuroses e psicoses, modos de andar e paralisias. Não posso imaginar o que deu no sistema nervoso central dos homens... mudez histérica, cegueira, muita perda de sensibilidade”. Esses sintomas eram universais. Na Alemanha, houve mais de 600 mil casos de “neuroses de guerra” de 1914 até 1918. Entre abril de 1915 e abril de 1916, cerca de 24 mil casos de neurose de guerra foram mandados de volta para a In­ glaterra. Esta era uma “neurastenia” em massa que apenas os especialistas em psicologia - reconhecida como uma prática médica legal em 1913 - podiam in­ terpretar. Com a sanidade do norte da Europa cada vez mais em questão, a Gran­ de Guerra tornou-se a primeira guerra psicológica. O tratamento com psiquiatras era um modo de aliviar as paralisações sistêmicas sem precedentes causadas pela neurose de guerra.

1 Pelo famoso psiquiatra de Zurique, professor Blueler, em 1911. Sua definição do estado descrevia um distúrbio mental “caracterizado por pensamentos autistas”. Os sintomas incluíam: “perda de conexão emocional com o ambiente, negativismo ou obediência automática e alucinações.”

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Entretanto, a psicologia permanecia uma disciplina especializada, aplicável apenas aos combatentes. Aqueles que ficavam esperando em casa não tinham esse alívio. Dentro da perplexidade emocional da época, mostrar tristeza e até medo era considerado tabu: como uma jovem britânica que perdeu o noivo lembrou: “Eu só queria me esconder em algum lúgar quieto e não me preocupar em falar com ninguém.” O que os britânicos chamaram de “stiffupper lip”—lá­ bio superior firme, que não treme para se referir ao ato de “não perder a cora­ gem” ou “não chorar”, passou a ser um princípio de sobrevivência, um necessário abafar de emoções explosivas que poderiam, de outra forma, desestabilizar socie­ dades que já estavam chegando aos limites do suportável. Entretanto, o medo sem disfarces demonstrado pelas vítimas da neurose de guerra revelava que esta estratégia era eficaz apenas em parte. No front interno, o rígido controle de emoções avassaladoras em geral funcionava, mas também tinha como conseqüência uma série de sintomas mal explicados que iam da imersão no ocultismo ao consumo de drogas, à delinqüência juvenil e a uma “sexualidade incontrolável”. A violenta investida da guerra plena precipitou uma revolução social e moral: como Magnus Hirschfeld mais tarde escreveu, “O prazer do mo­ mento era o que decidia a ação do indivíduo, pois o presente era a única coisa de que se tinha certeza”. * * * Esta concentração no presente representava, entre outras coisas, mais um prego no caixão da religião organizada. Na França, na Alemanha e na Grã-Bretanha, igualmente, o endosso incondicional da Igreja à guerra gerou ressentimentos a partir de 1916. Na Grã-Bretanha, os civis recorriam cada vez mais aos espiritua­ listas, que pareciam oferecer uma conexão direta com os jovens parentes mortos. Assim como os imperativos do capitalismo americano começaram a minar o es­ pírito de sacrifício promovido pelo cristianismo, do mesmo modo a experiência da guerra acentuava a total imersão no presente já definida como dominante na psique dos adolescentes. Em guerras anteriores, o status do soldado e o do não combatente tinham se mantido bastante distintos. A primeira guerra europeia de massa destruiu essa distinção. O simples número das baixas na linha de frente significava que muito poucos civis estavam imunes ao impacto da guerra. Porém, mais importante ainda, os civis eram considerados como alvos militares legítimos. Na França, na Alemanha e na Grã-Bretanha, o número de civis mortos (por desnutrição, doença e ações militares) girava em torno de 10% do total de baixas militares. Na Fran­ ça, o número era de aproximadamente meio milhão, na Grã-Bretanha, quase 300 mil, e na Alemanha, ultrapassava os 620 mil. A CLASSE DE 1902

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Este alargamento da esfera de ação da guerra significava que o front interno tornava-se sujeito às suas próprias tensões e pressões. Entre os mais afetados estavam as mulheres jovens e o grupo mais vulnerável da Europa, definido por Ernst Glaeser como “A classe de 1902”, os adolescentes mais jovens que tinham conhecido pouca coisa além da guerra e estavam indefesos contra suas psicoses. Mesmo no início da adolescência, o fato de o recrutamento e a probabilidade de servir na linha de frente parecerem importantes como um treinamento militar regular tornou-se parte do currículo padrão, e assim a juventude era bombarde­ ada com a propaganda em prol do sacrifício. Com a crescente mobilização, os adolescentes da classe operária também eram recrutados para o mundo do trabalho adulto. Leis previamente rígidas regulamen­ tando o trabalho infantil foram flexibilizadas com a continuação da guerra: na Alemanha, até 300 mil homens e mulheres jovens estavam empregados em fábri­ cas em 1917. Na Grã-Bretanha, o número foi estimado em 600 mil. Muitos es­ colares saíam antes da idade legal de 14 anos, ou recebiam dispensa para trabalhar 33 horas por semana se freqüentassem a escola em “meio período”. Em algumas áreas rurais, até metade dos adolescentes em idade escolar eram levados para trabalhar na tarefa cada vez mais vital de produzir alimentos. Ao mesmo tempo, as figuras de autoridade que davam aos jovens estrutura e disciplina começaram a desaparecer, quando pais, professores, irmãos mais ve­ lhos e policiais eram convocados. Com as escolas frequentemente fechadas e os parentes envolvidos no esforço de guerra, números nunca vistos de adolescentes eram deixados à própria sorte. Desde 1915, eles tinham começado a viver num mundo de pares em grande parte sem a supervisão dos adultos. Junto com os efeitos adversos da desnutrição e da agressão sancionados pela declaração de guerra, esta falta de controle montou o cenário para mais comportamentos anor­ mais entre os jovens. Um dos primeiros indícios disso foi visto na Grã-Bretanha depois que o na­ vio de passageiros, Lusitania> afundou em maio de 1915. Segundo um jornal das áreas mais pobres da cidade, “multidões de jovens e mulheres congregavam-se nas vizinhanças da lojas que pertenciam a pessoas com nomes alemães e as ata­ cavam com algum grau de violência”. Estas explosões de violência xenofóbica repetiram-se nas principais cidades de todo o país: em Hull, Londres e Liverpool. Embora socialmente sancionadas, elas apontavam para uma incidência maior de delinqüência juvenil. Nas 17 principais cidades britânicas, o número de jovens com menos de 16 anos acusados de crimes subira 33% durante o ano de 1915. Isso despertou o interesse do governo: como o comissário de polícia de Londres escreveu num rela­ tório para o Ministério dos Negócios Interiores, “o que mais cresce é, sem dúvida, a ausência de controle paterno. Em inúmeros casos, o pai está longe, servindo, e 178 | 1912-1919

a mae está empregada numa fábrica de munição ou trabalha em outro tipo de emprego, e assim não há nenhum adulto para cuidar das crianças; este é um fator de gravíssima importância”. Este padrão repetia-se na Alemanha, onde o número de crimes juvenis subira 60% entre 1914 e 1916. O crime mais comum era a vadiagem: com trabalho assalariado disponível e um futuro militar à vista, a escola parecia inútil. Um estudo sobre o problema realizado em Berlim revelou que 90% dos delinqüentes tinham mães que trabalhavam ou estavam ausentes. Na falta de controle pelos adultos, os adolescentes formavam clubes juvenis informais que muitas vezes não se distinguiam das gangues criminosas. As autoridades ficaram tão preocupa­ das com essa “dissolução moral” da juventude que tentaram desviar suas energias para atividades relacionadas com a guerra. É difícil fugir à ideia de que esses jovens estavam apenas representando o que fazia a sociedade em geral. Exatamente na idade em que estavam para entrar no mundo fora de casa, eles descobriam que esse mundo havia explodido em vio­ lência. Como membro daquela geração nascida nos meados da década de 1900, o berlinense Sebastian Haffner sentiu que o conflito tinha um apelo obsessivo: “Era um jogo escuro, misterioso, e o seu fascínio interminável, perverso, eclipsava tudo o mais, fazendo o cotidiano parecer banal. Era viciante, como a roleta e o ópio. Meus amigos e eu o jogamos durante toda a guerra: quatro longos anos, impunes e sem que ninguém nos perturbasse.” Na Grã-Bretanha, isto encontrou eco nas gangues de rua. Os hooligans tinham retornado, sob um novo e mais vicioso disfarce. Entre os mais notórios estavam os Anderston Redskins, de Glasgow, uma das muitas gangues que aterrorizavam a cidade durante o ano de 1916. Num artigo intitulado de “Os terroristas de Glasgow”, o Sunday Chronicle pintou um quadro assustador: “Uma gangue rivaliza mais do que a outra em selvageria e horror. Senhoras são pegas e roubadas; poli­ ciais recebem cacetadas e cortes com cacos de garrafa quando tentam levar alguns dos rufiões para a prisão; e homens idosos são espancados e deixados no chão depois de seus bolsos serem esvaziados.” Durante os primeiros anos da guerra, uma gangue de Manchester chamada Napoo praticava a sua própria versão das histórias dos índios americanos: “Eles perseguiam furtivamente meninas e moças nas ruas”, um de seus contemporâneos lembrou, “e aí agarravam os longos cabelos trançados que pendiam nas costas, que era o estilo da época, e com um par de tesouras afiadas cortavam a trança e saíam correndo com ela como suvenir.” Eles estavam “cada vez mais ousados”: “Alguns costumavam subir nos bondes tarde da noite e, se uma mulher estava sentada sozinha, cortavam os cabelos dela, e depois, como um raio, saíam em disparada sem ser apanhados.” Originários do distrito industrial de Ancoats, os Napoo foram logo identi­ ficados pelo lenço de pescoço cor-de-rosa, que era o uniforme do grupo. Com A CLASSE DE 1902

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seus “escalpelos” muito públicos, rapidamente ganharam uma temível reputação. “Eles se tornaram notórios e todos falavam deles”, uma criança de Manchester daquela época lembrou. “Faziam de tudo, quebravam vidraças, lutavam contra todo mundo que fosse possível e tinham navalhas enfiadas nos bolsos dos coletes, navalhas para cortar pescoços, esse tipo de coisa. Mas nunca se viam realmente as coisas acontecerem. Era sempre algo de que as pessoas falavam.” A delinqüência juvenil aumentou na Grã-Bretanha durante a Grande Guerra, mas a percepção pública da ameaça era maior do que a realidade, conforme as histórias assustadoras nos jornais faziam efeito. O crime entre os adolescentes não era apenas o sintoma de um mundo enlouquecido, mas, como o criminologista e reformador Cecil Leeson escreveu em seu panfleto de 1917, A criança e a guer­ ra, “um desperdício de vida que a nação, situada como está agora, não pode ad­ mitir”. Na totalidade da guerra, todos tinham seu papel: “A verdade nua e crua é que o Estado não pode se dar o luxo de ter criminosos adolescentes com uma população dizimada pela guerra.” Leeson reconhecia que “as condições em que as crianças agora são obrigadas a viver impossibilitam o saudável desenvolvimento moral”. A escalada de vandalismos, furtos e vários crimes relacionados com a desordem pública tinha muitas ex­ plicações. Graças ao recrutamento havia muito menos policiais: seus substitutos, todos homens mais velhos, lutavam para conter seus jovens e ardilosos adversários. A iluminação restrita das ruas ajudava a criminalidade, visto que “a maldade ama o escuro”. A falta do cuidado paterno adequado e a interrupção dos estudos tam­ bém tiveram seu papel. O “presente estado anormal da sociedade” também teve sua parcela de culpa, com sua “conversa característica da guerra, de malícia, per­ fídia e vingança”. Os adolescentes da classe operária sempre suportaram o impacto do pânico da delinqüência juvenil, mas durante a guerra o fato de muitos estarem emprega­ dos em tempo integral significava que tinham mais dinheiro para gastar e, por sua vez, isso trazia uma autoconfiança maior. “Esses garotos ganham como ho­ mens adultos”, Leeson escreveu, “e são tratados como homens, embora lhes falte a experiência. Por conseguinte, tentam escapar de vez em quando e, neste perío­ do de reação, cometem-se crimes”. Uma vez ingressado no mundo do trabalho, adolescentes de 14 anos deveriam poder participar de prazeres adultos. Isso não era possível na Grã-Bretanha dos tempos da guerra, regulada por infindáveis DORA antiquados. O futebol, o críquete e as corridas foram proibidos nos primeiros anos da guerra e, durante o ano de 1917, beber em bares era se­ veramente restringido.2 Num país cada vez mais cheio de regulamentos, os adoles­ 2 Liderado por David Lloyd George, um ex-defensor da abstinência, o governo havia muito estava de olho nas horas de funcionamento dos bares - até 18 por dia - e, em 1917, elas foram restringidas a três ou quatro horas diariamente em todo o país.

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centes que desejavam diversão eram vistos como um grande problema de segu­ rança. O crescente foco na juventude também surgia do fato de que uma grande população de homens estava fora, na guerra: adolescentes e mulheres assumiram uma visibilidade sem precedentes, com resultados ambíguos. * * * Guerra era trabalho para homens: o secretário de guerra britânico, lorde Kitchener, tinha deixado claro que “não aprovava mulheres lutando”. As moças que desejas­ sem fazer mais do que entregar penas brancas descobriam que lhes eram oferecidos papéis de apoio e não de atuação na linha de frente. Entretanto, elas ainda vi­ nham em bando se alistar. Para aquelas que queriam participar, ser enfermeira era a opção mais popular. Quase 50 mil moças - algumas abaixo da idade mínima de 19 anos - afluíam para se alistarem nos Destacamentos de Ajuda Voluntária. Para muitas jovens da classe média, criadas em meio a um ideal de igualdade, essa era a opção preferida. Para as meninas das áreas pobres, o trabalho nas fábricas gerava mais dinheiro para gastar e um certo grau de independência. Robert Roberts lembrou que sua irmã mais velha, que trabalhava em engenharia, “usava cosméticos escondido, até que uma noite o velho a pegou com uma bolsa ‘dorothy (que as senhoras carre­ gavam pendurada no pulso) cheia dessas coisas. Ele jogou tudo no fogo. A casa, nós compreendíamos, tinha sido profanada. Joe Devine (um vizinho) explodiu, não ‘havia colocado as filhas na rua por usar esta imundície?\ Nunca mais ela deveria ousar... Jenny não se perturbou: ‘Ou eu continuo usando’, ela disse, ‘ou você me expulsa também’”. Na outra ponta da escala de classes, Vera Brittain descobriu que cuidar de soldados gravemente feridos a ajudava a ter uma “liberdade precoce” das inibi­ ções vitorianas. “Eu nunca tinha visto o corpo nu de um homem adulto”, ela es­ creveu, mas isso mudou rapidamente. “Exceto ir para cama com eles, quase não havia nenhum serviço íntimo que eu não prestasse a um ou outro no decorrer de quatro anos, e ainda tenho motivos para ser grata ao conhecimento do funcio­ namento masculino que esse cuidado me deu.” A maior mistura entre os sexos ampliou a liberação de restrições que a própria guerra causava. O ano de 1914 havia, segundo Magnus Hirschfeld, representa­ do “um surto de instinto em forma sancionada” que permitiu às massas fazerem tudo “que o Estado proibia ao indivíduo”. As sanções contra assassinato e irrestrita sexualidade tinham sido derrubadas. Para os rapazes que iam morrer, a necessidade de se divertirem era importantíssima. Do lado feminino, o efeito sexualmente provocante de um uniforme militar e o desejo de aproveitar ao máximo o mo­ mento tiveram a sua própria influência. A CLASSE DE 1902

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Ainda que não chegasse perto da loucura presente nos bordéis da linha de frente, essa exuberante liberdade sexual espalhou-se para o front doméstico. En­ tretanto, houve conseqüências. Casos de gravidez extraconjugal aumentaram ao mesmo tempo que os índices de prostituição e de infecções por doenças venéreas. O problema foi considerado tão sério que se tornou um escândalo nacional: em 1916, a Royal Comission estimou que cerca de 10% dos homens nas áreas de Londres ocupadas pela classe operária sofriam de sífilis, com muitos mais infec­ tados com gonorreia. * Com o passar da guerra, as “meninas” ficaram mais jovens: o número de mu­ lheres com menos de 21 anos recrutadas para a prostituição subiu acima de 50%. Leeson citou o exemplo de “Caso D ”, uma menina de 14 anos “presa recente­ mente por vadiagem numa estação de trem junto com soldados”. Em 1918, o capelão da principal prisão feminina de Londres, Holloway, viu “uma grande deterioração” no tipo de prostituta consignada lá: “As meninas na sua maioria são muito jovens e ignorantes, muito viciadas e corruptas. Frequentemente elas vêm de cidades provincianas e de distritos rurais. São evidentemente um produto da guerra.” O comportamento das moças passava por exames minuciosos. Fossem sexual­ mente ativas ou não, muitas meninas de todas as classes estavam adotando as modas antes associadas às prostitutas: fumar cigarros e usar maquiagem de tons fortes em público. Confrontados com estes novos fenômenos, muitos adultos achavam que onde havia fumaça havia fogo. Já que a saúde dos rapazes da nação era algo de suma importância, publicavam-se histórias assustadoras sobre cente­ nas de moças aglomerando-se nos portos movimentados, nos bares e nos centros de diversões de todas as principais cidades. O processo para encontrar um bode expiatório começou cedo na guerra. Na Grã-Bretanha, a preocupação com o comportamento feminino estava associada a outra questão moral: a persistente existência de vida noturna em Londres, ape­ sar das rígidas proibições de DORA. No outono de 1915, o artigo de um jornal nacional apontou para as “Meninas que jantavam fora” amontoando-se no West End de Londres: “Antes, ela jamais faria uma refeição de noite na cidade se não estivesse acompanhada por um amigo do sexo masculino. Mas agora, com di­ nheiro e sem homens, ela está começando a jantar fora cada vez mais.” Londres tornava-se “um verdadeiro Eldorado para homens com dinheiro para torrar”. Como parte do movimento da moralidade contra a vida noturna debochada de Londres, as moças da “West End Bohemia” estavam associadas às drogas. Numa coluna publicada em janeiro de 1916, um jornalista chamado Quex observou a prevalência “dessa excitante droga, a cocaína”: “É tão fácil de tomar - é só aspirar pelo nariz; e ninguém parece saber como as meninas que sofrem deste hábito des­ truidor de corpos e almas têm tanta facilidade para obter a droga. No vestuário 182 | 1912-1919

das senhoras de um certo estabelecimento, dois baldes cheios de caixinhas de papelão circulares descartáveis foram encontrados pelas faxineiras outro dia — caixas de cocaína descartadas.” O escândalo aumentou quando, em fevereiro de 1916, o Daily M ail noti­ ciou o caso de uma Francis Kingsley, apanhada vendendo cocaína para um cabo canadense disfarçado: Francis Chester não era o único soldado canadense com problemas de fornecimento. A cocaína tornou-se muito mais do que a reserva de moças amantes da boa vida que já eram chamadas de “melindrosas”: tornouse um espectro que ameaçava afetar o esforço de guerra. As autoridades foram obrigadas a agir. No fim de julho de 1916, DORA fez da “posse de cocaína ou ópio” um crime. Nos dois últimos anos de guerra, DORA - a essa altura antropomorfizada numa provocante reformadora feminina —estava por toda a parte. Para combater a “febre cáqui”, mais de duas mil unidades do Serviço Policial Feminino patrulha­ vam todos os lugares públicos onde moças “tontas” pudessem se tornar “prosti­ tutas amadoras”. Organizações patrocinadas por igrejas como o Movimento de Pureza Social instauraram uma campanha em conjunto contra o hábito de beber entre as mulheres. A prostituição foi tratada por uma regulamentação da DORA, número 40D, que tornava crime uma mulher infectada com doença venérea ter relações sexuais com qualquer membro das forças de Sua Majestade. O moralismo vigilante atingiu o seu auge no verão de 1918 com o caso de difamação de Pemberton Billing. O réu era um membro dissidente do Parlamento que acreditava “na promoção da pureza na vida pública”. No início de 1918, a sua revista, o Imperialist, aludia a uma lista imaginária de “47 mil” figuras públicas cuja perversão sexual as havia levado à traição: muitas podiam ser encon­ tradas no teatro onde era encenada a peça Salomé, de Oscar Wilde. No julga­ mento, Pemberton Billing chamou Wilde de “lepra social” que “tinha fundado um culto da sodomia neste país, e viajava de uma extremidade a outra perver­ tendo os jovens onde fosse possível”. Este bizarro julgamento foi apenas um dos muitos exemplos de comporta­ mento anormal que prosperavam no norte da Europa durante o último ano da Grande Guerra. As campanhas de 1917 não haviam causado um grande avanço, mas uma paralisação ainda mais letal. Ao mesmo tempo, o clima na Europa en­ tre junho de 1917 e maio de 1918 piorou ainda mais as condições desesperadoras do front doméstico. Com suprimentos e potencial humano forçados até o limite^ a desnutrição era freqüente. O desespero veio em seguida. Na Grã-Breta­ nha, um jornal nacional publicou no seu editorial: “O espírito da nação está fi­ cando sombrio. Sua solidariedade está desmoronando.” O ano de 1918 foi de greves, motins e rebeliões conforme as conseqüências da revolução bolchevique de novembro de 1917 se faziam sentir. A “gripe espa­ A CLASSE DE 1902

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nhola” dizimou as populações já enfraquecidas. Naquela altura, já era óbvio para muitos europeus que o continente não poderia retornar às certezas do mundo de antes da guerra, que já estava começando a assumir as características de uma era dourada. Como Robert Roberts observou, “1917 foi o ano em que o século XX realmente começou. Novas ideias circulavam pelo mundo: homens faziam pro­ jetos para o futuro”. * * * Essa convulsiva mistura de loucura de guerra e revolução vermelha deu forma ao único movimento de arte jovem europeu do período. Com a oposição organiza­ da à guerra quase impossível em todos os países combatentes,3 muitos dissidentes haviam fugido para a neutra Suíça. Tanto quanto os revolucionários como Vladimir Lênin, jovens artistas de toda a Europa afluíam em bando para o porto seguro de Zurique. Segundo o historiador Hans Richter, “para compreender o clima em que teve início o movimento Dadá, é necessário lembrar a extensão da liberdade em Zurique, mesmo durante a guerra mundial”. O dadaísmo foi proclamado num anúncio pela imprensa em 2 de fevereiro de 1916: “Cabaret Voltaire. Sob este nome formou-se um grupo de jovens artistas e escritores com o objetivo de ser um centro de entretenimento artístico. O Ca­ baret Voltaire será dirigido segundo o princípio de reuniões diárias nas quais ar­ tistas visitantes tocarão suas músicas e recitarão suas poesias.” O anúncio foi colocado por um grupo de artistas da Alemanha, Romênia e França: Hugo Bali, Emmy Hennings, Hans Arp, Mareei Janco e Tristan Tzara. Embora com idades variando entre vinte e trinta anos, nenhum deles havia trocado sua juventude por um uniforme. Os eventos na noite de estreia, três dias depois, excederam todas as expectati­ vas: como Bali escreveu, “o lugar estava explodindo de gente; muitos não conse­ guiram entrar”. O que a platéia apinhada experimentou foi uma nova e avassa­ ladora sinestesia. Esta foi descrita como “música barulhenta, poemas simultâneos recitados por quatro a sete pessoas falando ao mesmo tempo, danças bizarras com máscaras grotescas e roupas à fantasia, tudo interrompido por leituras em voz alta em alemão e francês que soavam como algo completamente diferente”. Isto foi, para citar o poema Dadá de Richard Huelsenbeck “O fim do mundo”. 3 Na Alemanha, a socialista radical Rosa Luxemburgo foi presa em abril de 1915 por liderar um protesto público; na Grã-Bretanha, inflamados membros de DORA tornaram ilegais, puníveis com multas, prisão e ostracismo social a expressão pública de sentimentos antiguerra. O cofiindador do No-Conscription Fellowship, ClifFord Allen, foi julgado, condenado a trabalhos forçados e, em seguida, imediatamente preso de novo após ser solto. Em janeiro de 1918, o escrupuloso opositor Henry Firth morreu devido ao seu regime na prisão; três dias de­ pois, Bertrand Russell foi condenado a seis meses por defender abertamente as negociações de paz.

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De fato, como os movimentos que iria inspirar, o dadaísmo não foi uma ruptura tão radical com o passado como teria gostado de parecer. Mas a guerra deu ao seu obsessivo paganismo e provocação uma urgência louca: “Pandemônio, destruição, anarquia, antitudo - por que reprimir? E o pandemônio, a destruição, a anarquia, o antitudo da Guerra Mundial?” As performances no Cabaret Voltaire dramatizavam um fato que muitos europeus estavam começando a compreender. A guerra não havia só destruído ilusões, vidas e regimes, ela havia pulverizado totalmente línguas, sentidos e razão. Os dadaístas transcreveram o “mundo de barulho” do front ocidental em convulsivos ataques verbais, enquanto imitavam a linguagem estridente dos esqui­ zofrênicos: “zimzim urallala zimzim urallala zimzim zanzibar zimzella zam alifantolim brussala bulomen brussala bulomen. ”Até o seu nome representava pertur­ bação: a repetição sem sentido do dada combinava com a cega regressão, um dos principais efeitos psicológicos da guerra, descrita por Ben Shephard como uma volta “à infância”. A palavra “dada” também soa exatamente como a voz da criança chamando pelo pai: neste caso, entretanto, não era um chamado, mas uma mal­ dição. Tudo tinha de ser destruído. “Estávamos prontos para semear inquietude até o limite do nosso poder”, escreveu Hans Richter, “e esta inquietude surgiu de várias fontes. Alguns sentiam a possibilidade ou a certeza de um novo caminho; com outros era falta de fé na sociedade, na nação, na arte, na moralidade e, em último recurso, no homem em si, homem, a irrecuperável besta selvagem, homem, a aposta perdida. Com outros era simplesmente a sua própria inquietude interior, fosse ela um reflexo da inquietude que nos rodeava, ou apenas a rebeldia juvenil. Com cada um de nós era juventude assim como uma mistura de todos estes ele­ mentos.” A influência do dadaísmo na guerra foi muito pequena. Entretanto, o mo­ vimento captou uma realidade subjacente do lugar e tempo aos quais pertencia. A guerra havia mesmo causado “O fim do mundo” e as estilhaçantes conseqüên­ cias seriam representadas em todos os países combatentes. Por toda a Europa, a guerra havia inexoravelmente arruinado populações no front doméstico. A bruta­ lidade em grande escala penetrara na alma das pessoas: era como se elas também tivessem se tornado máquinas. A grande causa de 1914 revelara-se uma mentira, e no lugar do idealismo surgiram “uma irresponsabilidade e uma indiferença entre as pessoas, de um tipo que elas nunca tinham conhecido antes”. Entretanto, o objetivo dos mitos pagãos de sacrifício é o início de um novo ciclo, quando o fim de um mundo pressagia o começo de outro. Do sistema im­ perial degenerado do século XIX surgiu a ideia regeneradora de uma sociedade de massa mais justa. A guerra havia destruído para sempre a irrefletida deferência em que tinham se baseado os respectivos sistemas de classe dos países europeus A CLASSE DE 1902

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combatentes. Tendo ingressado no esforço de guerra, segmentos até então desva­ lorizados da população ganharam algum grau de confiança e autodeterminação. A Grande Guerra destruiu para sempre a obediência automática que os mais velhos esperavam de seus filhos. Fosse a geração de 1914 ou a classe de 1902, um grupo maciço compreendendo milhões de jovens europeus tinha compartilha­ do experiências semelhantes. Obrigados prematuramente a enfrentar responsabi­ lidades adultas, eles não iriam retornar ao seu estado invisível de antes. A guerra criou e brutalizou a nova sociedade de massa da juventude.

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CAPÍTULO

13

Bandas de jazz e os soldados de infantaria

Ajuventude americana entra na Europa * * *

“Não quero viver até fica r velho”, disse William com convicção. “Prefiro fazer o que me agrada agora e morrer um pouco mais cedo. ” - Booth Tarkington, Sevenfeen (1916)

ADOLESCENTE AMERICANO, DÉCADA DE 1910

do início da Grande Guerra, a América ainda preservava sua neutralidade. Um pequeno percentual de seus jovens já estava lutando, entretan­ to. Em setembro de 1915, Theodore Roosevelt convocara “todos os rapazes que estivessem saindo da faculdade” para irem para a Europa “tentar ajudar”. Vinte e cinco mil jovens colegiais ingressaram em organizações como a Legião Estrangei­ ra Francesa, a Esquadrilha Lafayette ou o American Field Service, que atraiu fi­ guras tão diversas como John Dos Passos, Ernest Hemingway e Harry Crosby. Para muitos, o motivo era a excitação. Um de seus representantes mais ex­ pressivos, o poeta Alan Seeger, escreveu ao se preparar para um ataque em julho de 1916: “Estou feliz por ir na primeira leva. Se você se mete nisto é melhor que seja até o limite. E esta é a suprema experiência.” Seeger morreu pouco depois, na batalha do Somme, o ataque dos aliados que aniquilou o exército de voluntários da Grã-Bretanha: no primeiro dia da campanha aconteceram 60 mil baixas. Flandres ficou saturada com o fedor de corpos desmembrados, apodrecendo. A um oceano de distância desse inferno negro, os jovens da América vinham sendo idealizados num “cenário de fadas”, saído direto de Peter Pam “Do outro lado da cerca, formas luminosas passavam deslizantes, tremeluzentes, ondulantes sobre uma plataforma branca, enquanto lá no alto a jovem lua pulverizava uma luz mais tênue através das folhas de bordo, para onde procissões de glóbulos ro­ sados pendiam flutuantes na noite azul.” Este era o idílio de inocência prelapsariana propagada pelo livro juvenil mais vendido no continente naquele ano, Seventeen, de Booth Tarkington. Já bastante conhecido como romancista, Tarkington tinha visto sua fama crescer depois da publicação em 1914 do seu best-seller para meninos Penrod. Ao aumentar a idade do seu herói neste novo romance, ele estava tentando re­ capturar o que era ser adolescente: “Aos olhos do jovem, o tempo não está real­ mente fugindo”, ele escreveu mais tarde; “o tempo é longo —tão longo que, para fins práticos, o presente parece ser eterno.” Com o subtítulo Um conto dejuventude e de verão, a natureza episódica de Seventeen era destinada tanto para um seriado publicado em revista quanto para a percepção de seus jovens leitores. Booth Tarkington congelou sua arcadia adolescente num clássico cenário ame­ ricano: a pequena cidade do Meio-Oeste livre de guerras, angústias ou mesmo de qualquer noção do mundo exterior. Dentro deste ambiente hermeticamente fecha­ do, o maior problema do jovem William Sylvanus Baxter, de 17 anos, é a sua perseguição frustrada à visitante Lola Pratt, um pesadelo tatibitate de vestido branco. A trama, tal como ela é, consiste das tentativas de William para vencer os complicados rituais de cortejo impostos por uma srta. Pratt caprichosamente desinteressada. Em vez de hinos para autossacrifício em massa, William escreve poesias de amor ruins. Ele é um clássico sonhador americano, habitando o que Tarkington DOIS A N O S DEPOIS

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chama de um mundo “róseo diáfano”. Ele fantasia que é um poeta e um ator, e imagina-se subindo ao cadafalso, como Sydney Carton em Um conto de duas ci­ dades, a fim de provar a trágica sinceridade de seu amor não correspondido. A rea­ lidade é um tanto diferente. Sua irmã mais nova e suas colegas do sexo feminino riem dos seus elevados sentimentos, enquanto que o vizinho, o sr. Parcher, forçado a observar os cortejos de William, cai de cama com náuseas. Estas parábolas domésticas de etiqueta de cidade pequena mascaravam um agudo comentário social. Tarkington apontou com precisão na figura meiomenino, meio-homem, de William Baxter aquela idade que personificava a de­ finição ainda não padronizada de adolescência. Ao definir este ano central, ele também localizou o que se tornaria um tema perene na cultura juvenil que viria em seguida. Os 17 anos marcariam o momento em que os adolescentes se liberta­ vam do controle dos pais e imergiam plenamente no mundo de pares, sua ma­ neira de alcançar a independência.1 Tarkington também inseriu material psicologicamente preciso para sensibi­ lizar seus leitores adolescentes. A instabilidade emocional de William é um dom: como uma de suas colegas observa, ele “não gosta muito de nada. Tem 17 anos de idade”. Ele está sempre correndo atrás da maturidade: como lembra aos pais, “vou fazer 18 anos”, e, no que lhe diz respeito, isto é idade suficiente para se ca­ sar e ser um adulto. Isso não tem nenhuma importância. Seus pais podem ceder a seus caprichos, mas a palavra deles é a lei: como diz seu pai, ao lhe recusar o terno que conferiria maturidade ao filho, “você é jovem demais, Willie”. Sejá lá o que imaginasse, William ainda habitava a ambígua zona entre in­ fância e idade adulta: independente na sua cabeça, mas na realidade por demais dependente de seus pais. Tarkington definiu isso como “a época da vida em que é insuportável não parecer perfeito em tudo que for exterior: na posição mundana, nos aparatos de riqueza, na família e na graça, elegância e dignidade de todas as aparições em público. E, no entanto, o jovem está sempre sendo traído pela crian­ ça que ainda persiste intermitentemente dentro dele e pela criança que pessoas pouco diplomáticas com constância supõem que ele seja.” Com uma espirituosidade delicada, tímida, Tarkington ridiculariza e simpati­ za com seu jovem herói. Seventeen foi um documento de transição, mas influente, que expandia as definições contemporâneas dos anos entre os 13 e os 19 (os teens) ao mesmo tempo que divulgava a ideia de que os adolescentes de classe média 1 Na verdade, 17 seria aquela idade que marcaria os relatos juvenis definidores de geração no futuro. Note o romance juvenil mais popular de 1942, Seventeenth Summer, de Maureen Daly. Note também, fora da estrutura de tempo deste livro, “I Saw Her Standing There” dos Beades, também intitulada “Seventeen”, e o “Seventeen” dos Sex Pistols. Preste atenção à idade de Pinkie no livro Brighton Rock (1938), de Graham Greene: “Havia veneno em suas veias, embora ele suportasse estoicamente. Ele fora insultado: eles achavam que era por que tinha 17 anos.”

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habitavam um mundo só deles. O livro ampliava a noção de que a juventude era uma raça à parte, que poderia compreender um mercado distinto, que na verdade poderia ser um objeto de aspiração, em vez de ser apenas um problema social ou uma peça defeituosa de máquina que precisava ser consertada. Mais do que tudo, era um olhar profundamente nostálgico para uma era e um gênero que, em 1916, estava prestes a desaparecer - independentemente do que acontecia na Europa. Depois de temporadas em Paris e Nova York, quando Tarkington retornou em 1911 para a sua cidade natal de Indianápolis, encon­ trou-a marcada pela poluição industrial. Vituperando contra os grandes negócios, que chamou de “os selvagens do mundo”, o autor preferiu ignorar a fuligem e a fumaça acre e colocou seus personagens no Meio-Oeste pré-industrial, intacto, da sua própria adolescência nos meados de 1880: “os tranqüilos dias do passa­ do”, que se “foram para sempre”. Ao avaliar a sua autobiografia como um período perdido, já dourado, Tar­ kington escrevia de acordo com as normas da categoria dos livros para meninos voltados não para crianças e adolescentes, mas também para a próspera meiaidade. Seventeen pode ter aumentado a idade padrão do gênero para 14 anos, mas omitiu intencionalmente qualquer menção sobre a sexualidade adolescente que Freud já havia exposto e que o comércio americano em breve procuraria explo­ rar. Baxter e seus colegas são apanhados bem na cúspide da autoconscientização de geração que viria em breve. Em um nível, Seventeen estava obsoleto quando foi publicado. Não levava em conta a cultura juvenil urbana, as danças de animais, o ragtime ou o cinema. Entretanto, não estava destinado a ser um documentário, mas uma fantasia, e com o seu sucesso reforçou a natureza particular da adolescência americana: um estado definido não só pelo seu prazer, ou facilidade, em sonhar, mas também por insaciáveis entusiasmo e inocência. Como a própria América, Willie Baxter ainda não carregava o peso da experiência e olhava confiante para um futuro que, de tão garantido, o deixava livre para viver somente no presente. * * * Esta jovial espontaneidade pôde ser ouvida num outro tipo de best-seller que, no início de 1917, personificou o sistema nervoso do adolescente urbano america­ no. Apesar das campanhas moralistas, a música negra e as danças que ela ins­ pirava continuavam a se espalhar por todo o país e por todas as classes. Assim como os artistas começaram a se fechar em torno do distrito da luz vermelha de Nova Orleans, em Storyville, a música que havia se originado ali - tão nova que mal tinha um nome —começou a se espalhar com seus praticantes por todo o país. 190 | 1912-1919

Em março de 1917, a Victor Talking Machine Company, na época a maior gravadora do mundo, lançou o disco da Original Dixieland Jass Band, de 78 ro­ tações e dupla face, contendo “Dixie Jass Band One Step” e “Livery Stable Blues”. Foi um golpe e tanto para o grupo branco de Nova Orleans, que acabara de se mudar para Nova York em janeiro. Outros grupos de Nova Orleans já tinham tocado em Nova York, mas como parte de um show de vaudeville-. em contraste, os ODJB eram atrações principais, trazidos para divertir os dançarinos que ainda enchiam a vida noturna de Manhattan. Nova York nunca tinha escutado nada como as apresentações no Reinsenwerber, um estabelecimento elegante no Upper West Side: a pista de dança ficou logo repleta de “colegiais animados e gente aventureira”. A cidade ainda era o cen­ tro da indústria musical, e um mês depois da sua chegada a ODJB foi convidada para uma audição para a Columbia Graphophone Company. A sua música era tão alta e estridente que a sessão terminou em mútua incompreensão entre o gru­ po e os engenheiros de som. Gravando para a Victor quatro semanas depois, eles se entenderam quando ambos os lados cristalizaram o ataque sem reservas do novo estilo jass. O termo, como a música, originara-se do bairro da luz vermelha em Nova Orleans, derivando de uma palavra africana para relações sexuais. Jass estava em uso nos meados da década de 1910, embora a música viesse se desenvolvendo havia cerca de duas décadas: como seu nome sugeria, era muito mais solto e sel­ vagem do que o ragtime. No lugar das arcaicas marchas de Sousa que deram ori­ gem aosrags no século XIX, o jass, ou jazz, como foi logo chamado, era formado por vários instrumentos de sopro tocando ao mesmo tempo e contra a melodia, com o piano rag sendo a base e os ritmos tribais, dissonantes, crescendo em ní­ veis de intensidade de tirar o fôlego. O cornetista da ODJB, Nick LaRocca, e o trombonista, Larry Shields, esta­ vam ambos com quase trinta anos e tinham tocado com Jack “Papa” Laine, im­ portante bandleader branco de Nova Orleans. Eles tinham se inspirado nas prin­ cipais bandas negras como a Brownskin Band, de Kid Ory, e na Olympia, que apresentava Sidney Bechet e King Oliver. Como muitos músicos de Nova Orleans, eles tinham começado a viajar para fora da cidade, mudando-se no ano anterior para Chicago, onde formaram a ODJB: a ida para Nova York foi resultado do patrocínio do artista de vaudeville Al Jolson. Para os americanos de meia-idade, a “Dixie Jass Band One Step” deve ter soa­ do como um caos, uma cacofonia de terreiro. LaRocca e Shields tocavam com uma exuberância borbulhante, enquanto que o escorregadio trombone de Eddie Edwards proporcionava um irresistível momentum. Sustentando este inexorável avanço para o futuro estava a proeminente e ruidosa bateria de Tony Sbarbaro, de 19 anos. O grupo foi promovido como um desvio radical, com slogans como BANDAS DE JAZZ E OS SOLDADOS DE INFANTARIA

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“Músicos desafinados tocando ‘melodias picantes’” e citações de LaRocca afirman­ do que eles eram anarquistas musicais e que o jazz era o “assassinato da melodia”. O jazz apenas começara a receber atenção da mídia —uma fase de transição marcada pela ortografia da ODJB que logo iria se tomar obsoleta —, mas ele levou a mania de dançar a um novo patamar: segundo a Variety daquele mês de março, “esta música ritmada, picante, é o que os dançarinos querem”. Com o as companhias de cinema, a indústria musical estava sempre sujeita às influências dos ditames do gosto popular. Embora o Tin Pan Alley, como era chamado o centro da indústria de músicas populares, ficasse mais contente controlando o mercado com a sua patenteada mistura de canções sentimentais e nostálgicas, ele estava sempre interessado em novidades —que é como o ragtime e os blues foram apresentados pela primeira vez.

Parecia que esse novo estilo vinha do nada, mas assim que chegou à Costa Leste rapidamente virou uma nova mania. Dixie Jass Band One Step pode não ter sido o primeiro disco de jazz, mas foi o primeiro a entusiasmar o público. Expressamente destinado a dançar, ele sumia das lojas: no fim de abril de 1917, o mês em que Scott Joplin morreu, ele havia vendido um milhão de cópias. Havia uma ótima razão para seu sucesso: apesar das dificuldades para sua criação, o disco tinha a excitação e o frescor da exuberância inovadora.

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O sucesso dos ODJB coincidiu com a entrada da América na Grande Guerra: no dia 2 de abril de 1917, depois de três anos de muito lobby e debates, o Con­ gresso declarou-se contra os Poderes Centrais. A opinião pública tinha levado um certo tempo para aceitar a guerra. Entre as forças reunidas contra o envolvi­ mento estavam os fortes lobbies da Alemanha e da Irlanda, os pacifistas como Henry Ford e os isolacionistas que aderiram à Doutrina Monroe. E não era só isso, a América estava indo muito bem com sua neutralidade: no fim de 1916, suas fábricas forneciam 40% das munições britânicas. A América teve de criar um exército maciço a partir do nada. Na falta dos dez anos de preparação para o conflito que tanto exercitou a Europa, o continente não tinha visto nenhuma necessidade de um grande exército permanente: na época da declaração, ele era composto apenas de 125 mil oficiais e soldados. En­ tretanto, a determinação empresarial do país era forte: o recrutamento foi logo introduzido quando, em maio de 1917, o Congresso aprovou o Ato de Serviço Seletivo para o registro e a classificação de todos os homens disponíveis dos 21 aos trinta anos de idade. Quase 10 milhões de homens nesta faixa etária se apresentaram em junho de 1917, com mais 15 milhões registrando-se em junho, agosto e setembro de 1918 —quase a metade de toda a população masculina da América. Esta espan­ tosa e instantânea mobilização em massa, entretanto, não se traduziu imediata­ mente em tropas no solo. Apenas 10% de todos os inscritos foram na verdade alistados na Força Expedicionária Americana, e antes eles tinham de passar por seis meses de treinamento nos Estados Unidos; depois, passavam mais dois me­ ses na França. A guerra não era popular entre todos os jovens americanos, mas a maioria acompanhou o passo. Eles foram ajudados na sua decisão pelo implacável fogo de artilharia da propaganda. Quase todos os jornais e revistas apoiavam a guerra. Hollywood iniciou a produção de filmes como The Beast ofBerlin, enquanto o Tin Pan Alley trombeteava melodias de guerra como “Over There”, de George M. Cohan, que vendeu um milhão de cópias na primavera de 1917. Stanley Hall pensava que a guerra era o purgativo necessário para uma nação preguiçosa, ma­ terial”: ele aceitou bem o fato de que 10 milhões de rapazes americanos enfren­ tavam a sua “prova de fogo”. Houve oposição. Na primeira convocação, 50 mil homens pediram isenção e 250 mil não se inscreveram. Os que mais protestavam eram aqueles que se re­ cusavam por motivos religiosos e/ou políticos. Dissidentes tambem eram encon­ trados entre os imigrantes recentes, assim como delinqüentes juvenis e boêmios. Gangues como a Hudson Dusters ressentiam-se da intromissão do recrutamento em suas atividades, enquanto que, para os intelectuais socialistas que contribuíam BANDAS DE JAZZ E OS SOLDADOS DE INFANTARIA

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para o jornal socialista Masses, a guerra era nada menos que “uma feia loucura das multidões”. Todos os dissidentes foram tratados de forma sumária. Reuniões antiguerra eram violentamente interrompidas e figuras proeminentes como Emma Goldman e o líder socialista Eugene Debs foram presos. Expurgos daqueles que trapaceavam no recrutamento, como a “batida contra os preguiçosos” no verão de 1918, em Nova York, que pegou 16 mil homens, eram reforçados pela humilhação pública. Livros alemães foram queimados e cidadãos alemães foram cobertos de alcatrão e penas. No leste de St. Louis, a chegada de trabalhadores negros detonou uma rebelião racial em julho de 1917: uma centena deles foi morta. As campanhas reformistas do início da década de 1910 foram apenas um ensaio geral para a onda de repressões que se seguiu a abril de 1917. Capitali­ zando com a sua xenofobia e estado de espírito restritivo, a proibicionista AntiSaloon League atrelou o patriotismo à sua crescente cruzada. O influente Wayne Wheeler conseguiu convencer o secretário do ministro da guerra a “proteger os rapazes que estavam no exército dos desastrosos efeitos das bebidas alcoólicas durante a guerra”. A ASL continuou patrocinando o “Worldwide Prohibition Congress , em Columbus, Ohio, em meados de novembro de 1918, quando a proibição de bebidas alcoólicas na América era uma decisão já tomada. Entretanto, o Velho Mundo não viu esta face da América em 1917 e 1918. Na chegada dos soldados de infantaria, os europeus esgotados de guerra preferiam ler sobre riqueza, vitalidade e esperança. No front ocidental, sua simples presença física, intocada pelos quatro anos de guerra, foi vista como nada menos do que milagrosa. Segundo um oficial francês, “todos tivemos a mesma impressão de que estávamos para ver uma maravilhosa transfusão de sangue. A vida estava chegando em torrentes para reanimar o corpo moribundo da França”. Esses padrões de excelencia amigaveis, sorridentes”, os primeiros americanos que a maioria dos europeus via em carne e osso, eram a esperança que se pensava perdida para sempre. Era como se, finalmente, a guerra pudesse ser ganha “Então esses eram nossos libertadores, enfim, marchando pela estrada”, escreveu Vera Brittain assim que viu os soldados de infantaria, em abril de 1918. “Parecia ha­ ver centenas deles e, na destemida arrogancia da sua orgulhosa força, eles davam a impressão de ser um formidável baluarte contra o perigo que vinha de Amiens.” Além do efetivo e dos equipamentos importantíssimos - que, no verão de 1918, começaram a forçar a balança a pender contra a Alemanha - , a entrada dos americanos na Europa trouxe todo um conjunto de novas idéias, práticas e costumes que imediatamente passaram a transformar a vida das pessoas destruídas pela guerra. Na sua combinação de poder industrial, vitalidade cultural e confiança física, a América personificava o futuro para muitos europeus, ainda mais porque 194 | 1912-1919

o armistício de novembro de 1918 revelou um aterrorizante vácuo dentro dos países combatentes. O cessar-fogo oficial ocorreu na l l â hora do l l â dia do l l fí mês de 1918, números místicos adequados para uma guerra tão estatística. Enquanto os Poderes Centrais perderam 3,5 milhões de soldados no campo de batalha, os aliados per­ deram mais de 5 milhões de homens. Em média, morriam 5.600 homens a cada dia de guerra. Refletindo a falta de consciência contemporânea tratando-se de jovens, não havia uma lista discriminatória por idade dessas baixas. Ao supor que os rapazes de 14 a 24 anos de idade representassem até um terço dos mortos de guerra estimados - mais ou menos uns 9 milhões - isso significa que 3 milhões de adolescentes foram assassinados.2 Esta foi a destruição de uma geração inteira: uma vasta cicatriz psíquica que não se curou. As celebrações que seguiram ao 11 de novembro pouco fizeram para preencher tal vazio. Embora multidões se aglomerassem nas ruas das capitais aliadas, muitos combatentes sentiam-se irados, vazios ou arrasados pela perda. “Este já era um mundo diferente daquele que eu conhecera durante os perpétuos quatro anos.” Vera Brittain percebeu “um mundo no qual as pessoas seriam se­ renas e despreocupadas, no qual elas mesmas, suas carreiras e diversões apagariam ideais políticos e grandes questões nacionais”. Os jovens alemães não tiveram nem mesmo o consolo da vitória. Em Berlim, o inválido George Grosz encontrou uma válvula de escape para seu “ódio” no dadaísmo alemão, um movimento que “era totalmente niilista. Nós cuspíamos em tudo, inclusive em nós mesmos. Nosso símbolo era o nada, o vácuo, o va­ zio”. Para Sebastian Haffner, de 11 anos de idade, a derrota significou o colapso instantâneo de todo o seu sistema de valores. “Onde poderíamos achar estabilidade e confiança, se o que acontecia no mundo podia ser tão enganador?”, ele lem­ brou. “Eu olhava para um abismo. A vida era um horror.” * * * O pós-guerra chegou instantaneamente com uma série de espasmos de eletrochoque. Na Alemanha, 11 cidades hastearam a bandeira vermelha da revolução socialista: nas ruas de Berlim, radicais combatiam com os Freikorps de direita no vácuo de poder criado pelo desaparecimento do Kaiser. Em Londres, a morte de uma atriz de 22 anos, Billie Carleton, por overdose de drogas logo depois de aparecer no imenso Victory Bali, no Albert Hall de Londres,3 iniciou um novo

2 Este número não leva em conta todos os feridos em mente e corpo, nem as centenas de milhares de mortes de civis causadas não só pela guerra, mas pela pandemia de gripe que a guerra facilitava. 3 Marek Kohn, em Dope Girls, observa que a causa mais provável da morte de Carleton tenha sido o Veronal que ela tomara para se recuperar depois de ingerir uma prodigiosa dose de cocaína.

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pânico na imprensa sobre “cigarros de cocaína” e uma tentativa alemã de sub­ verter a nação com narcóticos. Na primeira semana de janeiro de 1919, Jacques Vaché morreu em Nantes de overdose de ópio. Três dias depois do armistício, ele havia escrito ao seu amigo André Breton: “Sairei da guerra ligeiramente perturbado, talvez como um desses maravilhosos idiotas de aldeia (e até desejo que isto aconteça)... ou então... ou então... que papel no cinema eu farei! - Com automóveis fabulosos, você conhece o tipo, com pontes que cedem e mãos gigantes que rastejam pela tela para que documento!... Inútil e insignificante!” O Velho Mundo fora destruído e o Novo entrou correndo. Com seus soldados de infantaria, seus filmes e sua música, a América cruzara o Atlântico e a Europa dançaria ao som de uma flauta diferente. Em janeiro de 1919, o Tatlerde Londres observou: “Dizem que cabarés estão sendo abertos um atrás do outro, as costurei­ ras falam que estão tontas com as encomendas de vestidos para dançar que não param de chegar. E simplesmente não se conseguem negros em número suficiente para tocar a música do jazz, e eu soube que estão pensando em contratar esqua­ drões de “lunáticos” para fazer os ruídos loucos do jazz até que haja mais navios disponíveis para trazer de Nova York os melhores músicos’ negros de jazz.” Três meses depois, a Original Dixieland Jazz Band chegou a Londres para uma longa temporada que possibilitou aos europeus a sua primeira experiência de autêntico jazz americano. Sua estreia no início de abril no London Hippodrome foi antecipada num artigo de jornal que falava sobre o jazz em termos de “selvagens peles-vermelhas, negroides e africanos ocidentais” antes de garantir aos leitores que “os intérpretes são todos brancos —brancos como possivelmente poderiam ser”. Quando eles finalmente tocaram, a recepção foi tão frenética que o astro da casa, o comediante George Robey, ameaçou se demitir se o grupo não fosse posto no olho da rua. Apesar da controvérsia, a OJDB tocou em temporadas de sucesso no London Palladium e no Hammersmith Palais: a ideia de que eles se consideravam a vanguarda de um novo estilo era ilustrada pela presença de um dançarino, Johnny Dale, para exibir os passos de jazz mais recentes. Suas perfomances eram, segundo o gosto, “espertas e maravilhosamente ágeis” ou “como uma enguia filetada pres­ tes a entrar na panela de um ensopado”. Sua recepção revelou um abismo entre gerações: de um lado, os críticos de meia-idade, que achavam o jazz “impertinen­ te”; de outro, os jovens fãs entusiasmados, em número maior por causa dos soldados de infantaria sob licença. A juventude estava em alta no início de 1919. Dentro do vazio criado pelos quatro anos de morte e destruição, não se podia olhar para trás. A única coisa que restava era seguir em frente, o impulso natural da adolescência amplamente 196 | 1912-1919

representado pela chocante novidade do jazz. A América simbolizava a inocên­ cia e o entusiasmo da juventude e, para os jovens da Europa, não havia dúvida quanto ao seu apelo. O continente se tornaria a nova arcádia, um mundo de prazeres tecnopagãos mais estimulante do que qualquer coisa oferecida pelas ideologias juvenis da década de 1900 —ainda mais fascinante porque só podia ser experimentada de uma só vez.

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CAPÍTULO

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Choques do pós-guerra

Os FascistL o Bunde alemão e o Woodcraft Folk * * *

Ventoso e nevoento. Ansioso, fico atento a qualquer sinal de primavera. Isso me anima. Mas o desenlace da guerra é sombrio. O futuro é incerto —a vida é oscilante. Aqui estão alguns pontos. (1) A Liga da Nações fo i lançada na conferência de Paris e outros problemas tratados. Um verdadeiro espírito fo i ativado. (2) O finado inimigo, alemão, está exausto, mas recuperando-se rapidamente. Prevalece a indiferença, mas o bolchevismo não tem grande influência. (3) A Rússia é a úlcera da Europa. Caos e escuridão ali. (4) Neste país as greves são a ordem do dia. Uma greve de mineiros é a ameaça atual. Isto pode significar bolchevismo. (5) E a nova terra? O mundo inteiro vai se tornar uma Rússia? 23 de fevereiro [1919].

- U m m enino, Eighteen: A Diary of the Teens (1 9 4 7 )

FAMÍLIA D O S KIBBO KIFT MEMBERS N O ACAMPAMENTO, 1928

OS ADOLESCENTES DE 1919 estavam no limiar de um mundo incerto. Apesar de toda a matança, o conflito não se resolveu de forma decisiva: como o comandante da Força Expedicionária Americana, general Pershing, observou na época, o fracasso dos aliados em destruir o exército alemão tornou a paz temporária. Ao mesmo tempo, 1919 foi marcado por mais agitações em toda a Europa: mais motins, greves de operários de indústrias essenciais, rebeliões de populações urba­ nas enfrentando escassez de alimentos e a crescente polarização política. Os novos agrupamentos de jovens seriam marcados por essa extrema instabilidade. O Tratado de Versalhes poderia ter marcado o fim oficial do conflito, mas não curou as cicatrizes físicas e psíquicas. Nem os muitos memoriais, entre os quais estava a cerimônia realizada em homenagem ao único rapaz que, aos olhos do público britânico, simbolizou a geração condenada da guerra. Os Collected Poems de Rupert Brooke já tinham sido publicados com um índice enorme de vendas. Em março de 1919, sua morte foi comemorada com a apresentação pública de uma medalha com seu retrato na capela da Rugby School. O modelo para esta imagem idealizada foi uma foto em perfil do jovem Apoio nu feita por Sherril Schell. Era mais fácil idolatrar um jovem deus eternamente belo do que lidar com um neurastênico abatido. Brooke encarnava a pessoa que os civis gostariam que os veteranos retornando para casa fossem: os rapazes de rostos frescos, idealistas, de 1914. A realidade era muito diferente. O primeiro-ministro britânico David Lloyd George achava que “o mundo todo” estava ‘ sofrendo de neurose de guerra”, uma safra de sintomas que variavam desde a amnésia até a total catatonia. A neu­ rose de guerra era ao mesmo tempo real —como evidenciada por muitos veteranos perturbados - e metafórica, dentro de uma Europa que oscilava entre o esqueci­ mento e o hedonismo frenético, fora do lugar. O jornalista Philip Gibbs escreveu que os veteranos que voltavam para casa “vestiam roupas civis de novo e, para suas mães e esposas, eram muito parecidos com os rapazes que iam para o trabalho nos dias pacíficos antes de agosto de 1914. Mas eles não tinham voltado os mesmos homens. Alguma coisa havia mudado neles. Estavam sujeitos a súbitas mudanças de humor e estranhas impaciências, surtos de profunda depressão alterando-se com um inquieto desejo de prazer”. Vera Brittain notou “uma afoita sensação de liberdade e anticlímax combinados” entre os seus contemporâneos, tentando recapturar “a juventude perdida que a guerra roubara”. Robert Graves achou a abrupta transição da guerra para a paz um choque enorme: “Não só eu não tinha experiência da vida civil independente, tendo saí­ do direto da escola para o exército: eu ainda estava mental e nervosamente orga­ nizado para a guerra. Bombas costumavam chegar explodindo na minha cama à meia-noite... estranhos durante o dia assumiam os rostos de amigos que tinham sido mortos.” Este choque retardado era um indício da perturbação psicológica

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comum aos veteranos: porque não podia ser publicamente admitido, levaria anos para ser curado. Dentro dos pólos de espasmo e paralisação, os jovens sofreram outra definição. Na sua crítica dos anos 1920, Doom ofYouth, Percy Wyndham Lewis observou que, com o fim da guerra, “todos queriam ser, por assim dizer, recém-nascidos. Apagar o passado, especialmente a ‘pré-guerra - essa era a ideia”. Entretanto, isto era mais fácil de imaginar do que conseguir. Embora homens jovens até de 18 anos estivessem voltando do front, eles poderiam muito bem ter oitenta pelo peso de suas experiências. Muitos buscavam obliterar suas lembranças num he­ donismo obsessivo, mas o passado estaria sempre ali. Embora a juventude fosse mais uma vez idealizada como a perfeita personifi­ cação desta tábula rasa, a geração nascida tarde demais para servir na guerra se viu numa posição contraditória. Eles não puderam participar do conflito que dominava tudo ao mesmo tempo em que estavam sendo apagados da memória. Embora os mais velhos e os contemporâneos próximos que tinham servido fossem considerados modelos, a realidade do soldado voltando para casa não aparecia como uma imagem heróica. Havia uma linha divisória imensa, que gerava hosti­ lidade de ambos os lados. A geração pós-guerra, a “classe de 1902” de Ernst Glaeser, tinha passado por graves privações durante os quatro anos anteriores - doenças, fome e negligên­ cia. Tendo crescido sem pais e estudos, eles se sentiam compensados por um grau de liberdade anteriormente impensável. A reestruturação em 1919 não foi fácil. Depois de anos de ausência, os pais eram “como estranhos para nós, imensas figuras assustadoras e despóticas com sombras pesadas, opressivas como monu­ mentos. O que eles sabiam de nós? Sabiam onde morávamos, mas o que pensá­ vamos ou éramos eles não sabiam mais”. Estas tensões foram exacerbadas pelo novo valor afirmativo dado à juventude e pelo fato de que a guerra parecia ter confirmado as profecias da radical retórica antiadultos da década anterior. O ano de 1919 anunciava a chegada da adolescên­ cia como uma poderosa força social e política dentro da Europa. Como um prin­ cípio positivo, embora abstrato, a juventude encarnava o voo arrojado em direção ao futuro. E isso poderia ter sido menos importante do que aquilo que não era: as certezas do século XIX, aquele mundo pré-guerra que tinha iludido com suas ideias de estabilidade e progresso liberal. A juventude tornou-se um conceito abstrato, distinto da biologia. Segundo Robert Wohl, em 1920, a palavra “só tinha uma tênue relação com a idade cro­ nológica. Ser ‘jovem’ significava apenas possuir uma receptibilidade ao que era novo e a vitalidade necessária para enfrentar e dominar o ordálio da crise”. Juven­ tude parecia compreender um novo tipo de força revolucionária que talvez ofere­ cesse um terceiro caminho entre capitalismo e comunismo. “A civilização estava CHOQUES DO PÓS-GUERRA

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prestes a morrer”, pensava o jovial idealista Leslie Paul, “e o futuro somente a nós pertencia, os jovens, que iam construir um outro melhor.” Isso era sustentado por uma profunda raiva. O que um dia fora um valor de uns poucos poetas dissidentes estava rapidamente se tornando a história aceita do conflito. Em 1920, o ano em que os poemas de Wilfred Owen foram coletados, Philip Gibbs publicou um relato revisionista prematuro, As realidades da guerra, no qual revelava seus verdadeiros sentimentos a respeito “daqueles cinco anos de sacrifício de meninos do qual eu fui uma testemunha”. E de quem era a culpa? “Os homens velhos dirigiam o seu sacrifício, e os aproveitadores enriqueciam, e as chamas do ódio eram estocadas em banquetes patrióticos e cadeiras editoriais.” * * *

A juventude tinha sido traída pela geração anterior e era hora do ajuste de con­ tas. Nos anos imediatamente após a guerra houve uma rápida incidência de agres­ sividade adolescente por toda a Europa: fosse na política radical em todas as classes do novo Partido Fascista, nos dramas expressionistas como Vatermord (Par­ ricídio), de Arnolt Bronnen, ou nas indagações sociológicas que tentavam definir estes abismos. Ser pai em 1919 e 1920 significava fazer parte da geração que ti­ nha sido enviada jovem para a guerra. Os veteranos de guerra e seus grupos mais jovens buscavam virar as mesas e reescrever as lendas infanticidas. Com a palavra “geração” tornando-se cada vez mais popular e emotiva, veio a necessidade de uma definição mais exata. Em 1920, o sociólogo francês de 43 anos François Mentre publicou uma atualização do estudo pré-guerra de Agaton, que ele chamou de Les générations sociales. Ele pretendia falar do problema cen­ tral da teoria generacional: bebês nasciam todos os dias, portanto o movimento da população é contínuo e ininterrupto. Não havia nenhuma ruptura biológica óbvia. Então, por que um grupo de pessoas deveria conceber uma identidade diferente de outra baseado na idade, e como esta ruptura ocorre? A resposta de Mentre foi formular a ideia de uma geração social, definida como duradoura por cerca de trinta anos, o espaço de tempo que marcava a total resolução da eterna luta entre pais e filhos. Esta ideia envolvia explicitamente grupos coletivos de autoconsciência: “Quando um homem se refere à sua geração, usa uma expressão que é perfeitamente clara, embora não seja cronológica. Ele a designa por aqueles que são mais ou menos da mesma idade que ele, seus com­ panheiros, e que dividem com ele esferas de atividades e influências.” Este era um conceito francamente elitista: “A maioria dos homens representa papéis mudos no grande coro humano e é um pano de fundo para o grande baile à fantasia da história.” Mentre acreditava que cada período tinha seu grupo ge­ neracional dominante, uma vanguarda que moldava os desejos subjacentes de 204 | 1919-1929

seus contemporâneos e a nação como um todo. Este grupo era como um exército: “uma massa profunda” de “existências masculinas que não são rigorosamente con­ temporâneas, mas que obedecem a um único impulso e são animadas pelas mes­ mas ambições e as mesmas esperanças.” Embora um ponto de partida útil, o problema desta teoria era que ela não levava em conta a diferença entre gerações na França do pós-guerra. Trinta anos eram muito tempo para responder pelo rápido índice de mudanças. Mentre admi­ tia que, depois da guerra, as gerações sociais tinham se fragmentando em dois, três ou quatro segmentos. Isto tinha ocorrido, ele observou, “porque os jovens estão muito ansiosos para que se fale deles e passam facilmente por cima dos di­ reitos dos mais velhos!” A guerra representou uma ruptura tão fundamental que várias gerações com­ petiam pela proeminência. Havia os que tinham nascido na década de 1880, Geração A, os ideólogos conservadores que tinham alimentado a febre da guerra de 1914. Havia uma segunda geração, B, que, nascida por volta de 1890, tinha entrado na guerra no início da vida adulta. A Geração C, nascida poucos anos depois, tinha saído direto da escola para o combate, enquanto que a Geração D, a Classe de 1902, era muito jovem para lutar durante o período de 1914-18, mas tinha idade suficiente para disputar o seu lugar na sociedade. Todos afirmavam a sua primazia na experiência dos tempos de guerra. En­ quanto a Geração A talvez tivesse sido a inimiga óbvia das Gerações B, C e D, o relacionamento dos três grupos mais jovens era desconfortável. A Geração B sobrevivera a uma espantosa experiência, mas tinha retornado sem nenhuma glória. A sua desilusão foi expressa pelo seu porta-voz mais eloqüente, Pierre Drieu La Rochelle, nascido em 1893. Em contraste com os sonhos de orgulho e glória de 1914, ele sentia que os veteranos que retornavam eram “pobres crian­ ças, fascinadas e perdidas”. Eles estavam “fora de tudo”. As gerações mais extremas eram a C e a D, aquelas que não tinham conhecido nenhuma vida adulta antes da guerra. De início, os mais expressivos foram os jovens artistas e escritores do dadaísmo internacional. A ala francesa do movimento tornou-se pública com o show de variedades em março de 1920, no Théâtre de TOeuvre. Para uma platéia aglomerada, rebelde, o jovem de 23 anos de idade André Breton declamou o Manifeste Cannibale Dada: “Dadá sozinho não cheira: é nada, nada, nada. É como as suas esperanças: nada. Como o seu paraíso: nada. Como os seus ídolos: nada. Como os seus políticos: nada. Como os seus heróis: nada.” Este niilismo estético encontrou um foco político com a Mise en accusation etjugement de M. Maurice Barres, um ataque direto ao líder espiritual da Geração A. O julgamento foi levado a sério, com acusação, defesa e testemunhas, mas a encenação precipitou o rompimento do grupo francês. Seu problema era simples: CHOQUES DO PÓS-GUERRA

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o que é o positivo depois do negativo? Se não há nada, então a energia negativa se volta para dentro. O manifesto do movimento em 1919, Dada prophétie, já havia previsto isto: “O dadaísmo sobreviverá apenas deixando de existir.” A análise mais sensacional da divisão de gerações foi oferecida pelo romance de Raymond Radiguet, de 19 anos, em 1923, Le Diable au corps, criado para ofender com sua trama a respeito do romance de um escolar durante a guerra com a mulher de um soldado. Protegido de Jean Cocteau, o precoce Radiguet foi elogiado como o maior prodígio desde Arthur Rimbaud. Seu romance exage­ rava na hipérbole com sua mordaz declaração de abertura: “Que aqueles que já me são hostis considerem o que a guerra significou para muitos rapazes: quatro anos de férias.” Brincando com o pior temor dos soldados de serviço, a infidelidade da esposa idealizada, Radiguet retratou seu protagonista de 16 anos de idade como alguém totalmente desinteressado pela guerra. Pelo contrário, ele fica obcecado por Marthe, de 18 anos: “Eu sonhava com o tipo de vida pela qual se espera quando se é mais velho. Nós viveríamos no campo; seriamos eternamente jovens.” A guerra não se choca com esta fantasia, que é destruída apenas quando a gravidez de Marthe revela “as milhares de contradições da juventude às voltas com a aventura de um homem”. Enquanto as gerações que serviram lamentavam seu fracasso em progredir no mundo pós-guerra, a Geração D tentava entender o apocalipse que não tinha chegado. O succès de scandale de Radiguet foi seguido por vários autoexames que desenvolveram seus temas de maturidade precoce e falta de controle dos pais. Escritores como Mareei Arland, André Chamson, André Malraux e Pierre Luchaire, todos nascidos por volta da virada do século, se viram mutilados pela promessa de uma revolução que nunca aconteceu. Como os dadaístas, eles tinham mais certeza daquilo a que se opunham do que daquilo que defendiam. Para Luchaire, a guerra tinha sido “uma escola de fatos” que tornou seus pares cínicos mas, acima de tudo, realistas. Arland achava que o negativismo de sua geração, combinado ao seu desesperado desejo de ação, levaria ao extremismo. Malraux se perguntava o que seria da sua violenta geração, “tão maravilhosamente armada contra si mesma e livre da vulgar vaidade de chamar de grandeza o que, na verdade, é desdém pela vida à qual não sabe como se ligar?” * * *

Este conflito de gerações foi também encenado na Grã-Bretanha. Muitos solda­ dos achavam que o seu lugar na sociedade tinha sido usurpado por aqueles que eram muito jovens para servir. Como Frank Hardy, o veterano desempregado 206 | 1919-1929

no romance de Philip Gibbs, Young Anarchy, afirma com amargura: “Você vê, nos que tínhamos passado por tudo isso estávamos quatro anos mais velhos sem ter aprendido nada de útil para os empregos em tempos de paz. Perdemos o barco, por assim dizer. A turma mais jovem ocupou todos os lugares e nos dei­ xou encalhados. Com a recessão pos-guerra, o desemprego aumentou inexora­ velmente durante o início da década de 1920, alcançando um pico de 2,5 milhões de desempregados no verão de 1921. Até veteranos privilegiados sentiam que não recebiam o devido respeito. Retornando a Oxford em 1919, Vera Brittain observou o fundamental antago­ nismo “entre aqueles que sofreram profundamente com a guerra, e os outros que escaparam de seus impactos mais violentos”. Ela se deu conta sensivelmente das muitas possibilidades de desentendimento que amarguraram as relações da geração da guerra e a imediatamente mais jovem - um tipo de desentendimento que é talvez inevitável sempre que um grupo passou por uma profunda experiência que o outro não teve”. Para os seus “mais jovens”, a guerra já estava “fora de moda”. Os jovens não se intimidavam mais. Em setembro de 1920, o irmão mais novo de Alec Waugh, Evelyn, exaltava “a extraordinária explosão de juventude”: “Todo menino está escrevendo sobre a sua escola, toda criança sobre a sua casa de boneca, todo bebê sobre a sua mamadeira. Os muito jovens ganharam um monopólio quase total do livro, da imprensa e da galeria de quadros. A juventude esta ganhando fama. Em 1921, ele notou que “uma nova geração cresceu; entre eles e os rapazes de 1912 existe o grande golfo da guerra. O que eles representam e o que farão?” J. M. Barrie observou esse conflito de gerações e tomou notas para uma peça sobre o assunto durante 1920. “Velhice e Juventude são dois grandes inimigos”, ele escreveu, “os dois lados (realmente velho & jovem - isto é, Antes e Depois da Guerra) não compreendem (admitem) que têm diferentes visões do que seja imoralidade. Tão diferente da nossa quanto de, digamos, uma tribo africana (este realmente é o resultado da guerra) que de início não parecia se mostrar. Não são aqueles que lutaram contra os mais velhos, mas aqueles que cresceram desde a guerra contra a opinião dos outros”. Estava declarada a guerra entre gerações. Os jovens sentiam-se justificados na rebelião pelo vazio moral dos mais velhos que os haviam mandado para a guer­ ra ou, pelo menos, frustrado a sua adolescência. Apesar de tensões subjacentes, as três gerações da guerra conseguiram se unir em duas questões. A primeira era a sua aversão compartilhada pelos homens velhos, a segunda era a sua insistente demanda de satisfação. Do ponto de vista dos veteranos, esta era uma tentativa de recapturar sua juventude perdida: do ponto de vista daqueles que eram jovens CHOQUES DO PÓS-GUERRA

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demais para servir, ela representava uma tentativa combinada de ter uma juven­ tude digna do nome. Os mais velhos não viam as coisas desse jeito. A guerra fora vencida. Eles, portanto, não viam razão para alterar a moral do século XIX, baseada no dever, na autoridade e na obediência. Mas toda a pressão da retórica sobre gerações pósguerra era no sentido de expor a hipocrisia que havia na presunção de autoridade automática dos mais velhos. Quando não obtinham dos jovens a obediência cega que pensavam ser a sua prerrogativa automática, as autoridades reagiam furiosas. A polícia, as comissões de vigilantes e a imprensa popular foram reunidas, pri­ meiro para definir, depois para agir contra uma notória maré de imoralidade. Uma onda de penalidades resultou do costume de beber, dançar e freqüentar clubes: qualquer coisa que as gerações mais jovens definissem como agradáveis. Infinitamente refinadas durante a guerra, as milhares de restrições de DORA ha­ viam transformado a diversão pública num campo minado. As duas gerações que serviram na guerra olhavam espantadas. Esta era a moral vitoriana que elas tinham reconhecido como inimiga durante o conflito: vê-la novamente imposta era de­ mais. Uma boa parte do ressentimento vinha do fato de se pensar que as restrições de DORA fossem temporárias, uma esperança que estava longe de ser o caso. A reação de seus irmãos e irmãs mais jovens foi ainda mais básica: se era as­ sim que as autoridades iam se comportar quando eles só estavam se divertindo um pouco, então iam realmente fazer as coisas para valer e lhes dar algo de que se queixar. Já caracterizados pelos mais velhos como cínicos e friamente realistas, os rapazes e as moças de 1922 tinham encontrado a sua causa, algo para se de­ finirem contra. Se o ato de beber, a dança e o jazz tinham de ser exorcizados por bispos, generais e até políticos, então essas atividades seriam o seu padrão. O he­ donismo virou uma ideologia. Se o prazer ia se tornar a preocupação mais visível da nova geração, então a política só teria um papel ocasional. Apesar de as principais inquietações do pe­ ríodo logo após a guerra incluírem rebeliões, greves, motins e níveis sem prece­ dentes de desemprego, a Grã-Bretanha como um todo permanecia imune ao bolchevismo. Os socialistas revolucionários continuavam sendo uma pequena m i n oria, embora a versão de centro-esquerda do socialismo ganhasse força com a eleição do primeiro governo do partido trabalhista, em 1924. Numa política de partidos, a juventude ainda não era definida como uma classe. No lugar dos políticos, havia outros movimentos para absorver o idealismo dos jovens que não eram cínicos. Formado no início da década de 1920, o Ox­ ford Group, do dr. Frank Buchman, instituiu uma renovação religiosa sem fi­ liações. Sem lista de membros ou normas, o Oxford Group praticava um novo tipo de cristianismo: seus jovens, principalmente adeptos da classe média, freqüen­ tavam festas de fim de semana em casas de campo onde compartilhavam publi208 | 1919-1929

camente seus pecados. A seita buscava tanto o rearmamento moral como o paci­ fismo, assim como a sua doutrina de quatro pontos, de absoluta honestidade, absoluta pureza, absoluto altruísmo e absoluto amor. Ao mesmo tempo, a Liga das Nações visava a ajudar na reconstrução de países destruídos. Em 1923, ela possuía 52 Estados-membros e real influência internacional. Embora o principal propósito da fundação da Liga tivesse sido o de prevenir qualquer retorno do poder da Alemanha, ela era um modelo ideal para futuro governo do mundo. A simples ocorrência da Grande Guerra havia aumentado a consciência global e, para os jovens idealistas que ingressaram na União da Liga das Nações, ela representava a melhor chance de paz mundial. As organizações britânicas mais explicitamente defensoras dos jovens foram influenciadas pelos Boy Scouts e o Wandervogel alemão anterior à guerra. O con­ flito tinha sido bom para o movimento de Baden-Powell. Os escoteiros tinham sido úteis no esforço de guerra, trabalhando na agricultura, ajudando durante os alarmes antiaéreos e nas cantinas. Com a diminuição da influência de BadenPowell, os Boy Scouts adaptaram-se bem às condições pós-guerra. No lugar do imperialismo, eles promoviam a harmonia de classes, a reconstrução nacional e o internacionalismo. Em 1925, o seu quadro de membros era quase o dobro do que era em 1913, com pouco menos de 300 mil escoteiros. Entretanto, a história desses grupos foi marcada por rupturas e separações. Crítico do militarismo de Baden-Powell, Ernest Wesdake tinha fundado a Order of Woodcraft Chivalry em 1916. Influenciado pelos Woodcraft Indians of America e o Adolescence de Stanley Hall, Wesdake tinha a intenção de colocar em prática a teoria de recapitulação com cerimônias, rituais e treinamento de vida nas flo­ restas. Os Woodcraft Indians tinham em mente a utopia do Emile de Rousseau: uma busca panteísta de liberdade individual através da apreciação da natureza. Entretanto, o grupo não conseguiu ir além da sua base de classe média alta. Outro grupo oferecia uma alternativa mais radical. Expulso do movimento dos escoteiros por “deslealdade”, John Hargrave formou o Kindred of the Kibbo Kift, em 1920: o nome do grupo foi inspirado no inglês arcaico para dizer “Pro­ va de Grande Força”. Para um dos primeiros membros, Leslie Paul, o seu mani­ festo “foi como uma aragem soprando em nosso jovem país. Sob a influência de H. G. Wells, ele defendia intensamente a paz, a unidade mundial e um governo mundial”. O KK era fortemente utópico: “Se imaginássemos uma nova sociedade, ela deveria ser mais ou menos como a que William Morris descreve em New from Nowhere.” Apesar da idealística mistura de medievalismo e socialismo liberal de esquerda do movimento, o Kindred of the Kibbo Kift era acima de tudo um culto à perso­ nalidade, dominado pelo forte carisma do seu líder. A ficha de guerra de Hargra­ ve como carregador de macas e artista da guerra em Gallipoli fez dele um “típico CHOQUES DO PÓS-GUÉRRA

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‘herói5 escoteiro”, e os membros do KK foram redesenhados segundo sua mag­ nética imagem. Paul pensava que “ele falava especialmente àqueles milhões de rapazes que, como eu mesmo, tinham crescido desde a mais tenra infância no movimento dos escoteiros do qual tínhamos absorvido esperanças e sonhos sobre a vida que nossos pais nao poderiam ter compreendido”. Entretanto, as tensões no movimento ficaram logo aparentes. Apesar do seu pacifismo, o grupo celebrava o samurai como um ideal marcial. Enérgico e ca­ rismático na mesma medida, Paul logo se desentendeu com Hargrave. Ele se concentrou no fato de que o líder do KK tinha fetiches, modelos do deus egípcio com cabeça de cachorro Anubis: “eles me faziam lembrar que no novo movimento havia uma ala crédula pronta para manipular o oculto. Talvez isso ocorreu por causa dos muitos teosofistas que estavam associados com o seu nascimento, mas eu senti na época o absurdo desta coisa de criadinha como um movimento ao ar livre, tosco.” Em fevereiro de 1925, Paul rompeu com o Kindred of the Kibbo Kift para formar o seu próprio grupo. O Woodcraft Folk foi montado segundo os ideais socialistas e utópicos originais que o KK professava: reconstrução social e regene­ ração espiritual aliadas ao ensinamento de habilidades práticas de vida na floresta. Aos 19 anos de idade, Paul planejou um “pequeno grupo experimental” no qual ele e seus auxiliares “testariam de novo o que todos nós chamávamos na época de teorias educativas de ‘treinamento tribal’”. Este objetivo foi proclamado na sua carta de fundação: “É nosso desejo de­ senvolver em nós mesmos, para servir às pessoas, a saúde física e mental e a res­ ponsabilidade comunitária, acampando ao ar livre e vivendo em íntimo contato físico com a natureza, usando todo o potencial, tanto de nossas mentes quanto de nossas mãos, e sendo sinceros em todas as nossas condutas com nossos vizinhos: declaramos que é nosso desejo nos familiarizar com a história mundial, e o de­ senvolvimento do homem na lenta marcha da evolução, para que possamos compreender e reverenciar o Grande Espírito, que conclama todas as coisas para que se aperfeiçoem.” Nas memórias que escreveu mais tarde, Angry Young Man, Paul citou a in­ fluência central de Emile e Adolescence na sua nascente ideologia de grupo. A “gran­ de moda” deste deveu-se principalmente à teoria de recapitulação de Hall. Paul pensava que a transição entre “o menino selvagem e o homem civilizado” só era possível se “o menino recapitulasse tudo. Ele tinha que sentir a emoção e o pe­ rigo da guerra moderna deitando em trincheiras molhadas e jogando pedras nas gangues adversárias: ele tinha de ter permissão para fumar e beber, assim como adquirir compostura aprendendo a dançar e conhecendo meninas socialmente”. Aliada a estes preceitos havia uma saudável dose de socialismo utópico mis­ turada a pacifismo: Paul pensava que “o bem-estar da comunidade” só poderia 210 | 1919-1929

estar garantido “quando a produção de tudo aquilo que direta ou indiretamente destrói a vida humana deixar de existir”. O Woodcraft Folk estava destinado a representar um papel central na guerra santa contra o capitalismo e o industrialismo: “Somos a revolução. Com a saúde, que é nossa, e com o intelecto e o fí­ sico que serão a herança daqueles que treinamos, estamos pavimentando a estrada para aquela reorganização do sistema econômico que marcará o renascimento da raça humana.” O Woodcraft Folk lentamente formou sua lista de participantes a partir de pequenos começos: pouco mais que uma centena em 1926. Fiéis ao teor internacionalista da época, eles fizeram contato com o jovem Bunde na Alemanha, na Áustria e na Tchecoslováquia. Eles tentaram envolver adolescentes da classe operária. Como Paul lembrou, “não há dúvida de que esta vida ao ar livre e de acampamentos que promovíamos, que dava a uma criança a oportunidade de tes­ tar sua energia e engenhosidade para solucionar problemas práticos, funcionou como uma maravilha para as crianças dos bairros pobres mal desenvolvidas fisi­ camente”. Entretanto, havia problemas nesta utopia juvenil. A orientação socialista do grupo era “decorativa, comprazendo-se inconscientemente em satisfazer o prevalecente clima ‘de esquerda daqueles anos. Nós pertencíamos a uma fraternidade de sangue reunida ao redor da fogueira do acampamento. Nós perseguíamos um ideal de resistência que nos fazia desdenhosos do conforto e da respeitabilida­ de e nos envolvia num ódio aos fracos, aos doentes e, acima de tudo, aos idosos”. Por trás desta visão espartana havia o medo de que “a nossa juventude estivesse fugindo, que, se não vivêssemos agora a vida que deveríamos viver, a chance em breve teria desaparecido para sempre”. O rígido programa do Woodcraft Folk mascarava uma profunda sensação de deslocamento. Paul mais tarde admitiu que ele e seus ajudantes estavam “na realidade legislando a favor de nós mesmos. Sentíamos que tínhamos sido preju­ dicados pelo processo de crescer e que a vida ficara desfigurada para nós por causa das suas misérias emocionais, sexuais e econômicas. Como era fácil para os outros, também, recuar às cegas da maturidade por causa delas. Nós sentíamos o peso do dever de dar um fim a esta coisa intolerável, e era isto que nos fazia ler e teorizar a respeito da pedagogia. De algum modo, em algum lugar devia ser possível encontrar um jeito de crescer graciosamente”. Paul externalizava toda sua angústia na organização do seu grupo, o que se tornou um fim em si mesmo. Foi essa focalização acanhada que impediu o Wood­ craft Folk de se tornar uma importante força na Grã-Bretanha. Como outros generacionalistas do pós-guerra, Paul e seus companheiros se definiam demais por aquilo a que se opunham. Eles também descobriram que, como princípio dominante, a juventude tinha as suas desvantagens. Os líderes do Woodcraft CHOQUES DO PÓS-GUERRA

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Folk poderiam ter saído vitoriosos com relação aos adultos, mas até eles eram vul­ neráveis ao seu próprio culto: atrás deles havia “as crianças, que argumentavam ferozmente contra a tirania dos velhos de 18 anos”. * * *

Estas questões eram ainda mais nítidas na Alemanha do pós-guerra. O Wander­ vogel rejeitara a civilização industrial e os valores burgueses, mas o colapso do país após a derrota fez o mundo exterior colidir com a fantasia de uma fraternidade juvenil livre. A rendição militar da Alemanha introduziu mudanças sociais e po­ líticas com tamanha velocidade que, mesmo antes do armistício, grupos de solda­ dos irados, trabalhadores insatisfeitos e jovens intelectuais idealistas —encorajados pela revolução russa - haviam se tornado entusiastas soviéticos em várias cidades importantes. Deste caos surgiu o primeiro governo democrático da Alemanha, dirigido pelo Partido Social Democrático, o PSD. Entretanto, a nova República de Weimar foi imediatamente corrompida quando seus líderes alistaram os Freikorps, a mi­ lícia de veteranos, para sufocar os soviéticos. Os líderes da insurreição de Berlim, Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, foram assassinados a sangue frio. A recons­ trução não se faria simplesmente mudando de regime. Havia alemães em demasia que, como lembrou George Grosz, “não conseguiam se adaptar a um mundo que não era mais normal, que estava em processo de desintegração”. Não havia empregos: “as ruas fervilhavam de desempregados.” Nesses mares desconhecidos, “prevalecia o barbarismo. A moral não existia mais. Uma onda de prostituição e obscenidades varria o país. ‘Je mem fous, gritavam todos. Dançar o shimmy era a moda”. Como seus correlatos britânicos, os jovens alemães desem­ pregados procuravam inspiração na música do Novo Mundo, formando “peque­ nas bandas que tocavam uma espécie de imitação do jazz americano por alguns centavos jogados em seus chapéus. Superficialmente, tudo isto parecia muito alegre, mas por baixo havia ódio e desespero”. A juventude estava na extremidade mais aguda de um colapso nacional, con­ forme o nacionalismo belicoso dos quatro anos anteriores se voltou para dentro. Os adolescentes alemães trouxeram a guerra para casa, na medida em que trava­ vam batalhas campais nas ruas justificadas por ideologias extremistas. George Grosz lembrou como “os jovens da Alemanha agrupavam-se em unidades políticas frou­ xas, marchando em mangas de camisa e cantando ‘Morra, judeu, enquanto atrás deles outro grupo cantava ritmicamente: ‘Salve, Moscou/ Conflitos ocorriam inevitavelmente. Muitos crânios eram quebrados, mandíbulas fraturadas, e até, uma vez ou outra, estômagos ficavam crivados de buracos de bala”. 212 | 1919-1929

Esta polarização contaminou o Wandervogel. A cisão entre militaristas e pa­ cifistas, esquerdistas e direitistas, já se fixara, e a revolução de novembro de 1918 politizou-a ainda mais. O resultado foi uma desconjuntada colcha de retalhos de cultos e células dentro do movimento juvenil. O mais poderoso agrupamento anterior à guerra, o Freideutsch Jugend, voltou-se para a esquerda. Sua reunião no outono de 1920, em Hofgeismar, organizada em torno da proposta de estabe­ lecer “uma frente unida de jovens”, terminou em desentendimentos fundamen­ tais entre socialistas e comunistas comparáveis às lutas corpo a corpo praticadas por seus correspondentes adultos. A desilusão com o nacionalismo e a guerra, junto com as notícias que chega­ vam da Rússia revolucionária, fizeram do socialismo revolucionário um ímã para muitos jovens idealistas. Como eles sabiam, o capitalismo inevitavelmente termi­ nava em conflito, na medida em que a economia da produção em massa se re­ duzia inexoravelmente à produção em massa de armamentos. Eram os jovens e a classe operária que suportavam o impacto desta opressão, e para que isso não acon­ tecesse, a sociedade tinha de ser transformada. A única maneira de fazer isso era a ascensão do povo ao poder e ao governo do país. Em vez de uma elite naciona­ lista, exploradora, a massa estaria no comando. Com sua insistência na uniformidade social e na ação coletiva, os comunistas estavam tentando instituir uma nova sociedade para a era de massa. O processo que tinha começado com a Revolução Francesa estava se consumando, na medida em que a multidão reforçava o seu poder —não mais os governados, mas os go­ vernantes. Embora materialista, o comunismo estava impregnado com outro tipo de misticismo. No seu entusiasmo inicial, adeptos como George Grosz acredita­ vam que um novo tipo de homem-máquina estava nascendo: “Destinos indivi­ duais não são mais importantes.”1 Notando a existência de um apoio internacional a seu regime, os novos go­ vernantes da Rússia fundaram a Internacional Comunista, o Comintern, em março de 1919. Dirigidos por Moscou, os membros do Comintern trabalhavam ativa­ mente para fomentar a revolução na Europa, e a Alemanha era o alvo específico. Embora pequenas em número, estas células dormentes tiveram uma influência desproporcional. O comunismo tornou-se um novo e poderoso ideal da juven­ 1 O regime comunista na Rússia não havia perdido tempo fazendo planos para a juventude do seu continente. Em outubro de 1918, o Komsomol (por extenso YLommunisticheskiy Soyuz Mo\odiozhi'. União da Juventude Comunista) foi fundado como a ala jovem do partido: seu objetivo era absorver a vasta maioria de russos de 14 a 28 anos de idade. Na segunda Conferência Komsomol, em maio de 1922, decidiu-se erradicar qualquer organização juvenil remanescente, como os escoteiros russos, e criar um novo grupo para adolescentes mais jovens de dez a 15 anos de idade - inicialmente chamados de Jovens Pioneiros Spartak. Sob a égide da mulher de Lênin, Nadezhda Krupskaya, os Jovens Pioneiros ofereciam uma rígida hierarquia de graduação etária ano a ano antes da total participação no Komsomol a partir da idade exigida. Ambas as organizações refletiam o desejo do regime de estabelecer uma estrutura do berço-ao-túmulo de total envolvimento com o comunismo.

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tude, celebrado por artistas e intelectuais em novas instituições como o Bauhaus, encenado nas ruas das cidades alemãs por grupos como o KPD (o Partido Co­ munista Alemão). Apesar desta arrepiante polarização, muitos veteranos do Wandervogel espe­ ravam um retorno à inocência do movimento de antes da guerra. Entretanto, a neutralidade não era mais possível: na primeira grande reunião do Wandervogel realizada apôs a guerra em Coburg no ano de 1919, 3 mil membros testemunha­ ram rixas entre a direita e a esquerda. Assim como alguns grupos jovens preferiam o socialismo radical, outros optavam pelo militarismo de direita dos Freikorps. Numa subsequente reunião do Wandervogel, nas montanhas Fichtel, o progresso não linear dos andarilhos antigos foi desbancado pela maioria dos membros ca­ minhando a passos militares. Novos grupos de jovens tentaram se aproveitar da fraternidade de força dos Freikorps. Em 1918, um oficial chamado Otger Graff formou um grupo de pessoas disfarçadas de cavaleiros medievais. O seu Jungdeutsche Bund favorecia a expansão alemã, denunciava o capitalismo judeu e o cristianismo e propunha um renascer nacional “sob o signo da suástica”. Outro grupo, o Neupfadfinder injetou uma ideologia de “educação tribal” e uma filosofia nacionalista derivada do Kindred of the Kibbo Kift e do poeta Stefan George e seu círculo. O conceito de George para o Bunde - um grupo hermético de fiéis hostis à sociedade de massa do século XX com suas “crenças banais em igualdade e pro­ gresso - foi refinado pelos Cavaleiros Brancos de Martin Voekel. Tendo o cava­ lheirismo como seu objetivo, os rapazes libertariam a população alemã de suas cadeias para as glórias do futuro “Terceiro Reich”. Este tipo de misticismo me­ dieval dava mais tempero ao cozido cada vez mais autoritário do Bunde domi­ nado pelos homens. As lições de dever e sacrifício pessoal por uma causa maior tinham sido bem aprendidas com os quatro anos de guerra. O regime de Weimar deixou insatisfeita grande parte da juventude alemã. Com a confusa política da época, os jovens da Alemanha tendiam tanto a tomar uma posição à esquerda quanto à direita. Este conflito de gerações começou a ser encenado em termos de jovens contra velhos. Os velhos propriamente ditos que mandaram os jovens para a guerra tinham desaparecido depois de novembro de 1918. No lugar do Kaiser Guilherme, a figura paterna era representada pela República de Weimar, e era contra esta frágil democracia que a hostilidade dos filhos seria direcionada. Sebastian Haffner lembrou que, depois do malsucedido Kapp Putsch, “o interesse pela política diminuiu entre os meninos. Todos os partidos tinham che­ gado a um acordo e o assunto perdera a sua atração”. Neste vácuo, o extremis­ mo entrou correndo. “Só uns poucos permaneceram fiéis à política, e me ocorreu pela primeira vez que, por estranho que pareça, eles eram os mais estúpidos, mais 214 | 1919-1929

grosseiros e repulsivos dos meus companheiros de escola. Eles começaram a in­ gressar no tipo certo’ de ligas, a Associação Nacional de Jovens Alemães ou a Liga Bismarck e em pouco tempo exibiam soqueiras de metal, bastões e até cassetetes de borracha na escola.” Haffner viu um desses valentões “rabiscar um desenho estranho no seu cader­ no”: “O estranho desenho se repetia cada vez mais. Algumas pinceladas combi­ nadas num jeito agradável, inesperado, para formar um ornamento simétrico parecido com uma caixa. Fui imediatamente tentado a copiá-lo. ‘O que é isto?’, perguntei num sussurro porque estávamos no meio de uma aula, embora muito entediante. ‘Signo antissemita, ele sussurrou de volta em staccato telegráfico. A Brigada Ehrhardt a usava nos seus capacetes. Significa ‘Fora com os judeus. ‘Você devia saber, e ele continuou rabiscando. Foi quando conheci a suástica.” * * * No alvorecer político daquela geração, tornava-se claro que a juventude por si só não era progressiva nem reacionária. Podia ser uma coisa ou outra, as duas, ou pior. Enquanto o Comintern tramava para influenciar a juventude europeia, a ala da direita já tinha conseguido atrair os jovens para um novo tipo de política extremista. Apesar de fazer parte da coalizão dos Aliados contra os Poderes Cen­ trais, a Itália sofrerá o mesmo colapso de valores do pós-guerra. Como o veterano Adolfo Omodeo escreveu ao voltar para casa na primavera de 1919, “parece que estou vivendo num mundo que perdeu toda a sua consciência moral, seja na es­ fera nacional, internacional ou privada”. Formado na primavera de 1919, o novo partido chamado Fasci di combattimento tinha como objetivo concentrar num partido político maciço a raiva dos veteranos que voltavam. Um dos fatores principais que os distinguia dos outros grupos milenares competindo pela atenção dos veteranos, a futurística insistência na vitalidade dos jovens tornou-se a parte central do programa fascista. Como o fundador do movimento, Benito Mussolini, afirmou em julho de 1919: “Nos fasci não existem o bolor das velhas ideias, a barba venerável dos homens idosos, a hierarquia dos valores convencionais, mas existe juventude, existem impetuo­ sidade e fé.” Escasso em detalhes, o programa fascista era grande em retórica e espetáculo. Usando eventos encenados como a reunião de novembro de 1919, em Milão, que começou com uma “magnífica explosão de foguetes” e terminou com uma procis­ são à luz de archotes, os fascistas atrelavam a mentalidade de combattentismo dos veteranos ao impulso revolucionário de muitos jovens burgueses. Como um fu­ turista romano escreveu em 1919: “O amanhã pertence aos jovens. Vamos nos CHOQUES DO PÓS-GUERRA

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ajoelhar diante da ousada formação militar que retorna. Seu dinamismo ditará as leis que disciplinarão o mundo. O mundo está em suas mãos.” Tendo unido as gerações sob a bandeira da canção que era a marca registrada dos fascistas, “Giovinezza! Giovinezza!” (Juventude! Juventude!), Mussolini - ape­ sar de quase ter a idade do pai odiado - foi elevado ao poder em outubro de 1922. Embora osfascisti não fossem de início tão totalitários quanto seus sucessores, o precedente estava aberto. No início da década de 1920, Mussolini havia provado que a juventude, como um princípio abstrato e uma realidade energética, podia ser atrelada a novos partidos que, celebrando a tecnologia e o espetáculo pagão, con­ tornariam os polos tradicionais de liberalismo e conservadorismo do século XIX. A conseqüência foi uma aparentemente nova política de poder e luta que recorria à violência insaciável da geração dos tempos de guerra, ao mesmo tempo que ativava a crueldade ainda não testada de seus grupos mais jovens. Para mui­ tos radicais, a brutalidade maciça de 1914-1918 havia comprovado a verdade da famosíssima frase de Nietzsche. Se Deus estava morto, então podia ser substituí­ do pelas religiões seculares do comunismo e do fascismo. Com seu apetite inato pelo que Stanley Hall chamou de “conversão religiosa”, muitos jovens da Euro­ pa iriam aderir a elas. * * * Esta política polarizada se mostraria cada vez mais atraente na Alemanha confor­ me piorava o caos do pós-guerra. Quando, em 1923, o exército francês ocupou o coração industrial do país, o Ruhr, o marco alemão entrou em queda livre. Como lembra Sebastian Haffner, “o custo de vida entrara numa espiral fora de controle. Os comerciantes seguiam no calcanhar do dólar. Uma libra de batatas que ontem custava 50 mil marcos hoje custa 100 mil. O salário de 65 marcos trazido para casa na sexta-feira não era suficiente para comprar um maço de ci­ garros na terça”. Esta espetacular desvalorização foi a gota d’água. Depois de 1923, entraram no espírito alemão uma “imaginação cínica, incontida, o prazer niilista no impos­ sível pelo simples prazer e a energia que tinha se tornado um fim em si mesma. Naquele ano toda uma geração de alemães teve um órgão espiritual removido: o órgão que dá aos homens estabilidade e equilíbrio, mas também uma certa inércia e impassibilidade. Ele pode aparecer de várias maneiras como consciência, razão, experiência, respeito, moral ou o temor a Deus. Toda uma geração aprendeu então —ou pensou que aprendia —a se virar sem esse lastro”. Durante a década de 1920, os agrupamentos ideológicos juvenis foram apa­ nhados numa fenda fatal. Rejeitando os valores dos mais velhos, eles pensavam 216 | 1919-1929

que a juventude por si só seria o bastante para transformar o mundo. Entretanto, ao se separarem de quase todos os vínculos conhecidos, eles se projetaram num território perigoso. “Era um novo paganismo o que nós buscávamos, e um novo barbarismo o que conseguimos alcançar”, Leslie Paul mais tarde reconheceu, com o benefício de uma percepção tardia. “Negar a civilização tornou-se por toda a parte um culto e uma organização, e muito da história europeia depende do estado de espírito que o meu movimento juvenil tipificava na época.”

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CAPÍTULO

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Sheiks e Shebas

O mercado jovem americano

Uso cabelos curtinhos, o distintivo das melindrosas. (E, ah, como é confortável!), empoo o meu nariz. Uso saias com franjas e suéteres bem coloridos, echarpes, corpetes com gola Peter Pan e sapatos de salto baixo estilo “finale hopper”.* Adoro dançar. Passo um bom tempo em automóveis. Freqüento arrasta-pés, bailes de estudantes, jogos de bola, competições de remo e outros programas nas faculdades masculinas. - Ellen W elles Page, "Apelo de um a m elindrosa ao s pais", Outlook, 12 de junho de 1922

JOVEM MELINDROSA AMERICANA, INICIO DA DECADA DE 1920

‘ Jovem que chegava para dançar nos salões depois de encerrada a venda de tíquetes. (N . da T.)

EM ESTE LADO DO PARAÍSO , F. Scott Fitzgerald tabulou um novo tipo de jovem que marcou “a primeira ruptura real com a hipocrisia da tradição escolar. O es­ pertalhão era um elemento de sucesso, diferenciando-se intrinsecamente do grande homem’ da escola preparatória”. “O ESPERTALHÃO”

1. Agudo sentido de valores sociais.

“O GRANDE H O M EM ”

1. Inclinado à estupidez e inconsciente

dos valores sociais. 2. Veste-se bem. Finge que roupa é superficial - mas sabe que não é.

2. Pensa que a roupa é superficial, e está inclinado a não se preocupar com isso.

3. Participa de tantas atividades nas quais for possível brilhar.

3. Empenha-se em tudo por um senso de dever.

4. Freqüenta a faculdade e é, num sentido mundano, bem-sucedido.

4. Freqüenta a faculdade e tem um futuro problemático. Sente-se perdido...

5. Cabelos lisos e brilhantes.

5. Cabelos não alisados.

Publicado em 1920, o primeiro romance de Fitzgerald anunciava a adoles­ cência americana como plenamente formada, traçando sua história através dos idílios de BoothTarkington até o estado pós-guerra decadente daquele momento: “Inquieta como o diabo.” Concentrado no mundo de pares da escola e da faculda­ de e com abordagem ousadamente moderna, Este lado doparaíso era uma narrativa sobre a entrada na maioridade que tipificava uma geração que tomava consciência de si mesma e do seu poder social. O livro também captava a obsessão com a ju­ ventude, o aspecto atraente da América, exatamente quando sua cultura come­ çava a circular velozmente pelo mundo ocidental. Embora a inocência, de um tipo claramente americano, fosse o elemento mais importante neste ideal, tanto Este lado do paraíso quanto o outro romance sobre a chegada à maioridade de grande sucesso na época, A verdade de cada um —Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, reconheciam que a pureza do continente já estava corrompida. Escrevendo sobre a “revolução” do industrialismo, Anderson observou que “uma boa parte da antiga ignorância brutal que havia nela, uma espécie de bela inocência, também se foi para sempre”. Enquanto o herói de Booth Tarkington permanecia no Meio-Oeste, o herói de Anderson, George Willard, deixou Ohio assim que pôde: aos 18 anos de idade. Este lado do paraíso levou o livro para meninos ao próximo estágio, da arcádia do Meio-Oeste para a metrópole corrompedora. Fitzgerald delineou as ativida­ des sociais do jovem americano de classe média alta em detalhes nunca vistos: os mundos da escola e da faculdade fechados em si mesmos, as experiências sexuais, o frenesi de dançar e beber, a morte súbita em desastres automobilísticos. Como SHEIKS E SHEBAS

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as referências a Huysmans, Brooke e Wilde deixavam claro, estes espasmos de embriaguez, sexo e velocidade ofereciam um novo tipo de romantismo atualiza­ do para uma era de ilusões destruídas pela guerra. A entrada da América no conflito havia instigado um novo tipo de antagonis­ mo encenado na Grã-Bretanha, Alemanha e França. Como o soldado de 22 anos de idade, John Dos Passos, escreveu do front em 1918: “Todos os rapazes são as­ sustadoramente decentes. Se fôssemos nós a governar o mundo em vez dos velhos arrogantes de sobrecasaca!” Outro jovem soldado, Walter A. Hafener, escreveu a Stanley Hall, em janeiro de 1919: “Tudo que queremos é despir as roupas mi­ litares e entrar nas roupas civis e depois nos esconder, e se alguém tentar nos dizer o que fazer, vai haver um assassinato.” Fossem eles soldados voltando para casa ou estudantes universitários, nada afligia mais os jovens americanos no início da década de 1920 do que a restrição à sua liberdade de, como disse Hafener, “tomar um drinque ou dois no Biltmore, no Knickerbocker ou no Frolic”. No período entre a preparação e a publicação de Este lado do paraíso foi aprovada a 19â Emenda da América. O Volstead Act proibia o consumo, a publicidade e a produção de bebidas alcoólicas e tornou-se lei em 17 de janeiro de 1920. Desobedecer à lei seria um ritual para uma gera­ ção que reagia contra “os velhos arrogantes”. A lei seca pode ter sido uma conclusão lógica para o movimento de Reforma iniciado antes da guerra, mas também marcou o ápice da intolerância que chegara junto com o conflito. Os poderes radicais trazidos para ajudar na guerra expandi­ ram-se numa campanha contra pacifistas, dissidentes e especialmente contra a mão de obra organizada. Os Estados Unidos estavam determinados a eliminar o vírus bolchevique. O julgamento em massa dos 113 ativistas da International Workers of the World, em agosto de 1918, foi seguido, no fim de 1919, por uma seqüência de batidas policiais e deportações em massa, em parte arquitetadas por um ambicioso e jovem advogado de nome J. Edgard Hoover. Exatamente no ponto em que as liberdades tornavam-se um farol para a Europa do pós-guerra, a América fechava-se como unia concha. Resultado do intensivo lobby das minorias, o Volstead Act foi impopular desde o início. Ele representava o freio da moral religiosa no momento em que grande parte do país corria na direção dos valores mais seculares do consumismo. Ele também marcou um limite arbitrário para a licença promovida por esse novo sistema e foi, com toda a razão, considerado hipócrita pelos jovens. Na verdade, muito da angústia em Neste lado do paraíso é resultado das mensagens ambíguas que a ju­ ventude recebe dos mais velhos sobre apetites e desejos. Ao mesmo tempo em que era instituída a Lei Seca, o consumismo tornavase um elemento importante da política econômica americana. Era, como escreve Elizabeth Stevenson, “a primeira vez que, numa escala gigantesca, uma sociedade 220 | 1919-1929

desenvolvia um conjunto de procedimentos, uma provisão de desejos e necessida­ des e uma fé a partir da compra e venda de mercadorias”. Ainda com o peso de representar o futuro, a juventude era o alvo preferido de produtores e comercian­ tes. Como o jornal do ramo publicitário Printerslnk observou em 1921: “Se você convencer os jovens da região, vai, ao mesmo tempo, convencer os mais velhos.” Em 1918, a receita total de anúncios nas revistas em geral foi de 58,5 milhões de dólares; dois anos depois, ele chegou a 129,5 milhões. Uma boa parte tinha como alvo os jovens, que eram, conforme opinou um guru da publicidade, os “radicais do mercado”. Entre os produtos voltados para os jovens estavam roupas, revistas, cosméticos, filmes, fonógrafos e cigarros. A revista Photoplay fez um es­ tudo revolucionário sobre os hábitos de consumo relacionados com a idade em 1922, no qual se revelou que os artigos mais populares na faixa etária dos 18 aos trinta anos eram meias, roupas íntimas, fonógrafos e discos. Depois das partidas anuladas e das experiências fracassadas das duas décadas anteriores, aos jovens da América foi concedido o novo status de vanguarda da revolução consumista. Durante a década de 1920, as escolas secundárias dobraram de número e o ingresso nas faculdades tornou-se uma aspiração nacional, não mais algo reservado a uma elite. Os anúncios começaram agressivamente a mirar a nova e destacada classe panjuvenil criada pela introdução finalmente bem-suce­ dida da educação de massa. Para muitos jovens americanos, a educação passou a ser não apenas um método de aprendizado como um treinamento para o status social como “os consumidores de amanhã”. As contradições americanas em torno de juventude e idade, liberdade e auto­ ridade, escolha e coerção foram exploradas no romance de Sinclair Lewis, Babbitt, de 1923. Ambientado no Meio-Oeste da literatura para meninos, ele retratava a mudança ocorrida no continente do idílio pré-industrial para uma sociedade uniforme, mecanicista. George Babbitt, o herói de meia-idade do romance, pode ter fantasiado “a criança dos contos de fadas, um sonho mais romântico do que pagodes escarlates à beira de um mar de prata”, mas a sua paisagem interior, subjetiva, ainda estava mais atrelada cientificamente ao consumismo na medida em que se tornava uma religião secular de individualidade de massa. Peter Pan transformara-se no consumidor adolescente, dinâmico, na medida em que a juventude era vista em termos materialistas. Este lado do paraíso captou esta perda de inocência causada pela prematura, se não precoce, experiência. “Sua geração está ficando difícil”, diz Monsignor Darcy, um dos poucos adultos soli­ dários num livro onde eles estão em grande parte ausentes; “muito mais difícil do que a minha jamais chegou a ser, nutrida como foi nas coisas dos anos no­ venta”. Ao mesmo tempo, o romance de Fitzgerald era parte desse processo de embaçamento; embora criticando a cultura jovem americana, ele mostrava o fe­ nômeno para um público mais amplo. SHEIKS E SHEBAS

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Apesar de se divertir com as descrições de festas em que a garotada ficava se agarrando e das corridas de carro em que todos estavam bêbados, Fitzgerald es­ tava muito consciente dos riscos da exaltação da juventude como um ideal social. Nas palavras do seu protagonista, Amory Blaine, “juventude é como ter um gran­ de prato de doces. Os sentimentais pensam que querem estar no puro e simples estado em que viviam quando comiam o doce. Não estão. Eles só querem a di­ versão de comê-los de novo. A matrona não quer repetir a sua meninice —ela quer repetir a sua lua de mel. Eu não quero repetir a minha inocência. Quero o pra­ zer de perdê-la novamente”. Não foi por acaso que a plena chegada da juventude à sociedade ocidental tenha ocorrido no ponto de descontinuidade histórica criada pela guerra: com sua explícita divisão etária, a ideia de gerações cultuava a sensação de estar perdi­ do, evocada com tanta eloqüência em Este lado do paraíso. Mas esta sensação de estar perdido é inevitavelmente endêmica à adolescência: solta num mundo feito pelos adultos, não para ela. Os jovens no romance de Fitzgerald representam o insaciável anseio de seu autor: a atriz Rosalinde Fuller sentia que “era uma des­ tas pessoas que nunca estavam satisfeitas com a vida”. Mas havia um outro lado da equação. Fitzgerald escreveu seu romance aos 23 anos de idade num desespero para satisfazer um desejo - transcender o fracasso do seu pai e da sua própria adolescên­ cia, e conquistar a garota dos seus sonhos. Esse desejo foi satisfeito quando, uma semana depois da publicação do livro, casou-se com uma moça de 19 anos cha­ mada Zelda Sayre. O livro foi um succes dyestime imediato e fez de ambos jovens celebridades. Scott mais tarde observou que, apesar da sua ignorância, “foi empur­ rado para a posição não só de porta-voz da época, mas de típico produto daquele momento”. Para Zelda, a Nova York de 1920 “era apenas muita juventude”. * * * Os Fitzgerald se mantiveram ocupados comentando o símbolo mais visível do novo jovem consumidor. O primeiro livro de contos de Scott, publicado em 1920, chamou-se Melindrosas e filósofos. Em junho de 1921, Zelda Fitzgerald escreveu um “Elogio à melindrosa”, no qual declarava com firmeza que as liberda­ des pelas quais as “primeiras melindrosas” como ela haviam lutado, isto é, cortar bem curtos os cabelos, colocar “muita audácia e rouge” e flertar “porque era di­ vertido”, tinham sido aceitas como padrão da primeira geração adolescente femi­ nina em massa. A grande mídia tinha refletido e moldado as vidas de mulheres americanas desde os últimos anos do século anterior, quando a dona de casa foi instituída como modelo de consumidor. Durante a década de 1920, os anúncios começaram 222 | 1919-1929

a usar como alvo um grupo mais jovem de mulheres que trabalhavam fora, que representavam 20% do total empregado. “Se eu fosse um fabricante de aviamen­ tos”, escreveu uma “compradora de aviamentos” da grande loja nova-iorquina Gimbel Brothers, em 1922, “certamente atrairia as jovens de 17 ou 18 até 26, 27 anos, idades em que estão formando hábitos de consumo para toda a vida.” Como um tipo, a melindrosa explicitamente associava a juventude à tradição do consumidor do sexo feminino. Como Stanley Hall observou muito bem num artigo de 1922 intitulado “A novíssima americana melindrosa”, a guerra havia acelerado tal processo. Ela “já se emancipara da dama de companhia, e passou ser patriótico falar, distribuir bandeirolas, distintivos e guloseimas aos rapazes na rua e, talvez, às vezes, travar conhecimento com eles se estivessem de uniforme. Seus modos tornaram-se um pouco descontraídos e qualquer vestígio de certas restrições antigas desapareceram”. O termo surgiu pela primeira vez na Europa durante a década de 1890 para se referir a uma prostituta muito jovem. Isso tinha mudado pouco antes da guer­ ra para descrever o que os alemães (e Stanley Hall) chamavam de Backfisch uma adolescente com físico de menino. Durante a guerra, a melindrosa foi re­ definida na Grã-Bretanha como uma mulher jovem, independente, em busca de prazer, louca por roupas cáqui. Embora as associações mais escandalosas do tipo —que incluíam o vício da cocaína - desaparecessem depois de 1918, a melin­ drosa manteve traços do papel que havia ensaiado em sua jornada às margens da sociedade após tornar-se definidora de tendências. A moda seguia de mãos dadas com a mudança na moral. A crescente afirma­ ção sexual das mulheres jovens, casada com a androginia das jovens ou das per­ versas, foi reforçada pela lenta expansão dos cabelos curtos da Paris anterior à guerra e a lenta ascensão das saias para logo abaixo dos joelhos nos meados da década. Em 1920, Hollywood apresentou uma das suas mais brilhantes e novas estrelas, Olive Thomas, em The Flapper, uma comédia ligeira. O filme tornou oficial a aparição americana do tipo que logo se tornou o objeto de um nível de definição obsessivo, sem precedentes, nos anos que se seguiram. Escrevendo em 1922, Stanley Hall posicionou o tipo na faixa que vai dos 13 aos 19 anos, e não na casa dos vinte, mas ele também observou uma ampla variedade de produtos e hábitos associados com essa “chic” e moderna estudante. Entre eles, roupas, refrigerantes, perfumes, filmes e qualquer coisa associada com a dança “quase celestial”. Ele sentiu que a popularidade e a disponibilidade des­ tes artigos de consumo, junto com a autoconfiança da melindrosa, marcavam um novo tipo de ritual social para as moças que lhes permitia atravessar a adoles­ cência com sucesso. Do ponto de vista de alguém que está por dentro, Zelda Fitzgerald observou que os estilos da melindrosa originavam-se nas escolas de elite e eram depois imiSHEIKS E SHEBAS

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tados por “milhares de balconistas na cidade grande”. Por sua vez, estas eram imitadas por “milhares de beldades das cidades pequenas”, que recebiam os estilos mais recentes “via ‘lojas de novidades’ das suas respectivas cidadezinhas”. Citando um editorial chocante que colocava a culpa das doenças sociais da América “na cabeça da Melindrosa”, ela refutou a acusação de que o tipo era amoral. Pelo contrário, estava ensinando a juventude da América “a capitalizar os seus recursos naturais e receber o seu valor em dinheiro”. À medida que o tipo se generalizava, seu elemento característico era uma franca e desinibida sexualidade. Hollywood foi rápida em criar novas estrelas para saciar os desejos deste novo tipo, aparentemente descontraído. O filme mais sensacional de 1921 foi O sheik, uma tórrida história sobre um romance proibido entre uma nobre inglesa e um sádico árabe. E. M. Hull, a jovem autora deste best-seller imediato, inventou uma fantasia impetuosa de sexo exótico, gros­ seiro, legitimado pelo desenlace, quando se revela que o sheik é na verdade um vis­ conde do reino - e, portanto, de boa origem para um casamento. Estreando :em novembro daquele ano, o filme tinha no elenco Rodolfo Valentino, um italiano de 26 anos e que já tinha causado sensação em Os quatro ca­ valeiros do Apocalipse. Moreno e mimado, roteirizado e modelado por mulheres, Valentino oferecia uma nova masculinidade totalmente diferente que tinham os americanos. Seu efeito sobre ambos os sexos foi eletrizante: no fim de 1921, ele recebia novecentas cartas por semana de sua obsessiva base de fãs femininas. O filme foi tão popular que deu o seu nome a um novo estilo jovial masculino, o sheik, que imitava os cabelos partidos ao meio, a cintura apertada e o fascínio sexual encapuzado de Valentino. Este era um novo mundo pagão. Os anúncios para O sheik diziam: VEJA o leilão de belas moças para os senhores de haréns argelinos VEJA cenas inigualáveis de deslumbrante colorido e a vida e o amor selvagens livres na suprema emoção do ano nas telas - 3 mil no elenco Valentino era a divindade principal. A atração que exercia foi definida na primeira entrevista que deu à imprensa para a Motion Picture, em julho de 1920. Nesta hipérbole produtora de astros e estrelas, ele foi descrito como “um jovem fenomenal” com qualidades divinas: “a vitalidade de Don Juan que corteja; a 224 | 1919-1929

extravagância de Don Quixote que exagera; a coragem de D ’Artagnan que ousa... o desejo de d’Annunzio que realiza; a força de Vulcano que excede e a filosofia de Omar, cujo ‘ontem está morto e o amanhã nunca vem’.” A exploração do prazer pagão foi ainda mais desenvolvida no best-seller de 1923, Flaming Youth. N a introdução, Warner Fabian apresentava o livro como um espelho para a mulher moderna. Ele definia suas leitoras-alvo como “inquietas, sedutoras, gananciosas, desconten­ tes, ansiosas por sensações, sem cons­ trangimentos, um pouco mórbidas, mais do que um pouco egoístas, in­ teligentes, sem educação, sibaríticas, seguidoras de instintos básicos e fan­ tasias perversas, tão relaxadas inte­ lectualmente quanto cuidadosas com o corpo, neuróticas e vigoro­ sas, adoradoras de deuses de lantejoulas em altares perfumados, pares adequados para o homem apressa­ do, inquieto e cínico como o diabo”. O pseudônimo no estilo sheik “Warner Fabian” mascarava um jornalista itinerante de meia-idade determinado a dar às suas leitoras exatamente o que elas queriam. Fla­ ming Youth expunha o sexo extraconjugal, o aborto, as festas à beira da piscina sem roupa, bebidas ile­ gais e a perda da virgindade de me­ ninas adolescentes nas mãos de ho­ mens mais velhos. Dentro deste rol de choques, a juventude era o princípio governante: “Você não gosta­ ria de ser jovem outra vez?”, pergun­ tava um dos poucos adultos. “Ser um facínora de vinte anos! Eles são todos facínoras, estes meninos, todos eles sem nenhuma vida em suas veias; as meni­ nas, assim como os garotos; talvez mais do que os garotos.” Visando diretamente às mulheres modernas, fossem elas jovens ou desejosas de juventude, esta excitante bobajada era perfeita para Hollywood, e a versão do romance de Fabian para o cinema foi lançada naquele mesmo ano. A sua estrela era Colleen Moore, de 23 anos, escolhida para o papel principal porque no teste JOVEM SHEIK AMERICANO DE TERNO, DÉCADA DE 1920

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usava um corte de cabelo à holandesa, com “mechas caídas na testa, como o corte das meninas japonesas”. O filme foi ousadamente anunciado no mercado com slogans do tipo “agarramentos, carícias, beijos inocentes, beijos lascivos, fi­ lhas loucas por prazer, mães ansiando por sensações”. Flaming Youth cimentou a ousada nova feminilidade na imaginação pública. O filme teve um impacto extraordinário. Scott Fitzgerald mais tarde escreveu: “Eu fui a centelha para Flaming Youth e Colleen Morre foi a tocha. Que coisas insignificantes somos para causar tanta confusão.” O filme também fez dos cabelos curtinhos o símbolo da mulher moderna. No seu estudo sobre a “Jane Melindrosa” arquetípica, de 1925, Bruce Bliven notou que o corte mais recente a deixara “quase sem nenhum cabelo na nuca, e 20% mais do que isso na frente - quase tanto quanto está sendo usado nesta estação por um tocador de violoncelo (ho­ mem); menos do que um pianista e muito, muito menos do que um violinista”. * * * No início dos anos 1920, a economia do sonho americano tinha se tornado uma imensa, complexa e lucrativa indústria. O cinema superara tanto o vaudeviüe quanto o teatro como a forma de entretenimento mais popular do país durante os mea­ dos da década de 1910 e tinha entrado em sua “década de ouro” de sucesso ar­ tístico e comercial. Durante o ano de 1922, pelo menos 45% dos adolescentes americanos iam ao cinema uma vez por semana. Ao mesmo tempo, a receita obtida com a venda de discos alcançava um pico de mais de 100 milhões de dó­ lares, enquanto que o rádio expandia-se nacionalmente - 20 milhões de ouvintes durante 1923 e 1924. A maior sofisticação e a crescente interligação dessas indústrias em flor foi ilustrada pela promoção que todas as mídias fizeram de filmes como Flaming Youth. Em 1923, estilos jovens eram observados, reproduzidos e depois dissemina­ dos por todo o continente com filmes, revistas, programas de rádio, anúncios ou pela indústria musical. O processo era tão rápido, e a manipulação tão bem-feita, que em geral parecia que estes veículos transmissores é que, na verdade, definiam os estilos. De fato, eles só estavam capitalizando a realidade adolescente. Os jovens da América foram cúmplices perfeitos nesse processo: flexionando seus músculos generacionais ao tirar vantagem de suas novas liberdades e vendo seu comportamento ser reforçado na tela ou em quadrinhos populares como Harold Teen, de Carl Ed, que começou em 1919. Tendo absorvido totalmente os valores dominantes de sua sociedade, os adolescentes da América ingressaram numa tal dança ritual com a mídia que ficava difícil definir onde começavam e onde terminavam os estilos de comportamento e de moda. Na verdade, tipos juvenis 226 | 1919-1929

divulgados, como a melindrosa, estavam, segundo Zelda Fitzgerald, “simples­ mente aplicando métodos comerciais à juventude”. Esta atenção industrial não só aumentava o abismo entre a geração madura e a jovem, ela também significava que os adolescentes sofisticavam-se cada vez mais cedo, aos 12 ou 13 anos. Entretanto, isto não se devia apenas à influência sensacionalista de Hollywood. A escola secundária estava se tornando um sistema educacional de massa conforme números cada vez maiores de adolescentes ameri­ canos se matriculavam: 37% dos jovens de 14 a 17 anos em 1920. Combinado com a tendência educacional da homogeneização etária em graus, isto significava que mais jovens do país estavam aderindo a uma destacada sociedade de pares. O filho de Babbitt, Ted, sintetizava o estudante como produto industrial: “Seu terno, a última moda nos trajes Old Eli, era colado à pele, com calças es­ treitas no alto das botas marrom-claro polidas, uma cintura de dançarino de tea­ tro revista, um padrão de xadrez agitado e um cinto cruzando as costas que não prendia nada. Sua echarpe era um enorme chumaço de seda preta. Seus cabelos cor de linhaça eram lisos como gelo, penteados para trás com gomalina e não eram repartidos.” Apesar desta roupa extravagante, Ted era um ultraconformista: um verdadeiro crente nos valores comerciais americanos. A despeito dessa uniformidade, os adolescentes da América tinham muito a ganhar com essa incipiente cultura de pares. Com o rádio, os gramofones, o ci­ nema, as revistas e o importantíssimo automóvel, eles tinham mais oportunidades para se divertirem longe dos olhos curiosos dos adultos. Entretanto, ir aos salões de baile, comprar roupas, freqüentar cinemas —tudo isto custava dinheiro, e era aqui que ocorriam as verdadeiras tensões entre gerações. Embora dependendo economicamente dos pais, o jovem não se submetia mais tão facilmente à autori­ dade deles. Pela primeira vez, também, as moças tiveram uma chance de igualdade. A crescente educação mista juntamente com os limites etários também favoreciam as meninas: com frequência elas eram mais desenvolvidas e mais confiantes do que seus colegas do sexo masculino. Stanley Hall notou que a “Novíssima Melin­ drosa Americana” tratava o menino “como se não existissem diferenças de sexo. Com relação a ele, ela às vezes parece quase agressiva. Ela vai a shows e caminha com ele de noite e, nos corredores da escola, ela bate familiarmente nas suas cos­ tas, segura-o pela lapela e lhe dá cotoveladas de um jeito familiar e até de-hauten-bas\ Para muitos adultos, a franqueza sexual da melindrosa era uma característica incômoda da nova cultura adolescente. Não só a sexualidade declarada era parte do chàmariz comercial da juventude como era incansavelmente promovida por revistas de “aventuras sexuais” como True Story, revistas de fãs do cinema como a Photoplay e filmes importantes como Flaming Youth. Uma notícia publicada SHEIKS E SHEBAS

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num jornal do Meio-Oeste captou a estreia de um filme em 1924: “‘Sheiks e suas ‘shebas sentaram-se imóveis e mudos durante toda a apresentação. Foi uma verdadeira exibição de relação sexual.” Apesar de todo esse estímulo, a plena atividade sexual antes do casamento ainda era um grande tabu. Os jovens da década de 1920 tinham muito mais oportunidades para experimentar do que seus correspondentes da década de 1890, mas ainda existiam limites. Houve um aumento no sexo extraconjugal entre os adolescentes, mas a nova cultura de pares, com seus complicados testes e rituais, dava um certo controle àquela mesma melindrosa cuja maquiagem, comportamento descontraído, saias cada vez mais curtas e enérgicos passos de jazz pareciam libertar todo um mundo de pecados proibidos. De fato, a escola secundária oferecia um teatro seguro onde o complicado contrato de namoro podia ser representado a salvo. Ele começava com o ritual das implicâncias e dos risinhos e era seguido pela franca abordagem, quando a parte feminina tomava a iniciativa. Como uma menina de escola secundária es­ creveu, “meninos, é justo fazer as meninas irem a uma diversão da escola desa­ companhadas? Até agora, não estive em nenhum entretenimento sem ver três quartos das garotas chegarem sem companhia. O mais desagradável nisto é que os meninos agem como se não percebessem a difícil situação em que eles coloca­ ram as meninas”. * As moças tomavam as rédeas nos encontros, que em geral começavam com a apresentação aos pais, depois um programa noturno que terminava com a volta para casa lá pelas 23 horas. Compreendia-se que um encontro era uma boa ma­ neira de ficar conhecendo amigos em potencial, e até namorados, mas ele não representava nenhum tipo de contrato de compromisso. Como uma menina de Minneapolis se queixou: “Só porque um garoto é cavalheiro o suficiente para levar uma menina para casa, isso não quer dizer que ele esteja apaixonado por ela. Tudo que nós queremos é simples cortesia, não maridos.” Embora não houvesse a figura da acompanhante nos encontros, havia freios do sistema. A necessidade de envolvimento dos pais significava que os prováveis encontros com homens eram examinados com atenção. Para os rapazes, a atração dos encontros era a perspectiva de sexo, mas isso também era governado pelas regras do que se chamavapetting. os vários níveis de beijos e carícias que chegavam quase à verdadeira relação sexual. Na essência da questão, entretanto, ainda es­ tava a velha hipocrisia moral, com a moça sexualmente ativa suportando o impac­ to da crítica rigidamente imposta. Esses encontros cultuavam a popularidade como o ideal central da vida na escola secundária. Encaixar-se nas qualidades desejadas pelos seus colegas de escola passou a ser uma questão competitiva. Enquanto pesquisava a vida em 228 | 1919-1929

Muncie, Indiana, durante os anos de 1924 e 1925, Robert S. Lynd e Helen Merrel Lynd entrevistaram uma estudante popular que afirmou que as qualida­ des que ela buscava nos meninos era “fazer parte do time de basquete ou de fu­ tebol. Um colega que é apenas bom aluno tem um valor muito baixo. Ser bonito, dançar bem e a família ter um carro, tudo isso ajuda”. Os Lynd concluíram que a educação “parece ser desejada quase sempre, não por seu conteúdo específico, mas por ser um símbolo - pela classe operária como um abre-te sésamo que misteriosamente admitirá seus filhos num mundo fechado para eles, e pela classe de comerciantes como uma ajuda fortemente sancionada para ter mais sucesso econômico ou social no mundo”. Este sistema de graduação social de pares expandiu-se para cima nas universidades americanas. Apesar de seus professados ideais escolásticos, para muitas faculdades, a excelência acadêmica não era o importante: o homem médio, não o estudioso de projeção, era o ex-aluno desejado. Entre 1919 e 1922, o número de alunos universitários duplicou. Este impulso para a educação de terceiro grau foi facilitado por famílias menores, um grande grupo de 15 a 24 anos, e a crescente sofisticação dos negócios americanos. A corporatização precisava de toda uma nova classe de executivos, conforme o número daqueles que trabalhavam na administração triplicava entre 1899 e 1929. Em Middletown, em uma geração o gerente-geral de uma fábrica de vidro tinha sido substituído por um “gerente de produção”, um “gerente de vendas”, uni “gerente de publicidade” e um “gerente de escritório”. A educação universitária tornou-se o pré-requisito para ingressar nesta nova elite, e o principal propósito de ir à faculdade era subir um degrau na escada de carreira. Devido à natureza móvel e ascendente da sociedade americana, seu atrativo era para todas as classes. Embora a classe empresarial esperasse que seus filhos fossem para a faculdade, algumas famílias da classe operária decidiram fazer os sacrifícios necessários para alguns anos que sairiam caro. Como um pai trabalhador de Middletown se queixou, “não sei como vamos sustentar as crianças na faculdade, mas nós vamos. Um menino sem educação, hoje em dia, simples­ mente não vai a lugar algum”. Este imperativo industrial refletia-se nos novos cursos como negócios e econo­ mia doméstica e numa nova cultura de consumo que promovia estilos e modas universitários não apenas para estudantes, mas para os jovens em geral. Com Este lado do paraíso, Scott Fitzgerald tinha iniciado uma avalanche. As atividades e os costumes dos estudantes universitários tinham fascinado o público america­ no desde a virada do século, mas com o enorme crescimento proporcional mais de 400% entre 1890 e 1924 - elas se tornaram uma grande indústria na década de 1920. SHEIKS E SHEBAS

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Com mais dinheiro nos bolsos proveniente de trabalhos de meio expediente ou de pais indulgentes, os estudantes anunciavam sua diferença do resto da população lançando moda com o estilo de roupas e de atividades sociais. “Se você convencer o universitário, vai convencer muitos rapazes mais jovens que estão tomando como seu ideal o herói universitário”, observou a revista Sales Management nos meados dos anos 1920: “O país segue a ordem do estudante universitário em questões de vestuário.” Estudos contemporâneos realizados com estudantes revelaram a amplitude de suas exigências materiais. Uma análise dos anos 1920 sobre jovens estudantes de Harvard revelou que eles compravam anualmente de seis a oito camisas, oito gravatas, seis pares de roupas de baixo, 12 lenços, 12 pares de meias, dois pares de ligas e três pares de sa­ patos. Todos os 35 estudantes da amostra tinham fonógrafos, e a maioria tinha máquinas de escrever. Cerca de 85% do total da população estudantil fumava cigarros. Na Universidade da Pennsylvania, as moças estudantes compravam sete vestidos, cinco suéteres, três saias, um casaco, três chapéus, quatro pares de sapa­ tos, 25 pares de meias, 12 itens de lingerie e quatro pares de luvas por ano. Este padrão de consumo das universidades da Ivy League, as mais importantes do nordeste dos Estados Unidos, respingou nas instituições menos elitistas. Entre os estilos associados ao mercado universitário estavam, para as mulheres, as variantes da trindade melindrosa dos cabelos curtos, cigarros e saias mais cur­ tas: os vestidos tubulares, as galochas abertas, as capas de chuva amarelas, as meias de seda e as bandanas amarradas na cabeça e na cintura. Algumas mulheres até adotaram itens normalmente associados com o sexo oposto: coletes, gravatas e calções presos na altura dos joelhos, os chamados knickerbockers. Pavões masculi­ nos usavam enormes casacos de racoon, os knickerbockers, meias de golfe e “calças à la Valentino”, muito largas, enquanto seus pares mais conservadores usavam camisas de colarinho mole, sapatos oxford clássicos de salto baixo e meias sem ligas. Os colegiais também eram grandes consumidores de mídia. Em média, cada estudante ia ao cinema uma vez por semana - especialmente depois que os fil­ mes começaram a refletir a vida universitária. O gênero de filmes colegiais foi simbolizado pela bem-sucedida dramatização, em 1925, do escandaloso romance sobre calouros de Percy Marks, ThePlasticAge, em que estrelava a futura “It Girl”, Clara Bow. Música e dança estavam no top da lista, com o jazz “quente” do pe­ ríodo, fosse o de King Oliver, o Hot Five de Louis Armstrong, ou o das bandas locais de estudantes fazendo a trilha sonora mais popular. Os colegiais tinham estado entre os primeiros defensores do hotjazz, e as faculdades foram um terreno fértil tanto para entusiastas quanto para pratican­ tes. Na Universidade de Indiana, o grupo mais popular foi a Wolverine Orchestra, apresentando o cornetista Bix Beiderbecke. O rapaz de vinte anos já tinha estuda­ do bastante jazz, encontrando-se com Louis Armstrong e freqüentando a famosa 230 | 1919-1929

casa noturna de negros em Chicago, o Lincoln Gardens. Ele se tornou uma pre­ sença constante no campus, com seu velho suéter azul e a caneca cheia de bebida alcoólica contrabandeada, enquanto seu grupo fazia serenatas nos grêmios estu­ dantis femininos na traseira de um caminhão. O mercado colegial da década de 1920 representou a primeira vez em que estilos juvenis foram agressivamente definidos e vendidos à nação como um todo. O fato de que este era o costume de uma nova elite, ou suposta elite, não impediu muitos adolescentes da classe operária de se tornarem o que o romancista James T. Farrell descreveu como “falso colegial, um desses caras que compravam ternos de colegiais a prestação”. Entretanto, a vida no campus oferecia liberdade dentro de limites altamente circunscritos. “Vocês vestem seus corpos e mentes de acordo com algum modelo estabelecido”, praguejou um dos personagens em The Plastic Age. Com muita frequência, a padronização de massa do consumismo americano era reproduzida nas psiques de suas jovens cobaias. Apesar de todas as liberdades dos adolescentes, as faculdades eram dirigidas segundo fronteiras muito rígidas de delimitação de grupos semelhantes. “Um homem não escapa nunca das conse­ qüências da sua escolha de pessoas com quem ele se associa”, uma revista colegial lembrou a seus leitores em 1922. “Um homem é julgado por seus companheiros e suas organizações.” Outro observador relacionou as qualidades necessárias para a popularidade: ser bonito, ter dinheiro e um carro. Assim como na escola secun­ dária, fazer parte do time de futebol era mais importante do que tirar dez nas matérias. Apesar da presença de alunos da classe operária, o ritmo da vida nas faculdades ainda vinha de cima para baixo. A sociedade do campus era implacavelmente imposta pelo sistema de fraternidades. Estas sociedades com suas iniciais gregas atuavam sobre o estudante desde o momento em que ele, ou ela, chegava, come­ çando com o “trote” de calouros. Uma seleção havia sido feita, havia o voto e de­ pois a iniciação. Este importante ritual era marcado pelo que se chamava de trote, a difamação e humilhação do réu, que em geral envolvia violência física e tortura mental. Incentivadas pelas autoridades da universidade, as fraternidades ofereciam muitos benefícios àqueles dentro do sistema: status garantido e uma vida social já pronta. Entretanto, sua rígida formalidade tornava a vida no campus insupor­ tável para os excluídos. “Eles se vestem igual, fazem as mesmas coisas ao mesmo tempo, pensam e falam nos mesmos termos e têm praticamente os mesmos interesses”, um visitante europeu notou em 1923. “O padrão parece ser uma uniformidade. Quem é diferente é maluco’, talvez uma traça de livro ou coisa parecida.” SHEIKS E SHEBAS

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A vida no campus não era assim tão boa como se dizia: um terço de todos os estudantes abandonava a faculdade antes de se formar. Num sistema tão com­ petitivo, nem todo mundo podia ser um vencedor, e estudantes de grupos étnicos —tais como os judeus - e de grupos de baixa renda estavam em desvantagem. Conhecidos como “mouros” ou “os esforçados”, estudantes muito estudiosos ou intelectuais tinham pouco status: o editor da revista de uma faculdade alertava os calouros de que eles tinham de decidir se queriam ser estudiosos “isolados da massa de estudantes” ou “popular entre seus colegas”. Embora formada por “ávidos capitalistas”, a pragmática geração universitária da década de 1920 não era totalmente destituída de capacidade crítica. Como seus companheiros mais jovens no ensino secundário, ela saboreava o poder da sua geração. Uma pequena mas significativa minoria gostava de testar os limites do sistema universitário e, por implicação, o mundo dos adultos. Com heróis cultu­ rais reconhecidos e díspares como Emma Goldman, Theda Bara, Rodolfo Valen­ tino e F. Scott Fitzgerald, eles aspiravam no mínimo a algum nível de não con­ formidade, e isso era expresso principalmente com muita diversão. Graças à propagação do jazz, os salões de dança continuavam proliferando por todo o país no início da década de 1920 e ficavam cheios de “rapazes uni­ versitários cujo propósito era ‘fazer estripulias”’, assim como de “meninos e me­ ninas da escola secundária em busca de sofisticação”. Nesta “atmosfera emocional­ mente carregada”, a juventude americana poderia deixar as coisas acontecerem sem se aborrecer com a interferência dos adultos. Entretanto, assim como a ma­ nia das danças de animais tinha provocado a ira dos reformadores no início da década de 1910, o jazz e as danças continuaram atraindo comentários adversos. No início dos anos 1920, o jazz era um divisor de gerações. A Ladies Home Journal lançou uma “cruzada” antijazz: “Quem diz que ‘jovens de ambos os sexos podem se misturar num abraço íntimo’ - com braços e pernas entrelaçados e os troncos em contato -, sem sofrer danos, mente. Acrescente a esta posição o mo­ vimento oscilante e o sensual estímulo da abominável orquestra de jazz com seus acordes de origem vodu e seu direto apelo ao centro sensorial, e se você é capaz de acreditar que a juventude é a mesma depois desta experiência, então que Deus tenha piedade do seu filho.” A “atitude pagã com relação ao amor em si” da melindrosa já era chocante. Entretanto, o fato de o jazz e as suas danças, mais notadamente o charleston, que estreou no musical de 1923, Running Wild, terem sua origem na sociedade negra só aumentava o perigo percebido pela sociedade americana. Ao adotar a cultura negra, os estudantes universitários eram acusados de trazer para a vida de classe média americana as atividades mais usualmente associadas com os “bairros negros e morenos de Chicago ou o East Tenderloin em Nova York”. Entretanto, a his­ teria dos moralistas só serviu para aumentar a atração do jazz. 232 | 1919-1929

Cada vez mais garotas ficavam aos beijos e carícias livremente com os rapazes - um estudo de 1924 revelou que isto era praticado por 92% das alunas de es­ colas mistas —, mas a crítica dos mais velhos só deixava claro aos jovens até que ponto os adultos estavam desinformados. Até a popularidade das “festas depetting, tão escandalosas para a geração mais velha, representava uma “forma de exploração limitada por hábitos tradicionais de pares. Ninguém podia ir longe demais: como um jovem estudante universitário do estado de Ohio escreveu, em 1922, que a menina universitária “está segura nas situações mais críticas - ela conhece os limites e, por causa da sua segurança em tal conhecimento, ela é capaz de passar por quase toda a gama de experiências” [em itálico no original]. Graças aos incansáveis esforços de Margaret Sanger, a contracepção tinha se tornado mais aceita em geral nas classes comerciais em relação à sua prole univer­ sitária. Entretanto, apesar do que os Lynd chamaram de “um certo relaxamento experimental” entre a geração mais jovem, o sexo extraconjugal ainda era um forte tabu. Para as meninas universitárias, a perda total da virgindade era uma grande preocupação, enquanto que os estudantes do sexo masculino tendiam mais a so­ lucionar este problema tendo “sessões obscenas” ou freqüentando prostitutas. Ser “uma mulher rápida” ou “um mau elemento com mulheres” era o bastante para incorrer no ostracismo dos pares, se não a expulsão total do grupo. O campo de batalha central para os estudantes universitários da década de 1920, como para muitos da sua geração, era a Lei Seca. A bebida ilegal era ao mesmo tempo aceitável e desejável. Se um estudante não mostrasse pelo menos “uma tendência à intemperança”, era considerado “antiproibicionista”, mas ele não era antiproibicionista se praticasse a intemperança “em excesso”. A AntiSaloon League tinha em mira especificamente a classe operária urbana e os pobres, mas sua impopularidade significava que a bebida ilegal, segundo um jornal universitário, passou “dos salões e dos cabarés vulgares para os círculos sociais e os salões de dança dos clubes de carteado”. Imposta ao país por um grupo de pressão em minoria, a Lei Seca colocou em descrédito a própria norma da lei. A atitude colegiada foi resumida pelo jor­ nal de estudantes de Cornell, que a chamou de uma “piada” sem “acordo popular necessário à sua imposição”. Este desrespeito à lei teve um lento efeito radicalizante na medida em que a economia ilegal colocava os estudantes em contato com ideias, atitudes e pessoas que seus irmãos e irmãs mais velhos não conheciam. Este es­ tado de espírito se solidificaria tanto na aceitação de “um novo pluralismo no com­ portamento” como nas críticas mais óbvias ao mundo dos adultos. * * *

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Apanhada entre a exploração e a condenação, entre o prazer e o puritanismo, a geração da década de 1920 foi vítima precoce das atitudes contraditórias de seu país. A juventude era um tema volátil para um experimento de massa não compro­ vado. Sob a imagem picante, pagã, pluralista do sheik e da sheba, havia impulsos selvagens, indomados: o preconceito e as violentas iniciações nas fraternidades universitárias, o dano físico causado pelas bebidas contrabandeadas, a violência do gatilho ágil de jovens gângsteres competindo pelo controle do vasto mercado ilegal de bebidas alcoólicas. Em abril de 1924, o principal contrabandista da época assumiu o controle sobre o subúrbio de Cicero, em Chicago, numa “assustadora exibição pública de poder”. Al Capone, de 25 anos de idade, não sofreu oposição por parte da polícia nem dos políticos. Um mês depois, as forças ocultas que estavam por trás da obsessão juvenil americana foram desnudadas por um dos casos de assassinato mais sensacional do século. Começou em 21 de maio com o pedido de resgate feito a um rico homem de negócios de Chicago chamado Jacob Franks, dizendo que haviam seqüestrado seu filho mais novo e que o devolveriam em troca de 10 mil dólares. No dia seguinte, o corpo nu de Bobby Franks, de 14 anos, foi descoberto num pântano remoto nos arredores da cidade. A imprensa enlouqueceu, alardean­ do “o risco que as crianças de Chicago corriam”. Depois de perseguir inutilmente os usuais suspeitos, a polícia localizou os criminosos por um par de óculos deixa­ dos na cena do crime e a impressão característica da máquina de escrever usada para redigir o pedido de resgate. Revelou-se que as pessoas que tinham cometido esse crime horrível e sem precedentes eram dois estudantes universitários, ambos adolescentes com menos de vinte anos chamados Nathan Leopold e Richard Loeb. O choque não poderia ter sido maior. Leopold e Loeb não eram criaturas desfiguradas de bairros miseráveis como Jesse Pomeroy. Eram representantes bonitos e ricos da classe juvenil de elite, saídos diretamente dos livros de Scott Fitzgerald com suas roupas elegantes e cabelos lisos penteados para trás no estilo sheik. Eles pareciam ter tudo que uma pessoa jovem numa sociedade dominada pelos jovens poderia querer: carros, garotas, diversão e até as emoções que uma cidade sem lei oferecia. Mas, tendo se achado acima da lei e superiores aos seus companheiros, haviam cruzado os limites para o assassinato num instante. A polícia descobriu logo que a dupla vinha havia muito planejando o crime perfeito: depois de pesquisar locais para dispor do corpo e receber o resgate, eles começaram a procurar uma vítima no subúrbio de alto nível de Kenwood. Bobby Franks estava no lugar errado, na hora errada, no dia 21 de maio: conhecido de Leopoldo, ele entrou no Willys-Knight alugado da dupla e recebeu logo um soco quando começou a gritar. Como não parava, os dois forçosamente o estrangu­ 234 | 1919-1929

laram. Depois de dirigir sem rumo até escurecer, eles derramaram ácido clorídri­ co no rosto do rapaz morto e o jogaram num bueiro. No primeiro momento de choque com a descoberta, Leopold e Loeb foram apresentados como monstros: “pessoas normais” não cometeriam “um ato tão revoltante”. O caso provocou enorme interesse na imprensa e no público pelas razões citadas pelo Chicago Sunday Tribune: “o espírito diabólico evidenciado no seqüestro e assassinato planejados; a riqueza e importância das famílias envolvi­ das; os altos níveis mentais dos jovens; as sugestões de perversão; as estranhas sutilezas indicadas na confissão de que o menino tinha sido morto por um res­ gate, pela experiência e para satisfazer o desejo de realizar uma trama secreta.” Leopold e Loeb tinham cometido um novo tipo de crime: abstrato, quase intelectual e, acima de tudo, aleatório. Eles representavam um enigma, um que­ bra-cabeça que virou uma obsessão nacional. A incessante cobertura pela imprensa iniciou um debate nacional sobre o relacionamento da América com seus jovens. A dupla tornou-se o símbolo da “má orientação” de uma geração. Como o juiz Bem Lindsey, especialista em delinqüência juvenil, escreveu no início de junho de 1924, “é um novo tipo de crime com um novo tipo de causa. Essa causa en­ contra-se na moderna mentalidade e na moderna liberdade da juventude”. Como as personificações do lado sombrio da juventude, Leopold e Loeb fo­ ram estudados e documentados num grau nunca visto antes. Toda essa atenção os deixou mais arrogantes, transformando-os numa versão niilista dos astros de cinema: “imaculadamente vestidos —a classe da moda e a graça da forma”, como uma colunista observou. “Dickey anda de um lado para o outro com toda a graça e porte de um Valentino passeando pela tela.” Enquanto as colunistas sentimentais humanizavam os “réus sheiks\ multidões aglomeravam-se ao redor das residências das famílias Leopold, Loeb e Frank, nos subúrbios de classe alta de Kenwood. O julgamento foi um grande evento midiático, como uma estreia de Holly­ wood, ou mesmo, como um jornal sugeriu, uma competição de gladiadores ro­ manos. A natureza “pão e circo” dos procedimentos foi conveniente para o advo­ gado de Leopold e Loeb, o legendário Clarence Darrow, contratado pelas famílias da dupla para salvá-los da execução judicial. Afinal de contas, não havia dúvidas de que eles eram culpados - mesmo que nenhum dos dois tivesse confessado o crime. Darrow insistiu em basear sua defesa na atenuação da sentença, evitando assim um julgamento pelo júri. Focalizando a questão de distúrbio mental, ele também evitou as rígidas definições legais de insanidade, que seus clientes, ocupados informando a im­ prensa sobre a cor e textura exatas de suas roupas, obviamente não preenchiam. O distúrbio mental não tinha uma definição legal clara e, portanto, oferecia a chance de atenuação para prisão perpétua em vez de morte. Darrow usou três dos mais eminentes psicólogos do país como testemunhas astros. O resultado SHEIKS E SHEBAS

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foi uma discussão de teorias psicológicas dentro do sistema jurídico americano e da mídia de massa como não ocorria desde o julgamento de Jesse Pomeroy. Muita coisa havia mudado nos cinqüenta anos de intervalo entre um e ou­ tro caso. Ao contrário dos tradicionalistas contratados para a acusação, as teste­ munhas de Darrow, os doutores William White, William Healy e Bernard Glueck conheciam muito bem e defendiam as teorias do inconsciente de Freud. Ao mesmo tempo, a equipe de defesa contratou dois médicos, Harold S. Hulbert e Karl M. Bowman, para examinar a dupla, o que fizeram em 14 dias, compilando um relatório com 80 mil palavras que investigou detalhes de família, inteligência e o estado físico-emocional deles. Isto proporcionou todo um novo parque de diversões para uma imprensa ávida de assunto. Os jornais encheram suas páginas com psicologia popular, astrologia e ilustra­ ções frenológicas no estilo Lombroso das características criminosas da dupla. Loeb era dominado por um “grande amor por sexo”, enquanto Leopold tinha um “ins­ tinto destrutivo” e uma “personalidade dinâmica”. William Randolph Hearst até ofereceu a Freud um navio especialmente fretado se ele quisesse ir aos Estados Uni­ dos e escrever sobre o julgamento, enquanto que o rival Tribune dava a Freud 25 mil dólares por um estudo psicanalídco da dupla. Já doente, e sem disposição para viajar para um país de que não gostava, o fundador da psicanálise recusou. Entretanto, os psicólogos contratados pela defesa revelaram o que havia sob a fachada delicada da dupla. Ambos tinham uma rixa com suas famílias e seus pares. Foram criados à distância pelos pais - ambos tinham governantas - e seus QIs estavam acima de 160. Loeb havia completado o ensino fundamental aos 17 anos, Leopold aos 18. Dividindo um quarto na Universidade de Chicago, eles eram um par estranho: Loeb encantador e popular, Leopold intelectualmente arrogante, um convicto nietzschiano. Os colegas gostavam muito de Loeb, mas a maioria achava Leopold desconcertante e esquisito. A dupla havia se conhecido em 1920. Jogados num mundo de pares onde quase todos eram mais velhos, expostos às tentações da liberdade, começaram a se divertir roubando carros, o que rapidamente progrediu para incêndios preme­ ditados e assaltos. Loeb, em particular, buscava em vão a cobertura da imprensa para estes crimes. Depois de um roubo malsucedido, eles se desentenderam, mas concordaram em refazer a amizade sob determinadas restrições: Loeb precisava de Leopold como assistente nas suas atividades criminosas, enquanto Leopold podia contar com Loeb para o “companheirismo”. Ambos consideraram o suicídio antes de se decidirem por assassinato. Este curioso contrato mascarava um relacionamento sexual e emocional complicado, quase sadomasoquista. Como dr. White testemunhou, a vida inte­ rior de Loeb incluía fantasias de ser preso: “Ele via gente que o espiava do outro lado das grades e comentava que ele era um grande criminoso, examinando-o com 236 | 1919-1929

curiosidade. Estas pessoas eram com frequência moças.” Foi exatamente isso que aconteceu. A dupla foi cercada por mulheres jovens no tribunal, como Maureen McKernan notou: “O horror do crime parecia não ter efeito sobre os sentimen­ tos de estouvadas pequenas melindrosas, que imploravam para entrar.” Havia um clima de frenesi no julgamento, já marcado pelo extremo calor e os meses de constante cobertura dos jornais: nos meados de agosto, os dois “ti­ nham começado a emergir quase como heróis folclóricos”. Como celebridades, eles posavam para uma série de fotografias, com a polícia, com Clarence Darrow, onde sua elegante modernidade cintilava destacando-se dos rostos desfigurados dos adultos. Eles se tornaram astros: “A atitude dos garotos durante todo o jul­ gamento intrigou todos que os observavam. Todos os dias os jornais publicavam fotos deles sorrindo no tribunal. Quando a multidão ria, eles riam.” Dentro do clima de carnaval, Clarence Darrow começou seu discurso de encerramento: três dias de uma aula de mestre sobre filosofia nietzschiana, o efei­ to brutálizante da Primeira Guerra Mundial sobre as jovens mentes e a natureza da própria adolescência. Darrow argumentou que “estes dois garotos estavam no período mais difícil da vida de uma criança”. Ele definiu esta como “a idade dos 15 aos vinte ou 21 anos” quando “a criança tem o peso da adolescência, da puberdade e do sexo jogado em cima dela. As meninas são mantidas em casa e vigiadas atentamente. Os meninos sem instrução são deixados para vencer este período sozinhos”. Darrow concluiu que “não há um ato em toda esta horrível tragédia que não seja o ato de uma criança”. Mas nem Leopold nem Loeb eram crianças. A infân­ cia deles pode muito bem ter demorado a passar, mas se dois marcos da adoles­ cência são as expressões de sexualidade e de independência dos pais, eles tinham alcançado ambos. Darrow, sem querer, realçou a lacuna no tratamento que a América dava aos seus jovens: a ainda popular elisão entre infância e idade adulta. No início da década de 1920, as definições de idade ainda não estavam padroni­ zadas: meninos podiam ser homens, e adolescentes, crianças. A eloqüência do famoso advogado venceu. O juiz Caverly recapitulou esco­ lhendo a prisão perpétua em vez de morte: “O tribunal comoveu-se principalmen­ te pela consideração da idade dos réus, meninos de 18 e 19 anos.” Ele decidiu que estava dentro da “competência do tribunal recusar-se a impor a sentença de morte a pessoas que ainda não haviam atingido a maioridade”. A dupla foi rapi­ damente embarcada para a prisão Joliet, onde não havia repórteres do sexo femini­ no para comentar sobre seus chapéus de feltro coloridos. Um longo silêncio seguiu-se ao olhar da publicidade. O caso Leopold/Loeb tirou o viço da cultura juvenil dos anos 1920. Apesar, ou talvez exatamente devido ao seu QI, a dupla não se encaixara na cultura uni­ SHEIKS E SHEBAS

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versitária que era o ideal da juventude americana. O assassinato aleatório que cometeram foi alimentado pelo desejo de vingança contra uma sociedade da qual sentiam-se totalmente desassociados. Esta não era a ira convulsiva de Jesse Pome­ roy, mas uma fria e gelada alienação. Para Leopold e Loeb, os outros não eram de carne e osso, mas cifras. Nesse sentido, eles absorveram bem demais o impulso industrial desumanizador que estava por trás da sociedade de massa da década de 1920.

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CAPÍTULO

16

O complexo de Cinderela

Os problemas da cultura de massa americana * * *

“Ospais não sabem nada sobre seus filhos e o que eles estão fazendo. ” Menina: “Eles não querem saber. ” Menino: “Não vamos deixar que saibam. ” Menina: “O nosso é um mundo veloz, e eles são velhos. ” Menino:

- Robert S. Lynd e H elen M errell Lynd, Middletowri: A Study in American Culture (1 9 2 9 )

RODOLFO VALENTINO C O M O SEU CONTATO ESPIRITUAL, PENA PRETA, M EADO S DA DÉCADA DE 1920

estava ficando claro para muitos escritores, aca­ dêmicos e pensadores na Europa e na América que a revolução profetizada por A turba tinha começado. Por definição, a massa não era sensível à racionalidade, mas, graças à sua contagiante suscetibilidade, ela personificava os próprios ins­ tintos que a civilização procurava domar. Le Bon havia alertado que a multidão pensa apenas “em imagens”: ela necessitava de “um deus antes de tudo”. Uma vez congregada num estado de fervor quase religioso, a massa estava pronta para de­ sencadear seu pleno poder destrutivo. Os futurólogos começaram a imaginar como a sociedade poderia controlar estas erupções. Escrevendo na década de 1890, Le Bon deixara escapar um elemen­ to essencial da nova era. As máquinas é que tinham tornado possíveis a matança da Grande Guerra e a produção em massa de itens de consumo, e o relacionamen­ to do homem com a máquina era o tema da fantasia científica dos anos 1920. O homem tinha de ser uma máquina para se encaixar na sociedade de massa, mas ele também era vulnerável aos efeitos brutalizantes deste novo e inflexível ideal, assim como da sua capacidade de ocasionais enguiços. Estreando na Grã-Bretanha durante o ano de 1923, a peça de Karel Capek, R. U.R., introduziu a palavra “robô” com sua trama sobre seres operários produ­ zidos em fábricas transformando-se em senhores humanos. A coerção distópica de sociedade por meio de uma mescla de controle de instintos e domínio tecno­ lógico foi plenamente explorada pelo romance de Evgueny Zamiatin, de 1924, Nós. Com cenários saídos de uma colagem dadaísta, o elegante filme, de 1926, de Fritz Lang, Metrópolisyatualizou A máquina do tempo numa luta de poder ca­ taclísmica entre operários do tipo Morlok e uma elite tipo Eloi, fomentada por um monstruoso robô metálico, um Frankenstein do sexo feminino. O homem-máquina também chegou aos métodos de trabalho cada vez mais desumanizados adotados tanto pelas indústrias capitalista e fascista quanto comu­ nista. Em meados dos anos 1920, o sistema de produção em massa de Henry Ford afirmou-se como o salvador em potencial da própria América. Edward A. Filene, o pioneiro das lojas em cadeia e ideólogo dos negócios, pediu “a aplicação do princípio de massa à indústria americana”. Ele proclamou que o consumo de massa, corolário da produção de massa, elevaria os padrões de vida de todos os americanos. Entretanto, a fusão americana de comércio e profundas necessidades emo­ cionais teve sua violenta contracorrente. O caso Leopold Loeb e a conquista de Cicero por Al Capone revelaram que aquilo que Freud definira em 1923 como “Id” - inspirado no “das es” de Nietzsche - não estava sujeito a controles racionais. Ao estimular desejos e temores primitivos fundamentais, as empresas americanas estavam enchendo de munição uma arma que já estava carregada. Freud susten­ tava que o Id podia ser dividido em dois elementos: Eros e Tanatos. O primeiro N O S MEADO S DOS A N O S 1920,

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era o instinto de vida, o segundo, o instinto sádico de morte: “A vida em si seria um conflito e um compromisso entre estes dois mundos.” Todas as distopias ficcionais dos anos 1920 retratavam sociedades ideais destruídas pelo profundo instinto de morte, muitas vezes invocado pela juventude. A sociedade de consumo estava criando seus próprios monstros, e aqui entrava a “psicologia de massa” promovida por Edward Bernays. A Lei Seca oferecia um modelo rude e autoritário de controle social e, como Bernays notou, ela era mo­ ralista demais para ser realmente eficaz no século XX. Enquanto a Lei Seca só induzia a “um desrespeito à lei”, ele buscava controlar a “mente de massa” por meio de técnicas psicológicas e sugestivas que estavam mais sintonizadas com a nova era da máquina. Como Filene, que comparou a “revolução social inclusiva” da América com a “experiência russa”, Bernays tinha consciência de que havia mais de um modelo para a sociedade de massa. Ele tentou definir uma alternativa para o totalitarismo explorado pelos fiiturólogos. No seu manual de 1928, Propaganda, ele propunha uma nova superclasse, um “governo invisível” que organizaria “a manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões das massas”. Ele não estava defendendo o controle social pela força, mas por uma indústria de percepção que moldaria o consumidor ideal. Se o ideal de Bernays era o “conselho de relações públicas” que ficava nos bastidores orquestrando a percepção das massas, o lugar da juventude na cons­ trução desta Cidade de Esmeralda em particular era central. Como a primeira geração de “seres humanos” na era da máquina produzida em massa, eles eram “radicais no mercado”, principais alvos da publicidade e as primeiras andorinhas no que seria certamente um radiante verão do consumo. Sua importância, além do mais, não se limitava apenas aos que estavam ingressando nas universidades e estudantes de escolas secundárias. Oferecendo mão de obra barata e dócil, os descendentes das classes operárias poderiam entrar no novo mercado jovem. Com “rapidez e resistência” como bô­ nus, a juventude estava teoricamente adequada às acelerantes exigências da pro­ dução em massa. Os Lynd notaram que “um garoto de 19 anos pode, depois de umas poucas semanas de experiência numa máquina, produzir muito mais do que o seu pai de 45”. Entretanto, apesar dos seus ambientes de trabalho, diversões e educação cada vez mais padronizados, uma parte dos jovens americanos recu­ sava o convite de renunciar à sua individualidade. Dependente como era da manipulação do Mágico, o novo sistema de con­ trole de massa provocou profundas questões a respeito da sociedade americana. Implicitamente, a Constituição havia prometido igualdade a todos: na nova de­ finição deste contrato, a inclusão social viria através do consumismo de massa imaginado pelos governantes invisíveis. Segundo Edward Filene, a nova era da 0 COMPLEXO DE CINDERELA

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máquina não estava “padronizando a vida humana”, mas “libertando as massas da luta pela existência humana”. Esta promessa seria levada a sério e teria impre­ visíveis efeitos. * * * Nem todos seriam admitidos na Cidade de Esmeralda. Sua atração dependia, em parte, de sua exclusividade. Enquanto os universitários e os estudantes da es­ cola secundária eram privilegiados pela cultura comercial da juventude dos anos 1920, os adolescentes das áreas mais pobres permaneciam ignorados. Eles não viam razão, entretanto, para não participar da sociedade de consumo. Com o desejo instilado, mas sem recursos, buscavam a inclusão por meios justos ou injustos. O cinema, como um delinqüente condenado contou à acadêmica Alice Miller, “faz você querer coisas, e você pega”. A Lei Seca deu recursos a muitos deles. Numa sociedade que incentivava o consumismo, o fato de o álcool não poder ser consumido legalmente abriu uma brecha filosófica bem no meio da Nineteenth Amendment. A ilegalidade do álcool não impedia as pessoas de beberem; ele só adquiria um valor de escassez ainda maior. Uma indústria criminosa bilionária cresceu em torno deste forne­ cimento, uma indústria que, apesar dos seus efeitos deformadores sobre a vida social, política e moral do país, era tacitamente tolerada pela maioria dos cidadãos americanos. O centro desta indústria foi o laboratório urbano da América, Chicago, “a cidade mais corrupta e ilegal do mundo”. A dimensão de sua ilegalidade foi de­ monstrada pelo sucesso de Al Capone ao tomar o poder em Cicero, que rapida­ mente se encheu de “gângsteres arrogantes, barulhentos e fanfarrões, ficando apinhada de bares e casas de jogos”. Era como estar de volta ao Oeste Selvagem. Capone tornou-se o gângster mais famoso da América e sua ostentação de astro de cinema fez dele um objeto de emulação: o moderno herói fora da lei. Um observador contemporâneo notou que o típico criminoso da década de 1920 “era um garoto que tinha copiado o modelo do gângster de sucesso, o mo­ delo que o rodeava. Ele não estava em descompasso. Era o cara comum. Ele tinha visto o que era avaliado como sucesso na sociedade para a qual fora empurrado - o Cadillac, muito dinheiro no banco e o apartamento elegante. Como ele po­ deria alcançar este tipo reconhecível de status? Ele era quase sempre um garoto de destacada iniciativa, imaginação e habilidade: ele era o tipo de garoto que, em outras condições, teria sido um capitão da indústria ou uma figura política chave do seu tempo”. O Volstead Act era desrespeitado com tanta persistência que criou o seu pró­ prio mundo paralelo: uma imagem espelhada dos valores americanos. O jovem 242 | 1919-1929

criminoso da década de 1920 “não teve oportunidade de ir para Yale e se tornar banqueiro ou corretor: não havia passagem para ele para um diploma de advogado em Harvard. Havia, entretanto, um caminho relativamente fácil para adquirir esses bens que lhe diziam incessantemente estar disponíveis para ele como ci­ dadão americano e que, sem os quais, ele não poderia se considerar um cidadão americano. Ele podia ser um gângster”. Para muitos dos jovens da segunda geração, o contrabando que prosperava em suas comunidades pobres representava uma estrutura de carreira válida. Como capitalistas especuladores, a profissão que escolhiam era de alto risco; como todos os produtores, estavam apenas suprindo o público com uma mercadoria que ele queria comprar. Ao contrário dos grupos de jovens dissidentes europeus, sua re­ beldia não rejeitava a moderna sociedade de massa tecnológica, mas, tendo assimi­ lado seus valores, simplesmente os invertia. Pois a selvagem violência dos seus mé­ todos de negócios expunha as forças brutais subjacentes à economia do laissez-faire na América. O poder estava certo, e o resultado foi desastroso. Muito diferente do seu incentivo ao crime organizado, a Lei Seca havia servido para tornar a reforma muito impopular, e os previdentes planejadores sociais da década de 1890 foram deixados secando num duro ambiente desconexo. Ainda trabalhando na Hull House, em Chicago, nos meados da década de 1920, Jane Addams observou como o seu bairro pobre havia se deteriorado num desordenado conjunto de prédios que abrigava bêbados, famílias em desintegração, adolescentes imitadores de gângsteres, policiais corruptos e contrabandistas armados. O escritor de Chicago James T. Farrell mapeou essa devastação na sua trilogia Studs Lonigan, que ele “concebeu como a história da educação de um menino americano normal neste período. As instituições importantes na educação de Studs Lonigan eram a casa e a família, a Igreja, a escola e o playground. Estas instituições ruíram e não serviam à sua função desejada. As ruas passaram a ser um forte fator educativo na vida do menino”. A violência e a dissipação tinham se tornado uma parte rotineira da vida cotidiana, uma inversão profundamente irônica do modelo de abstenção e moralidade pretendido pela Lei Seca. * * * Com a juventude tornando-se o para-raios para problemas mais amplos da Amé­ rica dos anos 1920, novos métodos de medição eram necessários. Em maio de 1924, G. Stanley Hall escreveu um ensaio chamado “Podem as massas governar o mundo?” no qual ele reafirmava sua visão mística. Ele sentia que uma causa para se ter esperança na sociedade de massa era um movimento jovem quase mun­ dial que “estava lutando por uma nova religião, nova luz, novo homem, nova 0 COMPLEXO DE CINDERELA

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era, novo Estado, novas relações econômicas e paz”. No mês seguinte ele morreu, aos 81 anos: seus muitos obituários prestaram testemunho da sua paixão pela “juventude, liberdade e novo conhecimento”. Entretanto, a visão romântica de juventude de Hall tinha se tornado algo insustentável. Graças a seu trabalho pioneiro, a adolescência se tornara uma imensa indústria comercial, assim como uma classe distinta dentro das sociedades ocidentais. Com o volume de novos dados sobre a juventude, entretanto, não era mais possível chegar a conclusões sobre gerações. Quando Hall começou seu trabalho, era um pioneiro solitário, mas nos trinta anos intermediários a sua metodologia seria superada por novas abordagens acadêmicas que refletiam a realidade adolescente muitíssimo diversa que havia ajudado a revelar. A mais influente teve origem na fiiturópolis americana. Inaugurado em 1921, o Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago desenvolveu um empirismo radical. Sua primeira grande publicação, On Hobos and Homelessnessy de Nels Anderson, acrescentou uma “observação participante” ao envol­ vimento pessoal com o rigor acadêmico. Sendo ele mesmo um ex-vagabundo, Anderson sustentava que os vagabundos eram os últimos remanescentes do espí­ rito pioneiro original: “Quem nunca sentiu aquela necessidade de se livrar de todas as responsabilidades e partir para lugares desconhecidos? Nenhum adulto pode sentir isso melhor do que o garoto de sangue quente comum.” O próximo livro do departamento mergulhou ainda mais fundo na vida do adolescente das cidades. Publicado em 1926, The Gang, de Frederic M. Thrasher, analisou centenas de jovens com idades entre 11 e 25 anos. Ele concluiu que o ambiente estava associado ao comportamento, visto que a grande maioria das gangues urbanas cresciam “numa ampla zona crepuscular de estradas de ferro e fábricas, de vizinhanças em deterioração e populações em deslocamento”. Esta zona era o sintoma de um problema maior: “As cidades industriais americanas não tiveram tempo para se estabelecerem e se autocontrolarem; elas são joviais e estão vivenciando as lutas e instabilidades da juventude.” Estes espaços vazios eram explorados por adolescentes urbanos: “Os meninos da terra das gangues gozam de uma inusitada liberdade das restrições impostas pelas agências controladoras normais nas melhores áreas residenciais da cidade.” Eles viviam uma outra versão do mito pioneiro: “Sob alguns aspectos, estas re­ giões de conflito são como uma fronteira; sob outros, como uma “terra de nin­ guém”, sem lei, sem deus, selvagem.” Thrasher citou o romantismo como um fàtor importante na vida de gangue: “As fantasias dos adolescentes lançam sobre o mundo - frequentemente vulgar e feio para o adulto - a luz rósea da novidade e do romance.” A natureza básica da gangue havia mudado pouco desde a época de Riis. A maioria se congregava ao longo de linhas étnicas e de vizinhanças. Entretanto, 244

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elas haviam crescido em tamanho, número, organização, sofisticação e agressão. Isto era encenado em violência e predação sexual, em mortes e orgias realizadas por gangues como os Knight Riders. Uma das causas era a nova mídia. Um en­ trevistado contou a Thrasher que “ele costumava passar horas no cinema para ver como os assaltos eram ‘realizados’, e julgando-se pelo tipo de romance policial ou ‘de sexo’, que compõe o grosso do entretenimento, há outras atrações também”. O que havia tornado as gangues tão viciosas? Thrasher identificou vários fatores. O estímulo de impulsos fundamentais pela mídia de massa serviu para arrancar a moral de todos os limites conhecidos. Conforme ele observou, “padrões sociais desmoralizantes vindos de todos os lados apresentam-se diante do garoto de gangue; eles estão nas ruas e vielas; eles vêm de gangues mais velhas e clubes e do submundo”. Isto tinha uma força extra porque havia “padrões conflitantes com referência a sexo, proibição de bebidas alcoólicas, jogo e outros mais. Isto torna mais difícil para o garoto uma definição conclusiva da situação”. Entretanto, a verdadeira razão estava na soleira da porta: “Bebidas alcoólicas ilícitas, jogo e vício têm dado as maiores oportunidades para o tipo de gangue organizada em Chicago.” Os lucros em potencial, a idolatria de gângsteres e, na verdade, a prática de crimes graves “com base na eficiência nos negócios” tornou ainda mais provável a transição de gangues locais para a organização criminosa de âmbito nacional. Thrasher terminou seu levantamento com uma série de re­ comendações concretas que incluíam o trabalho social mais ativo e a monitoração da estrutura familiar. Ele conservava sua confiança de reformador de que a socie­ dade americana podia ser melhor. O impulso reformador não havia morrido com a Lei Seca, apenas mudado de natureza. Em vez de agressiva moralização, ele ressuscitou a concentração em questões sociais que havia marcado progressistas pioneiros como Jane Addams. Acreditando que o ambiente influenciava o comportamento, a nova geração de reformadores defendia uma abordagem mais sinóptica. No seu influente livro sobre o tratamento de delinqüentes e criminosos, Delinquents and Criminais, os criminologistas William Healy e Augusta E Bronner, assim como Thrasher, re­ comendavam que cada jovem infrator devesse passar por um estudo ambiental e psicológico completo. Esta renovada concentração na formação levou diretamente a uma crítica mais ampla da sociedade americana. The Gang coincidiu com a obra de outro grande reformista, You Cant Win, de Jack Black, o sensacional relato de um criminoso reabilitado por um tratamento sensível. Black tinha começado sua carreira ainda adolescente na década de 1890, e o atrativo do livro era sua exposi­ ção de um mundo antes oculto de “arrombadores de cofre”, “viciados” e “falsários”. Com o sucesso da publicação, Black excursionou pelos Estados Unidos dando O COMPLEXO DE CINDERELA

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palestras sobre reforma penal ou, como ele dizia, ‘ propaganda contra o excesso de leis e punições”. Com seu histórico mapa das subclasses de criminosos juvenis, You Carít Win também ajudou a esclarecer os problemas cada vez mais incômodos do pre­ sente. Durante o ano de 1926, aconteceram 66 assassinatos por gangues apenas em Chicago, conforme os “ditadores dos bairros miseráveis” lutavam pela supre­ macia. Ainda mais nociva era a composição das bebidas contrabandeadas: em 1926, 750 pessoas morreram dos seus efeitos em Nova York. Uma análise feita em 1927 mostrou que 98% das bebidas alcoólicas testadas continham compos­ tos como metanol, que causa cegueira e paralisia. Muitos dos seus consumidores morreram jovens do que James T. Farrell chamou de “veneno de rato”. Mentes investigadoras começaram a se perguntar se os problemas dos jovens com a vida em gangues, a falta de um teto para morar e a delinqüência não se­ riam sintomas da natureza místico-mecânica da própria vida americana. Como Robert Herrick escreveu em sua introdução a You Carít Win, “A vida moderna oferece aos jovens suficiente estímulo mental? O carro a motor, o cinema, a be­ bida contrabandeada e o sexo —estes são os grosseiros estímulos com os quais a juventude tenta infundir alguma cor e movimento à tirânica monotonia de uma vida industrial padronizada”. O próprio Jack Black não tinha dúvidas: “A socie­ dade era uma máquina acionada para me triturar.” * * * Durante a década de 1920, os adolescentes se tornaram “os consumidores de amanhã”: cobaias da sociedade de consumo. Entretanto, esta experiência social não estava comprovadamente se saindo conforme o planejado. Segundo a antro­ póloga Margaret Mead, a delinqüência juvenil era apenas um sintoma de uma doença americana maior. “Se os adolescentes só se veem imersos em dificuldades e tristezas devido às condições do seu ambiente social”, ela escreveu, “então, por favor, deixem-nos modificar esse ambiente de forma a reduzir este estresse e eli­ minar esta tensão e angústia de adaptação.” O primeiro livro de Mead, Corning ofAge in Samoa>foi uma sensação quando lançado em 1928, mas o furor público provocado por suas descrições da vida sexual livre de culpas do povo de Samoa distraiu as atenções da sua devastadora crítica à “Civilização Ocidental”. Seguindo o seu mentor Franz Boas, Mead criticava “a grande massa de teorizações sobre a adolescência”. Rejeitando aberta­ mente a caracterização de Stanley Hall desta idade como sendo “o período durante o qual as dificuldades e os conflitos são totalmente inevitáveis”, ela se perguntava: “Estas dificuldades originavam-se do fato de ser adolescente ou de ser adolescente na América?” 246 | 1919-1929

A sua resposta foi “ir a uma civilização diferente e fazer um estudo de seres humanos sob condições culturais diferentes em alguma outra parte do mundo”. Viajando para Samoa a fim de pesquisar adolescentes do sexo feminino da ilha, Mead descobriu uma sociedade em que as crianças tinham “total conhecimento do corpo e das suas funções”. A atividade sexual dos adolescentes não era reprimi­ da, mas encorajada. Além disso, uma atitude mais comunitária com relação aos cuidados com os filhos parecia “proteger a criança de atitudes deformadoras que têm sido chamadas de Complexos de Édipo, Complexos de Electra e outros mais”. As conclusões de Mead chegaram ao auge numa coruscante polêmica: confor­ me ela escreveu mais tarde, o seu livro falava tanto dos “Estados Unidos de 1926­ 1928” quanto de Samoa. Reconhecendo que a “puberdade psicológica será ne­ cessariamente cheia de conflitos”, ela não obstante achava que o estilo de vida americano era o culpado pelas neuroses de seus adolescentes. “Uma sociedade que está clamando por opções”, ela escreveu, “que está cheia de tantos grupos articula­ dos, cada um insistindo com o seu próprio modo de salvação, a sua própria va­ riedade de filosofia econômica, não dará paz a cada nova geração até que todas tenham fracassado, incapazes de suportar as condições de escolha.” Mead pensava que a maior fonte de todas as tristezas juvenis era a “natureza essencialmente pecuniária” da sociedade americana, com sua “florescência de uma doutrina de atalhos para a fama”. A mídia piorava a situação ainda mais: “O ci­ nema, as revistas, os jornais, tudo reitera a história da Cinderela de um modo ou de outro.” Filmes como It propagavam a ideia de que qualquer um, até uma “balconista de loja”, podia se tornar a “principal compradora” da loja e se casar com o patrão. Explorando o que Mead chamou de “nossa teoria americana de infinitas possibilidades”, o complexo de Cinderela criado por estas visões produ­ zidas em massa criava uma confusão de desejos conflitantes. * * * Enquanto Mead finalizava sua pesquisa sobre Corning ofAge in Samoa, o crime organizado tomou conta de Manhattan. O detonador foi a morte de Rodolfo Valentino, logo depois do meio-dia numa segunda-feira, 23 de agosto de 1926. Sua súbita doença tinha sido um evento da mídia na semana anterior, com fãs fazendo vigília na porta do hospital. Milhares de pessoas começaram a se reunir no local onde Valentino estava sendo velado, a Frank E. Campbell Funeral Chapei, localizada na Broadway com a rua 65, onde o caixão do seu herói fortemente embalsamado estava envolto em incenso fumegante. De noite, a area estava api­ nhada de gente e a polícia tinha dificuldade para manter a ordem. No mês de novembro anterior, as fãs tinham cercado Valentino e rasgado suas roupas, mas as cenas que se seguiram à sua morte eclipsaram tudo que já se vira 0 COMPLEXO DE CINDERELA

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antes. Ao meio-dia de 24 de agosto, a multidão já era de 10 mil pessoas e con­ tinuava aumentando. Aos madrugadores predominantemente do sexo feminino somou-se uma multidão turbulenta de jovens sheiks ‘vestindo boleros e chapéus de gaúcho” assim como “as calças balão, as polainas, os cabelos gomalinados e as longas costeletas popularizadas” pelo ator morto. No início da tarde, a multidão, agora de 20 mil pessoas “psicologicamente cegas”, invadiu os portões da casa funerária. Foi o caos. A polícia insistiu para que o prédio fosse aberto. Conforme o público entrava em fila, muitas moças beijavam o caixão. Entretanto, o ritmo relativamente lento do acesso não saciava a multidão, que no meio da tarde já era de 180 mil pessoas: mais perturbações ocorreram quando as portas foram final­ mente fechadas à meia-noite. Isso se repetiu no dia seguinte, quando a polícia tentou fechar a Funeral Chapei depois de já terem entrado 90 mil: as milhares de pessoas chorando do lado de fora lutavam para entrar, e a conseqüente bata­ lha campal continuou até de madrugada. A imprensa ainda bombardeava histórias sensacionalistas e a situação conti­ nuava muito carregada. O ofício fúnebre de Valentino, no dia 30 de agosto, foi caótico. Quando o corpo do ator foi finalmente removido da casa funerária, a agitação do público tinha baixado, mas o frenesi acompanhou o caixão, que viajou de um lado a outro do país. Apesar da forte chuva, pelo menos 50 mil pessoas se aglomeraram na estação de La Salle, em Chicago, durante uma breve parada, enquanto em Los Angeles outros milhares aguardavam do lado de fora do cemitério de Hollywood para participarem do enterro. Esta não foi uma explosão totalmente espontânea. A morte súbita de Valen­ tino tinha criado um grande problema para seu estúdio. Com dois filmes de Va­ lentino no mercado, A águia e Ofilho do sheik, a United Artists ia perder muitos milhões de dólares a não ser que o nome do astro pudesse ser mantido vivo. Mais tarde veio a público que todo o drama daquela multidão em Nova York fora estimulado por Frank Campbell e o homem encarregado da publicidade da United Artits, Harry C. Klemfuss, que ficou 24 horas na casa funerária para garantir que tudo saísse segundo planejado. A campanha teve um sucesso muito além dos seus mais ousados sonhos. Em poucos dias, os dois filmes tinham uma bilheteria sem precedentes. No mundo inteiro, qualquer filme de Valentino ainda nas mãos de distribuidores foi aceito imediatamente e exibido para salas superlotadas. O extraordinário volume de cartas enviadas pelo público para o seu estúdio não diminuiria por uma década. A indústria cinematográfica descobriu pela primeira vez o que os jornais já sabiam: morte vende. Preservado no auge da sua juventude em celulóide, Rodolfo Valen­ tino não envelheceria nunca. 248 | 1919-1929

Era o romantismo modernizado para a era do consumismo: a crença, já aplicada aos jovens mortos da Grande Guerra, de que os deuses favoreciam quem morresse jovem. Embora já tivesse completado trinta anos em 1926, Valentino ainda estava associado à virilidade, à potência e ao fogo da sexualidade reprimida imitados pelos jovens sheiks e shebas. Sua morte fixou isso para sem­ pre, como a mosca num pedaço de âmbar. Para os chefes do estúdio, era o ideal. Nunca mais seu astro impediria o fluxo constante dos negócios com seu mau humor e exigências de controle criativo. Vivo, Valentino era um problema; morto, ele era o produto industrial perfeito. Atraindo manchetes gritantes, as rebeliões de agosto de 1926 foram uma demonstração gráfica para as autoridades americanas do poder maciço da juven­ tude. Em Manhattan, o tumulto de pessoas por causa de um corpo morto tornou o comportamento delas, no mínimo, ainda mais irracional para os adultos, mas de fato era uma conseqüência lógica de uma economia de sonho que usava detonadores psicológicos para moldar e controlar a massa. Tendo sido incentivados a pensar no astro como um deus, os jovens fãs de Valentino estavam realizando as mais medonhas profecias de Le Bon sobre o poder destrutivo das multidões o momento em que Eros se entrelaçava com Tanatos. Estas cenas de multidões também revelavam que o consumismo era uma cola social instável. Os entretenimentos de massa como o cinema, com seu apelo particular para a juventude, talvez tivessem oferecido ideais de inclusão e partici­ pação, mas eles também evocavam esperanças de que, por ser tão tipicamente consumistas, estivessem fadados à destruição. Muitos reformadores e sociólogos dos anos 1920 comentaram a respeito do intenso impacto psicológico do cinema sobre a juventude americana. Edward Bernays chamou o “cinema americano de o maior veículo de propaganda inconsciente no mundo hoje em dia”. Entretanto, o complexo de Cinderela funcionava nos dois sentidos. Se a platéia não poderia nunca esperar ter a vida de Hollywood, muitos dos Deusesdas-Multidões descobriam que a realidade desse ideal olímpico não estava à altura das expectativas. Valentino, por exemplo, havia suposto que o estrelato eliminaria os anos de pobreza e dificuldades. Quando chegou ao topo, entretanto, encontrou um plateau estéril. Embora, para seus fervorosos fãs, ele fosse uma di­ vindade sobre-humana, para o estúdio ele era um bem móvel; apesar das multi­ dões de mulheres frenéticas, seus dois casamentos não deram certo. Ele era ao mesmo tempo divindade e ser humano, mestre e escravo, adorado e desprezado. Essas contradições tinham transbordado em julho de 1926, quando o Chicago Tribune publicou um maldoso ataque pessoal, com a manchete “Baforadas de pó rosa”. Ele começava com a horrorizada descrição de ter encontrado “uma má­ quina automática para vender pó de arroz! Num banheiro masculino!”: “Nós vimos pessoalmente dois ‘homens’... entrarem, inserirem uma moeda, segura­ 0 COMPLEXO DE CINDERELA

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rem um lenço sob a torneira, puxarem a alavanca, depois pegarem o pozinho rosa e passarem nos seus rostos diante de um espelho.” Como “o protótipo do macho americano”, Valentino foi considerado responsável por “esta degeneração efeminada”. O insulto perseguiu o ator até a morte. A mesma coisa aconteceu com a principal estrela daquela época. Em 1927, Clara Bow estrelou um filme que marcou para sempre a figura da melindrosa, tão arquetípica que Mead citou a trama na sua crítica ao complexo de Cinderela: a adaptação pela Paramount do best-seller de Elinor Glyn, It. Acreditando-se nos títulos de estreia do filme, a “força magnética” denotada por It era definida pela sexualidade elementar que Clara Bow personificava. Ela era, segundo Scott Fitzgerald, “a realidade”. O público certamente pensava assim: o filme fez dela uma das principais atrações de Hollywood e um “cintilante exemplo da despreo­ cupação da juventude flamejante”. Os próprios impulsos que lançaram Clara Bow ao estrelato a tornaram parti­ cularmente vulnerável depois que ela alcançou aquele estado de sonho. Como Valentino, a moça do It estava fugindo de uma infância terrível: “Nunca tive roupas”, ela mais tarde lembrou. “E muitas vezes não tinha o que comer. Nós só vivíamos e isso era tudo. As meninas me evitavam porque eu me vestia muito mal.” Depois de vencer um concurso de talentos aos 16 anos, ela foi para Holly­ wood e descobriu o sucesso em filmes como The Plastic Age. Clara Bow tinha apenas 22 anos quando It a transformou numa estrela: seus problemas não es­ tavam resolvidos, mas exacerbados. Como a personificação da nova sexualidade, direta e sem rodeios, Clara Bow era o repositório das esperanças e preconceitos da sua platéia. A acadêmica Alice Miller citou uma variedade de reações juvenis ao seu mais famoso filme. Um “escoteiro de 14 anos escreve a respeito do filme chamado It: Acredito que It, com Clara Bow, seja uma ameaça total à comunidade. Filmes deste tipo não deveriam ser permitidos na comunidade/ Um menino mais velho, de 17 anos, escrevendo sobre o mesmo filme, diz: ‘Eu gostei de It. Foi uma maravilhosa in­ terpretação de uma fascinante jovem mulher/” Na primavera de 1928, Clara Bow estava cotadíssima: as cartas de fãs aumen­ taram para mais de 35 mil por mês. Entrevistando-a no auge da fama, a jornalista e escritora de roteiros para cinema Adela Rogers St. Johns notou que “parece não haver nenhum padrão, nenhum propósito em sua vida. Ela oscila de uma emoção para outra, mas não ganha nada, não acumula nada para o futuro. Vive totalmente no presente, nem mesmo para hoje, mas apenas para o momento”. Falando para outra revista, ela contou a verdade: “Não me sinto feliz há muitos meses. A pes­ soa que vocês veem na tela não é o meu verdadeiro eu; é o meu eu das telas.” Clara Bow buscava consolo em gastos extravagantes e sexo: na verdade, ela vivia o papel de sereia com um entusiasmo um pouco exagerado para a “Kansas 250 | 1919-1929

moral” de Hollywood. Aqui a hipocrisia não era pouca: no caso dos astros mascu­ linos, a promiscuidade era considerada meramente um acréscimo ao seu fascínio. Não tanto para as mulheres, de quem se exigia mais discrição. Sua grosseira fran­ queza era vista como uma grave ruptura com a etiqueta. Sem o apoio do estúdio, Clara virou um desastre. Incapaz de se adaptar às novas exigências do som, sua reputação e psique ficaram em farrapos depois de um escandaloso processo judicial em 1931. Aos 25 anos, sua carreira chegara ao fim. Esses dois melodramas muito divulgados representaram os paradoxos do complexo de Cinderela. Nem todos os astros sucumbiram: Colleen Moore, a protagonista em Flaming Youth, viveu uma velhice amadurecida e feliz. Porém, quanto mais alto o zênite, maior a queda. ícones definidores de uma era como Clara Bow e Valentino podem muito bem ter escapado de antecedentes amaldiçoa­ dos para um reino cintilante, mas a um considerável custo pessoal. A sexualidade que eles invocavam com tanto sucesso despertava emoções que incluíam hostili­ dade assim como adoração. Como qualquer outro produto industrial, eles estavam sujeitos à lei da obsolescência planejada. No entanto, sua presença luminosa ajudava a introduzir novos arquétipos: no caso deles em particular, uma confusão de gênero que evocava a androginia associada em muitas sociedades a divindades jovens e atores talismânicos. Eles transformavam o sistema à sua imagem e, ao fazer isso, davam esperança. Encar­ regado de representar uma platéia de milhões de pessoas, o cinema oferecia um modelo de progresso social. Esta era uma arena onde os párias podiam, por mais fantástico que fosse o cenário, ver-se na tela, onde o estrelato individual parecia representar a ascensão de um grupo antes marginalizado. *** Uma conseqüência não intencional da cultura de massa foi a de que a massa achou que deveria participar mais da sociedade. Tendo recebido um grau sem precedentes de atenção na década de 1920, os adolescentes estavam particularmente inclinados a esta suposição. Fossem as melindrosas, os gângsteres conquistando segmentos inteiros de cidades americanas ou os estudantes universitários despertando para o potencial do seu grupo, os jovens do país começaram a transformar a participa­ ção por meio do consumismo em ideias de emancipação muito diferentes. Em 1923, uma revista ativista chamada New Student havia se queixado da natureza apolítica dos universitários americanos: “Nós somos quase que o único segmento da população com tempo livre e oportunidade para estudar as controver­ tidas questões do dia e agir de acordo. O poder do presente está nas nossas mãos. Mas nós estudamos as questões industriais, econômicas e internacionais e as ex­ plicamos com simplicidade ao homem na rua, o que deveria ser a função natural 0 COMPLEXO DE CINDERELA

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do estudante? Não. E em grande parte porque somos imaturos demais para ver isto como nosso papel. Nós temos o poder mas não o usamos.” Depois dos meados da década, os estudantes americanos começaram a fazer exatamente isso. Seu principal alvo era a Lei Seca, e os editores de revistas uni­ versitárias começaram a se agitar para modificá-la. Numa votação realizada em 1926 na Universidade de Princeton revelou-se que 87% de seus alunos era a favor da revogação. O Daily Princetonian sustentava que a Lei Seca havia “amea­ çado seriamente as melhores tradições das faculdades. Enquanto antes os alunos limitavam-se a beber no Nassau Inn, agora as bebidas alcoólicas são levadas para os quartos e ali guardadas, ou buscadas em restaurantes de beira de estrada. A lei é muito pouco respeitada”. Reagindo contra esta hipocrisia dos adultos, os estudantes americanos come­ çaram a ampliar seu âmbito político. Durante o ano de 1925, a National Student Federation foi formada em Princeton num encontro de 245 faculdades reunidas para discutirem a Corte Internacional de Justiça que fora instituída pela Liga das Nações. Como parte desta agenda pacifista, os protestos contra a natureza compulsória do ROTC - o Reserve Officer s Training Corps, a unidade de treina­ mento de oficiais da reserva - tornaram-se mais estridentes. Enquanto a grande maioria dos estudantes continuava convencida de que o treinamento militar era desejável, muitos pensavam que o alistamento na unidade deveria ser voluntário. Entretanto, suas sensibilidades políticas não iam além das suas próprias ne­ cessidades de mudar uma sociedade mais ampla. Os estudantes universitários, por exemplo, tendiam a papaguear atitudes normativas com relação à raça. Isto ocorria a despeito do seu forte gosto pelo hot jazz e das freqüentes visitas aos bares em que predominavam os negros e eram chamados de “Black and Tans”. Com a crescente proliferação de grupos de jazz brancos - formados na sincera, se não fanática, emulação de seus ídolos negros —, não havia muita necessidade para o aluno universitário comum se preocupar demais com uma das questões mais espinhosas da América: a segregação. No fim da década de 1920, o jazz tinha se tornado um grande negócio. Seu foco mudara de pequenos conjuntos instrumentais para enormes organizações como a orquestra de trinta instrumentos de Paul Whiteman, que excursionava pelo país e atraía a histeria dos fãs já concedida a astros do cinema como Valentino. Numa apresentação em junho de 1929 realizada em uma estação de trem em Nebraska, a orquestra foi cercada por uma multidão de 5 mil pessoas antes mes­ mo que os músicos desembarcassem. Até o nome de marca fora adequado para o filme sonoro pioneiro, de 1927, O cantor de jazz, apresentando o definitiva­ mente nada sensual Al Jolson. Não passou despercebido que o jazz havia se tornado a língua franca da ju­ ventude americana. A popularidade da música oferecia uma base comum entre 252

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as raças. Tendo visto a popularidade da música e da dança negra entre os jovens brancos e sua crescente divulgação pela mídia de massa, um grupo de jovens ar­ tistas e intelectuais negros decidiu investir numa certa emancipação recíproca. Com o jazz tornando-se um símbolo internacional de modernidade e diante daquilo que o escritor Alain Locke chamou de “a nova democracia na cultura americana”, eles achavam que já era hora de finalmente sair da era da escravatura. O ideal americano de transformação parecia oferecer a autêntica inclusão de todos os excluídos. A revolucionária antologia de Locke, em 1925, The New Negro, visava a dar estrutura ao novo “Renascimento Negro”. A coleção era um mostruário de uma “nova geração” de jovens escritores como Claude McKay, Langston Hughes e Countee Cullen, que utilizavam o ultramodernismo, o patois tradicional e uma nova certeza em sua mágica conversão de pária em orgulho nacional. Se a ideia era promover “um nova estética e filosofia de vida”, então o cenário central seria o Harlem. Esse bairro, dois terços da parte norte da ilha de Manhattan, compreendia um distrito de 25 quarteirões e 175 mil habitantes. Com negócios empreendidos por negros, locais de entretenimento e uma vida social e política diversa, o Har­ lem oferecia um mundo fechado em si mesmo a ponto de, como Janes Weldon Johnson observou, personificar “uma experiência de laboratório em larga escala para o problema racial”. Foi aqui que, como afirmou Locke, a vida dos negros estava “aproveitando as suas primeiras chances de autoexpressão e autodetermi­ nação em grupo”. A juventude era um elemento básico para este ideal de um “capital racial”. Em maio de 1926, Langston Hughes declarou no jornal The Natiom “Nós - artistas negros mais jovens que criam - pretendemos agora expressar nossos eus individuais de pele escura sem medo ou vergonha. Se agradar aos brancos, ficaremos felizes. Se não agradar, não tem importância.” A única edição de Fire> “Uma publicação trimestral dedicada aos artistas negros mais jovens”, publicada naquele novembro, exibia escritores que tinham, como Hughes, entre vinte e 25 anos. As contribuições incluíam “Smoke, Lilies and Jade”, uma ode em prosa à homossexualidade de Richard Bruce Nugent, e o exultante poema de Lewis Alexander, “Little Cinderella”. O Harlem não só foi um farol sinalizador para negros de todas as partes da América, ele também atuou como um ímã para os brancos. O entretenimento era a atração: o Cotton Club foi inaugurado em 1923 e, três anos depois, surgiu o Savoy Ballroom, mais voltado para a comunidade. Graças à moda do jazz e da dança de jazz, o Harlem e a negritude estavam virando moda não apenas entre os universitários, mas na alta sociedade de Manhattan. Quase tão logo foi anun­ ciado pelos escritores negros, o Renascimento do Harlem foi divulgado para um 0 COMPLEXO DE CINDERELA

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círculo mais amplo de leitores por um crítico e criador de tendências branco e de meia-idade. Publicado no fim de 1926, Nigger Heaven, de Carl Van Vechten, foi um clássico livro popularizante que oferecia o mapa turístico de um mundo antes ocul­ to e que tinha autenticidade suficiente para agradar aos que viviam lá dentro. Apesar do sincero interesse de Van Vechten pela cultura negra, o romance causou muitas controvérsias quando da sua publicação. Muito diferente da palavra tabu contida no título, o fato de o homem branco ter lucrado com um movimento que se supunha celebrar a paridade negra era difícil de suportar. Mesmo que “o negro e todas as coisas negroides tenham virado moda”, o tráfego de inclusão ne­ gra, pelo visto, ainda era de mão única. Entretanto, um dos resultados deste succès de scandale foi a publicação, no fim dos anos 1920, de vários romances escritos por jovens escritores negros que revelavam a complexidade de suas vidas vista de dentro, um mundo que parodiava os valores da América branca como através de um espelho. O romance de Wallace Thurman, The Blacker the Berry, descrevia a vida numa faculdade só para negros, onde a sua heroína “negra demais”, Emma Lou Brown, é colocada em ostracismo por seus pares de pele mais clara. Como Home to Haflem, de Claude McKay, ele também revelava o nível de ódio pessoal e dúvida que muitas vezes resultava em dissipação e autodestruição. Apesar da ilusão da harmonia racial, a realidade do Renascimento do Harlem foi de apenas uma segregação atenuada. Langston Hughes comentou com mordacidade que o famoso Cotton Club “era um bar Jim Crow para gângsteres e bran­ cos cheios do dinheiro”: enquanto “aos estranhos eram dadas as melhores mesas de pista para ficarem sentados olhando os clientes negros - como animais diverti­ dos, num zoológico” —,isso não funcionava no sentido inverso. “Os negros diziam: ‘Não podemos ir ao centro da cidade e ficar olhando para vocês nos bares. Vocês nem nos aceitam em seus bares/” O Renascimento do Harlem mostrou os limites do complexo de Cinderela. As imagens pluralistas da mídia de massa ofereciam a esperança de inclusão, mas os alvos dessa atenção tinham pouco controle sobre o modo como eram retratados. Em troca desse acesso enviesado à estrutura de poder, eles também estavam su­ jeitos à distorção e exploração. Muitos relatos de pessoas de dentro desse círculo sobre o Renascimento do Harlem estavam salpicados com a amargura daqueles que testemunharam um prolongado processo de emancipação transformado em novidade - só mais uma mania a ser explorada e depois descartada quando a maré virasse. *** 254 | 1919-1929

Para aqueles que se importaram em estudar os termos, isto sempre fizera parte do acordo. Durante a década de 1920, as imagens de juventude promovidas pela mídia americana eram o pregáo dos vendedores itinerantes de remédios patentea­ dos para a sociedade consumista. Eles as faziam parecer novas, atraentes e sensuais, mas, no que dizia respeito ao seu verdadeiro poder, eram um placebo: tinham pou­ co ou nenhum impacto direto sobre as estruturas legais e sociais da América. En­ tretanto, a liberdade que elas continham como uma parte necessária de seu apelo ajudava a dar início a novas percepções e novas ideias que gerariam frutos nas próximas décadas. O aumento da independência da juventude na década de 1920 não foi uma total ilusão. Num país que prescrevia a agitação radical, ela se expressava em ter­ mos de atitudes e não de políticas. Enquanto a geração universitária e os jovens gângsteres desafiavam a Lei Seca, seus correspondentes mais jovens começavam a afirmar independência em relação a seus pais. Robert S. Lynd e Helen Merrell Lynd ofereceram uma ilustração de como esta rebeldia respingou para uma cidade americana do Meio-Oeste onde, segundo um pai aturdido, “crianças de 12 ou 14 anos de idade hoje em dia agem como adultos”. Publicado em 1929, Middletown retratava uma cidade americana do MeioOeste onde o equilíbrio de poder havia pendido firmemente na direção dos jovens: “Depois dos 12 ou 13 anos, o lugar ocupado pela família tende a recuar diante de uma combinação de outras influências formativas, até que, antes dos vinte anos, a criança é considerada uma espécie de adulto júnior, cada vez mais inde­ pendente da autoridade dos pais.” Eles citavam uma “garota popular da escola secundária” que, desencorajada a sair com um “jovem impetuoso num carro bonito e veloz”, explodiu com o pai: “O que vocês querem que eu faça? Fique sentada em casa a noite inteira?” Durante a década de 1920, a juventude começou a se ver não apenas como um mercado, mas como uma classe distinta. Como as outras tribos sem privilé­ gios do país, os jovens americanos sentiam que a atenção que haviam recebido lhes dava o direito de exigir mais da sua sociedade. Esta política de grupo se expressaria em termos da promessa de igualdade universal feita no país. Entretanto, o fato de confundirem o seu status como consumidores de vanguarda com o verdadeiro poder político baseava-se numa prosperidade que era tão febril quanto frágil.

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CAPÍTULO

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Em busca do prazer

Os Bright Young People *** BUNTY: Você está ficando velha. NICKY: Poxa, é mesmo; isso não é horrível? BUNTY: Um inferno, minha querida.

NICKY:

Engraçado é que a geração da minha mãe sempre quis ser mais velha quando era jovem, e nós fazemos tudo para continuar jovens. - Noêl Coward, The Vortex (1924)

BRENDA DEAN PAUL DURANTE O S A N O S LOUCOS

N O AUGE DOS A N O S 1920, Brenda Dean Paul foi a uma festa em Mayfair reali­ zada para o elenco de The Blackbirds, o espetáculo negro que na época fazia o maior sucesso em Londres. Oferecendo aos britânicos a primeira fatia autêntica do Harlem com suas danças e seu hot jazz selvagens, The Blackbirds penetrou nos mais altos níveis da sociedade. Durante todo o ano em que o espetáculo es­ teve em cartaz, a estrela Florence Mills e outros “pássaros negros” foram os con­ vidados de honra de muitas festas dadas pela juventude dourada de Londres, que ficou fascinada desde o início “com os cantos e as danças dessas pessoas de cor”. Para a londrina de 19 anos, essa noite radiante foi uma revelação. Enquanto uma pequena e seleta multidão dançava ao som de dois “soberbos pianistas”, ela fazia amizade com Florence Mills, de quem se lembrava como a “personificação de charme e postura natural”. Tendo sabido por Mills que ela poderia ter “nascido no Harlem”, Dean Paul aspirava a se tornar uma “dançarina de cor”: “Eu me senti tão à vontade com essas pessoas encantadoras que todas as outras pessoas bran­ cas na sala pareciam simplesmente gentis e quase indecentemente refinadas.” A festa dos Blackbirds foi só o começo, conforme Dean Paul ia a muitos outros eventos: “Bailes à fantasia em grande escala” e “festas bizarras.” Algumas destas tinham temas obsessivamente promovidos, como “Venha como você era vinte anos atrás”, de David Tennant, que resultou numa festa infantil maluca: “Até a banda estava vestida com ternos, colarinhos e bonés escolares de Eton.” Outras festas bizarras se seguiram: “Festas do pijama, festas gregas, festas russas, festas do marinheiro, festas americanas, festas de assassinato, festas de banho e daí por diante.” Relembrando essas noites de roupas extravagantes, coquetéis e jazz em alto volume, Dean Paul escolheu a mais exagerada de todas: a festa americana na qual pedia-se aos convidados para “virem como ‘vagabundos’, ‘cavadores de ouro’, ‘mendigos’, ‘fazendeiros ricos’, ‘homens doces’, ‘gângsteres’, ‘homens sim, ‘cronis­ tas sentimentais’ etc. etc.”. Amaciada por “bufês regados com champanhe , a multidão se desinibia totalmente: “A banda tinha sido importada especialmente do Harlem, e os ritmos eram inebriantes sem o estímulo adicional do álcool.” Era uma vida feita sob medida para uma jovem mulher que tinha escorre­ gado por entre as fendas das camadas sociais. Filha de um baronete, Dean Paul sofrerá a indignidade do divórcio de seus pais no início da adolescência. Aos 17 anos, disseram-lhe que sua mãe não tinha dinheiro para apresentá-la como uma debutante. Dean Paul decidiu ficar no estúdio da sua mãe e, com os contatos que fez ali, passou a fazer parte de um novo tipo de sociedade, aquela mistura de classes boêmia e alta e com os clubes menos favorecidos do bairro de St. James, em Londres, que atraía os Bright Young People, a cultura jovem mais visível da Grã-Bretanha na década de 1920. EM BUSCA DO PRAZER

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Para essas criaturas da mídia, a aparência, o charme e a graça eram tudo, e Dean Pául as tinha ao extremo. Com sua natural beleza e uma certa irresponsa­ bilidade, ela se tornou uma figura permanente nos jornais, um daqueles indivíduos cuja presença parecia definir o espírito de uma era. “Durante anos eu não ia para cama antes das quatro ou cinco horas da manhã”, ela mais tarde lembrou, e bus­ car o prazer frenético sem pensar no amanhã estava na moda. No redemoinho de uma festa bizarra, o tempo acelerava e parava, congelado como uma das muitas fotografias tiradas dos convivas em suas roupas fantásticas. *** Os Bright Young People foram apenas um exemplo da cultura jovem inclinada ao prazer que se espalhou por toda a Europa na década de 1920. Concentrandose na diversão e no momento, as festas eram um estilo de vida totalmente oposto ao da moral cristã do século XIX. Era também o modo ideal de sinalizar a fla­ grante e pública rejeição que a geração pós-guerra nutria pelos valores de seus ante­ passados. Idealismo tinha virado palavrão. Todos os grandes temas haviam se pulverizado com a Grande Guerra, e no lugar deles chegava um hedonismo im­ prudente e afoito. Assim como os americanos continuavam rotineiramente a fundir “infância” com “adolescência”, a exata definição de juventude na Grã-Bretanha e na Europa continuava elástica. A geração festeira da década de 1920 incluía adolescentes de verdade junto com gente de 25, quase 30 anos. Muitos, como Nancy Cunard e Harry Crosby, eram ricos o suficiente para não precisar trabalhar. Mas também haviam sido prejudicados com a guerra, a ponto de ficar congelados em 1917 e 1918, quando ainda eram adolescentes. Freqüentar festas era o modo perfeito de redescobrir a juventude que a guerra roubara. Juventude não era uma idade, mas um estado de espírito. As festas também se adequavam aos novos estilos que vinham se infiltrando através do Adantico. Para os jovens europeus, dançar o Charleston era uma no­ vidade excitante; personificava também a modernidade que eles perseguiam per­ sistentemente. Definido como um animal social e comercial, o jovem da década de 1920 decidiu celebrar a liberdade nos seus próprios termos. Em Adolescence, Stanley Hall observou o quão “selvagens são quase todos grandes dançarinos, imitando todos os animais que conhecem, dançando as suas próprias lendas, com rituais tão precisos que um erro significa morte”. Apesar da sua aparência super­ ficial, as festas nada mais eram do que o ritual de uma geração. Os países combatentes haviam exigido um nível sem precedentes de com­ promisso e sacrifício, e, depois de 1919, as pessoas começaram a insistir na re­ tribuição. Estruturas de classe antes rígidas começaram a se dissolver conforme 258 | 1919-1929

a antiga deferência morria. O início da década de 1920 viu o começo de uma sociedade de massa na Europa. Com o espectro de uma Alemanha desestabilizada e politicamente polarizada, a necessidade de oferecer um sistema social viável à Rússia soviética e à Itália fascista tornou-se de suma importância, e a América tinha o antídoto perfeito. As finanças americanas tinham custeado a guerra: agora sua mídia e cultura jovem dariam o tom da paz. Esse processo foi incentivado pela nova migração para o leste, conforme centenas de escritores, músicos e boêmios americanos atra­ vessavam o Atlântico. Isso foi particularmente visível em Paris, onde a vantajosa taxa de câmbio —um dólar comprava quase 27 francos, ou um mês de pão - sig­ nificava que era possível viver barato numa cultura solidária a experiências estéticas e sexuais. Com a bebida proibida em casa, jovens americanos expatriados festeja­ vam num prazer sem culpas. Eles iam a locais como Boeuf sur le Toit, onde Jean Cocteau tinha a sua corte. No início da década de 1920 havia um forte culto a Cocteau, com rapazes que vinham de todas as partes da França para conhecer o avatar da adolescência. Seu mais famoso protegido até aquela época era Raymond Radiguet, que, tendo cho­ cado Paris com o seu provocador primeiro romance, Com o diabo na carne, mor­ reu de tifo e envenenamento aos vinte anos de idade. Esta foi uma générationfichue, conforme o editor americano Robert McAlmon descobriu quando conheceu a modelo de moda Sari no Le Boeuf: aNão há graça em ter 16 anos , ela o informou com gravidade, “e saber demais sobre a vida.” Para aqueles que viviam sem restrições, Paris era uma festa, com eventos privados e acontecimentos anuais no calendário social como le Bal Nègre. O mais agitado de todas era o baile anual das Quatro Artes, encenado sempre no mês de junho pelos estudantes de arte da cidade. Um dos participantes do baile de 1927 lembrou-se de ter invadido o Claridges Hotel com uma multidão de jovens es­ tudantes: “Seminus, atravessamos os corredores aos gritos, entramos na sala de jantar puxando os hóspedes pelo nariz, roubando seus drinques, interrompendo a dança e até correndo para os quartos lá em cima para abrir as portas que não estivessem trancadas.” Realizadas todos os anos entre 1923 e 1929, essas bacanais eram irresistíveis. O poeta Harry Crosby, que residia em Paris para se livrar de um ambiente bostoniano repressor, deleitava-se com o caos. Para o baile de 1927, sua fantasia era sete pombos mortos e dez serpentes vivas num saco. “A uma hora estava UMA LOUCURA”, ele escreveu depois: “Homens e mulheres nus em pelo, gente que dançava correndo de uma lado para o outro... do nosso camarote eu abri o saco e dele caíram as dez serpentes. Gritos e berros. Mais tarde, naquela noite, eu me sentei ao lado de uma garota roliça que estava amamentando uma das serpentes. Meu Deus!” EM BUSCA DO PRAZER

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Depois da desastrosa desvalorização do marco em 1923, Berlim ficou ainda mais barata para os americanos, além de ser um ímã para outros migrantes. Sebastian HafFner lembrou que a capital alemã tornou-se uma “cidade interna­ cional”. Ele e seus amigos “não éramos apenas gentis com os estrangeiros, mas entusiasmados com eles. Como era muito mais interessante, como a vida ficava mais bela e rica porque o mundo não era povoado exclusivamente por alemães! Nossos hóspedes eram todos bem-vindos, viessem eles voluntariamente, como os americanos e os chineses, ou como refugiados, como os russos. Nossas portas estavam escancaradas”. Berlim era famosa como cidade cosmopolita, mas no início da década de 1920 ela era uma casa aberta para todos os tipos de pessoas em busca de prazer. Isto foi acelerado pelos acontecimentos de 1923, quando, como Haffner observou, a vertiginosa deflação do marco ajudou os jovens a criarem uma tomada de poder temporária: “Os jovens e rápidos de raciocínio se deram bem. Da noite para o dia eles estavam livres, ricos e independentes. Era uma situação em que a inércia mental e a confiança em experiências do passado eram punidas com fome e morte, mas a rapidez na avaliação de novas situações e na hora de reagir era recompensada com súbitas e vastas fortunas.” Haffner lembrou que “o diretor de banco com 21 anos de idade apareceu no cenário, e também o ex-aluno da sexta série que ganhava a vida com as dicas sobre a bolsa de valores de seus amigos ligeiramente mais velhos. Ele usava gra­ vatas no estilo de Oscar Wilde, organizava festas regadas a champanhe e susten­ tava o seu constrangido pai. Em meio a toda tristeza, desespero e pobreza, havia um ar de despreocupada jovialidade, licenciosidade e um clima carnavalesco. Agora, pelo menos, os jovens tinham dinheiro e os velhos, não. Além do mais, sua natureza havia mudado. Seu valor só durava umas poucas horas. Ele era gasto como nunca”. Embora esse “filme de Hollywood” se desvalorizasse com a estabilização do marco, o status de Berlim como a capital do entretenimento na Alemanha estava estabelecido. Assim como os restaurantes temáticos e os clubes de dança de jazz, havia enormes palácios do prazer como o Haus Vaterland, ocupando um quartei­ rão inteiro e com capacidade para acomodar 6 mil clientes por hora. No seu Rhineland WineTerrace, um calmo e ensolarado panorama do Reno era substituí­ do, de hora em hora, por uma violenta tempestade que durava cinco minutos. Este era o Yoshiwara, o narcótico auditório da Metropolis de Fritz Lang ressuscitado. Berlim era uma atração internacional por outra razão: era a capital mundial do sexo. Durante os anos 1920, ela oferecia cabarés íntimos, shows eróticos e bares para encontros rápidos como o famoso Resi. E havia os clubes sociais para lésbicas, os bailes de travestis, e os milhares de bordéis. A natureza aberta da vida noturna de Berlim e a prostituição masculina de adolescentes, os Doll Boys e os 260 | 1919-1929

Line Boys, perambulando por hotéis e galerias, fez dela um ímã para homosse­ xuais britânicos e americanos. A partir de 1923, jovens alemães afluíam em bando para a capital para andar naquilo que um ex-Line Boy chamou de “louco carrossel”. Esta ousadia era um sintoma, não de colapso, mas de estabilidade. Depois de 1924, Weimar era governada pelo seu ministro do exterior, Gustav Stresemann, que introduziu o que Haffner chamou de “o único período autêntico de paz que a minha geração na Alemanha experimentou”. O regime misturava socialismo com consumismo: “Havia ampla liberdade, paz e ordem, por toda a parte a men­ talidade liberal mais bem intencionada, bons salários, boa comida e um pouco de tédio político. Todos eram cordialmente convidados a se concentrarem em suas vidas pessoais, arrumar seus negócios segundo sua própria vontade.” Haffner fez 21 anos em 1928 e se lembrava desse período como mergulha­ do em “algo muito bom e auspicioso” que estava “silenciosamente amadurecendo entre os melhores da juventude alemã”. Este novo liberalismo caracterizava-se pelo rompimento das barreiras entre as classes: “Havia muitos estudantes que eram trabalhadores e muitos trabalhadores que eram estudantes. O preconceito de classe e a mentalidade do colarinho engomado estavam simplesmente fora de moda. As relações entre os sexos estavam mais livres e francas do que nunca.” Entretanto, ele achava que muitos alemães estavam mal equipados para lidar com a liberdade de Weimar. “Acostumado com todas as variadas sensações de desordem”, o país começou a seguir a liderança de seus jovens, prejudicados pela guerra e a revolução que haviam vivenciado na idade de formação. Criados dentro de um sistema autoritário, os alemães nunca aprenderam a viver com independência e estabilidade: “Eles consideravam o fim da tensão política e o retorno a uma liberdade privada não como um presente, mas como uma privação. Estavam entediados, suas mentes divagavam em pensamentos tolos, e começa­ ram a se aborrecer.” * * *

A Grã-Bretanha também foi transformada pelo alcance do consumismo ameri­ cano. Embora vitorioso, o Reino Unido estava atrelado a seu antigo aliado. O verdadeiro jogo de poder entre as duas nações foi posto às claras pela questão da devolução do empréstimo de guerra: os Estados Unidos tinham um crédito de 900 milhões de libras e, no início da década de 1920, insistiam num esquema usurário de devolução. O controle econômico estava entrelaçado com o imperia­ lismo cultural. Isto alimentava a hostilidade do sistema para com a América, que era vista por alguns críticos como responsável por ter deixado a Grã-Bretanha pior do que Roma nos dias da sua decadência. EM BUSCA DO PRAZER

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A era do materialismo tinha chegado. No início dos anos 1920, as tradicio­ nais indústrias manufatureiras de artigos pesados da Grã-Bretanha foram suplan­ tadas pela fabricação de artigos para lazer como carros, aparelhos de rádio, gra­ mofones, cosméticos e tecidos artificiais. Grandes segmentos do público estavam empregados em serviços de escritório, como guarda-livros e contabilidade, venda e publicidade - a última era uma indústria que popularizou com sucesso a psi­ cologia no montante de 100 milhões de libras circulando em 1921. No ano seguinte, a British Broadcasting Corporation - BBC - começou a oferecer um serviço de rádio nacional. Os filmes americanos dominavam o cinema, com ícones como Charlie Cha­ plin e Mary Pickford, enquanto o jazz e suas diversas danças —o passo do camelo, o shimmy e o blues —suplantavam o ragtime. Embora sem visar explicitamente a um mercado adolescente, os filmes e as músicas americanos foram adotados com entusiasmo pela juventude britânica, em todas as classes. Querendo novidade e diversão - e qualquer coisa que não fosse guerra-, os jovens sem querer atuavam como a ponta de lança do consumo de massa ao estilo americano, o seu código moral mais relaxado e o clima social mais descontraído, o que causava um impacto corrosivo nas hierarquias britânicas. Mulheres jovens estavam na vanguarda do novo modernismo. Este padrão americano foi acentuado por um fator demográfico brutal: com um em cada sete homens solteiros em idade para casar morto na guerra, havia um excedente de um milhão de mulheres. Casamento não era mais uma coisa automática. Visões de Suffragettes tinham se tornado realidade com a emancipação parcial concedida em 1918. As mulheres haviam conquistado uma independência maior com a sua contribuição para o esforço de guerra: isso foi ratificado por leis mais flexíveis re­ gulamentando o emprego e o divórcio, assim como por uma maior conscienti­ zação, graças às campanhas de Marie Stope, de métodos de controle de natalidade. Um vasto influxo de jovens mulheres descomprometidas de todas as classes invadiu as principais cidades. Aquelas por volta dos vinte anos de idade podiam encontrar empregos como jornalistas, balconistas, garçonetes ou secretárias. As meninas da classe operária que tradicionalmente ingressavam no serviço domés­ tico aos 14 anos começavam a rejeitar o que consideravam como um sistema de semiescravidão em favor de ‘qualquer tipo de emprego em oficinas e fábricas, ou até um lugar com salários mínimos como a Woolworth, e liberdade —acima de tudo, liberdade para se encontrarem facilmente com homens”. Essa “jovem emancipação” encontrou sua expressão mais flagrante nas novas melindrosas: “cheias de creme, perfumadas e empoadas como a atriz “imoral” de 1910, a filha pós-guerra do operário comum certamente brilhava na nova permissividade.” Modas como saias e cabelos curtos podem ter chocado os adultos, mas 262

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foi no surto “explosivo” de danças no pós-guerra que a profundidade da nova cultura jovem pôde ser plenamente experimentada, conforme a mania se espalhou de lugares londrinos como o Hammersmith Palais para todo o país. Em Salford, Robert Roberts lembrou que “jovens de 16 a 25 anos de idade afluíam aos salões de dança às centenas de milhares”, “alguns gingando* até seis vezes por semana. Um grande celeiro1 que freqüentávamos como aprendizes continha pelo menos uns mil. Quase todas as noites, exceto sexta-feira (dia de faxina em casa), ele ficava apinhado de rapazes e moças, sem segregação de classe pela primeira vez. Pagando seis pence (um xelim aos sábados), jovens de todos os níveis da classe de trabalhadores manuais, desde o aprendiz de encadernador até a escória da escória’, dançavam o foxtrote satisfeitos um nos braços do outro”. A maioria dos salões de baile aderia aos rígidos passos lançados em 1910 por Irene e Vernon Castle: entretanto, eles ainda aceitavam um nível sem prece­ dentes de contato pessoal. Os novos salões de baile eram construídos como des­ tacados mundos jovens, domos do prazer com luzes cintilantes e decoração exótica. Roberts lembrou que “no interior do nosso paraíso havia um leve ar mourisco, devido talvez ao papel de parede, com seus minaretes, e um estreito caramanchão pousado alto num ângulo de uma parede superior. Dali, uma excelente banda produzia ritmos quase sem cessar”. Ao mesmo tempo, assalariados mais jovens encontravam escoadouros para os seus trocados. Embora no início dos anos 1920 tivesse havido tentativas de limitar o que na época se chamou de “trabalho infantil”, os adolescentes das áreas mais pobres das cidades ainda tinham vários empregos temporários e aprendizados para escolher. Quanto mais velhos fossem esses “nômades industriais”, menos eles tendiam a dar a maior parte do que ganhavam aos seus pais, portanto, mais ou menos a partir dos 16 anos eles podiam gastar o seu dinheiro em novas revistas como Boys Cinema (lançada em 1919) ou Girl’s Cinema (1920). Enquanto os cinemas exibiam em suas telas filmes como Echo of Youth e Blindness ofYouth, essas revistas ofereciam uma ampla gama de material de interes­ se para seus jovens leitores. Em um exemplar de amostra de dezembro de 1920, a Boys Cinema tinha anúncios de um composto para frisar cabelos, um modelo de trem para montar, um gramofone, luvas de boxe e da sua publicação irmã, GirVs Cinema. A revista também incluía artigos de interesse geral, com conselhos para rapazes (entre os 17 anos e meio até os 25) sobre como conseguir uma car­ reira adequada, entremeados com fofocas e informações sobre as principais figuras femininas da época: Mabel Normand, “a popular e vistosa comediante do cinema” ou Colleen Moore, “uma elegante mocinha” de 18. A cultura americana era muito popular entre os jovens trabalhadores. Ela com­ binava com os novos valores a partir dos quais eles buscavam viver: mais igualdade EM BUSCA DO PRAZER

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de classes, menos controle dos pais, mais liberdade pessoal e sexual, mais mobi­ lidade. Conforme diminuía o respeito pelos adultos, havia mais adolescentes bebendo, mais jovens à toa pelas esquinas. Isto por sua vez alimentava temores quanto ao crime juvenil, tipificados pelo levantamento de Cyril Burt, em 1922, The Young Delinquent. Na página oposta à do título do livro havia uma fotogra­ fia icônica de “B.I. (IDADE 15 7/ 12)”, um retrato perfeito da insolência juvenil com seu cigarro pendurado entre os lábios e o olhar mal-humorado. * * *

O princípio de inclusão pelo consumo fun­ cionou na Grã-Bretanha durante o início da década de 1920 aliado às novas medidas que visavam a trazer a juventude pobre para den­ tro das instituições sociais. O aumento da es­ colaridade mínima para 14 anos, em 1918, foi acompanhado por um forte movimento po­ pular para criar espaços abertos para os jovens das áreas pobres. A prova estava nos números de crimes juvenis, conforme o número dos acusados em tribunais caiu 40% entre 1917 e 1924. Até a greve geral de 1926, não houve nenhum grave tumulto de trabalhadores, e isso expressou-se mais em termos marxistas do que juvenis. A modernidade que dava a muitos jovens da classe operária um certo grau de independência e que, na verdade, absorveu uma energia que poderia ter sido politicamente direcionada, tornou-se, para uma pequena mas claramente visível minoria dos privilegiados, uma sinalização de rebeldia. O hedonismo já havia sido elevado à ideologia, mas depois da indica­ ção de Sir William Joyson-Hicks em 1924, ele se tornou o secretário de negócios internos mais repressor do século. Sob a sua autoridade, o controle do prazer passou a ser uma cruzada do tipo Lei Seca. As festas passaram a ser politizadas. Nascido em 1865, Joyson-Hicks —ou Jix, como foi logo apelidado —veio daquela mesma geração que tinha enviado jovens britânicos para a morte. Quando declarou guerra ao sexo em geral, à homossexualidade em particular e à vida dos clubes londrinos, um segmento da juventude aceitou o desafio com gosto. A re­ tórica generacional dos poetas de guerra já fora assumida pelos jovens modernistas 264

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da Grã-Bretanha e, meses antes da publicação de “A terra desolada”, de T. S. Eliot, dois adolescentes de Eton, Harold Acton e Brian Howard, editaram uma revista com a intenção de anunciar uma revolução artística. Publicada em março de 1922, a Eton Candle continha trabalhos dos irmãos Sitwell, de Osbert e Sacheverell, assim como do jovem romancista Aldous Huxley. Harold Acton escreveu “A Note on Jean Arthur Rimbaud”, enquanto o poema de Brian Howard, “To The Young Writers ans Artists Killed in The War: 1914-18” criticava a “parcela de velhos malditos” que haviam assassinado “uma excelente Geração Jovem”: “Oh, nós lutaremos por nossos ideais - nós, que éramos jovens demais para ser assassinados por vocês... E nós não nos esquecemos de vocês.” Esses dois adolescentes anglo-americanos personificavam as ideias que haviam defendido.1Surpreendentes cada um a seu modo - Acton robusto e inescrutável, Howard esguio e com uma expressão ousada —, o par usava a elegância para pro­ clamar sua diferença. Acton foi responsável por diversas novas modas, inclusive as calças coloridas, muito largas e pregueadas, que ficaram conhecidas como Oxford Bags. Ele também ficou famoso por declamar poesias modernistas, como The Waste Land, num megafone. Acton e Howard eram o que se pode chamar de al­ guém que é de fora da estrutura, mas que está por dentro: educados com a elite, mas basicamente párias por nascimento e temperamento. O fato de serem ambos homossexuais numa sociedade que perseguia essa opção sexual dava à sua rebelião uma força extra: em vez de se ocultar, eles pre­ feriram a descarada exposição. O ar de “menino colegial” assumido pelas meninas da classe operária podia insinuar uma homossexualidade, mas aqui a coisa era real. Em outros tempos, a sua brutal afetação talvez tivesse passado despercebida, mas na década de 1920 ela chamou atenção. A matança havia dizimado a masculi­ nidade britânica: o rígido vigor físico e o cristianismo marcial do fim do século XIX não foram páreo para a realidade do bombardeamento em massa. As mulheres tinham ficado mais poderosas, não só porque eram mais nume­ rosas, mas também por causa do seu status de vanguarda no novo consumismo. Assumindo diferentes papéis, experimentando diferentes ideias e atitudes, Acton e Howard mostraram que os homens podiam escorregar direto para dentro deste etos maleável. Antes, os homens das escolas públicas haviam se preparado para a guerra ou para o serviço nas colônias. Na década de 1920, duas das figuras pósguerra mais influentes dessa classe preparavam-se para experiências artísticas e, no caso de Howard, para festas. 1 A mãe de Harold Acton era americana, o pai era inglês. Os pais de Brian Howard eram ambos americanos, vivendo no Reino Unido desde que ele nasceu. EM BUSCA DO PRAZER

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A nova masculinidade foi popularizada pela peça de Noêl Coward, The Vortex, escrita em 1924, que causou sensação ao explorar o uso excessivo de drogas.2 Mas este era apenas o gancho mais óbvio. Coward divertia-se com o status do seu principal personagem como um neurótico fixado na mãe, reconhecendo que estes eram os novos parâmetros da juventude. Dos vorticistas ao The vortex havia um abismo de sensibilidade e sexualidade: na década de 1920, o mais novo tipo de jovem não seria o agressivo futurista/pugilista, mas o andrógino Peter Pan de língua afiada e superestimulado. Isso funcionava nos dois sentidos. A rebelde feminina mais visível do início da década de 1920 foi outra anglo-americana, Nancy Cunard, filha única do então atual chefe da famosa família da marinha mercante. Nascida no finzinho do século XIX, Cunard tinha sido criada para uma vida de privilégios mas teve que assistir a ela desintegrando-se com a guerra. Depois de um desastroso casa­ mento, mergulhou numa perpétua busca de novidades, satisfações e vinganças contra a sua odiada mãe. Magérrima, graças a uma delicada constituição não melhorada pela “embriaguez incessante”, causou um impacto inesquecível em todos que a conheceram. Sua rebeldia era sustentada por um olhar firme, azul gélido, passos flutuantes e postura alerta. Embora não sendo atraente da forma convencional, ela apre­ sentava um novo e surpreendente tipo, com olhos enormes, cabelos bem curtos, cintura de vespa e, como Wyndham Lewis a retratou em 1922, roupas masculinas. Um de seus amantes, Aldous Huxley, pensava que ela tinha “a indiferença mas­ culina. Ela pode separar seu apetite do resto da sua alma”. Apesar do seu retrato como uma vamp corrosiva nos romances de Huxley, ela se caracterizava como “a perfeita estranha, exilada e banida das regras da vida”. A vida nos clubes de Londres que Cunard freqüentava começou a assumir uma importância não prevista quando se tornou a fonte de um novo estilo de juventude. Durante o início da década de 1920, os cabarés proliferavam na ca­ pital, fosse em locais no West End como o Café Royal e o Embassy, o Eiffel Tower no norte do Soho, o boêmio Ye Old Ham Bone no St. Jamess ou o famoso clube “43”, de Mrs. Meyrick, no Soho. Nestes clubes, a cultura que se originara nos tempos de guerra espalhou-se mais: essa mistura de boêmios, aristocratas, coristas/prostitutas e a transatlântica influência trazida por soldados canadenses e americanos. 2 Fiel à forma modernista, Coward vivia de acordo com a pior percepção que o público tinha dele, representando o papel do personagem principal numa seqüência de artigos escandalosos na imprensa. No Sketch, ele foi retra­ tado na cama “vestindo uma camisola chinesa e com uma expressão de avançada degeneração”. Como ele contou ao Evening Standard, “nunca estou fora de antros de ópio, antros de cocaína e de outros lugares infernais. Minha mente é uma mistura de corrupções”. 266 | 1919-1929

Michael Arlen observou o vazio subjacente a esse mundo no seu best-seller de 1924, The Green Hat, um roman à clefsobre o café society que oferecia um retrato de Cunard, como a personagem íris Storm, em sua essência. Apesar de todas as luzes fortes, os jovens festeiros “ignoravam tudo que não fosse eles mes­ mos, nos quais não estavam muito interessados”. “Entediada com o tédio”, esta geração do início dos anos 1920 submergia sua perplexidade em danças negras lentas, como os blues. “Ele tinha um ritmo como a batida de um coração agoni­ zante perdido numa artéria do submundo”, Arlen escreveu. “Você chorava a pre­ sença dos mortos. Você chorava a memória dos vivos.” Os freqüentadores dos clubes procuravam se soltar, mas, como Arlen observou com muita perspicácia, a busca de prazer era ao mesmo tempo uma religião secular e uma quimera. íris Storm fala apaixonadamente de “o-desejo-do-nãosei-o-quê. Eles o encontrarão um dia quando estivermos mortos e todas as coisas pelas quais vivemos hoje estiverem mortas. Eles o encontrarão quando tudo estiver morto, menos os sonhos para os quais não temos palavras. Não é choco­ late. Não é cigarro, não é cocaína, nem ópio, nem sexo. Não é comer, beber, voar, lutar, amar”. O maior dom da vida, ela conclui, “é a capacidade de sonhar uma vida melhor”. O fato de esses impulsos devoradores serem alimentados por bebidas e dro­ gas só aumentava a hostilidade das autoridades. No início dos anos 1920, algumas restrições de DORA tinham sido retiradas, e os freqüentadores de clubes podiam gozar de liberdades impensáveis na América. Entretanto, o escândalo que se se­ guiu à overdose de cocaína da corista Freda Kempton, em março de 1922, asso­ ciada à indicação de Jix, resultou numa grande punição. Isto não interrompeu a popularidade da vida noturna de Londres, e o secretário para assuntos internos ficou intrigado ao descobrir que, em vez de serem freqüentados por prostitutas e viciados em drogas, esses clubes estavam repletos de “sociedade”. As campanhas moralistas de Jix ajudaram a ampliar a atitude inquieta, irres­ ponsável, da geração mais jovem que estava começando a ingressar no mundo dos clubes londrinos. A primeira visão pública dos Bright Young People ocorreu em julho de 1924, quando o Daily Mail publicou uma reportagem com a man­ chete “Em busca de pistas, Jogo da nova sociedade, Caça à meia-noite em Lon­ dres, Cinqüenta carros motorizados, os Bright Young People”. Este pequeno grupo era liderado por um número de jovens mulheres das classes alta e média alta: especializando-se em se vestir bem, promover brincadeiras e realizar anár­ quicas caças ao tesouro, ele representava “um movimento que havia capturado toda a Londres elegante”. Estas atividades aparentemente triviais mascaravam a profunda mudança social que, segundo Brenda Dean Paul, poderia ser atribuída à “taxação, à recémencontrada liberdade das mulheres e ao relaxamento social em geral. Uma nova EM BUSCA DO PRAZER

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classe ou ramo da sociedade inglesa havia nascido, havia brotado da convulsão dos tempos de guerra, os ‘Novos Pobres’”. Sua geração “não estava disposta a se conformar com bailes privados estereotipados e outras inovações sociais formais, e gradualmente se libertou, formando pequenos grupos ou ‘coteries que ficaram conhecidas pela imprensa como os jovens animados”’. Dean Paul citou o maciço excedente de mulheres jovens como uma das razões para que o antigo mundo formal de debutantes, bailes privados e acom­ panhantes tivesse ruído com o surgimento de “um novo tipo de anfitrião e an­ fitriã”. Entre eles estava Alec Waugh, autor de Loom ofYouth, a quem se credita ter inventado as festas de coquetel, ou DavidTennant que, em 1925, inaugurou uma das casas noturnas de maior duração no Soho, a desafiadoramente modernis­ ta Gargoyle. Segundo concluiu Dean Paul: “Uma nova camaradagem de jovens surgiu, uma independência, uma igualdade, que deu origem a um novo código de condutas sociais.” A bebida foi o principal desintegrador de fronteiras entre as classes e, como Evelyn Waugh registrou exaustivamente em seus diários, dos usuais limites de com­ portamento civilizado. Uma festa não era uma festa se não fosse uma orgia. Em setembro de 1926, por exemplo, ele foi a um evento oferecido por algumas lés­ bicas conhecidas suas: “Lulu Waters-Welch veio. Ele está vivendo em pecado com Effingham. Brian 0 ’Brien veio; também o líder do sindicato. Alistair e eu ficamos muito bêbados mesmo. Acho que fui rude com Bobbie. Dois homens brigaram. Também havia uma policial que assustou todo mundo e deixou Joan muito irritada.” Faltava a esta geração mais jovem a angústia de seus antepassados dos tempos de guerra, e o jazz proporcionava a trilha sonora perfeita para sua estridente exu­ berância. O americanismo estava por toda a parte. ‘“Rhapsody in Blue, de George Gershwin, acompanhava todas as brincadeiras no sofá”, Harold Acton lembrou: “Parecia conter toda a intoxicação em negro e cromo dos bares de coquetel.” Eve­ lyn Waugh registrou uma visita a The Blackbirds e um ator americano “mons­ truoso” que “andava com pacotinhos de pó dentifrício que ele dizia ser heroína e que todo mundo tomava”. Mudanças na mídia britânica fizeram com que esse pequeno grupo tivesse uma proeminência desproporcional na imprensa. Nos meados dos anos 1920, os jornais nacionais estavam criando um novo tipo de artigo: a coluna de fofo­ cas assinada. O primeiro diarista a assinar o seu nome foi um membro do reino, lorde Casderosse, e ele foi rapidamente seguido por colunistas como Tom Driberg, Charles Graves e Evelyn Waugh. Esse era um mundo novo, consciente: os rapazes iam a festas com seus amigos e escreviam sobre ambos. Por sua vez, a publicidade incentivaria a emulação. Isso não acontecia sem as críticas dos adultos. 268 | 1919-1929

O estilo dos Bright Young People era uma fusão de modernidade e antipatia edipiana organizada em torno do que parecia um prazer sem sentido. Muitos dos principais jovens animados relacionavam-se mal com seus pais. Evelyn Waugh havia produzido uma memorável xilogravura intitulada That Grim Act Parricide, retratando um rapaz apontando um revólver para a garganta do pai idoso. Brian Howard recusou-se a falar com o pai depois de 1928, enquanto Nancy Cunnard provocou um escândalo em 1930 ao publicar um panfleto tornando pública sua discussão com a mãe. Beverley Nichols tentou assassinar seu pai em 1929. A rebelião das antigas fortunas e a nova burguesia eram ainda mais chocan­ tes porque vinham daquela mesma classe que havia liderado o ataque e que so­ frerá na mesma medida. No que dizia respeito ao sistema, transformar os irmãos mais jovens dos heróis de guerra em vamps ou em coisa pior era procriar uma geração de traidores. Ao mesmo tempo em que as colunas de fofocas trombetea­ vam caças ao tesouro, as páginas de editorial publicavam denúncias irritadas con­ tra a juventude moderna, como o ataque, em 1925, do Daily Express, ao “Irmão da garota moderna”, esse “cãozinho de estimação de casaco de seda”. Num grau considerável, entretanto, isso reforçava o privilégio tradicional. Jovens trabalhadores tinham seus próprios prazeres nos grandes salões de baile que haviam surgido no país inteiro, mas eles não eram percebidos pela imprensa ou considerados elegantes. A emancipação não tinha ido tão longe. Se os Bright Young People começaram com alguma ideologia, foi a atitude hedonista e amoral captu­ rada pelo famoso versinho de pé-quebrado de James Laver: “Apesar de Mr. Joynson Hicks / Somos gente do pós-guerra / Somos garotas de 1926.” Entretanto, os acontecimentos daquele ano mostraram que elas eram essencialmente tradicionais. Os Bright Young People poderiam muito bem estar associados a verdureiros ambulantes, tagarelando uns com os outros em cockney como parte do seu reper­ tório e posando com operários no caminho de casa ao sair de uma de suas festas à fantasia, mas, quando a situação era precária, eles seguiam os imperativos da sua classe. Durante a greve geral de 1926, muitos desses freqüentadores de feiras entraram na briga apoiando o governo como fura-greves, mantendo em funcio­ namento os serviços essenciais. Quando a greve terminou em meados de maio, o movimento trabalhista ficou com o coração esfrangalhado por uma geração. Sua verdadeira contribuição foi insignificante mas, como vitoriosos contrarrevolucionários, os Bright Young People espalharam seu estilo mais amplamente pela juventude burguesa: como o comentarista Beverley Nichols lembrou, depois de 1926, “Oxford foi tomada por uma alegria ética. Havia um sentimento de après moi le délugê\ As festas ficaram mais selvagens: como um diarista da Vogue comentou em 1927: “Em Hampden House havia mais ruge para os lábios como eu nunca tinha visto antes. Lorde Portarlington e seu filho, lorde Carlow, pare­ EM BUSCA DO PRAZER

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ciam-se, respectivamente, com uma mãe vitoriana e sua filha debutante; estavam asfixiados por isso.” O ano de 1927 foi o auge do verão dos Bright Young People, e a sua mais recente estrela contribuiu com a sua parcela de ultrajes. O mais novo herdeiro de uma fortuna de Glasgow, Stephen Tennant, estava por toda parte no ano em que completou 21 anos: nas colunas de fofocas vestido de “Rainha da Romênia”, ou coberto de “trapos verdes” numa “personificação de mendigos”. Posando para Cecil Beaton, ele simbolizava a última palavra em modernidade com seu casaco de borracha e uma aparência no estilo das atrizes americanas que tanto admirava - cabelos frisados, brilho nos lábios e maquiagem no rosto. Tennant fez de tudo para ficar à altura da sua reputação. Na primavera de 1928, ele e Brenda Dean Paul foram coanfitriões de uma festa no Gargoyle para o casamento do seu irmão David Tennant. Com uma lista de convidados da qual constavam Brian Howard, Harold Acton e os Sitwells, ele roubou o espetá­ culo chegando “numa berlinda elétrica do período eduardiano”. No mês seguinte, David Tennant deu uma festa do pijama na qual esteve presente J. M. Barrie: Ste­ phen escreveu “cetim branco, mas trocado no meio do caminho por verde”; em junho, ele foi visto no Chelsea Arts Bali “em trapos fantásticos de chifon e ve­ ludo, mostrando o esquema Picasso de cores”. O problema com o ultraje, entretanto, é que ele precisa ser trombeteado sem­ pre. Os Bright Young People começaram a se chocar com a lei dos rendimentos decrescentes. O que tinha começado espontaneamente tornou-se constrangedor em vez de alegre. Brenda Dean Paul pensava que o movimento “morria de duas causas, publicidade e septicemia social’. “As festas eram cada vez mais freqüentes, cada vez mais sem originalidade e diversão”, ela lembrou, “até se tornarem imensas orgias de embriaguez, freqüentadas por uns poucos jovens animados pioneiros e desmoralizados, de olhos turvos, muito cansados, por demais envolvidos para se afastarem dali”. O prazer já não era suficiente. “Estou enojado de Londres e das festas de Lon­ dres”, Brian Howard declarou, “que continuam exatamente as mesmas de cinco anos atrás. Em Londres NADA muda.” Seu amigo Allanah Harper lembrou estes tumultos como “um inferno de Jerome Bosch”: “A última festa a que fui com Brian”, ele lembrou, “resultou na minha roupa praticamente arrancada do corpo e tufos dos meus cabelos erguidos no ar como troféus.” Como Norah C. James escreveu no seu romance proibido, Sleeveless Errand, “a multidão se reunia por puro tédio. Eles fogem de si mesmos para isto. Nós nos detestamos mutuamente, mas não podemos ficar longe uns dos outros”. * * *

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Como os colegiais americanos, os Bright Young People alimentavam a nova ob­ sessão da mídia com a juventude. Foram a primeira tendência cultural de jovens britânicos a se definir em termos de aspiração, ao proclamar a aplicação da ado­ lescência como um ideal além da biologia. No fim da década de 1920, os anún­ cios e os jornais estavam promovendo a “Inocência infantil aos quarenta anos de idade ou discutindo os conflitos entre as gerações da guerra e do pós-guerra. “Não há nada que os grandes negociantes não vejam em termos de £.s.d”, Wyndham Lewis observou. “E ele olhou para a ‘Juventude’ e não a achou linda, mas lucrativa.” Ao contrário de seus correspondentes americanos, os Bright Young People não eram cinderelas, não eram exemplos de inclusão social. Suas estripulias não eram apenas mais uma amostra da licença tradicionalmente concedida à juven­ tude dourada. Se os jovens da classe operária tivessem causado tantos distúrbios, logo teriam sido presos. Até os colunistas de fofocas observaram a “condescendên­ cia” com figuras importantes como Stephen Tennant. E, apesar de estar ali para serem copiados, eles também atraíam hostilidade, sendo importunados e escarne­ cidos pelo público ao chegar fantasiados em mais outro baile. Desconectados da sociedade, os Bright Young People tiveram, no final da década, pouca coisa a mostrar com as suas festas. Sua dissolução foi cuidadosa­ mente mapeada. Veja a nossa geração”, Norah C. James indagou. “E a próxima; por próxima quero dizer pessoas que nasceram pouco antes ou durante a guerra. Elas não lhes parecem irremediavelmente desnorteadas?” Evelyn Waugh achava que a geração dos anos 1920 tinha tido “uma chance depois da guerra que ne­ nhuma geração jamais teve. Havia toda uma civilização para ser salva e refeita — e eles só pareciam estar bancando os tolos.” Esta dura avaliação foi instigada pela rajada de livros e peças que vieram à tona no fim da década, conforme a geração dos anos de 1890 finalmente encon­ trava a sua voz. Muitas destas obras tinham um tom amargo, catártico: Journeys End, de R. C. Sherriff; Death of a Hero, de Richard Aldington; A Subaltems War, de Charles Carrington; Goodbye toAll That, de Robert Grave; Nada de novo no front, de Erich Maria Remarque. Estas memórias coincidiram com o esgota­ mento dos Bright Young People por um acaso, mas as comparações não ofereciam nenhum consolo. O corolário da alienação dos veteranos em relação ao presente foi a celebra­ ção dos anos do pós-guerra como uma era dourada, uma arcádia de inocência, uma época de verões perfeitos e juventude ainda não destruída. A geração da dé­ cada de 1890 retratava-se como triplamente perdida: se a vida antes da guerra pa­ recia tão distante quanto um conto de fadas, então a sua experiência durante a guerra permanecia tão vivida como nunca. Por sua vez, o frenesi materialista da EM BUSCA DO PRAZER

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década de 1920 não oferecia nada além de desilusão. Este tropo influente, en­ tretanto, baseava-se na realidade: à ausência de camaradas mortos na guerra somava-se a abdicação da vida pública pelos sobreviventes. Estivessem escondendo-se ou festejando como adolescentes dez anos mais jovens, eles se sentiam perdidos. “Somos supérfluos para nós mesmos , Remarque admitiu; “vamos envelhecer, uns poucos se adaptarão, outros farão ajustes, e muitos de nós não saberão o que fazer.” A necessidade de tranqüilidade e abrigo dos veteranos também criou um vácuo que, por sua vez, explicava a inquietude dos festeiros do pós-guerra, a quem faltava qualquer compromisso expressivo com aqueles imediatamente mais velhos do que eles. O desvairado hedonismo havia fracassado em erradicar a sombra da guerra: no mínimo, tinha se tornado mais profundo e mais sombrio. Alguns veteranos foram altamente críticos a respeito da geração da década de 1920. No fim de 1929, um ex-voluntário da Freikorps chamado Hans Zehrer argumentou na influente revista alemã de direita Die Tat que sua “jovem geração” de veteranos de guerra compreendia duas ondas. A primeira havia se queimado em dissipação, mas a segunda - que vivera tranquilamente e ganhara experiência do mundo - estava agora a postos para revolucionar a Alemanha. Zehrer concluiu que a Alemanha seria reconstruída por estes “homens do froni\ não por aqueles americanizados de vinte e poucos anos com seu “comportamento apalhaçado”. Essas comparações revelavam uma irada reaçao contra a cultura jovem dos anos 1920 que seus adeptos absortos em si mesmos pouco podiam fazer para enfrentar. O ajuste de contas havia chegado e os encontrara esperando. O proble­ ma para esses eternos adolescentes era que eles não queriam nunca crescer, por­ que crescer significava que eles se tornariam o pai odiado. O fim da guerra fora uma ruptura tão decisiva que representara uma espécie de tábula rasa permitindo aos movimentos juvenis da década de 1920 pensarem que poderiam construir um mundo totalmente distinto do dos adultos. No seu romance de 1920, Les enfants terribles, Jean Cocteau ofereceu a me­ táfora perfeita para essa desconexão, fazendo do quarto de dormir um santuário adolescente arquetípico dos órfãos Paul e Elizabeth: “O chão estava coberto de caixas vazias, com toalhas e várias peças de roupas íntimas. Cada espaço disponível na parede tinha alfinetes prendendo folhas de jornal, páginas rasgadas de revistas, programas, fotografias de astros de cinema, assassinos, lutadores de boxe.” Encasulados dentro dessa célula, Paul e Elizabeth encenam “a lenda da eterna juven­ tude” até sua morte prematura com um tiro de revólver e overdose de ópió. Os correspondentes do par na vida real foram Jean e Jeanne Bourgoint, que estavam seguindo o mesmo caminho de Raymond Radiguet: indo para o túmulo antes da hora. Convertendo o par em Paul e Elizabeth, Cocteau observou como a exploração íntima da adolescência, sem o controle dos adultos, está condenada 272 | 1919-1929

ao fracasso, pois “olhar para dentro exige autodisciplina, e isto eles não tinham. A escuridão primordial - fantasmas de sentimentos - foi tudo o que eles encon­ traram.” Partindo de uma experiência amarga, Cocteau compreendeu a contracorrente sedutora, autodestrutiva, do culto excessivo à juventude: o efeito deformador da infância prolongada, a atração romântica da morte, a incapacidade de fazer a transição para a idade adulta. Les enfants terribles foi uma parábola de advertência que também encorajava a emulação de seus entusiasmados leitores jovens. Apesar de estar condenados, Paul e Elizabeth eram também magnéticos: “Espíritos de­ licados como a superfície dos cardos, trágicos, de partir o coração em sua evanescência, eles seguem flutuando para a perdição. E, no entanto, tudo começou inocentemente, em jogos e risos infantis.” Por volta de 1929, muitos líderes da cultura jovem hedonista tiveram mortes prematuras. Bebidas e drogas foram responsáveis: ambas tinham sido usadas em excesso numa tentativa de eternizar as festas, congelar a parábola para sempre no seu zênite. Venenos ilegais acabaram com muitos jovens americanos, mais notadamente o astro cornetista Bix Beiderbecke, enquanto o vício da heroína transformou Brenda Dean Paul na drogada mais famosa da Grã-Bretanha. Jeanne Bourgoint morreu de uma overdose de barbitúricos em dezembro de 1929, en­ quanto muitos outros, como Scott Fitzgerald e Brian Howard, iniciaram uma eterna batalha contra o alcoolismo. Ainda mais dramático foi o destino daqueles que não podiam mais acom­ panhar a constante aceleração. Sejam de Brenda Dean Paul, Jean Cocteau, Scott Fitzgerald, Michael Arlen ou Evelyn Waugh, quase todos os principais livros sobre jovens do período incluem desastrosos acidentes de carro. Se a destruição não era física, era mental. Como a Agatha Runcible de Waugh, Zelda Fitzgerald terminou a década num sanatório, seu sistema nervoso engasgado numa marcha forçada. Talvez o tombo mais dramático tenha sido o de Harry Crosby, que mor­ reu com sua amante num duplo pacto de suicídio em dezembro de 1929. Naquela época, a cultura das festas havia sido superada pelos acontecimentos. A queda do mercado americano de ações em outubro de 1929 foi uma conclusão lógica da especulação maciça inspirada pelo governo. Uma febril valorização tor­ nou-se um vértice negativo que começou a atrair a América e a Europa para suas próprias garras implacáveis. Entretanto, o mundo ocidental não mudou da noite para o dia. Levou tempo para a economia causar impacto no dia a dia e, como não havia precedentes para a Depressão, não havia expectativas de que ela fosse ocorrer. Conforme a escritora britânica Ethel Mannin observou, “o espírito dos anos 1920 continuou até o início dos 1930”. A base econômica da sociedade de massa americana tinha sido muito abalada, mas continuava potente. Na última das grandes distopias da era, Admirável mundo EM BUSCA DO PRAZER

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novo, Aldous Huxley imaginava um pesadelo futuro dependendo da sedução e do determinismo biológico e não da coerção brutal. Huxley pensava que o capita­ lismo no estilo americano prevaleceria, no mínimo porque explorava os gatilhos psicológicos inerentes em todos os seres humanos. Assim como Bernays havia sugerido, o punho de ferro do controle social total estava revestido com a luva de veludo do prazer. O capitalismo, entretanto, permaneceria em estado latente durante os próxi­ mos anos, enquanto os piores efeitos da queda eram sentidos: fascismo e comunis­ mo viriam correndo preencher o vazio. Depois da morte de Gustav Stresemann, em outubro de 1929, a primeira arena nesta batalha seria uma Alemanha cada vez mais desestabilizada. A juventude americanizada do país tinha sido desmasca­ rada como “os meninos de recados de uma era moribunda”, e o palco ficou aberto para grupos de jovens pagãos e radicais políticos - os vários tipos de Bunde e*Wandervogel a quem nunca agradaram o modernismo em geral e a República de Weimar em particular. Fossem os estudantes universitários americanos, os Bright Young People ou o Woodcraft Folk, todos os movimentos juvenis da década de 1920 tinham sido bem-sucedidos ao criar seus próprios mundos. Com isso, haviam lembrado a indústrias, governos e ideólogos que a juventude era uma força social importante demais para ser deixada por sua própria conta. Com osfasciti italianos, a juventu­ de já havia sido utilizada como a vanguarda de um novo tipo de política nacional. Tendo demonstrado sua capacidade para determinar o futuro de nações, a juven­ tude se tornaria cada vez mais politizada no futuro.

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FARTE V

1930-1939

CAPÍTULO

18

Os soldados de uma ideia

A Juventude Hitlerista *** Com nossos estandartes hasteados, venha a nós Juventude do Operariado Alemão, lutem conosco contra o velho sistema, contra a antiga ordem, contra a velha geração. Nós somos os últimos combatentes pela independência, lutem conosco pelo socialismo, pela liberdade e por pão! - Folheto emitido pela divisão Kiel da Juventude Hitlerista, verão de 1932

ADO LF HITLER INSPECION AN DO UMA FORMAÇÃO DA JUVENTUDE HITLERISTA EM NUREMBERG, ALEMANHA, EM 1938, C O M RUDOLF HESS (DE GRAVATA) E 0 LÍDER DA JUVENTUDE HITLERISTA, BALDUR VO N SCHIRACH (À DIREITA DE HESS)

N O D IA 30 DE JA N EIR O DE 1933, uma menina alemã chamada Melita Maschmann foi com os pais assistir a um desfile à luz de archotes que marcou a in­ dicação de Adolf Hitler para chanceler do Reich. A “sinistra sensação” daquela noite em Berlim ficaria com ela para o resto dos seus dias: “As passadas com os pés batendo no chão, a sombria pompa das bandeiras vermelhas e pretas, a luz bruxuleante dos archotes nos rostos e as canções com melodia que eram ao mes­ mo tempo agressivas e sentimentais. Durante horas as colunas passaram em mar­ cha. Repetidas vezes, víamos entre elas grupos de meninas e meninos pouco mais velhos do que nós mesmos.” Escrevendo trinta anos depois, Melita Maschmann lembrou-se de si mesma aos 15 anos de idade como buscando um “propósito fundamental”: “Naquela idade, a gente vê uma vida de deveres escolares, passeios com a família e convites para aniversários deploravelmente vazia de significado. Não se dá crédito a nin­ guém por estar interessado em mais do que essas ridículas trivialidades. Ninguém diz: ‘Você é necessário para algo mais importante; venha!’ Quando se trata de assuntos sérios, a gente nem conta. Mas os meninos e meninas das colunas em marcha contavam. Como os adultos, eles carregavam estandartes onde estavam escritos os nomes dos seus mortos.” Melita fora criada para reverenciar os mortos pela guerra e amar a Alemanha como algo misteriosamente ameaçado pela tristeza, algo infinitamente querido e em perigo”, e os nacional-socialistas estavam “em harmonia” com este espírito. Ela tambem foi atraída pela inclusão do povo”, personificado pela costureira corcunda da família: Pois, desde que a conheci, ela usava uma suástica de metal em relevo sob a lapela do seu casaco. Naquele dia ela a usava abertamente pela primeira vez e seus olhos escuros brilhavam ao falar da vitória de Hider. Minha mae não gostou. Ela achava muita pretensão pessoas pouco instruídas se preocu­ parem com política. Mas era exatamente por ser uma pessoa do povo que essa mu­ lher me atraía. Eu me sentia atraída por ela pela mesma razão que, no íntimo, frequentemente eu tomava o partido das criadas contra a minha mãe. Percebo agora que meu antagonismo a todas as manifestações de esnobismo burguês, que adquiri cedo na vida, era alimentado por uma reação contra a minha educação autoritária.” A mãe de Melita “esperava de seus filhos a mesma inquestionável obediência que exigia das criadas ou do motorista do meu pai. Esta atitude me levou a uma rebeldia que ia além da rebelião puramente pessoal da adolescência e era direcio­ nada contra os valores burgueses que meus pais representavam”. O fato de seus pais assistirem a este desfile com “uma rajada gélida” de reserva só duplicou seu desejo de seguir um caminho diferente daquele conservador prescrito para mim pela tradição familiar”.

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Entretanto, essas razões reconhecidas abertamente empalideciam diante das avassaladoras emoções evocadas pelo evento. “Eu queria me atirar naquela cor­ rente, submergir nela e ser transportada junto com ela”, Melita lembrou mais tarde. “‘Pela bandeira estávamos prontos para morrer’, os portadores dos archotes tinham cantado. Não era uma questão de roupas, alimento ou redações escola­ res, mas de vida e morte. Para quem? Para mim também? Não sei se me fiz esta pergunta naquele momento, mas sei que fu.i tomada por um ardente desejo de pertencer a esse povo para quem isso era uma questão de vida e morte.” Essa era exatamente a reação que Hitler desejava. Como os fascisti de Mussolini, os nazistas subiram ao poder evocando uma abstração de juventude como um agente ativo de mudança e realmente mobilizando os jovens por meio da mística de conflito, ação e pertencimento. Grandes montagens como o desfile de 30 de janeiro eram destinadas a influenciar as emoções de jovens descontentes como Melita Maschmann: “Eu queria escapar da minha estreita vida infantil e me apegar a algo que fosse grande e fundamental. Este anseio eu compartilhava com inúmeros outros contemporâneos meus.” No fim de 1933, quase 3,5 milhões de jovens alemães ingressariam na Ju­ ventude Hitlerista. Isto em parte devido ao sistema de coerção montado pelo novo regime, mas os nazistas também aproveitaram “o antagonismo entre as gerações”. O ingresso na Juventude Hitlerista dava aos adolescentes sem objetivo da Alema­ nha um propósito na vida e poder contra seus pais, que estavam, provavelmente, identificados com a desprezada República de Weimar. Como o líder da Juventude Hitlerista Baldur von Schirach afirmou: “De um ponto de vista nacional-socialista, o jovem está sempre certo.” Pois a juventude estava na essência da visão revolucionaria dos nacional-socialistas. Em uma entrevista, em janeiro de 1933, o novo governante da Alemanha expôs seus planos para o futuro: “Estou começando com os jovens. Nós que so­ mos mais velhos estamos desgastados. Estamos apodrecidos até a medula. Não nos resta nenhum instinto incontrolável. Somos covardes e sentimentais. Estamos carregando o peso de um passado humilhante e temos no nosso sangue o melan­ cólico reflexo da servidão e da subserviência. Mas os meus magníficos jovens! Exis­ tem melhores em algum outro lugar do mundo? Vejam estes rapazes e meninos! Que material! Com eles eu posso construir um novo mundo.” *** O craque de 1929 acelerou a chegada da sociedade de massa no norte da Europa. Os defensores do capitalismo haviam trombeteado a capacidade da produção em massa de mudar “toda a ordem social , mas deixaram de prever o seu inverso. Quando funcionava, tudo estava ótimo: os salários eram mais altos, os preços OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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mais baixos, os padrões de vida em massa subiam. Mas, quando as coisas não funcionavam, as conseqüências eram desastrosas. Conforme cresciam as filas de desempregados durante o ano de 1931, ficou evidente que o prejuízo era sistêmico. Dali por diante, a inclusão em massa iniciada pela explosão da década de 1920 seria conduzida pela política. O fato mais importante na “vida pública na Europa” no início da década de 1930 foi, como José Ortega y Gasset observou no seu polêmico A rebelião das massas, a ascensao das massas ao total poder social”. Entretanto, esta nova era tinha o seu próprio impulso totalitário: “Como dizem nos Estados Unidos, ser diferente é ser indecente. A massa esmaga tudo que é diferente, tudo que é ex­ celente, individual, qualificado e seleto. Qualquer um que não seja todo mundo, que não pense como todo mundo, corre o risco de ser eliminado.” Como as distopias para as quais a década anterior havia alertado, os anos 1930 exaltariam o indivíduo que se submetesse à massa. Eu não era mais eu, mas apenas um entre milhões: o ideal da Juventude Hiderista, como Baldur von Schirach afirmou em 1934, era o soldado individual de uma ideia”. Embora o povo parecesse estar dominando a política na Europa, as verdadeiras alavancas do po­ der continuavam nas mãos de uma elite, que começava a usar os princípios da propaganda desenvolvidos durante a década de 1920 para dar um brilho populista a autocracia. Ao mesmo tempo, os métodos de controle social desenvolvidos nos anos 1920 continuaram num nível constante. Apesar do descredito do capitalismo americano, o consumismo continuava sendo extremamente útil para regimes de todos os matizes: ajudando a acalmar inquietações maiores nas democracias ocidentais, adoçando a pílula de terror nos Estados totalitarios. Mas sob a ilusão de poder das massas jazia a subjugação das massas, com os concomitantes efeitos psicológicos de infantilismo, raiva e violência. Na verdade, muitos acontecimentos da década exemplificariam a mal­ dição de Gustave Le Bon: A multidão é um rebanho servil incapaz de viver sem um mestre.” A política passou a ser a nova religião de massa e a polarização, â sua comu­ nhão. A luta entre comunismo e fascismo tornou-se a “luta entre as forças do bem contra as forças do mal no mundo. Pensamentos em branco e preto vêm facilmente à mente adolescente, não corrompida pela morte, pela idade ou por compromissos, e na verdade oferecem a certeza bem-vinda do impulso religioso. Em muitos relatos contemporâneos e histórias de jovens na década de 1930 da Alemanha, Grã-Bretanha, França - e até da América todos faziam a mesma pergunta: de que lado você está? Os membros mais visíveis da geração da década de 1920 tinham sido céti­ cos, movidos pelo prazer e materialistas. Em contraste, aqueles que atingiram a maioridade na década de 1930 foram mobilizados por uma agenda massacrante: 280 | 1930-1939

derrubar o capitalismo. Entretanto, estes impulsos juvenis teriam sérios e perma­ nentes efeitos: conforme utopias contrastantes tornavam-se ideologias nacionais, os riscos eram maiores e impiedosamente impostos. As grandiosas ideias anteriores a 1914, tao desacreditadas pela Grande Guerra, retornavam, vingativas. Fosse de esquerda ou de extrema direita, a política tinha uma qualidade mís­ tica no início da década de 1930, exigindo a submersão do ego individual no ideal coletivo: o sacrifício descrito pelo poeta Louis MacNeice como “realização pessoal pela abnegação do eu”. Este impulso sincero e idealista, entretanto, seria canalizado para as duas ideologias totalitárias opostas da era. A ironia era que estes inimigos mortais teriam a mesma crença fundamental: nós queremos a mesma coisa... um novo sistema. Em nenhum país europeu estas escolhas foram mais severas do que na Alema­ nha. Com a economia em queda livre e o desemprego crescendo, o governo de Weimar estava arrasado. O ressentimento público encontrou sua expressão nas eleições para o Reichstag em setembro de 1930, onde os social-democratas go­ vernantes foram superados em número pelos comunistas e nacional-socialistas. Esta eleição anunciou a chegada dos nazistas como um partido político sério e deu legitimidade ao que tinha sido anteriormente considerado como pouco mais do que um grupo terrorista marginal. Antes do craque, as tentativas dos nacional-socialistas de organizar a geração mais jovem não haviam tido muito êxito. Instituída nos meados dos anos 1920, a Juventude Hitlerista não tinha se integrado com o Bunde predominante: eram pouco mais do que pugilistas de rua. Depois da indicação de Baldur von Schirach para líder em 1928, a Juventude Hiderista atraiu a classe média recém-empobrecida. Ela se tornou uma organização paramilitar dedicada a conquistar o apoio pú­ blico com amplos desfiles pelas grandes cidades, com a violência suscitada por esses acontecimentos oferecendo um grande incentivo para os jovens e os inquietos. O fracasso do capitalismo tinha deixado o palco livre para seus rivais no tea­ tro do controle de massa. Dirigidos por Moscou, os comunistas alemães visavam a nada menos do que uma declaração óbvia de intenções com o capitalismo. No outro polo, os nacional-socialistas estavam fortemente influenciados pelo governo fascista de Mussolini que já durava uma década.1“A camisa marrom provavelmen­ te não teria existido sem a camisa negra”, Hitler afirmou em 1932, e ele copiou muita coisa dos fascisti: a construção do Estado com um só partido, os uniformes codificados por cores militaristas, a simultânea arregimentação da juventude. 1 Mussolini havia prestado juramento como o primeiro-ministro mais jovem da Itália em outubro de 1922, aos 39 anos de idade. OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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Combinando xenofobia e misticismo racial com o poder hipnótico da mídia de massa, o líder do partido, Adolph Hider, começou a sua campanha para con­ quistar a geração mais jovem da Alemanha. Depois da eleição de 1930, o pro­ grama de envolvimento nacionalista dos nacional-socialistas, embalado como um movimento de massa quase religioso, oferecia o compromisso em oposição à alienação. Os suicídios entre os jovens estudantes secundários continuavam sendo um problema nacional como tinham sido na década de 1890, e o apelo do par­ tido para a ação direta atraía um grande segmento da juventude alemã que se mostrava hostil à democracia e entediado com a falta de esperança. Diante dessa polarização, os pretensos líderes do movimento juvenil tentaram em vão estabelecer um contrapeso democrático ou centrista. O maior de todos os Bunde independentes, o Deutsche Freischar, falhou em criar um partido de centro forte nas eleições de 1930. Além das organizações políticas de partido de ex­ trema esquerda e direita, havia muitos grupos paramilitares que, em sua confiança na disciplina militar, na teoria võlkische e na retórica contrária a Weimar, tendiam para a direita do espectro, como por exemplo os jovens protestantes e os escoteiros. Esse momento crucial foi analisado pelo grupo conservador Die Tat num panfleto de 1931 intitulado Ondefica a jovem geração? Scu autor, Ernst Wilhelm Eschmann, criticava a obsessão política da Alemanha com a juventude como “uma fórmula mágica”. Mas este misticismo juvenil era em última análise um ardil da parte dos idosos do país para negar aos jovens o seu lugar por direito na vida nacional. Esta disparidade entre retórica e realidade tinha causado um conflito entre gerações que deixara “uma grande quantidade de jovens desorganizados”. O impulso antidemocrático que sustentava uma boa parte do movimento juVenil alemão começou a dar seus amargos frutos. Incentivados pelo sucesso eleitoral de 1930, os nazistas realizaram uma bem-sucedida campanha de terror contra o filme produzido pelos americanos baseado no livro de Erich Maria Re­ marque, Nada de novo nofront. Com suas firmes descrições do horror da guerra, esta história revisionista era um anátema para a extrema direita. Em dezembro de 1930, um grupo de nazistas interrompeu a estreia. Temendo mais violência, as autoridades proibiram o filme: para os observadores alarmados, esta capitulação à força bruta abriu um sinistro precedente. *** Violência funcionava. Para muitos jovens alemães, a guerra era preferível à paz: segundo Sebastian Haffner, Hider prometia “o renascer do jogo da Grande Guerra de 1914-1918”, e o apelo a esta grande experiência tocou numa corda ressonante. Durante aquele ano, os números referentes ao desemprego chegaram a 5 milhões, e os adolescentes foram seriamente afetados. Somando um total de 7 milhões de 282 | 1930-1939

eleitores em potencial, os jovens da Alemanha tinham um poder político sem precedentes. A corrida ia conquistar seus corações. Visitando a Alemanha logo depois das eleições de agosto de 1932, o jornalista francês radical Daniel Guerin sentiu que o país já tinha se “passado para o lado dos nazistas. A epidemia havia se espalhado”. Guerin partiu para sua longa excursão de mochila nas costas pela Alemanha naquele momento crucial. Como um socialista revolucionário com quase trinta anos, ele começava a ter esperanças: “Talvez eu finalmente me encontrasse no centro da ação nesta jovial, moderna e dinâmica Alemanha que eu havia admirado sem cessar desde a infância. Era aqui que o socialismo triunfaria, ou em nenhum outro lugar mais. Foi aqui que a melhor e mais educada classe operária do mun­ do tinha adquirido forma. Aqui as tensões econômicas e sociais tinham chegado a um ponto de extrema tensão.” O francês foi atraído pela camaradagem despreocupada do Wandervogel que ainda persistia no início da década de 1930. Na sua primeira noite na Ale­ manha, ele entrou num albergue da juventude cheio de “jovens entre 15 e vinte anos, de cabelos louros, vozes viris e rostos determinados. Camisas esporte cáqui ou verdes, de mangas arregaçadas, revelavam antebraços bronzeados. Joelhos es­ culpidos emergiam de shorts de veludo cotelê ou de couro, muitas vezes sustenta­ dos por um par de suspensórios tiroleses com uma larga tira retangular de couro formando uma espécie de ponte entre os peitorais. As pernas eram fortemente bronzeadas, os músculos, tensos e duros”. Havia tendências ocultas, entretanto. Guerin pegou o livro de visitantes do albergue e encontrou “esta nota ignorada: ‘Favor manter longe deste livro as suas opiniões políticas/ No entanto, folheando o livro, a política jorrava de todas as páginas. A política atormentava esses jovens a ponto de serem incapazes de re­ sistir, apesar do ambiente neutro do albergue. Alguém havia escrito: ‘Trabalha­ dores do mundo, uni-vos!’ Mas outra mão obliterara o apelo com um violento golpe de caneta. Em outra página, as três setas socialistas perfuravam a suástica”. A comunidade juvenil de andarilhos anteriormente apolítica havia rachado irrevogavelmente. A grande sala comum do albergue girava em torno de duas facções adversárias, cada uma cantando para a outra, “como se às vésperas de uma batalha”. Um dos combatentes explicou: “No fundo queremos a mesma coisa... um novo mundo, radicalmente diverso do mundo de hoje, que não des­ trua mais café e trigo enquanto milhões de pessoas passam fome, um novo sistema. Alguns acreditam firmemente que Hider proporcionará isto, enquanto outros acham que será Stálin. Esta é a única diferença entre nós [itálicos no original].” Continuando sua viagem, Guerin percebeu que a juventude alemã estava perdida e amargamente dividida. O ideal Wandervogel havia se convertido em irremediável vagabundagem: “Meio milhão de jovens desempregados vagavam OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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pelas estradas. Eles não tinham direito a assistência social, na maioria das vezes porque pelo menos um da sua família ainda estava trabalhando. Cansados de ficar girando os polegares sem nada para fazer nos seus tristes bairros de classe operária e de ser um peso para suas famílias, partiam todas as primaveras e an­ davam pelos bosques até o fim do outono. Alguns vinham perambulando assim havia vários anos.” Apesar de suas crenças políticas, Guerin sentia que o “paciente argumento” de esquerdistas e centristas, igualmente, tinha poucas chances entre as agitadas forças elementares num país “dilacerado”. Isso era ilustrado de forma dramática pela tribo de jovens mais surpreendente que ele viu durante os seus dois meses de viagem: “uma trupe estranha” encontrada por acaso nos arredores de Berlim. Apesar de superficialmente se parecer com o usual Wandervogel, esse “Grupo Selvagem de jovens sem teto era muito valentão’. Eles tinham a expressão de­ pravada e perturbada de desordeiros”. Eles usavam uma roupa bizarra com chapéus coco ao estilo de Chaplin, “cha­ péus de velhas com as abas viradas para cima à moda das amazonas, enfeitados com plumas de avestruz e medalhas”, e “lenços ou echarpes em cores berrantes”. Suas orelhas eram furadas com “pingentes ou anéis enormes”, enquanto seus cal­ ções curtos de couro eram “transpostos por imensos cintos triangulares - também de couro —, ambos manchados com as cores do arco-íris, números esotéricos, per­ fis humanos e inscrições como Wildfrei [selvagens e livres] ou Rãuber [bandidos]”. Os Grupos Selvagens tinham começado no caos da Grande Guerra e se mul­ tiplicado com a inflação do pós-guerra e o desemprego pós-craque. Completa­ mente livres do controle dos adultos, essas “Gangues de Jovens do Anel” cresciam como mato nos distritos localizados na parte externa de Berlim e ligados por um anel concêntrico de avenidas. Conforme o número de milhares de jovens sem teto inchava, esses adolescentes - na maioria com idades entre 16 e 18 anos organizavam-se numa sociedade tribal que rejeitava totalmente a moral civilizada. Eles voltaram o seu ódio para a sociedade que os havia abandonado. Os nomes que os Grupos Selvagens escolhiam ilustravam seu “instinto desen­ freado”: “Sangue dos Tártaros, Sangue dos índios, Sangue dos Cossacos, Crime Selvagem, Terror das Garotas, Apaches Vermelhos, Amor Negro, Carcaças San­ grentas, Piratas da Floresta e Beberrões de Schnapps.” Sem nenhum salário legal ou sustento do Estado, estes Wildfrei viviam da prostituição homossexual, do rou­ bo de carros e do roubo em geral. Compostos de ambos os sexos - “caras selvagens” e “vaca da gangue” -, os grupos cobravam contribuições financeiras regulares para sustentar camaradas em dificuldades com a polícia. Ritos de iniciação secretos —violentas e sádicas orgias grupais —expunham a verdadeira selvageria dos Grupos Selvagens. Vivendo totalmente à margem da sociedade, eles podiam dar livres rédeas à exuberante sexualidade adolescente para 284 | 1930-1939

a qual sucessivas gerações de especialistas em jovens haviam alertado. Guerin concluiu que eles representavam um “retorno espontâneo ao barbarismo. Civili­ zação, afinal de contas, não passa de um verniz muito fino, recente e frágil”. Ele sentiu “uma verdadeira ansiedade: quem soubesse como disciplinar estes apaches mascarados poderia fazer deles verdadeiros bandidos”. Os Grupos Selvagens representavam apenas a forma mais extrema do abando­ no coletivo da racionalidade empreendido por sua geração. As raízes da demo­ cracia não eram profundas: a República de Weimar tivera 13 anos de existência, e, com os 17 governos durante esse tempo, raramente alcançara a estabilidade. Mesmo durante a relativa calma da era Stresemann, ela havia visivelmente falhado em conquistar o apoio de um segmento significativo de jovens da Alemanha, que tinham crescido viciados em crise e conflito. Weimar falhara em erradicar estruturas e atitudes imperiais. As universidades eram inequivocamente hostis à democracia, como eram os agrupamentos juvenis militaristas e religiosos tradicionais. Como três quartos de toda a juventude ale­ mã haviam passado por um ou outro desses grupos, sua influência era enorme. Educados numa dieta cultural de nacionalismos metafísicos e sacrifício quase re­ ligioso, ansiando por uma ressurgência da grandeza imperial da Alemanha, a ressentida classe de 1918 se preparava para vingar a derrota que havia acompa­ nhado seu nascimento. A propaganda nazista era projetada para explorar esse anseio de arregimentação mística, vingativa. O partido especializou-se em espetaculares comícios de massa, como o evento triunfal de outubro de 1932, em Potsdam. Em vez da es­ perada multidão de 20 mil pessoas, mais de 100 mil rapazes e moças se congre­ garam nos arredores de Berlim, abarrotando as agências de viagem. Eram tantos que a revista de tropa dos meninos durou das 11 horas da manhã até as seis da tarde. Até os observadores não partidários ficaram impressionados, enquanto que os participantes ficaram enaltecidos ao ver que faziam parte de um todo inespe­ radamente grande. O encanto que a natureza ultrarritualizada dos eventos nacional-socialistas exercia sobre o jovem foi resumido no popular romance nazista Hitlerjunge Quex. Atravessando a pé uma clareira na floresta, o jovem herói depara com “um círcu­ lo de pessoas jovens” que parecia se estender “até o fim do mundo. Bem em frente dele, enfileirados, havia jovens como ele. Cada um portava um longo mastro com um penacho, subindo verticalmente até o céu, penachos negros e vermelhos bri­ lhantes, com símbolos recortados no campo do pano. Cada um dos jovens parecia igual a todos os outros”. Em vez de horrível, o narrador achou isso inspirador. A bem-sucedida versão desse romance para o cinema reforçou tal impulso de sacrifício. Recriando a ascensão dos nazistas ao poder durante o ano de 1932, o filme dramatizava a história do menino de 12 anos Herbert Norkus, preso OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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pelos comunistas no distrito de classe operária de Wedding “Vermelho” quando estava colando panfletos nazistas. Seus atacantes o esfaquearam cinco vezes nas costas, duas no peito e mutilaram seu rosto a ponto de deixá-lo irreconhecível. Isso se converteu na parábola de um mártir: as últimas imagens de Hitlerjunge Quex mostravam o jovem moribundo reafirmando a sua fé antes que a câmera cortasse para as ondas da Juventude Hitlerista em marcha. Apesar do seu reconhecido ódio pelo modernismo, os nazistas haviam estuda­ do cuidadosamente as experiências americanas com o controle de massa: Guerin observou em 1932 que “toda a Alemanha havia perdido a cabeça com ilusões de grandeza no estilo americano”. Eles não deixaram de desenvolver melhor as teo­ rias sobre a propaganda de massa de Bernay: na verdade, eles elevaram o conceito ao de um fundamental agente de controle social, criando um ministério para tratar do assunto. Esta seria uma das peculiaridades do seu regime que personificava um aparente paradoxo: a combinação de tecnologia de ponta junto com noções bárbaras de raça e coerção social. A propaganda nacional-socialista dispôs dos pontos que os pioneiros da manipulação de massa americana foram obrigados a colocar no lugar pelo seu sistema democrático. A invocação pura e simples de emoções nacionalistas e for­ ças místicas pelo partido dava-lhe uma vantagem na amarga luta pelo poder no fim de 1932 e início de 1933, pelo menos em relação ao apelo que exercia jun­ to à juventude. O fascínio ilegal que atraía os jovens foi aumentado pelas proi­ bições de Weimar às organizações nacional-socialistas, inclusive a Juventude Hitlerista. A ideologia deu aos seguidores da classe operária do partido um tem­ pero extra nas suas brigas territoriais de rua com os comunistas. No início de 1933, a Juventude Hitlerista, com mais de 100 mil membros, era numericamente mais forte do que as organizações juvenis comunistas e socialdemocratas combinadas —com uns 80 mil, mais ou menos - mas era de longe superada pelos grupos conservadores de jovens, que podiam reunir mais de um quarto de milhão de membros. Se os grupos de jovens não nazistas tivessem se unido, a Juventude Hitlerista teria tido uma luta nas mãos. Mas houve um lento desvio de agrupamentos de jovens protestantes e de direita para a Juventude Hitlerista. Para muitos jovens alemães, o comunismo era abominável: os nazistas eram a escolha menos pior. Eles também ofereciam esperança e estrutura para uma geração de adolescen­ tes que havia crescido dentro de uma instabilidade social e política que parecia permanente. A retórica de autossacrifício e disciplina dos nacional-socialistas também se inspirava nos fortes arquétipos alemães: o mito do guerreiro de Fre­ derico, o Grande; o medievalismo do Bunde cultuado por muitos grupos Wandervogel; o autossacrifício até a morte dos cruzados exaltados pela batalha de Langemarck. Se românticos como Hõlderlin haviam lamentado o desmembramento 286 | 1930-1939

dos jovens alemães, então os nazistas tornariam fortes e íntegras tanto a nação quanto a juventude. Em circunstâncias desesperadoras, o fascínio da irracionalidade e do simples poder era muito forte. Quando Hitler chegasse ao poder, não haveria dissidentes: não haveria lugar para aqueles que não compartilhassem da sua visão para esse novo mundo que, como o de muitos adolescentes e fanáticos religiosos, era co­ lorido estritamente em termos de branco e preto: a favor ou contra. Depois do incêndio do Reichstag, em fevereiro de 1933, que muitos acreditaram ter sido provocado pelos próprios nazistas, os nacional-socialistas lançaram uma blitzkrieg, uma guerra-relâmpago, que, em julho, teria conseguido tornar ilegal e intimidar quase toda a oposição. Em março, foram conferidos a Hitler poderes de emergência que, segundo Sebastian Haffner, “aboliam a liberdade de expressão e o sigilo de correio e te­ lefone de todos os indivíduos e dava à polícia direitos irrestritos de busca e aces­ so, confisco e prisão”. Depois de uma nova bateria de eleições, Hitler aboliu o partido comunista do Reichstag e aprovou o Ato Institucional, a lei dos plenos poderes, que efetivamente matou a democracia alemã. Uma semana depois, no dia lfi de abril, o boicote e o pogrom de judeus começou. Ao mesmo tempo, a polícia secreta do regime, a Gestapo, foi se formando. Durante a primavera e o início do verão, sindicatos trabalhistas foram ocupa­ dos, as greves, proibidas e, finalmente, o partido social-democrata foi abolido. O Instituto de Ciências Sexuais do dr. Magnus Hirschfeld foi saqueado e todo o seu conteúdo, incluindo milhares de livros, queimado em imagens que correram o mundo. Esses atos oficiais foram acompanhados por uma sistemática campanha de terror: espancamentos, fuzilamentos, prisões sem julgamento e campos cons­ truídos às pressas. Áreas inteiras ocupadas pela classe operária foram isoladas com cordões e limpas, mais notadamente distritos esquerdistas como Altona, em Hamburgo, e Wedding, em Berlim. Essa combinação de legalidade e violência era sustentada pela tecnologia recente. O rádio foi o principal instrumento do ministro da Propaganda Joseph Goebbels e era incansável, com “uma interminável música de marchas e tambo­ res” trombeteando pelos alto-falantes colocados nas esquinas das ruas. Meses depois da ascensão de Hitler ao poder, tornava-se evidente que a Alemanha nazista era um novo tipo de Estado que visava ao controle total sobre todos os seus súditos. Deveria haver um completo compromisso público com a comunida­ de nacional em todos os momentos e nenhuma vida permitida fora das incessantes exigências do regime. A maioria dos alemães concordou logo: o ótimo tempo e as constantes celebra­ ções de março de 1933 levaram tanta gente para o partido que elas foram ironi­ camente chamadas por saudosistas, de “Violetas de Março”. Em uma postura de OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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crescente oposição, Haffner analisou as razões para esse “colapso nervoso elevado a um milhão de vezes”: “A razão mais simples e, olhando melhor, quase sempre a mais básica, era o medo. Una-se aos bandidos para não apanhar. Não tão evidente era um tipo de excitação, a embriaguez de unidade, o magnetismo das massas.” No final, havia o desejo de “fazer parte de um notório sucesso”. Quando Daniel Guerin voltou à Alemanha, em abril de 1933, viu confirma­ dos os seus maiores temores. Entrando num albergue da juventude “repleto de filhos e filhas do proletariado de Esse”, ele foi “tratado com um arrogante desdém”. Em vez das velhas cantigas de liberdade ouviam-se hinos militaristas que falavam de “tropas de assalto em marcha”. Ele conheceu alguns resistentes do Wandervogel que lhe disseram que os nazistas iam “perseguir os músicos e mendigos sem mise­ ricórdia”. Era, ele mais tarde escreveu, o fim de um sonho: “Em breve, o rouxinol emudecerá na sua gaiola: na Alemanha ocidental, só se ouvirá o som das botas.” *** Este prognóstico foi realmente preciso. A juventude teve um lugar especial na ideo­ logia nazista. Percebendo que havia muitos nascidos e criados durante a Weimar que não entregariam o seu “mais íntimo ser” à revolução nazista, Hider partiu para doutrinar a geração seguinte, aquela cujos valores ainda não estavam formados. Como ele afirmou em 1933: “Quando um adversário diz ‘Não vou para o seu lado’, eu calmamente digo ‘Seu filho já nos pertence... Vocês passarão. Seus descen­ dentes, entretanto, estão agora num novo campo. Em pouco tempo eles não co­ nhecerão outra coisa a não ser esta nova comunidade1.” Assim como as tropas de assalto calaram à força toda a oposição política, do mesmo modo a Juventude Hitlerista começou a atacar o movimento juvenil ale­ mão antes vibrante e diverso. Inicialmente, muitos jovens líderes pensaram que seria possível se entender com o novo regime. No dia 27 de fevereiro de 1933, duzentos representantes de grupos jovens de todo o espectro político - nazistas, comunistas, escoteiros vermelhos e juventude socialista - encontraram-se na es­ tação Stettiner, em Berlim, para tentar encontrar algum modus vivendu Mas isso foi logo cortado pela raiz pela repressão que se seguiu ao incêndio do Reichstag naquela mesma noite. O objetivo imediato do líder da Juventude Hitlerista, Baldur von Schirach, era atrair o maior número possível de adolescentes alemães para o sistema de Es­ tado monopolista. Muitos dos agrupamentos juvenis apolíticos tentaram resistir a essa ação formando uma nova organização mista chamada Grande Liga Alemã, mas até esta foi dissolvida em junho. Só o religioso Bunde se manteve: as organiza­ ções protestantes fundiram-se com a Juventude Hiderista em dezembro de 1933, 288 | 1930-1939

enquanto, graças a um acordo com o Papa Pio XI, os grupos de jovens católicos permaneceram paralisados, embora sob forte pressão, até 1939. Sob sua aparência epicena, von Schirach era um bom organizador. Em junho de 1933, foi promovido de líder juvenil da Juventude Hitlerista para líder juvenil da Alemanha. A implicação era intencional. A Juventude Hitlerista tinha se tor­ nado a única atividade permitida para os adolescentes alemães, e qualquer ato contra a organização juvenil e oficial do Estado era um ato contra o Estado. Ao mesmo tempo, o ingresso era algo obrigatório para várias profissões - como a de professor ou de advogado - e uma preferência para empregos em geral. Num país onde grassava o desemprego, as necessidades econômicas eram tão convincentes quanto a ideologia política. Havia muitas razões para ingressar na Juventude Hitlerista: a coerção de pares e do Estado, as pressões financeiras, a crença na ideologia nazista, ou então o sim­ ples desejo de pertencer. E os jovens alemães ingressaram, em massa: os números subiram de 108 mil, no início de 1933, para quase 3,6 milhões no fim do ano. Baldur von Schirach imediatamente se dispôs a criar uma nova estrutura para a organização que se expandia. Ambos os sexos foram agrupados por idade: meninos com menos de dez anos eram Pimpfs, dos dez aos 14 eram Jungvolk, entre 14 e 18 eram Hitlerjugend. As meninas dos dez aos 14 estavam na Jungmãdel, e entre os 14 e 18, no Bund Deutscher Mãdel. A liderança da Juventude Hitlerista tinha uma hierarquia piramidal, com von Schirach no topo. Abaixo dele ficavam cinco Obergebiete regionais, e mais abaixo 21 Gebiete, subdivididos em seis níveis. Na base ficavam os Schafts, grupo de 15 jovens que respondiam ao seu líder, que por sua vez respondia ao nível logo acima dele. Este sistema era uma réplica da hierarquia mais ampla do partido nazista: uma ordem lógica e imposta impiedosamente na qual os jovens eram treinados desde pequenos. Quando chegavam à maioridade, ela estaria tão enrai­ zada a ponto de tornar a resistência impensável, se não impossível. Tanto Hider quanto von Schirach imaginaram um sistema de controle do berço-ao-túmulo para os jovens da Alemanha. A Juventude Hitlerista enxertou no militarismo arregimentado dos primeiros escoteiros de Baden-Powell a mania do país por categorizações e a tendência nazista ao totalitarismo. Cada recruta fi­ cava preso à organização por um juramento que, ao invocar Deus, tornava a trans­ gressão ainda mais grave. Depois da iniciação, o neófito submetia-se a um período de testes que durava de dois a seis meses e terminava com um exame incluindo esportes, luta corpo-a-corpo e um questionário sobre a história do partido. Uma vez iniciado, o jovem hitlerista recebia uniformes que reforçavam a homogeneização que o regime exigia de seus participantes. A vestimenta básica masculina parecia o uniforme do soldado da tropa de ataque com sua camisa marrom e braçadeira com a suástica, calções pretos, sapatos pretos e boné de OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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trincheira. As meninas calçavam sapatos pesados para marchar, vestiam blusas brancas, saias azuis e lenços de pescoço de algodão com argolas trazendo a insígnia do grupo. As únicas diferenças permitidas eram os distintivos de privilégio e as insígnias que variavam de acordo com o ramo das forças armadas a que o grupo em particular estivesse ligado. Horas de esportes, exercícios físicos e treinamento militar diárias eram a es­ sência da vida da Juventude Hitlerista. No seu livro Schoolfor Barbarians, Erika Mann citou um manual de 1933 incluído no currículo da Juventude Hitlerista que incluía “esporte pacífico” como “o lançamento de bombas”. Daniel Guerin alertou que “uma geração está abertamente se preparando. Livre do serviço mili­ tar compulsório, ela acha divertido brincar de soldados marchando pelas estradas, de mochila nas costas, avançando como se fosse para um conflito, abraçando o chão em exercícios de campo e batendo em panelas velhas para alertar a população urbana para ataques aéreos”. A doutrinação militar começava cedo. Como um escolar lembrou, “grande parte das nossas leituras nas aulas de alemão era literatura sobre guerra mundial. Mas nós também a devorávamos por nossa própria conta”. Ele lembrou que a maioria desses livros tratava da “camaradagem no fironf e das mortes heróicas em ação, mas havia variações: “O herói do movimento juvenil, o sensível anda­ rilho entre dois mundos’; o incansável lutador das ‘bestiais hordas bolcheviques; ou o que despreza a humanidade, o cavalheiro em armadura tecnológica, o aristocrático herói da pirataria do século XX de Storm of Steel” Os nazistas acrescentaram uma constante rotina de atividades esportivas a um currículo que se baseava no aprendizado por repetição e na obediência cega. A base racional para isto foi declarada no manifesto de Hitler, em 1927, Mein Kampfi “O Estado Võlkisch tem de ajustar seu trabalho educacional não apenas para a doutrinação do conhecimento mas, em primeiro lugar, para a produção de corpos fisicamente sadios até a medula. O desenvolvimento de capacidade intelectual é secundário. Mas aqui, outra vez, deve se dar prioridade ao desenvol­ vimento da força de vontade e decisão, combinado com um treinamento em pron­ tidão para assumir responsabilidades.” A expressão perfeita deste ideal foi vista no filme de Leni Riefenstahl sobre a Olimpíada de Berlim de 1936, Olympia. Numa sucessão de surpreendentes tableaux, fileiras e fileiras de jovens louros, vestidos elegantemente com roupas esportivas, bronzeados de sol, flexionados às centenas como um único corpo musculoso, cintilante, idêntico. A doutrinação física começava para os jovens alemães aos dez anos de idade, quando o futuro Jungvolk passava por um perío­ do de provação de seis meses marcado por testes difíceis que incluíam correr 60 metros em 12 segundos e participar de uma caminha de 36 horas. Isso era só o começo. 290 | 1930-1939

O mito estava atrelado ao serviço do militarismo. O mais crucial era a ba­ talha de Langemarck. Cultuando a ideia de que a obediência às ordens era im­ portantíssima e que o autossacrifício era o ideal supremo, esta lenda foi adotada ansiosamente pelos jovens educados no nazismo. O regime especializou-se na pompa dramática e mística, e Triunfo da vontade atestava seu sucesso em criar um ambiente onde marchas, cantos, música, iluminação, encenações e retórica de grande intensidade combinavam-se num espetáculo do outro mundo, com uma sobrecarga de energia. Essas técnicas eram usadas também nas regulares iniciações para receber jo­ vens Pimpfs de ambos os sexos na Juventude Hitlerista. Esses importantes rituais, que marcavam o fim da infância e da individualidade, eram com frequência rea­ lizados no dia 20 de abril, aniversário de Hitler, e em geral encenados num gran­ de edifício público ou castelo enfeitado com tochas, bandeiras, velas e quadros de heróis alemães. Ali as crianças de dez anos juravam: “Prometo, na Juventude Hitlerista, cumprir sempre com o meu dever no amor e fidelidade para ajudar o Führer - que Deus me proteja.” Não havia espaço para dúvidas, moleza ou boa-vida que haviam prejudicado a geração de Weimar: para Hitler, toda a juventude alemã tinha de ser “resistente como couro, rápida como galgos, dura como aço Krupp”. Estas palavras foram tomadas como evangelho pelos ardentes jovens do regime. Melita Maschmann compreendeu “que a ‘resistência’ exigida de nós era uma resistência para ‘aceitar punições’. Eu pensava que deveríamos aprender a ser resistentes para suportar privações, castigos ou dor”. O amor pela Alemanha era superior, e era no serviço a este amor que os jovens nazistas desejavam se fazer ‘resistentes, rápidos e duros”’. Assim que pôde, Melita deixou a escola e ingressou no departamento de imprensa e propaganda do Bund Deutscher Mádel: “Eu queria educar as pessoas politicamente e, na verdade, em linhas expressamente nacional-socialistas.” Ela foi uma das poucas privilegiadas; na ideologia nazista, as mulheres eram “intrinsecamente” diferentes dos homens e, portanto, teoricamente limitadas a cuidar da casa, ter filhos e trabalhar na terra. A estrutura e atividades da Jungemádel e do Bund Deutscher Mádel eram subdesenvolvidas. Não havia formações espe­ cializadas ou de elite para meninas - as meninas deviam apenas servir e reproduzir. A vida em todos os ramos da Juventude Hitlerista era implacável: o constante estado de alerta satisfazia à necessidade de ação dos adolescentes. O ideal era preen­ cher cada momento do dia. Fosse treinamento físico, trabalho cultural, orientação social ou mesmo o Heimabend obrigatório, as noites passadas em casa quando os objetivos do partido eram discutidos num ambiente informal, tudo era uma com­ petição. O resultado desse incessante torneio era o de reduzir qualquer vida in­ terior ou individual. A noção de arregimentação aumentava com a política de von OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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Schirach de dar um nome a cada ano segundo o programa desejado: 1934, o primeiro, foi o “Ano do Treinamento”. Outra faceta vital da organização era o fato de os jovens serem liderados por jovens. Mais de dois terços dos líderes juvenis nazistas em 1932 estavam na faixa dos vinte anos. Com o cotidiano da Juventude Hiderista dirigido por pares do grupo e não por superiores hierárquicos mais velhos, os jovens ocupavam uma posição de central importância no novo regime, não apenas como sementes ati­ vas do futuro Reich, mas como pilares centrais do seu sistema social. Os nacionalsocialistas, como von Schirach nunca se cansava de reiterar, eram “o partido da juventude”. De um só golpe, o relacionamento entre as gerações se inverteu. A juventude agora estava no comando e expressava a sua superioridade com “um ar de indife­ rente arrogância”. Imediatamente depois que Hider conquistou o poder, esta arro­ gância foi útil para o novo regime: agora que chegara “o momento da juventude”, muitos jovens hideristas sentiam-se estimulados a dar o troco aos “burgueses li­ berais hipócritas”. Eles destruíam a vida escolar no estilo das “batalhas nas cerve­ jarias”, quebravam as janelas dos professores que lhes tinham dado notas ruins e ajudavam no expurgo de socialistas e comunistas que ocorria tanto na educação primária como secundária. Com seu ódio pela razão e desconfiança da inteligência, a política nazista de educação era simples. Todos os jovens deviam ser doutrinados no culto ao Führer e à política racial darwinista social do Volksgemeinschaft, com o seu ideal ariano de “fundadores da cultura” e seu ódio aos judeus como “destruidores da cultura”. Em todos os pontos, a ideologia nazista era martelada em casa, fosse em poemas ilustrando o princípio de que poder era justiça ou em questões matemáticas sobre judeus como alienígenas. Matérias abordando os clássicos, a arte e a maio­ ria das ciências foram rapidamente abandonadas, e a diferença entre os sexos im­ placavelmente imposta. Sob esta política explícita de reprogramação, o relacionamento entre pais e filhos se deteriorou. Melita Maschmann teve de ingressar no Bund Deutscher Mâdel escondida dos pais porque eles não concordavam. Pais dissidentes ou cautelosos ainda podiam, por uns tempos, impedir seus filhos de ingressarem na Juventude Hiderista, mas em geral o tráfego era no sentido inverso. Se os pais conservassem seus filhos fora da Juventude Hiderista, poderiam sofrer multas ou possíveis pri­ sões. Alguns pais também viam seus filhos retirados da sua guarda por ser “poli­ ticamente pouco confiáveis” - definição que incluía serem amigos de judeus. Isto resultou numa imagem espelhada do mundo onde os filhos, e não os pais, é que exerciam o controle. Denúncias de pais feitas por filhos fanáticos eram comuns. Um jovem líder da Juventude Hiderista chamado Walter Hess conquis­ tou notoriedade e uma promoção ao denunciar o pai diretamente à Gestapo. 292 | 1930-1939

Um ex-comunista, Herr Hess, chamou o Führer de “maníaco sanguinário” e castigou o filho por suas atividades nazistas. Ele foi preso na mesma noite e mais tarde morreu em Dachau. Os informantes da Juventude Hiderista constantemente relatavam conversas na escola, no trabalho e em casa. A suspeita tornou-se a tônica da vida familiar. O ostracismo era outra arma poderosa contra os que não aderiam, ainda mais fácil de impor visto que os uniformes da Juventude Hitlerista tinham de ser usados o tempo todo. Os apóstatas eram alvo das implicâncias de seus colegas, humilhações dos professores, e sofriam penalidades na vida adulta: por exemplo, pertencer à Juventude Hitlerista era obrigatório para qualquer emprego relacio­ nado com ensino ou funcionalismo público. A seus pais também seria negada promoção. Os casos mais obstinados eram visados pela força policial especial da Juventude Hitlerista, a Streifendienst, fundada em julho de 1934 para combater a delinqüência, o crime e o comportamento indisciplinado juvenis. No centro desta estrutura estava o próprio Führer, que para muitos substituía o pai biológico. Num comício em Nuremberg, em 1934, a parada juvenil foi realizada num clima frenético. Hitler aproveitou a oportunidade para reafirmar o lugar do jovem na nova ordem mundial: “Queremos um povo que não seja de­ licado, mas duro como sílex, e queremos que vocês desde bem jovens aprendam a superar dificuldades e privações. Não deve haver classes ou distinções de classes entre o nosso povo, e vocês não devem jamais permitir que a ideia de distinção de classe lance raízes entre vocês. Tudo que esperamos da Alemanha do futuro, esperamos de vocês.” A identificação entre Hitler e seus filhos escolhidos era recíproca e total. Ela era incentivada por von Schirach em pronunciamentos como: “Seu nome, meu Führer, é a felicidade da juventude, o seu nome, meu Führer, é para nós a vida eterna.” A divindade de Hitler era reforçada num fluxo incansável de propaganda juvenil: os programas de rádio da Juventude Hitlerista e as revistas tinham como alvo todas as faixas etárias, colocando no mercado brinquedos nazistas, e pelo busto do deus ele mesmo, um acessório quase ubíquo nos quartos de dormir das crianças. A verdadeira experiência para aqueles que conheciam o grande líder era assoberbante. *** Apesar do peso do Estado e do agressivo culto a Hitler, alguns jovens ainda se re­ cusavam a aderir. Havia muito poucas estruturas alternativas para a resistência, entretanto. Um jovem ex-comunista, J. Georgi, sentiu “o inesquecível desaponta­ mento quando, em 1933, uma grande parte da liderança do movimento juvenil OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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capitulou humilhantemente diante dos nacional-socialistas”. A nova lei era: adap­ tar-se ou morrer. Esta vaporização era uma tática nazista deliberada. Num clima de medo, suspeitas e denúncias, até os relacionamentos cotidianos eram incertos. A dissidência era dificílima, se não fatal. Segundo Karma Rauhut, uma jo­ vem alemã que conseguiu evitar o serviço no Bund Deutscher Mádel, “era como se você estivesse numa teia de aranha e a aranha sempre notasse se algo vibrava em algum lugar e não soava verdadeiro. As pessoas diziam: cJa, pode-se fugir.’ Fugir para onde? Você só podia fazer resistência se levasse a morte em considera­ ção. Ou tortura terrível ou tortura para toda a sua família, e morte e KZ (cam­ pos de concentração). E não somos todos heróis. Borrávamo-nos nas calças de medo. Nem todos nascem para ser heróis”. Aqueles que se recusavam a se submeter eram obrigados a viver num per­ manente estado de ansiedade. Como Georgi lembrou, “alguns de nós que não concordávamos com esta insuportável tensão também capitulavam, embora não sem destruir o seu íntimo ser”. A resistência podia ser vista como uma saída deste beco sem saída: nas palavras do dissidente Arno Klonne, “era uma saudável rejeição da organização aprisionante imposta à juventude”. Nos primeiros anos do regime, os nazistas tiveram de lidar com adolescentes que tinham sido criados durante a Weimar: não querendo renunciar à sua liberdade, eles causaram consi­ deráveis problemas para as autoridades. Remanescentes dos antigos grupos juvenis tentaram continuar com suas atividades, mas eles eram fáceis de localizar e abater. No primeiro ano do regime, um jovem estudante chamado Rudolf Kustermann formou uma organização socialista ilegal de jovens chamada Rote Stosstrupp que, tarde demais, unia gru­ pos de jovens comunistas e social-democratas. Baseada em Berlim, ela ativou ou­ tros grupos pequenos em cidades principais, mas logo foi descoberta pela Gestapo. Mais duradoura foi a continuação ilegal do grupo no estilo samurai d.j.I.II, que continuou em várias cidades durante toda a década. Alguns se rebelavam seguindo para as áreas rurais a céu aberto como o ve­ lho Wandervogel, mas eram grupos informais. Esses tiveram mais sucesso porque eram mais difíceis de detectar. Adolescentes fugiam às escondidas da cidade e montavam abrigos clandestinos ou refúgios nas montanhas. Pela frequência dos noticiários policiais - as principais fontes de informação sobre essas atividades -, a continuação do velho espírito andarilho e livre parece ter sido uma opção po­ pular, com 150 dissidentes em Frankfurt cercados em uma só investida, depois de uma viagem bem-sucedida à remota região de Taunus. A filiação da classe operária foi reacionária. Na área do Reno-Ruhr, resistentes da Juventude Operária Socialista, os Falcões Vermelhos, o Bunde e grupos cató­ licos uniam-se ad hoc em grandes grupos delinqüentes chamados os Nerother ou os Kittelsbach Pirates. Com sua dimensão e seu conhecimento do local a seu 294 | 1930-1939

favor, eles abertamente desafiavam a Juventude Hitlerista a ponto de a organização se tornar “virtualmente morta” em algumas áreas. O que mais irritava os nazistas, entretanto, era as organizações de jovens católicos, que se recusavam a se integrar com a Juventude Hitlerista mesmo depois de ser expressamente ordenadas a fazê-lo. Havia também problemas de disciplina dentro da própria Juventude Hitle­ rista. Como muitos monopólios bem-sucedidos, ela havia temporariamente se expandido para além das suas capacidades organizacionais. O fato de a juventude ser liderada por jovens revelava várias falhas estruturais. A cooptação forçada dos ex-grupos juvenis causou às autoridades consideráveis preocupações quanto à existência de elementos subversivos dentro do coração do sistema. Alguns desses infiltrados conduziam uma campanha de desinformação e desobediência que provocou violentas “rebeliões Jungvolk” em várias cidades grandes durante o in­ verno de 1934. A falta de controle pelos adultos também resultou em freqüentes delitos se­ xuais. Casos de homossexualidade eram severamente punidos: em um grave “lapso moral”, 16 jovens da Juventude Hitlerista de Aachen se entregavam à masturbação mútua coletiva. A promiscuidade heterossexual da organização era to­ lerada pelo regime: como um dos assistentes de von Schirach afirmou, “para que servem as meninas do Bund Deutscher Màdel exceto para ser levadas para a cama? É necessário, senão elas se tornarão lésbicas”. Os excessos de grupos locais davam aos pais a impressão de existir dentro da Juventude Hitlerista “uma certa degeneração”. No entanto, a dissidência ainda continuava, explodindo como um incêndio florestal: abafada em uma cidade, inflamando-se em outra. Von Schirach decidiu fazer de 1936 o “ano da Jungvolk alemã”, com o objetivo de que todos os me­ ninos e meninas nascidos em 1926 - completando dez anos naquela data - se “apresentassem como voluntários” no grupo mais jovem da Juventude Hitlerista a tempo do aniversário do Führer. Tendo conseguido o quase total alistamento desse grupo etário, von Schirach buscou ampliar essa inclusão abrangente até a idade de 18 anos, quando seus membros entravam para as forças armadas, a AS ou SS, ou para o serviço em terra compulsório. O resultado foi a “Lei referente à Juventude Hitlerista” aprovada em dezembro de 1936, que fez de von Schirach “Líder Jovem do Reich Alemão”, respondendo apenas a Hitler. As cláusulas eram simples: “I: Toda a juventude alemã dentro das fronteiras do Reich está organizada na Juventude Hitlerista. 2: Toda a juven­ tude alemã deve ser educada, fora do lar paterno e da escola, na Juventude Hi­ tlerista física, intelectual e moralmente no espírito do nacional-socialismo para servir à nação e à comunidade.” Este decreto abrangente representou o zênite da política juvenil nazista. OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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A Juventude Hitlerista já estava cimentada na hierarquia nazista, mas, de­ pois do decreto, os vínculos da organização com o escalão de elite nazista, a SS (Schutzstaffel) ficaram mais fortes. Heinrich Himmler havia sido recentemente nomeado Chefe da Polícia Nacional e visava a um influxo anual entre 25 mil e 30 mil Jovens Hitleristas, uns 10% do grupo recrutável a cada ano. Centenas de jovens com 18 anos começaram o serviço na SS-Verfiigungstruppe, a tropa especial da SS, ou na SS-Totenkopfverbãnde, as Formações Cabeça da Morte, destinadas especificamente aos trabalhos nos acampamentos penitenciários. Ao mesmo tempo, os vínculos se estreitaram entre a Gestapo, a polícia se­ creta do Estado e a Streifendienst, a força policial da Juventude Hitlerista, à qual foram concedidos poderes de fiscalização sobre “todas as atividades políticas e criminosas entre os jovens alemães” na primeira metade de 1937. A organização podia levar acusações aos tribunais da Juventude Hiderista e fornecer informações aos tribunais civis comuns. Um ano depois, o âmbito da Streifendienst ampliouse da supervisão de Juventudes Hideristas para todos os adolescentes alemães: os dois eram considerados sinônimos nessa fase, e o grupo tornou-se o principal alimentador da SS. *** Na época do decreto de 1936, a Juventude Hiderista tinha se tornado respeitável, burguesa até, com dois terços do corpo de líderes vindo de formações secundárias e/ou universitárias: estes substituíam os trabalhadores, camponeses, desordeiros e estudantes dos tempos da revolução. A organização era servida ainda por um novo sistema escolar de elite. Este sistema foi criado no fim da década de 1930 com a instituição do Nationalpolitische Erziehungsanstalten, e das escolas Adolf Hitler, onde o esporte reinava e a ideologia nazista era martelada 24 horas por dia, sete dias por semana. A fase heróica da Juventude Hiderista tinha acabado, a batalha estava vencida. Depois de 1936, havia muito poucas chances para alguém com menos de 18 anos escapar das exigências do regime. Entretanto, durante os últimos anos da década, este grupo juvenil nacional sofreria tensões imprevistas. Tendo sido a onda de choque da revolução, ela havia se tornado o novo establishment, com a sua própria burocracia e estrutura de carreira. Houve uma sensação de anticlímax, na medida em que se enrijecia numa política de atividade pela atividade que se tornava cada vez mais militarista. Enfrentando mais apostasias, o regime buscava uma sub­ missão ainda maior. Pois, apesar do seu apelo místico e dos métodos totalitários de coerção, o re­ gime nazista não conseguira alcançar o controle total sobre os adolescentes ale­ mães. No fim da década de 1930, gangues das principais cidades como Dresden, 296 | 1930-1939

Hamburgo e Munique continuavam vivendo no velho estilo do Wandervogel, enquanto que o Leipzig Meuten coletava dados críticos sobre o regime e especulava a respeito de sua violenta derrocada. Sua saudação era uma versão truncada do slogan dos pioneiros russos: “Esteja preparado.” Seu tamanho —uns 1.500 —e sua excessiva simpatia pelo comunismo fizeram desse grupo um importante alvo para uma imposição maciça de regulamentos. Parte do problema estava na retórica de autogoverno juvenil dos nazistas, como um relatório de exilados alemães notou em 1938: “Os jovens são mais facilmente influenciados em termos de estado de espírito do que os adultos. Este fato torna mais fácil para o regime conquistar os jovens nos primeiros anos de­ pois de uma tomada de poder. Parece que por esse mesmo fato o regime está ten­ do dificuldade em manter os jovens escravizados.” Citando um estado de espírito geral de “desencanto”, o relatório concluiu que “os jovens têm razao para estar desapontados. Fizeram-lhes muitas promessas que, na sua maior parte, eram im­ possíveis de cumprir”. Essa desilusão deu origem a uma nova onda de repressões. Em dezembro de 1938, Hitler deu a mais assustadora expressão à estratégia do berço-ao-túmulo para a juventude alemã, que começava com o ingresso no Jungvolk aos dez anos. Ao deixar a Juventude Hitlerista aos 18 anos, eles eram levados para a Frente de Trabalho, a AS, ou a SS. Caso se recusassem, eram obrigados a ingressar no Ser­ viço de Mão de Obra. Qualquer “consciência de classe” persistente seria tratada mais adiante com dois anos de serviço militar, depois do qual “nós os levamos imediatamente de volta ao AS, à SS e assim por diante para evitar a recaída, e eles nunca mais estariam livres pelo resto de suas vidas”. A partir de 1938, quase não havia dúvidas de que a Alemanha estava se pre­ parando para um conflito ainda mais amplo, no qual sua juventude representaria um papel vital. Durante aquele ano, 1,25 milhão de jovens hitleristas foram dou­ trinados em “prontidão de defesa” e “capacidade de defesa” com práticas de tiro ao alvo explicitamente militaristas e exercícios de manobras em terra. Também durante 1938, o número de membros da Juventude Hitlerista ficou em 8,7 mi­ lhões, muitos mais do que o dobro do que tinha sido no fim de 1933. Confor­ me alertou Baldur von Schirach: “Todos que tiverem sangue alemão pertencem ao nosso grupo. Sob esta bandeira de juventude, todos são iguais.” No ano seguinte, só 1,6 milhão dos 8,2 milhões de adolescentes alemães deixaram de se alistar, mas até este nível de submissão não foi o bastante. Em março de 1939, Hitler emitiu um decreto que tornava o serviço militar juvenil compulsório para todos os jovens de 16 a 18 anos e dava aos líderes da Juventude Hitlerista poderes específicos sobre todos os aspectos da vida desse grupo etário. O decreto tornava a não aquiescência extremamente difícil: a polícia podia forçar o alistamento e exigir obediência ao líder local. A visao de Hider estava perto de OS SOLDADOS DE UMA IDEIA

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dar frutos: para todos os jovens da Alemanha entre dez e 18 anos, cada aspecto de suas vidas estava sujeito ao controle do regime. A Alemanha nazista seguiu o exemplo da Rússia soviética ao aplicar os prin­ cípios de controle de massa à sua juventude. Mantendo-se fiel ao seu desejo de criar um tipo de sociedade totalmente novo, ela privilegiava a juventude nas suas instituições e, na verdade, para muitos adolescentes essa política oferecia liberdades antes impensáveis. Inebriados com esta revolução, entretanto, eles não perceberam o avesso deste contrato faustiano: o que parecia ser liberdade era escravidão, e no final eles seriam entregues, amarrados e amordaçados, nas mãos de uma má­ quina de guerra sofisticada e impiedosa.

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CAPÍTULO

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O exército infantil e o N ew Deal

Adolescentes americanos na Depressão ^ ^ Ele andava esfarrapado desde o segundo ano da Depressão. Seus alegres jovens antecessores dirigiam carros velozes. Ele anda de vagão de carga. Sua família se mudou de uma casa para um apartamento de um só quarto, que, até ganhar a estrada, ele divide com todas as gerações do seu clã. Provavelmente ele passa fins de noites cansativos num vagão de carga fechado num desvio da estrada de ferro. Ele não tem nada com que sonhar. Nenhum passado, nenhum presente, nenhum futuro. - C lin ch C alk in s, Youth Never Comes A gain (1 9 3 3 )

'ESTE GAROTO ESTÁ NA ESTRADA HÁ QUATRO A N O S"; FOTOGRAFIA DE THOMAS MINEHAN, 1932

Briga com o velho. Ele não manda em mim. Peguei umas roupas e saí. Arrumei uma carona num caminhão cheio de móveis que ia para Louisville. Dois homens dirigindo. Bons sujeitos, pagaram as minhas refeições. Dormi no caminhão. Os homens se revezavam no volante. Roubamos uns melões e maçãs de um fazendeiro.” Esta anotação em staccato num diário redigida por um menino vagabundo chamado Blink tipificava o destino compartilhado por um quarto de milhão de “meninos e meninas dos vagões de trem” vagando pela Amé­ rica conforme a Depressão se aprofundava. Como seus semelhantes na finada Alemanha de Weimar, eles não tinham lar, emprego, dinheiro e nenhum controle pelos adultos. O lapidar documento de efemeridade de Blink foi copiado para a posteridade por um jovem sociólogo da Universidade de Minnesota chamado Thomas Minehan, que em 1932 decidiu registrar “a reação dos jovens às mudanças sociais” na América. Ele mergulhou no mundo hermético dos jovens sem teto, disfarçan­ do-se “com roupas velhas” para compartilhar da vida deles. Ficou chocado ao ver quantos meninos e meninas vagabundos existiam: “Onde estavam as suas famí­ lias? Para onde iam? Havia quanto tempo estavam na estrada? Por que tinham saído de casa?” Esses diários não eram efiisões literárias de sentimentos ou ideias. Eram do­ cumentos de sobreviventes. Conhecer as condições na estrada poderia significar a diferença entre vida e morte. Como Minehan observou, as impressões eram mi­ nimizadas e os fatos enfatizados, tais como “mulher gorda numa grande casa branca me deu três salsichas de porco, quatro xícaras de café e todas as panquecas que eu quis para o café da manhã... Um grandalhão me socou quando eu estava saindo do pátio. Cidade hostil... Não adianta servir a Jesus na... Missão. Nada além de feijões e tristeza”. Um menino holandês da Pensilvânia, Blink, estava a caminho de Seattle quando Minehan o encontrou em Ohio. Seu diário era um registro árido de con­ dições durante a sua odisséia sem rumo pelo Meio-Oeste. Algumas pessoas eram boas, outras pães-duras”. Em uma cidadezinha, os católicos lhe deram comida mas o fizeram “comer do lado de fora na varanda”. Um fazendeiro lhe ofereceu trabalho, mas uma remuneração irrisória: “Oferece só 25 centavos. Só isso. Não gostei dele, mesmo.” O tempo todo ele era assediado pela polícia. “Shelbyville. O guarda me pegou. Me mandou para a prisão, tinha de trabalhar duas horas pelo jantar e a ceia. Fiquei na prisão a noite toda. Éramos seis caras. Nada bom.” O alívio de Blink ao se livrar de sua família o havia sustentado nos primeiros meses de estrada. Depois de um ano sob condições brutais, ele não pensava mais que o mundo “era uma ostra”. Estava marcado com cicatrizes mentais e físicas. Mi­ nehan registrou que “ele tinha dois bons olhos quando deixou a fazenda do pai. Agora só tem um. Uma órbita sanguinolenta forma uma cova pequena e sempre “24 DE AGOSTO DE 1932.

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lacrimejante do lado esquerdo do seu rosto. As lágrimas escorrem pela face, ris­ cando a sujeira e a fuligem de carvão, deixando uma estranha cicatriz úmida ao longo do nariz. Ele perdeu o olho quando uma fagulha voou para dentro dele no Santa Fé.” Minehan foi um dos primeiros escritores a expor a total extensão da vagabun­ dagem juvenil na América dos anos de 1930: publicada em 1934 como Boy and Girl Tramps of America, sua pesquisa aprofundava a compreensão de um grave problema nacional. O “Problema dos Jovens” apresentado pelo “Exército Infantil” havia chegado às manchetes durante o outono de 1932, com artigos em grandes revistas como “Duzentas mil crianças vagabundas”, de Maxine Davis. Relatos como esse anunciavam uma nova geração, emblemática do período, que não poderia ser mais diferente do confiante jovem consumidor dos anos 1920. Adolescentes como Blink, ou o constante companheiro de Minehan, Texas, representavam um novo tipo de adolescente selvagem, agrupado em tribos disper­ sas. Ao contrário dos Grupos Selvagens de Berlim, entretanto, eles não tiveram oportunidade de dramatizar sua selvageria. As duras condições de sem-teto os im­ pedia de se organizarem e roubava sua juventude. “Em um ano eu vi Texas mu­ dar não apenas física como mentalmente”, Minehan escreveu. “Suas orelhas con­ geladas e dedos enrijecidos eram símbolos evidentes de uma mudança interior. Do estudante inteligente, espirituoso, cheio de sonhos e vigor, ele se transformou numa pessoa predadora, dissimulada.” Em meados da década de 1920, uma estudante universitária chamada Barbara Starke tinha decidido vagar pela América em busca de realização pessoal. Sua experiência foi única o suficiente para virar um livro de sucesso: Bom in Captivity. O que para ela tinha sido um ultrajante ato de inconformidade, para muitos da geração seguinte foi uma triste necessidade. Não havia chance de ser único nessa massa, e a solidariedade humana tornou-se logo racionada. Sem a intervenção do governo, esses jovens vagabundos enfrentavam uma existência tão dura quanto a que os reformadores do início do século XX tinham se esforçado tanto para colo­ car no centro das atenções. Para jovens radicais como Minehan, isto era um escândalo que colocava em questão toda a natureza da sociedade americana: “Eu tinha visto fotografias das crianças selvagens na Rússia assolada pela revolução. Eu tinha lido sobre a juven­ tude livre da Alemanha depois da Guerra Mundial. Eu sabia que em todas as na­ ções, após uma praga, invasão ou revolução, as crianças que ficavam sem pais e lares viravam vagabundas. Antes das minhas experiências, eu sempre acreditara que na América nós organizávamos melhor as coisas. E, no entanto, diante da de­ sorganização econômica e da mudança social, a nossa própria juventude foi para a estrada.” 0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL

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A busca do jovem sociólogo aconteceu nas profundezas de um desastre nacio­ nal sem precedentes. As depressões dos anos de 1870 e 1890 haviam sido graves, mas nada na escala do que aconteceu depois do Grande Craque. Entre o outono de 1929 e o verão de 1932, acionistas perderam 74 bilhões de dólares no mercado em queda livre, o equivalente a 616 dólares para cada americano, e quase 5 mil bancos quebraram, dando fim a 3,26 bilhões de dólares em depósitos. E era só o começo. O mais assustador na Grande Depressão é que ela não parava, conti­ nuava cada vez pior. O desemprego aumentava ano a ano no início da década de 1930, afetando de início os segmentos mais vulneráveis e em desvantagem da sociedade: negros, trabalhadores braçais e mulheres - um quinto de toda a força de trabalho feminina passou a ser desnecessária em 1930. Na primavera de 1932, ele estava firmemente inserido nas classes médias. Ninguém ficou imune. Em julho, o New York Times noticiou que nos cinco bairros havia 10 mil desempregados com diploma das mais prestigiadas universidades da América. Para aqueles que ainda estavam trabalhando, os padrões de vida eram dizima­ dos pelos cortes nos salários: em um levantamento, a média anual de salários caiu de 1.499 dólares em 1929 para 960 dólares em 1932. Nesse mesmo tempo, a renda profissional caiu 40%. A América era um país em estado de choque. A prolongada explosão do fim da década de 1920 não se deu apenas no aspecto financeiro, mas no de identidade nacional. A indústria e o comércio tinham se tornado atributos místicos na América do século XX. A Grande Depressão passou a ser vista como uma crise não apenas na economia, mas também no sistema central de crenças do continente. A América começou a olhar para fora ao mesmo tempo que iniciava um do­ loroso processo de autoexame. O efeito da Depressão em outros países não ti­ nha passado despercebido. Durante os anos de 1931 e 1932, falar de revolução era comum. Alimentada por novas histórias como aquela que relatava 100 mil potenciais emigrantes para 6 mil empregos na Rússia, os comentaristas discutiam o bolchevismo enquanto americanos de todas as classes expressavam a aprovação de um sistema social diferente. Muita gente pensou que o capitalismo havia en­ trado totalmente em colapso e que uma violenta revolução surgiria das fileiras de desempregados e sem-teto. A Depressão atingiu com força os adolescentes. Entre aqueles com idade para estar no ensino secundário, 40% não estavam na escola, enquanto subiam os números dos que abandonavam os estudos antes de se formar. Ao mesmo tempo, o desemprego entre jovens subia vertiginosamente. Quatro milhões de jovens ame­ ricanos dos 16 aos 24 anos estavam na rua procurando trabalho: cerca de 40% eram adolescentes. Em 1932, o “Exército Infantil” tinha 200 mil andarilhos e 302 | 1930-1939

esse número subia rápido, uma proporção muito pequena mas altamente visível dos 14 ou mais milhões de americanos com idades entre 10 e 20 anos. A desintegração começava em casa. No seu estudo The Family and the Depression, Ruth Cavan observou que a conseqüência do desemprego era “desorgani­ zadora\ As famílias mudavam-se para apartamentos menores, o que significava que pais e filhos “viam-se uns aos outros muito mais do que antes e ficavam en­ gaiolados num espaço pequeno. Havia pouca privacidade e os atritos aumenta­ vam”. Monehan descobriu que a maioria dos vagabundos saía de casa por causa das “dificuldades”. Como Texas lhe contou, “surgiram os grandes problemas e ninguém tinha dinheiro”. Bem mais de 90% do grupo de amostragem de Minehan com jovens vaga­ bundos vinham de um lar onde pais ou irmãos estavam desempregados ou dispen­ sados. Vinte e cinco por cento dos meninos tinham recebido “freqüentes chicota­ das”. Enfrentando um ambiente claustrofóbico onde quase sempre eram o bode expiatório mais próximo, os adolescentes americanos pegavam a estrada em bando. Este impulso ocorria em todas as classes. Como o político democrático Newton D. Baker escreveu em 1932, “o jovem errante médio de hoje, nos dizem os as­ sistentes sociais e outros que estão diariamente em contato com ele, é um garoto normal de uma família substancial”. Esta reação estava de acordo com o etos de um país construído por uma mão de obra móvel e guiado por um sonho da fronteira que ainda era recente. Como afirmou a redatora do Harpers, Lillian Symes, no fim de 1933, a América tinha “uma tradição radical, até violentamente radical. O bucaneiro individual, não o líder de causas impopulares, tem sido o herói americano. O anarquismo é in­ dubitavelmente a filosofia mais inata ao nosso temperamento, como é a mais futil num mundo industrial complexo. O país atrai o individualista inquieto”. *** Os jovens americanos não foram os únicos a ser afetados pela Depressão: muitos homens e mulheres mais velhos foram para as ruas, e sua quantidade inchou de­ pois de vários anos sucessivos de estiagem no Meio-Oeste e nas planícies do sul. Mas muitos vagabundos eram meninos tipicamente americanos inflamados com as visões de liberdade oferecidas pelo cinema e pelo automóvel. Aos 16 anos, Jim Mitchell decidiu fugir do seu lar em Wisconsin, em 1933: “O meio mais rápido e fácil de sair dali era pular num trem e ir para algum outro lugar”, ele lembrou. “Nós achávamos que era o tapete mágico - o clique dos trilhos —, romance.” A aparente razão para partir era a busca por trabalho. Migrações sazonais eram detonadas pela disponibilidade de emprego casual. No verão, havia um mo­ vimento no sentido oeste para a época da colheita de frutas. No outono, havia 0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL

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um movimento geral de ida do campo para as cidades maiores. Graças a seu cli­ ma quente, a Califórnia era o destino preferido. O “Jardim do Éden” de Woody Guthrie, com mil adolescentes sendo despejados em Hollywood por mês no fim de 1933. A cidade ficou tao popular que “declarou guerra” a todos os temporá­ rios, bloqueando a fronteira por várias semanas durante o ano de 1936. A arrasadora maioria pegava a estrada de ferro: pelo menos nos trens havia a possibilidade de proteção mútua. Mesmo dentro dessa comunidade primitiva, entretanto, havia uma hierarquia. No topo ficavam os aristocráticos “passageiros pedantes”, jovens obcecados com a velocidade dos trens expressos. A grande maio­ ria dos vagabundos de estrada andava nos trens de carga. Aqueles que viajavam pelo Califórnia Fruit Express estavam um degrau abaixo dos passageiros pedantes, seguidos por aqueles que escolhiam os trens de seda, depois os trens de carga com passageiros, os trens paradores e, finalmente, a maioria que andava em gôndolas, vagões de carga fechados ou vagões de transporte de granito. Havia muitos riscos. Os trens eram perigosos, principalmente se não tinham sido reformados para transportar passageiros. A precariedade da segurança dos jovens transeuntes os deixava sujeitos a cair do trem e ficar expostos ao tempo frio ou à mercê dos solavancos. Milhares morriam anonimamente e sozinhos. Ao mesmo tempo, os notoriamente violentos guardas das estradas de ferro, cha­ mados de bulls, touros, legislavam da forma que achassem conveniente. Quan­ do o trem parava numa cidade pequena, o jovem vagabundo enfrentava a pos­ sibilidade de ser jogado na prisão, recrutado para trabalhos forçados ou receber choques elétricos e a ordem de deixar a cidade. Muito mais seguras eram as cidades grandes, onde o simples número de recémchegados tornava necessária uma certa reação coerente. O primeiro porto de es­ cala era a fila do pão, que poderia ser numa missão, num albergue do Exército da Salvação ou num posto da previdência social do município. Depois de se registrar, o jovem vagabundo recebia uma papeleta de identificação, que em geral dava a seu portador o direito a pelo menos uma refeição. E isso era tudo. As cidades talvez fossem mais seguras, mas a competição por empregos e dinheiro era ainda maior. Encontrar um lugar para descansar também era difícil. Nos primeiros tempos da Depressão, milhares dormiam em parques e lugares públicos. Sempre exaustos, os jovens fujões logo descobriam que a sua estrada não era a de tijolos amarelos. Jim Mitchell tinha “pensado que seria uma vida glamurosa. ‘Por Deus, nós vamos encontrar a nossa fortuna. Alguém lá fora precisa de nós/ O inferno, que precisavam”. Nesta ferrenha competição por qualquer emprego que fosse, a exploração e os maus tratos eram freqüentes. Alguns garotos da es­ trada até trabalham, não por dinheiro, mas por comida. O trabalho que havia dis­ ponível era temporário, em geral na agricultura, e oferecia salários muito baixos por horas estafantes. 304 | 1930-1939

Os jovens itinerantes envelheciam prematuramente. Um estudo contemporâ­ neo realizado por um assistente social de Ohio concluiu que eles “não conheciam segurança financeira, vinham de lares destruídos por essa razáo, eram molestados, chutados e aturdidos por coisas que fugiam ao seu controle. Perdidos, ressentidos por terem envelhecido rápido demais, eles clamam por algo que não conseguem obter do seu próprio grupo. Eles estão velhos demais e, no entanto, são tão jo­ vens. Viram muita coisa e sabem demais - pensaram muito pouco. Podem ter 17 até 21 anos de idade, mas em algumas coisas eles têm trinta e, em outras, dez”. Alguns jovens fujões preferem se unir em bandos em busca de apoio mútuo e proteção. Grupos de até 12 viajam juntos e se estabelecem em seus próprios acampamentos de vagabundos. Locais longe de habitações humanas eram os pre­ feridos. Fosse perto do escoadouro de um esgoto do Mississippi ou numa clareira deserta próxima à estrada de ferro, até cinqüenta jovens itinerantes viviam numa microssociedade autopoliciada. Minehan descobriu “que as crianças mendigas, deixadas por sua própria conta e vivendo como párias da sociedade, desenvolvem regras e regulamentos, elegem líderes e impõem seus castigos sem a ajuda dos mais velhos”. Conflitos irrompiam por qualquer razão. Os mais comuns giravam em torno de fronteiras raciais. Os negros compunham um pequeno percentual de jovens itinerantes, quase um quarto de todo o grupo etário que ia de 15 a 24 anos em um levantamento realizado em 1935. Para muitos de seus colegas brancos, era sua primeira experiência sem segregação: o clima era de tolerância, na melhor das hipóteses. Jovens negros eram altamente vulneráveis. Havia sempre o com­ ponente do ciúme sexual - Minehan relatou um grupo de “meninos negros, 17 anos”, vangloriando-se de suas “relações com meninas ou mulheres brancas” - e naquele mundo transitório e ilegal essa era uma mistura explosiva. O grau dessa vulnerabilidade ficou evidente em 1932, quando um grupo de nove negros, entre 12 e 20 anos de idade, foi preso no Alabama. Para os Scottsboro Boys, a vagabundagem terminou num pesadelo eterno. “Todos nós estávamos pegando carona no trem pela mesma razão, ir a algum lugar e encontrar trabalho”, lembrou Haywood Patterson. “Nossas famílias estavam sem dinheiro. Os únicos que eu conhecia eram os outros três de Chattanooga. Nossos pais não podiam nos sustentar, e nós queríamos ajudar, ou pelo menos colocar comida na nossa própria barriga. Estávamos pegando carona até Memphis quando a briga aconteceu.” A confusão começou quando quatro dos nove embarcaram numa gôndola, parcialmente cheia de cascalho moído, que também abrigava duas jovens mulheres brancas, vestidas com macacões masculinos, e sete outros rapazes. O xingamento teve início: “Negro filho da mãe, este é um trem de homem branco. Cai fora. Todos vocês negros filhos da mãe, fora!” Patterson devolveu o insulto na mesma 0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL

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moeda e os brancos recuaram. Eles voltaram mais tarde, mas Patterson havia encontrado reforço em outros “caras de cor” e os agressores foram dispersados. Patterson até resgatou um dos brancos que estava para cair do trem em alta ve­ locidade. Quando o trem parou na estação seguinte, entretanto, todos os jovens iti­ nerantes envolvidos na briga foram recebidos por um pelotão armado e levado para a prisão de Scottsboro. Ali os nove negros descobriram que duas garotas brancas, Ruby Bates e Victoria Price, os haviam acusado de estupro. Patterson pensou que fosse porque “os caras brancos tinham ficado muito machucados com a surra que nós lhes demos”. Esta acusação foi como dinamite no interior do Alabama. Desde o primeiro momento da sua prisão, os Scottsboro Boys en­ frentaram violências próximas ao linchamento e uma sentença de morte quase certa. Depois de um julgamento - uma farsa -, durante o qual o promotor exortava o júri, “culpados ou não culpados, vamos nos livrar destes negros”, os nove fo­ ram considerados culpados e condenados à morte. Apesar de uma tempestade de protestos, os jurados de Alabama entrincheiraram-se e, na primeira revisão do processo, outra vez os condenaram à morte. Desta vez, o linchamento judicial tinha virado um escândalo internacional: o apoio de personalidades tão diversas como Nancy Cunard, Albert Einstein e o autor Thomas Mann foi seguido de uma série de demonstrações na Europa e na América, culminando na imensa marcha em protesto de maio de 1933.1 O caso dos Scottsboro Boys expôs o lado obscuro das relações raciais na América e a vida de cão de seus adolescentes andarilhos. Dividindo o mesmo es­ paço com os habitantes do submundo, algumas crianças da estrada começaram a imitar os gângsteres portando armas e extorquindo dinheiro. Ainda mais preo­ cupante para as autoridades era a sua ira contra o sistema que os traíra. Como outros especialistas em jovens, Minehan pensava que o bolchevismo estava em ascensão: “Praticamente todos os meninos e meninas na estrada, comunistas ou não, acreditam que em breve haverá uma revolução na América, se as coisas não melhorarem.” Na década de 1920, os adolescentes da América tinham recebido uma atenção sem precedentes como os porta-estandartes do novo consumismo de massa: eles tinham sido apontados como “compradores embriônicos” e “os clientes de ama­ 1 Depois desta marcha, as autoridades do Alabama foram forçadas a ordenar um terceiro julgamento, com o mesmo resultado para Patterson e Clarence Neems. Embora as condenações fossem derrubadas pela Corte Su­ prema dos Estados Unidos, Patterson foi julgado uma quarta vez em janeiro de 1936 e sentenciado a 75 anos de “morte em vida” numa prisão do Alabama. Enquanto quatro dos nove foram finalmente libertados no verão de 1937, Patterson viu ambos os pais morrerem. “Nada parecia certo depois disso, eu odiava acreditar em alguma coisa, odiava todo mundo.” 306 | 1930-1939

nhã”. Depois do craque da bolsa, este privilégio se evaporara: nas palavras de um andarilho de classe média, era como ser “rebaixado do posto de príncipe”. Em­ bora tornar-se um vagabundo fosse uma reação extrema, os meninos e meninas mendigos representavam, numa nação que idealizava a juventude, um lembrete desagradavelmente direto do desastre que havia acometido o continente. Isso não fora previsto. A simples existência de jovens vagabundos, sem falar da sua aparência e de seu comportamento, servia como uma polêmica chocantemente pública: não havia, eles pareciam dizer, nenhum futuro, seja para nós, seja para o nosso país. Boy and Girl Tramps of America encamparam essa defesa, anunciando o novo estado de espírito de reforma depois do Grande Craque. O impulso que havia murchado depois da Lei Seca reacendeu-se com o súbito retorno a um panorama da cidade que estava “tomada por grupos de desordeiros e predadores”. Com um olhar desconfiado para o que acontecia na Rússia e na Alemanha, os reformadores estavam muito preocupados com a possibilidade de uma revolu­ ção. Entretanto, a natureza individualista da tradição americana - personificada pela busca de uma fronteira ilusória por parte dos andarilhos - pesava contra a ação coletiva. Apesar da crescente escalada de violência das disputas trabalhistas do país, como a marcha fatal contra a fábrica da Ford Motor, em março de 1932, o comunismo falhou em se afirmar como um movimento de massa. Havia jovens comunistas, mas eles continuavam sendo uma pequena minoria entre seus pares. Entretanto, especialistas em jovens e pais igualmente notaram um novo es­ pírito de intransigência até entre a vasta maioria de jovens que ainda definiam seu futuro em termos de trabalho e carreira (meninos) e casamento ou vida do­ méstica (meninas). Ao voltarem a Muncie, em junho de 1935, Robert e Helen Merrell Lynd descobriram que nos dez anos que se seguiram a sua primeira visita “uma subcultura juvenil mais consciente de si mesma tinha crescido”. Eles observaram que “limites de obediência aos pais, à escola e à opinião pública im­ postos pelos adultos tinham enfraquecido ainda mais conforme o mundo adulto desmoronava sob a depressão”. Os adolescentes nascidos no fim da década de 1910 estavam emergindo num mundo muito diferente daquele que lhes haviam prometido. Em vez de uma explosão de consumismo jovem, eles estavam enfrentando o desemprego. Isto os predispunha a um severo escrutínio do mundo adulto, que só se exacerbava com o modo como todas as classes e todas as idades rotineiramente zombavam do Volstead Act. A Lei Seca tinha, no início dos anos 1930, erodido o respeito à lei e a toda autoridade. Como um grupo de ginasianos contou à revista Parents em 1932: “Vocês não podem nos acusar de desconfiar dos seus padrões, quando alguns deles... têm se mostrado tão obviamente tolos.” 0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL

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Neste clima, as antigas premissas de deferência deixaram de ser válidas. No seu livro de 1931, Personality in Its Teens, o assistente social cristão W. Ryland Boorman citou um de seus informantes ginasianos: “Você pega um rapaz de 17 anos, controla-o com mão de ferro. O que vai acontecer? Não vai demorar mui­ to para você ter um rapaz mal-humorado, agressivo, teimoso, se ele for como eu. Este garoto pode ir à escola dominical, freqüentar a igreja e comungar. Por quê? Porque é obrigado. Não muito tempo depois, ele pode quebrar todos os vínculos e pegar uma carona num trem’ atrás de uma atmosfera mais livre há muito desejada.” Isto nada mais era do que um choque entre gerações. “Nossa impressão é a de que nunca duas gerações de americanos se viram mutuamente diante de um abismo tão grande em suas atitudes e comportamentos costumeiros como está acontecendo com pais e filhos americanos desde a Guerra Mundial”, os Lynd concluíram. “A crescente rapidez das mudanças sociais, incluindo todos os setores de vida desde a indústria e o comércio até a religião, educação, sexo e vida fa­ miliar, está ampliando, como algo semelhante a uma progressão geométrica, o abismo entre as coisas que eram “certas” ontem e aquelas que fazem sentido para a nova geração de hoje.” A juventude americana mais uma vez se tornava um problema, e não um mercado. Durante a primeira metade da década de 1930, o entusiástico incen­ tivo da juventude que havia florescido durante a década anterior foi substituído por uma série de indagações preocupadas e críticas. O futuro da nação estava em jogo. Thomas Minehan concluiu seu exaustivo levantamento de jovens iti­ nerantes com uma arrebatada polêmica pór uma maior participação do Estado: “A juventude americana de amanhã precisa ser liderada. Ela precisa ser liderada por homens que saibam para onde estão indo, para onde está indo o país, e para onde querem que seus jovens vão.” *** Enquanto o Exército Infantil chegava às manchetes, muitos adolescentes ameri­ canos prosseguiam com sua educação. Embora reduzido pela Depressão, o número de americanos com 17 anos que permaneciam na escola secundária tinha multi­ plicado pelo menos umas cinco ou seis vezes desde 1900. No sistema de classifi­ cação da escola secundária, a imersão do adolescente no seu mundo de pares era total e imediata. Assim como a juventude universitária da década de 1920 havia experimentado a noção de ser um importante grupo social, seus irmãos mais novos, em idade para estar na escola secundária, começaram a sentir a mesma coisa. 308 | 1930-1939

A instituição da juventude como uma classe distinta começou a colher uma safra inesperada. Os Lynd notaram que, no Central High de Middletown, “toda variedade de tolerâncias e intolerâncias culturais atritavam-se umas contra as outras: a filha de pais que acham “engraçadinho” e “atraente” que ela pinte as unhas, use ruge, faça “permanente” e aprenda a “lidar com os meninos” senta-se ao lado da filha de uma família na qual os pais estão envolvidos numa tranqüila mas deter­ minada campanha para contornar a influência do cinema e conservar sua filha “simples”, “sem afetações” e “mentalmente saudável”. Para Ryland Boorman, o mundo de pares da escola secundária americana, embora personificando toda a esperança no futuro, também minava “a influência do lar e da Igreja”. Ele observou que “o aumento do tempo de lazer, muitas vezes acompanhado por grandes quantidades de dinheiro para gastar, está abrindo ca­ minho para novas formas de malícia. O grau de loucura pela caça ao prazer a que chegou à presente geração é desconcertante para muitos adultos. A nova liberdade na relação de meninas e meninos também é a causa de uma confusão nada desconsiderável”. O forte fascínio acerca da pressão que os adolescentes faziam uns sobre os outros foi uma das questões tratadas por toda uma série de novas revistas com as quais a Igreja e os grupos de escoteiros tentavam atingir os adolescentes ameri­ canos durante o início da década de 1930: American Girl, Everygirl e Scholastic. “Como uma menina pode ser bonita e popular”, uma estudante secundária per­ guntou à Everygirl, se era forçada pelos pais a usar “roupas de baixo de lã, meias de algodão, sapatos de salto baixo masculinos?” Em vez de reprovar ou negar essas pressões, as revistas ofereciam conselhos sensatos, supondo que as adolescen­ tes compartilhariam o bom senso e os valores conformistas que elas promoviam. A existência dessas revistas refletia até que ponto os pais tinham cedido o con­ trole sobre as vidas de seus filhos. Elas expunham a verdadeira preocupação, de que havia pouca base comum entre as gerações, mas resolviam conflitos ao rea­ firmar expectativas tradicionais. Para os meninos, a questão mais urgente era o emprego. Revistas como American Boy reforçavam a ética competitiva: “Você vai trabalhar para se sustentar e lutar por uma carreira numa competição tão in­ tensa, impiedosa e sutil como você jamais conhecerá.” As meninas, em contraste, estavam sendo preparadas para casar e ser rainhas do lar. A maior fonte de tensões entre pais e filhos era o sexo. Como a manchete do número de janeiro de 1932 de Ladies’ Home Journal dizia: “UMA MENINA TEM QUE FICAR DE AGARRAMENTOS PARA SER POPULAR?” A moça que tinha feito esta perguntava não tinha encontrado ajuda nos pais: “Eles, arrepen­ didos da sua própria juventude, sem dúvida, estavam determinados a que eu fosse doce, casta e pura.” O seu dilema era se deveria gozar a sua juventude “enquanto a tinha” ou “virar as costas para o Caminho da Popularidade, desistir de fumar O EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL

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e de todo o resto, para ficar em casa todas as noites olhando com carinho e ar sonhador para o telefone à espera de que tocasse um dia”. A responsabilidade por impor limites sexuais era colocada não sobre os me­ ninos, mas sobre as meninas. Vendo que os pais oscilavam entre confusão e ordens, as moças se viravam para as colunistas conselheiras como tia Cheriy, da Everygirl, que aconselhava a abstinência: “É só dizer para si mesma: Ainda não é hora.’” Entretanto, isto nem sempre funcionava. Como a gravidez adolescente continuava a ser o maior de todos os tabus, os pais de classe média em particular eram in­ centivados a colaborar com estes novos especialistas em jovens na moldagem das expectativas de seus filhos em vez de dar ordens contraproducentes. Um método era o de se envolverem na vida social de seus filhos a fim de analisar futuros pretendentes. Como um correspondente da Parents observou, era possível isolar o indivíduo inadequado apresentando a sua filha à turma “cer­ ta” e deixando “a inexorável intolerância dos jovens por aquele que não se encai­ xa” fazer a sua parte. Este mesmo tipo de sugestão podia ser usado para outras questões controvertidas, como o fumo e os cosméticos. Os pais americanos esta­ vam sendo encorajados a consultar especialistas em vez de exercer um controle autoritário. Esta mudança foi imposta por vários fatores. Um problema era a inexistência de educação sexual disponível nas escolas: “Nossa escola secundária não faz nada a respeito de educação sexual porque não ousamos”, uma professora “bem-informada” contou aos Lynd. A interdição cabal também podia gerar rebeldia, como no caso de uma menina de 16 anos que, depois de alertada pelos pais, teve rela­ ções sexuais sem proteção com o inevitável resultado. Quando ela começou a andar com um garoto de 15 anos, “o fato de achar que estava fazendo algo que os pais não aprovariam a satisfazia pelo sentimento de independência que isso lhe dava”. Ao mesmo tempo, métodos tradicionais de controle concorriam com uma mídia que continuava a estimular impulsos humanos básicos. A Depressão não havia erradicado o consumismo: os Lynd notaram que, na Muncie dos meados da década de 1930, os “mais passivos, mais formais, mais organizados, mais me­ canizados e mais comercializados” padrões de lazer da década de 1920 continua­ vam a passo acelerado. Destes, o mais perturbador eram os filmes: freqüentado por 28 milhões de adolescentes americanos por semana, o cinema era visto por reformadores e moralistas igualmente como “uma ameaça à vida mental e moral da futura geração”. O poder psíquico do cinema foi reconhecido pela pesquisa conduzida pelo governo Hoover durante o ano de 1932. Em “The Agencies of Communication”, Malcolm Willey e Stuart A. Rice relataram que editores de revistas de cinema populares recebiam um “dilúvio” de cartas de espectadoras que estavam 4cheias 310 | 1930-1939

de revelações pessoais que indicam, às vezes deliberadamente, com mais frequên­ cia inconscientemente, a influência da tela sobre hábitos, modos de se vestir e assuntos românticos. Elas mostram o grau em que estereótipos de ego podem ser moldados pelas estrelas de cinema”. *** Um caso importante em questão foi o sucesso de bilheteria de Hollywood em 1931, O inimigo público n°l> uma “história essencialmente verídica” de um jo­ vem irlandês que migra da vida das gangues de rua para o mundo do contrabando e do crime organizado. No seu papel decisivo como Tom Powers, James Cagney estava eletrizante como um novo demônio americano. Aqui estava o nervoso e niilista jovem gângster, com um toque de efeminação estilizada sob a aparência de valentão, cuja vida - sintetizada na famosa cena em que ele joga um grapefruit cortado na cara da namorada Mae Clarke - foi um longo espasmo orgiástico de violência e sadismo. O simples júbilo e a energia presentes no desempenho de Cagney enfraque­ ceram a premeditada moral do final do filme: de que o crime não compensa. Até seu término bailado, arrastado, foi glamuroso. Sua principal parceira de cena, Jean Harlow, destacava-se de maneira parecida. Ao contrário das outras protagonistas femininas - a petulante boa companheira retratada por Joan Blondell, ou o capacho lamuriento representado por Mae Clarke -, Harlow era igual a Cagney. Os cabelos loiros e platinados e os movimentos sinuosos, junto com seu sotaque de taquara rachada, abstraíam-na de um tipo familiar de jovem para o de uma deusa do sexo nervosamente assertiva: a encarnação da Garota Má. Eram exatamente as linhas indistintas entre fantasia e realidade que tornavam filmes como O inimigo público nQl tão preocupantes. Os pesquisadores descobri­ ram que os jovens espectadores desprezavam os dizeres moralistas que apareciam na abertura e assimilavam o que queriam dos filmes. Um jovem delinqüente, vestido no estilo Cagney, aprovava o ator mas não o seu desaparecimento: “‘Esta é a conversa fiada que te dão nos filmes. Eles sempre morrem ou vão presos. Isso não é verdade. Olha o Joe Citro, o Pedro Salami e Tony Vendetta. Os nomes que ele mencionou eram os daqueles caras importantes, ou gângsteres, do seu próprio bairro que pareciam prosperar impunes.” O gângster contrabandista de bebidas alcoólicas da década de 1920 havia retornado como um herói. Os reformadores também se concentraram no desem­ penho memoravelmente sinistro de Edward G. Robinson como Rico no filme da década de 1930 Little Caesar, que “arrebatou certos grupos de meninos da re­ gião como um ciclone”. Os filmes de gângsteres tornavam o crime “fascinante e criminalmente distinto” para os jovens pobres: “Quase todos aqueles neste grupo O EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL

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usavam o amistoso jogo de esquerda seguido da direita na costela, no queixo e no ombro. Eles imitavam os seus passinhos, o seu ar Cagney arrogante. Eles sor­ riam como Cagney e até vestiam camisas iguais às de Cagney.” A “produção em massa de juventude flamejante” dos filmes tornou-se o ob­ jeto de ativa condenação, conforme os moralistas buscavam um novo alvo depois da Lei Seca. O reformador Henry Forman sustentava que os filmes promoviam a pronta aceitação entre os jovens “de que luxo, extravagância, dinheiro fácil são os direitos inalienáveis de todos. A recente depressão econômica tem nos mostra­ do um dos resultados do conceito quase universalmente aceito de que é fácil ficar rico. O estudo de vários jovens delinqüentes mostra até que ponto o mesmo con­ ceito derivado dos filmes tem devastado as vidas juvenis”. Publicado em 1934, o livro de Forman, Our Movie-Made Children, coletou a pesquisa conduzida no início da década de 1930 pelo Motion Picture Research Council, um grupo de pressão dedicado à censura de filmes. Uma das plataformas centrais do seu argumento era a quantidade de películas que tratavam de sexo e violência. Um pesquisador identificou 16 “metas” retratadas em 115 filmes; en­ tre os dez principais estavam “vingança”, aparecendo em quinto, e “crime para lucro”, em sétimo. Em 1930, outro especialista julgou que 72% de todos os fil­ mes tratavam dos três principais temas - “crime, sexo e amor”. Forman pensou que isso era como um veneno entrando no sistema de distri­ buição de água: “Se ninguém prestar atenção, é muito provável que surja uma consciência nacional desordenada, promíscua e indesejável.” A partir de um le­ vantamento realizado com quinhentos estudantes secundários, um terço relatou “imitação definitiva dos filmes no modo de fazer amor”. Num apanhado geral com 250 meninas delinqüentes, mais da metade declarou que “elas sentiam como se um homem estivesse fazendo amor com elas” depois de assistirem a um filme quente como The Pagan. “Quando vejo filmes que me excitam, sempre quero ir para casa e fazer a mesma coisa que os vi fazendo”, uma menina de 16 anos admitiu. Obviamente, Hollywood não estava interessada em ganhar dinheiro com documentários. Mas, então, era conveniente para os moralistas apresentarem a juventude como uma lousa em branco rabiscada com os sujos grafites de Holly­ wood. De fato, a jovem audiência era muito mais seletiva do que eles reconhe­ ciam. Uma transcrição literal de uma conversa entre quatro moças universitárias mostrou que elas compreendiam muito bem a capacidade do cinema para mol­ dar a realidade: - A ideia que ela tem de faculdade se resume a Bebe Daniels e Richard Dix. - One Minute to Play? - Sim, isso combinado com Flaming Youth. 312 | 1930-1939

- Bem, você sabe que muitas de nós estamos pensando nisso quando vamos para a faculdade. —Mas náo demora muito para a gente abandonar a ideia. Mas as que nunca chegam lá são as que idealizam a farra. Elas realmente acreditam que a faculda­ de não passa de uma grande festa. O verdadeiro problema era que o comportamento exagerado dos delinqüentes analisados em Our Movie-Made Children era apenas uma ampliação de valores culturais americanos. O colapso do país parecia estar refletido no comportamento da sua juventude, e em vez de procurar a causa, os moralistas preferiam atacar o sintoma. Eles achavam que a indústria do cinema tentava divulgar distorções eróticas e violentas do comportamento juvenil com habilidade hipnótica: utiliza­ do com sucesso, este argumento gerou renovados pedidos de censura dos filmes que resultaram, em 1934, num Código de Produção extremamente reforçado. Temores de que os jovens estivessem sendo excessivamente estimulados pela mídia de massa americana eram alimentados pela florescente indústria de revistas sensacionalistas. “Esmagando o Ring Opium de Cleveland para salvar escravas brancas” foi como Jim Jam Jems, publicada em Minnesota, promoveu a sua ex­ posição de “drogas, afrodisíacos e monstros orientais” num improvável cenário de Meio-Oeste. Desde 1932, Exposed fazia uma denúncia ainda mais direta de uma “Geração Louca”: “Raptores aos 18 anos! Assassinos eletrizantes aos 16! Tem algo de errado numa civilização que conduz tantos meninos para vidas crimi­ nosas! O QUE PODEMOS FAZER?” *** Se a reação da América a uma crise coletiva acompanhou o espírito fronteiriço que fundou a nação, então seu inquieto individualismo alimentou novos tipos de infração à lei. Tendo se estabelecido durante a Lei Seca, o invisível governo do crime organizado não estava prestes a debandar: em vez disso, ele diversificou-se em esquemas desonestos de proteção, drogas ilegais, sequestros e roubos a bancos. Estas duas últimas atividades foram os sinais mais visíveis da mudança no cenário da Lei Seca conforme, segundo a imprensa, o Meio-Oeste fervilhava com gangues perigosas, como aquelas chefiadas por Ma Barker, John Dillinger, Machine Gun Kelly e Pretty Boy Floyd. Os antigos modelos de gangues e organizações étnicas haviam sido suplan­ tados por uma nova ética: móvel, pulverizada e aleatoriamente letal. Assassinos eletrizantes haviam proliferado na década desde o julgamento de Leopold/Loeb. Em 1933, o índice de crimes explodiu: houve 12 mil assassinatos nos Estados Unidos, 3 mil sequestros e 150 mil roubos. Os mais famosos jovens criminosos 0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL

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do início da década de 1930 encaixavam-se bem no seguinte padrão: dirigindo milhares de milhas pelas estradas pouco freqüentadas do Texas, de Oklahoma, do Arizona e do Novo México - uma nova fronteira interna - e matando à von­ tade durante uma série de assaltos a banco frustrados. Nascidos em 1909 e 1910, respectivamente, Clyde Barrow e Bonnie Parker não foram os criminosos mais bem-sucedidos do período, mas foram os mais celebrados. Sua história foi de uma simplicidade clássica: uma folie à deux fatal entre um jovem delinqüente empedernido e uma inteligente mas exibicionista moça. Nos 18 meses desde que entraram em atividade no fim do verão de 1932, Bonnie e Clyde mataram 12 pessoas. Eles eram ladrões e assassinos mas, graças aos seus freqüentes boletins na mídia, viraram lendas com suas fugas ousadas, sua ve­ locidade de tirar o fôlego e sua violência psicopática. Seja com os versos de pé-quebrado de Bonnie, “Suicide Sal”, com suas foto­ grafias posando com uma arma na mão ou mesmo com o insolente endosso ao V8 —“velocidade constante e isenção de problemas” —enviado por Clyde Barrow ao próprio Henry Ford, os dois eram entendidos em mídia como nunca se tinha visto. Eles até previram sua própria morte: “A estrada vai ficando cada vez mais indistinta”, Bonnie escreveu em “The Story of Bonnie and Clyde”, o poema automitologizante que circulou na mídia nacional depois que o casal foi finalmen­ te interceptado e morto pela polícia em maio de 1934. O que era mais exasperante para as autoridades, já incapacitada pelas leis que impediam a polícia de perseguir fugitivos do outro lado das fronteiras esta­ duais, era o fato de que tanta gente celebrava este par de violentos assassinos como heróis folclóricos. Houve cenas de multidões que faziam lembrar aquelas do funeral de Rodolfo Valentino quando seus corpos foram velados em Arcadia, Louisiana: quando milhares de pessoas se aglomeraram no salão da funerária, o proprietário foi obrigado a pulverizar neles fluido para embalsamar.2 Estarrecido, o diretor do Federal Bureau of Investigation, o FBI, armou uma campanha combinada para eliminar esse perigoso glamour. Depois dos muito divulgados extermínios de Bonnie e Clyde, John Dillinger e Pretty Boy Floyd, em 1934, J. Edgar Hoover assumiu os poderes federais no ano seguinte, retirando de um golpe as antiquadas restrições legais. Nesse mesmo ano, ele lançou toda uma nova estirpe de super-homens exterminadores do crime sobre o público americano: os G-men. Com livros como Ten Thousand Public Enemiesy de Courtney Ryley Cooper, Hoover transformou o medo do crime numa indústria. Em 1936, milhões de crianças americanas consumiam produtos G-men 2 O V8 destruído no qual o casal morreu ainda era exibido quarenta anos depois. Ele foi vendido em 1973 por 175 mil dólares para a revista Time: 20 mil dólares mais caro do que a Mercedes de Hider. 314 | 1930-1939

especificamente voltados para os jovens: distintivos, metralhadoras de brinquedo, pijamas e até revistas. Alarmados com as “explosões mentais” da juventude, reformadores como Will Hays e J. Edgar Hoover buscavam controlar os adolescentes americanos do modo tradicional e moralista ainda que a Lei Seca tivesse mostrado que esse era um ca­ minho perigoso. A nova geração de progressistas também acreditava que os jovens da América eram, como os “produtos de um período psicopático”, vulneráveis demais à “mídia evasiva do cinema, ao rádio, aos motores velozes e ao álcool”. Entretanto, eles buscavam curar os efeitos da Depressão influenciando a reforma da estrutura e política juvenis. Os rebeldes andarilhos e os gângsteres psicóticos eram um severo alerta: as técnicas de controle de massa estavam falhando. A abordagem laissez-faire do presidente Hoover tinha conduzido o país à beira do desastre, e um novo princípio social motivador se fazia necessário. Em agosto de 1932, o historiador e econo­ mista George Soule observou que os americanos estavam “no meio de uma gran­ de revolução social”. O capitalismo tinha se mostrado precário, mas seria reforma­ do por uma nova classe empresarial que rejeitava seu etos competitivo “fora de moda”. Era hora de injetar algum socialismo no coração do individualismo. A profecia de Soule de que “uma mudança nos poderes governantes terão lugar, provavelmente por meios constitucionais”, foi confirmada pela eleição de um novo presidente, Franklin Delano Roosevelt, em 1932. Com uma chapa que garantia “um novo acordo para o povo americano”, Roosevelt instituiu todo um conjunto de novos programas durante os produtivos “cem dias” da sessão especial do Congresso em 1933. Com medidas que iam desde cotas agrícolas a novos di­ reitos trabalhistas, causando verdadeiro alívio, o New Deal foi visto como nada menos do que uma forma de “capitalismo do Estado”. O New Deal imediatamente reduziu o número de desempregados em um quarto durante a primavera e o verão de 1933. Ao ampliar o alcance do Estado no cotidiano, Roosevelt reduziu qualquer ameaça imediata de ruptura política e social. Com a revolução desse modo evitada, o capitalismo continuou, mas com um rosto diferente. Em vez do princípio de “materialismo crasso” da década de 1920, os anos 1930 seriam o seguimento de uma visão pioneira de trabalho duro para o bem coletivo no futuro. Entretanto, isso não significou uma mudança total nas aspirações americanas: o consumidor ideal não havia sido totalmente suplantado, apenas adiado. Uma das primeiras tarefas da nova administração foi lidar com a juventude itinerante. Um mês depois de assumir a presidência, Roosevelt criou o Civilian Conservation Corps, disponível para homens solteiros entre 18 e 25 anos, que ofe­ recia 30 dólares por mês em troca de trabalho em projetos públicos. Em três meses, 250 mil rapazes estavam assentados em quase 1.500 acampamentos. Em O EXÉRCITO INFANTIL E O NEW DEAL

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geral, a experiência foi positiva: como um agradecido Jim Mitchell lembrou, o esquema “moldou a minha vida, que não tinha direção”. A unidade oferecia alimentação adequada, estrutura de equipe e um sentimen­ to de realização, inestimáveis para rapazes que tinham se visto antes como rejei­ tados pela sociedade. Os projetos incluíam construção de parques, plantio de árvores, limpeza de praias e construção de diques. Embora entusiastas como Jim Mitchell encontrassem “uma maravilhosa mistura social”, o esquema tinha suas limitações. Estabelecendo os 18 anos como a idade mínima, ele deixava de atrair mais do que uma pequena proporção de jovens itinerantes, e alguns deles - acos­ tumados à liberdade - torciam o nariz para a arregimentação desses “poleiros de Roosevelt”. Outras medidas do New Deal começaram a aliviar os piores aspectos da vida transitória. O Temporary Emergency Relief Act, de 1933, incentivava as comunidades locais a oferecerem aos itinerantes pelo menos “uma refeição grátis, trabalho pela segunda refeição, uma cama no chão e despejo depois do segundo ou terceiro dia”. Ao mesmo tempo, o governo estabelecia o Transient Relief Service, provendo centenas de centros transitórios que funcionavam para embar­ car os fujões de volta para casa, para colocá-los num trabalho assalariado ou em campos do Civilian Conservation Corps. O governo incentivava os jovens americanos a ficarem na escola, onde estavam sob um certo grau de controle pelos adultos. Robert e Helen Merrell Lynd obser­ varam que “num mundo onde a busca por trabalho tornou-se - e talvez continue - mais difícil do que no passado, as escolas devem efetivamente retardar esta participação e se tornar um lugar onde adolescentes e jovens adultos possam, de modo satisfatório, e Middletown realmente espera por isso, ficar o mais tempo possível.” Em 1936, quase dois terços de todos os americanos em idade escolar estavam estudando, embora o número de itinerantes demorasse a baixar. Isso não foi universalmente popular: muitos adolescentes americanos queriam nada mais do que ingressar no mundo dos adultos. Como um jovem de 16 anos contou a uma audiência de rádio, “a maioria das pessoas da nossa idade quer crescer o mais rápido possível, mas seus pais não querem isso”. Talvez por causa desta acusação, ser pai na década de 1930 tornou-se mais “democrático”: uma tendência parodiada no romance Prodigal Parents, de Sinclair Lewis, no qual os adultos curvavam-se sob as insaciáveis exigências de seus filhos. A maior fre­ quência às escolas secundárias, entretanto, teve o efeito de retardar a idade adulta e aumentar a força da sociedade de adolescentes. A primeira-dama Eleanor Roosevelt também fez dos jovens a sua preocupação específica. Ela patrocinou a formação do American Youth Congress, no fim de 1934, que se tornou, segundo um dos seus líderes, Joseph Lash, o “cérebro es­ tudante do New Deal”. Solidária à política dos estudantes, Mrs. Roosevelt conse316 | 1930-1939

guiu convencer os esquerdistas do AYC a trabalharem juntos com a Casa Branca em vez de ridicularizarem a política estabelecida e o New Deal. Por sua vez, o patrocínio da esposa do presidente ajudou em parte a difundir a ameaça da in­ quietação juvenil. Eleanor Roosevelt estava muito consciente de que as medidas da América para a juventude não iam muito longe. “Tenho momentos de verdadeiro terror, quando penso que podemos estar perdendo esta geração”, ela escreveu em 1935. “Temos de trazer estas pessoas para a vida ativa da comunidade e fazê-las sentir que são necessárias.” Cinco anos depois da Depressão, a ameaça de uma revolução não desaparecera. Além do mais, um novo tipo de política juvenil fascista de massa havia emergido depois da posse de Roosevelt. Como Maxine Brown escreveu no seu estudo cruzadista de The Lost Generation, “a situação alemã está sempre na nossa frente”. Este fracasso do New Deàl em melhorar a vida para mais do que uma pe­ quena porcentagem da geração perdida da América foi testemunhado pelos Lynd no Meio-Oeste. Tenha tomado ou não a forma de cinismo, crime banal ou “re­ belião latente”, “o problema da juventude ociosa estava enfaticamente presente em Middletown, em 1935”. Os filhos das classes trabalhadoras eram os mais desiludidos, mas eles também relatavam a “tranqüila amargura” de “um distinto diplomado da faculdade local” que lhes contou que “nosso grupo sentia que es­ tava totalmente impedido. Simplesmente não há futuro para nossa geração”. Esta situação repetia-se por todo o continente: em maio de 1935, havia 2.877.000 jovens de 16 a 24 anos de idade recebendo auxílio financeiro do go­ verno. Os espigões da polarização política estavam aguardando nos bastidores. Na esquerda, vários grupos de estudantes radicais fundiram-se na American Student Union. Joseph Lash lembrou que a formação da ASU coincidiu com as novas instruções de Moscou, que, “diante da crescente ameaça da Alemanha hiderista, deu meia-volta e entrou na Liga das Nações e instruiu todos os seus comunistas a se organizarem em frentes populares”. Nos meados da década, a política fascista estava sendo trombeteada para milhões de lares americanos por intermédio de agências de radiodifusão do padre católico Charles E. Coughlin. Tendo sido um fanático defensor do New Deal, Coughlin seguira a linha populista até a extrema direita, louvando Mussolini e o governador da Louisiana, Huey Long. A América também tinha a Ku Klux Klan, que começou a forjar vínculos com os vários grupos simpatizantes dos na­ zistas formados por americanos de origem alemã depois da ascensão de Hider ao poder - em breve reunidos no Amerika-Deutscher Volksbund. Para os adeptos do New Deal, como Charles W. Taussig, esta polarização tornou ainda mais urgente a intervenção do Estado. “Vendedores de ouro falso encontram voluntários a se converterem a credos sociais e políticos nocivos a 0 EXÉRCITO INFANTIL E 0 NEW DEAL

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muitos valores que esta nação representa”, ele escreveu. “Agora, ou nunca, devemos invocar nossos princípios de livre pensamento, livre expressão e livre educação. Sob a adequada direção e liderança, nossa juventude pode e desenvolverá uma filosofia de vida mais definida e esperançosa. Se não educarmos nossa juventude de hoje para funcionar com inteligência numa democracia moderna, o governo democrático estará condenado.” O presidente Roosevelt tinha, até então, evitado gastar mais dinheiro governa­ mental com os adolescentes americanos. Ele também expressou a preocupação de que “uma agência juvenil federal, como tal, pode ser confundida como um passo no sentido da organização política ou arregimentação dos jovens”. Entretanto, com 6 milhões de jovens americanos com menos de 18 anos vivendo da assistência social do governo,3 ele mudou de ideia. Depois de persistentes tentativas de Eleanor Roosevelt e Charles W. Taussig para influenciar as autoridades competentes, em junho de 1935 Roosevelt estabeleceu a National Youth Administration e des­ tinou 50 milhões de dólares para seu uso no ano fiscal seguinte. A National Youth Administration visava a dar ajuda financeira aos alunos de nível secundário, universitários e diplomados entre 16 e 25 anos de idade. Mas suas medidas não incluíam a assistência financeira do governo: como o Mágico de Oz, o presidente Roosevelt ateve-se à norma americana de que, “neste país, todos devem pagar pelo que têm”. Na prática, os projetos de trabalho da organi­ zação aceitavam jovens solteiros entre 18 e 24 anos e encontrava empregos para eles em troca de um pagamento mensal médio de 15,73 dólares. No fim, eram mais de 150 empregos diferentes em oferta, variando de serviços de escritório até os de conservação. A formação desse organismo marcou uma mudança significativa no tratamen­ to que a América dava a seus jovens. Em vez de largados para se defenderem so­ zinhos, como acontecera na década de 1890, os adolescentes americanos não eram mais ignorados e se tornaram uma parte importante dos objetivos e das políticas governamentais. Assim como a Depressão havia lhes ajudado a ter uma voz - em muitos inquéritos que buscavam descobrir seus sentimentos e inclinações políticas —, ela também selou seu status como um grupo valioso na vida americana. En­ tretanto, isto só faria inchar a maré de jovens insatisfeitos, na medida em que o que era oferecido como um privilégio começaria a ser visto como um direito.

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CAPÍTULO

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Os B iff Boys e a ameaça vermelha

A polarização da juventude britânica ^^% Todos os anos novas gerações de colegiais surgem, cada uma empurrando a anterior um pouco mais para perto daquele incrível abismo da maioridade e da assistência social. Ora, o suprimento de meninos era inesgotável: havia milhões deles nas escolas; Marlowe’s poderia continuar para sempre. O que aconteceria com eles depois de cumprido seu aprendizado? Onde estariam as oportunidades se todas as firmas estavam fazendo o jogo de Marlowe’s? Se! Uma horrível suspeita apoderou-se dele. Suponha que este presente fosse uma nova ordem estabelecida, que, uma vez tendo cumprido seu tempo de estudo, o sujeito permanecesse para sempre desempregado! - W alter G re e n w o o d , Love on the D ole (1 9 3 3 )

JOVENS DESEMPREGADOS, NORTE DA INGLATERRA, 1935

DURANTE O A N O DE 1935, um escritor de esquerda encontrou um grupo de jovens britânicos chamado “The Unemployed Gang”. Um deles contou exatamen­ te como se viu obsoleto aos 17 anos: “DESPEDIDO aos 16 anos porque o gover­ nador queria contratar um menino de recados que faria o meu trabalho por menos... Num fruteiro, ele ajudava no balcão, limpava a loja, fazia entregas de bicicleta, das 8:30 às 19h, ah, e nos sábados, quando começávamos às 8:30 e trabalhávamos... até terminar. Salários de 10 xelins por semana. Eu sofri um acidente de bicicleta fora do expediente e o emprego não estava mais lá quando saí do hospital... Nunca mais vou conseguir outro emprego: estou velho demais!” Assim como Thomas Minehan fizera na América, W. E Lestrange viajou milhares de quilômetros por toda sua terra natal, a Inglaterra e o País de Gales, para encontrar as histórias dos jovens devastados pela Depressão. Ele mal conteve a sua ira com o que descobriu: “Espero que este livro os faça perceber que al­ guns milhões de jovens que o Estado (e isto significa vocês) está maltratando e desperdiçando praticamente não se distinguem - exceto pelo fato de que muitos deles estão subnutridos - de seus próprios filhos e filhas, irmãos e irmãs.” A exposição de Lestrange, Wasted Lives, combinava estatísticas do governo e testemunhos orais. Ele lembrou um caso típico: “Pouco tempo atrás eu estava nas Salas dos Desempregados (como um membro honorário na época). Eu jogava tênis de mesa com Trevor. Trevor tem quase 18 anos. Eu o venci no quarto game (ele ganhara os outros três). Para adular a minha vaidade ferida (pois eu acho que sei jogar tênis de mesa), eu disse: ‘Você é muito bom, Trevor.’” O rapaz tinha trabalhado como garoto de entregas, mas foi despedido ao completar 16 anos: seus enormes olhos castanhos “eram enfatizados pelo rosto encovado”. “A entonação monótona do galês perdeu-se num tom irritado quando ele respondeu: ‘Tenho que ser. Estou aqui todos os dias às lOh e jogo até a hora do jantar a não ser que eu vá ao Bureau. Não tem nada para se fazer de tarde, tam­ bém, portanto eu venho aqui e jogo sempre que a mesa está livre. Pingue-pon­ gue: batendo - bolinhas de celulóide de um lado para o outro! Essa é a minha vida. Tudo que eu vou fazer na vida é jogar pingue-pongue. Quando eu era crian­ ça achei que seria... queria ser...* Ele saiu correndo da sala e me deixou tentando entender as coisas. Acho que ele estava chorando.” Tratando de política educacional, das iniquidades do sistema de aprendizado e da mão de obra infantil, a polêmica de Lestrange tinha a intenção, como o Boy and Girl Tramps of America, de Minehan, de chocar seus leitores e depois causar um impacto na política governamental. Este não era o projeto de uma pessoa totalmente estranha ao meio. Trabalhando com a assistência da Liga Socialista, um pequeno grupo de esquerda filiado ao Partido Trabalhista, Lestrange entrou em contato com ministérios do governo, sindicatos, grandes fábricas, jornais

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nacionais e câmaras municipais a fim de apresentar um quadro completo da falta de esperança da juventude britânica. Como parte do seu diagnóstico, Lestrange prestou atenção em particular ao que era chamado eufemisticamente de “Áreas Especiais”, os antigos centros indus­ triais da Grã-Bretanha, como o sul do País de Gales e o nordeste, que tinham sido mais atingidos pela Depressão. Suas fotografias expunham a sujeira e os de­ tritos deixados para trás por uma economia totalmente arrasada, mais devasta­ doramente numa seqüência que mostrava as ruas ocupadas por moradores de Tyneside —o local sombrio que produziria o protesto dos desempregados mais famoso da década, a marcha Jarrow, de 1936. Estas não eram “Áreas Especiais”, mas “Áreas Abandonadas”, onde condições de vida degradadas andavam lado a lado com “as reminiscências do horror — fundições de aço abandonadas, minas de carvão abandonadas —ferrugem e pilhas de escória - prédios em ruínas e maquinarias paralisadas, arruinadas. É a desolação abominável - e é no meio disso tudo que as criancinhas estão vivendo a sua he­ rança, que meninos e meninas estão consumindo seus corações em desespero, que os homens e as mulheres mais velhos estão perguntando a Deus por que Ele lhes permitiu nascer —por que Ele os deixou ter filhos cuja herança é a morte em vida”. Com seus esboços inovadores e incansável concentração nos aspectos som­ brios da Grã-Bretanha, Wasted Lives era um produto da sua década. Durante os anos 1920, as atenções da mídia na juventude tinham se voltado para as elites e as várias formas de prazer, fossem incentivadas ou condenadas. Durante a década de 1930, o foco estava sobre a não elite, sobre os que estavam em desvantagem: os valores da década anterior estavam desacreditados e obsoletos. Este foi um re­ sultado inevitável do craque da bolsa, mas também ressaltava uma preocupação muito real de que estas condições desesperadoras pudessem ajudar a incentivar ainda mais a polarização política. Os sinais estavam por toda parte. Na América, os jovens desempregados iam para a estrada, uma reação que exemplificava a energia de um país móvel, jovial: mesmo assim, eles eram vistos como os incubadores em potencial de sentimen­ tos revolucionários. Na Alemanha, eram a matéria bruta para a arregimentação fascista disfarçada de autogoverno. No Reino Unido, se tivessem ânimo, iam fazer caminhadas. Ou então ficavam à toa em grupos rebeldes nas esquinas desertas. As fotografias de Lestrange os capturou congelados nas suas atitudes de tédio e bravata, em silhueta contra um panorama urbano deteriorado. Eram eles uma revolução aguardando para acontecer? *** OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA

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O impacto inicial do Grande Craque na Grã-Bretanha fora abafado. O desem­ prego tinha permanecido por volta da marca do milhão no fim da década de 1920. Mas, conforme os números subiam ao pico final dos 3 milhões em 1933, as condições que antes tinham estado confinadas às “Áreas Especiais”, espalharamse por todo o país. Desemprego e pobreza tornaram-se sistêmicos durante a dé­ cada de 1930. Má alimentação e condições de vida insalubres geravam doenças como sarampo, gripe e difteria, enquanto a depressão e as doenças mentais prospe­ ravam: os suicídios eram comuns. Os jovens sofriam uma grande parte dos insultos dirigidos aos desempregados, por ser considerados pelas autoridades como responsáveis pelo seu próprio des­ tino. Como o Times pronunciou em janeiro de 1930, “um grande percentual de meninos e meninas atualmente estão quase sendo treinados para ficar ociosos na vida, avessos ao trabalho e intolerantes ao controle, tendo nada mais do que um morno interesse por qualquer coisa além dos espetáculos promovidos nos campos de futebol e no cinema”. Entretanto, conforme os escritores começaram a expor o escândalo dos mortos-vivos da Grã-Bretanha, descobriu-se que a realidade era muito diferente. Enquanto livros sobre trabalhadores tinham sido pouco numerosos durante a década de 1920, um súbito dilúvio do que o comentarista Ethel Mannin cha­ mou de “romances sociológicos” seguiu-se ao craque: Miner, de E C. Boden; Love on the Dole, de Walter Greenwood; Hatters Castle, de A. J. Cronin; Boy, de James Hanley; No Mean City, de Alexander McArthur e H. Kingsley Long. Ao mesmo tempo documentos sociais realistas e apaixonadas polêmicas, eles ajudaram a definir o estilo e as preocupações da nova década - do tédio ao envolvimento, de Mayfair a Salford. Os jovens não eram mais animados, mas desperdiçados. Como se condenada por uma década de negligência, esta enxurrada de livros revisitava toda uma geração de histórias sobre a classe operária. Eles abarcavam a primeira onda de desemprego no início da década de 1920, o efeito de uma prolongada e amarga greve de mineradores e a subcultura urbana da violenta vida de gangues urbanas. Não tinham apenas “o selo da verdade”, também con­ densavam passado e presente numa poderosa indiciação de uma sociedade onde não importava se você estivesse realmente empregado ou não. O resultado era o mesmo: como Harry Hardcasde, o herói de Love on the Dole, acabou entendendo: “Ah, podia muito bem estar numa prisão desgraçada.” Love on the Dole dramatizava um problema institucional muito freqüente na década de 1930: o trabalho informal ou o “aprendizado” que acabava quando começava a proteção legal aos 16 anos. Entretanto, o sistema de aprendizado estava encolhendo rapidamente durante a década de 1930, exatamente quando os empregadores começaram a reduzir as horas de trabalho e a ignorar os direitos dos trabalhadores. Novas tecnologias de automação foram outro fator importante, 322 | 1930-1939

combinado com os imperativos de “tempo e movimento” introduzidos sob o disfarce de “racionalização”. “Um punhado de homens trabalhando, multidões de desempregados olhando”, foi como Greenwood resumiu o “progresso moderno”. Tecnologia e administração combinadas para criar autômatos humanos: o robô de Metropolis, os Epsilons de Admirável mundo novo, de Huxley. A nova técnica mais notória foi iniciada na América com Frederick W. Taylor e intro­ duzida na Grã-Bretanha durante a década de 1930. A constante supervisão do sistema de Bedaux —um estudo “científico” de “tempo e movimento” onde qual­ quer tarefa podia ser dividida em unidades de medida que eram usadas para de­ finir metas de hora em hora e dia a dia - resultava em condições ainda mais desumanas. Como o Trade Union Congress de 1932 afirmou, “o trabalhador sob tal sistema é obrigado a se sentir como um dente na engrenagem para produzir cada vez mais. A tendência é obliterar a individualidade e a perícia, e transfor­ mar o trabalhador em simples máquina”. Um dos primeiros atos do novo governo nacional foi a introdução do teste de recursos no fim de 1931: o objetivo era negar “benefícios transicionais” aos reivindicantes com economias e apoio de parentes. A política de redução de be­ nefícios fora sugerida pelo May Reporf, que recomendava cortes nos gastos pú­ blicos no valor 96 milhões de libras, dois terços dos quais sairiam dos pagamen­ tos de assistência social. O teste era aplicado “sem misericórdia” por localidade. Pouco mais de dois meses após sua implementação, mais de 250 mil homens e mulheres tiveram cortados os seus benefícios. O teste de recursos também reduzia a motivação para trabalhar, visto que qualquer dinheiro extra seria retirado do benefício reivindicado por outros mem­ bros da família. W. F. Lestrange observou que este foi “um peso esmagador sobre os ombros” dos jovens que deviam sustentar suas famílias. Ele citou a história de Joe, um londrino: Como um bom cidadão, ele tinha sustentado sua família por quatro anos; na épo­ ca, estava com 19. Não, ele não era um pai esmerado: sua família consistia do seu pai (fora do mercado de trabalho indefinidamente depois de um ferimento pelo qual não recebeu indenização), da mãe, de um irmão e de uma irmã ainda na escola. Joe era comparativamente filosófico a respeito da sua incapacidade de comprar um terno novo para si, visto que o resto da família —um ou outro —precisava sem­ pre de novos trajes com mais urgência do que ele. Joe e eu discutimos casamento. Ele disse (menos filosoficamente): - Poucas chances de um dia eu ser fisgado, com uma família já pronta para cuidar. Talvez Bernie consiga um emprego numa loja no ano que vem, talvez acon­ teça um milagre e eu receba um aumento. OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA

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O milagre aconteceu dias depois. Joe foi promovido e recebeu um aumento de 10 xelins por semana. Ficou radiante, falava de uma roupa nova, falava da me­ nina por quem era “louco”. No sábado, Joe parecia morto. - Qual o problema? - perguntei. O garoto fechou a cara. Ele disse: - Você devia ter me falado. Você deve saber destas coisas. - Que coisas? - O teste de recursos. Todo o meu aumento significa que o meu velho (referin­ do-se ao pai) vai retirar dez xelins a menos do Commitee. Então estou onde eu es­ tava. Qualquer aumento que eu receber não vai fazer nenhuma diferença para mim. Estou com a família pendurada no meu pescoço - diabos! - Ele corou e parecia um pouco envergonhado. - Não estou falando sério. A culpa não é deles... Mas... que inferno, de que adianta um cara trabalhar se isso não vai lhe servir de nada... se ele nunca vai ser capaz de ter a sua própria vida.

Num sistema hostil, labiríntico, as opções para os jovens desempregados eram muito limitadas. A emigração para as colônias era uma possibilidade: 200 mil homens por ano tomavam este caminho. Ingressar no exército era outra, embora 45% de todos os inscritos fossem rejeitados com base na falta de saúde. Os únicos esquemas disponíveis para o jovem desempregado eram os campos de trabalho que, como o American Civilian Conservation Corps, eram destinados a instilar disciplina. Entretanto, a maioria dos rapazes com algum ânimo logo aprendia a evitar estes “campos de escravos”, com seus regimes brutais de prisão. A maioria das iniciativas bem-sucedidas era os “centros de assistência social aos desempregados”, clubes sociais que incentivavam hobbies e atividades como tênis de mesa, canto coral e ligas de futebol. As caminhadas eram muito popu­ lares, em parte estimuladas pela influência dos Wandervogelt os crescentes números de albergues para juventude. Entretanto, dentro dos espaços confinados do país, o jovem britânico desempregado achava mais difícil desaparecer do que seus pares americanos. A fuga era apenas para os mais ousados - como os jovens ir­ mãos que na primavera de 1936 roubaram uma traineira e viajaram com ela por mais de 5 quilômetros. Alguns jovens britânicos ainda podiam se permitir o consumismo que conti­ nuava a sua lenta marcha pelas áreas da Grã-Bretanha, como o sudeste, mesmo afetado pelas áreas mais pobres. Este era, como o escritor J. B. Priestley observou, o novo mundo no estilo americano “de encher estações e fábricas que pareciam prédios de exposições, de cinemas gigantescos e salões de dança e cafés, bangalôs com garagens minúsculas, bares de coquetéis, Woolworths, ônibus, rádio, cami­ nhadas, operárias de fábrica que pareciam atrizes, corridas de galgos e de automó­ veis, piscinas e tudo cedido por cupons de cigarros”. 324 | 1930-1939

A America continuava sendo um poderoso farol para os jovens britânicos. George Orwell notou que a aquisição a prestações permitia ao rapaz desempre­ gado “comprar um terno que, por um tempo e de longe, parece ter sido confec­ cionado em Savile Row. A moça pode ter um figurino da moda por um preço ainda menor. Você pode ter uns trocados no bolso e nenhuma perspectiva no mundo, e apenas um canto num quartinho úmido para onde ir, mas com as suas roupas novas você pode ficar numa esquina, sonhando que é Clark Gable ou Greta Garbo, o que é muito compensador”. O padrão de consumo dos jovens começou no início da década de 1920 e continuou durante os anos 1930. Apesar dos altos níveis de desemprego, alguns adolescentes mais velhos estavam proporcionalmente bem de vida. No seu exaus­ tivo estudo de 1936 sobre as famílias da classe operária de Nova York, Seebohm Rowntree descobriu que mais de três quartos do grupo etário de 15 a 25 anos estava acima da linha de pobreza que os de cinco a 15 ou os de 25 a 44 anos es­ tavam lutando para ultrapassar. Velhos o bastante para trabalhar mas muito jo­ vens para iniciar uma família, estes assalariados tinham pelo menos umas duas horas de lazer por noite —e eram atendidos por uma cultura consumista que gi­ rava em torno do cinema. Em 1933, uma jovem lojista enumerou seu orçamento semanal numa carta a uma revista de cinema: “Salários 32 xelins; alojamento 25 xelins; ida ao cinema aos sábados um penny; ida na segunda-feira sete pence; ida na terça-feira sete pence. Isso soma 27 xelins e dois pence. Então há três pence para a Film Weekly e três pence para roupas... As pessoas me acham bem-vestida, mas sem dúvida é porque copio as roupas que vejo nos filmes. Pós, sabonetes e miudezas são aqueles usados pelas estrelas de cinema preferidas. Quando conseguir um au­ mento de salário, vou poder pagar mais uma noite no cinema.” Nem o desemprego era capaz de tirar o fascínio deste mundo de sonhos. No seu estudo sobre as assalariadas adolescentes em Manchester, de 1935-1936, Joan L. Harley descobriu que todas as entrevistadas adolescentes iam ao cinema pelo menos uma vez por semana: metade ia duas vezes por semana, e mais ou menos um quinto ia entre três e seis vezes por semana. Algumas recebiam o dinheiro de seus pais, algumas usavam parte do dinheiro da assistência do governo enquanto outras eram levadas por namorados ansiosos para se aproveitarem do escurinho nos cinemas. Acontecia também que, numa Manchester relativamente próspera, o desemprego entre os jovens raramente durava mais do que algumas semanas. Entretanto, até esses gastos limitados eram impossíveis nas Áreas Especiais. Mas havia uma solução imediata: uma das fotomontagens de Lestrange exibia rapazes desempregados, com ternos acinturados e expressões desafiadoras, coloca­ dos próximos a cartazes do exército, a fotos de campos de trabalho e ao interior de uma cadeia. Essas eram as únicas opções para estes jovens, e voltar-se para o OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA

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crime era bastante natural: “No grupo de jovens apáticos e à toa na esquina surge um que puxa de lado o seu melhor amigo. ‘As coisas não podem ficar pio­ res do que estão. Vamos roubar um carro e nos divertir um pouco.”’ As gangues de bairro estavam de volta, mais numerosas e mais viciosas do que nunca. A renovada conscientização pública estimava o sucesso de romances juvenis como No Mean City, de Alexander McArthur e H. Kingsley Long, que procurava enquadrar a história de um líder de gangue em Gorbals dentro de preocupações ressuscitadas com a delinqüência. No final do livro, os autores reproduziram uma seqüência de manchetes contemporaneas como PÂNICO NUM CINEMA EM GLASGOW, VITIMADO POR GANGUES DE JOVENS”. Como os autores concluíram, “trechos semelhantes podiam ser extraídos ad nauseam dos jornais de Glasgow e nacionais dos últimos anos”. Alguns jovens criminosos continuaram na tradição dos Hooligans de usar roupas extravagantes. O membro de uma gangue do norte de Londres lembrou que a moda da sua época eram as “Oxford Bags, calças que chegavam a ter 50 centímetros de diâmetro; elas eram realmente largas e todo mundo as usava. Eram todas de flanela cinza ou flanela macia, e muito baratas. E sapatos, eles os chamavam de catadores de búzios. Felizmente eu não os usava com muita frequên­ cia, mas eram os que deixavam você aleijado, eles terminavam em ponta. As camisas esporte estavam na moda e, quando eu tinha 18 anos, a moda era o chapéu-coco”. Estes floreios de alfaiataria alimentavam uma crescente preocupação com a criminalidade adolescente durante o início dos anos de 1930, resumida pelo que as autoridades chamavam de “uma epidemia de gangues de jovens ociosos desem­ pregados”. Os filmes de Hollywood eram acusados de recrutarem “centenas” de meninos dos bairros pobres “para as gangues de valentões das pistas de corrida e para os grupos de bandidos motorizados e de ladrões quebradores de janelas de carro”. Manchetes sensacionalistas como “GANGUES DO TERROR SERÃO VAR­ RIDAS DO MAPA” espelhavam uma mudança nas atividades criminosas britâni­ cas. Os novos inimigos públicos eram as gangues das corridas de cães e das pistas de corridas que capitalizavam o imenso apetite britânico —400 milhões de libras por ano - por apostas ilegais. As medidas comparativamente liberais do Children and Young Persons Act, de 1933, haviam tornado mais rigorosas as leis concernentes à mão de obra in­ fantil e reconhecido “cuidado, proteção e controle” como uma possibilidade para os criminosos com menos de 17 anos que não eram considerados com total res­ ponsabilidade adulta por seus atos. Em vez de uma sentença de prisão automáti­ ca, havia uma variedade de soluções em oferta, desde as escolas para delinqüentes que ofereciam terapia e treinamento vocacional até as escolas “industriais” ou a solução mais comum até então - a liberdade condicional. Os jovens ofensores 326 | 1930-1939

eram colocados ainda mais sob o controle do Estado ao mesmo tempo em que eram, assim pensavam os críticos, tratados com especial condescendência. Esta abordagem mais solidária era promovida por assistentes sociais, com conhecimento em primeira máo da vida do desempregado. Em Londorís Bad Boys, S. F. Hatton defendia um programa de supervisão por adultos até a idade de 18 anos. Nas suas descrições de moradores de áreas pobres como “Alf Artful”, “Billy Dustup” e “Reggie Smashem”, ele desculpava a sua delinqüência como “nada mais grave do que os sintomas de uma adolescência vigorosa saudável”. Do mesmo modo, policiais de áreas mais pobres da cidade como Harry Daley compreendiam que um certo nível de delinqüência juvenil estava dentro das re­ gras existentes do jogo. A agitação política, entretanto, era tratada com severidade. Durante todo o inverno de 1931, grandes protestos contra o teste de recursos ocorreram em 31 cidades britânicas, inclusive Londres, Glasgow, Birmingham, Leeds e Newcastle. Eles foram recebidos com golpes de bastão e mangueiras de alta pressão. Em ou­ tubro de 1932, uma demonstração em Belfast fugiu tanto ao controle que o exército atirou na multidão. Duas semanas depois, um enorme comício no Hyde Park, em Londres, degenerou numa série de batalhas entre a polícia e milhares de manifestantes pelas ruas do centro da cidade. Com o crescente número de manifestações em massa, o mapa político da Grã-Bretanha começou a mudar. No mesmo mês do comício em Hyde Park, Oswald Mosley formou a sua mais recente especulação política depois do fracasso do independente Novo Partido: o Sindicato Britânico dos Fascistas. Ao mesmo tempo, o Partido Comunista da Grã-Bretanha começou a crescer. O cenário es­ tava montado para uma repetição em solo britânico da polarização política que já havia dividido a Europa, e, com a liderança moral conferida à classe trabalha­ dora desempregada, a elite fez o mesmo. O colapso foi tão fundo que ameaçava a antes inexpugnável burguesia. Com o capitalismo parecendo não oferecer nenhum futuro, milhares de homens e mulheres jovens e bem-educados mergulharam em políticas extremistas em busca de salvação e esperança. Seus irmãos e irmãs mais velhos tinham expressado o desprezo pelos “velhos” que dirigiam o país com a sua recusa em crescer. Eles pareceram não se importar com nada nem com ninguém, mas a geração que estava chegando à maioridade no início da década de 1930 - atenta às dificuldades dos menos afortunados - afiava sua rebelião numa “furia edipiana quase tangível” contra a Inglaterra. Entretanto, desejar o que W. H. Auden chamou de “a morte da velha gangue” era apenas uma parte disto. O motivo mais autêntico era a raiva do custo humano das áreas pobres e a aparente paralisia do governo. Tempos de desespero exigem soluções extremas, e o comunismo espalhou-se por toda uma geração de escritores, OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA

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artistas e intelectuais britânicos.1 Entre eles estavam Esmond Romilly, sobrinho de Winston Churchill, e Rupert Cornford, bisneto de Charles Darwin. Muitís­ simo sintonizados com “as vibrações de violência do mundo”, ambos lideraram a vanguarda em atos e feitos extremistas. Até 1933, o principal ponto de encontro de estudantes era a campanha pela paz: este foi o ano do famoso debate da Oxford Union que aprovou a moção he­ rética de que “esta Casa em nenhuma circunstância lutará por seu rei e país”. A divulgação do comunismo em Cambridge foi acelerado pela marca antiguerra no Dia do Armistício, em 1933, que descambou em violência entre os protestadores e “camaradas” patrióticos. A imprensa viu isto como um comportamento inaceitável por parte da jovem elite britânica, a quem apelidavam de “jovens hooligans que tiveram o que mereciam por profanar um dia sagrado”. Os Bright Young People tinham expressado seu desdém pelo ideal do cristão muscular da escola pública do século XIX com seu hedonismo andrógino, mas a nova geração de rebeldes privilegiados foi mais direta. Odiando o “jingoísmo anti-intelectual”, eles decidiram levar a luta até o coração da incubadora imperial. Tendo criado um tumulto na sua escola militarista ao distribuir propaganda an­ tiguerra no dia do Armistício, Esmond Romilly fugiu para ingressar na Federação de Sociedades Estudantis, de orientação marxista, onde anunciou a criação de uma revista radical para meninos da escola pública. Em janeiro de 1933, junto com seu irmão mais velho Giles, Romilly lançou o manifesto Out ofBounds (Fora de Limites): A desintegração afeta, no nosso período, toda a sociedade. Ela afeta profundamente a escola pública, mostrando-se em: (1) Confusão de ideias diante dos problemas modernos. (2) Tentativa deliberada por parte das escolas de se excluírem do contato genuíno com realidades políticas e culturais. (3) Uso positivo e gritante das escolas públicas como uma arma na defesa da reação. (4) Oportunidades oferecidas aos fascistas para explorarem a situação. ... Out of Bounds defenderá abertamente as forças de progresso contra as for­ ças de reação em todos os fronts, desde o treinamento militar compulsório até os ensinamentos propagandistas.

1 Estes incluíam o historiador Christopher Hill e Eric Hobsbawn, os poetas W. H. Auden, Louis MacNeice e Stephen Spender, e os espiões soviéticos Guy Burgess e Anthony Blunt - o último pilar do sistema que só foi desmascarado quarenta anos depois. 328 | 1930-1939

Este manifesto mal havia começado a circular quando a imprensa pulou em cima com manchetes como “AMEAÇAVERMELHA NAS ESCOLAS PÚBLICAS”. O comunismo parecia estar entrando no coração do sistema, e o oportunista “sobrinho vermelho” de Churchill estava muito contente de assistir ao progresso. Escrevendo para um jornal nacional, Romilly jogou a carta extremista: “A juven­ tude tem uma clara escolha, não pode haver meio-termo. Ou eles ficam do lado dos parasitas e exploradores para tornar o mundo seguro para a plutocracia, ou ficam com a classe operária para esmagar o sistema capitalista e lançar as funda­ ções da sociedade sem classes.” As vibrações de violência polarizada atingiram o primeiro clímax em junho de 1934, quando Oswald Mosley realizou um encontro gigantesco dos camisas negras no imenso salão Olympia, em Londres.2 Este encontro destinava-se a marcar um momento crucial na história do seu partido. Com os regimes de Hitler e de Mussolini garantidos, Mosley havia adotado elementos chaves de sua iconografia e visão de mundo: as encenações ritualísticas, os temores da cultura de massa americana, os chamados forasteiros usados como bodes expiatórios. A União Britânica de Fascistas também capitalizava a hostilidade das gerações para com a sociedade burguesa, cheia de concessões e decadência. A UBF era um movimento jovem, com estimados 80% de seus membros com menos de trinta anos.3 O seu eleitorado mais importante era a mesma classe que havia dado um apoio crucial a Hitler, operários especializados e semiespecializados. Com uma aceitação significativa tanto no norte industrial como no East End de Londres, ele era destinado a atrair os desempregados. Com a brutali­ dade nazista ainda não exposta, Mosley dispôs-se a seduzir os descontentes dentro de uma atmosfera carregadíssima. Com a sua esquadra arregimentada de “biff boys”, os meninos socadores, vestidos dos pés à cabeça de preto, Mosley compreen­ dia muito bem a combinação de violência e sexualidade. No Olympia, essa atmosfera carregadíssima explodiu. O problema para os protestadores era que, segundo Harry Daley, a polícia de serviço tinha recebido ordem de “não interferir” no que havia sido organizado como um evento privado. O resultado foi que, sempre que alguém com uma pergunta importuna ou um protestador ficava de pé, “os leões-de-chácara batiam no ofensor e o retiravam do salão”. Grupos de camisas negras então atacavam violentamente “os importunos 2 O extremismo do período estava personificado pelas três irmãs Mitford, que adotaram políticas extremas: Unity, que se tornou a mais proeminente nazista britânica; Jessica, que virou comunista e casou-se com Esmond Romilly em 1937; e Diana, que se casou com Oswald Mosley em 1936. 3 Dados consistentes a respeito da UBF são poucos, visto que seus registros foram destruídos quando o partido foi considerado ilegal, em 1940. OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA

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indefesos, que não podiam fazer outra coisa além de ficar de pé e proteger suas cabeças abaixadas com os braços e as mãos até cair no chão”. Daley lembrou que “nunca ninguém tinha visto nada igual”. O incidente no Olympia ocorreu no auge do primeiro quadro membro da UBF - 50 mil em meados de 1934 - e estabeleceu um precedente para a violência política. A maioria dos eventos da UBF em grande escala seguiu um padrão semelhante: forte policiamento do lado de fora e “disciplina fascista” dentro do salão. Em Liverpool, os protestadores foram organizados pelo comitê antifascista local, formado por comunistas, membros do Partido Trabalhista e representantes do National Unemployed Workers’ Movement. Esta colaboração refletia a nova política do front popular do Comintern: a aliança de grupos de esquerda para reprimir Hitler e até defender a democracia. Entretanto, a violência no Olympia acabou com qualquer chance de a UBF alcançar o sucesso eleitoral convencional: a cobertura pela imprensa custou ao partido influentes defensores e os raivosos antissemitas passaram a predominar.4 O palco estava montado para as batalhas de rua que envolveriam a juventude do país na violência que já se espalhara pela Alemanha e a França. A Grã-Bretanha nunca conhecera tamanha divisão política. Tinham acontecido muitas explosões sérias de desordem pública, mas jamais elas estiveram organizadas em torno de ideologias tão definidas e diametralmente opostas. Fosse nas ruas do East End, em cidades provincianas ou nas casas dos privi­ legiados, os membros da juventude britânica estavam em guerra uns contra os outros. O que começou com uma disputa de bairro ou jogo virou um compromis­ so de preferência até a morte. Jessica Mitford lembrou a discussão quando a sua irmã mais velha, Unity, tentou convencê-la a ingressar na União Britânica de Fas­ cistas: “‘Não anseia por ingressar, também, Decca?5É tão divertido’, ela implorava, acenando com a sua nova camisa negra para mim. ‘Não devia pensar nisso. Odeio os bestiais fascistas. Se você vai ser um deles, eu vou ser uma comunista, então.’” Aos 15 anos, Jessica se via numa encruzilhada: “Esta declaração foi mais do que mera tomada de posições contrárias para Boud. O pouco que eu sabia sobre os fascistas me repugnava - seu racismo, supermilitarismo, sua brutalidade.” O quarto que as irmãs compartilhavam tornou-se um microcosmo das forças polí­ ticas que estavam arrasando um continente. Elas o dividiram ao meio: contra a memorabilia comunista de Jessica, Unity exibia suas insígnias fascistas: fotos de 4 Chefiando-os estava o mais notório traidor da Segunda Guerra Mundial, o irlandês William Joyce, também conhecido como Lord Haw Haw, que foi executado em 1947 por seus programas radiofônicos pró-nazistas durante a guerra. 5 Na linguagem familiar, Unity era conhecida como Boud e Jessica, como Decca. 330 | 1930-1939

Mussolini e Mosley, e a suástica nazista. E aí elas encenavam “batalhas campais, atirando livros e discos”. Unity Mitford estava, na época, passando pela sua temporada de debutante. Ela se encaixaria melhor na era exibicionista dos Bright Young People, mas a festa acabara e, no seu lugar, entrou algo muito mais sinistro. Durante sua temporada, ela juntou-se ao ramo Oxford da UBF, mas o período em que passou vendendo o jornal sindicalista Action não durou muito. “Vou para a Alemanha conhecer Hider”, Unity anunciou para a irmã e, em agosto de 1933, ela viajou para Nuremberg para assistir ao primeiro comício desde que os nazistas tinham assumi­ do o poder. Nesse meio-tempo, Jessica “reforçou a minha resolução de fugir e tentar a sorte com os antifascistas”. Ela teve de esperar pelo seu momento, enquanto “aspec­ tos de fortaleza da vida familiar ficaram em primeiro plano de repente, virtualmen­ te afogando todos os outros. Eu me opunha frontalmente a tudo que a família representava, e era, no todo, uma oposição muito solitária”. Lendo os escandalosos relatos da revista da escola pública Red, fundada pelo primo em segundo grau, Esmond Romilly, ela descobriu a sua admiração “sem limites” e fixou-se neles como a sua rota de fuga. Tendo perseguido Hitler com sucesso em Munique, Unity logo passou a fa­ zer parte do seu grupo de amigos. Ela era privilegiada por pertencer à alta classe britânica que fascinava o Führer e que, até a guerra estourar, ofereceria ao regime nazista considerável apoio. Em 1935, o ano do Decreto de Nuremberg que des­ pojou os judeus alemães de seus direitos, ela escreveu um artigo para um jornal de Munique, “Confissões de uma garota inglesa fascista”, que afirmava que “o partido fascista britânico é um partido dos soldados da linha de frente e dos jo­ vens”. A tensão entre as duas irmãs explodiu numa “furiosa discussão que termi­ nou em socos”. Este amargo antagonismo repetiu-se seguidas vezes. A resistência comunista marginalizava os camisas negras e os incitava a cometer mais violências. Ela tam­ bém ajudou a reduzir o número de membros de 50 mil, no verão de 1934, para mais ou menos 5 mil em outubro de 1935. A UBF decidiu explorar seus sucessos no East End de Londres - uma área com um alto nível de população imigrante e de judeus. Meses de escaramuças na área culminaram no início de outubro de 1936, quando uma marcha planejada da UBF através do bairro dos judeus en­ frentou a resistência de contrademonstração com 100 mil pessoas. Como de costume, a polícia foi utilizada para manter os manifestantes longe do pessoal em marcha. Quando os moradores da área fizeram barricadas para impedir o avanço de Mosley, a polícia atacou, mas, como um jovem manifestante, Charlie Goodman, lembrou, “acima havia as casas de cômodos e as mulheres simplesmente se debruçavam dali e jogavam sobre a polícia tudo que tivessem à OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA

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mão, e quando digo tudo, quero dizer tudo: água quente, água fervendo, óleo de cozinha, gordura, urina, pedaços de merda, tudo em que pudessem colocar as mãos”. “O resto da polícia entrou em pânico e alguns deles ficaram ali fazendo ‘Heil Hider’ e esse tipo de coisa, que era muito provocador. Então alguém atirou um tijolo num carro e foi quando as pessoas recuaram um pouco. Eles estavam apenas espancando as pessoas indiscriminadamente, jogando as pessoas para dentro das vitrinas e das lojas.” Quando, na confusão, Goodman esbarrou num policial, “prestes a golpear uma mulher na cabeça”, ele lhe deu um soco na cara e foi preso por uma dúzia de colegas seus. Embora os manifestantes tivessem a satisfação de encenar o mandamento “não passarás”, a publicidade que cercou a Batalha de Cable Street ajudou a au­ mentar o quadro de membros da UBF nos meses seguintes. Mas ficou claro para o governo que este estado de coisas não podia continuar: no dia 1- de janeiro de 1937, o Public Order Act proibiu o uso de uniformes políticos em locais públicos e a formação de organizações semimilitares. Àquela altura, ambos os lados t in h a m um teatro muito maior para seus dramas. *** Durante a primavera de 1936, um golpe liderado pelo exército expulsou o governo da Frente Popular democraticamente eleito na Espanha: um mês depois, o país irrompeu numa guerra civil generalizada. A posição oficial do governo britânico foi a de não fazer nada: em agosto de 1936, ele assinou um acordo de não intervenção juntamente com a Itália, Alemanha e Rússia. A violação deste acor­ do por Hider e Mussolini foi um óbvio polo de atração para uma geração de jo­ vens radicais. Esta foi “toda a questão europeia na sua forma mais nua e crua. Democracia versus fascismo”. Os jovens politizados da Europa sabiam que aquela era a grande demonstra­ ção de intenções. Nos primeiros dias de agosto de “l936, John Cornford infil­ trou-se na Espanha. Mais cedo, naquele verão, ele havia escrito um artigo chama­ do Jovens mentes em prol das antigas : É muito fácil e, para muitas pessoas, muito confortador franzir o nariz para o fanatismo juvenil. Um movimento tão jovem como o movimento comunista é inevitavelmente, às vezes, ingênuo, imatu­ ro, entusiasmado em excesso, e oferece um campo esplêndido para os comerciantes de frases espirituosas de segunda mão. Não obstante, é um movimento sério.” Era hora de testar essa seriedade, alquimizar a teoria no cadinho da ação. Alguns milhares de jovens britânicos viajariam para a Espanha nos 18 meses seguintes para combater o exército do general Franco. O jornalista Tom Wintringham lembrou que a maioria dos voluntários “era de trabalhadores manuais, 332 | 1930-1939

que deixaram a escola aos 14 anos - o usual destino da maioria naqueles dias, não importa o quanto inteligentes ou capazes eles fossem”. Só três dos líderes do Batalhão Britânico - incluindo Wintringham - tinham estado numa universidade, mas “todos haviam experimentado as frustrações e as dificuldades para encontrar trabalho num período de forte desemprego. O seu antifascismo estava ancorado no ódio ao sistema de classes da Grã-Bretanha”. Trabalhando juntos, lutando juntos e até morrendo juntos, todos os níveis sociais podiam se unir numa demonstração prática de princípios comunistas. A revolução oferecia aos visitantes britânicos visões de um novo tipo de sociedade de massa. John Cornford visitou a cidade de Barcelona, controlada pelos anarquis­ tas, onde descobriu que as ruas estavam cheias o dia inteiro: “É como se em Lon­ dres os operários armados estivessem dominando as ruas - é óbvio que não tole­ rariam Mosley ou gente vendendo Action nas ruas. E isso não significaria que a cidade não fosse livre no sentido real. É genuinamente uma ditadura da maioria.” A Guerra Civil Espanhola galvanizou uma geração. A ideia de uma Frente Popular passou do Partido Comunista para um eleitorado muito mais amplo, no ímpeto personificado pelo sucesso do Left Book Club, de Victor Gollancz. Pela primeira vez, a Grã-Bretanha tinha uma classe de intelectuais de base ampla que era ao mesmo tempo de esquerda e internacionalista. O envolvimento na guerra civil espanhola tornou-se um rito de passagem, um ideal muito maior do que o pequeno número de voluntários proporcionalmente menor que eles foram na verdade. O modo com que as classes se juntaram numa Barcelona anarquista, autônoma, foi um exemplo da visão utópica da década de 1930. Entretanto, a realidade era muito diferente. Os jovens voluntários, de todas as classes, cheios de entusiasmo, logo perceberam que haviam entrado num país totalmente diferente, um manicômio caótico de longas e altamente complexas tensões sociais. Eles foram também lançados contra um inimigo cruel. As milícias nas quais serviam eram com frequência mal equipadas em termos de roupas e armas, e também inclinadas a lutas mutuamente exterminadoras. Em vez de se unirem contra o inimigo fascista comum, os comunistas, anarquistas e sindicalis­ tas quase sempre terminavam brigando uns com os outros. Por mais que estivesse disfarçada de ideologia, era uma guerra total. Os voluntários britânicos aderiram por idealismo, mas os riscos da práxis política como autodescoberta foram logo revelados. No final de agosto de 1936, uma estudante de arte comunista chamada Felicia Browne foi a primeira volun­ tária britânica a ser morta. Pouco antes de partir, Browne havia testemunhado a uma amiga numa carta: “Você diz que estou fugindo das coisas porque não pin­ to nem faço esculturas. Se não há o que pintar nem o que esculpir, não posso fazer isso. Só posso produzir o que é válido e urgente para mim.” Para ela, a prática artística empalidecia diante do “terremoto da revolução”. OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA

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Percebendo que “não se pode brincar com revolução”, John Cornford havia se tornado um guerreiro de classe profissional: como Esmond Romilly lembrou quando o encontrou no fim de 1936, ele tinha virado “uma pessoa séria, um rígido disciplinador”. Como o líder de um destacamento inglês comunista predo­ minantemente de classe operária, Cornford havia se tornado “um bom soldado” e uma inspiração para seus companheiros voluntários. Entretanto, na virada de 1936 para 1937, ele foi morto perto da cidade de Lopera, no front de Córdoba. Com esta morte juvenil e carismática, a Frente Popular dos anos 1930 teve seu próprio garoto dourado condenado a um destino adverso. Citado numa homenagem explícita a Rupert Brooke, Rupert John Cornford sofreu um martírio tão mítico quanto esse ícone da Grande Guerra: uma vida sacrificada por uma ideia levada até sua conclusão. A morte de Brooke tinha sido utilizada pelo sistema para dar um rosto humano atraente à matança tecno­ lógica. Em contraste, Cornford evitava sua origem privilegiada: sua violência não era velada, mas celebrada no estilo utilitário, quase de gângster, da época. Ele exaltava o povo e, ao pagar o preço das suas crenças, afirmou o fato de que a elite tem de abandonar os seus privilégios para ingressar na sociedade de massa. Entretanto, essa percepção teria interpretações que os radicais dos meados da década de 1930 não poderiam ter previsto. Desde os meados de 1937, a in­ satisfação e a desilusão espalharam-se pelas Brigadas Internacionais. Diante da superioridade das forças nacionalistas apoiadas pelos fascistas, da contínua desor­ ganização das milícias internacionais e da “confusão desgraçada” que ou matava ou feria mais da metade de todos os voluntários, os intelectuais britânicos começa­ ram a recuar. Para outros, a linha dura sectária dos comunistas, com a insistência de que eles, e somente eles, deveriam liderar a revolução, continuava sendo um grave problema. A agitação não parou. O fim da década de 1930 viu o apogeu do Clube Left Book Club, cujos muitos grupos6 de discussões e atividades - perambular, andar de bicicleta e trabalhar com os desempregados - ofereciam um ponto de entrada na política antifascista para milhares de adolescentes de classe média. Como um convocador de grupos de “universitários diplomados” de Kent escreveu num brilhante testemunho a Gollancz sobre as tendências inclusivas da organiza­ ção: “Entrei no Left Book Club no primeiro mês da sua existência. Eu não per­ tencia a nenhum partido político. A minha visão, é verdade, era de esquerda, mas era uma visão muito confusa, cínica e desiludida.” Os confrontos de rua entre fascistas e comunistas tinham se tornado parte da vida britânica. Em setembro de 1938, uma marcha pelo novo partido de Mosley, 6 Estimado em mais de mil em 1939. 334 | 1930-1939

a UBF, terminou numa batalha de rua entre polícia, os camisas negras e os ma­ nifestantes de esquerda na Parliament Square. Como um observador notou: “Uma fileira de fascistas agora aparece levantando cartazes. Um rapaz com distintivo comunista atravessou e falou com um dos arruaceiros do Mosley. Um dos par­ ticipantes da marcha se virou e disse: ‘Fica de quatro, seu rato comunista.’” Embora tivesse começado a retroceder como um problema nacional, o índice de desemprego subiu ligeiramente durante o ano de 1937: em parte por causa da chegada à maioridade dos bebês nascidos na explosão da taxa de natalidade de 1919-1920. A penúria do nordeste e todas as outras “Áreas Especiais” continua­ va, mas o inaceitável tornara-se quase normal. Em compreensível desespero, o National Unemployed Workers’ Movement perseguia uma nova política de efeitos publicitários: paralisações no meio do Oxford Circus, ocupando o salão de chá do Ritz. Estas foram parar nas manchetes dos jornais, mas não mudaram a si­ tuação: para muitos dos jovens desempregados, a mobilização total seria a única solução para seus problemas. *** No fim de 1937, também se tornou óbvio que outra guerra mundial estava se aproximando, para a qual a Guerra Civil Espanhola não passara de mero ensaio geral. Os últimos anos da década foram marcados por “uma sensação cada vez mais intensa de tempestade em formação”, quando, incontida e apaziguada, a Alemanha nazista anexou a região dos montes Sudetos, a Áustria e aTchecoslováquia. A situação internacional era gravíssima. Em março de 1937, as primeiras fábricas de máscaras contra gases foram inauguradas e sirenes para alarme anti­ aéreo testadas pela primeira vez, enquanto durante o ano inteiro o exército britâ­ nico era aprimorado e fortemente promovido como o “Exército Moderno”. A guerra iminente - ou a sua contraparte, “paz a qualquer preço” - começou a substituir a agenda polarizada dos meados da década como o principal motivador político dos jovens. Os comunistas sentiam-se justificados na sua hostilidade para com o fascismo, enquanto que Oswald Mosley tentava reposicionar a UBF como um partido de paz. Ao mesmo tempo, os piores efeitos do desemprego eram revertidos com o início do rearmamento. Havia dinheiro circulando de novo, e isto significava que a sociedade de consumo na Grã-Bretanha começava a acelerar o seu passo. Para aqueles que trabalhavam nas novas indústrias de serviços, a vida estava melhorando. Mesmo para aqueles na linha de pobreza, o parcelamento tornava o consumo possível. No fim dos anos 1930, havia mais de 2 milhões de carros nas estradas. Depois de 1938, 11 milhões de trabalhadores tiveram o direito a uma semana de férias pagas por ano, uma nova oportunidade de lazer explorada OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA

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pelos primeiros acampamentos de férias na Grã-Bretanha, os Butlins. Fora o ci­ nema e o jazz, outros aspectos da cultura contemporânea americana infiltravam-se em maior abundância. Revistas sensacionalistas como Fight Stories e Action Stories eram vendidas para um número “enorme” de leitores. O consumismo americano havia sobrevivido à Depressão. A mudança de compromisso para prazer foi anunciada por uma nova geração de criminosos. O jovem herói punguista do romance de James Curtis sobre os menos favorecidos, The Gilt Kid, de 1936, quer ser um bom marxista, mas percebe que “toda esta teorização está podre”. Ele protesta com um comunista num clube do Soho: “Escuta, vocês fazem demonstrações, reuniões, marchas de fome e todas essas bobagens. De que adianta isso? Só uns poucos arruaceiros são apanhados e outros poucos ficam com galos na cabeça onde a polícia bateu com seus bastões. Você não pode me dizer que isso faz a revolução ficar mais próxima.” *** The Gilt Kid foi um dos primeiros exemplos do “garoto esperto” na ficção.7 Estes

novos fora da lei não estavam preocupados com a guerra de classes, mas com a possibilidade de reduzir ao máximo o abismo entre querer e ter. Eles estavam pre­ parados para defendê-la, se não com astúcia, então com cassetete, navalha e re­ vólver. Seus locais preferidos eram as ruas e clubes do Soho ou Paddington, e seu meio era povoado por gângsteres das corridas de cavalos, homens e mulheres pros­ tituídos, e pelo submundo dos judeus e gays. Causando sensação na monótona Grã-Bretanha do fim dos anos 1930, os meninos espertos eram os arautos do novo mundo de prazeres americano. Ao mesmo tempo, os métodos americanos de persuasão e medição de massa finalmente encontraram uma posição segura na Grã-Bretanha. Os primeiros es­ forços foram levantamentos do número de leitores realizados por jornais e perió­ dicos, cujos resultados ficavam depois disponíveis para os anunciantes. Este pro­ cesso recebeu um impulso do pesquisador de opinião pública, dr. Gallup, que, depois do seu sucesso nas eleições americanas de 1936, abriu o British Institute of Public Opinion.8 Estas técnicas foram observadas por três jovens radicais, Tom 7 Ver também, de Ronald Westerby, Wide Boys Never Work (1937), de Graham Greene, O condenado (1938), e de John Worby, Spivs Progress (1939). 8 Sempre sensível às mudanças de temperatura, Jessica Romilly arrumou um emprego ali e descobriu que “o ob­ jetivo era compilar informações para o uso de agências de publicidade sobre a reação pública a vários produtos, e com esta finalidade recebíamos formulários rebuscados para serem preenchidos no decorrer de entrevistas de porta em porta. As perguntas, é claro, variavam muito segundo o produto. Entrevistar a respeito de um alimento para o café da manhã ou um produto de limpeza doméstica era bastante tranqüilo, enquanto que o formulá­ rio para um desodorante costumava incluir a pergunta: ‘Quantas vezes você acha necessário lavar as axilas?’” 336 | 1930-1939

Harrisson, Humphrey Jennings e Charles Madge, que decidiram inaugurar a sua própria forma de medição de massa. Em janeiro de 1937, eles formaram a Mass-Observation, que visava a nada mais nada menos do que “a ciência de nós mesmos”. Com experiência em artes, jornalismo, antropologia e política de esquerda, os fundadores perceberam que “pessoas comuns estavam sendo enganadas por uma imprensa complacente e um governo indiferente”. A única reação possível para este bombardeio era “agar­ rar-se aos fatos e expô-los da forma mais inteligente e humana possível”. Na prática, isto significava a detalhada observação das vidas cotidianas em geral igno­ radas pela mídia de massa: a ideia era registrar e dignificar o que em geral se con­ siderava rotineiro. As pesquisas iniciais da Mass-Observation consistiam de três elementos prin­ cipais: estudos detalhados, como o projeto Worktown, onde cada aspecto da vida em uma cidade do norte do país, Bolton, foi observado durante vários meses; uma série de relatórios por centenas de voluntários, os Mass-Observers, coletados em livros como May the 12th> uma pesquisa sobre o jubileu de prata do rei George V; e diários escritos por colaboradores que aderiram “porque queriam ser úteis na luta contra o fascismo e contra a negligência oficial de pessoas comuns”. O relacionamento da Mass-Observation com a pesquisa de mercado era am­ bíguo. Os fundadores culpavam as agências de publicidade e os jornais diários: “Estas grandes organizações baseiam o seu trabalho na hipótese de que a mente humana é sugestionável e miram as suas sugestões para aquela parte da mente hu­ mana na qual predominam os elementos supersticiosos.” Eles visavam a expor estes processos ocultos em pesquisas primitivas como Reactions to Áds - Reações aos Anúncios. Apesar do tom crítico, muitas respostas poderiam ter sido úteis para os pesquisadores de opinião pública a que se opunham a Mass-Observation. A primeira revista semanal moderna ilustrada britânica —o equivalente do­ méstico da Life americana - foi outro produto desta mudança. Montada pelo diplomado em Oxford, Tom Hopkinson, e o refugiado húngaro, Stefan Lorant, a Picture Post publicou o seu primeiro número em outubro de 1938 - dias de­ pois da crise de Munique —com a foto de uma mulher jovem que, apanhada por uma rajada de vento numa feira de exposições, exibe sorridente as suas ligas. Com o seu layout inovador e sua temática política, a revista foi um sucesso instantâneo: em poucas semanas, vendia mais de um milhão de exemplares. Havia um outro sentido em que a Picture Post era um fruto do seu tempo: estava forrada de anúncios de rádios Philips, pó facial “leve como o ar” e cigarros endossados por celebridades. Apesar da sua agenda política, a revista também apresentava artigos sobre cultura popular e a indústria do entretenimento: uma reportagem sobre a instituição britânica Gracie Fields em sua casa, itens sobre astros de Hollywood como Freddie Bartholomew, notícias sobre as músicas mais OS BIFF BOYS E A AMEAÇA VERMELHA

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recentes e as sensações cinematográficas da América. Junto com fotos “cândidas” e uma seção em cores, a Picture Post seduzia tanto quanto informava. O sucesso da Mass-Observation e da Picture Post forçou os intelectuais de esquerda a perceberem que prestar mais atenção às necessidades e sentimentos da massa afastaria a ameaça de guerra de classes. As atrações da revolução estavam começando a empalidecer em favor da integração social. Ao mesmo tempo, o ressurgimento do capitalismo americano oferecia uma terceira via entre fascismo e comunismo. O consumismo de massa oferecia um outro tipo de inclusão so­ cial: conforme observou o independente de esquerda, Claud Cockburn,4ele po­ deria ser representado como uma espécie de democratização da vida econômica”. Esta ideia ainda era nova na Grã-Bretanha, e os jovens estavam na linha de frente. Tanto a Mass-Observation quanto a Picture Post estavam de olho nos ado­ lescentes britânicos. As primeiras pesquisas eram investigações básicas da vida cotidiana, como o relatório de março de 1938 sobre “Organizações Juvenis em Fulham”, enquanto as mais recentes explicitamente visavam a matérias como “Um dia na vida da menina glamurosa” e “Nascimento de uma nova mania de dançar” para seus jovens leitores. Em março de 1939, a Picture Post publicou um editorial, “A juventude no timão”, que, assim como Stanley Hall tinha feito, equacionava romanticamente a juventude com um futuro promissor. “A juventude está no ar”, argumentava o dono da Picture Post, Edward Hulton; certamente todos estão falando sobre isso. Que jornalista não escreve a res­ peito disso? Que político esquece de adulá-la e de lhe fazer promessas? Líderes, Igreja e Estado tentam organizá-la. Até a BBC instituiu uma série com o título “A juventude agradece”. Hulton achou que esta concentração nos jovens era porque a Grã-Bretanha havia ingressado “numa era de transição”, mas latente neste novo foco estava a sombra do extremismo: “Os jovens, devido à sua impa­ ciência e à sua falta de compreensão, são muito intolerantes.” Publicado em 1939, o Britain, da Mass-Observation, com seu título ambicio­ so, captou os jovens do país equilibrando-se entre o conflito e o consumismo. Seus relatórios em primeira mão mostravam que, por um lado, a violência entre a es­ querda e os seguidores de Mosley ainda era virulenta e, por outro, os jovens britânicos afluíam em bando para os novos domos do prazer como “o Locarno Dance Hall, em Streatham, novíssimos, de vidro e aço cromado”. Havia tam­ bém enormes danças ao ar livre realizadas em parques londrinos, nos quais um observador notou “muitos jovens dançando em estilos pouco ortodoxos”. No fim dos anos de 1930, uma cultura jovem diferente havia se tornado parte do cotidiano da Grã-Bretanha. Retornando a York para rever sua pesquisa de meados da década, Seebohm Rowntree observou que quase todos os jovens da classe operária estavam “nos cinemas, nos teatros, nos salões de dança ou dançan­ do”. Um rapaz em Manchester, Frank Findley, se lembrou de passear no fim dos 338 | 1930-1939

anos 1930: “Os garotos vestidos com seus ternos de 30 xelins, com as calças com boca de 50 centímetros, passeavam de um lado para outro imitando os caras durões das telas na época.” Se o tempo estava muito ruim, eles podiam “ir se fortificar” “no Turner s Temperance Bar ou na sorveteria Gottelli s com um bom, quente e muito forte gole de VIMTO, a dois pence a dose”. Independentes ou não dos adultos, os jovens britânicos começaram a viver num mundo comercializado com seus próprios rituais e sua própria imaginação. Este relato de uma menina de Manchester, em 1939, dá uma ideia deste mundo fechado em si mesmo:

SEGUNDA-FEIRA 16 horas Saí da escola com minha amiga, conversamos sobre a escola e os artistas de cinema... A amiga me ligou. Falamos de filmes. 18:10 Assistimos a Its In The Air. 18:30 19 horas Saímos do cinema, falamos sobre filmes, encontramos duas amigas no cami­ nho de casa. Paramos na esquina para conversar com duas amigas sobre roupas, férias e 21:15 garotos... 22 horas Chegamos em casa, jantamos, ouvimos música para dançar, conversamos com a família sobre filmes...

Apesar de sofrer muito com a Depressão, a juventude desempregada não havia explodido na violência que arrasara a Alemanha. Havia muitas razões para isto, mas o consumo teve um papel importante. George Orwell observou que, entre eles, “peixe com fritas, meias de seda artificial, salmão em lata, chocolate com desconto (barras de 150 gramas por dois centavos), os filmes, o rádio, o chá forte, e Football Pools” tinham “evitado a revolução”. Este foi o início da cultura popular, para a qual a juventude britânica já havia desenvolvido um gosto dis­ tinto. Em breve ela se tornaria uma obsessão.

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CAPÍTULO

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Jitterbugs e Ickies

O swing americano e o consumismo dos jovens *** Adolf Hitler é um quadrado e tem o ouvido ruim. Ele é um excêntrico, um pouco amalucado, mas cheio de sentimentalismo. Atraente, mas não maravilhoso. Ele pode chorar lágrimas de crocodilo, mas não dança swing. - "Outstanding Ickies", The Jitterbug, N e 1 (1938)

JITTERBUGS DA CALIFÓRNIA VÂO PARA A CIDADE, 12 DE DEZEMBRO DE 1939

do dia 3 de março de 1937, os componentes da Benny Good­ man Orchestra chegaram ao Paramount Theater, com seus 3.664 lugares, na Times Square, para ensaiar o show de estreia da sua próxima temporada. Eles nao imaginavam que fosse acontecer algo de especial, mas o que viram naquela hora pouco musical os fez pensar se não estariam ainda sonhando. Embora a bi­ lheteria ainda estivesse fechada, já havia uma multidão de seiscentos ou setecentos fãs, a maioria colegiais dos bairros de Nova York, dançando, gritando e acendendo fogueiras para afastar o frio. Às 7:30, os “fãs multiplicavam-se a cada minuto, jorrando das saídas do metrô da Times Square como abelhas de uma colmeia fumegante”. Uma hora depois, a apresentação começou com as primeiras notas abafadas do tema carac­ terístico da orquestra, “Lets Dance”, que lentamente foram ficando mais altas conforme os músicos iam surgindo de dentro do alçapão. Esta composição espe­ tacular teatral garantia que a platéia lotada ficasse de pé, e foi como todos ficaram, dançando freneticamente pelos corredores e aglomerando-se na tribuna da orques­ tra, enquanto os porteiros tentavam, como loucos, recuperar o controle. Essas cenas repetiram-se em cada um dos cinco shows naquele dia: ninguém deu importância ao filme de Claudette Colbert que dividia a bilheteria, Maid of Salem. No fim da semana, a platéia subia ao palco, para ficar mais perto de seus ídolos a fim de achar mais espaço para seus passos acrobáticos. Os garotos do swing, como Goodman mais tarde admitiu, eram mais do que apenas espectadores passivos: “Nós olhávamos para eles, eu acho, [como se] fossem eles o espetáculo e nós a platéia.” A temporada no Paramount marcou o momento em que Benny Goodman e sua orquestra atravessaram a estrada para a fama que, como o estilo de jazz que ele tocava, o swing, se espalharia por todos os Estados Unidos e o mundo ociden­ tal. Sinalizado por frases melódicas acompanhando o solista, o swing fundia a inebriante espontaneidade do clássico estilo “hot” dos anos 1920 com a força dramática de uma grande orquestra. As canções de Goodman, como “Sing Sing Sing”, tinham o arranjo forte do baterista Gene Krupa e a bateria ritmada e sel­ vagem, eram um convite para o frenesi no qual os adolescentes dos meados da década de 1930 estavam felizes em embarcar. A popularidade do swing foi estimulada pelo rádio, a mídia que mais crescia nesse período. Durante o ano de 1937, a orquestra de Goodman apresentou-se regularmente no Camel Caravan da CBS, um programa semanal patrocinado pela marca de cigarros. Usando gravações remotas, assim como estúdios comuns, shows como Camel Caravan e Lets Dance, da NBC, sintonizaram o swing diretamente para os lares de toda a América. Para os jovens fãs, estes “salões de baile de fàz-deconta” eram um novo fenômeno “imediata e inebriantemente real, mas ao mesmo tempo parte do tecido do mundo fantástico dos sonhos”. ÀS 7H DA M A N H Ã

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FÃS C O M A ORQUESTRA DE BENNY G O O D M A N , FEIRA MUNDIAL DE NO VA YORK, 1939

Escutando nos seus quartos de dormir ou inserindo níqueis numa vitrola automática, a jukebox, os adolescentes americanos descobriram que o acesso ao swing era fácil e rápido. Apresentando grandes orquestras compostas de músicos excelentes —a de Goodman incluía Lionel Hampton, Harry James e Gene Krupa em março de 1937 —, o swing pretendia desde o início ser uma música física, ani­ mada, da qual se podia participar. Red Norvo, que tocava o vibrafone na orquestra de Goodman, recapitulou isso ao contar à Variety que o swing “era um ritmo que inspira o ouvinte a acelerar a cadência com um balanço ultramoderno. Você sabe, eles fazem você balançar". A música popular do início dos anos 1930 fora dominada por crooners de “voz doce” como Rudy Vallee e Bing Crosby. Apesar do seu séquito feminino fanático, eles eram artistas de voz macia e atitudes contidas. Com o swing, o compasso da vida se acelerou e, a partir de 1937, introduziu todo um mundo adolescente, com a sua própria gíria, revistas, modas e heróis. Isto foi gerado pelos próprios fãs. “O jazz é uma indústria importante hoje em dia e depende do consumo de mas­ sa”, o editor de Jitterbug notou. “Se o jazz quer continuar existindo, tem de en­ tender que os jitterbugs são importantes.” 342

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O swing abriu um novo capítulo na história da juventude e da comunicação de massa. A surpresa e a condenação demonstradas por muitos jornalistas adultos diante de comícios em massa de swing - “hiderismo musical” foi um comentário1 —só ressaltavam o fato de que os adolescentes americanos estavam operando num comprimento de onda diferente do dos adultos. O swing não era só liberdade musical e física, era uma liberdade muito mais ampla em todas as suas formas: a verdadeira emancipação, não apenas dos músicos negros que foram os pioneiros do estilo, mas dos teens, dos adolescentes cuja maioridade a música anunciava. *** Com sua entrada no mundo adulto adiada como uma questão de política governamental, alguns dos jovens da América começaram a fazer suas próprias exigências. Em julho de 1936, o American Youth Congress emitiu uma Declaração dos Direitos da Juventude Americana,: “Queremos trabalhar, produzir, construir, mas milhões de nós são forçados a ficar ociosos. Nós nos formamos em escolas e faculdades equipadas para carreiras e profissões, mas não existem empregos. Podemos nos encontrar nas estradas, ou nos campos supervisionados do exército, isolados dos amigos e da família. Nós nos recusamos a ser a geração perdida.” Rejeitando o modelo do colegial consumidor dos anos 1920, os ativistas es­ tudantis do American Youth Congress criaram uma nova carta de direitos, afir­ mando a sua solidariedade para com o “povo negro”, trabalhadores em greve e forças progressistas por toda parte. Embora não chegando a afirmar que os jovens constituíam “um grupo social distinto”, não obstante eles declaravam que “nossos problemas e aspirações estão intimamente vinculados aos de todas essas pessoas”. Alegando um eleitorado em potencial de mais de um milhão, eles continuaram agitando no sentido de melhorias práticas. Em fevereiro de 1937, a “Peregrinação dos jovens por empregos e educação” marchou sobre Washington para protestar sobre a morte de um proposto Esta­ tuto Nacional da Juventude. Este estatuto teria aumentado as medidas da National Youth Administration ao conceder educação pública gratuita para estudantes de nível secundário. Mas o organismo juvenil governamental foi estropiado por re­ trocessos e hostilidade da direita. Apesar do seu alto nível de comprometimento e suas boas intenções, a National Youth Administration não conseguiu erradicar os problemas juvenis causados pela Depressão. Muitas das suas medidas eram práticas e esclarecidas. Ele oferecia uma associa­ ção com programas educativos adultos e cursos práticos visando a orientar os jovens 1Cortesia do professor Harry D. Gideonse, da Columbia University, citado no New York Times em 2 de novem­ bro de 1938. JITTERBUGS E ICKIES

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para empregos de tempo integral. Iniciava também um programa de amplitude nacional de assistência aos estudantes do ensino secundário com mais de 16 anos, com um pagamento mensal de no máximo seis dólares. Outro progresso foi a ins­ tituição de projetos para residentes em trinta estados: campos onde os jovens po­ diam ficar até seis meses enquanto trabalhavam, gerenciando a si mesmos e vivendo com seus próprios pares. Entretanto, a National Youth Administration podia alcançar ‘apenas parte dos jovens que estão em circunstâncias desesperadoras”. Embora 500 mil jovens passassem pela NYA nos primeiros dois anos e meio de vida da instituição, tra­ tava-se de um pequeno percentual dos 4 milhões de jovens de 16 a 24 anos de idade ainda desempregados no fim de 1937. Como o presidente do American Youth Congress, William W. Hinckley, se queixou, “para jovens americanos, vi­ vendo no que deveria ser o auge da sua vida, o período da juventude dourada, oferece-se no sétimo ano de crise o privilégio de trabalhar para comprar balas e cigarros”. Apesar de todas as suas tendências socialistas, o grupo juvenil governamental não reduziu o materialismo essencial da vida americana. Os indícios estavam nos próprios documentos da NYA. Roupas eram consideradas “uma despesa essencial” da escola. Como um supervisor notou, “em geral, mais ou menos depois do se­ gundo cheque de pagamento, o garoto aparece no trabalho usando uma calça nova. Elas provavelmente lhe custaram dois ou três dólares, mas são dele e ele as comprou com o seu próprio dinheiro. Talvez com os seus próximos pagamentos ele comprará um par de sapatos. A menina desabrochará num vestido de 2,95 dólares. Você não pode saber o que isso significa para ela”. Apesar da Depressão, a definição americana de cidadania bem-sucedida conti­ nuava dependendo da aquisição de artigos de consumo. Embora os adolescentes americanos tivessem possuído um considerável poder de compra durante as duas décadas anteriores, uma boa parte desse poder, particularmente para os que ain­ da não tinham idade para estar na faculdade, ficava condicionado à aprovação e ao controle dos adultos. Com a oferta de empregos para jovens patrocinada pelo governo, as crianças do baby-boom dos anos de 1920-21 - que estavam completan­ do 16 e 17 anos - decidiram que, se iam ser tratados como possuidores de seus próprios direitos, então exercitariam esses direitos como quisessem. O primeiro mercado juvenil tinha se concentrado na cultura colegial aparente e rica dos anos de 1920. No fim dos anos 1930, com uma crescente proporção de jovens americanos permanecendo no ensino secundário, o mercado de con­ sumidores adolescentes em potencial havia se expandido tanto em idade quanto em classe. Quando os Lynd retornaram a Muncie, observaram que o ritmo ain­ da era definido pelas “meninas de classe alta”. A partir de 1935, promoveu-se uma nova versão do estilo da menina colegial para mulheres jovens americanas sob o 344 | 1930-1939

nome comercial de subdebs —a contração de “subdebutante”, o que refletia a sua origem rica, se não na realidade, pelo menos em aspiração. As primeiras tentativas de atender a essa economia juvenil expandida tinham a intenção de tranqüilizar. Em maio de 1936, a Vogue publicou um exame da ju­ ventude americana com o título “Quinze anos já é velho?” no qual a autora Ruth Pickering opinava: “Na cidade de Nova York, numa época em que fórmulas con­ vencionais são difíceis de encontrar, o antigo direito de exploração juvenil disputa com o direito à proteção dos adultos. Com o título de subdebutante, porque elas freqüentam escolas particulares e suas mães passaram pelo complicado processo de conseguir convites para bailes por assinatura, elas são iguais a todas as crianças na adolescência.” Com fotos sóbrias e um texto que citava Booth Tarkington, a matéria da Vogue não obstante detectava uma precocidade subjacente entre os seus temas: “O jo­ vem quer a independência precoce, se possível. Visões de invadir um Harlem sel­ vagem ou o Village Pirate s Den são miragens nos horizontes da liberdade total. Eles anseiam pelos postos avançados de Nova York porque dizem que ali os es­ tudantes universitários se reúnem, aqueles contemporâneos mais velhos que po­ dem se movimentar livremente. Uma incursão nesse território proibido serve como distintivo de maioridade. Sofisticação é a ambição. Sofisticação é a sua própria palavra usada frequentemente.” Uma independência quase adulta era a meta desse grupo “inquieto”, como era o seu “anseio por maiores limites de idade”. Como de costume, o que não se falava nessa nova precocidade era sobre sexo, e era isso que a mídia adolescente formadora de caráter continuava a policiar. Um dos primeiros usos que a mídia fez do termo subdeb ocorreu numa coluna de conselhos regular iniciada durante o ano de 1935 pelo Ladies Home Journal, enquanto que, em 1936, a Schokstic introduzia uma nova coluna assinada por Gay Head, “Menino sai com menina’, publicada durante muito tempo - foi a primeira de muitas cartilhas detalhas sobre etiqueta. Para muitas mulheres jovens, a castidade ainda era o ideal. As virgens con­ tinuavam sendo “mercadoria de qualidade”. Esperava-se também que elas mol­ dassem a sua personalidade conforme os rapazes com quem saíam: “Os meninos amam dirigir o espetáculo e ser o espetáculo.” Mas a florescente indústria dos conselhos chegou a minúcias quase absurdas para abafar a espontaneidade adoles­ cente - refletindo o lado muito formal e arregimentado da América. Em Etiquettefor the Teens> publicado pelo Home Institute, apoiada pela Igreja durante o ano de 1937, “o conselho amigável, sensato, atualizado - escrito na linguagem dos teem empilhava quarenta páginas de regras implacáveis. Os manuais de etiqueta eram uma projeção adulta tão óbvia de como os adolescentes deveriam agir que acentuavam o fato de que, na segunda metade JITTERBUGS E ICKIES

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dos anos 1930, pais e autoridades estavam preocupados em não perder o con­ trole da juventude americana. Ao mesmo tempo, o uso da palavra-código “teens ’ pelo conservador Home Institute foi um reconhecimento inicial de que havia um mundo juvenil proeminente que se tornara uma força social suficiente para garantir o seu próprio nome enquanto marca. Apesar dos esforços dos adultos, entretanto, seria a juventude do swing a unir todos estes diferentes elementos numa subcultura coerente. *** Em janeiro de 1938, a Goodman Orchestra apresentou-se no seu evento de maior prestígio, bem no coração da cultura clássica, o Carnegie Hall. Naquele mo­ mento, o comportamento animalístico da platéia foi quase ritualizado. A Metronome observou que os jovens ficaram loucos durante o c lim árirn “Sing Sing Sing”: “Um depois do outro, os garotos começaram a criar uma nova dança, agitandose ainda sentados. Homens mais velhos, parecendo pingüins em camarotes tra­ dicionais nas laterais, foram mais adiante e começaram a se sacudir de pé.” No fim, a multidão começou a aplaudir, bater com os pés, ovacionar, gritar”. Mulheres jovens estavam bem na frente. Muitas presidentes de fãs-clubes eram meninas ainda na escola secundária ou na faculdade. As fãs do swing eram mais fáceis de identificar do que seus companheiros masculinos, adotando um estilo que consistia de blusas e suéteres, sapatos sem salto, meias soquete brancas e um vestido curto pregueado que rodopiava para cima na pista de Hanra Era uma roupa adaptada para o conforto, a praticidade e a facilidade dos movimentos. A vocalista da Goodman Orchestra, Helen Ward, notou que, no início, as me­ ninas vestiam-se todas elegantes, mas quando a dança pegou fogo, as garotas começaram a usar saddle shoes”. Isso estava muito longe da composição cuidadosamente policiada da subdeb. Para o jovem fã do swing, Leonard Pratt, as meninas mais conservadoras que usavam “sapatos de salto alto, meias de seda e um bonito vestido azul” ficavam “deslocadas”. Como que desprezando todas as regras de etiqueta, entre as liberda­ des permitidas compartilhadas pelas fãs do swing também se incluía o sexo. “As meninas acenavam para nós e muitos dos rapazes solteiros da banda respondiam com um gesto para que se encontrassem com eles na porta dos fundos do teatro”, o saxofonista de Goodman, Art Rollini, lembrou. “Choviam cartas de fãs para cada um dos componentes da banda, dando números de telefone.” Os fãs do swing do sexo masculino usavam calças largas e paletós compridos, com longas correntes penduradas do cinto para o bolso ou girando no dedo. Cha­ péus pork pie, de copa lisa e abas reviradas, também eram os preferidos, assim 346 | 1930-1939

como suéteres de pele artificial e mangas bolero.2 Muitas das coisas eram copiadas dos estilos dos negros urbanos, como eram as danças executadas por jitterbugs: o shag, o Lindy hop, o Suzie-Q. Benny Goodman lembrou-se claramente de ter visto seu primeiro jitterbug em 1934, quando um dançarino começou a ficar doido. Seus olhos reviravam, braços e pernas começaram a girar como um moi­ nho de vento no meio de um furacão —a sua atenção, concentrada no ritmo, o transformava num derviche rodopiante”. Estas improvisações “neoafricanas” haviam começado quando uma van­ guarda folclórica” começou a improvisar o charleston no Harlem. No seu romance Parties, Carl Van Vechten citou a “primeira aparição oficial” do Lindy hop como tendo ocorrido “Numa maratona de dança negra encenada no Manhattan Casino, em 1928”. A característica mais usual era o afastamento do seu parceiro, quando era possível tentar “qualquer coisa que você imaginasse”. Quando o Lindy hop passou para o lado da platéia branca, virou outra coisa: o termo mais popular para os jovens do swing, o jitterbug, veio dos movimentos saltitantes, nervosos da dança.3 Educada nas danças de ritmo rígido, a geração do fim dos anos 1930 substi­ tuiu a graça e os movimentos fluidos por uma energia rude, espasmódica. Como o New York Times observou, “o jitterbug branco é mais agradável de se ver, mas o seu original negro é uma outra coisa. Os seus movimentos nunca são tão exagera­ dos a ponto de perder o controle, e existe uma dignidade quase inconfundível na sua coreografia mais violenta”. Esta graça era cobiçada pelos fãs do swing que, segundo um colegial do Bronx, “desejavam ter idade suficiente para ir ao Savoy Ballroom, pois era ali que os jitterbugs realmente sensacionais se exibiam”. Como o Lindy hop e o Suzie-Q, a gíria dos músicos de jazz de repente se gene­ ralizou, tanto que ficou sendo o identificador mais fácil de cultura swing para os não convertidos. Cab Calloway ajudou no processo com o seu Hepsters Diction/try, lançado em 1938. Começando com os catí, os músicos de banda, esse glossário cobria cada aspecto da vida do swing. Os fãs eram aüigators, jitterbugs, rug-cutters, que fediam o Suzie-Q ou o “abrir das asas” para os hide-beaters “se sacudirem” numa “passarela de diversão”. Um square, também chamado de icky, era alguém que não entendia a gíria, que era unhep. Estas cunhagens espalharam-se como brilhantina entre as novas revistas voltadas para o mercado do swing: não apenas Down Beat e Metronome, mas as publicações para fãs como Swing, Cats Meow, Jam Session e Jitterbug. Este era 2 Havia também as joias Jitterbug, vendidas na Macys: alfinetes na forma de diferentes instrumentos musicais. 3 Depois do craque de 1929, a palavrajitten substituiu heebie-jeebies, denotando extrema ansiedade. Jittersauce era um termo estabelecido para as bebidas alcoólicas durante a Lei Seca, refletindo o desastroso impacto da bebida ilegal venenosa no sistema nervoso. JITTERBUGS E ICKIES

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um mundo dentro de si mesmo. Em The Diary of a Jitterbug”, o narrador masculino anonimo contou a sua visita ao “grande Festival de Swing no Orchestra Hall , com jitterbugs do Cats Meow”: “Duke Ellington estava lá, suave e sofis­ ticado, e sua banda certamente nos eletrizou.” O impenetrável código do leigo do fim dos anos 1920 tinha sido adotado por uma grande parte da juventude americana. Isto fora percebido como um modismo, mas enraizou-se. Para Benny Good­ man, a mistura racial de sua orquestra e o estilo swing surgiram “do nosso tipo de governo”. O crítico britânico Francis Newton4 considerava que o jazz era uma música de protesto e rebeldia”. A política progressista do New Deal teve um profundo impacto sobre o swing. A figura central nessa associação foi do especialista da industria musical John Hammond, que combinou ativismo polí­ tico com a descoberta, promoção e gravação de artistas como Billie Holiday, Bessie Smith, Fletcher Henderson e Count Basie. A influencia de Hammond sensibilizou Goodman, que havia crescido num ambiente judeu pobre: em 1937, Goodman doou mil dóláres ao Comitê de Au­ xílio à Democracia Espanhola e organizou um show beneficente rbamad^ “Estre­ las para a Espanha . Uma expressão prática da associação entre swing e política esquerdista foi encontrada no primeiro cabaré integrado de Nova York, a casa noturna &front popular Café Society, em Greenwich Village. Anunciado como o “rendez-vous de celebridades, debutantes e plebe”, o clube era freqüentado por astros e celebridades como o boxeador Joe Louis, Paul Robeson e até Eleanor Roosevelt. Músicos negros como Duke Ellington e Count Baise davam “um exemplo e um objetivo” para os jovens negros. Para o escritor Ralph Ellison, a exposição conferida aos músicos negros numa época em que os únicos heróis disponíveis eram desportistas —como o campeão mundial de peso-pesado Joe Louis e o ven­ cedor da medalha de ouro nas Olimpíadas, Jesse Owens - era “novidade no mun­ do lá fora”. Ele pediu que “todos aqueles que escrevem com tanto conhecimento sobre os meninos negros não terem figuras masculinas com quem se identificar considerassem a longa e internacional carreira de Ellington e sua banda”. O relacionamento entre todas essas facções nem sempre foi harmonioso, na medida em que o swing se tornava um grande negócio. Muitos negros nas bandas integradas eram adorados no palco e tratados como lixo quando fora dos refletores. As transmissoras de rádio também temiam os boicotes por audiências do sul e ^ potenciais patrocinadores, e assim limitavam o tempo no ar dado aos pioneiros do swing como Count Basie e Chick Webb. Bandas de negros, portanto, ficavam 4 De fâto, o historiador Eric Hobsbawn escrevendo sob um pseudônimo. 348 | 1930-1939

sem a exposição, a aclamação do público e os ganhos de seus pares brancos. Era uma repetição do Renascimento do Harlem. Nem o vínculo entre a esquerda e o swing era sempre fácil. Havia um abismo de gerações entre os garotos do swing e seus correspondentes mais velhos. A Variety notou que “os adolescentes de 1938, graças ao swing e ao jitterbug, eram espécimes muito diferentes dos jovens sérios, conscientes da depressão do início da década de 1930, que tinham se rebelado contra os mais velhos ingressando em sindicatos e em vários movimentos “progressistas”. Estes jovens, agora quase com trinta anos, nutriam por seus sucessores adolescentes um mal disfarçado desdém”. Entretanto, era impossível deter o swing. No fim de agosto de 1938, 100 mil fãs apinharam-se no Soldier Field, em Chicago, para um evento de massa chamado de Chicago Swing Jamboree. Quase tantos quanto os do lado de dentro aglomeravam-se do lado de fora, empurrando e se acotovelando até que, “com um rugido ensurdecedor”, os portões se abriram. Lá dentro a atmosfera parecia “uma bacanal, um boogie-woogie de salão de segunda classe”: “Parecia que toda a geração mais jovem da cidade —uma geração nascida desde a Guerra Mundial e marcada pela Depressão - soltava os cabelos, perdia os chapéus e dançava por onde houvesse espaço ao som dos ritmos agitados dos gorilas tocadores de jazz.” Quando a banda de Jimmy Dorsey atacou com “Fiat Foot Floogie”, a mul­ tidão, já enlouquecida, irrompeu, correndo para as pistas de dança, escalando as arquibancadas do estádio, forçando a banda a se proteger e quebrando o equipa­ mento de palco. Enquanto a ordem era restaurada, os fãs faziam os seus próprios ritmos para acompanhar um grupo de homens e mulheres negros que serpentea­ vam dançando no meio da multidão. A imprensa de Chicago ficou chocada com esta exibição maciça de “êxtase jitterbug : um jornal chamou de “a mais estranha manifestação de exuberância talvez jamais vista desde a malfadada cruza­ da infantil na Idade Média”. O que mais assustava, porém, era o fato de a multidão ser uma mistura de raças - como os ideais promovidos pela própria música. O swing fez algumas incursões na segregação: as grandes orquestras, por exemplo, integraram-se uma década antes das organizações esportivas ou militares. Este elemento “sincrético” chocou os críticos adultos. O bispo católico de Dubuque denunciou o swing como “diabólico” e “comunista”: “Nós permitimos que sessões de jazz, jitterbug e orgias de ritmos canibalísticos ocupem um lugar no nosso esquema de coisas, incentivando a nossa juventude no caminho da vida fácil para o inferno.” *** JITTERBUCS E ICKIES

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A crescente popularidade e consagração pública do swing representava o fato de que, depois de passar quase uma década perdida e em desvantagem na Grande Depressão, a juventude americana começava a recuperar seu status privilegiado. Isto se refletia na produção de Hollywood. Os criminosos brutais, condenados pelo destino em filmes como O inimigo público número 1 e Are These Our Child r e n foram substituídos pelos garotos de rua de Cidade dos meninos - um grande sucesso em 1938, estrelando Spencer Tracy e o ingênuo Mickey Rooney - que foram vistos reagindo a um tratamento justo e solidário. Eles não eram essencial­ mente maus, apenas injustiçados. O Código de Produção significou que os retratos selvagens de delinqüência juvenil ficaram mais raros a partir dos meados da década. Além dos Dead End Kids - os “garotos abandonados que não prestavam para nada” que, alternando entre ousadia e ameaça, roubaram o Dead End sob outros aspectos exagerados — os principais adolescentes de Hollywood podiam ser encontrados no seriado de Henry Aldrich e de Andy Hardy. Montados no cenário clássico do livro para me­ ninos, a América provinciana, esses filmes eram extremamente populares: o astro do seriado de Andy Hardy, Mickey Rooney, foi a maior renda de bilheteria nos Estados Unidos em 1939. Ao contrário de Hollywood, a indústria musical não tinha um código de con­ duta externamente imposto. Não era possível proibir a música por causa das suas associações. Em vez disso, as autoridades começaram a examinar melhor a associa­ ção entre músicos e drogas, colocada diante dos refletores pela ostensiva prisão de Louis Armstrong por porte de maconha, em 1931 —que ocorreu apenas al­ guns meses depois de Harry Anslinger ter sido indicado como comissário de drogas narcóticas dos Estados Unidos. Os homens da lei tinham os seus próprios esque­ mas de criação de empregos como ninguém mais: com o Volstead Act morto e enterrado, era hora de criar um novo demônio. Anslinger mirava especificamente a maconha como associada ao jazz, e a sua campanha foi incrementada por histórias sensacionalistas amplamente divulgadas. A mais famosa foi o artigo de julho de 1937 que Harry Anslinger escreveu em coautoria com o amanuense de J. Edgar Hoover, Courtney Ryley Cooper: “Maco­ nha: assassina da juventude.” Eles se dispuseram a desfazer a grande popularidade da droga que diziam ser tão perigosa quanto uma “cascavel”. Em confissões sen­ sacionalistas como “Eu fiii um viciado em drogas” da True e em filmes como o sensacionalista Reefer Madness, a maconha estava implicada numa nova explosão de delinqüência juvenil, suicídios e assassinatos emocionantes. A promoção da droga como o novo inimigo público número um por Anslin­ ger teve grande sucesso. Em 1937, a aprovação do Marijuana Tax Act tornou ilegal a sua posse se não fosse por motivos médicos. Ele também buscou estender o elo entre músicos e drogas durante a década de 1930. Quase todas as principais 350 | 1930-1939

bandas gravaram pelo menos uma canção sobre maconha, ou sobre ser “viciado em maconha”. Entretanto, a maconha não chegou em grande grau até a platéia branca. Mesmo o sinótico, se não histérico, levantamento da delinqüência juvenil de Courtney Ryley no fim dos anos 1930, Designs in Scarlet, encontrou muito poucas evidências consistentes sobre seu uso. Essas campanhas não conseguiram impedir que o swing se tornasse uma parte reconhecida de uma tendência geral entre os adolescentes americanos. A pesquisa da Life sobre o “Problema juvenil: 1938” apresentava, entre os seus representantes escolhidos com muito cuidado, um “garoto de escritório” de Maryland, Kenneth Jones, que não fumava nem bebia e queria ser “um político republicano”. Entre­ tanto, este rapaz típico passava o seu tempo de folga do emprego numa companhia de seguros tocando bateria numa banda de swing e escutando discos de Jimmie Lunceford com “sua garota”. Para alguns comentaristas, o entusiasmo destes jovens fãs do jazz oferecia um otimismo e uma energia muito necessários: um tônico para um país cansado. “O swing é a voz da juventude esforçando-se para ser ouvida neste nosso mundo de rápidas transformações”, o New York Times opinou no início de 1939. “O swing é o ritmo do nosso tempo. O swing é real. O swing está vivo.” Conforme a cul­ tura americana continuava a atravessar o Adântico, a excitação musical e os cantos de sereia da liberdade sensibilizavam os jovens europeus que, diante da desgraça do fascismo ou do lúgubre beco sem saída do desemprego, começavam a sonhar com algo mais. *** O swing começou a chegar à Europa no fim da década de 1930. O gosto dos britânicos e dos franceses pelo hotjazz havia se estabelecido durante a década de 1920, e a chama se mantivera viva com um núcleo irredutível de fãs que afluíam em bando para ver astros visitantes como Louis Armstrong. Em 1935, a visita de Cab Calloway aos Estados Unidos foi marcada por um encontro de jazz onde “as pessoas subiam ao palco e depois tentavam arrancar nossas roupas quando saíamos do teatro”. Nos meados dos anos de 1930, havia revistas dedicadas ao tema como a HotMusic e a Swing, e o crítico francês Charles Delaunay publicou a sua revolucionária Hot Discography. A entrada do swing na Grã-Bretanha foi dificultada quando o Sindicato dos Músicos proibiu bandas americanas visitantes, em 1935. A moda prevalecente era a favor dos passos recomendados - o foxtrote, a valsa, o quickstep —mas, lá pelo fim da década, o estilo livre do swing começou a se tornar mais popular. Em novembro de 1938, um repórter do Mass-Observation no Streatham Locarno notou um novo estilo de dança chamado trucking. “A ideia do swing é você ir JITTERBUCS E ICKIES

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inventando enquanto dança: estas pessoas estão fazendo swing com seus pés, troca de pés e bamboleios; é tudo muito diferente dos passos formais do foxtrote”. As danças animais tinham voltado sob um novo disfarce e, como na década de 1910, elas eram, para muitos freqüentadores dos salões de baile, uma interrup­ ção alienígena. Nem na Grã-Bretanha nem na França a adoção do estilo swing foi conside­ rada excepcional. Entretanto, na Alemanha, ser fã do swing era mais arriscado. O regime havia desprezado o jazz desde o início. A visão deles foi resumida por uma líder da Juventude Hiderista no verão de 1936: “O negro tem muita facili­ dade para o ritmo, e sua ‘arte’ talvez seja indígena, mas, não obstante, ofensiva aos nossos sentimentos. Certamente essa coisa pertence aos hotentotes e não a um clube de dança alemão. O judeu, por outro lado, tem tramado estas aberrações de propósito.” A Alemanha nazista tinha sido um Estado muito censurado desde o início. Em setembro de 1933, o ministro da Propaganda Joseph Goebbels instituíra o Reichskulturkammer, com seis seções distintas para rádio, teatro, cinema, redação criativa, imprensa e música. O Reichsmusikkammer dispunha-se a controlar as atividades de cada músico na Alemanha, introduzindo cartões de sócios, sem os quais era proibido tocar em público. Em dezembro de 1937, a música “alienígena” foi oficialmente condenada. O Reichsrundfunkkammer censurou o rádio. Esta mídia fazia parte integrante da propaganda de Goebbels e, fora os discursos e canções nazistas, ele a preenchia com músicas leves. O jazz era um problema espinhoso, tendo gozado de conside­ rável sucesso na Alemanha de Weimar nas mãos de visitantes como Josephine Ba­ ker ou Sidney Bechet, ou de bandas domésticas como os Syncopators, de Stefan Weintraub. Embora visto por muitos nazistas como “a podridão de uma sociedade decadente”, o hotjazz era parte da sociedade tecnológica, consumista, que o re­ gime continuou a promover até o fim dos anos 1930. Era mais fácil dizer que se controlava a mídia do que fazê-lo. Os hot clubs remanescentes faziam uso total das brechas no seu Estado totalitário. Até o fim de 1937, pequenos grupos em Düsseldorf (como o International Rhythm Club), Berlim (o Melodie Klub) e em outras cidades como Leipzig ainda conseguiam comprar discos de jazz produzidos na Alemanha. Ao mesmo tempo, eles podiam viajar dentro da Alemanha para ver as bandas. Graças ao poderoso transmissor da Rádio Luxemburg, eles também podiam escutar shows não censurados e, como as viagens internacionais não foram restringidas até 1938, ir ao exterior encontrar seus ídolos. O status do jazz continuava ambíguo. Ele era ativamente visado pelo grupo policial da Juventude Hiderista depois da lei de 1936. Havia cenas freqüentes, como a destruição de discos que ocorria quando membros da tropa descobriam 352 | 1930-1939

um grupo de adolescentes escutando jazz numa praia do Báltico. Os espiões do Reichsmusikkammer, facilmente reconhecíveis por suas roupas surradas, eram regularmente vistos em nightclubs e salões de dança. Ao mesmo tempo, Goebbels era forçado a ceder ao gosto alemão pelo jazz exibindo, tarde da noite, um mí­ nimo de tépidas produções domésticas na rede de emissoras alemãs. As dificuldades de ser um entusiasta do jazz foram suportadas com boa dispo­ sição porque a música continha a promessa de um outro mundo. O grupo nasci­ do entre 1920 e 1925 sofrerá com a pressão para ingressar na Juventude Hiderista, mas um pequeno, porém persistente, número de hot clubs continuava a levar a vida do jazz até onde fosse possível. Todo os membros do International Rhythm Club, de Werner Daniels, sediado em Düsseldorf, adotaram nomes anglo-ame­ ricanos e se cumprimentavam com saudações como “Swing high”. Identificandose com os negros do Harlem, e não com a Juventude Hitlerista, eles formaram uma banda amadora de jazz antes que o serviço militar os convocasse. O maior grupo era o Hamburg Swing Youth. Centrado em adolescentes cos­ mopolitas como o meio-cipriota Demetrius “Kaki” Geordiadis e o grego nascido na Holanda, Andreas Panagopoulous, uma “turma do rinque de gelo” formouse durante o inverno de 1937. Primeiro, eles se reuniam nas casas de seus pais ricos, vestindo roupas escandalosas e exibindo uma insultante predileção pela mú­ sica inglesa. Nesta fase, seu impulso nada mais era do que se divertir. Entretanto, quando começaram a aparecer em público, desfilando pelas ruas mais elegantes da cidade, assobiando refrãos do swing, os problemas começaram. A introdução da “dança social” chamada swing na segunda metade de 1937 colocou os fãs do jazz em conflito declarado com as autoridades. Baseado livre­ mente no Lindy hop visto no filme americano Broadway Melody of1936, o swing enfatizava os movimentos de braços e pernas soltos dos pares. Havia a dança de rosto colado, mas, segundo o historiador Michael Kater, os parceiros “em geral acompanhavam a velocidade agitada da banda propulsora, aproximando-se e afas­ tando-se um do outro e transpirando sexualidade”. Comparada com o sucedâneo nazista, esta dança selvagem era mais excitante para os praticantes do “Swing Heini” ou “Swing Baby”. Entretanto, ela infringia a rígida disciplina militarista que os nazistas busca­ vam inculcar em toda a juventude alemã. Durante 1937, a SS explicitamente de­ nunciou Benny Goodman e George Gershwin. A isto se seguiram as interdições locais ao jazz dançado em público. Em Hamburgo, o administrador local conde­ nou a dança swing como “um dos mais terríveis produtos de danças negras do pe­ ríodo”. Em Berlim, o salão de baile Moka Efti foi coberto de cartazes de verboten semelhantes. Entretanto, estas tentativas de controle foram ignoradas com sucesso pelo Swing Heinis. O sistema panóptico de Goebbels ainda não estava vendo tudo. JITTERBUCS E ICKIES

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Por sua vez, o vírus nazista atravessara o Atlântico. Em fevereiro de 1939, o German-American Bund realizou seu maior comício até aquele momento no Madison Square Garden. “O salão estava abarrotado com 20 mil homens, mulheres e mui­ tas crianças”, escreveu o investigador disfarçado, John Roy Carlson. “No alto da plataforma dos alto-falantes erguia-se uma enorme figura de George Washing­ ton, ladeada por suásticas gigantescas. De algum ponto nos fundos do salão vinha um som abafado de tambores; como uma legião nazista à paisana, 1.200 solda­ dos marchavam por trás das bandeiras com a suástica e as flâmulas do Partido Nacional-Socialista Alemão!” Apesar da confessada intenção das organizações fascistas de formar grupos de jovens em faculdades em todo o país, os rapazes a quem este programa atraía vinham na sua maior parte “de lares destruídos ou desmoralizados, e tinham registros de crimes sexuais, incorrigibilidade e pequenos furtos ou outro compor­ tamento antissocial”. Carlson notou o diálogo de um seguidor “típico” do padre Charles E. Coughlin: “‘Leia a Justiça Social e veja como solucionar a questão dos judeus’. ‘Como?’ Eu me virei para o jovem adolescente espinhento. ‘Coloque-os contra a parede e ra-ta-tá neles!’” As acirradas batalhas de rua formaram o cenário para o romance de James T. Farrell sobre um jovem seguidor de Coughlin, Tommy Gallaghers Crusade. O seu jovem fascista pode ter sido pouco mais do que um incômodo, mas o Bund foi uma ameaça política mais séria. Formado por Fritz Julius Kuhn, um veterano do putsclfi de Munique, o objetivo Ao Bund era congregar apoio para Hider nos Estados Unidos e dar aos americanos de origem alemã, vítimas de preconceito durante a Grande Guerra, uma oportunidade para conhecerem sua herança cultu­ ral. Nos seus programas juvenis, as crianças aprendiam a falar alemão e a saudar a suástica. Quando Carlson infiltrou-se num acampamento do Bund em Long Island - um dos 24 na América encontrou um mini Estado nazista: “Às três horas um carro apareceu e 12 membros uniformizados do Jugendschaft saíram em fila. O Jugendschaft (a divisão juvenil masculina do Bund) seguia os moldes da Juven­ tude Hiderista. Seus membros usavam botões com a suástica e levavam o seu emblema —um pequeno raio contra um fundo preto. As curtas adagas que car­ regavam tinham a inscrição Blut undEhre (Sangue e Honra), significando aliança eterna à Pátria.” 5 Ele havia emigrado para Detroit a fim de trabalhar na fábrica da Ford e foi incentivado pelo antissemitismo expresso por Ford em Dearbom Independent. 354

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Estes fenômenos malignos ocorriam contra o pano de fundo de uma situação internacional cada vez pior. No verão, o estado de espírito na América era tão tenso quanto seu clima úmido: os jornais diários estavam cheios de notícias sobre a crise de Danzig, com colunas defendendo a posição isolacionista. Em agosto, uma primeira página do New York Daily Mirror retratava um membro do Bund de Brooklyn, de 19 anos, Helen Vooros, fazendo a saudação nazista. O seu testemunho ao Dies un-American Investigating Committee foi inequívoco: “A Alemanha”, ela disse, “esperava conquistar os Estados Unidos no futuro.” Esta ameaça ecoou porque, dez anos depois do craque, mais de um quarto de todos os alunos que abandonaram as escolas estavam tendo dificuldade para encontrar trabalho. Os bebês nascidos na explosão demográfica da década de 1920 estavam perigosamente à solta. Uma importante pesquisa da American Youth Comission, Youth Tell Their Story, relatou que os adolescentes na América “ficam muito à toa, e prefeririam estar fazendo outra coisa”. Courtney Ryley Cooper estimou que “4 a 5 milhões de jovens entre 16 e 25 anos estão fora da escola e do mercado de trabalho, vagando sem rumo suas comunidades em busca de uma válvula de escape para suas energias”. Os jovens da América estavam aparentemente maduros para qualquer coisa —assassinato, motim ou revolução - e naquele momento crucial não havia, segundo o ensaísta e jornalista Walter Lippman, “uma fé garantida” que os fizesse alistar seu apoio. Em um ensaio fundamental, o artigo de capa do número de julho de 1939 da revista Life sobre “Américas Future”, Lippman evocou a ideia de John Fiske do Destino Manifesto da América. “Nossas preferências nacionais valem pouco nos grandes movimentos históricos”, ele concluiu. “O que Roma foi para o mundo antigo, o que a Grã-Bretanha tem sido para o mundo moder­ no, a América será para o mundo de amanhã.” O ímpeto por trás deste olhar de bola de cristal vinha da abertura da Feira Mundial de 1939, realizada em Flushing Meadows, Nova York. Desde a Exposi­ ção de Chicago de 1893, a América havia se sobressaído nesses eventos teatrais. Intitulada “O mundo de amanhã”, a feira de 1939 era uma exibição genuina­ mente global, com contribuições de mais de sessenta nações (excetuando-se a Alemanha). Ao mesmo tempo, as formas aerodinâmicas dos pavilhões e o logotipo trançado da feira do Pherisphere e do Trylon foram reproduzidos pelo mundo inteiro: símbolos de sonho da utopia tecnológica prestes a acontecer. A Feira Mundial atraiu muita publicidade prévia. “Uma vez antevisto o Mundo de amanhã”, entusiasmou-se o Harpers Bazaar, “não se pode mais olhar para trás”. O artigo do Harpers vendia a feira para os leitores adolescentes: “No dia 30 de abril de 1939, vamos começar a olhar para o fututo. Não para o fu­ turo como aquele evocado pelas velhas senhoras nos salões de chá ciganos, mas JITTERBUGS E ICKIES

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o futuro real, contado por cientistas, arquitetos, artistas, inventores e especialistas em iluminação num fantástico mundo novo, erguido de um monte de lixo nas planícies Flushing. Você pode entrar ali como uma menina moderna. Você vai sair como uma garota do futuro. *** Durante este quente e lânguido verão, a Metro-Goldwyn-Mayer estreou O mágico de Oz em Nova York. Foram quase dois anos para esta versão do clássico de Baum

chegar às telas, quase quarenta anos depois da primeira publicação do livro. O estúdio tinha planejado o filme como um épico para competir com o mercado dominado por ShirleyTemple, da Fox, a maior renda de bilheteria de 1936, 1937 e 1938. Ele também estava destinado a coincidir com o estilo da Hollywood con­ temporânea que os roteiristas Florence Ryerson e Edgard Allan Woolf chama­ ram de ‘a debandada de volta às horas simples, despreocupadas, da infância”. Para conseguir esta idílica simplicidade, O mágico de Oz tinha sido uma filmagem extremamente complexa. Com muitos cenários, um imenso elenco de extras e inovações tecnológicas radicais, a produção levou quase seis meses e ultrapassou o orçamento, terminando com quase o dobro do custo de um filme importante da MGM. O estúdio foi obrigado a pagar sérias indenizações e co­ locou em ação um vigoroso ataque promocional em massa que começou em maio de 1939 e continuou crescendo nos três meses seguintes até estourar nas bilhe­ terias no mundo inteiro. Todas as mídias estavam incluídas, fossem cartões-postais gratuitos, distribui­ ção de folhetos, flâmulas nos saguões dos cinemas, cartazes, produtos vinculados e elegantes livros de campanha, ou uma multidão de fotografias posadas e artigos diferentes, cada um visando precisamente às diferentes revistas e jornais mais lidos. A melodia tema do filme, “Over the Rainbow”, tinha sido escrita pelos autores Yip Harburg e Harold Arlen com a intenção de ser uma “canção de saudade”. Interpretada pela protagonista de 16 anos, Judy Garland, em agosto ela foi a mais tocada no país. A MGM decidiu enviar Judy Garland numa turnê que coincidisse com a estreia do filme em cada cidade. A estrela em ascensão seria acompanhada pelo rapaz mais cotado do país: Judy Garland e Mickey Rooney já tinham se estabele­ cido como um dueto no filme de 1938, Love Finds Andy Hardy, e o estúdio que­ ria promover o seu próximo musical, Babes in Arrns. Ambos eram consumados e populares veteranos do vaudeville, mas ninguém poderia ter previsto a reação que se iniciou com a primeira aparição do par - no dia 9 de agosto em Washing­ ton - e ela foi aumentando nos três dias seguintes em Connecticut. 356 | 1930-1939

Em Nova York, a intensa publicidade prévia chegou ao ápice. O concurso para ser um dos 150 membros da “comissão oficial de boas-vindas” havia recebi­ do 250 mil inscrições. Quando Garland e Rooney chegaram a Manhattan ao meio-dia da segunda-feira, 14 de agosto, os poucos selecionados foram submer­ sos por uma “multidão cercada por cordas, que gritava, delirante, transpirando”, de 10 mil fãs que encheram a Grand Central Station. O New York Daily News retratou Judy Garland numa pose de quem está sendo crucificada entre dois policiais que tentavam salvá-la, o rosto contorcido num rito de dor e choque. No dia da estreia oficial no Capitol Theatre, terça-feira, 15, a fila começou a se formar na Broadway às 5:30 da manhã. Quando os 5 mil bilhetes começaram a ser vendidos às oito horas, a polícia estimou haver 15 mil pessoas do lado de fora do teatro, no fim formando uma fila que dava de cinco a seis voltas no quar­ teirão entre as ruas 50 e 51, a Broadway e a Oitava Avenida. Desta vez, os repór­ teres analisaram bem este enxame predominantemente feminino e observaram que “cerca de 60% da multidão era formada por menores de idade”. Pasmos com a recepção que tiveram, Garland e Rooney rapidamente se re­ cuperaram e foram os mais profissionais possíveis nos números de dança e canto que se intercalavam com as performances do filme em si. No final do dia, eles haviam dado sete shows para 37 mil clientes: segundo o Holywood Repórter, “o excedente encheu quase todas as outras casas da Broadway, congestionaram os restaurantes, as lanchonetes e as confeitarias”. Com notícias delirantes, este pa­ drão continuou por quase duas semanas até a última aparição de Rooney no dia 30 de agosto: performances abarrotadas, ruas congestionadas, astros atacados. Outras demonstrações de massa por atores de cinema já haviam ocorrido: mais notadamente depois da morte de Rodolfo Valentino, em agosto de 1926. Entretanto, esta invasão das ruas de Manhattan foi marcada pela natureza da multidão —não vampiresca e não violenta - e a natureza dos astros, desta vez bem vivos. Ela aconteceu quase a despeito de Hollywood, que tinha pouca noção do que fosse o mercado adolescente. Apesar da excessiva publicidade, O mágico de Oz não tinha sido planejado como um filme juvenil, mas como uma história de fadas que havia se subordinado à crescente popularidade dos seus dois astros. Nem eles eram adolescentes típicos. Judy Garland e Mickey Rooney eram produtos altamente especializados de uma educação para o vaudeville inseguro, itinerante: nada parecidos com os garotos da casa ao lado. Eles também personi­ ficavam a elisão etária que marcara o marketing adolescente até então. Embora homenageados por Hollywood como “o espírito e personificação da juventude”, Rooney tinha l,60m de altura, pequeno para a sua idade. Aos 17 anos, podia parecer ter 12, como no seu veículo de 1938, Boys Town: “A maioria dos atores chega a esta idade em que começam a crescer e atingem o que chamam de ida­ de desengonçada”, ele disse, “e aí eles têm que parar, eu não cresci assim.” JITTERBUGS E ICKIES

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A sua coestrela era igualmente excêntrica. Presa por um contrato ao “reino feudal” da Metro-Goldwyn-Mayer em 1935, Judy Garland tinha passado por uma reforma desde os 13 anos de idade. Seu corpo —deficiente pela perspectiva de Hollywood —foi impiedosamente remodelado: cintas para a cintura, jaquetas para os dentes, benzedrina em 1937 quando o seu peso se tornou excessivo. Com 16 anos durante a filmagem de Oz, Garland tinha os seios enfaixados para pa­ recer ter 12 - algo entre a Dorothy do livro e a adolescente desabrochada do Oz no teatro, em 1902. Mas o processo industrial de transformar humanos em astros e estrelas não significava nada para os fãs. . A fome da multidão jovem —por algo que fosse deles, por uma desculpa para se expressarem - fez o evento. Uma vez dentro do Capitol, eles encontraram o que queriam: a nova tecnologia estonteante que dava às seqüências coloridas “uma estranha, acentuada qualidade” e oferecia uma metáfora para sua própria situação. A vida insípida de Dorothy abrindo-se numa busca de liberdade, amiza­ de e transformação, onde você podia encontrar amigos como você mesmo e ser quem você queria ser. No dia 27 de agosto, Judy Garland e Mickey Rooney visitaram a Feira Mun­ dial, que se manteve aberta especialmente para a recém-coroada realeza da nova cultura juvenil. Durante cerca de duas horas, eles viajaram no Stratoship, no Aerial Joyride, na Road ofTomorrow e ao redor do Ford Building. Eles visitaram o Theater of Time and Space e o Theme Exhibit of the World s Fair, onde você podia olhar lá embaixo a “Democracia”, “a cidade jardim planejada e integrada do futu­ ro”. Foi, Garland mais tarde lembrou, “a noite mais maravilhosa da minha vida”. No dia 29 de agosto, a Macy s de Nova York causou furor com anúncios de página inteira para os “Vestidos de Judy Garland” em liquidação no seu “Depar­ tamento Juvenil” especial. Havia também artigos vinculados aos shows no Capitol e uma lateral na página mostrando um chapéu do “Mágico de Oz”. “Desenhadas e escolhidas pela própria Judy Garland”, estas peças de crepe e lã acinturadas ti­ nham como alvo “as teenagers que têm exatamente a idade de Judy... meninas que estão crescendo com ideias adultas. Elas acreditam firmemente que ninguém é jo­ vem demais para um certo glamour”. Três dias depois, a Europa entrava em guerra.

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CAPÍTULO

22

Conquistadores e senhores feudais

A Juventude Hitlerista na guerra e em casa *** Em cada era histórica uma lei tem invariavelmente comprovado a sua imutável verdade: o jovem sempre triunfará sobre o velho. As velhas nações devem desaparecer quando soar a hora. Quem com toda a razão pode esperar por qualquer outro resultado nesta época em que uma nação, consciente do poder da sua juventude, vê em outra apenas um grupo de velhos brigões que perderam a fé no seu próprio povo? Expressando isso de outra forma, o segredo de nossas vitórias militares está na nossa conquista sobre os sintomas da idade. - Schwarze Korps, em publicação da SS, agosto de 1 9 40

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foi uma das invenções chaves do século XX, então a Alema­ nha nazista foi sua mais vigorosa manifestação: um Estado quase oculto construído em torno de princípios de guerra, sacrifício, morte e controle total. Como o ca­ beça do governo, dr. Robert Ley, afirmou, na “Alemanha Nacional-Socialista, isso de individual e privado não existe”. No mundo dos nazistas, não havia meio-ter­ mo. Tudo era preto e branco, a favor ou contra. Este era o nacional-socialismo reduzido a uma rígida escolha, vitória ou aniquilação, e os adolescentes da Ale­ manha estavam na linha de frente. Embora a vasta maioria dos jovens alemães fosse da Juventude Hiderista em setembro de 1939, isso não era o suficiente. Logo depois de estourar a guerra, havia pelo menos quatro organizações com responsabilidade de policiar os jovens, punir dissidentes ou relapsos com uma variedade de progressivas multas: prisão durante o fim de semana, campo de trabalhos forçados, campo de concentração ou execução. Dos mais ou menos 1.800 internos mortos por motivos políticos durante a Segunda Guerra Mundial na Zuckthaus Brandenburg, uma das prisões, 75 tinham menos de vinte anos, 22 eram estudantes e alunos de escolas, e um tinha acabado de fazer 16 anos. A mobilização total imposta pela guerra exigia ainda mais controles, até mais fanatismo, conforme as obsessivas experiências dos nazistas com a educação atin­ giam novas altitudes. Em dezembro de 1940, Adolf Hider esboçou sua visão para as novas instituições de elite da Alemanha nazista. Estas deveriam admitir os filhos de operários e camponeses que antes não teriam como ingressar na edu­ cação superior: “É maravilhoso imaginarmos um Estado no qual, no futuro, todos os postos serão ocupados pelos filhos mais capazes do nosso povo, inde­ pendentemente de suas origens, um Estado no qual o berço nada signifique e o sucesso e a capacidade sejam tudo.” Mas, como sempre, havia um inimigo mortal. No mesmo discurso, Hider vituperava contra a democracia: “Estes dois mundos são os que se confrontam mutuamente hoje. Do lado deles podemos ver um Estado governado por uma fina crosta, a classe alta, que manda seus filhos automaticamente para instituições específicas como a Eton College. Do nosso lado vemos as escolas Adolf Hider e os Institutos de Educação Política Nacional. Dois mundos. Em um caso, os fi­ lhos do povo, em outro, apenas os filhos de uma aristocracia financeira. Eu re­ conheço que um dos dois mundos terá de ceder.” Depois de 1939, a Alemanha fascista lançou-se contra as democracias capita­ listas. Antes, o Führer havia condenado o terceiro elemento neste jogo de poder global, a União Soviética, e na verdade havia subido ao poder nas costas do rai­ voso anticomunismo do seu partido. Depois do pacto soviético-germânico de agosto de 1939, entretanto, a máquina de guerra nazista estava livre para voltar os olhos em direção à Europa Ocidental. O regime stalinista, enquanto isso, começava a

SE O TOTALITARISMO

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guerra participando da divisão da Polônia. Entre as forças contrárias das três sociedades de massa, a juventude da Europa foi apanhada num torno inflexível. * * *

Em setembro de 1939, a juventude alemã estava mais bem preparada para a guerra do que qualquer outra no mundo. Com o seu treinamento geral prémilitar e especialização em formações naval, automotora e aérea, a Juventude Hiderista entrou facilmente para a máquina de combate altamente treinada que, por algumas temporadas, varreu tudo o que havia à sua frente. Os países caíam como peças de boliche: Polônia em outubro de 1939, Países Baixos em maio de 1940, Bélgica duas semanas depois, França pouco menos de quatro semanas depois. Campanhas bem-sucedidas foram empreendidas na Noruega, na Dina­ marca, na Finlândia, no Norte da África e na Rússia ocidental. Quando a guerra estourou, a Juventude Hiderista contava com 8.870.000 garotos e garotas. Os mais jovens tinham nascido em 1929, os mais velhos em 1921, e já tinham passado por anos de treinamento rígido. Militarismo e expansão faziam parte da ideologia nazista desde o seu início no Mein Kampf de Hider: “Países oprimidos não serão trazidos de volta para o seio de um Reich comum por meio de inflamados protestos, mas por uma espada poderosa.” A afinação deste instrumento havia se acelerado no fim da década de 1930, com o êxito das anexações de Hider e o refinamento do sistema educacional nazista. A grande maioria dos adolescentes alemães não tinha nenhuma experiência de democracia, livre expressão ou livre movimentação. O regime tinha uma profunda compreensão do que motivava a juventude alemã, sua necessidade de atividade e independência, satisfeita por meio de um sistema de educação que enfatizava mitos nacionais românticos e também da promoção de esportes, de atividades semimilitares e de uma ideologia racista extremada. Como Adolf Hider escreveu em Mein Kampfi “Quem quiser viver deve lutar, e quem não quiser combater neste mundo de lutas eternas não merece estar vivo.” O entusiasmo altruísta e o idealismo inconseqüente tinham feito parte da cultura juvenil alemã desde os primeiros dias do Wandervogel. O continuum en­ tre servir na Juventude Hiderista e no exército era tão fluido que a maioria dos jovens alemães fazia a transição sem questionar. Muitos ingressavam pela aventura, como lembrou um operador de rádio da Luftwaffe: “Eu tinha só 17 anos e ain­ da não fazia a barba - considerações políticas não foram determinantes na mi­ nha escolha. Éramos garotos arruaceiros, valentões, e queríamos experiências e aventuras.” Até quem duvidava, como Melita Maschmann, com idade suficiente para se lembrar do resultado do último conflito, foi tomado pela febre de guerra. Viajando CONQUISTADORES E SENHORES FEUDAIS

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para o leste de trem, em direção aos territórios ocupados, ela teve uma revelação: “Uma voz dentro de mim de repente falou: ‘É guerra: agora você não tem mais nada a temer/ ‘O que você quer dizer?’, eu perguntei. ‘Não compreendo.’ Por algum tempo fez-se um silêncio dentro de mim e então uma voz respondeu: ‘Quando você morre não tem mais nada a temer - tem?’ ‘Não’, eu disse, ‘Não tenho.’ ‘Bem, para você mesma, agora você morreu.’ Tudo que Eu era fora absorvido pelo TodoT Os jovens da Alemanha foram varridos por uma onda aparentemente incontrolável de euforia nacionalista. As surpreendentes vitórias de 1939 e 1940 legitimaram totalmente a ideologia nazista para a maioria dos alemães. Não apenas as humilhações de 1918 haviam sido revertidas, mas os pronunciamentos mais exaltados de Hitler também tinham se tornado uma realidade concreta. A fundação do Reich de cem anos parecia iminente - não apenas dentro da Europa, mas no mundo inteiro - e esse seria um império da juventude alemã. Na virada da década de 1940, eles se sentiam invencíveis, parte de um juggemaut que ninguém mais segurava. *** Depois de deflagrada a guerra, qualquer pretensão de que a Juventude Hiderista não fosse uma organização militar desapareceu totalmente. Baldur von Schirach logo dispôs-se a direcionar o vasto recurso de quase 9 milhões de jovens alemães para as muitas e variadas exigências de uma guerra relâmpago, a chamada blitzkrieg. Durante os últimos meses de 1939, mais de um milhão de jovens hideristas foram utilizados ativamente no esforço de guerra. Pelo menos a quarta parte de todos os seus líderes tinha sido imediatamente convocada de modo que o posto de Unterbannfuhreryo responsável por quinhentos á seiscentos meninos, foi confe­ rido a rapazes de 16 a 17 anos; juventude realmente liderando a juventude. O frenesi de atividades que antecedeu à guerra estava agora concentrado em atender à Kampfàz. pátria. Todos os rapazes de 16 e 17 anos em condições físi­ cas foram imediatamente convocados para ajudar na colheita, como parte do servi­ ço obrigatório no campo. Nas cidades, os jovens hideristas entregavam cartões de convocação para o serviço militar e de racionamento. As meninas do Bund Deutscher Mádel e do Jungmãdel ajudavam a evacuar as crianças pequenas das zonas de guerra na Alemanha oriental. Algumas também trabalhavam nas equipes dos hospitais de campanha e nos jardins da infância do Estado, e atuavam como re­ cepcionistas nas estações de trem, oferecendo bebida e comida para as tropas em trânsito. Toda a Juventude Hiderista colocou mãos à obra indo de casa em casa e co­ letando materiais para o esforço de guerra: cobre, lâminas de barbear, sucata, 364 | 1939-1943

papel, latão e garrafas. Estas tarefas corriqueiras eram empreendidas com tanta paixão quanto qualquer competição esportiva. Um ex-jovem hiderista lembrou-se de um colega entusiasmado: “Nas costas, uma sacola cheia de garrafas, na mão es­ querda, uma cesta cheia delas, equilibradas apenas por uma rede grande na mão direita, também cheia de garrafas. E tudo sob um rosto cuja expressão era como se, por intermédio dele e das suas garrafas, que a guerra seria ganha”. Em 1940 —ano designado como “O ano do julgamento” para a Juventude Hiderista -, Baldur von Schirach foi substituído como Reichsjugendfurher por Arthur Axmann, que se dispôs a aperfeiçoar a organização e adaptar melhor a Juventude Hiderista aos requisitos militares. A nova programação de treinamentos exigia que o Jungvolk passasse duas horas por semana em exercícios físicos e qua­ tro em esportes de equipe nas manhãs de domingo. Para aqueles adolescentes apro­ ximando-se da idade de combate, havia quatro horas semanais de treinamento de tiro ao alvo e exercício na terra. A maior tarefa especificamente confiada à Juventude Hiderista era a da ad­ ministração do império alemão em rápida expansão. Na Europa ocidental, os con­ quistadores instalaram governos solidários que lhes permitiram governar com uma quantidade razoável de autonomia desde que seguissem as orientações nazistas. Muitos postos foram ocupados por organizações fascistas de longo prazo, como a Nationaal-Socialistische Beweging de Anton Mussert, nos Países Baixos. A França foi dividida. O sul foi chefiado pelo marechal Pétain, enquanto que a Zona de Ocupação, no norte, era dirigida pelo general nazista Otto von Stulpnagel. Nestes países, a vida seguia o mais normalmente possível depois de uma invasão, a não ser que você fosse um judeu. Na Holanda e na França, os judeus foram submetidos a uma quantidade crescente de controles e restrições até a in­ trodução universal da estrela amarela no verão de 1942. No leste, entretanto, a total natureza do terror nazista foi imediatamente desencadeada. A campanha na Polônia foi marcada pela extrema selvageria dos Einsatzkommandos: o objetivo era eliminar totalmente as classes governantes e profissionais da Polônia, e foi assim que padres, intelectuais, professores - na verdade, qualquer um de proeminência local -, todos foram simplesmente levados embora e executados a tiro. O plano nazista visava a reocupar trechos inteiros da Europa com a sua raça escolhida, os grupos de minoria alemã da Europa Central mais ao leste e os ale­ mães étnicos das muito disputadas áreas da Alta Silésia, do “corredor” de Danzig, a Prússia ocidental e a Prússia oriental. A seção da Polônia ocidental renomeada Warthegau foi especificamente escolhida por Hider como o campo de testes para o estabelecimento de satélites alemães racialmente puros. Ele escolheu Himmler e Axmann para a implementação dessas políticas, em conjunto. Esta era a nova fronteira, e os membros da Juventude Hiderista eram os pioneiros. CONQUISTADORES E SENHORES FEUDAIS

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Melita Maschmann chegou a Poznan como chefe da imprensa oficial em outubro de 1939. Ela achou a terra fria e hostil, as cidades, malcheirosas e arcaicas, e o povo, idiota e degradado. Entretanto, suportou a missáo de colonizar a Polônia com alemães étnicos. Em contraste com alguns dos seus colegas “alemães do Reich”, que na visão dela estavam “se livrando de neuroses pessoais no seu comportamento político”, Melita acreditava no seu próprio “serviço nobre e difícil” como mais tar­ de escreveu, “pelo qual acreditamos estar cumprindo o nosso dever para com o Reich. Para o indivíduo, isso significa mais do que uma elevação da autoestima”. Apesar do ambiente hostil, o “trabalho de colonização” ajudava a curar as “feridas que o nosso senso de honra sofrerá na nossa infância e nos primeiros anos de juventude”. Viajando por Warthegau como “missionária cultural”, Masch­ mann encontrou compensações para as difíceis condições de vida: “A burocracia ainda não estava no comando aqui: quase todos eram pequenos reis nas suas pró­ prias esferas de ação. Havia espaço para coragem, imaginação e empreendimento.” Com o passar dos meses, ela percebeu que seu trabalho simbolizava uma opor­ tunidade para que as mulheres alemãs provassem sua igualdade. Entretanto, essa tarefa imediata ainda não estava terminada. Enviada no ve­ rão de 1941 para um acampamento “Aventura no Leste” num distrito remoto, Maschmann submeteu-se ao edital do seu Führer, onde ele dizia que “não deve­ mos desperdiçar nossas forças nem por um minuto”. Ela se viu assoberbada por responsabilidades adultas: “Excessivas exigências nos eram feitas o tempo todo. Tínhamos de nos forçar a adotar um ar de aparente superioridade, independente­ mente de ser ou não internamente maduras o suficiente para lidar com uma situação, e assim descobríamos que as coisas que tentávamos fazer em geral ‘não davam certo’.” Os dias impetuosos da blitzgrieg estavam quase no fim, conforme o campo de batalha mudava do ocidente “civilizado” para o leste bárbaro. Em junho de 1941, Hider rasgou o pacto nazista-soviético e mandou 3 milhões de alemães para o leste, atravessando as velhas fronteiras polonesas e romenas. Seria uma guerra de destruição total. Um dos apanhados no avanço foi um judeu alemão de 16 anos chamado Solomon Perel: “Sempre que soldados desconfiados tinham a mais leve dúvida a respeito de um homem, mandavam que ele abaixasse as calças. Se fosse circuncidado, eles o xingavam e mandavam que se juntasse ao grupo que ia para a floresta. Ali, ele era executado.” *** A abertura de um segundo front também cimentou a crescente influência da SS dentro da Juventude Hiderista. Para o jovem ambicioso, ingressar na SS era a 366 | 1939-1943

opção preferida. No fim de 1940, a Waffen-SS era composta de 150 mil - um exército distinto selecionado especificamente para a guerra no leste. Durante o ano de 1941, o czar do recrutamento da SS, Gottlob Berger, começou a apontar sua mira para os jovens de 17 a 18 anos da classe de 1923. Em fevereiro de 1942, Himmler emitiu uma diretriz secreta informando que a Waffen-SS podia recrutar à força jovens menores de idade sem a permissão de guardiães ou pais. Nos territórios ocupados, o envolvimento inicial da SS foi na administração, deixando a Juventude Hitlerista e o Bund Deutscher Mãdel fazer o básico. Mas, depois de 1940, o imperativo de retorno à terra, de que foi pioneiro o Artamanen, grupo juvenil agrário-racista ao qual Himmler pertencera, tornou-se prioridade máxima. O Landdienst, atrelado ao SS depois 1938, tornou-se o foco principal. “Bons camponeses de defesa” eram o que Himmler queria: em outubro de 1940, Artur Axmann confiou ao Landdienst a tarefa de colocar a “declaração de guerra num mundo liberal” em “uma base muito mais ampla”. A importância dessa política foi decifrada em 1942, designado como o “Ano de Serviço no Leste e na Terra”: segundo Axmann, “os jovens devem estar inti­ mamente ligados a este território anexado. O leste é o destino da Alemanha”. Naquele ano, 18 mil jovens hitleristas serviram na Ucrânia e na Polônia, enquanto 30 mil garotos e garotas serviam no leste. Como Maschmann, eles trabalhavam como colonizadores, professores e fazendeiros, ajudando a criar uma infraestrutura dentro de uma região fulminada, despovoada. Uma parte importante deste ser­ viço na terra era doutrinar a juventude germânica dos territórios ocupados. A maioria fazia o que seus novos senhores feudais lhe ordenavam a fim de sobreviver. Entretanto, uma pequena minoria por toda a Europa norte-ocidental apoiava ativamente os objetivos e as atividades nazistas: uns poucos estavam com­ prometidos com os fascistas, porém, muitos mais acreditavam na visão nazista de uma Europa recentemente unida. Nisto, a luta contra os odiados bolchevistas era um ponto crucial. Jovens da Dinamarca, Holanda, Bélgica, Estônia, Latívia, Noruega e Alsácia-Lorena afluíam em massa para o recém-expandido Reich. Uma vez aprovados como racialmente puros, eles passavam pelo Nationalpolitische Erziehungsanstalten para completar a doutrinação. Essas escolas de elite tinham recebido o sinal verde para a expansão depois do discurso de Hitler em dezembro de 1940 e se tornaram mais agressivamente ideológicos na medida em que eram cada vez mais dominadas pela SS. Conforme a guerra continuava, muitos professores da Nationalpolitische Erziehungsanstalten experientes foram substituídos pelos indicados pela SS. Estas escolas também começam a se espalhar por todos os territórios do leste, iniciando jovens escolhidos de toda a Europa ocidental ocupada nas doutrinas de superioridade racial e ex­ trema violência. A melhor opção de carreira era servir na Waffen-SS. CONQUISTADORES E SENHORES FEUDAIS

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Embora em número menor, as escolas Adolf Hider eram ainda mais fanáticas. O princípio central do seu currículo era uma inquestionável aceitação das dou­ trinas e da mitologia nacional-socialista, que corrompia o princípio professado das escolas de “autogoverno” pelos alunos. Seu propósito primordial era criar uma nova classe que administraria o império nazista em rápida expansão - num eco do veloz desenvolvimento do sistema de escolas públicas britânico nos mea­ dos do século XIX. Esta burocracia, entretanto, não envolveria qualquer sugestão de ideais cristãos, mas a brutalidade da total subjugação racial. Solomon Perel, renomeado Josef Perjell, chegou a uma dessas escolas de elite em 1942. Ele convencera os capturadores alemães de que era um alemão étnico e, portanto, um candidato preferencial a uma rápida carreira nazista. “O pátio era ladeado por casas residenciais de dois andares. Havia uma piscina olímpica, uma pista de corrida coberta de cinzas e várias áreas para ginásticas e jogos de equipe. Na extremidade do pátio, na cumeeira de alta estrutura neogótica, ficava a inscrição Kraft durch Freude (Força pela Alegria). Neste prédio ficava a sala de jantar.” Jovens de todo o novo Reich alemão freqüentavam a escola, que era destinada a “treinar novas gerações de líderes para as várias organizações do partido”. Os estudantes eram agrupados em várias casas, cada um com uma esfera especial: ma­ rinha, força aérea, comunicações, Juventude Hiderista motorizada e a SS. Até os móveis e os acessórios eram ideológicos: nos quartos de dormir havia lemas sobre “como a pureza do sangue germânico’, estava sendo preservada principalmente nas áreas agrícolas rurais”. Outro cartaz reproduzia a exortação de Hider à juven­ tude alemã: “Resistente como aço Krupp.” Armado com a adaga “sangue e honra” da Juventude Hitlerista, Perjell ingres­ sou no regime, estudando Mein Kampft O mito do século vinte, de Alfred Rosenberg, e participando das aulas de Estudos sobre Raça que ensinavam “Os traços característicos e distintos dos judeus”. O rapaz de 17 anos estava aterrorizado por ser “um combatente solitário num mar de suásticas”: “Percebi que havia en­ trado na cova do leão. Se - Deus me livre - eles descobrissem que eu era um ju­ deu, teriam certamente me estraçalhado como animais predadores. Uma vez com este medo terrível alojado dentro de mim, eu não conseguia mais me livrar dele.” Perjell tinha de cantar um refrão traduzido como “Estaremos melhores quan­ do o sangue dos judeus jorrar de nossas facas”: “Algo terrível, um ódio desumano e bárbaro, aderia a este canto. A batida das botas alemãs com tachas de ferro no chão podiam ser ouvidas à distância. Milhões de pessoas aterrorizadas fugiam diante delas. As palavras de outras das suas canções anunciavam ocupação e des­ truição: ‘Wir werden weiter marschieren, bis alies in Scheiben fallt / Heute gehõrt uns Deutschland und morgen die ganze Welt.9(Marcharemos para adiante até que tudo seja destruído / Hoje a Alemanha é nossa, amanhã será o mundo todo).” 368

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Os jovens entravam marchando no refeitório, decorado com flamejantes suásticas: “Ninguém se sentava logo. Todos ficavam de pé, duros e eretos como bastões, os olhos direcionados para um pequeno balcão sob o alto teto na frente do saguão. Ali, atrás de um microfone, sentava-se o líder da casa preparando-se para falar. Solenemente ele esperava até que o último sussurro se calasse... Um silêncio mortal reinava. E o líder da casa falava: a acústica do saguão, que era comparável à de uma catedral, amplificava a sua voz... Eu entendia uma ou outra palavra: ‘Manter a raça pura... ser forte.’” Dentro dessa elite, a Waffen-SS representava o auge máximo. Como um mem­ bro lembrou, este grupo privilegiado “era o primeiro a receber jaquetas de camu­ flagem: eles tinham os melhores equipamentos; e eles sabiam que tinham a honra de ser usados onde eram desesperadamente necessários. O pensamento predomi­ nante na cabeça de todos era: ‘Quando iremos para o fronP. onde será a próxima missão, o próximo teste?’” Estas eram as tropas de choque do nazismo, a perso­ nificação máxima das exigências de sacrifícios feitas à adolescência pelo regime. Eles tinham nascido para morrer. Setembro de 1942 viu uma imensa convocação de todos os movimentos fas­ cistas da Europa em Viena para um comício, a fim de fundar a “Liga Juvenil Eu­ ropéia”. Isto pretendia cimentar a nova ordem germânica. Entre os participantes estava o movimento juvenil fascista, o movimento juvenil da Falange Espanhola, o Walloon Rexist Youth, a Juventude Nacional Socialista Flamenga, a Juventude Nasjonal-Samlig norueguesa, o Movimento Juvenil Filandês, a Juventude do Estado Romeno, a Juventude Levente Húngara, as Juventudes Nacional-Socialistas holandesa e dinamarquesa, assim como representantes do Japão, da Bulgária e da França. A ordem de jovens fascistas do novo mundo parecia iminente. Entretanto, como Melita Maschamnn estava começando a descobrir por experiência própria em Warthegau, a prática cotidiana não alcançava o ideal do movimento. Primeiro, os burocratas haviam chegado e, com eles, a corrupção que ela temia. Os freqüen­ tes encontros com funcionários superiores afrontavam seu perfeccionismo: “Um dia, eu acreditava, estes chefes de terceira categoria desapareceriam e então seria a vez de uma geração que havia aprendido a praticar a autodisciplina voluntária, como os líderes jovens.” Ela também foi obrigada a reconhecer que nem todos os seus colegas alemães compartilhavam as suas fervorosas crenças. Maschmann estava pasma com a ati­ tude de suas tuteladas da classe operária: “Estas meninas ficavam furiosas por ser mandadas para longe de casa. Elas ganhavam um bom dinheiro na indústria de armamentos e agora deviam fazer um trabalho para o qual não tinham a mais leve inclinação, e por uns trocados parrudos - eu acredito - de trinta pfennigs CONQUISTADORES E SENHORES FEUDAIS

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por dia. Além disso, elas tinham de aceitar não poder nunca fazer o que quisessem depois do expediente de noite, e só raramente nos fins de semana.” Era um verdadeiro choque de classes: “Elas ficavam entediadas com todos os tipos de instrução. A maioria achava rídiculas as danças folclóricas e as canções que cantávamos com elas. O que elas queriam eram canções pop e danças ameri­ canas. Sua conversa girava em torno de sexo e, apesar da sua juventude, algumas delas já tinham considerável experiência nesta área.” Para Maschmann, era um verdadeiro fracasso. Conforme ela admitiu: “Fiquei ainda mais desanimada por­ que, quando me tornei pela primeira vez uma líder juvenil no movimento nacional-socialista, o companheirismo com a jovem classe operária era uma das coisas que eu romanticamente almejara.” Mesmo esta fervorosa discípula do nazismo não pôde deixar de notar os guetos judeus, mas ela fechou a mente com firmeza: “Se eu tivesse indagado mais, me envolveria inextricavelmente nos conflitos que teriam causado o total colapso do meu mundo’. Nitidamente nossas energias subconscientes - e posso falar aqui pelas minhas companheiras —estavam totalmente concentradas em nos proteger dessas crises. É a partir dessas experiências que se pode reconhecer o terrível poder que as chamadas ideologias podem exercer sobre os jovens. Uma vez cedendo a essas ideologias, eles veem sem ver e ouvem sem ouvir.” No fim de 1942, o Estado nazista alcançou seu zênite. A máquina militar havia cumprido quase todas as mais loucas promessas de Hider e, com Moscou à vista, parecia disposta a conquistar o prêmio máximo. Entretanto, apesar de todo o extraordinário sucesso do regime em subjugar um grande naco do territó­ rio europeu, incluindo a sua própria população, havia um vácuo em seu centro. Quando a maré da guerra começou a baixar para a Alemanha nazista, a invul­ nerabilidade sentida pela juventude germânica seria substituída por medo, raiva ou cego sacrifício até o fim.

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CAPÍTULO

23

Recrutas relutantes e heróis socialistas

A juventude britânica na guerra H»



Quando as crianças de hoje estiverem crescidas, vai ser hora de haver uma outra guerra. - "G a ra g e girl, 19 " de "U S 12", M ass-O bservation Weefc/y Report, 19 de abril de 1940

OPERÁRIA ROLANDO BOMBA, REINO UNIDO, INÍCIO DA DÉCADA DE 1940

Foi só depois da crise de Munique, em setembro de 1938, que a ameaça nazista ficou evidente e milhares afluíram para ingressar no Territorial Army. Em abril de 1939, o governo introduziu pela pri­ meira vez na história britânica o recrutamento em tempos de paz: isso se aplicava aos rapazes entre vinte e 21 anos de idade, que eram convocados por seis meses. Deflagrada a guerra, com 400 mil homens tanto nos exércitos regular como nos territoriais, todos os homens entre 18 e 41 anos de idade foram considerados ca­ pazes para o serviço militar. No fim do ano, mais de 1,5 milhão de homens estavam nas forças armadas, a vasta maioria no exército. Ao contrário de suas contrapartes germânicas, o seu estado de espírito não era excessivamente entusiasmado nem nacionalista ao ex­ tremo. Os jovens da Grã-Bretanha alistavam-se por vários motivos: noção de dever, compreensão de que os nazistas precisavam ser detidos e espírito de aventura. “Por mim”, escreveu um deles, Richard Hillary, “eu fiquei feliz por razões pura­ mente egoístas. A guerra solucionava todos os problemas relacionados com uma carreira e prometia uma chance de autorrealização que normalmente levaria anos para alcançar.” Um estudante de Oxford, de classe média alta, Hillary, 21 anos, experimentou a arrogância nazista numa viagem à Europa no verão de 1938. Participando de uma regata, sua tripulação “destreinada” e “bastante irremediavelmente casual” recebeu um sermão de um dos “gigantes que parecia um idiota” da equipe rival. “Ele havia nos observado, disse, e só podia concluir que nós éramos totalmente representativos de uma raça decadente. Nenhuma tripulação alemã sonharia em se apresentar tão indiferentemente remando na Inglaterra: eles treinariam e ven­ ceriam.” Hillary viu-se como parte de uma “Geração de Oxford” que tipificou como “egoísta e egocêntrica sem qualquer Santo Graal no qual pudéssemos nos perder. A guerra proporcionava isso, e de uma forma agradavelmente palatável. Ela não exigia atos heroicos, mas nos dava a oportunidade de demonstrar em ação o nosso desprezo pela emoção e o patriotismo organizado, a oportunidade de provar a nós mesmos e ao mundo que o nosso verniz estéril não era tão profundo como o nosso desdém pela interferência, a oportunidade de provar que, embora pudés­ semos ser indisciplinados, estávamos à altura da juventude alimentada com os dogmas de Hider”. Em geral, os jovens da dasse alta e média alta estavam muito motivados. Não havia dúvidas de que a vasta maioria ia ingressar nas forças armadas. Como um diretor de uma escola primária escreveu durante o ano de 1942: “A guerra fez bem aos meninos. Acho que ela os fez enfrentar corajosamente os fetos e proble­ mas autênticos, enfatizou deveres em vez de privilégios e lhes deu uma visão mais

A GRÃ-BRETANHA MOBILIZOU-SE TARDE.

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ampla de suas próprias responsabilidades no futuro. Como um menino observou para mim semanas atrás, acabamos com isso de Segurança Antes de Tudo . Temos de viver perigosamente... e como sabemos disso!” Muitos dos pares de Hillary ainda estavam no sistema de educação em tempo integral aos vinte anos, quando muitos de seus contemporâneos menos privilegia­ dos já estavam trabalhando havia uns cinco anos. Boa parte desses recrutas sofria de “um tédio meio cínico, tão distante quanto possível do fervor de cruzado que a situação autoriza e requer. Eles não eram pacifistas, ou desleais, mas entediados’”. A “aquiescência a uma necessidade absurda e mal aceita” tinha suas raízes nas tristes condições dos anos de 1930 e nas promessas não cumpridas da Primeira Guerra Mundial. O profundo ceticismo dos recrutas da Grã-Bretanha revelou-se nos relatórios regulares sobre os jovens feitos pelo Mass-Observation durante a guerra. Incum­ bidos em 1940 pelo ministro das Informações de inspecionar o moral das tropas, os observadores do Mass-Observation realizavam pesquisa de opinião no front doméstico. Nesses questionários ou relatórios de campo, as classes sociais eram niveladas, no estilo Admirável mundo novo, de “A” a “E”. A amostragem maior vinha de ‘C” e “D ”, uma tendência que refletia tanto a disponibilidade dos en­ trevistados quanto as origens esquerdistas dos compiladores. A visita em novembro de 1939 a um posto de recrutamento no norte de Londres produziu uma variedade de respostas que iam desde “acabei de assinar a minha sentença de morte” a “gostaria de ter coragem para ser um opositor cons­ ciente”. Entretanto, muito poucos rapazes com idade para serem recrutados prefe­ riam a opção de opositor consciente: apesar da popularidade anterior à guerra da Peace Pledge Union, a iminente ameaça de invasão e o ressentimento contra Hider eram fortes o suficiente para superar a maior parte das apreensões. Relutando ou não, a juventude britânica submeteu-se ao uniforme: havia uma tarefa a cumprir. *** Durante o final da primavera de 1940, o jornalista americano William L. Shirer foi convidado pelos nazistas a testemunhar a blitzkrieg na Bélgica. Encontrando um grupo de prisioneiros britânicos perto de Maastricht, ele foi falar com eles. Ficou surpreso com suas tristes condições físicas: “Estavam com o peito encovado, magros e curvos. Cerca de um terço deles tinha problemas nos olhos e usava óculos. Típico, concluí, da juventude que a Inglaterra negligenciara de uma for­ ma tão criminosa nos 22 anos do pós-guerra, quando a Alemanha, apesar da sua derrota, da inflação e dos 6 milhões desempregados, estava criando os seus jovens ao ar livre e ao sol.” RECRUTAS RELUTANTES E HERÓIS SOCIALISTAS

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As observações de Shirer sustentavam a realidade de Wasted Lives de W. F. Lestrange. Em comparação com os alemães, que tinham vivido vários anos sob um regime militarista, os jovens recrutas britânicos tiveram apenas alguns meses para se prepararem para a guerra. Quando adolescentes, também tinham sofri­ do com a má nutrição e a falta de exercícios. Os alemães eram “bronzeados, bemfeitos fisicamente, aparentando uma saúde de leão, peitorais desenvolvidos e tudo. Era parte de uma luta desigual. Os jovens ingleses, eu sabia, tinham com­ batido com bravura digna de homens. Mas bravura não basta: não é suficiente nesta guerra da era da máquina”. Embora aparentemente neutro, Shirer estava totalmente desgostoso com o regime nazista depois de seis anos em Berlim. Ele estava encantado com os soldados britânicos: “Apesar das neuroses de guerra, apesar do negro futuro como prisioneiros, eles eram um grupo animado. Um sujeitinho de Liverpool sorria através das grossas lentes dos óculos: ‘Sabe, você é o primeiro americano que vejo em carne e osso. Lugar engraçado para encontrar alguém pela primeira vez, não é?’ Isto fez os outros observarem a mesma coisa, e demos boas gargalha­ das. Mas por dentro eu não me sentia tão bem.” Em meados dos anos 1930, W. F. Lestrange havia pedido uma revolução em atitudes públicas a fim de salvaguardar os adolescentes da Grã-Bretanha. A chocante descoberta de que um grande segmento de recrutas estava em más condições físicas e despreparado para competir com a raça alemã dominante acelerou esta transformação. Agora que os jovens eram necessários, as deficiên­ cias nas medidas do Estado tornaram-se logo evidentes. Atentos ao problema da delinqüência juvenil de antes da guerra, especialistas em crianças, assistentes juvenis e cruzados de esquerda começaram a correlacionar uma grande quanti­ dade de dados que, nos meados do conflito, influenciariam a política de governo. Com prática em antropologia - quando viveu com “os últimos canibais do mundo” - Tom Harrisson, do Mass-Observation, estava numa boa posição para fazer isso. Em 1940, ele fez uma comparação desfavorável entre o modo como os canibais e os cockneys, os londrinos, educavam seus adolescentes: “Depois dos 14 anos, idade em que três quartos da nossa população deixam as escolas, os jovens ficam em grande parte por conta própria. Este período é crítico, visto que inclui mudanças da infância para a idade adulta. O canibal sabe disto e toma o maior cuidado com seus filhos nesses anos. Nós não.” A guerra precipita grandes mudanças sociais e, junto com o renovado foco voltado para os até então esquecidos jovens da Grã-Bretanha, veio o des­ mantelamento parcial de uma hierarquia social anacrônica. Muito da truculência demonstrada pelos adolescentes da Grã-Bretanha no início da guerra devia-se ao ressentimento de classe: o sentimento de “eles” e “nós”. Harrisson sentiu que as forças armadas teriam “combatentes melhores e mais afiados se não fizessem os 374 | 1939-1943

rapazes se sentirem como cifras aguardando a sua vez de entrar na máquina de tabulação”. Um questionário de 1940 ressaltava “O problema do grupo etário entre 18 e vinte anos”, definido como aqueles rapazes que se encontravam num “curioso beco sem saída”, entre o mundo do trabalho e as forças armadas. Eram dez perguntas, variando de “Quais são os seus planos para os próximos 12 meses?” até “O que você acha do atual governo?” e “A guerra afetou a sua vida sexual?” As respostas não foram encorajadoras. Um entrevistado do sexo masculino da classe C, de vinte anos, quando perguntado sobre suas expectativas após a guerra, respondeu que “iria para a sarjeta junto com os outros companheiros”. Um funcionário de escritório de 18 anos retrucou: “De que adianta fazer planos? Tudo que você tem pela frente é o exército, a marinha e a força aérea.” Interrogado se estava economizando durante a guerra, outro “M18C” simples­ mente afirmou que não via necessidade: “Se você estiver vivo quando a guerra acabar, o governo vai pegar toda sua grana.” Um “M20C” foi particularmente lapidar. Ele achava que a guerra ia parar “no momento em que ela me matasse”. E, em resposta à pergunta “A guerra afetou sua vida sexual?”, a sua resposta foi diretíssima: “Trepo com uma mulher diferente por noite, em vez de uma dife­ rente por mês.” Os compiladores detectaram “uma diminuição da autodisciplina” entre os jovens entrevistados e concluiu que havia uma “impressão profundamente enraizada entre os homens mais jovens de que os soldados não voltam jamais”. As lições da Primeira Guerra Mundial haviam se tornado parte da mitologia popular; conforme observou Harrisson em 1940: “Existe sempre a possibilidade de que, depois da guerra, a juventude culpe os velhos por tudo isso. Já existem sinais de um crescente antagonismo deste tipo. E valerá a pena os velhos pensa­ rem nos jovens.” No fim dos anos 1930, a vida na Grã-Bretanha foi quase sempre sombria para os jovens sem meios. A pobreza, a falta de mobilidade, os empregos sem perspectiva, os baixos salários delineados por Lestrange não tinham mudado muito para um percentual significativo da população. Havia muito poucas or­ ganizações e serviços para os jovens fora do comércio: como notou Harrisson, “cerca de dois terços de nossos jovens não têm fortes vínculos ou interesses cul­ turais, e nenhum contato com clubes ou organizações, exceto Football Pools”. A juventude estivera “em grande parte largada por sua própria conta”. A pouca diversão existente vinha principalmente da cultura popular britânica e americana. Sem a possibilidade de experiência direta, entretanto, os filmes, as revistas e a músicas americanos tinham a característica de um sonho inatingível nos primeiros anos da guerra. Por exemplo, embora dançar ainda fosse a principal RECRUTAS RELUTANTES E HERÓIS SOCIALISTAS

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atividade de lazer, osjitterbugs eram pouco numerosos.1 Em vez disso, os salões de baile estavam cheios como nunca de jovens dançando foxtrote e “danças de festas” britânicas, como a conga e a Lambeth Walk. Os adolescentes britânicos não estavam sendo cuidados, mas estavam sendo convocados para apoiar a guerra, “até morrer”. A jovem operária Pearl Jephcott observou que a “Grã-Bretanha tem mais de 2 milhões de meninos e meninas trabalhadores com menos de 18 anos, uma parte suficientemente grande da po­ pulação para ser muito valiosa do ponto de vista do potencial humano”. Ela achava “necessário que esses meninos e meninas percebessem, logo, por meio de conversas, educação formal, jornais e revistas escritos especialmente para os jovens, que do jeito que a guerra vai ela terá um efeito direto e veloz sobre suas vidas”. Entretanto, haveria um preço a pagar por esse apoio. O envolvimento dos adolescentes na guerra era parte de um acordo que prometia maior inclusão so­ cial para os jovens britânicos depois da tarefa cumprida. A Segunda Guerra Mun­ dial na Grã-Bretanha seria combatida como uma guerra de democracia social contra o fascismo, de emancipação em vez de escravidão. Os jovens tinham sido pouco valorizados, mas medidas seriam tomadas para corrigir a situação. Confor­ me concluiu Jephcott, “podemos tornar nossos jovens conscientes, e não apenas impacientes com a guerra, se nós lhes mostrarmos que sua juventude não os im­ pede de ser uma parte genuinamente importante do Estado”. *** As primeiras salvas na luta pela social-democracia ocorreram durante a evacuação de setembro de 1939. Temendo a total destruição de todas as principais cidades pelos aviões alemães, o governo colocou em prática um esquema há muito plane­ jado, que retirava 1,5 milhão de mulheres, crianças e adolescentes em idade es­ colar das cidades para subúrbios da periferia, burgos e áreas rurais bem no interior. Junto com os outros 2 milhões que deram o seu próprio jeito, aquele mês viu 3,5 milhões de pessoas migrando dentro das Ilhas Britânicas, o maior movimento de massa já visto. Entretanto, apesar da alacridade com que o plano foi executado, vários equí­ vocos básicos ficaram logo evidentes. O primeiro aconteceu nas áreas de recepção onde os funcionários que encaminhavam para os alojamentos e pais hospedeiros selecionavam os jovens com quem iam ficar. Uma professora de jardim da infância de 21 anos descreveu o processo como “mais parecido com um mercado de gado ou de escravos do que qualquer outra coisa”. As futuras mães adotivas “sim­ 1 Um concurso de jitterbu g em maio de 1942, no Streatham Locarno, atraiu menos de um quarto dos partici­ pantes esperados.

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plesmente nos invadiam e andavam pelo campo escolhendo quem elas consideravam os espécimes mais apresentáveis”. No caos resultante “levava ho­ ras para distribuir todas as crianças”. Estas cenas repetiram-se por todo o país. Parte do problema foi que a primeira evacuação ocorreu bem no fim das férias de verão, antes que os alunos pudessem passar pelos desfiles regulares e a eliminação de piolhos no início do período. Nas regiões montanhosas da Escócia, hospedeiros prósperos “ficaram furiosos” ao verem o estado imundo de crianças e adolescentes que chegavam das áreas mise­ ráveis de Edimburgo: “Eles se esqueciam de que outras pessoas teriam que acei­ tar o que eles recusavam: as crianças não deixavam de existir porque eram inde­ sejáveis.” Havia uma enorme linha divisória entre cidade e campo. Uma dona de hos­ pedaria de Blackpool queixou-se a respeito dos seus protegidos miseráveis: “Se você lhes disser duas palavras, eles se viram e xingam você. Eu já vi muitos cães mais bem-educados.” Uma menina de 17 anos transferida do norte de Londres escreveu que “o principal problema entre os evacuados e os anfitriões parece ser a dificuldade em se adaptarem mutuamente. Alguns hospedeiros tratavam os evacuados como hóspedes ou como se fossem seus próprios filhos, mas a maio­ ria tratava as meninas como criadas que trabalhavam de graça”. As classes encaravam-se e não gostavam do que viam. Embora, como a filha de 18 anos de um médico observou, os diferentes estratos da população estavam agora “conscientes da existência uns dos outros”, a política de evacuação não foi um sucesso: quando, durante o período conhecido como a “Guerra Falsa”, a des­ truição esperada que vinha dos céus não se materializou, um milhão de evacuados retornaram para as cidades. Quando a Grã-Bretanha foi finalmente bombardea­ da no fim do verão de 1940, muitos pais recusaram-se a sair de novo e foram apanhados com seus filhos na devastação. Nos primeiros anos da guerra, Londres foi fortemente alvejada pelos bombar­ deiros alemães: entre setembro e novembro de 1940, a capital foi visitada todas as noites. Em maio de 1941, cerca de 2 milhões de londrinos - um sexto da po­ pulação total - estavam desabrigados. Ninguém ficou imune a essa destruição em massa, mas a juventude urbana foi particularmente vulnerável aos seus efeitos psicológicos. Relatórios dos bairros pobres de Londres no inverno de 1940 des­ crevem uma epidemia de saques, acompanhados por pequenos atos de vandalis­ mo e “barulheira” generalizada. Uma pesquisa do Mass-Observation sobre as condições em Paddington e Bermondsey observou que “o problema dos jovens saiu dos clubes para as ruas es­ curas”. Desde que os ataques relâmpagos, as blitz, começaram, não havia “pratica­ mente vida doméstica para os jovens”, que se agrupavam em gangues turbulentas. RECRUTAS RELUTANTES E HERÓIS SOCIALISTAS

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Estes eram o “tipo selvagem de jovens sempre correndo ao léu de abrigo em abrigo, com oportunidades para estabelecer relacionamentos promíscuos, jogar e beber, muitos dos quais eram presos”. Outro observador no East End registrou “um relaxamento geral da noção de moral entre os jovens devido à completa devastação da vida”. A delinqüência juvenil da Primeira Guerra Mundial havia retornado, mas desta vez as autoridades estavam prontas para descrever, explicar e curar estes sintomas urbanos. Uma causa imediata do problema era o fato de que muitas escolas estavam fechadas, avariadas ou requisitadas, até uma em cada cinco em alguns distritos de Londres. Clubes, escolas noturnas e outras jurisdições juvenis também estavam fechados. Quase não havia amenidades para aqueles entre a idade escolar e a de serviço militar, exceto os abrigos públicos. Estes eram despre­ zados pelos adolescentes porque estavam cheios de gente velha. Entre 1939 e 1941, houve um aumento de 33% na delinqüência entre aqueles com menos de 17 anos: a maioria danos com intenção criminosa, com cerca de 20% de condenações por pequenos roubos. Analistas contemporâneos suspeitavam que, porque fora previsto, o problema estava sendo levemente exa­ gerado: sugeriu-se “que ‘travessuras’, e não ofensas sérias, responderiam por uma grande parte do aumento”. Mas as pesquisas detectaram a quase total falta de acomodações para adolescentes: “O jovem está ‘em lugar algum’ em particular, o jovem não está fazendo ‘nada especial’.” No início da década de 1940, os adolescentes britânicos abaixo da idade militar dificilmente poderiam fazer qualquer coisa certa. Como na Primeira Guerra Mundial, qualquer sinal de visibilidade juvenil atraía comentários adver­ sos. Se eles não ajudassem no esforço de guerra eram amaldiçoados e criticados se ajudassem. Como um juiz de paz escreveu em 1941: “Desde o início da guer­ ra os altos salários pagos aos meninos por trabalho inadequado e não especiali­ zado têm conduzido ao jogo e depois à delinqüência. Os casos apresentados nos tribunais juvenis têm revelado que rapazes de 15 a 16 anos estão ganhando qua­ tro libras ou mais por semana.” Artigos sensacionalistas publicados pela imprensa associando altos salários com delinqüência juvenil afirmavam que jovens trabalhadores estavam ganhan­ do entre cinco e sete libras por semana. Mas revelou-se numa pesquisa feita no verão de 1941 que, de fato, adolescentes de até 21 anos de idade ganhavam em média umas duas libras por semana. As condições de trabalho também eram ruins: embora a legislação mais recente estipulasse um máximo de 48 horas se­ manais, muitos meninos e meninas estavam trabalhando mais de setenta horas em indústrias de risco. A “causa” entre altos salários e delinqüência era “muito difícil de estabelecer”. 378 | 1939-1943

Entretanto, ainda havia dinheiro suficiente para os adolescentes britânicos gastarem com eles mesmos. Tendo como alvo garotos entre 14 e vinte anos de idade, e meninas entre os 14 e 19, uma “Pesquisa Juvenil” realizada em Paddington e Bermondsey pelo Mass-Observation, em janeiro de 1941, constatou que metade dos jovens questionados gastava o seu tempo livre em interesses “sérios” como ler, costurar e trabalhar para a ARP (Air Raid Precautions). Outros estavam usando seu dinheiro suado com discos de música para dançar, entrete­ nimentos, livros, cigarros, filmes e roupas. O tom dos observadores indicava que isto era considerado bastante frívolo e egoísta. Os locais públicos estavam mais numerosos para satisfazer a este “grande aumento na proporção de gastos em lazer”. Os adolescentes preferiam lancho­ netes e salões de bilhar. Os observadores não encontraram danças públicas, mas uns poucos clubes de dança informais ainda estavam funcionando e festas parti­ culares eram freqüentes. Feiras de diversões também eram populares. Muitos ci­ nemas foram danificados pelas bombas, mas os filmes eram “muito bem susten­ tados pelos jovens, que vão principalmente com grupos do seu próprio sexo, não namorados e namoradas. As simples comédias e revelações despretensiosas são preferíveis ao amor”. As roupas também eram importantes, visto que “quase todos os jovens preo­ cupavam-se muito mais com a aparência pessoal do que os mais velhos” e “os homens de 17 e vinte anos eram muito conscientes a respeito de roupas”. Estes jovens vestiam cores predominantemente neutras - preto, azul, marrom e cinza —com uns poucos suéteres de gola alta. Os cabelos em geral emplastrados de bri­ lhantina. O Mass-Observation encontrou apenas um verdadeiro dândi de 17 anos, que foi visto vestindo paletó e calças de padrão zigue-zague com sapatos marrons. As moças eram muito mais elegantes. Uma “F18C” de Bermondsey vestia “um casaco preto de comprimento médio, sem gola. Um vestido simples preto, decorado com um broche de cromo no pescoço, e uma gola estampada. Sapatos de couro preto com saltos muito altos. Meias pretas. Uma grande bolsa preta lustrosa. Sem chapéu, cabelos castanhos avermelhados num corte curto à la pajem”. Uma menina de 17 anos vestia “um casaco preto simples com um traba­ lho de filigrana dourada nos ombros. Um vestido xadrez marrom por baixo. Um chapéu bandeau dourado sobre os cabelos louros. Botinhas de pele de salto alto”. O relatório notou que “a compra de cosméticos pelas meninas pode ser conside­ rada um interesse em si mesmo”. Como na América, as meninas estavam na dianteira dos gastos juvenis britâ­ nicos. Com quase todos os rapazes com mais de 18 anos nas forças armadas, as mulheres jovens começaram a ocupar postos nos escritórios e na indústria pesada a fim de preencher a baixa de efetivo. Sob os rigores da guerra, a Grã-Bretanha expandiu-se até a plena empregabilidade em 1943 - uma reserva de mão de RECRUTAS RELUTANTES E HERÓIS SOCIALISTAS

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obra de 22 milhões no total.2 A questão para as mulheres jovens, portanto, não era “quando vou conseguir um emprego?” mas “qual dos vários, muitos desagra­ dáveis e muito inadequados, empregos que existem eu vou aceitar?” Por mais blasécpiz as jovens mulheres interrogadas no fim de 1940 pudessem ter sido —“o clima era de tédio e leve rebeldia” -, a proliferação de novos empregos permitia a muitas escapar do serviço doméstico para trabalhar em lavanderias, escritórios e fábricas. Havia tantos postos disponíveis que até uma breve tempo­ rada de desemprego foi saudada como um “agradável interlúdio”. Mulheres mais jovens eram privilegiadas nesta bonança de empregos: meninas de 14 e 15 anos eram muito valorizadas nas fábricas por sua boa visão e atenção aos detalhes. Este foi o grupo estudado por Pearl Jephcott na sua pesquisa em 1941 sobre hábitos sociais de mulheres jovens, Girls Growing Up: “Meninos e meninas são preparados para gastar o tempo livre que tiverem de uma forma irresponsável e sem esforço, em grande parte porque o trabalho que precisam fazer está em mui­ tos casos bem abaixo da sua capacidade. Nada tem sido feito para coagi-los a usar plenamente os seus cérebros desde que saíram da escola. Muitos deles não fizeram nada além de trabalhos rotineiros como embalar doces, montar peças de baterias, costurar bolsos em calças, martelar pregos em caixotes, desde os 14 anos.” Girls Growing Up captou o emergente mercado de adolescentes britânicos. Uma “típica” menina de fábrica, com 16 anos, possuía “uma pasta para documen­ tos, um conjunto de pente e escova, um relógio (quebrado), sete livros infantis e algumas revistas, um par de tesouras, três caixas de pó de arroz e um de creme facial”. Cosméticos eram o item de consumo preferido, junto com “revistas de amor” como Oracle, Miracle, Girls Crystalz Glamour. O conteúdo básico deste e outros “temperamentos eróticos” era a fantasia do complexo de Cinderela padrão. Das 27 garotas da cidade pesquisadas no outono de 1941, poucas liam li­ vros ou freqüentavam aulas noturnas. De longe, a atividade mais popular era ir ao cinema. Cinejornais eram extremamente impopulares, enquanto filmes histó­ ricos eram os preferidos. A maioria das garotas expressara aprovação para astros adolescentes como Judy Garland e Mickey Rooney, “gente como nós”. Os únicos programas de rádio que escutavam eram os de variedades e shows de bandas de dança: dançar era considerado “extraordinariamente popular entre os adolescentes. Eles gastavam uma energia enorme nisto”. No segundo ano da guerra, a música do hotjazz estava crescendo em popu­ laridade porque, Jephcott pensava, “o ritmo quente e a música sincopada parece estar na mesma cadência do ruído e da velocidade da fábrica e era uma atração fácil para gente que vive numa barulheira contínua. A música das bandas de dança 2 De uma população total de 47 milhões de pessoas.

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é essencialmente a música de hoje, e os jovens estao preocupados com o hoje, não com o ontem ou com o amanhã”. Ela observou que “a única ocasião em que um grupo muito barulhento de cinqüenta meninos e meninas podem se sentir dis­ postos a ficar quietos por uma hora será possivelmente para ouvir falar de jazz e swing”. Jephcott estava reagindo a um aumento de 100% na delinqüência juvenil feminina e de 70% nos índices de doenças venéreas entre 1939 e 1941. Alertadas por manchetes sensacionalistas como “Adeptos dos acampamentos; meninas de 16-18 à solta”, as autoridades lutavam para compreender como milhares de meni­ nas podiam ser julgadas como “moralmente em risco”. Segundo uma autoridade, este grave problema social era causado pela “maturidade precoce” e pelos “rit­ mos da jângal que os jovens escutam de manha até a hora de dormir, e os filmes piegas são em parte responsáveis por um aumento na delinqüência sexual entre os jovens”. As causas, entretanto, iam um pouco mais fundo: a ruptura causada pela evacuação, a falta de educação sexual adequada e a natureza afrodisíaca da própria guerra. Com a redução de restrições paternas e a atitude de “viver o dia de hoje” generalizada, provocada pela guerra, muitas mulheres jovens mergulhavam no sexo muito cedo. Meninas de 15 anos estavam “apressando-se em vez de amadu­ recer, e sofrem o efeito de uma guerra que erradicou uma grande quantidade de homens mais velhos de seus próprios ambientes e quase limitou os seus contatos com o sexo oposto aos encontros casuais no salão de danças”. Urgências básicas podem muito bem ter sido as responsáveis por esta onda de delinqüência percebida, mas, ao mesmo tempo, muitas mulheres jovens consi­ deravam que elas tinham um contrato. Tendo entrado prematuramente no mundo do trabalho, pensavam ter o direito de viver as suas próprias vidas. Presos na “última geração”, muitos pais confundiam este desejo com uma precocidade re­ belde. A maioria das meninas queria ser considerada mais velha, mas se fossem vistas como “uma parte genuinamente importante da sociedade” tão jovens ainda, então não podiam ser culpadas se confundissem a licença adulta com responsa­ bilidade adulta. . Estas tensões ressaltavam o status ambíguo dos adolescentes. A própria palavra “menina” pressuponha a retenção da infância que não era sustentada pela reali­ dade da vida durante a guerra. Uma “menina de 16 anos” queixou-se a Jephcott que ela tinha de “levar uma existência de Alice no País das Maravilhas, 25 centí­ metros de altura num instante e quase três metros no instante seguinte. ‘Você já é adulta aos 14 anos se quer comprar um bilhete de trem, aos 16 se quer en­ trar num filme A. Em casa você é uma criança se for conveniente para eles, mas no momento em que querem responsabilizar você por alguma coisa, dizem que você está crescida ”. RECRUTAS RELUTANTES E HERÓIS SOCIALISTAS

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As exigências da guerra, como tinha ocorrido vinte anos antes, inadvertida­ mente precipitaram a maior emancipação feminina. Ao contrário dos nazistas, que consideravam a maioria das mulheres como simples máquinas de fazer filhos, as autoridades britânicas buscavam atraí-las para o tipo de empregos que teriam sido impensáveis ou impossíveis na década de 1930. Em março de 1941, o mi­ nistro do Trabalho, Ernest Bevin, convocou “uma grande resposta de nossas mu­ lheres para dirigirem a máquina industrial. As mulheres deram uma tremenda contribuição para a vitória na última guerra e serão igualmente eficazes nesta luta”. Em 1943, mais ou menos 7 milhões de mulheres estavam trabalhando na produção de guerra essencial, até 40% em algumas indústrias, ou servindo nas forças armadas. Essa foi uma súbita mudança numa sociedade onde as meninas eram “ainda criaturas inferiores em muitos lares”. A reação das recém-liberadas também foi confusa. As horas de trabalho eram longas, turnos de até 12 horas; seis dias na semana e tarefas perigosas. Uma garota de 18 anos ganhava dez libras por semana, duas vezes a média nacional, montando detonadores de bala, mas “a cordite costumava escapar, escapar na sua cara. Formava uma brotoeja, impetigo, e explodia em grandes caroços”. Longe de casa, as jovens mulheres podiam se tornar emocionalmente vulnerá­ veis e oprimidas tanto pelo etos masculino da indústria pesada quanto pela mo­ notonia repetitiva das tarefas. Em contrapartida havia a sensação boa de dinheiro no bolso e de estar livre das responsabilidades e restrições familiares. Uma jovem operária na indústria aeronáutica lembrou-se do seu prazer em ter um quarto só seu num albergue especialmente construído para mulheres: “Havia um prédio principal na estrada onde aconteciam todas as atividades sociais. Parecia mesmo um paraíso, foi o início da diversão que tivemos durante a guerra.” *** Os problemas juvenis de 1939 e 1940 continuaram até o terceiro e o quarto ano da guerra. Um relatório do inverno de 1941-42 notou que muitas crianças “esta­ vam abatidas e agressivas. Temerosas quanto à desintegração de suas vidas nor­ mais, elas estavam se unindo em gangues, com um forte líder cuja moral pode ser duvidosa, mas cuja presença parece garantida. A delinqüência infantil está cres­ cendo. Foi exatamente neste terreno de medo e insegurança que Hider plantou as sementes do nazismo, uma filosofia para o povo assustado, pisoteado, negligen­ ciado”. Para impedir que isso acontecesse, esforços foram feitos para retificar toda a natureza e estrutura do serviço juvenil na Grã-Bretanha. Antes da guerra, apenas um terço dos que deixavam as escolas britânicas tinha entrado em contato com qualquer uma das organizações voluntárias. Apesar da criação, em 1939, do 382 | 1939-1943

National Youth Committee, com mais poderes do que seus antecessores, os Juvinle Organization Committees, a situação ainda era insatisfatória. Muitos pré­ dios públicos tinham sido destruídos, e qualquer trabalho bom era realizado aos poucos. Em outubro de 1940, o governo emitiu uma circular com relação a “Serviço e Recreação Física Juvenil”, dizendo que o serviço para os jovens era agora ser­ viço dos jovens, em outras palavras, “ajudar os jovens agora é recrutar a ajuda dos jovens”. Inculcando uma noção de responsabilidade e “vida em cooperação”, clubes e grupos de jovens eram vistos como a solução para a delinqüência juve­ nil durante a guerra, e o número de voluntários e de organizações cívicas juvenis começaram a se expandir durante os anos de 1941 e 1942. Os mais populares eram os Boy Scouts e as Girl Guides, com o seu leque com­ pleto de atividades ao ar livre. Seus programas eram feitos sob medida para as exi­ gências da guerra: a Guides, por exemplo, treinava para primeiros-socorros e lei­ tura de mapas. Unidades pré-militares compreendiam os Sea Cadets, a Army Cadet Corps, a Girls Training Corps, segmento júnior da RAF. Todos combinavam exercício, treinamento e aprendizado nas habilidades específicas exigidas por cada ramo das forças armadas. Os clubes para meninos e meninas dependiam muito da personalidade do organizador e de seus assistentes. Numa cidade típica do norte do país, havia um clube juvenil cívico em cada escola do conselho, oferecendo debates, pales­ tras, cursos de primeiros-socorros, dança, bicicleta, futebol e cantinas. Com uma média de 170 inscritos em seus quadros de associados, estas organizações não al­ cançavam a maioria dos jovens locais, mas eram muito populares. Um menino de 17 anos achava “divertido. Você faz um monte de amigos. Além do mais, eu já estava cheio de ficar sentado e escutar os velhos dirigindo a guerra”. Em dezembro de 1941, o governo ordenou o registro compulsório de todos os meninos e meninas entre 16 e 18 anos, sem nenhuma outra ação compulsória. Meses depois, houve uma “intenção positiva” de recrutar os jovens registrados num corpo pré-militar. Mas surgiram dificuldades. Organismos voluntários “opunhamse violentamente ao ‘Estado’ assumindo a supervisão dos jovens nos seus momen­ tos de lazer”. Os adultos também expressaram desprazer com esta arregimentação de estilo nazista: “Coisa de Gauleiter, eu chamo isso.” O esquema foi tranquila­ mente abandonado. O envolvimento do governo não seria colocado em xeque, entretanto. Em 1941, quase todos os aspectos concebíveis da vida britânica eram centralmente regulados, desde alimentos, mídia, empregos, salários, serviço militar, habitação, transporte, até o símbolo CC41 na marca de roupas e móveis da Utility fornecidos pelo governo. Este era um reconhecimento prático de que alguma forma de pla­ nejamento global era necessária para maximizar a força de trabalho e de combate RECRUTAS RELUTANTES E HERÓIS SOCIALISTAS

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numa guerra maciça. Entretanto, havia outro aspecto nessa organização sem precedentes: a tendência para o socialismo. As lições da Depressão haviam retornado para assombrar o governo. Tendo sido julgada vital para o esforço de guerra, a massa da população decidiu lá pelo terceiro ano do conflito que o envolvimento era um processo de mão dupla. O futuro do povo foi proposto em panfletos sobre condições sociais, grupos de discussão militar e em especiais no Picture Post como o Plan for Britain , em ja­ neiro de 1941, onde as áreas pobres da década de 1930 eram pitorescamente contrastadas com imagens idealizadas de um futuro socialista, com os slogans “Trabalho para Todos”, “Saúde para Todos” e “Educação para Todos”: “A nova Grã-Bretanha é o país pelo qual lutamos.”3 Até os meninos das escolas públicas não estavam imunes a esse vírus. Um grupo de garotos de 14 a 16 anos escreveu que “escolas como Eton e Harrow de­ veriam ser abolidas, visto darem origem ao esnobismo”. As suas sugestões práti­ cas para o futuro pós-guerra incluíam a eliminação das áreas pobres e melhores condições de vida para as classes mais humildes. Como um jovem ensaísta con­ cluiu: “Operários deveriam poder ingressar no governo, se estão preparados para o posto, porque a maioria dos membros atuais ou são velhos demais para poder sair de casa sem uma enfermeira ou não têm juízo suficiente para criar cabras.” Um dos mais apaixonados apelos por uma nova ordem veio do jovem de 23 anos que emergiu como herdeiro do manto de Rupert Brooke. Richard Hillary era um membro da elite que havia se alistado nos primeiros estágios da guerra e fora marcado pela morte. Como um piloto da Batalha da Inglaterra, ele se unira àqueles homens descritos por Winston Churchill como os novos Cavaleiros da Távola Redonda. Em comparação com outros teatros, o combate aéreo era justo, homem a homem, e, naquele estágio inicial, a cavalaria pertencia a uma era do passado. Publicadas em 1942, as memórias de Hillary sobre a experiência sensi­ bilizaram o povo. Os pilotos de combate eram jovens - ninguém com mais de 26 anos podia liderar um esquadrão - e motivadíssimos. Embora excelentes guerreiros, eles refreavam sua arrogância por meio de uma poderosa cultura de pares que contava com o “humor negro e um espírito esportivo de equipe”. Com a morte provável a qualquer momento, a impassibilidade não era um sinal de paralisia emocional, mas uma estratégia vital para a sobrevivência. A alegria juvenil não podia, entre­

3 Isto tomou uma forma concreta com a publicação, em dezembro de 1942, do Beveridge Report, que oferecia modelos práticos para as antigas utopias esquerdistas de benefícios infantis, tratamento médico gratuito para todos e empregos. Estimulando um apaixonado debate, ele foi recebido favoravelmente por cerca de dois terços da população.

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tanto, ficar abafada por muito tempo. Como um piloto lembrou, “era só cerveja, mulheres e Spitfires e um bando de pequenos John Waynes correndo de um lado para o outro. Quando você tem 19 anos, não pode ficar aborrecido”. Hillary era diferente dos seus camaradas e torturado por esta diferença. Quan­ do o sucesso da Batalha da Inglaterra fez dos pilotos de combate da RAF heróis nacionais,4 ele tentou recusar o papel. Explicando a gênese das suas memórias, ele escreveu: “Fiquei tão enjoado com as histórias sobre a nossa Island Fortress e os Knights of the Air que resolvi escrever na esperança de que a última geração pudesse perceber que, embora idiotas, nós não éramos tanto assim, que lembra­ ríamos muito bem que isto tinha sido visto na última guerra mas que, apesar disso e não por causa disso, ainda achávamos que ainda valia a pena lutar por esta agora.” The LastEnemy está expresso na forma de uma jornada espiritual: a capitula­ ção de uma juventude elitista à empatia humana por uma sociedade verdadeira­ mente de massa. Esta tensão permeia o livro, desde a egoísta excitação de Hillary com a declaração de guerra até a percepção de que ele era igual a todos os outros. A ruptura com sua vida anterior ocorreu em setembro de 1940, quando foi aba­ tido e sofreu sérias queimaduras: “Você deveria ficar contente que isto tenha acon­ tecido com você”, sua mãe lhe disse. “Muita gente lhe disse que você era atraente e você acreditou nisso. Você estava caminhando para se tornar um cafajeste.” Tendo recebido este golpe destruidor, Hillary ainda não conseguia esquecerse de si mesmo. Entretanto, preso com os mortos da classe operária numa casa pública bombardeada, ele finalmente percebeu que “era impossível olhar só para si mesmo, tomar da vida e não dar, exceto por acidente, olhando para a humanida­ de e passar para o outro lado deliberadamente”. Sua solução foi escrever The Last Enemy como um hino à mistura de classes, aos pilotos tecnocráticos da RAF que tinham sido seus camaradas e à “Humanidade” que antes ele havia desprezado e ridicularizado. Só então ele teria justificado seu “direito à camaradagem com os meus mortos”. Publicado em junho de 1942, The Last Enemy tornou-se de imediato um clássico. A conversão socialista de Hillary permitiu aos leitores interpretar o ab­ surdo da guerra de um modo que confirmava a inexorável tendência esquerdista da sociedade britânica. Provando a sinceridade desta transformação, ele em seguida tentou apagar seu privilégio como um veterano da Batalha da Inglaterra e autor de sucesso. Inspirado por The M int, de Wilfred Owen e T. E. Lawrence - no qual a lenda da Primeira Guerra Mundial descrevia seu retorno anônimo para a

4 Conforme exemplificado no discurso de Churchill no dia 20 de agosto de 1940: “Nunca na área dos conflitos humanos, tantos deveram tanto a tão poucos.”

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RAF Hillary retornou prematuramente para o serviço ativo e foi fatalmente derrubado em janeiro de 1943. Como Rupert Brooke, Hillary foi um menino dourado que morreu com vinte e poucos anos, exatamente no ponto em que o adolescente transforma-se gradualmente em adulto. Como esse ícone da Primeira Guerra Mundial, ele es­ creveu sobre a brutalidade da guerra de um modo que tornou sua vida mítica e ajudou a definir atitudes contemporâneas com relação a esse conflito. Hillary satisfazia todas as qualificações possíveis de um herói do sistema, mas a sociedade britânica havia mudado em 28 anos. Em vez de ser a vítima sacrificada de uma oligarquia remota e estática, ele era democraticamente igualitário - um arauto da era pós-guerra que estava por vir.

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CAPÍTULO

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Subdebs e GIs Adolescentes americanos na escola e de uniforme *** Naquela noite, deitada na cama, não pude deixar de desejar que não fosse tão triste crescer. Estava tudo tão confuso na minha mente. - Maureen Daly, Seventeenth Summer (1942)

ESTUDANTES SECU NDARISTAS, N O TULARE M IG R A N T CAM PS, VISALIA, C A LIFÓ RN IA , 1940, FO TO G RAFIA DE ARTHUR ROTHSTEIN

na Europa, muitos adolescentes americanos não queriam se envolver. Como um editor do jornal de uma escola secundária escre­ veu: “Guerra!! - Seis letrinhas, o símbolo do que poderá ser a destruição da civi­ lização... nós não queremos guerra.” “A juventude deveria invadir os portões do paraíso, viver e criar”, escreveu outro. “Nenhuma obra-prima da pintura, da mú­ sica ou da literatura jamais foi criada por um jovem morrendo de fome numa trincheira lamacenta. Nenhuma liberdade, paz ou felicidade jamais teve origem na guerra.” A Europa parecia muito distante. Influenciados pela propaganda de paz dos anos 1930 e lutando contra os persistentes efeitos da Depressão, muitos jovens americanos apoiavam a não intervenção. Alguns festejavam com a neutralidade do seu país, como o estudante secundário que, “enxergando evidências da guerra no exterior”, achava que “a América está mais do que nunca exultante com o seu quinhão na vida”. Outros pensavam que a “prosperidade e os padrões de vida, econômicos e sociais, do país” estavam sendo “ameaçados pela presença da guerra na Europa”. Mas a batalha por corações e mentes estava ativa, com algumas autoridades buscando atribuir o pacifismo dos jovens à agitação e subversão. Em outubro de 1940, a Readers Digest ofereceu um guia para atividades traiçoeiras numa matéria chamada “Sim, nós temos uma quinta-coluna”, que listava seis abordagens dis­ tintas usadas pelos isolacionistas: “niilismo”, “terror”, “você não pode vencer”, “neopacifista”, “separatista” e “propaganda de pacificação”. O leitor era encorajado a relatar qualquer comportamento suspeito “à agência mais próxima da FBI”. Apesar da vivida exposição promovida por John Roy Carlson dos muitos gru­ pos dos bundes e KK trabalhando dentro dos Estados Unidos em 1939 e 1940, a ideologia nazista permanecia etnicamente confinada aos americanos de origem alemã e apenas alcançava uma proporção mínima de adolescentes americanos. No verso da moeda, o American Youth Congress pró-comunista teve seu coração dilacerado pelo pacto nazi-soviético de 1939. Uma vez que a guerra parecia ser inevitável, o Congresso passou de sua posição antimilitarista para a agitação a favor dos direitos dos adolescentes na sociedade americana. Entretanto, o conflito europeu não podia ser ignorado. Prevendo o envolvi­ mento americano, a Selective Service Bill foi assinada no Congresso em setembro de 1940: ela permitia que um pouco menos de um milhão de rapazes de 21 a 35 anos servissem nas forças armadas por um ano. Isto se chamou, pela primeira vez, “recrutamento”. O primeiro registro em nível nacional foi feito durante o mês de outubro de 1940, e apenas um punhado recusou. Ao mesmo tempo, o processo de rearmamento começava: isto incentivaria a economia e finalmente tiraria a América da Depressão. Q U A N D O A GUERRA ESTOUROU

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O outono de 1940 também marcou o momento decisivo na visão da guerra da América jovem. Reportagens, a introdução do serviço seletivo, contatos indivi­ duais com europeus e o simples impulso incontrolável da blitzkrieg, a guerra re­ lâmpago, mudaram o estado de espírito não intervencionista. A América de repente parecia sob ameaça e, portanto, mais preciosa: como um estudante secundário escreveu depois da queda da França: “Hoje, a palavra ‘democrático’ está na boca de todo mundo e nos pensamentos de todos - de repente ela passou a ser muito importante durante este período de guerra.” Em outubro de 1940, dr. George Gallup publicou uma pesquisa de opinião pública chamada American Youth Speaks Up. Sua tarefa era impressionar os ansio­ sos adultos americanos para que “tranqüilizassem suas mentes a respeito da geração mais jovem”. Ele pesquisou um grupo destinado a representar “um perfil preciso dos 21 milhões de americanos entre 16 e 24 anos”. Um amplo leque de localidades e classes foi usado como amostra: jovens universitários, operários de fábricas e fun­ cionários de escritórios, os desempregados e os “substitutos”. Foi também a “pri­ meira pesquisa Gallup a incluir indivíduos abaixo da idade de votar”. Ao grupo de amostragem foram feitas dez perguntas, todas “cuidadosamente estruturadas para despertar a atitude dos jovens com relação à vida e às nossas ins­ tituições democráticas e revelar suas opiniões sobre políticas estrangeiras e domés­ ticas vitais para a América”. Os resultados foram animadores, como era de esperar: 87% apoiavam o estilo de vida americano, acreditando que tinham tão boas chances na vida quanto as que seus pais tiveram, se não melhores. Eles estavam também imunes à política popularizada: “Stálin, Hitler e Mussolini são todos a mesma coisa.” O principal propósito da pesquisa era determinar a atitude dos jovens com relação à guerra. Cinqüenta por cento achavam que os Estados Unidos deveriam combater a Alemanha se a Inglaterra fosse derrotada. Interrogados se “todos os rapazes de vinte anos em boas condições físicas deveriam ser obrigados a servir o exército, marinha ou aeronáutica durante um ano, 68% dos meninos e meninas concordaram. Mais de 75% dos rapazes da amostragem negaram que fariam objeções a passar um ano no serviço militar sob recrutamento seletivo. “Se existe a possibilidade de eu ser convocado para lutar, eu prefiro saber como” era a res­ posta típica. Divulgada quase exatamente no meio do caminho entre a deflagração da guerra na Europa e Pearl Harbour, a pesquisa Gallup revelou uma geração reconciliandose com o serviço militar. Além do seu desejo de manter a América fora da guerra, muitos dos jovens pesquisados mantinham-se firmes nos princípios do New Deal. Quando interrogados sobre o que fariam se fossem presidentes, os jovens entre­ vistados afirmavam que iriam, inter alia, “reduzir o desemprego; reforçar as SUBDEBS E Gls

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finanças do governo; ajudar os pobres; impedir a tendência para princípios an­ tidemocráticos.” Era a democracia o que a América devia lutar para defender e, como uma ideia governante, ela seria colocada sob cuidadoso escrutínio por uma grande parte da população do país nos próximos anos. Muito deste debate seria crítico. Conforme a American Youth Commission afirmou no verão de 1940: “Devemos enfrentar as realidades da nossa situação, mas devemos enfrentar todas as realidades, inclu­ sive a questão muito premente de a democracia estar disposta a ser sincera quanto aos seus próprios propósitos a ponto de realizar aquilo que ela representa.” “A esperança e a fé de nossos jovens estão em perigo”, ela concluía, “exatamen­ te no momento em que a nação mais precisa dessa esperança e dessa fé. É, por­ tanto, a considerada opinião desta comissão que, se como um povo vamos adotar uma medida que trate do serviço e treinamento militar compulsório, devemos ao mesmo tempo dar um fim a todo tratamento parcial e hesitante das necessida­ des imediatas dos jovens dentro da população civil.” Os termos do acordo foram definidos: recrutamento em troca de respeito, atenção e, o mais importante, re­ conhecimento como adultos. *** Em 1940, houve inúmeros recordes de jovens nas escolas secundárias americanas: cerca de 75% de todo o grupo de quase 10 milhões de jovens de 14 a 17 anos. Isto era o dobro dos estudantes em 1930. Ir para a escola tinha se tornado a nor­ ma, e não a exceção. Conforme profetizado por Jean-Jacques Rousseau e G. Stanley Hall, a adolescência tinha chegado como um estágio distinto da vida. Embora ainda dependendo economicamente dos pais, os adolescentes em idade escolar co­ meçaram a criar uma nova classe juvenil que seguia o exemplo, não dos adultos, mas dos seus pares. Os produtos da explosão de bebês dos meados até o fim da década de 1930 estavam chegando à adolescência. Enquanto 4 milhões de seus correspondentes ainda estavam desempregados e procurando trabalho, os jovens americanos de 14 a 17 anos estavam ficando mais tempo na escola para evitar a feroz compe­ tição por empregos. Com o desemprego em mente, as políticas e os programas federais tinham durante muitos anos incentivado a política de manter adolescentes mais velhos no sistema de educação em tempo integral. Ao mesmo tempo, a emergente cultura comercial juvenil - alimentada pelo sucesso do swing - dava aos jovens americanos uma sensação de serem especiais. O sistema americano de educação moldou essa classe juvenil. O antropólogo britânico Geoffrey Gorer escreveu em 1940 que a escola secundária era, “em pri­ meiro lugar, um mecanismo social e extremamente bem-sucedido para marcar o 390 | 1939-1943

caráter americano nas crianças, quaisquer que fossem suas origens e seus ambien­ tes”. A combinação de organização por grupo etário e mistura social, temperada com a insistência do país em lutar pelo sucesso, significava que “por adolescência a maioria dos americanos tem confundido inextricavelmente as duas ideias: ter sucesso é ser amado, ser amado é ser bem-sucedido”. Esta cultura adolescente conformista estava centrada em torno de grupos res­ tritos. Enquanto pesquisava o comportamento social dos adolescentes numa “co­ munidade do Cinturão de Milho no Meio-Oeste” durante 1940 e 1941, August Hollingshead descobriu que estes grupos eram “voluntários e informais: os mem­ bros são admitidos gradualmente a um grupo fechado preexistente e recusados pelo mútuo consentimento dos residentes. Embora não existam regras explícitas para ingressar como membro, o grupo fechado tem um conjunto de valores mais ou menos comuns que determina quem será admitido, o que fazer e como cen­ surar o membro que não obedecer às suas regras”. Com os estudantes na escola por no mínimo sete horas diárias durante dois terços do ano, esses grupos fechados assumiam uma importância enorme na vida adolescente, tanto que suas fidelidades ao grupo em geral triunfavam nos “confli­ tos entre o grupo e a família, entre o grupo e a escola, ou entre o grupo e o bair­ ro”. Era um mundo de pares fechado em si mesmo que tinha o poder de fazer ou derrubar reputações e de governar quase todos os aspectos da vida adolescente: amigos, gíria, roupas, atividades de lazer. A grande maioria dos jovens de Elmtown aderia. Uma menina de Elmtown pertencente à classe média alta chamada Joyce Jenson contou a Hollingshead sobre sua melhor amiga: “Ela me influencia quase tanto quanto meus pais. Eu escuto o que eles dizem, especialmente na escolha de amigos, mas não concordo com tudo que falam. Eles já brigaram muito comigo por causa de algumas garotas com quem eu queria andar.” Entretanto, ela reco­ nheceu que, “quando meus pais insistem, eu os ouço. Sei que eles me dão bons conselhos, mas às vezes eles não compreendem o que a garotada quer fàzer, e pen­ sam que devemos agir como eles agiram vinte anos atrás”. Os estilos dessas panelinhas eram irradiados de volta para a escola por uma mídia já alertada para o poder de consumo dessa classe emergente. Em janeiro de 1941, a revista Life - uma das publicações baseadas em fotos muito popular entre os adolescentes - publicou uma matéria com o título “Subdebs —Elas vi­ vem num mundo alegre de gangues, jogos, vadiagem, cinema, maltados e músi­ ca”. O ofegante exemplar trombeteava um novo tipo que “fala um jargão curioso... adora milk-shakes de chocolate... usa mocassins em todos os lugares... e dirige como morcegos fugindo do inferno”. O início dos anos 1940, como o pesquisador Richard Maring Ugland escreve, foi “uma época propícia para testar” a ideia de comércio especializado por idade SUBDEBS E Gls

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nos adolescentes. Os estudantes secundários ainda recebiam dinheiro dos pais, que, suplementado por empregos temporários prontamente disponíveis, os man­ dava para as lojas de departamentos em busca de roupas e cosméticos. Embora seu poder de compra náo fosse individualmente significativo, seus números, quando comparados com o grupo ligeiramente mais velho, desempregado, com idade para estar na faculdade, lhes dava uma nova importância econômica. Anun­ ciantes e produtores notaram. Em fevereiro daquele ano, a revista Parents iniciou a coluna “Truques para adolescentes”, que explorava o estilo subdeb de bijuterias. Como os editores escreveram: “A moda das colegiais tem uma linguagem própria. Uma linguagem que as mães acham difícil compreender. Seus hábitos podem parecer estranhos para você, mas são apenas as modas que passam periodicamente por todas as escolas de costa a costa. Sejam tolerantes com elas.” Mais tarde, em 1941, os editores de Parents lançaram uma publicação orien­ tada explicitamente para os jovens, CallingAll Girls. Com o subtítulo “a Revista moderna para meninas e subdebs”, era vendida a dez centavos de dólar e foi a primeira revista a usar a cultura do swing como o seu cartão-de-visitas. Shirley Temple e Judy Garland estavam no seu “conselho consultivo júnior”, enquanto Benny Goodman escrevia um artigo chamado “Música como você gosta”. Sua principal inovação era um relatório mensal sobre as tendências nas escolas. Ao mesmo tempo, os jornais começaram a publicar tirinhas cômicas voltadas para os jovens: Archie Andrews, ou a típica menina de meias soquete com problemas com os meninos, Teena. O lugar ideal para estes primeiros produtos do mercado adolescente era o subúrbio ou a cidade pequena. Os valores eram de classe média, refletindo a fantasia adulta do típico adolescente travesso, mas basicamente íntegro. Isto foi visto na série de filmes juvenis que começou depois de O amor encontra Andy Hardy e O mágico de Oz e no swing - ainda a música popular americana preferi­ da. Depois do verão de 1939, Glenn Miller substituiu Benny Goodman e Artie Shaw como o líder de banda. O Miller de óculos e aparência de homem maduro sintetizava o menino da cidade pequena do Meio-Oeste recuperado. Em vez de ser apresentadas à sociedade como debutantes, as subdebs iam à drugstore, a drogaria que vendia desde remédios até cosméticos e revistas. Em Seventeenth Summer, escrito em 1941, Maureen Daly descrevia a ansiedade da sua heroína Angie Morrow na sua primeira visita ao Petes: “Na nossa cidade esse é o teste crucial. Todo mundo está ali e todo mundo vê você. Eu conheço uma menina que certa vez foi ao Pete s com a prima e ninguém a tirou para dan­ çar nem lhe deu atenção, e assim ela partiu para a faculdade no outono e nunca tinha companhia para as danças no Natal ou na Páscoa. Se você não faz sucesso no Petes, não vai conseguir fazer nunca.” 392 | 1939-1943

“Certa vez, duas meninas entraram com o mesmo ar hesitante. Eram meninas pálidas, mais ou menos da minha idade, com os cabelos cuidadosamente arruma­ dos em ondas perfeitas e muito pouco batom. Uma delas usava sapatos de amar­ rar sem salto, oxfords - e todo mundo sabe que nenhuma estudante deve usar outra coisa se não sapatos de amarrar de duas cores, os saddle shoes, e mocassins colegiais! Todas as baias estavam ocupadas, mas elas caminharam pelo corredor entre elas, espiando por cima das divisórias, procurando um lugar para se senta­ rem. Ninguém disse alô ou se ofereceu para dar lugar, então as meninas deram meia-volta, falando entre si e dando risinhos, e saíram. Seus rostos tinham uma expressão dura, magoada.” Com o ostracismo social girando em torno de um estilo de sapato, a necessi­ dade de dinheiro para o adolescente era suprema. Hollingshead observou secamen­ te que “muito antes que um jovem de Elmtown seja capaz de ganhar dinheiro, ele sabe que precisa dele para coisas que sua cultura lhe diz que precisa ter se quiser ter sucesso. Esta era a contradição na nova cultura juvenil em todas as clas­ ses. Embora aparentemente democrático, o mundo da subdeb, pela sua própria etimologia, cultuava uma visão de classe média alta da juventude americana, com o seu conspícuo consumismo e esnobismos infinitesimais. E se você não pudesse aderir? Este foi um dos principais âmbitos da pesquisa de Hollingshead, mais tarde publicada com